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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Credos e confissões de fé

Ao longo da história os servos de Deus utilizaram uma forma bastante simples


de expressar suas crenças e fé. Utilizando declarações e afirmações, eles
professavam conceitos e verdades que eram intrínsecos a si; sendo uma das mais
belas confissões a declaração de Moisés em Deuteronômio 6.4-9. Juntamente com
esta confissão de fé de Moisés conhecida como Shemá (ouve) eram acrescentados
os textos de Deuteronômio 11.13-21 e Números 15.37-41, os quais eram repetidos
três vezes ao dia, sendo usados na liturgia das sinagogas. Tais declarações
constituíam o credo judeu.

Com o passar do tempo, as declarações, credos e confissões, foram


elaboradas de forma mais sistemática expressando além da fé, um conjunto de
verdades que auxiliariam os crentes a entenderem e defenderem melhor suas
crenças. Assim, no segundo século, foi elaborada uma das mais antigas belas
declarações já escritas pela Igreja Cristã, a qual expressava de forma ímpar a sua fé.
Não obstante, o Credo apostólico é mais que uma simples declaração, pois traz
consigo o cerne da filosofia e teologia da igreja cristã nascente, conforme pode ser
visto abaixo:

Creio em Deus Pai, Todo-poderoso, Criador do Céu e da terra.

Creio em Jesus Cristo, seu único Filho, nosso Senhor, o qual foi
concebido por obra do Espírito Santo; nasceu da virgem Maria; padeceu sob o
poder de Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado; desceu ao
Hades; ressurgiu dos mortos ao terceiro dia; subiu ao Céu; está sentado à
direita de Deus Pai Todo-poderoso, donde há de vir para julgar os vivos e os
mortos.

Creio no Espírito Santo; na Santa Igreja Universal; na comunhão dos


santos; na remissão dos pecados; na ressurreição do corpo; na vida eterna.
Amém.

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Posteriormente surgiram outros credos e confissões, combatendo heresias que


se haviam infiltrado na igreja, como por exemplo:

 Concilio de Nicéia (325 d.C.) – Sob a presidência do imperador


Constantino, reconhece a consubstancialidade do Filho em relação ao Pai.
 Concílio de Constantinopla (381 d.C.) - Sob a presidência do imperador
Teodósio I, reconhece a Divindade do Espirito Santo e inicia as discussões
sobre as duas naturezas de Cristo (divina e humana).
 Concílio de Éfeso (431 d.C.) - sob a presidência de Teodósio o Jovem,
condena o nestorianismo, que afirmava uma separação das duas naturezas
de Cristo.
 Concílio de Calcedônia (451 d.C.) - Sob a presidência do imperador
Marciano, finalmente declara que as duas naturezas de Cristo existem em
igualdade.

Confissões de fé – Reformadas

Grande parte das confissões das igrejas reformadas foi produzida por autores
individuais, ou ainda um pequeno grupo de teólogos incumbidos esboçar um cânon
doutrinário.

Lutero e Melancthon tiveram fundamental influência na Confissão Augsburg, o


padrão de fé das igrejas luteranas. A Segunda Confissão Helvética ficou sob a
responsabilidade de Bullinger, tarefa que lhe foi conferida por um grupo de teólogos
suíços; e o solene Catecismo de Heidelberg (ligado às igrejas reformadas alemãs) foi
delineado por Zacarias Ursino e Gaspar Oleviano, após determinação de Frederico
III. A Confissão Escocesa foi preparada sob os atentos cuidados de John Knox,
auxiliado por um grupo de seis teólogos. Os Cânones do Sínodo de Dort, de grande
influência na fé reformada, especialmente para os holandeses, tiveram a participação
de teólogos e autoridades dos estados gerais da Holanda e dos países baixos. E por
fim, a Confissão de Fé e os Catecismos de Westminster que reverberam o
pensamento reformado mundo afora, especialmente, dos cristãos presbiterianos.

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Símbolos de fé da Igreja Presbiteriana do Brasil

Um símbolo aponta para algo que vai além de seu valor intrínseco, volta os
olhos para algo por ele representado. Foi dessa forma que os cristãos da Igreja
Primitiva, no afã de ocultar-se de seus perseguidores, utilizaram o acróstico ΙΧΘΥΣ,
que significa “Jesus Cristo, Filho de Deus, Salvador”.

A Igreja Presbiteriana também tem adotado alguns Símbolos de fé, os quais


refletem sua teologia; são eles: a Confissão de fé de Westminster e os Catecismos
Maior, com 196 perguntas e respostas e o Breve Catecismo com 107 perguntas e
respostas.

Tais símbolos de fé, foram elaborados na mesma época e são de imenso valor
e de inestimável importância para a igreja em todos os tempos. Entretanto, tal valor
não lhes é intrínseco, senão imputado pela própria Escritura Sagrada. Valor que está
arraigado à autoridade da Palavra de Deus, a Bíblia.

Fatos que antecederam a Confissão de fé e dos Catecismos de


Westminster

Sob o reinado de Henrique VIII a Inglaterra rompe com a Igreja Romana e


aprova o Ato de Supremacia, pelo qual o rei passa a ser o chefe da Igreja da Inglaterra,
ainda de confissão católica, mas agora com o nome de Igreja Anglicana.

Henrique VIII morre e seu filho Eduardo VI assume o trono e sob influência do
arcebispo de Cantuária, simpatizante do calvinismo, inicia um processo de reforma no
anglicanismo vigente, o que é interrompido com sua morte precoce, aos quinze anos
de idade.

Com a morte de seu meio-irmão Eduardo VI, Maria Tudor assume o trono da
Inglaterra e refaz os laços com a Igreja Romana, queimando na fogueira os líderes do
protestantismo inglês. Muitos adeptos de tal movimento refugiam-se, especialmente
em Genebra, onde sob a liderança de John Knox, dão início à igreja que mais tarde

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sob a égide escocesa, ficaria conhecida como Igreja Presbiteriana. É ainda neste
período que organizam a primeira Bíblia com capítulos e versículos, que ficou
conhecida mundialmente como Bíblia de Genebra.

Maria Tudor falece e sua meia-irmã Elizabete assume o trono inglês,


restabelecendo o Ato de Supremacia. Diante disto, os protestantes exilados voltam
para a Inglaterra e Escócia com suas convicções calvinistas ainda mais sólidas.

É nesse contexto que um grupo de calvinistas ingleses luta por uma


conformação maior do sistema de governo, doutrina e vida dos cristãos anglicanos,
bem como de toda a sociedade com os padrões bíblicos. Assim, no ano de 1565,
passaram a ser chamados de puritanos.

A rainha Elizabete falece em 1603 e o rei da Escócia, Tiago VI, passa a reinar
também sobre a Inglaterra sob o nome de Tiago I, perseguindo duramente os
puritanos.

O rei Tiago morre deixando filho Carlos I no trono e após assumir o poder busca
submeter os presbiterianos escoceses ao regime governamental da Igreja da
Inglaterra. Os presbiterianos foram obrigados a defender seu sistema de governo,
doutrina e culto; o que levou o rei Carlos a convocar a eleição de um Parlamento. Mas,
para sua surpresa o Parlamento eleito era composto de calvinistas puritanos e foi
imediatamente por ele dissolvido.

Convocada uma nova eleição, os ingleses elegeram um Parlamento com


maioria puritana ainda mais significativa. Ao tentar dissolver este novo Parlamento o
rei Carlos, iniciou uma guerra civil na Inglaterra e agora além dos escoceses,
precisava lidar com seu próprio povo.

Uma vez que o Parlamento era composto de uma maioria puritana, os


parlamentares se voltaram para as questões religiosas e é aí que temos o start para
a Confissão de Fé de Westminster.

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Origem da Confissão de fé e dos Catecismos de Westminster

Sendo convocados pelo Parlamento Inglês, 121 teólogos eruditos, 20 membros


da câmara dos comuns (equivalente à câmara dos deputados) e 10 membros da
câmara dos lordes (composta por nobres, arcebispos e bispos da Igreja Anglicana),
reuniram-se na Abadia de Westminster, num período de cerca de seis anos (1643 a
1649), com o intuito de confeccionar um documento capaz de promulgar a fé
calvinista, sintetizando os principais pontos doutrinários expressos nas Sagradas
Escrituras. Este documento deveria servir como alicerce doutrinário, forma de culto e
governo eclesiástico para a Igreja do Estado nos três reinos sob o domínio inglês
(Inglaterra, Escócia e Irlanda).

Através de uma exposição sintética, porém confrontadora, a Confissão de fé de


Westminster apresenta os ensinos sagrados acerca de temas como: a autoridade das
Sagradas Escrituras, a mediação Cristológica, o mistério da Santíssima Trindade, a
Salvação, o Estado final dos mortos, dentre outros.

Qual o valor ou a necessidade da Confissão de fé de Westminster para


nós hoje?

Como vimos, no decorrer da história, a igreja se viu diante de vários embates


teológicos e filosóficos que trouxeram apreensão e confusão acerca do Ser de Deus
e a verdade das Escrituras. Algumas afirmações feitas, confundiram os cristãos e de
certa forma ofuscaram a glória de Deus.

Mesmo diante das dificuldades, a igreja buscava a verdade. Erros teológicos


eram combatidos com severidade. Contudo, a notória influência do Estado nas
decisões conciliares e doutrinas eclesiásticas trouxeram sérios problemas à igreja.

Diante do exposto, entendemos que as “Confissões e Credos”, fundamentados


nas Sagradas Escrituras, tem servido à Igreja de Cristo, mediante seu ensino claro e
objetivo. Jovens e adolescentes foram e tem sido por anos, instruídos à luz dos

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sempre atuais assuntos abordados nos Catecismos Maior e Breve, bem como da
própria Confissão de fé de Westminster.

Como bem expressou o Rev. Alderi Souza de Matos, historiador da IPB:

“A Confissão de Fé pode ser considerada um pequeno manual de teologia


bíblica. Seus 33 capítulos abordam os temas mais importantes da teologia
cristã: a doutrina da Escritura Sagrada – cap. 1; a doutrina de Deus (ser e
obras) – caps. 2-5; a doutrina do homem e da redenção – caps. 6-9; a doutrina
da aplicação da salvação – caps. 10-15; a doutrina da vida cristã – caps. 16-
19; a doutrina do cristão na sociedade – caps. 20-24; a doutrina da
igreja – caps. 25-31; e a doutrina das últimas coisas – caps. 32-33.”1

1
http://www.mackenzie.br/7060.html

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DA ESCRITURA SAGRADA

Capítulo I

1.1. Revelação Plena

Ainda que a luz da natureza e as obras da criação e da providência de tal modo


manifestem a bondade, a sabedoria e o poder de Deus 1 de tal modo que os homens
fiquem inescusáveis2, contudo não são suficientes para dar aquele conhecimento de
Deus e da sua vontade necessário para a salvação3. Por isso, foi o Senhor servido,
em diversos tempos e diferentes modos, revelar-se e declarar à sua Igreja aquela sua
vontade4. E depois, para melhor preservação e propagação da verdade, para o mais
seguro estabelecimento e conforto da Igreja contra a corrupção da carne e malícia de
satanás e do mundo, foi igualmente servido fazê-la escrever toda5. Isto torna
indispensável a Escritura Sagrada, tendo cessado aqueles antigos modos de revelar
Deus a sua vontade6. Ref.:

1- Sl 19.1-4. 4- Hb 1.1,2; Gl 1.11,12; Dt 4. 12-14.

2- Rm 1.19,20; Rm 2.14,15; Rm 1.32. 5- Lc 24.27; II Tm 3.16; Rm 15.4.

3- I Co 1.21; I Co 2.9-14; At 4.12; 6- Lc 16. 29-31; Hb 1.1,2.


Rm10.13,14.

