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PORQUE SOU CESSACIONISTA

Em geral, atribui-se certa incredulidade àqueles que afirmam não crer na


contemporaneidade dos dons espirituais da mesma forma como eram manifestos no
período apostólico. Por outro lado, é muito comum haver certo receio em falar deste
assunto nas igrejas de confissão cessacionista, como se a igreja de Cristo não fosse mais
empoderada pelo Senhor para ser testemunha (At 1.8 ).

Neste sentido, desejo pontuar algumas questões que me levam ao cessacionismo. Não há
muito espaço aqui para desenvolver, também não desejo ser exaustivo. Quero apenas
trazer alguns destaques importantes sobre a questão.

1. DEUS MANIFESTOU SEU PODER DE FORMAS DISTINTAS NA HISTÓRIA DA REDENÇÃO. Com


a Encarnação de Cristo, a revelação do Verbo de Deus, nós temos o encerramento da
Revelação de Deus (Hb 1.1-2). Apocalipse, possivelmente o último livro a ser escrito, é a
Revelação da consumação da história da Redenção em Cristo, encerrando-se a forma pela
qual Deus outrora se revelava.

2. O DOM E OFÍCIO APOSTÓLICO FORAM RESTRITOS AO PRIMEIRO SÉCULO. Há bastante


coisa a ser qualificada aqui, mas em termos objetivos, o apostolado que Jesus concedeu aos
12 + Paulo é um ofício específico que demandou uma autoridade específica dada por Cristo.
O apostolado também demandou capacitação específica. Os Apóstolos receberam a
sucessão de autoridade do ofício profético do AT, como também a inspiração de Deus para
profetizar e ensinar os mistérios de Deus, outrora ocultos, de forma inerrante (1Co 2.6-16).

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3. NO PERÍODO APOSTÓLICO, DEUS REVELOU SUA PALAVRA INFALÍVEL TANTO ATRAVÉS
DOS DONS DE ELOCUÇÃO ESPONTÂNEA QUANTO DA ESTUDADA. A espontânea
manifestaria-se por meio de Profecia, Línguas, Sonhos e Visões, e a estudada, Ensino e
Doutrina. Uma vez encerrada a Revelação de Deus, no que Ele intencionava nos dizer, esses
dons não podem mais se manifestar infalivelmente. Agora, os dons devem ser mediados
pela Palavra de Deus já revelada e escriturada. Por isso, nenhum destes dons está livre do
julgamento pela Bíblia, como possivelmente acontecia no período apostólico pelo dom de
discernimento de Espírito.

4. DEUS FEZ GRANDES SINAIS NO PERÍODO APOSTÓLICO PARA AUTENTICAR A REVELAÇÃO


RECEBIDA PELA IGREJA. Grandes curas foram feitas pelos apóstolos, por exemplo. Pedro
chegou a curar com a sua sombra, e Paulo, com lenços (At 5.14-16; 19.11-12). No entanto,
há um claro esvaecimento destes sinais ao fim do ministério de Paulo. Aos Filipenses, ele
escreve que Epafrodito esteve doente e quase morreu, mas nada diz sobre alguma cura
milagrosa que ele tão normalmente fez anos anteriores (Fp 2.27, 30). Algo parecido ocorre
quando ele recomenda a Timóteo que administre vinho para o estômago, ao invés de Paulo
simplesmente ter lhe enviado um lenço (1Tm 5.23).

5. O DOM DE LÍNGUAS TINHA UMA NATUREZA TEMPORÁRIA. Não podemos afirmar com
exatidão exegética que o uso de παύω na voz média—diferente de καταργέω na voz passiva
—evidencie uma cessação distinta para o dom de Línguas (1Co 13.8 ). Mas encontramos
uma grande dificuldade no propósito e na natureza da forma com a qual os carismáticos e
pentecostais, em geral, fazem uso deste dom:

5a. AS LÍNGUAS FALADAS TANTO EM ATOS COMO EM 1 CORÍNTIOS SÃO IDIOMAS


ESTRANGEIROS. Os termos γλῶσσα e διάλεκτος não podem ser atribuídos às línguas
extáticas, pois sempre são usados para se referir às línguas humanas, com estruturas
gramaticais e lógica. O próprio dom de interpretação (ἑρμηνεία γλωσσῶν) faz referência a
uma interpretação ou tradução, portanto, algo com estrutura lógica. No entanto, as línguas
faladas no contexto pentecostal, daquilo que já foi analisado por linguistas, não têm
estrutura gramatical e apontam para uma língua extática apenas.

