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ARTIGOS

REUNIDOS
por Purushatraya Swami

Dedicado a:
Sua Divina Graça A.C. Bhaktivedanta
Swami Prabhupada
Acarya-Fundador da ISKCON e BBT

2
Sumário
Capa
Sumário

·
Capítulo 1 Ciência do Mantra
Criando condições
Capítulo 2 · para o crescimento
pessoal
O ideal da vida
Capítulo 3 ·
comunitária
Capítulo 4 · Valorizando a vida
Psicologia
Capítulo 5 · Humanista e
Autorrealização
Raio X da guerra e

3
Capítulo 6 Raio X da guerra e
·da paz

Um Devoto do Deus
Capítulo 7 ·
Pessoal
Capítulo 8 · A Arte de Pregar
Dando um novo
Capítulo 9 ·
sentido à vida
Extra
Biografia
Autor

4
Obras de Sua Santidade
Purushatraya Swami
Sanidade Espiritual - Reflexões do Aqui e do Porvir
O Monge e o Aposentado - Reencontro de Dois Amigos de
Infância

Disponíveis em:
sankirtana.com.br

5
A Sociedade Internacional para a
Consciência de Krishna (ISKCON) convida
os interessados no assunto a se
corresponderem ou visitarem um Templo,
Comunidade ou Centro de Estudos.

Acesse:
iskcon.com.br

Belo Horizonte Mandir


Rua Ametista, 212, Bairro Prado
Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil
Fone: +55 (31) 3337-7645
harekrishnabh.com.br

Instituto Jaladuta
Rua Dr. Abdias da Silva Campos, 122, Novo
Bodocongó
Campina Grande, Paraíba, Brasil
Fone: +55 (83) 3333-7044
institutojaladuta.com

Goura Vrindávana
Rodovia Rio-Santos, BR 101, KM 562,

6
Graúna
Paraty, Rio de Janeiro, Brasil
goura.com.br

7
Direitos Autorais 2006
Autor: Purushatraya Swami
Organizador: Sankirtana Dasa

ISBN
Primeira edição e-book: Novembro de 2017
versão 1.1 - 23.11.17
Para a sociedade moderna, o referencial do sucesso na vida é
dinheiro, fama e poder. Porém o verdadeiro sucesso é a
autoconfiança, paz interior e felicidade plena que são
alcançados com a sanidade da alma. O livro trata-se de uma
coletânea de artigos escritos por Purushatraya Swami.

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Capítulo 1
CIÊNCIA DO
MANTRA
O mantra é uma composição de
palavras de natureza exclusivamente
espiritual, sem nenhuma conotação
secular. Essas palavras possuem a
potência intrínseca de atuar
diretamente na consciência da pessoa.
Devido à sua natureza puramente
espiritual, o mantra tem o poder de
elevar a consciência da pessoa, do
nível material ao espiritual.

“Mantra” é uma entre várias palavras

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do idioma sânscrito que têm se
infiltrado em nossa língua. Essa e
várias outras palavras têm passado
por um processo de
aportuguesamento, tornando-se
correntes em nosso idioma. Já
conquistaram, inclusive, um
lugarzinho nos mais conceituados
dicionários da língua portuguesa. O
sânscrito foi, num passado remoto, o
idioma corrente da gloriosa Índia
védica. Hoje em dia, é considerado
pelos meios acadêmicos do Ocidente
como uma “língua morta”. Existe, no
entanto, um forte movimento nos
meios acadêmicos indianos para
restabelecer o sânscrito como o
idioma corrente entre o povo,
substituindo, assim, as dezenas de

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línguas oficiais e dialetos regionais
encontrados na Índia. Isso certamente
traria um sentido maior de unidade no
país, afirmam eles.

A questão aqui é confirmar se o


sânscrito está realmente “morto”, pois
vemos que esse idioma milenar tem
fornecido uma série de palavras que
se incorporaram ao nosso vernáculo.
Numa rápida passada de olhos,
encontramos no “Novo Aurélio”
várias palavras oriundas da mesma
fonte, como, por exemplo: ioga, hata-
ioga, ássana, carma, krishna, hare
krishna, mandala, veda, védico,
vedanta, upanixade, tantra, darsana,
darma, pranama, prana, bramanas,
brâmane, guru, Buda, atma. A lista
certamente vai bem mais longe. Isso

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demonstra que certos valores
culturais dessa tradição milenar estão
resistindo ao crivo do tempo e ainda
estão vivos e atuantes, conquistando
gradualmente espaços na vida
moderna contemporânea.

O sânscrito é considerado a língua


mãe da humanidade. Sua gramática é
elaboradíssima. Os mais antigos
textos sagrados – os quatro Vedas, os
Upanishades, os Puranas, os épicos
Ramayana e Mahabharata,
Bhagavad–gita e muitos outros – são
escritos em sânscrito. Uma
característica única desse idioma é
que uma vasta porção de seu
vocabulário é constituído de palavras
que expressam, com extrema
precisão, os esotéricos e intrincados

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conceitos referentes à espiritualidade
e à Transcendência. Nenhuma outra
língua no mundo tem tal afinidade
com os assuntos espirituais.

Lemos no dicionário Novo Aurélio:


“Mantra [do sânscrito mantra,
‘instrumento para conduzir
pensamento’]. No tantrismo, fórmula
encantatória que tem o poder de
materializar a divindade invocada”.
Com referência a essa definição,
queremos mostrar que o conceito de
“mantra”, em vez de se fechar
exclusivamente no tantrismo, que, de
acordo com o dicionário, é
“caracterizado pela magia e
ocultismo”, pode abrir-se para
diferentes enfoques e revelar
caminhos de espiritualidade de

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extremo valor.

O mantra é uma composição de


palavras de natureza exclusivamente
espiritual, sem nenhuma conotação
secular. Essas palavras possuem a
potência intrínseca de atuar
diretamente na consciência da pessoa.
Devido à sua natureza puramente
espiritual, o mantra tem o poder de
elevar a consciência da pessoa, do
nível material ao espiritual. Na
consciência espiritual, a consciência
individual conecta-se com a
Transcendência.

Podemos nos conectar com tais


planos de consciência superiores
basicamente de duas maneiras.
Primeiramente, desenvolvendo-se

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uma potencialidade específica
intrínseca da natureza humana – a
intuição espiritual, ou, como
normalmente é designada, a fé.
Quando a fé está consubstanciada
num intelecto purificado e forte, as
possibilidades de se captar insights da
Transcendência são ilimitadas. A
conexão da consciência individual
com a Transcendência é feita a partir
da meditação, da oração, da reflexão,
da contemplação e, também, do doar-
se.

Outra possibilidade de conexão com a


Transcendência é através da prática
de mantra-yoga. Essa prática pode ser
sonora ou mental. A grande virtude
do mantra é que o próprio som do
mantra é investido de poder para

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desvendar e revelar realidades
concernentes a planos de consciência
superiores. É afirmado nas escrituras
védicas que os nomes que designam a
Divindade têm o poder, embutido na
própria palavra, de revelar essa
Divindade à consciência individual.
Como é afirmado no texto sagrado
Padma Purana – abhinnatvan nama-
naminoh – “existe identidade (não-
diferença: abhinnatva) entre o nome e
aquilo que está sendo nomeado”.

No plano de existência material –


fenomenal, empírico e relativo – em
que vivemos, existe sempre uma
dicotomia qualitativa entre a palavra
e seu significado. A palavra “água” e
a substância “água” são entidades
diferentes. A conexão entre a palavra

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e a substância é meramente subjetiva.
O pronunciar de “água” não aplaca a
sede. Já no plano absoluto espiritual,
a palavra em si encerra a potência
vibratória que representa. Mesmo não
conhecendo o significado, a vibração
sonora do mantra atuará na
consciência de quem o emite, assim
como de quem escuta. É como um
remédio apropriado para determinada
enfermidade – mesmo sem
conhecermos sua fórmula, somos
beneficiados por sua ação curativa,
obviamente se for usado de acordo
com as prescrições médicas.

A repetição sistemática do mantra é,


comprovadamente, um eficaz
exercício para as funções mentais.
Esse é o efeito mais tangível da

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prática de mantra-yoga. Com essa
prática, a mente e o intelecto tornam-
se mais ‘elásticos’, ‘flexíveis’, fortes,
concentrados e controlados. Por outro
lado, corrige-se a tendência à
dispersão, falta de foco, preguiça
mental, em suma, todos os tipos de
limitações e travações mentais. Essa
prática pode ser executada através da
meditação silenciosa ou repetição
sonora, como um murmúrio,
denominado japa. Em ambas as
práticas, prescreve-se uma postura
sentada ereta (ásana), mente livre de
qualquer turbulência ou distração e
total concentração no som do mantra.

O mantra também pode ser cantado


em voz alta, agregando-se a ele uma
melodia. Isso se chama kirtana, ou

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sankirtana, quando o canto é feito em
grupo. Esse canto pode também estar
associado à dança. Essa prática, se
executada com absorção,
espontaneidade e arrebatamento, é
considerada como uma meditação
dinâmica. O importante nessa prática
é a pura expressão da alma. Deve-se,
portanto, coibir as expressões
corpóreas sensuais, que prendem a
consciência ao plano físico grosseiro.
O contato sistemático com o som
puro do mantra purifica a mente. A
pessoa adquire maior capacidade para
manter sob controle as chamadas
‘paixões irracionais’, como ira,
cobiça, inveja, ciúme, luxúria, assim
como muitas outras dinâmicas
mentais perversas, como diferentes

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tipos de compulsão, medos
injustificados, depressão, tendências à
lamentação, autopiedade, intriga,
fofoca, etc.

O mantra abre os canais da


consciência para percepções
suprassensoriais e sintoniza a
consciência com níveis vibratórios
superiores. Isso ocorre
simultaneamente em duas vias:
emissão e recepção. A emissão de
vibração sonora mântrica, através de
ação individual consciente e
deliberada, faz com que a mente e a
consciência, como um todo, vibre na
mesma frequência espiritual do
mantra. Por sua vez, essa vibração
espiritual emitida atrairá uma
vibração espiritual arquetípica, de

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mesma frequência, presente no éter.
Esse mesmo princípio rege o
funcionamento de um aparelho
receptor comum de radiodifusão, o
rádio de cabeceira ou o radinho de
pilha: ele emite determinada
frequência que, por sua vez, atrai as
ondas da mesma frequência presentes
no éter, que estão carregadas com as
mensagens sonoras que foram
emitidas na estação transmissora. De
forma similar, a consciência
individual pode conectar-se com a
Transcendência e receber energia
espiritual pela prática de mantra-
yoga. A consciência da pessoa fica
sobrecarregada com energia
espiritual.

Por fim, a prática do mantra causa

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uma revolução no coração. Os mais
refinados sentimentos de amor a
Deus, que podem fazer ‘amolecer’ os
corações mais duros, são ‘efeitos
colaterais’ do mantra. Muitas
pessoas, hoje em dia, geralmente com
certa escolaridade, mas carentes de
cultura espiritual, desenvolvem uma
atitude fria, indiferente, crítica e até
cínica com respeito à espiritualidade.
A tendência é desdenhar a
consciência religiosa, considerando-a
meramente sentimental e piegas. A
ideia de Deus é tida como algo
concebido pela mente humana.
Considera-se que a fé é um
mecanismo mental vicioso para
compensar alguma carência psíquica.
Com isso, a vida em nosso plano de

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existência perde todo o caráter
sagrado. O próprio fenômeno da
consciência e do milagre da vida são
tratados com a mesma metodologia
mecanicista e reducionista usada na
manipulação dos fenômenos e
elementos físicos grosseiros. Essa
maravilhosa criação cósmica fica
reduzida a um fluxo aleatório de
forças exclusivamente materiais, sem
nenhum vínculo com a
Transcendência.

Pois bem, pela prática do mantra


pode-se reverter radicalmente esse
quadro. É o que podemos chamar
‘mudança de paradigma’. Uma nova
visão de mundo passa a enfocar mais
as maravilhas do fenômeno da vida,
assim como a realidade de Deus e

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nossa dependência nEle. A vida passa
a ter um significado, assume uma
nova dimensão. O meio ambiente, por
mais adverso que seja, deixa de
implacavelmente influenciar a
consciência. A consciência desperta,
superando assim o perigo da
alienação, ignorância e
autodestruição. Olha-se sempre para
frente – do passado, só os
ensinamentos derivados das
experiências. A morte, que
normalmente é tida como o terror da
vida, passa ser o marco de uma
renovação muitíssimo auspiciosa –
fim de um ciclo e começo de outro,
melhor. Por fim, no coração acende-
se a chama beatífica do amor a Deus,
a máxima conquista da existência

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terrena.

Dentre os muitos mantras da tradição


védica, um, particularmente, tem uma
importância especial. Trata-se do
maha-mantra Hare Krishna. (maha-
mantra significa “grande mantra”)
Esse mantra védico está enunciado no
Kalisantarana Upanishad, verso seis
do quinto capítulo. É formado por
três palavras – Hare, Krishna e Rama
–, que se combinam de um jeito bem
particular:

hare krishna hare krishna, krishna


krishna hare hare, hare rama hare
rama, rama rama hare hare

Essa mesma escritura explica: “Essas


dezesseis palavras do maha-mantra

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têm o poder de neutralizar os efeitos
negativos da sofrida era de Kali
(Kali-yuga) em que vivemos. Todas
as escrituras confirmam que não
existe processo mais potente de
elevação espiritual do que o canto ou
meditação desse mantra”.

Tenho tido uma experiência diária


com o maha-mantra nos últimos trinta
anos. Nessa prática, usa-se um rosário
com cento e oito contas, chamado
japa-mala. Uma das experiências que
podemos ter, depois de todos esses
anos, é que o maha-mantra continua
com o mesmo frescor que teve ao
início de nossa prática. Ouso
inclusive dizer que se torna cada vez
mais deleitável e renovado. Essa é
uma prova cabal de sua natureza

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transcendental. Qualquer som secular
já teria chegado aos limites da
saturação.

27
Capítulo 2
CRIANDO
CONDIÇÕES
PARA O
CRESCIMENTO
PESSOAL
Abraham Maslow, destacado
psicólogo americano, falecido há
cerca de trinta anos, ao contrário do
que normalmente é a prática em sua
profissão, não dedicou-se,

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exclusivamente, em tratar casos
patológicos. Ele concentrou suas
pesquisas para explorar e entender o
potencial das pessoas mais saudáveis,
mais criativas, mais sábias, mais
santas, em suma, mais humanas,
conforme sua terminologia.

Entre suas pesquisas, Maslow


procurou entender cientificamente
quais são as necessidades básicas
para uma pessoa desenvolver
naturalmente suas potencialidades
psíquicas e espirituais. A pesquisa
resultou numa pequena lista de
condições aparentemente bem
simples. Primeiramente, a pessoa
necessita ter um sentimento de
proteção e segurança, essencial na
primeira fase da vida.

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Necessita, também, ter o sentimento
de pertencer, por direito, a algum
grupo social — família, comunidade
ou qualquer grupo com que se
identifique. Terceiro, é necessário
que sinta que outras pessoas têm
afeição por ela, que é digna de ser
amada e, por fim, que viva num
ambiente onde haja respeito. Mesmo
tão simples e naturais, essas
condições básicas para o desabrochar
do ilimitado potencial humano são,
hoje em dia, difíceis de serem
encontradas em nosso meio. A
sociedade moderna torna-se cada vez
mais opressora, caótica e carente de
valores.

Principalmente nas cidades grandes o


quadro é trágico e desolador. Vemos

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futilidades por toda parte, assim
como graves sintomas de crescente
decadência moral. Temos que
conviver com violência, corrupção,
oportunismos, abusos e desrespeitos
de toda forma. Até mesmo dentro da
instituição familiar, que deveria ser
nosso mais seguro e confortante
refúgio natural e berço de nosso
crescimento espiritual, vemos que
são, em inúmeros casos, focos de
discórdia e desintegração. Como,
então, desenvolver qualidades e
crescer espiritualmente em meio a
ambientes tão adversos? A nível
pessoal, a situação é igualmente
mórbida e desesperançosa. Em geral,
as pessoas estão meramente
sobrevivendo em estados beirando a

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insanidade. é raro encontrarmos
pessoas psicologicamente sãs,
realmente felizes e dedicadas à
atividades construtivas. Vemos, por
todo o lado, pessoas vazias e perdidas
sem nenhuma perspectiva superior de
vida. Em muitos casos, a atrativa
fachada do suposto ‘sucesso na vida’,
a saber, dinheiro, fama e poder,
esconde uma vida interior de
frustrações, remorsos, depressão,
pânico e autodestruição.