João Calvino dizia que todo homem traz em si a “sêmen religionis”, ou seja, a
semente da religião está arraigada em seu coração. Isto implica em dizer que por mais
que o homem queira, jamais ele poderá negar que existe dentro de si uma forte
inclinação para as questões espirituais. Entretanto, devido à corrupção causada pelo
pecado, o homem não pode voltar-se para Deus e ser por Ele salvo pela revelação
que a natureza faz dos atributos Divinos.

Contrariando o ensino da Teologia Natural, que afirma que “nas energias do


seu Espírito, Deus está em todas as coisas, e todas as coisas estão em Deus” e ainda

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que “o Espírito de Deus no mundo age como um campo de forças, que dá energia a
todas as coisas”. Semelhantemente, o Panteísmo tributa divindade à natureza ao
afirmar que o universo, a natureza, os animais, os homens, enfim, toda a criação é
Deus e Deus é tudo o que foi criado. Diametralmente oposta, a Confissão de Fé de
Westminster afirma categórica e corretamente que as revelações de Deus na
natureza, não podem conduzir o homem à salvação.

Os conceitos apresentados, revelam apenas uma coisa: a ignorância e


cegueira dos homens, pois como afirma o apóstolo Paulo em Romanos 1.18-25, eles
se tornaram loucos e adoraram a criatura em lugar do Criador.

Diante do exposto e com o propósito de facilitar nosso entendimento,


analisemos o que na teologia é delimitado como revelação geral e revelação especial.

Revelação geral - por revelação geral, entende-se aquela manifestação, onde


Deus torna conhecida de todos os homens sua existência, poder e divindade. Isso Ele
o faz sem distinção de raça, credo, cor ou nacionalidade, isto é, sem fazer acepção
de pessoas (Atos 14.15-17; 17.22-33).

Os meios usados por Deus para tal revelação são a natureza e seus fenômenos
naturais e a consciência humana, pois todos em algum momento de sua vida
reconhecem haver um Ser Superior e que sustenta todas as coisas. Este meio de
revelação é obtido por meio da razão, porém não é suficiente para salvar os pecadores
da condenação eterna (Romanos 1.18-25).

Revelação especial - a revelação especial diz respeito à manifestação Divina


de modo sobrenatural, bem como, mediante palavras que em tempos passados eram
comunicadas através dos profetas que transmitiam os oráculos Divinos. Contudo, com
o passar do tempo, tais oráculos foram registrados no que ficou conhecido como
Cânon do Antigo Testamento. Com a chegada da plenitude dos tempos, tal
comunicação se deu especialmente por intermédio de Cristo e das Escrituras,
formando o Cânon do Novo Testamento (Efésios 1.1-14).

O Rev. Paulo Anglada, famoso por sua apologética reformada, expõe a


revelação especial da seguinte forma:

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“De modo direto e sobrenatural, por meio do seu Espírito, através de


revelação direta, teofanias, anjos, sonhos, visões, pela inspiração de pessoas
escolhidas e pelo seu próprio Filho, Deus comunicou progressivamente à
igreja, no curso dos séculos, as verdades necessárias à salvação, as quais,
de outro modo, seriam inacessíveis ao homem.”2

A revelação especial é assimilada somente pela fé de modo a assegurar a


salvação e esta aos eleitos de Deus. Contudo, não por seus próprios méritos, mas
pelos de Cristo Jesus.

1.2. Cânon Sagrado

Sob o nome de Escritura Sagrada1 ou Palavra de Deus2, incluem-se agora


todos os livros do Velho e do Novo Testamentos, que são os seguintes, todos dados
por inspiração de Deus3 para serem a regra4 de fé e de prática:

Velho Testamento: Gênesis, êxodo, Levítico, Número, Deuteronômio, Josué,


Juízes, Rute, I e II Samuel, I e II Reis, I e II Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Jó,
Salmos, Provérbios, Eclesiastes, Cântico dos Cânticos, Isaias, Jeremias,
Lamentações, Ezequiel, Daniel, Oséias, Joel, Amós, Obadias, Jonas, Miquéias,
Naum, Habacuque, Sofonias, Ageu, Zacarias, Malaquias.

Novo Testamento: Mateus, Marcos, Lucas, João, Atos, Romanos, I e II


Coríntios, Gálatas, Efésios, Filipenses, Colossenses, I e II Tessalonicenses, I e II
Timóteo, Tito, Filemon, Hebreus, Tiago, I e II Pedro, I, II e III João, Judas, Apocalipse.

1 - Ef 2.20; Mt 26.56 3- II Tm 3.16; II Pe 1.21

2 – I Ts 2.13 4 - Gl 6.16

O inciso segundo da Confissão de fé de Westminster, inicia com a afirmação


de que os livros do Antigo e do Novo Testamentos são a Palavra de Deus e de fato o
são. Não por uma convenção humana, que em algum momento da história definiu que
assim o seria, mas porque foi, como indica a própria Confissão de fé e os textos

2
http://www.monergismo.com/textos/bibliologia/revelacao_anglada.htm

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supracitados, inspirada por Deus. Isto implica em dizer que ela pode e deve reger não
apenas nossa fé, mas igualmente nosso estilo de vida. Jesus fez diversas afirmações
acerca do Antigo Testamento que apontavam para a autoridade que lhe é inerente
(Mateus 22.29; Lucas 24.25, 27, 32 e João 5.39), os apóstolos Paulo e Pedro também
expressaram seus conceitos a esse respeito (II Timóteo 3.16-17; II Pedro 1.20-21). O
Novo Testamento traz consigo a mesma autoridade que o Antigo, pois a Fonte é a
mesma: Deus. Em II Pedro 3.14-16, os escritos do apóstolo Paulo são expostos no
mesmo nível que as Escrituras do Antigo Testamento.

Diante do exposto acima e para melhor aproveitamento das informações


supracitadas, analisemos duas questões apresentadas neste inciso que são de crucial
importância para nossa aceitação e submissão às Escrituras Sagradas: Inspiração e
canonicidade.

a) Inspiração

Iniciamos pela inspiração porque sem ela as Escrituras perdem seu valor,
tornando-se um livro como outro qualquer. Mas, o que é inspiração, como defini-la?

Antes de prosseguirmos numa definição do que é inspiração, precisamos saber


o que ela não é. Vejamos, portanto, alguns conceitos errôneos acerca da inspiração:

 Teoria da inspiração mecânica ou do ditado – de acordo com tal teoria, Deus


teria ditado palavra por palavra aos escritores bíblicos, usando-os de forma
mecânica, anulando suas personalidades.

Analisemos, portanto, a questão: se realmente Deus houvesse ditado as


palavras a serem registradas, anulando a personalidade dos escritores, porque
então, Lucas entendeu ser necessário fazer uma investigação acurada dos
fatos, antes de escrever seu Evangelho, que aliás, era uma carta endereçada
a alguém especifico (Lucas 1.1-4); Ou ainda, porque Salomão precisou
considerar e investigar antes de compor seus provérbios (Eclesiastes 12.9-10)?

Esta teoria vai de encontro com as Escrituras que nos mostram que seus
escritores redigiram conforme o conhecimento que tinham das

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coisas (II Pedro 3.14-16); acerca disto, tratarmos adiante, quando falarmos
sobre a instrumentalidade humana.

 Teoria da iluminação – esta teoria foca a habilidade humana de conhecer a


Deus e suas verdades. Segundo este conceito o homem recebe uma aptidão
especial ou mesmo um estimulo sobrenatural por parte do Espirito Santo, sobre
sua capacidade natural tornando-o apto a escrever acerca das verdades
Divinas, isto é, não ocorre nenhuma forma de revelação por parte de Deus,
apenas uma intensificação das verdades já captadas pelo próprio ser humano.

 Teoria da Intuição – para os adeptos deste pensamento, os escritores bíblicos


apreenderam verdades espirituais e decidiram registrá-las. Para a teoria da
intuição, os profetas, apóstolos e demais escritores bíblicos apenas tinham
talentos mais apurados que outras pessoas, assim como acontece na música,
dança e demais artes. Para eles a inspiração bíblica não é sobrenatural, sendo
os escritos bíblicos obras literárias comparáveis às de Shakespeare, Agatha
Christie, Paulo Coelho, dentre outros. Chegam mesmo a dizer: “Eu sei que a
Bíblia é inspirada porque ela me inspira”.

Como podemos então, definir a inspiração bíblica?

Para que possamos entender esta questão, temos que a princípio atentar para
o fato de que Deus é o único e supremo autor das Escrituras. Entretanto aprouve a
Ele que alguns homens servissem como instrumentos no registro de Sua vontade.
Assim temos:

 A autoria Divina:

Do lado divino as Escrituras são a Palavra de Deus no sentido de que se


originaram Nele e são a expressão exata de Sua mente e vontade.
Em II Timóteo 3.16, encontramos a referência a Deus: "Toda Escritura é divinamente
inspirada" (θεόπνευστος - soprada ou expirada por Deus). A referência aqui é ao
escrito.

 A instrumentalidade humana:

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Do lado humano, certos homens foram escolhidos por Deus para receber a
Palavra e passá-la à forma escrita. Em II Pedro 1.21, encontramos a referência aos
homens: "Homens santos de Deus falaram movidos pelo Espírito Santo" (φερω -
movidos ou conduzidos). A referência aqui é ao escritor. Dessa forma, o ser humano
foi apenas instrumento nas mãos do seu Criador. Deus não só é o Autor Supremo das
Escrituras Sagradas, mas também é Aquele que inspira homens para escrevê-las com
exatidão, preservando-as do erro.

O Rev. Herminsten Maia, um dos expoentes do presbiterianismo brasileiro,


define a inspiração das Sagradas Escrituras da seguinte maneira:

“Podemos definir a inspiração como sendo a influência sobrenatural do


Espírito de Deus sobre os homens separados por ele mesmo, a fim de
registrarem de forma inerrante e suficiente toda a vontade de Deus,
constituindo esse registro na única fonte e norma de todo conhecimento
cristão”.3

Expomos ainda a opinião do Dr. Gerard Van Groningen, que foi um dos grandes
defensores da Teologia Reformada nos séculos XX e XXI:

“O Espirito Santo habitou em certos homens, inspirou-os, e assim dirigiu-os,


que eles, em plena consciência, expressam-se na sua singular maneira
pessoal. O Espirito capacitou homens a conhecer e expressar a verdade de
Deus. Ele impediu-os de incluir qualquer coisa que fosse contrária a essa
verdade de Deus. Ele também impediu-os de escrever coisas verdadeiras
que não eram necessárias. Assim, homens escreveram como homens, mas,
ao mesmo tempo, comunicaram a mensagem de Deus, não a do homem.”4

Assim, quando falamos em inspiração queremos dizer que: Inspiração é a


operação divina que influenciou os escritores bíblicos, capacitando-os a receber a
mensagem divina, e que os moveu a transcrevê-la com exatidão, impedindo-os de
cometerem erros e omissões, de modo que ela recebeu autoridade divina e infalível,
garantindo a exata transferência da verdade revelada de Deus para a linguagem
humana inteligível (I Coríntios 10.13; II Timóteo 3.16; II Pedro 1.20,21).

3
A inspiração e inerrância das Escrituras, pag. 98.
4
Ibidem, pag. 99.

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Calvino acertadamente afirma: “O mesmo Espírito que deu certeza a Moisés e


aos profetas de sua vocação, também agora testifica aos nossos corações de que ele
tem feito uso deles como ministros através de quem somos instruídos”5.

Elementos característicos da inspiração

Qual a razão de entendermos a inspiração conforme conceituada acima? A


razão é simples: entendemos que ela foi plenária, dinâmica, verbal e sobrenatural.

Plenária e sobrenatural – como afirmamos anteriormente, Deus é o Supremo


Autor das Escrituras. Assim sendo, tudo o que foi registrado, o foi pela soberana
vontade de Deus. Atestam tal verdade os textos de II Timóteo 3.16 e II Pedro 1.20,21.
Ao passo que ela foi plenária, foi também sobrenatural, pois não aconteceu, como
acontecem as supostas inspirações musicais e poéticas dos mais diversos artistas;
não faz parte da mera sensibilidade humana acerca das coisas desta vida. Sua origem
está em Deus (João 17.17; Romanos 10.17, I Pedro 1.23).

