Você está na página 1de 273

Fundamentos de Genética da Conservação

A diversidade biológica tem sido rapidamente destruída em nosso plane­


ta devido às conseqüências diretas e indiretas das atividades humanas.
A medida em que os tamanhos das populações de animais e plantas são
reduzidos, a perda de diversidade genética limita seus potenciais de se
adaptarem às mudanças do ambiente. Além disso, a depressão por endo-
cruzamento se torna uma conseqüência inevitável para muitas espécies.
Este texto conciso é uma introdução aos estudos genéticos voltados para
a conservação e apresenta a essência dessa disciplina. Alguns dos tópicos
abordados são:
• perda de diversidade genética em populações pequenas
• endocruzamento e perda de potencial adaptativo
• resolução de incertezas taxonômicas
• manejo genético de espécies ameaçadas
• contribuições da genética molecular para a conservação
Os autores assumem que o leitor tenha apenas um conhecimento básico
em genética mendeliana e em estatística, tornando o livro acessível mes­
mo para aqueles com pouca formação nessas áreas. As relações entre a
genética da conservação e o campo maior da biologia da conservação são
constantemente explicitadas ao longo da leitura.
O texto é apresentado de uma forma bastante simples de ser seguida,
com os principais pontos e termos claramente destacados. Exemplos já tra­
balhados são utilizados para ilustrar as principais equações. Um glossário
e sugestões de leituras complementares garantem um suporte adicional
ao leitor, e várias belas ilustrações de espécies ameaçadas contribuem para
dar vida ao material.
Este livro é adequado para cursos de curta duração e de nível intro­
dutório nas áreas de genética, genética da conservação e biologia da con­
servação. Além disso, é indicado para profissionais que atuam na prática
da biologia da conservação, profissionais de zoológicos e gestores da vida
selvagem que necessitem de uma explicação breve e acessível sobre a im­
portância da genética para a conservação.
Dick Frankham foi professor no Departament of Biological Sciences da
Macquarie University, Sidney, durante 31 anos e foi professor visitante na
Harvard University no primeiro semestre 2004. Atualmente, recebe hono­
rários de professor na Macquarie University, na James Cook University e no
Australian Museum.
Jon Bailou é chefe do Departament of Conservation Biology do National
Zoological Park, Smithsonian Institution.
David Briscoe é professor associado do Key Centre for Biodiversity and
Bioresources, Departament of Biology Sciences, Macquarie University,
Sidney.
Fundamentos de Genética
da Conservação
Richard Frankham
Macquarie University, Sydney

Jonathan D. Ballou
Smithsonian Institution, Washington, DC

David A. Briscoe
Macquarie University, Sydney

Desenhos de

Karina H. Mclnnes
Melbourne

Sociedade
Brasileira de
Genética
Obra originalmente publicada sob o titulo A Primer of Conservation Genetics
© 2004 by R. Frankham, Smithsonian Institution, D. Briscoe
Authorized translation from English language edition published by The Press
Syndicate of the University of Cambridge

ISBN 0521831105

Frankham, Richard.

Fundamentos de Genética da Conservação. / Richard Frankham,


Jonathan D. Ballou, David A. Briscoe. - Ribeirão Preto, SP : SBG (Sociedade
Brasileira de Genética), 2008. 280 p.: il. - Título em inglês: A Primer of
Conservation Genetics. - Traduzido para o português por Mercival Roberto
Francisco e Izeni Pires Farias. - Organizado por Pedro Manoel Galetti Junior.
- Revisado por Fernando Pacheco Rodrigues e Pedro Manoel Galetti Junior.
ISBN: 978-85-89265-08-9

Genética. 2. Genética da Conservação. 3. Fundamentos na Genética. 4.


Biologia da Conservação. 5. Biodiversidade. 6. Ecologia Genética. I. Autor. II.
Título.

Diagramação e capa: cubo multimídia

Editora SBG
Sociedade Brasileira de Genética
Ribeirão Preto, SP

Sociedade
Brasileira de
Genética
Gestão 2006-2008
Fundamentos de Genética
da Conservação
Pedro Manoel Galetti Junior
Organização

Mercival Roberto Francisco


Izeni Pires Farias
Tradução

Fernando Pacheco Rodrigues


Pedro Manoel Galetti Junior
Revisão

Sociedade
Brasileira de
Genética
Sumário

Prefácio página xi
Mensagens para casa xiii
Agradecimentos xv
Apresentação e agradecimentos da edição brasileira xvii

Capítulo I | Introdução 1
A sexta “extinção” 2
Por que conservar a biodiversidade? 2
Espécies em perigo e extintas 3
O que é uma espécie ameaçada? 4
Quais as causas das extinções? 6
O que é genética da conservação 7
Leituras sugeridas 11

Capítulo 2 I Diversidade genética 12


Importância da diversidade genética 13
O que é a diversidade genética? 13
Medindo a diversidade genética 14
Equilíbrio de Hardy-Weinberg 16
Extensão da diversidade genética 20
Baixa diversidade genética em espécies ameaçadas 29
Quais componentes da diversidade genética determinam a
habilidade para evoluir? 30
Leituras sugeridas 30

Capítulo 3 I Genética evolutiva de populações naturais 31


Fatores de controle da evolução de populações 32
Origem e regeneração da diversidade genética 33
Mutação 33
Migração e fluxo gênico 35
Seleção e adaptação 37
Seleção sobre caracteres quantitativos 44
Genótipo vs. interação ambiental 47
Balanço mutação - seleção 49
Leituras sugeridas 50

Capítulo 4 Conseqüências genéticas do tamanho populacional


51
pequeno
Importância das populações pequenas na biologia da conservação 52
Perda da diversidade genética 53
Efeitos do acaso e deriva genética 54
Deriva genética 54
Efeitos das restrições prolongadas dos tamanhos populacionais
sobre a diversidade genética 57
Endogamia 58
Medindo o tamanho populacional 64
Fragmentação populacional 70
Seleção em populações pequenas 75
Leituras sugeridas 75
Capítulo 5 I Genética e extinção 77
A genética e o destino das espécies em perigo 78
Relação entre endocruzamento e extinção 83
Relação entre perda de diversidade genética e extinção 88
Populações geneticamente viáveis 90
Análise de viabilidade populacional (PVA) 94
Leituras sugeridas 101

Capítulo 6 Resolução de incertezas taxonômicas e definição


103
de unidades de manejo
Importância da exatidão taxonômica na biologia da conservação 104
O que é uma espécie? 106
Subespécies 107
Como uma espécie surge? 108
Uso de análises genéticas na delimitação de espécies 110
Distância genética 114
Construção de árvores filogenéticas 117
Depressão exogâmica 119
Definição de unidades de manejo das espécies 120
Leituras sugeridas 123

Capítulo 7 O manejo genético de espécies ameaçadas em


125
ambiente natural
A relevância da genética para o manejo de populações ameaçadas 126
O aumento do tamanho da população 128
O diagnóstico de problemas genéticos 130
A recuperação de populações pequenas, endocruzadas e com baixa
diversidade genética 131
Manejo genético de populações fragmentadas 133
Considerações genéticas no desenho de reservas 139
Introgressão e hibridação 140
Os impactos da exploração 141
Manejo genético de espécies sem reprodução biparental 142
A avaliação das estratégias de recuperação 143
Reprodução suplementar e tecnologias de reprodução assistida 145
Leituras sugeridas 147

Capítulo 8 | Reprodução em cativeiro e reintrodução 148


Por que reproduzir em cativeiro? 149
Estágios envolvidos na reprodução em cativeiro e na reintrodução 150
A fundação das populações de cativeiro 151
O crescimento das populações de cativeiro 152
Manejo genético durante a fase de manutenção 153
Conservação ex situ de plantas 159
O manejo de doenças hereditárias 159
As reintroduções 160
Estudos de casos de reprodução em cativeiro e reintrodução 169
Leituras sugeridas 171
Capítulo 9 A genética molecular na análise forense e no
172
estudo da biologia das espécies
Genética forense: detecção da caça e da exploração ilegais 173
Entender a biologia de uma espécie é fundamental para sua
conservação 175
Árvores gênicas e coalescência 176
Tamanho populacional e histórico demográfico 181
Fluxo gênico e estruturação populacional 185
Reintrodução e translocação 189
Sistemas reprodutivos, testes de paternidade, análises de parentesco
dos fundadores e sexagem 190
Doenças 197
Dieta 197
Leituras sugeridas 198

Capítulo 10 Genética da conservação na biodiversidade


199
brasileira
Variação genética e estruturação populacional 200
Identificação da biodiversidade críptica 204
Filogeografia 207
Efeitos da fragmentação e papel dos corredores 211
Tamanho populacional efetivo 216
Expansões populacionais 217
Identificação de unidades evolutivamente significativas e de
unidades de manejo 219
Conservação da agrobiodiversidade 223
Conservação ex situ 224
Hibridação de espécies e riscos de conservação 226
Genética forense e conservação 227
Como citar este capítulo 229

Mensagens finais 231


Glossário 233
Fontes de imagens, tabelas e exemplos 249
índice 259
Prefácio

■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■■
A União Internacional para Conservação da Natureza (World Conser­ Genética da conservação é o
vation Union/IUCN), o principal grupo de conservação internacional, uso da genética para ajudar na
reconhece a necessidade de conservar a diversidade genética como conservação das populações ou
um dos três níveis fundamentais da biodiversidade. Este livro trata de espécies
proporcionar uma breve introdução dos conceitos necessários para en­
tender a importância dos fatores genéticos na extinção das espécies e
as tentativas de amenizá-los.
A genética da conservação abrange as seguintes atividades:

• manejo genético de pequenas populações para manter a diversida­


de genética e minimizar o endocruzamento
• resolução de incertezas taxonômicas e delimitação de unidades de
manejo
• o uso das análises de genética molecular na análise forense e na
melhoria do nosso entendimento da biologia das espécies.

Proposta do livro
Nos esforçamos para escrever Fundamentos de Genética da Conservação de Este livro pretende fornecer
uma maneira tão compreensível quanto possível para abranger uma uma introdução acessível e
ampla gama de leitores. O livro é apropriado para estudantes univer­ breve aos princípios gerais da
sitários cursando genética introdutória, para estudantes cursando genética da conservação
biologia da conservação e ainda para os estudantes entusiasmados do
primeiro ano de biologia que já aprenderam sobre genética Mendelia-
na e genética populacional introdutória (freqüências alélicas e equi­
líbrio de Hardy-Weinberg). Profissionais da área da Conservação com
pouca formação em genética que desejem uma breve introdução em
genética da conservação devem achar este livro compreensível. Estes
incluem biólogos e ecólogos que estudam animais selvagens, profis­
sionais de zoológicos responsáveis por programas de reprodução em
cativeiro, planejadores e gestores de parques nacionais, estações de
captação de água e áreas governamentais locais, engenheiros florestais
e fazendeiros. Este livro permite um ingresso mais básico e rápido no
tema do que o nosso livro Introduction to Conservation Genetics.
Demos mais ênfase aos princípios gerais do que ao detalhamento
de procedimentos experimentais, uma vez que estes podem ser encon­
trados em livros, revistas e anais de conferências especializadas. Assu­
mimos um conhecimento básico de genética Mendeliana e estatística.
A genética da conservação é uma disciplina quantitativa uma vez que
suas conclusões encontram-se em predições da genética quantitativa.
O livro inclui uma seleção de equações importantes, mas nós restrin­
gimos o uso da matemática à álgebra simples para torná-lo acessível a
uma ampla gama de leitores. \\\\\V v\\\\ 1 'WV.V-Ò' .'V ,,\\\£Wl\v
São fornecidos exemplos
O domínio desta disciplina é obtido mais pela participação ati­
estudados
va na resolução de problemas que pela absorção passiva de fatos.
XII PREFÁCIO

Conseqüentemente, exemplos trabalhados são dados dentro do texto


para a maioria das equações apresentadas. Muitos outros problemas
com respostas podem ser encontrados em nosso livro Introduction to
Conservation Genetics.
São fornecidas Sugestões de
Devido à limitação de tamanho, as referências não são dadas no
leituras complementares texto, mas cada capítulo tem sugestões para leituras suplementares.
Para aqueles que desejarem referências detalhadas sobre um tópico
em particular poderão encontrá-las em nosso livro Introduction to Con­
servation Genetics.

Críticas construtivas e sugestões serão bem-vindas através do


email: frankha@els.mq.edu.au
Manteremos uma página web onde serão colocadas informações
atualizadas, correções, etc. (http://consgen.mq.edu.au). Neste site, esco­
lha a opção ‘Primer’.
Mensagens para casa

1. A diversidade biológica do planeta está sendo rapidamente esgo­


tada devido às conseqüências diretas e indiretas das atividades
humanas (destruição do habitat e fragmentação, sobre-exploração,
poluição, e movimentação de espécies para novas localidades). Es­
tas reduzem os tamanhos das populações para níveis onde eventos
estocásticos (randômicos) adicionais (demográficos, ambientais,
genéticos e catastróficos) levam-na em direção a extinção.
2. A preocupação genética dentro da biologia da conservação surge
dos efeitos deletérios do pequeno tamanho populacional e da frag­
mentação populacional nas espécies ameaçadas.
3. As principais questões genéticas são a perda da diversidade genéti­
ca, os impactos deletérios do endocruzamento sobre a reprodução
e sobrevivência, os efeitos do acaso prevalecendo sobre a seleção
natural, e a adaptação genética ao cativeiro.
4. Além disso, as análises genéticas moleculares contribuem para a
conservação auxiliando na detecção da caça e comércio ilegal, re­
solvendo incertezas taxonômicas e fornecendo informações essen­
ciais sobre aspectos pouco conhecidos da biologia das espécies.
5. A endogamia e a perda da diversidade genética são inevitáveis em
todas as populações pequenas fechadas, e espécies ameaçadas pos­
suem, por definição, populações pequenas e/ou em declínio.
6. A perda da diversidade genética reduz a habilidade das populações
se adaptarem em resposta às mudanças ambientais (potencial evo­
lutivo). A variação genética quantitativa para o sucesso reprodutivo
é o componente primário da diversidade genética em questão.
7. A endogamia tem efeitos deletérios sobre a reprodução e sobrevi­
vência (depressão endogâmica) em quase todas as espécies natural­
mente exogâmicas que foram adequadamente investigadas.
8. Fatores genéticos geralmente contribuem para o risco de extinção,
algumas vezes tendo impacto importante sobre a persistência.
9. A endogamia e a perda da diversidade genética dependem do ta­
manho populacional geneticamente efetivo (N), mais do que do
tamanho obtido através do senso populacional (N).
10. O tamanho efetivo populacional é geralmente muito menor do que
o tamanho do senso em populações não manejadas, sendo com fre-
qüência apenas 1/10 desta.
11. Tamanhos efetivos populacionais muito maiores do que 50 (N > 500)
são necessários para evitar depressão endogâmica e N = 500-5000
(N = 5000-50000) são necessários para reter o potencial evolutivo.
Muitas populações selvagens e de cativeiro são muito pequenas
para se evitar a depressão endogâmica e a perda da diversidade ge­
nética em médio prazo.
12. O objetivo do manejo genético é preservar as espécies ameaçadas
como entidades dinâmicas capazes de se adaptarem a mudanças
ambientais.
13. Ignorar questões genéticas no manejo de espécies ameaçadas irá
freqüentemente levar ao manejo subótimo e, em alguns casos, a
decisões desastrosas.
14. O primeiro passo no manejo genético de uma espécie ameaçada é
resolver qualquer incerteza taxonômica e delinear as unidades de
manejo dentro da espécie. As análises genéticas podem auxiliar na
resolução desses aspectos.
15. O manejo genético de espécies ameaçadas na natureza ainda está
no início.
16. O maior desafio na genética da conservação é o manejo de popu­
lações fragmentadas para minimizar a depressão endogâmica e
a perda da diversidade genética. Translocações entre fragmentos
isolados ou a criação de corredores para o estabelecimento de fluxo
gênico são necessários para minimizar os riscos de extinção, mas
eles estão sendo implementados em poucos casos. Cuidado deve ser
tomado para evitar a mistura de espécies, sub-espécies ou popula­
ções diferentes adaptadas a ambientes distintos, já que esta exoga-
mia pode ter efeitos deletérios sobre a reprodução e sobrevivência.
17. Os fatores genéticos representam apenas um componente do risco
de extinção. O impacto combinado de todas as ameaças ‘não-gené­
ticas’ e genéticas enfrentados pelas populações pode ser acessado
utilizando-se análises de viabilidade populacional (PVA). A PVA é
também utilizada para avaliar opções alternativas de manejo para
recuperar espécies ameaçadas, e ainda como uma ferramenta de
pesquisa.
18. A reprodução em cativeiro proporciona um meio para conservar as
espécies que são incapazes de sobreviver em seu habitat natural.
As populações em cativeiro de espécies ameaçadas são tipicamente
manejadas para reter 90% de sua diversidade genética por 100 anos,
através da minimização de parentesco. Populações de cativeiro po­
dem ser utilizadas no fornecimento de indivíduos para a reintro-
dução na natureza.
19. A deteriorização genética em cativeiro resultante da depressão
endogâmica, perda da diversidade genética e adaptação genética
ao cativeiro reduz a probabilidade de sucesso da reintrodução das
espécies na natureza.
Agradecimentos

Agradecemos o apoio de nossas instituições que tornaram possível


o nosso envolvimento na pesquisa desta área e a redação do livro. O
trabalho de pesquisa desenvolvido por RF e DAB foi possível através
do suporte financeiro do Conselho Australiano de Pesquisa (Australian
Research Council) e da Universidade de Macquarie (Macquarie University).
JDB agradece ao Parque Zoológico Nacional Smithsonian (Smithsonian
National Zoological Park) pelos muitos anos de apoio. Somos gratos a
Barry Brook, Matthew Crowther, Vicky Currie, Kerry Devine, Marlc El-
dridge, Polly Hunter, Leong Lim, Annette Lindsay, Edwin Lowe, Julian
0’Grady e a dois revisores anônimos pelos comentários nos rascunhos.
Somos bastante agradecidos a Sue Haig e colegas por testarem uma
versão inicial do livro durante o curso de Genética da Conservação
Aplicada do Centro de Treinamento de Conservação Nacional nos USA
em 2002 e a seus estudantes pelos comentários. Não seguimos todas as
sugestões dos revisores. Assumimos qualquer erro e as omissões que
restaram.
Estamos em débito com Karina Mclnnes que elegantemente acres­
centou os desenhos ao nosso trabalho. Michael Mahoney gentilmente
cedeu uma fotografia do sapo corroboree para a capa do livro, Cláudio
Ciofu cedeu os eletroferogramas de microssatélites para o início do Ca­
pítulo 2, J. Howard e B. Pukazhenthi cederam a fotografia do esperma
no Quadro 7.1 e Nate Flesness, Oliver Ryder e Rod Peakall gentilmente
cederam informações.
Alan Crowden da Editora da Universidade de Cambridge nos enco­
rajou, aconselhou e deu assistência durante a redação do livro e Maria
Murphy, Carol Miller e Anna Hodson facilitaram a publicação.
Este livro não poderia ter sido finalizado sem o contínuo suporte e
paciência de nossas esposas Annette Lindsay, Vanessa Bailou e Helen
Briscoe, e nossas famílias.
Apresentação e agradecimentos da
edição brasileira

Decidimos propor a realização da tradução do livro original A primer


of Conservation Genetics quando o Prof. Richard (Dick) Frankham nos vi­
sitou e participou do 539. Congresso Brasileiro de Genética, realizado
o ano passado em Águas de Lindóia. O apoio incondicional de Dick
foi fundamental para que a SBG pudesse obter os direitos autorais em
língua portuguesa no Brasil. Foi também fundamental o apoio de Dick
para a idéia de inclusão de um capítulo escrito por uma equipe de
pesquisadores brasileiros tratando de alguns de nossos estudos na bio­
diversidade. Esperamos que essa tradução possa ser útil para todos os
estudantes e interessados na área da Genética da Conservação.
Agradecemos a Sociedade Brasileira de Genética pela acolhida des­
sa realização, a Cambridge University Press pela aceitação da proposta
da SBG e facilidades que permitiram esse trabalho e, principalmen­
te, aos autores Frankham, Bailou e Briscoe, particularmente, ao Dick
Frankham pelo entusiasmo e apoio a essa tradução. A Karina Mclnnes
que gentilmente nos permitiu o uso de seus desenhos do livro origi­
nal. Aos colegas Mercival Roberto Francisco e a Izeni Pires Farias pelo
laborioso trabalho de tradução e a Fernando Pacheco Rodrigues e Pe­
dro Manoel Galetti Junior pela cuidadosa revisão. Aos colegas Antonio
Solé-Cava, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cristina Y. Miyaki,
Universidade de São Paulo, Dulcinéia de Carvalho, Universidade Fede­
ral de Lavras, Eduardo Eizirik, Pontifícia Universidade Católica do Rio
Grande do Sul, Elizabeth Ann Veasey, Universidade de São Paulo, Fabrí-
cio Rodrigues Santos, Universidade Federal de Minas Gerais, Fernando
Pacheco Rodrigues, Universidade Federal de São Carlos, Izeni Pires
Farias, Universidade Federal do Amazonas, Juliana A. Vianna, Univer­
sidade Federal de Minas Gerais, Larissa Rosa de Oliveira, Universidade
de São Paulo, Laura I. Weber, Universidade Federal do Rio de Janeiro,
Lurdes Foresti de Almeida Toledo, Universidade de São Paulo, Mercival
Roberto Francisco, Universidade Federal de São Carlos, Pedro Manoel
Galetti Junior, Universidade Federal de São Carlos, Rodrigo A.F. Redon­
do, Universidade Federal de Minas Gerais, Salvatore Siciliano, Institu­
to Oswaldo Cruz, Silvia Nassif Del Lama, Universidade Federal de São
Carlos,Thales Renato O. Freitas, Universidade Federal do Rio Grande do
Sul, Tomas Hrbek, Universidade Federal do Amazonas, Wagner Franco
Molina, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, pela constru­
ção do Capítulo 10. Aos artistas plásticos Angela Leite, Laura Beatriz e
Manu Maltez pelos maravilhosos desenhos e xilogravura, muitos dos
quais foram gentilmente idealizados e realizados especialmente para
o nosso Capítulo 10. A Haroldo Paio Junior pela foto da onça pintada
da capa.
Capítulo I

Introdução
Termos
Espécies ameaçadas geralmente declinam devido à perda de Ameaçada, biodiversidade,
habitat, sobre-exploração, introdução de espécies e poluição. Além catástrofes, depressão endogâmica,
disso, em populações de tamanhos pequenos fatores estocásticos deriva genética, diversidade
(demográficos, ambientais, genéticos e catastróficos) aumentam genética, em perigo, endogamia,
os riscos de extinção. A genética da conservação é o uso da teoria e especiação, estocasticidade
técnicas da genética para reduzir os riscos de extinção em espécies ambiental, estocasticidade
demográfica, estocasticidade
ameaçadas.
genética, estocástico, expurgo,
forense, potencial evolutivo,
recursos biológicos, serviços
ambientais, vulnerável, vórtex de
extinção

Seleção de espécies ameaçadas:


Sentido horário: panda (China),
uma orquídea Australiana, cacatua
Probosciger aterrimus (Austrália),
tuatara (Nova Zelândia), sapo
flecha venenoso (América do
Sul), peixe pulmonado (Austrália),
pinheiro Wollemi (Austrália) e
borboleta-de-cauda-de-andorinha
da Córsega.
2 INTRODUÇÃO

A sexta “extinção”
Biodiversidade é a variedade de ecossistemas, espécies, populações
dentro de espécies, bem como a diversidade genética existente den­
tro e entre essas populações. A diversidade biológica do planeta está
sendo rapidamente reduzida como conseqüência direta e indireta das
atividades humanas. Embora não conhecido, um grande número de
espécies já foi extinto, enquanto muitas outras têm tamanhos popula­
cionais reduzidos que as colocam em risco. Muitas espécies necessitam
atualmente da intervenção humana para assegurar sua sobrevivência.
A escala do problema é enorme e tem sido chamada de a “sexta
extinção”, uma vez que sua magnitude se compara às outras cinco ex­
tinções em massa reveladas por registros geológicos. Extinção é uma
parte natural do processo evolutivo, no qual as espécies tipicamente
persistem por aproximadamente 5-10 milhões de anos. Quando as ex­
tinções são balanceadas pela origem de novas espécies (especiação), a
biodiversidade é mantida. No entanto isso não ocorre nas extinções
em massa, tais como os cataclismas cósmicos que eliminaram muito
da flora e fauna no final do Cretáceo, a 65 milhões de anos atrás. Foram
necessários muitos milhões de anos para a proliferação dos mamíferos
e plantas angiospermas que substituíram os dinossauros e as plantas
gimnospermas existentes anteriormente. A sexta extinção é igualmen­
te dramática. As espécies estão sendo perdidas em taxas que ultrapas­
sam a origem de novas espécies e, diferente das extinções em massa
anteriores, esta é principalmente devido às atividades humanas.
A genética da conservação, assim como todas as disciplinas que
compõem a biologia da conservação, é motivada pela necessidade de
reduzir as taxas atuais de extinção e preservar a biodiversidade.

Por que conservar a biodiversidade?


Os humanos obtêm muitos benefícios diretos e indiretos do mundo
vivo. Assim, temos interesse em conservar a biodiversidade pelos re­
cursos que usamos, pelos serviços que ela nos proporciona, pelo prazer
que nos dá os organismos vivos, e por questõçs éticas.
Os recursos biológicos incluem todos os nossos alimentos, muitas
drogas farmacêuticas, fibras naturais, borracha, madeira, etc. Seu va­
lor é de muitos bilhões de dólares anuais. Por exemplo, cerca de 25%
de todas as prescrições farmacêuticas nos Estados Unidos contêm in­
gredientes ativos derivados de plantas. Além disso, o mundo natural
contém muitos recursos novos potencialmente úteis. Formigas sinteti­
zam novos antibióticos que estão sendo investigados para a medicina
humana, a seda das aranhas é mais forte, proporcionalmente ao peso,
do que o aço, e pode proporcionar a base para o desenvolvimento de
fibras leves de alta elasticidade, etc.
Os serviços ambientais são funções biológicas essenciais que bene­
ficiam as pessoas, cedidas sem nenhum custo pelos organismos vivos.
Os exemplos incluem a produção do oxigênio pelas plantas, o controle
do clima pelas florestas, o ciclo dos nutrientes, a purificação da água, o
controle natural das pestes, e a polinização de plantas cultivadas. Em
ESPÉCIES EM PERIGO E EXTINTAS 3

1997, estes serviços foram avaliados em U$ 33 trilhões (1012) por ano,


quase o dobro dos U$ 18 trilhões anuais do produto nacional global.
Muitos humanos desfrutam do prazer oferecido (valor estético)
pelos organismos vivos, expresso no cultivo de plantas ornamentais,
na manutenção de animais de estimação, nas visitas aos zoológicos,
no ecoturismo e no acompanhamento de documentários sobre a vida
selvagem. Isso se traduz em valor econômico direto. Por exemplo, es-
tima-se que os coalas contribuam com US$ 750 milhões anuais para a
indústria de turismo Australiano.
As justificativas éticas para a conservação da biodiversidade são
simplesmente que nossa espécie não tem o direito de levar outras
espécies à extinção, o que se compara ao horror do genocídio entre
populações humanas.

Espécies em perigo e extintas


Extinções registradas
As extinções registradas desde 1600 para diferentes grupos de ani­
mais e plantas, em ilhas e continentes, são dados na Tabela 1.1. Em­
bora mais de 700 extinções tenham sido registradas até o presente,
a proporção de espécies que se extinguiram é pequena, represen­
tando apenas 1-2% nos mamíferos e aves. Entretanto, o padrão das
extinções é preocupante, uma vez que as taxas de extinção têm, no
geral, aumentado com o tempo (Fig. 1.1) e muitas espécies estão ago­
ra ameaçadas. Além disso, muitas extinções devem ter ocorrido sem
terem sido registradas. A perda de habitat pode ter resultado na
extinção de muitas espécies não descritas, especialmente de inver­
tebrados, plantas e microorganismos. Provavelmente pouquíssimas
espécies novas devem ter evoluído para substituir aquelas perdidas
nesse intervalo de tempo.
A maioria das extinções registradas, e uma proporção significativa
das espécies atualmente ameaçadas, estão em ilhas (Tabela 1.1). Por
exemplo, 81% de todas as aves extintas viveram em ilhas, número qua­
tro vezes maior que a proporção de espécies de aves que não vivem em
ilhas.

Tabela I. I I Extinções registradas, de 1600 até o presente, para espécies


distribuídas em continentes e ilhas de todo o mundo

Fonte: Primack (2002).


4 INTRODUÇÃO

Extensão da ameaça
AIUCN, a União Internacional para a Conservação da Natureza, define
como ameaçadas as espécies com um alto risco de extinção dentro de
um curto período de tempo. Estas espécies ameaçadas são classificadas
dentro das categorias criticamente em perigo, em perigo e vulneráveis.
Em peixes, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, a IUCN classificou 30%,
21%, 25%, 12% e 24% das espécies avaliadas, respectivamente, como
ameaçadas. Das 4763 espécies de mamíferos, 3,8% estão criticamen­
te em perigo, 7,1% em perigo e 13,0% vulneráveis, enquanto que os
76% restantes são considerados em baixo risco. A situação é similar
em invertebrados com 29% das espécies avaliadas classificadas como
ameaçadas.
A situação em plantas é ainda mais alarmante. A IUCN classifi­
cou 49% das plantas como ameaçadas, com 53% dos musgos, 23% das
gimnospermas, 54% das dicotiledôneas e 26% das monocotiledôneas
ameaçadas. Há considerável incerteza sobre esses dados, com exceção
dos dados de mamíferos, aves e gimnospermas, uma vez que muitas
espécies não foram avaliadas nos demais grupos. Estimativas para mi­
croorganismos não estão disponíveis, já que o número de espécies para
este grupo não é conhecido.

Projeção das taxas de extinção


Com o aumento contínuo das populações humanas e o impacto pre­
visto sobre a vida selvagem, existe um consenso de que as taxas de
extinção deverão acelerar marcadamente, por até mil vezes ou mais
que a taxa ‘normal’ deduzida dos registros fósseis.

O que é uma espécie ameaçada?


A classificação da IUCN em criticamente em perigo, em perigo, vulne­
rável e baixo risco reflete graus de risco de extinção. Elas são definidas
em termos de taxas de declínio no tamanho populacional, restrições
na área do habitat, o tamanho populacional atual e/ou a probabilida­
de de extinção prevista quantitativamente. Espécies criticamente em
perigo são aquelas que exibem qualquer uma das características des­
critas sob os itens A-E na Tabela 1.2, por exemplo, redução do tamanho
populacional >80% nos últimos 10 anos ou três gerações, ou uma área
O QUE É UMA ESPÉCIE AMEAÇADA? 5

Tabela 1.2 I Designações de espécies dentro das categorias criticamente em perigo, em perigo ou vulnerável
(IUCN, 2002). Uma espécie em conformidade com qualquer um dos critérios de A - E na coluna de
‘Criticamente em perigo’ é definida como dentro dessa categoria. Regras similares são aplicadas para as

de ocupação <100 quilômetros quadrados, ou uma população estável


<250 adultos, ou uma probabilidade de extinção >50% nos próximos
10 anos ou três gerações, ou alguma combinação destes. Por exemplo,
o rinoceronte de Java, classificado como criticamente em perigo, so­
brevive com somente 65 indivíduos no Sudeste da Ásia e esse número
continua em declínio.
Da mesma forma, critérios que representam menor grau de amea­
ça são utilizadas para classificar as espécies nas categorias “em perigo”
ou “vulneráveis”. Espécies que não se encaixam em nenhum dos crité­
rios da Tabela 1.2 são designadas como em baixo risco de extinção.
Embora existam muitos outros sistemas para categorizar o grau de
ameaça que são utilizados por alguns paises e estados em particular, a
IUCN proporciona o único sistema internacional e é a base para a ela­
boração da lista de espécies apresentada no Livro Vermelho das espécies
ameaçadas da IUCN. No geral, usamos os critérios da IUCN em todo
este livro.

Importância da listagem
O reconhecimento da ameaça é a base para a proteção legal das espé­
cies. Muitos países possuem, por exemplo, Leis de Espécies Ameaçadas
que proporcionam uma proteção legal a elas e estabelecem a formu­
lação de planos de recuperação. Adicionalmente, espécies ameaçadas
são protegidas do comércio por países que assinaram a Convenção so­
bre o Comércio Internacional de Espécies Ameaçadas (CITES).
6 I INTRODUÇÃO

Quais as causas das extinções?


Fatores associados à ação humana
Os principais fatores que contribuem para a extinção estão direta ou
indiretamente relacionados aos impactos humanos. A população hu­
mana está crescendo exponencialmente e chegou a 6 bilhões em 12
de outubro de 1999. Até 2050, projeta-se que a população atingirá 8,9
bilhões de indivíduos, chegando a um pico de 10-11 bilhões ao redor de
2070, e então declinará. Isso representa um aumento de cerca de 75%
sobre a população atual. Conseqüentemente, os impactos humanos so­
bre os animais selvagens e plantas irão aumentar no futuro próximo.

Fatores estocásticos
Fatores relacionados à ação humana freqüentemente reduzem as
populações a tamanhos nos quais as espécies ficam susceptíveis a
efeitos acidentais ou estocásticos. Estes são flutuações naturais sen­
tidas por pequenas populações. Eles podem ter origens ambientais,
catastróficas, demográficas, ou genéticas. Os fatores estocásticos são
amplamente discutidos em todo o livro. Mesmo que a causa original
do declínio da população seja removida, os problemas surgidos em
pequenas populações persistirão, a menos que os números sejam
restabelecidos.
Estocasticidade ambiental é a variação randômica imprevisível
dos fatores ambientais, tais como variação nos níveis de precipitação
e variação no suprimento de alimento. Estocasticidade demográfica
é a variação nas taxas de nascimento, morte e razão sexual devido
somente ao acaso. Catástrofes são eventos ambientais extremos de­
vido a tornados, inundações, inverno severo, etc.
A estocasticidade genética abrange os impactos deletérios da en-
dogamia, a perda da diversidade genética e o acúmulo de mutações
sobre as espécies. A endogamia (produção de descendentes de pais
relacionados), na média, reduz a taxa de nascimentos e aumenta
a taxa de mortalidade (depressão endogâmica) nos descendentes
endogâmicos. A perda da diversidade genética reduz a habilidade
da população de adaptar-se às mudanças ambientais via seleção
natural.
A estocasticidade ambiental e demográfica, e o impacto das ca­
tástrofes, interagem com a diversidade genética e o endocruzamen-
to em seus efeitos adversos sobre as populações. Se as populações
tornam-se pequenas por alguma razão, elas tornam-se mais endo-
gâmicas, promovendo mais redução no tamanho populacional e
aumentando a endogamia. Ao mesmo tempo, populações menores
perdem variação genética (diversidade) e conseqüentemente apre­
sentam uma redução em sua habilidade de se adaptar e evoluir às
mudanças ambientais. Esta interação entre tamanho populacional
reduzido, perda da diversidade genética e endogamia é referida
como vórtex de extinção. As intrincadas interações entre os fatores
genéticos, demográficos e ambientais podem tornar bastante difícil
a identificação da(s) causa(s) imediata(s) de qualquer evento particu­
lar de extinção.
O QUE É GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO? 7

O que é genética da conservação?

Genética da conservação é o uso da teoria e técnicas da genética para


reduzir o risco de extinção das espécies ameaçadas. Seu objetivo em
longo prazo é preservar espécies como entidades dinâmicas capazes
de se adaptarem às mudanças ambientais. A genética da conservação
é derivada da genética evolutiva e da teoria da genética quantitativa
que forma a base da seleção de plantas e animais domésticos. Entretan­
to, estas teorias geralmente concentram-se sobre grandes populações
onde a constituição genética é governada por fatores determinísticos
(coeficientes de seleção, etc.). A genética da conservação é agora uma
disciplina à parte que foca nas conseqüências que surgem da redução
de uma população, uma vez grande e exogâmica, para pequenas uni­
dades onde fatores estocásticos e os efeitos da endogamia são extrema­
mente importantes.
O campo da genética da conservação também inclui o uso das aná­
lises genéticas moleculares para elucidar aspectos da biologia da espé­
cie relevantes para o seu manejo e conservação.
Os principais temas incluem:

• Os efeitos deletérios da endogamia sobre a reprodução e sobrevivên­


cia (depressão endogâmica)
• Perda da diversidade genética e da habilidade de evoluir em respos­
ta a mudanças ambientais (perda do potencial evolutivo)
• Fragmentação das populações e redução do fluxo gênico
• Maior importância dos processos estocásticos (deriva genética), em
relação à seleção natural, como o principal processo evolutivo
• Acúmulo e perda (expurgo) de mutações deletérias
• Manejo genético de pequenas populações em cativeiro e os efeitos
adversos da adaptação ao ambiente do cativeiro sobre o sucesso da
reintrodução
• Resolução de incertezas taxonômicas
• Definição de unidades de manejo dentro dos limites das espécies
• Uso de análises genéticas moleculares em questões forenses e elu­
cidação de aspectos da biologia das espécies importantes para a
conservação
Alguns exemplos são dados abaixo.

Redução do risco de extinção pela minimização da endogamia e da


perda da diversidade genética
Muitas populações pequenas e ameaçadas são endogâmicas e têm
níveis reduzidos de diversidade genética. Por exemplo, a ameaçada
puma da Flórida sofre de problemas genéticos, como evidenciado pela
baixa diversidade genética e defeitos relacionados à endogamia (pouco
esperma e anormalidades físicas). Para aliviar esses efeitos, indivíduos
do Texas de uma sub subespécie relacionada têm sido introduzidos
nesta população. Populações de cativeiro de muitas espécies ameaça­
das (por exemplo, o mico-leão-dourado) são manejadas para minimizar
a perda da diversidade genética e endogamia. Puma da Flórida
8 INTRODUÇÃO

Identificação de espécies ou populações em risco devido à redução


da diversidade genética
Os leões asiáticos existem na natureza somente em uma pequena po­
pulação na Floresta Gir, na índia, e apresentam baixos níveis de diver­
sidade genética. Conseqüentemente, o potencial evolutivo desse táxon
está severamente comprometido. Além disso, são susceptíveis a riscos
demográficos e ambientais. O pinheiro Wollemi, uma espécie Austra­
liana recentemente descoberta e conhecida anteriormente somente
por registros fósseis, não contém diversidade genética entre os indiví­
Pinheiro Wollemi
duos em centenas de locos analisados. Seu risco de extinção é extremo.
É susceptível a um fungo comum (die-back), e todos os indivíduos que
foram testados foram similarmente susceptíveis. Em conseqüência,
instituiu-se um programa que envolve manter o local de sua ocorrên­
cia em segredo, o estabelecimento de quarentena, e a propagação de
plantas em outras localidades.

Resolução da estrutura de populações fragmentadas


A informação sobre a extensão do fluxo gênico entre as populações é
crítica para determinar se a espécie requer ajuda humana para trans-
locação de indivíduos de forma a prevenir a endogamia e a perda da
diversidade genética. Populações naturais do pica-pau Picoides borealis
(red-cockaded) são fragmentadas, causando diferenciação genética entre
elas e reduzindo a diversidade genética nas populações pequenas. Con­
seqüentemente, parte do manejo dessa espécie envolve a introdução
(translocação) de indivíduos nas pequenas populações para minimizar
os riscos de endogamia e de perda da diversidade genética.
Pica-pau Picoides borealis

Resolução de incertezas taxonômicas


O status taxonômico de muitos invertebrados e plantas é freqüente-
mente desconhecido. Assim, uma espécie aparentemente com baixo
risco de extinção e amplamente distribuída pode, na realidade, compor
um complexo de espécies distintas, com algumas raras ou ameaçadas.
Na Austrália, espécies de tarântulas são aparentemente amplamente
distribuídas na floresta tropical do norte e são coletadas por comer­
ciantes. Entretanto, especialistas podem identificar, mesmo entre os
espécimes comercializados em lojas especializadas, espécies ainda não
descritas, algumas das quais podem ser nativas de regiões restritas.
Estudos similares têm mostrado que a Austrália é a casa de mais de
100 espécies de vermes-de-veludo (Peripatus) distribuídas localmente,
ao contrário das sete espécies morfológicas de ampla distribuição pre­
viamente reconhecidas. Até mesmo a tuatara, réptil único da Nova Ze­
lândia, é composto de duas espécies ao invés de apenas uma.
Da mesma forma, os marcadores genéticos podem revelar que po­
pulações que pensamos estarem ameaçadas pertencem, de fato, a es­
pécies comuns, atraindo recursos e proteção não merecidos. Análises
com marcadores moleculares têm demonstrado que o roedor colonial
ameaçado do grupo Geomys (pocket gopher) da Geórgia, USA, é indistin­
Verme-de-veludo guível de uma espécie relacionada mais comum naquela região.
O QUE É GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO? 9

Definição de unidades de manejo dentro dos limites das espécies


Populações de uma espécie podem ser adaptadas a ambientes levemen­
te diferentes e serem suficientemente diferenciadas para merecerem
um manejo como unidades separadas. Seus híbridos podem estar em
desvantagem, algumas vezes apresentando isolamento reprodutivo Salmão Oncorhynchus kisutch
parcial. Por exemplo, o salmão Oncorhynchus kisutch (e muitas outras es­
pécies de peixes) apresenta diferenciação genética entre as populações
de diferentes localidades geográficas. Isso evidencia a adaptação a dife­
rentes condições (morfologia, habilidade de natação e idade de matu­
ração). Assim, elas devem ser manejadas como populações separadas.

Detecção de hibridação
Muitas espécies raras de plantas, peixes salmonídeos e canídeos são
ameaçados por “hibridação incomum” ao cruzarem com espécies que
são abundantes no ambiente em que vivem. Análises genéticas mole­
culares têm mostrado que a espécie criticamente em perigo de lobo da
Etiópia (simian jackal) está sujeito à hibridação com os cães domésticos
locais.

Amostragem não-invasiva para análises genéticas Marsupial Lasiorhinus krefftii


Muitas espécies são difíceis de capturar, ou ficam extremamente
estressadas no processo de captura. O DNA dessas espécies pode ser
obtido de pêlos, penas, descamações de pele, fezes, etc., através de
amostragem não-invasiva, e posteriormente amplificado, de maneira
que estudos genéticos possam ser realizados sem perturbar o animal.
Por exemplo, o marsupial Lasiorhinus krefftii (hairy-noseâ wombat) do nor­
te da Austrália, criticamente em perigo, é um animal noturno que vive
em buracos e é bastante difícil de ser capturado. Sua captura deixa-os
estressados e eles aprendem a evitar as armadilhas. A amostragem tem
sido realizada colocando-se fitas adesivas na entrada de suas tocas, o
que permite a coleta de pêlos quando os animais saem destas. O DNA
obtido de forma não-invasiva pode ser usado para identificar indiví­
duos, determinar padrões de cruzamentos e estrutura populacional,
além de medir níveis de diversidade genética.

Definição de locais para reintrodução


As análises moleculares podem fornecer informações adicionais a
respeito da distribuição histórica das espécies, expandindo as possi­
bilidades para as ações conservacionistas. Por razões ecológicas, as
reintroduções devem ocorrer preferivelmente dentro da distribuição
histórica da espécie. O marsupial australiano Lasiorhinus krefftii exis­
te em uma única população de aproximadamente 100 animais em
Clermont, Queensland, Austrália. Amostras de DNA obtidas de pele
de museu identificaram uma população extinta de um marsupial em
Deniliquin, New South Wales, como pertencente a essa espécie. Assim,
Deniliquin é um local potencial para reintroduções. Similarmente,
informações resultantes da genotipagem de DNA de ossos sub-fósseis
revelaram que o pato de Laysan, atualmente classificado como em pe­
rigo, anteriormente existia em outras ilhas além de sua atual distribui­
ção nas Ilhas Havainas. Wallaby-de-pata-preta
10 | INTRODUÇÃO

Escolha das melhores populações para reintrodução


Populações de ilhas são consideradas uma fonte genética valiosa para
restabelecimento de populações no continente, particularmente na
Austrália e Nova Zelândia. Entretanto, análises genéticas moleculares
revelaram que a população do wallaby-de-pata-preta de rochedos da
Ilha Barrow, Austrália (uma fonte potencial de indivíduos para rein­
trodução no continente) apresenta variação genética extremamente
baixa e reduzida taxa reprodutiva (devido à endogamia). Algumas
populações do continente, numericamente menores e mais ameaça­
das, são geneticamente mais saudáveis e são, dessa forma, fontes mais
apropriadas de animais para reintroduções em outras localidades.
Alternativamente, o agrupamento de várias populações de diferentes
ilhas poderia proporcionar uma população geneticamente saudável e
adequada para propósitos de reintrodução.

Análise forense
Os métodos de genética molecular são amplamente aplicados para pro­
ver evidências forenses em casos de litígios. Estas incluem a detecção
de caça e coletas ilegais. A venda de carne de baleias ameaçadas para
consumo tem sido detectada através da análise de amostras no Japão e
Coréia do Sul. Seqüências de DNA mitocondrial mostraram que cerca
de 9% da carne de baleia vendida provêm de espécies protegidas, ao
invés de serem de baleias-minke caçadas legalmente. Métodos têm sido
desenvolvidos para identificar a espécie de origem usando pequenas
quantidades de DNA isolado de nadadeiras de tubarões, e trabalhos
estão em andamento para identificar a presença de ossos de tigres nos
remédios asiáticos.

Entendimento da biologia das espécies


Muitos aspectos da biologia das espécies podem ser determinados
usando análises genéticas moleculares. Por exemplo, padrões de cruza­
mento e sistemas de reprodução são freqüentemente difíceis de serem
determinados em espécies ameaçadas. Estudos usando marcadores ge­
néticos provaram que fêmeas da tartaruga marinha cabeçuda cruzam
com vários machos. O sistema de reprodução em muitas plantas tem
sido estabelecido usando-se análises genéticas. A sexagem de aves é
freqüentemente difícil, resultando em vários casos onde duas aves do
mesmo sexo foram colocadas juntas para acasalar. Métodos de genética
molecular estão agora disponíveis para a sexagem de aves sem recorrer
a cirurgias. A paternidade pode ser determinada em muitas espécies,
incluindo chipanzés. Os ursos marrons ameaçados dos Pirineus são
noturnos, reservados e perigosos. Métodos baseados na análise do DNA
de pêlos e fezes têm sido desenvolvidos para realizar o censo desses ani­
mais. Indivíduos podem ser sexados e individualmente identificados.
Conhecer os padrões de migração e dispersão é freqüentemente
crítico para assegurar a sobrevivência das espécies. Estes são difíceis de
serem diretamente determinados, mas podem ser inferidos usando-se
análises genéticas.
Cada um desses aspectos será explicado nos capítulos que se
seguem.
LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Um amplo
livro texto de Genética da Conservação. O capitulo 1 traz um texto
estendido desses tópicos, além de referências.
IUCN. 2002. Red List of Threatened Species. Página com detalhes do
sistema de categorização internacional reconhecido pela IUCN para
designação de espécies ameaçadas, além de um sumário atual da
proporção de espécies ameaçadas nos principais grupos; listas de
categorização para animais e links para um banco de dados de plantas.
Leakey, R. & R. Lewin. 1995. The Sixth Extinction: Biodiversity and its Survival.
Phoenix, London. Uma contagem sobre a crise da biodiversidade
redigida a partir de uma audiência pública.
Meffe, G. K. & C. R. Carroll. 1997. Principles of Conservation Biology, 2nd
edn. Sinauer, Sunderland, MA. Livro texto básico em biologia da
conservação com uma razoável cobertura de tópicos genéticos.
Primack, R. B. 2002. Essentials of Conservation Biology, 3rd edn. Sinauer,
Sunderland, MA. Livro texto básico em biologia da conservação com
boa porém limitada cobertura de tópicos genéticos.
Capítulo 2

Diversidade Genética
A diversidade genética é necessária para as populações se
adaptarem às mudanças ambientais. Populações grandes de
espécies naturalmente exogâmicas geralmente têm ampla
diversidade genética, mas esta é tipicamente reduzida nas espécies
em perigo.

Um jabuti de Galápagos e um
eletroferograma produzido por um
sequenciador de DNA ilustrando
a diversidade genética em um loco
de microssatélite entre indivíduos
dessa espécie
IMPORTÂNCIA DA DIVERSIDADE GENÉTICA 13

Importância da diversidade genética

A IUCN, a primeira organização internacional para a conservação,


reconhece a necessidade de conservar a diversidade genética como
uma das três prioridades globais de conservação. Existem dois aspec­
tos principais e relacionados. Primeiro, a mudança ambiental é um
processo contínuo e a diversidade genética é necessária para as popu­
lações evoluírem e se adaptarem a tais mudanças. Segundo, a perda da
diversidade genética está geralmente associada com a endogamia e a
redução geral na reprodução e sobrevivência (valor adaptativo).
Programas de reprodução em cativeiro e manejo da vida silvestre
geralmente reconhecem a importância de minimizar a perda da diver­
sidade genética e a endogamia. As ações de manejo para populações
em cativeiro incluem a consulta a genealogias para o estabelecimento
de casais para a reprodução ou para a escolha de indivíduos para rein-
trodução na natureza. Os níveis de diversidade genética são analisados
e monitorados nas populações selvagens de espécies em perigo, e o
fluxo gênico entre populações isoladas pode ser aumentado.
Este capítulo discute a base dos dois principais aspectos relaciona­
dos à diversidade genética, define o que ela é, descreve métodos para
medi-la e faz uma revisão das evidências de sua amplitude nas espécies
que estão ou não em perigo.

O que é a diversidade genética?

A diversidade genética é manifestada por diferenças em muitos carac­


teres, incluindo a cor dos olhos, da pele e do cabelo nos humanos, cor
e padrões de bandamento das conchas dos caracóis, cor das flores nas
plantas, e diferenças nas proteínas, enzimas e seqüências de DNA de
quase todos os organismos.
Os genes são seqüências de nucleotídeos em uma região particular
(loco) de uma molécula de DNA. A diversidade genética representa se­
qüências ligeiramente diferentes. Por sua vez, variantes da seqüência
do DNA podem ser expressas em diferenças na seqüência de aminoá-
cidos da proteína codificada pelo loco. Tal variação na proteína pode
ocasionar diferenças em funções bioquímicas, morfológicas ou com-
portamentais que causam diferenças nas taxas reprodutivas, de sobre­
vivência ou no comportamento dos indivíduos.
A terminologia usada para descrever a diversidade genética é defi­
nida na Tabela 2.1. A diversidade genética é geralmente descrita usan­
do polimorfismo, heterozigosidade média e diversidade alélica. Por
exemplo, a análise eletroforética de aloenzimas (ver adiante) em leões
Africanos revelou que seis dos 26 locos que codificam proteínas (23%)
eram variáveis (polimórficos), 7,1% dos locos, em média, eram hetero-
zigotos, e que existia uma média de 1,27 alelos por loco (diversidade
alélica). Estes níveis de diversidade genética são típicos de variação
eletroforética para mamíferos não ameaçados. Ao contrário, leões Asi­
áticos em perigo têm pouca diversidade genética. Leão Asiático
14 DIVERSIDADE GENÉTICA

Medindo a diversidade genética


Técnicas moleculares tais como eletroforese de aloenzimas ou genoti-
pagem de microssatélites (ver abaixo) medem a diversidade genética
em locos individuais.
MEDINDO A DIVERSIDADE GENÉTICA 15

Tabela 2.2 I Números e freqüências para cada genótipo do loco que


codifica a proteína da clara do ovo em patos-eider da Escócia. Os
indivíduos foram genotipados por eletroforese de proteínas. R refere-se
ao alelo de migração mais rápida e L ao mais lento

Fonte: Milne & Robertson (1965).

Pato-eider
As informações que coletamos fornecem os números de cada genótipo
num loco. Isso é ilustrado para o loco de uma proteína da clara do
ovo do pato-eider escocês, uma espécie que foi severamente reduzida
devido a caça para obtenção de penas para a confecção de travesseiros
(Tabela 2.2). As freqüências genotípicas são calculadas a partir da pro­
porção de cada genótipo na amostra total (por exemplo, freqüência
genotípica de RR = 37/67 = 0,552).
Os resultados são geralmente descritos na forma de freqüências
alélicas, ao invés de freqüências genotípicas. Usamos as letras p e q
para representar as freqüências relativas para os dois alelos no loco. A
freqüência do alelo R (p) é simplesmente a proporção de todos os alelos
examinados que são R. Note que dobramos o número de cada homo-
zigoto e do total, uma vez que os patos são diplóides (cada ave herdou
uma cópia do loco de cada um dos pais).

( 2. 1)

O cálculo no Exemplo 2.1 mostra que 73% dos alelos nesse loco corres­
pondem ao alelo R e 27% ao L.
16 I DIVERSIDADE GENÉTICA

A medida da diversidade genética em um loco é expressa como hete-


rozigosidade. A heterozigosidade observada (HJ é simplesmente a pro­
porção dos indivíduos amostrados que são heterozigotos. Por exemplo,
a freqüência de heterozigotos no loco da proteína da clara do ovo no
pato-eider é 24/67 = 0,36 (Tabela 2.2). Em geral, quando comparamos a
amplitude da diversidade genética entre populações ou espécies usa­
mos a heterozigosidade média (Tabela 2.1).

Diversidade Alélica
O número médio de alelos por loco (diversidade alélica) também é usa­
do para caracterizar o nível de diversidade genética. Por exemplo, exis­
tem dois alelos no loco determinando diferenças na proteína da clara
do ovo nos patos-eider e três alelos num loco de microssatélite nos
tentilhões-de-Laysan, descrito adiante no Exemplo 2.2. Quando mais de
um loco é estudado, a diversidade alélica (A) é a média do número de
alelos de todos os locos (Tabela 2.1). Por exemplo, o leão Africano tem
um total de 33 alelos em 26 locos de aloenzimas amostrados, então
A = 33/26 = 1,27.
Examinemos agora os fatores que influenciam as freqüências dos
alelos e genótipos em uma população, e a relação entre as freqüências
alélicas e genótipicas sob o pressuposto de união aleatória dos gametas
(equivalente ao cruzamento ao acaso).

Equilíbrio de Hardy-Weinberg
Vamos iniciar com o caso mais simples - o de uma população gran­
de onde o cruzamento é ao acaso e não existe mutação, migração ou
seleção. Neste caso, a freqüência dos alelos e genótipos atinge um
equilíbrio depois de apenas uma geração. O equilíbrio é chamado de
equilíbrio de Hardy-Weinberg, em homenagem a seus propositores.
Embora simples, o equilíbrio de Hardy-Weinberg é crucial na genéti­
ca da conservação e genética evolutiva. Ele proporciona a base para
detectar desvios do acasalamento ao acaso, para testar a ocorrência
de seleção, modelar os efeitos da endogamia e seleção, e estimar as
freqüências alélicas em locos que mostram dominância.
Este caso simples pode ser apresentado como um modelo matemá­
tico que mostra as relações entre as freqüências dos alelos e genóti­
pos. Assuma que estamos trabalhando com um loco com dois alelos
A1 e A2 com freqüências relativas de p e q ( p + q = t ) numa população
grande onde os cruzamentos ocorrem ao acaso. Imagine organismos
marinhos hermafroditas (no qual cada indivíduo libera esperma e
ovos) espalhando seus gametas na água, de maneira que espermatozói­
des e ovos unem-se ao acaso (Tabela 2.3). Uma vez que a freqüência do
alelo A1 na população é p , a freqüência dos espermatozóides ou ovos
carregando este alelo também é p . A probabilidade de um espermato­
zóide carregando A1 unir-se com um ovo carregando o mesmo alelo e
produzir um zigoto A1A1 é, portanto, p * p = p 2 , e a probabilidade de
um espermatozóide \ fertilizar um ovo A2, para produzir um zigoto
A2A2 é, da mesma forma, q x q = q 2 . Zigotos heterozigotos podem ser
produzidos de duas formas, não interessando qual gameta contribui
EQUILÍBRIO DE HARDY-WEINBERG 17

com qual alelo, e sua freqüência esperada é, portanto, 2 * p * q = 2pq.


Conseqüentemente, as freqüências genotípicas esperadas para os zi-
gotos AjAj, AjA2 e A2A2, são p2, 2pq e q2, respectivamente. Estas são as
freqüências genotipicas do equilíbrio de Hardy-Weinberg.

Tabela 2.3 I Freqüências genotípicas resultantes da união ao acaso de


gametas para um loco autossômico

Ovo

As freqüências genotípicas resultantes na progénie são


AjAj A,A2 A2A2
P2 2pq q2
Estas são as freqüências genotípicas do equilíbrio de Hardy-Weinberg.
Note que as freqüências genotípicas somam um,
isto é, p2 + 2pq + q2 = (p + q)2 -1.

Se as freqüências dos alelo$ A, e A2 são 0,9 e 0,1, então


as freqüências genotípicas no equilíbrio de Hardy-Weinberg são:

As freqüências dos dois alelos não mudaram, indicando que as fre­


qüências alélicas estão em equilíbrio. Conseqüentemente, as freqüên­
cias alélicas e genotípicas estão em equilíbrio depois de uma geração
de cruzamento ao acaso e se mantêm assim perpetuamente na ausên­
cia de outros fatores.
O equilíbrio de Hardy-Weinberg é esperado para todos os locos,
exceto para aqueles localizados nos cromossomos sexuais. Esses locos
ligados ao sexo possuem diferentes doses de locos em machos e fêmeas
e têm um equilíbrio de Hardy-Weinberg que difere daquele de outros
locos não ligados ao sexo (locos autossômicos).
A relação entre as freqüências alélicas e genotípicas de acordo com
o equilíbrio de Hardy-Weinberg é mostrada na Fig. 2.1. A figura ilustra
dois pontos. Primeiro, as freqüências dos heterozigotos não podem ser
maiores do que 0,5 (50%) para um loco com dois alelos. Isso ocorre
quando ambos os alelos têm freqüências de 0,5. Segundo, quando um
alelo é raro, a maioria de suas cópias está em heterozigose, enquanto
que, quando esse alelo está em alta freqüência muitos deles estão em
homozigose.
18 DIVERSIDADE GENÉTICA

Para obter o equilíbrio de Hardy-Weinberg nós assumimos:


• Um tamanho populacional grande
• Uma população fechada (sem migração)
• Ausência de mutação
• Segregação Mendeliana normal dos alelos
• Igual fertilidade dos genótipos dos pais
• União dos gametas ao acaso
• Igual capacidade de fertilização dos gametas
• Igual sobrevivência de todos os genótipos
Na Tabela 2.4, as freqüências genotípicas para o loco da proteína da
clara do ovo do pato-eider são comparadas com as freqüências do equi­
líbrio de Hardy-Weinberg. Os valores de p e q, calculados previamente,
são usados para calcular p2, 2pq, e q2. Essas freqüências são então multi­
plicadas pelo número total (67) para obterem-se os números esperados
para os três genótipos.
Os números observados para cada genótipo são muito próximos
dos números esperados em equilíbrio de Hardy-Weinberg. Em geral,
em populações naturais grandes e exogâmicas (mais ou menos de re­
produção ao acaso), encontramos concordância com as expectativas
para a maioria dos locos. Isto não significa que os locos não estejam
sujeitos à mutação, migração, seleção e efeitos de amostragem, mas
somente que estes efeitos são freqüentemente muito pequenos para
serem detectados com tamanhos amostrais realísticos.

Tabela 2.4 I Comparação das freqüências genotípicas observadas com as esperadas no equilíbrio de Hardy-

Desvios do equilíbrio de Hardy-Weinberg


Quando qualquer um dos pressupostos que compõem a base do equi­
líbrio de Hardy-Weinberg (ausência de migração, seleção ou mutação,
e união ao acaso dos gametas) é violado, então irão ocorrer desvios do
equilíbrio das freqüências genotípicas. Dessa forma, o equilíbrio de
Hardy-Weinberg proporciona uma hipótese nula que permite detec­
tar se a população não apresenta reprodução ao acaso, se esta ocor­
rendo migração ou seleção. Trataremos disso neste e nos próximos
capítulos.

Heterozigosidade esperada
A diversidade genética num loco é caracterizada pela heterozigosidade
esperada, heterozigosidade observada e diversidade alélica. Para um
EQUILÍBRIO DE HARDY-WEINBERG 19

loco com dois alelos com freqüências p e q, a heterozigosidade espera­


da é H = 2pq (também chamada de diversidade gênica). Quando exis­
tem mais que dois alelos, é mais simples calcular a heterozigosidade
esperada como sendo um menos a soma do quadrado das freqüências
dos alelos:

onde pi é a freqüência do alelo i. Geralmente prefere-se descrever a H


ao invés da heterozigosidade observada.
O Exemplo 2.2 ilustra os cálculos da heterozigosidade esperada
para um loco de microssatélite nos tentilhões-de-Laysan. A heterozigo­
sidade esperada, baseada nas freqüências alélicas desse loco, é 0,663.

Exemplo 2.2 Cálculo da heterozigosidade esperada para um loco de


microssatélite no ameaçado tentilhão-de-Laysan (Tarr et al.
1998)

As freqüências alélicas para três alelos são 0,364, 0,352 e 0,284,


respectivamente. Conseqüentemente, a heterozigosidade esperada em
equilíbrio de Hardy-Weinberg é
H = 1 - (0,3642 + 0,3522 + 0,2842) = 1 - (0,1325 + 0,1239 + 0,0807) = 0,663
Nesse loco, as heterozigosidades observada e esperada de 0,659 e 0,663
são muito similares.

Para determinar o potencial evolutivo de uma espécie, é necessá­


rio estimar a amplitude da diversidade genética considerando todos
os locos no genoma. É improvável que a informação sobre um único
loco de uma espécie represente precisamente a diversidade genética
para todos os locos. Por exemplo, os mamíferos possuem ao redor de
35000 locos funcionais. Conseqüentemente, as medidas de diversidade
genética (Ho, HJ são provenientes da média de muitos locos amostra­
dos aleatoriamente. Como descrito acima, a heterozigosidade média
detectada usando eletroforese de proteínas para 26 locos nos leões
Africanos é 7,1%.

Estimativa da freqüência de um alelo recessivo


Usando o método de contagem de alelo descrito acima, não é possível
determinar a freqüência de um alelo que mostre dominância num
loco, uma vez que os homozigotos (AA) não podem ser fenotipicamen-
te distinguidos dos heterozigotos (Aa). Entretanto, o equilíbrio de Har-
dy-Weinberg proporciona um meio de estimar as freqüências de tais
alelos. Homozigotos recessivos (aa) são fenotipicamente distinguíveis e
têm, para um loco em equilíbrio de Hardy-Weinberg, uma freqüência
esperada de q2. Assim, a freqüência do alelo recessivo pode ser estima­
da como a raiz quadrada dessa freqüência. Por exemplo, a freqüên­
cia do nanismo associado à distrofia de cartilagem dos ossos longos
no condor da Califórnia, uma espécie em perigo de extinção, é 0,03,
20 DIVERSIDADE GENÉTICA

Extensão da diversidade genética


Populações grandes de espécies exogâmicas geralmente contêm uma
grande quantidade de diversidade genética. Esta é manifestada nas
variações morfológicas, comportamentais e fisiológicas em muitas
populações. Esta variação é composta tanto de variações sem base ge­
nética, resultante da influência ambiental sobre os indivíduos, como
por variações com base genética devidas às diferenças nos alelos e na
heterozigosidade em muitos locos. Um exemplo desta grande quan­
tidade de diversidade genética inerente a uma espécie é a variedade
de raças de cachorros que têm sido produzidas a partir do genoma do
lobo (Fig. 2.2). Com exceção de umas poucas mutações, a variedade
de raças de cachorros reflete a amplitude da diversidade genética que
estava presente nos lobos ancestrais.
EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 21

A diversidade genética pode ser medida em diferentes níveis. Isto


inclui a diversidade em caracteres mensuráveis (variação quantitativa),
os efeitos diretos visíveis dos alelos deletérios, variação nas proteínas,
e medidas diretas da variação nas seqüências de DNA.

Variação quantitativa
Os caracteres de maior importância na conservação são aqueles que
determinam a saúde e o sucesso reprodutivo dos organismos. Estes in­
cluem atributos como número de descendentes produzidos, produção
de sementes nas plantas, habilidade de acasalamento, longevidade,
taxa de crescimento, comportamentos para evitar predadores, peso
corporal, altura, força, etc. Coletivamente, esses tipos de característi­
cas são chamados de caracteres quantitativos. Virtualmente todos os
caracteres quantitativos numa espécie exogâmica exibem diversidade
genética. Por exemplo, diversidade genética tem sido encontrada para
caracteres reprodutivos (produção de ovos nas galinhas, número de
descendentes em carneiros, camundongos, porcos e moscas de frutas,
produção de sementes em plantas, etc.), para taxa de crescimento no
tamanho (em gado, porcos, camundongos, galinhas, moscas de fruta e
plantas), para composição química (conteúdo de gordura em animais,
níveis de proteínas e de óleo no arroz), para comportamento (em in­
setos e mamíferos) e para resistência a doenças em plantas e animais.
Características quantitativas são determinadas por muitos locos (locos
de caracteres quantitativos, ou QTL).
A diversidade genética para um caráter quantitativo é geralmente
determinada medindo-se as similaridades do caráter entre muitos
indivíduos relacionados e determinando a proporção da variação
fenotípica que é herdável (herdabilidade). Discutiremos isto no Ca­
pítulo 3.

Alelos deletérios
A amplitude da diversidade encontrada nas populações que é atribu­
ível a alelos deletérios é critica em biologia da conservação porque
esses alelos reduzem a viabilidade e o sucesso reprodutivo quando
ocorrem em homozigose devido ao endocruzamento. Alelos deletérios
são constantemente gerados por mutações e removidos pela seleção.
Conseqüentemente, todas as populações exogâmicas contêm alelos
raros deletérios (carga genética). Geralmente eles ocorrem em freqü-
ência menor que 1%. São exemplos as síndromes genéticas humanas
raras, tais como fenilcetonúria, albinismo e doença de Huntington.
Síndromes equivalentes existem nas populações selvagens de plantas
e animais. Por exemplo, mutações que levam a ausência de clorofila
são encontradas em muitas espécies de plantas. Uma gama de defeitos
com bases genéticas têm sido descritas em muitos animais que estão
em perigo (nanismo no condor da Califórnia, má absorção de vitamina
E no cavalo-de-Przewalski, criptorquidismo e defeitos cardíacos fatais
na pantera da Florida, ausência de testículos em coalas e ausência de
pelagem nos lêmures vermelho-com-colar (red-ruffeâ lemur).
22 DIVERSIDADE GENÉTICA

Proteínas
A primeira medida de diversidade genética molecular foi feita em 1966
pelo estudo da variação alélica em locos que codificam para proteínas
solúveis. A técnica usada para distinguir as variantes é a eletrofore­
se, a qual separa as moléculas de acordo com a sua carga elétrica e
massa molecular em um gradiente de potencial elétrico (Quadro 2.1).
Entretanto, somente cerca de 30% das mudanças no DNA resultam em
mudanças nas cargas das proteínas, de maneira que essa técnica subes­
tima significativamente a medida total da diversidade genética.
A eletroforese de proteínas é tipicamente realizada usando-se amos­
tras de sangue, fígado ou rim em animais, ou folhas e pontas de raízes
nas plantas, uma vez que estes contêm ampla quantidade e variedades de
proteínas solúveis. Conseqüentemente, os animais devem ser capturados
para obterem-se amostras de sangue, ou mortos para obterem-se amostras
de fígado ou rim. Estas práticas são indesejáveis para espécies em perigo.
Proteínas solúveis são moléculas relativamente frágeis e as técnicas para
o seu estudo, ao contrário das técnicas para estudo do DNA, requerem
amostras frescas ou recém-congeladas logo após sua obtenção.
As primeiras análises de variações eletroforéticas, em humanos e
moscas de frutas, surpreendentemente revelaram altos níveis de di­
versidade genética. Resultados similares são encontrados para muitas
espécies que possuem tamanhos populacionais grandes. Por exemplo,
em humanos (baseado em 104 locos) 32% dos locos são polimórficos
com uma heterozigosidade média de 6%. A Tabela 2.5 sumariza as
heterozigosidades de aloenzimas para vários grupos taxonômicos
principais. A heterozigosidade média (H) dentro das espécies é menor
nos vertebrados (6,4%) do que nos invertebrados (11,3%), possivelmente
devido ao menor tamanho populacional nos vertebrados.

Tabela 2.5 I Diversidade genética de aloenzimas em diferentes táxons. H


é a heterozigosidade média das populações
H
Vertebrados

Fonte: Hamrick & Godt (1989); Ward et al. (1992).


EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 23

Quadro 2.1 Medindo a diversidade genética em proteínas usando eletroforese


de aloenzimas

A seqüência de aminoácidos que compõem uma proteína é determinada


pela seqüência de bases no DNA que codifica aquela proteína. Uma parte das
mudanças de bases que ocorrem no DNA resulta na mudança de aminoácido
na posição correspondente da proteína. Como cinco dos 20 aminoácidos que
ocorrem naturalmente são eletricamente carregados (lisina, arginina e histidina [+],
ácido glutâmico e ácido aspártico [-]), aproximadamente 30% das substituições de
bases resultam em mudanças na carga elétrica da proteína. Essas mudanças podem
ser detectadas separando-se as proteínas em um gradiente de potencial elétrico
e posteriormente visualizando-as através do uso de coloração histoquímica loco-
específica. Este processo é chamado de eletroforese de aloenzimas. Por exemplo,
se o DNA nos alelos de um loco tem as seqüências:

A proteína à direita irá migrar mais lentamente em direção ao ânodo em um


gradiente de potencial elétrico devido â substituição do aminoácido glicina (gly),
que não possui carga elétrica, pelo aminoácido ácido aspártico (asp), de carga
negativa.

Posição inicial
das proteínas

Posições das
proteínas após
migração

Um aparato de gel de eletroforese (depois de Hedrick 1983). Os extratos de proteínas


solúveis são colocados em posições espaçadas ao longo do topo do gel. Um gradiente de
potencial elétrico aplicado ao gel causa a migração das proteínas através do gel. Proteínas
codificadas pelo mesmo loco gênico, mas com diferentes cargas, migram para posições
diferentes (R-rápida vs. L-lenta), permitindo a identificação de diferentes alelos num
loco. Proteínas de locos específicos são detectadas através de sua atividade enzimática
utilizando-se colorações histoquímicas.
24 DIVERSIDADE GENÉTICA

DNA
Coleta de amostras de DNA para medidas de diversidade genética
Qualquer material biológico contendo DNA pode ser usado para medir
a diversidade genética com técnicas moleculares modernas. São apro­
priados, por exemplo, pêlos soltos, pele, penas, fezes, urina, cascas de
ovos, sangue, tecidos, saliva e sêmen. Peles de museu e tecidos preser­
vados proporcionam material adequado e até mesmo fósseis podem
ser genotipados. Os únicos requisitos são que as amostras contenham
algum DNA não degradado e que não exista contaminação com DNA
de outros indivíduos ou espécies proximamente relacionadas.

Amplificação do DNA usando a PCR


Muitos métodos atuais utilizados para medir a diversidade do DNA
baseiam-se na reação em cadeia da polimerase (PCR), a qual permite
a amplificação no laboratório de seqüências especificas do DNA, fre-
qüentemente a partir de pequenas amostras iniciais (Fig. 2.3).

DNA isolado

Ciclo I
Desnaturação e Primer
anelamento do primer
íi
Extensão das fitas

Repetições
do ciclo

etc.
EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 25

A grande vantagem de medir a diversidade no DNA, ao contrário


da variação na proteína, é que a amostragem pode freqüentemente ser
realizada de forma não-invasiva e os genótipos podem ser identifica­
dos após a amplificação do DNA. Uma vez que amostras extremamente
pequenas de DNA (tão pequenas quanto o conteúdo de uma única cé­
lula) podem ser amplificadas milhões de vezes pela PCR, somente mi­
núsculas amostras biológicas são agora necessárias para a realização
das análises genéticas moleculares. Isto contrasta com a eletroforese
de proteínas onde os animais devem ser capturados ou mortos para
obterem-se as amostras. Conseqüentemente, o desenvolvimento de
metodologias de amostragem ‘remota’ representa um grande avanço
para as espécies de interesse na conservação.
Para amplificar um segmento de DNA de interesse, regiões con­
servadas específicas em cada um dos lados desse segmento devem ser
identificadas para permitir o desenvolvimento de iniciadores para as
reações de PCR. O segmento a ser amplificado é definido pelos inicia­
dores e encontra-se entre eles. As seqüências dos iniciadores podem
freqüentemente ser deduzidas das informações de seqüências publi­
cadas para o DNA mitocondrial (DNAmt), mas freqüentemente devem
ser desenvolvidas para os locos nucleares, especialmente para micros-
satélites (veja abaixo). Iniciadores desenvolvidos para uma espécie po­
dem também funcionar numa espécie proximamente relacionada. Por
exemplo, iniciadores humanos geralmente funcionam em chimpan­
zés, e alguns dos iniciadores dos ruminantes domésticos funcionam
na gazela da Arábia, que está em perigo.
Existe uma série de técnicas disponíveis para medir direta ou indi­
retamente a variação na seqüência de bases do DNA, e novos métodos
são desenvolvidos regularmente (Quadro 2.2). O seqüenciamento do
DNA é conduzido rotineiramente, especialmente para propósitos taxo-
nômicos. Os microssatélites (número variável de repetições curtas em
tandem) tornaram-se os marcadores de escolha para estudos popula­
cionais. Os microssatélites apresentam vantagens sobre os outros mé­
todos disponíveis para se avaliar o polimorfismo do DNA uma vez que
eles são altamente variáveis, genótipos individuais podem ser direta­
mente inferidos, e indivíduos podem ser genotipados após amostragem
não-invasiva. Eles têm a desvantagem de que novos iniciadores devem
ser desenvolvidos para cada espécie, embora iniciadores de espécies
relacionadas irão freqüentemente funcionar em ambas espécies.

