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Os teatros do Rio de Janeiro

Teatros do Rio
do século XVIII ao século XX
Presidente da República
Dilma Rousseff
Ministra da Cultura
Marta Suplicy

FUNDAÇÃO NACIONAL DE ARTES – FUNARTE


Presidente
Antonio Grassi
Diretora Executiva
Myriam Lewin
Diretora do Centro de Programas Integrados
Ana Claudia Souza
Gerente de Edições
Oswaldo Carvalho
José Dias

T eatros do R io
do século xviii ao século xx
©2012 AUTOR
Fundação Nacional de Artes – Funarte
Rua da Imprensa, 16 – Centro – Cep: 20030-120
Rio de Janeiro – RJ
Tel.: (21) 2279-8071
livraria@funarte.gov.br – funarte.gov.br

Edição
Oswaldo Carvalho
Produção Editorial
Jaqueline Lavor Ronca
Produção Gráfica
João Carlos Guimarães
Produção Executiva
Suelen Teixeira
Capa e Projeto Gráfico
Julio Moreira
Revisão
Obra Completa Comunicação
Assessoria de Projeto e Organização de Originais
Isabel Miranda

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


FUNARTE / Coordenação de Documentação e Informação

Dias, José da Silva.


Teatros do Rio : do Século XVIII ao Século XX / José da Silva Dias. – Rio de Janeiro :
FUNARTE, 2012.
744 p. ; 28 cm .


ISBN 978-85-7507-149-6

1. Teatros – Rio de Janeiro (RJ) – História. I. Título.

CDD 725.8098153
Dedico este trabalho a todos os técnicos e artistas que
passaram pelos teatros, desaparecidos e existentes,
contribuindo para a memória do teatro do Rio de
Janeiro, e também àqueles com quem aprendi e
continuo aprendendo a complexa arte do fazer teatral.
Meus agradecimentos vão para artistas e técnicos que, ao lon­­­go des-
­­­ trabalho, muitas vezes reencontrei já fora de suas atividades profissionais e pelo reencon-
te
tro de companheiros queridos da classe teatral.
Muitas outras pessoas contribuíram direta e indiretamente para a realização desta obra,
ora gentilmente cedendo documentos, ora acrescentando informações, ou apenas supor-
tando alguns momentos de desânimo, com palavras animadoras. A todas registro aqui meu
agradecimento discreto e silencioso.
Agradeço especialmente à Funarte, a Antonio Grassi, a Myriam Lewin e a toda a equipe
de edições: Ana Claudia Souza, Oswaldo Carvalho, Jaqueline Lavor Ronca, João Carlos Gui-
marães e Suelen Teixeira.
Agradeço a Orlando Miranda por acreditar na importância deste trabalho, a Isabel Mi-
randa e a Verônica Machado que trabalharam na pré-produção do livro e a Maria José de
Sant’Anna que fez a revisão dos textos.
Agradeço às instituições que facilitaram o acesso a documentos, inclusive a obras raras:
Biblioteca Nacional, Museu dos Teatros, Museu Histórico Nacional, Instituto Histórico e
Geográfico Brasileiro, Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, Com-
panhia Estadual de Água e Esgoto e Museu da Imagem e do Som. Agradeço também ao
Departamento de Documentação dos jornais O Globo, Jornal do Brasil, Jornal do Commercio,
O Fluminense e O Dia.
Por fim, quero render um tributo de gratidão a meus queridos filhos Philipe Deschamps
Gonçalves Dias e Bianca Deschamps Gonçalves Dias, pela grande motivação, compreensão e
solidariedade com que compartilharam de todos os momentos de dificuldade.
Capítulo 1
Sumário O teatro do
R io de J aneiro no
Prefácio .17
contexto colonial
Introdução .19

Capítulo 1
O teatro do Rio de Janeiro no contexto colonial .39

Capítulo 2
O teatro de uma capital ainda provinciana .59

Capítulo 3
Teatros do interior da província e dos municípios
do Rio de Janeiro .193

Capítulo 4
Os teatros do Rio de Janeiro no século XX .243

4.1. Cineteatro: a dupla função das casas de espetáculos .260


4.2. Os teatros do Centro da cidade .287
4.3. Migração das casas de espetáculos para a Zona Sul da cidade .416
4.4. Teatros de bairros .509
4.5. Teatros de instituições .537
4.6. Soluções teatrais alternativas .591
4.7. A fuga para os shoppings e a perda da volumetria arquitetônica .640
4.8. O surgimento dos centros culturais e a dupla função dos museus .677

Bibliografia geral .737
T Teatros do Rio teve origem na tese de doutoramento apresentada
por José Dias e submetida à Escola de Comunicações e Artes da
Universidade de São Paulo em 1999.
Esta pesquisa compreendeu um período definido entre
os séculos XVIII e XX. Portanto, todas as modificações
ocorridas nos teatros da cidade e do Estado do Rio de Janeiro
a partir de 1999 não são objeto de análise nesta obra.
José Dias é diretor de arte e cenógrafo consagrado por seu trabalho no ci­­­-
nema, na TV e principalmente no teatro, tendo atuado em mais de 390 espetáculos no Bra-
sil e no exterior. Doutor em Comunicação e Artes (USP), Dias é professor da Unirio e da
UFRJ, onde também atua como conselheiro emérito do Conselho de Minerva. Escreveu
Odorico Paraguaçú, o Bem Amado (Imprensa Oficial de São Paulo, 2010).
Recebeu inúmeras vezes os principais prêmios de artes cênicas do país, entre os quais
Molière, Shell e Mambembe. Em 2003 foi homenageado com a Medalha Pedro Ernesto da
Câmara Municipal do Rio de Janeiro. Em 2009, recebeu o título “Top 100 Educators” do
International Biographical Center, de Cambridge (Reino Unido).
Responsável pela cenografia de grandes sucessos da TV, Dias atuou nos anos 1970 na ex-
tinta TV Tupi. Na Rede Globo, entre 1974 e 1989, assumiu a cenografia dos clássicos O Bem
Amado e Casos Especiais e participou da equipe da primeira versão da novela Gabriela, de
Saramandaia e das atrações Chico Total e Fantástico.
José Dias iniciou o trabalho de consultor para construções e adaptações de edifícios tea­
trais ainda no Instituto Nacional de Artes Cênicas, mais tarde incorporado à Funarte. Foi
responsável pelo projeto de reforma de algumas das mais importantes casas de espetáculos
do país, como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e a Sala Yan Michalski, e prestou con-
sultoria para obras no Centro Cultural Tom Jobim, Oi Casa Grande, Centro Cultural João
Nogueira (Imperator), Teatro João Caetano e Teatro Villa-Lobos. Estendeu sua atuação como
consultor para outros estados, como Espírito Santo, Paraná e Goiás.
Prefácio

Não há prazer (ou até honra) maior para dições que passam a oferecer maior qualida-
um professor do que ver um aluno se reali- de às excursões de bons espetáculos.
zar plenamente na área que elegeu para sua Agora, com Teatros do Rio, em boa hora
atividade; e isso sem dúvida se dá comigo em editado pela Funarte, José Dias traz a pú-
relação à carreira de José Dias. Acompanhei blico mais uma faceta de seu total compro-
sua formação, da graduação ao doutoramen- metimento com o teatro, aquela que lhe
to, e me lembro dele como daqueles poucos ofereceu, até mesmo em sua atividade de
alunos em quem a fome do conhecimento se consultor, condições para conhecer os tea-
mostra desde os primeiros dias de estudante. tros e as salas adaptadas em que o teatro foi
José Dias se tornou aluno dileto de Pernam- e é apresentado no estado do Rio de Janeiro.
buco de Oliveira, e com ele aprendeu a co- A essas oportunidades, é claro, teve de se jun-
nhecer não só a cenografia como também to- tar a curiosidade, o interesse por encontrar
dos os problemas e mistérios das instalações tempo, em uma vida já muito ocupada pela
técnicas de que ela depende, nos bastidores cenografia e a consultoria, e Dias confirmou
como também as exigências arquitetônicas, a convicção popular que só se deve pedir que
para que a visão e o som possam ser adequa- faça alguma coisa a alguém já muito ocupa-
damente recebidos e percebidos pela plateia. do. Em um país de pouca memória, e de me-
Com o diretor como com o iluminador, Dias nos memória ainda a respeito das artes, esse
sabe dialogar, tendo noção clara da dimen- levantamento e comentário a respeito dos
são da contribuição do cenógrafo para o total teatros do Rio é uma contribuição preciosa
do espetáculo. não só para o teatro como também para to-
Em função da amplitude de seu conheci- dos os interessados em nossa vida cultural.
mento que faz dele brilhante professor, há A história de nosso teatro poderia ter sido
muitos anos já que José Dias vem sendo con- bem diversa se os responsáveis pela educação
sultor de reformas e consertos, assim como e a cultura tivessem levado avante o traba-
de construção de teatros e salas de espetá- lho do Padre Anchieta, que na nova colônia
culo, prestando preciosos serviços ao teatro portuguesa, e já no século XVI honrou a
nacional em vários pontos do país, permitin- tradição jesuíta de usar o teatro no ensino.
do assim que neles fiquem instaladas as con- A coroa, no entanto, pouco se importava

