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DEMOCRACIA E A JUSTIÇA ELEITORAL

MÓDULO II – A DEMOCRACIA E A JUSTIÇA ELEITORAL

Conteúdo: Luiz Felipe de Casrilevitz Rebuelta Neves

Revisão: Fernando Maciel de Alencastro


Caroline Sant’ Ana

2.1 Justiça Eleitoral e seus Órgãos

Historicamente, a prática eleitoral revelou a necessidade de o processo eleitoral


ser guiado pelo Poder Judiciário, uma vez que seus membros não se encontram
diretamente ligados ao pleito, na busca por votos. Conforme ensina José Jairo Gomes1,
“Com efeito, a realidade sociopolítica de cada país impôs o desenvolvimento de
subsistemas jurisdicionais próprios, entre os quais figuram os de jurisdição ordinária,
especializada e constitucional”.
A Justiça Eleitoral, em nosso país, é uma jurisdição especializada, à exemplo da
Justiça do Trabalho e da Justiça Militar. Entretanto, diferentemente de qualquer outro
ramo do Poder Judiciário, não possui um quadro próprio de juízes. Ou seja: não existe
concurso específico para o cargo de juiz eleitoral. Ademais, a Justiça Eleitoral tem
natureza Federal, sendo mantida pela União2.
Para José Jairo Gomes3, a participação de juízes oriundos de diversos tribunais e
das justiças estaduais e federal configura-se como “uma importante manifestação do
princípio cooperativo no federalismo brasileiro, haja vista que outros órgãos
disponibilizam seus integrantes para assegurar o regular funcionamento da Justiça
Eleitoral”.

1
GOMES, José Jairo. Direito Eleitoral. 9. ed. São Paulo: Editora Atlas, 2013, p. 76.
2
Existe um embate entre juízes estaduais e federais sobre o exercício da competência eleitoral.
Atualmente, são os juízes estaduais que exercem a competência de juiz eleitoral. Tal fato se justifica pela
presença mais ramificada nos mais de 5.500 municípios brasileiros. Porém, a Justiça Federal vem
passando por um processo de interiorização, com a criação de varas federais em diversos municípios, o
que pode fortalecer o pleito dos juízes federais para assumirem a jurisdição eleitoral.
3
Ibidem, p. 77.
A Justiça Eleitoral é composta pelos seguintes órgãos4: (i) TSE; (ii) 27 TREs,
um em cada Unidade Federativa; (iii) Juízes Eleitorais; e (iv) Juntas Eleitorais.
O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é o órgão máximo da Justiça Eleitoral. Isso
não quer dizer que seja a última instância judicial, pois suas decisões são passíveis de
recurso ao Supremo Tribunal Federal (STF), quando contrariam a Constituição Federal.

2.1.1 Composição

A Constituição Federal trata do preenchimento dos cargos de Ministros do TSE


e dos juízes dos 27 Tribunais Regionais Eleitorais – TREs.

2.1.1.1 Composição do TSE


O TSE é composto por sete ministros titulares, sendo três oriundos do STF, dois
do STJ e dois advogados. Os membros do STF e do STJ serão escolhidos por seus
pares, mediante eleição com votação secreta. Já os advogados são nomeados pelo
presidente da República, dentre listas tríplices encaminhadas pelo Supremo Tribunal
Federal.
Os Ministros do Tribunal Superior Eleitoral, reunidos em Plenário, elegerão seu
Presidente e Vice-Presidente dentre os Ministros do Supremo Tribunal Federal, e o
Corregedor Eleitoral dentre os Ministros do Superior Tribunal de Justiça5.

2.1.1.2 Composição dos TREs


A Constituição Federal determina que haverá um Tribunal Regional Eleitoral na
Capital de cada Estado e no Distrito Federal. Sua composição dá-se mediante eleição,
pelo voto secreto: (i) de dois juízes dentre os desembargadores do Tribunal de Justiça e