Quadro 2.2 | Técnicas para medir a diversidade genética no DNA

MICROSSATÉLITES: REPETIÇÕES DE SEQÜÊNCIAS SIMPLES (SSR) OU


REPETIÇÕES CURTAS EM TANDEM (STR)

Locos de microssatélites são repetições em tandem de pequenos motivos de


DNA, que tipicamente apresentam tamanho entre I -5 bases. Como exemplo, são
mostradas seqüências de DNA com as bases CA repetidas 7 e 9 vezes. Repetições
CA são encontradas em muitas espécies. O número de repetições de microssatélites
é muito variável devido a ‘escorregões’ durante a replicação do DNA. Abaixo são
ilustrados as seqüências da fita dupla do DNA de três genótipos, dois homozigotos
diferentes e um heterozigoto, junto com seus padrões de bandas visto em gel
de eletroforese. X e Y são seqüências conservadas de DNA que flanqueiam a
repetição do microssatélite e que representam os sítios de ligação dos iniciadores.
A diversidade dos microssatélites é detectada pela amplificação do DNA usando
PCR. Seqüências únicas conservadas (iniciadores) flanqueando os microssatélites são
usadas para especificar a região do DNA a ser amplificada. Os fragmentos de DNA
resultantes são separados de acordo com o tamanho usando eletroforese em gel
de acrilamida ou agarose. Após a separação, os fragmentos são detectados por ( I )
géis corados com brometo de etídio (um corante de DNA), (2) uso de iniciadores
marcados radioativamente e autoradiografia de géis, ou (3) uso de iniciadores
marcados com fluorescência e separação do produto da PCR em seqüenciador
automático de DNA. Como mostrado acima, se um indivíduo é heterozigoto para
dois alelos de microssatélites que apresentam números diferentes de repetições,
serão detectadas duas bandas de diferentes tamanhos.
Os microssatélites medem a variação genética para locos que são neutros
(não sujeitos a seleção) uma vez que as repetições em tandem estão geràlmente
localizadas em segmentos não-codantes do DNA.

FINGERPRINT DE DNA: MINISSATÉLITES OU NÚMERO VARIÁVEL DE


REPETIÇÕES EM TANDEM (VNTR)
Seqüências com número variável de repetições em tandem são encontrados por
todo o genoma de humanos e outros eucariotos. Essas seqüências de minissatélites
têm seqüências centrais de repetição com tamanhos variáveis de 10-100 bases
(isto é, são maiores do que os microssatélites). A tipagem de indivíduos para
um fingerprint de DNA resulta em um ‘código de barras’, onde cada indivíduo é
geralmente único. Para identificar minissatélites, o DNA é purificado, cortado com
uma enzima de restrição que corta fora da repetição, liberando o fragmento de
DNA minissatélite, e o DNA fragmentado é separado de acordo com o tamanho
em um gel de agarose. As duas fitas dos fragmentos de DNA são separadas
(desnaturadas) e transferidas para uma membrana (Southern blotting). A membrana
com o DNA aderido é colocada em uma solução contendo muitas cópias de DNA
de fita simples da seqüência central de repetição marcado radioativamente (sonda).
As sondas radioativamente marcadas ligam-se (hibridam-se) a fragmentos de
minissatélites sobre a membrana por complementaridade de pareamento de bases.
As sondas de DNA fita simples não hibridadas são retiradas através de lavagens, a
membrana é secada e a posição dos minissatélites é revelada por autoradiografia.
O número de repetições é altamente variável, de forma que cada indivíduo
em espécies exogâmicas normalmente tem um fingerprint de DNA único (com
exceção dos gêmeos idênticos). São ilustrados abaixo três genótipos para um único
loco de minissatélites e os seus padrões de bandas no gel. b’ representa uma única
repetição da seqüência central. Muitos desses locos são tipados simultaneamente,
resultando em um padrão de bandas equivalentes a um código de barras.
EXTENSÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 27

Os fingerprints de DNA são altamente variáveis, identificam a variação do DNA


nuclear sob uma ampla faixa de locos, e não necessitam de conhecimento a priori
da seqüência de DNA nas espécies a serem genotipadas. As desvantagens são
que os locos não são normalmente identificáveis separadamente, uma vez que os
fragmentos derivam de muitos locais diferentes no genoma. A herança das bandas
não é definida e, por requerer uma considerável quantidade de DNA, essa técnica
não pode ser usada em casos de amostragem não-invasiva. Atualmente o fingerprint
de DNA está sendo substituído por métodos que permitam a amostragem
não-invasiva e seguida pela análise por PCR, tais como microssatélites, AFLP ou
RAPDs.

SEQÜENCIAMENTO DE DNA
A maneira mais direta para medir a diversidade genética é determinar a seqüência
de bases do DNA. Isto é geralmente feito usando-se seqüenciadores de DNA.
O seqüenciamento ainda é relativamente demorado e caro, e tem sido usado
primariamente para propósitos taxonômicos, onde o DN Amt e/ou locos nucleares
são seqüenciados para um pequeno número de indivíduos. Entretanto, melhorias
técnicas têm reduzido marcadamente os custos e o tempo para o seqüenciamento
de DNA, como é evidente no Projeto Genoma do DNA Humano e em esforços
similares para outras espécies.

OUTROS MÉTODOS
Outros métodos, incluindo polimorfismo de tamanho em fragmento de restrição
(RFLP), polimorfismo de DNA amplificado ao acaso (RAPD), polimorfismo de
tamanho em fragmento amplificado (AFLP), polimorfismo de conformação em fita
simples (SSCP) e polimorfismo de um único nucleotídeo (SNP) são detalhados em
Frankham et al. (2002).

DNA Mitocondrial (DNAmt)


A mitocôndria possui uma pequena molécula de DNA circular que é
maternalmente herdada (da mãe para a prole) na maioria das espécies.
O DNAmt é relativamente abundante, uma vez que existem muitas mi-
tocôndrias por célula, e é de fácil purificação. A diversidade genética
nesse DNA pode ser detectada através de diversos métodos, incluindo
cortes com enzimas de restrição (RFLP), SSCP e seqüenciamento (Qua­
dro 2.2). Já estão disponíveis iniciadores para vários locos do DNAmt
que funcionam para muitas espécies. Esses locos podem ser amplifica­
dos via PCR e os produtos seqüenciados. O seqüenciamento do DNAmt
tem algumas vantagens sobre outras técnicas, como o fato de poder ser
utilizado após uma amostragem não-invasiva, apresentar uma alta taxa
de mutação e ser altamente variável, e poder ser usado para rastrear
especificamente a linhagem feminina dos descendentes ou os padrões
de migração. Sua desvantagem é que investiga somente a unidade de
herança materna. Nos Capítulos 6 e 9 apresentaremos considerações
28 DIVERSIDADE GENÉTICA

adicionais sobre a variação do DNAmt, considerando que seu principal


uso na conservação está na resolução de incertezas taxonômicas, na
definição de unidades de manejo, e no auxílio ao entendimento de
aspectos importantes da biologia das espécies.
O DNA dos cloroplastos das plantas pode ser usado para propostas
similares.

Níveis de diversidade genética no DNA


O primeiro estudo extensivo da variação na seqüência do DNA em
um loco numa população foi realizado para o loco do gene álcool de-
sidrogenase (Adh) em moscas de frutas. Entre 11 amostras, 43 sítios
foram polimórficos ao longo de 2379 pares de bases. A maioria das mu­
danças de base (42/43) não resultou em substituições de aminoácidos
(isto é, são silenciosas, ou substituições sinônimas) uma vez que elas
ocorriam em regiões não-codantes dos locos (íntrons), ou envolviam
a terceira posição do códon que determinava o aminoácido. Tais va­
riações não são detectadas pela eletroforese das proteínas. Variações
de seqüências no loco da Adh foram ainda maiores em duas espécies
de plantas exogâmicas da família Brassica do que a encontrada nas
moscas de frutas.
Os maiores níveis de diversidade genética no DNA são tipicamente
encontrados nas seqüências com pouco significado funcional. Essas va­
riantes ou não codificam para produtos funcionais, ou as substituições
não mudam as funções das moléculas, isto é, não são fenotipicamen-
te expressas. Dessa forma, a seleção não atua contra tais mudanças.
Inversamente, a menor diversidade genética é encontrada em regiões
moleculares funcionalmente importantes, tais como os sítios ativos
das enzimas. Muito do DNA em um organismo não codifica para pro­
dutos funcionais.
Existem duas exceções importantes para a generalização de que o
polimorfismo é menor em regiões com funções importantes. Essas são
o complexo de histocompatibilidade principal (MHC - uma grande fa­
mília de genes que desempenham um papel central no sistema imune
dos vertebrados e no combate a doenças) e os locos de auto-incompa­
tibilidade (SI) em plantas. Ambas as regiões têm níveis extremamente
altos de diversidade genética devido à seleção natural que favorece
diferenças entre indivíduos dentro das populações.
Os microssatélites são atualmente usados rotineiramente para
medir a diversidade genética em uma variedade de espécies, muitas
delas em perigo. Tipicamente eles mostram altos níveis de polimorfis­
mo e muitos alelos por loco. Por exemplo, repetições CA são comuns
e freqüentemente variam em número de repetições dentro de uma
população. Tal diversidade tem sido encontrada em todas as espécies
até agora examinadas. Dados de uma pesquisa sobre a variação de mi­
crossatélites em oito locos em 39 chimpanzés selvagens detectaram
uma média de 5,75 alelos por loco e uma heterozigosidade média de
0,70 (Tabela 2.6). O poder de resolução dos microssatélites permite a
determinação de paternidades e a detecção de migrantes, geralmente
impossível de ser realizado com a resolução das aloenzimas.
BAIXA DIVERSIDADE GENÉTICA EM ESPÉCIES AMEAÇADAS 29

Tabela 2.6 I Variação em oito locos de microssatélites em 39 chimpanzés


selvagens do Parque Nacional Gombe, Tanzânia. São dadas as freqüências
alélicas em cada um dos oito locos, com as proporções de heterozigosidade
individual (H) para cada loco e o número médio de alelos por loco (A)

Baixa diversidade genética em espécies ameaçadas

A abundante diversidade genética encontrada em populações grandes


contrasta com a encontrada em muitas populações pequenas ou popu­
lações que sofreram gargalo. Por exemplo, o elefante marinho do norte
foi caçado até quase a extinção, mas subseqüentemente se recuperou
do gargalo em seu tamanho populacional. Esta espécie não exibe va­
riação em aloenzimas e possui nível substancialmente reduzido de va­
riação em microssatélites em comparação a espécies relacionadas que
não passaram por um gargalo.
A maioria das espécies ameaçadas tem menor diversidade genética
do que espécies relacionadas não ameaçadas, com grande tamanho
populacional (Tabela 2.7). De 137 espécies ameaçadas examinadas,
77% têm menor diversidade genética do que espécies relacionadas não
em perigo. Por exemplo, espécies em perigo tais como o marsupial
Lasiorhinus krefftii do norte e o lobo da Etiópia apresentam pouca va­
riação em locos de microssatélites quando comparados com espécies
relacionadas não ameaçadas. No geral, espécies ameaçadas têm 60%
da diversidade genética das espécies não ameaçadas. Como veremos, a
explicação mais provável é que espécies ameaçadas sofreram reduções
no tamanho populacional que resultaram diretamente na perda da
diversidade genética.
30 DIVERSIDADE GENÉTICA

Tabela 2.7 I Níveis de diversidade genética de microssatélites numa série de espécies ameaçadas e espécies
relacionadas não ameaçadas. O número médio de alelos por loco (A) e heterozigosidade (H) são dados
para os locos polimórficos. As espécies globalmente ameaçadas, ou previamente ameaçadas, são colocadas

Quais componentes da diversidade genética


determinam a habilidade para evoluir?
O potencial evolutivo é medido de forma mais direta estimando-se a
variação genética quantitativa para o sucesso reprodutivo. O sucesso
reprodutivo é o número de descendentes férteis com que um indivíduo
contribui para a próxima geração, e inclui a sobrevivência até a matu­
ridade sexual e a habilidade de reproduzir e criar seus descendentes.
Infelizmente, esta variação genética quantitativa é a mais difícil de ser
medida e é o aspecto da diversidade genética para o qual temos menos
informação nas espécies ameaçadas. Outras medidas tais como a varia­
ção no DNA e em aloenzimas somente refletem o potencial evolutivo
se estiverem correlacionados com a variação genética quantitativa.
Infelizmente, as correlações entre as medidas moleculares e quantita­
tivas da diversidade genética são freqüentemente baixas.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 3-5
estendem esses tópicos, além de referências.
Avise, J. C. & J. Hamrick. (eds.) 1996. Conservation Genetics: Case Histories
from Nature. Chapman & Hall, New York. Revisões científicas avançadas
sobre conservação dos principais grupos animais e plantas, incluindo
considerável informação sobre diversidade genética.
Smith, T. B. & R. K. Wayne. (eds.) 1996. Molecular Genetic Approaches in
Conservation. Oxford University Press, New York. Contém informações
sobre diversidade genética em espécies ameaçadas e os diversos
métodos moleculares para medi-la. Avançado.
Capítulo 3

Genética evolutiva de
populações naturais
As populações evoluem através da ação da mutação, migração,
seleção e o acaso. A diversidade genética surge da mutação, ou é
adicionada por imigrações, e é removida por seleção, ou perdida
por deriva genética em populações pequenas. O balanço entre
mutação e seleção resulta numa “carga” de alelos deletérios raros.
32 | GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

Fatores de controle da evolução de populações


Nosso objetivo na genética da conservação é preservar as espécies
como entidades dinâmicas, capazes de evoluírem para adaptarem-se
às mudanças ambientais. Dessa forma, é essencial entender as forças
que determinam as mudanças evolutivas. Esta informação é central
para o planejamento do manejo genético de populações ameaçadas
e em perigo. Uma vez que evolução, em seu nível mais básico, é uma
mudança na composição genética de uma população, esta requer di­
versidade genética. Conseqüentemente, devemos compreender como
a diversidade genética surge, quais formas de diversidade genética
existem e como ele é perdida.
Em seu nível mais simples, evolução envolve qualquer mudança na
freqüência de um alelo devido à mutação, migração (fluxo gênico),
seleção ou deriva.
Os papéis desses fatores podem ser sumarizados como seguem:
• A mutação é a fonte de toda a diversidade genética, mas é uma força
evolutiva fraca, uma vez que as taxas mutacionais são geralmente
muito baixas
• A migração (fluxo gênico) reduz as diferenças geradas por mutação,
seleção e deriva entre as populações
• A seleção é a única força que causa mudanças evolutivas que me­
lhor adapta as populações a seus ambientes
• Efeitos da deriva em populações pequenas levam a perda da diver­
sidade genética
• Fragmentação e migração reduzida limitam o fluxo gênico gerando
diferenciação ao acaso entre sub-populações derivadas da mesma
população fonte original.
Uma população em evolução pode ser modelada como um sistema
complexo influenciado por mutação, migração, seleção e deriva, ope­
rando dentro do contexto do sistema reprodutivo (Fig. 3.1). Para avaliar
a importância dos componentes de uma população em evolução, nós
a modelamos sem a ação de nenhum desses fatores, depois com cada
ORIGEM E REGENERAÇÃO DA DIVERSIDADE GENÉTICA 33

um dos fatores individualmente, seguido por dois fatores ao mesmo


tempo, etc. Fazendo isso podemos estimar o impacto de cada fator e
qual é o provável papel que cada um tem na evolução. Adicionalmente,
podemos identificar aquelas circunstâncias onde fatores particulares
podem ser ignorados, uma vez que é raro todos os fatores terem simul­
taneamente efeitos significantes. Por exemplo, as mutações ocorrem
em taxas muito baixas, e freqüentemente podemos ignorá-las no curto
prazo.
No capítulo anterior mostramos que num loco autossômico as fre-
qüências alélicas e genotípicas estão em equilíbrio de Hardy-Weinberg
depois de uma geração de cruzamentos ao acaso em populações livres
de mutação, migração, seleção ou deriva. Abaixo consideramos a ação
independente da mutação, migração e seleção, e então a ação conjunta
da mutação com a seleção. Os efeitos da deriva são geralmente peque­
nos em populações grandes, e adiaremos seu tratamento detalhado
até o Capítulo 4.

Origem e regeneração da diversidade genética


A diversidade genética é o material bruto sobre o qual a seleção natu­
ral atua para causar mudanças evolutivas adaptativas. Muitas espé­
cies naturalmente exogâmicas com populações grandes carregam um
estoque substancial de diversidade genética (Capítulo 2). Aqui discuti­
remos as seguintes questões: como a diversidade genética é produzida,
e quão rapidamente ela é recuperada se for perdida?

Mutação
Uma mutação é uma mudança genética súbita num alelo ou cromos­
somo. Toda a diversidade genética origina-se da mutação. A palavra
mutação refere-se tanto ao processo pelo qual surgem novas variantes
genéticas (por meio de erros naturais durante a replicação do DNA,
elementos genéticos móveis, quebras cromossômicas, etc.) como aos
produtos do processo mutacional (por exemplo, mutação de olho bran­
co na mosca da fruta).
Os padrões de diversidade genética nas populações são o resultado
de uma variedade de forças que atuam para eliminar ou aumentar e
dispersar estes novos alelos mutantes e rearranjos cromossômicos en­
tre indivíduos e populações. Na genética da conservação nós estamos
preocupados em saber:
• Com que velocidade o processo mutacional aumenta a diversidade
genética nas populações?
• Como as mutações afetam o potencial adaptativo e o sucesso repro­
dutivo das populações?
• Que importância tem a acumulação das mutações deletérias no de­
clínio do valor adaptativo em populações pequenas?
As mutações mais importantes são aquelas em locos que afetam os
caracteres de valor adaptativo, mais notavelmente as mutações letais
34 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

ou deletérias. Algumas mutações, tais como a do alelo de melanismo


escuro em mariposa, aumentam de fato o valor adaptativo em áreas
poluídas, uma vez que as mariposas que carregam essa mutação são
mais bem camufladas sobre as árvores enegrecidas e então sofrem
menos predação por aves. Entretanto, muitas mutações que ocorrem
em regiões não-codantes do genoma e aquelas que não resultam em
substituições de aminoácidos nas proteínas (substituições silenciosas)
provavelmente têm pouco ou nenhum impacto sobre o valor adaptati­
vo (mutações neutras). Mutações neutras são, entretanto, importantes
como marcadores e relógios moleculares que proporcionam informa­
ções valiosas sobre as diferenças genéticas entre os indivíduos, popu­
lações e espécies.
A taxa da mutação é crítica para o seu papel na evolução. As taxas
são baixas. Para uma variedade de locos em espécies de eucariotos, a
taxa de mutação espontânea típica é de uma nova mutação por loco
por 100000 gametas (IO-5) por geração (Tabela 3.1). As taxas de muta­
ção são similares entre todos os eucariotos, exceto aquelas para os
microssatélites.
Taxas de mutação por base nucleotídica são claramente mais bai­
xas do que para um dado loco, uma vez que tipicamente existem 1000
ou mais bases por loco gênico. O DNA mitocondrial tem uma taxa mu-
tacional muito maior do que os locos nucleares, fazendo deste uma
ferramenta valiosa no estudo de processos evolutivos mais recentes.
As taxas mutacionais para caracteres quantitativos são aproximada­
mente 103 vezes a variância ambiental por geração para um conjunto
de caracteres numa série de espécies. Esta taxa aparentemente alta,
comparada com a que ocorre num só loco, é porque uma mutação em
qualquer um dos muitos locos que controlam o caráter pode afetar a
característica.
MIGRAÇÃO E FLUXO GÊNICO 35

A mutação é um processo recorrente onde novos alelos continuam a


surgir a todo tempo. Isto é, de fato, uma reação quimica lenta. Pode­
mos modelar o impacto da mutação sobre uma população consideran­
do um só loco com dois alelos A1 e A2 com feqüências de p e q, e com
mutação mudando somente A1 para A2 numa taxa de u por geração,
como segue:

Conseqüentemente, a freqüência de A1 declina numa proporção que


depende da taxa de mutação u e da freqüência inicial po. Existe um au­
mento correspondente na freqüência de A2 (Ap = +u pj. Uma vez que a
taxa de mutação para mutações morfológicas é aproximadamente 10'5,
a mudança máxima na freqüência do alelo é 10 5 quando p = 1. Este va­
lor é muito pequeno e pode ser ignorado em muitas circunstâncias.
Quando a diversidade genética é inteiramente perdida numa es­
pécie, esta é regenerada somente por mutação. Tendo em vista que
as taxas de mutação são baixas, os tempos de regeneração são muito
longos, levando de milhares a milhões de gerações para recuperar a
variação em um loco (Capítulo 5).

Migração e fluxo gênico


Ao contrário do processo lento de mutação, a mistura de alelos de duas
ou mais populações geneticamente diferenciadas pode rapidamente
restaurar a diversidade genética. No Capítulo 7 são discutidos os bene­
fícios e os riscos potenciais de promover mistura gênica para restaurar
a diversidade genética em espécies em perigo.
Os conjuntos gênicos de populações parcialmente isoladas diver­
gem ao longo do tempo como um resultado da deriva e seleção. Mi­
grações e intercruzamentos subseqüentes reduzem tais diferenças. O
impacto da migração é ilustrado pelas freqüências dos alelos do grupo
sangüíneo B nas populações humanas na Eurásia (Fig. 3.2). Antes de
aproximadamente 1500 anos atrás, o alelo B era essencialmente au­
sente na Europa Ocidental, mas existia em altas freqüências no Orien­
te. Entretanto, entre 1500 e 500 anos atrás, ocorreram uma sucessão
de invasões de Mongóis e Tártaros na Europa. Como era típico de tais
invasões militares, eles deixaram um rasto de saques e estupros e,
36 | GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

conseqüentemente, deixaram alguns alelos orientais para trás. Note


o decréscimo gradual na freqüência do alelo do grupo sangüíneo B do
oriente para o ocidente (chamado clina).
A mudança na freqüência do alelo devido à migração é:
Aq = m(qm - qj (3.3)
onde m é a taxa de migração, qm a freqüência alélica nos imigrantes e
qo a freqüência na população original.
Assim, a mudança na freqüência alélica de uma geração para outra
depende da proporção dos alelos contribuídos pelos imigrantes, e da
diferença na freqüência alélica entre imigrantes e a população origi­
nal. A migração pode ter efeitos muito grandes sobre as freqüências
alélicas e é muito mais efetiva em restaurar a diversidade genética do
que a mutação. Por exemplo, se os imigrantes são homozigotos para
um alelo ausente da população nativa, e 20% da população na próxima
geração são imigrantes, então o alelo imigrante aumenta em freqü­
ência de 0 para 0,2 em uma única geração. No Capítulo 4 mostramos
como taxas de migração tão baixas como um migrante por geração é o
suficiente para prevenir as populações de divergirem geneticamente.
Muitas espécies em perigo são ameaçadas pelo fluxo gênico (in-
trogressão) de espécies relacionadas não ameaçadas. A equação 3.3
pode ser usada para estimar a taxa de imigração a partir de dados de
freqüências alélicas. Por exemplo, aproximadamente 22% do material
genético da população do Vale Web de lobo da Etiópia, derivam de cães
domésticos (Exemplo 3.1).
SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 37

Exemplo 3.1 Estimativa da introgressão genética de cachorro-


doméstico no lobo da Etiópia, uma espécie em perigo
de extinção, através das freqüências dos alelos de
microssatélites (dados de Gotteli et al. 1994)

Os lobos da Etiópia são geneticamente distintos dos cachorros domésti­


cos, mas hibridações ocorrem em áreas onde eles co-ocorrem, como no
Vale Web, Etiópia. A população do Platô Sanetti é relativamente pura. A
contribuição do material genético dos cachorros domésticos na popula­
ção do Vale Web pode ser estimada usando-se as freqüências alélicas no
loco de microssatélite 344. Os cachorros não possuem o alelo J, enquanto
que os lobos puros da Etiópia são homozigotos para este. As freqüências
deste alelo são:

Assim, aproximadamente 22% da composição genética da população dos


lobos do Vale Web da Etiópia derivam dos cachorros domésticos. Essa
é uma contribuição acumulada dos alelos de cachorros, não uma esti­
mativa por geração. Indivíduos fenotipicamente anormais, suspeitos de
serem indivíduos híbridos, representam aproximadamente 17% da po­
pulação. Estimativas de outros locos de microssatélites também podem
ser feitas e a melhor estimativa viria dos resultados de todos os locos
relevantes combinados.

Seleção e adaptação
Os ambientes físicos e bióticos de virtualmente todas as espécies estão
continuamente mudando. Para sobrevivências em longo prazo, as es­
pécies devem ajustar-se a essas mudanças. O clima flutua ao longo do
tempo, o nível do mar constrói e quebra conexões entre blocos de ter­
ra, e coberturas de gelo avançam e retraem. Pestes, parasitas e doenças
desenvolvem novas formas, trocando de hospedeiros e espalhando-se
para novas localidades, e novos competidores podem surgir. A evolu­
ção adaptativa tem sido descrita num grande número de animais e
38 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

plantas. Por exemplo, mudanças evolutivas em animais têm sido docu­


mentadas para morfologia, comportamento, forma de cor, resistência
a plantas hospedeiras, tamanho da presa, tamanho do corpo, tolerân­
cia ao álcool, taxa reprodutiva, sobrevivência, resistência a doenças,
evitação de predadores, tolerância a poluentes, resistência a biocidas,
etc. Mudanças evolutivas adaptativas a uma ampla faixa de condições
têm sido descritas em plantas, incluindo aquelas para condições de
solo, estresses a água, inundação, regimes de luz, exposição ao vento,
pastagem, poluição do ar e herbicidas.
De particular importância durante a ‘sexta extinção’ são as mudan­
ças ambientais causadas pelas atividades humanas. O aquecimento
global está ocorrendo em conseqüência das práticas industriais e agrí­
colas. As espécies têm que mudar ou adaptarem-se a estas condições
climáticas alteradas. Aves, borboletas e plantas já alteraram suas áreas
de distribuição. Os humanos têm sido responsáveis por translocações
de espécies, extinções de espécies utilizadas como alimentos, e intro­
duções inadvertidas ou deliberadas de novos agentes químicos no am­
biente. Em muitos casos, mudanças evolutivas adaptativas têm sido
registradas nas espécies afetadas. Coelhos na Austrália rapidamente
desenvolveram resistência ao vírus mixoma quando este foi introduzi­
do como uma medida de controle (Quadro 3.1). Mais de 200 espécies de
mariposas mundialmente distribuídas apresentam melanismo em áre­
as de poluição industrial. Várias espécies de plantas têm desenvolvido
tolerância a metais pesados no processo de colonização de depósitos
de resíduos de minas de metais pesados e as plantas estão progressiva­
mente desenvolvendo resistência aos herbicidas.
A adaptação pode representar modificações fisiológicas ou com-
portamentais onde indivíduos mudam para dar conta das condições
alteradas, ou adaptações genéticas onde a seleção natural altera a
composição genética das populações ao longo de várias ou muitas
gerações.
As adaptações fisiológicas dos indivíduos incluem modificações
nos níveis de hemoglobinas para lidar com altitude, respostas imu­
nes para combater doenças, indução de enzimas para lidar com dietas
alteradas, etc. Adaptações comportamentais podem incluir preferên­
cias alimentares alteradas, comportamentos de evitação, etc. Existe,
entretanto um limite para a adaptação fisiológica. Se as mudanças
ambientais são tão extremas que nenhum indivíduo pode agüentar,
então estas espécies tornam-se local ou globalmente extintas.
Mudanças evolutivas por meio da seleção natural é um mecanismo
de longo prazo em resposta a mudanças ambientais. Esta é referida
como evolução adaptativa. Quando mudanças evolutivas adaptativas
continuam através do tempo, elas podem permitir a uma população
ou espécie progredir em condições mais extremas do que qualquer in­
divíduo poderia originalmente tolerar.
A evolução adaptativa é observada onde quer que grandes popula­
ções geneticamente variáveis estejam sujeitas a ambientes bióticos ou
físicos alterados. Isto é de fundamental importância em cinco contex­
tos de conservação:
• Preservação da habilidade de evolução das espécies
• Perda do potencial adaptativo evolutivo nas pequenas populações
Quadro 3.1 Mudanças evolutivas adaptativas rápidas em coelhos na
Austrália após a introdução do vírus mixoma como um
agente de controle (Fenner & Ratcliffe 1965)

No século dezenove, colonizadores europeus introduziram coelhos na Austrália


para caça esportiva. Várias tentativas foram feitas sem sucesso até coelhos selvagens
genuínos serem introduzidos em 1859. Os coelhos selvagens aumentaram
rapidamente em número até que atingiram proporções de praga por todo o país.
Os coelhos causaram o declínio de muitas espécies nativas e foram uma das causas
do declínio dos marsupiais nativos do grupo Mocrotis (bilbies) os quais também
fazem tocas.
Quando os vírus mixoma foram introduzidos na Austrália para o controle dos
coelhos em 1950, a taxa de mortalidade dos coelhos infectados foi acima de
99%. Uma forte seleção direcional resultou em um rápido aumento na resistência
genética dos coelhos ao vírus mixoma. O vírus mixoma também desenvolveu uma
menor virulência, uma vez que isto aumentou a probabilidade de ser transmitido.
Os dados abaixo refletem somente as mudanças genéticas em coelhos resistentes,
uma vez que a mesma linhagem menos severa de vírus foi usada em todo o estudo.
A mortalidade dessa linhagem do vírus caiu de aproximadamente 90% para 25%
em 1958 (o sexto evento epizoótico).

Número de epizoóticos
40 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

• Muitas espécies em perigo vivem atualmente somente na periferia


de sua distribuição histórica, e devem, dessa forma, adaptarem-se
ao que previamente era um ambiente marginal
• Adaptação genética ao cativeiro e seus efeitos deletérios no sucesso
da reintrodução (Capítulo 8)
• Adaptação de populações translocadas ao seu novo ambiente
A seleção surge porque diferentes genótipos têm diferentes taxas de
sobrevivência e reprodução, resultando em mudanças nas freqüências
dos alelos. Alelos cujos portadores produzem grandes números de des­
cendentes férteis que sobrevivem até a idade reprodutiva aumentam
em freqüência, enquanto que aqueles alelos cujos portadores tem pou­
cos descendentes decrescem em freqüências.
A seleção opera em todos os estágios do ciclo de vida. Em animais
isto envolve a habilidade de acasalamento e a fertilidade de machos e
fêmeas, sucesso de fertilização de espermatozóides e ovos, número de
descendentes por fêmeas, sobrevivência dos descendentes até a idade
reprodutiva e longevidade. Em plantas, a seleção pode envolver a pro­
dução de pólen, a habilidade do pólen em atingir o estigma das flores,
germinar, crescer pelo estilete e fertilizar o óvulo, número de ovos,
viabilidade dos zigotos fertilizados, sua habilidade para dispersar,
germinar e crescer até a maturidade sexual, e a fertilidade da planta
resultante.

Recessivo letal
Para ilustrar e modelar a ação da seleção natural nós examinaremos
um caso extremo, o dos alelos recessivos letais. Esses alelos deletérios
não prejudicam a habilidade dos heterozigotos, mas todos os homozi-
gotos morrem (letal). Por exemplo, todos os indivíduos homozigotos
para o nanismo associado à condrodistrofia no condor da Califórnia,
uma espécie ameaçada, morrem ao redor do período de eclosão. No
Quadro 3.2 está modelado o efeito da seleção contra essa síndrome.
Iniciamos com um alelo normal (+) numa freqüência p e o alelo letal
recessivo (dw) numa freqüência q. Com reprodução ao acaso, as freqü­
ências genotípicas na formação do zigoto são iguais às freqüências p2,
2pq, q2 do equilíbrio de Hardy-Weinberg. Entretanto, os três genótipos
têm sobrevivências diferenciadas. O fator importante nos efeitos gené­
ticos da seleção não é a sobrevivência absoluta, mas a sobrevivência re­
lativa dos três genótipos. Por exemplo, se os genótipos ++, +dw e dwdw
têm 75%, 75% e 0% de sobrevivência, os valores relativos 1, 1, e 0 de­
terminam o impacto da seleção. Denominamos esses valores de valor
adaptativo relativo, onde ao(s) genótipo(s) com maior valor adaptativo
é dado o valor máximo de 1.
A freqüência de sobrevivência dos adultos é obtida multiplicando-
se a freqüência inicial pelo valor adaptativo relativo. Por exemplo, a
freqüência do homozigoto letal vai de q2 na fertilização a q2 x 0 = 0 nos
adultos. Depois da seleção, perdemos uma proporção da população
(- q2), então o total não mais atinge 1. Como mostrado, devemos dessa
forma dividir pelo total (1 - q2) para obter a freqüência relativa.
A freqüência alélica na geração subseqüente é então obtida deter-
minando-se a freqüência alélica nos sobreviventes, usando-se o método
SELEÇÃO E ADAPTAÇÃO 41

de contagem dos alelos descrito previamente. Métodos para predize­


rem as mudanças nas freqüências dos alelos devido a qualquer forma
de seleção são similares ao que usamos aqui.

A equação 3.5 demonstra que a freqüência do alelo letal dw sem­


pre declina, uma vez que o sinal de Aq é negativo. Além disso, a taxa
de declínio diminui marcadamente em freqüências alélicas menores,
uma vez que é dependente de q2. Por exemplo, se q é 0,5, Aq é - 0,167,
enquanto que se q é 0,1, Aq é - 0,009. O exemplo 3.2 usa a equação 3.4
para calcular a mudança na freqüência dos alelos dw no condor da
Califórnia.
42 | GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

Exemplo 3.2 Como a freqüência do alelo recessivo letal da condrodistrofia


declina rapidamente devido à seleção no condor da
Califórnia?

O alelo da condrodistrofia tem uma freqüência inicial de aproximada­


mente 0,17 na fertilização (Capítulo 2). Todos os homozigotos morrem,
assim a freqüência é reduzida nos adultos sobreviventes. A freqüência
esperada do alelo deletério em adultos, resultante dessa seleção natural,
pode ser prevista usando-se a equação 3.4 e substituindo q = 0,17, como
seeue:

A seleção não é aplicada somente para genes letais. Qualquer alelo que
mude o valor adaptativo relativo esta sujeito à seleção. Se o efeito sobre
o valor adaptativo é pequeno então a mudança na freqüência do alelo
será correspondentemente menor.
Na genética da conservação, estamos preocupados com a seleção
contra mutantes deletérios (descrito acima) e com a seleção favorecendo
alelos que melhorem a habilidade de uma população para adaptar-se às
mudanças ambientais. Usaremos o melanismo industrial na mariposa-
de-pintas da Inglaterra para ilustrar mudanças evolutivas adaptativas.
A camuflagem é crítica para evitar a predação por aves, uma vez que
as mariposas-de-pintas são ativas durante a noite e descansam sobre
as árvores durante o dia. Antes da revolução industrial, suas asas com
pintas claras e escuras ficavam bem camufladas quando descansavam
sobre os troncos das árvores manchadas com coberturas de líquens nas
áreas centrais da Inglaterra (página frontal do capítulo). Entretanto, a
poluição do enxofre vinda da industrialização matou muito do líquen
e a fuligem escureceu as árvores. A mariposa-de-pintas tornou-se clara­
mente visível. A variante escura (melânica) previamente rara tornou-se
melhor camuflada sobre os troncos escuros e sofreu menos predação.
Isso resultou numa freqüência maior do alelo melânico (M) nas áreas
industriais que nas áreas relativamente não poluídas (Quadro 3.3). A
forma melânica da mariposa-de-pintas foi registrada pela primeira vez
em 1848, mas em 1900 representavam aproximadamente 90% de todas
as mariposas nas áreas poluídas.
No Quadro 3.3 é desenvolvido um modelo desta seleção e, uma vez
que o sinal de Aq é positivo, mostra que a freqüência do alelo M sempre
aumenta até que o alelo seja fixado (p =1). A taxa de mudança depende
da força de seleção contra a forma não-melânica (s, coeficiente de sele­
ção) e as freqüências de p e q.
Espera-se que o controle da poluição reverta as forças seletivas.
Como previsto, a freqüência das formas melânicas (agora pobremente
camufladas) declinou marcadamente. Num local próximo a Liverpool,
esta caiu de 90% para 10% nos últimos 40 anos, e declínios similares
têm sido observados em outras áreas do Reino Unido. Mudanças para­
lelas têm também ocorrido na sub-espécie da mariposa-de-pintas da
América do Norte.
Quadro 3.3 Mudanças adaptativas nas freqüências do melanismo
industrial devido à seleção em áreas poluídas (depois de
Kettlewell l973;Majerus 1998; Grant 1999)

O mapa do Reino Unido com diagramas em formato de pizza mostra a


freqüência das formas melânica, melânica-suave (insular) e não-melânica (típica)
das mariposas nos anos de 1950. A forma melânica tem altas freqüências nas
áreas industriais (áreas centrais, ao redor de Londres no sudeste e ao redor de
Glasgow até o noroeste) e baixas freqüências em áreas menos poluídas.

A forma melânica da mariposa é devida a um alelo dominante. O impacto da


seleção sobre as formas melânicas e típicas são dados abaixo (o alelo da forma
insularia é aqui ignorado, mas isto não afeta nossas conclusões). Iniciamos com as
freqüênciaspeq para os alelos melânicos (M) etípicos (t), respectivamente, e
assumimos que estamos lidando com uma população grande de acasalamento ao
acaso, sem migração ou mutação. A seleção é assumida ocorrer nos adultos, mas
antes da reprodução. Desde que o genótipo tt tem menor sobrevivência que os
melânicos nas áreas poluídas, embora não seja conhecido o valor preciso, damos
a este um valor adaptativo relativo de I - s, onde s é o coeficiente de seleção. O
valor de s representa a redução do valor adaptativo do genótipo tt comparado ao
valor adaptativo dos genótipos MM e Mt. Por exemplo, se a sobrevivência de tt
foi somente 70% da sobrevivência de MAA e Mt, então o coeficiente de seleção é
I -0,7 == 0,3.
44 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

Seleção sobre caracteres quantitativos


A discussão acima se aplica à seleção sobre diferenças devido a locos
únicos. Entretanto, na genética da conservação estamos preocupados
primariamente com a evolução do sucesso reprodutivo, um caráter
quantitativo afetado por muitos locos, e com como a habilidade para
se adaptar é afetada pela redução de tamanho da população, fragmen­
tação, e mudanças no ambiente. O potencial evolutivo imediato de
uma população é determinado pela herdabilidade. Exploramos agora
este parâmetro em mais detalhes.
A herdabilidade (h2) é uma medida fundamental de como um ca­
ráter quantitativo é efetivamente transmitido de uma geração para
a próxima. A herdabilidade é a proporção da variância total de um
caráter numa população que é devida a diferenças genéticas, ao invés
das diferenças ambientais entre os indivíduos. A herdabilidade reflete
o grau de semelhança entre parentes para o caráter e é facilmente me­
dida pela comparação do caráter entre os parentes.
A Fig. 3.3 ilustra três intensidades contrastantes de relação entre
pais e descendentes e as diferenças correspondentes na herdabilidade.
A figura 3.3a mostra um exemplo de herança completa. Para um dado
caráter, pais que apresentam valores maiores que a média produzem
descendentes com valores igualmente grandes, enquanto que pais com
valores menores que a média produzem descendentes com valores
SELEÇÃO SOBRE CARACTERES QUANTITATIVOS 45

Fig. 3.3 Relações hipotéticas entre os valores médios dos pais e dos descendentes
para três casos, representando relações (a) completas, (b) incompletas e (c) ausência de
relações entre pais e descendentes. As linhas sólidas representam as melhores curvas da
relação entre descendentes e pais.

igualmente menores. Esse caráter tem uma alta herdabilidade. Nesse


caso, a inclinação que define a relação da média dos pais com a média
dos descendentes (coeficiente de regressão) é 1. Nesse exemplo, é claro
que as diferenças ambientais entre os pais e entre os descendentes,
tem influência negligenciável sobre o fenótipo do caráter (uma herda­
bilidade de 1). Um exemplo que se aproxima desse nível de relação é a
contagem de sulcos na impressão digital em humanos.
Na Fig. 3.3b está representada a herança menos completa. Pais com
altos valores fenotípicos produzem descendentes com valores maiores
do que a média, porém mais próximos da média da população do que
dos próprios pais. Pais com valores fenotípicos baixos produzem des­
cendentes com valores não tão baixos quanto os deles. A inclinação
da relação entre a média dos descendentes e a média dos pais é < 1 e a
herdabilidade tem um valor intermediário. Parte da superioridade ou
inferioridade dos pais é devido ao ambiente, e não aos efeitos genéticos
e, dessa forma, não podem ser herdados por seus descendentes. Muitas
características quantitativas têm relação desse tipo, incluindo a lar­
gura da concha no caracol Partula e o tamanho do corpo em muitas
espécies incluindo os sauins ameaçados da espécie Saguinus oedipus.
Na Fig 3.3c está representada uma ausência de relação entre os va­
lores fenotípicos dos pais e dos descendentes. A inclinação da relação
é 0. Pais com valores altos e baixos do caráter têm descendentes com
valores similares distribuídos aleatoriamente ao redor da média. Neste
caso h2 é zero. Tais relações são encontradas em populações homozigo-
tas, como na dos pinheiros de Wollemi onde todas as diferenças entre
pais e entre descendentes são de origem ambiental. Algumas caracte­
rísticas reprodutivas em populações exogâmicas, tais como as taxas de
concepção em gado, também se aproximam deste valor.
As relações mostradas na Fig. 3.3 também indicam como popula­
ções particulares irão responder à seleção para caracteres particulares.
Essas predições aplicam-se bem se estamos considerando a seleção
natural favorecendo certos fenótipos, ou quando estamos fazendo
seleção para o melhoramento de plantas e animais domésticos. Para
46 | GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

caracteres com alta herdabilidade (Fig. 3.3a) predizemos uma alta


resposta de seleção. Nesse caso, os pais que apresentam valores altos
para um caráter o fazem porque possuem alelos determinando altos
valores. Se a seleção natural, ou um geneticista agrônomo, determinar
que somente aqueles indivíduos com valores em um certo nível acima
da média da população são os que serão pais, então seus descendentes
irão herdar alelos com altos valores. Ao contrário, onde a herdabilida­
de é zero (Fig. 3.3c), todas as diferenças entre os pais em potencial são
devido a diferenças ambientais não herdáveis, dessa forma, não inte­
ressam quais indivíduos se reproduzem, e a geração dos descendentes
terá uma média similar daquela da geração parental. A herdabilidade
intermediária (Fig. 3.3b) prediz uma resposta seletiva intermediária.
Por exemplo, a herdabilidade de 0,5 prediz que os descendentes terão
uma média que desviará da média da população em metade do valor
de desvio que seus pais apresentam da média. As herdabilidades são
predições diretas da resposta evolutiva.
Como notado acima, a herdabilidade é a proporção da variância
total de um caráter devido à diversidade genética:

onde VG é a proporção da variação devido a diferenças genéticas entre


os indivíduos e Vp é a quantidade total de variação fenotípica. A quan­
tidade de variação genética para o caráter é determinada pelo nível de
heterozigosidade nos locos envolvidos na determinação do caráter.
A quantidade total de variação num caráter entre todos os indiví­
duos (Vp) é composta da variação devido a diferenças genéticas entre os
indivíduos (VG) e diferenças causadas pelo ambiente (VE):

V=V+V (3.7)

VE pode ser calculada medindo-se a quantidade de variação do caráter


entre indivíduos que são geneticamente idênticos (por exemplo, uma
população tornou-se completamente homozigota através da endoga-
mia). Vp - VE fornece então o valor de VG.
A variação genética pode ser, dessa forma, dividida em variâncias
aditiva, dominante e de interação

VG = V +A V +DV !
(3.8)

VA é a variação devido ao efeito médio dos alelos e é o componente que


determina o potencial evolutivo imediato. Estritamente, VAé o com­
ponente da variação genética que compõe a herdabilidade (h2 = VA / Vp)
para predição da resposta de seleção. VD é devido à variação na do­
minância e reflete a susceptibilidade para depressão endogâmica. Vj
é devido a interações entre locos e é um importante determinante do
impacto do exocruzamento.
Os valores de herdabilidade são específicos para caracteres indi­
viduais de populações particulares vivendo sobre condições ambien­
tais exclusivas. Populações diferentes podem ter diferentes níveis de
GENÓTIPO vs. INTERAÇÃO AMBIENTAL 47

variação genética; aquelas com maior heterozigosidade terão maior


herdabilidade quando comparadas num mesmo ambiente. Apesar
dessas condições, a herdabilidade estimada para caracteres similares
mostra padrões relativamente consistentes em magnitude entre popu­
lações de uma espécie, e entre as espécies (Tabela 3.2).
A característica notável da herdabilidade é que ela é menor para
caracteres de valor adaptativo do que para caracteres mais periferica-
mente relacionados a ele (Tabela 3.2).

Genótipo vs. interação ambiental


Diferenças na performance de genótipos em ambientes diferentes
são referidas como interações genótipo vs. ambiente. Em geral, essas
interações se desenvolvem quando as populações se adaptam a con­
dições ambientais particulares, e sobrevivem e reproduzem melhor
em suas condições nativas do que em outros ambientes. As interações
genótipo x ambiente podem produzir categorias de desempenho que
se alteram em diferentes ambientes, ou magnitudes de diferenças
que variam em ambientes diversos. Um exemplo clássico é dado pelo
crescimento e sobrevivência de indivíduos transplantados da planta
Potentilla provenientes de elevações alta, média e baixa na Califórnia
(Fig. 3.4). Quando cultivadas em cada um dos três ambientes, os tipos
cresceram geralmente melhor nos ambientes dos quais elas origina­
ram e pobremente nos ambientes mais diferentes.
48 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

Crescimento no Crescimento em Crescimento em


nível do mar 1400 m 3050 m

Potentilla g. nevasensis de 3050m

Potentilla g. hanseni de 1400m

Potentilla g. typica do nível do mar

As interações genótipo vs. ambiente são mais significantes para ma­


nejo genético de espécies em perigo porque:
• O sucesso reprodutivo de espécies translocadas não pode ser pre­
visto se existem significantes, mas pouco conhecidas, interações
genótipo vs. ambiente
• O sucesso de populações reintroduzidas pode ser comprometido
pela adaptação genética ao cativeiro - genótipos superiores em con­
dições de cativeiro podem ter baixo valor adaptativo quando libera­
dos no ambiente selvagem
BALANÇO MUTAÇÃO - SELEÇÃO 49

• A mistura do material genético de populações de diferentes ambien­


tes pode gerar genótipos com baixo desempenho sob algumas, ou
todas, as condições
• O conhecimento das interações genótipo vs. ambiente pode influen­
ciar a escolha de populações que retornarão ao ambiente selvagem

Balanço mutação - seleção


Valor seletivo das mutações
No início deste capítulo apontamos que novas mutações estão sendo
continuamente adicionadas às populações, embora em uma taxa mui­
to baixa. Temos também considerado o destino evolutivo de alelos alta­
mente deletérios (letais recessivos) e alelos benéficos. Qual a proporção
de mutações pertencentes em cada categoria?
Como a maioria do genoma não é expressa em fenótipo (isto é, DNA
não-codante), as mutações nestas regiões não afetarão o valor adapta-
tivo e serão seletivamente neutras. Essas mutações são, entretanto,
valiosas na genética da conservação uma vez que elas resultam em
marcadores genéticos (alelos que diferem na freqüência entre indi­
víduos ou populações), tais como os microssatélites utilizados para a
identificação de indivíduos, populações e espécies. As mutações que al­
teram a seqüência de aminoácidos das proteínas, mas que não afetam
o seu funcionamento fisiológico, são também seletivamente neutras e
proporcionam marcadores (por exemplo, aloenzimas).
As mutações dentro de um loco funcional serão, predominante­
mente, deletérias, uma vez que mudanças ao acaso na seqüência do
DNA de um loco geralmente ocorrerão de um alelo funcional para
um estado menos-funcional. Uma pequena proporção das mutações
é vantajosa.
Existe pouca evidência sobre a proporção de mutações dessas di­
ferentes categorias. Como a maioria do DNA não esta envolvida na
codificação de proteínas ou outras funções óbvias, muitas mutações
são provavelmente neutras ou quase neutras. Daquelas com efeitos
fenotípicos, a grande maioria é deletéria, e talvez somente 1-2% têm
efeitos benéficos.
As mutações deletérias ocorrem em muitos locos, então suas taxas
cumulativas por gameta são muito maiores do que as taxas dadas aci­
ma para um só loco. Essas taxas cumulativas são de grande importância
quando consideramos a carga total das mutações nas populações e o
impacto da endogamia sobre elas. Por exemplo, a taxa total de mutação
letal recessiva na mosca de fruta, em nematódeos e em samambaias
é aproximadamente 0,001 por genoma haplóide por geração. Consi­
derando que existem outras mutações deletérias que não são letais, a
taxa cumulativa das mutações deletérias é consideravelmente alta.

A carga genética
Quando a seleção é capaz de remover os alelos deletérios das popu­
lações, o tempo levado é tão longo que na realidade novas mutações
geralmente ocorrem antes da mutação prévia ter sido eliminada, espe­
cialmente para alelos recessivos. Um balanço (equilíbrio) é alcançado
50 GENÉTICA EVOLUTIVA DE POPULAÇÕES NATURAIS

entre adição de alelos deletérios por mutação e sua remoção por


seleção (balanço mutação-seleção). Conseqüentemente, em todas as
populações naturalmente exogâmicas são encontradas baixas freqü-
ências de alelos deletérios (carga genética). Essas mutações são extre­
mamente importantes no entendimento das conseqüências deletérias
do endocruzamento porque o aumento desse último aumenta a pro­
babilidade desses alelos serem expressos em genótipos homozigotos
(Capitulos 4 e 5).
Apontamos anteriormente que os modelos populacionais podem
combinar os efeitos de vários processos. A equação para a freqüência
do equilíbrio (q) devido à mutação e seleção atuando simultaneamente
sobre um alelo deletério autossômico recessivo é

onde ué a taxa de mutação e s é o coeficiente de seleção. Por exemplo, a


condrodistrofia no condor da Califórnia é uma característica recessivo
letal, então s = 1. Se u = 10'5, a freqüência do equilíbrio é prevista de ser
ST(FJT = 0,0032.
Vários pontos importantes sumarizam a carga genética:
• Carga genética é encontrada em todas as espécies, incluindo espé­
cies ameaçadas
• Alelos deletérios são normalmente encontrados apenas em baixas
freqüências, em geral muito menores que 1% em qualquer loco
• Alelos deletérios são encontrados em muitos locos
• Existem diferenças nas freqüências dos alelos deletérios de acordo
com o modo de herança e dominância
• A maioria das mutações deletérias é parcialmente recessiva

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou. & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 6, 7
e 9 estendem esses tópicos, além de referências.
Briggs, D. & S. M. Walters. 1997. Plant Variation and Evolution, 3rd edn.
Cambridge University Press, Cambridge, UK. Revisões sobre evidências
de mudanças genéticas adaptativas em plantas.
Falconer, D. S. & T. F. C. Mackay. 1996. Introduction to Quantitative Genetics,
4th edn. Longman, Harlow, UK. Esse livro texto provém textos claros
sobre os tópicos desse capítulo com foco em aplicações na genética de
populações.
Futuyma, D. J. 1998. Evolutionary Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland,
MA. Um livro texto muito lido sobre evolução, adaptações e processos
genéticos relacionados.
Hartl, D. L. & A. G. Clarke. 1997. Principles of Population Genetics, 3rd edn.
Sinauer, Sunderland, MA. Um livro texto amplamente usado na
genética de populações.
Hedrick, P. W. 2000. Genetics of Populations, 2nd edn. Jones & Bartlett,
Boston, MA. Esse livro texto apresenta um extensivo tratamento de
muitos tópicos desse capítulo.
Capítulo 4

Conseqüências genéticas do
tamanho populacional pequeno
Termos
As populações com as quais os conservacionistas se preocupam são Coeficiente de endogamia,
pequenas e/ou estão diminuindo de tamanho. Populações pequenas depressão endogâmica, deriva
e isoladas sofrem endogamia acelerada e perda da diversidade genética ao acaso, distribuição de
genética, o que leva a um vigor reprodutivo reduzido (depressão Poisson, endogamia, estatística F,
endogâmica) e menor habilidade para evoluirem em resposta às estocasticidade, fixação, gargalo
mudanças ambientais. populacional, idênticos por
descendência, metapopulação,
média harmônica, população
idealizada, potencial evolutivo,
tamanho populacional efetivo
52 | CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Importância das populações pequenas na biologia


da conservação
Populações pequenas ou em declínio são mais propensas à extinção
do que populações grandes e estáveis. Espécies nas quais os tama­
nhos populacionais de adultos são estáveis e menores do que 50,
250 ou 1000 indivíduos são, respectivamente, designadas como cri­
ticamente em perigo, em perigo e vulnerável (Capítulo 1). Somente
-100 indivíduos (adultos mais juvenis) da espécie criticamente em
perigo do marsupial Lasiorhinus krefftii sobrevivem na Austrália,
enquanto que a população da planta Argyroxiphium sandwicense spp.
Sandwicense declinou para aproximadamente duas dezenas no Ha­
vaí. Algumas espécies alcançaram números tão baixos que elas exis­
tem, ou existiram, somente em cativeiro. Estas incluem o órix da
Arábia (Oryx leucoryx), o ferret-de-pé-preto (Mustéla nigripes), o bisão
europeu (Bison bonasus), o veado-Pere-David (Elaphurus davidianus),
o cavalo-de-Przewalski (E. caballus przewalskii), o órix-de-Cimitarra
(Oryx dammah), o condor da Califórnia (Gymnogyps californianus), o
frango-d’água-de-Guam (Gallirallus owstoni), a árvore de Franklin
(Franklinia alatamaha), e o alface-de-arame-de-Malheur (Stephanome-
ria malheurensis).
Algumas espécies sofreram reduções no tamanho populacional
(gargalos populacionais), mas depois se recuperaram. O Falcão das
Ilhas Maurício (Falco punctatus) declinou para um só par, mas agora se
recuperou para 400-500 aves (Quadro 4.1). Os elefantes marinhos do
norte (Mirounga angustirostris) foram reduzidos a 20-30 indivíduos, mas
agora somam mais de 150000 indivíduos. Essas populações pagam um
preço genético pelo seu gargalo; elas geralmente têm altos níveis de
endogamia, baixo vigor reprodutivo, diversidade genética reduzida e
habilidade de evoluir comprometida (Quadro 4.1).
PERDA DA DIVERSIDADE GENÉTICA 53

Perda da diversidade genética

Muitas espécies em perigo têm sofrido gargalos populacionais (Tabela


4.1) ou longos períodos em tamanhos populacionais pequenos. Como
conseqüência a diversidade genética é geralmente perdida, reduzindo
o potencial evolutivo. Por exemplo, o elefante marinho do norte não
possui nenhuma diversidade nas aloenzimas. Tais perdas são conseqü­
ência da amostragem ao acaso com que a transmissão dos alelos ocorre
de uma geração para a próxima.
54 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Efeitos do acaso e deriva genética


Quando populações sexuais diplóides reproduzem, a geração seguinte
é derivada de uma amostra dos gametas parentais. Em pequenas po­
pulações alguns alelos, especialmente aqueles raros, podem não ser
transmitidos devido apenas ao acaso. As freqüências dos alelos que
são transmitidos para as gerações seguintes provavelmente irão diferir
daquelas nos parentais (Fig. 4.1). Ao longo de várias gerações as fre­
qüências dos alelos flutuam de uma geração para outra, um processo
chamado de deriva genética ao acaso.

Deriva genética
Pode parecer que o acaso têm somente pequenos efeitos sobre a com­
posição genética das populações. Entretanto, a amostragem dos game­
tas ao acaso dentro de pequenas populações tem três conseqüências de
grande significado em evolução e conservação:
• perda da diversidade genética e fixação de alelos dentro das popula­
ções com conseqüente redução no potencial evolutivo
• diversificação entre populações replicadas da mesma fonte original
(por exemplo, populações fragmentadas)
• deriva genética sobrepujando a seleção natural

Estas características são exemplificadas nas populações do besouro-


da-farinha na Fig. 4.2. Primeiro, populações individuais mostram de­
riva genética. Por exemplo, na população com N = 10 marcada com
asterisco, a freqüência do alelo inicia em 0,5, cai por três gerações,
depois eleva-se e cai até a geração 20 quando seu valor é aproximada­
mente 0,65. Note que as flutuações nas freqüências para as populações
DERIVA GENÉTICA

Fig. 4.2 Deriva genética ao acaso dos alelos do tipo selvagem (+) e preto (b) em um
loco para cor do corpo no besouro-da-farinha (Tribolium castoneum). Dois tamanhos
populacionais foram usados, N = 10 e N = 100, com 12 réplicas cada. Todas as
populações iniciaram com frequências de 0,5 para os dois alelos e foram mantidas pela
amostragem ao acaso de 10 ou 100 indivíduos para serem os parentais de cada geração
posterior (após Rich et al. 1979). Houve grande variação na freqüência dos alelos nas
populações pequenas (N = 10) devido à deriva genética ao acaso, tanto entre réplicas como
de geração para geração em réplicas individuais. De modo oposto, as freqüências dos alelos na
população grande mostrou maior consistência.

de tamanho N = 10 são muito maiores do que para populações com


N = 100, ilustrando claramente que a deriva genética é maior em pe­
quenas populações.
Segundo, algumas populações perdem diversidade genética e al­
cançam a fixação (homozigosidade). Sete das 12 populações com N = 10
tornaram-se homozigotas após 20 gerações. Seis das sete populações
fixaram o alelo tipo selvagem e uma fixou o alelo preto. Nenhuma das
populações com N = 100 tornou-se fixada para nenhum dos dois alelos
após 20 gerações.
Terceiro, existe diversificação ao acaso entre as réplicas das popu­
lações, particularmente nas populações N = 10. Todas estas populações
iniciam com freqüências de 0,5, contudo terminam com freqüências
variando de 0 a 1. Novamente, a diversificação entre as réplicas das
populações é muito menor para as populações N = 100.
Finalmente, fica claro pelo padrão geral que a seleção natural fa­
voreceu o alelo tipo selvagem (+) em detrimento do mutante preto (b).
Entretanto, a deriva genética foi mais forte que a seleção e resultou na
fixação de b em uma população com N = 10.
Populações naturais fragmentadas irão experimentar estes efeitos
em todos os seus locos genéticos, com fragmentos pequenos sofrendo
deriva genética mais intensa do que fragmentos maiores.
O impacto sobre as freqüências dos alelos da redução do tamanho
populacional para um único par de parentais é mostrado na Fig. 4.3
para uma população experimental de mosca-de-fruta. Note a perda de
56 | CONSEQUÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

alelos, particularmente dos alelos raros, e que as freqüências dos ale-


los mudaram daquelas na população parental. Réplicas de populações
sofrendo gargalo variaram em relação aos alelos que elas perderam e
nas freqüências dos alelos que elas retiveram. Na média, a heterozigo-
sidade caiu de 0,61 na população base para 0,44 nas populações que
sofreram gargalo, e o número de alelos caiu de 12 para 3,75. Note que o
efeito cumulativo da manutenção das populações em um tamanho po­
pulacional igual a 100 por 57 gerações resultou em uma perda similar
de diversidade genética, um assunto que discutiremos abaixo.

Perda de heterozigosidade após gargalos populacionais


A proporção da heterozigosidade inicial mantida após uma geração
em gargalo é

População base
exogâmica

onde H1 é a heterozigosidade imediatamente após o gargalo, e H0 é a


heterozigosidade existente antes. Uma proporção de 1/(2N) da hetero­
zigosidade original é perdida. Assim, gargalos que duram uma geração
devem ser severos antes que tenham um impacto substancial sobre a
heterozigosidade. Um gargalo que reduz a população a um tamanho
igual a 2 ainda conserva 75% da heterozigosidade inicial. No experi­
mento descrito na Fig. 4.3 a heterozigosidade caiu de 0,61 para 0,44
após o gargalo, conforme aqui previsto.
Um gargalo populacional de N = 25 reduz a heterozigosidade em
2%, enquanto um gargalo de 100 a reduz em somente 0,5%. A perda
da diversidade genética acontece predominantemente por reduções
EFEITOS DAS RESTRIÇÕES PROLONGADAS DOS TAMANHOS POPULACIONAIS SOBRE A DIVERSIDADE GENÉTICA 57

prolongadas no tamanho populacional, ao invés de por gargalos que


duram apenas uma única geração. No Falcão-de-Maurício a heterozi-
gosidade declinou 57%, caindo de 0,23 para 0,10, em conseqüência de
um gargalo populacional que resultou na permanência de um único
casal (Quadro 4.1). Mesmo essa perda sendo maior do que a esperada,
mais diversidade genética pode ter sido perdida durante as seis gera­
ções que a população passou com tamanho menor que 50 indivíduos.
Muitas populações selvagens ameaçadas mostram evidências de perda
da diversidade genética devido a gargalos no tamanho populacional
de durações variadas (Tabela 2.7).

Efeitos das restrições prolongadas dos tamanhos


populacionais sobre a diversidade genética
O impacto do tamanho populacional reduzido ocorre em cada geração
e as perdas acumulam-se com o tempo. Se o tamanho populacional
é constante em cada geração, a equação 4.1 pode ser ampliada para
obter-se uma expressão para os efeitos das restrições prolongadas do
tamanho populacional sobre a heterozigosidade, como segue:

(4.2)

onde t é o número de gerações. Os declínios exponenciais previstos


na heterozigosidade com o tempo (medido em gerações) em diferentes
tamanhos populacionais são mostrados na Fig. 4.4. Espera-se que to­
das as populações percam diversidade genética, mas a taxa de perda é
maior em populações pequenas do que em populações grandes.
O exemplo 4.1 demonstra que as populações de tamanho 500 per­
derão somente cerca de 5% de sua heterozigosidade inicial ao longo
de 50 gerações, enquanto que populações com N = 25 perderão 64%
de sua heterozigosidade inicial. Além disso, quanto menor o interva­
lo entre gerações mais rápido será, em tempo absoluto, essa perda.
58 | CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Conseqüentemente, populações de tamanhos similares de ferrets-de-


pés-pretos, que apresentam intervalo entre gerações de dois anos, per­
derão diversidade genética mais rapidamente do que elefantes, com
intervalo entre gerações de 26 anos.

Exemplo 4.1 Perda esperada de heterozigosidade devido a manutenção na


redução do tamanho populacional

Da equação 4.2, a proporção esperada da heterozigosidade mantida atra­


vés de 50 gerações em uma população de tamanho 500 é:

Para uma população com N=25, espera-se que a proporção da heterozi­


gosidade inicial mantida na geração 50 seja

Endogamia
Até agora consideramos os efeitos do pequeno tamanho populacional
sobre a perda da diversidade genética e a conseqüente perda do poten­
cial evolutivo. O tamanho populacional reduzido também tem efeitos
agudos resultantes da endogamia.
Em populações fechadas pequenas, o acasalamento entre indivídu­
os aparentados (endogamia) é inevitável. Com o tempo, todos os indiví­
duos tornam-se relacionados de tal maneira que acasalamentos entre
indivíduos não relacionados são impossíveis. Isso não é o resultado de
uma escolha ativa de acasalamentos entre indivíduos relacionados,
mas simplesmente uma conseqüência do pequeno número de funda­
dores e do pequeno tamanho populacional. A endogamia também se
torna inevitável em grandes populações, mas isso leva mais tempo.
A endogamia é de profunda importância na biologia da conserva­
ção, uma vez que ela leva a reduções na heterozigosidade, à redução
da reprodução e sobrevivência (vigor reprodutivo), e aumento do ris­
co de extinção (Capítulo 5). A perda do vigor reprodutivo como uma
conseqüência da endogamia é referida como depressão endogâmica.
Por exemplo, em um estudo com 44 populações de mamíferos em ca­
tiveiro, indivíduos endogâmicos apresentaram mortalidade de juve­
nis mais alta do que indivíduos exogâmicos em 41 casos. Em média,
acasalamentos entre irmãos resultaram em uma redução de 33% na
sobrevivência juvenil.
Existem evidências esmagadoras de que a endogamia também afe­
ta negativamente as populações selvagens. Por exemplo, em uma meta
análise de 157 conjuntos de dados de 34 taxa, indivíduos endogâmicos
tiveram atributos piores quando comparados com indivíduos exogâmi­
cos em 141 casos (90%), em dois casos foram iguais, e somente em 14 fo­
ram em direção oposta. A endogamia é deletéria para uma diversidade
ENDOGAMIA | 59

de animais e plantas, incluindo o mico-leão-dourado (Leontopithecus


rosalia), o tetraz-das-pradarias (Tympanuchus cupido), a gralha-azul me­
xicana (Aphelocoma ultramarina), o passeriforme Melospiza melodia, o
falcão-americano-quiriquiri (Falco sparverius), o rouxinol (Acrocephalus
sp.), o salmão do Atlântico (Salmo salar), os pequenos peixes do deserto
do gênero Poeciliopsis, a truta-arco-iris (Oncorhynchus mykiss), e muitas
espécies de plantas.

Medindo a endogamia: coeficiente de endogamia (F)


A conseqüência primária do acasalamento entre parentes é que seus
descendentes possuem uma maior probabilidade de herdar alelos
que são cópias recentes da mesma seqüência de DNA (idênticos por
descendência). Por exemplo, na Fig. 4.5 os descendentes AaAa ou A2A2
resultantes de autofertilização herdaram dois alelos que são cópias
idênticas dos alelos A1 ou A2 de seu parental. As duas cópias idênticas
de um alelo não precisam vir de um indivíduo da geração anterior,
mas podem vir de um ancestral de uma geração mais remota. Na Fig.
4.5 um descendente resultante de um cruzamento entre irmãos pode
herdar duas cópias do alelo Al, A2, A3, ou A4 de seus avós. Dizemos
que os avós são ancestrais comuns, uma vez que eles são ancestrais
tanto da mãe como do pai do indivíduo.
60 | CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

A probabilidade de que os alelos que se unem em um loco em um


indivíduo sejam idênticos por descendência é chamado de coeficiente
de endogamia (F). Como F é uma probabilidade, esta varia de 0 em indi­
víduos exogâmicos até 1 em indivíduos completamente endogâmicos.
Para calcular o coeficiente de endogamia cada ancestral não endo-
gâmico é marcado como tendo alelos únicos (A1A2, A^, etc) (Fig. 4.5).
A probabilidade de que um indivíduo herde dois alelos idênticos por
descendência (A^, A^, etc) é computada das vias de herança, assu­
mindo segregação Mendeliana normal.
Por exemplo, com autofertilização o coeficiente de endogamia é a
probabilidade de que o descendente X herde dois alelos A1, ou dois
alelos A2. O indivíduo X tem uma chance igual a V2 de herdar o alelo
A1 do óvulo e uma chance igual a V2 de herdar este alelo através do
pólen. Conseqüentemente, a probabilidade de que X herde dois alelos
Al idênticos é V2 x V2 = Va. A probabilidade de que X herde dois alelos
A2 também é V2 x V2 = Va. O coeficiente de endogamia é então a proba­
bilidade de herdar tanto AlAl ou A^ = Va + Va = 0,5. Da mesma forma,
um descendente de um cruzamento entre irmãos (irmãos completos)
tem F = 0,25.

Conseqüências genéticas da endogamia


A endogamia também pode se referir a um sistema de acasalamento
onde indivíduos relacionados cruzam a uma taxa maior do que a es­
perada por cruzamento aleatório, tal como ocorre na autofertilização,
no cruzamento entre irmãos, etc. Quando isso acontece, a freqüência
de heterozigotos é reduzida, e a dos homozigotos é aumentada, em
relação às expectativas de Hardy-Weinberg. Podemos ver como isso
acontece na forma mais extrema de endogamia, a autofertilização, se­
guindo as freqüências genotípicas esperadas sob herança Mendeliana
(Fig. 4.6). Se um indivíduo A^ se autofertilizar, a heterozigosidade
diminui pela metade em sua progénie, e continua a ser reduzida pela
metade em cada geração subseqüente.
ENDOGAMIA 61

Esta redução na heterozigosidade devido à endogamia está direta­


mente relacionada ao coeficiente de endogamia F. A Tabela 4.2 mostra
os efeitos da endogamia, baseados em F, sobre as freqüências genotí-
picas. Quando não existe endogamia (F = 0), as freqüências genotípicas
estão em equilíbrio de Hardy-Weinberg. Quando F = 0,5, a proporção de
heterozigotos na população é reduzida em 50%.

A endogamia não altera diretamente as freqüências dos alelos. Ela


altera as freqüências genotípicas. A endogamia está freqüentemente
associada com pequenas populações e mudanças nas freqüências dos
alelos em tais populações devido à deriva genética, como discutido
anteriormente.
Uma grande conseqüência prática da endogamia é que os homozi-
gotos para os alelos recessivos deletérios tornam-se mais freqüentes do
que em populações que se reproduzem ao acaso. Esta é a causa primá­
ria da depressão endogâmica. Uma vez que populações naturalmente
exogâmicas contêm alelos deletérios (na maioria das vezes parcial­
mente recessivos) em freqüências baixas no balanço seleção-mutação,
a endogamia aumenta os riscos de expor esses alelos como homozi-
gotos, como ilustrado para a condrodistrofia no condor da Califórnia,
na Tabela 4.3. A freqüência dos homozigotos dw/dw é mais do que o
dobro em uma população com coeficiente de endogamia de 25%. Este
efeito ocorre em todos os locos com alelos deletérios e pode ter um
efeito cumulativo muito grande sobre o valor adaptativo e a saúde dos
indivíduos.

Tabela 4.3 I Freqüências genotípicas esperadas sob endogamia no loco da


condrodistrofia em condores da Califórnia. O alelo letal recessivo tem
uma freqüência de aproximadamente 0,17. As freqüências genotípicas
esperadas são mostradas para o cruzamento ao acaso e para o cruzamento
entre irmãos (F = 0,25), determinadas usando a fórmula na Tabela 4.2. Os
filhotes homozigotos dw/dw morrem
62 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Genealogias
Quando disponíveis, as genealogias podem ser usadas para se deter­
minar o coeficiente de endogamia de um indivíduo. Isto nos permite
avaliar os efeitos da endogamia sobre as taxas de sobrevivência ou
reprodução, etc. usando dados de indivíduos com diferentes níveis
de endogamia. O cálculo de F através de princípios básicos torna-se
impraticável quando lidamos com genealogias complexas. Conseqüen-
temente, métodos alternativos mais simples têm sido desenvolvidos
para estas situações.
O coeficiente de endogamia pode ser obtido pela contagem de in­
divíduos na trajetória que vai desde um dos pais e passa através do
ancestral comum até o outro pai (incluindo ambos os pais), e usando
esse número de indivíduos na trajetória como potência para o valor Vi.
O Vz reflete a probabilidade de que um alelo seja transmitido de uma
geração para a próxima, e a potência reflete o número de passos entre
pais-descendentes na genealogia. Por exemplo, na Fig 4.7 existem três
indivíduos conectando os pais do indivíduo X através de seu ancestral
comum A, i.e. através de D, A e E. O coeficiente de endogamia de X é
(V2 )3, se A não for ele mesmo endogâmico.
Em genealogias mais complexas, os pais de um indivíduo podem
ser relacionados através de mais do que um ancestral comum, ou do
mesmo ancestral através de diferentes vias. Cada ancestral comum, e
cada via, contribui com uma probabilidade adicional da progénie ter
identidade por descendência. O coeficiente de endogamia é a soma de
todas as probabilidades, como segue:

*= (1 + Fca) (4-5)

onde néo número de indivíduos na via desde um dos pais até o ances­
tral comum e de volta para o outro pai, e Fca é o coeficiente de endoga­
mia daquele ancestral comum em particular. Essas contribuições para
a endogamia são somadas para cada via diferente ligando ambos os
pais para cada ancestral comum.
Aplicamos este método para a genealogia simples da Fig 4.8. Con­
tando os indivíduos de um dos pais até o outro passando pelo ancestral
comum (A) são F, D, B, A, C, E e G, fazendo n = 7 passos. Assim Fx na Fig.
4.8 é (V2 ) (1 + Fa), sendo V128 se o indivíduo A não for endogâmico.
7

Para genealogias complexas, os coeficientes de endogamia são ge­


ralmente calculados usando programas computacionais.
ENDOGAMIA 63

Endogamia em populações pequenas com cruzamento ao acaso


Enquanto que uma minoria de plantas rotineiramente se autofer-
tiliza, os animais normalmente não o fazem. Apesar das muitas
oportunidades para indivíduos aparentados se acasalarem devido à
proximidade física dos irmãos, filhos e pais, acasalamentos endogâ-
micos geralmente são mais raros do que se espera pela proximidade.
Muitas espécies desenvolveram mecanismos para evitar a endogamia.
De fato, dois dos locos genéticos mais variáveis conhecidos, os locos de
auto-incompatibilidade (self-incompatibility - IS) em plantas e os locos
do complexo de histocompatibilidade principal (major histocompatibility
- MHC) em vertebrados, estão associados com o mecanismo para evitar
a endogamia.
Em populações grandes onde o acasalamento é ao acaso, a endo­
gamia é próxima a zero uma vez que existe muito pouca chance de
acasalamento com um parente. Entretanto, em populações pequenas
e fechadas, cada indivíduo eventualmente torna-se relacionado por
descendência e a endogamia é inevitável. Combinando os conceitos
das Equações 4.2 e 4.4 podemos derivar uma expressão para a endoga­
mia em uma população fechada com acasalamentos aleatórios após t
gerações, a saber:

(4.6)

Assim, a endogamia acumula com as gerações em todas as populações


finitas e fechadas, a uma taxa dependente de seu tamanho (Fig. 4.9).
O exemplo 4.2 ilustra o rápido acúmulo da endogamia em uma po­
pulação pequena fechada com somente quatro indivíduos por geração.
A população atinge um coeficiente de endogamia médio de 74% na ge­
ração 10. Este valor é, aproximadamente, equivalente ao nível de endo­
gamia causado por duas gerações de autofertilização ou seis gerações
de acasalamento entre irmãos verdadeiros - mas, neste exemplo, isso
64 j CONSEQUÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

foi alcançado em uma população com acasalamento ao acaso. Uma


vez que populações em cativeiro de espécies em perigo dentro de zôos
individuais são freqüentemente desse tamanho, os indivíduos têm que
ser movidos entre instituições se quisermos minimizar essa endoga-
mia acelerada (Capítulo 8).