Prefácio 17
com as longínquas terras brasileiras, e foi so- Com poucas exceções, o desinteresse es-
mente no século XVIII, quando o Padre Ven- sencial pelo teatro tem condenado as artes
tura já criara, em 1767, sua Casa da Ópera, cênicas a ambientes limitados, dentro de
que o vice-rei Marquês de Lavradio recebeu shoppings ou como adaptações (mesmo que
do então Primeiro Ministro Marquês de muito bem-feitas) em antigos prédios resi-
Pombal uma carta na qual sugeria que aqui denciais, e o cuidado que Dias mostra no
deveria ser criado um teatro, grande veículo levantamento de todos esses espaços presta
da educação, muito embora a mesma carta um excepcional serviço, pois deixa clara a
inclua toda uma série de advertências a res- insuficiência de casas aptas a apresentar es-
peito do controle que deveria ser exercido petáculos de maior monta ou simplesmente
pelo governo, ou seja, desde logo criando que necessitem troca de cenários. Este tra-
também uma censura. balho pode ser tido, na verdade, como pre-
A brevidade da vida desses teatros do cioso lembrete a autoridade ou particulares
Rio no século XVIII, e até mesmo os apa- sobre a urgente necessidade de serem cons-
recidos no século XIX em Campos e Itabo- truídos no Rio mais teatros na plena ampli-
raí, por exemplo, bem ilustra a precarie- tude da palavra.
dade da vida cultural do período colonial São poucos os que se dedicam tão apaixo-
e até mesmo do início do Império. A po- nadamente, a par do ensino – pois José Dias
breza desse panorama é sem dúvida reflexo é Professor Titular de Cenografia na Unirio
da ausência de uma atividade teatral maior e professor Associado na UFRJ – pelo es-
em Portugal, ao contrário dos Estados paço no qual possam plenamente ter lugar
Unidos da América, também colonizados, as artes cênicas em sua primeira e essencial
que herdaram uma forte tradição teatral da versão, o teatro.
Inglaterra. Nem mesmo no século XX é pos- A José Dias e seu Teatros do Rio, ficamos
sível deixar de notar a frequência com que todos, por isso mesmo, agradecidos e deve-
teatros desaparecem, infelizmente, como dores.
cons­­­­tata José Dias em sua pesquisa, com
o aparecimento de novos edifícios teatrais
que compensem as perdas. Barbara Heliodora

18 Teatros do Rio
Introdução

...De pé, à entrada da porta, acolho, tam- Ouro Preto e Sabará, em Minas Gerais; o
bém eu, os meus hóspedes e desejo-lhes Teatro de Santa Isabel, em Recife; o Teatro
que se divirtam na minha festa: os hós- da Paz, em Belém; o Teatro Amazonas, em
pedes são constituídos por um milhão Manaus; o José de Alencar, em Fortaleza; o
de convidados... Abro as portas desse São Pedro, em Porto Alegre; o Santa Rosa,
livro aos meus caros amigos, artistas, em João Pessoa; o Álvaro de Carvalho, em
sejam eles pintores, escultores, músi- Florianópolis; o 4 de Setembro, em Teresi-
cos, poetas ou arquitetos. Abriram alas, na; o Deodoro, em Maceió; o Alberto Ma-
como é de praxe, para deixar as belas ranhão, em Natal; ou o Municipal e o João
damas, em primeiro lugar. Virão sábios Caetano, no Rio de Janeiro. A maioria deles
também. Mas, como tenho de tratar constitui obra de grande interesse histórico
de uma matéria especial, são hóspedes e artístico.
que me intimidam um pouco. Quando se pensa em arquitetura cênica
Gordon Craig, do Brasil percebe-se que há um manancial
A arte do teatro imenso de estudos, ainda bastante inexplora-
do, mas o campo é vasto demais, impossível
de ser abarcado no âmbito de uma só obra.
Embora o teatro no Brasil tenha existido Sobretudo quando se pretende ver a questão
desde o primeiro período de sua coloniza- sob os mais diversos ângulos. Grande ilusão
ção, só começou a apresentar um nível artís- foi pensar, a princípio, que seria exequível a
tico e cultural apreciável a partir do século proposta de apresentar todos os teatros do
XIX, após se ter instalado no Rio de Janeiro território nacional. Interessava-me compa-
a Família Real Portuguesa, durante as guer- rar as soluções encontradas nos mais impor-
ras napoleônicas. Muitas centenas de teatros tantes teatros do Brasil e iniciei uma com-
foram construídos pelo território brasilei- paração entre as regiões, seus quilômetros
ro afora, desde a inauguração, em 1746, da quadrados de ocupação, população e número
Casa da Ópera de Vila Rica (Teatro Ouro de casas e sua distribuição pelos espaços. Mas
Preto) em Minas Gerais. Pode-se pensar nos fui constatando, desde a primeira etapa do
teatros que ainda permanecem, como os de levantamento de dados, que o total de 1.167

Introdução 19
Teatro Ouro Preto, Ouro Preto, MG
Teatro Ouro Preto, 1969, sem escala (S.E.)
Teatro Ouro Preto, Ouro Preto, MG. Planta baixa
Teatro Ouro Preto, Ouro Preto, MG. Corte longitudinal

teatros, cineteatros, auditórios, centros cul- uma história da própria trajetória das casas
turais, casas de cultura, espaços alternativos, de espetáculos no estado a ser pesquisada,
conchas acústicas, circos, pavilhões etc., descrita e analisada criticamente, tanto no
programados para atingir uma população de tocante aos projetos dos teatros e das caixas
aproximadamente cento e cinquenta milhões cênicas propriamente ditas, quanto às dife-
de habitantes, constituiria uma aberração em renças específicas entre os projetos, sua evo-
termos de pesquisa. lução técnica, adaptações e reformas duran-
Estabeleci, então, um recorte espacial no te o longo período de tempo que nos separa
estado do Rio de Janeiro, onde poderia não do início do século XIX.
só estudar os grandes teatros, mas também Nem sempre esses dados são fáceis de se
outros espaços cênicos. Deste modo, pode- recuperar, considerando a forma com que as
ria chegar ao perfil de uma política cultural documentações são tratadas em certas insti-
desenvolvida pelo estado, por meio do exa- tuições públicas, assim como o fato de que
me da proporção entre o público estimado muitos teatros foram totalmente destruídos.
e a população do estado naquele momento. O passo incial foi a elaboração de um ma-
Ou suscitar reflexões sobre a concepção de peamento regional dos teatros no estado do
teatro dominante, num determinado perío- Rio de Janeiro, seguido do levantamento
do. A título de exemplo, posso mencionar a histórico dos principais teatros, para dis-
constatação de que data de mais de quarenta cutir as várias transformações e tendências
anos o contato do público com espaços cê- constatadas ao longo dos anos. Este levanta-
nicos alternativos, como também coincide mento pode ser considerado um verdadei-
este fato com a atitude dos próprios artistas ro trabalho arqueológico, tal a dificuldade
de se tornarem menos exigentes em relação apresentada. Aos poucos foram-se revelando
às condições técnicas de seu local de trabalho. os aspectos históricos dos vários teatros do
Ainda assim é vasto o campo de análise, estado do Rio de Janeiro e foi-se configuran-
mesmo que se reduza e se delimite ao terri- do a principal proposta desta obra: analisar
tório do estado do Rio de Janeiro. Há toda as casas de espetáculo localizadas na cidade