4
Poderá acontecer de um leitor mais técnico questionar o ombudsman sobre um possível equívoco quanto
a utilização da expressão “membro do Poder Judiciário”. Realmente, a Constituição Federal, no art. 92,
trata os juízes como órgãos do Poder Judiciário e não como membros. Essa distinção se faz ainda mais
visível quando o texto constitucional expressamente trata das garantias e vedações aos “membros” do
Ministério Público (art. 128, §5º, I e II, da CF/1988). Entretanto, jornalisticamente é aceitável escrever
que um juiz é membro do Poder Judiciário. Ficaria estranho para o leitor que não possui um
conhecimento tão específico ler que o juiz é um órgão do Poder Judiciário, como por exemplo. “Ao juiz
cabe aplicar a lei”, disse o órgão do Judiciário titular da 10ª Zona Eleitoral. Portanto, não há qualquer erro
em utilizar, em texto jornalístico, a expressão “membro (ou integrante) do Poder Judiciário”.
5
Pela tradição, é eleito Presidente o Ministro do STF que compõe o TSE há mais tempo e que ainda não
exerceu a Presidência, sendo o seu subsequente eleito Vice-Presidente. E elege-se como corregedor-geral
da justiça eleitoral o ministro do STJ com mais tempo de exercício no TSE que ainda não ocupou tal
cargo. Porém, a regra constitucional permite que qualquer dos ministros do STF que integrem o TSE
possam ser eleitos presidente e vice e o mesmo ocorre com os ministros do STJ para assumir a
corregedoria.
dois juízes, dentre juízes de direito, escolhidos pelo Tribunal de Justiça; (ii) um juiz do
Tribunal Regional Federal com sede na Capital do Estado ou no Distrito Federal, ou,
não havendo, de juiz federal, escolhido, em qualquer caso, pelo Tribunal Regional
Federal respectivo; e (iii) por nomeação, pelo Presidente da República, de dois juízes
dentre seis advogados de notável saber jurídico e idoneidade moral, indicados pelo
Tribunal de Justiça e aprovados pelo Tribunal Superior Eleitoral.

Diante da necessidade de julgamentos céleres e sem interrupções,


o TSE e os TREs têm uma peculiaridade que não existe em outros
tribunais: os ministros/juízes substitutos. Ou seja, além dos sete titulares,
existem outros sete substitutos, escolhidos pelos mesmos procedimentos
que os titulares.
Isso porque, nos termos do art. 19 do Código Eleitoral, o TSE
delibera por maioria de votos, em sessão pública, com a presença da
maioria de seus membros. As decisões do Tribunal Superior, sobre a
interpretação do Código Eleitoral em face da Constituição e cassação de
registro de partidos políticos, como sobre quaisquer recursos que
importem anulação geral de eleições ou perda de diplomas, só poderão ser
tomadas com a presença de todos os seus membros. Assim, se ocorrer
impedimento de algum juiz, será convocado o substituto.

O mandato dos juízes eleitorais é de dois anos, podendo ser prorrogado uma
única vez, por igual período, tanto nos tribunais, TSE, TRE, quanto na titularidade da
Zona Eleitoral. Na prática, os juízes dos tribunais podem ficar até quatro anos como
membros substitutos e outros quatro anos como titulares.

2.1.1.3 Juízes Eleitorais


A jurisdição de cada uma das zonas eleitorais cabe a um juiz de direito em
efetivo exercício e, na falta deste, ao seu substituto legal. Note-se que a denominação
“juiz de direito” é atribuída aos juízes estaduais, não aos magistrados federais.
Onde houver mais de uma vara, o Tribunal Regional designará aquela ou
aquelas, a que incumbe o serviço eleitoral. De qualquer forma, os juízes eleitorais, salvo
motivo justificado, servirão por dois anos, no mínimo, e nunca por mais de dois biênios
consecutivos.
2.1.1.4 Juntas Eleitorais
As juntas eleitorais são formadas por um juiz de direito, que será o presidente, e
de dois ou quatro cidadãos de notória idoneidade.
Os membros das juntas eleitorais serão nomeados 60 dias antes da eleição,
depois de aprovação do TRE, pelo presidente deste, a quem cumpre também designar-
lhes a sede.
Até dez dias antes da nomeação, os nomes das pessoas indicadas para compor as
juntas serão publicados na imprensa oficial, podendo qualquer partido, no prazo de três
dias, em petição fundamentada, impugnar as indicações.
Isso ocorre porque não podem ser nomeados membros das Juntas, escrutinadores
ou auxiliares: (i) os candidatos e seus parentes, ainda que por afinidade, até o segundo
grau, inclusive, e bem assim o cônjuge; (ii) os membros de diretorias de partidos
políticos devidamente registrados e cujos nomes tenham sido oficialmente publicados;
(iii) as autoridades e agentes policiais, bem como os funcionários no desempenho de
cargos de confiança do Executivo; (iv) os que pertencerem ao serviço eleitoral.