Devido ao meio ambiente viciado e


hostil as pessoas fecham-se em si
mesmas, bloqueando sua capacidade
e propensão natural de amar. Numa
certa classe de pessoas os egos
incham, tornando-os monstros
narcisistas, totalmente insensíveis à

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individualidade do próximo. No caso
mais geral, os egos murcham,
tornando-as robôs apáticos e
medíocres, tendo, invariavelmente, a
TV como único e último refúgio e
consolo. Em meio a tudo isso, vemos
que ainda existem pessoas que
conservam a integridade e estão
preocupadas tanto com a situação
planetária quanto seu próprio
aperfeiçoamento e desenvolvimento.
O que deve ser feito para favorecer
essas pessoas? Como criar condições
favoráveis para o seu crescimento
interno? O que podemos fazer por
esse planeta tão maltratado? Como
criar oportunidades para jovens que
ainda não se corromperam
totalmente?

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Diante disso, vemos a importância do
projeto de Goura-Vrindávana. Este
projeto está desenvolvendo condições
ideais para aqueles que são sinceros
em suas aspirações espirituais e têm
como objetivo o desenvolvimento
máximo das potencialidades
humanas.

Nesse processo, uns ajudam aos


outros. Os mais antigos, maduros e
experientes assessoram os mais
jovens em suas caminhadas de
crescimento. Nessa atmosfera de
cooperação, interesse comum,
desprendimento, sacrifício do ego e
sintonia com os mais elevados ideais,
os frutos são abundantes e da melhor
qualidade. Uma atenção especial deve
ser dada aos relacionamentos. Muitas

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vezes, motivos fúteis destroem anos
de relacionamento. Portanto, cultivar,
enriquecer e aprofundar os
relacionamentos por toda a vida é
uma proposta que requer toda a
atenção, carinho e dedicação.

A maturidade dos relacionamentos é


alcançada quando o grupo chega ao
estágio de comunidade. Tal espírito
de comunidade é atingido quando
todos têm um objetivo comum e um
forte desejo de manter, a qualquer
preço, um ambiente de harmonia,
respeito, solidariedade e devoção.
Nessa atmosfera, a mais sublime e
suprema motivação da vida— amor
puro por Deus e dedicação completa
e espontânea em Seu serviço— pode
ser realizada.

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Oramos a Krishna que Suas bençãos
sejam derramadas aos membros da
comunidade espiritual Goura-
Vrindávana, assim como aos nossos
amigos e todas as pessoas que nos
apoiam, para que todos tenham
inteligência, sensibilidade, harmonia
e muita determinação para conduzir o
desenvolvimento desse projeto. Que
essa seja nossa contribuição para um
porvir mais auspicioso na Terra.

36
Capítulo 3
O IDEAL DA
VIDA
COMUNITÁRIA
A idéia de formar uma comunidade
espiritual em tempos tão
desfavoráveis para tal tipo de
empreendimento é um desafio que
estamos dispostos a enfrentar. Nos
dias de hoje, a era da massificação, as
pessoas tornam-se mais e mais
individualistas. é interessante que
trata-se, na verdade, de um paradoxo:

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quanto mais massificadas, mais
individualistas. Cada indivíduo está
preso a seu mundinho privado,
curtindo suas mágoas, alimentando
seus sonhos e reunindo forças para
encarar a realidade do dia-a-dia. A
vida resume-se, em geral, em
atividades exclusivamente de
sobrevivência e entretenimento.
Poucos preocupam-se com o bem
mais precioso, sua própria alma, e o
que dizer, com o bem comum. Mas,
dentre os poucos que ainda se
preocupam, o exíguo tempo
disponível e a massacrante dinâmica
da vida urbana praticamente descarta
qualquer possibilidade de dedicação e
cultivo de interesses superiores.
Conseqüentemente, qualquer

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proposta alternativa, fora dos padrões
massificantes, é, na maioria das
vezes, fadada ao fracasso.

Mesmo diante desse quadro,


persistimos em nossa proposta de
juntar forças num mesmo ideal.
Queremos juntar pessoas
voluntariosas e empreendedoras num
mesmo projeto consciente de Deus.
Geralmente, esse tipo de pessoas tem
suas agendas cheias de um sem fim
de interesses e praticamente não
sobra tempo. Mas essas são
exatamente as pessoas que estamos
atrás. Não queremos apáticos,
carentes, irresponsáveis e não
resolvidos. Queremos formar um
grupo que esteja à altura do ideal da
missão de Srila Prabhupada.

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A Comunidade Sustentável &
Ashram Hare Krishna “Goura
Vrindávana” representa nossa
humilde contribuição para
continuidade da missão que Srila
Prabhupada implantou. Essa missão
transcende os limites institucionais e
abre ilimitadas possibilidades de
aperfeiçoamento espiritual individual
e, ao mesmo tempo, participação em
atividades auspiciosas para o bem
estar da coletividade. Atividades
essas que por si só enriquecem e dão
sentido à vida.

Anos atrás, muitos buscaram uma


experiência comunitária. Foi uma
época romântica. Na maioria dos
casos, devido ao despreparo e uma
certa dose de inocência, as coisas

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pareciam muito simples e fáceis de
resolver. A prática nos mostrou o
lado real: Sem preparo e estrutura
psíquica, moral e espiritual, o
resultado é sempre fracasso
garantido. Esse estilo alternativo de
vida requer muito preparo e
amadurecimento. Só assim é possível
se criar uma estrutura material eficaz,
que subsista diante dos problemas e
obstáculos da vida prática, e, ao
mesmo tempo, criar uma atmosfera
de harmonia, progresso e abundância,
que forneça as melhores condições
para o crescimento espiritual
individual e convivência pacífica.

Depois de anos de experiências


comunitárias, cientes das inevitáveis
dificuldades que surgem nesse tipo de

41
mobilização social, estamos com “o
pé no chão” e temos a confiança que,
para aqueles que têm um ideal
comum, a vida comunitária é a
melhor alternativa. é hora, portanto,
de unirmos nossos esforços afim de
que possamos realizar alguma coisa
significativa nesta vida. Sozinhos, as
possibilidades de uma realização
plena e profunda dos significados da
vida ficam bastante reduzidas.

42
Capítulo 4
VALORIZANDO
A VIDA
Em várias ocasiões, nesses dois
últimos anos, organizamos, em
Goura-Vrindávana, workshops para
discutir o tema “Valores Humanos”.
Não é necessário aqui justificar a
importância do tema pois qualquer
ser humano são aspira adquirir
qualidades que vão valoriza-lo cada
vez mais. Mesmo uma pessoa muito
virtuosa quer sempre aperfeiçoar-se
mais e mais. Aliás, quanto mais nos

43
aprofundamos no tema, constatamos
a necessidade de darmos uma atenção
séria ao assunto e tentarmos
incorporar as qualidades mais
exaltadas em nossa existência
cotidiana. é absolutamente urgente
para a vida neste plano de existência
em que vivemos, que mais e mais
pessoas tornem-se pólos de irradiação
de princípios e valores, afim de
promover uma atmosfera de bondade
e esperança em meio a esse “favelão”
que nosso querido planeta está
virando.

Há Esperança?

Apesar da óbvia importância do tema,


verificamos que a sociedade humana,
ao invés de cultivar valores e

44
princípios que irão engrandece-la e
eleva-la, vem tomando, em geral, um
rumo oposto. Existem, de fato, forças
extremamente perniciosas que
arrastam a consciência, tanto a nível
individual quanto coletivo, para
patamares cada vez mais baixos,
aprisionando a pessoa em tramas
viciosas, degradantes e sempre
carregadas de algum tipo sofrimento.

O psicólogo e pensador Erick Fromm


definiu a orientação do caráter da
pessoa em duas direções
diametralmente opostas: uma, biófila,
em direção à vida, e outra, necrófila,
em direção à morte. A pessoa com
orientação biófila é livre e
responsável. Ela aspira aperfeiçoar-
se, desenvolver suas potencialidades

45
espirituais, expandir sua consciência,
viver em paz, em harmonia com o
cosmos, sempre irradiando os
melhores fluidos. Ela identifica-se
com a alma e vive um progressivo
processo de divinização do ser.

Já o tipo necrófilo identifica-se


demasiadamente com o corpo e sua
vida é um processo regressivo de
auto-mutilamento. Podemos
identificar dois tipos de
comportamento característicos da
orientação necrófila que, por sua vez,
são completamente opostos entre si.
De um lado, acomodação, descaso,
desesperança ou, mesmo, desespero
diante da vida. A vida perde o sentido
e a pessoa gradualmente definha,
sempre meditando em seu próprio

46
sofrimento, e, em muitos casos, ela
mesmo provoca sua própria morte.

Do outro lado, de forma compulsiva,


a pessoa está ávida por explorar o
mundo, movida por ganância, ou
desfrutar do corpo, movido pelos
apetites sensuais. Ela quer viver, mas
o viver tem um sentido
completamente pervertido e caótico, e
acaba, invariavelmente, em total
desastre. Ela vive, literalmente,
matando-se. Tal pessoa é, geralmente,
atraída pela imoralidade, pela
perversão sexual, pela estupefação ou
‘ligação’ através de drogas, pela
adrenalina e vida perigosa; a nível
interno, é, invariavelmente,
escravizada pelas forças mais
sórdidas de sua própria mente,

47
completamente à mercê das “paixões
irracionais”, como inveja, cobiça,
luxúria, ira, ilusão e arrogância—
terreno fértil para a proliferação de
vícios, degradação e, conseqüente,
sofrimentos. Nesse período cósmico
em que vivemos, a Kali-yuga, a
mentalidade necrófila tende a
prevalecer no seio da sociedade,
deixando pouco espaço para a vida
virtuosa.

Os Megaproblemas

Nosso planeta depara-se, hoje em dia,


com efeitos seríssimos, praticamente
irreversíveis, que foram causados
pelos seus próprios habitantes. A
grande contradição é que, em geral,
tudo é feito em nome do “progresso”.

48
Mas o fato irrefutável é que o futuro
da humanidade é obscuro e incerto.
Não ocorrendo uma mudança de
paradigma que substitua a presente
mentalidade imediatista, compulsiva,
egoísta e irresponsável por uma
consciência sã, onde iremos parar?

Dentre uma longa lista, citaremos


quatro dos problemas mais
preocupantes do planeta.
Primeiramente, a degradação
ambiental, com seus dois tentáculos:
a exploração avassaladora dos
recursos naturais e a descarga
irrestrita de resíduos poluentes na
terra, na água e no ar. Igualmente
problemática é a disparidade da
distribuição de renda— uns poucos
favorecidos valendo-se da sub-

49
pobreza de muitos. Outro problema
sério é a falta de segurança e a
sempre-presente ameaça de violência
e terrorismo, especialmente nas áreas
urbanas. Por fim, destacamos a
questão ética — estamos assistindo
uma gradual e crescente degeneração
moral da sociedade.

A instituição familiar e a religião


genuína, que sempre foram os esteios
e guardiões do patrimônio moral da
sociedade, estão, hoje em dia,
debilitadas e desprestigiadas. O papel
de tutor das massas é, agora, ocupado
pela onipresente mídia que se vale de
sofisticados e atrativos recursos
tecnológicos que cativam a mente de
todos. Por ser movida pelo lucro, seu
único negócio é intensificar o

50
consumismo utilizando-se de
contínuo bombardeio de estímulos
aos apetites sensuais das pessoas.
Estando assim ativados, os apetites
sensuais despertam sobremaneira a
contraparte animalesca do ser
humano e minam a estrutura moral e
espiritual da pessoa. Todos esses
fenômenos psíquicos e sociológicos
modernos, embora revestidos com um
roupagem atrativa e, muitas vezes,
sofisticada são, na verdade, altamente
destrutivos e estão promovendo um
estado geral de alienação e
embotamento espiritual. E o que hoje
em dia assistimos é uma proliferação
dos anti-valores humanos, dos quais
enumeramos alguns:
irresponsabilidade, egoísmo,

51
ganância, maldade, hipocrisia,
desrespeito ao próximo e a si mesmo,
injustiça, violência, e a lista vai
longe.

A degeneração moral só pode ser


neutralizada com o cultivo de valores
humanos positivos, que por sua vez
são a base de todas as atividades que
visam o bem estar. Os ideais da
ecologia, justa distribuição de renda,
desenvolvimento e paz só serão
alcançados quando forem respaldados
por uma sólida estrutura de valores.
Portanto, a conclusão que fica é que
qualquer atividade progressista,
produtiva e destinada ao bem estar
social e individual deve,
obrigatoriamente, estar calcada nos
valores. Caso contrário, até atividades

52
consideradas virtuosas, como por
exemplo, a caridade pública,
preservação do meio ambiente,
direitos humanos, campanhas de paz,
proselitismo religioso, etc., não
estando baseada em valores, mas sim
em interesses velados, tornam-se
grotescas formas de hipocrisia e
oportunismo e o que ao final resulta
é, muitas vezes, o inverso da
proposta.

Vida Espiritual e Caráter

Os valores humanos também são a


base de uma vida espiritual sadia e
inspirada. Não podemos pensar em
desenvolver amor puro por Deus sem
uma sólida base de princípios e
valores, isto é, um caráter bem

53
formado.

O caráter é o que em ultima instância


define se a vida da pessoa foi bem
sucedida ou fracassada. Como disse
Erick Fromm: “O caráter indica até
que grau um indivíduo conseguiu
êxito na arte de viver”. E Ernest
Becker conclui: “O homem não pode
evoluir além de seu caráter. Ele está
preso a esse caráter. Em outras
palavras, ele não pode evoluir sem o
caráter.” Só poderemos enfrentar,
resolver e superar os inevitáveis
problemas que defrontamos na vida,
assim como só poderemos dar um
sentido real a nossa vida se
estivermos fundamentados em
princípios e valores éticos. O filósofo
dinamarquês do século XIX Soren

54
Kierkegard chamou a pessoa com tal
mentalidade de “cavaleiro da fé”. Ele
escreveu: “é a pessoa que vive na fé,
que entregou o significado da vida ao
Criador e que vive concentrado nas
energias de Deus. Aceita sem
reclamar o que quer que aconteça
nessa dimensão visível, vive a vida
como um dever e enfrenta a morte
sem receio. Nenhuma ninharia é tão
insignificante para não ter
significado; tarefa nenhuma é
amedrontadora demais para estar
acima de sua coragem. Ele se
encontra plenamente no mundo
segundo as condições impostas por
esse mundo, e totalmente fora do
mundo na sua confiança na dimensão
invisível.” Só chegaremos a esse

55
estágio de vida pelo cultivo de
valores e princípios.

Uma proposta prática

Há, certamente, múltiplas maneiras


de se abordar o tema “Valores
Humanos”. Muito tem se falado sobre
valores universais inquestionáveis e
utópicos como amor, paz, justiça, etc.
Esse tema está sempre presente nos
discursos oficiais, na linguagem
política e diplomática, em qualquer
mobilização social, em suma, onde
quer que haja interesses sectários.
Usa-se e abusa-se desses valores, até
o ponto de tornarem-se desgastados,
não por perderem seus valores
intrínsecos, mas por serem tratados
levianamente. O amor, por exemplo,

56
tornou-se sinônimo de atração sexual
e uso do corpo do outro para o prazer
pessoal. Com isso, o conceito de
amor gradualmente vai perdendo sua
conotação essencial, que,
necessariamente, deve sempre estar
associado com outras qualidades,
como o desejar o melhor para o
objeto do amor, a responsabilidade, o
conhecimento e o desvelo para com a
pessoa amada.

Em nossa apresentação do tema


“Valores Humanos” queremos
oferecer uma visão mais pragmática
do assunto. Evitando cair em
propostas utópicas e impraticáveis,
formulamos uma linha de atuação
bem “pé no chão”, que possa ser
aplicada no dia-a-dia da pessoa em

57
seu auto-aperfeiçoamento, tanto
material quanto espiritual.