Introdução 23
Teatro Municipal de Sabará, Sabará, MG. Planta baixa

do Rio de Janeiro e os principais teatros do essas últimas oferecendo material para co-
estado, avaliando, sempre que possível, as nhecimento do processo de transformação
condições técnicas em que foram projetados por que passaram, absorvendo técnicas
e construídos, de modo a permitir um pa- apropriadas ao fazer teatral. Pelas plantas
norama histórico específico da arquitetura (material escasso em função do pouco cui-
cênica em nosso estado. dado com a memória das casas de espetá-
Além do interesse que o tema por si só culos, o que, diga-se de passagem, descobri
desperta, minha escolha deveu-se à própria ser a característica mais lamentável do estu-
atividade profissional que exerço, não ape- do das artes cênicas no Brasil), pelo material
nas por trabalhar como cenógrafo em vá- iconográfico e por todo um levantamento
rios estados do país, como também por ter histórico, busco analisar as soluções e limi-
sido responsável por inúmeros projetos, tações dos espaços teatrais.
reformas e adaptações de teatros, tanto Este material foi coletado em arquivos pú-
no Rio de Janeiro, como fora dele – mais blicos, bibliotecas, fundos de quintal, porões,
especificamente de caixas cênicas –, traba- em lugares mais inusitados. Foi enriquecido
lho que venho desenvolvendo ininterrup- por depoimentos coletados pessoalmente
tamente há muitos anos. Com isso, tive a por meio de questionário e entrevistas com
oportunidade de me defrontar com proje- arquitetos, cenógrafos, cenotécnicos, ilumi-
tos e propostas dos mais variados portes e nadores, administradores, diretores e artistas
estilos, tanto para teatros como para cen- que trabalharam nos teatros em questão, bus-
tros culturais e parece-me que agora toda cando esclarecer as características principais
essa experiência poderá se constituir em e os detalhes das diferentes soluções, limita-
material farto e útil para minha pesquisa e ções, possibilidades e problemas encontra-
para a subsequente análise crítica. dos, tanto nos projetos como nas implanta-
Esta obra também permite a abordagem ções de cenografias nesses espaços.
de uma série de diferenças específicas entre O recorte geográfico ainda levou a outra
teatros e espaços para atividades culturais, frustração: tive que reduzir o escopo da aná-

24 Teatros do Rio
Teatro Princesa Isabel, Recife, PE / Pavimento térreo

lise crítica com que pretendia, nos teatros formas, transformações e modificações por
levantados, tratar o estudo das caixas cêni- que passaram ao longo dos anos. O máximo
cas dos teatros no Rio de Janeiro, objetivan- que consegui foi não reduzir a abrangência
do possibilitar a avaliação de suas condições territorial: a cidade do Rio de Janeiro e as
técnicas, no panorama geral da história da principais áreas do estado. Também não abri
arquitetura cênica, bem como as circunstân- mão de explorar, no século XX, a diversi-
cias e os resultados obtidos através das re- dade de apresentação e a utilização dos es-

Teatro Princesa Isabel, Recife, PE

Apresentação 25
paços cênicos, dedicando especial atenção encontrar alguns estudos já realizados, apesar
às transformações pelas quais esses espaços de poucos, e observar as diferentes trajetó-
foram passando, às influências a que foram rias dessas casas de espetáculos.
sendo submetidos os teatros ao longo das Para o estudo crítico, histórico e técni-
diversas situações históricas por que passa- co desses espaços, muitas vezes procurei
ram e às adaptações que sofreram na busca transportar-me para essas casas e suas áreas
de reutilização de antigos teatros como casas de representação, como se também estives-
de espetáculos mais modernas. se participando efetivamente do elenco de
Esta apresentação histórica e análise das diversos grupos ou, em alguns momentos,
possibilidades e limitações dos teatros, trans- fosse o próprio encenador. Esse exercício
portou-me para a realidade cultural e políti- de sensibilidade colaborou bastante para o
ca do Brasil, vista por um ângulo crítico do encontro das soluções e me permitiu re-
universo dos grupos e companhias em nosso ver as encenações que por esses espaços já
panorama teatral. Para investigar cada casa passaram como quadros vivos, me sentindo
de espetáculo, a criatividade foi duplamen- parte desses quadros, tentando compreen-
te posta à prova: se de um lado, impunha-se der criativamente os espaços propícios aos
encontrar a melhor forma de abordagem dos encenadores, as imagens vistas pelo público,
teatros, de outro, estava limitado, na maioria os ares respirados nos bastidores.
das vezes, pela escassez e dispersão dos ma- Questões me deixavam inquieto e me de-
teriais disponíveis. Todavia, foi gratificante safiavam diante de cada estudo. Pretendia

Teatro da Paz, Belém, PA

26 Teatros do Rio
Teatro Amazonas, Manaus, AM / Planta baixa

Teatro Amazonas, Manaus, AM

27
Teatro José de Alencar, Fortaleza, CE / Pavimento térreo (plateia)

Teatro José de Alencar, Fortaleza, CE


Teatro São Pedro, Porto Alegre, RS / Planta baixa

Teatro São Pedro, Porto Alegre, RS


Teatro Santa Rosa, João Pessoa, PB / Primeiro pavimento, (S.E.)

Teatro Santa Rosa, João Pessoa, PB


realizar uma investigação das características e Há nos conceitos emitidos uma grande
das possibilidades técnicas de cada um desses influência da minha própria prática de ce-
teatros, mas aos poucos fui me afastando do nógrafo. O contato com este universo me
alvo desejado, sobretudo por dois motivos: fez ver que, para um edifício teatral, não há
primeiro, pela falta de dados precisos, plan- fórmulas prontas, mas há, sim, alguns prin-
tas, registros, fotografias que me permitis- cípios que merecem ser respeitados, a par-
sem examinar com segurança a utilização e tir dos quais se obtém o bom resultado de
transformação das caixas cênicas; segundo, uma proposta cênica. Esses princípios dizem
porque fui me deixando seduzir pelos acha- respeito às condições e possibilidades de re-
dos, pela crônica, pela vida teatral revelada cursos técnicos, elementos fundamentais ao
a cada nova descoberta. Cheguei à conclusão conjunto de uma encenação, porque propi-
de que poderia transformar a escassez de in- ciam soluções necessárias ao fazer teatral.
formações técnicas numa riqueza de catálo- A pesquisa parte da inauguração do pri-
go, de inventário, numa espécie de dicionário meiro edifício teatral no antigo Rossio, hoje
dos teatros do Rio de Janeiro, que servisse Praça Tiradentes, no Rio de Janeiro, e segue
de fonte de consulta para estudiosos da área até junho de 1999, permitindo algumas re-
e futuros pesquisadores, ponto de partida flexões sobre os contrastes surpreendentes
para novas investigações que eu mesmo vies- no confronto das casas de espetáculos do
se a desenvolver. Detive-me então a trabalhar Rio de Janeiro, Capital Federal de 1890,
detalhadamente os teatros, para detectar, com os teatros atuais. Considera também o
sempre que possível, as opções dos projetos, panorama da constituição física da própria
as distribuições apresentadas pelo conjunto cidade e seus índices populacionais.
arquitetônico. Fui percebendo como a evo- Fui pinçando alguns traços relevantes
lução dos espaços cênicos refletia uma rea­ deste panorama da trajetória das casas de
lidade cultural, vista através do espelho de espetáculos. Quanto ao estilo, por exem-
uma comunidade inquieta e ansiosa por uma plo, a chegada da Corte trouxe o neoclassi-
transformação teatral. Busquei ver como os cismo de influência francesa, como no caso
teatros abriram-se para as mudanças de ence- do Real Theatro São João, mas lentamente
nações e como ofereceram recursos técnicos os elementos clássicos foram mesclando-
a grupos ou companhias, como base de sus- -se às formas do colonial herdadas, criando
tentação que garantisse a qualidade dos espe- uma arquitetura híbrida. Quanto ao públi-
táculos, tanto para um grupo experimental co, registre-se que a modificação nos há-
quanto ao chamado “teatrão”. bitos e comportamentos é notável desde
O critério de análise adotado não buscou meados do século XIX: se no decorrer do
valorizar apenas a funcionalidade dos espa- Segundo Reinado contava-se com a presen-
ços, já que na maioria das vezes não teria ça significativa da elite econômica e inte-
dados suficientes para isso, mas também a lectual nos teatros, na República, com sua
realidade cultural da época. O primeiro pas- estrutura mais democratizada, os teatros
so para avaliação dos projetos foi a análise popularizam-se, mas também encontram
histórica, seguida da descrição dos espaços modelos arquitetônicos sofisticados, como
com suas características físicas, levando em o Theatro Municipal do Rio de Janeiro, do
conta, sempre que possível, as diferenças de início do século XX.
estilos entre o teatro tradicional e o teatro Quanto à localização, constata-se que, no
experimental. surgimento das edificações de casas de espe-