Dinâmica e orgânica – não obstante ser Deus o Supremo Autor das Escrituras,
ele se serviu da instrumentalidade humana para a realização de seus propósitos.
Contudo, Deus não nulificou a personalidade dos que para este fim foram reservados,
antes os usou como organismos vivos no registro de Sua vontade. Podemos ver isto
nos registros de vários escritores bíblicos, mas analisemos apenas alguns:

 Davi – este servo de Deus era um guerreiro nato, homem valente e temente a
Deus, mas era também um musico talentoso (I Samuel 16.18, 22-23). Dessa
forma, quando compõe seus Salmos, Davi está expressando o talento pessoal
dado por Deus, a exemplo do Salmo 145.

 Isaías – de acordo com os estudiosos e a tradição judaica, Isaías pertencia à


nobreza de seus dias. Especula-se que seria primo do rei Uzias, mas não há
comprovação Escriturística a este respeito. Em seus escritos transparece uma

5
João Calvino – Pastorais, pag. 263.

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

forma poética de escrever, basta analisarmos como ele expõe seu chamado
(Isaías 6.1-8) e sua profecia acerca do Messias (Isaías 9.1-2,6).

 Paulo - nos escritos do apóstolo Paulo, especialmente em Romanos e Gálatas,


destaca-se seu conhecimento da Lei e isto não é por acaso; Paulo outrora fora
um proeminente doutor da Lei, um fariseu preparado aos pés de um dos mais
conceituados mestres farisaicos de Israel (Atos 5.34; Atos 22.23; Filipenses
3.4-7). Isto afora, seu conhecimento da filosofia grega (Atos 17.28).

Verbal – entendemos que a inspiração foi ainda verbal, pois foi por meio de
palavras que Deus revelou sua vontade e tornou claro o plano da
salvação (II Samuel 23.2; Jeremias 1.9; Mateus 5.18; I Coríntios 2.13).

Finalizo esta exposição acerca da inspiração com as palavras de João Calvino:


“devemos à Escritura a mesma reverência devida a Deus, já que ela tem n’Ele sua
única fonte, e não existe nenhuma origem humana misturada nela”6.

b) Canonicidade

Por canonicidade das Escrituras queremos dizer que, de acordo com "padrões"
determinados e invariáveis, os livros incluídos nas Escrituras são considerados parte
integrante de uma revelação Divina completa, sendo, portanto, obrigatória no que se
refere à fé e à prática cristã.

O termo canonicidade deriva do vocábulo cânon, que por sua vez procede do
grego Kanõn (κανών). Contudo, sua origem é semítica, proveniente do hebraico
Qâneh (‫ )קנה‬e significa literalmente, tanto no hebraico quanto no grego: cana ou vara
de medir.

Ao longo do tempo tal expressão tomou outros sentidos, como por exemplo:
regra, na gramática; tabelas, listas, datas e números quando o assunto era a
matemática; pauta, em se tratando de arte; haste, na arquitetura; ou ainda, uma lista
de obras escritas, quando o assunto em pauta era literatura. Dessa forma, quando

6
Idem.

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

falamos no Cânon das Escrituras, estamos aludindo tanto à um conjunto de livros


inspirados por Deus, quanto de regra ou norma de conduta e fé.

Havia em Israel uma já extensa publicação de literatura, inclusive de ordem


religiosa e que era utilizada pelo povo; alguns exemplos bastante pertinentes são
Êxodo 17.14, Neemias 8.1 e Josué 1.7-8. Outros casos que podem atestar tais
afirmações são: I Crônicas 29.29; Isaías 30.8; Jeremias 30.2; Jeremias 36.1-4).

Não foi Moisés, nem mesmo os profetas e ainda menos os líderes religiosos de
Israel (fariseus, escribas, saduceus, etc.) que determinaram quais livros deveriam
fazer parte do cânon do Antigo Testamento. Eles foram reconhecidos pelo próprio
povo como tendo autoridade Divina em seus escritos. Uma narrativa de extraordinária
beleza está registrada em II Crônicas 34.

Não sabemos exatamente quais os critérios utilizados pelos judeus na


formação do cânon do Antigo Testamento, mas aceitamos e não poderia ser diferente,
a opinião de Jesus e dos apóstolos acerca dos livros que o compõem (Mateus 22.29;
Lucas 24.25, 27, 32 e João 5.39; II Timóteo 3.16-17 e II Pedro 1.20-21).

Por outro lado, na formação canônica do Novo Testamento, os padrões eram


claros e objetivos, conforme observa o rev. Herminsten Maia:

a) Escrito por um dos doze apóstolos, ou alguém que tivesse convivido com
eles;
b) A aceitação e utilização pela igreja;
c) Coerência doutrinaria - Escrito de acordo com revelações anteriores;
d) Inspiração.

A esta altura se faz necessário destacar que os escritos bíblicos não passaram
a fazer parte do cânon, mediante um consenso de uma igreja institucionalizada, mas
da igreja cristã ao longo dos séculos. Assim, após uma análise e aprovação criteriosa,
tornaram-se regra de fé e prática para os servos de Deus, conforme expressa
Merryl C. Tenney: “O cânon, portanto, não é produto do critério arbitrário de qualquer

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

pessoa, nem foi determinado por voto conciliar. Resultou do emprego dos vários
escritos que provavam seu mérito e a sua unidade pelo seu dinamismo interno” 7.

1.3. Apócrifos.

Os livros geralmente chamados apócrifos, não sendo de inspiração divina, não


fazem parte do cânon da Escritura; não são, portanto, de autoridade na Igreja de Deus,
nem de modo algum podem ser aprovados ou empregados senão como escritos
humanos.

1 - Lc 24.27,44; Rm 3.2; II Pe 1.21.

O termo apócrifo significa: oculto. Assim, os livros apócrifos sugerem trazer à


luz verdades que estavam ocultas.

Por livros apócrifos nos referimos a uma série de livros que foram incluídos na
Bíblia católico-romana e na Bíblia da Igreja Ortodoxa, além de outro tanto que foi
rejeitado, tanto pelos cristãos protestantes, como pelos católicos romanos e
ortodoxos. Os escritos apócrifos são inúmeros e formam um total de cerca de 250
livros. Os mais conhecidos são os que constam no cânon católico e no cânon
ortodoxo, que são: Tobias, Judite, Sabedoria de Salomão, Eclesiástico, Baruc, A
Epístola de Jeremias, I e II Macabeus e acréscimos feitos a Ester e a Daniel.

Este inciso da Confissão de fé de Westminster, nos diz que tais livros não são
de inspiração Divina; as razões são simples:

 Não constam no cânon hebraico palestino, isto é, não fazem parte das
Escrituras que os judeus consideravam como inspiradas por Deus. Os
católicos os chamam de deuterocanônicos;

 Somente foram incluídos, oficialmente, no cânon católico em meados de


1500, não usados pelos apóstolos como literatura inspirada;

7
A inspiração e inerrância das Escrituras, pag. 33.

16
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

 Foram escritos nos cerca de 400 anos de silêncio (período


intertestamentário.

Estas razões, por si, já são suficientes para serem rejeitados como Escrito
Divino, mas existe uma razão de peso, sobremodo elevado, que nos faz vê-los como
meros escritos humanos: são seus erros, contradições e histórias fantasiosas.

Tobias 4.11 - porque a esmola livra do pecado e da morte, e preserva a alma


de cair nas trevas8.

As Escrituras nos ensinam que somos salvos pela graça e não por obras, sejam
esmolas, cuidado com os pobres ou qualquer coisa do gênero (Efésios 2.8) e ainda
que a vida é dom gratuito (Romanos 6.23).

Tobias 6.2-9 - Partiu, pois, Tobias em companhia do anjo, e o cão os seguia.


Caminharam juntos e aconteceu que, numa noite, acamparam à margem do rio Tigre.
Tobias desceu ao rio para lavar os pés, quando saltou da água um grande peixe, que
queria devorar-lhe o pé. Ele gritou e o anjo lhe disse: Agarra o peixe e segura-o firme!
Tobias dominou o peixe e o arrastou para a terra. E o anjo acrescentou: Abre o peixe,
tira-lhe o fel, o coração e o fígado e guarda-os; joga fora os intestinos, pois o fel, o
coração e o fígado são remédios úteis. O jovem abriu o peixe, tirou-lhe o fel, o coração
e o fígado. Assou uma parte do peixe e comeu-a, e salgou o resto. Depois continuaram
juntos a caminhada, até chegarem perto da Média. Então Tobias perguntou ao anjo:
Azarias, meu irmão, que remédio há no coração, no fígado e no fel do peixe?
Respondeu ele: Se se queima o coração ou o fígado do peixe diante de um homem
ou de uma mulher atormentados por um demônio ou por um espírito mau, a fumaça
afugenta todo o mal e o faz desaparecer para sempre. Quanto ao fel, untando com
ele os olhos de um homem que tem manchas brancas, e soprando sobre as manchas,
ele fica curado9.

O que está sendo ensinado aqui é a prática de feitiçaria, o que é claramente


combatido nas Escrituras (Miqueias 5.12; Gálatas 5.19-21). Na igreja primitiva os que
se convertiam abandonavam as artes mágicas (Atos 19.18-20). Jesus jamais usou

8
Bíblia Ave Maria
9
Idem.

17
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

práticas mágicas para libertar alguém que estivesse possesso, ao contrário, valeu-se
apenas de sua autoridade e concedeu a mesma aos seus discípulos quando os enviou
em sua missão (Mateus 8.28-32; Lucas 4.33-36, 10.17-20). A autoridade de Jesus
para libertar pessoas possessas foi dada apenas ao seus (Atos 19.11-17).

II Macabeus 12.43-44 - Em seguida, fez uma coleta, enviando a Jerusalém


cerca de dez mil dracmas, para que se oferecesse um sacrifício pelos pecados: belo
e santo modo de agir, decorrente de sua crença na ressurreição, porque, se ele não
julgasse que os mortos ressuscitariam, teria sido vão e supérfluo rezar por eles 10.

Se haviam outras formas de serem expurgados dos pecados, então os rituais


de sacrifício do Antigo Testamento, não tem sentido e muito menos o sacrifício de
Jesus. Entretanto, sabemos que somente com derramamento de sangue é que há
remissão de pecados (Levítico 5.6-9), por isso, Cristo se ofereceu uma vez por todas
como sacrifício pelos pecados dos eleitos (Hebreus 9.11-15, 28). Por outro lado, é
inútil orar pelos mortos (Romanos 3.2-11; Hebreus 9.27-28).

Judite 1.5 - Ora, no décimo segundo ano de seu reinado, Nabucodonosor, que
reinava sobre os assírios em Nínive, a grande cidade, fez guerra a Arfaxad, e
venceu-os11.

É intrigante este erro no livro de Judite, pois Daniel deixa muito claro que
Nabucodonosor era rei da Babilônia (Daniel 1.1).

I Macabeus 15.37-38 - Assim se desenrolaram os acontecimentos relativos a


Nicanor, e já que a partir dessa época Jerusalém permaneceu em poder dos hebreus,
finalizarei aqui minha narração. Se ela está felizmente concebida e ordenada, era este
o meu desejo; se ela está imperfeita e medíocre, é que não pude fazer melhor12.

Se estes escritos foram inspirados, por que o escritor pede desculpas e chama
sua obra de medíocre? Veja o que diz Hebreus 4.12.

10
Bíblia Ave Maria
11
Idem.
12
Idem.

18
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Os acréscimos feitos a Ester e Daniel são:

 Ester – a partir do verso 4 do capitulo 10 até o capitulo 16.24. No cânon judaico


que adotamos, Ester termina no verso 3, do capitulo 10.