Tomamos como ponto de partida um


trabalho de organização empresarial e
ecologia humana intitulado “Os Sete
Hábitos de uma Pessoa Altamente
Eficaz”, de Stephen Covey, que,
dentre as milhares propostas de auto-
ajuda e gerenciamento que ocupam as
prateleiras das livrarias de todo
mundo, tornou-se, indiscutivelmente,
um clássico do assunto. O autor
pesquisou criteriosamente a atuação
de pessoas reconhecidamente bem
sucedidas e eficazes em diversos
ramos de empreendimentos e notou
que, no trato pessoal e inter-pessoal,
elas tinham qualidades e hábitos em
comum. Notou, também, que a razão

58
do sucesso não era meramente o
oportunismo, a esperteza, a sorte, a
habilidade de controlar, e outros
artifícios, mas sim, princípios e
valores. Portanto, Covey aconselha
que, ao invés de agir de forma
meramente intuitiva e informal,
adquiramos certos hábitos em nosso
dia-a-dia, que serão conducentes a
um desempenho muito mais
grandioso e permanente.

Como já foi dito: “Os pensamentos


são a causa da manifestação das
ações; as ações geram os hábitos; os
hábitos, em conjunto, definem o
caráter; e o caráter é o fator
determinante do destino da pessoa.”

A obra de Covey restringe-se a

59
propor certos hábitos. Nossa intenção
é complementar essa proposta
indicando valores e a mentalidade
correspondente a cada hábito.
Daremos, a seguir, a relação dos
hábitos propostos por Covey
acompanhado com o valor básico
associado a esse hábito e a
mentalidade que se deve cultivar para
que o valor possa frutificar.

Os Sete Hábitos, Valores e


Mentalidades

Os três primeiros hábitos estão


relacionados com o aperfeiçoamento
pessoal. Trata-se de elevar a pessoa
de um estado de dependência ao
estado de relativa independência.

60
1. Ser proativo
Proatividade é um dom do ser
humano que implica em sermos
responsáveis por nossas próprias
vidas. Nosso comportamento resulta-
se de decisões tomadas, e não das
condições externas. é a capacidade de
subordinar nossos sentimentos aos
valores. O contrário de ser proativo é
ser reativo, que é a pessoa que é
levada pelos sentimentos e
condicionada pelas circunstâncias,
condições e ambiente. A pessoa
reativa sempre culpa as condições
externas ou outras pessoas por seus
infortúnios.

Escolhemos a “dignidade” como o


valor afim com a proatividade. A
pessoa proativa sente-se digna de

61
tomar a iniciativa de responsabilizar-
se por sua própria vida. E a
mentalidade correspondente é a
“mentalidade de otimismo e auto-
confiança”. Valores correlacionados:
auto-estima, coragem, destemor,
entusiasmo, iniciativa.

2. Começar com o objetivo em mente


Temos que definir nossa missão
pessoal na vida. Se não temos um
objetivo definido pelo qual podemos
nos direcionar, ficaremos à mercê das
forças externas e da volubilidade de
nossa mente, como um barco
vagando à deriva. A diferença entre
administrar e liderar é que
administrar é fazer as coisas do jeito
certo; já liderar é fazer as coisas
certas com um objetivo definido. Por

62
exemplo, a pessoa pode ser muito
perita em velejar e pode ficar dando
voltas da baia com muita destreza.
Mas se ela quiser ir do Rio a Cabo
Frio, ela tem que se preparar muito
bem, antever as circunstancias que
vai defrontar-se, verificar se as
condições de tempo são favoráveis,
ter a aptidão de enfrentar o mar alto e
ter a embarcação adequada.

Esse segundo hábito frutifica-se


quando desenvolvemos o valor da
“responsabilidade”. A
responsabilidade está intimamente
conectada com a liberdade. Quanto
mais responsável, tanto mais livre
para agir. A mentalidade apropriada
para se desenvolver esse hábito é a
“mentalidade objetiva”, e os valores

63
correlacionados: liberdade,
determinação, gravidade, serenidade,
objetividade.

3. Primeiro o mais importante


À primeira vista, isso parece muito
óbvio e tautológico. Mas, na prática,
constatamos que se não temos o
hábito e a disciplina para administrar
apropriadamente nossa vida, estamos
sempre procrastinando a solução de
problemas vitais que nós mesmos
teremos que sofrer as conseqüências.
Um outro autor disse: “A pessoa
bem-sucedida tem o hábito de fazer
coisas que os fracassados não gostam
de fazer, e elas tampouco gostam”.
Tem horas que a coisa mais
importante a fazer é fechar um grande
negócio e, outras horas, a coisa mais

64
importante é atender a demanda
natural do corpo— comer, descansar,
defecar, etc. Muitas vezes, devido ao
frenético ritmo que impomos em
nossas vidas, negligenciamos o toque
pessoal em nossos relacionamentos
que, quem pode dizer que não é
importante?

Associamos esse hábito ao valor


“simplicidade”. Srila Prabhupada
sempre dizia: “Vida simples,
pensamento elevado”. ‘Pensamento
elevado’ significa valores humanos e
espiritualidade sã. Por outro lado,
vida complicada e sofisticada é, em
geral, vida fútil. Temos que ter a
simplicidade e objetividade para
poder definir com clareza o que
temos que fazer no momento e o

65
poder de subordinar nossos impulsos
e desejos momentâneos à vontade
soberana baseada em valores. A
mentalidade subjacente à esse hábito
e valor é a “mentalidade prática”, e os
valores correlacionados: coerência,
bom senso, auto-controle, disciplina,
organização, austeridade, pureza,
limpeza, castidade.

Como dissemos, esses três primeiros


hábitos, que lidam com o crescimento
individual, dão um “up-grade” à
pessoa, do estado de dependência e
condicionalidade ao estado em que
ela experimenta uma certa
independência a nível psicológico.
Acontece que ninguém pode ser
totalmente independente pois estamos
sempre relacionados socialmente.

66
Os três hábitos seguintes são
dirigidos ao aprimoramento das
relações pessoais e visam oferecer
uma nova dimensão de vida mais
realista e humanista— da
independência a interdependência.

4. Pensar em ganhar-ganhar
Em qualquer disputa ou litígio existe,
geralmente, um vencedor e um
perdedor. Também, é muito comum o
caso em que ninguém ganha, todos
saem perdendo. Nesses tipos de
disputas usa-se todo o tipo de
subterfúgios e estratagemas, lícitos ou
ilícitos, pois a mentalidade é: “Ou eu
ganho ou ninguém ganha”. Existe,
contudo, a opção civilizada e baseada
em valores: Todos ganham. Cada
disputante está preocupado não só

67
com seu benefício mas, também,
deseja que todos fiquem satisfeitos
com o resultado. Ele está pronto a dar
um passo a trás ou abrir mão de
certas coisas para resolver
satisfatoriamente o impasse. Ele não
quer que seu contendor torne-se seu
inimigo. Ele quer ver a justiça sendo
aplicada mas sem comprometer a
harmonia dos relacionamentos.

O valor correspondente a esse hábito


é a “integridade”. A integridade é um
sintoma de maturidade e de boa
formação de caráter. Esse valor
denota, também, força interior e
muitos outros valores estão
diretamente correlacionados com ele,
a saber: conduta reta, veracidade,
honestidade, confiabilidade,

68
sinceridade, espontaneidade,
equanimidade, imparciabilidade,
autenticidade, etc.

A mentalidade associada a esse


hábito é a “mentalidade de
abundância”. Abundância significa
que tem o suficiente para todos, todos
podem sair ganhando, não há
escassez nem perdedores. Imagine
quão maravilhoso seria esse mundo
se esta mentalidade prevalecesse.

5. Primeiro compreender depois ser


compreendido
Esse hábito, que é considerado o
princípio mais importante para as
relações interpessoais, é fundamental
para suprimir a tendência natural de
manipular e reformar. A agitação

69
mental e a falta de humildade nos
leva a achar que já compreendemos,
mas para realmente compreender é
necessário atenção empática, quando
escutamos com os ouvidos e,
também, com os olhos e o coração.

A “humildade” é o valor associado a


esse hábito. Uma das características
da humildade é que a pessoa tem uma
visão realista de si mesmo. Ela não se
considera mais do que ela realmente
é, assim como não acha que
compreende tudo e quer que os outros
aceitem de pronto todas suas idéias,
reivindicações e sentimentos. A
mentalidade subjacente é, portanto, a
“mentalidade realista”.

6. Criar sinergia

70
Synergia, em grego, significa
“cooperação”. Essa palavra toma,
agora, um sentido um pouco mais
amplo, pois sinergia denota que, com
a cooperação, o resultado final será
bem maior que a soma das partes.
Quando um ambiente está
harmonizado tudo flui naturalmente.
Não há entraves, boicotes, preguiça,
desleixo, etc. Os resultados obtidos
quando existe sinergia no ambiente
são surpreendentes, ultrapassam os
limites racionais.

Não conseguimos sinergia sem o


valor “bondade”. Com bondade no
coração podemos valorizar as
diferenças, descobrir as virtudes dos
outros, dar mais do que exigir, estar
preocupado com o bem comum e

71
muito mais. Amor, paz,
solidariedade, benevolência,
misericórdia, compaixão, clemência,
perdão, não violência, gentileza, bom
humor, felicidade, livre da inveja,
prazer em servir, caridade, tudo isso
está diretamente associado com a
sinergia e bondade. Para que isso
realize-se é necessário cultivarmos
uma “mentalidade de confiança
mútua”.

Esses seis hábitos harmonizam a


pessoa a nível pessoal e social. Eles
fazem com que a pessoa situe-se
numa condição de interdependência,
em que ela pessoalmente sente-se
fortalecida e preparada para agir
socialmente e pode, assim, contribuir
e tirar o máximo proveito do inter-

72
relacionamento social saudável. O
último hábito sugerido por Covey dá
um fechamento nos outros seis. Ele
chamou-o de:

7. Afinar o instrumento
Imagine um violinista virtuoso que
não se preocupa em afinar
propriamente seu instrumento. Sua
performance, por mais espetacular
que seja, vai ser um fiasco. Esse
hábito aqui proposto pressupõe que a
pessoa deve estar sempre auto-
renovando-se— sempre reciclando os
seis hábitos precedentes. Sempre
atento para mantendo o equilíbrio em
tudo o que faz. “Equilíbrio” é, então,
a palavra chave. A renovação
equilibrada é sinergética ao máximo.
Precisamos manter equilibrada a

73
saúde física e mental, o pessoal e o
social, o material e o espiritual, etc. O
equilíbrio está correlacionado com a
sabedoria, conhecimento,
introspecção, inteligência, sanidade,
harmonia, moderação, prudência,
estabilidade, renúncia e desapego.
Para manter-se em equilíbrio é
necessário que tenhamos
“mentalidade de renúncia”. A história
do mundo contemporâneo demonstra
que a idéia do progresso ilimitado é
uma utopia inviável. Tem que haver
uma renovação, uma reciclagem, um
novo começo, novos enfoques.
Quando as coisas passam do ponto de
saturação, degrigolam-se. é como o
doce que passou do ponto. Não dá
para voltar atrás. Em nossa vida

74
pessoal, temos que, muitas vezes,
renunciar o prazer sensual, para
equilibrar o material e o espiritual, e
manter a saúde integral (afinação do
instrumento).

75
Capítulo 5
PSICOLOGIA
HUMANISTA E
AUTORREALIZAÇ
A Psicologia Humanista é tida como
a terceira grande “onda” na história
da psicologia. Considera-se a
Psicologia Transpessoal como sendo
a quarta onda. Vejamos abaixo,
sucintamente, algumas etapas da
evolução aqui no Ocidente dessa
ciência que lida com a mente e o
comportamento.

76
A primeira tentativa de se
compreender sistematicamente a
psique humana foi o Behaviorismo,
formulado inicialmente por John
Watson (1878-1959).

Essa corrente de psicologia defendia


que a personalidade e o
comportamento da pessoa seria uma
consequência direta da influência que
o meio ambiente exerce sobre ela.
Hoje em dia, essa abordagem
psicológica e suas conclusões são
consideradas superadas, embora
muitos dados da investigação
científica desse sistema tenham dado
valiosa contribuição para a psicologia
em geral, como, por exemplo, o
experimento de reflexos
condicionados dos cães de Pavlov

77
(1849-1936).

A segunda onda foi a Psicanálise, de


Freud (1856-1939). O objeto de
estudo da Psicanálise é o inconsciente
ou subconsciente. Essa foi a grande
contribuição de Freud, que abriu as
portas à exploração dos subterrâneos
da mente. Ele acreditava que a libido
era a energia motivacional primária
da vida humana e seu desajuste seria
a causa de todas as neuroses e
psicoses. Na prática da Psicanálise, o
paciente deita relaxado num divã e
trata de rebuscar os recônditos da
memória e procura registrar, com
máximo de detalhes, os seus sonhos.
O psicoterapeuta, utilizando técnicas
como a interpretação dos sonhos e
outras ferramentas, trata de descobrir

78
as causas e neutralizar as neuroses e
psicoses. O objetivo é fazer com que
o paciente atinja um estado de
normalidade em que experimenta
uma condição de ausência de tensões,
tecnicamente chamada de
“homeostase”.

Vários psicólogos que precederam a


Freud, inclusive vários de seus
discípulos diretos, consideraram que
excessiva ênfase na libido seria um
exagero. O conceito de Freud de que
a pessoa é considerada como um
produto ou vítima de necessidades e
forças instintivas começa a encontrar
resistências nos meios acadêmicos.
Diversos outros fatores que
influenciam a psique deveriam ser
levados em consideração, detectaram

79
vários pesquisadores. Carl Jung
(1875-1961) constatou que o
inconsciente não era constituído
somente de material negativo, lançou
a teoria dos arquétipos mentais e
promoveu uma abertura para a
espiritualidade, coisa que Freud
repudiava. Alfred Adler (1870-1937),
outro discípulo direto, constatou que
o complexo de inferioridade era uma
das principais causas de neuroses
entre as pessoas da época.

Outra restrição à Psicanálise foi de


que o tratamento não devia restringir-
se meramente à cura das neuroses
para chegar a um estado sem tensões
(homeostase). A pessoa devia se
desenvolver a partir daí. A condição
normal de saúde mental seria o ponto

80
de partida de um processo evolutivo
da consciência.

A mente humana possui


potencialidades ilimitadas para serem
exploradas e desenvolvidas. A pessoa
não deve se acomodar e contentar-se
com a mediocridade de um mero
“bem-estar” ou de uma superficial
“autoafirmação”. Essa ilusória
“autoafirmação” pode ser uma
“máscara” onde se oculta a
acomodação e “autoenganação”. Por
algum tempo, a pessoa pode
sobreviver nesse estado de ilusão,
mas, fatalmente, chegará a hora em
que terá que se defrontar com a
realidade nua e crua da vida. Aí
invariavelmente sobrevém uma
perplexidade diante da aparente

81
inutilidade da vida. “Para que tanto
esforço, se tudo estará em pouco
tempo perdido?”… Essa é uma
constatação dolorosa para aqueles
que não estão devidamente
preparados para enfrentar o futuro.

Viktor Frankl (1905-1997), criador da


Logoterapia, pesquisando
independentemente, chegou à
conclusão de que, para a maioria das
pessoas, a principal causa da
condição neurótica seria a falta de
uma definição quanto ao propósito da
vida. A ausência de um propósito
superior na vida acarreta um “vácuo
existencial”, uma neurose de carência
espiritual. Ele chegou à conclusão de
que, mesmo nas condições mais
adversas que a pessoa possa

82
enfrentar, como numa doença
terminal ou situações desesperadoras,
pode-se encontrar um propósito para
a vida e, assim, manter a estabilidade
psíquica. Frankl entendeu isso por
experiência própria, pois viveu o
inferno em campos de concentração
nazista durante a segunda guerra
mundial. Em condições sub-humanas
que teve que suportar, ele se afirmava
mais ou menos com estas palavras:
“Minha personalidade externa está
fora de meu controle, pois estou nas
mãos de pessoas que não hesitam em
me causar todo tipo de sofrimento e
humilhação. Mas acontece que
interiormente eu estou livre. Elas não
podem tocar em minha consciência,
pois esta está totalmente sob meu

83
controle”. Que preciosa experiência
de vida!