Introdução 31
Teatro Álvaro de Carvalho, Florianópolis, SC / Planta baixa

Teatro Álvaro de Carvalho, Florianópolis, SC


táculo, a partir do século XIX, houve prefe- palco. Mesmo que balcões e galerias tenham
rência pelo Centro da cidade, onde existiam permanecido, os acessos e as áreas internas
os cafés e clubes, locais que, ao lado dos tea- perderam o sentido do encontro social, tor-
tros, foram de grande significação para a for- nando-se simplesmente áreas de circulação; e
mação cultural e social do povo. A frequên­- os camarotes perderam a razão de ser, já que
cia aos teatros era, sem dúvida, na época, o encontro social era realizado no foyer do
tão importante como ato social (o público ia teatro. Ainda que a divisão por classe social
ao teatro para ser visto) que os teatros eram permanecesse nos teatros que possuíam bal-
demolidos, reconstruídos, reformados sem- cões e galerias, a divisão da plateia por classe
pre no mesmo local, onde existiram antes. tinha perdido o significado. Democratização
Quanto ao espetáculo, no século XX a acentuada pela implantação dos teatros de
alteração mais significativa na história da vanguarda, com o surgimento de novos es-
cena se deu a partir de 1943, quando ocor- paços, que veio alterar totalmente a relação
reu a revolução cênica, de caráter moder- palco/plateia, ator/público, permitindo ca-
nista, significando renovação e ampliação racterizar melhor o espaço cênico a partir da
do horizonte artístico, acompanhada de ação dramática.
apoio material dos poderes públicos e de- Com o surgimento da televisão, marca-se
senvolvimento cada vez mais significativo o desvio de grande parte do público de tea-
de entidades culturais, do amadorismo e de tro; inaugura-se um novo tipo de comporta-
outras iniciativas. mento social. Depois, a expansão imobiliária,
Como datas e passagens principais, pode- a degradação das salas de espetáculo e a se-
-se destacar a aglutinação em torno das casas gurança passam a constituir fatores determi-
de espetáculos, cafés, clubes e music-halls, em nantes no deslocamento dos teatros, primei-
1930, quando os monumentos arquitetôni- ro para os bairros da zona sul do Rio, depois
cos de teatro vão deixando de existir, para para outros centros de lazer – os shoppings
passar a fazer parte do volume arquitetônico – que podiam oferecer teatros com ar-condi-
dos prédios comerciais e residenciais, ain- cionado e poltronas confortáveis. Apesar de
da que tenha-se buscado manter a forma do construídos, muitos deles, fora de especifica-
palco italiano. Chamo atenção para o fato de ções técnicas, eram porém, próximos às áreas
que, a partir de 1951, as casas de espetácu- residenciais, facilitando a frequência do pú-
los tenham sofrido mudanças substanciais, blico e, consequentemente, levando ao aban-
com novas técnicas de iluminação, acústica, dono do Centro da cidade, que por um longo
visibilidade e conforto, tendo desapareci- período, deixa de ser o catalisador da efer-
do alguns componentes técnicos do teatro, vescência cultural, ficando completamente
como a profundidade do proscênio e o fosso desabitado no fim de semana, quando cessa a
de orquestra. Também a parte reservada ao função de abrigo de escritório e instituições
público passou por redimensionamento. Em administrativas e comerciais que exerce du-
vários teatros, começaram a eliminar as frisas rante a semana.
e os camarotes, pois o público não ia mais ao Mesmo que a carência de registro e o
teatro para ser visto e sim para participar ou tempo não tenham permitido analisar todos
tentar uma comunhão com o espetáculo. As os teatros que possuímos no estado do Rio
poltronas então tiveram um novo desenho de de Janeiro, nem destacar, por exemplo, as
implantação e já não eram mais uma atrás das temporadas de óperas, comédias, dramas,
outras, e sim alternadas, facilitando a visão do revistas, bailados, concertos, os espetácu-

Introdução 33
Teatro 4 de Setembro, Teresina, PI / Planta baixa

Teatro 4 de Setembro, Teresina, PI / Corte longitudinal


Teatro 4 de Setembro, Teresina, PI

los que brilharam nos palcos, ou as visitas possuíssem uma estrutura sólida e recursos
de companhias estrangeiras e seus elencos, técnicos necessários e suficientes ao fazer
que todos os anos vinham ao Rio de Janeiro, artístico, quando, na verdade, eram caixas
procedentes da Europa, procurei indicar a sem a menor condição técnica, precários lo-
existência do maior número de teatros, mes- cais de trabalho de artistas, que a cenografia,
mo os de pequeno porte, ou de vida curta. através da ilusão que permite criar, tentava,
Tentei, o mais possível, traçar um panorama da melhor maneira, esconder.
geral dessas biografias, algumas tão efêmeras, No entanto, muito pouco da precariedade
interrompidas por incêndios, que levaram a das condições dos teatros estava visível nas
reconstruções, reformas, restaurações. informações coletadas, sobretudo em perío­
A história dos teatros é uma história de dos de inauguração, porque os administra-
permanentes mudanças, não só decorrentes dores estavam em geral mais preocupados
das tragédias que sofreram, como por con- com as festividades, que davam manchete e
sequência das más administrações responsá- permitiam melhor divulgação por jornais,
veis pelo péssimo estado de conservação, hi- periódicos e revistas. Contudo, as informa-
giene e segurança que a maioria dos teatros ções que se obtêm são pouco confiáveis: de
apresentou. As soluções para os problemas centenas de casas de espetáculos, contam-
foram as mais improvisadas, algumas total- -se numa mão de cinco dedos os teatros que
mente cenográficas, apenas com intuito de possuem hoje um material iconográfico con-
maquiar fachadas e plateias. Apenas as caixas fiável. Foi uma luta árdua, sofrida e solitária
cênicas permaneciam intocáveis, como se para chegar ao que está exposto nesta obra.

Introdução 35
Teatro Deodoro, Maceió, AL

Teatro Escola de Natal, Natal, RN


Em muitas ocasiões só com artistas aposen- como o Lyrico, São Pedro de Alcântara, ca-
tados é que pude ter acesso aos documentos. sas por onde passaram grandes espetáculos,
A verdade é que a memória do edifício tea- locais para onde acorreu toda a sociedade
tral não tem registro, são poucas as plantas ou do Rio, testemunha do esplendor de en-
fotografias de que se dispõe para uma análise, cenações. O teatro São Pedro, demolido e
e quando existem, a maioria não é datada ou reconstruído para permitir o alinhamento
não assinala o local, gerando dúvida e falta de da Avenida Passos e Rua Luís de Camões,
confiança quanto ao seu valor histórico. dando origem ao Teatro João Caetano, é
Com o passar do tempo muitas casas de uma prova de como as inúmeras reformas
espetáculos foram sendo destruídas, risca- sofridas podem sacrificar não só o estilo ca-
das do mapa da cidade do Rio de Janeiro, racterístico da construção de época, como
para que o progresso urbano e a ganância a qualidade técnica.
imobiliária tomasse conta de tudo. O polo Mas as demolições nem sempre foram
cultural, que era a Praça Tiradentes com obrigadas pelo desenvolvimento urbano, al-
seus inúmeros teatros, foi perdendo espa- gumas vezes foram originadas de interesses
ço para os cinemas que eram construídos políticos ou de falta de objetividade e lisura
no próprio Centro da cidade e nos bairros, administrativas. Não há como ficar imune à
roubando seu público. Mesmo assim, alguns demolição inútil do Teatro São José, exem-
prédios permaneceram como bens cultu- plo doloroso da especulação de que muitos
rais, lutando por manter seu espaço e por teatros foram vítima.
permanecer símbolo expressivo do cenário
cultural da cidade. Desapareceram teatros Teatro Alberto Maranhão, Natal, RN