Os acréscimos feitos a Ester, falam de questões enigmáticas, como um suposto


sonho de Mordecai, onde Deus teria revelado à sua pessoa os acontecimentos
relacionados aos judeus.

 Daniel – no cânon que adotamos, Daniel termina no capitulo 12, mas nos
apócrifos eles vão até o capítulo 14.

No caso de Daniel, os acréscimos falam de uma defesa que Daniel teria feito
de uma suposta juíza de Israel, de nome Suzana. Porém, fala que Daniel era
ainda adolescente, mas no capitulo 12, ele já estava com uma idade bem
avançada.

Outra questão, digna de nota, é confronto de Daniel com um suposto dragão,


o qual Daniel faz explodir.

Não obstante as informações acima, devemos levar em conta que são livros de
grande valor histórico. Os livros escritos pelos Macabeus, por exemplo, falam de
guerras e outros fatos ocorridos no período interbíblico (400 anos de silêncio) e que
são atestados pela história.

1.4. Autoridade das Escrituras

A autoridade1 da Escritura Sagrada, razão pela qual deve ser crida e


obedecida, não depende do testemunho de qualquer homem ou igreja, mas depende
somente de Deus (a mesma verdade), que é o seu autor; tem, portanto, de ser
recebida, porque é a Palavra de Deus2. Ref.:

1- Jo 5. 39; II Tm 3.16; 2- I Ts 2. 13; Gl 1.11,12.

19
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

A autoridade das Sagradas Escrituras está vinculada diretamente à sua Fonte,


ou seja, o próprio Deus. Ele é o supremo autor das Escrituras e por isso, elas não
dependem do testemunho humano ou da aprovação de qualquer igreja ou concílio.

Infelizmente, nunca, em toda história, a Palavra de Deus foi tão lida e ao mesmo
tempo tão desprezada e distorcida quanto tem sido no presente século. As pessoas
buscam nas Escrituras apenas o que lhes é proveitoso, unicamente o que lhe apraz,
somente o que satisfaz seu coração egoísta. Quando o real significado das Escrituras
é exposto, não há interesse dos ouvintes e isso acontece porque vivemos em uma
sociedade egocêntrica e antropocêntrica, que acredita que até mesmo o texto bíblico
tem que satisfazer suas necessidades.

Em contraste com este tipo de pensamento, Paulo afirma em II Timóteo 3.16 e


17, que a Escritura é inspirada por Deus, sendo útil e objetiva:

 Ensinar – o ensino expresso aqui, diz respeito à instrução na verdadeira


doutrina bíblica; buscando apresentar o que de fato ela diz e seu real
significado. A ideia é de um ensinamento que vem da parte de Deus.

 Repreender – o que está implícito aqui, é a refutação de erros


doutrinários, é o combater uma falsa doutrina ou ainda um ensino
distorcido, o que via de regra, distancia o homem de Deus, afastando-o
consequentemente da salvação em Cristo.

 Corrigir – o termo grego utilizado aqui, dá a ideia de endireitamento,


reparação e ainda de reforma. Enquanto a repreensão visa castigar ou
expor o erro, a correção intenta guiar pelo caminho certo, direcionando
o transgressor à restauração, um aprimoramento na vida e no caráter.

 Educação na justiça – A ideia no grego é de um “treino e educação


infantil (que diz respeito ao cultivo de mente e moralidade, e emprega
para este propósito ora ordens e admoestações, ora repreensão e
punição). Também inclui o treino e cuidado do corpo” Isto significa dizer
que a Escritura é o único manual aceitável para que o homem seja
aprovado por Deus.

20
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Ao afirmar que “o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para


toda boa obra” (ver verso 17), Paulo não está afirmando que haverá ausência de erros
e falhas ou ainda que o pecado deixará de existir na vida do cristão e somente depois
disto ele estará apto para toda boa obra. Na verdade, o termo grego traduzido por
perfeito, expressa a ideia de algo completo, provido de determinada aptidão para um
serviço especifico. Ao aplicar na administração pessoal e na Igreja o ensino, a
repreensão, correção e a educação na justiça, Timóteo estaria equipando a igreja para
toda boa obra.

Diante do exposto, as Escrituras trazem em si a autoridade do próprio Deus


pois ele a cumprirá (Isaías 55.11; Jeremias 1.11-12). Portanto, devem ser respeitadas
e obedecidas por todo aquele que professa fé no Senhor.

Jesus fez séria advertência aos que o ouviam, dizendo: “Por que me chamais
Senhor, Senhor, e não fazeis o que vos mando?” (Lucas 6.46).

1.5. Autoridade das Escrituras sobre a autoridade da Igreja.

Pelo testemunho da Igreja podemos ser movidos e incitados a um alto


e reverente apreço da Escritura Sagrada; a suprema excelência do seu conteúdo, e
eficácia da sua doutrina, a majestade do seu estilo, a harmonia de todas as suas
partes, o escopo do seu todo (que é dar a Deus toda a glória), a plena revelação que
faz do único meio de salvar-se o homem, as muitas outras excelências
incomparáveis e completa perfeição, são argumentos pelos quais abundantemente
se evidencia ser ela a palavra de Deus; contudo, a nossa plena persuasão e certeza
da sua infalível verdade e divina autoridade provêm da operação interna do
Espírito Santo, que pela palavra e com a palavra testifica em nossos corações.

Ref.: I Tm 3.15; I Jo 2.20, 27; Jo 16.13,14; I Co 2.10-12.

Afim de compreendermos a relação entre a autoridade das Escrituras e a


autoridade da Igreja, inicialmente, precisamos ter em mente algo de extrema
importância aqui: o contexto histórico. Se não levarmos em conta o contexto histórico,

21
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

não poderemos fazer uma análise correta e adequada dos ensinos da Confissão de
fé de Westminster.

Conforme vimos no início de nosso estudo, a Igreja Católica Romana


determinava em toda sua extensão, os rumos da fé. Por outro lado, após a Reforma
Protestante, a Igreja da Inglaterra passou a determinar a fé do povo inglês.

É neste contexto em que os teólogos e demais participantes do Concílio


convocado na Abadia de Westminster, definem este parágrafo. Assim, vejamos
inicialmente o que a Igreja de Roma define em seu catecismo quanto à autoridade das
Escrituras.

“Para que o Evangelho sempre se conservasse inalterado e vivo na Igreja, os


apóstolos deixaram como sucessores os bispos, a eles transmitindo seu próprio
encargo de Magistério. Com efeito, a pregação apostólica, que é expressa de modo
especial nos livros inspirados, devia conservar-se por uma sucessão contínua até a
consumação dos tempos. Esta transmissão viva, realizada no Espírito Santo, é
chamada de Tradição enquanto distinta da Sagrada Escritura, embora intimamente
ligada a ela. Por meio da Tradição, a Igreja, em sua doutrina, vida e culto, perpetua e
transmite a todas as gerações tudo o que ela é, tudo o que crê. O ensinamento dos
Santos Padres testemunha a presença vivificante desta Tradição, cujas riquezas se
transfundem na praxe e na vida da Igreja crente e orante”.

“Assim, a comunicação que o Pai fez de si mesmo por seu Verbo no Espírito
Santo permanece presente e atuante na Igreja: O Deus que outrora falou mantém um
permanente diálogo com a esposa de seu dileto Filho, e o Espírito Santo, pelo qual a
voz viva do Evangelho ressoa na Igreja e através dela no mundo, leva os crentes à
verdade toda e faz habitar neles abundantemente a palavra de Cristo”.

“Quanto à Sagrada Tradição, ela transmite integralmente aos sucessores dos


apóstolos a Palavra de Deus confiada por Cristo Senhor e pelo Espírito Santo aos
apóstolos para que, sob a luz do Espírito de verdade, eles, por sua pregação, fielmente
a conservem, exponham e difundam. Daí resulta que a Igreja, à qual estão confiadas
a transmissão e a interpretação da Revelação, não deriva a sua certeza a respeito de

22
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

tudo o que foi revelado somente da Sagrada Escritura. Por isso, ambas devem ser
aceitas e veneradas com igual sentimento de piedade e reverência”.

“Fica, portanto, claro que segundo o sapientíssimo plano divino, a Sagrada


Tradição, a Sagrada Escritura e o Magistério da Igreja estão de tal modo entrelaçados
e unidos que um não tem consistência sem os outros, e que juntos, cada qual a seu
modo, sob a ação do mesmo Espírito Santo, contribuem eficazmente para a salvação
das almas”.

Como vimos anteriormente, Deus é o Supremo autor das Escrituras e por esta
razão a autoridade das mesmas não depende do reconhecimento da Igreja ou
qualquer Concílio. Assim, não podemos aceitar a proposição Católico-romana, de que
a Escritura não tem consistência sem a Tradição ou mesmo o Magistério eclesial.
Muito menos podemos aceitar sua tese de que a “igreja” seja a transmissora de
verdades autoritativas, fruto de interpretação do que supostamente é a vontade de
Deus para os homens.

As tradições têm seu valor, desde que, não sejam equiparadas às Escrituras.
Jesus falou duramente àqueles que punham suas tradições no mesmo nível das
Escrituras e até mesmo acima delas (Marcos 7.1-13). Paulo alertou contra a aceitação
de outros ensinos que vão além das Escrituras (Gálatas 1.6-9).

Diante do exposto, devemos rejeitar de pronto a todo e qualquer ensino que


reivindique autoridade semelhante ou superior à das Escrituras, pois somente estas
são inspiradas por Deus e trazem consigo a autoridade Divina.

1.6. Escrituras: Revelação da vontade de Deus.

Todo o conselho de Deus concernente a todas as cousas necessárias para a


glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou está expressamente declarado
na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido dela 1. À Escritura nada se
acrescentará em tempo algum, nem por novas revelações do Espírito, nem por
tradições dos homens2; reconhecemos, entretanto, ser necessária a íntima iluminação
do Espírito de Deus para a salvadora compreensão das cousas reveladas na palavra 3,

23
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

e que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de Deus e ao governo da Igreja,


comuns às nações e sociedades humanas, as quais têm de ser ordenadas pela luz
da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras gerais da palavra, que sempre
devem ser observadas4. Ref.:

1- Mc 6.5-7. 3- Jo 6.45: I Co 2.9-12.

2- Mt 15.6. 4- I Co 11.13,14.

O assunto abordado neste inciso da Confissão de Fé de Westminster não é de


tão fácil entendimento, quanto possa parecer, pois diante de tantas pessoas e
denominações que tomam sobre si, a ideia de que são fonte de novas revelações do
Espirito, atraindo a si um número espetacular de seguidores, precisamos, com
cuidado e sem preconceitos, analisar as evidencias bíblicas sobre o assunto. Assim,
procuraremos analisar tais declarações da Confissão, hora exposta, por partes.

Assim começa este artigo: “Todo o conselho de Deus concernente a todas as


cousas necessárias para a glória dele e para a salvação, fé e vida do homem, ou está
expressamente declarado na Escritura ou pode ser lógica e claramente deduzido
dela”.

Diante do exposto, devemos levar em solene consideração as afirmações de


Jesus, dos Evangelistas e do apóstolo Paulo sobre as Escrituras, como fonte
revelacional da vontade de Deus e da salvação que nos é concedida em Cristo Jesus
(Marcos 12.24; Lucas 24.25-27; João 5.39; Romanos 15.1-7; II Timóteo 3.16-17).

É certo que a Escritura não contempla de forma direta situações que vivemos
hodiernamente, pois ela foi escrita para um público especifico e tratava de questões
relacionadas a ele. Não obstante, todo seu conteúdo serve para edificação e
orientação para os crentes de todas as épocas. Diametralmente oposto ao conceito
deste mundo que afirma que a Bíblia é um livro ultrapassado, uma rápida análise em
seus registros, nos mostra que ela é tão atual quanto o jornal desta manhã; e porque
não dizer que é mais atualizada do que as notícias que sairão amanhã?