Exemplo 4.2 Acumulação de endogamia em pequenas populações fechadas


de cativeiro

Muitas populações de cativeiro de espécies ameaçadas em zôos individu­


ais são pequenas e acumulariam endogamia rapidamente se elas fossem
mantidas fechadas, i.e. sem troca de indivíduos entre zôos. Se um zoo
inicia um programa de reprodução com quatro indivíduos não relacio­
nados e mantêm a população reprodutiva em quatro pais por geração ao
longo de várias gerações, o coeficiente de endogamia aumentaria como
segue:

Medindo o tamanho populacional


Até agora temos discutido os impactos do tamanho sobre os processos
genéticos dentro das populações, no sentido de que este esteja rela­
cionado ao tamanho absoluto, ou de censo. Esse raramente é o caso.
Muitas populações de pequenos mamíferos e insetos flutuam ampla­
mente em tamanho, e é o tamanho mínimo que mais profundamente
afeta os processos genéticos (ver adiante). Similarmente, a maioria das
populações contém indivíduos juvenis e pós-reprodutivos. Entre os re­
produtivos, pode existir considerável variação nas suas contribuições
para as gerações subseqüentes. Além disso, as espécies variam em seus
sistemas de acasalamento (por exemplo, monogamia, haréns), e apre­
sentam desde acasalamento aproximadamente ao acaso até autoferti-
lização e reprodução assexual.
O mesmo número de indivíduos pode resultar em impactos gené­
ticos muito diferentes em distintas espécies, dependendo da estrutu­
ra populacional e do sistema de acasalamento. Conseqüentemente,
temos que definir precisamente o que queremos dizer com tamanho
populacional em genética da conservação. Faremos isso comparando
populações reais com uma população idealizada hipotética.
MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 65

A população idealizada
Iniciamos assumindo uma população grande (essencialmente infini­
ta) com acasalamentos ao acaso, da qual tomamos uma amostra de
indivíduos adultos de tamanho N para formar a população ideal (Fig.
4.10). Essa população é mantida como uma população fechada onde o
acasalamento ocorre ao acaso em sucessivas gerações. Alelos podem
ser perdidos pelo acaso, e a freqüência dos alelos pode flutuar devido
à deriva genética. As condições simplificadas aplicadas à população
ideal são:
• O número de indivíduos se reproduzindo é constante em todas as
gerações
• As gerações são distintas e não se sobrepõem
• Não existe migração ou fluxo gênico
• Todos os indivíduos são reprodutores em potencial
• Todos os indivíduos são hermafroditas
• A união dos gametas é ao acaso, incluindo a possibilidade de
autofertilização
• Não existe seleção em nenhum estágio do ciclo de vida
• A mutação é ignorada
• O número médio de descentes por adulto é 1, com variância de 1

Dentro da população, os indivíduos reproduzindo contribuem igual­


mente com gametas para o pool do qual os zigotos são formados. A
sobrevivência dos gametas é ao acaso, de forma que as contribuições
dos adultos para a próxima geração não são iguais. O número médio
dos descendentes por adulto é 1, mas pode variar de 0, 1, 2, 3, 4, etc.
para diferentes indivíduos, de acordo com os termos da distribuição
de Poisson.
As características da população idealizada são bem definidas por
causa desses pressupostos, para os quais muita teoria tem sido deriva­
da. Conseqüentemente, equalizando as populações reais à população
idealizada, essa teoria pode ser utilizada para fazer previsões práticas.
66 I CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Tamanho populacional efetivo ( N J


Podemos padronizar a definição de tamanho populacional descreven­
do-o em termos de seu tamanho populacional efetivo (NJ. O tamanho
efetivo de uma população é o tamanho de uma população idealiza­
da que perderia diversidade genética (ou se tornaria endogâmica) na
mesma taxa da população atual. Por exemplo, se uma população real
perde diversidade genética na mesma taxa que uma população ideal
de 100 indivíduos, então dizemos que esta tem um tamanho efetivo de
100 indivíduos, mesmo que ela tenha um tamanho de censo de 1000
indivíduos. Assim, o N de uma população é uma medida de seu com­
portamento genético, relativo aquele de uma população ideal.
Todas as conseqüências genéticas adversas do tamanho populacio­
nal pequeno dependem do tamanho efetivo populacional, ao invés do
número absoluto de indivíduos. Conseqüentemente, N deve ser usado
no lugar de N nas equações 4.1, 4.2 e 4.6. Como veremos, na prática, o
tamanho efetivo de uma população é geralmente significantemente
menor do que o número de adultos.
Se uma população real tem todas as propriedades de uma popula­
ção ideal então N = N. Entretanto, quaisquer características de uma
população real que desvie daquela de uma população ideal fará com
que o tamanho do censo seja diferente de N. Populações reais desviam
em estrutura dos pressupostos da população idealizada apresentando
proporção sexual desigual, alta variação nos tamanhos das famílias,
números variáveis em gerações sucessivas, e tendo sobreposição en­
tre gerações. Em geral estes fatores desviam de tal forma que N < N.
Tem-se observado que os efeitos combinados desses fatores reduzem o
tamanho efetivo para, em média, 11% do tamanho de censo em popu­
lações não manejadas. Por exemplo, a migração durante o inverno do
salmão-chinook (Oncorhynchus tshawytscha) no rio Sacramento, na Cali­
fórnia, tem aproximadamente 2000 adultos, mas seu tamanho efetivo
foi estimado em somente 85 indivíduos (N /N = 0,04), muito menor do
que previamente reconhecido. A preocupação com aspectos genéticos
são muito mais imediatas com um tamanho efetivo de 85 indivíduos
do que com 2000.
A implicação é que espécies em perigo com 250 adultos podem ter
tamanhos efetivos de apenas 25 indivíduos por longo tempo, e per­
derem metade de sua heterozigosidade atual em 34 gerações. Neste
período a população terá se tornado endogâmica ao ponto em que a
depressão endogâmica aumenta o risco de extinção (Capitulo 5).

Medindo tamanho efetivo populacional


Uma vez que N « N precisamos estimar os impactos sobre o tamanho
efetivo da população da proporção desigual dos sexos, da variação no
tamanho da família, e das flutuações no tamanho populacional ao lon­
go das gerações. Desvios na proporção sexual têm efeitos mínimos, e
flutuações no tamanho populacional têm os maiores efeitos. Nenhuma
diferença clara ou consistente têm sido encontrada entre os principais
grupos taxonômicos.
MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 67

Proporção sexual desigual


Em muitas populações selvagens o número de fêmeas e machos repro­
duzindo não são iguais. Muitos mamíferos têm haréns onde um ma­
cho acasala com muitas fêmeas, com muitos machos tendo pouca ou
nenhuma contribuição genética para a próxima geração. Isso ocorre
de uma forma extrema nos elefantes marinhos, onde um único macho
pode manter 100 ou mais fêmeas em seu harém. Em algumas poucas
espécies, a situação é contrária. A equação que leva em consideração os
efeitos da proporção desigual dos sexos é:

onde Nef é o número efetivo de fêmeas reproduzindo e Nm o número


efetivo de machos reproduzindo. Este é o tamanho populacional efeti­
vo em uma geração devido somente à proporção sexual, assumindo-se
que todas as outras características estão de acordo com uma população
idealizada.
À medida que as proporções sexuais desviam de 1:1, a proporção
NJN diminui. Por exemplo, um harém de elefante marinho com um
macho e 100 fêmeas tem um tamanho efetivo de apenas 4 indivíduos
(Exemplo 4.3).

Exemplo 4.3 Redução no tamanho efetivo devido à proporção desigual dos


sexos em elefantes-marinhos

Variação no tamanho familiar


Os tamanhos das famílias (produção de descendentes por indivíduo
durante a vida) nas populações selvagens geralmente mostram maior
variação do que o esperado para a população idealizada. Em uma po­
pulação estável de uma espécie monogâmica de reprodução aleatória,
o tamanho médio da família (k) é de 2 indivíduos (uma média de 1
macho e uma fêmea para substituir ambos os pais) e a variância (Vk)
é 2. Note que a variância iguala-se à média para uma distribuição de
68 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Poisson. A maior parte das espécies na natureza têm taxas VJk bem
maiores do que o valor de 1 assumido para a população idealizada. A
alta variação nos tamanhos das famílias na natureza é devido parti­
cularmente a indivíduos que não contribuem com descendentes para
a próxima geração. Efeitos similares mas menos extremos surgem de
famílias muito grandes e muito pequenas.
O efeito da variação nos tamanhos das famílias em uma população
tendo a estrutura de uma população idealizada é

Este é o tamanho populacional efetivo em uma geração devido somen­


te ao tamanho da família.
Esta equação indica que quanto maior a variância no tamanho da
família, menor é o tamanho populacional efetivo. Por exemplo, no
Tentilhão-dos-cactos (Geospiza scandens) a alta variância no tamanho
da família (6,74), comparada ao esperado pela distribuição de Poisson
(2 indivíduos), reduz o tamanho populacional efetivo para menos da
metade do número de pares reprodutores (Exemplo 4.4).

Exemplo 4.4 Redução no tamanho populacional efetivo dos Tentilhões-


dos-cactos devido à alta variância no tamanho das famílias
A variância no tamanho da família no Tentilhão-dos-cactos é de 6,74,
comparada com o valor de 2 assumido para uma população idealizada.
A equação 4.8 pode ser rearranjada para dar

Se inserimos o valor observado dentro dessa equação, obtemos

Se os animais reproduzindo são manejados de tal forma que todos


produzam o mesmo número de descendentes (i.e. os tamanhos das fa­
mílias são igualados), Vk = 0. Em uma população estável de uma espécie
monogâmica isto corresponde a cada família contribuindo com 1 ma­
cho e 1 fêmea que serão os pais da próxima geração. Substituindo Vk =
0 na equação 4.8 obtemos N ~ 2N. Assim, o tamanho efetivo de uma
população pode ser aproximadamente o dobro do número dos pais.
Quando todas as famílias contribuem com alelos igualmente para a
próxima geração, existe o mínimo de distorção nas freqüências dos
alelos e a proporção da diversidade genética passada é maximizada.
Além disso, existe uma escolha melhor dos acasalamentos e a endoga-
mia é minimizada.
Esta observação é de crucial importância para o manejo das popu­
lações de cativeiro. A equalização do tamanho das famílias permite,
potencialmente, que o limitado espaço existente em cativeiro para a
reprodução de espécies em perigo seja dobrado (Capítulo 8).
MEDINDO O TAMANHO POPULACIONAL 69

Flutuação no tamanho populacional


As maiores reduções nas taxas de NJN surgem das flutuações no tama­
nho populacional ao longo das gerações. O tamanho das populações
selvagens varia em número em conseqüência da variação na dispo­
nibilidade de alimento, condições climáticas, epidemias, catástrofes,
predação, etc. Por exemplo, populações de lince e lebre-americana flu­
tuam em tamanho, a lebre mostrando uma diferença de tamanho de
aproximadamente 30 vezes entre os anos de alta e baixa, e o lince uma
diferença de aproximadamente 80 vezes. Além disso, declinios popula­
cionais de 70-90% devido a secas, doenças, etc. não são incomuns para
grandes mamíferos.
O tamanho efetivo de uma população que flutua não é a média arit­
mética, mas a média harmônica dos tamanhos populacionais efetivos
ao longo de t gerações:

onde N. é o tamanho efetivo na geração i, e N é o tamanho populacio­


nal efetivo geral a longo prazo.
O tamanho efetivo em longo prazo é próximo do menor tamanho
de N observado em uma geração. Por exemplo, o elefante marinho do
norte foi reduzido a 20-30 indivíduos, mas recuperou-se para mais de
150000. Seu tamanho populacional efetivo durante este tempo é de
aproximadamente 60 indivíduos (Exemplo 4.5). Este valor é bem mais
próximo do tamanho populacional mínimo do que da média aritmé­
tica ou do máximo. Esta relação é melhor explicada se notarmos que
um alelo perdido em uma geração de pequeno tamanho populacional
não é ganho novamente quando a população se recupera. Da mesma
forma, a endogamia causada pelo pequeno tamanho populacional não
é reduzida quando a população aumenta em tamanho.

Exemplo 4.5 | Redução no Ne devido a flutuações no tamanho populacional

O elefante marinho do norte foi reduzido pela caça a 20-30 indivíduos.


Desde então eles se recuperaram para mais de 150000 indivíduos. Para
simplificar, assumimos que o tamanho populacional efetivo declinou de
150000 para 20 e recuperou-se para 150.000 indivíduos em um período
de 3 gerações. O tamanho efetivo da população é

O tamanho populacional efetivo também pode ser estimado usan­


do-se equações, como a equação 4.2, relacionando mudanças na diver­
sidade genética com o N.
70 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Fragmentação populacional
Muitas populações ao redor do mundo tornaram-se fragmentadas, fre-
qüentemente como resultado das atividades humanas. Os impactos da
fragmentação das populações sobre a diversidade genética, diferencia­
ção, endogamia e risco de extinção dependem do nível de fluxo gênico
entre os fragmentos. Este, por sua vez, depende do(a):

• Número de fragmentos populacionais


• Distribuição dos tamanhos populacionais nos fragmentos
• Distribuição geográfica das populações
• Distância entre os fragmentos
• Habilidade de dispersão das espécies
• Ambiente da matriz entre os fragmentos e seu impacto sobre a
dispersão
• Tempo desde a fragmentação
• Taxas de extinção e recolonização nos fragmentos.

Todas as questões de perda da diversidade genética e depressão endo-


gâmica, relacionadas à redução do tamanho populacional, tornam-se
importantes quando as populações são fragmentadas. Em populações
fragmentadas com fluxo gênico diminuído, esses efeitos adversos são
geralmente mais severos do que em uma população não fragmentada
de mesmo tamanho total.
Os efeitos da fragmentação populacional são ilustrados na
Fig. 4.11, onde quatro fragmentos pequenos e isolados (VP) são com­
parados a uma grande população única (UG) de mesmo tamanho
total inicial. A população grande (1) possui quatro alelos, A1, A2, A3
e A4. Em um período de tempo pequeno, as quatro populações VP
(2) tornam-se rapidamente homozigotas e perdem valor adaptativo
através da depressão endogâmica. A perda de diversidade genética
é mais lenta na população grande e única (3) - ela perde somente o
alelo A4. Entretanto, a fixação na população VP ocorre ao acaso, de tal
forma que todos os quatro alelos são mantidos, enquanto que a po­
pulação UG perdeu o alelo A4. Assim, desde que não ocorra extinção
de nenhuma população VP, elas mantêm maior diversidade genética
do que a população UG.
Entretanto, em longo prazo, as taxas de extinção serão maiores nos
fragmentos de populações menores devido a estocasticidade ambien­
tal e demográfica, catástrofes e fatores genéticos (Capítulo 5). Com a
extinção de algumas populações VP (4), a população UG mantém mais
diversidade genética e apresenta maior vigor reprodutivo do que todas
as populações VP combinadas (agora somente duas populações).
O pica-pau (Picoides borealis) no sudeste dos USA ilustra muitas das
características e dos problemas genéticos associados com a fragmenta­
ção de habitat para uma espécie que tinha uma distribuição contínua
(Quadro 4.2). Populações de pica-paus isoladas e pequenas mostram
perda de diversidade genética quando comparadas com populações
grandes. A diferenciação entre populações em diferentes fragmentos é
evidente, com populações adjacentes sendo geralmente mais similares.
As populações pequenas deverão sofrer com a depressão endogâmica.
FRAGMENTAÇÃO POPULACIONAL 71

Curto prazo, sem extinções

Várias pequenas (VP) Única grande (UG)

Longo prazo, extinção de algumas


populações pequenas

Fig. 4.11 Conseqüências genéticas de uma população grande e única (UG) versus
vários fragmentos de populações pequenas (VP) completamente isoladas, inicialmente
com mesmo tamanho populacional, através de diferentes escalas de tempo. (I) Aj-A4
representam os quatro alelos inicialmente presentes na população. Num curto período
de tempo, sem a ocorrência de extinção, espera-se que as várias populações pequenas
(2) apresentem fixação mais rapidamente, mas retenham maior diversidade genética total
do que a população grande e única (3). A probabilidade de que um alelo seja totalmente
perdido na população grande é maior do que para todas as populações pequenas
combinadas. Entretanto as populações VP serão, cada uma, mais endogâmicas do que a
população UG. Em longo prazo, quando extinções de populações pequenas ocorrem, o
total das pequenas populações sobreviventes (4) reterá menos diversidade genética do
que a população grande e única (5).
72 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Existe pouca migração entre os sítios isolados. Como previsto, as populações


menores mostram as maiores perdas de diversidade genética e a maior
divergência.
Pica-pau-de-crista-vermelha

Existe uma divergência moderada nas freqüências alélicas entre as populações de


pica-pau. Há uma tendência geral de maior similaridade genética entre populações
geograficamente próximas - mostrada na análise de agrupamento das distâncias
genéticas (ver Capítulo 6) entre 14 populações.
Simulações de computador (Capítulo 5) indicam que as menores populações
de pica-pau provavelmente sofrerão com a depressão endogâmica no futuro
próximo.
Em resposta à ameaça imposta pela fragmentação, o manejo dos pica-paus
envolve a proteção ambiental, melhoria na disponibilidade de habitat através da
construção de buracos de ninhos artificiais, reintroduções dentro de habitats
apropriados onde as populações tornaram-se extintas, e aumento das populações
pequenas para minimizar a endogamia e a perda da diversidade genética. Este é
um dos programas de manejo mais amplos para uma população fragmentada em
qualquer lugar no mundo.

Medidas da fragmentação populacional: estatística F


A endogamia resultante da fragmentação populacional pode ser
usada para medir o grau de diferenciação que ocorreu entre os frag­
mentos. A diferenciação entre os fragmentos ou sub-populações está
FRAGMENTAÇÃO POPULACIONAL 73

diretamente relacionada com os coeficientes de endogamia dentro e


entre populações.
A endogamia na população total (F^) pode ser dividida dentro dela
devido a:
• Endogamia dos indivíduos em relação às suas sub-populações ou
fragmentos, FIS, e
• Endogamia devido à diferenciação entre sub-populações, em rela­
ção à população total, Fsr
Referimos à F^, FIS e FST como estatística F. O FIS é o coeficiente de endo­
gamia, F, calculado como a média de todos os indivíduos de todos os
fragmentos populacionais. O FST é o efeito da subdivisão populacional
sobre a endogamia. Com altas taxas de fluxo gênico entre os fragmen­
tos, o Fst é baixo. Com baixas taxas de fluxo gênico entre fragmentos, as
populações divergem e tornam-se endogâmicas, e o FST aumenta.
A estatística F pode ser calculada usando-se a equação 4.3, a qual
relaciona a heterozigosidade e a endogamia. Esta permite que a es­
tatística F seja determinada a partir da heterozigosidade obtida com
marcadores genéticos usando-se as seguintes equações:

onde Ffj é heterozigosidade observada obtida pela média de todos os


fragmentos populacionais, Hs é a heterozigosidade esperada de Hardy-
Weinberg obtida pela média de todos os fragmentos populacionais, e
HT é a heterozigosidade esperada de Hardy-Weinberg para a população
total (equivalente ao HJ. O FST varia de 0 (sem diferenciação entre os
fragmentos) a 1 (fixação de diferentes alelos nos fragmentos).
O exemplo 4.6 ilustra o cálculo da estatística F com base nas he-
terozigosidades para o teixo-do-Pacífico (Taxus brevifolia) em perigo no
oeste da América do Norte. Esta espécie exibe endogamia dentro das
populações (FIS > 0) e diferenciação entre populações (FST > 0).

Exemplo 4.6 Cálculo da estatística F para o raro teixo-do-Pacífico (dados de


El-Kassaby & Yanchuk 1994)

Este exemplo é baseado nas freqüências genotípicas e heterozigosidades


para 21 locos de aloenzimas em nove populações canadenses. A hetero­
zigosidade observada média (HJ através das nove populações foi 0,085,
enquanto que a heterozigosidade esperada média para estas populações
(Hs) foi 0,166. Conseqüentemente, a endogamia FIS dentro das populações
é
74 CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

Este é um nível alto de endogamia, mas não se deve à autofertiliza-


ção, uma vez que esta espécie tem sexos separados. Isto se deve prova­
velmente ao agrupamento de indivíduos aparentados (prole crescendo
perto de seus pais e agrupamento de parentes em estoques de sementes
agrupadas por aves e roedores).
A heterozigosidade esperada medida através da média de todas
as nove populações (HT) foi 0,18, então a endogamia devido a diferen­
ciação populacional (FST) é

Este valor indica apenas um grau modesto de diferenciação populacio­


nal. A endogamia total devido tanto à endogamia dentro das populações
como à diferenciação entre elas (FJ é

Os valores de FST geralmente são inversamente relacionados à ha­


bilidade de dispersão. Baseado em dados de aloenzimas, eles medem
0,25-0,3 para mamíferos, répteis e anfíbios, mas são menores para pei­
xes (0,14), insetos (0,10) e são ainda mais baixos em aves (0,05). Valores
em plantas variam de 0,5 em espécies com autofertilização até 0,1 em
espécies exogâmicas com polinização pelo vento. Geralmente os valo­
res de Fst acima de 0,15 são considerados um indicativo de diferencia­
ção significativa entre fragmentos.

Fluxo gênico entre fragmentos populacionais


Em uma população fragmentada com o tamanho dos fragmentos fixos
e iguais (N), e taxas iguais de fluxo gênico (m) entre todas as popula­
ções, um equilíbrio entre deriva e migração é alcançado, onde o FST é
previsto ser:

Sewal Wright obteve o surpreendente resultado de que um único mi­


grante por geração entre populações ideais é o suficiente para prevenir
a diferenciação completa (e fixação de alelos). Populações com taxas
de migração de mais de um migrante por geração não exibem fixação,
enquanto que aquelas com menos de um migrante por geração dife­
renciam a ponto de que algumas populações são fixadas para alelos
alternativos.
Esses resultados são independentes do tamanho populacional. Um
migrante tem tanto impacto sobre o equilíbrio em uma população
grande como em uma população pequena. Isso parecia um paradoxo
até ser reconhecido que um migrante representa, proporcionalmente,
uma taxa de migração muito maior em populações pequenas do que
em populações grandes. As taxas de migração mais altas em pequenas
populações neutralizam sua maior perda de variação devido à deriva.
SELEÇÃO EM POPULAÇÕES PEQUENAS 75

As conclusões acima assumem que migrantes e residentes têm a


mesma probabilidade de produzir descendente, e que todos os frag­
mentos populacionais possuem estruturas idealizadas, além da ocor­
rência do fluxo gênico. É improvável que estes pressupostos sejam
realísticos. Em populações reais até 10 migrantes por geração podem
ser necessários.

Estrutura populacional
Os impactos genéticos da fragmentação populacional podem variar
de insignificantes a severos, dependendo dos detalhes da estrutura
populacional resultante e dos padrões de migração entre fragmentos.
Em geral, as conseqüências genéticas em longo prazo de diferentes es­
truturas populacionais são piores para metapopulações do que para
outras estruturas, uma vez que elas passam por freqüentes gargalos
populacionais associados a extinções regulares e eventos de recolo-
nizações. Por exemplo, na Finlândia existem aproximadamentel600
campinas apropriadas para a população da borboleta-de-Glanville (Me-
litaea cinxia), 320-524 sendo ocupadas em 1993-1996. Nessa metapopu-
lação a taxa de substituição populacional é alta, com uma média de
200 extinções e 114 colonizações por ano, e efeitos genéticos deletérios
têm sido documentados.

Seleção em populações pequenas


Em populações fechadas as freqüências alélicas mudam predominan­
temente através da deriva genética e seleção. Em populações grandes
a seleção geralmente domina as mudanças nas freqüências dos alelos,
nos alelos sujeitos à seleção natural. Por outro lado, em populações
pequenas a deriva genética é usualmente a força dominante a causar
mudanças nas freqüências dos alelos, mesmo para alelos sujeitos à
seleção natural. Isso é evidente no exemplo do besouro-da-farinha na
Fig. 4.2.
A habilidade da deriva para sobrepor a seleção depende da vanta­
gem ou desvantagem seletiva do alelo (i.e. o coeficiente de seleção, s).
Quando s < 1/2 N, a deriva supera a seleção. Por exemplo, em popula­
ções com tamanho efetivo abaixo de 50 indivíduos (N abaixo de apro­
ximadamente 500 indivíduos), alelos com s ^ 0,01 são efetivamente
neutros e sujeitos aos efeitos da deriva. Isto proporciona uma impor­
tante percepção para a genética da conservação; a seleção é menos efe­
tiva em pequenas do que em grandes populações.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 8,
10,11 e 13 estendem esses tópicos, além de referências.
Falconer, D. S. & T. F. C. Mackay. 1996. Introduction to Quantitative Genetics,
4th edn. Longman, Harlow, UK. O capítulo 3 provém uma introdução
clara dos tópicos desse capítulo.
Hanski, I. & M. Gilpin. (eds.) 1997. Metapopulation Biology: Ecology, Genetics
and Evolution. Academic Press, San Diego, CA. Uma bela coleção
76 I CONSEQÜÊNCIAS GENÉTICAS DO TAMANHO POPULACIONAL PEQUENO

de trabalhos relevantes sobre fragmentação de populações. Veja


especialmente os capítulos de Hedrick & Gilpin, Barton & Whitlock e
Giles & Goudet.
Hedrick, P. W. 2000. Genetics of Populations, 2nd edn. Jones & Bartlett,
Boston, MA. Os capítulos 5-7 provêm um texto claro sobre muitos
dos tópicos genéticos relacionados às pequenas populações e a
fragmentação de populações.
Capítulo 5

Genética e extinção
Termos
O endocruzamento e a perda da diversidade genética são
Análise de viabilidade populacional
inevitáveis em pequenas populações de espécies ameaçadas. Em
(PVA), auto-incompatibilidade,
curto prazo elas reduzem a reprodução e a sobrevivência e, em catástrofes, complexo principal
longo prazo, diminuem a capacidade das populações evoluírem em de histocompatibilidade
resposta às mudanças ambientais e aumentam o risco de extinção. (MHQ, depressão endogâmica,
equivalentes letais, esgotamento
populacional mutacional,
estocasticidade ambiental,
estocasticidade demográfica,
estocasticidade genética, expurgo,
poliploidia, seleção balanceadora,
tamanho populacional mínimo
viável (MVP), vantagem do
heterozigoto, vórtex de extinção

Dodô, espécie já extinta, e sua


distribuição prévia na Ilha Maurício
78 GENÉTICA E EXTINÇÃO

A genética e o destino das espécies em perigo


Há pouco mais de uma década atrás, a contribuição dos fatores genéti­
cos para o destino das espécies em perigo era considerada desprezível.
Considerava-se que as flutuações demográficas e ambientais (estocas-
ticidade), e as catástrofes, provavelmente causariam a extinção antes
que a deterioração genética se tornasse uma ameaça séria às popu­
lações selvagens. Ainda hoje existe uma controvérsia saudável sobre
isso. Entretanto, existe agora um conjunto convincente de evidências
teóricas e práticas indicando que as mudanças genéticas em pequenas
populações estão intimamente envolvidas com o seu destino. Especifi­
camente, tem-se mostrado que:
Muitas populações sobreviventes estão geneticamente comprome­
tidas (diversidade genética reduzida e endocruzamento)
• A perda da diversidade genética aumenta a suscetibilidade das po­
pulações à extinção, ao menos em alguns casos
• A perda da diversidade está relacionada a um menor valor
adaptativo
• O endocruzamento causa extinção em populações experimentais
deliberadamente endogâmicas
• O endocruzamento contribui para a extinção em algumas popula­
ções naturais e existe evidência circunstancial para implicá-la em
muitos outros casos
• Projeções computacionais indicam que o endocruzamento causará
elevados riscos de extinção nas populações naturais ameaçadas.

Depressão endogâmica
Apesar do ceticismo inicial, existem agora evidências claras e irre­
futáveis da ocorrência de depressão endogâmica em populações de
cativeiro e da natureza. Por exemplo, progénies endogâmicas apre­
sentaram maior mortalidade do que progénies exogâmicas em 41 de
44 populações de mamíferos de cativeiro (Fig. 5.1). No caso do hipopó­
tamo-pigmeu (Hexaprotoãon liberiensis), os descendentes endogâmicos
A GENÉTICA E O DESTINO DAS ESPÉCIES EM PERIGO 79

apresentaram 55% de mortalidade juvenil, enquanto que os descen­


dentes exogâmicos tiveram 25% de mortalidade.
Também existe agora evidência substancial de que o endocruza-
mento tem conseqüências deletérias na natureza. Por exemplo, 90%
dos 157 conjuntos de dados para 34 táxons mostraram progénies en-
dogâmicas com menor sobrevivência, reprodução ou tamanho, etc. do
que progénies exogâmicas (Capítulo 4).

Características da depressão endogâmica


Para entender os impactos prováveis da depressão endogâmica nas
populações selvagens, é importante considerar suas características e
causas. Essas são:
• A depressão endogâmica tem sido observada em virtualmente toda
espécie naturalmente exogâmica investigada adequadamente, e
pode ser esperada em espécies não estudadas
• Espécies naturais exogâmicas de todos os principais táxons mostram
níveis médios de depressão endogâmica relativamente similares
• Todos os componentes do sucesso reprodutivo estão sujeitos a de­
pressão endogâmica
• Características mais intimamente relacionadas ao sucesso reprodu­
tivo mostram maior depressão endogâmica do que aquelas que são
perifericamente relacionadas ao valor adaptativo
• A depressão endogâmica é maior para o valor adaptativo total do
que para os seus componentes
• A depressão endogâmica é maior em condições mais estressantes
• Famílias, populações e espécies diferem na extensão da depressão
endogâmica
• A depressão endogâmica é proporcional à quantidade de
endocruzamento
• Endocruzamento lento geralmente causa menos depressão endo­
gâmica do que uma quantidade equivalente de endocruzamento
rápido, mas, freqüentemente, a diferença é pequena
• Espécies naturalmente endogâmicas mostram depressão endogâmi­
ca, mas sua magnitude é geralmente menor do que a encontrada
em espécies naturalmente exogâmicas.

Bases genéticas da depressão endogâmica


O endocruzamento aumenta a freqüência de homozigotos para alelos
deletérios e a depressão endogâmica resultante depende da freqüência
desses alelos, de seus níveis de heterozigosidade, sendo eles recessivos,
e do nível de endocruzamento. O endocruzamento reduz a heterozigo­
sidade em proporção à quantidade de endocruzamento. Assim espe­
ramos, e geralmente observamos, uma relação linear entre depressão
endogâmica e F.
A depressão endogâmica é causada por dois processos diferentes,
dominância e vantagem do heterozigoto. Com dominância, o endo­
cruzamento aumenta a freqüência de homozigotos para alelos reces­
sivos deletérios, permitindo assim que esses alelos sejam expressos.
Para que os alelos contribuam para a depressão endogâmica eles de­
vem ser parcialmente ou completamente recessivos. Com a vantagem
do heterozigoto, os alelos que apresentam maior valor adaptativo
80 GENÉTICA E EXTINÇÃO

como heterozigotos causam depressão endogâmica quando o endo-


cruzamento diminui a freqüência desses heterozigotos em relação
aos homozigotos. Qual mecanismo está operando é uma questão im­
portante. Embora ambos os processos causem depressão endogâmica,
eles respondem de forma diferente à seleção natural. Com dominância
dos alelos vantajosos, a seleção pode reduzir as freqüências dos alelos
deletérios (processo denominado expurgo), mas não pode fazer isso
quando há vantagem do heterozigoto. Considera-se que a dominância
de alelos favoráveis seja o principal mecanismo contribuindo para a
depressão endogâmica.
Geralmente numerosos locos (talvez milhares) estarão envolvidos
na ocorrência de depressão endogâmica para o valor adaptativo e seus
componentes.

Variabilidade na depressão endogâmica


Uma vez que a depressão endogâmica depende da freqüência dos ale­
los deletérios, espera-se que ela tenha um grande elemento estocástico.
Pequenas populações endogâmicas estão sujeitas à deriva genética, e o
mesmo alelo deletério pode estar ausente em uma população e presen­
te em uma freqüência relativamente alta em outra. Além disso, indi­
víduos com o mesmo F esperado irão apresentar diferenças dos níveis
atuais de heterozigosidade devido à amostragem envolvida na herança
Mendeliana. Diferentes locos serão homozigotos em diferentes indiví­
duos, apenas devido ao acaso. Conseqüentemente, espécies diferentes,
populações dentro de uma espécie, famílias dentro de populações, e
indivíduos dentro de famílias irão variar em seus complementos de
alelos deletérios, e manifestarão de formas diferentes a depressão en­
dogâmica (Fig. 5.1). Uma vez que muitos locos afetam o sucesso repro­
dutivo, é altamente improvável que a fixação de alelos deletérios seja
evitada em todos os locos. Isso explica a natureza onipresente, mas
altamente variável, da depressão endogâmica.
Entretanto, a maioria dos estudos encontra pouca evidência de
diferenças na extensão média da depressão endogâmica entre os
principais táxons diplóides de espécies naturalmente exogâmicas. Por
exemplo, não existe diferença significativa na depressão endogâmica
entre as ordens de mamíferos, sob condições de cativeiro.
A depressão endogâmica é maior para as gimnospermas do que
para as angiospermas. Isso pode estar relacionado a um maior nível
de poliploidia (mais que duas doses de cada cromossomo) observado
neste último grupo. Uma vez que a taxa de aumento na homozigosida-
de é mais lenta em poliplóides do que em diplóides, espera-se que os
poliplóides sofram menos depressão endogâmica.

Remoção de alelos deletérios


O endocruzamento aumenta a homozigosidade, expondo os alelos
deletérios recessivos à seleção. Conseqüentemente os alelos deletérios
são removidos (ou expurgados) mais rapidamente do que ocorreria sob
acasalamento ao acaso.
Em populações com longo histórico de endocruzamento, como em
plantas que se autofertilizam ou populações de animais que se man­
tiveram pequenas por longo tempo, a freqüência de alelos deletérios
A GENÉTICA E O DESTINO DAS ESPÉCIES EM PERIGO 81

pode ter sido reduzida pela sua remoção. Isto faz surgir uma questão:
esperamos ver menos depressão endogâmica nestes casos?
Enquanto espécies de plantas que se autofertilizam ou que são
Espécies naturalmente
naturalmente endogâmicas continuam mostrando níveis de depres­ endogâmicas e populações que
são endogâmica, sua magnitude é geralmente menor do que em po­ historicamente têm tido o seu
pulações exogâmicas relacionadas. Isto implica que algum expurgo tamanho reduzido mostram
ocorreu. Estudos também sugerem que um histórico de redução do depressão endogâmica, mas
tamanho populacional em animais diminui, mas não elimina, a de­ geralmente a sua magnitude
pressão endogâmica. é menor do que em outras
Embora exista uma considerável variação na extensão da depressão populações

endogâmica, sua ocorrência quase universal indica que os responsá­


veis pelo manejo da vida selvagem precisam adotar estratégias para
minimizar o endocruzamento em populações ameaçadas.

Medidas da depressão endogâmica


A depressão endogâmica geralmente é medida comparando-se o valor
A depressão endogâmica
adaptativo de organismos endogâmicos com o de grupos controle de
geralmente é medida como o
organismos não-endogâmicos. Os grupos controle devem ser contem­ declínio proporcional na média
porâneos dos endogâmicos e ter experimentado as mesmas condições de um caráter quantitativo
ambientais. por unidade de aumento no
Existem duas abordagens básicas para medir a depressão coeficiente de endocruzamento
endogâmica:
• Calcular a proporção entre a média dos endogâmicos e a média dos
não-endogâmicos, ou
• Fazer uma análise de regressão entre a medida de um caráter (isto
é, sobrevivência, fecundidade, tamanho) contra o coeficiente de en­
docruzamento obtido das genealogias.
Uma medida geral da depressão endogâmica (5) é o declínio pro­
porcional na média devido a uma determinada quantidade de
endocruzamento:

Exemplo 5.1 | Depressão endogâmica na gazela-dorca (Gazella dorcos)

A sobrevivência de juvenis de 50 gazelas-dorca exogâmicas e 42 endogâ­


micas foram de 72,0% e 40,5%. Qualquer indivíduo com F > 0 foi definido
como endogâmico, mas o nível médio de endocruzamento encontrado
foi de aproximadamente 0,25 (irmãos completos). A depressão endogâ­
mica (ô) para a sobrevivência de juvenis nesta espécie é:
82 GENÉTICA E EXTINÇÃO

endogâmica é obtida pela comparação das progénies oriundas de au-


tofertilização e de reprodução cruzada; o impacto do endocruzamento
devido a um coeficiente de endocruzamento de 50%.

B mede o dano genético adicional que pode ser expresso em indivíduos


totalmente homozigotos (F = 1). Assim, B é o número de equivalentes
letais por gametas, e 2B é o número por indivíduos. Um equivalente
letal é definido como um grupo de alelos prejudiciais que causaria,
em média, uma morte se estivesse em homozigose, ou seja, um alelo
letal, ou dois alelos cada um com 50% de probabilidade de causar a
morte, etc.

Fig. 5.2 I Relação entre sobrevivência e coeficiente de endocruzamento no okapi,


Õkapia johnstoni (dados de Bois et al. 1990). Regressão linear entre o logaritmo natural
de sobrevivência com o coeficiente de depressão endogâmica. O tamanho dos círculos
indicam o tamanho amostrai.
RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 83

Para estimar o equivalente letal, dados sobre a taxa de sobrevivên­


cia dos indivíduos com diferentes coeficientes de endocruzamento são
coletados e uma regressão linear ponderada é usada para estimar A e
B. A Figura 5.2 ilustra a relação entre o ln de S e o coeficiente de endo­
cruzamento para o okapi (Okapia johnstoni), com a linha de regressão
inserida. A inclinação da linha (B) é -1,80, indicando que a população
contém 1,8 equivalente letais haplóides e 3,6 equivalentes letais di­
ploides. Ralis e colaboradores encontraram que o número médio de
equivalentes letais para 40 populações de mamíferos de cativeiro foi
de 1,57 (B) por conjunto haplóide e 3,14 (2jB) por diplóide, embora as
espécies variem amplamente. Estes valores indicam que cada gameta
contém mutações deletérias que equivalem a entre um e dois letais
quando em homozigose. Valores similares têm sido calculados para
outras populações animais, inclusive para humanos.

Relação entre endocruzamento e extinção


A primeira evidência da relação entre endocruzamento e extinção
veio de populações endogâmicas de laboratório e animais domésticos
e plantas. Entre 80% e 100% das populações deliberadamente endogâ­
micas morrem após oito gerações de cruzamentos entre irmãos ou três
gerações de autofertilização. Por exemplo, todas as 338 populações de
codornas japonesas, endogâmicas pelo cruzamento contínuo entre ir­
mãos, foram extintas depois de quatro gerações. Exemplos oriundos de
camundongos e moscas-de-fruta são mostrados na Fig. 5.3.

Taxa de endocruzamento e risco de extinção


Populações naturais de animais e plantas exogâmicas estão geralmente
sujeitas a baixas taxas de endocruzamento, dependente de seu tama­
nho populacional. Um endocruzamento mais lento permite à seleção
84 GENÉTICA E EXTINÇÃO

natural mais gerações para eliminar alelos deletérios e geralmente


causa menos depressão endogâmica do que um endocruzamento rá­
pido para a mesma quantidade total de endocruzamento. Entretanto,
geralmente as diferenças são pequenas.
Mesmo taxas lentas de endocruzamento aumentam o risco de ex­
tinção; isso apenas faz com que leve mais tempo para que haja o acú­
mulo de endocruzamento e a ocorrência da extinção. Por exemplo, 15
populações de moscas-de-ffuta de um total de 60, endogâmicas devido
ao tamanho de 67 indivíduos por geração, foram extintas dentro de
210 gerações, enquanto que cinco de um total de seis réplicas de po­
pulações de moscas caseiras, com tamanho de 50 indivíduos, foram
extintas após 64 gerações.

Endocruzamento e extinção em populações selvagens


Uma vez que o endocruzamento leva a um elevado risco de extinção
em populações de cativeiro, é lógico extrapolar o mesmo para as po­
pulações selvagens. Entretanto, relacionar a extinção nas populações
selvagens a efeitos genéticos é difícil, uma vez que determinar as cau­
sas exatas da extinção na natureza nunca é fácil e os dados genéticos
necessários freqüentemente são inexistentes. No entanto, três linhas
de evidências suportam esta idéia:
• Muitas populações selvagens sofrem perda de diversidade genética
e depressão endogâmica
• Tem-se mostrado que a depressão endogâmica e a perda da variação
genética contribuem para a extinção das populações na natureza
• Projeções computacionais prevêem que o endocruzamento aumen­
tará o risco de extinção para as populações selvagens.

Muitas populações selvagens estão geneticamente comprometidas


Alguns biólogos conservacionistas têm argumentado que a estocas-
ticidade ambiental e demográfica e as catástrofes poderiam levar as
populações à extinção antes que os fatores genéticos se tornassem um
problema. Esta previsão não é totalmente verdadeira, uma vez que a
maioria das espécies ameaçadas tem menor diversidade genética do
que as espécies não ameaçadas relacionadas, e assim provavelmente
RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 85

Desde seu isolamento a população da Ilha Barrow tem sobrevivido a flutuações


estocásticas e catástrofes, mas sofre de problemas genéticos que aumentam o seu
risco de extinção. Ela tem um coeficiente de endocruzamento de 0,91 e apresenta
depressão endogâmica quando comparada com as populações do continente.
A freqüência de fêmeas lactantes é de 92% na população do continente, mas
somente 50% na Ilha Barrow.
Populações de ilhas têm sido vistas como fontes ideais para a restauração
de populações reduzidas ou extintas do continente, especialmente na Austrália.
Entretanto, elas são candidatas ruins para translocações se ainda existem populações
alternativas do continente, uma vez que elas geralmente têm baixa diversidade
genética e são endogâmicas.

estão sofrendo depressão endogâmica e perda da adaptabilidade. Por


exemplo, o wallaby-de-pata-preta dos rochedos na Ilha Barrow e em
outras ilhas da costa oeste da Austrália possuem níveis de diversidade
genética muito baixos e a única população da ilha investigada (Ilha
Barrow) exibe depressão endogâmica (Quadro 5.1). Além disso, os eu-
ros (uma grande espécie de canguru, Macropus robustus) da Ilha Barrow
também têm diversidade genética reduzida e sofrem de anemia crôni­
ca e cargas de parasitas mais altas do que animais do continente.
86 GENÉTICA E EXTINÇÃO

Evidência direta e circunstancial de extinções devido ao


endocruzamento e à perda da diversidade genética
Evidência direta do envolvimento do endocruzamento na extinção de
populações naturais tem sido apresentada para as populações da bor­
boleta finlandesa (Quadro 5.2). O endocruzamento foi um importante
previsor do risco de extinção depois que foram considerados os efeitos
de todas as outras variáveis ecológicas e demográficas. Adicionalmen­
te, populações experimentais da planta primula-da-noite, fundadas
com baixos níveis de diversidade genética (e alto endocruzamento),
exibiram taxa de extinção de 75% após três gerações na natureza, en­
quanto que populações com endocruzamento mais baixo mostraram
uma taxa de extinção de apenas 21%.

Quadro 5.2 Endocruzamento e risco de extinção em populações de


borboletas na Finlândia (Saccheri et al. 1998)

Utilizando análises genéticas moleculares, foram determinados os níveis de


heterozigosidade em 42 populações de borboletas na Finlândia em 1995, e a sua
extinção ou sobrevivência foi registrada no ano seguinte. Dessas populações, 35
sobreviveram até o outono de 1996 e sete foram extintas. As taxas de extinção
foram maiores para populações com menor heterozigosidade, um indicador do
endocruzamento, mesmo após levar em conta os efeitos das variáveis demográficas
e ambientais (tamanho populacional, tendência do tamanho populacional ao longo
do tempo e área) que sabidamente afetam o risco de extinção, como mostrado
na figura abaixo. As diferentes curvas representam a relação entre a probabilidade
de extinção e a proporção de locos heterozigotos por população com diferentes
números (I -5) de grupos larvais.

Espera-se que populações menores sejam mais propensas à extin­


ção do que as populações maiores, por razões demográficas, ecológicas
e genéticas. Uma forte relação foi observada entre o tamanho popu­
lacional e a persistência no carneiro norte-americano (Ovis canadensis)
(Fig. 5.4).
Todas as populações com <50 indivíduos tornaram-se extintas den­
tro de 50 anos. Uma ampla variedade de fatores demográficos, ecoló­
gicos e genéticos (incluindo endocruzamento e perda de diversidade
genética) pode ter contribuído para estas extinções. Similarmente, as
RELAÇÃO ENTRE ENDOCRUZAMENTO E EXTINÇÃO 87

extinções de mamíferos nos parques nacionais no oeste norte-america­


no foram relacionadas à área do parque e, presumivelmente, ao tama­
nho populacional. As extinções foram mais freqüentes para populações
com tamanho populacional inicial menor, com grandes flutuações nos
tamanhos populacionais e tempo de geração menor. Embora isso seja
esperado quando se levam em consideração as questões demográficas
e ambientais, esses efeitos também são previstos a partir das teorias
genéticas.
Os declínios no tamanho populacional ou extinção na natureza
têm sido atribuídos ao endocruzamento, ao menos em parte, em mui­
tas outras populações incluindo a puma da Florida (Puma concolor coryi),
os lobos-cinzentos (Canis lupus) da Ilha Royale, o Tretraz-das-pradarias
(Tympanuchus cupido), a ave-de-pradarias Tympanuchus cupido cupido, o pi-
ca-pau-malhado-médio (Dendrocopos medius), a víbora-européia-comum
(Vipera berus), e muitas espécies de ilhas.

Projeções computacionais
Projeções computacionais incorporando dados reais de história de
vida são freqüentemente usadas para acessar o impacto combinado de
todos os fatores determinísticos e estocásticos sobre a probabilidade
de extinção das populações. Isso é chamado de análise de viabilidade
populacional (ver adiante). Em resumo, informações sobre o tamanho
populacional, taxas de nascimento e sobrevivência e suas variações
com a idade e o tempo, junto com medidas de depressão endogâmica,
mudanças na qualidade de habitat, etc. formam os dados de entrada
utilizados por programas computacionais. Modelos estocásticos são
então executados através de ciclos repetidos para se projetar o destino
das populações no futuro.
Brooks e colaboradores encontraram que os efeitos do endocru­
zamento sobre a sobrevivência de juvenis, em níveis encontrados em
mamíferos de cativeiro, reduziram o tempo médio para extinção em
cerca de 25-31% em 20 espécies de animais com tamanhos populacio­
nais típicos para espécies ameaçadas. Uma projeção computacional
semelhante realizada para a planta rara genciana-européia (Gentiana
lutea) forneceu resultados similares.
88 GENÉTICA E EXTINÇÃO

Relação entre perda de diversidade genética e


extinção
As populações naturais enfrentam uma pressão contínua das mudan­
ças ambientais, incluindo novas doenças, pestes, parasitas, competido­
res e predadores, poluição, e mudanças climáticas globais induzidas
pelo homem. Espécies naturalmente exogâmicas com grandes popula­
ções normalmente possuem grande reserva de diversidade genética, o
que gera diferenças entre os indivíduos, permitindo a adaptação a tais
pressões (Capítulo 2). Respostas evolutivas às mudanças ambientais
têm sido observadas em muitas espécies (Capítulo 3).
Acredita-se que a perda da diversidade genética em populações
pequenas de espécies ameaçadas reduza sua habilidade de evoluir, e
aumente seu risco de extinção em resposta às mudanças ambientais.
Embora evidências experimentais validem esta previsão, existem ape­
nas uns poucos exemplos onde a extinção de populações naturais pode
ser diretamente atribuída à falta de variação genética.

Relação entre perda da diversidade genética em locos de auto-


incompatibilidade e extinção em plantas
A evidência mais direta de relação entre a perda da diversidade gené­
tica e o aumento do risco de extinção vem do estudo de locos de auto-
incompatibilidade em plantas. Aproximadamente metade de todas as
espécies de plantas com flores tem sistemas genéticos para prevenir a
autofertilização. A auto-incompatibilidade é regulada por um ou mais
locos que podem carregar 50 ou mais alelos em grandes populações.
Se o mesmo alelo está presente em um grão de pólen e no estigma, a
fertilização por este grão de pólen não terá sucesso. Acredita-se que
a auto-incompatibilidade evoluiu para evitar os efeitos deletérios do
endocruzamento.
Os alelos da auto-incompatibilidade podem ser perdidos pela de­
riva genética em populações pequenas, levando a uma proporção
reduzida de pólen que pode fertilizar os óvulos de qualquer indiví­
duo, e eventualmente reduzida produção de sementes e extinção. Por
exemplo, a população de margaridas Hymenoxys acaulis var. glabra de
Illinois foi reduzida a três plantas e não se reproduziu por 15 anos,
apesar da polinização pelas abelhas. Ela tinha tão poucos alelos de
auto-incompatibilidade que se encontrava funcionalmente extinta. As
plantas, entretanto, produziram sementes viáveis quando fertilizadas
com o pólen de grandes populações de Ohio e Canadá. A margarida-da-
savana Rutidosis leptorrhynchoides, no leste da Austrália, também mostra
um número reduzido de alelos de auto-incompatibilidade. Apesar da
redução do valor adaptativo devido à perda de alelos de auto-incom-
patibilidade ter sido documentada em apenas algumas espécies de
plantas, é provável que isso se torne um problema para a maioria das
plantas ameaçadas e auto-incompatíveis.

Relação entre perda da diversidade genética e suscetibilidade às


doenças, pestes e parasitas
Novos patógenos constituem uma das mais terríveis ameaças para to­
das as espécies. A perda da diversidade genética diminui severamente
RELAÇÃO ENTRE PERDA DE DIVERSIDADE GENÉTICA E EXTINÇÃO 89

a capacidade de resposta das populações a essa pressão. Por exemplo,


a castanha americana chegou próxima a extinção nos anos de 1950
pela introdução de uma doença causada por fungos (chestnut blight), já
que ela não tinha nenhuma variação genética para resistência. Antes
a castanha dominava as florestas do nordeste dos USA e este evento foi
um dos maiores desastres ecológicos a atacar aquele país.
O complexo principal de histocompatibilidade (MHC) é um grande
grupo de locos presente nos vertebrados, que está envolvido no reco­
nhecimento de moléculas antigênicas de patógenos e na regulação
da resposta do sistema imune. A variação genética nesses locos está
entre as mais altas conhecidas para quaisquer locos. Quanto mais he-
terozigoto um indivíduo é, contra mais patógenos o indivíduo pode
responder. Da mesma forma, quanto mais variável uma população é,
mais provável é que alguns indivíduos possam resistir a um patógeno.
Esta diversidade genética é mantida pela seleção favorecendo hetero-
zigotos e pela seleção favorecendo alelos raros (seleção balanceadora).
Dessa forma, é previsto, e suportado por algumas evidências, que a
perda da diversidade nesses locos reduz a habilidade das populações
para responder contra novas formas de patógenos. Apesar da seleção
manter a diversidade, alelos serão perdidos pela deriva genética em
populações pequenas, aumentando a chance de que um patógeno que
possa matar um indivíduo possa matar todos os demais. Após ataques
seqüenciais por diferentes patógenos, é mais provável a persistência
de populações com alta diversidade genética do que a persistência de
populações com baixa diversidade (Fig. 5.5). Por exemplo, populações
do peixe-barrigudinho Poeciliopsis que apresentam baixa diversidade
genética têm cargas de parasitas maiores do que populações com gran­
de diversidade. A mortalidade devido a parasitas nematódeos gastroin­
testinais, após períodos de alta densidade populacional, é elevada em
carneiros da raça Soay (Ovis aries) com baixa diversidade genética e alto
endocruzamento.
90 GENÉTICA E EXTINÇÃO

Populações geneticamente viáveis


Escassez de espaço para espécies ameaçadas
Existe uma falta severa de habitat na natureza para muitas espécies
ameaçadas, e uma falta crítica de instalações para a reprodução em ca­
tiveiro. Portanto é essencial estabelecer a melhor maneira de utilizar
os recursos disponíveis. Esta seção aborda a seguinte pergunta: ‘Quão
grande as populações devem ser para que sejam geneticamente viáveis
em longo prazo?’ Esse assunto tem sido discutido sob o título de tama­
nho populacional mínimo viável (MVP), o tamanho mínimo necessário
para reter o sucesso reprodutivo e o potencial evolutivo por centenas
de anos. Isso não significa que as populações de menor tamanho não
tenham futuro, mas somente que seu sucesso reprodutivo e seu poten­
cial evolutivo estarão provavelmente comprometidos, e que elas terão
um aumento no risco de extinção. Como lembrou Soulé: “não existem
casos sem esperança, somente pessoas sem esperança e casos caros.”

Quão grande?
Três componentes genéticos devem ser considerados ao responder essa
questão:
• O tamanho populacional é grande o suficiente para evitar a depres­
são endogâmica?
• Existe diversidade genética suficiente para a evolução ocorrer em
resposta à mudança ambiental?
• A população é grande o suficiente para evitar o acúmulo de novas
mutações deletérias?
Diferentes autores têm apresentado várias estimativas (Tabela 5.1).
Consideramos cada um desses pontos abaixo:

Tabela 5.1 I Quão grande as populações devem ser para manter sua
“saúde” genética? Várias estimativas do tamanho populacional efetivo
(NJ necessário são dadas. Também é fornecido o tempo para recuperar
os níveis normais de diversidade genética após perda completa da

Retenção do sucesso reprodutivo


Franklin e Soulé, baseados na experiência de criadores de animais,
sugeriram que um tamanho populacional efetivo de 50 indivíduos
seria suficiente para evitar a depressão endogâmica num curto prazo
de tempo. Entretanto, é provável que, em longo prazo, isso seja uma
subestimativa severa.
POPULAÇÕES GENETICAMENTE VIÁVEIS 91

Uma vez que o endocruzamento aumenta a uma taxa de 1/(2N)


por geração, todas as populações finitas e fechadas eventualmente se
tornarão endogâmicas. Além disso, como a depressão endogâmica é
proporcional ao coeficiente de endocruzamento, não existe limiar co­
nhecido abaixo do qual o endocruzamento não seja deletério. Espera-
se que mesmo níveis baixos de endocruzamento resultem em algum
nível baixo de depressão endogâmica. Com base nos impactos do en­
docruzamento encontrados em mamíferos de cativeiro, poderíamos
esperar cerca de 2% de depressão endogâmica quando F = 0,01, 4%
quando F = 0,02, e 15% quando F = 0,10, apenas para a sobrevivência
de juvenis.
A depressão endogâmica tem sido descrita em populações de mos-
cas-de-fruta mantidas por muitas gerações em tamanhos efetivos de
aproximadamente 50 indivíduos e em populações de moscas caseiras
com N ~ 90 indivíduos dentro de cinco gerações.
Não sabemos precisamente quão grandes as populações devem ser
para evitar uma depressão endogâmica significativa em longo prazo,
mas o tamanho necessário é claramente muito maior do que um tama­
nho efetivo de 50 indivíduos. De modo perturbador, aproximadamente
metade de todas as populações de mamíferos ameaçados em cativeiro
têm N de menos que 50 indivíduos, e provavelmente estão sofrendo
depressão endogâmica ou provavelmente a sofrerão em breve.
Em qual ponto o endocruzamento se tornará suficiente para causar
extinções? O tempo estimado para a extinção de populações da mos­
ca caseira com diferentes tamanhos aproximou-se do tamanho efeti­
vo em gerações, ou seja, 54 gerações para N = 50. O risco de extinção
em populações de camundongos e moscas-de-fruta que se tornaram
rapidamente endogâmicas aumenta marcadamente em F = 0,5 e acima
disso (Fig. 5.3).
Na prática, populações selvagens que foram listadas como em peri­
go entre 1985-1991 possuíam entre 100-1000 indivíduos. Similarmente,
o esquema da IUCN para a categorização do risco de extinção utiliza
50, 250, e 1000 adultos em populações de tamanhos estáveis como o
valor para a sua inclusão nas categorias de criticamente em perigo,
em perigo e vulnerável, respectivamente. Uma vez que a razão NJN é
de aproximadamente 0,1, muitas dessas populações terão tamanhos
efetivos de 50 ou menos indivíduos e estão em risco de extinção pela
depressão endogâmica, a menos que seus tamanhos sejam substancial­
mente aumentados.

Retenção do potencial evolutivo


Uma vez que nosso objetivo é conservar as espécies como entidades
dinâmicas capazes de responder às mudanças ambientais, o seu po­
tencial evolutivo deve ser mantido. Existe uma gama de estimativas do
tamanho populacional necessário para manter a diversidade genética
e o potencial evolutivo em longo prazo, mas uma concordância geral
é um N de pelo menos 500 indivíduos (Tabela 5.1). Uma vez que este
debate tem implicações importantes para a prática do manejo genéti­
co das populações selvagens e de cativeiro, exploramos a base dessas
estimativas.
92 I GENÉTICA E EXTINÇÃO

Franklin sugeriu um tamanho efetivo de 500 indivíduos, argumen­


tando que a variação genética aditiva determina o potencial evolutivo,
e isso está diretamente relacionado à heterozigosidade. Ele assumiu
que o nível de variação genética aditiva em equilíbrio era dependen­
te de um balanço entre a perda devido à deriva e a renovação pela
mutação. Usando informações sobre a taxa de mutação para uma
característica quantitativa, ele concluiu que um tamanho efetivo de
500 indivíduos era necessário para manter o nível original da variação
genética aditiva.
Lande sugeriu que era necessário um valor de 5000, argumentan­
do que somente cerca de 10% das novas mutações geradas são úteis
para mudanças genéticas futuras, uma vez que a maioria é deletéria.
Embora tenha havido reservas em relação a essa estimativa, em geral
é aceito que um tamanho efetivo entre 500 e 5000 seja necessário para
reter o potencial evolutivo em curto prazo.
O tamanho de censo em populações selvagens deve ser aproxima­
damente uma ordem de magnitude maior do que o valor de N que
calculamos, ou seja, 5000-50000, uma vez que estimativas compreen­
sivas de NJN são aproximadamente 0,1 (Capitulo 4). Isso aumenta o ta­
manho mínimo necessário para manter a viabilidade em longo prazo,
e encaixa-se dentro da faixa de valores obtidos a partir da consideração
de outras ameaças não-genéticas.

O destino das espécies com Ne < 500


Espécies com tamanhos efetivos insuficientes para a manutenção da
diversidade genética em longo prazo não estão condenadas à extinção
imediata. Em geral elas sofrerão diminuição da diversidade genética
e redução da habilidade para evoluir. Elas se tornarão endogâmicas
em uma taxa dependente de seu tamanho, com conseqüente redução
nas taxas de reprodução e sobrevivência, e necessitarão de uma cres­
cente intervenção humana para assegurar sua sobrevivência. Isso pode
ocorrer através da melhoria ambiental (isolando-as de competidores,
evitando a introdução de doenças, restaurando o habitat, etc.) ou do
manejo para aumentar a reprodução e sobrevivência.

Retenção da diversidade genética em longo prazo em um loco


particular
Alguns locos, tais como os locos de auto-incompatibilidade em plantas
e os locos do sistema MHC em vertebrados, são tão importantes para
a sobrevivência que é essencial reter sua diversidade genética. Os ta­
manhos populacionais necessários para manter essa diversidade são
muito maiores do que aqueles para caracteres quantitativos, uma vez
que as taxas de mutação são baixas para locos individuais. Baseado
no equilíbrio mutação-deriva, Lande & Barrowclough sugeriram que
seria necessário um tamanho efetivo populacional entre 105-106. Esses
tamanhos são inacessíveis para muitas espécies para as quais há uma
preocupação conservacionista (especialmente vertebrados), dado a
atual disponibilidade de habitat e de recursos para a conservação. De
fato, populações estáveis desses tamanhos nem são consideradas como
ameaçadas. O tamanho populacional necessário para manter a diver­
sidade em locos sujeitos à seleção balanceadora (por exemplo, locos
POPULAÇÕES GENETICAMENTE VIÁVEIS 93

do sistema SI e MHC) será menor do que esta estimativa, mas também


pode ser uma meta inacessível.

Tempo para recuperar a diversidade genética


A perda da diversidade genética poderia ser pouco preocupante se ela
fosse recuperada rapidamente por mutação. Entretanto, as taxas de
mutação são muito baixas, de forma que os tempos de recuperação são
longos (Tabela 5.1). A diversidade num loco com uma taxa de mutação
de 105-107por geração leva de 100000 a 10 milhões de gerações para ser
recuperada. A variação genética quantitativa requer somente 100-1000
gerações para se recuperar - o equivalente a aproximadamente 2600-
26000 anos para elefantes! Uma vez que não podemos contar com as
mutações para a recuperação da diversidade no espaço de tempo de
interesse da conservação, todo esforço deve ser feito para preservar a
diversidade genética existente.

Evitando o acúmulo de novas mutações deletérias


Os alelos que têm efeitos benéficos ou prejudiciais apenas pequenos
sobre um caráter tornam-se efetivamente neutros em populações
reduzidas. Ou seja, seu destino é determinado pelo acaso e não pelo
seu coeficiente de seleção. Assim, uma parte das novas mutações le­
vemente deletérias se tornará homozigota em pequenas populações,
resultando em um sucesso reprodutivo reduzido que poderá eventu­
almente levar à extinção (esgotamento populacional mutacional). A
significância do acúmulo mutacional em populações de reprodução
sexuada é controversa. As estimativas dos tamanhos efetivos popula­
cionais necessários para prevenir declínios devido ao acúmulo muta­
cional têm variado de 12 a 1000.

Metas genéticas no manejo de populações selvagens


Temos conhecimento de somente alguns poucos planos de manejo
para espécies em perigo na natureza onde os objetivos genéticos são
definidos. No mico-leão-dourado o objetivo é reter 98% da diversidade
genética por 100 anos, o que corresponde a um N ~ 400 indivíduos.
Atualmente o tamanho do censo é de aproximadamente 600 indivídu­
os selvagens, mais de 400 animais nas florestas resultantes de re-intro-
duções, e aproximadamente 500 indivíduos em cativeiro. A taxa NJN
deve exceder a 0,27 para atingir este objetivo baseado em todos os ani­
mais, ou 0,4 para os animais selvagens. Uma vez que isso é improvável,
a meta genética não está sendo alcançada, primariamente em conse-
qüência da falta de habitat disponível para a expansão populacional.

Metas genéticas no manejo de populações de cativeiro: um


compromisso
Como discutido previamente, existe muito menos recursos disponíveis
para manter todas as espécies que precisam ser reproduzidas em cati­
veiro do que seria necessário, especialmente se os números recomen­
dados acima fossem usados (isto é, N = 500 por espécie). Os zoológicos
alojam aproximadamente 540000 vertebrados e, na melhor das hipó­
teses, somente metade do espaço é apropriado para a propagação de
94 GENÉTICA E EXTINÇÃO

animais em perigo. Estima-se que aproximadamente 2000 espécies de


vertebrados necessitem da reprodução em cativeiro para prevenir a ex­
tinção. Manter cada uma dessas espécies num tamanho efetivo de 500
indivíduos (assumindo NJN = 0,3 em cativeiro) requer espaço para 3,3
milhões de animais, aproximadamente 12 vezes o espaço disponível.
O compromisso atual é manejar as espécies em perigo em cativeiro
para se conservar 90% da diversidade genética existente por 100 anos.
O período de 100 anos é decorrente da esperança de que habitats sel­
vagens poderão se tornar disponíveis após o declínio da população
humana, previsto para ocorrer dentro de 100-200 anos. Baseado na
equação 4.2 isso requer um N de:

onde L é o tempo de geração em anos. Conseqüentemente, o tamanho


necessário é inversamente proporcional ao tempo de geração, uma das
poucas circunstâncias onde as espécies de vida longa estão em vanta­
gem. Por exemplo, o tamanho efetivo necessário para manter 90% da
heterozigosidade original no camundongo-de-pata-branca é de 1769 in­
divíduos, que tem um tempo de geração de 14 semanas, 475 indivíduos
para uma espécie com uma geração por ano, e 18 para os flamingos do
Caribe com um tempo de geração de 26 anos.
Embora manter 90% da diversidade genética por 100 anos possa ser
um compromisso prático razoável, é improvável que todas as espécies
que necessitem de reprodução em cativeiro possam ser alojadas. Além
disso, o custo desse compromisso é o aumento do endocruzamento
e a redução do sucesso reprodutivo. Uma perda aceitável de 10% da
heterozigosidade corresponde a um aumento do coeficiente de endo­
cruzamento de 10% com conseqüente depressão endogâmica. Após 100
anos, os indivíduos nascidos em cativeiro serão relacionados uns aos
outros como se fossem primos de primeiro grau (F = 0,0625) ou meio-
irmãos (F = 0,125), reduzindo a sobrevivência juvenil em aproximada­
mente 15% e o valor adaptativo total em cerca de 25%. Os custos sobre
o valor adaptativo provavelmente serão maiores se as espécies forem
posteriormente reintroduzidas dentro de ambientes selvagens severos.
Assim, os programas de reprodução em cativeiro estão balanceando os
riscos de endocruzamento moderado em 100 anos contra os benefícios
da manutenção de mais espécies em perigo dentro dos recursos dispo­
níveis. Esta não é uma escolha atrativa, mas é necessário.

Análise de viabilidade populacional (


O deterioramento genético é apenas uma parte dos processos de ame­
A análise de viabilidade
populacional acessa o impacto aça enfrentados pelas espécies. Populações selvagens enfrentam uma
combinado dos fatores série de ameaças tanto de fatores determinísticos como estocásticos
determinísticos e estocásticos que podem atuar, e interagir, para levar as populações à extinção. Con­
sobre os risco de extinção, seqüentemente, as questões genéticas devem ser consideradas num
permitindo a avaliação de contexto amplo de conservação. Esta seção trata dessa conexão e está
opções de manejo alternativas preocupada em acessar o risco de extinção a partir de todos os fatores.
nos programas de recuperação
Então consideramos os meios para avaliar as opções de manejo para a
das espécies
recuperação das espécies em perigo e ameaçadas.
ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 95

Avaliações do risco de extinção são necessárias para que as popu­


lações possam ser classificadas de acordo com o risco relativo, e para
que prioridades de conservação possam ser estabelecidas. Avaliações
numéricas dos riscos podem ser fornecidas através da análise de viabi­
lidade populacional (PVA). Aqui apresentamos uma breve introdução a
este campo.

Fatores determinísticos
Fatores determinísticos são aqueles processos que têm uma direção e
uma magnitude relativamente consistente. A maioria dos fatores de­
terminísticos que causam declínio e extinção estão direta ou indireta­
mente associados às ações humanas, a saber:
• Destruição do habitat para o desenvolvimento urbano e da agricul­
tura, etc.
• Super exploração para uso comercial ou recreativo
• Poluição inadvertida e aplicação deliberada de pesticidas, herbici­
das, etc.
• Espécies exóticas introduzidas intencionalmente, ou por acidente
(por exemplo, a água de lastro dos navios, comércio internacional)
• Uma combinação dos fatores acima.
Enquanto a perda de habitat é o principal fator documentado, na maio­
ria dos casos vários desses fatores se combinam para levar as espécies
para a extinção. Além disso, esses fatores determinísticos reduzem os
tamanhos populacionais ao ponto onde processos estocásticos adicio­
nais podem se tornar significantes e levar ao golpe final.

Fatores estocásticos
Ao contrário dos fatores determinísticos, os processos estocásticos
nas populações pequenas têm um grande componente do acaso com
efeitos variando em direção e magnitude. Como brevemente visto no
Capitulo 1, existem quatro formas de estocasticidade relevantes para o
risco de extinção nas pequenas populações:
• Estocasticidade demográfica Esta descreve as flutuações naturais
nas taxas de nascimento e morte, e razão sexual. A extinção pode
ocorrer se, por acaso, todos os indivíduos em uma população pe­
quena são estéreis, ou todos são de um mesmo sexo. Por exemplo,
os últimos seis indivíduos do passeriforme Ammodramus maritimus
nigrescens eram todos machos, um evento com uma probabilidade
de (1/2)6 = 1,6%.
• Estocasticidade ambiental As taxas de nascimento e morte podem
variar devido à variações no ambiente, tais como flutuações na pre­
cipitação, temperatura, densidade de competidores, predadores,
fontes de alimento, etc. Por exemplo, as taxas de nascimento e mor­
te dos cangurus-vermelhos (Macropus rufus) são fortemente afetadas
pela precipitação.
• Estocasticidade genética Abrange a depressão endogâmica, a
perda de variabilidade genética e o acúmulo de novas mutações
deletérias.
• Catástrofes Eventos ambientais extremos tais como ciclones, in­
vernos severos, queimadas, inundações, erupções vulcânicas e
96_____I GENÉTICA E EXTINÇÃO

epidemias de doenças podem ser a causa final das extinções. Por


exemplo, um furacão causou um declínio significante no número
populacional do papagaio-de-Porto Rico, enquanto que recentemen­
te os leões Africanos em Serengeti sofreram alta mortalidade devido
à cinomose, e muitas espécies de sapos em todo o mundo estão sen­
do levados à extinção por uma doença causada por fungos.

Interação dos fatores estocásticos


Os impactos combinados dos fatores estocásticos são mais danosos do
que a soma de seus efeitos individuais. A pressão humana geralmente
leva a tamanhos populacionais pequenos. Isso promove o endocru-
zamento e conseqüente redução nas taxas de nascimento e sobrevi­
vência. Por outro lado, isso causa ainda mais redução no tamanho
populacional, aumento da instabilidade demográfica e um mergulho
cíclico para a extinção, chamado de vórtex de extinção (Fig. 5.6).

Poluição Sobre-exploração

A variação no tamanho da população devido à estocasticidade demo­


gráfica e ambiental e às catástrofes reduz o tamanho efetivo da popula­
ção e aumenta a taxa de endocruzamento, aumentando assim o risco
de extinção.

Impactos combinados
A ameaça total sofrida por uma população é o efeito combinado de fa­
tores determinísticos e fatores estocásticos demográficos, ambientais
e genéticos, mais a ocorrência ocasional de catástrofes. Conseqüente-
mente, as ações para recuperar espécies ameaçadas devem visar não
apenas as causas originais do declínio (geralmente fatores determinís­
ticos), mas também as ameaças estocásticas adicionais. A identifica­
ção dos fatores mais importantes que estão determinando o risco de
extinção pode ajudar a identificar possíveis ações corretivas para as
populações ameaçadas. A análise de viabilidade populacional (Fig. 5.7)
é usada para prever o risco de extinção a partir dos impactos combina­
dos de todas as ameaças determinísticas e estocásticas.
ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 97

Análise da viabilidade populacional (PVA)

Espécies Caça ou

Previsão das probabilidades de extinção: análise de viabilidade


populacional (PVA)
As PVAs geralmente são realizadas através da entrada de dados, num
programa de computador, de informações sobre:
• Taxas de nascimento, sobrevivência e suas variâncias
• Número de populações
• Tamanhos populacionais
• Capacidade do habitat
• Freqüência e efeitos das ameaças (por exemplo, catástrofes, caça, etc.)
• Outros detalhes sobre a história de vida da espécie (por exemplo,
suscetibilidade à depressão endogâmica, taxas de fluxo gênico entre
as populações, etc.).
Realizam-se então projeções sobre as populações no tempo futuro (Fig.
5.8). Os conceitos usados nos programas de simulação computacional
são baseados no conhecimento acumulado por mais de 100 anos de
pesquisa em demografia populacional, ecologia e genética. Um exem­
plo do tipo de informação necessária para rodar uma PVA no pacote do
programa VORTEX é dado para o mico-leão-dourado na Fig. 5.9.
As PVAs são usadas para prever o risco de extinção numa espécie
em particular, para comparar opções alternativas de manejo para re­
cuperar uma espécie ameaçada, e como uma ferramenta de pesquisa.
Quando utilizadas para comparar opções de recuperação, elas podem
acessar os impactos do controle da caça, os impactos da remoção de
um predador, etc.
98 GENÉTICA E EXTINÇÃO

Exemplo das informações utilizadas como dados de entrada numa simulação


da análise de viabilidade populacional (PVA) para o mico-leão-dourado, usando o pacote
computacional VORTEX (depois de Bailou et al. 1998). O exemplo apresentado é de
apenas uma das várias populações dessa espécie. EV é a variação ambiental para o
parâmetro. As variáveis de entrada são explicadas no manual do programa VORTEX.