Introdução 37
Surgiram em Copacabana, Urca e Ni- embora as instalações de plateia estejam, de
terói os cassinos, que levavam uma gran- modo geral, relativamente bem conserva-
de parte do público atraído pelos shows e das. Diante dessas, as companhias paulistas
pelo jogo. Este público de classe média e e cariocas que queiram montar espetáculos
alta passou então a frequentar assiduamen- em teatros de outras cidades do país, com
te essas casas de espetáculos, enquanto os raríssimas exceções, não podem ser fiéis às
teatros tentavam sobreviver com as revistas versões originais das produções em excur-
e suas coristas seminuas. Depois da proi- são. Isso impede o atendimento à necessi-
bição do jogo, pela Constituição de 1946, dade básica de comunicar ao espectador a
o público não voltou ao teatro, foi para os beleza formal concebida para a encenação,
night-clubs, que ficavam espalhados pelos prejudicando a imagem de cada espetáculo
bairros da zona sul do Rio. oferecido. Sabe-se que só desenvolvendo o
Com o golpe de 1964, os teatros perde- teatro como veículo de diversão e cultura
ram sua frequência, muitos ficaram fechados das populações das duas cidades mais im-
por longo tempo, sendo os artistas e os in- portantes do país, embora ainda com defi­
telectuais ameaçados pela censura. Políticos ciências, pode-se então estender os trabalhos
e mulheres elegantes já não circulavam nos apresentados nos grandes centros às princi-
bares e restaurantes. O momento criou um pais cidades do país.
hiato na nossa história cultural. O comportamento social das últimas dé-
As últimas décadas já conheceram a pos- cadas vem se revelando também na mudança
sibilidade de representações de todos os que acomete o público de teatro, exigindo
gêneros dramáticos, mostrando que a qua- novas soluções espaciais, de conforto e se-
lidade do teatro nacional não fica nada a gurança. Para acompanhar esta mudança, o
dever à de outros países. Mas a concentra- teatro também mudou, não mais sublinhan-
ção da produção teatral está identificada e do, na distribuição física do público a divisão
amparada pela acumulação de riquezas nas de classe social, mas tentando oferecer solu-
grandes cidades, de modo que a atividade ção adequada a uma perfeita comunhão com
teatral de maior expressão localiza-se nas seu público.
metrópoles: São Paulo e Rio de Janeiro, às Na organização dos temas e datas pelos
quais se seguem outras cidades onde há um capítulos, busquei acompanhar cada teatro
universo artístico fervilhante, porém com- de seu material iconográfico pertinente,
parativamente de menor destaque, como evitando criar um corpo de anexos descon-
Belo Horizonte, Salvador, Porto Alegre e textualizados. Para indicações bibliográficas
algumas capitais do Nordeste. Para que este usei três expedientes: as notas, as referên-
quadro seja revertido, é necessário ainda cias bibliográficas específicas em final de ca-
um grande investimento por parte dos ou- pítulo/parte e a relação de obras gerais re-
tros estados brasileiros. feridas ou consultadas no final do trabalho.
Continua existir a grave barreira da de- Com esta obra, penso ter realizado um le-
satualização técnica dos teatros, em sua vantamento de grande interesse geral para a
maioria construídos no século XIX ou no história dos teatros do Rio de Janeiro, apre-
início do século XX, usando ainda maqui- sentando estudo inédito em nossa literatura
naria cênica superada, muitos mesmo sem o e trazendo contribuição original para biblio-
mais rudimentar apetrecho para apresenta- grafia sobre os edifícios teatrais e suas condi-
ção até de uma mise-en-scène do século XX, ções técnicas.

38 Teatros do Rio
Capítulo 1
O teatro do
R io de J aneiro no
contexto colonial
O Rio de Janeiro colonial era um vilarejo. Topografia de característica ainda agressi-
va. Os caminhos inóspitos, de difíceis acessos, cortados de charcos, pois o braço do
mar deixava extensos alagadiços. Muitos morros com estradas circundantes, flora
e fauna exuberantes e vielas fechadas por matas virgens. Depois da fortificação do
Castelo, vieram descendo mosteiros e conventos, igrejas, arcos e lapas. Aos poucos
apareceram chácaras e quintais, largos e praças, mercados, chafarizes e palácios.
No cenário quase indígena o progresso custava a chegar, levando meses os bri-
gues na travessia atlântica. No burgo triste, as festas religiosas, cultos e procissões
dominavam reinóis e nativos. Os jesuítas, tanto nas capitais como nas províncias,
nos pátios dos colégios, nos palanques improvisados, nos adros das igrejas, sempre
tentavam divertir o povo. Junto aos festejos, quase religiosos, lançavam mão para
distrair, de representações, canto e dança.
Sebastião Fernandes
Os primeiros séculos cenário a própria natureza: a selva. Às ve-
zes eram realizadas em igrejas. Quando se
Com a vinda dos jesuítas para o Brasil, no realizavam à noite, tudo era iluminado por
início da colonização, na segunda metade do tochas. Em praça pública, ou as representa-
século XVI, o teatro foi o meio de comuni- ções localizavam-se num só ponto, ou alguns
cação escolhido como mais adequado para personagens distribuíam-se em pontos fixos
o trabalho missionário, com o propósito de ao longo do trajeto de um cortejo formado
catequizar os índios das regiões litorâneas. pelo público, ao qual os atores se dirigiam
Através dele, criava-se a ilusão, estimulan- de suas janelas.
do a fantasia e permitindo uma aproximação Títeres de porta. Washt Rodrigues
entre a cultura local e as doutrinas religiosas
e sociais que os jesuítas desejavam ministrar.
O teatro catequético, portanto, não buscava
realizar objetivo artístico, mas propiciar o
convencimento daqueles espectadores, para
facilitar o processo da catequese.
Neste teatro, cujos gêneros predominan-
tes eram autos, comédias e tragédias, eram
utilizados os elementos da cultura indígena,
inclusive a língua, misturados a temas sacros
e/ou relacionados às circunstâncias que ha-
viam induzido cada representação. Os ato-
res eram índios domesticados, mamelucos
educados pelos jesuítas ou os próprios jo-
vens aspirantes ao sacerdócio e, como não
existiam ainda edifícios destinados à ativi-
dade teatral, as representações eram reali-
zadas nos salões de estudos dos jesuítas, nos
colégios, nas praças públicas, tendo como

Capítulo 1 | O teatro do R io de J aneiro no contexto colonial 41


Mapa do Rio de Janeiro de 1624
A baía do Rio de Janeiro e a cidade de São Sebastião. Desenho de Luís Teixeira
No Sul do país era menos frequente a tablado no local em que se efetuavam as
utilização de igrejas para as encenações do representações dramáticas. Uma ou outra
teatro dos jesuítas, enquanto, no Norte, era vez, encontram-se notícias de peças leva-
uma de suas características, o que de modo das à cena no Palácio do Governador, ou
algum agradava a sede da Igreja, em Roma. até mesmo na sede episcopal.
A utilização dos templos como abrigo era, Com as medidas da autoridade eclesiástica,
no entanto, uma imposição das condições a autoridade civil toma consciência da impor-
climáticas, pela falta de cobertura para o tância do teatro e, em um decreto de 17 de
público em dias de chuva. julho de 1777, recomendava a construção de
No século XVI, houve também o apare- teatros públicos confortáveis e permanentes,
cimento de divertimentos e autos popula- tendo em conta o grande valor educativo dos
res como o Fandango, a Chegança, a Con- espetáculos e reconhecendo sua necessidade
gada, o Bumba-meu-boi, todos realizados como escola de valor, de política, de moral e
ao ar livre. fidelidade aos soberanos.
O século XVII foi um período de deca- Expulsa das igrejas, a atividade teatral
dência cultural, suspendendo todo o pro- passa a encontrar seus novos e mais ade-
cesso que havia sido iniciado no século quados templos nos estabelecimentos de-
an­­­­­­terior. A guerra contra os franceses no signados como “Casa da ópera”, que come-
Maranhão; contra os holandeses na Bahia e çavam a surgir por toda parte na segunda
Pernambuco; entre os colonos e os jesuítas metade do século XVIII, todos de estilo ar-
em São Paulo causou um rompimento, es- quitetônico europeu. Além disso, mostra-
morecendo assim o movimento teatral. Por ram também, desde os tempos coloniais, o
outro lado, corroborou para esse declínio a quanto estava enraizada, tanto nas cidades
consolidação da obra missionária. Seguiu-se do litoral como nas províncias do interior,
um período de escassas atividades teatrais. a predileção pelo teatro. Deve-se desta-
As representações desse gênero, nessa épo- car, entretanto, que, durante todo o século
ca, passaram a se identificar com manifesta- XVII e XVIII, a Bahia foi o centro político
ções populares de regozijo ou com festejos cultural mais importante, com certeza por
religiosos e tinham lugar, na maioria das ve- ser a primeira capital da colônia, função
zes, em praça pública, revelando um outro que manteve até 1763.
aspecto característico do período: o aspecto Durante o Brasil colônia, entre a segunda
popular das atividades teatrais. metade do século XVIII e o início do século
Já no século XVIII, a tradição de espe- XIX, inúmeras casas de espetáculos foram
táculos teatrais é mantida, sendo organi- construídas no Brasil, sendo que a grande
zados nos conventos, nos adros, nas pró- maioria no Rio de Janeiro, conforme a re-
prias igrejas ou no interior dos palácios. lação a seguir:
Porém, em 13 de março de 1726, a au-
toridade eclesiástica, precisamente uma 1746 | Casa da Ópera de Vila Rica (Tea­tro
pastoral do Bispo de Pernambuco, José Ouro Preto – MG)
Fialho proíbe os espetáculos nas igrejas. (em outras cidades de Minas Gerais surgiram
Outra mais rígida, em 1734, chega a proi- Casas de ópera como: São João Del Rey, em
bir a representação de peças em quais- 1782, Paracatu, em 1783, e Sabará, em 1800)
quer locais. Resta, desta forma, a praça
pública, onde geralmente era erguido um 1760 | Teatro da Praia (Bahia)