2.1.2 Funções da Justiça Eleitoral

À Justiça eleitoral é reservada uma série de funções que podem ser dividas de
acordo com sua natureza: (i) jurisdicional; (ii) administrativa; (iii) normativa; e (iv)
consultiva.
É importante ressaltar a existência de uma celeuma terminológica, pela qual
alguns juristas diferenciam “atribuições” de “competências”, sendo esta última
reservada apenas aos órgãos do Poder Judiciário, em sua atividade jurisdicional. Logo,
depreende-se que as atribuições são as funções de natureza administrativa.
Entre as funções jurisdicionais, a mais relevante é a competência para o
julgamento dos pedidos de registro de candidatura e dos processos de prestação das
contas de campanha. A essa competência jurisdicional pode ser originária ou recursal.
Na primeira, a ação tem início diretamente no tribunal – TSE ou TRE. Já a competência
recursal, como o próprio nome sugere, é exercida pela instância revisora, ou seja, é a
competência para julgar o recurso contra a decisão de uma instância inferior.
Não menos importantes são as funções administrativas: por meio delas, os
tribunais eleitorais tratam da organizam as eleições; renovação e distribuição das urnas;
criação dos softwares; manutenção do cadastro eleitoral (alistamento, biometria, etc.);
expedição de certidões, títulos e diplomas; realizam a campanha de esclarecimento ao
eleitor; entre outras ações importantes ao processo eleitoral.
Além das funções jurisdicionais e administrativas, os tribunais eleitorais ainda
exercem as funções consultiva e normativa.
Em relação à função consultiva, cabe ressaltar que os tribunais que compõem a
Justiça Eleitoral são os únicos órgãos do Poder Judiciário que respondem consultas. Por
elas, são formulados questionamentos genéricos, cuja aplicação da lei ao caso hipotético
poderá gerar dúvidas. Não se trata de ação judicial, pois esta deve estar fundada numa
situação concreta. Por isso, as consultas são analisadas nas sessões administrativas do
tribunal.
Temas importantes às eleições foram definidos em respostas a consultas, tais
como: fidelidade partidária; número de parlamentares por Estado na câmara dos
deputados; questões sobre elegibilidade e inelegibilidade, entre outras.
Já a função normativa concretiza-se na edição das resoluções, que podem tratar
tanto do processo eleitoral (calendário eleitoral, normas para prestação de contas,
registro de candidatura) quanto de questões administrativas, como atividades da
secretaria de tecnologia da informação ou das assessorias de comunicação em anos
eleitorais e não eleitorais.