Muitas réplicas da simulação (geralmente 500-1000) são conduzidas


para um determinado conjunto de dados de entrada, uma vez que as
projeções para uma população irão variar entre essas simulações esto-
cásticas. Por exemplo, a variação entre as réplicas simuladas para da
ave Zosterops lateralis chlorocephalus (todas utilizando dados iniciais idên­
ticos) é mostrada na Fig. 5.10. Os resultados geralmente são resumidos
considerando-se todas as simulações. As P\As geralmente fornecem os
tamanhos populacionais, a taxa de crescimento, a proporção das si­
mulações onde ocorreu extinção, e algumas reportam a proporção da
heterozigosidade retida.
ANÁLISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) 99

Fig 5.10 Variabilidade estocástica entre réplicas de simulações de PVA em projeções


para a população da ave Zosterops lateralis chlorocephalus da Ilha Heron, Great Barrier
Reef, Austrália (dados de Brook & Kikkawa 1998). Os dados de entrada são idênticos
para todas as simulações; a variabilidade observada resulta do fato de que o programa
computacional usa geradores de números randômicos para mimetizar a estocasticidade
demográfica, ambiental e catastrófica natural para as populações. Quanta variabilidade é
adicionada pelo gerador de números randômicos depende do tamanho populacional, da
teoria de amostragem e da variância das taxas fornecida pelos dados de entrada. A linha
em negrito é o tamanho observado da população de Z. lateralis chlorocephalus.

Genética e PVA
A depressão endogâmica é o único fator genético incorporado nas
P\As. Para sua incorporação precisamos saber:
• A susceptibilidade da espécie à depressão endogâmica
• Quais componentes do valor adaptativo são afetados pelo endocru-
zamento (sobrevivência, fecundidade)
• A extensão do isolamento entre fragmentos, ou seja, as taxas de mi­
gração e de fluxo gênico, uma vez que estes afetam o coeficiente de
endocruzamento
• O sistema de reprodução (exogamia vs. autofertilização, monogamia
vs. poligamia vs. hermafroditismo, etc.); este afeta o Ne
• O tamanho populacional e a razão sexual.
Como discutido acima, as PVÂs têm revelado que a depressão endogâ­
mica aumenta substancialmente o risco de extinção para uma gama
de espécies.

Quão úteis são as previsões das PVAs?


A principal limitação da PVA é que os dados existentes sobre a história
de vida para a maioria das espécies ameaçadas são insuficientes. Uma
análise completa da viabilidade pode, portanto, não ser possível, ou
elas podem ter baixa confiabilidade. Entretanto, as contribuições mais
importantes das estimativas de risco utilizando PVA não vêm necessa­
riamente da avaliação quantitativa dos riscos de extinção propriamen­
te dito. Ao contrário, o processo de conduzir uma PVA envolve:
• A compilação das informações sobre a historia de vida da espécie
• A identificação de todos os processos de ameaça agindo sobre ela
100 GENÉTICA E EXTINÇÃO

• O acesso da provável importância desses processos (análise de


sensibilidade)
• A identificação de potenciais estratégias de recuperação e a avalia­
ção de seus impactos relativos
• A identificação das deficiências de conhecimento sobre as espécies,
e a formulação de propostas de pesquisas para remediá-las.
Assim, benefícios consideráveis podem ser obtidos através do processo
de PVA, mesmo se as previsões quantitativas não forem adequadamen­
te acuradas. A PVA proporciona um processo de planejamento trans­
parente que deve ter consistência interna. Além disso, o processo de
recuperação pode ser operado de uma maneira adaptativa. As proje­
ções da PVA podem ser atualizadas à medida que mais informações
sobre as espécies são acumuladas, e práticas de manejo podem ser mo­
duladas à luz das previsões da PVA.

Tamanhos populacionais mínimos viáveis (MVP)


Como habitat e recursos financeiros são limitados, é essencial que de­
terminemos os tamanhos mínimos e as áreas de habitat necessárias
para manter populações viáveis em longo prazo. A PVA foi originalmen­
te inventada para determinar o tamanho populacional mínimo viável
(MVP) e a área de habitat para o urso-cinzento (Ursus arctos horribüis).
Diferentes estimativas do tamanho necessário, baseadas em uma
variedade de argumentos teóricos e dados empíricos, são apresentadas
na Tabela 5.2. Com base em evidências empíricas, Thomas sugeriu que
uma população com 10 indivíduos é muito pequena, 100 é geralmente
ANALISE DE VIABILIDADE POPULACIONAL (PVA) | 101

inadequado, 1000 é adequado para espécies com variabilidade típica


no tamanho populacional, enquanto que 10.000 deve permitir uma
persistência em médio e longo prazo de aves e mamíferos que mostram
grandes flutuações no tamanho populacional. O tamanho necessário
não é universal e é amplamente aceito que depende fortemente dos
detalhes da biologia da espécie, do ambiente que ela ocupa e dos tipos
de ameaça enfrentados pelas mesmas. Entretanto, esses pressupostos
podem ser um artefato devido ao fato da avaliação ser realizada para
um número fixo de anos, uma vez que as previsões dos MVPs para 99%
de persistência por 40 gerações foram relativamente consistentes para
os principais táxons e ambientes em um estudo com 100 espécies.
Pelos dados mostrados na Tabela 5.2 fica claro que as populações de­
vem ter um número de ao menos alguns milhares de indivíduos para
serem viáveis em longo prazo. Tanto o tamanho populacional utilizado
como referência para que as espécies sejam listadas como ameaçadas,
como o tamanho populacional utilizado como meta de recuperação
para as espécies protegidas sob a lei das espécies ameaçadas dos USA,
são muito pequenos. O tamanho médio na lista é aproximadamente
1000 indivíduos para animais e 100 para plantas. Além disso, o tama­
nho populacional médio para um táxon ser considerado recuperado é
de aproximadamente 1550 indivíduos.
Uma implicação preocupante desses números é que mesmo as
maiores reservas (com exceção da Antártica) são muito pequenas para
manter tamanhos populacionais adequados para a sobrevivência, por
um longo prazo, dos grandes herbívoros e especialmente grandes
carnívoros.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 2,
12,14 e 20 estendem esses tópicos, além de referências.
Beissinger, S. R. & D. R. McCullough. 2002. Population Viability Analysis.
University of Chicago Press, Chicago, IL. Anais de uma conferência
sobre PVA. Veja especialmente as contribuições de Mills & Lindberg,
Rali et al. e Shaffer et al.
Ecological Bulletin. 2000. Volume 48: Population Viability Analysis. Número
especial sobre PVA. Veja especialmente os trabalhos de Akçakaya &
Sjõgren-Gulve, Akçakaya, e Lacy.
Ralls, K., J. D. Ballou & A. Templeton. 1988. Estimates of lethal equivalents
and the cost of inbreeding in mammals. Conservation Biology 2,185-
-193. Trabalho clássico sobre os impactos do endocruzamento em
mamíferos em cativeiro.
Saccheri, I., M. Kuussaari, M. Kankare, P. Vikman, W. Fortelius & I. Hanski.
1998. Inbreeding and extinction in a butterfly metapopulation.
Nature 392, 491-494. Descreve a primeira evidência direta de que o
endocruzamento contribui para a extinção de populações selvagens.
Westemeier, R. L., J. D. Brawn, S. A. Simpson, T. L. Esker, R. W. Jansen, J.
W. Walk, E. L. Kershner, J. L. Bouzart & K. N. Paige. 1998. Tracking the
long-term decline and recovery of an isolated population. Science 282,
1695-1698. Descreve o declínio de uma população pequena e isolada
da ave Tympanuchus cupido em Illinois devido à perda da diversidade
102 I GENÉTICA E EXTINÇÃO

genética e endocruzamento, e sua recuperação após introdução de


aves não relacionadas de outros estados.
Young, A. G., A. H. D. Brown, B. G. Murray, P. H. Thrall & C. H. Miller.
2000. Genetic erosion, restricted mating and reduced viability in
fragmented populations of the endangered grassland herb Rutidosis
leptorrhynchoides. Pp. 335-359 in A. G. Young & G. M. Clarke, eds.
Genetics, Demography and Viability of Fragmented Populations. Cambridge
University Press, Cambridge, UK. Descreve conseqüências da perda de
diversidade genética para alelos de auto-incompatibilidade sobre o
valor adaptativo numa planta em perigo.
Capítulo 6

Resolução de incertezas
taxonômicas e definição de
unidades de manejo
O status taxonômico dos organismos deve ser estabelecido
acuradamente para que não seja negada proteção às espécies em
perigo, e nem esforços sejam perdidos com espécies abundantes. A
informação genética ajuda na resolução de incertezas taxonômicas
e na definição de unidades de manejo dentro das espécies.
104 RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

Importância da exatidão taxonômica na biologia da


conservação
O status taxonômico de muitos táxons não está resolvido. Isso é particu­
larmente verdadeiro para plantas inferiores e animais invertebrados,
mas também se aplica a grandes e óbvios animais, incluindo os veados,
wallabies e lobos.
Em conservação muitas decisões erradas podem ser tomadas se o
status taxonômico das populações não estiver determinado correta­
mente. Isso inclui:

• Podemos permitir que espécies não reconhecidas que estão em pe­


rigo tornem-se extintas
• Espécies em perigo podem ficar sem proteção legal, enquanto que
populações de espécies comuns, ou híbridos entre espécies, podem
ter proteção garantida
• Espécies diagnosticadas incorretamente podem ser hibridadas com
outras espécies, resultando em redução do sucesso reprodutivo
• Recursos podem ser desperdiçados com espécies abundantes ou po­
pulações híbridas
• Populações que poderiam ser usadas para melhorar o valor adapta-
tivo das populações endogâmicas podem ser esquecidas
Este capítulo explora o raciocínio e as metodologias utilizadas para
definir o status taxonômico. Uma abordagem semelhante é usada para
distinguir unidades de manejo dentro das espécies, uma vez que o cru­
zamento de populações geneticamente diferenciadas pode resultar na
redução do valor adaptativo (depressão exogâmica) e no rompimento
de grupos evolutivos únicos.
As incertezas taxonômicas resultam, predominantemente, da au­
sência de dados adequados. A descrição de muitas espécies é basea­
da em informações limitadas sobre a distribuição geográfica de um
pequeno número de características (geralmente morfológicas) de base
genética desconhecida. Os vermes-de-veludo (Filo Onychophora) na
Austrália proporcionam um exemplo extremo. Apenas sete espécies
foram reconhecidas em uma revisão de 1985, baseada na morfologia.
Entretanto, mais de 100 espécies claramente divergentes são agora
identificadas usando aloenzimas e microssatélites.
O “agrupamento” incorreto de várias espécies distintas dentro de
uma espécie reconhecida tem deixado sem proteção espécies em pe­
rigo. Sabemos agora que os tuataras ameaçadas na Nova Zelândia, os
únicos membros sobreviventes de uma antiga ordem de répteis, inclui
duas espécies, uma das quais estava em sério risco de extinção (Qua­
dro 6.1). Da mesma maneira, a ameaçada tartaruga-de-Kemp (Lépido-
chelys kempii) é uma espécie geneticamente distinta, ao invés de ser
uma espécie relacionada e não ameaçada como era previamente ima­
ginado. A sua proteção é agora promovida. Helianthus exilis, um girassol
da Califórnia, não era protegido por ser proximamente relacionado
a outro girassol com o qual hibridava. Entretanto, a análise genética
molecular identificou H. exilis como uma espécie em perigo distinta e
merecedora de conservação.
IMPORTÂNCIA DA EXATIDÃO TAXONÔMICA NA BIOLOGIA DA CONSERVAÇÃO 105

Quadro 6.1 Incerteza taxonômica em tuataras e pumas da América do Norte,


e suas implicações para a conservação (Daugherty et al. 1990;
Culver et al. 2000)

TUATARA
Os tuataras ameaçadas na Nova Zelândia são os únicos sobreviventes de uma
ordem primitiva de répteis, e pensava-se tratar de uma única espécie. Estudos
de diferentes populações de ilhas usando 25 locos de aloenzimas e dados de
morfologia revelaram que elas consistem de três grupos distintos, Sphenodon
punctatus punctatus no norte, uma subespécie no oeste do Estreito de Cook (S. p.
western), e S. guntheri. A última era negligenciada e encontrava-se em sério risco de
extinção sem um manejo ativo de conservação.

PUMAS DA AMÉRICA DO NORTE


Os mastozoólogos reconheciam aproximadamente oito subespécies morfológicas
de pumas norte-americanos (também chamados de cougars, pumas e leões-da-
montanha), incluindo a criticamente em perigo puma-da-Flórida. Entretanto, a
análise através de marcadores microssatéJites e DNA mitocondrial não encontrou
nenhuma diferenciação significativa entre as populações, mas separou-as das
subespécies da América do Sul.
Uma implicação importante para a conservação é que o número de subespécies
separadas que necessitam de conservação é reduzido. Além disso, a controversa
recente decisão de aumentar a população de pumas-da-Flórida utilizando indivíduos
da subespécie do Texas para remover a depressão endogâmica, pode agora ser
reconhecida como uma ação de manejo lógica envolvendo apenas a simples
translocação de indivíduos, e não como uma decisão controversa de hibridar
subespécies distintas.
Puma
106 | RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

Por outro lado, a divisão de uma espécie em dois ou mais táxons


reconhecidos pode levar a decisões conservacionistas errôneas. Duas
joaninhas raras da Nova Zelândia (Prodontria sp.), previamente conside­
radas diferentes espécies, pertencem a uma única espécie, como mos­
trado pela análise de dados de aloenzimas. Similarmente, não existe
diferenciação genética entre as oito subespécies morfologicamente
reconhecidas dos pumas norte-americanos, incluindo a puma critica­
mente em perigo da Flórida (Quadro 6.1). A distinção das corujas-pin-
tadas (Strix occidentalis) do norte e da Califórnia, no oeste dos Estados
Unidos, é bastante controversa.
Ahibridação entre populações cujas taxonomias é incorreta tem cria­
do problemas em algumas ações de conservação. Por exemplo, o único
exemplar do pássaro dusky sea (Ammoãramus maritimus nigrescens) restante
foi hibridado sem sucesso com uma subespécie inapropriada e tornou-
se extinto. A infertilidade em uma população de cativeiro do antílope
dik-dik (Madoqua sp.) foi devido à mistura de diferentes raças cromossô-
micas (provavelmente espécies não descritas), e um problema similar
foi encontrado em macacos-da-noite (gênero Aotus). Inversamente, a úl­
tima coruja-boobook da Ilha Norfolk (Ninox novaeseelandiae undulata) foi
hibridada com sucesso ao seu táxon mais próximo da Nova Zelândia.
Híbridos entre espécies comuns têm algumas vezes sido erroneamente
identificados como espécies raras que necessitam de conservação.
A falha para reconhecer o grau de diferenciação genética entre
as subespécies (possivelmente espécies separadas) de orangotangos
de Bornéo e Sumatra levou à sua hibridação em muitos zoológicos. A
preocupação com a possível hibridação também tem influenciado as
decisões de manejo em direção oposta. Por exemplo, duas populações
de lobos-mexicanos (Canis lupus baileyi) foram mantidas separadas de
uma população “pura” pequena e endogâmica, uma vez que esta era
incorretamente suspeita de haver hibridado com cachorros, coiotes ou
lobos-cinzentos (ver Capítulo 9).
Na prática, a taxonomia de grupos particulares de populações ge­
ralmente pode ser resolvida com suficientes dados morfológicos, repro­
dutivos e genéticos. Marcadores genéticos, incluindo cromossomos,
aloenzimas, microssatélites, fingerprint de DNA e DNA mitocondrial,
freqüentemente ajudam. Entretanto, para compreender esse uso dos
marcadores genéticos, precisamos primeiro rever o que se quer dizer
por espécie biológica, o que queremos conservar, e como as populações
se diferenciam e se tornam novas espécies.

O que é uma espécie?


A maior parte das espécies nomeadas têm sido delimitadas, com base
em caracteres morfológicos, como grupos de indivíduos que são dis­
tintos de todos os outros grupos. A definição morfológica das espécies,
entretanto, pode ter conexão limitada com a genética ou evolução. Al­
guns grupos de indivíduos parecem inicialmente indistinguíveis mor­
fologicamente, mas são compostos por duas ou mais espécies distintas
(espécies crípticas). Os veados-muntjac da China (Muntiacus reevesi) e
índia (Muntiacus muntjak) são morfologicamente similares, ainda que
o primeiro tenha 46 cromossomos e último tenha 6 cromossomos nos
machos e 7 nas fêmeas, sendo claramente espécies distintas.
SUBESPÉCIES | 107

De modo confuso, não existe uma definição universalmente aceita


para responder a questão “O que é uma espécie?”. Existem pelo me­
nos 22 definições. Essas incluem desde definições baseadas em mor­
fologia, ecologia e genética até definições baseadas em características
biológicas, história evolutiva e filogenia. Algumas definições podem, e
isso tem acontecido, classificar os sexos de uma espécie como espécies
separadas. Outras definições mais úteis são baseadas em unidades evo­
lutivas e fluxo gênico.
O conceito biológico de espécie tem sido a definição de espécie
mais aceita na genética populacional e evolutiva e na biologia da con­
servação. Essa define uma espécie como um grupo de indivíduos e po­
pulações naturais que na prática, ou potencialmente, se intercruzam
e que não cruzam com indivíduos de outros grupos. Essa definição re­
conhece que indivíduos dentro de uma espécie podem trocar material
genético, enquanto que aqueles de diferentes espécies normalmente
não o fazem.
Essa definição proporciona um meio prático para delimitar geneti­
camente as espécies. Grupos de indivíduos compartilhando a mesma
área estarão trocando material genético se eles pertencerem à mesma
espécie, mas não se eles pertencerem a espécies separadas. Populações
da mesma espécie separadas geograficamente serão capazes de cruzar
e produzir descendentes férteis na primeira geração e nas gerações
subseqüentes. De modo oposto, populações de espécies diferentes irão
falhar no acasalamento ou produzirão descendentes com sobrevivên­
cia e fertilidade reduzida. Por exemplo, leões e tigres podem ser hibri-
dados, mas suas progénies serão estéreis.
O conceito biológico de espécie não trata adequadamente com for­
mas assexuadas e habitualmente endogâmicas, torna-se confuso para
espécies que hibridam, e possui pouca relevância para a classificação
de espécimes fósseis. Dada essas limitações, não é de surpreender que
o conceito biológico de espécie seja controverso. A lei norte-americana
de espécies ameaçadas (US Endangered Species Act) é baseada no concei­
to biológico de espécie, mas tem encontrado dificuldades por excluir
híbridos da conservação e por não lidar adequadamente com formas
assexuadas.
A falta de uma definição reconhecidamente universal para espécie
cria enormes dificuldades na biologia da conservação.

Subespécies
Freqüentemente as subespécies ameaçadas recebem proteção da lei e
são focos de substancial esforço de conservação. Subespécies são agru­
pamentos de populações dentro de uma espécie que compartilham
uma distribuição geográfica ou habitat únicos, e que são distinguíveis
de outras subdivisões da espécie em várias características com base ge­
nética. Membros de diferentes subespécies normalmente não exibem
um isolamento reprodutivo marcante. Eles geralmente podem produ­
zir descendentes férteis, embora possa haver alguma redução na fertili­
dade ou na sobrevivência desses descendentes. O cruzamento entre as
subespécies de orangotangos de Bornéo e Sumatra produz descenden­
tes férteis sem nenhuma redução aparente na taxa de sobrevivência.
108 RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

O conceito de subespécie é mais subjetivo do que o conceito de


espécie. Elas podem ser consideradas mais adequadamente como po­
pulações à parte no processo evolutivo de divergência em direção à
especiação completa.
Populações distintas dentro da espécie e das subespécies tam­
bém podem receber proteção da lei, como descrito mais adiante no
capítulo.

Como uma espécie surge?


A especiação envolve a As espécies surgem de duas formas. A primeira é pela diversificação,
divergência genética das quando uma espécie anterior dá origem a duas ou mais espécies des­
populações até que elas estejam cendentes. Isto ocorre quando as populações diferenciam-se genetica­
reprodutivamente isoladas mente, tornam-se reprodutivamente isoladas e são ditas especiadas.
A especiação freqüentemente envolve o isolamento físico ao menos
parcial. A segunda forma é através de uma mudança gradual dentro de
uma espécie ao longo do tempo, de tal forma que ela seja considerada
uma espécie diferente num tempo futuro. Neste capítulo, nos preocu­
paremos com a diversificação das espécies.

Fatores de isolamento
As populações podem se tornar Os fatores de isolamento físico são resultantes, com freqüência, de
isoladas por características mudanças geográficas (aparecimento de montanhas, desertificação,
geográficas (alopatria) ou por divisão de rios, mudanças no nível do mar e deriva dos continentes)
uma mudança (por exemplo, ou da expansão de organismos para novos territórios. Se as populações
mudança de hospedeiro) dentro isoladas tornam-se tão diferentes de forma que elas não se intercruzam
do mesmo ambiente (simpatria) após um contato secundário, então a especiação é chamada alopátrica.
Essa é geralmente considerada a forma mais comum de especiação nos
animais.
A especiação também pode ocorrer dentro da distribuição da es­
pécie ancestral, tal como ocorre quando uma espécie dispersa de um
hospedeiro para outro. Isso é chamado de especiação simpátrica. Por
exemplo, a mosca-das-frutas Rhagoletis pomonella, que realiza a corte
e o acasalamento sobre as frutas em desenvolvimento de suas plan­
tas hospedeiras, começaram a utilizar maçãs em 1864 e cerejas em
1960. Como essas árvores possuem períodos de frutificação levemente
diferentes, isso proporcionou um mecanismo de isolamento e forças
seletivas levaram à diferenciação entre as populações nos diferentes
hospedeiros. Essa pode ser uma forma comum de especiação em para­
sitas. Evidências sobre a importância da especiação simpátrica estão
sendo acumuladas.
O isolamento reprodutivo Evidências recentes indicam que a adaptação a diferentes ambien­
surge da adaptação a diferentes tes tem um papel importante, ou mesmo predominante, no desenvol­
ambientes vimento do isolamento reprodutivo. Por exemplo, o peixe esgana-gata
(Gasterosteus aculeatus) de três populações isoladas em lagos no oeste
do Canadá desenvolveram, independentemente, formas bentônicas e
limnéticas com diferentes tamanhos e dietas, depois da retração gla­
cial há 10000 anos atrás. As formas bentônicas e limnéticas de dife­
rentes lagos não são reprodutivamente isoladas. Entretanto, as formas
bentônicas versus limnéticas dos mesmos lagos ou de lagos diferentes
mostram isolamento reprodutivo.
COMO UMA ESPÉCIE SURGE? 109

Especiação “instantânea”
Muitas espécies de plantas surgiram “instantaneamente” via poliploi-
dia quando o número cromossômico aumentou, por exemplo, para 4n
(tetraplóide). Essas formas são, em grau elevado, reprodutivamente
isoladas de seus progenitores. Por exemplo, a sequóia (Sequoia sempervi-
rens) é um hexaplóide com 66 cromossomos enquanto seu parente vivo
mais próximo tem 2n = 22.
Existem duas formas de poliploidia, autopoliploidia e alopoliploi-
dia. Os autopoliplóides se formam pelo aumento do número de con­
juntos cromossômicos de uma espécie, aparentemente pela produção
de gametas diplóides. Por exemplo, existem formas diplóides (2n = 22)
e autotetraplóides (4n = 44) da espécie em perigo de margarida-das-
savanas no leste da Austrália.
Espécies alopoliplóides originam-se pela combinação de conjuntos
cromossômicos completos de duas espécies pré-existentes, como des­
crito para a rara orquídea autotetraplóide de Hong Kong (Spiranthes
hongkongensis) da Fig. 6.1. Essa forma de poliploidia é muito mais co­
mum na natureza do que a autopoliploidia.

yjrSQni Especiação “instantânea” na rara orquídea de Hong Kong através de


alopoliploidia (após Sun 1996). A orquídea rara Spiranthes hongkongensis surgiu pela
combinação de complementos cromossômicos completos de duas espécies distintas,
cada uma com 30 cromossomos (S. sinensis e S. spiralis), produzindo uma espécie com 60
cromossomos.
O provável modo de formação de S. hongkongensis é indicado acima. O cruzamento
inicial entre as espécies progenitoras diplóides produziu um híbrido estéril. Uma
duplicação espontânea do número de cromossomos, presumidamente em um botão
de flor (ou a produção de gametas diplóides raros) gerou gametas que formaram
um alopoliplóide fértil. Evidências de aloenzimas indicam que o autotetraplóide S.
hongkongensis formou-se somente uma vez já que todos os indivíduos têm o mesmo
genótipo multiloco. Esta orquídea pode cruzar com seu progenitor diplóide S. sinensis, mas
as progénies são triplóides inférteis.
I 10 RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

A freqüência de poliploidia varia entre os táxons de plantas, sen­


do 47-70% em angiospermas, 95% em pteridófitas, mas apenas 5% em
gimnospermas. A poliploidia é muito mais rara em animais (especial­
mente em mamíferos e aves) do que em plantas. Poliplóides que se
reproduzem sexuadamente são conhecidos em alguns poucos grupos
de peixes e sapos, mas animais poliplóides são mais freqüentemente
partenogenéticos (reprodução a partir de um óvulo não fertilizado),
como por exemplo, em alguns anfíbios, répteis e insetos. Animais poli­
plóides de interesse da conservação incluem muitas espécies de peixes
salmonídeos tetraplóides.

A especiação geralmente é lenta


A maior parte da especiação ocorre gradualmente através de longos
períodos de tempo, presumidamente em milhares ou milhões de anos.
Por exemplo, algumas populações de plantas isoladas geograficamente
por pelo menos 20 milhões de anos, tais como os plátanos (Platanus sp.)
e bananas (Musa) na América e Ásia, ainda formam híbridos férteis. Si­
milarmente, algumas aves distribuídas na Europa e América, tais como
os pássaros das famílias Paridae e Certhidae e corvos, são tão semelhan­
tes que eles são classificados como da mesma espécie. Alguns casos
de especiação têm sido mais rápidos, mas continuam levando muitos
milhares de anos. Por exemplo, algumas populações de ursos polares
(Ursus maritimus) e de roedores da subfamília Arvicolinae (Cricetidae)
separadas pela glaciação no Pleistoceno, ocorrida a 1,8 milhão de anos
atrás, desenvolveram isolamento reprodutivo ao menos parcial. Em
média, moscas-das-ffutas (o grupo melhor estudado) levam entre 1,5-
3,5 milhões de anos de separação para especiar. Entretanto, as moscas-
de-frutas Havaianas se especiaram em apenas 500000 anos. Os peixes
ciclídeos no Lago Nabugabo, na África, especiaram-se dentro de 4000
anos. Cerca de 170 espécies de ciclídeos evoluíram no Lago Vitória den­
tro de 500D00-75Q000 anos. Elas estão agora sendo exterminadas pela
introdução de um peixe carnívoro. A especiação simpátrica nas moscas
Rhagoletis, mencionada previamente, é um dos exemplos mais rápidos.
Como a evolução é um processo contínuo, algumas populações se­
rão observadas no meio do caminho do processo de especiação. Elas
são parcialmente diferenciadas, mostram algum isolamento reprodu­
tivo e são muito difíceis de serem classificadas. As subespécies podem
representar populações que estão caminhando em direção ao status de
espécie completa. Os wallabies-dos-rochedos da Austrália (mostrados
na página inicial deste capítulo), muitos dos quais estão em perigo, são
exemplos de populações “pegas no ato” de especiação. As populações
e espécies mostram vários graus de diferenciação na morfologia, cro­
mossomos, aloenzimas e DNAmt. Muitas exibem somente isolamento
reprodutivo parcial, e existem várias zonas de hibridação.

Uso de análises genéticas na delimitação de


espécies
As análises usando marcadores genéticos geralmente podem ajudar
na delimitação de espécies, mas isso é mais definitivo para populações
simpátricas do que para alopátricas.
USO DE ANÁLISES GENÉTICAS NA DELIMITAÇÃO DE ESPÉCIES

Uso de análises genéticas na delimitação de espécies simpátricas


Populações simpátricas compartilham, ou sobrepõem, a mesma distri­
buição geográfica. De acordo com o conceito biológico de espécie, po­
pulações simpátricas da mesma espécie devem trocar alelos, enquanto
que diferentes espécies compartilhando a mesma região geográfica não
o fazem. Conseqüentemente, se qualquer marcador genético mostra
ausência de troca gênica, duas populações simpátricas pertencentes
a diferentes espécies são identificadas. Na prática, vários locos são ne­
cessários para tal diagnóstico. Por exemplo, foi demonstrado que duas
formas simpátricas de ratos-canguru (pequenos marsupiais pertencen­
tes ao gênero Potorous) no sudeste da Austrália eram diferentes espécies
com base nos seus diferentes números de cromossomos e na ausência
de alelos compartilhados em cinco locos de aloenzimas (Fig. 6.2). As
duas formas são, claramente, reprodutivamente isoladas. O rato-can-
guru-de-patas-longas (Potorous longipes) existe em número muito baixo
e é uma espécie em perigo. Morfologicamente similares, os vermes-de-
veludo (Peripatus sp.) de um mesmo tronco de árvore nas Montanhas
Azuis, em Sidney, Austrália, fixaram diferenças em 86% dos 21 locos de
aloenzimas. Conseqüentemente, eles são espécies claramente diferen­
tes que divergiram há milhões de anos atrás.
Se duas populações simpátricas compartilham alelos em todos
os locos, então a hipótese de que eles são a mesma espécie não pode
I 12 RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

ser rejeitada. Por exemplo, com base em aloenzimas e morfologia, foi


demonstrado que duas joaninhas raras que apresentavam diferentes
colorações e eram simpátricas na Nova Zelândia pertenciam à mesma
espécie.

Uso de análises genéticas na delimitação de espécies alopátricas


Como as populações alopátricas estão fisicamente isoladas, elas geral­
mente não têm oportunidade para a troca de material genético. Para
distinguir espécies utilizando-se o conceito biológico de espécie, o ide­
al seria a existência de evidências oriundas do cruzamento entre as
populações. Esterilidade do híbrido, ou sobrevivência marcadamente
reduzida, indicariam espécies separadas. Por outro lado, se os híbridos
fossem totalmente viáveis e férteis por várias gerações, então as popu­
lações pertenceriam à mesma espécie. Tais cruzamentos são geralmen­
te impraticáveis, especialmente em espécies ameaçadas.
Conseqüentemente, os marcadores genéticos são ffeqüentemente
utilizados para delimitar espécies alopátricas. Diferenças cromossômi-
cas fixadas normalmente proporcionam uma evidência definitiva para
o status de espécie distinta, uma vez que muitas diferenças cromossô-
micas resultam em esterilidade parcial nos indivíduos heterozigotos.
Por exemplo, os veados-muntjac da China e índia são morfologica­
mente similares, mas são claramente espécies distintas, uma vez que,
como descrito acima, eles têm diferentes números cromossômicos. A
similaridade de cromossomos em populações alopátricas não é uma
evidência definitiva de que elas pertençam à mesma espécie, mas dife­
renças nos cromossomos indicam espécies distintas.
A classificação baseada em marcadores moleculares é mais arbitrá­
ria do que para espécies simpátricas, uma vez que ela é baseada na
inferência de isolamento reprodutivo. Na prática, duas populações são
consideradas como pertencentes a espécies diferentes se elas forem tão
diferenciadas geneticamente como são duas espécies bem reconheci­
das em um grupo relacionado. Por exemplo, orangotangos de Bornéo e
Sumatra diferem no DNA mitocondrial, proteínas, fingerprints de DNA,
e por uma inversão cromossômica, e diferem tanto quanto outras es­
pécies distintas bem conhecidas de primatas. Conseqüentemente têm-
se sugerido que eles sejam classificados como espécies diferentes, ao
invés de duas subespécies (Quadro 6.2). Entretanto, cruzamentos entre
as duas formas são viáveis e férteis nas gerações Ft e F2.
Têm-se utilizado marcadores genéticos para estabelecer que as no­
vas formas de mamíferos descobertas no Vietnã e Laos são distintas
das espécies já conhecidas. Por exemplo, o saola ou boi-de-Vu-Quang
(.Pseudoryx nghetinhensis) foi identificado como uma espécie distinta
com base na análise morfológica e de DNA. Acredita-se que apenas
umas poucas centenas de indivíduos desta espécie existam, logo ela
deve ser considerada em perigo.
Se a diferenciação entre populações alopátricas é muito menor do
que aquela entre duas espécies bem reconhecidas no mesmo gênero
ou em gêneros relacionados, então as populações são consideradas
como pertencentes à mesma espécie. Por exemplo, a população do roe­
dor colonial Geomys pinetis da Geórgia, USA, era constituída por menos
de 100 indivíduos nos anos de 1960 e foi listada como uma espécie em
USO DE ANÁLISES GENÉTICAS NA DELIMITAÇÃO DE ESPÉCIES I 13

Os orangotangos de Bornéo e Sumatra são restritos às suas respectivas ilhas no


sudeste da Ásia. Eles diferem na morfologia e no comportamento, e têm sido
designados como subespécies. Os orangotangos de Bornéo e Sumatra diferem
por uma inversão cromossômica pericêntrica (um segmento cromossômico
invertido), por diferenças nas seqüências do DNAmt (abaixo), em locos nucleares
codificadores de proteínas (abaixo) e no fmgerprint de DNA. A estimativa do
tempo de divergência de um ancestral comum é de cerca de 1,7 milhão de anos,
muito anterior à separação de Bornéo e Sumatra pelo aumento no nível do mar
há 10000-20000 anos atrás. Como geneticamente eles são tão diferentes quanto
espécies claramente reconhecidas, como chimpanzés e bonobos, têm-se sugerido
o status de esoécies comoletas oara as duas formas.

Híbridos são encontrados em muitos zoológicos e são viáveis e férteis nas


gerações F, e Fr Conseqüentemente, eles não podem ser reconhecidos como
espécies distintas de acordo com o conceito biológico de espécie, mas podem
ser reconhecidos sob outras definições de espécies. Isso ilustra a confusão
criada pelas diferentes definições de espécie. A proposta para classificá-los como
espécies diferentes foi mudada, tndependentemente de seus status taxonômicos
formais, eles representam unidades evolutivas distintas e devem ser manejados
separadamente.
RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

perigo. Análises subseqüentes baseadas em morfologia, aloenzimas,


cromossomos e DNA mitocondrial não revelaram nenhuma diferença
consistente entre essa população e populações próximas mais comuns
de Geomys pinetis do sudeste. Com base nisso, a forma colonial desse
roedor não é reconhecida como uma espécie separada.
As evidências a respeito da habilidade dos dados de morfologia,
cromossomos, aloenzimas, marcadores de DNA nuclear e DNA mito­
condrial para predizer corretamente o status taxonômico, como de­
terminado por experimentos de cruzamentos, são apenas limitadas.
Dados para wallabies-dos-rochedos e roedores nativos da Austrália
sugerem que os cromossomos proporcionam uma melhor previsão
do isolamento reprodutivo do que os marcadores moleculares. Infeliz-
mente, as análises cromossômicas estão atualmente fora da moda para
o delineamento do status taxonômico.
O DNA mitocondrial é um dos marcadores moleculares mais fre-
qüentemente utilizados para delimitar táxons. Entretanto, esse tem
várias limitações. Primeiro, a diferenciação do DNA mitocondrial pode
ser produzida pela falta de dispersão das fêmeas, enquanto que a dis­
persão dos machos pode estar mantendo as populações geneticamente
homogêneas em locos nucleares. Segundo, os padrões do DNA mito­
condrial em diferentes populações também podem trazer equívocos
de interpretação, resultantes da ocorrência de seleção. Terceiro, a deri­
va pode levar a árvores de relacionamentos incorretas se a população
fundadora, antes da divergência, tenha sido polimórfica. Conseqüente-
mente é imprudente usar apenas o DNA mitocondrial como base para
definir o status taxonômico.
Na ausência de dados de cruzamento, as delimitações de espécies
mais convincentes são baseadas na concordância de uma ampla va­
riedade de informações (morfologia, comportamento reprodutivo, cro­
mossomos, marcadores nucleares e DNA mitocondrial), ou com base
nos cromossomos.

Distância genética
Para delimitar populações alopátricas como meras populações, ou su­
bespécies, ou como espécies distintas, necessitamos de uma medida de
diferenciação genética ou distância genética. Podemos então compa­
rar essa distância com aquela entre espécies bem definidas em grupos
relacionados. A extensão do isolamento reprodutivo entre populações
está correlacionada com sua diferenciação genética (Tabela 6.1). A me­
dida mais comumente utilizada é a distância genética de Nei, DN. Pri­
meiro definimos o índice de similaridade genética de Nei, ÍN
DISTÂNCIA GENÉTICA I 15

onde pix é a freqüência do alelo i na população (ou espécie) X, p.y é a fre-


qüência do alelo i na população (ou espécie) Y , m é o número de alelos
num loco, e ln é o logaritmo para a base e.
Quando as freqüências alélicas são similares em duas populações
(pix = piy), a similaridade genética aproxima-se de 1 e a distância gené­
tica aproxima-se de zero. Inversamente, quando as duas populações
não compartilham nenhum alelo, o índice de similaridade genética é
zero e a distância genética é infinita. O exemplo 6.1 ilustra o cálculo
da distância genética a partir de um loco de aloenzima no pica-pau-de-
crista-vermelha, uma espécie em perigo. As estimativas devem ser ba­
seadas em numerosos locos para proporcionar medidas de distâncias
genéticas confiáveis.
116 | RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

Quão grandes são as distâncias genéticas em espécies bem definidas?


As distâncias genéticas geralmente aumentam quando subimos os
níveis hierárquicos taxonômicos, passando de populações dentro das
espécies para espécies, gêneros e famílias. Por exemplo, a distância ge­
nética média obtida pela análise de aloenzimas em moscas-das-frutas
do complexo de espécies Drosophüa willistoni aumenta a partir das po­
pulações isoladas geograficamente (média D = 0,03), para subespécies
(D = 0,23), para espécies distintas (D = 1,21). Entretanto, essa relação é
muito próxima e com “ruídos”, como pode ser visto na Tabela 6.1. Por
exemplo, subespécies de lagartos mostram distâncias genéticas maio­
res do que espécies de macacos, roedores Geomys e aves.
CONSTRUÇÃO DE ÁRVORES FILOGENÉTICAS I 17

Construção de árvores filogenéticas


Com freqüência estamos interessados nas relações evolutivas entre as
populações e espécies (ver Capítulo 9). Por exemplo, podemos querer
identificar as populações ou subespécies mais proximamente relacio­
nadas para usar em programas de reprodução que visem a recuperação
de espécies ameaçadas. Por exemplo, se as relações verdadeiras entre
as seis subespécies do pássaro Ammodramus maritimus fossem conheci­
das, o último indivíduo da subespécie A. m. nigrescens poderia ter sido
cruzado, provavelmente com sucesso, com uma subespécie relaciona­
da da costa Atlântica ao invés de cruzá-lo com a forma da costa do Gol­
fo. Árvores filogenéticas refletindo relações evolutivas entre espécies
(ou populações) podem ser construídas usando-se dados genéticos. O
exemplo 6.2 fornece uma ilustração simples da construção de uma ár­
vore baseada em dados de seqüência de DNAmt para a coruja-boobook
da Ilha Norfolk e seus parentes presumidamente mais próximos.
Um grande número de métodos estatísticos está agora disponível
para a produção de árvores a partir de marcadores moleculares e de
morfologia, incluindo métodos de matrizes de distância (UPGMA), má­
xima parcimônia e métodos de máxima verossimilhança. Pacotes de
programas computacionais estão disponíveis para a realização dessas
análises (como por exemplo, os programas PAUP, PHYLIP, HENNIG86).
Esses métodos geralmente produzem árvores confiáveis se existir

Exemplo 6.2 Construção de uma árvore filogenética a partir de dados de


seqüências de DNA (Norman et al. 1998)

São apresentadas abaixo as diferenças entre as seqüências de DNAmt da


coruja-boobook da Ilha Norfolk (IN) (Ninox novaeseelandiae undulata) e de
seus parentes presumidamente mais próximos. A coruja-boobook da IN
declinou para somente um indivíduo e a melhor opção para recuperar a
espécie foi cruzá-la com a subespécie mais proximamente relacionada.
O cruzamento da fêmea remanescente com um macho de uma subes­
pécie relacionada da Nova Zelândia (NZ) produziu 16 descendentes na
Fr A análise subseqüente de seqüências do DNAmt (298 bases) confir­
mou que a subespécie escolhida para o cruzamento era a mais intima­
mente relacionada, corroborando a informação existente para dados
morfológicos.
I 18 RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

Colocando-se os parentes mais próximos juntos, obtemos a árvore abai­


xo. O comprimento dos ramos são proporcionais ao número de dife­
renças de bases entre os táxons e, dessa forma, devem aproximar-se do
tempo evolutivo desde a divergência. Assim, o comprimento de cada um
dos ramos até o nó abaixo da coruja-boobook IN e da coruja-boobook
IZ é igual a 1 (total de 2 diferenças entre eles). Esses diferem da coruja-
boobook da Tasmânia por 8 bases, então atribuímos 4 para o segmento
que vai da coruja-boobook da Tasmânia até o nó abaixo dele, e 4 para o
segmento do nó até a coruja-boobook IN e a coruja-boobook NZ. Como a
diferença de uma base já foi atribuída para as distâncias entre o nó até a
coruja-boobook IN e até a coruja-boobook NZ, é atribuído 3 para a seção
desde seus nós até o nó de junção com a coruja-boobook da Tasmânia
(Tas). Metade das 13 diferenças entre a coruja N. strenua e a coruja N. rufa
(6,5) é atribuída a cada segmento até o seu nó. Finalmente, a diferença
média entre coruja-boobook IN - coruja N. strenua e coruja-boobook IN -
coruja N. rufa é de 22 bases, então atribuímos metade disso (11) para cada
segmento até o nó mais baixo. No lado esquerdo já atribuímos o valor 4,
restando 7 para o segmento até o nó mais inferior. No lado direito, 6,5 foi
alocado para o segmento até o primeiro nó, restando 4,5 para ser alocado
ao segmento desse nó até o nó mais inferior.

IN B NZ B Tas B N. strenua N. rufa

Árvores baseadas em
marcadores genéticos somente
refletirão as relações evolutivas
de forma acurada se as taxas
de evolução forem constantes
nas diferentes linhagens, se os
marcadores forem neutros e
se a população fundadora for
monomórfica (ou se existirem
muitos marcadores herdados
independentemente)
DEPRESSÃO EXOGÂMICA I 119

existirem dados disponíveis para muitos locos independentes. Reco­


menda-se a utilização de aproximadamente 30 locos polimórficos de
aloenzimas ou 20 locos de microssatélites. A filogenia consenso em
primatas, baseada em vários locos nucleares, é concordante com as
outras evidências.
As árvores filogenéticas ou árvores gênicas são utilizadas para mui­
tos outros propósitos na biologia da conservaçáo (Capítulo 9).

Depressão Exogâmica
O cruzamento de populações (ou de táxons superiores) geneticamente
diferenciadas cria o risco de que os descendentes híbridos na primei­
ra geração e em gerações subseqüentes sofram redução no sucesso
reprodutivo.
Muitas subespécies bem definidas divergiram até o ponto onde os
cruzamentos entre elas resultam em um menor valor adaptativo. Não
se deve esperar que o cruzamento entre os tigres de Bengala e da Si­
béria produza descendentes adaptados para um dos dois ambientes. A
principal razão para a resolução das incertezas taxonômicas é evitar o
estabelecimento de tais cruzamentos.
Populações que se diferenciaram como resultado da adaptação a di­
ferentes habitats podem mostrar um valor adaptativo reduzido quando
cruzadas, porque os híbridos podem não ser adaptados a nenhum dos
habitats. Por exemplo, existe um sucesso reprodutivo reduzido e uma
produção de descendentes com desenvolvimento anormal na zona de
hibridação entre duas populações de vermes-de-veludo no leste Aus­
traliano. Um caso menos severo de depressão exogâmica é encontrada
nos sapos corroboree, Pseudophyrne sp., nas montanhas do sudeste da
Austrália. Populações alopátricas do norte e do sul de sua distribuição
possuem diferenças sutis no padrão de coloração e em alcalóides da
pele, e exibem uma distância genética de 0,17-0,49. Os híbridos entre
as populações são férteis e viáveis, mas exibem 17% de anormalida­
de larval, comparada a < 4% nos cruzamentos dentro das regiões. A
probabilidade de que populações diferenciadas devido à deriva gené­
tica exibam depressão exogâmica é menor do que a probabilidade de
sua ocorrência em populações diferenciadas pela adaptação. Assim, é
importante, mas difícil, determinar se a diferenciação populacional é
devido à deriva ou à adaptação.

Extensão da depressão exogâmica em animais e plantas


A extensão e significância da depressão exogâmica é motivo de contro­
vérsia. Evidências em mamíferos e aves são escassas, com exceção dos
casos onde a taxonomia não é resolvida adequadamente. O exemplo
mais amplamente citado, mas irônico, é do ibex-dos-Alpes (Capra ibex)
que vive nas montanhas Tatra da Eslováquia. A população foi elimina­
da pela adição ao estoque Europeu de animais de diferentes subespé­
cies adaptados aos desertos da Turquia e do Sinai. A causa da extinção
foi o rompimento do ciclo reprodutivo, com híbridos mal adaptados se
acasalando no início do outono e, fatalmente, tendo seus filhotes em
fevereiro, o mês mais frio.
120 | RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXQNÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

A depressão exogâmica tem sido detectada para algumas caracte­


rísticas em cruzamentos experimentais entre diferentes subespécies
de camundongos, mas essa foi pequena em comparação aos efeitos be­
néficos dos cruzamentos (heterose). O órix-da-Arábia considerado em
perigo está sofrendo simultaneamente com a depressão endogâmica
e com a depressão exogâmica, mas existem diferenças cromossômicas
segregando nessa população. A depressão exogâmica tem sido clara­
mente documentada num copépode da região entre-maré que mostra
marcada diferenciação genética e limitada dispersão em distâncias
geográficas relativamente curtas.
Em vários casos onde a depressão exogâmica tem sido detectada
em animais, a presumida taxonomia tem se demonstrado errada. Por
exemplo, cruzamentos entre diferentes populações de macacos-da-
noite e de antílopes dik-diks resultaram em descendentes estéreis. Em
ambos os casos, as duas formas contribuintes vieram de diferentes lo­
calidades, tinham diferentes números cromossômicos e eram, muito
provavelmente, espécies ou subespécies não descritas.
A depressão exogâmica é mais freqüente quando os cruzamentos
ocorrem entre populações que sofreram adaptação significativa a
condições locais e quando a dispersão é limitada. Como já era de se
esperar, a maior parte das evidências de depressão exogâmica vêm de
plantas com essas características.
Atualmente, grande cuidado é dado em relação à mistura de popu­
lações. Por exemplo, dúvidas sobre o bom senso de se cruzar diferentes
populações de lobos-cinzentos têm sido expressas, mesmo sabendo que
elas claramente pertencem à mesma espécie. Muitos geneticistas de po­
pulações consideram que a preocupação com a depressão exogâmica
para espécies cuja taxonomia é adequadamente resolvida é, com freqü-
ência, injustificada. A depressão exogâmica é freqüentemente mencio­
nada, mas os benefícios dos cruzamentos são pouco abordados.
Mesmo onde a depressão exogâmica ocorre, quando duas popula­
ções parcialmente endogâmicas e diferenciadas são cruzadas, ela não
será um fenômeno de longa duração. A menos que os indivíduos híbri­
dos da geração V1 sejam estéreis ou apresentem um valor adaptativo
muito baixo, a seleção natural irá atuar sobre a ampla variação gené­
tica na população híbrida adaptando-a a seu ambiente. Geralmente, a
população híbrida irá atravessar, na pior das hipóteses, um declínio
temporário no valor adaptativo e então aumentar.

Definição de unidades de manejo das espécies


Evidentemente, as espécies exigem manejo como unidades separadas.
Entretanto, as populações de uma espécie podem estar caminhando
para a especiação. Se elas mostram uma diferenciação adaptativa signi­
ficativa a diferentes habitats ou uma diferenciação genética significati­
va, então isso pode justificar o seu manejo como linhagens evolutivas
separadas para fins de conservação. A adequação do manejo separado
depende do balanço entre o custo de manter duas (ou mais) popula­
ções versus uma e do risco de ocorrência da depressão exogâmica ou de
benefícios (maior diversidade genética e valor adaptativo) acumulados
da fusão das populações.
DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO DAS ESPÉCIES 121

Definir unidades de manejo das espécies é mais difícil e controver­


so do que definir espécie. Abaixo, descrevemos o conceito de unidades
evolutivamente significantes, junto com uma proposta mais recente
para definir tais unidades com base na permutabilidade genética e
ecológica.

Unidades evolutivamente significantes (ESU)


A maioria dos biólogos conservacionistas acredita que populações
geneticamente diferenciadas de uma espécie não deveriam ser mis­
turadas e requerem manejo genético separados. Essas populações são
chamadas de unidades evolutivamente significantes. Inicialmente, o
conceito foi aplicado a populações com isolamento reprodutivo e his­
tórico, e com características adaptativas distintas de outras populações
dentro da espécie. Moritz propôs que marcadores genéticos fossem
usados para definir unidades de manejo de espécies. Se os genótipos
do DNAmt não apresentam sobreposição entre populações e os locos
nucleares mostram divergência significativa nas freqüências dos ale-
los, então elas devem ser definidas como ESUs separadas e manejadas
separadamente. Em termos gerais, isso freqüentemente significa que
subespécies bem definidas são unidades de manejo, embora isso pode
não ser o caso em grupos pouco estudado.
Embora muitas ESUs tenham sido definidas em espécies ameaçadas,
o conceito tem sido criticado. Em particular, ESUs definidas usando
somente marcadores moleculares ignoram as diferenças adaptativas.
É improvável que distintas ESUs sejam detectadas em espécies com alto
fluxo gênico, ainda que as populações tenham diferenças adaptativas
e justifiquem o manejo separado. Ao contrário, em táxons com baixo
fluxo gênico, as populações que se diferenciaram por deriva genética
podem ser designadas como ESUs separadas, ainda que elas não sejam
adaptativamente diferentes - nesse caso elas podem se beneficiar do
fluxo gênico.

Definição de unidades de manejo com base na permutabilidade


Crandall e colegas recentemente propuseram que as unidades de ma­
nejo de uma espécie sejam baseadas na permutabilidade ecológica ou
genética das populações, ou seja, na possibilidade de substituirmos
uma população pela outra. Essa proposta tenta delinear se existe di­
ferenciação adaptativa, se existe fluxo gênico, e se a diferenciação é
histórica ou recente. Se duas populações são adaptadas a ambientes
similares então elas são permutáveis, mas se elas são adaptadas a am­
bientes diferentes então elas não são ecologicamente permutáveis. Se
as composições genéticas de duas populações são similares, elas são
permutáveis, mas se elas são geneticamente diferenciadas elas não são
geneticamente permutáveis. Os autores afirmam que esse sistema tra­
ta de forma mais adequada muitos dos casos onde o processo de ESU
produziu resultados com justificativa duvidosa.
Na prática, as populações são classificadas como + (permutabilidade
rejeitada) ou - (permutabilidade aceita) em cada uma das quatro células
representando a permutabilidade genética e ecológica, recente ou his­
tórica (Fig. 6.3). Isso resulta em 16 categorias de divergência entre duas
populações. No geral, quanto mais pontuações + maior a diferenciação.
122 I RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

A permutabilidade genética está preocupada com os limites de disper­


são de nova variação genética através do fluxo gênico. A permutabili­
dade é rejeitada quando existe evidência de fluxo gênico restrito entre
populações, enquanto ela é aceita quando existe evidência de fluxo
gênico amplo. A evidência de fluxo gênico é baseada idealmente em
múltiplos locos nucleares (aloenzimas, microssatélites, etc.).
A permutabilidade ecológica é rejeitada (+) onde existe evidência
de diferenciação populacional devido à seleção natural ou deriva ge­
nética. A evidência pode ser baseada em diferenças nas características
da historia de vida, morfologia, habitat, ou em locos sob seleção, e
tais diferenças devem ser, idealmente, comprovadamente herdáveis.
Interpretamos isso, primariamente, como um reflexo da diferenciação
adaptativa.
As escalas de tempo recente e histórica são incluídas para distin­
guir os processos evolutivos naturais de fluxo gênico limitado do iso­
lamento populacional recente. Além disso, elas distinguem contato
secundário e fluxo gênico em longo prazo.
Recomendações de manejo são dadas para cada uma das oito ca­
tegorias na Fig. 6.3. O exemplo 6.3 ilustra a aplicação da metodologia
para o rinoceronte-preto (Diceros bicornis) e para o escaravelho Cicindela
puritana. Essa metodologia proporciona um meio lógico para delimitar
populações que justifique o seu manejo de forma separada, sem ter um
número excessivo de unidades de manejo que não mostram diferen­
ciação adaptativa. Em contraste, o termo ESU tem sido aplicado para
cada categoria da Fig. 6.3, levando a um grande número de unidades
de manejo, algumas das quais com justificativa duvidosa.

Exemplo 6.3 Atribuição dos rinocerontes-negros e dos escaravelhos para as


categorias de permutabilidade

RINOCERONTE-NEGRO
Para os rinocerontes-negros da África não existem motivos suficientes
para rejeitar tanto a permutabilidade genética como a permutabilida­
de ecológica. As populações mostram fluxo gênico e seus habjtats são
similares. Conseqüentemente, ele foi categorizado como caso Tf (- -/- -),
levando à recomendação de que a espécie seja manejada como uma úni­
ca população. Por outro lado, os dados de DNAmt têm sido usados como
argumento a favor de duas subespécies que merecem ser manejadas
separadamente.

ESCARAVELHO
Com base em dados de DNAmt (baixo fluxo gênico e diferenciação signi­
ficativa), os escaravelhos do Rio Connecticut e da Baia Chesapeake, nos
USA, não são geneticamente permutáveis. Além disso, eles não são ecolo­
gicamente permutáveis tendo como base parâmetros de habitat. Assim,
eles foram classificados como categoria \ (+ +/+ -), indicando forte di­
ferenciação adaptativa. A recomendação para fins conservacionistas foi
para manejar as duas populações como unidades separadas. Populações
do leste e oeste da Baia de Chesapeake foram genética e ecologicamente
permutáveis (- -/- -).
DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO DAS ESPÉCIES 123

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. O capítulo 15
estende esses tópicos, além de referências.
Avise, J. C. & J. Hamrick. 1996. Conservation Genetics: Case Histories from
Nature. Chapman & Hall, New York. Revisões científicas avançadas que
descrevem muitos casos de resoluções de incertezas taxonômicas com
124 I RESOLUÇÃO DE INCERTEZAS TAXONÔMICAS E DEFINIÇÃO DE UNIDADES DE MANEJO

o auxílio de técnicas da genética molecular.


Claridge, M. F., H. A. Dawah & M. R. Wilson. 1997. Species: The Units of
Biodiversity. Chapman & Hall, London. Uma coleção de trabalhos
científicos sobre espécies, incluindo muitas diferentes definições.
Crandall, K. A., O. R. P. Bininda-Edmonds, G. M. Mace & R. K. Wayne.
2000. Considering evolutionary processes in conservation biology: an
alternative to ‘evolutionarily significant units’. Trends in Ecology and
Evolution 15, 290-295. Método proposto para usar diferenças genéticas
e ecológicas entre populações de uma espécie como base de decisão se
essas populações necessitam ser separadamente manejadas.
Futuyma, D. J. 1998. Evolutionary Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland,
MA. Um livro texto com uma excelente cobertura sobre especiação e os
processos genéticos relacionados.
Hall, B. G. 2001. Phylogenetics Made Easy: A How-to Manual for Molecular
Biologists. Sinauer, Sunderland, MA. Um guia claramente escrito para
construção de árvores filogenéticas a partir de dados moleculares.
Nei, M. & S. Kumar. 2000. Molecular Evolution and Phylogenetics. Oxford
University Press, New York. Um livro texto sobre distâncias genéticas e
métodos moleculares na taxonomia.
Capítulo 7

O manejo genético de espécies


ameaçadas em ambiente
natural
O manejo genético in situ de espécies ameaçadas abrange a
recuperação de populações pequenas e endogâmicas, o manejo de
populações fragmentadas, o impedimento da deterioração genética
devido à hibridação com espécies relacionadas e a minimização
dos impactos deletérios causados pela retirada de indivíduos da
natureza através da exploração humana. Dentro deste contexto,
as análises de viabilidade populacional podem cumprir o papel de
quantificar os níveis de ameaça e de avaliar comparativamente as
diferentes alternativas de manejo.
126 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

A relevância da genética para o manejo de


populações ameaçadas
A aplicação da genética em práticas de manejo de espécies ameaçadas
em ambientes naturais ainda tem sido bastante limitada, o que ocorre
especialmente devido à falta de reconhecimento da sua importância.
Já nos referimos anteriormente a alguns dos poucos exemplos existen­
tes, os quais serão apresentados aqui em maiores detalhes.
Com base no que já foi discutido, podemos considerar, em síntese,
que as principais contribuições da genética para a biologia da conser­
vação são:
• a resolução de incertezas taxonômicas para que os responsáveis pelo
manejo possam estar confiantes sobre o status das populações que
se pretende conservar e sobre suas relações com outras populações
(Capítulo 6)
• o delineamento de unidades de manejo distintas dentro das espé­
cies como sendo entidades biologicamente significativas para a con­
servação (Capítulo 6)
• a detecção de declínios de diversidade genética. Os marcadores ge­
néticos mais sensíveis, particularmente os microssatélites, têm o
poder de detectar reduções de heterozigose e de diversidade alélica
em populações pequenas e fragmentadas
• o desenvolvimento de teorias que descrevem o passado e fazem pre­
dições sobre o futuro, em termos de mudanças da variação genética.
Todas estas teorias têm um elemento central em comum - a diversi­
dade genética é dependente do Ne
• o reconhecimento de que os tamanhos efetivos das populações são
comumente em torno de uma ordem de magnitude menor do que o
tamanho obtido através de censos populacionais
• o reconhecimento de que a perda da diversidade genética respon­
sável pela variação quantitativa envolvida no sucesso reprodutivo
reduz a capacidade das populações evoluírem em resposta às mu­
danças do ambiente
• a detecção da depressão causada pelo endocruzamento em espécies
ameaçadas nos habitats naturais
• o reconhecimento de que a depressão por endocruzamento é um
resultado esperado em quase todos os casos de endocruzamento
severo
• o reconhecimento de que a depressão por endocruzamento poten­
cial deve ser inferida através de sua correlação com a redução da
variação genética
• o reconhecimento de que o grau de fragmentação e as taxas de fluxo
gênico podem ser inferidos através da distribuição de marcadore?
genéticos dentro e entre populações.
Várias destas aplicações podem ser ilustradas pelo exemplo da
puma da Flórida (Quadro 7.1).
Este capítulo segue aproximadamente a ordem das ações estabeleci­
das para o manejo genético de populações naturais, como apresentado
no fluxograma da Fig. 7.1. Como em qualquer ação conservacionista.
antes de construirmos um plano de manejo devemos conhecer o que
A RELEVÂNCIA DA GENÉTICA PARA O MANEJO DE POPULAÇÕES AMEAÇADAS 127

Quadro 7.1 Identificação de problemas genéticos na puma da Flórida e sua


redução através do manejo genético (Roelk et al. 1993; Barone et
ai 1994; Land&Lacy 2000)

A puma da Flórida é uma espécie ameaçada restrita a uma pequena população de


aproximadamente 60-70 indivíduos no sul da Flórida, especialmente no B/g Cypress
e nos ecossistemas adjacentes ao Parque Nacional Everglades. Antes da colonização
européia eram distribuídas por toda a região sudeste dos EUA, e outras subespécies
podiam ser encontradas ao longo da América do Norte e América do Sul. Desde
1973 as principais causas de mortalidade têm sido atropelamentos em estradas,
a caça ilegal, além de diversos outros tipos de injúrias. Uma análise de viabilidade
populacional realizada em 1989 (ver Capítulo 5) estimou que esta população
apresentava uma alta probabilidade de extinção num curto espaço de tempo, a
menos que ações mitigadoras fossem realizadas. Uma avaliação mais recente foi
menos pessimista.
Análises de aloenzimas, morfologia e DNAmt indicaram que uma parte da
população havia recebido previamente uma introdução de alelos (introgressão) de
uma subespécie de puma da América do Sul. Posteriormente, registros revelaram
que animais da América do Sul haviam sido soltos na população por um criador
privado entre 1956 e 1966. Os animais híbridos estão localizados em áreas afastadas
dos animais mais autênticos.
A população autêntica apresenta níveis de diversidade genética muito inferiores
em relação aos híbridos, outras populações de pumas e felinos em geral.

As pumas da Flórida autênticas também apresentam evidências de depressão por


endocruzamento, incluindo anormalidades morfológicas (pêlos eriçados e cauda
torcida), problemas cardíacos e o sêmen de pior qualidade entre todos os felinos.
Todos os machos ‘puros’têm pelo menos um testículo retido na cavidade abdominal
(criptorquidismo). As pumas da Flórida também são altamente vulneráveis a
doenças infecciosas.
128 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Como a puma da Flórida pode ser recuperada? Dado que se trata de uma
população extremamente pequena, a prioridade é aumentar seu tamanho através
da proteção e melhoria de habitais adicionais e da redução das ameaças existentes.
A construção de corredores sob as estradas reduz significativamente as mortes
causadas por atropelamentos. Uma vez que estas pumas apresentam tanto os
sinais genéticos quanto os sinais físicos da depressão por endocruzamento, ficou
claro que suas performances melhoraram onde houve a imigração de indivíduos de
outras populações. Considerando que não existem outras populações na Flórida, as
únicas fontes de indivíduos são de outras subespécies. A subespécie mais próxima é
a do Texas, a qual foi contígua com a população da Flórida e provavelmente tinham
um histórico de fluxo gênico antes do declínio.
Após estudos extensivos foi tomada a decisão de se introduzir seis a oito
fêmeas do Texas. A ocorrência de depressão por exocruzamento era improvável,
uma vez que não havia evidências sobre este tipo de problema tanto nos animais
híbridos da Flórida quanto em pumas híbridos de cativeiro. Embora o ideal teria
sido a realização de análises genéticas para a comparação das duas subespécies
anteriormente à tomada desta decisão, análises posteriores revelaram que todas as
populações de pumas da América do Norte são muito similares.
Oito indivíduos do Texas foram, portanto, introduzidos. Uma progénie de
trinta e dois sobreviventes exocruzados é conhecida (até junho de 2001), incluindo
alguns indivíduos de segunda geração e proles de híbridos retrocruzados. Os
híbridos F( não apresentam caudas torcidas e nem pêlos eriçados, e parecem ser
mais robustos do que as pumas da Flórida autênticas.

estamos conservando. Durante todo este capítulo assumiremos que as


incertezas taxonômicas tenham sido resolvidas e que todas as unida­
des de manejo tenham sido identificadas (Capítulo 6), e trataremos do
manejo genético dentro destas unidades.

O aumento do tamanho da população


Um dos principais objetivos do manejo de espécies ameaçadas é rever­
ter o declínio populacional, o que reduz simultaneamente a maioria
dos efeitos estocásticos ameaçadores (demográficos, ambientais, catas­
tróficos e genéticos). Quando populações grandes passam por declínios
recentes de Ne > 50 e se expandem rapidamente, os impactos genéticos
são mínimos. Apesar do gargalo, reduções de curto prazo desta magni­
tude oferecem poucas oportunidades para que a variação seja perdida
por deriva genética (Capítulo 4).
O primeiro passo do processo de aumento populacional é identi­
ficar e remover as causas do declínio. Esta é a área de atuação dos bi­
ólogos e ecólogos de campo. As medidas a serem tomadas incluem o
controle legal da caça e da exploração, a criação de reservas, a redução
dos poluentes, a melhoria da qualidade dos habitats e a erradicação
dos predadores e competidores exóticos. Estas ações geralmente bene­
ficiam muitas espécies nativas que habitam a região manejada. Dessa
maneira, as espécies ameaçadas atuam como ‘bandeiras’ para proteger
toda a comunidade.
Tais procedimentos têm resultado em sucesso para diversas espé­
cies. Por exemplo, os rinocerontes indianos aumentaram de 27 para
aproximadamente 600 indivíduos no Parque Nacional Chitwan, no
O AUMENTO DO TAMANHO DA POPULAÇÃO 129

Nepal, após a caça ter sido banida e a reserva de caça real ter sido trans­
formada em Parque Nacional. Da mesma maneira, o elefante marinho
do norte expandiu sua população de 20-30 indivíduos para mais de
150000 após a eliminação da caça e a criação de proteção legal. As po­
pulações do falcão-de-Maurício, da águia careca e do falcão peregrino
se recuperaram após o controle do uso do DDT e a realização de progra­
mas de reprodução assistida.
Após a implementação de medidas de proteção, que incluem o
uso de amas-secas e translocações, Petroica traversi, um passeriforme
das ilhas Chatham, Nova Zelândia, aumentou sua populaçao de cinco
para mais de 140 indivíduos. A população de uma outra ave, Gallirallus
sylvestris, da ilha Lord Howe, Austrália, que chegou a apenas 20-30 indi­
víduos, se recuperou após a erradicação de sua ameaça principal, que
130 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

eram os porcos, e a criação de um programa de reprodução em cativeiro


e soltura de curto prazo, tendo atingido em torno de 200 espécimes. No
caso das plantas, muitas espécies têm se recuperado após a implemen­
tação de medidas como a proteção legal, a minimização da exploração,
a criação de reservas e a remoção de herbivoros exóticos. Nos casos em
que os números são extremamente baixos, formas de conservação ex
situ têm sido utilizadas para posterior reintrodução (Capítulo 8).
Ao mesmo tempo em que as informações genéticas devem ajudar
a alertar os biólogos da conservação para a extensão das ameaças, as
ações de manejo acima citadas envolvem pouco, ou até mesmo nada,
de genética. No entanto, a recuperação do tamanho em populações
altamente endocruzadas pode ser melhorada substancialmente após a
introdução de variação genética adicional (veja abaixo).

O diagnóstico de problemas genéticos


Antes de se aplicar o manejo genético numa população natural é ne­
cessário diagnosticar suas condições (Capítulos 2 e 4). Cinco questões
devem ser respondidas:

1. Qual o tamanho da população (NJ?


2. Ela passou por gargalos significativos no passado?
3. Ela perdeu diversidade genética?
4. Ela está sofrendo depressão por endocruzamento?
5. Ela é geneticamente fragmentada?

Estas questões têm sido respondidas para muitas espécies ameaçadas,


como os gueopardos, o marsupial Lasiorhinus krefftii, o pica-pau Picoides
borealis e o pinheiro de Wollemi. Nos casos em que não há medidas di­
retas de diversidade genética ou de endocruzamento, pode-se utilizar
a teoria para estimá-las, como mostrado no Exemplo 7.1.
Até o momento, a realização de tais diagnósticos tem sido a prin­
cipal contribuição da genética para a conservação das populações
A RECUPERAÇÃO DE POPULAÇÕES PEQUENAS, ENDOCRUZADAS E COM BAIXA DIVERSIDADE GENÉTICA 131

Baseando-se apenas na teoria, seríamos capazes de estimar que apro­


ximadamente 65% de sua heterozigose teria sido perdida, um valor pró­
ximo da perda observada estimada a partir da comparação das pumas da
Flórida com os pumas do oeste dos EUA (Quadro 7.1). A partir da equação
4.4 espera-se um coeficiente de endocruzamento de 0,65, nível este em
que efeitos deletérios seriam certamente esperados.

selvagens. Entretanto, o uso destas informações no planejamento de


ações de conservação ainda é incipiente. Abaixo são consideradas as
ações de manejo que deveriam ser tomadas para reduzir os problemas
genéticos.

A recuperação de populações pequenas,


endocruzadas e com baixa diversidade genética
Uma estratégia de manejo efetiva para a recuperação de populações
pequenas, endocruzadas e com baixa diversidade genética é a introdu­
ção de indivíduos de outras populações, o que permite melhorar a efi­
ciência reprodutiva e restaurar a diversidade genética. Existem muitas
evidências experimentais de que este procedimento pode resultar em
sucesso. Como exemplo, uma pequena população isolada da serpente
Vipera berus, na Suécia, e uma pequena população da ave Tympanuchus
cupido, do estado de Illinois, apresentaram aumento das taxas reprodu­
tivas e dos tamanhos populacionais após a introdução de imigrantes
(Fig. 7.2).
Apesar dos evidentes benefícios deste procedimento, existem pou­
cos exemplos de sua utilização (veja abaixo).

Fonte de imigrantes não aparentados para a recuperação genética


Os indivíduos escolhidos para serem introduzidos em populações en­
docruzadas para recuperação da capacidade reprodutiva e da diversi­
dade genética devem ser:
• não endocruzados (se disponíveis), ou
• endocruzados, mas geneticamente diferenciados em relação à po­
pulação na qual estejam sendo introduzidos.
Um exemplo da situação acima é evidenciado pelos wallabies australia­
nos (Capítulo 5). A espécie Petrogale lateralis apresenta várias populações
endocruzadas em ilhas, que poderiam ser combinadas para aumentar
a diversidade genética e a capacidade reprodutiva da espécie. O mate­
rial genético combinado das populações de todas as ilhas deve conter a
maior parte dos alelos de microssatélites encontrados nas populações
do continente. No futuro, possivelmente será necessário o uso de indi­
víduos resultantes de cruzamentos entre as populações das ilhas para
reintrodução em localidades do continente, desde que as raposas, sua
principal ameaça, sejam eliminadas.
Quando não há disponibilidade de indivíduos não aparentados do
mesmo táxon, indivíduos de outras subespécies podem ser utilizados
132 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

para reduzir os efeitos negativos do endocruzamento, como realiza­


do, por exemplo, na puma da Flórida (Quadro 7.1) e na coruja Ninox
novaeseelandiae undulata (Capítulo 6).
Se uma espécie ameaçada persiste na forma de uma única popula­
ção, a única fonte possível de material genético adicional é de espécies
com as quais possam se cruzar com sucesso. Uma clorose de origem
chinesa reduziu severamente os castanheiros norte-americanos. Con­
siderando que a espécie chinesa de castanheiro é resistente à clorose,
ela tem sido cruzada com a espécie americana para introduzir alelos
de resistência.
A opção de cruzar uma espécie ameaçada com uma espécie relacio­
nada requer extremo cuidado. Deve ser avaliada com base em dados
experimentais, para que haja certeza de que os híbridos da F1 e das ge­
rações subseqüentes sejam férteis e viáveis. Ao mesmo tempo em que
existe uma ampla gama de potenciais benefícios, existem também sé­
rios riscos de depressão por exocruzamento. Em alguns casos, mesmo
que um determinado nível de depressão por exocruzamento ocorra, a
depressão por endocruzamento será amplamente reduzida e a seleção
natural irá eventualmente remover a maior parte, ou toda a depressão
causada pelo exocruzamento. Dado que a magnitude da diferenciação
genética varia consideravelmente entre as espécies, dentro de alguns
táxons os cruzamentos entre espécies podem ser equivalentes aos cru­
zamentos entre subespécies de outros táxons (Tabela 6.1).

Manejo de espécies restritas a uma única população e de diversidade


genética baixa
Sob a perspectiva genética, a pior situação é a existência de uma es­
pécie ameaçada representada por uma única população, sendo esta
endocruzada e sem subespécies ou espécies relacionadas disponíveis
para adicionar variação. Nestes casos, as informações sobre a perda de
diversidade genética servem apenas como indicadores da fragilidade
da espécie. Quanto menor a diversidade genética, menor o potencial
MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS I 133

evolutivo, menor o valor adaptativo, e maiores as probabilidades de


que a espécie tenha um comprometimento de sua capacidade de resis­
tir às mudanças do ambiente. Para espécies frágeis, os procedimentos
de manejo devem ser instituídos para:

• aumentar o tamanho populacional (veja acima)


• estabelecer populações em várias localidades (para minimizar os
riscos de catástrofes)
• maximizar as taxas reprodutivas melhorando os habitats
• considerar a implementação de programas de reprodução em cati­
veiro e outros procedimentos de conservação ex situ
• isolá-las das mudanças ambientais.

O regime acima deve incluir quarentena contra doenças introduzidas,


o controle de pestes, predadores e competidores e a realização de mo­
nitoramento, de maneira que ações de proteção possam ser iniciadas
tão logo surjam novas ameaças. Por exemplo, o recentemente desco­
berto e ameaçado pinheiro de Wollemi, da Austrália, não apresenta
diversidade genética alguma, tanto dentro quanto entre as populações
(Capítulo 1). A recuperação desta espécie de planta requer (a) restrição
do acesso às populações mantendo-se suas localizações em segredo, (b)
permissão de acesso apenas a pessoas com autorização, (c) implemen­
tação de um protocolo de higiene restritivo para se evitar a introdução
de doenças, (d) manejo do fogo e (e) a manutenção de amostras ex situ
de cada planta em jardins botânicos. Além disso, a propagação da es­
pécie para fins comerciais está aumentando o tamanho populacional,
reduzindo os riscos de efeitos estocásticos.
O furão-de-pés-negros apresenta uma baixa diversidade genética,
mas é um caso menos extremo. Seu plano de recuperação requer a
criação de uma população de cativeiro que possa fornecer indivíduos
para o restabelecimento de 10 populações na natureza, em diferentes
localidades, para minimizar os riscos de doenças e de outras catástro­
fes ambientais.