Definitivamente, o ser humano não é


um produto acabado – existe sempre
a possibilidade de crescimento
interior, aperfeiçoamento e esmero do
caráter e da personalidade, além da
expansão ilimitada da consciência. O
papel básico da psicologia deve ser,
sem dúvida, a cura das neuroses. Isso
constitui a prioridade. Mas não se
deve parar por aí. Existe algo mais.

O ser humano psiquicamente


saudável leva dentro de si uma
tendência natural para desenvolver-se
e aprimorar-se. A Psicologia deve
estimular o autoaperfeiçoamento e a
expansão da consciência da pessoa.

84
Como Erich Fromm (1900-1980)
disse: “Torná-la mais humana”. Daí o
nome “Psicologia Humanista”, a
terceira onda.

Fromm deixou contribuições


importantes: “Ter ou Ser”, “Arte de
Ser”, “Análise do Homem” são
alguns de seus temas que ajudaram
muitos a sair de uma vida medíocre.
Ele disse que algumas pessoas têm
uma postura biófila diante da vida, ou
seja, amor à vida, à evolução
espiritual. Outras, opostamente, dão
uma orientação necrófila, em direção
à morte, num processo gradual de
definhamento ou então, o que é mais
triste, num processo praticamente
irreversível de degradação moral e
espiritual da consciência.

85
Podemos observar na maioria das
pessoas que a maturidade psíquica
não necessariamente acompanha a
maturidade biológica. Crescer
implica uma dose de tensão e certa
ansiedade. A maioria evita isso. Para
aqueles que arriscam e ousam ir em
frente, a “homeostase” (ausência das
tensões) fica para trás e o indivíduo
se dispõe a progredir no árduo
caminho da autorrealização. Esse
ímpeto de evoluir psíquica e
espiritualmente exige esforço e,
inevitavelmente, produz uma espécie
de tensão, uma ansiedade existencial.
Essa tensão ou ansiedade, ao
contrário da ansiedade patológica e
neurótica, é cem por cento natural e
saudável.

86
Um dos mais expressivos expoentes
da linha humanista foi o americano
Abraham Maslow (1908-1970).
Maslow teve uma trajetória
profissional e acadêmica bem
diferente dos acadêmicos de
psicologia em geral. Ele dirigiu suas
pesquisas, não para entender as
neuroses e psicoses e como curá-las,
mas para compreender o que
realmente significa sanidade psíquica.
Chegou ao conceito do que chamou
de “pessoa autorrealizada”, uma
pessoa psiquicamente saudável. Para
atingir esse patamar, Maslow
verificou que existe uma gradação
natural do envolvimento da pessoa
neste mundo. Ele denominou
“hierarquia das necessidades”, cuja

87
representação gráfica é uma pirâmide
com cinco estágios.

A base inferior da pirâmide, onde se


concentra um número maior de
pessoas, é o estágio onde as pessoas
estão preocupadas com suas
necessidades fisiológicas e
psicológicas básicas. A necessidade
fisiológica básica é não passar fome
nem sede; a necessidade psicológica
básica é não ser rejeitada no grupo
familiar e social a que pertence.
Sentir-se rejeitada é a pior situação
psicológica que a pessoa pode
experimentar.

No segundo estágio da pirâmide,


estão aqueles que buscam segurança:
segurança no emprego, moradia,

88
saúde e outras coisas básicas. O estilo
de vida urbana moderna trava a vida
de muita gente nesse estágio, pois
cria muitas necessidades supérfluas
que complicam a vida da pessoa.
Quantas pessoas, depois de assumir a
responsabilidade de arcar com vinte e
cinco anos de prestações do
apartamento, carro do ano e outras
tantas “necessidades”, e, ainda por
cima, ter que manter a família e
educar os filhos, morrem de medo de
perder o emprego, escravizadas que
estão pelos financiamentos e outros
compromissos? Definitivamente, a
vida poderia ser muito mais
simples…

No patamar seguinte, a pessoa sente a


necessidade de bons e sólidos

89
relacionamentos. Em sua vida
sentimental doméstica, ela necessita
experimentar um relacionamento
estável e produtivo que lhe dê
respaldo e segurança. Sente também
uma necessidade de romper os limites
das quatro paredes e atuar mais
socialmente. Uns dedicam-se a
filantropia, participam em funções na
igreja e nos centros culturais e
esportivos, outros se tornam ativistas
de alguma proposta mais ampla ou
entram na política, enquanto outros se
contentam em serem os síndicos no
prédio onde moram. A pessoa sente
que deve se expandir e participar.

O quarto nível de necessidade é o da


autoestima. A pessoa se destaca na
atividade que executa. Passa, então, a

90
exigir o devido reconhecimento. Uma
citação de seu nome em público, um
elogio, uma aparição, mesmo que
momentânea, em um programa
televisado já vai adular seu ego e
alimentar sua autoestima. Na vida
profissional, essa pessoa esforça-se
para ser a melhor em sua
especialidade. Isso chama atenção do
público para si e reforça sua
autoestima. O problema nessa fase é a
facilidade que o sucesso pessoal tem
em inchar o ego. A pessoa pode
tornar-se um ególatra. Isso a impede
de ir para frente em seu
desenvolvimento psíquico.

No topo da pirâmide, Maslow


chamou essa “necessidade” de
autorrealização.

91
Nesse caso, essa autorrealização se
restringe ao sentido prático e secular
da vida. A pessoa nesse estágio
experimenta plena satisfação e
realização em seu desempenho nas
atividades profissionais, sociais e,
também, no íntimo, consigo mesmo.
Está de bem com a vida e é
emocionalmente estável. Não tem
interesse em se promover nem
chamar atenção para si. Leva uma
vida simples, sem sofisticação. É uma
pessoa generosa, criativa e quer
distribuir o conhecimento que
adquiriu, fruto de muito esforço e
dedicação, com quem merece receber
esse conhecimento. Tem a mente
aberta e uma inclinação natural para
os questionamentos espirituais. Esse

92
seria o “top” da vida material dentro
da sociedade.

A questão que fica é: Será essa


autorrealização psíquica o “fim da
linha”?

Na sociedade doentia em que


vivemos, chegar ao ponto de “mens
sana in corpore sano” é uma
verdadeira façanha que poucos
conseguem sequer almejar, o que
dizer conquistar. Depois de chegar a
esse ponto, o que estaria faltando?
Existiria alguma outra proposta
superior para prosseguirmos na
escalada do desenvolvimento
pessoal?

Sim, definitivamente, a vida não

93
estará completa sem uma profunda
realização espiritual. A necessidade
de se dar um sentido espiritual à vida
pode não se manifestar
explicitamente no decorrer do
período de vida prática, pois
normalmente a pessoa fica
sobrecarregada de responsabilidades
familiares e profissionais, além das
inúmeras possibilidades de lazer e
entretenimento, pois “ninguém é de
ferro”…

Aqueles que não se abrirem para as


questões espirituais ficarão
estancados na consciência material.
Por mais que tentem absorver suas
mentes com as eventuais
preocupações corriqueiras e inúmeras
distrações, chegará uma hora, já na

94
etapa final do ciclo de vida, que
muitos questionamentos sobre a vida
aparecerão. “Tanto esforço foi feito
durante a vida, e agora? Tudo será
perdido? Qual é o propósito disso
tudo? O que será de mim daqui para
frente? Como poderei seguir sozinho,
sem a companhia das pessoas que me
apoiam? O que será de mim?”. O fato
é que quem não estiver preparado
para resolver essas questões
existenciais e espirituais entrará num
estado de perplexidade diante da
iminência da morte que, fatalmente,
gerará frustrações, profunda
depressão, medo terrível e desespero.

Para se prosseguir nessa escalada


existencial, quatro níveis de
realização se apresentam. O primeiro

95
nível é o autoconhecimento. O que
vem a ser “autoconhecimento”?
Autoconhecimento é estar
plenamente consciente da nossa
própria natureza, da nossa relação
com este mundo e, também, da nossa
relação com a Transcendência. Não é
um conhecimento quantitativo, mas
qualitativo. Sua característica básica é
que o interesse por esses temas tem
que surgir de dentro da pessoa, do
fundo da consciência. O conhecer-se
a si mesmo e a Realidade “com R
maiúsculo” passa a ser o projeto de
vida da pessoa.

Com autoconhecimento, a pessoa


pode desenvolver autocontrole. Por
estar consciente das dinâmicas
envolvendo o corpo físico, os

96
sentidos, a mente e o intelecto, a
pessoa adquire a força interior para se
livrar da ditadura imposta pela sua
mente, assim como pelos seus
sentidos vorazes e descontrolados. A
pessoa livra-se das dinâmicas
viciosas que forçam a consciência
para baixo. Passa a viver governada
pela inteligência superior. Sua vida é
agora conduzida por valores e
princípios. A pessoa pode, então,
afirmar com segurança: “Aqui quem
manda sou eu”.

Tendo realizado o autoconhecimento


e autocontrole, somados à bagagem
de todas as experiências que a vida
nos oferece, a pessoa naturalmente
manifesta sabedoria. A sabedoria
independe de diplomas e títulos

97
acadêmicos. Manifesta-se,
geralmente, na velhice, numa
situação em que a pessoa madura,
exercendo lucidez e discernimento,
não permite que sua consciência se
identifique com sua condição
corpórea em natural estado de
decadência. Sua consciência paira
muito acima dos desfrutes fúteis e
aflições mundanas. A pessoa sábia
está totalmente sintonizada com a
situação do momento. Os mais jovens
podem aproximar-se livremente para
obter conselhos, sem choque de
gerações.

O estágio máximo de autorrealização


é a iluminação espiritual. É o fruto
maduro de todo processo de
superação das necessidades básicas

98
da vida e da conscientização de que o
sucesso na vida não se restringe a
chegar a um estado de realização
material, bem-estar e conforto. São
poucos aqueles que despertam para a
possibilidade mais auspiciosa que a
vida nos apresenta: a realização
espiritual. A culminação de todas as
experiências que passamos na vida é
chegar a um nível de consciência
pleno de conhecimento espiritual,
satisfação, paz interior, beatitude e
santidade.

Isso pode parecer uma utopia para a


maioria, mas, na verdade, trata-se de
uma possibilidade factível para
qualquer pessoa psiquicamente
saudável. O segredo é não perder
tempo com as inúmeras distrações

99
que nos rodeiam. No percurso da
vida, existe o tempo certo para tudo:
primeiramente, a fase de preparação
para a vida, com muito estudo; a
seguir, a fase de intensa atuação
prática e muitas experiências, dentro
da família e no trabalho; na
aposentadoria, é a fase em que se tem
a oportunidade de sério cultivo de um
processo espiritual. Por fim, chega-se
à fase derradeira em que a pessoa
realiza o verdadeiro propósito da
vida, vive sob os princípios do
desapego e renúncia e colhe os frutos
dos anos dedicados à prática
espiritual vivenciando uma profunda
e íntima relação com Deus. A vida
será coroada de êxito se chegarmos
até esse ponto.

100
Capítulo 6
RAIO X DA
GUERRA E DA
PAZ
Enquanto escrevo essas linhas,
bombas e mísseis são despejados no
inóspito e pedregoso Afeganistão
pelas forças militares mais poderosas
do planeta. O dinheiro gasto com
estes armamentos daria para
solucionar uma boa parte dos
problemas de fome, saúde e educação
de milhões e milhões de miseráveis

101
que vivem aquém dos limites de
pobreza. Quanta energia
desperdiçada! E de onde vem toda
essa energia? Da exploração irrestrita
dos recursos naturais de um planeta,
hoje, depauperado. A miséria e o
desastre ambiental, junto com o
terrorismo, são as mazelas mais
evidentes que atestam o fracasso de
uma civilização que negligenciou e
distanciou-se dos princípios e valores
espirituais. No momento atual,
combate-se o terrorismo odiento e
covarde com guerra explícita.
Ambos, colocam a população civil
em risco. A grande dúvida é: Será
esse o caminho para paz? A
população do mundo sentir-se-á mais
segura? O terrorismo será sufocado

102
ou vai degenerar-se e expandir-se
como um câncer? Somando-se a isso,
assistimos, também, a falência
gradual dos valores morais da
sociedade humana, hoje, sem rumo,
desamparada, amedrontada, sofrida e
numa espiral crescente de
degradação.

Pessoas sãs, hoje em dia, questionam


seriamente quais são as verdadeiras
causas de tudo isso. Como é que as
coisa chegaram ao ponto que chegou.
Estamos progredindo ou regredindo?
Há esperanças para um futuro
melhor? Como entender a verdadeira
natureza dessa existência
aparentemente sem sentido e, até, de
certo modo, absurda?

103
Uma luz para compreendermos os
mistérios deste mundo e da existência
como um todo vem dos ensinamentos
do Senhor Krishna no Bhagavad-gita.
No décimo quarto capítulo deste texto
sagrado encontramos maravilhosos
ensinamentos que nos proporcionam
entender, com profundidade, a
dinâmica da natureza deste mundo.
Trata-se dos três gunas, as qualidades
ou modos da natureza, que
inexoravelmente influenciam todas as
atividades, fenômenos,
comportamentos e relacionamentos
de todos seres vivos. O primeiro
modo, rajas, é o impulso criativo, que
fornece o ímpeto para a expansão,
domínio, progresso e criação de
novas coisas. No lado oposto está a

104
passividade, imobilidade e a
tendência destrutiva natural do ciclo
da vida. Esse guna é tamas. Entre os
dois está sattva-guna, o status quo, o
estado em que o processo criativo
após ter chegado à sua plenitude é
conservado e mantido, sem permitir
que as forças destrutivas entrem em
ação. é um estado dinâmico de
existência plena. Nele há paz,
harmonia, sabedoria e felicidade. é
considerado o mais puro e mais
difícil de ser conquistado.

Psicologicamente, os três gunas são


chamados modos da paixão,
ignorância e bondade. A sociedade
humana do mundo moderno está
demasiadamente influenciada pelo
modo da paixão. O progresso, lucro,

105
desenvolvimento tecnológico,
ambição para dominar e controlar a
Natureza e o endeusamento da
ciência são os símbolos dessa
civilização apaixonada. Em suma, o
homem apaixonado de hoje está
afogando-se num mar de desejos
materiais sintetizados numa meta
totalmente ilusória chamada
‘sucesso’, que resume-se basicamente
em dinheiro, fama e poder.

A paixão não domada é avasaladora.


Quando essa paixão criativa, que, em
sua essência natural é rica, fértil,
viva, que entusiasma e gratifica, que
é uma das qualidades mais
tipicamente humanas, ultrapassa
certos parâmetros de equilíbrio e
sensibilidade, essa paixão passa a

106
degenerar-se e manifesta inúmeros
efeitos colaterais pervertidos,
altamente destrutivos. Para se detetar
esse ponto crítico a partir do qual a
paixão se degenera, a pessoa,
analisando as circunstancias presentes
e projetando suas conseqüências
futuras, deve concluir que “chega de
crescimento quantitativo; daqui para
frente a ênfase é na qualidade”, quer
dizer, interrompe-se o ciclo de paixão
e estabelece-se sattva-guna, a
bondade. Acontece que, para uma
pessoa apaixonada, em meio à
turbulência dos desejos, essa
mudança de paradigma é
praticamente impossível de ocorrer
por si só e, inevitavelmente, os
efeitos colaterais pervertidos do

107
modo da paixão irão manifestar-se,
completamente fora do controle da
pessoa.

A paixão desenfreada é o terreno


fértil para fazer brotar uma avalanche
de desejos materiais, a grande
maioria deles totalmente supérfluos.
Quando a mente está assim dominada
pela produção inesgotável de desejos,
os efeitos colaterais da paixão brotam
e instalam-se no coração da pessoa. A
psicologia chama esses efeitos
colaterais de “paixões irracionais”,
que são, basicamente, o orgulho, a
cobiça, a inveja, a luxúria e a ira. O
estágio que se segue à mente ou
coração infectado por essas paixões
irracionais é a sua exteriorização,
que, escusável dizer, irão produzir

108
efeitos destrutivos no meio social.