2.1.2.1 Funções do TSE


Os artigos 22 e 23 do Código Eleitoral relacionam a competência do Tribunal
Superior Eleitoral:
Processar e julgar originariamente (competência originária): (i) o registro e a
cassação de registro de partidos políticos e dos seus diretórios nacionais; (ii) o registro
de candidatos à Presidência e vice-presidência da República; (ii) os conflitos de
jurisdição entre Tribunais Regionais e juízes eleitorais de Estados diferentes; (iii) a
suspeição ou impedimento aos seus membros, ao Procurador Geral e aos funcionários
da sua Secretaria; (iv) os crimes eleitorais e os comuns que lhes forem conexos
cometidos pelos seus próprios juízes e pelos juízes dos Tribunais Regionais; (v) as
reclamações relativas a obrigações impostas por lei aos partidos políticos, quanto à sua
contabilidade e à apuração da origem dos seus recursos; (vi) as impugnações à apuração
do resultado geral, proclamação dos eleitos e expedição de diploma na eleição de
Presidente e Vice-Presidente da República; (vii) os pedidos de desaforamento dos feitos
não decididos nos Tribunais Regionais dentro de trinta dias da conclusão ao relator,
formulados por partido, candidato, Ministério Público ou parte legitimamente
interessada; (viii) que, no prazo de trinta dias a contar da conclusão, não houverem
julgado os feitos a eles distribuídos; (ix) a ação rescisória, nos casos de inelegibilidade,
desde que intentada dentro de 120 de decisão irrecorrível, possibilitando-se o exercício
do mandato eletivo até o seu trânsito em julgado.
E, exercendo a competência recursal, julgar os recursos interpostos das decisões
dos Tribunais Regionais, quando: (i) forem proferidas contra disposição expressa da
Constituição ou da lei; (ii) ocorrer divergência na interpretação de lei entre dois ou mais
tribunais eleitorais; (iii) versarem sobre inelegibilidade ou expedição de diplomas nas
eleições federais ou estaduais; (iv) anularem diplomas ou decretarem a perda de
mandatos eletivos federais ou estaduais; (v) denegarem habeas corpus, mandado de
segurança, habeas data ou mandado de injunção.
O Código Eleitoral elenca ainda funções administrativas, consultivas e
normativas do TSE, tais como: (i) elaborar o seu regimento interno; (ii) organizar a sua
Secretaria e a Corregedoria Geral, propondo ao Congresso Nacional a criação ou a
extinção dos cargos administrativos e a fixação dos respectivos vencimentos, provendo-
os na forma da lei; (iii) conceder aos seus membros licença e férias assim como
afastamento do exercício dos cargos efetivos; (iv) aprovar o afastamento do exercício
dos cargos efetivos dos juízes dos Tribunais Regionais Eleitorais; (v) propor ao Poder
Legislativo o aumento do número dos juízes de qualquer Tribunal Eleitoral, indicando a
forma desse aumento; (vi) fixar as datas para as eleições de Presidente e Vice-
Presidente da República, senadores e deputados federais, quando não o tiverem sido por
lei; (vii) aprovar a divisão dos Estados em zonas eleitorais ou a criação de novas zonas;
(viii) expedir as instruções que julgar convenientes à execução deste Código; (ix) enviar
ao Presidente da República a lista tríplice organizada pelos Tribunais de Justiça; (x)
responder, sobre matéria eleitoral, às consultas que lhe forem feitas em tese por
autoridade com jurisdição, federal ou órgão nacional de partido político; (xi) autorizar a
contagem dos votos pelas mesas receptoras nos Estados em que essa providência for
solicitada pelo Tribunal Regional respectivo; (xii) requisitar a força federal necessária
ao cumprimento da lei, de suas próprias decisões ou das decisões dos Tribunais
Regionais que o solicitarem, e para garantir a votação e a apuração; (xiii) organizar e
divulgar a Súmula de sua jurisprudência; (xiv) requisitar funcionários da União e do
Distrito Federal quando o exigir o acúmulo ocasional do serviço de sua Secretaria; (xv)
publicar um boletim eleitoral; e (xvi) tomar quaisquer outras providências que julgar
convenientes à execução da legislação eleitoral.