Manejo genético de populações fragmentadas


Muitas espécies ameaçadas têm seus habitats fragmentados, como
ilustrado pelo panda gigante (Fig. 7.3). As opções de manejo para maxi­
mizar a diversidade genética e minimizar o endocruzamento e o risco
de extinção destas populações são
• aumentar a área e a qualidade do habitat
• aumentar artificialmente os níveis e as taxas de fluxo gênico atra­
vés da translocação de indivíduos, de maneira a se atingir os níveis
históricos
• criar corredores de habitats, e
• restabelecer populações em habitats adequados onde a espécie te­
nha se tornado extinta
Para se reduzir ou evitar as conseqüências genéticas deletérias da
fragmentação, o fluxo gênico deve ser restabelecido movendo-se indi­
víduos (translocação) ou gametas, ou ainda, estabelecendo-se porções
134 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

de habitats que possam servir como corredores de migração entre os


fragmentos. Os benefícios da imigração têm sido observados em mui­
tos casos. Na pequena planta Scabiosa columbaria indivíduos resultan­
tes de cruzamentos entre diferentes populações apresentaram valor
adaptativo 2,5 vezes maior do que aqueles resultantes de cruzamentos
realizados dentro de uma única população. De maneira similar, proje­
ções computacionais indicaram que a imigração irá reduzir os riscos
de extinção de duas pequenas populações de rinocerontes negros da
leste da África (Quadro 7.2).
A translocação de indivíduos entre populações pode ser financei­
ramente custosa, especialmente para grandes animais. Existem tam­
bém os riscos de injúrias, como a transmissão de doenças e problemas
comportamentais advindos da soltura. Por exemplo, leões machos
matam os filhotes, assim como machos sexualmente maduros de mui­
tas espécies matam os intrusos. No entanto, os custos da translocação
podem ser reduzidos pela inseminação artificial, em espécies para as
quais esta tecnologia tem sido aperfeiçoada (veja abaixo). Os mesmos
cuidados que se deve adotar para evitar a depressão por exocruzamen-
to, discutidos previamente, devem ser exercitados para se planejar as
translocações.
Corredores entre fragmentos de habitats (freqüentemente reco­
mendados por razões não genéticas) podem restabelecer o fluxo gêni-
co entre populações isoladas. As espécies variam em suas necessidades
MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS 135

Quadro 7.2 Modelagem dos efeitos da depressão por endocruzamento e da


imigração na sobrevivência de populações de rinocerontes negros
no Quênia (Dobson et al. 1992)

As populações de rinocerontes-negros são ameaçadas ao longo de toda a


área de distribuição da espécie, principalmente devido à caça. No leste da África
nenhuma população apresentava mais do que 60 animais no início dos anos 90, e a
situação se encontra provavelmente pior atualmente. A distribuição é fragmentada
e não há fluxo gênico entre a maioria, senão todos, os fragmentos.
Dobson e seus colaboradores investigaram os fatores demográficos e genéticos
que provavelmente estariam contribuindo com os riscos de extinção, além de
aspectos que deveriam ser considerados no manejo. Simulações computacionais
estocásticas (PVA) foram utilizadas para projetar a história de cada indivíduo,
desde seu nascimento até sua morte, incluindo sua contribuição como reprodutor
(Capítulo 5). Para a construção dos arquivos de entrada foram utilizados dados de
populações encontradas em santuários de vida selvagem, contendo a identidade e a
filiação de cada indivíduo e taxas de sobrevivência e reprodução específicas de cada
idade e sexo, além das taxas de imigração de diferentes classes etárias e sexos.
As populações de Lewa Downs e do Parque Nacional de Nakuru, no Quênia,
foram modeladas para 200 anos, considerando-se (a) ausência de imigração
e depressão por endocruzamento (apenas as estocasticidades ambientais e
demográficas), (b) depressão por endocruzamento, mas ausência de imigração e
(c) depressão por endocruzamento e imigração de um indivíduo a cada 10 anos
durante os 50 primeiros anos. O valor utilizado para representar os efeitos do
endocruzamento na sobrevivência foi uma aproximação obtida da média dos
valores apresentados por várias populações de mamíferos mantidos em cativeiro.
Os números iniciais de indivíduos das duas populações foram baseados em seus
tamanhos reais, sendo 10 fêmeas e 3 machos em Lewa Downs e 7 fêmeas e I I
machos no Parque Nacional Nakuru.
136 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

No caso (a) os parâmetros estocásticos levaram a um risco de extinção de mais


de 50% após 200 anos na menor população, Lewa Downs, mas menos de 10% na
população maior (Nakuru). -Considerando-se a depressão por endocruzamento
(caso b), as probabilidades de extinção aumentaram para 76 e 22%, respectivamente.
Considerando-se a depressão por endocruzamento e a imigração, os riscos de
extinção foram reduzidos para aproximadamente 40 e 5%, respectivamente (caso
c). Conseqüentemente, pressupõe-se que a imigração reduza os riscos de extinção
dessas populações fragmentadas de rinocerontes. Migrações adicionais após os 50
primeiros anos resultam em reduções adicionais nos riscos de extinção.

para que um corredor seja um caminho de migração efetivo. A propos­


ta mais ambiciosa deste tipo é o ‘The Wildlands Project’ - cujo objetivo
é estabelecer corredores do norte ao sul da América do Norte. Estes
corredores ligariam as reservas existentes, e tanto as reservas quan­
to os corredores, seriam protegidos por zonas tampão compostas por
habitats adequados para os animais e plantas. Devido aos desafios
sociais, políticos e financeiros, o intervalo de tempo para se atingir
este objetivo seria de centenas de anos. No entanto, este sistema sera
essencial se pretendemos conservar a biodiversidade em longo prazo.
Com as mudanças climáticas globais, plantas e animais precisarão
mudar suas distribuições para acompanhar os movimentos das zonas
climáticas. Na situação atual, tais movimentos seriam freqüentemen-
te impedidos por habitats antrópicos que se encontram entre as áreas
protegidas.
Apesar de serem freqüentes os casos de fragmentação de populações
de espécies ameaçadas, ainda existem poucos casos de uso da imigra­
ção como uma medida prática para se reduzir o endocruzamento e a
perda de diversidade genética em populações selvagens de animais e
plantas. Indivíduos têm sido introduzidos em pequenas populações do
pica-pau em perigo Picoides borealis, dado que simulações computacio­
nais haviam previsto que seriam extintos se o número de indivíduos
não fosse aumentado. Outros casos de aplicação desta estratégia em
animais são a puma da Flórida (Quadro 7.1) e o mico-leão-dourado
(Quadro 8.3).
Dois exemplos da botânica envolvem plantas auto-incompatíveis,
nas quais a perda de alelos dos locos que determinam a auto-incompa­
tibilidade tem reduzido a taxa reprodutiva devido à escassez de pólen
compatível (Capítulo 5). A população ameaçada de Hymenoxys acaulis,
de Illinois, estava incapacitada de se reproduzir porque continha pou­
cos alelos de auto-incompatibilidade (S). Por isto, foram cruzadas com
plantas do estado de Ohio. Além disso, sementes das populações de
Ohio e Ontário foram introduzidas para aumentar a diversidade de
alelos S e recuperar a capacidade reprodutiva da população.
O excesso de consumo por ovelhas reduziu a população de Argyroxi-
phium sandwicense para apenas 50 plantas adultas. Posteriormente, 450
indivíduos foram cultivados e introduzidos na natureza para aumen­
tar as populações. Entretanto, análises genéticas revelaram que todos
os indivíduos introduzidos foram obtidos a partir da progénie de ape
nas duas plantas fêmeas. Por isto, apresentavam diversidade genética
MANEJO GENÉTICO DE POPULAÇÕES FRAGMENTADAS 137

menor do que a população original selvagem. Como se trata de uma


espécie auto-incompatível, os indivíduos plantados produziram ape­
nas 20% da quantidade normal de sementes. Para contornar este pro­
blema, os indivíduos plantados têm sido polinizados com pólen de
indivíduos não aparentados da população natural, o que aumentou
a produção de sementes para 60%, possivelmente porque este pólen
carrega diferentes alelos S.

Manejo do fluxo gênico


O manejo do fluxo gênico requer que as seguintes questões sejam
consideradas:
• quais indivíduos translocar?
• quantos?
• com que freqüência?
• de onde para onde?
• quando a translocação deve começar?
• quando deve ser cessada?
Com tantas variáveis, projeções computacionais do tipo apresentado
no Quadro 7.2 serão freqüentemente necessárias para se otimizar o
manejo. O objetivo é identificar um regime que mantenha populações
geneticamente viáveis e seja adequado às outras necessidades de ma­
nejo, além de ser economicamente compatível. As análises genéticas
devem ser incluídas nos programas de monitoramento para garantir a
manutenção da capacidade adaptativa.

O restabelecimento de populações extintas


Para se maximizar o tamanho populacional e minimizar os riscos de
extinção, as populações que se tornaram extintas devem ser restabele­
cidas a partir das populações remanescentes, isto, é claro, se os habi­
tais ainda puderem suportá-las.
Quais populações devem ser utilizadas para restabelecer as popu­
lações extintas? Para minimizar o endocruzamento e maximizar a
diversidade genética, a população re-fímdada deve ser uma amostra
da maioria ou de todas as populações existentes. Um caso de má esco­
lha de populações é apresentado para o coala no sudoeste da Austrália
(Quadro 7.3). Populações de ilhas com baixa variabilidade genética fo­
ram utilizadas para reintrodução, dado que havia um grande número
de indivíduos disponíveis nestes locais. Os aspectos genéticos foram
ignorados, o que resultou em efeitos deletérios.
Quando existem evidências de diferenciação genética adaptativa
entre as populações existentes (por exemplo, em muitas espécies de
plantas), os indivíduos translocados devem vir das populações mais
prováveis de serem as melhores adaptadas ao habitat em questão.
Freqüentemente, esta será a população sobrevivente mais próxima
geograficamente.
O restabelecimento deve ser feito utilizando-se a população mais
diversificada geneticamente e com o maior sucesso reprodutivo no
tipo de ambiente em que será realizada a soltura. Alternativamente,
uma amostragem de todas as populações pode ser utilizada quando
todas elas têm o mesmo nível de adaptação ao ambiente de soltura.
138 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Quadro 7.3 Reintrodução de coalas no sudoeste da Austrália: um programa


mal projetado com impactos genéticos adversos (Houlden et oi
1996; Sherwin et ai 2000; Seymour et ai 2001)

O coala é um marsupial singular, endêmico do oeste da Austrália. Além de ser


um ícone cultural, presta um importante papel nos lucros obtidos com o turismo.
Originalmente era encontrado de Queensland a Victoria e no sul da Austrália, mas
seus números têm sido reduzidos devido à caça, à perda de habitats e doenças. Nos
anos 30, os coalas já habitavam menos de 50% de sua distribuição original, tendo
desaparecido no sul da Austrália e estava quase extinto em Victoria. No entanto,
eles ainda eram considerados comuns em Queensland, onde eles se recuperaram
sem assistência em larga escala. O comércio de peles deixou de existir nesta época
e os coalas se tornaram protegidos por lei em todos os estados. Desde então,
muitos esforços têm sido feitos para a conservação desta espécie.
Muitas translocações de animais ocorreram na região sudeste. Uma população foi
fundada a partir de dois ou três indivíduos em French Island (Fl), Victoria, no final do
século 19. Na ausência de predadores, essa população rapidamente atingiu a capacidade
suporte. Indivíduos excedentes de French Island foram utilizados para fundar uma
outra população em Kangaroo Island (Kl) (18 adultos fundadores, mais alguns jovens)
em 1923-25, e para suplementar uma população fundada em Phillip Island (PI) por
volta de 1870. As populações de Phillip e French Island foram amplamente utilizadas
para suplementar as populações continentais de Victoria, e a população de Kangaroo
Island foi utilizada para reforçar as populações continentais do sul da Austrália.
A população continental re-estocada do sul da Austrália sofreu, portanto, três
gargalos, Victoria continental French Island Kangaroo Island -» sul da Austrália
continental. Desde 1923, 10000 animais foram translocados para 70 localidades.
O reforço de populações utilizando-se indivíduos de populações que passaram
por gargalos resultou em perda de diversidade genética e endocruzamento. As
populações de Victoria e do sul da Austrália apresentam em torno da metade
da diversidade genética das populações menos perturbadas localizadas mais ao
norte. A população de Kangaroo Island apresenta a menor diversidade genética de
CONSIDERAÇÕES GENÉTICAS NO DESENHO DE RESERVAS 139

todas as populações amostradas. Todas as populações do sudoeste demonstram


freqüências similares de alelos de microssatélites, enquanto as populações localizadas
mais ao norte exibem considerável diferenciação genética interpopulacional. As
translocações também levaram a um aumento de freqüência de machos sem
testículos (aplasia testicular), o que é mais acentuado na população continental do
sul da Austrália, na qual o gargalo foi mais severo.
O que deveria ter sido feito para evitar estes problemas? A perda de diversidade
genética e a depressão por endocruzamento teriam sido evitadas se a população
de French Island tivesse sido fundada com um número maior de indivíduos, ou se a
diversidade genética tivesse sido aumentada para dar-lhe uma base melhor.
O que pode ser feito para reverter os problemas atuais? A estratégia mais
eficiente seria introduzir mais diversidade genética nas populações do sudoeste
(tanto nas ilhas quanto no continente) a partir de populações próximas que
apresentem alta diversidade genética.

Considerações genéticas no desenho de reservas

Muitas questões ecológicas, políticas e genéticas devem ser levadas em


consideração para o desenho de reservas naturais. Soulé & Simberloff
sugeriram que três passos devem ser seguidos: (a) identificar espécies
alvo, ou espécies-chave, cujas perdas reduziriam significativamente a
biodiversidade na reserva, (b) determinar o tamanho mínimo popula­
cional necessário para garantir uma alta probabilidade de sobrevivên­
cia destas espécies em longo prazo, e (c) utilizando-se as densidades
populacionais conhecidas destas espécies, estimar a área necessária
para manter os números mínimos. Já as questões genéticas envolvidas
no desenho de reservas seriam:
• a reserva é grande o suficiente para suportar uma população gene­
ticamente viável?
• a espécie ocorre na área da futura reserva?
• deve haver uma grande reserva ou várias reservas menores?
A partir dos argumentos apresentados no Capítulo 5, seria necessária
uma reserva de tamanho suficiente para manter uma população efe­
tiva de pelo menos algumas centenas de indivíduos e uma população
real de vários milhares de indivíduos.
As espécies ameaçadas devem ser mantidas em uma única grande
reserva ou em várias reservas menores? Geralmente, uma única grande
reserva é mais desejável sob o ponto de vista genético, principalmente
se existe o risco de as populações se tornarem extintas nas reservas
pequenas. Por outro lado, a proteção contra catástrofes requer mais
de uma reserva. A situação mais segura é manter mais de uma reserva
de tamanhos consideráveis, garantindo-se que haja fluxo gênico entre
elas de maneira natural ou artificial. Na prática, a escolha tem sido um
processo fortuito, determinado muito mais pelas políticas locais, pelos
usos alternativos do solo e pela necessidade de reservas para propósi­
tos de usos múltiplos (por exemplo, recreação), do que por princípios
biológicos.
140 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Introgressão e hibridação
Introgressão é o fluxo de alelos de uma espécie ou subespécie para outra.
Tipicamente, as hibridações ocorrem quando o homem introduz espé­
cies exóticas nas áreas de ocorrência de espécies raras aparentadas, ou
altera o habitat, de maneira que espécies previamente isoladas são postas
em contato secundário. A introgressão é uma ameaça à integridade ge­
nética de vários canídeos, patos, peixes, plantas, e outros organismos.
A introgressão pode ser detectada utilizando-se uma ampla varie­
dade de marcadores genéticos, incluindo aloenzimas, microssatélites,
fingerprints de DNA e, quando apropriado, cromossomos. Análises de
aloenzimas em leões asiáticos de cativeiro detectaram alelos de leões
africanos. As ameaçadas pumas da Flórida consistem de duas popu­
lações, uma das quais apresenta introgressão de uma subespécie de
puma sul-americana (Quadro 7.1). Fêmeas do criticamente em perigo
lobo da Etiópia têm se hibridado com cães domésticos, em níveis que
variam nas diferentes populações (Exemplo 3.1).
Uma forma particularmente deletéria de hibridação é aquela que
ocorre entre populações diplóides e tetraplóides, resultando em tri-
plóides estéreis. Um exemplo deste tipo de hibridação ocorre na planta
em perigo Rutidosis leptorrhynchoides, da Austrália.

Controle da introgressão
A árvore Cercocarpus traskiae (Quadro 7.4) é um exemplo de manejo de
uma espécie sujeita à hibridação. Neste caso, a informação genética
foi fundamental para se descobrir o problema da hibridação e para a
identificação dos indivíduos híbridos, mas teve um papel limitado no
processo de recuperação.
Algumas opções para solucionar o problema da introgressão in­
cluem a eliminação da espécie introduzida, ou a translocação de in­
divíduos puros para regiões isoladas ou para o cativeiro. O sucesso é
difícil de ser atingido. Por exemplo, não seria nada prático remover
todos os cães domésticos do habitat do lobo da Etiópia.

Quadro 7.4 Cercocarpus traskiae: identificação de híbridos com uma


espécie aparentada e implementação de um plano de
recuperação (Rieseberg & Swensen 1996)

Cercocarpus traskiae é uma pequena árvore em perigo quase inteiramente restrita a


uma única encosta da Ilha Santa Catalina, na Califórnia. A espécie é extremamente
rara, tendo declinado de 40 para I I plantas em 1996. Este declínio ocorreu como
conseqüência da introdução de cabras no local. Um inventário botânico realizado
na ilha no final dos anos 70 identificou vários indivíduos que lembravam uma outra
espécie, C. betufoides, ou indivíduos com características intermediárias entre as duas
espécies. Estudos genéticos utilizando aloenzimas e RAPDs identificaram seis das I I
árvores adultas como sendo C. traskiae puras e as outra cinco como sendo híbridas
com C. betuloides.
O manejo de C. traskiae teve início colocando-se cercas ao redor das C.
traskiae verdadeiras, o que resultou na produção de aproximadamente 70 mudas,
sendo a maioria alozimicamente puras. Várias amostras das plantas puras têm
sido propagadas e 16 indivíduos foram plantados na ilha. O maior problema que
permanece é a presença de cabras, porcos e os bisões e veados recentemente
introduzidos, que comem as plantas e arrancam suas raízes.
OS IMPACTOS DA EXPLORAÇÃO 141

Os impactos da exploração
Muitas espécies de animais e plantas selvagens são coletadas ou caça­
das, por exemplo, peixes, árvores, cervos e elefantes. Estas práticas re­
duzem os tamanhos efetivos e a diversidade genética das populações,
trazendo conseqüências deletérias. Para os elefantes asiáticos, por
exemplo, a caça tem impactado a razão sexual, a taxa reprodutiva e o
tamanho efetivo populacional (Quadro 7.5). Além disso, estima-se que
a caça irá reduzir drasticamente a diversidade genética dos alces e dos
veados de cauda branca.

Quadro 7.5 Os impactos da caça na razão sexual, no tamanho efetivo


populacional, no sucesso reprodutivo e na viabilidade populacional
dos elefantes asiáticos (Sukumar et al. 1998)

A caça pelo marfim tem causado um impacto devastador na razão sexual,


dado que apenas os elefantes asiáticos machos apresentam presas. Nos últimos
20 anos, a caça no sul da índia dizimou a população de machos, de maneira
que na reserva Periyar existem apenas seis machos adultos para 605 fêmeas.
Da equação 4.7, Ne = 24. Além disso, com um número tão pequeno de machos,
as taxas reprodutivas das fêmeas também declinaram. As fêmeas que não se
reproduzem durante a juventude permanecem estéreis pelo resto da vida. A
caça não afeta apenas a razão sexual e o tamanho efetivo, mas também reduz o
sucesso reprodutivo.

A caça seletiva deve favorecer fenótipos particulares dentro das po­


pulações. Por exemplo, grandes peixes, elefantes com as maiores presas
e os veados com grandes galhadas são preferencialmente capturados.
Isto deve resultar em pressões de seleção que mudam os fenótipos das
espécies, conflitando com as forças da seleção natural e reduzindo o
valor adaptativo da população. Por exemplo, a caça pelo marfim está
aumentando a freqüência de elefantes machos sem presas em várias
populações da África e da Ásia. Estes machos sem presas têm menor
capacidade de obter pares para o acasalamento e são menos capazes
de enfrentar predadores.
A solução óbvia para este problema é reduzir a seletividade da
caça, mas isto é difícil de ser conseguido na prática. A caça aos elefan­
tes é uma atividade ilegal e, por isto, não sujeita a regulamentação.
Apesar de muitos acordos internacionais, a pesca também é difícil
de regulamentar, o que pode ser atestado pelo colapso de muitos re­
cursos pesqueiros. Como as espécies comerciais ocorrem freqüente-
mente em grandes quantidades, embora muitas estejam se tornando
escassas, uma opção é preservar uma proporção da população. Dessa
maneira, estoques completamente selvagens são mantidos para re­
povoar as áreas de coleta, minimizando os impactos genéticos da
pesca.
Os impactos genéticos e evolutivos da caça seletiva têm recebido
muito pouca atenção no manejo de espécies ameaçadas.
142 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Manejo genético de espécies sem reprodução


biparental
Muitas espécies de plantas e alguns animais não apresentam reprodu­
ção biparental. Portanto, requerem estratégias de manejo modificadas.
Isto inclui:
• espécies que se reproduzem assexuadamente
• espécies autógamas
• espécies poliplóides (muitas espécies de plantas e algumas poucas
espécies de animais)
Abaixo consideramos suas características e as modificações que acarre­
tam no manejo genético.

Espécies assexuadas
Muitas espécies de plantas são capazes de reprodução vegetativa, atra­
vés de brotos, bulbos, rizomas, etc. Espécies com reprodução exclusiva­
mente assexuada em geral ocorrem na forma de um ou poucos tipos de
clones. Os clones são essencialmente idênticos, embora possa ocorrer
diversidade genética entre os diferentes tipos. Por exemplo, o arbusto
triplóide australiano em perigo Lomatia tasmanica existe na forma de
um único clone, e a planta em perigo Limonium dufourii, da Espanha,
consiste de vários tipos de clones triplóides.
Numa espécie totalmente clonal o endocruzamento não é uma pre­
ocupação. No entanto, espécies que existem na forma de um único
clone essencialmente não apresentam variação para se adaptarem às
mudanças do ambiente. Elas são similares a populações endocruzadas
de espécies sexuadas. Esta fragilidade requer um tipo de manejo pare­
cido com o utilizado no pinheiro de Wollemi (veja acima).
Em espécies que realizam tanto a reprodução sexuada quanto a
assexuada, o número de indivíduos geneticamente distintos deve ser
muito menor do que o número de indivíduos de uma amostra. Por
exemplo, 53 indivíduos do arbusto australiano em perigo Haloragoden-
dron lucasii consistiram de apenas sete tipos de clones, uma diversidade
genética bastante reduzida se comparada a uma espécie equivalente
de reprodução sexuada.
A manutenção da diversidade genética em espécies de reproduçã :
assexuada requer que a estrutura das populações seja considerada na
conservação in situ, no restabelecimento de populações extintas e na
obtenção de amostras para conservação ex situ. A maior prioridade e
identificar e manter o maior número possível de clones distintos.

Espécies autógamas
Aproximadamente 20% das espécies de plantas fazem autofecundaçàc
com freqüência, como a espécie em perigo Stephanomeria malheurensis.
e 40% das espécies fazem autofecundação ocasionalmente, como Bank-
sia brownii.
Espécies predominantemente autógamas são geralmente menos
heterozigotas do que espécies com fecundação biparental, com maior
proporção da diversidade genética distribuída entre populações :i
que dentro delas. As populações comumente contêm alelos úniaML
A AVALIAÇÃO DAS ESTRATÉGIAS DE RECUPERAÇÃO 143

Conseqüentemente, alelos têm maiores probabilidades de serem eli­


minados pela perda de populações locais em espécies autógamas do
que em espécies biparentais. O endocruzamento não é um problema
tão grave para as espécies autógamas, dado que geralmente sofrem me­
nos depressão por endocruzamento.
No entanto, muitas populações autofecundantes fazem fecunda­
ção biparental periodicamente, e a oportunidade de fazê-la deve ser
preservada em espécies ameaçadas.
A redução do fluxo gênico devido à fragmentação das populações é
menos importante em espécies naturalmente endocruzadas, dado que
muitas vezes elas já são altamente fragmentadas. Para se preservar a
diversidade genética dentro das populações e a heterozigose nos in­
divíduos, pequenas populações fragmentadas devem ser aumentadas
com indivíduos de outros fragmentos.

Espécies poliplóides
O manejo genético de espécies poliplóides de fecundação biparental (a
maioria das angiospermas e pteridófitas) segue os mesmos princípios
das espécies diplóides com sistema reprodutivo similar. No entanto, os
problemas genéticos são geralmente menos sérios do que nos equiva­
lentes diplóides. Por exemplo, uma população de tetraplóides contém
duas vezes mais cópias de cada alelo do que uma população diplóide
de mesmo tamanho efetivo. Portanto, os poliplóides provavelmente
sofram menos depressão por endocruzamento e menos perda de di­
versidade genética em pequenas populações do que os diplóides. Con­
seqüentemente, os poliplóides devem tolerar tamanhos populacionais
menores do que os diplóides. Entretanto, os tamanhos necessários para
se evitar as estocasticidades demográficas e ambientais, bem como as
catástrofes, são similares (veja Capítulo 5).

A avaliação das estratégias de recuperação


Muitos procedimentos têm sido recomendados para a recuperação de
populações ameaçadas, incluindo as restrições legais à exploração, a
remoção de predadores, a melhora e preservação dos habitats, a repro­
dução em cativeiro, etc. Análises de Viabilidade Populacional (PVA) são
freqüentemente utilizadas para se avaliar e comparar estas opções (Ca­
pítulo 5). Em geral, inicia-se com análises de sensibilidade, seguidas de
P\As detalhadas que comparam as várias opções específicas de manejo.

Análises de sensibilidade
As análises de sensibilidade constituem uma importante ferramenta
para se avaliar programas de recuperação de espécies ameaçadas. Es­
tas análises envolvem variações progressivas nos valores médios dos
diferentes parâmetros utilizados nas P\As, em ambas as direções, e a
avaliação de seus efeitos no risco de extinção ou no tamanho das popu­
lações. Dessa maneira, os parâmetros cujos valores mais influenciam
no resultado podem ser identificados. Por exemplo, o resultado é mais
sensível a variações na sobrevivência dos juvenis, ou taxas reproduti­
vas dos adultos, ou níveis de predação, etc?
144 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Opções alternativas de manejo podem, portanto, ser comparadas.


Por exemplo, a sobrevivência no primeiro ano de vida demonstrou ser
o parâmetro cuja variação mais causou impactos sobre o crescimento
populacional da ave Tympanuchus cupido. Conseqüentemente, o manejo
deve focar no aumento do sucesso dos ninhos e na sobrevivência das
ninhadas e dos jovens de até um ano de idade.
As análises de sensibilidade podem mudar nossa percepção sobre
a importância dos fatores de ameaça. Por exemplo, a predação dos fi­
lhotes por leões e hienas tem sido considerada a maior ameaça para
a viabilidade dos guepardos. Entretanto, análises de sensibilidade
revelaram que esta espécie é muito mais sensível a mudanças na so­
brevivência dos adultos do que de filhotes. Da mesma maneira, duran­
te muitos anos o manejo da tartaruga Caretta caretta focou a questão
aparentemente óbvia de que o aumento da sobrevivência dos recém
nascidos iria reverter o declínio populacional. Mas análises de sensibi­
lidade demonstraram que a redução da mortalidade dos adultos pelas
redes de pesca de camarão era a maneira mais eficiente de se prevenir
o declínio.

Estudos de caso
Gallirallus sylvestris
A população de Gallirallus sylvestris declinou para 20-30 indivíduos nos
anos 70 devido à exploração pelo homem no passado e, principalmen­
te, devido a predação e destruição do habitat por porcos introduzidos.
A recuperação desta ave procedeu-se com o extermínio dos porcos e
com um programa de reprodução em cativeiro e reintrodução, no
qual 86 indivíduos nascidos em cativeiro foram soltos num período
de quatro anos. Uma análise retrospectiva do programa de recupera­
ção confirmou que os procedimentos de manejo implementados eram
realmente necessários. A probabilidade de extinção para 100 anos era
de 100% se nenhuma ação fosse adotada, 40% se apenas os porcos tives­
sem sido controlados e 2% para a combinação de controle dos porcos e
reprodução em cativeiro. Embora apenas o controle dos porcos já teria
removido a principal causa de ameaça, isto por si só não garantiria que
a população atingisse números suficientes para evitar a extinção por
fatores estocásticos.
Atualmente, G. sylvestris tem uma população relativamente estável
de aproximadamente 200 indivíduos na ilha, e seu status foi mudado
de em perigo para vulnerável. Enquanto o lado ecológico desse pro­
grama é considerado um modelo, o manejo genético ficou longe de
ser satisfatório. Considerando que apenas três casais contribuíram
para o programa de reprodução em cativeiro, a população total será
muito mais endocruzada do que antes do programa. Além disso, é
provável que a variação genética seja perdida devido à contribuição
desigual desses casais. Portanto, seria desejável que a base genética
do programa de reprodução em cativeiro tivesse sido aumentada
pela adição de mais indivíduos férteis, uma vez que se sabia que se
reproduziam com sucesso no cativeiro. Infelizmente, análises da
variabilidade genética da população não têm sido realizadas e ne­
nhuma ação corretiva foi planejada. Além disso, o monitoramento
rotineiro cessou.
REPRODUÇÃO SUPLEMENTAR E TECNOLOGIAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA 145

Uma PVA prospectiva concluiu que a população é altamente sen­


sível a pequenas mudanças nas taxas de mortalidade e fecundidade
(por exemplo, devido à depressão por endocruzamento) e catástrofes
causadas por espécies exóticas ou doenças. O estabelecimento de uma
segunda população numa outra ilha foi recomendado para minimizar
estes riscos, mas este procedimento não foi implementado.

O salmão Oncorhynchus tshawytscha


Em Oregon, EUA, o salmão Oncorhynchus tshawytscha tem declinado dra­
maticamente desde o início do século passado, primariamente devido
à degradação do seu habitat causada pelo acúmulo de matéria em sus­
pensão produzido pela construção de estradas e pelo desmatamento.
A cada ano, na primavera, menos de 300 indivíduos têm subido o rio
South Umpqua para desovar. Uma PVA dessa população estimou riscos
muito baixos de extinção em 100 e 200 anos, assumindo-se que o habi­
tat não se torne mais degradado. No entanto, esta conclusão foi alta­
mente sensível a incertezas dependentes da densidade populacional. O
risco de extinção estimado foi de 100% assumindo-se a continuação da
degradação do ambiente em taxas similares às do passado.

Pedicularis furbishiae
Esta planta herbácea perene e em perigo já chegou a ser dada como ex­
tinta. Entretanto, aproximadamente 5000 indivíduos foram descober­
tos em 28 colônias ao longo de um trecho de 230 km de um único rio
localizado em Maine e New Brunswick, noroeste da América do Norte.
Esta espécie ocorre apenas nos barrancos do rio voltados para o norte,
num tipo de ambiente que sofre distúrbios periódicos. Trata-se de uma
hemiparasita de estágios iniciais de sucessão que não pode invadir os
barrancos dos rios degradados pelo menos nos três primeiros anos de
sucessão, e em fases mais tardias são eliminadas por competidoras
mais altas, o que leva a um ciclo regular de colonização e extinção (a
espécie existe como uma metapopulação). Uma PVA demonstrou que
as populações individuais tinham probabilidade de extinção de 87%
em 100 anos, de maneira que a sobrevivência da espécie é criticamen­
te dependente do balanço entre colonização e extinção. Como as ex­
tinções freqüentemente excedem as colonizações, a viabilidade desta
espécie em longo prazo é bastante tênue. Além disso, a capacidade da
população de se adaptar em longo prazo é questionável, dado que as
quatro populações da espécie não apresentaram diversidade genética
em 22 locos de aloenzimas.

Reprodução suplementar e tecnologias de


reprodução assistida
A reprodução em cativeiro é uma importante opção de conservação
para espécies com alto risco de extinção na natureza. No próximo ca­
pítulo trataremos do manejo genético de populações em cativeiro, ou
ex situ. Concluiremos este capítulo enfatizando brevemente três casos
que são intermediários entre manejo na natureza e em cativeiro.
146 O MANEJO GENÉTICO DE ESPÉCIES AMEAÇADAS EM AMBIENTE NATURAL

Reprodução suplementar
A reprodução suplementar é utilizada amplamente no manejo de pei­
xes para aumentar as populações selvagens. Isto difere da reprodução
em cativeiro tradicional porque adultos selvagens são trazidos para o
cativeiro, se reproduzem, e suas progénies são parcialmente criadas
antes de serem soltas. Não há populações de cativeiro permanentes.
O manejo destes programas tem dois objetivos freqüentemente confli­
tantes: a soltura de um grande número de juvenis e a manutenção da
diversidade genética das populações selvagens. Para espécies altamente
prolíferas, como muitos peixes, apenas um pequeno número de adul­
tos é necessário para produzir os juvenis para serem soltos, e a captura
deste pequeno número de adultos pode ser o desejado para espécies
ameaçadas. Entretanto, este procedimento deve reduzir a diversidade
genética e aumentar o endocruzamento à medida que as populações
selvagens passam a experimentar tamanho efetivo reduzido devido ao
tamanho desigual das famílias (Capítulo 4). Embora a genética tenha
inicialmente recebido pouca atenção nestes programas, nos últimos
passou a ser mais enfatizada.

Suporte reprodutivo
Algumas populações selvagens que não são autosustentáveis são man­
tidas pela soltura regular de populações de cativeiro (suporte repro­
dutivo). O ganso Nene (ganso havaiano) tem sido sujeito a um longo
programa de reintrodução, considerando que as populações selvagens
não parecem ser autosustentáveis. Estoques de peixes de cativeiro são
amplamente utilizados para aumentar as populações selvagens de
muitas espécies, especialmente aqueles que favorecem os pescadores.
Esses suportes reprodutivos geralmente apresentam impactos dele­
térios de longo prazo na composição genética e no sucesso reprodutivo
dos estoques selvagens, como: (a) redução do tamanho efetivo popula­
cional, (b) perda de diversidade genética, (c) depressão por endocruza­
mento e (d) redução do sucesso reprodutivo resultante de adaptações
genéticas ao cativeiro que são deletérias na natureza. Adaptação gené­
tica é um problema em peixes quando os habitats selvagens são repo­
voados utilizando-se populações que passaram por muitas gerações em
cativeiro, dado que eles geralmente têm menor capacidade reproduti­
va nos ambientes selvagens (ver Capítulo 8).

Tecnologias de reprodução assistida


As tecnologias de reprodução assistida, incluindo a inseminação artifi­
cial, bancos genéticos, coleta e criopreservação de gametas, fertilização
in vitro, transferência de embriões, transferência nuclear (clonagem)
e os bancos de sementes e tecidos, estão avançando rapidamente. O
objetivo em longo prazo é suplementar as populações selvagens com
indivíduos produzidos em cativeiro, ou mesmo ressuscitar espécies ex­
tintas a partir de tecidos ou materiais genéticos preservados. Embora
muitas destas tecnologias ainda estejam em fase de desenvolvimento
e não estejam disponíveis para muitas espécies selvagens, elas têm o
potencial de contribuir significativamente com a conservação genéti­
ca das seguintes maneiras:
REPRODUÇÃO SUPLEMENTAR E TECNOLOGIAS DE REPRODUÇÃO ASSISTIDA 147

• a transferência de material genético entre populações altamente


fragmentadas pode ser facilitada pela criopreservação de sêmen de
machos de alguns fragmentos e a inseminação artificial de fêmeas
em outros
• bancos genéticos de espécies altamente ameaçadas podem preser­
var a diversidade genética em longo prazo sem a perda de alelos que
acompanha a reprodução normal ao longo de muitas gerações
• a contribuição genética de indivíduos mortos pode ser resgatada
pela coleta de seus gametas logo após a morte
• embriões de espécies em perigo podem ser implantados em espé­
cies relacionadas, aumentando as taxas reprodutivas das espécies
em perigo
• a transferência de núcleos e a clonagem pode facilitar o manejo ge­
nético quando os números de indivíduos limitam as oportunidades
reprodutivas
A aplicação das tecnologias reprodutivas no manejo genético de ani­
mais ameaçados tem focado as populações de cativeiro e têm sido
utilizadas em apenas algumas poucas espécies. Enquanto estes pro­
cedimentos têm considerável potencial de aplicação em espécies de
animais ‘carismáticos’ em perigo, para os quais a consciência pública
daria suporte às despesas envolvidas, não é provável que sejam ampla­
mente aplicáveis. Entretanto, em plantas, bancos de tecidos e semen­
tes e a criopreservação têm amplas aplicações.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 16
e 20 oferecem um tratamento mais extenso sobre estes tópicos, mais
referências.
Avise, J. C. & J. L. Hamrick, (eds.) 1996. Conservation Genetics: Case Histories
from Nature. Chapman & Hall, New York. Contém histórias de casos
sobre manejo na natureza de espécies ameaçadas.
Beissinger, S. R. & D. R. McCullough, (eds.) 2002. Population Viability
Analysis. University of Chicago Press, Chicago, IL. São os resultados de
uma conferência sobre PVA que revisou a contribuição das PVA para o
manejo de espécies ameaçadas.
Ecological Bulletin. 2000. Volume 48: Population Viability Analysis. Um volume
especial dedicado ao processo de PVA e suas contribuições para a
conservação.
Falk, D. A. & K. E. Holsinger. 1991. Genetics and Conservation of Rare Plants.
Oxford University Press, New York. Contém uma série de capítulos
sobre o manejo na natureza de espécies de plantas ameaçadas.
Lanza, R. P., B. L. Draper & P. Damián. 2000. Cloning Noah’s ark. Scientific
American 87 (5), 84-89. Descreve o uso real e potencial de tecnologias de
reprodução artificial na conservação.
Woodford, J. 2000. The Wollemi Pine: The Incredible Discovery of a Living Fossil
from the Age of the Dinosaurs. Text Publishing, Melbourne, Australia.
Um livro popular interessante e bem escrito sobre a descoberta,
conservação e a genética do pinheiro Wollemi
Capítulo 8

Reprodução em cativeiro e
reintrodução
Espécies ameaçadas podem ser manejadas em cativeiro para
maximizar a retenção da diversidade genética em longo prazo.
Para que este objetivo seja atingido, comumente evitam-se os
cruzamentos entre indivíduos aparentados. As populações
de cativeiro podem gerar indivíduos para a realização de
reintroduções na natureza. No entanto, o sucesso destes programas
de reintrodução pode ser comprometido pela depressão causada
pelos endocruzamentos, pela perda de diversidade genética e pela
adaptação genética das populações ao cativeiro.
POR QUE REPRODUZIR EM CATIVEIRO? | 149

Por que reproduzir em cativeiro?


Estima-se que apenas para vertebrados terrestres entre 2000-3000 espé­
cies irão necessitar de reprodução em cativeiro nos próximos 200 anos
para que não sejam extintas. Atualmente, 25 espécies de animais, in­
cluindo o órix da Arábia, o furão de pés negros, o condor da Califórnia,
a ave Gallirallus owstoni, o veado-de-Père-David, o cavalo-de-Przewalski,
o órix scimitar-horned, o peixe Cyprinodon alvarezi, 11 espécies de gastró-
podes do gênero Partula, além da árvore Franklinia alatamaha e várias
outras espécies de plantas têm sido preservados em cativeiro após a ex­
tinção na natureza. Além disso, muitas espécies ameaçadas possuem
populações em cativeiro que funcionam como uma garantia contra a
extinção na natureza.
Neste capítulo enfatizaremos principalmente os animais, dado que
a reprodução em cativeiro é geralmente mais complexa para estes or­
ganismos do que para as plantas.
AIUCN tem reconhecido a importante contribuição dos programas
de reprodução em cativeiro, dado que eles:
• estabelecem populações ex situ em locais seguros
• educam e engajam o público nas questões conservacionistas e criam
um foco para atrair fundos
• garantem oportunidades para a pesquisa sobre a biologia básica
das espécies, produzindo conhecimentos que podem ser aplicados à
conservação na natureza
• garantem animais para programas de reintrodução, quando esta
estratégia é conveniente.

A dimensão das atividades de propagação e reprodução em cativeiro


Hoje, cerca de 1150 zoológicos e aquários do mundo todo abrigam
aproximadamente 1,2 milhões de animais. Talvez 5-10% do espaço dis­
ponível seja utilizado para espécies em perigo. Se houvessem mudan­
ças nas prioridades, este espaço poderia ser expandido para garantir a
reprodução de aproximadamente 800 espécies em perigo, o que con­
trasta muito com a necessidade de reprodução em cativeiro de aproxi­
madamente 2000-3000 espécies, apenas de vertebrados terrestres. Por
volta de 1989/90, 245 espécies de vertebrados ameaçados de extinção
estavam sendo reproduzidas em cativeiro. Talvez 30% de todas as es­
pécies de plantas vasculares estejam representadas nas coleções dos
aproximadamente 1500 jardins botânicos do mundo.

Zoológicos no século XXI


Durante os últimos 20 anos, o papel desempenhado por muitos zoológi­
cos na conservação tem crescido substancialmente, com a participação
ativa em diversas atividades colaborativas de reprodução em cativeiro.
Os Planos de Sobrevivência de Espécies (SSPs), coordenados pela Asso­
ciação Americana de Zoológicos e Aquários, foram desenvolvidos pela
primeira vez na América do Norte, em 1981. Os SSPs envolvem o ma­
nejo coordenado de todos os indivíduos mantidos em cativeiro pelas
instituições participantes e, atualmente, tem sido aplicado em muitas
espécies ameaçadas. Os studbooks (bancos de dados computacionais
150 | REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

contendo as genealogias e a história de vida de todos os indivíduos)


contribuem com recomendações sobre quais indivíduos devem se re­
produzir, com quais exemplares devem se acasalar, com que freqüên-
cia e em qual localidade. Cada instituição permite que seus animais
sejam manejados de acordo com um programa genético e demográ­
fico determinado por um coordenador, e os animais reprodutores são
freqüentemente translocados para otimizar o manejo genético. Pro­
gramas similares também têm sido desenvolvidos em muitos outros
países e regiões.
As informações sobre as genealogias, o histórico de cada indivíduo,
as experiências com a reprodução e os registros de saúde dos animais
também são coletados em cada zoológico e são mantidos pelo Sistema
Internacional de Informações de Espécies (ISIS), em Minnesota. O ISIS
funciona como um depósito central, com registros de 1,56 milhões
de animais (até o final de 2002) de aproximadamente 10000 espécies,
mantidos em 586 zoológicos e parques da vida selvagem de 72 países.

Estágios envolvidos na reprodução em cativeiro e


na reintrodução
A reprodução em cativeiro e a reintrodução devem ser vistas como um
processo que envolve seis estágios (Fig. 8.1):
1. Reconhecer o declínio das populações selvagens e suas conseqüên-
cias genéticas.
2. Fundar uma população em cativeiro.
3. Aumentar a população de cativeiro para números seguros.
4. Manter a população de cativeiro ao longo das gerações.
5. Escolher indivíduos para reintrodução.
6. Manejar a população reintroduzida (provavelmente fragmentada)
na natureza.

As questões genéticas essenciais para o primeiro estágio são a taxa


de declínio da população selvagem, o tamanho a que foi reduzida e
os graus de endocruzamento e de perda de diversidade genética que
ocorreram antes da reprodução em cativeiro. Estas quatro questões fo­
ram introduzidas nos Capítulos 4 e 5 e suas implicações para o manejo
serão discutidas aqui.
O manejo durante as fases de fundação, crescimento e manuten­
ção foca em prioridades diferentes. Durante a fundação, o tamanho da
população é pequeno e o conhecimento sobre as técnicas de manejo
reprodutivo da espécie é geralmente inexistente. O manejo foca tanto
em pesquisas básicas para o desenvolvimento dessas técnicas quanto
em esforços para garantir que todos os fundadores se reproduzam.
Durante a fase de crescimento populacional o objetivo é a repro­
dução rápida e a dispersão da população para várias instituições. A
população é manejada desde a taxa de crescimento zero até o estágio
de manutenção de um tamanho alvo pré-determinado. Em geral, os
animais não são removidos (por exemplo, para reintrodução) até que a
população se aproxime deste tamanho alvo.
A FUNDAÇÃO DAS POPULAÇÕES DE CATIVEIRO 151

Natureza Cativeiro Reintrodução

A fundação das populações de cativeiro


É o processo de fundação que estabelece as características genéticas
da população de cativeiro, afetando, portanto, o seu valor para a con­
servação. Se o objetivo é manter na população a maior parte da diver­
sidade genética presente na natureza, para evitar o endocruzamento
subseqüente, é necessária uma amostra de pelo menos 20-30 fundado­
res não relacionados. Em geral, apenas alguns dos indivíduos captura­
dos na natureza se reproduzem em cativeiro. Por exemplo, apenas 48
dos 242 mico-leões-dourados que fundaram a população de cativeiro
contribuíram com o pool gênico atual. Além disso, dois terços do pool
gênico que havia antes da implementação do manejo era derivado de
apenas um casal que era bastante prolífico. Contrastando com estes
dados, todos os 14 condores da Califórnia que fundaram a população
de cativeiro se reproduziram com sucesso.
A estimativa de que 20-30 fundadores devem ser suficientes vem
da equação 4.1. A proporção da heterozigose retida é [1 - (1/2NJ]. Por­
tanto, mesmo 10 indivíduos não relacionados manteriam 95% da he­
terozigose numa espécie não endocruzada, enquanto 30 fundadores
manteriam mais de 98%. Se os fundadores têm origem em pequenas
populações, eles são provavelmente aparentados, reduzindo o tama­
nho efetivo. Técnicas moleculares podem ser utilizadas para se deter­
minar o grau de parentesco entre os fundadores. Por exemplo, os 14
condores da Califórnia fundadores da população de cativeiro foram
agrupados em três clãs relacionados com base numa análise de finger­
printing de DNA.
Os fundadores em potencial podem vir de fontes diferentes ou se­
rem de procedência desconhecida. Para evitar a depressão por exocru-
zamento, ou a criação de uma população de híbridos indesejáveis, é
essencial que todas as incertezas taxonômicas sejam resolvidas antes
da fundação da população. Da mesma maneira, é necessário se avaliar
a necessidade de separação dos indivíduos em diferentes unidades de
manejo (Capítulo 6). Vários dos leões asiáticos fundadores do progra­
ma de reprodução em cativeiro foram identificados posteriormente
como sendo híbridos de leões africanos x asiáticos, o que resultou no
fim do programa, mesmo após uma quantia substancial de recursos
ter sido gasta em seu desenvolvimento e manutenção.
Existem implicações econômicas relacionadas ao número de fun­
dadores, como o custo para se estabelecer as populações em cativeiro.
Além disso, existe o custo para se manter a população depois que o
152 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

número de indivíduos necessário para que seja mantido 90% da diver­


sidade genética em 100 anos seja atingido (o que é o objetivo atual do
manejo em cativeiro). Com poucos fundadores, os custos iniciais para
obtenção dos indivíduos são minimizados. No entanto, seriam neces­
sárias populações maiores para se manter a variação genética e para
se evitar endocruzamentos no futuro. Portanto, os custos subseqüen-
tes seriam muito maiores. Com mais fundadores, seriam necessárias
populações menores. Assim, embora os custos iniciais sejam maiore>
existe em longo prazo uma economia substancial.
A necessidade da aquisição de uma base genética sólida, a pequena
proporção dos fundadores que se reproduzem, bem como os fatores
econômicos, dão suporte à necessidade de populações fundadoras com
grandes números de indivíduos.
Infelizmente, a maioria das populações de cativeiro tem sido es­
tabelecida utilizando-se números inadequados de indivíduos. Mui:a>
foram criadas quando as espécies em perigo já se encontravam em si­
tuação extremamente crítica, quando já não havia muitos indivíduos
disponíveis. Em muitos outros programas foram utilizados os pouc: s
animais (ou ancestrais destes) que já se encontravam em cativeiro íTa­
bela 4.1).
Para que os impactos genéticos prejudiciais possam ser evitados, as
populações de cativeiro devem ser estabelecidas antes que a populaçà:
selvagem se aproxime da extinção. Conseqüentemente, a IUCN tem re­
comendado o estabelecimento destas populações antes da populaçá:
selvagem cair para menos de 1000 indivíduos. Os benefícios dessa es­
tratégia incluem (1) a possibilidade de se obter fundadores selvager.>
com baixos níveis de endocruzamento, (2) a minimização do impacte
da remoção nas populações naturais e (3) garante-se tempo para o de
senvolvimento de técnicas sustentáveis de reprodução em cativeiro.

O crescimento das populações de cativeiro


A segunda fase de um programa de reprodução em cativeiro visa mul­
tiplicar a população rapidamente até que seja atingido o tamanho pre
determinado pelos objetivos dos programas genéticos e demográficos
Isto cria uma população segura também sob o ponto de vista demográ­
fico. O manejo genético é menos enfatizado durante esta fase, dade
que é conflitante com o objetivo principal, que é o rápido aumente
populacional. As proles são usualmente produzidas a partir de todos
os adultos, e não apenas a partir dos geneticamente mais valiosos. O
manejo genético durante esta fase limita-se, portanto, apenas a (1) mi­
nimizar os acasalamentos entre indivíduos proximamente aparenta­
dos, (2) permitir que todos os animais tenham a oportunidade de se
reproduzir e (3) garantir que os animais geneticamente mais valioso>
sejam colocados em situações viáveis para a reprodução.

Como o tamanho alvo da população é estabelecido?


Para uma população estável, o tamanho efetivo necessário para se
atingir o objetivo de reter 90% da diversidade genética em 100 ano^
é Ne = 475/L, onde I é a duração de uma geração em anos (Capítulo 5;
MANEJO GENÉTICO DURANTE A FASE DE MANUTENÇÃO 153

Por exemplo, é necessário um tamanho efetivo populacional de 475


para uma espécie que produza uma geração por ano. Já para uma es­
pécie que apresenta um intervalo entre gerações de 23 anos, como os
gorilas das montanhas, é necessário um Ne de apenas 21 para reter
90% da variação genética no mesmo intervalo de tempo. Na prática,
um tamanho efetivo demograficamente seguro seria maior do que 21
para gorilas.
A fase da fundação tem um impacto significativo sobre o Ne neces­
sário, considerando que um pequeno número de fundadores (gargalo)
requer uma maior população no geral para compensar as perdas ge­
néticas ocorridas durante o gargalo. O Ne necessário é provavelmente
maior do que o valor acima. O número necessário de animais depende
criticamente do efeito fundador, da relação NJN, da duração de cada
geração e da velocidade com a qual a população aumenta depois do
gargalo. Por sua vez, a relação NJN depende da variação de tamanho
das familias, da razão sexual, do sistema de acasalamento e das flutu­
ações em N (Capítulo 4). Atualmente, programas computacionais estão
disponíveis para se estimar o Ne requerido para casos complexos.

Manejo genético durante a fase de manutenção

Deterioração genética em cativeiro


O manejo passa a enfatizar progressivamente as questões genéticas à
medida que a população se aproxima do seu tamanho alvo. A minimi-
zação do endocruzamento e da conseqüente depressão por endocru-
zamento, bem como a retenção da diversidade genética se tornam as
preocupações mais imediatas. Em longo prazo, o acúmulo de mutações
deletérias deve também se tornar uma ameaça. A adaptação genética
ao cativeiro (discutida adiante) é um outro fator que pode reduzir as
taxas de sucesso de programas de reintrodução na natureza de orga­
nismos nascidos em cativeiro.

Endocruzamento e depressão por endocruzamento


Para muitas espécies ameaçadas, os tamanhos efetivos das populações
fechadas de cativeiro são tão pequenos que elas irão sofrer endocruza­
mento e depressão por endocruzamento após um período de tempo
relativamente curto (Capítulos 4 e 5). Por exemplo, o cavalo-de-Przewal-
ski, ameaçado de extinção, tem um coeficiente de endocruzamento
de aproximadamente 20%, apesar do manejo genético intensivo que
foi realizado nesta espécie. Comumente, cada zoológico pode manter
apenas poucos indivíduos de uma espécie em particular. Se apenas
dois casais forem mantidos, sem intercâmbio com outras instituições,
o endocruzamento se acumula rapidamente e a colônia entra em sério
risco de extinção em aproximadamente cinco gerações. Para minimi­
zar este tipo de problema, a população total em cativeiro de uma espé­
cie em perigo é freqüentemente manejada como uma unidade única,
com intercâmbio controlado por planos de manejo regionais (SSPs) ou
globais (como por exemplo, no mico-leão-dourado).
Apesar do intercâmbio de indivíduos ou de gametas, todas as
populações juntas ainda não compõem uma população grande. Os
154 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

programas SSP têm um Ne médio de 41, o que é um tamanho menor


do que aquele em que a depressão por endocruzamento causada pelo
tamanho finito das populações começa a ocorrer. Com este tamanho,
as populações desenvolvem um coeficiente de endocruzamento de 26%
em 25 gerações, resultando num F médio maior do que o obtido em
uma geração de cruzamentos entre parentes de primeiro grau.

Perda de diversidade genética


Populações de cativeiro de espécies ameaçadas perdem diversidade
genética devido aos gargalos ocorridos durante a fundação, devido ao
subseqüente tamanho populacional pequeno e por causa d o N e < N (Ca­
pítulo 4). Conseqüentemente, a perda de diversidade genética pode ser
minimizada utilizando-se um número adequado de fundadores, mini­
mizando-se o número de gerações através da reprodução dos indivídu­
os mais velhos (ou utilizando-se da criopreservação) e maximizando-se
tanto o tamanho da população quanto a proporção NJN.

O manejo genético de populações de cativeiro na atualidade


Quando se assume que os indivíduos fundadores sejam representa­
tivos da diversidade genética presente na população selvagem (o que
é freqüentemente algo duvidoso), o objetivo do manejo é minimizar
quaisquer mudanças no pool gênico fundador ao longo das gerações.
Em outras palavras, busca-se “congelar” a evolução na população de
cativeiro.
O alvo comum de um plano de manejo é reter 90% da diversidade
genética, o que implica num aumento concomitante do coeficiente de
endocruzamento de 10%, em 100 anos. Infelizmente, mesmo estes ob­
jetivos são inviáveis para muitas populações, seja devido ao pequeno
número de fundadores ou devido às limitações de espaço. Conseqüen­
temente, os objetivos genéticos são freqüentemente comprometidos.

A maximização de N J N
Os recursos disponíveis para a reprodução em cativeiro têm se torna­
do criticamente limitados à medida que aumenta o número de espé­
cies que precisam ser salvas pela reprodução em cativeiro. Portanto, é
importante se maximizar o Ne para cada espécie e, ao mesmo tempo,
usar o menor número de indivíduos possível. Isto pode ser atingido
seguindo-se os seguintes protocolos:
• Equalizar o tamanho das famílias de maneira que Ne se aproxime de
2N (Capítulo 4). Este manejo multiplica os recursos efetivos disponí­
veis para a reprodução em cativeiro e tem sido aplicado na prática.
• Equalizar a razão sexual dos reprodutores evitando-se, por exemplo,
a formação de haréns quando possível (Capítulo 4). Equalizar a ra­
zão sexual é freqüentemente difícil devido à agressividade entre os
machos e outras restrições dos sistemas sociais.
• Equalizar os tamanhos das populações ao longo das gerações (Capí­
tulo 4). Após as fases de fundação e crescimento, as populações são
geralmente mantidas em tamanhos relativamente estáveis.
• Maximizar a duração das gerações. Isto deve ser feito através da re­
produção dos animais mais velhos ou através da criopreservação. No
entanto, estes procedimentos não têm sido amplamente aplicados.
MANEJO GENÉTICO DURANTE A FASE DE MANUTENÇÃO 155

O manejo genético de populações em cativeiro que visa aumentar a


proporção NJN pode ser muito benéfico. A proporção NJN é em média
aproximadamente 0,1 em populações não manejadas, mas valores de
até 2 podem ser atingidos em experimentos de laboratório que buscam
equalizar os tamanhos das famílias, as razões sexuais e os números de
indivíduos ao longo das diferentes gerações.
Devido ao controle sobre a reprodução, razões NJN de aproximada­
mente 0,3 parecem ser comuns em populações de cativeiro de espécies
em perigo, podendo ser maiores do que os valores encontrados para
as populações selvagens. No entanto, considerações práticas (como a
incompatibilidade entre os casais, o comprometimento com o manejo
veterinário e outras recomendações de manejo, bem como fatores esto-
cásticos) freqüentemente limitam a maximização de NJN.

A minimização dos níveis de parentesco


Os indivíduos fundadores freqüentemente contribuem de maneira
bastante desigual para as gerações subseqüentes, como por exemplo,
no mico-leão-dourado, mencionado anteriormente. A minimização
dos níveis de parentesco é um método empregado para reduzir essas
desigualdades. Utilizando-se de simulações computacionais, Bailou &
Lacy demonstraram que dentre uma série de procedimentos de mane­
jo, a minimização do grau de parentesco entre os indivíduos era a me­
lhor maneira para se reter a variação genética. Resumidamente, este
procedimento busca o acasalamento daqueles indivíduos que apresen­
tam os menores graus de parentesco em relação à média da população.
Quando aplicado em fundadores não aparentados, equipara-se à equa-
lização dos tamanhos das famílias em termos de resultados.
O parentesco (ou coancestria) de dois indivíduos é o coeficiente de
endocruzamento de sua prole hipotética. Métodos para se calcular o
coeficiente de endocruzamento são apresentados no Capítulo 4. O pa­
rentesco de um indivíduo com ele próprio também deve ser estimado,
dado que este valor entra no cálculo do parentesco médio apresentado
abaixo. Este valor equivale ao coeficiente de endocruzamento resultan­
te da autofertilização, descrito por xh (1 + Eindivíduo).
O parentesco médio de um indivíduo i (mk.) é a média dos valores
de parentesco desse indivíduo com todos os indivíduos da população,
incluindo ele próprio.

onde k.. = parentesco entre i ej, e N é o número de indivíduos da po­


pulação. O exemplo 8.1 ilustra o cálculo do parentesco médio para os
indivíduos apontados na genealogia.
A média dos parentescos médios de uma população (mk) é o coefi­
ciente de endocruzamento esperado da geração seguinte a partir de
acasalamentos randômicos. Conseqüentemente, a relação entre a média
dos valores de parentescos médios e a diversidade genética (HJHJ é:

Por isto, se o parentesco é minimizado, a heterozigose é maximizada.


156 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

Exemplo 8.1 I Cálculo do parentesco médio


Os valores de parentesco e os parentescos médios para os indivíduos
apresentados na genealogia abaixo são:

Portanto, o parentesco médio para Thelma é


(5/8 + 9/32 + 1/8 + 0 ) / 4 = 0,258
Note que todos os animais, exceto Rita, são endocruzados, e seus valo­
res de parentesco com eles próprios são, portanto, maiores de 0,5.

Os indivíduos com baixos parentescos médios são os mais valio­


sos. Eles têm menos parentes na população do que os indivíduos que
apresentam altas médias de parentesco e, portanto, carregam menos
alelos comuns. Na genealogia do exemplo 8.1, Robert tem o menor pa­
rentesco médio e é o animal mais valioso de sua geração, dado que
não é relacionado com Rita, Louise e Thelma. Por outro lado, Thelma
e Louise compartilham a maior parte de seus genes com o resto da po
pulação, sendo geneticamente menos valiosas. Num programa de re­
produção baseado no parentesco médio é dada prioridade aos animais
MANEJO GENÉTICO DURANTE A FASE DE MANUTENÇÃO 157

que apresentam os menores valores de parentesco médios. Neste caso,


seria indicado aumentar a contribuição dos genes de Robert e reduzir
a contribuição de Thelma e Louise.

A aplicação do parentesco médio em estratégias de reprodução


Quando se aplica a minimização do parentesco num programa de
reprodução, aqueles indivíduos com os menores valores de parentes­
co médios são escolhidos para se reproduzirem. Duas considerações
adicionais são necessárias para se determinar os acasalamentos espe­
cíficos. Primeiro, os acasalamentos entre indivíduos com valores de
parentesco médios muito diferentes devem ser evitados, pois limitam
as opções de manejo nas gerações futuras. Por exemplo, se um indi­
víduo valioso é acasalado com um exemplar de baixo valor, ambos
estarão representados na geração subseqüente. Segundo, para que o
endocruzamento seja minimizado deve ser evitado o acasalamento
entre indivíduos proximamente aparentados. Por exemplo, dois paren­
tes próximos, mesmo que com valores de parentesco médios baixos,
não devem ser acasalados. Em genealogias complexas, os parentes­
cos médios e o endocruzamento podem ser calculados utilizando-se
softwares.

Manejo de grupos em cativeiro


As genealogias completas geralmente não são disponíveis para as po­
pulações mantidas em grupos. Espécies como os chimpanzés e muitos
ungulados se reproduzem melhor em grupos de várias fêmeas e vários
machos, de maneira que não são conhecidas as paternidades. Conse-
qüentemente, os tamanhos efetivos das populações, o endocruzamen­
to e as perdas de diversidade genética não podem ser estimados com
precisão e não pode ser utilizada a minimização do parentesco.
Para as espécies que se reproduzem em grupos, as estratégias uti­
lizadas para se minimizar o endocruzamento têm sido direcionadas
para a troca regular de indivíduos entre os grupos (Quadro 8.1). Estes
procedimentos são similares à equalização dos tamanhos das famílias,

Quadro 8.1 Manejo genético de baixa intensidade para grupos utilizando-se o


impedimento máximo do endocruzamento (Princée 1995)

O impedimento máximo do endocruzamento (IME) em populações de genealogia


conhecida envolve a equalização do tamanho das famílias e a aplicação de um sistema
de acasalamento que evita o pareamento entre parentes durante o maior número
possível de gerações. A aplicação do IME a grupos sem genealogias conhecidas é
ilustrada com oito grupos nas duas figuras abaixo.
As linhagens maternas e paternas são indicadas com as letras AB, CD,...,OR Os
quadrados representam grupos reprodutivos. As flechas indicam a transferência de
machos dos grupos onde nasceram para grupos anfitriões. As linhagens sanguíneas
dos machos são mostradas próximo das flechas. A operação do sistema IME pode
ser ilustrada seguindo-se o grupo I. Na geração um, os machos são movidos para o
grupo seguinte em sentido horário. Machos do grupo I (linhagens sanguíneas AB)
são movidos para o grupo 2. Os filhotes machos do grupo 8 (linhagens sanguíneas
OP) são movidos para o grupo I.
158 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

Na terceira geração, os machos são movidos quatro grupos no sentido horário, I


para 5,2 para 6,3 para 7 e 4 para 8, mais uma vez evitando-se endocruzamento. No
entanto, o endocruzamento não pode mais ser evitado a partir da terceira geração,
dado que todos os grupos contêm as linhagens sanguíneas ABCDEFGHIJKLMNOR
A troca de indivíduos na quarta geração repete o procedimento utilizado na
primeira geração e o ciclo é repetido.

mas são aplicados a grupos, ao invés de famílias. As contribuições dos


grupos para as gerações subseqüentes são equalizadas e os indivíduos
são regularmente trocados entre os grupos. Na primeira geração do
Quadro 8.1, os machos são movidos para o grupo seguinte em senti­
do horário. Na segunda geração os machos são movidos em sentido
CONSERVAÇÃO EX SITU DE PLANTAS I 159

horário dois grupos adiante. Neste exemplo, o endocruzamento não


pode ser evitado após a terceira geração. Ainda hoje, o manejo gené­
tico de grupos não tem sido amplamente utilizado nos programas de
reprodução em cativeiro.

Conservação ex situ de plantas


O manejo genético de populações de plantas em cativeiro não é tão com­
plexo quanto o de animais. Muitas plantas podem ser armazenadas na
forma de sementes, e algumas podem ser criopreservadas. Conseqüen-
temente, elas se recuperam após apenas algumas poucas gerações em
cativeiro. Além disso, sofrem pouco endocruzamento, pouca perda de
diversidade genética, pouco acúmulo de mutações e pouca adaptação
genética devido à propagação em cativeiro. No entanto, a preservação
de sementes não é possivel para aproximadamente 15% das espécies,
especialmente as tropicais que não apresentam dormência.
O tipo de amostragem realizado durante a coleta de espécimes para
a propagação em cativeiro ou para armazenamento é algo de extrema
relevância. Dois aspectos importantes são o tamanho das amostras e
a garantia de que o material seja representativo de toda a diversidade
genética da espécie. A representatividade é um problema maior em
plantas do que em animais, especialmente para as espécies autógamas,
dado que para estas, uma proporção maior da diversidade genética é
distribuída entre as populações.
Geralmente, a sistemática de amostragem recomendada é a coleta
de 1-20 sementes de um total de 10-50 indivíduos de cinco populações
ameaçadas diferentes.

O manejo de doenças hereditárias


As populações derivadas de um pequeno número de fundadores têm
altas probabilidades de expressar algumas desordens genéticas que
têm suas freqüências aumentadas. Já foram mencionados os casos de
testículos retidos na cavidade abdominal em pumas da Flórida, na-
nismo nos condores da Califórnia, hérnias em mico-leões-dourados,
proles sem pêlos em lêmures, má absorção de vitamina E nos cavalos-
de-Przewalski e a ausência de testículos nos coalas (Capítulo 2).
De início, pode parecer que os defeitos herdados seriam natural­
mente eliminados. No entanto, isto se dá às custas da remoção de in­
divíduos da população reprodutiva, o que implica em redução do Ne,
perda de diversidade genética, aumento do endocruzamento e desace­
leração do crescimento populacional. Conseqüentemente, devem ser
realizadas análises detalhadas de custo-benefício. As opções de manejo
são (a) tentar eliminar os alelos deletérios, (b) minimizar a freqüência
fenotípica da doença, ou (c) ignorá-la.
O impacto dos programas para remoção de alelos deletérios depen­
de do modo de herança da anomalia. Se for dominante, pode ser elimi­
nada simplesmente pela remoção dos indivíduos afetados. No entanto,
muitas delas são recessivas e a maioria dos indivíduos que as carregam
são heterozigotos. Conseqüentemente, a remoção de uma anomalia
160 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

recessiva se torna muito difícil, dado que os portadores são fenotipi-


camente normais. A exclusão de portadores suspeitos com base nas
genealogias pode eliminar uma proporção muito grande e inaceitável
da população, juntamente com sua diversidade genética e potencial
reprodutivo. O manejo de desordens genéticas recessivas é exemplifi­
cado pela condrodistrofia dos condores da Califórnia (Quadro 8.2).

Quadro 8.2 Manejo de uma doença genética no condor da Califórnia (Ralis et


al. 2000)

Discutiremos aqui a prática do manejo genético da condrodistrofia, uma desordem


autossômica recessiva.
O alelo causador desta condição apresentava uma freqüência estimada de
0,17, assumindo-se equilíbrio de Hardy-Weinberg (Capítulo 2). Dado que todos os
indivíduos afetados morrem, espera-se que a seleção natural reduza a freqüência
alélica nos recém nascidos de 0,17 para 0,145 após a seleção (Exemplo 3.2). Com
acasalamentos aleatórios, a freqüência esperada de indivíduos afetados na geração
subseqüente é ç(2 = 0,1452 - 2,1%.
O manejo que evita o acasalamento entre indivíduos portadores, conhecidos
e suspeitos, também reduz ainda mais a freqüência fenotípica. No entanto, em
gerações futuras, será eventualmente impossível evitar o acasalamento entre todos
os indivíduos potencialmente portadores. Mas ainda assim, a freqüência de recém
nascidos afetados pode ser mantida baixa separando-se os casais que têm uma
prole afetada e pareando-os com outros indivíduos que apresentem baixo risco de
serem portadores.
Um exame detalhado da genealogia do Condor realizada em 2001 indicou
que seria possível reduzir a freqüência do gene para zero na geração seguinte.
No entanto, a exclusão de todos os potenciais portadores (77 dos 146 condores)
do pool reprodutivo seria um preço muito alto. A baixa freqüência de indivíduos
homozigotos afetados e as penalidades que esta estratégia iria impor em termos
de demografia, perda de diversidade genética e aumento nos níveis futuros de
endocruzamento levaram à rejeição desta opção.
A recomendação adotada foi a separação do par que havia produzido os quatro
filhotes afetados para acasalá-los com outros indivíduos que eram presumivelmente
livres do alelo dw. No futuro, os acasalamentos serão realizados de maneira
a minimizar os riscos de produção de indivíduos afetados, maximizando-se
simultaneamente a retenção da diversidade genética através do manejo que utiliza
o coeficiente de parentesco médio.

As reintroduções
Uma importante função das populações de cativeiro para alguns pro­
gramas de conservação é produzir animais para reintroduções na
natureza, com os objetivos de restabelecer novas populações ou su­
plementar as populações ainda existentes. Embora estes programas
se encontrem em andamento para muitas espécies, as condições são
inadequadas para a maioria delas, principalmente nos casos em que
os habitats continuam a ser destruídos ou os processos de ameaça ori­
ginais continuam a existir. No entanto, muitos programas de reprodu­
ção em cativeiro têm como objetivo manter a diversidade genética e a
viabilidade demográfica em longo prazo, para garantir o potencial de
uso futuro desta opção.
AS REINTRODUÇÕES 161

Enquanto algumas reintroduções têm sido realizadas após breves


períodos de cativeiro (por exemplo, o furão-de-pés-negros, o condor da
Califórnia e o Gallirallus sylvestris), muitos deverão ocorrer após um lon­
go histórico de cativeiro. O cenário previsto é que a humanidade virá
a sofrer uma transição demográfica em aproximadamente 100 anos,
resultando em declinio populacional. Isto deverá liberar habitats na­
turais para a reintrodução de espécies.
O mico-leão-dourado representa o caso mais extensivamente mane­
jado de reprodução em cativeiro e reintrodução (Quadro 8.3).

Quadro 8.3 Manejo genético de populações de cativeiro, reintroduzidas e


selvagens de mico-leões-dourados (Bailou & Lacy 1995; Gravitol
et ai 2001)

Os mico-leões-dourados são pequenos primatas arbóreos monogâmicos do


Brasil. O número de mico-leões tem declinado, dado que seu habitat na Mata
Atlântica tem sido fragmentado e reduzido para menos de 2% da área original. O
Programa de Conservação do Mico-Leão-Dourado é uma colaboração que inclui
o Smithsonian National Zoological Park, a Associação para Conservação do Mico-
Leão-Dourado e o governo brasileiro. É o maior programa global de reprodução
em cativeiro e reintrodução, e tem desenvolvido atividades multidisciplinares para
preservar a espécie e seu habitat. Integra a reprodução em cativeiro, a reintrodução,
translocações, estudos sobre a ecologia dos mico-leões selvagens, restauração dos
habitats e educação ambiental nas comunidades.
A população de cativeiro consiste de aproximadamente 500 indivíduos
alocados em 140 zoológicos do mundo todo. O conceito de manejo através do
coeficiente de parentesco médio foi desenvolvido originalmente para o manejo
genético desta complexa população. Embora descendentes de 48 fundadores,
antes do manejo genético, aproximadamente dois terços dos genes da população
derivavam de apenas um casal prolífico (veja a genealogia abaixo). Entretanto,
devido ao cuidadoso manejo genético subseqüente, o nível de endocruzamento na
população atualmente é de apenas 1,9%.
162 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

A população selvagem consiste de aproximadamente 600 indivíduos dispersos


entre I I refúgios isolados (veja o mapa abaixo), sendo a Reserva Biológica de Poço
das Antas a maior, contendo aproximadamente 350 mico-leões. A translocação
de animais das populações mais severamente ameaçadas para uma nova reserva
estabeleceu uma segunda grande população protegida. Análises moleculares
indicaram que as populações menores perderam diversidade genética e se tornaram
geneticamente diferenciadas umas das outras. Essa informação será utilizada para
desenhar um programa de translocações regulares entre os fragmentos para
minimizar o endocruzamento e maximizar o tamanho efetivo da população como
um todo.
Um programa de reintrodução foi iniciado em 1983 para restabecer populações
em áreas de sua distribuição original. Mais de 145 mico-leões foram soltos e a
população reintroduzida proliferou, alcançando mais de 400 animais em 2002, com
uma taxa de crescimento de 25% ao ano nos últimos anos.

A população reintroduzida é manejada geneticamente de maneira similar ao que


seria feito com uma população de zoológico. Monitoramentos semanais rastreiam
as paternidades e datas de nascimento e morte, bem como eventos de migração
entre os grupos. Tudo é registrado no banco de dados de um studbook e utilizado
para identificar as relações genéticas na população. Indivíduos para reintrodução são
cuidadosamente selecionados. A partir das genealogias das populações de cativeiro
e reintroduzidas, é evitada a soltura de animais que sejam (a) geneticamente valiosos
para a população de cativeiro, ou (b) proximamente relacionados a indivíduos
anteriormente reintroduzidos. Procedimentos similares têm sido aplicados nos
programas de reintrodução do furão-de-pés-negros e do condor da Califórnia.