É fato sabido que a dinâmica da


sociedade tecnológica moderna visa
criar estímulos que provocam
intermináveis desejos nas pessoas,
desejos esses que, basicamente,
atendem a três supostas
“necessidades” do homem
apaixonado, a saber, a busca
desenfreada de prazer sensual,
sensação de sentir-se superior aos
outros e uma compulsão neurótica, o
consumismo. Na verdade,
praticamente toda a complexa
estrutura política e econômica
governamental das nações poderosas
do mundo de hoje está dedicada a
satisfazer as demandas sempre
crescentes de produtos e

109
entretenimentos para uma sempre
crescente massa de ávidos
consumidores. As outras nações,
aquelas consideradas ‘em
desenvolvimento’ ou do ‘terceiro
mundo’, tratam de imitar o mesmo
modelo mundial, embora já
comprovadamente falido, perdendo,
assim, uma chance de ouro de
estabelecer seus próprios parâmetros
de desenvolvimento baseados na
auto-sustentabilidade e valorização
do homem. As metas e propósitos de
um governo, que, idealmente,
deveriam oferecer o melhor para os
cidadãos, são desvirtuados para
alimentar a grande ilusão de
progresso material e estimular o
mesquinho ciclo vicioso do

110
consumismo, que tornam as pessoas
cada vez mais iludidas, embotadas e
escravizadas. Tudo isso, fruto dessa
paixão indomável.

Como já dissemos, a exteriorização


das paixões irracionais causam
estragos ao meio social e pode
assumir proporções que vão desde a
escala individual até a mundial, caso
haja uma pessoa envolvida, uma
coletividade, uma nação, várias
nações e assim por diante. Uma das
principais características do modo da
paixão é a competividade. Vemos
essa competividade em toda parte, em
casa, no trânsito, no trabalho, no
futebol, na política, nos negócios.
Quando essa competividade está
colorida com inveja, cobiça, orgulho

111
e ira torna-se altamente danosa, e se
os agentes são nações, torna-se
absolutamente danosa. O orgulho, da
mesma forma, tem seu lado brando,
orgulho de pertencer uma corporação
digna de respeito, por exemplo. Mas
o orgulho irracional transforma-se em
arrogância, desdém, intolerância,
discriminação, e leva à manipulação,
exploração, etc. Desejos materiais
contaminados com cobiça
desdobram-se em sofreguidão,
ganância, ambição insaciável. A
capacidade de defender-se, quando
contaminada por ira apaixonada
manifesta a agressividade, a
truculência, o ódio, o desejo de
subjugar, expandir, controlar, e
estimula uma corrida armamentista

112
sem precedentes na história do
mundo. Para armar-se, os governos
desviam verbas trilhonárias para
pesquisas e complexos industriais.
Diz-se que cerca de cinqüenta por
cento da comunidade científica
mundial está comprometida direta ou
indiretamente com a industria de
armamentos. Há poucos dias foi
noticiado que os Estados Unidos
gastaram duzentos bilhões de dólares
no projeto de um avião de combate
que, em certo ponto do projeto, foi
tido como ineficiente e, por fim,
abandonado. O desperdício atinge
cifras com cada vez mais zeros à
direita. As guerras, cujas causas
subjacentes são, invariavelmente, o
controle da exploração dos recursos

113
naturais do planeta, passam, então, a
serem fatores de peso para o fomento
de fantásticos negócios
armamentistas. Em última análise,
vemos como a paixão da meta
ilusória de ilimitado progresso
material acaba, por fim, diretamente
associada com as forças mais
destrutivas do modo da ignorância.

Na natureza, os três modos, rajas,


sattva e tamas, funcionam
harmonicamente. Uma semente
germina, a planta cresce, desenvolve-
se, mantém-se por certo período
produzindo flores e frutos, e, ao fim
de algum tempo, debilita-se e morre.
O ser humano, por sua vez, pode
interferir, em parte, em seu ciclo de
vida. Invariavelmente, o período da

114
infância e adolescência é apaixonado,
a pessoa está crescendo, aprendendo
e descobrindo o mundo. No final da
juventude e maturidade, já com o
mecanismo do intelecto e da razão
desenvolvido, ela tem a capacidade
de ajustar e fixar sua consciência em
sattva-guna, através da auto-
disciplina, ambiente apropriado e boa
associação. A atribulada vida urbana
não oferece condições favoráveis
para se cultivar adequadamente tal
estado de espírito. Com a consciência
na bondade, as ‘paixões irracionais’,
se bem que nunca exterminadas, são
mantidas, com muita atenção e
cuidado, latentes e adormecidas. A
pessoa tem total auto-controle e sua
vida é plena de realizações e

115
contribuições para o bem estar geral.
Ela irradia amor, paz, harmonia,
sabedoria, felicidade real e realização
espiritual. Na fase final da vida,
quando a decrepitude toma conta de
seu corpo, a pessoa deve manter sua
consciência no modo da bondade e
sair desse mundo ‘por cima’,
deixando atrás um exemplo de vida a
ser seguido.

Uma pessoa em sattva-guna pode


iluminar muitas vidas. Não é por nada
uma atitude passiva e egoísta. A
bondade é altamente dinâmica e
irradiante. Se uma pessoa em
bondade torna-se um líder nacional,
conduzirá, então, seu país nos
caminhos da paz e de prosperidade e
abundancia para todos, não somente

116
para os privilegiados da elite. Essa
prosperidade material não será
conseguida com a exploração
irrestrita dos recursos naturais, mas
sim, dentro dos critérios racionais do
desenvolvimento sustentável, em que
a natureza é respeitada e conservada.
Valores morais e espirituais brotam
espontaneamente nessa atmosfera de
fertilidade da consciência. As pessoas
sentem-se seguras e são felizes com
as necessidade básicas do viver
digno. A raça humana atinge assim
sua plenitude. Com disse o Senhor
Krishna, no Bhagavad-gita: “Sattva-
guna é a única possibilidade de ser
feliz nesse mundo.”

117
Capítulo 7
UM DEVOTO
DO DEUS
PESSOAL
“Eu entendi que Srila Prabhupada era
realmente meu guru quando,
simplesmente por ler a sua poderosa
ordem de seguir os quatro princípios
reguladores, eu abandonei de uma
vez por todas essas práticas. Srila
Prabhupada me salvou. Ele me tirou
da ignorância, me iluminou com
conhecimento e transformou minha

118
vida. Tenho eternamente essa dívida
para com ele”.

Lá pelo começo dos anos setenta, eu


tive interesse despertado pelas coisas
da Índia; notadamente, filosofia, yoga
e meditação. Nessa ocasião, ao ler um
livro de um famoso swami indiano,
tive minha atenção dirigida para dois
singulares pontos de leitura. Logo no
início, o autor afirmava que existem
dois conceitos sobre Deus: impessoal
e pessoal. Grande parte do livro
girava em torno da realização
impessoal de Deus, e o assunto foi
exaustivamente tratado. Quanto ao
outro aspecto, o pessoal, resumiu-se
simplesmente àquela única alusão –
nenhuma explicação adicional foi
feita. Não obstante, sei lá por qual

119
razão, fiquei curioso por saber o que
realmente significaria tal expressão
“Deus pessoal”. Não fazia a mínima
ideia. Essa curiosidade foi algo
inusitado, visto que, nessa fase da
minha vida, eu era declaradamente
agnóstico e inclinado às ideias
impersonalistas. O outro ponto que
capturou minha mente foi a enfática
afirmação ao final do livro de que
ninguém podia atingir a
autorrealização por seu próprio
esforço – a condição imprescindível é
que o candidato tem que encontrar
um guru competente e submeter-se a
ele. O autor ainda complementou:
“Quando o discípulo está preparado,
o mestre aparece”. Essa declaração
causou-me uma impressão profunda,

120
e, a partir desse momento, esses dois
temas – o deus pessoal e o encontro
do guru – apareciam de tempos em
tempos em minha mente, e eu refletia
neles. Como consequência natural, o
desejo de encontrar um mestre
espiritual se estabeleceu no meu
coração, e daí passei a ficar atento
para ver se tal desejo se concretizava.

Nessa fase mística de minha vida, eu


costumava ler muitos livros sobre
yoga, meditação, ocultismo, viagens
astrais, vida de místicos e yogis etc.
Visitava frequentemente as livrarias
especializadas tanto no Rio de Janeiro
como em São Paulo, sempre
buscando os melhores livros e as
novidades. Visitei, também, diversas
sociedades espiritualistas e grupos de

121
yoga, mas, por diferentes motivos,
não me senti atraído por nenhum
deles. Estive por algum tempo
observando, analisando, indagando
aqui e ali, com um misto de ceticismo
e esperança, mas não tardou muito
para constatar que minha chance de
encontrar um guru autêntico era,
naquelas circunstâncias, bastante
reduzida. “Talvez, o melhor seria ir à
Índia…”, mas essa era uma hipótese
remotíssima naquela hora.

Essa situação provocou uma alteração


radical no rumo de minha vida, que
então assumiu um caráter mais
realístico e pragmático. Agora, a
busca do guru, a vida futura e a
autorrealização deixariam de ser o
foco do meu interesse maior, que,

122
então, reorientou-se para os aspectos
mais práticos da vida material. Minha
postura agnóstica era reforçada.
Estava convicto de que “ninguém
pode ter certeza de nada acerca de
Deus”.

Em meio às minhas leituras, eu tinha


lido uma versão do Bhagavad-gita,
cuja tradução não era muito fiel, mas
que, de uma forma ou outra,
introduziu-me aos conceitos básicos
do livro, como karma, reencarnação,
modos da natureza etc. Então, eu
misturei esses conceitos com uma
filosofia totalmente hedonista,
baseada exclusivamente no gozo dos
sentidos, e a conclusão era mais ou
menos assim: “Já que guru e
autorrealização são utopias, a coisa

123
mais sensata é tratar de esquecê-los e
tentar viver neste mundo material da
melhor forma possível, quer dizer,
sofrendo o mínimo e desfrutando ao
máximo. Conhecendo-se a lei do
karma, a pessoa pode construir um
futuro recheado de facilidades
materiais, como recompensa às
atividades piedosas prévias. Da
mesma forma, situando-se no modo
da bondade (sattva-guna), e evitando-
se os modos inferiores (paixão e
ignorância), a pessoa pode evitar
muitos sofrimentos e ansiedades, e
experimentar o mais elevado padrão
de felicidade que este mundo pode
oferecer. Portanto, embora sempre
haja um ou outro tipo de
inconvenientes neste mundo, é

124
possível minimizá-los ao máximo, e
tratar de desfrutar as boas coisas da
vida: sexo, dinheiro, conforto,
conhecimento, artes, natureza,
esportes, viagens etc.”.

Sentia-me completamente confiante e


otimista com essa nova perspectiva
para a minha vida. Tinha considerado
o capítulo da busca espiritual como
definitivamente encerrado. Não
queria saber mais dos meus livros, os
quais, antes, eu tanto apreciara.
Estava cansado desse tipo de livro
com um pedante linguajar esotérico e
pseudo-espiritual. Toda aquela
auréola de misticismo agora se
tornara algo aborrecedor, tanto que
doei toda a minha biblioteca. “Agora
é pé no chão”, pensava eu, cheio de

125
novos planos na cabeça.

Passado algum tempo, eu ia descendo


a Rua Augusta, em São Paulo, e fui
abordado por uma jovem vestida de
sári indiano. Ela me ofereceu um
pequeno livro. Era meu primeiro
contato com um Hare Krishna. Já
tinha visto algo, por alto, em alguma
revista ou jornal sobre o
envolvimento de certos Beatles com
eles, John Lennon cantando o mantra
Hare Krishna em protestos contra a
sociedade, a peça Hair – nada mais
do que isso. Simplesmente por
curiosidade, comprei, sem hesitar, o
livro, e segui em frente.

Ao chegar em casa, dei uma folheada


e, descompromissadamente, comecei

126
a lê-lo, movido pela mera curiosidade
de saber o que os Hare Krishnas
pensavam. O título era bem sugestivo
– Além do Nascimento e da Morte.
Falava que nós não somos este corpo,
explicava diferentes tipos de yoga e
como obter a libertação deste mundo.
O livro era bastante técnico e citava
constantemente o Bhagavad-gita. A
certa altura da leitura, eu li a
expressão “Krishna, a Suprema
Personalidade de Deus”.
Instantaneamente, me deu um “click”
na memória e veio à mente aquela
velha dúvida que eu nunca
solucionara: o que vem a ser “Deus
pessoal”? Tinha, afinal, encontrado
uma pista. Senti certa emoção com a
descoberta e redobrei minha atenção

127
na leitura. O autor, Sua Divina Graça
A.C. Bhaktivedanta Swami
Prabhupada, dava muitas informações
sobre o Deus pessoal, Sri Krishna –
Sua forma, Sua morada
transcendental e o relacionamento
com Ele através de bhakti, a devoção.

Ao terminar o pequeno livro, eu


estava satisfeito, e tive uma boa
impressão dos Hare Krishnas. Na
última página, havia um convite
sugestivo para um festival dominical.
Embora todos os domingos eu
pensasse em visitar o templo Hare
Krishna, nunca cheguei a fazê-lo,
pois era distante, e, por preguiça, eu
sempre adiava para o domingo
seguinte. “Além do mais”, reafirmava
eu, “não estou mais interessado

128
nesses assuntos espirituais”.

Para reforçar minha decisão de mudar


radicalmente minha vida, agora com
motivações exclusivamente materiais,
resolvi me transferir de volta à minha
cidade natal, Rio de Janeiro. A leitura
do livro dos Hare Krishnas, e o
desejo surgido em visitar o templo,
eram uma ameaça ao processo de
tornar-me um materialista. Melhor,
pois, seria a mudança radical e, então,
recomeçar tudo dentro do novo estilo
de vida.

Chegando ao Rio, ocorreu uma


sucessão de coincidências que, de
acordo com a terminologia Hare
Krishna, são típicos exemplos dos
chamados “arranjos de Krishna”. Para

129
não alongar muito a história, darei
somente alguns “flashes” do que se
passou.

Assim que cheguei, fui visitar um


velho amigo e ele me mostrou um
livro que tinha ganhado e lhe era
muito querido. Tratava-se da versão
em inglês do Bhagavad-gita Como
Ele É, de Srila Prabhupada. Fiquei
encantado com o sânscrito e as
ilustrações. No dia seguinte, tive que
ir ao centro da cidade, e, passando em
frente a uma tradicional livraria
especializada em assuntos
espiritualistas, na sobreloja de um
prédio, seguindo meu velho hábito,
subi para somente “dar uma olhada”.
Assim que entrei, o dono veio ao meu
encontro com um grosso livro de

130
capa preta. “Este livro chegou justo
hoje”, disse ele, “é o Bhagavad-gita
dos Hare Krishnas, agora em
português”. Foi uma incrível
surpresa, e, então, sem pestanejar,
adquiri o livro. No terceiro dia, minha
mãe comentou que “umas pessoas
estranhas” estavam de mudança para
uma casa na mesma rua, um pouco
abaixo. Já podemos adivinhar: era o
primeiro templo Hare Krishna
definitivamente instalado no Rio de
Janeiro. Telefonei, então, ao meu
amigo e contei-lhe as novidades. Ele
sugeriu que poderíamos visitar os
Hare Krishnas e propor-lhes a troca
do seu Bhagavad-gita em inglês por
um em português. Combinamos para
o próximo dia, à tarde.

