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A KGB inventou a Teologia da

Libertação? Simples demais…


Por Luiz Sérgio Solimeo em 22 de maio de 2015

Ion Pacepa ex-membro do Serviço Secreto da Rumania

Um ex-membro do Serviço Secreto da Rumania comunista que fugiu para o Ocidente


nos anos 1970, Ion Pacepa (foto ao lado), concedeu recente entrevista à Catholic News
Agency, na qual descreve como a KGB (serviço secreto e polícia política soviética)
teria criado a Teologia da Libertação.

“O movimento nasceu na KGB e tinha um nome inventado pela KGB: Teologia da


Libertação”, afirma Pacepa. E conta como Krushev e um general russo infiltraram
agentes no Conselho Mundial das Igrejas e por esse meio manobraram um grupo de
bispos sul-americanos reunidos em Medellin, Colômbia, em 1968.

A realidade é mais complexa

Embora não se possa descartar a ação de Moscou na difusão desse movimento


revolucionário, a realidade, no entanto, é muito mais complexa: a Teologia da
Libertação foi fruto de um longo processo no interior de setores da Igreja, trabalhados
pelo Modernismo e pelas filosofias imanentistas modernas, bem como pela influência
do protestantismo liberal.

Assim, devemos traçar suas origens, para não ir mais longe, aos pontificados dos Papas
Leão XIII (1878-1903) e São Pio X (1903-1914).

Heresia Modernista

Por meio de vários documentos e medidas disciplinares, o Papa São Pio X condenou um
conjunto de erros filosóficos, teológicos, morais e sociais que fermentavam há tempos
em instituições de ensino eclesiásticas. A esse conjunto ─ que ele afirma ser “a síntese
de todas as heresias” ─, deu o nome de Modernismo. Trata-se da heresia Modernista.

O Modernismo ─ descrito especialmente na Encíclica Pascendi Dominici Greges, de


1907 ─ é uma versão mais radical do liberalismo católico, que tenta infiltrar na Igreja o
espírito e a mentalidade do mundo. O Modernismo é fundamentalmente naturalista e
imanentista, negando o sobrenatural e a transcendência divina, e reduzindo a religião a
um mero sentimento, sem verdades dogmáticas nem preceitos morais imutáveis.

Embora o Modernismo tenha sido condenado por São Pio X, infelizmente, seu espírito e
muitas de suas doutrinas e metas continuaram a serpentear nos meios eclesiásticos e
leigos. Em 1910 o santo Pontifice publicou o Motu Proprio Sacrorum Antistitum, no
qual afirmava: “Os modernistas, mesmo depois que a Encíclica Pascendi dominici
gregis arrancou-lhes a máscara com que se cobriam, não abandonaram seus
desígnios de perturbar a paz da Igreja. Eles, com efeito, não cessaram de procurar
e agrupar em uma sociedade secreta novos adeptos… [Eles] estão injetando o virus
de sua doutrina nas veias da sociedade Cristã”. [1]

“Nouvelle Théologie”

Os erros teológicos e filosóficos disseminados por essa sociedade secreta modernista


foram condenados mais tarde, em 1950, pelo Papa Pio XII, por meio da Enciclica
Humani Generis. Entre os erros condenados está o naturalismo e o “evolucionismo
místico” de Teilhard de Chardin, o qual identificava Jesus Cristo com a evolução,
tornando assim irrisória qualquer verdade dogmática ou moral ensinada pela Igreja.
Essa corrente tornou-se conhecida como “Nouvelle Théologie”, por serem seus
mentores sobretudo franceses.

Modernismo sócio-político-econômico

Marc Sangnier.

O aspecto sócio-econômico dessa fermentação teológica modernista foi representada no


começo do século XX por Le Sillon (“o sulco”), de Marc Sangnier. Esse movimento
leigo pregava um igualitarismo sócio-economico radical, tendo por isso sido condenado
igualmente por São Pio X, em 1910, através da Carta Apostólica Notre Charge
Apostolique.