44 Teatros do Rio
1767 | Casa da Ópera do Padre Ventura província foi feita no ano seguinte: Niterói.
(Rio de Janeiro) A mudança da denominação de município
Outros nomes: neutro para Distrito Federal foi feita com
• Ópera dos Vivos a Proclamação da República, situação que
• Casa da Ópera Velha persistiu até a transferência da capital do
• Casa do Padre Ventura país para Brasília, em 21 de abril de 1960.
Foi nesse panorama de capital que sur-
1770 | Casa da Ópera (antiga Casa de giram as primeiras construções especifica-
Fun­­­­­dição – São Paulo) mente destinadas à realização de espetácu-
los, com elencos organizados de atores, as
1776 | Teatro de Manuel Luiz chamadas de Casas da Ópera, muito prova-
(Rio de Janeiro) velmente para se distinguirem do teatro de
Outros nomes: marionetes ou de bonifrates. Os dois fenô-
• Ópera Nova menos, o teatro de bonecos e o de atores,
• Nova Casa da Ópera eram igualmente traços característicos do
• Nova Ópera teatro colonial do Brasil, à semelhança do
• Casa da Ópera de Manuel Luiz que acontecia em Portugal, influência do tea­-
tro espanhol, e, posteriormente, do francês
1793/1795 | Casa da Ópera e do italiano. No teatro de títeres eram mui-
(Largo do Palácio – São Paulo) to comuns as cenas religiosas, mas no teatro
de atores o nível dos espetáculos era bem
1798/1827 | Teatro Guadalupe (Bahia) baixo, e o elenco, constituído por mulatos
e mundanas – criaturas que viviam nas mar-
1794/1834 | Casa da Comédia gens da sociedade, já que a profissão de ator
(Porto Alegre) era considerada indigna – não teve nomes
de grande repercussão.
1800 | Teatro Sabará (Minas Gerais)
Títeres de capa. Washt Rodrigues

Em 22 de novembro de 1760 teve início


aquele que talvez tenha sido o primeiro ver-
dadeiro teatro público brasileiro: o Teatro da
Praia. O conselho municipal da Bahia entre-
gou a Bernardo Calixto Proença o encargo da
construção desse teatro, que abrigava 28 ca-
marotes, uma plateia, dividida para nobres e
plebeus e uma galeria para as mulheres. O se-
gundo, na Bahia, foi o Teatro Guadalupe (1798
a 1827, ano em que foi demolido). Era todo
de madeira, inteiramente forrado de pano.
A partir de 1763, a cidade do Rio de Ja-
neiro foi a capital do Brasil e, em 1834, na
Província do Rio de Janeiro foi destacada
uma área para constituir o município neu-
tro, sede do Governo Imperial. A capital da

Capítulo 1 | O teatro do R io de J aneiro no contexto colonial 45


Teatrinho de bonecos. Washt Rodrigues

Ainda nessa segunda metade do século atravessar a chácara do fogo, assim deno-
XVIII ocorreu um fato significativo, que foi minada porque nela se faziam fogos de
o reconhecimento oficial do teatro como artifícios, atual Rua dos Andradas1) e Rua
instituição de alto valor para a educação éti- da Vala (atual Uruguaiana), no trecho tam-
ca e política do povo, o que contribui para a bém denominado Quitanda dos Mariscos2,
mudança de mentalidade em relação a essa uma das primeiras casas de espetáculo do
arte e para que se verificassem tentativas Brasil, foi fundada pelo mulato Padre Ven-
para a formação de um teatro com nível ar- tura (Boaventura Dias Lopes) que é tradi-
tístico bem mais elevado. cionalmente considerado não só como seu
fundador, mas também por ser o empresá-
rio do teatro.
1767
Casa da Ópera do Padre Ventura ...Situava-se no lado direito da quadra en-
tre as atuais Ruas Uruguaiana e dos Andra-
A mais antiga Casa da Ópera do Rio de das, onde existe hoje a Estação do Metrô.
Janeiro, situada entre a Rua do Fogo (por Por essa razão o logradouro chamou-se

46 Teatros do Rio
A plateia. Washt Rodrigues
Enquanto os homens se divertem. Washt Rodrigues
Rua da Casa da Ópera, da Casa da Ópera
Velha e da Casa da Ópera dos Vivos.3

Foi inaugurada em 1767 e como de cos-


tume na época, por um elenco de negros e
mulatos. Sobre o fato, comenta Sebastião
Fernandes:

Em 1763, o Rio de Janeiro era burgo tris-


te, sem diversão. Havia uma figura muito
popular, o Padre Ventura. Religioso, cor-
cunda, tocador de violão e muito aprecia-
do pelas cantigas. O Conde da Cunha con-
vidou o Padre Ventura para reunir alguns
cômicos e lhe arranjou uma velha casa do
Largo do Capim, denominada “Casa da
Ópera”. O Padre Ventura era pardo. Além
de tocar violão, cantar lundus, sabia dançar
o fado. Como soubesse reger a orquestra,
e fosse também diretor de cena, ocorreu-
-lhe a ideia de ser empresário.4 À porta do Teatro Manuel Luiz. Washt Rodrigues

Ao que acrescentam outros historiadores sição interna é que podia ter sido copiada
do teatro5: o Padre Ventura regia a orquestra talvez do teatro do Bairro Alto ou outro
em trajes sacerdotais, para fundo musical qualquer dos velhos pátios de comédia,
às peças de Antônio José da Silva, o Judeu.6 então existentes em Lisboa.7
As atividades artísticas do Padre Ventura, ao
lado do teatrinho da Chica da Silva (no Ti- Muito pouco se sabe. “A crônica não con-
juco) podem ser considerados os primeiros servou maiores dados sobre o teatro.” 8 Foi
teatros com salas de espetáculos especial- construído para ser teatro, e segundo Augus-
mente construídas para este fim. to Maurício, “a sala não era de grandes dimen-
Sobre o edifício teatral, podemos citar as sões mas satisfazia as necessidades da época.” 9
palavras de Múcio da Paixão: A casa de espetáculo parece ter sido cha-
mada Ópera dos Vivos porque os artistas que
A Casa da Ópera do Padre Ventura só po- ali trabalhavam eram de carne e osso, di­­­­­
dia ser modelada pela de Lisboa, como ferentes dos que se apresentavam no Tea­tro
querem alguns, porque a Ópera do Tejo, de Marionetes e Bonifrates, do bairro Alto
destruída pelo terremoto de 1755, era de- de Lisboa, em que se apresentavam as co-
masiado monumental para que se fizesse médias de Antônio José, e também para se
cousa igual no Rio de Janeiro por aqueles distinguir da Casa da Ópera, que existiu em
tempos, e os teatros do Salitre e da Rua 1748, onde havia teatro de marionetes.
dos Condes foram edificados posterior- Sebastião Fernandes, no mesmo artigo ci-
mente à época em que se presume o Padre tado, refere-se à preferência dos jesuítas pe-
Ventura ter edificado o seu teatro. A dispo- los recursos usados para divertir o público.

Capítulo 1 | O teatro do R io de J aneiro no contexto colonial 49


Ópera dos Bonifrates, que se realizava dentro
de velhas salas.