131
Na hora combinada, chegamos à
espaçosa casa dos Hare Krishnas.
Estava tudo vazio, sem qualquer
mobília, e ninguém se encontrava no
andar térreo. O único toque
característico era um suave aroma de
incenso no ar. Subimos ao primeiro
andar, olhando de quarto em quarto,
até que, no último, encontramos dois
Hare Krishnas sentados em
almofadas no chão junto a uma mesa
pequenina. A proposta da troca do
Bhagavad-gita foi prontamente
atendida, e o Hare Krishna mais
graduado, um jovem swami
americano, falando um fluente
espanhol adaptado ao português,
começou a discorrer sobre a filosofia
da consciência de Krishna. Fiquei

132
cativado pelo discurso, mas, “para
não dar o braço a torcer”, eu lancei
algumas perguntas desafiadoras
usando alguns chavões
impersonalistas que vinham à cabeça.
Contudo, meus argumentos foram
literalmente massacrados pela lógica
superior da filosofia personalista. O
interessante é que, apesar de estar
sendo flagrantemente derrotado,
minha inteligência se deliciava ao
contemplar minha derrota diante de
conclusões tão sábias. De tudo o que
foi tratado nessa longa e dinâmica
conversa, o tema que mais me
impressionou foi a descrição dada
pelo swami americano sobre seu guru
indiano, o fundador do Hare Krishna,
Srila Prabhupada.

133
Ele enfatizava que esta filosofia não
tinha sido recentemente inventada,
mas era, na verdade, o conhecimento
original da humanidade, que chegava
até nós através de uma corrente de
mestres espirituais. Por causa da
transmissão em genuína sucessão, o
conhecimento original não tinha sido
adulterado, e, agora, Srila
Prabhupada, o contemporâneo guru
dessa linha, era o autêntico
representante do Senhor Krishna, e
ele estava apresentando a mensagem
do Bhagavad-gita em sua verdadeira
essência.

Estas palavras entravam como um


furacão pelos meus ouvidos, e, dentro
de minha mente, eu tinha um
turbilhão de ideias. A magnífica

134
personalidade de Srila Prabhupada
foi, assim, descrita em seus múltiplos
aspectos, em grande eloquência. A
sensação mais forte que sentia depois
daquele encontro era que alguém
como eu, que esteve por anos
procurando um guru autêntico, teve,
afinal, sua busca coroada de êxito.

Qualquer um pode imaginar a


confusão que se formou na minha
cabeça. Depois de me frustrar com
uma tentativa de vida espiritual, eu
havia filosoficamente optado pela
vida materialista. Quando tal decisão
tinha sido consolidada e agora um
plano prático estava sendo
desencadeado, esta volta aos velhos
temas causava uma grande
interferência, criava conflitos e me

135
distraía do objetivo.

Durante os dias que se seguiram,


maya me apresentou oportunidades
de sucesso material que nunca tivera
antes. Durante um pouco mais de um
mês após este encontro com os Hare
Krishnas, eu estive completamente
ocupado em um serviço que me daria
um considerável retorno financeiro.
Por ter uma data limite estabelecida
em contrato, eu tinha meu tempo
completamente tomado, até mesmo
aos domingos, de forma que evitei ir
ao templo e até mesmo pensar em
qualquer tema espiritual.

Finalmente, ao concluir a tarefa, tinha


tempo para relaxar – mas foi
impossível. Todos aqueles

136
pensamentos voltavam com toda
força à minha cabeça, que estava a
ponto de estourar, de tanto conflito.
Estava em uma encruzilhada e teria
que decidir entre dois caminhos: vida
material ou vida espiritual. De um
lado, a paixão de ganhar dinheiro e
desfrutar das delícias da vida; do
outro, a rara oportunidade de me
associar com um devoto puro,
praticar renúncia e austeridade e
dedicar-me a um processo autêntico
de autorrealização.

Em meio a essa turbulência mental,


fui a São Paulo passar o fim de
semana com meus amigos para tentar
me distrair e esquecer meu dilema.
Acontece que agora eu começava a
perceber a real face de maya. Podia

137
ver a grande ilusão que as pessoas
estavam vivendo, alimentando
esperanças de felicidade neste
mundo. Podia distinguir a
mediocridade e degradação de suas
vidas e a realidade deste mundo,
vendo que estavam imersos em total
ignorância. Tinha ido para desfrutar,
mas voltei arrasado. Ainda tentei
outra possibilidade, que me sorriu
como se fosse aquilo que eu
realmente precisava naquele
momento. Imediatamente rumei para
Saquarema, onde tinha também uns
amigos. Saquarema é o paraíso dos
surfistas: belas praias, natureza, vida
descontraída, gente jovem e feliz.
Apesar de tudo, me sentia deslocado.
Pude claramente compreender que

138
todos aqueles jovens estavam
simplesmente desperdiçando suas
valiosas vidas com coisas inúteis e
temporárias. Não aguentei mais do
que dois dias.

Voltando para casa, peguei o


Bhagavad-gita e me tranquei no
quarto. Por uma semana, eu só saí
para tomar as refeições, e só parei
após ler o livro de ponta a ponta. Ao
final, após muita reflexão, já não
tinha mais dúvidas quanto ao real
objetivo da vida. Meu arrogante
agnosticismo e impersonalismo
estavam agora agonizantes – bastava
somente um ‘tiro de misericórdia’. O
Senhor Krishna tinha Se tornado o
Senhor da minha vida, e Srila
Prabhupada tornou-se o intermediário

139
entre Ele e eu.

Eu entendi que Srila Prabhupada era


realmente meu guru quando,
simplesmente por ler a sua poderosa
ordem de seguir os quatro princípios
reguladores, eu abandonei de uma
vez por todas estas práticas: (1)
comer carne, peixe e ovos, (2)
intoxicação, (3) sexo sem objetivo de
procriação e (4) jogos de azar. Srila
Prabhupada me salvou. Ele me tirou
da ignorância, me iluminou com
conhecimento e transformou minha
vida. Tenho eternamente essa dívida
para com ele.

A decisão de me render a Krishna e


dedicar minha vida à missão de meu
guru foi, sobretudo, racional. Após

140
meditar bastante sobre o assunto, eu
concluí: “Devido a uma inclinação
natural à vida espiritual, eu tinha
desejado sinceramente encontrar um
guru, e agora, pela graça de Krishna,
acabo de encontrar. Se não aproveito
esta oportunidade, certamente irei me
arrepender no futuro, e detesto a ideia
de me tornar uma pessoa frustrada.
Dessa forma, renuncio meus planos
materialistas”. Pensando dessa forma,
eu apaziguei minha mente e tive a
força necessária para renunciar o
mundo material.

Após várias semanas ausente, eu


visitei o templo, e o devoto
encarregado me sugeriu passar o fim
de semana ajudando na preparação de
um grande festival que ocorreria no

141
domingo seguinte. Pintei a sala do
templo de manhã e à noite, e, no
domingo pela manhã, fizemos muitos
arranjos decorativos usando
principalmente bananeiras e folhas de
manga. Eu não tinha absolutamente
nenhuma ideia do que aconteceria
algumas horas mais tarde. O festival
foi algo nunca visto, nem imaginado
por mim. Tratava-se da instalação das
belíssimas Deidades de Sri Sri Gaura-
Nitai.

Durante o banho das Deidades,


abhishekha, eu me dei conta de que
estava cantando e dançando
completamente em êxtase. Nunca
tinha sentido uma emoção como
aquela. O banquete, prasada, que se
seguiu me levou a pensar que já não

142
estava mais neste mundo. Ninguém
sabia, mas, naquela hora, eu já era um
krishna-bhakta e um discípulo de
Srila Prabhupada.

No dia seguinte, eu fui até minha


casa, coloquei um par de roupas
numa sacola de viagem e avisei
minha mãe que, qualquer coisa, ela
podia me procurar naquela casa das
“pessoas estranhas”.

Ia descendo a curta distância entre


minha casa e o templo Hare Krishna,
e me sentia leve como uma pluma e
imensamente feliz.

143
Capítulo 8
A ARTE DE
PREGAR
Um tema que sempre surge nas
conversas entre devotos é o
comentário de que o crescimento de
nosso movimento é muitíssimo lento,
se compararmos com certos grupos
religiosos de apelo mais popular ou
outras correntes espiritualistas de
moda. Todos, em geral, gostariam de
ver os templos cheios de brahmacaris,
congregações fortes e ativas e
templos por toda parte. Nossa

144
realidade é, no entanto, outra. As
novas adesões ocorrem em doses
homeopáticas. Entra ano, sai ano,
estamos sempre vendo as mesmas
caras. E, por falta de apoio maior,
todo final de mês, os responsáveis de
manter em dia os alugueis dos
simples imóveis dos nossos templos
chegam, às vezes, ao limite da
capacidade de suportar as tremendas
pressões psicológicas de se viver
sempre no vermelho.

A consciência de Krishna é, sem


dúvida, bem diferente das religiões
convencionais. Estamos sempre
buscando atingir pessoas normais e
sãs, que, hoje em dia, são cada vez
mais raras. Muitas dessas pessoas já
tˆm suas “religiões” seculares, como

145
vegetarianismo, ecologia, new age,
hatta-yoga, etc. Outros são
praticantes fanáticos dos prazeres
sensuais e desdenham a
espiritualidade. Vemos que as
religiões que se especializaram em
resgatar os desesperados, que estão
no fundo do poço, estão com suas
casa cheias e transformam-se em
verdadeiros negócios empresariais.

Uma razão que afeta tremendamente


a nossa pregação é o despreparo dos
devotos em passar a mensagem da
consciência de Krishna de uma
maneira clara, sensata, inteligente e
adequada ao tempo, lugar e
circunstância.

Qualquer devoto deve estar sempre

146
preparado para responder as
perguntas. Ele deve individualmente
pensar e meditar nos temas mais
comuns que normalmente aparecem
como perguntas de pessoas curiosas.
Perguntas como: Quem é Krishna? O
que o levou a tornar-se um devoto?
etc., devem sempre estar “na ponta da
língua”. A impressão que me dá ao
ver a inaptidão dos devotos em
responderem perguntas ao vivo na
TV é que eles nunca pensaram sobre
o assunto que estão sendo indagados
publicamente. Esses segundos na TV
são momentos preciosíssimos que
não podem ser desperdiçados. Por
outro lado, se a resposta do devoto
for clara e natural, isso causa um
impacto muito forte na audiência.

147
Essa inaptidão em se expressar parece
ser uma característica bem brasileira.
Nossa informalidade é interessante e
simpática, mas tem certos momentos
que não funciona e seu efeito é, em
muitas ocasiões, contraproducente. É
absolutamente necessário que
aprendamos a nos dirigir
corretamente ao público, com
segurança e clareza. Uma vez, em
Bombaim, no templo de Chowpati, eu
dei uma palestra para um público de
mais de mil pessoas. Minutos antes
da palestra, um devoto veio até mim e
me pediu que lhe desse alguns dados
pessoais, no que ele anotou num
papelzinho. Na hora da apresentação
ao público, constatei que não era a
mesma pessoa a quem tinha falado,

148
mas um outro jovem brahmacari, que
tinha o tal papelzinho nas mãos. Sua
apresentação me surpreendeu. Ele
nem sequer me conhecia, mas fez
uma apresentação impecável em
todos os sentidos. Outra ocasião, na
áfrica do Sul, fiquei
impressionadíssimo com a
apresentação pública de um devoto
local. Era uma cerimônia depois do
Ratha-yatra, com a presença de dois
políticos importantes, membros do
parlamento, e vários sannyasis. A
maneira com que ele apresentou não
ficou nada a desejar ao mais
experiente apresentador do Jornal
Nacional da TV Globo. Temos que
nos aperfeiçoar nessa arte. O que
tenho visto mesmo entre líderes e

149
devotos seniores, com raras e
louváveis exceções, são
apresentações ao público pobres,
cheias de trejeitos e cacoetes. Um
devoto contou-me um fato que
acontecera com ele. Depois de uma
fala em público, um estrangeiro, que
estava ainda aprendendo nosso
idioma, chegou para ele e perguntou:
O que é esse tal de “né” que você
tanto fala?..

As horas que antecedem uma


apresentação pública devem ser
dedicadas à profunda concentração e
preparação psicológica. O ser
humano tem uma capacidade única de
antever os acontecimentos. Ele pode
“viver” em sua mente momentos que
não aconteceram na realidade, mas

150
tem toda a probabilidade de
acontecerem no futuro próximo. Todo
conferencista, por mais experiente
que seja, projeta em sua mente a
situação que ele vai viver. Ele
condiciona sua fala às condições do
local e características do público a
que ele vai se dirigir. Ele está
perfeitamente preparado para o que
vai acontecer e então ficará bem à
vontade e seguro. Dessa forma ele
poderá expressar-se com toda
naturalidade e passará sua mensagem
com precisão e clareza.

Por outro lado, sem essa preparação,


qualquer fala ao público poderá ser
um fiasco— “Dá um branco” e, na
hora H, a pessoa esquece das coisas
mais obvias. Uma vez,

151
acompanhando um grupo de devotos
para uma apresentação em um
programa de TV, fui testemunha de
que houve, durante a longa viagem
até ao local do programa, muita
prajalpa, tama-guna e comilança entre
esses devotos. Depois do programa,
quando comentávamos que as
perguntas feitas não foram bem
respondidas pelos devotos, um
comentário surgiu: “Fui pego de
surpresa...” Uma desculpa
esfarrapada, inaceitável...

Outra coisa importantíssima que deve


prevalecer em nossa pregação ao
público em geral é que devemos ter a
habilidade de tratar certos temas que
têm a tendência de causar certa
comoção e desconforto nos ouvintes.

152
Um tema que, se não for bem
apresentado, pode causar certas
suscetibilidades é a questão dos
quatro princípios. O devoto deve ter a
sensibilidade e a habilidade de
apresentar esse importante ponto da
consciência de Krishna sem chocar a
platéia. Muitas vezes, ao invés de
dizer: “Não comer carne, nem peixes
e ovos”, podemos simplesmente
dizer: “Tornar-se vegetariano”. Ao
invés de algo negativo, damos uma
afirmativa positiva. Às vezes para
enfatizar o fato de que abolimos toda
e qualquer intoxicação, damos muita
ênfase ao consumo de café, que é
consumido pelas pessoas em geral de
forma inocente. Esse detalhe pode ser
importante para aqueles que querem

153
galgar níveis mais e mais elevados de
consciência, mas para uma pessoa
sem nenhuma noção prévia sobre as
sutilezas espirituais, isso poderá soar
como algo fanático. Muitas vezes,
certos devotos evitam o café mas
consomem outros alimentos
industrializados que contém
substâncias tão nocivas quanto a
cafeína para a consciência. Quer
dizer, essas coisas podem virar
meramente um tabu, falado da boca
para fora. Isso, muitas vezes, torna-se
contraproducente na pregação, pois
sugere um tipo de purismo e
puritanismo artificial, que afasta
pessoas inteligentes e sensíveis.
Outros devotos, a despeito de
seguirem os quatro princípios, têm

154
princípios morais duvidosos.
Questionamos aqui sua potencia
espiritual na pregação sobre os
princípios reguladores.

Devemos evitar na pregação pública,


para um público que não teve
nenhum, ou muito pouco, contato
com os devotos, tópicos que sejam
excludentes, isto é, que enfatizam
uma grande distancia entre os karmis
e devotos. Muito melhor é buscar
temas que nos unem, e não que nos
afastem. Se uma pessoa toma uma
atitude defensiva no primeiro contato
com os devotos, dificilmente mudará
sua posição. Como se diz: “A
primeira impressão é a que fica”.

Participei, a um par de anos atrás, de

155
um congresso inter-religioso a nível
mundial. Nesse congresso tomei parte
de um workshop sob o tema
“Construindo a Paz”. O facilitador
era uma pessoa com muita
experiência em conflitos e guerras
por todo o planeta. Em certa altura de
nosso workshop ele propôs que
escrevêssemos uma lista de coisas
que existem dentro de nossa religião
que excluem as pessoas de fora.
Nosso grupo era muito eclético: tinha
pessoas de umas dez nacionalidades
diferentes— asiáticos, europeus,
africanos, etc.— cada um
praticamente de uma religião
diferente. Depois disso reunimo-nos
em pequenos grupos para discutir
nossas diferenças e achar pontos em

156
comum. A conclusão que se chega é
que ao enfatizar as diferenças, o
germe da discórdia e da desconfiança
estará sempre presente.

Espero que os devotos que estão


lendo essas linhas compreendam
exatamente o que quero me referir.
Obviamente não queremos
comprometer os princípios que
seguimos e devemos ser cada vez
mais estritos em nosso sadhana
pessoal, mas temos que ter a
sensibilidade e a habilidade para fazer
com que mais e mais pessoas fiquem
atraídas por Krishna, adotem o
serviço devocional como prática
espiritual de vida e adquirem força
interior para vencer as energias
animalescas que convivem em nós e

157
puxam a consciência para baixo.