2.1.2.2 Funções dos TREs


A competência dos Tribunais Regionais Eleitorais encontra-se delimitada nos
arts. 29 e 30 do Código Eleitoral.
Os TREs possuem competência originária para processar e julgar: (i) o registro e
o cancelamento do registro dos diretórios estaduais e municipais de partidos políticos;
(ii) o registro de candidatura dos candidatos a Governador, Vice-Governador, Senador;
Deputado Federal e Deputado Estadual/Distrital; (ii) os conflitos de jurisdição entre
juízes eleitorais do respectivo Estado; (iii) a suspeição ou impedimentos aos seus
membros ao Procurador Regional e aos funcionários da sua Secretaria assim como aos
juízes e escrivães eleitorais; (iv) os crimes eleitorais cometidos pelos juízes eleitorais;
(v) o habeas corpus ou mandado de segurança, em matéria eleitoral, contra ato de
autoridades que respondam perante os Tribunais de Justiça por crime de
responsabilidade e, em grau de recurso, os denegados ou concedidos pelos juízes
eleitorais; ou, ainda, o habeas corpus quando houver perigo de se consumar a violência
antes que o juiz competente possa prover sobre a impetração; (vi) as reclamações
relativas a obrigações impostas por lei aos partidos políticos, quanto a sua contabilidade
e à apuração da origem dos seus recursos; (vii) os pedidos de desaforamento dos feitos
não decididos pelos juízes eleitorais em trinta dias da sua conclusão para julgamento,
formulados por partido candidato Ministério Público ou parte legitimamente interessada
sem prejuízo das sanções decorrentes do excesso de prazo.
A competência recursal dos TREs é exercida na revisão: (i) dos atos e das
decisões proferidas pelos juízes e juntas eleitorais; e (ii) das decisões dos juízes
eleitorais que concederem ou denegarem habeas corpus ou mandado de segurança.
Quanto às funções administrativa, consultiva e normativa, cabem aos TREs: (i)
elaborar o seu regimento interno; (ii) organizar a sua Secretaria e a Corregedoria
Regional provendo-lhes os cargos na forma da lei, e propor ao Congresso Nacional, por
intermédio do Tribunal Superior a criação ou supressão de cargos e a fixação dos
respectivos vencimentos; (iii) conceder aos seus membros e aos juízes eleitorais licença
e férias, assim como afastamento do exercício dos cargos efetivos submetendo, quanto
aqueles, a decisão à aprovação do Tribunal Superior Eleitoral; (iv) fixar a data das
eleições de Governador e Vice-Governador, deputados estaduais, prefeitos, vice-
prefeitos, vereadores e juízes de paz, quando não determinada por disposição
constitucional ou legal; (v) constituir as juntas eleitorais e designar a respectiva sede e
jurisdição; (vi) indicar ao tribunal Superior as zonas eleitorais ou seções em que a
contagem dos votos deva ser feita pela mesa receptora; (vii) apurar com os resultados
parciais enviados pelas juntas eleitorais, os resultados finais das eleições de Governador
e Vice-Governador de membros do Congresso Nacional e expedir os respectivos
diplomas, remetendo dentro do prazo de 10 dias após a diplomação, ao Tribunal
Superior, cópia das atas de seus trabalhos; (viii) responder, sobre matéria eleitoral, às
consultas que lhe forem feitas, em tese, por autoridade pública ou partido político; (ix)
dividir a respectiva circunscrição em zonas eleitorais, submetendo essa divisão, assim
como a criação de novas zonas, à aprovação do Tribunal Superior; (x) aprovar a
designação do Ofício de Justiça que deva responder pela escrivania eleitoral durante o
biênio; (xi) requisitar a força necessária ao cumprimento de suas decisões solicitar ao
Tribunal Superior a requisição de força federal; (xii) autorizar, no Distrito Federal e nas
capitais dos Estados, ao seu presidente e, no interior, aos juízes eleitorais, a requisição
de funcionários federais, estaduais ou municipais para auxiliarem os escrivães eleitorais,
quando o exigir o acúmulo ocasional do serviço; (xiii) requisitar funcionários da União
e, ainda, no Distrito Federal e em cada Estado ou Território, funcionários dos
respectivos quadros administrativos, no caso de acúmulo ocasional de serviço de suas
Secretarias; (xiv) aplicar as penas disciplinares de advertência e de suspensão até 30
(trinta) dias aos juízes eleitorais; (xv) cumprir e fazer cumprir as decisões e instruções
do Tribunal Superior; (xvi) determinar, em caso de urgência, providências para a
execução da lei na respectiva circunscrição; (xvii) organizar o fichário dos eleitores do
Estado.

2.1.2.3 Funções dos Juízes Eleitorais


Os juízes eleitorais despacharão todos os dias na sede da sua zona eleitora,
competindo-lhes: (i) cumprir e fazer cumprir as decisões e determinações do Tribunal
Superior e do Regional; (ii) processar e julgar os crimes eleitorais e os comuns que lhe
forem conexos, ressalvada a competência originária do Tribunal Superior e dos
Tribunais Regionais; (iii) decidir habeas corpus e mandado de segurança, em matéria
eleitoral, desde que essa competência não esteja atribuída privativamente a instância
superior; (iv) fazer as diligências que julgar necessárias a ordem e presteza do serviço
eleitoral; (v) tomar conhecimento das reclamações que lhe forem feitas verbalmente ou
por escrito, reduzindo-as a termo, e determinando as providências que cada caso exigir;
(vi) indicar, para aprovação do Tribunal Regional, a serventia de justiça que deve ter o
anexo da escrivania eleitoral; (vii) dirigir os processos eleitorais e determinar a inscrição
e a exclusão de eleitores; (viii) expedir títulos eleitorais e conceder transferência de
eleitor; (ix) dividir a zona em seções eleitorais; (x) mandar organizar, em ordem
alfabética, relação dos eleitores de cada seção, para remessa a mesa receptora,
juntamente com a pasta das folhas individuais de votação; (xi) ordenar o registro e
cassação do registro dos candidatos aos cargos eletivos municiais e comunicá-los ao
Tribunal Regional; (xii) designar, até 60 dias antes das eleições os locais das seções;
(xiii) nomear, 60 dias antes da eleição, em audiência pública anunciada com pelo menos
5 dias de antecedência, os membros das mesas receptoras; (xiv) instruir os membros das
mesas receptoras sobre as suas funções; (xv) providenciar para a solução das
ocorrências que se verificarem nas mesas receptoras; (xvi) tomar todas as providências
ao seu alcance para evitar os atos viciosos das eleições; (xvii) fornecer aos que não
votaram por motivo justificado e aos não alistados, por dispensados do alistamento, um
certificado que os isente das sanções legais; (xviii) comunicar, até às 12 horas do dia
seguinte a realização da eleição, ao Tribunal Regional e aos delegados de partidos
credenciados, o número de eleitores que votarem em cada uma das seções da zona sob
sua jurisdição, bem como o total de votantes da zona.