O interessante é que tais manifestações de


teatro de marionetes tinha sempre ao lado
um cego tocando rabeca. Esta espécie de tea­-
trinho com bonecos de engonço seria mais
tarde superada pelos personagens de carne
e osso, com a denominação de Ópera dos
Vivos. Esta designação intrigou tanto Vieira
Fazenda, que, ao pesquisar cousas fluminen-
ses, achava mistério o que assim acontecia,
porque em Lisboa o teatrinho de bonifrates
era com fantoches e o Padre Ventura, com
gente de carne e osso, conseguia aqui uma
diversão semelhante.
Ficou conhecida pelos nomes: Ópera dos
Vivos, Casa da Ópera Velha e Casa de Ópera
do Padre Ventura.
O terreno do teatro do Padre Ventura foi
em parte sacrificado com a abertura da Ave-
nida Presidente Vargas. A Casa da Ópera foi
destruída por um incêndio em 1769, provo-
cado pelas fagulhas lançadas da boca de um
realístico dragão que lutava contra Jasão no
drama Os encantos de Medéa, de Antônio José
da Silva, o Judeu.

Vice-rei na foçura. Washt Rodrigues


1776
costume que persistiu ainda por algum tem- Ópera Nova ou Teatro de
po nos séculos seguintes ao XVI, à maneira Manuel Luiz
dos jograis, que vinham da Idade Média. Os
jesuítas faziam uso de três formas de repre- Sobre a escassez documental sobre as cir-
sentação: cunstâncias e dados que cercam esse teatro
e aquele que foi construído para substituí-
• O grupo de títeres de porta – junto a uma soleira, -lo, vale recorrer novamente a outro artigo
separada por uma colcha vermelha; publicado pela Revista de Teatro da Sbat, onde
é transcrita uma crônica de Artur Azevedo
• O grupo dos títeres de capote, que por serem am- sobre o assunto:10
bulantes, andavam pelas ruas, praças, adros de
igrejas, principalmente nas feiras; O primeiro teatro público a funcionar re-
• O grupo de títeres de sala, mais importante, a gularmente no Rio de Janeiro, segundo se
ópera dos fantoches, conhecida em Lisboa por tem notícia, foi o do Padre Ventura, conhe-

50 Teatros do Rio
cido também pelos nomes de Ópera dos Escrevendo em 1896, José Vieira Fazen-
Vivos, Casa da Ópera Velha e Casa do Pa- da disse que conseguiu apurar, após cinco
dre Ventura. Este teatro foi destruído pelo anos de consultas a meio mundo e pesqui-
incêndio, sendo então construído (em outro sas em arquivos; nada de substancial, en-
lugar) o Teatro de Manuel Luiz, conhecido tretanto, acrescentou ao trabalho de Mo-
pelos nomes de Ópera Nova, Nova Casa da reira de Azevedo. Na edição Garnier das
Ópera, Nova Ópera, e como o povo tem Comédias de Martins Pena aí figura como
memória fraca, igualmente Ópera Velha, introdução o Estudo sobre o teatro no Rio de
denominação que já fora dada ao teatro do Janeiro, devido a Mello Moraes Filho (José
Padre Ventura, isto após a inauguração, em Alexandre de). Nesse estudo, também
1813, do Real Teatro de São João. nada de substancial foi acrescentado ao
São muito escassas as notícias sobre trabalho de Moreira de Azevedo.
estes dois teatros. O essencial se limita Depois desses três grandes vultos da
àquilo que nos deixou o dr. Moreira de história desta cidade, pesquisadores apai-
Azevedo (Manuel Duarte) no seu livro xonados e infatigáveis, é de supor que nada
Pequeno panorama ou descrição dos principais mais se há de apurar a respeito desses dois
edifícios da cidade do Rio de Janeiro, cinco teatros. A obra deles é hoje rara e pouco
volumes publicados pelo Paula Brito, de acessível à bolsa geralmente desguarnecida
1861 a 1867, obra depois refundida em dos amantes da história do nosso teatro, de
dois volumes editados em 1877 pelo li- maneira que é pouco difundido o conheci-
vreiro B. L. Garnier com o título O Rio de mento dessa época.
Janeiro, sua história, monumentos, homens no- Artur Azevedo [...], apoiado em Mo-
táveis, usos e curiosidades. reira de Azevedo, mas acrescentando-lhe
comentários próprios, quando foi demoli-
Largo do Paço, cerca de 1824. Aquarela de Augustus Earle do o casarão construído por Manuel Luiz,

Capítulo 1 | o TeaTro do r io de J aneiro no conTexTo colonial 51


aproveitou o ensejo para lembrar aos seus de D. João V. [...] deve ser pronunciado
leitores de O Paiz, em artigo intitulado com respeito por quantos prezem a arte.
“O Teatro de Manuel Luiz”, estampado em Numa noite em que se representava uma
2 de novembro de 1903, o que de signi- das peças mais aparatosas do Judeu, os En-
ficativo encerravam aquelas paredes que cantos de Medéa, ardeu a Casa da Ópera, e
iam desaparecer. Pareceu-nos interessante o Padre Ventura, desgostoso, arruinado, su-
transcrever esse saboroso artigo em nos- cumbiu provavelmente ao seu infortúnio,
sas páginas, pois certamente será lido com porque nunca mais se falou dele... Debal-
agrado pelas modernas gerações: de se procura nas velhas crônicas desta ci-
“Vá o leitor ao Largo do Paço, que ho­­­ dade notícia sobre o prestimoso brasileiro,
je poderia se chamar o Largo do Passos de cujo nome ficou apenas um fragmento,
[Fran­­cisco Pereira, prefeito], e verá: estão aquele apelido irônico, Ventura, que tão
demolindo a casa fronteira à Secretaria de pouco se compadece com o seu destino.
Indústria, casa que, em 1862, foi assim des­­ Havia então, no Rio de Janeiro, certo
crita por Moreira de Azevedo [...]: “Edifi- Manuel Luiz, que de Portugal viera como
cada na rua que há entre o Paço da Câmara soldado, num regimento, o que não im-
dos Deputados e o Palácio, tem a frente pedia de ser dançarino e músico. Dizia-se
principal voltada para este último edifício. que tinha sido ator na sua terra, mas não há
Nesta face há uma porta e quatro janelas de certeza disso. Mello Moraes Filho atribui-
peitoril no segundo. A face que olha para o -lhe não sei com que fundamento, misérias
largo do Paço tem nove janelas em ambos e defeitos, falta de talento e caráter dúbio,
os pavimentos, e a que está voltada para a chegando a insinuar ter sido ele quem dei-
travessa do Paço [que separava esse prédio tou fogo ao teatro do Padre Ventura.
da antiga Câmara dos Deputados, a Cadeia O caso é que, logo depois do incêndio,
Velha] só difere daquela por ter no primeiro Manuel Luiz resolveu construir um teatro,
pavimento oito janelas e uma porta.” não afastado da corte como o outro, mas
Antes que desapareça o último vestígio mesmo em frente ao palácio do vice-rei, e
dessa casa, que tem o direito de figurar na levantou aquelas paredes, tão fortes, que
história do nosso pobre teatro, vou lem- resistiriam aos séculos se não as estivessem
brar nesta coluna, a sua história; não deixa demolindo agora, polegada por polegada,
de ser interessante e curiosa: com grandes esforços de picareta e alvião.
Em 1767, durante o vice-reinado do be- Infelizmente a crônica não conservou a
nemérito marquês de Lavradio [vice-Rei, data da inauguração do teatro, a qual deve
1769-1779], um padre por nome Ventura, ter sido em 1776, pouco mais ou menos;
brasileiro e homem de cor, abriu no largo não sabemos também qual foi a peça repre-
do Capim a Casa da Ópera, modelada pela sentada; só sabemos que o marquês de La-
de Lisboa, e fez aí representar todas ou vradio assistiu ao espetáculo, e que o nosso
quase todas as peças de Antônio José. Esse poeta Ignácio José de Alvarenga Peixoto,
teatro foi a primeira manifestação séria de o futuro inconfidente, recém-chegado da
arte dramática havida no Rio de Janeiro; o metrópole, e em vésperas de seguir para
nome de Padre Ventura, herói que necessa- Minas, a fim de tomar posse do cargo de
riamente lutou contra toda a sorte de pre- ouvidor do Rio das Mortes, recitou, naque-
conceitos – imaginem um padre, e mulato, la noite, de um camarote [soneto] oferecido
metido a empresário de teatro no século ao vice-rei, seu protetor e amigo [...].