Constatamos que, infelizmente, a


maioria dos devotos são
despreparados filosoficamente. Sem o
cultivo de anos e anos lendo e relendo
os livros de Srila Prabhupada, a
possibilidade de maestria no
conhecimento da consciência de
Krishna fica muito reduzida. Muitos
devotos se contentam somente com o
conhecimento básico e acham que já
é suficiente. Muitos até não têm
interesse nas aulas, pois irá escutar
coisas que eles já conhecem. O fato é
que para que possamos pregar, temos
que interiorizar e vivenciar todo esse
conhecimento que já sabemos
intelectualmente. Isso requer muita
prática e muitas horas lendo e

158
ouvindo. Mesmo já conhecendo bem
os temas expostos numa classe de
Bhagavad-gita ou Srimad-
Bhagavatam, temos que ficar muito
atentos para aprendermos diversas
maneiras de apresentar o mesmo
tema. Quando escutamos vários
oradores diferentes, muitas idéias
naturalmente aparecerão em nossa
mente que irão enriquecer a nossa
própria pregação.

Para finalizar contarei três episódios


significativos na pregação no Brasil,
que vêm à minha mente nesse
momento. Certamente existem muitos
outros exemplos, mas por ora vamos
nos contentar com esses três. O
primeiro foi no início dos anos
oitenta. Os devotos costumavam

159
participar do encontro anual de
comunidades rurais, onde se reuniam
todas as “tribos” alternativas, muito
em voga naquela época. O zelo de
pregação de alguns devotos, forçando
muito nos kirtanas e tentando com
insistência “fazer a cabeça do
pessoal” causou uma certa irritação
geral e muitos tornaram-se
antagônicos em relação aos devotos.
Paramgati Maharaj era muito
influente junto aos alternativos e,
compreendendo bem a situação,
promoveu uma reunião dos devotos
antes do encontro do seguinte ano.
Nessa reunião ficou estabelecido que
a nossa estratégica de pregação para
os encontros que se seguissem seria
simplesmente essa: “Fica proibido

160
qualquer tipo de pregação proselitista.
Vamos participar dos encontros
somente para servir.” A coisa
funcionou e causou uma revolução
nessa pregação. As pessoas ficaram
totalmente surpresas com a mudança
radical no comportamento dos
devotos e passaram a apreciar os
devotos de coração. Quer dizer, a
melhor pregação naquele momento
foi, simplesmente, “não pregar”. Dois
anos depois, Nova Gokula foi
escolhida para sediar esse Encontro
Nacional das Comunidades
Alternativas e foi o maior e mais bem
sucedido encontro que já aconteceu.
(Lembra-se Lilananda?...)

Houve uma celebração ecumênica


pela paz promovida pelo então

161
cardeal de São Paulo Dom Evaristo
Arns. Ele convidou representantes de
todas as religiões e entidades
espiritualistas. A cerimônia aconteceu
numa grande catedral da cidade.
Lokasakshi Prabhu, experiente em
encontros inter-religiosos,
compreendeu bem aquela situação
particular e no ato de inscrever-se, ao
invés de se colocar como
representante do movimento Hare
Krishna, ele afirmou ser o
representante do Hinduismo. O
resultado foi que, na primeira fila,
ficavam as cadeiras dos
representantes das religiões oficiais
do mundo: Cristianismo, Judaísmo,
Islamismo, Hinduismo, Budismo. E
atrás deles estavam os demais,

162
designados pela igreja católica como
“Seitas”. Normalmente estaríamos
juntos com o pessoal detrás, como
estavam muitas pessoas qualificadas
que não representavam essas linhas
religiosas principais. Só os
representantes das religiões formais
tiveram o privilegio de discursar
nesse mega evento e, entre eles, o
nosso representante Hare Krishna, o
que deixou muita gente atônita.

Durante o Encontro para Nova


Consciência, que acontece todo ano
durante o carnaval, em Campina
Grande, Candra-mukha Swami estava
participando de um painel em que
participavam também outras
personalidades, entre eles o
conhecido escritor católico Leonardo

163
Boff. Na hora das perguntas, alguém
colocou para Maharaj uma questão
envolvendo o tema “reencarnação”, o
que deixou o escritor católico
visivelmente embaraçado e
incomodado, visto que os católicos
rejeitam esse princípio. Essa “deixa”
poderia ter sido aproveitada por um
pregador inexperiente e ávido para
desbancar qualquer posição em
contrário à doutrina
reencarnacionista. Maharaj tinha “a
faca e o queijo na mão”, mas, vendo
o desconforto que isso causaria à
pessoa que estava a seu lado, preferiu
não responder essa pergunta e passar
assim para a seguinte pergunta. O
teatro inteiro lotado percebeu essa
atitude do devoto e somente essa

164
atitude foi milhões de vezes mais
convincente do que inúmeros
argumentos racionais.

Srila Prabhupada ki jay!

165
Capítulo 9
DANDO UM
NOVO SENTIDO
À VIDA
Entrevista com Gustavo, ex-tenente
do exército que tornou-se
Gurusevananda, monge Hare
Krishna, viajou pela índia e agora é
um integrante do projeto de Goura-
Vrindávana.

Amor e Confiança: Gostaríamos de


saber os motivos que levaram-no a
trocar a estável carreira militar pela

166
vida monástica, cheia de incertezas e
dificuldades?

GSA: Acredito que cada pessoa neste


mundo tem um determinado papel a
cumprir (dharma), que lhe é dado por
Deus de acordo com sua própria
natureza. A satisfação pessoal vem à
medida em que conciliamos nossa
vida com o plano divino, de modo
que nossas atividades satisfaçam, em
última análise, a Vontade Suprema.
Todas essas mudanças que ocorreram
comigo nesses últimos quatro anos
são resultados de minha busca
espiritual de tentar compreender
minha missão nesta vida.

AeC: Que missão é essa e o que te dá


tanta certeza de que ela é a vontade

167
de Deus para a tua vida?

GSA: Em seu livro “Terra dos


Homens”, Saint-Exupèry diz que
somente aqueles que entendem seu
papel podem viver felizes e mesmo
morrer felizes, pois o que dá sentido à
vida dá também sentido ao sacrifício
da própria vida. Pois bem, outro fruto
de minha busca espiritual foi a
decisão de fazer de minha vida uma
oferenda para a satisfação de Deus,
Krishna. Essa determinação foi
despertada em mim pela leitura dos
livros de Srila Prabhupada e pela
associação que tive com devotos e
monges. Aí, então, tive forte
impressão de que cada passo era
guiado por Krishna. Não é que Ele
tenha aparecido milagrosamente

168
diante de mim, mas tudo se passava
dentro do coração, na medida em que
Ele dava-me discernimento para fazer
as escolhas corretas. Tais
experiências internas são um tanto
difícil de serem descritas. O fato é
que tudo depende da qualidade da
comunicação que estabelecemos com
Ele. De nossa parte é necessário que
estejamos com a consciência bem
desperta e absortos em oração e
contemplação. Da parte dEle há
maravilhosos arranjos feitos através
de incríveis coincidências e intuições.

AeC: Diga-nos como foi a reação das


pessoas de sua relação ao manifestar
sua decisão de tornar-se um monge?

GSA: Num primeiro momento, tanto

169
meu pai, tios e avô (todos militares)
assim como meus superiores
hierárquicos no quartel acusavam-me
de estar fugindo da responsabilidade
que eu tinha em relação ao serviço da
pátria. Quanto a isso, fiz vê-los que
não era incapacidade para assumir tal
compromisso, visto que minha
carreira desenrolava-se de forma bem
sucedida. Na verdade, estava
assumindo um compromisso muito
maior pois, uma vez que Deus é a
fonte de tudo, o serviço a Ele é muito
mais abrangente e automaticamente
beneficia não somente a pátria mas a
todos. à medida em que minha
vocação religiosa despertava, a
execução daquele papel militar já não
me preenchia completamente. Minha

170
consciência expandia-se para o plano
transcendental e aspirava ao serviço
amoroso a Deus. No final, recebi
apoio de meus ex-companheiros de
quartel e, em especial, de meu pai.

AeC: Fale-nos um pouco sobre a tua


experiência na índia.

GSA: Assim como uma plantinha


para se desenvolver precisa de luz,
água e um solo fértil, senti que no
início de minha senda espiritual
também precisaria de adquirir
bastante conhecimento (luz) e
dedicação às atividades devocionais
(água). A índia foi o lugar ideal para
isso. Lá pude realizar bons estudos
sobre a filosofia e tive oportunidade,
também, de viajar por quase todo o

171
país, conhecendo interessantíssimos
aspectos culturais e visitando locais
sagrados de peregrinação. Quanto ao
terceiro item, eu o associo á minha
vinda para Goura-Vrindávana, o
“solo fértil” onde poderei me fixar e
desenvolver.

AeC: Dê tua apreciação sobre o


projeto de Goura-Vrindávana.

GSA: Goura-Vrindávana tem certas


características que fazem deste
projeto algo único. A meu ver, um
dos principais fatores para o bom
andamento do projeto é a
preocupação dos líderes em ajustar
tudo em harmonia com o tempo,
lugar e circunstâncias. O projeto não
se restringe apenas aos aspectos

172
espirituais mas preocupa-se em criar
uma sólida base material para que o
aperfeiçoamento espiritual de seus
integrantes possa ocorrer de forma
estável. A vida é simples mas a
qualidade de vida é superior a
começar pela alimentação saudável
com produtos orgânicos e
culminando na associação com
pessoas que cultivam elevados ideais
espirituais. Goura-Vrindávana torna-
se, gradualmente, uma referência para
um modelo de desenvolvimento auto-
sustentável (capaz de gerar auto-
suficiência alimentar e energética)
assim como a melhor atmosfera para
vida espiritual sadia. Por tudo isso,
vejo uma perspectiva futura brilhante
para este projeto e oro a Krishna para

173
que Ele me permita humildemente
dar minha contribuição neste belo
serviço à missão de Srila Prabhupada.
Hare Krishna.

174
Extra
REFLEXÕES
Amor Próprio

“Amar a Deus sobre todas as coisas, e


ao próximo como a si mesmo”, é a
injunção do Decálogo. Uma chave
para se por em prática esse
mandamento é o amor próprio. Amar
a si mesmo significa, entre outras
coisas, querer o melhor para si. Qual
é, então, o nosso melhor interesse?
Nessa hora, a maioria das pessoas
fazem a escolha errada ao pensar que
adular o ego é o que há de melhor.
Esquecem-se da alma, o ego

175
verdadeiro, a essência individual
eterna. Dessa maneira, não
conseguem amar-se,
conseqüentemente, não são capazes
de verdadeiramente amar ao próximo,
e o que dizer amar a Deus.

Sanidade Espiritual

Vida espiritual sã implica em ter


olhos abertos para a realidade. Não é
fuga da realidade, nem fantasias ou
delírios. A pessoa sabe muito bem
onde está pisando e não se deixa
iludir. Sabe distinguir entre o que
vale a pena e o que não vale a pena
investir na vida. Não engana nem é
enganada. Está atenta para não se
deixar confundir entre ilusão e
realidade. Espiritualidade genuína

176
implica em conhecimento do eu, do
mundo e de Deus. Não é algo
caprichoso ou meramente sentimental
. [Cuidado! Existem muitos produtos
de imitação no mercado...]

A essência da espiritualidade genuína


é a conexão entre a alma individual e
a Alma Suprema, Deus, e essa
relação é na base do amor e devoção.
Estando, assim, consciente da
realidade e em comunhão com Deus,
pode-se experimentar autoconfiança,
paz interior e felicidade plena,
mesmo em meio a este mundo
caótico.

Sucesso na Vida

Para a sociedade moderna, o

177
referencial do sucesso na vida é
dinheiro, fama e poder. De um modo
geral, todos aspiram a isso e os
jovens são educados nessa direção.
Mas o ruim da história é que poucos
conseguem chegar lá. Uma vez
constatada a inviabilidade do tal
‘sucesso’, a opção geralmente que
fica é a busca do conforto e
entretenimento. Essa passa a ser a
meta da vida para a maioria.

Em geral, aqueles que logram


alcançar o tal ‘sucesso’ ficam
intoxicados pelo próprio ‘sucesso’ e o
ego incha. Mas, como tudo na vida
tem um preço, o preço que se paga é
alto— a absorção desmesurada no
próprio ego leva, invariavelmente, a
um total desleixo da contraparte

178
espiritual da vida, e, como
conseqüência, a alma definha.

Já a turma do conforto e
entretenimento, distraídos com as
amenidades da mídia televisada e
atrações dos shoppings da moda,
vêem-se sufocados por um
interminável caudal de anseios fúteis.
Essa vida fútil produz,
inevitavelmente, embotamento e
inércia espiritual. O tempo vai
passando e a vida é assim tristemente
desperdiçada. O que pode, então,
resultar daí? Somente vazio e
frustração.

O verdadeiro sucesso na vida é a


autoconfiança, paz interior e
felicidade plena que é conseguida

179
com a saúde da alma e a íntima
relação com Deus.

Semeando e Colhendo

Mesmo não aceitando os conceitos de


karma e renascimento, considere:
“Colhemos o que semeamos”. O que
hoje somos, já é nossa colheita. O
agricultor sensato separa os melhores
grãos para serem usados como
sementes no próximo plantio. De
fato, temos nosso destino em nossas
mãos. Agora está na hora de semear
para a próxima safra. Temos que
limpar e preparar bem o terreno
(purificação), adubar (conhecimento
espiritual) e regar regularmente
(práticas espirituais). Boa colheita
para todos!!

180
O Melhor Investimento

Definitivamente, a vida humana não


deve ser desperdiçada com
futilidades, com conquistas efêmeras,
nem com atividades dedicadas
exclusivamente à personalidade
externa, pois essa, mais cedo ou mais
tarde vai desaparecer e tudo referente
a ela se perde. Certamente, o melhor
investimento da vida é o
aperfeiçoamento espiritual, o
despertar da consciência espiritual, o
cuidar da alma. O resultado do
cultivo espiritual é a única coisa que
fica desta vida e é o fator
determinante da nossa próxima
situação de vida, seja lá onde for.
Uma coisa deve ficar bem clara: a
personalidade e o corpo são falíveis e

181
temporários, já a alma segue sua
trajetória eterna rumo à suprema
perfeição em seu habitat natural, a
Transcendência.

Eternidade

A eternidade transcende o conceito de


tempo. Não há passado, presente e
futuro. é um estado pleno de
existência, bem-aventurança e
perfeição absoluta. Tudo é fresco,
viçoso e de beleza infinita. Não há a
hipótese de decrepitude.

Obviamente, esse não é o estado de


existência que agora
experimentamos. Aqui tudo é relativo
e sujeito às dualidades: bom/mal,
prazer/dor, etc. De fato,

182
temporalidade, imperfeição,
deterioração, limitação, sofrimento e
morte são as marcas registradas deste
mundo. Aqui o tempo está sempre
marcando sua impiedosa e inexorável
presença.

Mesmo assim, podemos, aqui mesmo,


experimentar a eternidade, a
liberdade, a perfeição e o êxtase
espiritual se nossa consciência estiver
em estreita união com Deus.

Partindo bem

Uma grande armadilha desse mundo


são os apegos materiais. Muito
cuidado com eles! Saiba lidar com
eles. Uma vez que se instalam na
consciência, eles prendem a

183
consciência da pessoa a esse mundo
e, com a morte, a separação e a
ruptura das coisas e pessoas queridas
produz uma carga emocional muito
grande, que produz sofrimento atroz
para a alma.

Como, então, podemos lidar com


isso, visto que é natural sentir-se
apegado aquilo que gostamos?
Primeiramente, compreendendo bem
a natureza transitória dessa vida e,
depois, definindo bem a hora de
‘aposentar-se’. Depois de ter se
dedicado a maior parte da vida às
coisa desse mundo, prepare-se agora
para a sua partida. Vá tirando,
gradualmente, sua exclusiva atenção
das coisas referentes ao corpo—
negócios, entretenimentos, futilidades

184
— e concentre-se no espírito. Recicle
sua relação com Deus. Pare para
meditar. Ocupe-se em práticas
espirituais. E parta bem— solto, feliz,
com a satisfação do dever cumprido,
com a sensação de que valeu a pena
ter vivido e até mesmo, curioso pelo
que vem pela frente. Vá em frente
confiante. Você não estará sozinho!