Em segundo lugar diz: “À Escritura nada se acrescentará em tempo algum, nem


por novas revelações do Espírito, nem por tradições dos homens”.

24
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Vivemos dias em que supostas revelações são dadas com o intuito de “revelar”
a vontade de Deus. Pessoas, por vezes bem-intencionadas, procuram colaborar com
o ensino bíblico por meio de predições acerca do futuro ou ainda de questões pessoais
do povo de Deus, sendo denominadas de “profetas” ou mesmo possuidoras do “dom
de profecia”.

Jesus foi o grande profeta predito por Moisés (Deuteronômio 18.18, Atos 3.22).
Contudo, ele gastou mais tempo ensinando e cuidando do povo que predizendo o
futuro. Os apóstolos Paulo, Pedro e João, certamente receberam revelações
futuristas, como por exemplo, a volta de Jesus, a ressurreição dos mortos e ainda
sobre o Novo Céu e a Nova Terra, mas tais manifestações revelacionais estavam
atreladas diretamente à edificação e estabelecimento da Igreja cristã. Além do mais,
suas palavras foram registradas para edificação do Corpo de Cristo naquele momento
e nos séculos subsequentes, (I Tessalonicenses 4.9-18; II Pedro 3.7-13).

O rev. Augustus Nicodemus observa acertadamente que:

Além da profecia preditiva, os profetas exortavam o povo de Deus a que se


arrependessem de seus pecados e voltassem à obediência da aliança. Na
verdade, os livros deles trazem proporcionalmente muito mais exortações e
advertências do que predições do futuro.13

Devemos levar em conta ainda, as palavras de João em Apocalipse 22.18-19:

“Eu, a todo aquele que ouve as palavras da profecia deste livro, testifico: Se
alguém lhes fizer qualquer acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos
escritos neste livro; e, se alguém tirar qualquer coisa das palavras do livro
desta profecia, Deus tirará a sua parte da árvore da vida, da cidade santa e
das coisas que se acham escritas neste livro”.

Segue-se ainda a seguinte afirmação: “reconhecemos, entretanto, ser


necessária a íntima iluminação do Espírito de Deus para a salvadora compreensão
das cousas reveladas na palavra”.

As Escrituras são a Palavra de Deus, sendo a completa revelação de sua


vontade e da redenção em Cristo. Contudo, o homem, ainda que seja capaz de

13
http://tempora-mores.blogspot.com.br/2013/02/entrevista-sobre-cessacionismo-e.html

25
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

compreender determinadas verdades da Escritura, não poderá vivenciá-las sem que


o Espirito Santo, ilumine seu entendimento. Foi este o caso dos dois discípulos que
seguiam para Emaús; eles conheciam as verdades das Escrituras, sabiam o que
estava escrito acerca de Jesus, mas não compreenderam tais verdades até o
momento em que o Senhor “lhes abriu o entendimento” para compreenderem o que
estava escrito (conf. Lucas 24.45). A isto chamamos de iluminação, ou seja, o
esclarecimento por parte do Espirito Santo das verdades da Palavra de Deus.

O livro dos Salmos traz diversos textos que ilustram o que estamos propondo,
veja por exemplo Salmo 119, versos 18 e 130. Por outro lado, o Salmo 73, fala da
indignação do salmista contra os malfeitores e como percebe o fim que estes terão,
após entrar no santuário de Deus.

O apóstolo Paulo afirma em I Coríntios 2.14: “Ora, o homem natural não aceita
as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque
elas se discernem espiritualmente”. Eis a razão porque muitos leem as Escrituras,
mas a percebem apenas como um livro de lições morais e éticas e não alcançam
salvação: precisam ser iluminados pelo Espirito de Deus.

Falando acerca da iluminação do Espirito, João Calvino afirma:

A simples declaração de que temos a Palavra deveria ser suficiente para


gerar em nós a fé, se a nossa cegueira e a nossa obstinação não no-lo
impedissem. Como, porém, o nosso espírito é propenso à vaidade, ele não
pode apegar-se à verdade de Deus. Jamais! E como é espiritualmente bronco
e cego, não consegue ver a luz de Deus. Por isso, sem a iluminação do
Espírito Santo, só a Palavra não nos dá real proveito. 14

Por fim, a Confissão afirma “que há algumas circunstâncias, quanto ao culto de


Deus e ao governo da Igreja, comuns às nações e sociedades humanas, as quais têm
de ser ordenadas pela luz da natureza e pela prudência cristã, segundo as regras
gerais da palavra, que sempre devem ser observadas”.

14
Institutas, Livro II, pág. 22.

26
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

O texto da Confissão de Fé de Westminster nos ensina que, em última análise,


as Escrituras devem reger o culto que prestamos a Deus. Mas, o que é culto?

A palavra traduzida como culto, tanto no hebraico quanto no grego, significa


servir, trabalhar. Em ambos os casos, tal serviço está, especialmente, ligado a Deus.
Assim, podemos definir culto como um serviço prestado a Deus. Tal serviço pode ser
prestado, ao menos, em três diferentes situações: a) individualmente; b) no lar e
c) publicamente.

O ponto nevrálgico de toda a questão cultual diz respeito às Escrituras, pois


elas devem reger nossas atitudes e serviço. Se relegarmos as Escrituras a segundo
plano, caberá à imaginação humana o desenvolvimento de formas culticas e a
significação de seus rituais. E isto pode não ser aceito por Deus, por mais
bem-intencionados que sejamos (Levítico 10.1).

Como, então, é o culto que agrada a Deus?

Penso não existir uma fórmula definida de culto, prescrita na Palavra de Deus,
mas certamente existem princípios que precisam ser observados no que se refere ao
serviço Divino.

 Deus deve ocupar o lugar central no culto (Êxodo 20.1-6);


 As Escrituras devem ser valorizadas (Isaías 66.1-4; I Timóteo 1.15, 4.6-9);
 O culto deve ser em espirito e verdade (João 4.23-24);
 Deve ser racional e espiritual (Romanos 12.1; I Pedro 2.5);
 Deve evidenciar o amor (I Coríntios 13);
 Deve manter a decência e a ordem (I Coríntios 14.40; Hebreus 12.28);
 Deve gerar a edificação (I Coríntios 14:26).

Quais os elementos que devem compor o culto a Deus?

Para responder a esta indagação, devemos recorrer a Isaías 6 e Atos 2.

Em Isaías encontramos os seguintes elementos:

27
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

a. Reconhecimento da autoridade Divina (vers. 01);


b. Reverência (vers. 02);
c. Louvor (vers. 03);
d. Confissão (vers. 05);
e. Disposição para ouvir e obedecer (vers. 08);

Já em Atos 2.42-47, encontramos:


a. Perseverança, amor, comunhão, oração (vers. 42);
b. Unidade (vers. 44);
c. Empatia e liberalidade (vers. 45);
d. Prazer na comunhão (vers. 46);
e. Louvor (vers. 47);

Certamente existem diversos outros princípios normativos para que o culto seja
agradável a Deus, mas acredito que os citados acima sejam suficientes para que
busquemos orientação nas Escrituras para tal.

Não obstante todas as informações acima, duas coisas precisam ser


ressaltadas:

 A música – uma heresia cantada penetra profundamente nos corações e


mentes, pois segue a via da emoção;
 Liturgia – dois extremos precisam ser evitados: a) contemporizar o culto,
buscando agradar às pessoas, em detrimento de Deus; b) querer
estabelecer nos dias atuais a concepção de culto do século XVI.

O bom senso e as Escrituras andam de mãos dadas. A fé e a razão são irmãs


e devem seguir unidas; uma não exclui a outra. Por fim, Deus deve ser adorado como
Ele quer ser adorado e o modo requerido por Ele está expresso nas Escrituras.

1.7. Interpretação da Bíblia.

Na Escritura não são todas as coisas igualmente claras em si, nem do mesmo
modo evidentes a todos1; contudo, as coisas que precisam ser obedecidas, cridas e

28
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

observadas para a salvação, em um ou outro passo da Escritura são tão claramente


expostas e explicadas, que não só os doutos, mas ainda os indoutos, no devido uso
dos meios ordinários, podem alcançar uma suficiente compreensão delas 2. Ref.:

1- II Pe 3.16; Jo 16. 17; Jo 6. 60.

2- Sl 119. 105, 130; At 17. 11, 12.

1.8. Documentos Originais.

O Velho Testamento em hebraico (língua vulgar do antigo povo de Deus) e o


Novo Testamento em grego (a língua mais geralmente conhecida entre as nações
no tempo em que ele foi escrito), sendo inspirados imediatamente por Deus, 1 e pelo
seu singular cuidado e providência conservados puros em todos os séculos, são por
isso autênticos e assim em todas as controvérsias religiosas a Igreja deve apelar
para eles como para um supremo tribunal2; mas, não sendo essas línguas
conhecidas por todo o povo de Deus, que tem direito e interesse nas Escrituras e que
deve no temor de Deus lê-las e estudá-las3, esses livros têm de ser traduzidos nas
línguas vulgares de todas as nações aonde chegarem, a fim de que a palavra de Deus,
permanecendo nelas abundantemente, adorem a Deus de modo aceitável e possuam
a esperança pela paciência e conforto das Escrituras4. Ref.

1- Mt 5. 18. 4- I Co 14. 6, 9, 11, 12, 24, 27, 28; Mt


28. 19, 20; Cl 3. 16; Rm 15. 4.
2- Is 8. 20; At 15. 14-18.

3- Jo 5. 39; II Tm 3. 14,15; II Pe 1.19.

1.9. Interpretação das Escrituras.

A regra infalível de interpretação da Escritura é a mesma Escritura; portanto,


quando houver questão sobre o verdadeiro e pleno sentido de qualquer texto da

29
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Escritura (sentido que não é múltiplo, mas único), esse texto pode ser estudado e
compreendido por outros textos que falem mais claramente1. Ref.:

1- At 15. 15; Jo 5. 46; II Pe 1. 20,21.

Navegando outro dia pela internet encontrei o seguinte diálogo:

- “Se a Bíblia se explica pela própria Bíblia, por que então, existem tantas
Igrejas evangélicas? Ou a suposta clareza das Escrituras não fala por si só?”

- “Porque cada denominação evangélica interpreta a bíblia de um jeito. Uma


igreja contemporânea que aceita o homossexualismo entre evangélicos se
fundamenta no seguinte trecho da bíblia: porque no amor não há lei. E daí nasceu
mais uma igreja evangélica, totalmente errada. Os evangélicos acreditam no
casamento entre pastores e suas esposas. Porque diz a bíblia que o homem não
nasceu para ser só. Os católicos não aceitam o casamento de padres. Cada um
interpreta a bíblia a luz de sua teoria, a meu ver pessoalmente. E ninguém chega a
um consenso. Mais tudo se baseia na interpretação da bíblia, tanto para se fundir,
como para se expandir, propagar. Outro motivo pode ser por que a bíblia ser um livro
de difícil interpretação, o livro mais complexo do mundo”.15

A primeira frase responde a indagação feita. Na verdade, ela expõe a dureza


do coração humano, que decide por si o que as Escrituras estão dizendo e qual é a
revelação Divina no texto bíblico. Contudo, penso que há ao menos duas razões,
subordinadas à dureza do coração, que geram dificuldades na interpretação das
Escrituras: a) o método interpretativo; b) encontrar doutrina onde ela não existe.

Por método interpretativo nos referimos às técnicas de interpretação utilizadas


para compreensão do texto bíblico (hermenêutica). Os três principais métodos de
interpretação são:

 Literal – este método entende que os textos bíblicos devem ser


interpretados literalmente. O escritor bíblico intencionava dizer exatamente
o que está escrito.