5b. O DOM DE LÍNGUAS É UMA ELOCUÇÃO ESPONTÂNEA PROFÉTICA. Portanto, no período


apostólico tinha natureza infalível. Neste sentido, este dom poderia ser manifestado hoje,
mediante aplicação espontânea da Bíblia. Entretanto, o que se observa nos círculos
pentecostais são pessoas dizendo ser o próprio Deus quando falam: “Sou eu, o Senhor,
quem falo contigo”. Isso é algo que não pode acontecer em nossos dias.

5c. O DOM DE LÍNGUAS VISA A EDIFICAÇÃO DA IGREJA. Toda argumentação de Paulo em 1


Coríntios é para demonstrar que o dom de Línguas deveria estar subordinado à motivação
de edificação do próximo. Por outro lado, no meio carismático e pentecostal vemos uma

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ênfase neste dom como simplesmente edificação pessoal e até uma certa insistência e
necessidade de sua presença, visto que ele é atribuído como evidência do Batismo no
Espírito Santo. E, em geral, não há interpretação na sua manifestação no culto.

5d. O DOM DE LÍNGUAS É UM SINAL DE JUÍZO PARA OS JUDEUS. Ao explicar o dom, Paulo
afirma que “as línguas constituem um sinal não para os crentes, mas para os incrédulos”
(1Co 14.22). Ele cita a profecia de Isaías contra Jerusalém para explicar o que isso significa (Is
28. 11-12). Isso significa que em Atos 2, quando os discípulos falavam em língua estrangeira,
além de falar das grandezas de Deus, também estavam anunciando juízo para os judeus,
incrédulos a respeito do Messias, que eles negaram e mataram (At 2.23). Isso também
significa que todas as vezes que este dom se manifestava no culto, independente da cidade,
era um anúncio de juízo contra os judeus incrédulos ali presentes. No contexto
contemporâneo, não apenas não se vê qualquer menção a isso, como também há uma
completa ausência de judeus para que este sinal faça algum sentido.

5e. AS RESTRIÇÕES PAULINAS PARA O DOM DE LÍNGUAS. O apóstolo Paulo fala que essas
línguas devem ser manifestas no culto apenas em três pessoas, com interpretação e uma
de cada vez (1Co 14.27-28). Em geral, isso é completamente ignorado por parte dos
carismáticos e pentecostais.

6. O BATISMO COM ESPÍRITO SANTO É PARA TODA A IGREJA. Jesus, antes de ascender aos
céus, enviou os discípulos para serem testemunhas às nações e prometeu enviar o seu
Espírito para os capacitar para esta obra (At 1.8 ). Se esta capacitação se manifestou
exatamente em Pentecostes, dando início ao empoderamento da igreja para ser
testemunha, e todos os crentes devem ser testemunhas, segue-se que todos devem ser
capacitados. Mas se nem todos falam em línguas (1Co 12.30), por que deveríamos esperar
que todos falem para ser batizados?

7. A IGREJA CONTINUA EMPODERADA PELO ESPÍRITO SANTO. Apesar de ser cessacionista,


acredito que Jesus Cristo continua a batizar e capacitar sua igreja com dons. Esses dons se
manifestam de forma diferente do período apostólico, mas continuam habilitando todo
crente para ser testemunha de Cristo. As listas neotestamentárias não são exaustivas,
portanto, até mesmos dons diversos daqueles enumerados na Bíblia podem ser
concedidos.

Obviamente, muito ainda poderia ser dito. Mas acredito que com estes pontos consigo
mostrar bons motivos para manter uma posição cessacionista. Também devo ter
conseguido mostrar porque há certo continuísmo em meu cessacionismo.

Deus seja glorificado em tudo.

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