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Resenha do livro Preconceito linguístico - O que é, como se faz.

Discentes: Dyeniffer Rodrigues e Leonardo Meireles.


BAGNO, Marcos. Preconceito lingüístico – o que é, como se faz. 15 ed. Loyola: São Paulo,
1999.

Marcos Bagno é graduado em Letras, com doutorado em Filologia e Língua Portuguesa pela
Universidade de São Paulo (USP) e mestrado em Letras pela Universidade Federal de
Pernambuco (UFPE). Atua na área da sociolinguística e literatura infanto-juvenil. Além disso ele
é autor de obras como "A língua de Eulália" "Nada na língua é por acaso" e "Marcéu".

O livro "Preconceito linguístico'', trata do estudo da língua nas suas diferentes variações e aponta
as diferenças entre a língua e a gramática normativa, levando em conta os preconceitos sociais
vinculados no preconceito linguístico, sofridos por diversas pessoas. No início da obra, o autor
alerta os leitores acerca do tom politizado usado no texto, justifica esse sob o pretexto de que não
se pode falar da língua sem tratar também, de política.

O autor com propriedade nos faz entender, muitas vezes com o auxílio da evolução da língua
portuguesa e a sua fusão com dialetos regionais, a importância de tratarmos o assunto com
responsabilidade e seriedade. Durante toda a obra, Bagno, tem a intenção de convencimento,
seus argumentos são coerentes e defendem bem seus estudos. Ele nos leva a questionar, quando
e como nos encaixamos como praticantes dos preconceitos e mitos abordados em sua obra, nos
leva a perceber o quão nós, como donos, falantes da língua, replicamos inconscientemente tais
barbáries ignorantes.

Dividida em quatro capítulos, a obra de Bagno aborda temas relacionados ao preconceito


linguístico e suas implicações sociais. É possível identificar em nosso cotidiano os preconceitos
pontuados no texto sugerindo uma reflexão sobre esse problema social.

Na primeira parte, denominada "A mitologia do preconceito linguístico", Bagno apresenta um


conjunto de oito partes, nas quais ele divide opiniões que colaboram para a disseminação do
preconceito linguístico. Durante a leitura o autor argumenta com base na ciência linguística,
provando como a maioria dos mitos, muitos deles perpetuados por gramáticos famosos, são
apenas falta de conhecimento sobre o que vem sendo estudado pela linguística desde o final do
século XIX e início do XX. Como exemplo, o mito n° três (pág. 33) que aborda o tema
"Português é muito difícil", afirmativa essa ultrapassada e errônea, segundo Bagno, qualquer
criança de três ou quatro anos de idade, já se faz um falante competente em sua língua materna,
sendo somente necessária a essa criança incentivo à leitura e a escrita, para que no futuro estes
sejam dominados em suas particularidades. Ainda afirma que a língua falada só se faz difícil aos
brasileiros por ainda terem as normas portuguesas como modelo de único correto.

Na segunda parte, Bagno retrata o ciclo vicioso formado por três elementos responsáveis pelo
preconceito linguístico: a gramática normativa-prescritiva, o ensino tradicional e os livros
didáticos. Esse ciclo inicia quando a escola usa a gramática tradicional como base para
desenvolver sua metodologia, criando a indústria dos livros didáticos, perpetuadores dessa
tradição. O autor trás a necessidade de uma gramática normativa brasileira feita com base nos
estudos sérios da língua usada pelas classes cultas e que serviria de base para professores e
estudantes. Eles poderiam então, intuitivamente, saber as diferenças entre as variantes e a melhor
forma de usar a língua e a escrita.

A terceira parte é reservada à desconstrução do preconceito linguístico. O primeiro passo reside


no reconhecimento da crise. Professores contemporâneos já reconhecem que gramática
tradicional já não serve como único instrumento de ensino, e que o ensino de língua portuguesa
encontra-se em um momento sensível, porque não há material didático que substitua ou
complemente essa gramática a fim de permitir o ensino da norma culta.

Bagno, relata que é necessário escrever uma gramática da norma culta brasileira em termos
simples (não simplistas), claros e precisos, com objetivo declaradamente didático-pedagógico,
que sirva de ferramenta útil e prática para professores, alunos e falantes em geral. Enquanto esta
não for criada, as pessoas precisam de uma mudança de atitude. Usuários comuns da língua
precisam rejeitar que a prescrição ilógica da gramática tradicional menospreze seu saber
linguístico, e professores precisam assumir uma postura reflexiva perante o ensino da língua,
pondo em dúvida, em investigação e levantamento de hipóteses todas as diferenças entre o que a
gramática prega, e a língua culta realmente usada no país.
Devemos nos questionar sobre o que é certo ou errado no que diz respeito à língua natural e nos
conscientizarmos de que fatores políticos, econômicos, culturais e sociais estão envolvidos e
restringem certos indivíduos ao uso da chamada norma culta, que é usada como padrão para a
escrita e a fala, mas que não deveria ser encarada dessa forma, para não excluirmos ninguém em
nossa sociedade.

Seu tom ao defender as ideias da obra é forte, ácido, chega a ser sarcástico. Nos passando a
sensação de quase revolta, coisa essa não difícil em um humano qualquer com empatia, tendo em
vista algumas situações de preconceito que ocorrem diariamente com as pessoas ao nosso redor,
nas redes sociais, na mídia e até com nós mesmos.

Na quarta parte ele pontua alguns casos específicos de preconceito, não mais em relação aos
falantes da língua, mas à própria linguística e aos linguistas. Um ponto que chama a atenção é a
contribuição da linguística, já firmada como ciência, para todas as áreas da educação, exceto a da
língua portuguesa, essa que continuou presa às práticas da gramática normativa tradicional. Com
as mudanças acentuadas pela qual a língua portuguesa tem passado recentemente, criou-se uma
distância ainda maior entre a gramática e a língua, e as pessoas erroneamente classificam isso
como uma crise. Bagno termina seu livro lançando a reflexão: “A quem interessa calar os
linguistas?”. É uma questão cuja resposta ele não fornece.

Preconceito linguístico é um livro incrível, de fácil leitura, intuitivo e necessário, principalmente


por estudantes de licenciatura, que tem em suas mãos a oportunidade de criar conscientização
acerca desse assunto. Bagno, durante a leitura nos apresenta dezenas de exemplos de como esse
preconceito é replicado na sociedade, desde situações cotidianas até em níveis acadêmicos.

Bagno nos leva a reflexão que existe homogeneidade na língua e todas as variações, de todas as
comunidades, delas devem ser respeitadas em suas essências e peculiaridades. Que não há uma
língua mais bonita, única ou "errada", pois, todas são autênticas e corretas, o que existem são
variações.