2.1.2.4 Funções das Juntas Eleitorais


A Junta Eleitoral possui apenas funções administrativas, sendo que, com o
advento da urna eletrônica, suas atribuições foram bastante reduzidas, exercendo a
maior parte delas apenas quando os problemas com a votação eletrônica demandarem a
coleta manual dos votos.
Nesse ponto, o art. 40 do Código Eleitoral prevê que caberá à Junta Eleitoral: (i)
apurar, no prazo de 10 dias, as eleições realizadas nas zonas eleitorais sob a sua
jurisdição; (ii) resolver as impugnações e demais incidentes verificados durante os
trabalhos da contagem e da apuração; (iii) expedir os boletins de apuração; (iv) expedir
diploma aos eleitos para cargos municipais.
Nos municípios onde houver mais de uma junta eleitoral a expedição dos
diplomas, será feita pelo que for presidida pelo juiz eleitoral mais antigo, à qual as
demais enviarão os documentos da eleição.
2.1.2.5 Corregedoria Eleitoral
Apesar de não ser órgão da Justiça Eleitoral, o trabalho da Corregedoria Eleitoral
é de extrema importância à lisura e correição das eleições.
A Lei Complementar nº 64/1990 (Lei das Inelegibilidades) confere às
corregedorias eleitorais a realização de investigações para apurar as transgressões
pertinentes à origem de valores pecuniários, abuso do poder econômico ou político, em
detrimento da liberdade de voto.
Ademais, qualquer partido político, coligação, candidato ou Ministério Público
Eleitoral poderá representar à Justiça Eleitoral, diretamente ao Corregedor-Geral ou
Regional, relatando fatos e indicando provas, indícios e circunstâncias e pedir abertura
de investigação judicial para apurar uso indevido, desvio ou abuso do poder econômico
ou do poder de autoridade, ou utilização indevida de veículos ou meios de comunicação
social, em benefício de candidato ou de partido político.
Além dessas competências jurisdicionais, às corregedorias também compete,
entre outras atribuições: (i) velar pela fiel execução das leis e instruções e pela boa
ordem e celeridade dos serviços eleitorais; (ii) investigar se há crimes eleitorais a
reprimir e se as denúncias já oferecidas na Justiça Eleitoral têm curso normal.
No dia da eleição, por exemplo, são as corregedorias eleitorais dos Estados e a
Corregedoria-Geral Eleitoral que possuem os dados sobre eleitores presos por infrações
eleitorais, tais como boca de urna, mau comportamento nas eleições, entre outras
condutas vedadas aos eleitores e candidatos.

2.2 Ministério Público Eleitoral

2.2.1 Composição do MPE

Da mesma forma que a Justiça Eleitoral, o Ministério Público Eleitoral (MPE)