15
https://br.answers.yahoo.com/question/index?qid=20120225154250AAPr3Zl

30
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

 Alegórico – procura encontrar os sentidos ocultos no texto. Uma alegoria


bastante conhecida e atribuída à Orígenes, um teólogo do século III,
conhecido como o pai da alegoria é a do Bom Samaritano (Lucas 10.25-37),
que diz:

O homem que descia de Jerusalém a Jericó é o pobre pecador, que no caminho


foi atacado pelos ladrões (pecado) que o deixaram quase morto (queda no pecado);
o sacerdote e o levita que passam sem dar atenção, são a lei que não pode salvar o
homem de seus pecados; o bom samaritano é Jesus que derrama seu sangue nas
feridas, levanta o pecador (novo nascimento), põe-no sobre o jumento (evangelista) e
o leva para a hospedaria (igreja) e entrega ao dono da hospedaria (pastor), duas
moedas (batismo e santa ceia), recomendando que cuide do pobre homem até que
ele volte (segunda vinda).

 Histórico-gramatical – este é o método utilizado pelos reformados e leva em


conta diversos fatores: a) comparar os textos bíblicos; b) compreender os
contextos histórico, cultural, político, religioso, etc.; c) procurar entender a
intenção do autor; compreender para quem o autor estava escrevendo; etc.

1.10. Bíblia, Juiz Supremo em matéria de fé e de moral.

O Juiz Supremo, pelo qual todas as controvérsias religiosas têm de ser


determinadas e por quem serão examinados todos os decretos de concílios, todas as
opiniões dos antigos escritores, todas as doutrinas de homens e opiniões particulares;
o Juiz Supremo em cuja sentença nós devemos firmar não pode ser outro senão o
Espírito Santo, falando na Escritura.

1- Mt 22. 29, 31; At 28. 25; Gl 1.10.

Muitas novidades têm surgido na igreja contemporânea e tomado lugar no culto


a Deus. Em muitos lugares, a “revelação” imediata tem mais valor que a Revelação
escrita. Para muitos, as Sagradas Escrituras devem ser conformadas com suas
experiências pessoais e dessa forma, a Palavra de Deus perde seu valor e influência
na vida da igreja.

31
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Não obstante os cristãos de confissão reformada, a Palavra de Deus está acima


de qualquer experiência religiosa, é superior a todo conceito de revelação, ela é a
consumação do que Deus exige do homem.

É por meio da Sagrada Escritura, que Deus se revela ao homem. Portanto, os


conceitos humanos devem ser balizados pela Escritura, caso contrário perderão seu
valor.

Somente a Escritura Sagrada tem poder para determinar a vida do cristão.

32
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

DE DEUS E DA SANTÍSSIMA TRINDADE

Capítulo II

2.1 Unidade Trina.

Há um só Deus vivo e verdadeiro1, o qual é infinito em seu ser e perfeições2.


Ele é um Espírito puríssimo3, invisível4, sem corpo, membros e paixões5; é imutável6,
imenso7, eterno8, incompreensível9, onipotente10, onisciente11, santíssimo12,
completamente livre13 e absoluto14, fazendo tudo para a sua própria glória15 e segundo
o conselho da sua própria vontade, que é reta e imutável 16. É cheio de amor17, é
gracioso, misericordioso, longânimo, muito bondoso e verdadeiro remunerador dos
que o buscam18 e, contudo, justíssimo e terrível em seus juízos19, pois odeia todo o
pecado20; de modo algum terá por inocente o culpado21. Ref.

01- Dt 6.4; I Co 8.4,6; I Ts 1.9; Jr 10.10. 12- Is 6.3.

02- Jr 23.24; Sl 147.5; I Rs 8.27; Sl 134. 13- Sl 115.3.

03- Jo 4.24. 14- Is 44.6; At 17. 24,25.

04- I Tm 1. 17. 15- Rm 11.36; Ap 4.11.

05- Lc 24.39; Dt 4.15,16. 16- Ef 1.11.

06- Tg 1.17. 17- I Jo 4.8-10.

07- I Rs 8.27; Jr 23. 23,24. 18- Hb 11. 6.

08- Sl 90.2; I Tm 1.17. 19- Ne 9. 32,33;

09- Rm 11.33; Sl 145. 3. 20- Hc 1.13.

10- Ap 4.8; 21- Ex 34. 6,7; NA 1.2,3.

11- Rm 14. 17.

33
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

DOS ETERNOS DECRETOS DE DEUS

Capítulo III

3.1 A eterna preordenação de Deus.

Desde toda eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua própria
vontade, ordenou, livre e inalteravelmente, tudo quanto acontece1; porém, de modo
que nem Deus é o autor do pecado2, nem violentada é a vontade da criatura, nem é
tirada a liberdade ou contingência das causas secundárias antes estabelecidas 3. Ref.

01 - Ef 1.11; At 4. 27,28; Mt 10.29,30; 03 - At 3.23; Mt 17.12; At 4.27,28;


Ef 2.10. Jo 19.11; Pv 16.23; At 27. 23,24,
34,44.
02 - Tg 1.13; I Jo 1.5.

Não obstante nos referirmos aos decretos de Deus, usando um substantivo


plural, ele é único e inviolável. Mas afinal o que são os decretos de Deus?

Uma definição mais adequada, está expressa no Breve Catecismo de


Westminster: “Os decretos de Deus são os atos sábios, livres e santos do conselho
da sua vontade, pelos quais, desde toda a eternidade, Ele, para a sua própria glória,
imutavelmente predestinou tudo o que acontece, especialmente com referência aos
anjos e, os homens”16.

Berkhof pondera que: “Não existe, pois, uma série de decretos de Deus, mas
somente um plano compreensivo, que abrange tudo o que se passa. Contudo, a nossa
compreensão limitada força-nos a fazer distinções, e isto explica por que muitas vezes
falamos dos decretos de Deus no plural”17.

As coisas não acontecem por acaso; os homens não vivem e morrem por pura
sorte do destino; o universo não foi formado por uma obra da evolução. Tudo foi
predeterminado por Deus. Assim, negar a doutrina dos decretos é negar a soberania

16
Catecismo Maior de Westminster, pág. 17.
17
Teologia Sistemática, 94.

34
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

de Deus, usurpando seu poder e majestade. É dar ao acaso a glória que somente
pertence a Deus.

Diante disto, surge a questão: “o que as Escrituras falam sobre os decretos de


Deus?”. Para respondermos a esta pergunta, devemos recorrer aos textos bíblicos,
pois as Escrituras Sagradas sugerem que:

 Há um elemento intelectual - Isaías 14.26;


 Há um elemento deliberativo - Jeremias 23.18; Atos 2.23, 4.28 (tomou
conselho)
 Há um elemento de soberania – Salmo 51.19;
 Há um elemento volitivo – Efésios 1.11;
 Há um elemento de liberdade e prazer – Mateus 11.26; Efésios 1.5, 9).

As Escrituras Sagradas nos ensinam ainda, que os decretos de Deus abrangem


até mesmo os pecados dos homens (Gênesis 45.5-8, 50.20; I Samuel 2.25; Atos 2.23).

Mas isto não faz de Deus o autor do pecado?

A própria Confissão de Fé nos ensina neste inciso que não; vejamos:

Desde toda eternidade, Deus, pelo muito sábio e santo conselho da sua
própria vontade, ordenou, livre e inalteravelmente, tudo quanto acontece;
porém, de modo que nem Deus é o autor do pecado, nem violentada é a
vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das causas
secundárias antes estabelecidas.

Augustus Strong, teólogo reformado, tratando sobre o decreto de Deus


assevera:

Eles fazem Deus não o autor do pecado, mas o autor dos seres livres que
são os autores do pecado. Deus não decreta eficazmente operar os maus
desejos ou escolhas nos homens. Ele só decreta o pecado no sentido de criar
e preservar os que hão de pecar; em outras palavras ele decreta preservar
as vontades humanas que, ao escolherem seus cursos, serão maus e farão
o mal. Em tudo isso o homem atribui o pecado a si mesmo e não a Deus, e
Deus detesta, denuncia e pune o pecado.

35
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

O teólogo holandês Herman Bavink pondera ainda que “Deus, muito


certamente, criou os seres humanos para serem capazes de pecar. Ele desejou a
possibilidade de pecar. Como essa possibilidade se tornou realidade é, porém, um
mistério”18.

As Escrituras mostram-nos que Deus é absolutamente perfeito e


consequentemente todos os seus atos (Deuteronômio 32.4; II Samuel 22.31;
Salmo 18.30; Isaías 6.3). Destarte, Ele não produz, realiza ou tenta alguém ao pecado,
pois nele não há injustiça (Jó 34.10; Salmo 92.15; Tiago 1.13). Deus tanto abomina,
quanto mantém longe de Si o mal (Salmo 5.4; Habacuque 1.13). Assim, toda teoria
que faça de Deus o autor do pecado deve ser rejeitada, pois não somente contraria
as Sagradas Escrituras, como também, elimina do homem sua responsabilidade, no
que diz respeito a este assunto.

Outra questão crucial é levantada neste inciso da Confissão de Fé. Ela diz que
“nem violentada é a vontade da criatura, nem é tirada a liberdade ou contingência das
causas secundárias antes estabelecidas”.

Quando foi criado, o homem era dotado de santidade e liberdade. Não havia
nenhum tipo de propensão, quer para o bem, quer para o mal. Alguns teólogos
entendem que Adão foi o único a experimentar verdadeiramente o livre-arbítrio, era
absolutamente livre para escolher pecar ou não pecar. Mas, após rebelar-se contra
Deus, escolhendo o mal, Adão condena não apenas a si mesmo, mas à toda
humanidade a viver sob o jugo do pecado. Dessa forma, após a queda, a inclinação
natural do homem é para o pecado e o mal.

Talvez alguém possa questionar: se nós temos poder de decisão, não temos
também livre-arbítrio?

Antes de respondermos a esta questão, devemos pensar sobre o que


consideramos ser o pecado.

18
Herman Bavink. Dogmática Reformada, Vol. 03, pág. 28.

36
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

O Catecismo Maior de Westminster, define o pecado como sendo “qualquer


falta de conformidade com a lei de Deus, ou a transgressão de qualquer lei por Ele
dada como regra, à criatura racional”19.

Para o puritano Samuel Bolton, o pecado é “a blasfêmia prática do nome de


Deus. É o desafio à Sua justiça, a violência à Sua misericórdia, o zombar de Sua
paciência, o desrespeito ao Seu poder, o desacato ao Seu amor. É totalmente
contrário a Deus”20.

J.I. Packer, conceituou o pecado como “um usurpador do trono”21. Não um trono
qualquer, não de qualquer rei, mas o trono Daquele que é Rei por excelência, a quem
todas as coisas pertencem e a quem todo joelho a de se dobrar.

Já para o reformador João Calvino,

O pecado não é simplesmente o nome para os atos perversos que


cometemos; antes, é a direção e a inclinação da própria natureza humana em
sua condição decaída. Cometemos pecado porque somos pecadores. O
pecado consiste tanto na perda da retidão original (privação) quanto na
propensão poderosa de transbordar todo tipo de mal e delito específico
(depravação)22.

Vejamos agora, algumas características do pecado:

 Torna o homem culpado – Adão gozava de liberdade, mas ao escolher


o pecado, condenou toda a humanidade a viver sob seu domínio (Romanos
5.12; Salmo 51.5).
 Nasce com o homem – Após a queda o homem já nasce em um estado de
pecado. Tem, portanto, uma natureza pecaminosa, naturalmente inclinada
para o mal (Salmo 51.5; Eclesiastes 7.20; Jeremias 13.23).

19
Catecismo Maior de Westminster, pág. 31.
20
Os puritanos e a conversão - Pecado, o mal sem par, pág. 42.
21
J. I. Packer. O mal que habita em mim, pág. 25.
22
Timothy George. Teologia dos reformadores, pág. 214.

37
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

 Escraviza e mata – O resultado mais drástico do pecado é que este torna o


homem seu escravo e finalmente o mata (João 8.34; Romanos 6.23;
Tiago 1.13-15).