Essa tendência foi sistematizada mais tarde em termos filosóficos por Jacques Maritain,
filósofo francês convertido ao Catolicismo, no seu livro Humanismo Integral (1936),
que o Pe. Anonio Messineo S.J. qualificou de “naturalismo integral” nas páginas da
Civiltá Cattolica.[2]

Em seu livro, embora Maritain critique o ateísmo e o totalitarismo do comunismo, ele


elogia “a profunda intuição” de Marx; intuição que Maritain acredita “ser o grande
fulgor de verdade que percorre toda a obra de Marx.” Esse “fulgor de verdade” é a tese
de Marx da “alienação imposta pela sociedade capitalista à mão de obra e a
desumanização que atinge tanto o proletariado como os proprietários.” [3]

Ou seja, Maritain aceita a essência do marxismo, que é a luta de classes e o papel


“redentor” do proletariado. E ele diz ser papel dos católicos desengajarem o “fulgor de
verdade” da doutrina marxista, de seu arcabouço filosófico ateu. Porque, diz ele “por
maior que fosse a aversão pessoal de Marx pelo cristianismo, essa intuição, em si
mesma, é impregnada dos valores judeo-cristãos.”[4]

No seu livro Humanismo Integral (1936), Jacques Maritain, embora critique o ateísmo e
o totalitarismo do comunismo, elogia “a profunda intuição” de Marx que é “o grande
fulgor de verdade que percorre toda a obra de Marx”.

Contrariando o anticomunismo católico que então imperava, Maritain sugere uma


“Terceira posição” ou “Terceira via” nem capitalista nem comunista.

Esse livro tornou-se como que a “cartilha” do movimento da Ação Católica e de seu
braço político, a Democracia Cristã, em especial na América Latina.

Essa pretensa neutralidade entre o capitalismo e o socialismo foi conduzindo a Ação


Católica e a Democracia Cristã cada vez mais para a esquerda.
A “Terceira Posição”: “Nenhum inimigo à esquerda; nenhum amigo na
Direita”

Em 1947 reuniu-se em Montevidéu, Uruguai, o I Congresso da Democracia Cristã na


América, com o fito de expandir a “Terceira Posição” maritainiana. A declaração final
do evento afirmava que os democrata-cristãos baseavam-se na doutrina social da Igreja
e no “Humanismo Integral” de Maritain. O documento criticava o fascismo, o
comunismo e o capitalismo. Mas mostrava sua aversão pelo anticomunismo, visto como
“promotor de discórdia.[5] Em suma, a “Terceira Posição”, nem capitalista nem
comunista, era sobretudo anti-anticomunista, segundo a fórmula “Pas d’ennemis à
gauche, pas d’amis a droite;” ou seja, nenhum inimigo entre os esquerdistas nem
amigos entre os direitistas.

Da Ação Católica à guerrilha comunista

Atentado terrorista cometido pela Ação Popular no Aeroporto de Guararapes, Recife,


em 25 de julho de 1966.

Com a morte do Papa Pio XII (outubro 1958), a Democracia Cristã começou, na Itália e
por toda a parte, a chamada “apertura a sinistra”, aliando-se a partidos socialistas e
chegando a falar em um “socialismo cristão.” No Brasil, por exemplo, a juventude da
Ação Católica ─ que constituía a base da Democracia Cristã ─ foi mais longe e, a partir
de 1960 fez aliança com os comunistas no movimento estudantil. Essa aliança foi tão
longe que, em 1962, ela se destacou, completamente da Igreja e deu origem a um
movimento político socialista, a Ação Popular. Esse movimento levou os antigos jovens
católicos a entrar na guerrilha urbana comunista do fim dessa década.

As teorias da Nouvelle Théologie e a filosofia política de Maritain penetraram também


nos Seminários por todo o mundo, influenciando os jovens sacerdotes e Religiosos.
Ainda no Brasil, em 1969, três noviços Dominicanos, oriundos da Ação Católica, foram
presos pela polícia por suas ligações com a guerrilha comunista.