não possui quadro pessoal próprio. O Ministério Público da União é composto pelo
Ministério Público Federal, pelo Ministério Público do Trabalho, pelo Ministério
Público Militar e pelo Ministério Público do Distrito Federal e Territórios.
Os membros do Ministério Público Federal exercerão as funções atribuídas ao
Ministério Público Eleitoral, conforme o art. 72 da Lei Complementar nº 75/19936.
Contudo, membros dos Ministérios Públicos Estaduais atuarão na primeira instância
com as atribuições eleitorais, perante as Zonas Eleitorais.
O chefe do Ministério Público Eleitoral é o Procurador-Geral Eleitoral (PGE).
Tal função é exercida pelo Procurador-Geral da República, escolhido pelo Presidente da
República.
O Vice-Procurador-Geral Eleitoral é escolhido pelo chefe do Ministério Público
Eleitoral, sendo que ambos atuarão perante o Tribunal Superior Eleitoral.
Nos TREs, o Ministério Público será representado pelo Procurador Regional
Eleitoral. Este, por sua vez, será designado pelo PGE, dentre os membros de segunda
instância do MPF – Procuradores Regionais da República. Entretanto, nos estados que
não forem sede de Tribunais Regionais Federais7, o representante do MPE será
designado entre os Procuradores da República (membros do MPF que atuam em
primeira instância).
Desse modo, desempenhando as funções do MPE junto às Zonas Eleitorais, tem-
se o Promotor Eleitoral. A função, nesse caso, será exercida por membro do Ministério
Público Estadual, atuando em matéria de natureza federal.
A designação dos membros que atuarão como Promotores Eleitorais é feita pelo
Procurador Regional Eleitoral, após indicação do Procurador-Geral de Justiça, que é o
chefe do Ministério Público Estadual.

2.2.2 Atribuições do Ministério Público Eleitoral

2.2.2.1 Procurador-Geral Eleitoral


São atribuições do Procurador-Geral Eleitoral: (i) assistir às sessões do Tribunal
Superior e tomar parte nas discussões; (ii) exercer a ação pública e promovê-la até final,
em todos os feitos de competência originária do Tribunal; (iii) oficiar em todos os
recursos encaminhados ao Tribunal; (iv) manifestar-se, por escrito ou oralmente, em
6
Art. 72. Compete ao Ministério Público Federal exercer, no que couber, junto à Justiça Eleitoral, as
funções do Ministério Público, atuando em todas as fases e instâncias do processo eleitoral.
Parágrafo único. O Ministério Público Federal tem legitimação para propor, perante o juízo competente,
as ações para declarar ou decretar a nulidade de negócios jurídicos ou atos da administração pública,
infringentes de vedações legais destinadas a proteger a normalidade e a legitimidade das eleições, contra a
influência do poder econômico ou o abuso do poder político ou administrativo.
7
São sedes de TRF: Brasília-DF (TRF-1); Rio de Janeiro-RJ (TRF-2); São Paulo-SP (TRF-3); Porto
Alegre-RS (TRF-4); e Recife-PE (TRF-5).
todos os assuntos submetidos à deliberação do Tribunal, quando solicitada sua
audiência por qualquer dos juízes, ou por iniciativa sua, se entender necessário; (v)
defender a jurisdição do Tribunal; (vi) representar ao Tribunal sobre a fiel observância
das leis eleitorais, especialmente quanto à sua aplicação uniforme em todo o País; (vii)
requisitar diligências, certidões e esclarecimentos necessários ao desempenho de suas
atribuições; (viii) expedir instruções aos órgãos do Ministério Público junto aos
Tribunais Regionais; e (ix) acompanhar, quando solicitado, o Corregedor-Geral,
pessoalmente ou por intermédio de Procurador que designe, nas diligências a serem
realizadas.

2.2.2.2 Procurador Regional Eleitoral


São atribuições dos Procuradores Regionais: (i) exercer, perante os Tribunais
junto aos quais servirem, as atribuições do Procurador Geral; e (ii) requisitar, para
auxiliá-los nas suas funções, mediante prévia autorização do Procurador Geral,
membros do Ministério Público local, não tendo estes, porém, assento nas sessões do
Tribunal.

2.2.2.3 Promotor Eleitoral


O Promotor Eleitoral tem legitimidade para oficiar, em primeira instância, em
todos os processos e procedimentos nos quais se apresente a matéria eleitoral.
A participação do MPE no processo eleitoral deve ser sempre pautada na
observância das normas que regem as eleições e com extrema imparcialidade em
relação aos candidatos, uma vez que a atuação parcial pode gerar grave desequilíbrio na
disputa eleitoral.
Nesse contexto, discute-se o poder de investigação do MPE, que no âmbito das
eleições, somente poderá ser iniciada uma investigação com a autorização da Justiça
Eleitoral. Esse tema será melhor examinado no Módulo V desse curso, no qual serão
tratados alguns dos “Casos emblemáticos da Justiça Eleitoral”.
Outra questão interessante é se o Ministério Público Eleitoral tem legitimidade
para recorrer de decisão que julga o pedido de registro de candidatura, mesmo que não
haja apresentado impugnação anterior.