Mudanças genéticas ocorridas em cativeiro que podem afetar o


sucesso da reintrodução
Até o momento, consideramos apenas a deterioração genética das po­
pulações de cativeiro que pode ocorrer durante o declínio da população
selvagem original e durante a fundação, crescimento e manutenção da
colônia em cativeiro. Essa deterioração resulta de processos estocásti-
cos que agem em populações pequenas e reduzem a probabilidade de
AS REINTRODUÇÕES | 163

sucesso dos programas de reintrodução (Capítulo 4). Existe, entretan­


to, a ação de fatores determinísticos adicionais que freqüentemente
não são levados em consideração. A translocação da natureza para o
cativeiro representa uma dramática mudança de ambiente que altera
as pressões de seleção que agem sobre a população. As pressões de se­
leção originais se tornam relaxadas e a população passa a evoluir para
se adaptar ao seu novo ambiente.
Os fatores estocásticos e determinísticos resultam em conseqüên-
cias diferentes, operam em diferentes escalas de tempo, e têm rela­
ções diferentes com os tamanhos das populações (Fig. 8.2). A depressão
por endocruzamento, a perda de diversidade genética e o acúmulo
de mutações são todos mais severos em populações pequenas do que
nas grandes. Por outro lado, as adaptações genéticas ao cativeiro são
mais rápidas em populações grandes do que nas menores (Capítulo 4).
Embora estas sejam benéficas em cativeiro, seus efeitos deletérios são
sentidos apenas quando a população retorna para a natureza. Todas as
mudanças prejudiciais ocorridas em cativeiro têm efeitos mais severos
quando as populações são reintroduzidas na natureza em condições
inóspitas (Fig. 8.2). Resultados experimentais confirmam as premissas
básicas na Fig. 8.2.

Adaptação genética ao cativeiro


A adaptação genética ao cativeiro tem sido reconhecida desde os tem­
pos de Darwin, mas até recentemente foi considerada como sendo um
problema de menor escala para a reprodução em cativeiro. Agora exis­
tem evidências de que pode ser uma grande ameaça para o sucesso das
reintroduções.
Quando as populações selvagens são trazidas para o cativeiro, as
forças de seleção natural mudam. As populações são naturalmente,
164 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

ou inadvertidamente, selecionadas para sua habilidade de cortejar,


se acasalar e se reproduzir em ambiente cativo. O comportamento de
fuga é selecionado negativamente em animais como os antílopes, ga­
zelas, wallabies e cangurus quando eles morrem, por exemlo, após se
chocarem com as cercas, etc. A mansidão é ativamente favorecida por
alguns mantenedores de animais. Os comportamentos de captura de
presas e fuga de predadores deixam de ser selecionados, ao mesmo
tempo em que os cuidados veterinários e a higiene impedem a seleção
para a resistência a doenças e parasitas.
A adaptação genética ao cativeiro tem sido encontrada em todas as
espécies dióicas investigadas. Por exemplo, ratos selvagens mostraram
um aumento de três vezes na taxa reprodutiva após 25 gerações em
cativeiro.

Minimização da adaptação genética ao cativeiro


A adaptação genética ao cativeiro pode ser reduzida através da:
• minimização do número de gerações em cativeiro
• minimização da seleção em cativeiro
• minimização da variabilidade genética intra-populacional
• maximização da proporção de imigrantes selvagens e da freqüência
de introdução de migrantes
• maximização da duração das gerações.
Minimizar o tempo de permanência no cativeiro trás tanto benefí­
cios genéticos quanto não-genéticos. Pequenos números de gerações
em cativeiro têm sido utilizados no manejo de Gallirallus sylvestris, do
furão-de-pés-negros e do condor da Califórnia. Por outro lado, o cavalo-
de-Przewalski permaneceu em cativeiro durante a maior parte do sé­
culo 20. O veado-de-Père-David permaneceu em cativeiro por centenas
de anos.
A criopreservação tem o potencial de ser altamente efetiva para mi­
nimizar o número de gerações em cativeiro. Entretanto, atualmente é
disponível apenas para um número limitado de espécies, geralmente
aquelas mais proximamente relacionadas com animais domésticos. A
reprodução dos animais mais velhos também pode estender o inter­
valo entre as gerações, mas apresenta dificuldades e riscos de manejo
consideráveis.
A seleção pode ser minimizada pela criação de ambientes similares
aos habitats naturais. No entanto, reproduzir um ambiente natural é
extremamente difícil e complicado de se justificar, dado que a priori­
dade principal é simplesmente estabelecer populações seguras e viá­
veis das espécies ameaçadas.

A fragmentação das populações como uma maneira de minimizar a


adaptação genética ao cativeiro
Quando se visa a realização de reintroduções futuras, os objetivos são
manter a diversidade genética, evitar a depressão por endocruzamento
e evitar a adaptação genética ao cativeiro. Nem as populações grandes
e nem as pequenas são ideais para todos estes propósitos (veja Fig. 8.2).
Populações pequenas perdem variação genética e sofrem depressão
por endocruzamento, mas apresentam menor adaptação genética ao
AS REINTRODUÇÕES | 165

cativeiro. Populações grandes retêm a variação genética e se tornam


endocruzadas mais lentamente, mas se adaptam mais rapidamente ao
cativeiro.
O objetivo pode ser atingido mantendo-se uma grande população
fragmentada em sub-populações parcialmente isoladas (Fig. 8.3). As
sub-populações devem ser inicialmente mantidas separadas até que
o endocruzamento atinja um nível preocupante. Isto acontecerá pro­
vavelmente com um F de 0,1-0,2, embora as populações possam ser
monitoradas para a detecção de sinais de declínio. Imigrantes devem
então ser trocados entre as sub-populações. As sub-populações são en­
tão mantidas novamente em isolamento até que o endocruzamento se
acumule. Essa estrutura deve manter mais diversidade genética do que
uma população única do mesmo tamanho total. Além disso, deve exi­
bir menos adaptações genéticas deletérias ao cativeiro. Haverá níveis
baixos, mas toleráveis de depressão por endocruzamento.
Quando todas as sub-populações são combinadas (por exemplo,
para produzir animais para a reintrodução), o resultado é um menor
166 | REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÂO

nível de endocruzamento e uma diversidade genética maior do que


seria esperado para uma única população grande do mesmo tamanho
total. Essas predições têm sido validadas com experimentos em mos-
cas-de-frutas. Uma necessidade crítica para o uso da fragmentação é
que nenhuma sub-população morra.
Essa estrutura satisfaz outras necessidades da reprodução em ca­
tiveiro. Os zoológicos e parques da vida selvagem, individualmente,
têm capacidade limitada e, as espécies ameaçadas já são mantidas
“dispersas” ao longo de várias instituições para minimizar os riscos
de catástrofes. Atualmente, os indivíduos são movidos entre as insti­
tuições mais freqüentemente para efetivamente criar uma grande e
única população. No entanto, a estrutura fragmentada com migrações
menos freqüentes reduz os custos, os riscos de injúrias e a transmissão
de doenças.
Como a estrutura fragmentada pode ser implementada? Inicial­
mente, o movimento de animais entre as instituições para manejo
genético deveria ser cessado e as sub-populações de cada instituição
deveriam ser manejadas através dos valores de parentesco médios.
Quando os níveis de endocruzamento atingirem 0,1-0,2, os zoológicos
mais próximos trocariam animais, como por exemplo, todos os ma­
chos reprodutivos. A nova população não endocruzada deveria ser
novamente mantida em isolamento até que o endocruzamento atinja
0,1-0,2. A troca de animais novamente ocorreria, mas desta vez entre
zoológicos mais distantes. O processo seria similar ao impedimento
máximo de endocruzamento para grupos (Quadro 8.1). O número de
gerações entre as transferências de animais depende do Ne de cada po­
pulação e, será mais freqüente para as populações pequenas do que
para as grandes.
Esta estratégia tem sido defendida e experimentalmente validada
apenas recentemente, não sendo ainda oficialmente recomendada. No
entanto, tem mérito prático e conceituai.

O manejo genético de reintroduções


Existem muitas considerações práticas referentes à reintrodução. Em­
bora a genética deva desempenhar apenas um papel secundário em
algumas decisões, ela não deve ser ignorada, como ocorre freqüente­
mente. As reintroduções têm maiores probabilidades de sucesso quan­
do são considerados todos os aspectos (veja abaixo). A genética pode
contribuir para:
• a escolha dos locais para reintrodução
• a escolha de indivíduos e números para soltura
• a decisão sobre o número de locais para soltura
• o manejo genético das populações reintroduzidas.

A escolha dos locais para reintrodução


O ambiente do local de reintrodução deve ser o mais similar possível
em relação ao ambiente ao qual a população estava adaptada antes da
reprodução em cativeiro. O local deve estar dentro da área de distri­
buição da espécie e o ideal é que seja uma área central, e não marginal
dentro dessa distribuição. Isto reduz a extensão da evolução adaptativa
AS REINTRODUÇÕES 167

necessária na população reintroduzida. Por exemplo, o marsupial em


perigo Lasiorhinus krefftii é atualmente restrito a uma população em
Clermont, no nordeste da Austrália. No entanto, análises genéticas de
espécimes de museus revelaram que, menos de 100 anos atrás, existiu
uma população em Deniliquin, a 1400 km ao sul. Portanto, este deve
ser um habitat adequado para reintrodução.

A escolha de indivíduos para a reintrodução


Quando todas as demais características são similares, são os indivídu­
os mais saudáveis, com alto potencial reprodutivo, baixo coeficiente
de endocruzamento e grande diversidade genética que devem ser es­
colhidos para reintrodução. No entanto, o impacto da perda de indiví­
duos valiosos para a população segura de cativeiro também deve ser
considerado.
Quando um indivíduo é reintroduzido, sua participação na diver­
sidade genética é adicionada à população selvagem, mas é removida
da população de cativeiro. Dado que se espera que a sobrevivência
no habitat natural seja muito menor do que em cativeiro, e que
os indivíduos reintroduzidos podem não se reproduzir, não é dese­
jável destituir a população de cativeiro de animais geneticamente
valiosos para beneficiar as populações selvagens. Por outro lado, o
candidato à reintrodução pode ser proximamente relacionado com
os animais já previamente reintroduzidos e sua introdução pode,
na verdade, aumentar os níveis de endocruzamento da população
selvagem.
Os interesses das duas populações são freqüentemente conflitan­
tes, como ilustrado para o mico-leão-dourado na Fig. 8.4. Os indivíduos
(pontos) do quadrante A são aqueles que iriam beneficiar a população
reintroduzida, mas que com isto prejudicariam a população de cati­
veiro. Esses indivíduos são geneticamente valiosos para o cativeiro e
apresentam poucos parentes na população selvagem. Os indivíduos
do quadrante B irão beneficiar tanto a população selvagem quanto a
de cativeiro. Eles são animais geneticamente super-representados no
cativeiro e apresentam poucos parentes próximos reintroduzidos. A
soltura de indivíduos do quadrante C seria prejudicial para ambas po­
pulações, considerando que são valiosos para a população de cativeiro
mas têm muitos parentes próximos já reintroduzidos. Os indivíduos
do quadrante D são super-representados nas duas populações. Suas sol­
turas seriam benéficas para a população de cativeiro, mas prejudicial
para a população reintroduzida.
Devido aos altos riscos de mortalidade comumente associados
com a soltura de animais criados em cativeiro, os indivíduos do tipo
D deveriam ser inicialmente utilizados. Isto foi praticado com o mico-
leão-dourado, com o condor da Califórnia e com o furão-de-pés-negros.
Quando a sobrevivência e a reprodução da população reintroduzida é
melhorada, os animais mais valiosos devem ser adicionados até que
toda a diversidade genética presente na população de cativeiro esteja
representada na natureza. A sobrevivência e a reprodução dos indi­
víduos nas populações reintroduzidas devem ser cuidadosamente
monitoradas.
168 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

A escolha de indivíduos para reintrodução quando existem várias


populações
Várias populações de cativeiro podem ser capazes de garantir indivídu­
os para reintroduções, especialmente em plantas. As opções são que os
indivíduos sejam oriundos de:
• uma única população
• uma combinação de populações
• cruzamentos entre populações.
A decisão requer avaliação da probabilidade de sucesso de cada
opção.
Uma única população deve ser selecionada para espécies com for­
te adaptação local, desde que uma das populações de cativeiro seja
proveniente do ambiente no qual se planeja fazer a reintrodução. Por­
tanto, presume-se que existam registros confiáveis da fonte de cada
população e que o ambiente não tenha sofrido mudanças. Esta última
premissa freqüentemente não ocorre quando a ameaça inicial surge
da deterioração do ambiente. Se o ambiente mudou, o sucesso da rein­
trodução pode ser aumentado pelo uso de indivíduos que representem
uma combinação de populações ou, de maneira ideal, cruzamentos
entre populações.

Quantas populações reintroduzidas devem ser estabelecidas?


Nas situações em que existem vários locais adequados para reintro­
dução e um amplo número de indivíduos disponíveis, o número de
populações deve ser estabelecido de maneira a maximizar o número
de indivíduos. Isto minimiza a perda de diversidade genética e o en-
docruzamento, especialmente se indivíduos forem translocados entre
as diferentes localidades de soltura. O estabelecimento de várias po­
pulações reduz os riscos de extinção por catástrofes e estocasticidades
ESTUDOS DE CASOS DE REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO 169

ambientais. Por exemplo, para o furão-de-pés-negros tem sido reco­


mendada a reintrodução de pelo menos 10 populações.

Manejo genético de populações reintroduzidas


Conforme as populações reintroduzidas se tornam auto-sustentáveis,
devem ser reintroduzidos os animais mais valiosos do quadrante B e
posteriormente do quadrante A (Fig. 8.4). Eventualmente, a população
selvagem irá ganhar toda a diversidade genética disponível na popu­
lação de cativeiro, o endocruzamento será minimizado e o sucesso
reprodutivo será aumentado. O manejo genético subseqüente deve
seguir o que foi discutido para populações selvagens no Capítulo 7.

Qual é o sucesso das reintroduções?


A reintrodução de espécies ameaçadas é um processo complexo que re­
quer uma considerável compreensão sobre a biologia e a ecologia das
espécies. Até mesmo a introdução de espécies de ampla distribuição,
que hoje são consideradas pestes, como os coelhos e os estorninhos
europeus, falhou no início.
Baclc e colaboradores consideraram que apenas 11% dos programas
de reintrodução obtiveram sucesso. O critério utilizado por eles foi que
a população reintroduzida tivesse alcançado um mínimo de 500 indi­
víduos, sem intervenção humana. Casos de sucesso incluem o bisão,
o órix da Arábia, o íbex alpino, a águia careca, o falcão peregrino, o
ganso Aleutian e os jabutis de Galápagos. Estes projetos foram caracte­
rizados pela soltura subseqüente de mais animais durante um longo
período de tempo. Projetos de sucesso também incluíram com maior
freqüência o emprego da população local e a implementação de pro­
gramas de educação junto às comunidades.
As taxas de sucesso de reintroduções relativamente baixas não
surpreendem, uma vez que alguns programas não investiram tempo
suficiente para que pudessem obter sucesso. Além disso, alguns pro­
gramas têm sido superficiais. Os animais têm sido reintroduzidos e
deixados para se defender por eles próprios, sem treinamento para
sobreviver na natureza. O sucesso das reintroduções deverá melhorar
substancialmente à medida que a ciência avança. Quando se avaliam
as taxas de sucesso das reintroduções, deve-se considerar que também
são baixas as taxas de sucesso de programas de recuperação de popu­
lações na natureza.

Estudos de casos de reprodução em cativeiro e


reintrodução

O órix da Arábia
O órix da Arábia foi levado à quase extinção na natureza devido à caça
com armas cada vez mais sofisticadas. A espécie foi salva graças à cap­
tura dos últimos animais selvagens em 1962, seguida de um programa
de reprodução em cativeiro baseado em 10 fundadores. No zoológico
de Phoenix, Arizona, houve a implementação de um programa de ma­
nejo genético e um aumento estável no número de indivíduos. Com
170 REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO

o financiamento e cooperação do Sultão de Oman, foi realizado com


sucesso um programa de reintrodução. Dez animais foram inicial­
mente introduzidos em piquetes, para posterior soltura gradual na
natureza. Homens das tribos locais foram empregados para o manejo
e rastreamento dos órix. Os animais soltos demonstraram boas taxas
de sobrevivência e de reprodução, apresentando um comportamento
relativamente normal. Por volta de 1995, havia aproximadamente 280
animais na natureza, abrangendo uma área de mais de 16000 km2 de
desertos.
Infelizmente, a caça voltou a ocorrer e as populações naturais fo­
ram tão afetadas que a maioria dos individuos teve que retornar para o
cativeiro. Outro programa de reintrodução tem sido realizado em dois
locais cercados na Arábia Saudita, onde a caça atualmente é uma ame­
aça menor. Essas populações atingiram mais de 600 animais em 2002.
Análises de microssatélites revelaram a perda de alelos devido ao
gargalo fundador, erros nas genealogias e a ocorrência simultânea de
endocruzamento e depressão por exocruzamento na espécie.

O furão-de-pés-negros
O furão-de-pés-negros sofreu uma redução numérica devido à perda de
habitats e especialmente devido aos esforços rigorosos dos produtores
de gado para exterminar os roedores Cynomys sp, os quais eram suas
presas. A última população selvagem foi descoberta no Wyoming em
1931 e um programa de reprodução em cativeiro teve início em 1985.
Quando a cinomose se espalhou pela população, foram capturados os
últimos indivíduos selvagens. O programa de reprodução em cativei­
ro foi estabelecido com 18 indivíduos (incluindo duas mães com seus
filhotes) que contribuíram de maneira desigual para as gerações sub-
seqüentes. Por volta de 2002, a população existente era descendente
de apenas sete fundadores. A população em cativeiro aumentou para
250 adultos e tem sido objeto de um programa de manejo baseado na
minimização dos níveis de parentesco.
Um programa de reintrodução se iniciou em 1991 utilizando-se o
excedente de indivíduos do cativeiro. Desde então todas as fêmeas da
população de cativeiro são rotineiramente reproduzidas para a produ­
ção de animais para a reintrodução. Atualmente, as reintroduções esta­
beleceram sete populações. Entre 1991 e 1999, aproximadamente 1185
furões foram introduzidos na natureza. Em 2000, mais de 85 filhotes
nasceram em ambientes selvagens, mas apenas duas das populações
reintroduzidas são consideradas de sucesso. O objetivo é estabelecer 10
populações com um total de pelo menos 1500 animais.

O condor da Califórnia
O condor da Califórnia teve o tamanho de sua população reduzido de
vido à perda de habitats, à poluição por DDT e ao envenenamento por
chumbo (por comerem carcaças de animais selvagens abatidos a tiros).
Após muita controvérsia, foram capturadas as últimas aves da natu­
reza e foi instituído no Wild Animal Park de San Diego, no Zoológico
de Los Angeles e no World of Birds um programa de reprodução em
cativeiro e reintrodução, baseado em 14 fundadores. O tamanho da
população de cativeiro tem aumentado de maneira constante e tem
ESTUDOS DE CASOS DE REPRODUÇÃO EM CATIVEIRO E REINTRODUÇÃO 171

ocorrido um número limitado de solturas. No início, a maior preocu­


pação foi aumentar a população o mais rapidamente possível. Reintro-
duções na natureza realizadas na Califórnia tiverem inicialmente um
sucesso limitado. Ocorreram mortes devido ao envenenamento por
chumbo, colisões com as redes elétricas e envenenamento devido ao
consumo de anti-congelantes de radiadores de veículos. Para evitar os
problemas associados com a proximidade dos humanos, novas rein-
troduções têm sido feitas no Grand Canyon e em Baja Califórnia, no
México. Uma alimentação adicional tem sido fornecida para estas aves.
No final de 2002, a espécie toda consistia de 206 indivíduos, sendo 113
em cativeiro, 50 animais na Califórnia, 37 no Arizona e 6 em Baja.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Os capítulos 17
e 18 oferecem um tratamento mais extenso sobre esses tópicos, mais
referências.
Ballou, J. D., T. J. Foose & M. Gilpin. 1995. Population Management for
Survival and Recovery: Analytical Methods and Strategies in Small Population
Conservation. Columbia University Press, New York. Apresenta um
tratamento avançado de tópicos relacionados à reprodução em
cativeiro e reintrodução; veja especialmente os capítulos de Bailou
& Lacy sobre o uso da minimização do parentesco no manejo em
cativeiro, e Princée sobre o manejo genético de grupos.
Botting, D. 1999. Biography of Gerald Durrell. HarperCollins, New York. Uma
biografia popular sobre uma figura altamente influente que encorajou
os principais zoológicos a se envolverem na conservação de espécies
ameaçadas.
Falk, D. A., C. I. Millar & M. Olwell. 1996. Restoring Diversity: Strategies for
Reintroduction of Endangered Plants. Island Press, Washington, D.C. Uma
ampla cobertura sobre a reintrodução de plantas, com vários estudos
de caso.
Gipps, J. H. W. 1991. Beyond Captive Breeding. Oxford University Press,
New York. Cobre uma ampla variedade de assuntos relacionados a
reintroduções.
Olney, P. J. S., G. M. Mace & A. T. C. Feistner. 1994. Creative Conservation:
Interactive Management of Wild and Captive Animals. Chapman & Hall,
London. Considera muitas questões relacionadas com esse capítulo e
apresenta muitos estudos de casos.
Capítulo 9

A genética molecular na
análise forense e no estudo da
biologia das espécies
A genética molecular contribui para a conservação ajudando na
detecção da caça ilegal e na resolução de importantes aspectos
da biologia das espécies. As análises de coalescência e as árvores
genicas são ferramentas importantes para o entendimento de
muitos desses fatores.
GENÉTICA FORENSE: DETECÇÃO DA CAÇA E DA EXPLORAÇÃO ILEGAIS 173

Genética forense: detecção da caça e da exploração


ilegais
A caça e a exploração ilegais ameaçam uma grande variedade de espé­
cies, especialmente os grandes felinos, ursos, elefantes, rinocerontes,
papagaios, baleias e algumas plantas. Embora muitos países tenham
leis para protegê-las, muitas vezes é difícil se obter evidências para
condenar as pessoas que são flagradas capturando ou negociando es­
pécies protegidas. Por exemplo, uma pessoa pega transportando ovos
que se suspeitava ser de uma espécie de ave ameaçada de extinção
foi presa num aeroporto da Austrália. Ela se livrou de ser processada
simplesmente esmagando os ovos, de maneira que não pudessem ser
identificados. Atualmente, métodos de genética molecular podem ser
utilizados nesses casos para identificar a origem do material biológico,
o que inclui o marfim, chifres, ovos, cascos de tartarugas, carne, penas,
pêlos e materiais derivados de plantas. O Fish and Wildlife Service, EUA,
criou um laboratório de análises forenses em Oregon para levantar
provas em casos que envolvam importação, exportação e caça de espé­
cies ameaçadas.
Um dos casos mais fascinantes de genética molecular forense en­
volveu o comércio de carne de baleias no Japão e na Coréia (Quadro
9.1). Análises de DNAmt revelaram que parte da carne posta no mer­
cado não era de baleias minlce, nas quais o Japão havia se engajado na
caça para fins “científicos”, mas sim de baleias azuis, jubartes, fin e
baleias de Bryde, as quais são protegidas por lei. Além disso, parte da
carne de “baleia” era na verdade de golfinhos, botos, ovelhas e cavalos.
Além da ilegalidade da caça das baleias, os consumidores estavam sen­
do enganados. De maneira similar, análises de DNAmt baseadas em
PCR revelaram que 23% do caviar vendido em Nova York traziam infor­
mações falsas no rótulo. Isto é algo preocupante, dado que a maioria
dos 27 membros do grupo dos esturjões está em perigo devido à pesca
excessiva e à degradação dos habitats. Métodos baseados em DNAmt
também estão sendo desenvolvidos para detectar produtos derivados
dos tigres na medicina asiática.
O seqüenciamento de DNAmt revelou que 26 chimpanzés caçados
e confiscados em Uganda, pertenciam à subespécie do leste. Com isso
foi identificada a região onde a caça estava ocorrendo e o local onde
os animais poderiam ser devolvidos para a natureza. A identidade
de um órix da Arábia caçado foi confirmada através de análises de
microssatélites.

Quadro 9.1 Detecção da venda de carne de baleias protegidas (Baker &


Palumbi 1996; Dizonetd. 2000)

Após muitos anos de exploração comercial, os números da maioria das espécies


de baleias colapsaram. A International Whaling Comission (IWC) instituiu uma
moratória global sobre a caça comercial de baleias em 1985-86. Alguns membros
do IWC continuaram a caçar algumas espécies de baleias (principalmente as minke)
174 | A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

para fins "científicos”, e a carne estaria sendo vendida para consumo humano. A
suspeita surgiu quando espécies protegidas estavam sendo comercializadas como se
fossem as espécies que poderiam ser caçadas legalmente. A pedido do Earthtrust,
Baker & Palumbi desenvolveram um sistema para monitorar o comércio utilizando
sequências de DNAmt e PCR. Seus protocolos distinguiram com confiança uma
variedade de espécies de baleias umas das outras e de golfinhos.
Amostras de produtos de derivados de baleias foram posteriormente
compradas em mercados varejistas no Japão e na Coréia. Para evitar a possibilidade
de violar as leis que controlam o transporte de espécies ameaçadas, Baker &
Palumbi estabeleceram, no quarto de hotel, um laboratório portátil para realização
de PCR e amplificaram o DNAmt das amostras. Os DNAs amplificados foram
levados de volta para serem seqüenciados em seus laboratórios na Nova Zelândia
e nos EUA.
Os resultados das primeiras 16 amostras são mostrados na figura abaixo. Eles
foram incluídos numa árvore filogenética de DNAmt com amostras conhecidas de
baleias e golfinhos. Nove amostras próximas do topo da árvore são indistinguíveis
em relação às amostras conhecidas de baleias minke, representando carne
adquirida legalmente para fins "científicos”. Entretanto, a amostra 19b era de
jubarte e as amostras 4 1 , 3 , I I e WS4 eram de baleias fin, ambas protegidas por
lei. Os consumidores estavam sendo enganados, dado que as amostras 16, 13 e 28
eram de botos e golfinhos.
ENTENDER A BIOLOGIA DE UMA ESPÉCIE É FUNDAMENTAL PARA SUA CONSERVAÇÃO 175

Por volta de 1999, 954 amostras de “carne de baleia” foram compradas no Japão
e na Coréia e analisadas por grupos científicos. Destas, 773 eram de baleias, sendo
aproximadamente 9% de baleias azuis, jubartes, fin e baleias de Bryde, todas
protegidas. As amostras que não eram de baleias incluíram golfinhos, botos, ovelhas
e cavalos. A possibilidade de que a carne de espécies protegidas tenha sido originada
de estoques congelados coletados antes da proibição da caça não pode ser excluída,
mas isto não se aplica à carne fresca. Isto levou a um controle mais restritivo sobre
a distribuição da carne de baleia coletada para fins científicos e demonstrou a
necessidade de que as baleias capturadas legalmente e a carne estocada sejam
geneticamente identificadas para que a distribuição seja monitorada.

Entender a biologia de uma espécie é fundamental


para sua conservação
Aspectos importantes da biologia de muitas espécies são desconheci­
dos, dado que detalhes das histórias de vida são comumente difíceis de
serem determinados de maneira direta e podem demandar muito tem­
po. Por exemplo, a paternidade é notoriamente difícil de ser detectada
sem dados genéticos. Da mesma maneira, a estrutura das populações
não pode ser determinada sem análises baseadas em marcadores gené­
ticos. Pode-se suspeitar da ocorrência de introgressão, mas não se pode
ter certeza apenas com base em análises morfológicas. As taxas de dis­
persão também devem ser baixas e não confiáveis quando estimadas
por observação direta.
As análises de genética molecular podem resolver paternidades,
definir a estrutura das populações, detectar a introgressão de ou­
tras espécies, avaliar as fontes de novos fundadores para populações
pequenas e ameaçadas e podem indicar locais para reintrodução.
Comparações de seqüências de DNA também devem ser usadas para
a detecção de gargalos, de padrões de migração e para determinar
a história da demografia de populações. Por exemplo, utilizando-
se microssatélites, determinou-se as características da história de
vida do marsupial Lasiorhinus krefftii e identificou-se locais poten­
ciais para reintrodução (Quadro 9.2). Para as ameaçadas tartarugas
gigantes das Ilhas Galápagos, análises de microssatélites e DNAmt
têm sido utilizadas para investigar a origem das tartarugas, os pa­
drões de migração, o grau de diferenciação genética entre as popu­
lações e para definir unidades de conservação. O parente vivo mais
próximo das tartarugas de Galápagos é o jabuti-do-Chaco, uma
espécie relativamente pequena da área continental da América do
Sul. Os eventos fundadores nas Ilhas Galápagos em geral ocorreram
das ilhas geologicamente mais velhas para as mais novas. Nenhuma
migração de volta foi detectada, mas algumas ilhas foram coloniza­
das mais de uma vez. As populações das diferentes ilhas são todas
geneticamente distintas, com duas ilhas apresentando populações
distintas dentro delas. Os estudos também tornaram mais claros os
limites das unidades de conservação.
O restante deste capítulo examina os métodos utilizados e apresen­
ta exemplos de aplicações práticas.
176 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

Quadro 9.2 Censo e inferência sobre aspectos da biologia do marsupial


criticamente em perigo Lasiorhinus krefftii utilizando-se amostras
de pêlos (Taylor et al. 1994, 1997; Behegeray et ai. 2000; Sloane et
ai 2000)

Os marsupiais Lasiorhinus krefftii são restritos a uma pequena localidade em


Queensland, Austrália (página de rosto do capítulo). Eles são noturnos, fossoriais e
difíceis de serem estudados diretamente. Capturas têm sido utilizadas para estimar
o tamanho da população e a razão sexual, mas são traumáticas para os animais,
causando riscos de injúrias ou de morte. Além disso, necessitam de construções ao
redor das tocas, demandam muito tempo e os resultados não são confiáveis.
Utilizando-se amostras de DNA de pêlos coletados em fitas adesivas colocadas
em estruturas que foram montadas na entrada das tocas dos marsupiais, foi possível
se caracterizar a população geneticamente para mais de 20 locos de microssatélites.
Isso permitiu a identificação de cada indivíduo da população e seus sexos foram
determinados pela amplificação de locos ligados aos cromossomos X e Y. Agora, o
censo pode ser rotineiramente refeito sem causar distúrbios.
Pedaços de peles depositadas em museus foram utilizadas para caracterizar
uma população extinta desses marsupiais em Deniliquin. Análises de microssatélites
revelaram que essa população era da espécie L. krefftii e não da espécie encontrada
mais ao sul, L. latifrons. Conseqüentemente, Deniliquin deve ser um local adequado
para o estabelecimento de uma população reintroduzida como segurança contra
catástrofes na população de Queensland.
Os dados também têm sido utilizados para se inferir sobre aspectos da
biologia de L. krefftii. Indivíduos do mesmo sexo que compartilham a mesma
toca são geralmente aparentados, mas os machos e fêmeas da mesma toca não
são parentes próximos. Os padrões de dispersão também têm sido deduzidos.
A proporção NJN foi estimada em 0,1, baseando-se na perda de diversidade
genética em relação a uma outra espécie que se distribui mais ao sul. Análises de
parentesco baseadas em oito a nove locos de microssatélites não tiveram sucesso
devido à baixa variação genética, mas será melhorada com o uso de locos adicionais
posteriormente desenvolvidos.

As metodologias atualmente disponíveis e suas aplicabilidades nas


questões aqui consideradas estão listadas na Tabela 9.1. Em geral, os
métodos baseados em DNA são adequados para a maioria dos propósi­
tos. Além disso, RAPD, DNAmt e microssatélites podem ser analisados
a partir da obtenção de amostras não-invasivas, seguido de PCR (Capí­
tulo 2).

*
Árvores gênicas e coalescência
As seqüências de DNA retêm informações sobre seus históricos evoluti­
vos dos tamanhos populacionais, fragmentação, seleção, etc. As análi­
ses das diferenças existentes nas seqüências de DNA, entre indivíduos
e populações, permitem explorar os processos evolutivos e os eventos
demográficos do passado de uma espécie.
A coalescência e as árvores gênicas são os dois maiores métodos
utilizados para se extrair essas informações. Baseados na teoria da
amostragem para alelos neutros (teoria da neutralidade), eles garan­
tem uma hipótese nula contra a qual os dados podem ser testados
Além disso, possíveis razões para os desvios podem ser discriminada?
ÁRVORES GÊNICAS E COALESCÊNCIA 177

Tabela 9.1 I Aplicabilidade dos métodos disponíveis para a caracterização genética de indivíduos e
populações. Técnicas com + podem ser utilizadas para o propósito especificado, vários + indicam que a
técnica tem grande utilidade, ? são casos em que a técnica é valiosa apenas ocasionalmente, enquanto -

(Capítulos 2 e 4). Os métodos de coalescência trabalham voltando no


tempo e permitem que dimensões de tempo (gerações) sejam adicio­
nadas às análises. Conseqüentemente, elas são mais poderosas que as
análises convencionais que usam apenas distribuições atuais e padrões
de diferenças de seqüências de DNA.
178 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

O método de coalescência é baseado no conceito de que, se tra­


çarmos as seqüências alélicas atuais numa população do passado
voltando tempo suficiente, elas coalescem na seqüência de um úni­
co indivíduo (Fig. 9.1). Outros alelos, uma vez presentes no passado,
foram perdidos por deriva genética ou seleção, e novos alelos foram
gerados por mutação. O padrão evolutivo da distribuição dos alelos
existentes num loco pode ser representado na forma dos ramos de
uma árvore que coalesce de volta para uma única seqüência alélica
ancestral.
Os padrões de coalescência são geralmente representados por árvo­
res gênicas, que mostram a genealogia dos alelos da população atual.
Os nós (eventos de coalescência) e o comprimento dos ramos da árvo­
re refletem as origens e a estrutura temporal envolvida na derivação
dos padrões observados. As árvores gênicas traçam a história evolutiva
dos alelos (por exemplo, diferentes seqüências de DNAmt) da mesma
maneira que se traça a origem, ou a perda, de alelos em genealogias.
Por exemplo, o alelo da hemofilia, ligado ao sexo, de famílias reais da
Europa podem ser traçados de volta no tempo até a Rainha Victoria, da
Grã Bretanha.
A base do método de coalescência é o fato de que as diferenças
existentes nas seqüências de DNA dos diferentes alelos de um loco
retêm informações sobre a história evolutiva dessas seqüências.
Por exemplo, dois alelos da álcool desidrogenase de Drosophila que
diferem por duas bases são mais proximamente relacionados e di­
vergiram mais recentemente do que dois alelos que diferem por 11
pares de bases.

Fig. 9.1 Árvores gênicas e coalescência: uma possível história de descendência das
seqüências de DNA de uma população que teve início no tempo 0 (topo da figura) com
14 cópias que representam dois alelos. Algumas seqüências deixam uma ou mais cópias
na geração subseqüente, enquanto outras se tornam extintas. As seqüências presentes
na parte inferior da figura são todas descendentes (coalescem em) de uma única cópia
ancestral do alelo Al (esta linhagem é representada pelas linhas mais escuras da figura). Se
a falha das seqüências ancestrais para gerar descendentes for ao acaso, as seqüências da
parte inferior poderiam ter se originado de qualquer outra cópia ancestral da geração 0
com igual probabilidade (Futuyma 1998).
ÁRVORES GÊNICAS E COALESCÊNCIA 179

A teoria da neutralidade permite fazer predições sobre o tempo,


em gerações, até a coalescência, adicionando assim, uma dimensão
temporal à análise. Pela teoria da neutralidade, dois alelos devem
descender do mesmo alelo ancestral na geração anterior com a pro­
babilidade 1/Nef para DNAmt (onde Nef é o número efetivo de fêmeas),
ou l/(2Ne) para um loco nuclear numa espécie diplóide. Alternativa­
mente, dois alelos devem derivar de dois alelos diferentes na geração
anterior (ou derivar do mesmo alelo muitas gerações atrás) com a
probabilidade 1 - 1/Nef> ou 1 - l/(2Ne). Este é o mesmo raciocinio utili­
zado para se determinar a perda de diversidade genética (Capítulo 4).
Sob este modelo neutro de deriva genética, numa população diplóide
com k alelos, o tempo médio Tk de volta ao evento de coalescência
anterior (isto é, onde haviam k - 1 alelos) é:

Portanto, os tempos nos quais haveria 5, 4, 3 e 2 linhagens seriam


4NJ20, 4Ne/12, 4NJ6 e 4NJ2 gerações, respectivamente. O tempo
para que todos os alelos da população coalesçam é 4Ne [1 - (1/k)]
gerações (Fig. 9.2). Assim, a coalescência é mais rápida e as árvores
gênicas mais curtas em populações menores do que em grandes
populações.
Portanto, podemos verificar de imediato uma aplicação da análise
da árvore gênica. Ela pode revelar detalhes sobre as diferenças no ta­
manho populacional histórico de diferentes populações ou espécies.
O Exemplo 9.1 ilustra o cálculo dos tempos de coalescência em popu­
lações diplóides com tamanhos efetivos de 50 e 100. Note que os tem­
pos de coalescência aumentam em proporção direta ao tamanho das
populações.
A estrutura das árvores gênicas e os padrões de coalescência são
fortemente influenciados por desvios na neutralidade seletiva e nos
180 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

acasalamentos aleatórios (Fig. 9.3). Diferentes formas de seleção afe­


tam o tempo de coalescência de maneiras características; a seleção
direcional reduz o tempo de coalescência, enquanto a seleção balan-
ceadora aumenta, quando comparado com a expectativa de apenas
deriva genética neutra. A coalescência de alelos dos locos MHC ou SI
(que são sujeitos à seleção balanceadora) freqüentemente se estendem
para antes dos eventos de especiação.
Após longos períodos de isolamento e ausência de fluxo gênico,
profundas divisões passam a existir entre as populações (Fig. 9.3e). A
migração produz sinais característicos quando as árvores gênicas são
mapeadas sobre a localização geográfica (Fig. 9.3f); alelos característi­
cos de uma região geográfica são encontrados em outra região. Flutu­
ações no tamanho populacional ou gargalos populacionais encurtam
o tempo de coalescência (Fig. 9.3d). As mutações geram diferenças nas
seqüências, desacelerando os tempos de coalescência.
Quando os padrões são similares, tais como o de seleção direcional
que leva à fixação (varredura seletiva) e o de gargalo populacional,
são necessárias informações adicionais para se identificar sua causa.
Por exemplo, informações em locos múltiplos não ligados permitem
a discriminação entre seleção direcional e gargalos (Fig. 9.3c e d); os
gargalos afetam todos os locos de maneira similar, enquanto a seleção
direcional afeta cada loco de uma maneira diferente.
-v Diferenças nas seqüências de DNA, na estrutura das árvores gênicas
e nas taxas de coalescência permitem inferir sobre detalhes da estru­
tura e evolução das populações que não poderiam ser facilmente, ou
precisamente, identificados utilizando-se outras técnicas. As análises
de árvores gênicas e de coalescência têm sido utilizadas para:
• estimar o tamanho efetivo populacional (utilizando-se seqüências
seletivamente neutras)
• medir as taxas de mutações neutras
• inferir sobre a seleção e determinar sua forma
TAMANHO POPULACIONAL E HISTÓRICO DEMOGRÁFICO 181

• determinar eventos de migração e medir as suas taxas


• determinar as relações filogenéticas entre populações geografica­
mente separadas (e comparar entre espécies para determinar se os
padrões são concordantes)
• detectar o contato secundário de populações divergentes
• estimar os tempos de divergência entre as populações
• inferir sobre mudanças no tamanho populacional (gargalos, cresci­
mento exponencial vs. tamanho constante)
• determinar a recombinação em organismos patogênicos
• reconstruir as origens e o histórico das doenças epidêmicas.
Até o momento, a maioria das análises de coalescência tem utilizado
dados de DNAmt, dado que a recombinação é essencialmente ausente,
a herança é materna (na maioria das espécies) e tem taxas de mutação
maiores do que locos nucleares, podendo, portanto, detectar efeitos
X mais recentes. Seqüências de DNA nucleares começaram ser utilizadas
apenas recentemente. As análises de árvores gênicas, coalescência e
padrões filogeográficos por si só se tornaram uma disciplina.
A seguir são apresentadas aplicações envolvendo as árvores gênicas
e as análises de coalescência, além de outros procedimentos molecula­
res. Dado que essas áreas de conhecimento têm se desenvolvido muito
rapidamente, com novos métodos surgindo regularmente, seremos
capazes de descrever apenas parte dos métodos e de suas aplicações.

Tamanho populacional e histórico demográfico


Tamanho populacional
É difícil
se estimar diretamente o tamanho populacional em espécies Estimativas do tamanho mínimo
noturnas, fossoriais, raras ou tímidas. Estimativas do tamanho mini- populacional podem ser
mo populacional das populações podem ser feitas através da identifi- obtidas a partir do número de
genótipos únicos
cação de indivíduos utilizando-se análises multilocos fingerprinting de
182 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

DNA ou microssatélites. O DNA pode ser amostrado com a coleta de


pêlos, pele ou fezes, e os microssatélites podem ser genotipados via
amplificação por PCR. Por exemplo, dado que cinco genótipos diferen­
tes para múltiplos locos de microssatélites foram encontrados para o
urso pardo dos Pirinéus em perigo, estimou-se um tamanho popula­
cional mínimo de cinco indivíduos. Desses indivíduos, um era fêmea
e quatro eram machos, identificados pela utilização de marcadores de
DNA sexo-específicos (veja adiante).

Uso de marcadores genéticos baseados em PCR para identificação


de espécies e uso de fezes para estimativas de tamanho populacional
A contagem de fezes tem sido utilizada para estimar tamanhos de
populações de muitas espécies, por exemplo, ursos e coiotes. Entre­
tanto, isto não pode ser aplicado onde mais de uma espécie com fezes
similares vivem em simpatria. Análises de DNA têm sido utilizadas
para autenticar as fezes de ursos na Europa. De maneira similar, cinco
marcadores de microssatélites e um marcador sexo-específico foram
utilizados em amostras fecais de focas para se identificar a espécie, os
indivíduos e a razão sexual numa amostragem mista de espécies.

Histórico demográfico
A distribuição do número de diferenças dos pares de seqüências dos
alelos (análise de distribuição das diferenças = mismatch analysis) apre­
senta formas características para populações com diferentes históricos
demográficos (Fig. 9.4). Populações estáveis produzem distribuições ge­
ométricas (Fig. 9.4a), enquanto espera-se que o crescimento exponen­
cial gere uma suave distribuição unimodal (Fig. 9.4b). Gargalos podem
produzir uma distribuição próxima de zero ou uma distribuição bimo-
dal, dependendo se o gargalo apenas reduziu a diversidade genética
ou a eliminou totalmente (de maneira que a diversidade represente
mutações a partir daquele ponto) (Fig. 9.4c). O contato secundário de
populações a partir de um longo período de isolamento produz uma
distribuição bimodal (Fig. 9.4d). Humanos exibem uma distribuiçã:
unimodal característica de crescimento exponencial, o que está de
acordo com a história conhecida do homem.

Distribuição das diferenças


TAMANHO POPULACIONAL E HISTÓRICO DEMOGRÁFICO 183

Caracterização e datação de gargalos


Gargalos não documentados que ocorreram no passado, bem como
suas intensidades, podem ser detectados a partir da perda de diversi­
dade genética. Mesmo quando não existem amostras das populações
pré-gargalo, eles podem ser freqüentemente identificados utilizando-
se as informações contidas em locos múltiplos de microssatélites.
Os coalas exibem sinais de gargalo populacional e de isolamento
pela distância em suas seqüências de DNAmt (Fig. 9.5). A maioria das
populações de Victoria e do sul da Austrália são indistinguíveis, o que
contrasta com a diversidade encontrada entre as populações localiza­
das mais ao norte. As populações do sul foram estabelecidas a partir
de indivíduos translocados de populações de ilhas, que passaram por
gargalos (Quadro 7.3). Os padrões de similaridade encontrados entre
outras populações continentais sugerem isolamento pela distância,
com populações de localidades próximas sendo geralmente mais simi­
lares do que aquelas de localidades mais distantes.
Os efeitos do gargalo têm sido medidos para o falcão-de-Maurício
através da comparação da diversidade genética de microssatélites pre­
sente nas populações atuais com a diversidade de espécimes de museu
(Quadro 4.1).
Além da detecção dos gargalos, a perda de diversidade genética
permite também fazer inferências sobre a intensidade dos mesmos.
184 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

Por exemplo, a intensidade do gargalo que atingiu o elefante marinho


do norte foi inferida através da modelagem matemática da perda de
diversidade genética em genes de DNAmt. Ela pode ser atribuída a
uma única geração em que a população foi reduzida para apenas 10-20
machos efetivos. Entretanto, um gargalo dessa magnitude não seria
suficientemente severo para explicar a completa ausência de variação
alozímica.
Um estudo realizado no ganso havaiano é um exemplo particular­
mente elegante que envolve o uso de amostras antigas de DNA. Existe
um único haplótipo de DNAmt (genótipo haplóide) presente nas aves
atuais, bem como nos espécimes de museu e nos ossos sub-fósseis da­
tados entre 100-500 anos. Entretanto, existem vários haplótipos em
ossos sub-fósseis datados de 850-2540 anos. Isso permitiu verificar que
o maior declínio da diversidade genética não resultou da colonização
ocidental, mas sim do estabelecimento anterior dos polinésios. A mo­
delagem indica que a população provavelmente tenha declinado para
menos de 10 fêmeas ao longo de 50-100 gerações.
Acreditava-se que as 13 espécies de tentilhões de Darwin das ilhas
Galápagos haviam divergido da progénie de um único casal. Entre­
tanto, a diversidade de seqüências de MHC indicou que eles provavel­
mente tenham divergido de um grupo fundador de pelo menos 30
indivíduos.
Defende-se a hipótese de que o gueopardo tenha perdido uma parte
substancial de sua diversidade genética devido a um gargalo popula­
cional. Comparando-se os níveis de variação genética presentes em
aloenzimas (baixa taxa de mutação) com os níveis de variação presen­
tes no DNAmt, em fingerprints de DNA e em microssatélites (taxas de
mutação maiores), estima-se que o pressuposto gargalo tenha ocorrido
a aproximadamente 10000 anos atrás.

Estimativa do tamanho efetivo populacional evolutivo


A teoria da coalescência permite estimar o tamanho efetivo populacio­
nal das fêmeas a partir de análises de DNAmt, como a seguir:

onde PS é a proporção média de sítios nucleotídicos que diferem entre


pares randômicos de haplótipos e u é a taxa de mutação. O tamanho
efetivo populacional das fêmeas da ave Agelaius phoeniceus, nos EUA, foi
estimado por um método similar. Análises de RFLP e de DNAmt de 127
aves identificaram 34 haplótipos. A taxa de mutação por base é 108 por
geração. A partir disso, derivou-se uma estimativa de 36700 fêmeas, o
que é muito menor do que o número atual de 20 milhões de fêmeas
reprodutivas. A explicação mais provável é que o número tenha sido
muito menor durante a glaciação do Pleistoceno (10000 anos atrás L
tendo aumentado marcadamente desde então a partir da população
de um refúgio. Os tamanhos efetivos de fêmeas são tipicamente muito
menores do que o número atual de fêmeas adultas numa ampla varie
dade de espécies.
FLUXO GÊNICO E ESTRUTURAÇÃO POPULACIONAL 185

Contato secundário entre populações


A existência de contato secundário entre populações previamente
diferenciadas pode ser inferida quando a distribuição das diferenças
entre os pares de seqüências dos pares de indivíduos é bimodal (desde
que outras causas desse padrão possam ser excluídas). Por exemplo,
dois grupos distintos de haplótipos de DNAmt (ciados) estão presentes
em cada colônia reprodutiva amostrada do ganso das neves, no ártico
canadense e na Rússia (Fig. 9.6). Dentro de qualquer uma das colônias,
ambos os ciados de DNAmt se intercruzam livremente. Os locais de re­
produção ocorrem em regiões que eram inabitáveis durante a glaciação
recente, a 5000-10000 anos atrás. As populações atuais são imensas, de
maneira que isto não representa um efeito de deriva genética recente.
Portanto, as colônias reprodutivas foram estabelecidas por migrantes,
possivelmente de duas populações divergentes de diferentes refúgios.
A vantagem dos heterozigotos pode ser excluída como sendo uma ex­
plicação, uma vez que isto não opera no DNAmt haplóide.

Fluxo gênico e estruturação populacional

Estruturação populacional
As recomendações para o manejo genético variam de maneira signi­
ficativa dependendo da estruturação populacional. As populações
presentes em diferentes fragmentos de habitats podem ser totalmente
isoladas, parcialmente isoladas, podem ser efetivamente uma única
população ou podem compor uma metapopulação, dependendo do
grau de fluxo gênico e das taxas de extinção das populações (Capítulo
4). Populações pequenas e totalmente isoladas devem passar por en-
docruzamentos severos. A delineação da estrutura populacional geral­
mente só é possível utilizando-se dados genéticos.
O grau de diferenciação entre as populações pode ser determina­
do utilizando-se o FST e medidas relacionadas para qualquer tipo de
marcador genético polimórfico (Capítulo 4). Análises mais poderosas
e informativas são possíveis com o uso de árvores gênicas. A estrutura
populacional pode ser identificada através do mapeamento das seqü­
ências de diferentes alelos sobre as localidades geográficas. A causa da
diferenciação genética (fluxo gênico restrito, fragmentação histórica
ou expansão da distribuição) pode ser determinada. Populações de
búfalos e impalas do leste da África mostram valores similares de FST
de 0,08 e 0,10. No entanto, a distribuição de haplótipos de DNAmt ao
186 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

longo das localidades geográficas é completamente diferente nas duas


espécies, como mostrado nas redes de haplótipos da Fig. 9.7. A distri­
buição dos haplótipos de Chobe (Chobe é a localidade mais isolada) é
randômica nos búfalos, mas fortemente agrupada nos impalas. Conse-
qüentemente, os búfalos exibem um fluxo gênico materno recorrente
entre Chobe e populações localizadas mais ao norte. Em contraste,
as fêmeas de impalas têm um fluxo gênico restrito que pode refletir
isolamento pela distância ou isolamento da população de Chobe em
relação às populações do norte.
Componentes diferenciados do genoma herdados maternalmente
podem ser revelados com DNAmt ou DNA de cloroplastos (Plantas).
Uma análise de DNA mitocondrial revelou que as populações do vul­
nerável morcego fantasma da Austrália, exibiam uma marcante dife­
renciação entre as colônias, e que nenhum haplótipo de DNAmt era
compartilhado entre as colônias (Fig. 9.8). Além disso, análises de mi-
crossatélites revelaram uma diferenciação substancial entre as popula­
ções, indicando pouco, ou nenhum, fluxo gênico. Conseqüentemente,
colônias extintas são improváveis de serem recolonizadas por migra­
ção natural. Moritz e seus colaboradores recomendaram que cada colô­
nia fosse manejada como sendo uma unidade de manejo distinta para
propósitos conservacionistas.
FLUXO GÊNICO E ESTRUTURAÇÃO POPULACIONAL 187

Numa outra aplicação, estudos na baleia piloto de peitorais lon­


gas revelaram um comportamento de agrupamento que consistia de
uma única linhagem familiar estendida de fêmeas, freqüentemente
contendo mais de 100 indivíduos. Os filhotes de nenhum dos sexos se
dispersam. No entanto, não havia endocruzamento significativo, como
verificado por marcadores genéticos nucleares. Esta aparente contradi­
ção foi resolvida quando membros de diferentes agrupamentos foram
observados se acasalando quando se encontraram uns com os outros,
minimizando assim a diferenciação nos locos nucleares.

Dispersão e fluxo gênico


As taxas de dispersão são difíceis de serem estudadas através de obser­
vação direta, dado que muitas vezes são baixas e as dispersões de longa
distância são raramente medidas com precisão. Um número crescente
de estudos tem utilizado marcadores genéticos para fazer inferências
sobre os padrões de dispersão. Sem dispersão os acasalamentos não
são randômicos, e há déficit de heterozigotos quando os dados de vá­
rias amostras são reunidos (Capítulo 4). Por exemplo, os ratos mantêm
territórios dentro dos celeiros e não se acasalam randomicamente, re­
sultando em déficit médio de heterozigotos quando comparado com o
esperado de acordo com o equilíbrio de Hardy-Weinberg.
Estudos genéticos freqüentemente revelam uma imagem da disper­
são diferente da sugerida por observação direta. Por exemplo, observa­
ções dos pequenos mamíferos territoriais pikas da América do Norte
188 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

indicaram que eles raramente se dispersavam e nenhuma migração de


longa distância foi observada. Conseqüentemente, acreditava-se que
eles se acasalavam regularmente com parentes próximos. Entretanto,
estudos defingerprinting de DNA revelaram que o endocruzamento não
era comum e que a dispersão ocorria em distâncias curtas, médias e
longas.
O padrão de dispersão de fêmeas de tartarugas tem sido seguido
através do uso de marcadores de DNAmt. As fêmeas freqüentemente
retornam à praia onde nasceram para botar seus ovos. Os genótipos
das populações das tartarugas cabeçudas Caretta caretta que nidificam
em diferentes praias do Japão (B e C) e Austrália (A) são distintos, de
modo que a dispersão pode, portanto, ser seguida (Fig. 9.9). Observou-
se que as populações do norte do Pacífico e das áreas de alimentação
próximas de Baja Califórnia eram predominantemente estoques japo­
neses, com uma minoria australiana. Conseqüentemente, as fêmeas
demonstram fidelidade aos locais de nidificação, mas não aos locais de
alimentação. Estudos similares traçaram os movimentos das ameaça­
das baleias jubarte.
Marcadores de DNA específicos do cromossomo Y permitem ava­
liar, em paralelo, a diferenciação e a dispersão específica dos machos.
Em humanos, o uso de DNAmt e de marcadores de DNA específicos do
Y para estimar a dispersão de fêmeas e de machos, respectivamente,
revelaram que as fêmeas dispersam com maior eficiência do que os
machos. Isto contrasta com a visão predominante de que os machos
REINTRODUÇÃO E TRANSLOCAÇÃO 189

dispersam seus genes mais eficientemente devido aos movimentos as­


sociados com as guerras.

A detecção de imigrantes
A dispersão dos indivíduos pode ser identificada através de seus ge-
nótipos de múltiplos locos de microssatélites (teste de atribuição).
Baseado em seu genótipo, um indivíduo é atribuído à população com
a qual ele tem maior similaridade. Se ele é atribuído a uma população
que não seja aquela onde foi coletado, presume-se que seja um imi­
grante. Por exemplo, se todos os indivíduos nas áreas geográficas A e B
apresentam os genótipos A1A1B]B1C1C1D1D1 e A2A2B2B2C2C2D2D2, respec­
tivamente, um indivíduo na região B com o primeiro genótipo deve ser
um migrante. Um princípio idêntico se aplica quando as populações
diferem em vários locos quanto às freqüências alélicas ou genotípicas.
No entanto, os cálculos computacionais são mais complexos. Os testes
de atribuição também podem ser utilizados para detectar hibridações
e relações taxonômicas, como tem sido feito com os lobos vermelhos e
os lobos Algonquin.

Padrões filogeográficos
Em um número surpreendente de espécies, os padrões de divergência
das seqüências de DNA são concordantes com as regiões geográficas
(filogeografia). Por exemplo, o peixe Centropristis striata, a ave Ammo-
dramus maritimus, o caranguejo ferradura Limmulus polyphemus, a ostra
americana e os besouros tigre que se encontram ao longo da costa
atlântica dos EUA apresentam haplótipos de DNAmt diferentes daque­
les encontrados nas mesmas espécies no Golfo do México, áreas estas
que são separadas pela península da Flórida. Estas distribuições não
eram reconhecidas anteriormente, e não foram causadas pela geogra­
fia atual. Estes padrões aparentemente refletem a separação das po­
pulações por eventos geológicos maiores, eventos climáticos passados
ou alterações nos habitats causadas por mudanças climáticas. Muitos
outros casos de padrões filogeográficos concordantes em táxons distin­
tos têm sido encontrados nos EUA, incluindo peixes de água doce em
rios que correm para o leste vs. oeste, na região sudeste. Similarmente,
quatro espécies de aves e uma de réptil apresentam grandes diferenças
genéticas entre as regiões de florestas chuvosas do norte e do sul de
Cairns, no noroeste da Austrália. Embora esta região tenha atualmente
habitats contínuos de floresta chuvosa, presume-se que a diferenciação
reflita contrações e expansões passadas da floresta que levaram a lon­
gos períodos de isolamento entre as duas áreas. Padrões concordantes
entre espécies pouco relacionadas reforçam as inferências, as quais
teriam pouco suporte com dados de espécies individuais.

Reintrodução e translocação

Locais para reintroduções e translocações


A reintrodução é uma tarefa difícil e cara, cuja probabilidade de suces­
so pode ser aumentada através da seleção de locais que façam parte da
190 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

distribuição histórica da espécie (Capítulo 8). A caracterização de uma


população extinta como sendo pertencente à espécie ameaçada que
requer reintrodução ou translocação pode sugerir locais adequados
(Quadro 9.2). O DNA de ossos sub-fósseis revelaram que os patos-de-
Laysan (Anas laysanensis) existiram recentemente numa ilha do Havaí
onde hoje eles são extintos. Esta ilha deve, portanto, ser um local ade­
quado para reintrodução.

Populações para reintrodução


Um programa de reintrodução do arbusto em perigo Zieria próstata,
de uma área restrita da costa leste da Austrália, foi abandonado após
a realização de análises genéticas. Uma planta aparentemente única,
que acreditava-se ter originado de uma população extinta de uma loca­
lidade distante das áreas onde a espécie ainda ocorre, foi utilizada no
programa de restabelecimento. Entretanto, foi verificado que este indi­
víduo era proximamente relacionado a outros indivíduos de uma das
populações remanescentes e o plano de reintrodução foi cancelado.

Sistemas reprodutivos, testes de paternidade,


análises de parentesco dos fundadores e sexagem
Espécies com diferentes sistemas reprodutivos (assexuado vs. sexuado,
autofecundação vs. fecundação biparental, etc.) requerem manejo di­
ferenciado, sendo vital a identificação destes sistemas (Capítulo 7). O
conhecimento sobre a paternidade é crucial para a detecção do en-
docruzamento e para se verificar a acurácia de genealogias utilizadas
no manejo genético. A sexagem correta, por sua vez, é essencial para
que indivíduos do mesmo sexo não sejam pareados e para que razões
sexuais distorcidas possam ser identificadas. Relações de parentesco
dos indivíduos fundadores são importantes para o manejo de populi­
ções de cativeiro, de maneira que a perda de diversidade genética e o
endocruzamento possam ser minimizados. As análises de marcadora
genéticos podem gerar muitas dessas importantes informações.

Sistemas reprodutivos
As plantas apresentam diversos tipos de sistemas reprodutivos, que
vão desde a fecundação biparental até a autofecundação e a reprodu­
ção clonal. Algumas pequenas populações de plantas podem mucir
de fecundação biparental para autofecundação. Além disso, algumas
espécies de peixes, lagartos e insetos são partenogenéticas ou autofe-
cundantes. Dado que espécies com diferentes sistemas reprodutivos
geralmente requerem diferentes estratégias de manejo, é crucial que o
sistema reprodutivo de cada espécie ameaçada seja definido.
Os sistemas reprodutivos podem ser determinados através da
genotipagem das mães e de seus descendentes (Tabela 9.2). Se todos
os descendentes contêm o mesmo genótipo da mãe a reprodução é
assexuada (incluindo a partenogênese ameiótica). Por outro lado, se
a prole contém apenas alelos presentes na mãe, mas existe uma di­
versidade de genótipos, eles são resultantes de autofecundação. Proles
SISTEMAS REPRODUTIVOS, TESTES DE PATERNIDADE, ANÁLISES DE PARENTESCO DOS FUNDADORES E SEXAGEM 191

Fig. 9.10 Reprodução clonal no arbusto em perigo Malacothamnus fasciculatus (Fritsch &
Rieseberg 1996). Análises de RAPD de 18 plantas diferentes da população NS(II) (linhas
2-19) e um indivíduo da população NS(I) (seta). Linha I é um marcador de tamanho de
DNA (M). Todos os arbustos da população NS(II) são idênticos (clones) e diferem da planta da
população NS(I).

contendo alelos não encontrados na mãe são resultantes de fecunda­


ção biparental.
Todos os indivíduos de uma população do arbusto em perigo Mala­
cothamnus fasciculatus, da ilha Santa Cruz, Califórnia, foram idênticos
(indicando reprodução clonal) e diferentes dos indivíduos de uma se­
gunda população (Fig. 9.10). O arbusto em perigo Haloragodendron luca-
sii apresenta uma distribuição bastante restrita em Sydney, Austrália,
e possui apenas sete clones em 53 plantas, baseados em genótipos de
aloenzimas e RAPD.
A freqüência de autofecundação nas plantas com sistema reprodu­
tivo misto (autofecundação e fecundação biparental) pode ser estima­
da diretamente através da genotipagem das plantas maternais e suas
proles. A autofecundação de plantas maternais homozigotas resulta
apenas em progénie homozigota, enquanto a fecundação biparental
produz heterozigotos (H) numa taxa dependente da freqüência combi­
nada dos alelos não encontrados no homozigoto (q) (Tabela 9.3). Daí, a
192 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

fTeqüência de autofecundação (S) é:

Plantas maternais heterozigotas também podem ser utilizadas para a


obtenção de estimativas das taxas de autofecundação.
O nível de endocruzamento pode ser determinado indiretamente
a partir dos desvios do equilíbrio de Hardy-Weinberg (Capítulo 4). Por
exemplo, a proporção de heterozigose observada em relação à esperada
HJHe é 0,68 na planta em perigo Lambertia orbifolia, do oeste da Austrá­
lia. Utilizando-se da equação 4.3, o coeficiente de endocruzamento é

A taxa de autofecundação pode ser determinada a partir do coeficiente


de endocruzamento, como segue:

Portanto, para L. orbifolia, a taxa de autofecundação é


S = 2 x 0,32/(1 + 0,32) = 0,48
Marcadores genéticos como as aloenzimas têm sido amplamente
utilizados para estimar F e S. O modelo mais comumente utilizado
para se estimar a autofecundação e a fecundação biparental é o mo­
delo de acasalamento misto. Ele assume a existência de apenas dois
tipos de acasalamentos, a autofecundação e o acasalamento ao acaso.
Entretanto, acasalamentos entre indivíduos relacionados, como pais
e filhos, irmãos e primos, também ocorrem (endocruzamento bipa­
rental). Conseqüentemente, o cálculo de S é uma medida da taxa de
autofecundação que haveria se todo o endocruzamento fosse devido à
autofecundação.
Análises multiloco garantem estimativas mais acuradas das verda­
deiras taxas de endogamia. Além disso, em plantas autocompatíveis, a
diferença entre a média das estimativas de locos únicos e o valor obtido

Tabela 9.3 I Proporção de genótipos esperados na progénie de um


genótipo maternal homozigoto (A^AJ e de um genótipo maternal
heterozigoto (A:A2) como o resultado de autofecundação (S) e da
fecundação biparental (T). p e q são as freqüências dos alelos A1 e A2 na
população
Genótiüos da Droeênie
SISTEMAS REPRODUTIVOS, TESTES DE PATERNIDADE, ANÁLISES DE PARENTESCO DOS FUNDADORES E SEXAGEM 193

através do multiloco garante uma estimativa do endocruzamento bi-


parental. Por exemplo, indivíduos machos estéreis de sete populações
de Bidens spp. no Havaí, apresentaram taxas médias de autofecundação
de 15%, e tudo deve ser devido ao endocruzamento biparental. Simi­
larmente, a conífera do Pacífico Taxus brevifolia, a fonte do composto
anti-câncer taxol, é dióica (sexos separados), mas tem um F de 47%.
Mais uma vez, a causa deve ser o endocruzamento biparental.

Paternidade
As informações sobre as paternidades são essenciais para o estudo do
impacto do endocruzamento, para a verificação das genealogias utili­
zadas no manejo genético de espécies ameaçadas e para a determina­
ção o tamanho efetivo das populações (Capitulo 4). Apenas raramente a
paternidade pode ser determinada por observações comportamentais
diretas. Por exemplo, as fêmeas de chimpanzés copulam com muitos
machos durante seus períodos férteis. As informações de marcadores
genéticos da mãe, filhote e potenciais pais podem ser utilizadas para
resolver essas incertezas.
Se um alelo derivado paternalmente na prole não está presente
no pai suspeito, este macho pode ser excluído como potencial pai (a
menos que uma nova mutação tenha ocorrido). Se muitos locos são
utilizados, as atribuições positivas da paternidade podem ser feitas
com altas probabilidades. Fingerprints de DNA e análises de múltiplos
locos microssatélites são os marcadores mais adequados. A Fig. 9.11
ilustra a determinação da paternidade em gansos da neve, baseadas
em 14 locos nucleares de RFLP. Em vários locos, o genótipo do filhote 4
não pode ser derivado do genótipo dos potenciais (candidatos) pais por
herança mendeliana. A presença do alelo 3 no loco A excluiu um ou
outro potencial parental, dado que ambos são homozigotos (22) para o
alelo 2. Similarmente, o filhote 4 possui o alelo 2 no loco G, e este alelo
é ausente em ambos os potenciais parentais. Os locos M e N excluíram
o potencial pai, dado que ele não tem o alelo 1. C exclui ambos os pa­
rentais, uma vez que o filhote 4 carrega alelos não presentes em ambos
os potenciais parentais.
As determinações da paternidade utilizando-se locos de microssa­
télites em chimpanzés de cativeiro revelaram que o macho dominante
da colônia foi responsável pela produção da maioria, mas não de todos
os filhotes. Conseqüentemente, a necessidade de se trocar animais en­
tre zoológicos para minimizar o endocruzamento e a perda de diver­
sidade genética é maior do que em situações em que muitos machos
contribuem com a paternidade, mas é menor do que em situações em
que um único macho dominante é o pai de todos os filhotes. Dado
que as tartarugas se acasalam no mar e indivíduos nadando são mui­
to difíceis de serem identificados, seus padrões de acasalamento são
impossíveis de serem observados diretamente. Análises de aloenzimas
e de microssatélites das ninhadas da tartaruga Caretta caretta demons­
traram que as fêmeas se acasalaram com vários machos.
Mesmo nas espécies em que extensas observações comportamentais
foram feitas, as análises de marcadores genéticos têm freqüentemente
revelado padrões inesperados de acasalamento. Por exemplo, acredi­
tava-se que a ave Malurus splendens, do oeste da Austrália, apresentava
194 | A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

Fig. 9.11 Determinação da paternidade nos gansos da neve. Os genótipos de 14 locos


nucleares de RFLP são apresentados para os potenciais pais e para os filhotes de uma
família de gansos (Avise 1994). O filhote 4 não pode ser filho dos pais potenciais. Os
alelos que não podem ter sido herdados dos pais potenciais são mostrados em negrito, e
os genótipos que não podem ter derivado dos pais potenciais estão sublinhados.

altas taxas de endocruzamento e nenhuma depressão por endocru-


zamento. Análises subseqüentes de paternidade usando aloenzimas
revelaram que 65% ou mais das progénies eram de machos pais de
fora do grupo. Muitas espécies de aves com sistemas de acasalamento
presumivelmente monogâmicos têm demonstrado participação em
cópulas extra-par. Mesmo em humanos, marcadores genéticos têm
revelado que 10% ou mais das crianças não são filhas dos pais que as
registraram.
As genealogias são utilizadas extensivamente no manejo genético
de populações de cativeiro e é importante que a confiabilidade de suas
informações seja verificada. Análises de fingerprinting de DNA no íbis
criticamente em perigo Geronticus eremita identificaram cinco, de um
total de 33 filhotes, cuja paternidade estava incorreta, além de um fun­
dador adicional sem relação de parentesco próxima com os demais.
Aparentemente também há erros nos studbooks do estorninho de Bali,
do órix da Arábia e do cavalo-de-Przewalski.
Os casos acima podem refletir um problema mais amplo com ine­
xatidões em genealogias nas quais os erros podem ter sérias implica­
ções no manejo de espécies em perigo.

Determinação do grau de parentesco dos fundadores


Um pequeno número de fundadores é o que freqüentemente sobra
para se iniciar os programas de reprodução de espécies em perigo. Co-
mumente, o grau de parentesco entre os fundadores é desconhecido.
Entretanto, a identificação de individuos relacionados é importante
para se manejar o endocruzamento e a diversidade genética na popula­
ção. Nestes casos, as análises genéticas que fazem uso de diversos locos
(por exemplo, fingerprinting de DNA ou múltiplos locos de microssatéli-
tes) podem identificar as relações de parentesco. Estudos no condor da
Califórnia revelaram três grupos relacionados de individuos entre os
14 fundadores. Estudos similares têm sido conduzidos para o estorni­
nho de Bali, para as aves Gallirallus owstoni, Todiramphus cinnamominus.
Nesoenas mayeri, Geronticus eremita e para o órix da Arábia.
196 | A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

Alguns mamíferos também são difíceis de sexar, especialmen­


te os cetáceos (baleias e golfinhos) e algumas espécies bastante
reservadas.
Nas aves, os machos apresentam os cromossomos sexuais do tipo
ZZ e as fêmeas ZW. Consequentemente, primers de PCR para seqüênciãS
específicas do cromossomo W têm sido desenvolvidos para distinguir
os machos das fêmeas. Fragmentos W-específicos amplificam o DNA de
uma fêmea ZW, mas não o de um macho ZZ (Fig. 9.13).
A sexagem molecular é um importante componente do programa
de recuperação da coruja Ninox novaeseelandia da Ilha Norfolk (Capí­
tulo 6). Embora o programa tenha produzido 12-13 indivíduos, sete
dos quais sendo F2, apenas dois casais estavam se reproduzindo. Não
estava claro se isto acontecia devido à esterilidade de híbridos, razão
sexual desproporcional ou devido ao fato dos indivíduos de um dos
sexos serem imaturos. Dado que as fêmeas e os machos não podiam
ser identificados através da morfologia externa, as aves foram sexadas
utilizando-se de uma técnica baseada em PCR. A população consistia
de números aproximadamente iguais de machos e fêmeas. A escassez
de machos maturos foi identificada como sendo o principal fator que
tornava lentos os esforços de recuperação. O criticamente em perigo
Himantopus novaezelandiae, da Nova Zelândia, declinou para aproxima­
damente 70 aves, com apenas 12 casais se reproduzindo. A sexagem
molecular foi utilizada para evitar pareamentos de um único sexo no
programa de recuperação. A sexagem molecular no criticamente em
perigo Turdus helerii, do Quênia (Fig. 9.13), revelou uma razão sexual
altamente distorcida em uma das três populações (apenas 10% de fê­
meas). Além disso, este estudo levou à identificação de uma caracte­
rística morfológica que pode ser utilizada para sexar visualmente os
indivíduos.

Fig. 9.13 Sexagem da ave criticamente em perigo Turdus helerii utilizando-se um


marcador de DNA específico do cromossomo W (Lens et ol. 1998). O PCR foi utilizado
para amplificar dois locos, um do cromossomo W e um autossômico, utilizando-se
primers específicos. O DNA amplificado para as I I aves mostra que as reações de PCD
funcionaram. Os resultados obtidos após a digestão com a enzima Hae III são mostrad
ela digere o fragmento autossômico mas não o fragmento do cromossomo W, de maneira
que um fragmento é observado para as fêmeas, que são ZW, e nenhum aparece para os
machos, que são ZZ.
DOENÇAS | 197

Uma vez que as fêmeas dos mamíferos tipicamente apresentam


os cromossomos XX e os machos XY, o sexo pode ser determinado
utilizando-se métodos moleculares que detectam locos específicos do
cromossomo Y. Por exemplo, os ursos pardos dos Pirineus livres foram
sexados a partir de amostras de fezes e pêlos encontradas no campo,
utilizando-se da amplificação por PCR de um loco Y-específico. De ma­
neira similar, métodos moleculares têm sido desenvolvidos para sexar
cetáceos a partir de amostras de biópsia de pele.

Doenças
A presença de infecções nos animais é algo crítico para a identificação
de causas de declínio populacional e para a escolha de candidatos para
translocação ou reintrodução. Métodos baseados em PCR propiciam
uma maneira rápida, confiável e altamente sensível para a detecção
de agentes infecciosos. Por exemplo, o PCR tem sido usado no estudo
da Malária nas aves do Havaí, uma das duas doenças que acredita-se
ser o principal fator que contribui com o declínio das aves havaia­
nas. Habitats de grandes altitudes, considerados livres dos mosquitos
transmissores de Malária, têm sido preservados para a conservação de
espécies em perigo de aves florestais. No entanto, a Malária tem sido
identificada no sangue de aves de habitats de grandes elevações em
Maui e Hawaii, indicando que estas áreas não são tão seguras quanto
se acreditava ser. Reservatórios da doença também foram encontrados
em espécies de aves introduzidas em habitats de baixa elevação.
Árvores genicas baseadas em seqüêftciãS dêDNAtêmsido Aplicadas
na determinação da fonte de novas doenças. Foi verificado que o HIV-1,
um dos vírus que causam AIDS nos humanos, é o vírus mais proxi­
mamente aparentado do vírus SIV, dos chimpanzés, enquanto o HIV-2
se originou de um vírus presente nos macacos Cercocébus atys. Simi­
larmente, verificou-se que um vírus que causou uma epidemia e alta
mortalidade nos leões africanos do Serengueti em 1994 era a cinomose
canina, que provavelmente saltou dos cães locais para o novo hospe­
deiro. A recomendação feita foi a vacinação dos cães locais contra a
cinomose para minimizar os riscos da epidemia se repetir nos leões e,
especialmente, em outros carnívoros raros. Análises de genética mole­
cular também têm sido usadas na identificação da fonte de doenças de
plantas introduzidas na Austrália e em outras localidades.