Se o homem é culpado, escravo e está morto, onde está sua liberdade para
escolher entre o bem e o mal ou entre a vida e a morte? Na verdade, o que nos resta
após a queda de Adão é o que ficou conhecida como livre-agência. Isto implica em
que o ser humano tem a capacidade de fazer as mais diversas escolhas, mas estas
estão sujeitas a uma lei, a lei de Deus.

Pensemos na constituição de uma monarquia. Neste tipo de governo, o rei tem


o direito de ditar as leis e o povo tem o dever de cumpri-las. Um exemplo clássico
pode ser encontrado em I Samuel 8. O povo decidiu que queria um rei, mas Deus
decidiu quais seriam os direitos desse rei. Posteriormente, Deus decidiu quem seria o
rei (I Samuel 9.15-17).

O fato é que tomamos as decisões e fazemos as escolhas que nos parecem


mais adequadas, mas é a vontade de Deus que prevalece (Provérbios 16.1).

3.2 A presciência de Deus.

Ainda que Deus saiba tudo quanto pode ou há de acontecer em todas as


circunstâncias imagináveis1, ele não decreta cousa alguma por havê-la previsto como
futura, ou como cousa que havia de acontecer em tais e tais condições 2. Ref.:

1- I Sm 23.11,12; Mt 11. 21-23; Sl 139.1-4.

2- Rm 9. 11, 13, 16, 18; II Tm 1.9; Ef 1.4,5.

Um dos mais extraordinários atributos de Deus é sua onisciência, que é sua


capacidade de conhecer todas as coisas e isto diz respeito não apenas a eventos
passados, presentes e futuros, mas também ao que se passa no íntimo dos seres
criados (Salmo 139.1-4).

38
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Vimos no inciso anterior que Deus decretou todas as coisas desde a eternidade
e que nem mesmo os atos humanos estão à parte de sua suprema decisão. Destarte,
faz-se necessário observar que tais decretos não têm como fundamento a presciência
Divina, mas a soberania e isto diz respeito inclusive à salvação.

Os arminianos modernos tem argumentado que em Romanos 8.29-30, é


ensinada a salvação com base na presciência, contudo, a palavra “conheceu” (vs. 29),
do grego προγινοσκω, aponta para um conhecimento ativo e não passivo. O conhecer
aqui expresso, diz respeito a um conhecimento determinativo, ou seja, Deus
determinou o que haveria de acontecer. Isto fica claro ao analisarmos o verso 30, onde
é explicada a continuidade da obra iniciada.

A ideia de uma salvação alicerçada apenas na presciência, dá ao homem o


poder de decisão e faz de Deus um mero prestador de favores. Dessa forma, o Criador
concede à criatura aquilo que ela mesma escolheu. Sendo assim, como explicar
Mateus 22.14: “Porque muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”.

Deus conhece, mas também determina a história do homem. Portanto, o


conceito de onisciência ou presciência Divina não está de forma alguma em oposição
à sua soberania por Ele exercida (Jeremias 1.5; Atos 1.24; II Timóteo 1.9).

3.3 Eleitos e não eleitos.

Pelo decreto de Deus e para manifestação da sua glória, alguns homens e


alguns anjos são predestinados para a vida eterna1 e outros preordenados para a
morte eterna.2 Ref.:

1- I Tm 5.21; At 13. 48; Rm 8.29,30; Jo 10.27-29.


2- Mt 25.41; Rm 9. 22,23; Jd 4.

Estamos habituados a perceber as coisas sob as lentes da razão humana e


devido às distorções causadas pelo pecado nossa visão da vida, de Deus, da justiça
e do que é verdadeiramente correto é distorcida. Por esta razão, alguns aceitam e até
mesmo defendem a doutrina bíblica da predestinação, mas a veem como

39
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

acontecendo apenas num aspecto positivo, ou seja, para tais pessoas, Deus
preordenou o destino final de alguns para a salvação, mas não predestinou igualmente
o destino dos demais para a perdição eterna. A argumentação de tais pessoas é que
seria injusto da parte de Deus predestinar alguém para o sofrimento eterno, enquanto
elege outros para a salvação e vida eterna.

Partindo da premissa básica de que Deus é perfeito e nele não há


injustiça (Deuteronômio 32.4; Mateus 5.48), analisemos a proposição deste inciso.

 Precisamos atentar para o fato de que Deus é o Senhor dos povos, logo
decide o que e como as coisas acontecem (Salmo 47.1, 7-8; I Samuel 15);
 Devemos observar também que a salvação pertence a Deus (Jonas 2.9;
Apocalipse 7.9-10);
 Independente de raça, cor, credo, idade ou sexo, todo joelho se dobrará ao
Senhor (Romanos 14.11; Filipenses 2.10-11)
 Deus é quem chama e elege anjos e homens à salvação (João 6.44;
Atos 13.48; I Timóteo 5.21; Romanos 8.29-30).

O apóstolo Paulo escrevendo aos Efésios, afirmou que Deus nos escolheu
antes da fundação do mundo (Efésios 1.3-7). Portanto, não havia no homem qualquer
obra meritória de salvação, pois ainda nem havia sido criado e, mesmo suas obras
posteriores não garantem a salvação (Efésios 2.8-9). Assim, precisamos entender que
não há nada que façamos para que Deus nos ame mais e não há nada que façamos
para que Deus nos ame menos; Seu amor e sua graça são irrevogáveis, pois Ele não
muda (Tiago 1.17).

Se por um lado as Escrituras nos ensinam que Deus elege para salvação com
base em sua soberania, por outro, o mesmo pode ser dito quanto à reprovação e
condenação dos homens (João 17.12; Romanos 9.11-24; Judas 4).

Surgem a esta altura duas perguntas que não se calam: “uma vez que Deus,
de modo soberano, já decretou tudo o que acontece, inclusive a salvação e perdição
dos homens, porque devo orar? E ainda: “minha oração pode de alguma forma mudar
os planos e decretos eternos de Deus?

40
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

 Devemos orar por sermos gratos a Ele (I Tessalonicenses 5.18);


 Devemos orar por que as Escrituras nos ensinam e nos estimulam a
isso (I Tessalonicenses 5:17; Efésios 6:18; Lucas 21:36; Atos 6:4);
 Devemos orar por ser Deus soberano e dessa forma pode atender nossas
petições (Isaías 43.13; Daniel 4.34-35; I João 5.14);

Certamente nossas orações não mudarão o que Deus decretou, mas são elas
o meio determinado por Deus para que certas coisas aconteçam em nossas vidas e
Seu nome seja glorificado. Dessa forma, a oração é um meio e não um fim em si
mesma (Lucas 1.14-17 / Malaquias 4.5-6).

3.4 O número dos predestinados.

Esses homens e esses anjos, assim predestinados e preordenados, são


particular e imutavelmente designados; o seu número é tão certo e definido, que não
pode ser nem aumentado nem diminuído. Ref.:

Jo 10.14-16, 27-29; Jo 6.37-39; Jo 13.18; II Tm 2.19 Ap 6.11; Ap 7.4.

Este inciso parte da premissa de que Deus predeterminou a salvação para um


grupo limitado de pessoas e que o número destes não pode ser alterado. Tal
afirmação é de suma importância para a compreensão do assunto em voga, pois se
Deus não houvesse determinado o número exato de eleitos e consequentemente de
réprobos, por toda a eternidade as pessoas continuariam nascendo, morrendo e se
multiplicando, o que contraria o ensino claro de Jesus (Mateus 22.30). E ainda mais,
Jesus teria morrido por um número incerto de pessoas e dessa forma, não faria
sentido seu retorno para julgar vivos e mortos (II Timóteo 4.1). Tudo isto, nos faz
refletir sobre a morte de Jesus e nos conduz ainda à seguinte pergunta: Cristo por
morreu por todos os homens ou apenas pelos eleitos?

Para que possamos chegar a uma conclusão quanto à pergunta supracitada,


devemos lançar nossos olhos para a história, analisando o que anteriormente já foi
discutido a esse respeito.

41
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

 Amyraldianismo – esta linha de pensamento entende que Cristo morreu


por todos os homens, sendo sua morte efetiva apenas para os eleitos. O
propositor de tal teoria foi o teólogo francês Moisés Amyraut (séc. XVI-XVII),
que “sustentava a ideia de que Deus em Cristo proveu a salvação para
todos, todavia só serão salvos aqueles que se apropriarem da salvação pela
fé, que é um dom de Deus”23.
 Universalismo – o universalismo entende que todos os homens serão
salvos, que sendo Deus justo e bom não mandará ninguém para o inferno.
Ele salvará toda a raça humana, independente de Cristo Jesus.
 Universalismo cristão – este conceito ensina que Deus decretou enviar
Cristo ao mundo para salvar todos os homens, mediante sua morte
expiatória, mas por haver previsto que isso não daria certo, pois ninguém
entregaria sua vida a Jesus por meio da fé, estabeleceu um outro decreto:
gerar fé no coração de certo número de pecadores, ou seja, os eleitos.

Nosso entendimento, no entanto, é que a morte de Cristo foi apenas pelos


eleitos e não por todos os homens. Como já afirmamos, na eternidade Deus
determinou tanto a eleição quanto a reprovação dos homens. É insustentável a
afirmação de que Jesus morreu por toda a humanidade, mas seu sacrifício seja efetivo
apenas para o que o aceitam como salvador, bem como a que ele salvará a todos os
homens. Ao contrário do que afirmam o amyraldianismo e o universalismo, cremos
que Jesus morreu por muitos, isto é, os eleitos (Isaías 53.11; Mateus 20.28;
Hebreus 9.28). A morte de Jesus foi absolutamente eficaz, garantindo a salvação a
todos aqueles que foram escolhidos por Deus (Romanos 8.33-34) e a ninguém mais.
Dessa forma, compreendemos que a Confissão de Fé de Westminster acertadamente
expõe que o número dos eleitos é definido e limitado (João 6.37-39, 10.27-31).

3.5 Preordenados em Cristo Jesus.

Segundo o seu eterno e imutável propósito1 e segundo o santo conselho e


beneplácito da sua vontade2, Deus, antes que fosse o mundo criado3, escolheu em

23
Hermisten Maia. Raízes da Teologia Contemporânea, pág. 332.

42
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Cristo4 para a glória eterna5 os homens que são predestinados para vida; para louvor
da sua gloriosa graça, ele os escolheu de sua mera e livre graça e amor6, e não por
previsão de fé, ou de boas obras e perseverança nelas, ou de qualquer outra coisa na
criatura, que a isso o movesse, como condição ou causa7. Ref.:

1- Ef 1.11. 5- Rm 8.30.
2- Ef 1.9. 6- Ef 1. 5,6,12.
3- Ef 1.4. 7- II Tm 1.9; Ef 1.6; Ef 2.8,9.
4- II Tm 1.9.

As Sagradas Escrituras nos ensinam claramente que aqueles que respondem


positivamente à fé em Cristo, o fazem por haverem sido escolhidos por Deus.

Tal escolha, contudo, não ocorre como já vimos com base na presciência de
Deus, mas está fundamentada em sua soberania. Também não ocorre com base em
algo que o próprio ser humano houvesse feito, de forma a merecer tal salvação.

As Escrituras nos ensinam que a salvação foi decretada:

 Porque Deus assim o quis – Efésios 1.11


 Por sua boa vontade – Efésios 1.9
 Antes da fundação do mundo – Efésios 1.4
 Por sua graça em Cristo – II Timóteo 1.9
 Com base na graça Divina e não nas obras humanas – Efésios 2.8-9

3.6 Predestinação dos fins e dos meios.

Assim como Deus destinou os eleitos para a glória, assim também, pelo eterno
e mui livre propósito da sua vontade, preordenou todos os meios conducentes a esse
fim; os que, portanto, são eleitos, achando-se caídos em Adão, são remidos por Cristo,
são eficazmente chamados para a fé em Cristo pelo seu Espírito, que opera no tempo
devido; são justificados, adotados santificados e guardados pelo seu poder por meio

43
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

da fé salvadora. Além dos eleitos não há nenhum outro que seja remido por Cristo,
eficazmente chamado, justificado, adotado, santificado e salvo.

