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Em Memoriam: Věra Chytilová (1929-2014)1

Meredith Slifkin

Em uma época de censura e austeridade durante a ocupação comunista da Tchecoslováquia


após a Segunda Guerra Mundial, sua Nouvelle Vague cinematográfica surgiu como um
veículo de rebelião política e expressão estética que causaria agitação tanto na consciência
cinematográfica quanto no cinema de arte internacional. Věra Chytilová era uma integrante
e a única mulher proeminente no círculo de cineastas tchecos que, durante os anos
sessenta, criaram filmes que desafiavam as convenções do cinema clássico e desafiavam o
opressivo regime político-cultural.

Chytilová nasceu na cidade de Ostrava, na Morávia, em 1929. Ela acabaria por deixar sua
cidade natal e sua rigorosa educação católica (temas religiosos críticos apareceriam mais
tarde em seus filmes) para trabalhar como modelo e, em seguida, como operadora de
claquete para os Estúdios de Cinema Barrandov, em Praga, antes de estudar produção de
filmes na FAMU (Academia de Artes Performáticas de Praga). Outros notáveis graduados da
FAMU e amigos e colaboradores da Chytilová incluíam Jiři Menzel, Ivan Passer, Miloš
Forman e Jan Nemec - os quais viriam a definir este período da Nouvelle Vague Tcheca com
filmes como Trens estreitamente vigiados (Ostře sledované vlaky, 1966), O baile dos
bombeiros (Hoří, má panenko, 1967) e A piada (Zert, 1969), que focava no surrealismo e no
humor negro do cotidiano e da identidade nacional sob o regime Comunista.

Embora o nome de Forman seja frequentemente o mais lembrado, é Chytilová cujo trabalho
se destaca como o mais radical, experimental, iconoclasta e abertamente feminista entre
seus colegas (não apenas dessa nova onda, mas talvez de qualquer nova onda européia).
Seus primeiros trabalhos, Teto (Strop, 1962), Saco de pulgas (Pytel blech, 1962) e Algo
diferente (O ně č em jiném, 1963), que enfocam as questões da indústria da moda, educação
feminina e vida doméstica respectivamente, estabeleceram Chytilová como não apenas
uma força artística a ser considerada, mas como uma diretora feminina despreocupada em
assimilar-se a suas contrapartes masculinas. Ao invés disso, Chytilová dedicou-se com
fervor revolucionário a quebrar as convenções da representação feminina na tela.

As pequenas margaridas (Sedmikrásky, 1966) é seu filme mais famoso e mais experimental
e que perturbou as convenções políticas, artísticas e de gênero da época. A descrição mais
simples do filme (e não há descrição simples) é de que se trata de duas amigas que,
completamente entediadas com tudo, decidem causar estragos aos homens que encontram

1Publicado originalmente em Film Comment em 19 de março de 2014. Tradução de Maria Almeida.


Disponível on-line em: https://www.filmcomment.com/blog/in-memoriam-vera-chytilova/

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e à sociedade de consumo em geral. O sonho febril existencial que é seu filme faz com que
Spring Breakers (2012), de Harmony Korine, pareça um passeio no parque, enquanto as
duas meninas mergulham em vinhetas surrealistas que tomam a forma de um conto cômico
e ridículo sobre a moralidade (o título em tcheco do filme é Sedmikrásky, que também pode
ser traduzido como “sete belezas” - uma brincadeira com os sete pecados capitais).

O filme é repleto de narrativas e de rupturas formais, bem como usos expressivos de cor e
imagens bíblicas, resultando em um opus magnum visual que é tão despretensiosamente
bem humorado como é duramente crítico da sociedade tcheca e dos papéis determinantes
atribuídos às mulheres. É um manifesto da Terceira Onda do feminismo antes mesmo de tal
coisa existir. As pequenas margaridas também marca uma colaboração significativa entre
Chytilová e seu marido, Jaroslav Kučera, o diretor de fotografia do filme, e amiga Ester
Krumbachová, o chefe roteirista e designer de produção (com quem ela iria colaborar em
1969 em Fruto do paraíso [Ovoce stromu rajských jíme], uma releitura do conto de Adão e
Eva).

Chytilová seguiu fazendo muitos filmes depois do final da Primavera de Praga de 1968,
quando os comunistas soviéticos impuseram leis ainda mais rígidas de censura, e muitos de
seus colegas do sexo masculino fugiram do país. Consequentemente, seus trabalhos
posteriores nunca obtiveram o mesmo nível de distribuição e reconhecimento de seus
filmes anteriores, embora ela continuasse testando os limites ao criticar a vida sob o
comunismo (Conjunto habitacional [Panelstory aneb jak se Rodí Sídliště, 1979]) e ao fazer
um dos primeiros filmes a retratar a AIDS (Tainted Horseplay, 1989).

Ao longo de sua carreira, Chytilová provou ser uma artista estilisticamente iconoclasta e
absolutamente essencial para a formação da Nouvelle Vague Tcheca - um movimento
cinematográfico com mais em jogo do que a Nouvelle Vague Francesa, obcecada com a
representação nas telas da burguesia, com a identidade nacional e as implicações
sociopolíticas da arte revolucionária. Com sua morte, a comunidade cinematográfica tcheca
e internacional perde uma artista visionária e ativista, bem como um exemplo pioneiro
para diretoras do todo o mundo.