Dieta
É difícil se determinar a dieta de espécies noturnas ou arredias através
de observação direta. Itens alimentares podem ser identificados nas
fezes através do uso de PCR com primers específicos de itens alimenta­
res potenciais. Isso foi aplicado em ursos, quando a planta Photinia foi
identificada como um item alimentar.
O papel dos predadores no declínio de espécies ameaçadas também
tem sido avaliado através de amplificações baseadas em PCR e genoti-
pagem. A genotipagem de microssatélites de conteúdos estomacais da
198 A GENÉTICA MOLECULAR NA ANÁLISE FORENSE E NO ESTUDO DA BIOLOGIA DAS ESPÉCIES

gaivota Larus hyperboreus, no Alasca, revelaram que elas estavam pre-


dando os gansos imperadores, Chen canagica, mas não o pato ameaçado
Somateria fischeri.

LEITURAS SUGERIDAS
Frankham, R., J. D. Bailou & D. A. Briscoe. 2002. Introduction to Conservation
Genetics. Cambridge University Press, Cambridge, UK. Capítulo 19
oferece um tratamento um pouco mais extenso sobre estes tópicos,
mais referências.
Avise, J. C. 1994. Molecular Markers, Natural History and Evolution. Chapman
& Hall, New York. Trata do uso de técnicas de genética molecular para
o entendimento da biologia das espécies.
Avise, J. C. 2000. Phylogeography: The History and Formation of Species.
Harvard University Press, Cambridge, MA. É um excelente livro
texto sobre coalescência e filogeografia, do fundador desta linha de
pesquisa.
Avise, J. C. & J. L. Hamrick, (eds.) 1996. Conservation Genetics: Case Histories
from Nature. Chapman & Hall, New York. Revisões científicas contendo
exemplos do uso de marcadores genéticos para o entendimento da
biologia das espécies.
Hoelzel, A. R. (ed.) 1998. Molecular Genetic Analysis: A Practical Approach,
2nd edn. Oxford University Press, Oxford, UK. Um livro editado
com detalhes técnicos e estudos de caso sobre o uso dos métodos de
genética molecular para esclarecer aspectos da biologia das espécies.
Smith, T. B. & R. K. Wayne, (eds.) 1996. Molecular Genetic Approaches in
Conservation. Oxford University Press, New York. Este livro contém
muitos detalhes técnicos e muitos exemplos do uso de análises de
genética molecular no entendimento da biologia das espécies.
Sunnucks, P. 2000. Efficient markers for population biology. Trends in
Ecology and Evolution 15,199-203. Uma revisão recente sobre o uso
de métodos de genética molecular na biologia de populações e na
conservação.
Capítulo 10

Genética da conservação na
biodiversidade brasileira
Conforme pudemos observar nos exemplos citados ao longo
deste livro, a genética da conservação tem sido aplicada aos mais
diferentes tópicos relacionados ao estudo e à conservação das
espécies animais e vegetais em todo o planeta. No Brasil, a situação
não é diferente. No decorrer dos últimos anos um número crescente
de trabalhos desenvolvidos por pesquisadores brasileiros vem sendo
publicado em periódicos nacionais e internacionais. Esse fato
evidencia a inserção desse tema na pauta de prioridades da nossa
comunidade científica, o que contribui para o conhecimento e a
conservação da biodiversidade brasileira e demonstra a capacidade
relativa à aplicação de ferramentas modernas para o estudo e
gerenciamento de nossos recursos naturais.
Neste capítulo mostramos alguns exemplos de como a genética
da conservação vem sendo aplicada em estudos conservacionistas
no Brasil, tendo como foco a nossa biodiversidade.

Representantes da biodiversidade
brasileira. Sentido horário:
Colhereiro (Platalea ajaja), Armado
(Callichthys callichthys), Cedro
(Cedrela fissilis) e Pequi (Caryocar
brasiliense)
200 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Variação genética e estruturação populacional


Nos capítulos anteriores vimos que a manutenção da diversidade ge­
nética é um dos principais focos da biologia da conservação, já que é
ela que fornece o potencial adaptativo/evolutivo de uma espécie. Por
esse motivo, o conhecimento da composição genética de uma espécie,
e de como ela está organizada (estruturada) em suas populações, é
fundamental para as ações de manejo e conservação. Por outro lado é
importante entender se a estruturação genética encontrada é uma ca­
racterística natural da espécie estudada ou é resultado da presença de
barreiras físicas causadas pelo homem (como no caso de fragmentação
do habitat). Os exemplos a seguir mostram como essas questões podem
ser abordadas para diferentes espécies e situações.

Exemplo 10.1 I Diversidade e estruturação genética do Tangará-


dançarino e do Cuspidor-de-máscara-preta, em áreas contínuas de
Mata Atlântica (Francisco et al. 2007; Lunardi et dl. 2007).

A Mata Atlântica é, depois da Amazônia, a maior formação florestal da


América do Sul. O último grande corredor deste bioma está localizado
em sua maior parte no estado de São Paulo, sendo composto por uma
série de unidades de conservação e áreas não protegidas que abrangem
principalmente as regiões da Serra do Mar e da Serra de Paranapiaca-
ba. Este corredor contém mais de 17.300 km2 de florestas e representa
a única localidade na qual a estrutura genético-populacional das aves
da Mata Atlântica pode ser estudada sem influência do processo de
fragmentação dos habitats.
A diversidade e estrutura genética do tangará-dançarino (Chirox:-
phia caudata, Pipridae) foram avaliadas neste grande corredor de Mata
Atlântica através de marcadores do tipo microssatélites. Analisando-se
amostras (n = 133) provenientes de cinco pontos de coleta, separados
por distâncias entre 67 e 414 km, as populações de Tangará-dançarino
apresentaram uma deficiência significativa de heterozigotos em todas
as populações e diferenciação significativa entre a maioria delas. Essa
estruturação genética parece ser conseqüência de um isolamento po:
distância, já que existe uma correlação extremamente significativa
entre os valores de e a distância geográfica linear das populações
VARIAÇÃO GENÉTICA E ESTRUTURAÇÃO POPULACIONAL 201

(Fig. 10.1). O número efetivo de migrantes por geração calculado foi


duas a três vezes menor do que o observado para a maioria das aves
de ambientes temperados. Reforçando a hipótese de isolamento por
distância entre essas populações, verifica-se ainda a presença de alelos
privados em todas elas.
No mesmo contínuo de floresta três populações (n = 51) de cuspi-
dor-de-máscara-preta (Conopophaga m. melanops, Conopophagidae), se­
paradas por distâncias entre 70 e 250 km, foram analisadas através
de marcadores polimórficos de DNA amplificado ao acaso (RAPD). A
análise de variância molecular (AMOVA) revelou divergências extrema­
mente significativas entre todos os pares de populações.
Os dados revelados através do estudo dessas duas espécies mos­
tram a existência de estruturação populacional nas áreas contínuas
de Mata Atlântica, mesmo em pequena escala geográfica e na au­
sência de barreiras físicas. Isto significa que a variabilidade genética
interpopulacional pode estar seriamente ameaçada com o processo
de devastação florestal, principalmente devido à perda de alelos ex­
clusivos que seriam extintos com o desaparecimento de populações
locais. Isto nos remete a questões importantes relacionadas às escalas
apropriadas para a criação e manutenção de reservas naturais, sendo
a diversidade genética um aspecto importante a ser considerado pelos
órgãos públicos e outras instituições durante as ações de conservação
da biodiversidade.

Exemplo 10.2 I Variação cariotípica e molecular em Tuco-tucos (Gava e


Freitas 2003; Fernandes et al. 2007; Fernández-Stolz et al 2007; Freitas
2007).

Os tuco-tucos (gênero Ctenomys) são roedores subterrâneos sul-america­


nos que, devido a características tais como a baixa vagilidade, distri­
buição heterogênea, territorialidade e grande variação cariotípica têm
sido alvo de numerosos estudos evolutivos. Os principais problemas
para a conservação das espécies que ocorrem no sul do Brasil (Ctenomys
torquatus, C. lami, C. minutus e C. flamarioni) estão relacionados a três
fatores fundamentais: a instabilidade intrínseca de certos ambientes
naturais onde elas ocorrem, a atividade antrópica crescente, e o escasso
conhecimento que se tem sobre as características biológicas, ecológicas
e genéticas deste grupo de roedores.
C. torquatus possui ampla distribuição nos campos sulinos do Rio
Grande do Sul e Uruguai, mas mesmo assim encontra-se sob ameaça
devido à descaracterização do ambiente pelas plantações de Pinus, Eu-
calyptus, arroz e soja, além da urbanização e mineração de carvão. Nes­
sa espécie, além de polimorfismos cromáticos, são encontrados quatro
cariótipos diferentes.
Em C. lami são encontrados 26 cariótipos diferentes e alta estrutura­
ção genética tanto a partir de dados cromossômicos quanto molecula­
res. Apesar da grande variação observada, a sua distribuição é bastante
pequena e restrita, sendo encontrado apenas em uma região estreita
de 78 x 12 km denominada Coxilha das Lombas, o que torna mais crí­
ticas as ameaças sobre ela. Além disso, existe uma zona de hibridação
entre C. lami e C. minutus, ocasionada principalmente pelas alterações
do ambiente, que compromete a coesão específica e os processos evo­
lutivos subjacentes.
202 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Em C. flamarioni, espécie citada como vulnerável no Livro Vermelho


da Fauna Ameaçada de Extinção do RS, as análises de locos microssa-
télites indicam a ocorrência de gargalos populacionais nos ambientes
mais antropizados. Além dos problemas decorrentes da presença hu­
mana, C. flamarioni e C. minutus encontram-se ameaçados ainda pela
instabilidade em escala geológica imposta pelos processos transgres-
sivo-regressivos marinhos sobre a dinâmica das espécies litorâneas, e
a expectativa do aumento do nível do mar como resultado do aqueci­
mento global.

Exemplo 10.3 I Diversidade e estrutura genética de populações de


lontras no sul do Brasil (Weber et ál. 2008).

A lontra neotropical Lontra longicaudis (Carnívora, Mustelidae) se dis­


tribui desde o México até a Argentina em uma grande variedade de
habitats, sempre associada a corpos d’água e a vegetação do tipo flo­
restas e matas ciliares. Acredita-se que as ações antrópicas, direta ou
indiretamente, afetaram seu tamanho populacional, mas ainda não se
têm estudos conclusivos sobre seu estado de conservação.
Amostras fecais de lontras obtidas da Reserva Biológica do Taim
e do Arroio Vargas (área externa à Reserva), localizadas no extremo
sul do Brasil, foram estudadas através de marcadores microssatélites
heterólogos, descritos originalmente para Lutra lutra.
Uma maior diversidade genética foi encontrada no Arroio Vargas,
que apresenta maior número de alelos e maior heterozigosidade que
a Reserva Biológica do Taim. Entretanto observou-se uma deficiência
de heterozigotos em ambas as localidades. O alto número de alelos e
o baixo grau de parentesco encontrado entre os indivíduos analisados
sugerem que a deficiência de heterozigotos não é conseqüência de en-
docruzamento na população. Esta deficiência de heterozigotos pode
ser explicada, em parte, pela não amplificação aleatória de um dos
alelos (allelic ãrop-out) nos indivíduos heterozigotos, como é freqüente-
mente observado em estudos que envolvem a análise do DNA fecal.
É possível que a área do Arroio Vargas, que une várias lagoas do
norte e do sul, possa atuar como corredor de indivíduos provenientes
de diferentes populações, como sugerido também pelo grau de paren­
tesco extremamente baixo encontrado nessa área.
Esses dados mostram que o fato de termos uma reserva não ne­
cessariamente implica em uma adequada conservação da diversidade
existente, sendo portanto necessário levar em consideração uma série
de outros fatores como a composição das áreas que circundam a reser­
va, o grau de exposição às atividades humanas, a sua conectividade
com outras áreas e que tipo de área representa (área de reprodução ou
passagens naturais entre populações).
Os testes de homogeneidade genética, identidade genética e de di­
visão populacional revelaram diferenças genéticas significativas entre
Taim e Vargas, mostrando que há divisão populacional no extremo sul
do Brasil. Para uma avaliação mais adequada desta espécie, entretanto,
estudos mais abrangentes precisam ser realizados, incluindo outras
localidades e um número maior de amostras.
VARIAÇÃO GENÉTICA E ESTRUTURAÇÃO POPULACIONAL 203

Exemplo 10.4 I Diversidade e estrutura genética de populações em peixes


de água doce (Hrbek et dl. 2005; 2007; Hatanaka et dl. 2006; Sanches
2007; Molina et al. 2008).

A compreensão de como as espécies de peixes estão geneticamente or­


ganizadas ao longo de uma bacia hidrográfica é de extrema importân­
cia para a conservação dos recursos pesqueiros. As espécies de grande
porte, geralmente exploradas pela pesca de subsistência e comercial,
promovem extensas migrações no interior da bacia onde ocorrem,
motivadas pela busca de locais de alimentação e, principalmente, por
movimentos de reprodução.
Assim, a idéia de que essas espécies organizam-se em populações
grandes e panmíticas era, até recentemente, inquestionável dado sua
grande capacidade de dispersão. Entretanto, trabalhos recentes em
espécies como o matrinchã (Brycon orthotaenia), o curimatã (Prochilodus
argenteus) e o pintado (Pseudoplatystoma corruscans) da bacia do rio São
Francisco mostram a ocorrência de estruturação de populações que
são co-existentes e co-migrantes ao longo da calha principal do rio.
Embora diferentes populações de uma mesma espécie possam ocu­
par e explorar conjuntamente os recursos de um dado rio, acredita-se
que elas devam segregar durante o período de reprodução, mantendo
assim sua estruturação genética.
Recentemente, essa idéia foi reforçada quando um cardume de
reprodução de piraputanga (Brycon hilaríi), coletado no rio Miranda,
próximo ao município de Bonito, MS, foi estudado com marcadores
microssatélites e comparado com amostras de indivíduos coletados
em época e locais diferentes, porém na mesma bacia hidrográfica. As
análises mostraram uma significante diferenciação genética entre o
cardume e as demais amostras, sugerindo que os indivíduos do cardu­
me constituem uma unidade populacional.
Acredita-se que a volta ao local do nascimento para reprodução (ho-
ming) ou o fenômeno de ondas reprodutivas (spawning waves) sejam res­
ponsáveis pela manutenção da coesão genética do cardume e, assim,
pela estruturação populacional desses peixes.
Em pirarucu (Arapaima gigas), um dos maiores peixes de água doce
da América do Sul, a análise de marcadores mitocondriais e microssa­
télites revelou uma maior variabilidade genética nas áreas distantes
dos grandes centros urbanos da Amazônia, o que pode estar relaciona­
do com a redução populacional ocasionada pela sobre-pesca nas áreas
densamente povoadas. Além disso, os dados obtidos através dos marca­
dores microssatélites indicam a associação entre distância genética e
distância geográfica, sendo o isolamento por distância um significante
fator de estruturação em uma grande escala geográfica.
Na análise de autocorreção espacial utilizando os resultados de
microssatélites observa-se significante diferenciação entre localidades
separadas por mais de 2500 km. Considerando que o pirarucu está dis­
tribuído em uma área de pelo menos 4000 km na bacia Amazônica,
reservas para manejo e conservação, necessárias para preservar uma
porção significante da diversidade genética, devem ser planejadas em
áreas distantes entre si mais que 2500 km. Reservas separadas por dis­
tâncias menores atuarão como réplicas regionais. Adicionalmente, o
estudo sugere que será possível manejar o pirarucu sob um sistema
source-sink de metapopulação.
204 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Estruturação genética também é observada em populações de piapa-


ra (Leporinus elongatus, Anostomidae) provenientes dos rios Mogi-Guaçú
e Paranapanema. Analisando-se o cariótipo dos indivíduos presentes
nesses rios verifica-se a existência de um heteromorfismo cromossô-
mico, independente do sexo, relacionado à ausência (CJ e presença
(C2) de um segmento heterocromático na porção intersticial do braço
longo do par nucleolar da espécie (5e par), constituindo três citótipos
(C^, CaC2 e C2C2) que ocorrem em diferentes freqüências, tanto no rio
Mogi-Guaçú como no rio Paranapanema.
As freqüências dos três citótipos entre estas populações divergem
significativamente, indicando que as populações de L. elongatus estão
estruturadas entre esses rios. Neste caso, entretanto, a divergência ob­
servada entre as populações parece ser conseqüência da construção
de inúmeras barragens ao longo desses rios nos últimos 50 anos. As
barragens funcionam como obstáculos à migração, o que proporciona
a diminuição ou interrupção do fluxo gênico e redução no tamanho
de suas populações, tornando-as assim mais susceptíveis aos efeitos da
deriva genética.

Identificação da biodiversidade críptica


Espécies crípticas são aquelas que, apesar de serem morfologicamente
idênticas ou muito parecidas, constituem unidades evolutivas inde­
pendentes, com isolamento reprodutivo total ou parcial. A ocorrência
de espécies crípticas na natureza é uma constante e a resolução dessas
questões é um passo fundamental para a adequada proteção desses
organismos (ver capítulo 6).

Exemplo 10.5 I Identificação de espécies crípticas em organismos


marinhos (Sole-Cava et al. 1983; Gusmão et al. 2000; Ignácio et al 2000;
Fukami et al. 2004; Cunha et al 2005; Gusmão et al. 2006).

A existência de espécies crípticas é um problema particularmente co­


mum em organismos marinhos, pois esses, ao contrário do observado
para a maioria dos animais terrestres, raramente empregam pistas vi­
suais para o reconhecimento e escolha de parceiros para reprodução.
Na maior parte dos organismos marinhos a reprodução é feita pela
liberação de gametas na água, e uma boa parte dos mecanismos de
isolamento reprodutivo pré-zigóticos é desempenhada pelo reconheci­
mento químico entre gametas.
Como a taxonomia se baseia, principalmente, em caracteres morfo­
lógicos, freqüentemente organismos marinhos morfologicamente in­
distinguíveis são classificados como sendo pertencentes a uma mesma
espécie, quando na verdade, são espécies distintas. O não reconheci­
mento dessas espécies tem várias conseqüências, desde a subestima-
tiva da biodiversidade real de cada local até a ameaça de extinção de
espécies raras que podem não ser protegidas por serem morfologica­
mente iguais a outras espécies mais comuns.
Para o manejo da pesca isso é muito importante, pois os órgãos de
controle precisam saber que espécies estão sendo pescadas para que
possam detectar diminuições nas capturas que indicam o esgotamen­
to dos estoques. Por exemplo, os camarões sete-barbas (Xiphopenaeus
IDENTIFICAÇÃO DA BIODIVERSIDADE CRÍPTICA 205

kroyeri) representam o maior recurso pesqueiro de crustáceos na região


sudeste, e estudos genéticos recentes revelaram que, na verdade, exis­
tem dois tipos de camarão sete-barbas nessa região. Uma das espécies
ocorre ao longo de toda a costa Atlântica das Américas do Sul e Cen­
tral, enquanto que a outra se encontra restrita ao Brasil.
O mesmo foi observado com outra espécie, o camarão-rosa
(Farfantepenaeus subtüis), que abriga duas espécies diferentes detectadas
molecularmente. Uma ocorre desde o Caribe até o nordeste brasileiro, e
a outra ocorre do norte da América do Sul até o sudeste do Brasil, sendo
as duas encontradas em simpatria entre o Maranhão e o Ceará. Mesmo
nessa região de simpatria as duas formas são geneticamente muito di­
ferentes, tanto com marcadores nucleares (alozimas) como com marca­
dores mitocondriais (seqüências do gene citocromo oxidase I).
Outro exemplo é a ostra-do-mangue (Crassostrea rhizophorae) que,
considerada antigamente como sendo apenas uma espécie, agregava
duas espécies (C. rhizophorae e C. brasiliana) com características biológi­
cas, particularmente de crescimento sob cultivo, bastante diferentes.
A existência dessas duas espécies explica, em parte, as grandes difi­
culdades que os aquicultores tinham em manter cultivos viáveis de
ostras nativas, pois eles acabavam cultivando misturas de espécies, o
que diminuía a eficiência reprodutiva do cultivo.
Curiosamente, os marcadores moleculares serviram também para
mostrar que a ostra brasileira Crassostrea brasiliana e a ostra africana
Crassostrea gasar provavelmente são a mesma espécie.
Outro resultado surpreendente e com conseqüências diretas para
a priorização de áreas para a conservação foi a descoberta, baseada
em seqüenciamento de regiões mitocondriais e nucleares, de que não
apenas espécies, mas também famílias inteiras de corais que pareciam
ser compartilhadas entre os oceanos Atlântico e Pacifico eram, na ver­
dade, conjuntos de famílias diferentes. Isso demonstrou que os corais
do Atlântico eram evolutivamente únicos, o que aumentou sua impor­
tância para conservação. O erro taxonômico feito pelos zoólogos pa­
rece ter sido conseqüência de uma alta convergência morfológica, de
modo que espécies de corais originalmente consideradas co-genéricas
revelaram-se como pertencentes a famílias diferentes.
A existência de espécies crípticas não é observada apenas em in­
vertebrados marinhos. Há mais de duas décadas, estudos genéticos
mostraram, por exemplo, que os cações-anjo que eram identificados
como Squatina argentina nos desembarques de pesca no sul do Brasil
pertenciam, na verdade, a três espécies biológicas diferentes.
Uma outra descoberta de interesse direto para conservação foi feita
mais recentemente com golfinhos da espécie Sotaliafluviatilis. Pensava-
se que essa espécie tinha dois ecotipos: um marinho, que ocorria desde
Santa Catarina até o Caribe, e um dulcícola, que ocorria na Bacia Ama­
zônica. Existia uma suspeita, no entanto, de que esses dois ecotipos po­
deriam ser, na verdade, espécies diferentes, por apresentarem algumas
diferenças sutis, mas consistentes, na geometria de seus crânios.
Uma análise de seqüências de duas regiões do DNA mitocondrial re­
velou que, de fato, os dois morfotipos representavam espécies diferen­
tes, com uma separação bastante antiga (datada entre 2,5 e 5 milhões
de anos atrás, ou seja, no Plioceno). A conclusão de que o tucuxi (Sotalia
fluviatilis) e o boto-cinza (Sotalia guianensis) seriam, de fato, espécies di­
ferentes, foi corroborada em 2007 por outro estudo com marcadores
206 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

nucleares. Essa descoberta apresenta conseqüências imediatas para a


conservação, já que cada espécie precisa ser considerada separadamen­
te para os censos populacionais e ações de manejo.

Exemplo 10.6 I Identificação de espécies crípticas em peixes de água


doce (Almeida-Toledo et al 2002; Pazza et al. 2008).

Em peixes de água doce, a ocorrência de várias espécies crípticas tem


sido detectada utilizando-se a análise cariotípica, através da qual é pos­
sível observar variações intraespecíficas quanto ao número diplóide,
fórmula cromossômica, padrão de distribuição da heterocromatina e
localização de sítios ribossômicos. Essas variações permitiram a iden­
tificação de complexos de espécies como, por exemplo, para a traíra
(Hoplias malabaricus), que apresenta sete diferentes citótipos, e para
uma das piranhas mais comuns do rio Amazonas, Serrasalmus rhombeus,
forma nominal de um complexo composto por seis a nove espécies.
Outro exemplo de identificação de espécies crípticas ocorre com
as tuviras (Eigenmannia sp.). As espécies desse gênero habitam todos os
grandes sistemas hidrográficos da região neotropical, sendo descritas
apenas nove espécies para toda essa área. Entretanto, verificou-se que
somente nos rios da Bacia do Alto Paraná ocorrem três espécies que
são identificadas por apresentarem três diferentes citótipos: 2n = 38
cromossomos com a presença de cromossomos sexuais simples XX:XY
ou sem cromossomos sexuais diferenciados; 2n = 31/32 cromossomos
com sistema de cromossomos sexuais múltiplos X1X1X2X2:X1X2Y; e
2n = 36 com um polimorfismo autossômico mas sem cromossomos
sexuais diferenciados. Na bacia do rio São Francisco ocorrem mais três
espécies/citótipos com 2n = 34, 2n = 36, 2n = 38 ZW, reforçando a im­
portância taxonômica desses resultados citogenéticos.
Análises cromossômicas realizadas em populações oriundas de ba­
cias dos estados do Amazonas, Rio Grande do Norte, Paraná, São Paulo
e da região de Missiones, na Argentina, também identificaram pa­
drões citogenéticos consideravelmente diferenciados nos peixes jejús
(Erythrinus erythrinus), espécie considerada monotípica e vastamente
distribuída pela América Central e do Sul, embora revelando a exis­
tência de um complexo de espécies composto por pelo menos quatro
diferentes formas.
A efetividade de barreiras pós-zigóticas estabelecidas por cariótipos
diferenciados nem sempre é alcançada. Em algumas situações, como
no complexo de espécies representado por Hoplerythrinus unitaeniatus
(igualmente chamado de jejú), a detecção de citótipos distintos no
Rio da Prata (bacia do rio São Francisco), com fórmulas cariotípicas
diferenciadas e números diplóides com 2n = 50, 51 e 52 cromossomos,
sugere a existência de uma zona híbrida atual entre citótipos 2n = 50 e
52 e processos de introgressão histórica com seus híbridos.
Por outro lado, a ocorrência de indivíduos com citótipos diferentes
coexistindo em simpatria, sem a ocorrência de híbridos, verificada para
algumas formas, constitui um teste real do isolamento reprodutivo de
corrente de alterações cariotípicas, indicando a presença de unidades
evolutivas distintas. Essa situação tem sido observada em lambaris (As-
tyanax scabripinnis), grupo de espécies crípticas com números diplóides
(2n = 46, 48 e 50 cromossomos) e fórmulas cariotípicas particulares,
em alguns casos coexistindo em uma mesma drenagem.
FILOGEOGRAFIA 207

Em contraste, os dados citogenéticos também têm sido utilizados


na proposição de sinonímias. Antecedendo uma revisão taxonômica
recente, estudos morfológicos e citogenéticos realizados nas formas
alopátricas de canivete (Parodon nasus na bacia do Paraguai e Parodon
tortuosus na bacia do Alto Paraná) as identificaram como sinônimas,
baseando-se no compartilhamento de fórmulas cariotípicas similares,
com 2n = 54 (48m, sm+6st) e equivalência quanto à localização de sítios
ribossomais.

Filogeografia
O termo filogeografia foi inicialmente proposto para descrever a área
de estudo que se ocupa dos princípios e processos que direcionam a
distribuição das linhagens genealógicas, especialmente aquelas em ní­
vel intraespecífico. No estudo das espécies neotropicais a filogeografia
tem se mostrado uma ferramenta bastante útil e capaz de revelar o pa­
pel que eventos históricos complexos possuem sobre a distribuição da
diversidade e estrutura genética das espécies. Para exemplificar como
esse campo da genética da conservação vem sendo utilizado no estu­
do de espécies brasileiras, apresentamos a seguir informações obtidas
com a análise de peixes-bois, morcegos e felídeos.

Exemplo 10.7 I Estudos filogeográficos dos Peixes-bois marinho e


amazônico (Cantanhede et dl. 2005; Vianna et dl. 2006).

Os peixes-bois (gênero Trichechus) são mamíferos aquáticos da ordem


Sirenia encontrados em águas tropicais e subtropicais na costa do
Atlântico na África (peixe-boi africano ou T. senegalensis) e nas Améri­
cas desde a Flórida nos EUA até Alagoas no Brasil (peixe-boi marinho
ou T. manatus), e em toda bacia amazônica (peixe-boi amazônico ou T.
inunguis).
O tamanho atual da população do peixe-boi marinho no Brasil é
estimado em aproximadamente 500 indivíduos. O pequeno tamanho
populacional, associado a outros fenômenos como a baixa taxa repro­
dutiva, alta mortalidade dos filhotes e a poluição dos estuários, dificul­
ta a sobrevivência desta espécie na costa do Brasil, fazendo com que
ela seja classificada pelo IBAMA como uma espécie criticamente em
perigo de extinção.
Historicamente o peixe-boi marinho tem sido dividido em duas su­
bespécies diferentes, T. manatus latirostris (na Flórida, EUA) e T. manatus
manatus (nas demais localidades). Entretanto, estudos filogeográficos
recentes utilizando o DNA mitocondrial identificaram a presença
de três haplogrupos altamente diferenciados: (i) Brasil e Guianas; (ii)
Flórida e Grandes Antilhas (Porto Rico e República Dominicana); (iii)
populações a oeste de Trinidad (Pequenas Antilhas e América Central)
(Fig. 10.2). Além disso, os dados também indicam uma menor diversi­
dade genética nas populações localizadas nos extremos da sua distri­
buição (Flórida e Brasil), provavelmente resultado da colonização mais
recente destas áreas por indivíduos procedentes de latitudes menores
e sucessivos efeitos de fundador.
Para o peixe-boi amazônico (T. inunguis) as análises filogenéticas
indicam que esta linhagem se separou das espécies marinhas há pelo
208 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Fig. 10.2 A) Mapa com as populações estudadas de peixe-boi marinho e os seus respectivos haplogrupos encontrados para a
região controle do DNA mitocondrial. O diâmetro dos círculos é proporcional ao tamanho amostrai (n) e os setores são diferentes
haplótipos (H) que se agrupam em três haplogrupos. B) Rede haplótipos construída pelo método de median-joining, com número
de mutações múltiplas indicadas nos ramos principais. Em A e B, os círculos e setores estão preenchidos com diferentes tons de
cinza para cada haplogrupo da espécie Trichechus manatus: claro pertence ao haplogrupo I, médio ao haplogrupo II e escuro ao
haplogrupo III. Os círculos negros representam haplótipos encontrados no peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis), entre os
quais apareceu um híbrido com DNAmt da espécie marinha. Os círculos e setores brancos que aparecem em A e B representam
indivíduos híbridos.

menos 500 mil anos. Provavelmente esta espécie é o último remanes­


cente de uma linhagem outrora mais diversa, conforme sugerem os fós­
seis de peixes-bois primitivos encontrados na Amazônia. Ao contrário
do observado para a espécie marinha no Brasil, o peixe-boi amazônico
apresenta uma alta diversidade genética. De acordo com os estudos de
filogeografia, esta espécie mostra sinais de expansão recente, provavel­
mente iniciada durante o Pleistoceno, não apresentando uma estrutu­
ração genético-populacional significativa.
Esses dados indicam um status de conservação diferente para cada
espécie de peixe-boi no Brasil, sugerindo estratégias de manejo dife­
renciadas para cada uma delas.
A conservação da espécie marinha, que se encontra em situação
crítica devido ao seu pequeno tamanho populacional, torna-se ainda
mais preocupante (e importante) dado a sua identificação como uni­
dade diferenciada evolutivamente. Ao mesmo tempo esta espécie está
sujeita à hibridação com a espécie amazônica (ver adiante), que possui
um maior tamanho populacional.
Apesar de ainda serem necessários estudos mais detalhados para
avaliar a ocorrência de adaptações locais aos diferentes ecossistemas
amazônicos, do ponto de vista genético os indivíduos de peixe-boi ama­
zônico poderiam ser translocados sem maiores problemas caso isso,
em algum momento, seja preciso.
FILOGEOGRAFIA I 209

Exemplo 10.8 I Estudos filogeográficos em morcegos do gênero Artíbeus


(Redondo et al. 2008).

Embora a maioria das espécies de morcegos esteja classificada em ca­


tegorias de baixa prioridade de conservação, seu papel na regeneração
florestal e na dispersão de sementes e pólen sugere que a preservação
de suas populações deva estar intimamente associada à manutenção e
regeneração das florestas. Apesar disso, pouco se sabe sobre a estrutu­
ração populacional das várias espécies e a relação existente entre essas
estruturações e o ambiente onde vivem.
O gênero Artibeus é um dos mais comuns entre os morcegos filos-
tomídeos, cujas espécies são frugívoras generalistas e encontradas na
região neotropical. Estudos recentes mostram que padrões filogeográ­
ficos distintos são encontrados no gênero, variando desde ausência
total de estruturação geográfica em A. lituratus até uma forte estrutu­
ração correlacionada a diferentes biomas brasileiros apresentada pela
espécie A. obscurus.
Em A. lituratus, a análise do gene mitocondrial citocromo b em 169
indivíduos provenientes de 50 localidades revelou a existência de uma
alta diversidade de haplótipos e baixa diversidade nucleotídica. Apesar
da grande distância entre as áreas amostradas (algumas delas separa­
das por mais de 7500 km) os dados indicam que não existe divergência
entre elas e ainda revelam o compartilhamento de alguns haplótipos
entre localidades muito distantes, indicando um alto fluxo gênico
comparável ao de algumas aves de grande dispersão.
Por outro lado, em A. obscurus, que possui uma distribuição geo­
gráfica semelhante à de A. lituratus, observa-se uma alta diversidade
tanto haplotípica quanto nucleotídica, sendo esta última a mais alta
já encontrada para as espécies desse gênero. Já o compartilhamento
de haplótipos é observado apenas entre regiões próximas, havendo
divergência entre populações e uma forte estruturação geográfica
(Fig. 10.3).
Ao agrupar as populações em biomas (Amazônia e Mata Atlântica),
verifica-se que aproximadamente 49% da variação observada encontra-
se entre esses biomas. Dividindo-se a Amazônia e Mata Atlântica em
regiões biogeográficas (ou sub-biomas), a variação entre regiões sobe
para aproximadamente 64%.
Ao utilizar um relógio molecular para o citocromo b de 2% de diver­
gência por milhão de anos, verifica-se que esta estruturação ocorreu
em torno de 1,25 a 1,90 milhões de anos atrás, período durante o qual
acredita-se que tenha ocorrido o fenômeno de vicariância florestal
durante oscilações climáticas no Pleistoceno ou Plioceno. Como eco­
logicamente A. obscurus é uma espécie exclusivamente florestal com
nítida preferência por ambientes úmidos, a diversificação atualmente
presente nesta espécie pode ser conseqüência desse processo. Os ciados
encontrados na Mata Atlântica correspondem a refúgios glaciais loca­
lizados na Serra do Mar entre São Paulo e Rio de Janeiro e na vertente
litorânea da Serra nos estados da Paraíba e Pernambuco.
Na Amazônia o padrão filogeográfico em A. obscurus parece refletir
a origem de todo o bioma a partir de seus centros de origem ou diver­
sificação Pliocênicos, e corresponde ao padrão observado também na
distribuição de espécies de vários grupos taxonômicos como plantas,
primatas e aves.
210 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Exemplo 10.9 I Filogeografia comparada de felídeos neotropicais (Eizirik


et al 1998, 2001; Johnson et al 1999; Culver et al 2000).

A região neotropical abriga 10 espécies de felídeos silvestres (Mammalia,


Carnívora, Felidaé), todas consideradas ameaçadas (em diferentes níveis)
por ações antrópicas como alteração e fragmentação de habitats, caça
e conflito direto com humanos. O desenho de estratégias adequadas
para a conservação destes organismos requer a compreensão de sua
história evolutiva e de seus padrões geográficos de estruturação ge­
nética intra-específica, a fim de identificar unidades demográficas
relevantes para ações de manejo in situ e ex situ. Com o intuito de ca­
racterizar estes padrões e inferir sobre suas causas subjacentes, uma
série de estudos tem sido realizada nos últimos 10 anos enfocando a
filogeografia comparada destas espécies, empregando principalmente
seqüências do DNAmt e genotipagem de microssatélites.
Com base nos estudos publicados até o momento, pode-se consta­
tar a ocorrência de estruturação filogeográfica nas seguintes espécies:
jaguatirica (Leopardus pardalis), gato-maracajá (L. wiedii), gato-do-mato-
pequeno (L. tigrinus), gato-palheiro (I. colocolo), puma (Puma concolon e
onça-pintada (Panthera onca). Alguns aspectos da estruturação geográ­
fica intra-específica são surpreendentemente semelhantes entre espe-
cies deste grupo, em particular entre as espécies-irmãs L. pardalis e L
EFEITOS DA FRAGMENTAÇÃO E PAPEL DOS CORREDORES 21 I

wiedii, que compartilham partições filogeográficas em posições coinci­


dentes, sugerindo a ocorrência de processos históricos que levaram a
episódios paralelos de isolamento populacional em ambas. Por outro
lado, há diferenças marcantes na profundidade da estrutura filogeo-
gráfica observada entre as espécies com distribuição mais ampla, com
L pardalis e L wiedii apresentando uma coalescência mitocondrial pro­
funda, com substancial estruturação geográfica, enquanto P. onca e P
concolor exibem uma estrutura mais rasa e homogênea, indicando uma
origem demográfica mais recente e maior conectividade populacional
em nível continental. Apesar de mais rasa, a estruturação de P onca
e P concolor foi significativa, evidenciando a presença de subdivisões
demográficas históricas.
A observação dessas diferentes profundidades de estruturação in-
tra-específica levanta questões quanto à aplicabilidade de uma única
categoria taxonômica (subespécie) para definir grupos demográficos
diferenciados. Isso pode ter uma implicação importante para o deli­
neamento de estratégias para a conservação destes felídeos, inclusive
quanto à inclusão dos mesmos em listas de espécies ameaçadas, que
usualmente utilizam categorizações infra-específicas padronizadas
(subespécies).
Apesar das diferenças apresentadas entre esses dois pares de es­
pécies, observa-se um aspecto comum em todas elas, que consiste na
diferenciação genética entre populações dos dois lados do rio Amazo­
nas. Isso indica que esse rio tem desempenhado um papel importante
como barreira histórica induzindo a diferenciação filogeográfica neste
grupo, e que o manejo de populações das duas margens deve ser con­
duzido de forma independente (ou no mínimo respeitando a manu­
tenção dos níveis de conectividade histórica inferidos com marcadores
moleculares).
No caso da onça-pintada, uma observação interessante foi a maior
diferenciação entre as duas populações (ao norte e ao sul do rio Ama­
zonas) com seqüências do DNA mitocondrial do que o estimado com
marcadores nucleares (microssatélites). Apesar de significativa, a dife­
renciação estimada com microssatélites foi baixa, indicando a ocor­
rência de fluxo gênico histórico entre as duas margens. Tendo em vista
a acentuada diferenciação evidenciada com o DNAmt, e a herança ma-
trilinear deste genoma, pôde-se inferir que o fluxo gênico entre as duas
margens é predominantemente mediado por machos, que usualmente
apresentam dispersão de maior distância do que as fêmeas.
Assim sendo, a probabilidade de um macho estabelecer um territó­
rio reprodutivo na margem oposta ao seu local de origem seria maior.
Essa hipótese, levantada com base em marcadores moleculares, pode
ser testada diretamente com estudos ecológicos e comportamentais
de campo, ilustrando a sinergia que caracteriza a combinação de di­
ferentes abordagens metodológicas para investigações de problemas
evolutivos com relevância para a conservação.

Efeitos da fragmentação e papel dos corredores


Como vimos no capítulo 4, a fragmentação de habitats é, junto com a
sua destruição, uma das maiores ameaças para a conservação da biodi­
versidade. A fragmentação pode fazer com que os indivíduos de uma
212 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

espécie se tornem restritos a pequenas áreas, tornando-os parcial ou


totalmente isolados das outras populações devido à presença de uma
matriz diferente do habitat original.
Do ponto de vista genético a fragmentação poderá alterar o fluxo
gênico entre as populações, tornando-as mais susceptíveis aos proces­
sos de deriva genética e endogamia. Avaliar os efeitos que a fragmen­
tação de habitat possui sobre a diversidade e estrutura genética das
espécies animais e vegetais é fundamental para que medidas efetivas
de conservação sejam tomadas.

Exemplo 10.10 I Diversidade e estrutura genética de populações naturais


de espécies arbóreas em fragmentos e corredores florestais de Mata
Atlântica de Minas Gerais (Oliveira et al 2002; Brandão 2008; Carvalho
& Vieira 2008).

Os remanescentes florestais possuem grande valor ecológico e a co­


nectividade dos fragmentos por meio de corredores de vegetação pa­
rece ser uma alternativa importante na conservação destes ambientes,
facilitando o fluxo gênico entre as populações e a manutenção das
espécies.
No sul de Minas Gerais, as características de algumas espécies ve­
getais presentes em fragmentos florestais e em corredores vêm sen­
do estudadas para se avaliar as conseqüências ecológicas e genéticas
da fragmentação de habitat. Entre as espécies arbóreas estão o breu
(Protium spruceanum) e a piúna (Myrcia splendens), bastante comuns no
grupo de fragmentos de vegetação primária e corredores de vegetação
secundária estudados na cidade de Lavras, MG. Essas espécies apre­
sentam alta densidade, floração massiva e síndromes de entomofilia,
ornitocoria e zoocoria.
A diversidade genética dessas espécies foi estimada através de 10
locos de marcadores aloenzimáticos em P. spruceanum e 70 locos de
marcadores do tipo ISSR (Inter Simple Sequence Repeats), em M. splendens,
em cinco fragmentos florestais e quatro eixos de corredores conectan­
do esses fragmentos (Fig 10.4 e Tabela 10.1). Os dados obtidos apontam
uma alta diversidade genética nos fragmentos e corredores analisados,
possivelmente associada à alta densidade das espécies nestes locais.
Nos fragmentos não foi encontrado evidência de endogamia e a di­
vergência entre eles foi baixa, o que provavelmente está associado a
dispersão ornitocórica da espécie. Nos corredores, foi detectada alta
diversidade genética, elevada identidade genética com os indivíduos
de P. spruceanum dos fragmentos e ausência de endogamia.
As populações de P. spruceanum de todos os fragmentos apresentam
um excesso de heterozigosidade (quando comparado ao valor esperado
caso as populações estivessem em equilíbrio entre mutação e deriva
genética), indicando a ocorrência de gargalos populacionais recentes
(ver capítulo 4). Calculando o tamanho populacional mínimo para que
essa espécie fosse viável a curto e longo prazo, com exceção de um
fragmento, a espécie apresenta possibilidade de manutenção de sua
integridade genética em curto prazo em todos os fragmentos. A longo
prazo, entretanto, apenas outro fragmento, que apresenta maior he­
terozigosidade, não apresenta um déficit de indivíduos e é capaz de
manter sua viabilidade.
EFEITOS DA FRAGMENTAÇÃO E PAPEL DOS CORREDORES | 213

Para M. splendens, os resultados indicam altos níveis de diversidade


genética dentro das populações, tanto nos fragmentos como nos corre­
dores. O fluxo gênico estimado para o conjunto dos fragmentos foi alto
(Nm = 8,7) sendo que, no geral, essas áreas apresentaram maior fluxo
com os corredores vizinhos. Não houve correlação significativa entre
214 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

distância genética e geográfica entre fragmentos, confirmando a baixa


diferenciação genética entre eles.
Num outro estudo seis outras espécies arbóreas foram analisadas
com esses mesmos marcadores moleculares em diferentes fragmentos.
As estimativas de diversidade e estrutura genética para as espécies mos­
traram-se semelhantes entre os fragmentos analisados (Tabela 10.2). A
heterozigosidade média esperada foi bem superior ao valor estimado
para as espécies arbóreas (0,177), podendo ser explicada pela ausência
de alelos raros e fr eqüências alélicas em eqüidade. Calophyllum brasüiense
e Copaifera langsdorjfii evidenciaram maior proporção de homozigotos
sugerindo a ocorrência de endogamia, enquanto nas demais espécies
parece haver ausência de endogamia nos locais estudados.
A divergência genética média entre os fragmentos foi baixa e está de
acordo com o observado em outras espécies arbóreas tropicais, ou seja,
a maior proporção da variabilidade genética encontra-se dentro das po­
pulações. Geralmente, as espécies tipicamente alógamas apresentam
variabilidade genética alta dentro de populações e a divergência entre

Tabela 10.2 I índices de diversidade genética dentro e entre fragmentos para diferentes espécies arbóreas
tropicais. Locais: It (Itumirim), La (Lavras), Ba (Baependi), CA (Carrancas), MP (Morro do Pilar), Bo (Bocaiúva), FS
(Francisco Sá), Ja (Japonvar), MC (Montes Claros) Je (Jequitaí) e BS (Bom Sucesso). Frg: número de fragmentos,
Ni: número de indivíduos, A: número médio de alelos por loco, Ho: heterozigosidade média observada, He:
heterozigosidade média esperada,/: índice de fixação médio dentro de populações, 0p: divergência genética
entre populações N : fluxo gênico.
EFEITOS DA FRAGMENTAÇÃO E PAPEL DOS CORREDORES 215

elas é reduzida com o aumento do fluxo gênico (pólen e/ou sementes).


Em concordância, a maioria das espécies apresentou considerável flu­
xo gênico aparente (Nm >1). Entretanto, observou-se baixo fluxo gênico
para as espécies Geonoma brevispatha, C. brasiliense e C. langsdorffii, o que
pode acarretar, no futuro, aumento nos níveis de diferenciação genéti­
ca entre as populações.
As estimativas de cruzamentos observadas para as espécies
Eremanthus erythropappus, Cedrela fissüis, C. brasiliense e C. langsdorffii in­
dicaram que estas espécies apresentam sistema misto de reprodução e
se reproduzem predominantemente por cruzamentos, enquanto Ficus
arpazusa é alógama, reproduzindo-se apenas por cruzamentos aleató­
rios. As taxas de cruzamentos entre indivíduos aparentados foram bai­
xas para todas as espécies estudadas e inferiores aos encontrados para
outras espécies arbóreas.
Os fragmentos desses estudos são remanescentes de áreas florestais
do sul de Minas Gerais que vem sendo destruídos desde o período co­
lonial. As espécies arbóreas analisadas, em geral, apresentaram altos
níveis de diversidade genética dentro das populações, superiores aos
relatados para a média das espécies arbóreas tropicais e, sendo assim,
os fragmentos estudados mostram-se potencialmente úteis para a con­
servação genética in situ dessas espécies. A diversidade genética ainda
encontrada nos fragmentos provavelmente reflete o polimorfismo exis­
tente na população ancestral, estando agora ameaçada caso medidas
de manutenção e conservação dos corredores não sejam adotadas.

Exemplo 10.1 I I O Sauim-de-coleira nos fragmentos florestais urbanos


de Manaus (I. P. Farias, dados não publicados).

No interior dos fragmentos florestais da área urbana de Manaus,


encontra-se o primata sauim-de-coleira (Saguinus bicolor), considerado
o mais ameaçado de todos os calitriquídeos da Amazônia, estando lis­
tado no apêndice I da Convenção Sobre o Comércio Internacional de
Espécies Ameaçadas (CITES) e sendo classificado na Lista Vermelha da
União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN-Red List)
como uma espécie criticamente em perigo de extinção. O sauim-de-
coleira também se encontra na Lista Oficial da Fauna Brasileira Amea­
çada de Extinção.
Recentemente, nove locos de microssatélites previamente desen­
volvidos para esta espécie foram utilizados para estudar a estrutura
genética de populações remanescentes de sauins de três fragmentos
florestais de Manaus: fragmento da UFAM (existente há ± 15 anos), frag­
mento do SESI (existente há ± 12 anos) e fragmento da Cidade Nova
(existente há ± 5-6 anos). Historicamente todos esses fragmentos foram
conectados e acredita-se que a população do SESI foi exterminada du­
rante a fragmentação, sendo posteriormente repovoada por alguns
indivíduos provenientes do fragmento da UFAM. Indivíduos provenien­
tes da população da área da Reserva Florestal Adolfo Ducke também fo­
ram amostrados, funcionando como um grupo controle sobre o efeito
da fragmentação urbana.
A heterozigosidade média observada sobre todos os locos para cada
população variou de 0,59 a 0,68. Os índices de variação inter e intra-
populacional mostraram que 5,86% da variância total ocorre entre as
populações e 94,14% ocorre dentro delas. Entretanto, os valores de F^
216 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

foram significantes para quase todas as comparações de populações,


contrastando com os altos valores de Nm (número de migrantes por
geração) observado entre as populações. Isso parece sugerir que os ní­
veis de fluxo gênico foram altos antes dos eventos de fragmentação e
as populações fragmentadas ainda compartilham muitos alelos. Esses
dados contraditórios podem indicar um efeito de gargalo genético,
uma vez que este causa mudanças nas taxas de variabilidade genética
neutra aumentando a diferenciação entre as populações.
As análises que testam para uma redução recente no tamanho po­
pulacional evidenciam que as populações de sauins da região urbana
de Manaus sofreram com os efeitos da fragmentação de seu habitat,
mostrando a ocorrência de gargalo genético em algumas dessas popu­
lações. Além disso, a significante redução recente no tamanho popu­
lacional em alguns fragmentos foi relacionada com o tempo em que
estas populações sofreram fragmentação de habitat.
Os remanescentes florestais da UFAM e do SESI, que sofreram frag­
mentação há mais tempo, evidenciaram um gargalo genético signifi­
cante, enquanto Cidade Nova, fragmentado mais recentemente, não.
A Reserva Adolfo Ducke, por estar conectada com uma floresta
contínua, não foi significativamente afetada pela fragmentação, re­
forçando a hipótese de que a fragmentação urbana de Manaus está
acarretando a redução na variação genética das populações de sauins,
podendo significar um aumento do risco de extinção desses animais.

Tamanho populacional efetivo

Do ponto de vista genético o tamanho populacional efetivo (N, ver


capítulo 4) é mais importante do que o tamanho populacional obti­
do através de censos (N), sendo influenciado por desvios na proporção
sexual dos indivíduos reprodutivos, por oscilações no tamanho popu­
lacional ao longo das gerações e variações no tamanho familiar.
A seguir mostramos um exemplo de como o tamanho populacional
efetivo pode ser calculado através das metodologias ecológicas tradi­
cionais. Quando isso não é possível, dados moleculares podem ser uti­
lizados para esse fim.

Exemplo 10.12 I Tamanho populacional efetivo do Lobo-marinho Sul-


Americano (Oliveira et al. 2006).

Em decorrência da escassez de recursos alimentares causada pelo fe­


nômeno El Nino (El Nino Southern Oscillation, ENSO) de 1996/1998, a popu­
lação peruana de lobo-marinho sul-americano (Arctocephalus australis)
declinou cerca 72% e foi considerada em perigo de extinção na região.
No lobo-marinho sul-americano o sistema reprodutivo é poligíni-
co, sendo que o macho alfa-territorial forma um harém ou delimita
um território onde copula com várias fêmeas adultas, enquanto que
os machos restantes, apesar de possuírem idade reprodutiva, não
possuem nenhum território nem copulam com fêmeas, sendo iden­
tificados como machos periféricos. Nesse sistema, um número reduzi­
do de machos é capaz de copular com várias fêmeas, de forma que o
EXPANSÕES POPULACIONAIS 217

Tabela 10.3 I Censo populacional de Arctocephalus australis obtido nos


períodos imediatamente anterior e posterior ao fenômeno El Nino
de 1996/1998. Nef = Número de fêmeas reprodutivas, Nm = Número de
machos reprodutivos, N = Número total de indivíduos.
Tamanho Populacional
Ano Nef Nem N
1996-1997 10.720 2.903 24.481
1999 3.215 337 8.223
Fonte: Instituto do Mar do Peru (IMARPE).

tamanho populacional efetivo será sempre um número muito menor


que o tamanho populacional estimado.
Utilizando-se os dados da Tabela 10.3 na equação 4.7 (capítulo 4) é
possível calcular o N para o período anterior e posterior à ocorrência
do fenômeno El Nino. Os valores obtidos com base nesses dados foram
iguais a 9.138 (ano de 1996) e 1.220 (ano 1999). O tamanho populacio­
nal efetivo geral, considerando-se a variação do tamanho populacional
ao longo das gerações, pode então ser obtido pela média harmônica
dos N em cada geração (equação 4.9, capítulo 4), através da qual ob­
teve-se a estimativa geral do tamanho efetivo populacional de 2.153
indivíduos. Esse valor pode ser considerado um valor crítico tendo em
vista que é bem menor que o número mínimo de indivíduos em idade
reprodutiva que se acredita ser necessário para manter a viabilidade
populacional de espécies de vertebrados. Esta estimativa de N,combi­
nada com os modelos de aquecimento global que prevêem um agrava­
mento dos efeitos e da freqüência dos eventos de ENSO, são de grande
preocupação para a sobrevivência da espécie e devem ser levados em
consideração em futuros planos que visem assegurar a sua conserva­
ção e proteção na costa peruana.

Expansões populacionais

Exemplo 10.13 I Expansão populacional em aves aquáticas do Pantanal


(Lopes et dl. 2007).

O Pantanal é a maior área úmida intracontinental do mundo e, pela


sua singularidade e importância, é considerado reserva da biosfera
pela UNESCO. Nessa área, se reproduzem aves aquáticas como colhe­
reiros (Platalea ajaja), cabeças-secas (Mycteria americana) e tuiuiús (Jabiru
mycteria). A reprodução dessas aves depende dos ciclos hidrológicos da
região e estão limitados ao período da seca, quando há maior disponi­
bilidade de presas. Mudanças climáticas que alterem a inundação da
planície podem resultar no deslocamento das colônias reprodutivas,
com contrações ou expansões ao longo das suas áreas de distribuição
geográfica.
Estudos de expansão populacional, baseados em marcadores mo­
leculares, podem ajudar a identificar espécies que respondem com
218 | GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Tabela 10.4 I Parâmetros do histórico demográfico das populações de colhereiros, cabeças-secas e tuiuiús do
Pantanal, obtidos a partir das seqüências de fragmentos da região controladora do DNAmit (390 - 483 pb):
Fs de Fu, D de Tajima, tamanho populacional antes (0O) e depois da expansão (0J em unidades de tempo
mutacional, e tempo desde a expansão (t) em anos antes do presente, calculados com taxas de mutação de
2%, 6%, e 10%, assim como seu valor médio (X) (Lopes et al, 2007).

menor plasticidade frente às alterações geomorfológicas e climáticas.


A compreensão desses padrões de deslocamentos, durante o último
período glacial, pode ajudar a prever como essas populações reagirão
frente às mudanças climáticas atuais e futuras.
Expansão demográfica recente foi detectada nas populações das três
espécies citadas acima pela análise da região controladora do DNAmt.
Entre as evidências encontradas estão: a) os padrões unimodais das
curvas de distribuição de diferenças pareadas das seqüências homólo­
gas entre indivíduos (ver capítulo 9, Fig. 9.4); b) os desvios significativos
nos testes de neutralidade (Fs de Fu e D de Tajima) (Tabela 10.4); c) os
valores do tamanho populacional antes (0O) e depois da expansão de­
mográfica (0X) das populações.
A expansão das populações de aves aquáticas pode ser explicada
como uma resposta às mudanças climáticas ocorridas no Pantanal
no final do último período de glaciação. Sabe-se que os eventos pale-
oclimáticos ocorridos nesse período causaram mudanças ambientais
drásticas, com a diminuição da temperatura e do nível de umidade nas
áreas alagáveis do centro-sul do Brasil.
No Pantanal, esse efeito parece ter sido ainda mais acentuado de­
vido à dependência da água pluvial que garante o ciclo de inundação
na região. A paisagem alterada inviabilizou a reprodução das aves,
altamente dependentes de águas rasas para o forrageamento e de subs­
trato vegetal para a construção de ninhos. O deslocamento para uma
região equatorial onde mudanças climáticas foram mais amenas pode
ter garantido a sobrevivência das três espécies durante os períodos gla­
ciais. Com o término do período glacial, o Pantanal foi reocupado.
Os valores estimados do tempo desde a expansão demográfica
das populações dessas aves marcam o início da recolonização do
Pantanal e coincidem com o aumento da umidade na região central
brasileira, entre 32.000 a 20.000 anos atrás, conforme estudos pali-
nológicos. Esses resultados estão concordantes com o padrão de ex­
pansão demográfica observado no estudo do DNAmt na população de
cervos-do-Pantanal (Blastocerus dichotomus), uma espécie de mamífero
altamente dependente do mesmo tipo de habitat.
IDENTIFICAÇÃO DE UNIDADES EVOLUTIVAMENTE SIGNIFICATIVAS E DE UNIDADES DE MANEJO 219

O fato do tuiuiú ter recolonizado o Pantanal mais tardiamente,


em comparação com colhereiro e cabeça-seca tem implicações con-
servacionistas. O tuiuiú demonstra ser mais exigente com relação à
manutenção das condições ambientais para sua reprodução e, quan­
do abandona uma área onde estabelecia seus ninhos, tem maior di­
ficuldade para recolonizá-la. Essa conclusão está concordante com a
característica residente do tuiuiú, pois colhereiro e cabeça-seca são
migratórios e com o desaparecimento do tuiuiú de algumas áreas da
América Central, onde seu habitat foi degradado.
Baseado nos dados demográficos históricos levantados nesse estudo
pode-se prever que, caso haja um agravamento da crise ambiental ou
do nível de degradação das áreas úmidas brasileiras, os tuiuiús serão
os mais afetados dentre as três espécies estudadas e, por esse motivo,
devem ter sua conservação priorizada.

Identificação de unidades evolutivamente


significativas e de unidades de manejo

Populações de uma mesma espécie podem ser substancialmente dife­


rentes, em termos genéticos, a ponto de ser justificável o seu manejo
de forma independente.
Apesar de ainda não haver um consenso sobre todos os aspectos
que devem ser levados em consideração quando do estabelecimento
das unidades evolutivamente significativas e das unidades de manejo,
acredita-se que a sua determinação seja extremamente importante, já
que ela permite a conservação das espécies respeitando-se os processos
históricos à que elas estiveram sujeitas ao longo dos anos. Os exem­
plos a seguir ilustram a importância das UES e UM para a genética da
conservação.

Exemplo 10.14 I Unidades Evolutivamente Significativas da Arara-azul-


grande (Faria et dl. 2008; Presti 2006).

A Arara-azul-grande (Anodorhynchus hyacinthinus) é uma espécie consi­


derada vulnerável que pode ser encontrada no Brasil em três grandes
áreas disjuntas. O maior grupo ocorre no Pantanal Mato-grossense,
enquanto que os outros dois grupos são encontrados no norte (Amazô­
nia) e em uma região do nordeste brasileiro.
As análises genéticas de indivíduos provenientes dessas três regiões
indicam que há uma significativa diferenciação dessas aves em três
grupos, os quais formam três unidades evolutivamente significativas
correspondentes ao Pantanal norte, ao Pantanal sul e ao conjunto das
populações presentes nas regiões norte e nordeste.
A diferenciação entre o Pantanal norte e o Pantanal sul não era
esperada, uma vez que aparentemente não existem barreiras para o
fluxo dessa espécie nesta região. Já a diferenciação das populações do
Pantanal em relação ao grupo norte/nordeste era esperada, dado a
grande distância entre elas.
A caracterização dessas unidades evolutivas e das diferenças genéti­
cas encontradas entre os três grupos permite identificar, com base em
220 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

estimativas de probabilidade, a região de origem de um determinado


indivíduo. Essa pode ser uma ferramenta importante no combate ao
tráfico dessa espécie, já que ela permite a identificação da procedência
dos animais apreendidos pela fiscalização e a elaboração de planos di­
recionados à inibição do tráfico de animais nas principais rotas onde
ela ocorre.

Exemplo 10.15 I Unidades Evolutivamente Significativas do Lobo-


marinho Sul-Americano (Oliveira et al 2008).

O lobo-marinho sul-americano, Arctocephalus australis é uma espécie


com ampla distribuição geográfica, apresentando colônias reproduti­
vas tanto na costa do Oceano Pacífico quanto do Atlântico. Esta espécie
foi intensamente caçada até 1991 e atualmente encontra-se listada no
Apêndice II da CITES.
Para avaliar as possíveis diferenças populacionais e suas conse­
quências para o manejo e conservação da espécie na América do Sul,
as populações do Atlântico e do Pacífico foram comparadas através da
análise integrada da morfometria tradicional e geométrica com dados
de sete locos de microsstélites de DNA.
Os resultados morfométricos revelam a existência de diferença>
significativas na forma e no tamanho dos crânios das populações de
A. australis, com os espécimes do Pacífico sendo maiores que os do
Atlântico e as diferenças cranianas concentradas na região rostral (Fig
10.5a).
Similarmente, as freqüências alélicas nos marcadores microssatél:-
tes revelam diferenças altamente significativas entre essas populações

jjfrll A) Análise das variáveis canônicas, vista dorsal. Diagramas representam a forma do crânio nos dois extremos de
escores de cada eixo canônico juntamente a foto de um crânio de cada população. Círculos negros: população do Pacífico e c
brancos: população do Atlântico. B) Teste de atribuição populacional dos genótipos de indivíduos de Arctocephalus australis. atra«
do cálculo do logaritmo da probabilidade de pertencer às populações do Atlântico (círculos negros) e do Pacífico (círculos
(modificado de Oliveira et al. 2008).
IDENTIFICAÇÃO DE UNIDADES EVOLUTI VAM ENTE SIGNIFICATIVAS E DE UNIDADES DE MANEJO 221

As análises Bayesianas indicam a existência de dois agrupamentos


que correspondem perfeitamente às duas populações, com o teste de
atribuição designando corretamente mais de 96% dos espécimes à sua
população de origem (Fig. 10.5b).
O nível de diferenciação encontrado em ambas as características
moleculares e morfológicas sugere um isolamento completo e possi­
velmente prolongado entre as duas populações, o que levaria ao desen­
volvimento de histórias evolutivas distintas e ao seu reconhecimento
como distintas unidades evolutivamente significativas, as quais deve­
riam ser manejadas separadamente de acordo com suas respectivas
histórias de vida e problemas específicos de conservação.

Exemplo 10.16 I Unidades de Manejo do Lobo-marinho Subantártico


(Ferreira et ai. 2008).
O lobo-marinho subantártico, Arctocephalus tropicalis, habita principal­
mente as ilhas ao norte da Convergência Antártica. As colônias existen­
tes nas ilhas do grupo Gough e Tristão da Cunha são as mais próximas
da costa do Brasil e estão localizadas a aproximadamente 4.200 km.
Esse grupo de ilhas está entre as principais colônias reprodutivas da
espécie, juntamente com os grupos das ilhas Saint Paul e Amsterdam,
Prince Edward e Marion, Crozet e Possession, além da Ilha Macquaire
(Fig. 10.6).
No Brasil um número crescente de indivíduos vagantes (aqueles
que se dispersam mais do que 90% da população, atingindo áreas além
dos limites da distribuição tradicional da espécie) vem sendo registra­
do, sendo sua origem atribuída fundamentalmente às colônias repro­
dutivas do grupo Gough e Tristão da Cunha.
Através da análise da região controladora do DNAmt verifica-se
uma clara estruturação entre as colônias reprodutivas, sugerindo três
grandes unidades de manejo na espécie: (1) Ilhas Gough/ Tristão da
Cunha, (2) Ilha Amsterdam e (3) o grupo das ilhas Marion, Macquaire
e Crozet (MMC). A comparação dos haplótipos dos vagantes encontra­
dos no Brasil com os das colônias reprodutivas sugere que, apesar da
maioria (34%) dos indivíduos vagantes ser oriunda das Ilhas Gough,
o restante dos espécimes veio de outras colônias como Amsterdam,
Macquaire e inclusive da Ilha Crozet, que está distante mais de 16.000
km da costa do Brasil (Fig. 10.6), o que representa um dos maiores des­
locamentos já registrado para uma espécie de lobo-marinho.
A existência destas unidades de manejo genéticas deve ser levada
em consideração em qualquer plano futuro de manejo e conservação
da espécie, principalmente no que tange às atividades de reabilitação e
repatriação dos lobos-marinhos vagantes que chegam nas áreas extra-
limite de distribuição da espécie.

Exemplo 10.17 I Delimitação de estoques pesqueiros (Gusmão et ai. 2005;


Santos et al 2006; Vasconcelos et ai. 2008).
Segundo dados da FAO de 2003, cerca de 38 milhões de pessoas no
mundo sobrevivem da pesca, com uma produção mundial em torno
de 132 milhões de toneladas e um valor total de cerca de 58,2 bilhões
de dólares.
Apesar da grande importância econômica e social da pesca, o esta­
do de conservação dos recursos pesqueiros vem se agravando na última
222 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

década. Um dos pontos importantes para a conservação desse recurso é


a caracterização e delimitação dos estoques de cada uma das espécies
exploradas comercialmente.
A delimitação dos estoques permite a realização de estimativas
populacionais e a adoção de medidas que levem ao manejo racional
e à manutenção da exploração em níveis chamados de máximo esfor­
ço sustentável. A melhor maneira de se estimar as fronteiras entre os
estoques pesqueiros é empregar conjuntamente os dados de biologia
pesqueira e genética. No Brasil a Genética Pesqueira ainda está em
desenvolvimento, mas já foram usados marcadores moleculares para
delimitar estoques de vários peixes. Enquanto populações do peixe-
batata (Lopholatilus villarii) parecem homogêneas ao longo da costa, nas
corvinas (Micropogonias furnierí) se observou uma grande diferenciação
entre os estoques do sul, sudeste e norte do país. Da mesma forma, em
CONSERVAÇÃO DA AGROBIOD1VERSIDADE | 223

guaiubas (Ocyurus chrysurus) observou-se que as populações do norte e


Ceará são mais semelhantes às do Caribe do que das populações de Per­
nambuco, Bahia e sudeste do Brasil. Isso parece indicar que a divisão
da Corrente Sub-Equatorial em duas, uma se dirigindo no sentido oes­
te, do nordeste brasileiro ao Caribe, e a outra formando a Corrente do
Brasil ao longo da costa brasileira no sentido sul, pode estar definindo
os estoques dessa espécie.
Na pescada (Macroâon ancylodon) existe uma alta diferenciação entre
dois grupos, um que inclui o norte e nordeste, e outro que inclui o
sudeste e sul do Brasil. Esses grupos são tão divergentes que podem
até constituir espécies diferentes. Nesse caso, o ponto de diferenciação
entre as duas populações se encontra no Espírito Santo, sendo também
atribuído a diferenças nas correntes costeiras. Outros estudos já foram
feitos com camarões (Farfantepenaeus spp.) e lagostas (Panulirus spp.)
brasileiras, permitindo a diferenciação clara dos estoques pesqueiros e
um melhor manejo desses recursos.

Conservação da agrobiodiversidade
A grande diversidade encontrada nos biomas brasileiros faz desses ver­
dadeiros bancos naturais de recursos genéticos.

Exemplo 10.18 I Conservação de espécies cultivadas na Mata Atlântica


(Veasey et ál. 2007, 2008).

Várias espécies nativas da América do Sul são cultivadas na Mata Atlân­


tica por agricultores tradicionais, como a mandioca (Manihot esculenta),
o inhame ou cará (Dioscorea spp.) e a batata-doce (Ipomoea batatas), de­
vido ao seu valor econômico e nutricional, em um sistema conhecido
como agricultura itinerante ou agricultura de derrubada e queima.
Estudos realizados com as três culturas acima citadas, cultivadas
por agricultores tradicionais e povos indígenas do Vale do Ribeira, de­
monstram que estes empregam práticas de manejo em suas roças que
podem favorecer a conservação, preservação e aumento da diversidade
genética.
No estudo da batata-doce, por exemplo, foram utilizados 14 mar­
cadores morfológicos e 8 locos de microssatélites, sendo observados

Tabela 10.5 1 Análise de variância molecular (AMOVA) dos dados morfológicos e moleculares (microssatélites)
para, respectivamente, 74 e 78 etnovariedades de batata-doce (Ipomoea batatas) do Vale do Ribeira, SP,
224 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

gr altos níveis de diversidade genética para ambos os


marcadores, a maior parte (64,4% para caracteres
morfológicos e 58,2% para os microssatélites) asso­
ciada à variabilidade dentro de roças (Tabela 10.5). A
correlação entre distâncias genéticas e distâncias geo­
gráficas (entre comunidades), indica que a diversidade não se en­
contra estruturada no espaço, mostrando a influência dos agricultores
na dispersão da diversidade genética por meio da troca de materiais
entre parentes, vizinhos, amigos e feiras locais. O mesmo se observa
no caso da mandioca, estudada através de marcadores morfológicos,
isoenzimáticos e microssatélites.
Com relação à cultura de inhame, quatro espécies são cultivadas
pelos agricultores tradicionais do Vale do Ribeira: Dioscorea triflda, D.
alata, D. cayenensis e D. bulbifera. Nas análises morfológicas (nove descri­
tores associados a características de folha, seis para o caule, oito para
tubérculos e um para o florescimento) e isoenzimáticas (sete sistemas
isoenzimáticos) foi detectada grande variabilidade para as quatro espé­
cies avaliadas, sendo os marcadores isoenzimáticos mais informativos
que os morfológicos. Neste caso, a diversidade genética também não se
encontra estruturada no espaço.
Tais estudos ressaltam a importância desses agricultores que, além
de serem detentores do conhecimento a respeito das peculiaridades
de manejo desta diversidade, promovem também a sua conservação
in situ. O sistema de agricultura tradicional permite a continuidade de
processos evolutivos inerentes à relação entre o homem e as plantas
dentro de suas roças itinerantes ou quintais, contribuindo para a re­
dução do processo de erosão genética a que vêm sendo submetidas as
espécies cultivadas, semi-domesticadas e nativas da Mata Atlântica.

A manutenção de espécies fora de seus ambientes naturais pode ser


necessária (ou desejada) em várias situações. Incluem-se aqui as espé­
cies mantidas em cativeiro para fins conservacionistas, ou ainda as es­
pécies criadas para serem comercializadas com objetivos ornamentais
ou como animais de estimação. Seja qual for o caso, as ferramentas
genéticas podem ser utilizadas em diversas situações, algumas delas
mostradas a seguir.

Exemplo 10.19 I Sexagem de aves que não apresentam dimorfismo


sexual (Miyalci et al. 1997, 1998).

A manutenção e reprodução de espécies da fauna silvestre em cativeiro


pode ser realizada com diversos objetivos. Para algumas, as populações
mantidas em cativeiro representam um “seguro” contra a sua extinção
na natureza, sendo manejadas demográfica e geneticamente de forma
CONSERVAÇÃO EX SITU 225

a manter sua viabilidade e o seu valor para futuras reintroduções. Para


outras, a criação em cativeiro pode ser realizada com fins comerciais,
o que pode contribuir, de forma indireta, para diminuir a exploração
ilegal e o tráfico de animais silvestres vendidos como animais de esti­
mação no mercado nacional e internacional.
A reprodução em cativeiro, entretanto, nem sempre é uma tarefa
simples. Além das questões relativas ao comportamento, à nutrição e
à adequação dos recintos, para algumas espécies a formação dos casais
também representa uma dificuldade. Um exemplo é a ausência de di-
morfismo sexual entre machos e fêmeas em diversas espécies de aves,
como ocorre em vários psitacídeos (papagaios, araras e periquitos).
A determinação do sexo, nesses casos, é fundamental para o suces­
so de um programa de reprodução em cativeiro. No caso de espécies
vendidas como animais de estimação, a sexagem do filhote a ser co­
mercializado representa um diferencial que agrega valor ao produto e
facilita a realização do negócio.
A sexagem de aves pode ser realizada de forma cirúrgica ou genéti­
ca. Na sexagem cirúrgica, a determinação do sexo é realizada através
da visualização das gônadas (testículos ou ovários) utilizando-se um
laparoscópio inserido na cavidade abdominal dos animais por meio de
uma micro-incisão. Apesar de relativamente simples, a realização da
laparoscopia requer a anestesia dos animais e os cuidados inerentes a
um procedimento cirúrgico, representando assim um certo risco aos
animais.
A sexagem genética, por sua vez, pode ser realizada através da aná­
lise do cariótipo do indivíduo ou através da análise do DNA pela téc­
nica de PCR (ver capítulo 2). Na análise cariotípica a determinação do
sexo é realizada através da identificação dos cromossomos sexuais do
indivíduo, ou seja, ZW no caso de fêmeas, ou ZZ no caso dos machos.
Essa técnica é relativamente trabalhosa, sendo necessária a coleta de
penas em crescimento ou de sangue para que se possa realizar um
cultivo celular e a confecção do cariótipo.
Atualmente, a metodologia mais utilizada para a sexagem é a am­
plificação de fragmentos de DNA sexo-específicos através da técnica de
PCR (utilizando-se primers específicos para seqüências do cromossomo
W) ou pela amplificação de genes que apresentam diferenças de tama­
nho quando presentes no cromossomo W ou Z. Neste último caso, os
machos (ZZ) apresentam como produto da PCR um único fragmento de
DNA, visualizado como uma banda em um gel de eletroforese, enquan­
to que as fêmeas (ZW) apresentam dois fragmentos de tamanhos dis­
tintos, visualizados como duas bandas no gel de eletroforese. Além de
ser uma técnica barata e rápida, a sexagem por PCR pode ser realizada
a partir materiais coletados de forma não-invasiva como, por exemplo,
a partir das penas ou da casca dos ovos.
A sexagem através da técnica de PCR também tem sido utilizada em
mamíferos em situações em que a determinação do sexo nem sempre
é possível como, por exemplo, no caso de biópsias obtidas de cetáceos
ou de amostras coletadas de forma não-invasiva, como pêlos ou fezes.
O mais comum, nestes casos, é a sexagem através da amplificação de
genes presentes exclusivamente no cromossomo Y como, por exemplo,
o gene SRY.
226 | GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

Exemplo 10.20 I Direcionamento de cruzamentos em cativeiro (Pereira et


al. 1996; Albertani et al. 1997; Miyaki et al. 1997; Caparroz et al. 2001).