1- Ef 2.10: II Ts 2.13; I Pe 1.2; Ef 1.4.


2- Rm 5.19; I Ts 5.9,10; Tt 2.14.
3- Rm 9.11; II Ts 2. 13,14; I Co 1.9.
4- Rm 8.30.
5- Ef 1.5.

Deus não abandonou sua criação, como dizem alguns. Ele não apenas
determinou como tudo aconteceria, mas está a dirigir a história. Dessa forma, Deus
predeterminou o destino final dos homens e está, ao longo da história, a prover os
meios para que se cumpram seus eternos propósitos.

Este inciso nos mostra de forma bastante simples, como esse processo se
desenvolve.

Todos estão caídos em Adão

Adão era o representante de toda a raça humana e ao pecar, ele transgrediu


em nome de todo ser humano. Assim, a culpa de seu pecado é imputada a toda
humanidade. Com isto corrobora o apóstolo Paulo ao afirmar em Romanos 5.12:
“Portanto, assim como por um só homem entrou o pecado no mundo, e pelo pecado,
a morte, assim também a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”.

A condição em que nascemos, portanto, é de transgressão intencional da lei


Divina e naturalmente passíveis de punição. Não obstante, tanto os arminianos do
século XVII, quanto os teólogos liberais hodiernos negam que o pecado original inclui
a culpa original. Contudo, suas proposições são contestadas pelas
Sagradas Escrituras que afirmam a realidade tanto do pecado, quanto da culpa
original (Romanos 3.23; Efésios 2.1-3).

44
ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

A culpa humana associada à sua obstinação despertam a inevitável ira Divina.


Ainda que Deus retenha sua ira por certo período de tempo, frente a afronta humana
ele a exercerá, pois de outra forma estaria a renegar sua justiça (Apocalipse 21.8).

Ao tratar da autorevelação Divina, o apóstolo Paulo expõe a questão da culpa


e consequentemente da justiça de Deus exercida sobre os pecadores recalcitrantes,
ressaltando que “a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e perversão
dos homens que detêm a verdade pela injustiça” (Romanos 1.18).

Afirmar que por ser amor, Deus não pode cultivar um sentimento como a ira,
sem considerar adequadamente aspectos de seu caráter como santidade, retidão e
justiça, seria negar os diversos textos das Escrituras que constroem a ideia de que
Deus exige do homem uma prestação de contas por seus atos (Êxodo 32.9-10;
Deuteronômio 9.8; Romanos 1.18, 14.12; Gálatas 6.7).

Calvino sugeriu que até mesmo as crianças são culpadas de pecado, pois
trazem em si a semente do pecado, ainda que o fruto de sua iniquidade ainda não
tenha florescido.

Como fruto dessa culpa e consequente juízo, o homem agora se vê separado


do seu Criador e sem a possibilidade de por si, reconciliar-se com o mesmo.

Somos remidos em Cristo

Como vimos, todos somos pecadores e merecemos a ira Divina. Contudo, se


nossa história fosse resumida nisto, não haveria esperança. Mas Deus em sua infinita
bondade, atentou para nós.

A Confissão de Fé de Westminster nos ensina que os eleitos são remidos por


Cristo. Mas, o que isto significa?

Significa que Deus, em Cristo, absolveu da culpa todos os eleitos. Isto implica
em que Cristo nos resgatou do poder destruidor do pecado e que nossa sentença foi
revogada.

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

A palavra grega traduzida por remissão nos diversos textos bíblicos é αφεσις
(aphesis) e dá uma ideia de libertação da escravidão. Assim, entendemos que a
remissão envolve alguns aspectos que precisamos considerar:

 Foi necessário um remidor (Colossenses 2.14; Tito 2.14; Mateus 20.28;


Hebreus 9.11-12);
 É indispensável o derramamento de sangue (Mateus 26.28;
Hebreus 9.22);
 É imprescindível o arrependimento (Marcos 1.4; Lucas 24.45-47;
Atos 2.38);
 É preciso crer (Atos 10.43, 13.38-39).

Chamado eficaz

Como vimos anteriormente, o próprio Deus toma a iniciativa de buscar o


homem e salvá-lo e isso acontece por meio de um chamado, conhecido
teologicamente como Vocação Eficaz. Esse chamado Divino tem dois aspectos: um
exterior e outro interior. O primeiro ocorre por meio das Sagradas Escrituras e tem um
caráter geral, isto é, é feito aos homens indiscriminadamente, enquanto que o
segundo tem um caráter mais específico e é feito unicamente aos eleitos.

 Chamado externo ou vocação externa - Nas Sagradas Escrituras


encontramos diversos exemplos desse chamado externo que acontece sem uma ação
especial do Espírito Santo e, portanto, afeta apenas a vida natural do homem (Mateus
28.19, 22.2-14; Marcos 16.15; Lucas 14.15-24; João 3.36; Atos 13.46; II
Tessalonicenses 1.8).

Berkhof salienta que: “Essa vocação consiste na apresentação e na oferta da


salvação em Cristo aos pecadores, juntamente com uma séria exortação para
aceitarem a Cristo pela fé a fim de obter o perdão de pecado e a vida eterna”24.

24
BERKHOF Louis. Manual de Doutrina Cristã

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Não obstante a pregação do Evangelho seja feita de forma séria e responsável,


o homem natural é incapaz de responder positivamente a ela, visto não haver a
iluminação do Espírito Santo sobre sua vida, a fim de que as trevas do pecado sejam
dissipadas e sua cegueira espiritual seja eliminada.

 Chamado interno - Enquanto que a vocação externa afeta o homem


apenas no natural, produzindo, em alguns, somente mudanças temporais, a vocação
interna age diretamente no caráter e na consciência do seu objeto. O chamado externo
produz na vida dos eleitos, através da atuação soberana do Espírito Santo, um
chamado irresistível, conhecido também como vocação eficaz.

O Breve Catecismo de Westminster declara que “vocação eficaz é a obra do


Espírito de Deus, pela qual, convencendo-nos de nosso pecado e de nossa miséria,
iluminando nossos entendimentos no conhecimento de Cristo, e renovando nossa
vontade, nos persuade e habilita a abraçar Jesus Cristo, que nos é oferecido de graça
no Evangelho”.25

O teólogo Millard Erickson, ressalta que nesse “chamado especial entende-se


que Deus atua de forma particularmente eficaz com os eleitos, dando-lhes condições
de reagir com arrependimento e fé, e fazendo com que de fato assim reajam”.26

Tanto o chamado externo, quanto o interno, tem como características o fato de


que Deus oferece graciosamente a salvação em Cristo Jesus. Tal oferta é um ato da
Santíssima Trindade e nela está envolvido o Pai (I Coríntios 1.9,
I Tessalonicenses 2.12, I Pedro 5.10); o Filho (Mateus 11.28, Lucas 5.32, João 7.37);
o Espírito Santo (João 15.26, Atos 5.31-32; Tito 3.4-5).

25
Breve Catecismo de Westminster.
26
ERICKSON, Millard J. Introdução à Teologia Sistemática.

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

3.7 Predestinação: misericórdia e justiça.

Segundo o inescrutável conselho da sua própria vontade, pela qual ele


concede ou recusa misericórdia, como lhe apraz, para a glória do seu soberano poder
sobre as suas criaturas1; o resto dos homens, para louvor da sua gloriosa justiça2, foi
Deus servido não contemplar e ordená-los para a desonra e ira por causa dos seus
pecados3.

1 Mt 11.25,26.

2 Ap 15.3,4.

3 Rm 2.8,9; II Ts 2.10-12; Rm 9. 14-22.

3.8 A doutrina deste alto mistério de predestinação deve ser tratada com
especial prudência e cuidado, a fim de que os homens, atendendo à vontade revelada
em sua palavra e prestando obediência a ela, possam, pela evidência da sua vocação
eficaz, certificar-se da sua eterna eleição. Assim, a todos os que sinceramente
obedecem ao Evangelho esta doutrina fornece motivo de louvor, reverência e
admiração de Deus, como de humildade, diligência e abundante consolação.

Rm 9.20; Rm 11. 23; Dt 29.29; II Pe 1.10; Ef 1.6; Lc 10.20; Rm 8.33; Rm


11.5,6,10.

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

DA CRIAÇÃO

Capítulo IV

4.1 Criação do Nada

A princípio aprouve a Deus o Pai, o Filho e o Espírito Santo, para a


manifestação da glória do seu eterno poder, sabedoria e bondade, criar ou fazer
do nada, no espaço de seis dias, e tudo muito bom, o mundo e tudo o que nele
há, quer as coisas visíveis quer a invisíveis.

Rm 9.36; Hb 1.2; Jo 1.2,3; Rm 1.20; Sl 104. 24; Jr 10. 12; Gn 1; At 17. 24; Cl 1.
16; Ex 20. 11.

O presente inciso parte do pressuposto de que tudo o que existe não é obra do
acaso, mas de um ato soberano de Deus, estando envolvida nele, a Santíssima
Trindade. E ainda que, tudo foi feito do nada num prazo de seis dias. Assim,
precisamos atentar para algumas questões:

Ao examinarmos o texto da criação, vemos que a expressão usada por Moisés


aponta para o fato de que no princípio criou Deus, o céu e a terra. Algumas coisas
importantes precisam ser ditas aqui:

 A palavra hebraica ‫ֱֹלהים‬ ִ ‫בְּ ֵר‬, não traz antes de si nenhum artigo
ִ ‫אשית בָּ ָּרא א‬
definido. Dessa forma podemos entender, sem dificuldades, que “em princípio
criou Deus”...
 A expressão ‫ בָּ ָּרא‬é usada exclusivamente para o ato criador de Deus. Falar
sobre a criação a partir do nada.
 Outra expressão interessante é a palavra ‫אֱֹלהִ ים‬, por ser esta uma forma plural.
 Por fim, encontramos a expressão ‫אֵ ת הַ שָּ מַ יִ ם וְּ אֵ ת הָּ ָּ ָֽא ֶרץ׃‬. Esta expressão é
importante pelo fato que na língua hebraica não existe a palavra universo.
Assim, quando os judeus queriam expressar a ideia de universo, eles usavam
céu e terra. O único caso em que vemos a palavra universo no Antigo

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ESTUDOS NA CONFISSÃO DE FÉ DE WESTMINSTER

Testamento é em Jó 34.13. Contudo, a palavra usada aí é ‫( תבל‬tebel), cujo


melhor significado é mundo.

4.2 Depois de haver feito as outras criaturas, Deus criou o homem, macho
e fêmea1, com almas racionais e imortais2, dotando-os de inteligência, retidão e
perfeita santidade, segundo a sua própria imagem3, tendo a lei de Deus escrita
em seus corações4 e o poder de cumpri-la, mas com a possibilidade de
transgredi-la, sendo deixados à liberdade da sua própria vontade, que era
mutável5. Além dessa escrita em seus corações, receberam o preceito de não
comerem da árvore da ciência do bem e do mal6; enquanto obedeceram a este
preceito, foram felizes em sua comunhão com Deus7 e tiveram domínio sobre as
criaturas8.

1- Gn 1.27; Gn 2.7. 5- Gn 2.16,17; Gn 3.,6,17.


2- Sl 8.5,6; Gn 2.19,20; Ec 12.7; Mt 6- Gn 2.16,17.
10.28; Lc 23.43. 7- Gn 2.16,17; Gn 3. 8,11,23.
3- Gn 1.26; Cl 3.10; Ef 4.24. 8- Gn 1.28; Sl 8.6-8.
4- Rm 2. 14,15.

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