O caldo de cultura da Teologia da Libertação


Foi nesse ambiente de intensa fermentação modernista e esquerdista que teólogos como
o uruguaio Juan Luis Segundo, S.J., os brasileiros Hugo Assmann e Frei Leonardo Boff,
O.F.M. (foto acima), e o peruano Gustavo Gutierrez lançaram as bases da chamada
Teologia da Libertação. Na Argentina essa “teologia” teve um caráter mais populista
por causa da influência peronista, tendo como corifeus os padres Juan Carlos Scannone,
S.J. e Lucio Gera.

Uma “teologia” latino-americana?

Embora se diga que a Teologia da Libertação seja uma “teologia” latino-americana, na


verdade ela é toda calcada em autores europeus, católicos e protestantes, e nos teóricos
comunistas Karl Marx e Antonio Gramsci.

O ponto central dessa “teologia” é o endeusamento do pobre, como fez Marx em relação
ao “proletário”, apresentando-o como o “Redentor” da humanidade.

A Teologia da Libertação não pretende ajudar o pobre, como os grandes santos da Igreja
sempre fizeram, mas apenas servir-se dele. O pobre é apenas uma arma usada contra os
“ricos” (todo aquele que goza de boa posição econômica ou social), segundo a teoria
marxista da luta de classes.

Da mesma forma, também não deseja melhorar a situação econômica dos países onde
atua, mas conduzi-los à miséria, que esses pseudo-teólogos identificam com a
“perfeição evangélica”. O seu modelo é Cuba, endeusada como uma espécie de “paraíso
na terra,” onde a miséria assumiria um caráter como que “sagrado”. Eles seguem as
heresias “miserabilistas” da Idade Média decadente, segundo testemunho de Leonardo e
Clodovis Boff: “Inspiradores são também para a Teologia da Libertação, as
experiências evangélicas singulares de tantos profetas heretizados … sem esquecer
a contribuição preciosa dos movimentos pauperistas medievais de reforma, bem
como as postulações evangélicas dos grandes reformadores” [6].

Por este rápido apanhado histórico, vê-se que, com KGB ou sem KGB, a crise interna
que grassa na Igreja há tanto tempo teria levado logicamente à Teologia da Libertação.

“Baldeação Ideológica Inadvertida”

É possível que a KGB tenha contribuído na disseminação dessa ideologia político-


religiosa, que se apresenta como teologia católica: ela é muito útil para a expansão
comunista, sobretudo em meios católicos, e para a manutenção desse regime nos
infelizes países que caíram sob seu domínio.

Entretanto, o fator decisivo nos surgimento e proliferação da Teologia da Libertação, e


de sua aplicação prática na América Latina, foi a verdadeira “baldeação ideológica
inadvertida” [7] ─para usar a célebre expressão cunhada pelo Prof. Plinio Corrêa de
Oliveira (foto acima) ─ sofrida por jovens idealistas que entravam para os Seminários
ou a Ação Católica e foram sendo conduzidos paulatinamente, de um fervor religioso e
da ortodoxia católica, para a afinidade com as teorias marxistas do igualitarismo e da
luta de classes.

Portanto, o comunismo, e a KGB, não se encontram no começo do processo que


conduziu ao aparecimento da Teologia da Libertação, mas sim no seu final, como
consequência necessária da aceitação dos princípios igualitários e evolucionistas dos
teóricos heréticos dos inícios do século XX.

_______________________
[1] http://w2.vatican.va/content/pius-x/la/motu_proprio/documents/hf_p-x_motu-
proprio_19100901_sacrorum-antistitum.html.

[2] Antonio Messineo, S.J, “Umanesimo Integrale”, Civilta Cattolica, September 1,


1956.

[3] Jacques Maritain, Integral Humanism, Freedom in the Modern World, and A Letter
on Independence, University of Notre Dame press, Notre Dame, Indiana, 1996, p. 181.

[4] Id.Ibd. nota 8.

[5] Cf. Aureo Busetto, A democracia cristã no Brasil: princípios e práticas, UNESP,
2001, pp. 28-30.

[6] Leonardo Boff e Clodovis Boff, Como Fazer Teologia da Libertação, Vozes,
Petrópolis, 1986, p. 57.

[7] Cf. http://www.pliniocorreadeoliveira.info/livros/1965.pdf.