Uma das metas de um programa de reprodução em cativeiro é evitar


ao máximo a ocorrência de acasalamentos consangüíneos entre os in­
divíduos da população.
Para as populações que não possuem um registro genealógico dos
animais (situação freqüente durante o estabelecimento da população
inicial com que se quer trabalhar), a formação de casais através da aná­
lise de genealogias não é possível. Uma alternativa para esses casos
é determinar a relação de parentesco entre os indivíduos através da
análise da similaridade genética existente entre eles.
Assim, indivíduos com menor similaridade genética entre si po­
dem ser selecionados para a formação dos casais. Essa estratégia, base­
ada na análise de marcadores moleculares dos tipos minissatélites ou
microssatélites (entre outros), tem sido utilizada em diversas espécies
de aves ameaçadas de extinção.
Para espécies que vivem em grupos, o estabelecimento das genea­
logias pode ser dificultado pelo fato de nem sempre ser possível saber
quem é o pai de um determinado filhote. Nesses casos, a determinação
da paternidade pode ser realizada através dos chamados “testes de
paternidade”, realizados mais freqüentemente através da análise de
marcadores do tipo microssatélites.
O conhecimento da genealogia dos indivíduos na população e a de­
terminação do parentesco entre eles permitem a adoção de medidas de
manejo que serão importantes para a manutenção da viabilidade gené­
tica e demográfica da espécie durante um programa de conservação.

Hibridação de espécies e riscos de conservação


Hibridação é o cruzamento entre espécies, raças, variedades, e assim
por diante, em plantas ou animais. Na maioria das vezes, a ocorrência
de hibridação representa um risco para a conservação das espécies.
A sua ocorrência pode ser detectada e monitorada através da análise
genética, como mostrado nos exemplos a seguir.

Exemplo 10.21 I Hibridação entre os peixes-bois marinho e amazônico


(Vianna et al. 2006a,b).

Na foz do Rio Amazonas as duas espécies de peixes-bois encontradas no


Brasil vivem em simpatria: o peixe-boi marinho (Trichechus manatus) e o
peixe-boi amazônico (Trichechus inunguis).
Nessa área e na região das Guianas, análises citogenéticas e molecu­
lares diagnosticaram a hibridação interespecífica em oito indivíduos,
incluindo híbridos F1 e de gerações posteriores (indivíduos resultantes
do retrocruzamento entre híbridos e uma das espécies parentais).
Um dos híbridos, procedente da costa do Amapá e identificado
inicialmente como peixe-boi marinho, apresentou um número de cro­
mossomos (2n = 50), intermediário entre o peixe-boi marinho (2n = 48)
e o peixe-boi amazônico (2n = 56). Além disso, apresentava algumas
características morfológicas de ambas espécies, DNAmt da espécie
GENÉTICA FORENSE E CONSERVAÇÃO 227

amazônica (Fig. 10.2), e alelos de microssatélites provenientes tanto do


peixe-boi marinho quanto do amazônico.
A hibridação entre as duas espécies pode representar um sério pro­
blema de conservação devido à diminuição do sucesso reprodutivo,
principalmente para espécie marinha, que possui uma população já
reduzida e com baixa diversidade genética.

Exemplo 10.22 I Tambacu: a ameaça do híbrido resultante do cruzamento


entre o pacu e o tambaqui (Calcagnotto et al 1999).

No Brasil tanto o Pacu (Piaractus mesopotamicus) como o Tambaqui (Co-


lossoma macropomum) são espécies bastante apreciadas pelos pratican­
tes da pesca esportiva e amplamente utilizadas na gastronomia. De
ocorrência natural no Pantanal Mato-grossense, essas espécies torna­
ram-se comuns nas estações de piscicultura do país onde, há cerca de
vinte anos, estabeleceu-se também a produção de híbridos interespe-
cíficos, os quais podem ser facilmente identificados através da análise
citogenética.
Formados inicialmente apenas para fins de estudo, os espécimes
híbridos acabaram se propagando e eventualmente chegando aos rios,
onde é possível a ocorrência de retrocruzamentos com as espécies pa­
rentais. A presença do híbrido nos rios pode ter conseqüências dramá­
ticas, já que estes podem invadir o habitat e competir com as espécies
parentais, podendo levá-las, em uma situação extrema, à extinção.
Dessa forma é importante que haja um monitoramento dessas
espécies e da ocorrência de híbridos, permitindo que estratégias de
manejo sejam adotadas caso seja necessário.

Genética forense e conservação


Entre as ameaças à biodiversidade, um dos grandes problemas ainda
a ser resolvido é a exploração e o comércio de produtos e espécimes
da fauna e flora silvestre. Apesar de exigir medidas complexas, a inibi­
ção dessas atividades é fundamental para a conservação das espécies
ameaçadas.
A genética da conservação, nesse contexto, pode ter papel funda­
mental, fornecendo ferramentas que auxiliem na identificação da es­
pécie comercializada, do local de exploração, ou ainda na confirmação
da filiação de espécimes comercializados por criadouros autorizados.
Os exemplos mostrados a seguir revelam o potencial que as ferramen­
tas utilizadas em genética da conservação podem ter para atingir esses
objetivos.

Exemplo 10.23 I Identificação de produtos comercializados ilegalmente


(Gusmão et al 2002; Gravena et al 2008; Sholl et al 2008).

Os marcadores moleculares podem ser utilizados com grande efici­


ência para identificar e inibir a comercialização ilegal de produtos
marinhos.
A vantagem desses marcadores é que eles podem ser obtidos mes­
mo a partir de material já industrializado que não permitiria a iden­
tificação de outra maneira. A sua utilização já está disponível, por
228 GENÉTICA DA CONSERVAÇÃO NA BIODIVERSIDADE BRASILEIRA

exemplo, na identificação do camarão. Para tanto foi desenvolvido um


kit de identificação das diferentes espécies baseado na análise de poli­
morfismos em fragmentos de restrição (RFLP) de genes mitocondriais
e nucleares. Utilizando-se esse kit é possível identificar, com sucesso,
camarão descascado e congelado, camarão salgado e seco ao sol (como
o do acarajé) e camarão em lata.
Esse é um instrumento importante para que os órgãos de fiscali­
zação ambiental identifiquem facilmente e sem ambigüidade o ma­
terial apreendido. Kits semelhantes estão sendo desenvolvidos para a
identificação e controle da pesca ilegal de peixes brasileiros como, por
exemplo, do mero (Epinephelus itajara), cuja carne, em filés ou postas,
é freqüentemente vendida como se fosse garoupa (Epinephelus margina-
tus), com a qual é muito parecido.
Outro exemplo interessante é a identificação da espécie e da pro­
cedência geográfica de genitálias, olhos e outras peças anatômicas de
golfinhos da Amazônia, comercializadas para fins religiosos, como es­
timulantes sexuais ou como lembrança para turistas. Em sua maioria
as genitálias e olhos são conservados desidratados ou em perfumes a
base de álcool, e vendidas em mercados populares como o Mercado
Ver-o-Peso, de Belém, no estado do Pará, ou o Mercado Central de Ma­
naus, no estado do Amazonas, e o Mercado Municipal de Porto Velho,
no estado de Rôndonia.
Estudos anteriores identificavam as peças comercializadas como
sendo de boto-vermelho (Inia geoffrensis). Entretanto, ao analisar-se a
região do citocromo b do DNAmt extraído desses produtos e compará-
GENÉTICA FORENSE E CONSERVAÇÃO 229

la com o de outras espécies de cetáceos, verificou-se que, na verdade, as


amostras comercializadas eram da forma marinha de boto-cinza (Sota-
lia guianensis) (Fig. 10.7). O boto-cinza (S. guianensis) sofre maior pressão
de captura acidental em redes de pesca em relação ao boto-vermelho
(Inia geoffrensis) e ao tucuxi (Sotalia fluviatilis), sendo os mercados de
Manaus e Belém abastecidos com exemplares marinhos de Sotalia, pro­
vavelmente capturados por pescadores da região do estuário próximo
a Belém.

Exemplo 10.24 I Atuação contra o tráfico de animais silvestres (C. Miyaki,


dados não publicados).

A genética da conservação pode ser utilizada ainda no combate ao trá­


fico de animais silvestres como, por exemplo, no caso da prisão de um
homem que tentava deixar o país com cerca de 60 ovos vivos aderidos
ao corpo. Ao ser detido o homem alegou tratar-se de ovos de codorna.
Como os embriões não sobreviveram, não foi possível identificar as es­
pécies através da sua morfologia.
Assim, foi realizada a comparação das seqüências de DNA de um
gene mitocondrial dos embriões com seqüências de um banco de
dados de espécies conhecidas. Tal comparação permitiu identificar a
espécie de cada embrião e constatar que a maioria dos ovos pertencia
a somente uma espécie de papagaio. A partir dessa prova, indicativa
ainda de que a pessoa possuía uma encomenda direcionada para essa
espécie, foi possível indiciá-la criminalmente por tráfico internacional
de animais da fauna brasileira.

COMO CITAR ESSE CAPÍTULO


Galetti Jr, P. M., Rodrigues, F. P, Solé-Cava, A.M., Miyaki, C. Y., Carvalho, D.,
Eizirik, E., Veasey, E. A., Santos, F. R., Farias, I. P, Vianna, J. A., Oliveira,
L. R., Weber, L. I., Almeida-Toledo, L. F., Francisco, M. R., Redondo, R. A.
R, Siciliano, S., Del Lama, S. N., Freitas, T. R.O., Hrbek, T, Molina, W.
F. 2008. Genética da conservação na biodiversidade brasileira, pp.199-
229. In: Fundamentos de Genética da Conservação. Frankham, R.,
Bailou, J.D., Briscoe, D.A., Ribeirão Preto, SP, Editora SBG, 280p.

DESENHOS DESSE CAPÍTULO DE:


Angela Leite - pequi, cedro, lontra, onça pintada, almecegueiro, guanandi,
copaíba, jacarandá-amarelo, palmeira, pindaíba, lobo-marinho, arara-
azul, batata-doce, araras na macaúba, colhereiro, tuiuiu, cabeça seca,
tucuxi, boto-cinza (bico de pena) e peixe-boi amazônico (xilogravura).
Laura Beatriz - Tangará-dançarino, tuco-tuco, curimatã e sauim-de-coleira
(acrílico sobre tela).
Manu Maltez - armado, traíra, piranha e morcego (bico de pena).
Mensagens finais

Para obter uma visão geral do livro, sugerimos que você volte e releia as
Mensagens para Casa (Pag. xiii). Para os estudantes que estão revisando
para a realização de exames, os quadros das páginas de rosto dos ca­
pítulos, além dos pequenos quadros nas margens do texto que tratam
das idéias principais, irão ajudar na revisão.
Estamos confiantes que você tenha achado este livro informativo,
provocativo e interessante, e que ele venha a ajudá-lo em suas futuras
ações conservacionistas. A biodiversidade do planeta está sendo perdi­
da numa taxa assustadora, de maneira que devemos agir agora para
conservar o sistema que dá suporte às nossas vidas. Extinção é para
sempre.
Glossário

Acasalamento ao acaso Um padrão de acasalamento (também


chamado de reprodução randômica) na qual as chances de
dois genótipos ou fenótipos se reproduzirem é determinada
pelas suas freqüências na população, por exemplo, se AA e aa
têm freqüências p e q, respectivamente, a probabilidade do
acasalamento de fêmeas AA x machos aa é pq.
AFLP Ver Polimorfismo de tamanho de fragmentos amplificados.
Alelo Uma forma alternativa de um gene, por exemplo, tipo selvagem
vs. tipo mutante, mobilidade eletroforética rápida vs. lenta,
cópias de um loco de microssatélite com diferentes números de
repetições da seqüência AC.
Alopátrica Populações ou espécies cujas distribuições geográficas não
se sobrepõem.
Alopoliplóide Uma espécie cujo complemento cromossômico deriva
de duas (ou mais) espécies distintas (compare com Autopoliplóide);
por exemplo, o tabaco com 48 cromossomos é um alotetraplóide
derivado de duas espécies diplóides de 24 cromossomos cada.
Muitas espécies de plantas evoluíram desta maneira. É uma forma
instantânea de especiação.
Aloenzimas Formas alternativas de uma proteína detectáveis por
eletroforese que ocorrem devido aos alelos alternativos de um
mesmo loco. Freqüentemente tratados como isozimas.
Ameaçada Uma população ou espécie que apresenta risco de se
extinguir num intervalo de tempo relativamente curto, como por
exemplo, uma probabilidade de 10% de se extinguir em 100 anos.
De acordo com a classificação da IUCN, as categorias criticamente
em perigo, em perigo e vulnerável são ameaçadas.
Aminoácido São os blocos de construção das proteínas.
Análise de distribuição das diferenças (Mismatch analysis) Análise
baseada na distribuição do número de diferenças das seqüências
de DNA entre pares de alelos.
Análise de sensibilidade É a gama de análises baseadas em processos
de simulação que avaliam como as mudanças em atributos da
história de vida, qualidade do habitat, predação, etc., afetam o
crescimento populacional ou o risco de extinção de uma espécie.
Geralmente variam-se esses atributos para que seus impactos
relativos sobre o crescimento e a probabilidade de extinção sejam
avaliados.
Análise de viabilidade populacional (PVA) Processo de fazer
predições sobre o futuro de uma população (incluindo risco de
extinção) devido aos efeitos combinados de todas as ameaças
determinísticas e estocásticas enfrentadas por uma população.
PVAs também são utilizadas como uma ferramenta de manejo para
examinar os impactos de diferentes opções para a recuperação
de espécies ameaçadas. Geralmente realizada introduzindo-se
informações sobre a história de vida num software computacional.
Ancestral comum É um indivíduo que é um ancestral da mãe e do
pai de determinado indivíduo.
Árvore filogenética Uma árvore que reflete as relações entre
diferentes espécies ou populações.
Árvore gênica Árvore mostrando as relações entre diferentes cópias
de um único loco.
Auto-esterilidade Veja Auto-incompatibilidade.
Auto-incompatibilidade É a incapacidade de um indivíduo
(geralmente planta) de produzir descendentes após tentativas de
autofecundação. Muitas espécies de plantas apresentam locos
que controlam a auto-incompatibilidade, e estes, geralmente
apresentam muitos alelos. Acredita-se que este sistema tenha
evoluído para evitar os efeitos deletérios do endocruzamento.
Auto-radiografia Detecção de moléculas marcadas com componentes
radioativos através da exposição em filme fotográfico.
Autofecundação Autofertilização.
Autopoliplóide Uma espécie derivada da combinação de dois
ou mais conjuntos cromossômicos da mesma espécie; por
exemplo, populações diplóides da margarida em perigo têm 22
cromossomos e as populações autotetraplóides têm 44. Compare
com Alopoliplóide.
Banco de recursos genômicos Um estoque contendo uma diversidade
de materiais genéticos de uma ou mais espécies, incluindo
estoques de sementes, gametas criopreservados, embriões, células
somáticas ou uma coleção de amostras de DNA.
Biodiversidade Diversidade Biológica; a variedade de ecossistemas,
espécies, populações dentro de espécies e a diversidade genética
dos organismos vivos.
Caráter quantitativo Características como o tamanho, taxa
reprodutiva, sobrevivência, etc. que geralmente apresentam
distribuição contínua aproximadamente normal. A variação é
controlada por muitos locos e pelas condições ambientais.
Carga genética A carga de alelos deletérios de uma população, alguns
devido ao balanço entre mutações deletérias e seleção (carga
mutacional) e alguns devido à vantagem do heterozigoto e outras
formas de seleção balanceadora (carga balanceadora).
Carga mutacional A carga de mutações deletérias carregada por uma
população. A homozigose para estas mutações é considerada como
sendo a principal causa de depressão por endocruzamento.
Catástrofe Um evento extremo que causa um impacto devastador
nas populações ou habitats, por exemplo, ciclones, secas, invernos
extremos, doenças epidêmicas.
CITES Convenção sobre o Tráfico Internacional de Espécies
Ameaçadas.
Ciado Um sub-grupo de organismos contido num grupo maior com
o qual compartilha um ancestral comum, mas que apresenta um
ancestral comum não compartilhado com o resto do grupo maior.
Clina Mudança na composição genética de uma população que ocorre
ao longo de uma região ou de um gradiente de habitats, como
uma clina latitudinal ou altitudinal. Por exemplo, a presença de
folhas cinza-azuladas (com cera) em várias espécies de eucaliptos
muda com a altitude em várias montanhas da Tasmânia, Austrália.
As clinas podem ocorrer devido a eventos históricos (por exemplo,
a clina do grupo sanguíneo B em humanos) ou devido ao balanço
existente entre as diferentes pressões de seleção natural existentes
que existem entre diferentes regiões e a migração que ocorre entre
elas (como para as folhas de eucaliptos).
Clones Indivíduos com genótipos idênticos, por exemplo, estacas
derivadas de uma única planta, ou vários animais individuais
derivados de um único indivíduo por transplantação nuclear.
Coalescência Se duas linhagens de seqüências de DNA convergem em
um alelo ancestral comum, diz-se que eles coalescem.
Coancestria A coancestria de dois indivíduos é a probabilidade
de que dois alelos, um de cada indivíduo, sejam idênticos por
descendência. É o sinônimo de parentesco.
Coeficiente de endocruzamento (F) A medida mais comumente
utilizada para se quantificar os níveis de endocruzamento; é a
probabilidade de que dois alelos de um loco de um indivíduo seja
idêntico por descendência. O valor varia de 0 a 1.
Coeficiente de seleção (S) É a diferença entre o valor adaptativo
relativo de um determinado genótipo e o genótipo com maior
valor adaptativo. Por exemplo, se três genótipos A^, A^ e A2A2
apresentam valor adaptativo relativo de 1,1 e 0,9, o coeficiente de
seleção para o genótipo A2A2 será 1 - 0,9 = 0,1.
Coeficiente médio de parentesco O coeficiente médio de parentesco
de um indivíduo com todos os outros indivíduos da população,
incluindo ele próprio. A minimização do parentesco é o método
recomendado atualmente para se manejar espécies ameaçadas em
cativeiro.
Complexo maior de histocompatibilidade (MHQ Uma grande
família de locos que desempenha um importante papel no sistema
imunológico dos vertebrados. Eles produzem moléculas que se
ligam aos antígenos invasores. Estes locos apresentam níveis
extraordinariamente altos de diversidade genética.
Conceito biológico de espécie Define uma espécie como sendo
um grupo de indivíduos que se entrecruzam, ou que teriam o
potencial de se entrecruzarem, e populações naturais que não
podem se entrecruzarem com indivíduos de outros grupos. Por
exemplo, indivíduos dentro de uma espécie podem trocar material
genético, enquanto aqueles de espécies diferentes normalmente
não podem.
Conservação in situ Conservação de espécies em seu habitat natural
selvagem.
Corredor Uma porção de habitat que conecta fragmentos permitindo
a migração.
Criticamente em perigo Descrição de uma espécie com probabilidade
de extinção muito alta dentro de um curto período de tempo. Por
exemplo, a IUCN define como sendo a probabilidade de extinção
de 50% dentro de 10 anos, ou três gerações, dependendo de qual
período for mais longo.
Depressão endogâmica Redução na reprodução, sobrevivência e
outros caracteres quantitativos devido ao endocruzamento.
Depressão exogâmica Uma redução do sucesso reprodutivo devido ao
cruzamento de duas populações (ou subespécies, ou espécies).
Deriva genética Mudanças na composição genética de uma
população devido à amostragem ao acaso em pequenas
populações. Resulta em perda de diversidade genética, mudanças
aleatórias nas freqüências alélicas e diversificação entre réplicas de
populações. Também chamada de deriva genética ao acaso.
Diplóide Apresenta um par de cada cromossomo.
Distância genética de Nei (DN) Medida mais utilizada para estimar
a diferenciação genética de freqüências alélicas entre duas
populações ou espécies, desenvolvida por Masatoshi Nei. É
calculada como o logaritmo natural da Similaridade genética de
Nei (IN).
Distância genética Uma medida da diferenciação genética entre as
freqüências de alelos de duas populações, ou espécies. A forma
mais comumente usada é a distância genética de Nei.
Distribuição binomial É a distribuição que descreve o número de
ocorrências de dois (ou mais) eventos numa amostra de tamanho n.
por exemplo, o número de caras e coroas em cinqüenta arremessos
de uma moeda.
Distribuição de Poisson Uma distribuição estatística com variância
igual à média. É utilizada para fazer predições sobre o número de
ocorrências de eventos raros, como a distribuição de tamanhos de
famílias 0,1, 2, 3...e assume-se que ocorra em populações ideais.
Distribuição normal Uma distribuição simétrica em forma de sino
com uma média e variância característica. Muitos caracteres
quantitativos mostram distribuições aproximadamente normais.
Diversidade alélica Uma medida da diversidade genética de uma
população, calculada como o número médio de alelos por loco.
Por exemplo, se o número de alelos em 6 locos são 1, 2, 3, 2,1 e 1,
então
(1 + 2 + 3 + 2 + 1 + 1)
Diversidade alélica =----------------------- = 1,67
6

Diversidade genética O nível de variação genética numa população


ou espécie, ou entre um grupo de espécies, por exemplo, a
heterozigose, diversidade alélica ou herdabilidade.
Diversidade gênica Veja heterozigose esperada.
DNA amplificado Muitas cópias duplicadas de um segmento de DNA.
DNA de cloroplasto (DNAcp) Molécula de DNA circular encontrada
nos cloroplastos das plantas. São geralmente herdados
maternalmente.
DNA mitocondrial (DNAmt) A molécula de DNA circular contida na
mitocôndria; tipicamente herdada maternalmente.
DNAcp Veja DNA de cloroplasto
DNAmt Veja DNA mitocondrial
Dominância Desvio dos fenótipos heterozigotos em relação à
média dos homozigotos de um loco, por exemplo, em direção ao
tipo selvagem homozigoto comparado ao mutante homozigoto.
Comparar com Recessivo.
Efeito fundador Mudanças na composição genética de uma
população devido à sua origem a partir de um número pequeno
de indivíduos; um gargalo de uma única geração. Geralmente
resultam em perda de diversidade genética, extinção de alelos,
deriva genética e um aumento do endocruzamento.
Efetivamente neutra A situação em que as forças seletivas sobre
os alelos são tão fracas que eles se comportam como se não
estivessem sujeitos à seleção natural. Ocorre quando o coeficiente
de seleção é menor do que 1/(2Ne), onde Ne é o tamanho efetivo
populacional.
Eletroforese Um método para separar proteínas ou fragmentos
de DNA num gel de acordo com suas cargas elétricas, forma e
tamanho.
Em perigo Descrição de uma espécie, ou populações, com uma alta
probabilidade de extinção dentro de um curto intervalo de tempo.
Definida pela IUCN como sendo uma probabilidade de 20% em
20 anos, ou 10 gerações, dependendo do qual se estende por mais
tempo.
Endocruzamento biparental Endocruzamento causado pela
produção de proles resultantes do acasalamento de parentes
próximos (irmãos, pais e filhas, primos, etc.).
Endocruzamento Produção de proles a partir do acasalamento
de indivíduos relacionados por descendência, por exemplo,
autogamia, irmão-irmã, ou acasalamento entre primos.
Enzima de restrição Uma enzima que corta o DNA em pontos
determinados por seqüências específicas de reconhecimento de
vários comprimentos, por exemplo, 4, 6 ou 8 bases.
Equilíbrio de Hardy-Weinberg O equilíbrio das freqüências
genotípicas atingido numa população com acasalamentos
randômicos e sem forças perturbadoras, como mutação, migração,
seleção ou o acaso. Se dois alelos A, e A2 têm freqüências p e q, as
freqüências dos genótipos AaAa, A1A2 e A2A2 sob equilíbrio são p2,
2pq e q2, respectivamente.
Equilíbrio estável É a freqüência alélica para a qual a população
retorna, não importando a direção em que esta freqüência
tenha sido perturbada. Ocorre quando estão operando o balanço
mutação-seleção, vantagem dos heterozigotos ou outras formas de
seleção balanceadora.
Equilíbrio mutação-seleção O equilíbrio devido à ocorrência de
mutações deletérias e as forças da seleção natural que as removem,
resultando em baixas freqüências destas mutações (carga
mutacional).
Equivalentes letais (B ) Uma medida para comparar a intensidade
da depressão por endocruzamento em diferentes populações.
Um grupo de alelos prejudiciais que causariam morte nos
homozigotos, por exemplo, um equivalente letal equivale a um
alelo letal, dois alelos que causam 50% de mortalidade cada
um, etc. É determinado como sendo a inclinação da regressão
de logaritmo natural da sobrevivência vs. coeficiente de
endocruzamento F.
Esgotamento populacional mutacional (Mutational meltdown)
O declínio da taxa reprodutiva e o arraste da população para a
espiral de extinção devido à fixação aleatória de novas mutações
deletérias em pequenas populações.
Especiação É o processo pelo qual as populações divergem e
se tornam reprodutivamente isoladas, podendo resultar em
diferentes espécies.
Espécie Mayr definiu espécie como sendo “grupos de populações
naturais que se entrecruzam, ou que poderiam potencialmente
se entrecruzar, que são isolados de outros grupos”, o que segue o
Conceito biológico de espécie. Desta maneira, existe um fluxo gênico
real ou potencial dentro de uma espécie mas não entre diferentes
espécies. Muitas outras definições também são utilizadas, mas esta
é a mais influente na biologia da conservação.
Espécies crípticas Duas ou mais espécies que são muito similares
morfologicamente, mas apresentam isolamento reprodutivo ou
uma clara distinção genética. Por exemplo, os muntjacs chineses
e indianos são morfologicamente similares, mas apresentam
diferentes números cromossômicos. Outro exemplo, as espécies
de mosca de frutas Drosophila melanogaster e D. simulans, que
quando se hibridam geram machos estéreis, mas as fêmeas são
morfologicamente indistinguíveis. Portanto, os híbridos podem ser
distinguidos apenas pela morfologia da genitália dos machos.
Estatística F Medida do endocruzamento total de uma população
(FJ, fracionada naquela causada pelo endocruzamento que ocorre
dentro das sub-populações (FIS) e aquela causada pela diferenciação
das sub-populações (FST).
Estocasticidade ambiental Flutuações naturais nas condições
ambientais, como chuvas, disponibilidade de alimento,
competidores, temperaturas no inverno, etc. Pode levar uma
pequena população à extinção.
Estocasticidade demográfica Flutuações naturais nas taxas de
nascimento e mortes e na razão sexual. Pode levar uma população
pequena à extinção. Por exemplo, os últimos seis indivíduos da
ave Ammodramus maritimus nigrescens eram, devido ao acaso, todos
machos.
Estocasticidade genética Efeitos genéticos em pequenas populações
que têm um elemento aleatório, incluindo o endocruzamento,
a perda de diversidade genética e o acúmulo de mutações, que
podem levar uma população ou espécie à extinção.
Estocástico Algo determinado por um elemento aleatório;
apresenta resultados variáveis descritos por uma distribuição
de probabilidades, por exemplo, a estocasticidade ambiental e
demográfica, deriva genética e catástrofes.
ESU Veja Unidades evolutivamente significativas.
Evolução adaptativa Mudanças na composição genética de
populações devido à seleção natural que melhora o fitness
reprodutivo num ambiente particular.
Evolução Mudança na composição genética de uma população.
Ex Situ Longe do habitat normal, como no caso de uma espécie
ameaçada que está sendo conservada em cativeiro, ou uma planta
ameaçada que está sendo preservada num banco de sementes ou
através de criopreservação.
Exocruzamento Não endocruzada; uma população que não está
sofrendo endocruzamento. Aproximadamente o mesmo que
acasalamento ao acaso.
Expurgo Eliminação dos alelos deletérios de uma população por
seleção natural, especialmente quando se trata de populações
endocruzadas.
Extinção Desaparecimento permanente de uma espécie ou
população.
F Coeficiente de endocruzamento de Wright; índice de fixação.
Filogenia O desenvolvimento evolutivo e a história de uma
subespécie, espécie ou táxon superior. Freqüentemente visualizada
como uma Árvore filogenética.
Filogeografia A área de estudo que trata da distribuição geográfica
de linhagens genealógicas, especialmente dentro de espécies.
Geralmente, árvores de seqüências de DNA estão relacionadas com
as origens geográficas dos haplótipos.
Fingerprintde DNA O código de barras produzido pela marcação
com sondas das seqüências repetitivas de minissatélites do DNA de
um indivíduo.
FIS A proporção do endocruzamento total de uma população que
ocorre devido ao endocruzamento existente dentro das sub-
populações.
F^ O endocruzamento total de uma população, que ocorre tanto por
causa do endocruzamento existente dentro das sub-populações
(FIS) quanto por causa da diferenciação existente entre as sub-
populações (Fst).
Fixação A situação na qual todos os indivíduos de uma população são
homozigotos idênticos.
Fixação independente de alelos (Lineage sorting) Fixação ao acaso
de diferentes alelos (ou haplótipos) em diferentes linhagens
(populações ou espécies) quando a população inicial é polimórfica;
pode levar a filogenias incorretas.
Fluxo gênico Movimento de alelos entre populações devido à
migração.
Forense Detecção de atividades ilegais por meios científicos. Por
exemplo, métodos baseados em DNA têm sido desenvolvidos
para detectar materiais derivados de tigres na medicina asiática,
utilizando-se amplificação do DNA por PCR.
Fst A proporção do endocruzamento total de uma população que
ocorre devido à diferenciação existente entre as sub-populações.
Gargalo Uma restrição no tamanho populacional.
Genealogia Um esquema representando linhas de descendência e
parentesco.
Genoma O material genético completo de uma espécie ou indivíduo;
por exemplo, todo o DNA, todos os locos ou todos os cromossomos.
Genótipo x interação com o ambiente Performance diferencial dos
genótipos em diferentes ambientes. Por exemplo, muitas plantas
apresentam raças (populações) que crescem e sobrevivem melhor
nos seus ambientes típicos do que em outros ambientes.
Haplótipo Genótipo haplóide; a composição alélica de vários locos
diferentes num cromossomo, por exemplo, A1B3C2.
Herdabilidade Proporção da variação de um caráter quantitativo
devida a causas genéticas.
Hermafrodita Um animal ou planta com ambos os sexos presentes
num único indivíduo; esta condição é encontrada em muitas
plantas e em alguns animais, como lesmas. Também conhecidos
como monoécios ou monóicos.
Heterozigose esperada A heterozigose esperada para uma população
com acasalamentos randômicos de acordo com as freqüências dos
alelos, seguindo-se o equilíbrio de Hardy-Weinberg. Por exemplo,
se as freqüências alélicas em um loco são 0,2 e 0,8, a heterozigose
esperada é 2pq = 2 * 0,2 x 0,8 = 0,32.
Heterozigose média Uma medida da diversidade genética de
uma população calculada como sendo a soma da proporção
de heterozigotos em todos os locos / o número total de locos
amostrados. Por exemplo, se as heterozigoses em 5 locos são 0,
0,10, 0,20, 0,05 e 0, então
(0 + 0,10 + 0,20 + 0,05 + 0)
Heterozigose média =--------------------------------- =0,07
5

Heterozigose observada O nível real de heterozigose observado


numa população, por exemplo, se existem dois alelos num loco,
F e S, e uma amostra de indivíduos contém 60 FF, 30 FS e 10 SS, a
heterozigose observada é 30%. Geralmente se calcula a média de
vários locos, como 20-50 locos de aloenzimas.
Heterozigose Proporção de heterozigotos numa população, mais
freqüentemente medida em vários locos gênicos. Veja Heterozigose
média, heterozigose esperada, heterozigose observada.
Heterozigoto Um indivíduo com duas formas diferentes de um gene
num loco, por exemplo \Ar
Hibridação in situ (Probed) Processo pelo qual um DNA individual é
hibridado com o DNA marcado de um loco conhecido.
Homozigoto Um indivíduo com duas cópias do mesmo alelo num
loco gênico.
Identidade por descendência Alelos que são cópias idênticas de um
alelo de um ancestral comum.
índice de fixação Coeficiente de endocruzamento F de Wright.
Introgressão Introdução de material genético de uma outra
espécie ou subespécie numa população. É uma ameaça contra
a integridade genética de várias espécies de canídeos, peixes,
plantas, etc.
íntron Uma região de um loco que é transcrita em RNAm mas não é
traduzida.
Irmãos completos Indivíduos que compartilham ambos os pais.
Todos os acasalamentos entre irmãos completos são entre irmãos
e irmãs.
Letal Inconsistente com a sobrevivência, como no caso de um alelo
recessivo letal que resulta em morte quando homozigoto.
Loco (plural locos) Um segmento de DNA numa localização específica
de um cromossomo. Freqüentemente chamado de loco gênico.
Loco de caráter quantitativo (QTL) Um loco que afeta um caráter
quantitativo.
Marcador genético Um loco ou cariótipo que fornece informações
úteis sobre a distinção de populações ou táxons, ou informações
úteis em análises forenses, etc. As informações podem vir
de aloenzimas, microssatélites, cromossomos ou caracteres
morfológicos herdáveis.
Média harmônica Recíproca da média aritmética

onde H é a média harmônica, n o tamanho amostrai X. a


observação i. A média harmônica de tamanhos populacionais em
diferentes gerações descreve o impacto das flutuações de tamanho
sobre o tamanho efetivo populacional.
Meta-análise Uma análise estatística que usa a informação
combinada de vários estudos diferentes, ou várias espécies
diferentes.
Metapopulação Um grupo de populações parcialmente isoladas da
mesma espécie que sofre extinções locais e recolonizações.
MHC Veja Complexo maior de histocompatibilidaâe.
Micros satélite Um loco com uma curta seqüência de DNA repetida
em cadeia, como uma seqüência AC repetida 10 vezes. Os
microssatélites tipicamente apresentam um número variável de
repetições e alta heterozigose nas populações.
Minimização do parentesco É o método recomendado atualmente
para se manejar espécies ameaçadas em cativeiro. Maximiza a
retenção da diversidade genética.
Minissatélite Uma região do DNA, geralmente de 10 a 100 pares
de bases de comprimento, que mostra variação no número
de repetições; também conhecido como número variável de
repetições em tandem (VNTR). Quando vários destes locos são
marcados com sondas eles resultam num padrão de fingerprinting
que parece um código de barras.
Monomórfico A presença de apenas um alelo num loco numa
população, geralmente utilizado também quando o alelo mais
comum apresenta freqüência de 99% ou 95%; falta de diversidade
genética. Contrasta com Polimórfico.
Mutação neutra Uma mutação cujos efeitos sobre o sucesso
reprodutivo equivale aos alelos já existentes, de maneira que sua
permanência na população é determinada por efeitos aleatórios
associados ao tamanho populacional (Deriva genética ao acaso).
Mutação Uma mudança genética repentina, por exemplo, pais não
apresentam a condição, mas ela ocorre em um ou mais filhos, e é
herdável.
MVP Veja tamanho de populações mínimas viáveis.
Número variável de repetições em tandem (VNTR) Veja fingerprint de
DNA.
Parentesco (K.) O parentesco de dois indivíduos é a probabilidade
de que dois alelos, um de cada indivíduo, sejam idênticos por
descendência; sinônimo de coancestria. Equivalente ao coeficiente
de endocruzamento da prole dos dois indivíduos, se eles
apresentarem uma prole.
Partenogênese Reprodução sem fertilização.
PCR Veja Reação da polimerase em cadeia.
Permutabilidade (Exchangeability também chamada de
replaceability) Conceito utilizado na definição de unidades de
manejo dentro de espécies. Se a composição genética de duas
populações é similar, elas são permutáveis. O mesmo acontece se
duas populações são adaptadas a ambientes similares.
Permutabilidade ecológica (Ecological exchangeability também
conhecido como ecological replaceability).Conceito utilizado
na definição de unidades de manejo dentro de espécies; também
conhecido como Se duas populações são adaptadas a ambientes
similares elas são permutáveis.
Permutabilidade genética (Genetic exchangeability também
chamado de genetic replaceability) Conceito usado na definição
de unidades de manejo dentro de espécies. Se a composição
genética de duas populações é similar, elas são permutáveis.
Poligamia Acasalamento com mais de um indivíduo do sexo oposto.
Polimórfico A presença de mais de um alelo num loco de uma
população; a existência de diversidade genética. Compare com
M onomórfico.
Polimorfismo de comprimento de fragmentos de restrição (RFLP)
Diversidade genética detectada cortando-se o DNA com enzimas de
restrição. Estas enzimas cortam seqüências específicas de 4, 6 ou
8 bases. Se a seqüência sofre mutação no sítio de reconhecimento
a enzima não corta, de maneira que o polimorfismo é criado por
DNA cortado vs. DNA não cortado, resultando em fragmentos de
DNA de diferentes tamanhos de diferentes alelos.
Polimorfismo de DNA amplificado ao acaso (RAPD) Diversidade
genética detectada através de amplificação por PCR utilizando-se
primers de cosntrução arbitrária (usualmente com 10 bases de
comprimento) para se amplificar ao acaso segmentos de DNA. Os
polimorfismos são detectados através da presença e ausência de
bandas.
Polimorfismo de nucleotídeos individuais (SNP) É uma posição na
fita de DNA de uma espécie onde duas ou mais bases alternativas
ocorrem em freqüências consideráveis (> 1%).
Polimorfismo de tamanho de fragmentos amplificados (AFLP) Um
método para medir diversidade genética. O DNA é cortado com
uma enzima de restrição e curtos fragmentos de DNA sintético de
seqüências conhecidas são adicionados e o DNA é amplificado por
PCR. O método produz um fingerprinting de DNA multiloco com
polimorfismo expresso na forma de presença/ausência de bandas.
Polimorfismo trans-específico É um polimorfismo ancestral
compartilhado por espécies relacionadas. Exemplos deste tipo de
polimorfismo podem ser encontrados nos locos do MHC e da auto-
incompatibilidade, que são mantidos por seleção balanceadora.
Poliplóide Apresenta mais de duas cópias do complemento genético
diplóide, por exemplo, 4n é tetraplóide.
População ideal Uma população conceituai com acasalamentos
randômicos e com números iguais de indivíduos hermafroditas
se reproduzindo em cada geração, sem mutação, migração ou
seleção, com a variação dos tamanhos das famílias seguindo a
distribuição de Poisson (média = variância = 1). É utilizada como
o padrão com o qual outras populações são comparadas para se
definir os tamanhos efetivos populacionais.
Porcentagem de locos polimórficos (P) Uma medida de diversidade
genética de uma população, calculada como (número de locos
polimórficos/número total de locos amostrados) x íoo. Por
exemplo, se 3 locos são polimórficos e 7 são monomórficos,

3
P = —x 100 = 30%.
10

Potencial evolutivo A habilidade de uma população de evoluir para


acompanhar as variações ambientais, como aquelas causadas por
mudanças climáticas ou mudanças em organismos patogênicos.
Comumente é relacionada com a diversidade genética, dado
que esta é necessária para que a evolução ocorra, mas as taxas
reprodutivas e os tamanhos populacionais também contribuem.
Primer Uma seqüência curta de nucleotídeos que se pareia com
uma fita de DNA fornecendo uma extremidade livre à qual a
enzima DNA polimerase inicia a síntese de um segmento de DNA
complementar.
PVA Veja Análise de viabilidade populacional
QTL Veja Loco de caráter quantitativo
RAPD Veja Polimorfismo de DNA amplificado ao acaso.
Reação da polimerase em cadeia (PCR) Método usado para amplificar
segmentos específicos de DNA. O DNA é aquecido, os primers
(segmentos curtos de DNA que flanqueiam a região de interesse)
são adicionados e o DNA alvo copiado usando a enzima Taq DNA
polimerase termoestável. Usualmente são realizados 30-40 ciclos
de amplificação no termociclador. Cada ciclo consiste da separação
das fitas homólogas de DNA a 94 °C, o anelamento dos primers a
50-60 °C dependendo da seqüência do primer, e a extensão (cópia)
a 72 °C.
Recessivo Um alelo que não apresenta efeito detectável no fenótipo
de um heterozigoto.
Recursos biológicos Produtos derivados do mundo natural que
possuem valor econômico, incluindo alimentos, fibras e muitas
drogas.
Rede de haplótipos Um diagrama mostrando diferentes haplótipos
interligados por linhas para mostrar suas relações, geralmente
com uma linha juntando cada haplótipo que difere por uma única
base da seqüência de DNA.
Reintrodução Retorno de uma espécie ou população a parte de sua
distribuição original utilizando-se indivíduos de uma população
de cativeiro.
Repetições em tandem Cópias múltiplas da mesma seqüência
posicionadas uma após a outra numa série, como nas repetições
dos micro- e minissatélites.
Reprodução suplementar É a captura de indivíduos adultos na
natureza, seguida da reprodução em cativeiro e soltura da prole
em ambientes selvagens.
RFLP Veja Polimorfismo de comprimento de fragmentos de restrição.
Seleção balanceadora É a seleção que mantém a variação genética
na população, abrangendo a vantagem dos heterozigotos
(sobredominância), a seleção dependente da freqüência que
favorece genótipos raros e formas de seleção que variam no espaço
e no tempo.
Seleção direcional Seleção na qual os indivíduos extremos (altos ou
baixos) de uma população são os parentais da geração seguinte.
Seleção natural Mortalidade ou alteração das taxas reprodutivas
devido a processos ambientais naturais. Reprodução e
sobrevivência diferencial de genótipos (seleção natural) leva a
mudanças evolutivas adaptativas.
Seletivamente neutro É um alelo cuja freqüência é determinada por
flutuações ocorridas ao acaso em pequenas populações, ou seja, as
forças seletivas que agem sobre ele são fracas se comparadas com
os efeitos do acaso; definido como s < l/(2Ne). Dessa maneira, tanto
os alelos estritamente neutros quanto aqueles sujeitos a forças
fracas de seleção, em pequenas populações, são seletivamente
neutros. São também conhecidos como efetivamente neutros.
Serviços ambientais São funções essenciais que os organismos vivos
prestam ao homem sem nenhum custo, como a reciclagem de
nutrientes, o controle de pestes e a polinização das colheitas.
Similaridade genética de Nei (IN) A medida mais utilizada de
similaridade genética entre as ffeqüências alélicas de duas
populações ou espécies, desenvolvida por Masatoshi Nei.
Simpátrica São populações que apresentam a mesma distribuição ou
distribuições sobrepostas.
SNP Veja Polimorfismo de nucleotídeos individuais.
Sonda DNA de um loco conhecido utilizado para hibridar com
outro DNA através do pareamento de bases complementares para
identificar seqüências similares nesse segundo DNA. A sonda é
geralmente marcada com radioatividade (por exemplo, com 32P)
de maneira que os fragmentos homólogos de DNA são detectados
utilizando-se auto-radiografia.
É um banco de dados contendo as genealogias e a história
Studbook
de vida de todos os indivíduos de uma população ou espécie;
geralmente apenas para populações de cativeiro.
Subespécie Populações geneticamente diferenciadas dentro de uma
espécie.
Substituição silenciosa É a substituição de uma base de DNA que não
altera a composição de aminoácidos de uma cadeia polipeptídica,
de maneira que não é influenciada pela seleção natural; também
conhecida como substituição sinônima.
Substituição sinônima Uma substituição de base que não resulta
em mudanças na composição de aminoácidos de uma proteína
transcrita por um loco; também chamada de substituição
silenciosa. São consideradas como sendo neutras ou fracamente
sujeitas à seleção.
Sucesso reprodutivo O número de descendentes férteis sobreviventes
até a idade reprodutiva deixado por um indivíduo na geração
seguinte; freqüentemente chamada de valor adaptativo.
Suporte reprodutivo É o aumento das populações selvagens com
indivíduos de uma população de cativeiro mantida para este
propósito.
Tamanho efetivo populacional (NJ O número de indivíduos que
apresentaria as mesmas intensidades de endocruzamento ou
de deriva genética se apresentassem o comportamento de uma
população ideal.
Tamanho populacional mínimo viável (MVP) O tamanho mínimo
de uma população que será viável em longo prazo, significando
uma probabilidade de extinção de, por exemplo, 1% em 1000
anos. Inicialmente, os tamanhos eram derivados a partir de
considerações genéticas, mas rapidamente ficou claro que as
estocasticidades demográfica, ambiental e as catástrofes naturais
também devem ser consideradas.
Taxa Várias populações pertencentes a uma unidade taxonômica,
como um conjunto de espécies, um conjunto de subespécies, etc.
Teoria da neutralidade Predições e teoria baseada na amostragem de
alelos neutros.
Teste de atribuição (Assigment test) Método de atribuir indivíduos
a seus grupos mais prováveis baseado em genótipos de múltiplos
locos de microssatélites usando estatísticas de agrupamento.
Utilizado para detectar migrantes.
Translocação É o movimento de um indivíduo de uma localidade
para outra.
União Internacional para Conservação da Natureza (IUCN
The World Conservation Union ) As iniciais inicialmente
representavam International Union for Conservation ofNature, que
246 I GLOSSÁRIO

mais tarde se expandiu para incluir ‘and Nature Reserves', mas a


organização atualmente se refere a ela própria com o primeiro
nome.
Unidade de manejo Uma população de uma espécie que é
suficientemente diferenciada geneticamente de outras populações
para merecer manejo separado.
Unidades evolutivamente significantes (ESU) Populações
parcialmente diferenciadas geneticamente que devem ser
manejadas como unidades separadas.
Valor adaptativo relativo O valor adaptativo de um genótipo
comparado com aquele do genótipo com valor adaptativo mais
alto, usualmente do mesmo loco. Por exemplo, se as taxas de
sobrevivência para os genótipos de um loco que confere resistência
ao warfarin são 30%, 80% e 54% para RR, RS e SS, seus valores
adaptativos relativos são 30/80 = 0,375, 80/80 = 1 e 54/80 = 0,68,
respectivamente.
Valor adaptativo Sucesso reprodutivo, por exemplo, o número de
filhotes férteis que sobrevivem até a idade reprodutiva deixados
por um indivíduo.
Vantagem do heterozigoto Uma forma de seleção na qual o
heterozigoto tem maior adaptabilidade do que os homozigotos
(sobredominância), por exemplo, a anemia falciforme em humanos
nas áreas de Malária. Isto resulta em manutenção ativa da variação
genética em populações muito grandes. É uma forma de seleção
balanceadora.
Variação genética quantitativa Variação genética que afeta um
caráter quantitativo, como o tamanho, taxa reprodutiva,
comportamento ou composição química. Presume-se ser devida ao
efeito cumulativo de muitos locos (QTL).
Variância Aditiva A proporção da variância genética para um caráter
quantitativo numa população que é devida à variação dos efeitos
médios dos alelos. VA é diretamente responsável pelo potencial
evolutivo e é uma função da heterozigose.
Variância ambiental A porção da variação fenotípica de um
caráter quantitativo particular que é causada pelo ambiente, por
exemplo, a variação exibida por uma população completamente
homozigota.
Variância da dominância A proporção de variação genética
quantitativa de um caractere em uma população que ocorre
devido aos desvios dos heterozigotos em relação ao efeito médio
dos homozigotos.
Variância de interação A proporção da variação genética quantitativa
de um caráter numa população que ocorre devido ao desvio
dos efeitos genotípicos em relação ao efeito médio dos locos
constituintes.
Variância É a medida de dispersão de variáveis quantitativas mais
comumente utilizada; é o desvio padrão elevado ao quadrado. É a
média dos desvios quadrados da média. È calculada como:
Onde: Xéa ié sima observação, X é a média, e n é o número total de
observações.
Variância fenotípica A variância de um fenótipo de um caráter
quantitativo numa população particular.
Varredura seletiva É a fixação de um único alelo devido à ação
da seleção natural, o que ao mesmo tempo reduz a diversidade
genética dos locos ligados ou das bases de DNA. Por exemplo,
a seleção agindo sobre uma ou algumas bases do DNAmt pode
resultar na fixação de um único haplótipo.
VNTR Número variável de repetições em tandem. Também chamado
defingerprint de DNA e minissatélites.
Vórtex de extinção A possível interação entre os impactos humanos,
o endocruzamento e as flutuações demográficas numa espiral que
leva para a extinção.
Vulnerável Uma espécie ou população com um risco tangível de
extinção dentro de um período de tempo moderado. AIUCN define
como sendo uma probabilidade de 10% em 100 anos.
Zona híbrida Uma área de sobreposição onde diferentes subespécies
ou espécies se misturam e se reproduzem, produzindo proles
híbridas.
Fontes de imagens, tabelas e exemplos

Agradecimentos aos autores e aos detentores dos direitos autorais


Estamos gratos às permissões concedidas para reproduzir os seguintes
materiais:

Capítulo 3, página frontal: Oxford University Press: da Fig. 8.2 de


Kettlewell, H. B. D. (1973) The Evolution of Melanism, Clarendon Press,
Oxford, UK.
Quadro 3.3, mapa: Blackwell Publishing Ltd: da Fig. 1 de Kettlewell, H. B.
D. (1958) A survey of the frequencies of Biston betularia (L.) (Lep.) and its
melanic forms in Great Britain. Heredity 12, 551-572.
Fig. 3.2: [c] Oxford University Press, 1976. Trabalho de Mourant, A. E., C.
Kopé & K. Domaniezska-Sobczak (1976) The Distribution of Human Blood
Groups and Other Polymorphisms, 2nd edn. Oxford University Press,
Oxford, UK.
Fig. 3.4: The Carnegie Institute of Washington: das Figs. 19, 23 e 25 de
Clausen, J., D. D. Keck & W. M. Heisey (1940) Experimental Studies on the
Nature of Species, vol, 1. Carnegie Institute of Washington Publication
no. 520, Washington, DC.
Quadro 4.2, mapa: Center for Applied Studies in Forestry, Steven F. Austin
State University: de James, F. (1995) The status of the red-cockaded
woodpecker and the prospects for recovery. In Kulhavy, D. L., P. G.
Hooper & R. Costa (eds.) The Red-Cockaded Woodpecker: Recovery, Ecology
and Management. Center for Applied Studies, Steven F. Austin State
University, Nacogdoches, TX.
Fig. 4.4: MIT Press: da Fig. 2 de Foose, T. J. (1986) Riders of the last ark.
In Kaufman, L. & K. Mallory (eds.) The Last Extinction. MIT Press,
Cambridge, MA.
Fig. 6.2: CSIRO Publishing: de Johnston, P. G., R. J. Davey & J. H. Seebeclc
(1984) Chromosome homologies in Potoroos tridactylis and P. longipes
based on G-banding patterns. Australian Journal of Zoology 32, 319-324.
Fig. 7.3: Blackwell Publishing Ltd: de Zhi, L., W. E. Johnson, M. A. Menotti-
Raymond, N. Yuhki, J. S. Martenson, S. Mainka, H. Shi-Quiang, Z. Zhihe,
G. Li, W. Pan, X. Mao & S. J. O’Brien (2001) Patterns of genetic diversity
in remaining giant panda populations. Conservation Biology 15,1596-
1607.
Fig. 9.9: Copyright (1995) National Academy of Sciences: de Bowen, B. W.
F., A. Abreu-Grobius, G. H. Balazas, N. Kamenzaki, C. J. Limpus & R. J.
Ferl (1995) Trans-Paci. c migrations of the loggerhead turtle (Caretta
caretta) demonstrated with mitochondrial DNA markers. Proceedings of
the National Academy of Sciences, USA 92, 3731-3734.
Fig. 9.10: Oxford University Press: de Fritch, P. & L. H. Reiseberg (1996) The
use of random amplified DNA in conservation genetics. In Molecular
Genetic Approaches to Conservation, eds. Thomas B. Smith & Robert K.
Wayne, copyright 1996 by Oxford University Press, Inc. Usado com
permissão da Oxford University Press, Inc.
250 I FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS

Fig. 9.12: John Wiley & Sons, Inc.: de Hedrick, P. W, P. S. Miller, E. Greffen
& R. Wayne (1997) Genetic evaluation of the three captive Mexican
wolf lineages. Zoo Biology 16, 47-69. Com permissão da Wiley-Liss, Inc., a
subsidiary of John Wiley & Sons, Inc.
Fig. 9.13: Kluwer Academic Publishers: de Lens, L., P. Galbusera, T.
Brooks, E. Waiyaki & T. Schenck (1998) Highly skewed sex ratios in
the critically endangered Taitra thrush as revealed by CHD genes.
Biodiversity and Conservation 7, 869-873.

FONTES DOS EXEMPLOS, FIGURAS E TABELAS


Albertani, F. B., C. Y. Miyaki & A. Wajntal. 1997. Extra-pair paternity in
Guaruba guarouba (Psittacidae, Psittaciformes) detected in captivity.
Ararajuba - Braz.J. Ornithol. 5,135-139.
Almeida-Toledo, L. F., M. F. Z. Daniel-Silva, C. B. Moyses, S. B. A. Fonteies, C.
E. Lopes, A. Akama & F. Foresti. 2002. Chromosome Evolution in Fish:
Sex chromosome variability in Eigenmannia virescens (Gymnotiformes,
Sternopygidae). Cytogenet. Genome Res. 99,164-169.
Avise, J. C. 1994. Molecular Markers, Natural History, and Evolution. Chapman
& Hall, New York.
Avise, J. C. 2000. Phylogeography: The History and Formation of Species.
Harvard University Press, Cambridge, MA.
Baker, C. S. & S. R. Palumbi. 1996. Population structure, molecular
systematics, and forensic identification of whales and dolphins. Pp. 10-
49 in J. C. Avise & J. L. Hamrick, eds. Conservation Genetics: Case Histories
from Nature. Chapman & Hall, New York.
Ballou, J. D. & R. C. Lacy. 1995. Identifying genetically important
individuals for management of genetic diversity in pedigreed
populations. Pp. 76-111 in J. D. Ballou, M. Gilpin & T. J. Foose, eds.
Population Management for Survival and Recovery: Analytical Methods and
Strategies in Small Population Conservation. Columbia University Press,
New York.
Ballou, J. D., R. C. Lacy, D. Kleiman, A. Rylands & S. Ellis. 1998.
Leontopithecus II: The Second Population and Habitat Viability Assessment for
Lion Tamarins (Leontopithecus): Final Report. Conservation Breeding
Specialist Group (SSC/IUCN), Apple Valley, MN.
Barone, M. A., M. E. Roelke, J. Howard, J. L. Brown, A. E. Anderson & D. E.
Wildt. 1994. Reproductive characteristics of male Florida panthers:
comparative studies from Florida, Texas, Colorado, Latin America, and
North American Zoos J. Mammal. 75,150-162.
Beheregaray, L. B., C. Cio., A. Caccone, J. P. Gibbs & J. R. Powell. 2002.
Genetic divergence, phylogeography and conservation units of giant
tortoises from Santa Cruz and Pinzön, Galapagos Islands. Conserv.
Genet. 4, 31-46.
Beheregaray, L. B., P. Sunnucks, D. L. Alpers, S. C. Banks & A. C. Taylor.
2000. Aset of microsatellite loci for the hairy-nosed wombats
(Lasiorhinus krefftii and L. latifrons). Conserv. Genet. 1 , 89-92.
Berger, J. 1990. Persistence of different sized populations: an empirical
assessment of rapid extinctions in bighorn sheep. Conserv. Biol. 4, 91-98.
FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS 251

Bowen, B. W., F. A. Abreu-Grobois, G. H. Balazs, N. Kamenzaki, C. J. Limpus


& R. J. Feri. 1995. Trans-Pacific migrations of the loggerhead turtle
(Caretta caretta)demonstratedwithmitochondrial DNA markers. Proc.
Natl. Acad. Sci. USA 92, 3731-3734.
Brandão, M. M. 2008. Diversidade genética de Myrcia splendens (SW.) DC.
(Myrtaceae) por marcadores ISSR, em sistema corredores-fragmentos
semideciduais no Sul de Minas Gerais, Brasil. Dissertação de mestrado,
Universidade Federal de Lavras, Lavras, MG.
Brook, B. W. & J. Kikkawa. 1998. Examining threats faced by island birds:
a population viability analysis on the Capricorn silvereye using long­
term data. J. Appl. Ecol. 35, 491-503.
Calcagnotto, D., L. F. Almeida-Toledo, G. Bernardino & S. A. Toledo-Filho.
1999. Biochemical-genetic characterization of FI reciprocal hybrids
between Neotropical pacu (Piaractus mesopotamicus) and tambaqui
(Colossoma macropomum) reared in Brazil. Aquaculture 174, 51-57.
Cantanhede, A.M., V.M.F. da Silva, I.P. Farias, T. Hrbek, S.M. Lazzarini, and
J.A. Alves-Gomes. 2005. Phylogeography and population genetics of the
endangered Amazonian manatee, Incheáius inunguis batterer, 18S3
(Mammalia, Sirenia). Molecular Ecology 14: 401-413.
Caparroz, R., C. Y. Miyaki, M. I. Bampi & A. Wajntal. 2001. Analysis of the
genetic variability in a sample of the remaining group of Spix’s Macaw
Cyanopsitta spixii (Psittaciformes: Aves) by DNA fingerprinting. Conserv.
Biol. 99, 307-311.
Carvalho, D. & F. A. Vieira. 2008. Genetic structure of an insect-pollinated
and bird-dispersed tropical tree in vegetation fragments and corridors:
implications for conservation. Biodiv. Conserv. (no prelo).
Clausen, J., D. D. Keck & W. M. Heisey. 1940. Experimental Studies on the
Nature of Species, vol. 1, Environmental Responses of Climatic Races of
Achillea. Carnegie Institute, Washington, DC.
Constable, J. L., M. V. Ashley, J. Goodall & A. E. Pusey. 2001. Noninvasive
paternity assignment in Gombe chimpanzees. Molecular Ecology 10,
1279-1300.
Crandall, K. A., O. R. P. Bininda-Edmonds, G. M. Mace & R. K. Wayne.
2000. Considering evolutionary processes in conservation biology:
an alternative to ‘evolutionary significant units’. Trends Ecol. Evol. 15,
290-295.
Culver, M., W. E. Johnson, J. Pecon-Slattery & S. J. O’Brien. 2000. Genomic
ancestry of the American puma (Puma concolor).J. Hered. 91,186-197.
Culver, M., W. E. Johnson, J. Pecon-Slattery & S. J. O’Brien. 2000. Genomic
ancestry of the American puma (Puma concolor).]. Heredity 91,186-197.
Cunha, H. A., V. M. F. Silva, J. Lailson-Brito, M. C. O. Santos, A. F. Azevedo,
P. A. Flores, A. Martin, A. B. L. Fragoso & A. M. Solé-Cava. 2005. Riverine
and marine ecotypes of Sotalia dolphins are different species. Mar. Biol.
148, 449-457.
Daniels, S. J., J. A. Priddy & J. R. Walters. 2000. Inbreeding in small
populations of red-cockaded woodpeckers: analyses using a spatially-
explicit simulation model. Pp. 129-147 in A. G. Young & G. M. Clarke,
eds. Genetics, Demography and Viability in Fragmented Populations.
Cambridge University Press, Cambridge, UK.
252 FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS

Daugherty, C. H., A. Cree, J. M. Hay & M. B. Thompson. 1990. Neglected


taxonomy and continuing extinctions of tuatara (Sphenodon). Nature
347,177-179.
De Bois, H., A. A. Dhondt & B. Van Puijenbroek. 1990. Effects of inbreeding
on juvenile survival of the okapi Okapi johnstoni in captivity. Biol
Conserv. 54,147-155.
Dizon, A., G. Lento, S. Baker, P. Parsboll, F. Capriano & R. Reeves. 2000.
Molecular genetic identification of whales, dolphins, and porpoises: Proceedings
of a Workshop on the forensic Use of Molecular Techniques to Identify Wildlife
Products in the Marketplace: NOA Technical Memorandum NMFS. US
Department of Commerce, Washington, DC.
Dobson, A. P., G. M. Mace, J. Poole & R. A. Brett. 1992. Conservation
biology: theecology and genetics of endangered species. Pp. 405-430 in
R. J. Berry, T. J. Crawford & G. M. Hewitt, eds. Genes in Ecology. Blackwell,
Oxford, UK.
Eizirik, E., J. Kim, M. Menotti-Raymond, P. G. Crawshawjr., S. J. O’Brien
& W. E. Johnson. 2001. Phylogeography, population history and
conservation genetics of jaguars (Panthera onca, Mammalia, Felidae).
Mol Ecol 10, 65-79.
Eizirik, E., S. L. Bonatto, W. E. Johnson, P. G. Crawshawjr., J. C. Vie, D. M.
Brousset, S. J. O’Brien & F. M. Salzano. 1998. Phylogeographic patterns
and evolution of the mitochondrial DNA control region in two
Neotropical cats (Mammalia, Felidae). J. Mol. Evol, 47, 613-624.
El-Kassaby, Y. A. & A. D. Yanchuk. 1994. Genetic diversity, differentiation,
and inbreeding in Pacific yew from British Columbia. J. Hered. 85,112-
117.
Eldridge, M. D. B., J. M. King, A. K. Loupis, P. B. S. Spencer, A. C. Taylor, L. C.
Pope & G. P. Hall. 1999. Unprecedented low levels of genetic variation
and inbreeding depression in an island population of the black-footed
rock wallaby. Conserv. Biol. 13, 531-541.
England, P. R. 1997. Conservation genetics of population bottlenecks. PhD thesis,
Macquaire University, Sydney, NSW, Australia.
Faria, P. J., N. M. R. Guedes, C. Yamashita, P. Martuscelli & C. Y. Miyaki.
2008. Genetic variation and population structure of the endangered
Hyacinth Macaw (Anodorhynchus hyacinthinus): implications for
conservation. Biodivers. Conserv. 17, 765-779.
Fenner, F. & F. N. Ratcliffe. 1965. Myxomatosis. Cambridge University Press,
Cambridge, UK.
Fernandes, F. A., G. P. Fernandez-Stolz, C. M. Lopes & T. R. O. Freitas. 2007.
The conservation status of the tuco-tucos, genus Ctenomys (Rodentia:
Ctenomyidae), in southern Brazil. Braz.J. Biol. 4, 839-847.
Fernandez-Stolz, G. P., J. F. B. Stolz & T. R. O. Freitas. 2007. Bottlenecks and
dispersal in the tuco-tuco-das-dunas, Ctenomys fiamarioni (Rodentia:
Ctenomyidae) in south Brazil. J. Mammal. 88, 935-945.
Ferreira, J. M., L. R. Oliveira, L. Wynen, M. N. Bester, C. Guinet, N. Moraes-
Barros, F. M. Martins, M. M. C. Muelbert, I. B. Moreno, S. Siciliano, P.
H. Ott & J. S. Morgante. 2008. Multiple origins of vagrant Subantarctic
fur seals: a long journey to the Brazilian coast detected by molecular
markers. Polar Biol. 31, 303-308.
FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS 253

Francisco, M. R., H. L. Gibbs, M. Galetti, V. O. Lunardi & P. M. Galetti


Jr. 2007. Genetic structure in a tropical lek-breeding bird, the blue
manakin (Chiroxiphia caudata) in the Brazilian Atlantic forest. Mol Ecol
16, 4908-4918.
Frankham, R. 1995. Inbreeding and extinction: a threshold effect. Conserv.
Biol 9, 792-799.
Freitas, T. R. O. 2007. Ctenomys lami: The highest chromosome variability
in Ctenomys due to a centric fusion/fission and pericentric inversion
system (Rodentia-Ctenomyidae). Acta Theriol. 52,171-180.
Fritsch, P. & L. H. Rieseberg. 1996. The use of random amplified
polymorphic DNA (RAPD) in conservation genetics. Pp. 54-73 in T. B.
Smith & R. K. Wayne, eds. Molecular Approaches in Conservation. Oxford
University Press, New York.
Fukami, H., A. F. Budd, C. A. Chen, G. Paulay, A. M. Solé-Cava, K. Iwao &
N. Knowlton. 2004. Conventional taxonomy obscures deep divergence
between Pacific and Atlantic Corals. Nature 427, 832-835.
Futuyma, D. J. 1998. Evolutionary Biology, 3rd edn. Sinauer, Sunderland,
MA.
Gava, A. & T. R. O. Freitas. 2003. Inter and intra-specific hybridization
in tuco-tucos (Ctenomys) from Brazilian coastal plains (Rodentia:
Ctenomyidae). Genetica 119,11-17.
Gottelli, D., C. Sillero-Zubiri, G. D. Appelbaum, M. S. Roy, D. J. Girman, J.
Garica-Moreno, E. A. Ostrander & R. K. Wayne. 1994. Molecular genetics
of the most endangered canid: the Ethiopian wolf Canis simensis. Mol
Ecol 3, 301-312.
Grant, B. S. 1999. Fine tuning the peppered moth paradigm. Evolution 53,
980-984.
Grativol, A. D., J. D. Ballou & R. C. Fleischer. 2001. Microsatellite variation
within and among recently fragmented populations of the golden lion
tamarin (Leontopithecus rosalia). Conserv. Genet. 2,1-9.
Gravena, W, T. Hrbek, V.M.F. da Silva, and I.P. Farias. 2008. Amazon pink
river dolphin love fetishes: from folklore to molecular forensics. Marine
Mammal Science. No prelo.
Groombridge, J. J., C. G. Jones, M. W. Bruford & R. A. Nichols. 2000. ‘Ghost’
alleles of the Mauritius kestrel. Nature 403, 616.
Gusmão, J., C. Lazoski & A. M. Solé-Cava. 2000. A new species of Penaeus
(Crustacea: Penaeidae) revealed by allozyme and cytochrome oxidase I
analyses. Mar. Biol 137, 435-446.
Gusmão, J., C. Lazoski & A. M. Solé-Cava. 2002. Um sistema de diagnóstico
molecular para a identificação de espécies comerciais de camarões
marinhos brasileiros. CIVA 2002: Comunicaciones y Foros de Discusión. I.
Bias, Zaragosa, Spain, pp 754-764.
Gusmão, J., C. Lazoski & A. M. Solé-Cava. 2005. Population genetic
structure in Brazilian shrimp species (Farfantepenaeus spp. and
Lithopenaeus schmidti Decapoda: Penaeidae). Genet. Mol. Biol 28,165-171.
Gusmão, J., C. Lazoski, F. A. Monteiro & A. M. Solé-Cava. 2006. Cryptic
species and population structuring of the Atlantic and Pacific seabob
shrimp species, Xiphopenaeus kroyeri (Heller 1862) and X. riveti (Bouvier
1907). Mar. Biol 149, 491-502.
254 FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS

Hamrick, J. L. & M. J. W. Godt. 1989. Allozyme diversity in plant species.


Pp. 43-63 in A. H. D. Brown, M. T. Clegg, A. L. Kahler & B. S. Weir,
eds. Plant Population Genetics, Breeding, and Genetic Resources. Sinauer,
Sunderland, MA.
Hatanaka, T., F. H. Silva & P. M. Galetti Jr. 2006. Population substructuring
in a migratory freshwater fish Prochilodus argenteus (Characiformes,
Prochilodontidae) from the São Francisco River. Genetica 126,153-159.
Hedrick, P. W. 1983. Genetics of Populations. Science Books International,
Boston, MA.
Hedrick, P. W. 2000. Genetics of Populations, 2nd edn. Jones & Bartlett,
Sudbury, MA.
Hedrick, P. W., P. S. Miller, E. Geffen & R. Wayne. 1997. Genetic evaluation
of the three Mexican wolf lineages. Zoo Biol. 16, 47-69.
Houlden, B. A., B. H. Costello, D. Sharkely, E. V. Fowler, A. Melzer, W. Ellis,
F. Carrick, P. R. Baverstock & M. S. Elphinstone. 1998. Phylogeographic
differentiation in the mitochondrial control region in the koala,
Phascolarctos cinereus (Goldfuss 1817). Mol. Ecol. 8, 999-1011.
Houlden, B. A., P. R. England, A. C. Taylor, W. D. Greville & W. B. Sherwin.
1996. Low genetic variability of the koala Phascolarctos cinereus in
southeastern Australia. Mol. Ecol. 5, 269-281.
Houle, D., B. Morikawa & M. Lynch. 1996. Comparing mutational
variabilities. Genetics 143,1467-1483.
Hrbek, T., I. P. Farias, M. Crossa, I. Sampaio, J. I. R. Porto & A. Meyer.
2005. Population genetic analysis of Arapaima gigas, one of the
largest freshwater fishes of the Amazon basin: implications for its
conservation. Anim. Conserv. 8, 297-308.
Hrbek, T., M. Crossa, and I.P. Farias. 2007. Conservation strategies for
Arapaima gigas (Schinz, 1822) and the Amazonian varzea ecosystem.
Brazilian Journal of Biology 67: 909-917.
Ignácio, B. L., T. M. Absher, C. Lazoski & A. M. Solé-Cava. 2000. Genetic
evidence for the presence of two species of Crassostrea (Bivalvia:
Ostreidae) on the coast of Brazil. Mar. Biol. 136, 987-991.
IUCN. 1996.1996IUCN Red List of Threatened Animals. IUCN, Gland,
Switzerland.
Johnson, W. E., J. Pecon-Slattery, E. Eizirik, J. Kim, M. Menotti-Raymond,
C. Bonacic, R. Cambre, P. G. Crawshaw Jr., A. V. Nunes, H. Seuanez, M.
A. Moreira, K. L. Seymour, F. Simon, W. Swanson & S. J. O’Brien. 1999.
Disparate phylogeographic patterns of molecular genetic variation
in four closely related South American small cat species. Mol. Ecol. 8,
S79-S94.
Kettlewell, H. B. D. 1973. The Evolution of Melanism. Clarendon Press,
Oxford, UK.
Kulhavy, D. L., R. G. Hooper & R. Costa. 1995. Red-cockaded Woodpecker:
Recovery, Ecology and Management. Center for Applied Studies, Stephen F.
Austin State University, Nacogdoches, TX.
Land, D. E. & R. C. Lacy. 2000. Introgression level achieved through Florida
panther genetic restoration. Endang. Sp. Updates 17, 99-103.
Lens, L., P. Galbusera, T. Brooks, E. Waiyaki & T. Schenck. 1998. Highly
skewed sex ratios in the critically endangered Taita thrush as revealed
by CHD genes. Biodiver. Conserv. 7, 869-873.
FONTES DE IMAGENS, TABELAS E EXEMPLOS 255

Lopez, I. R, C. I. Mino & S. N. Del Lama. 2007. Genetic diversity and


evidence of recent demographic expansion in waterbird populations
from Brazilian Pantanal. Braz.J. Biol 67, 849-857.
Lu, Z., W. E. Johnson, M. A. Menotti-Raymond, N. Yuhki, J. S. Martenson,
S. Mainka, H. Shi-Quiang, Z. Zhihe, G. Li, W. Pan, X. Mao & S. J.
O’Brien. 2001. Patterns of genetic diversity in remaining giant panda
populations. Conserv. Biol. 15,1596-1607.
Lunardi, V. O., M. R. Francisco & P. M. Galetti Jr. 2007. Population
structuring of the endemic black-cheeked gnateater, Conopophaga
melanops melanops (Vieillot, 1818) (Aves, Conopophagidae), in the
Brazilian Atlantic Forest. Braz.J. Biol 67, 867-872.
Lynch, M. & B. Walsh. 1998. Genetics and Analysis of Quantitative Traits.
Sinauer, Sunderland, MA.
Madsen, T., R. Shine, M. Olsson & H. Wittzell. 1999. Restoration of an
inbred adder population. Nature 402, 34-35.
Majerus, M. E. N. 1998. Melanism: Evolution in Action. Oxford University
Press, Oxford, UK.
Milne, H. & F. W. Robertson. 1965. Polymorphism in egg albumen and
behaviour in eider ducks. Nature 205, 367-369.
Miyaki, C. Y., J. M. B. Duarte, R. Caparroz, A. L. N. Nunes & A. Wajntal.
1997. Sex identification of Brazilian parrots (Psittacidae, Aves) using
the human minisatellite probe 33.15. Aide 114, 516-520.
Miyaki, C. Y., R. Griffiths, K. Orr, L. A. Nahum, S. L. Pereira & A. Wajntal.
1998. Sex identification of parrots, toucans and curassows by PCR:
perspectives for wild and captive population studies. Zoo Biol 17, 415-
423.
Miyaki, C. Y., S. L. Pereira, I. Biasia & A. Wajntal. 1997. DNA fingerprinting
applied to parrot captive breeding programs. Ararajuba - Braz.J.
Ornithol. 5,127-133.
Molina, W. R, O. A. Shibatta & P. M. Galetti Jr. 2008. Chromosomal
evidence of population subdivision in the freshwater fish Leporinus
elongatus in the Upper Paraná River basin. Genet. Mol Biol. 31, 270-274.
Moritz, C., J. Worthington Wilmer, L. Pope, W. B. Sherwin, A. C. Taylor &
C. J. Limpus. 1996. Applications of genetics to the conservation and
management of Australian fauna: four case studies from Queensland.
Pp. 442-456 in T. B. Smith & R. K. Wayne, eds. Molecular Genetic
Approaches to Conservation. Oxford University Press, New York.
Norman, J., P. Olsen & L. Christidis. 1998. Molecular genetics confirms
taxonomic affinities of the endangered Norfolk Island boobook Ninox
novaeseelandiae undulata. Biol Conserv. 86, 33-36.
Nunney, L. & K. A. Campbell. 1993. Assessing minimum viable population
size: demography meets population genetics. Trends Ecol. Evol 8, 234-
239.
Oliveira, A. R, D. Carvalho & S. C. S. Rosado. 2002. Taxa de cruzamento e
sistema reprodutivo de uma população natural de Copaifera langsdorffii
Desf. na região de Lavras (MG)