Seja o melhor!

Se és cristão, sejas o melhor cristão;


se és muçulmano, sejas o melhor; e
assim por diante. Isso vale para o
budista, o taoista, o hinduista, Hare
Krishna, etc. O que é realmente mais
importante é tornar-se consciente de
Deus.

185
Amor a Deus

Todas as religiões genuínas falam em


amar a Deus, mas poucas, realmente,
ensinam o segredo de se conseguir
isso. Vemos, hoje em dia, muitos
adesivos dizendo “Deus é fiel”. Ele é
fiel, mas, e você? Ele o ama, mas,
para onde está direcionado seu amor?
O amor tem duas vias, de lá para cá e
daqui para lá. Se toda a sua energia
de amor está canalizada para as
coisas deste mundo sua relação com
Deus está defeituosa ou, até,
inexistente.

A consciência de Krishna é um
processo genuíno de despertar o
natural sentimento de amor a Deus.
Esse sentimento, na verdade, já está

186
presente no coração, mas, na maioria
das pessoas, encontra-se adormecido.
O maha-mantra Hare Krishna
funciona como o despertador.

187
Biografia
ALGUNS
DADOS
PESSOAIS
Apareci nesse mundo, no Rio de
Janeiro, no dia dois de setembro de
1945, no exato dia em que terminou a
segunda guerra mundial. Nesse dia, a
bordo de um encouraçado americano,
o imperador do Japão assinou a
rendição, dando fim a um dos
capítulos mais insanos da história da
humanidade. Ganhei o mesmo nome

188
de meu pai, Paulo Alexandre Klavin,
acrescido de Júnior. Meu pai, falecido
em 1989, era filho de imigrantes da
Letônia, pequeno país às margens do
Mar Báltico. Minha mãe, Noemi,
nasceu em Portugal, mas chegou ao
Brasil ainda bebê. Tenho mais dois
irmãos e três irmãs. Sou o segundo
dos seis. Minha infância aconteceu
num ambiente natural muito belo,
perto da Floresta da Tijuca, aprazível
ponto turístico do Rio, sem,
obviamente, o tráfego e a expansão
imobiliária de hoje. Estudei no
Colégio Batista, colégio tradicional
no bairro da Tijuca, onde meu pai era
professor. Meus pais eram membros
ativos da Primeira Igreja Batista.
Passei minha infância e adolescência

189
acompanhando meus pais aos
programas dominicais da igreja, com
especial atenção para a elaborada e
inspiradora parte musical das
cerimônias. Por insistência e controle
de minha mãe, estudei piano durante
alguns anos, muitas vezes
contrariado, pois perdia momentos de
brincadeiras com a garotada da
vizinhança. Mas, mesmo assim, tinha
bastante jeito para a coisa. Lá pelos
onze/doze anos, cursei Teoria
Musical na Escola Nacional de
Música. Solfejo à primeira vista e
ditado eram o terror para muitos
colegas, mas não para mim. A música
sempre esteve por perto nas diversas
fases de minha vida.

Tinha somente quatorze anos quando

190
resolvi prestar concurso para a
Marinha. Um amigo da família tinha
acabado de se formar oficial e viajava
pelo mundo. A idéia de viajar pelo
mundo me encantava. Passei dois
anos (1961/62) no Colégio Naval, em
Angra dos Reis. Na seqüência dos
estudos, completei os quatro anos de
curso superior na Escola Naval, na
ilha de Villegagnon, na baía de
Guanabara, no Rio. Embora
convencido de que essa não era
minha vocação, terminei o curso e
graduei-me oficial de marinha em
1968. Logo ao voltar da longa viagem
de fim de curso, dei baixa na carreira
militar, uma carreira que seria
“segura e garantida” para o resto da
vida. Foi uma decisão muito difícil,

191
pois descartava o certo pelo incerto.
Tive que alimentar uma tremenda
confiança em mim de que não seria
um perdedor no futuro. Nunca me
arrependi nem me lamentei do meu
período militar. Valeu para minha
experiência e amadurecimento. Pelo
menos duas coisas permaneceram
comigo: certa noção de disciplina e
gosto por acordar bem cedo. Depois
da experiência de vida militar,
formei-me em Administração de
Empresas e consegui um ótimo
emprego na área de marketing.
Mesmo tendo possibilidades
promissoras na carreira que se abria,
não consegui ajustar-me na vida
convencional do sistema. A sensação
de inadaptação que sentia era muito

192
forte e angustiante. Estudei
Arquitetura por pouco tempo, mas
não levei adiante. Por fim, pensei ter
encontrado algo que poderia ser
minha ocupação permanente. Desde
criança tinha tido a vivência de
presenciar meus pais cuidando muito
bem das plantas do jardim e do
quintal de nossa casa. Só de vê-los
atuando, peguei o jeito pela coisa e,
então, vislumbrei a possibilidade de
tornar-me um paisagista. Passei em
mais um vestibular, dessa vez para o
curso de paisagismo na Escola de
Belas Artes da Universidade Federal
do Rio de Janeiro. Depois de dois
anos de curso conclui que poderia
aprender mais por conta própria e
interrompi o curso. Fiz alguns

193
trabalhos profissionais nessa área.
Essa fase ficou marcada também por
uma intensa busca por conhecimento
espiritual.

Lia sem parar um montão de livros.


Depois de uma longa fase de
agnosticismo assumido, estava agora
buscando Deus e resposta para os
enigmas da vida. Fiquei logo
tremendamente atraído pelo
conhecimento védico da Índia
milenar. Li, entre tantas coisas, o
Bhagavad-gita e textos de Yoga.
Sentia que, no fundo, tinha uma
vocação monástica. Um dia em São
Paulo, na Rua Augusta, uma devota
Hare Krishna ofereceu-me um livro.
Comprei sem pestanejar. Era o
primeiro livro de Srila Prabhupada

194
publicado no Brasil, Além do
Nascimento e da Morte. Li e gostei
muito. Anos atrás, tinha lido um livro
do famoso Swami Vivekananda.
Nesse livro, ele afirmava que
existiam dois aspectos de Deus:
pessoal e impessoal. Acontece que
ele só explicou o aspecto impessoal.
Por anos, fiquei com essa curiosidade
em minha mente: “O que seria esse
aspecto pessoal de Deus?”. Ao ler o
livro de Prabhupada, mesmo nas
primeiras páginas, vi a expressão:
“Suprema Personalidade de Deus”.
Ao ler isso, meu interesse pelo livro
redobrou, pois senti que estava
prestes a satisfazer minha curiosidade
de anos. Dito e feito. Prabhupada
falou sobre Krishna e tocou

195
diretamente ao meu coração. No final
do pequeno livro, havia um atrativo
convite para o festival transcendental
dos domingos no templo Hare
Krishna de São Paulo. Embora
sempre sentisse vontade de participar
desse festival e conhecer mais de
perto as pessoas que seguiam essa
filosofia, nunca fui, mais do que
outro motivo, por preguiça...

Em extensivas leituras prévias, fiquei


consciente da imperiosa necessidade
de encontrar um guru para iluminar e
guiar minha vida. Toda questão era,
como encontra-lo? Onde encontra-lo?
Quem seria? Talvez se fosse à Índia,
pensava eu... Tomei a iniciativa de
procurar, mas não me identifiquei
com nada do que vi. Cheguei então, à

196
conclusão de que essa busca era
fantasiosa e fora do contexto em que
vivia. Não queria estimular
expectativas vãs, que poderiam
facilmente transformar-se em
desilusões. Por não ver saída para
esse impasse, decidi, então, dar um
rumo radicalmente oposto a minha
vida: deixar a busca espiritual de lado
e concentrar-me na vida material.
Nessa altura, voltando a morar no
Rio, ‘maya’, a energia ilusória
material, oferecia-me muitas
facilidades e desfrutes. Contudo,
durou muito pouco essa fase.
Certamente o Senhor Krishna tinha
algum plano para mim, pois pouco
depois dessa reviravolta em minha
vida, deparei-me com várias

197
coincidências que me guiavam
sempre em direção a Krishna. A mais
marcante delas foi o fato do templo
Hare Krishna ter se estabelecido na
rua onde morava, a poucos metros de
minha casa. Foi o arranjo de Krishna
para me ‘fisgar’. Comprei o recém-
publicado Bhagavad-gita Como Ele É
e, depois de lê-lo de ponta a ponta em
menos de uma semana, realizei que o
Senhor Krishna estabelecera-Se
definitivamente em minha
consciência. Com a leitura dos livros
de Srila Prabhupada, fiquei
plenamente convencido de ter afinal
encontrado o autêntico mestre
espiritual. Nesse momento tinha
encontrado aquilo que há muito
procurava e chegara o momento da

198
decisão mais importante de minha
vida: escolher entre vida material ou
vida espiritual. Vivi a indecisão desse
impasse por uns poucos dias,
felizmente. Desde os primeiros
contatos com os devotos, fiquei
surpreso de ver a transformação que
estava ocorrendo em minha vida. Pela
misericórdia de Krishna minha
decisão pelo caminho espiritual
ocorreu de forma rápida e lúcida, sem
muitas hesitações. A linha de
raciocínio que tive foi a seguinte:
Sempre tivera uma grande atração
pela vida monástica e assuntos
espirituais e naquele momento estava
tendo a oportunidade que, não muito
tempo atrás, estivera intensamente
desejando—encontrar um mestre

199
espiritual. Por obra do acaso, tal
oportunidade surgiu justamente na
hora em que tinha decidido deixar de
lado a busca espiritual para assumir a
opção material. Como, então, sair
desse conflito? A solução veio
através de uma conclusão dialética.
Pensei assim: “Sempre tivera muita
atração pela vida espiritual e agora
esta oportunidade estava
apresentando-se ante mim. Ao
desperdiçar tal oportunidade, abrir-
se-ia grande chance de experimentar
frustração no futuro, pois ao ter a
oportunidade na mão, não aproveitei.
Acontece que, frustração era e é o
que mais quero evitar em minha
vida.” Esse raciocínio resolveu de
uma vez por todas o meu dilema.

200
Decidi, então, adotar, de corpo e
alma, o caminho espiritual. Esta foi,
com toda a segurança, a decisão mais
acertada que fiz em minha vida. O
que, naquele momento, dava-me tal
certeza? Tal certeza veio do fato de
ter testado em mim a potência
espiritual de Srila Prabhupada.
Simplesmente por receber suas
instruções através da leitura de seus
livros, experimentei uma radical
mudança do paradigma de minha
vida. Muitos maus hábitos que
cultivava em ignorância foram
erradicados completa e
imediatamente. Nova motivação de
vida apareceu em cena. Muitas coisas
que antes me atraíram, perderam
totalmente o encanto, enquanto que

201
coisas novas, que nem imaginava,
passaram a ser importantíssimas em
minha vida. Apesar dessa
transformação radical, tudo ocorreu
naturalmente e com grande
felicidade. Espero, sinceramente, que
essa minha experiência pessoal seja
útil para ajudar outras pessoas que
passam por situações similares em
suas vidas.

Juntei-me ao movimento Hare


Krishna em 1976, aos trinta anos de
idade, recebendo as duas iniciações
do fundador-acharya Srila
Prabhupada. De lá para cá, tenho
estado integralmente ativo na missão
de Srila Prabhupada. Passei um
pequeno período atuando na editora,
BBT. Depois disso, ocupei-me na

202
distribuição pública da literatura,
principalmente a primeira edição do
“Bhagavad-gita Como Ele É”.
Empenhei-me bastante nessa
atividade, tanto que em 1977,
encontrava-me entre os dez melhores
distribuidores de livros de
Prabhupada no mundo. Em fevereiro
de 1978, logo após a partida de Srila
Prabhupada desse mundo, tive a
minha primeira oportunidade de
visitar diversos lugares sagrados de
peregrinação na Índia. A partir daí,
engajei-me em atividades
administrativas do movimento. Fui
responsável pelo projeto no Rio de
Janeiro, depois pela comunidade rural
Nova Gokula em Pindamonhangaba
(SP), a seguir pelo templo de São

203
Paulo e, também, fui pioneiro na
pregação em Brasília. Recebi a
iniciação de sannyasi, o mais alto
grau da carreira monástica, em 1985,
em Mayapur, na Índia. Em 1989,
ausentei-me do Brasil. Passei meio
ano em Portugal e alguns meses em
pregação na China. Estive por algum
tempo pregando em Filipinas. Visitei,
também, vários outros países da Ásia
e, então, radiquei-me na Índia.
Percorri os quatro cantos desse país,
mas, ao final, estabeleci minha base
em Vrindávana, a terra sagrada de
Krishna. Em Vrindávana, tive uma
experiência muito enriquecedora
quando permaneci quatro meses
como responsável dos aposentos
históricos que Srila Prabhupada

204
ocupou no templo de Radha-
Damodara, logo antes dele ter vindo
ao Ocidente divulgar os
conhecimentos da consciência de
Krishna. Em seguida, fiquei sediado
por alguns anos no Gurukula de
Vrindávana, a escola de formação
acadêmica e espiritual. Ali participei
das pesquisas e elaboração da
tradução de uma gramática de
sânscrito de quinhentos anos—
Harinamamrita-Vyakarana, de Srila
Jiva Goswami. Nesse período,
aprofundei meus estudos sobre
Vedanta Vaishnava e participei do
corpo docente do VIHE—
Vrindavana Institute for Higher
Education, lecionando o tema “As
Quatro Sampradayas Vaishnavas”.

205
Nessa fase da Índia, comecei a
assumir a responsabilidade de aceitar
discípulos, a fim de dar continuidade
à sucessão discipular da missão de
Srila Prabhupada. Na época do
centenário do aparecimento de Srila
Prabhupada nesse mundo, em 1996,
senti um intenso desejo de voltar ao
Brasil e desenvolver seriamente um
projeto na missão de meu mestre
espiritual. O projeto que mais se
encaixou aos meus anseios foi a
comunidade Goura Vrindávana de
Paraty (RJ), da qual sou coordenador
e líder espiritual.

Esse projeto, ao qual tenho me


dedicado esses últimos anos, tem me
trazido muitas realizações. Nossa
proposta, em Goura Vrindávana, é

206
fazer dessa maravilhosa terra que
Krishna colocou em nossas mãos, um
santuário ecológico e um santuário
espiritual. Queremos, também, que
esse projeto seja um modelo de
comunidade sustentável que possa ser
multiplicado por todo o mundo. Com
o propósito de divulgar essa idéia,
tenho viajado por muitos lugares,
dentro e fora do país. Tenho, também,
me empenhado em orientar pessoas
no caminho espiritual, por meio de
palestras, seminários e cursos.

207
AUTOR
Purushatraya Swami, nascido
em 1945, é natural do Rio de Janeiro.
Cursou a Escola Naval e formou-se
em administração. Aos 24 anos,
despertou um grande interesse sobre
o pensamento oriental, e seis anos
mais tarde, decidiu ingressar na vida
monástica. Em 1985, na Índia, foi
iniciado na ordem renunciada de
vida, sannyasa, recebendo o título de
Swami e sendo reconhecido como
mestre em bhakti yoga. Por sete anos,
morou na Índia, dedicando-se ao

208
estudo e ensino de filosofias
comparadas e sânscrito. É um
reconhecido palestrante, tendo
visitado todos os continentes. Hoje,
reside novamente no Brasil, onde
coordena um projeto
espiritualista/ecológico em Paraty,
RJ.

209
210
211
212
213
Índice
Sumário 3
1- Ciência do Mantra 9
2- Criando condições para
28
o crescimento pessoal
3- O ideal da vida
37
comunitária
4- Valorizando a vida 43
5- Psicologia Humanista e
76
Autorrealização
6- Raio X da guerra e da
101
paz
7- Um Devoto do Deus
118
Pessoal
8- A Arte de Pregar 144

214
9- Dando um novo sentido 166
à vida
Extra 175
Biografia 188
Autor 208

215