52 Teatros do Rio
O Marquês de Lavradio, homem de gos- tava do que melhor havia; as peças de An-
to, afeiçoado às letras e às artes, não deu tonio José e outros portugueses daquele
ouvidos de mercador a esse convite bom- tempo, e traduções, algumas bem detes-
bástico e sonoro; foi um protetor decidido táveis, das comédias de Molière e Goldo-
do teatro de Manuel Luiz. ni. O teatro de Metastasio, esse foi quase
A empresa prosperou. A sala, que tinha todo traduzido em Portugal e representa-
duas ordens de camarotes e uma tribuna do no Rio de Janeiro.
para o vice-rei, estava sempre cheia. O seu Uma das peças que maior concorrência
aspecto era agradável: tinha sido bem de- atraíam à Casa da Ópera era Les fourberies
corada por [Joaquim] Leandro11 [pintor da de Scapin, de Molière, traduzida, em Lis-
chamada “Escola fluminense”] o famoso ce­­­ boa, talvez pelo capitão Manuel de Souza,
nógrafo nacional. com o título Astúcias de Escapim. Tenho um
As principais atrizes eram Joaquina da exemplar impresso dessa tradução que não
Lapa, a quem chamavam a “Lapinha”, e Ma- é má, pois é bem portuguesa e conserva,
ria Jacinta, por autonomásia, a “Marucas”; quando possível, todo o espírito do gran-
os principais atores José Ignácio da Costa, de poeta. Por baixo da lista de pessoas que
que era poeta satírico e tinha uma alcunha falam nela, há a seguinte nota: “A cena se
pouco lisongeira, o “Capacho”, Ladislau, o figura em praça com várias casas, e esta
cômico mais engraçado da companhia. praça se finge ser a cidade de Lisboa, para
“Os atores, diz Moreira Azevedo, apa- onde se mudou a cena, para melhor per-
receriam vestidos, como então era uso, cepção dos espectadores”.
com as suas cabeleiras de rabicho, chapéus Quando, em 1779, o marquês de La-
à Frederico, fardas desabotoadas, redondas vradio se retirou para o reino, a Casa da
nas abas, camisas de folhos, calções e sapa- Ópera perdeu o seu maior protetor; toda-
tos de fivelas.” Representariam eles, assim via, continuou a prosperar durante o vice-
vestidos, os Encantos de Medéa e o Labirinto -reinado de Luiz de Vasconcellos [Vice-rei
de Creta? Provavelmente; na­­quele tempo, de 1779-1790], que era também amante
em Paris, que era Paris, ainda se notavam das artes [...]. Entretanto, a Casa da Ópera
as mesmas anomalias e anacronismos nos lá foi, tem-te-não-caias, até a chegada da
vestuários dos personagens de teatro. Família Real, em 1808.
Os anúncios dos espetáculos eram feitos Convencido, e não se enganava, de que
por bandos timbaleiros, que percorriam o Rio de Janeiro ia entrar numa nova era
toda a cidade; não havia jornais para nos de prosperidade, Manuel Luiz introduziu
transmitirem os respectivos programas, no seu teatro algumas reformas e melho-
que hoje seriam de tanto valor histórico ramentos, entre as quais uma arquibanca-
e literário. Em 1747 Antônio Isidoro da da superior aos camarotes, destinada aos
Fonseca estabeleceu aqui a primeira tipo- criados da casa real. Sobre a tribuna dos
grafia, que foi, aliás, queimada por ordem vice-reis apareceram então as armas reais.
da metrópole, e ainda em 1809 proibia o “O Príncipe Regente, diz ainda, Morei-
governo que se anunciassem livros sem a ra de Azevedo, não era muito amante de
sua licença! Que civilização poderia sair de teatro; gostava mais das festas de igreja;
um país colonizado assim? porém em certos dias de gala, como no
Entretanto, sabe-se, pela tradição oral, aniversário da rainha-mãe, ia sempre assis-
que o repertório da Casa da Ópera, cons- tir o espetáculo. Uma noite em que o prín-

Capítulo 1 | O teatro do R io de J aneiro no contexto colonial 53


cipe foi ao espetáculo, Manuel Luiz acom- ceu grandes momentos de glória, frequenta-
panhou-o de tocha na mão até o paço; por da pela elite da cidade do Rio Colonial.
isso, foi nomeado moço da câmara. Alcan- Ficou esse segundo teatro conhecido
çou também a patente de coronel do regi- como Teatro de Manuel Luiz, o nome de seu
mento dos pardos.” fundador e diretor, construído no Largo da
A Casa da Ópera durou até 1813, Assembleia, esquina do Beco dos Madeirei-
quando se inaugurou o Real Teatro de ros ou Travessa do Paço, dando frente para o
São João, hoje de São Pedro de Alcânta- Palácio dos Vice-Reis. Mais tarde chamado
ra. Teve, pois, uma existência de perto de Largo do Carmo, depois Largo do Paço e
quarenta anos, sem deixar na história da Praça D. Pedro II. Atualmente Praça XV, e
arte brasileira a repercussão que merecia, Rua da Assembleia. A área é hoje ocupada
devido à nossa miserável condição de co- pela Câmara dos Deputados.
lonos sem imprensa.
Manuel Luiz fechou o seu teatro e fez ...era naquele tempo defronte das pri-
doação da casa ao príncipe real, que man- meiras janelas do lado direito do palácio
dou adaptá-la para morada dos criados dos vice-reis, exatamente a mesma casa
do paço. O povo começou a chamar-lhe que depois ficou sendo uma dependência
a Ópera Velha, e mais modernamente a do paço...12
Ucharia do Paço.
Depois que deixou de ser teatro, esse Esse português, ex-barbeiro, ex-dan-
[prédio] [...] teve muitíssimas compli- çarino, ex-tocador de fagote numa banda
cações: morada de criados, tesouro do militar era protegido do vice-rei Marquês
paço, residência do almoxarife e de ou- de Lavradio (vice-rei de 04/11/1769 a
tros empregados da casa imperial; agên- 1779), manteve relações de dependência
cia da Estrada de Ferro Central do Brasil, do teatro para com o poder estabelecido,
depósito de acervo da extinta Inspetoria construindo um teatro luxuoso, para a
Geral das Terras e Colonização, escritório época, com abundância de cortinados de
de informações a imigrantes, Almoxari- damasco, dourados, candeeiros de prata,
fado da Repartição Geral dos Telégrafos, além das duas filas de camarotes, à direita
estação do Corpo de Bombeiros, casa localizado o camarote do vice-rei, orna-
particular etc. mentado com os brasões reais. O pano de
Não quis eu que o teatro Manuel Luiz boca, que representava Netuno num car-
desaparecesse de todo, sem que neste de- ro puxado por cavalos-marinhos, rodeado
sataviado artigo lembrasse aos leitores de por outros deuses e figuras mitológicas,
O Paiz que foi ali, por bem dizer, o berço tendo ao fundo a Baía de Guanabara, havia
da arte dramática do Rio de Janeiro.” sido pintado pelo apreciado pintor José
Leandro Joaquim de Carvalho.
Muito pouco se terá a acrescentar ao co-
mentário sobre o Teatro da Ópera Nova de Dois pavimentos, com janelas de peitoril,
Manuel Luiz, que veio substituir, em termos na fachada uma porta e quatro janelas no
de casa de espetáculo, ainda que em outro en- primeiro pavimento e cinco no segundo;
dereço a Casa da Ópera ou Ópera Velha do a face voltada para o largo do Paço apre-
Padre Ventura. Na administração desse em- senta nove janelas em ambos os pavimen-
presário teatral, a casa de espetáculos conhe- tos e, a que dava para a Travessa do Paço,

54 Teatros do Rio
tinha no primeiro pavimento oito janelas criados do Paço. José Leandro pintou novo
e uma porta.13 pano de boca.” 14
A rica e fascinante história das casas de
Esta casa conheceu os triunfos sociais do espetáculos do Rio de Janeiro iniciando a
culto e o galante Marquês do Lavradio, po- partir do início do século XIX, como par-
rém, tornou-se inadequada para uma cor- te do desenvolvimento cultural que o Rei-
te europeia, habituada às cenas de Lisboa. no Unido de Portugal e Algarve conheceu
Funcionou ativamente de 1776 a 1813, com após a vinda da Família Real. Este aconteci-
altos e baixos. Não há notícias do espetácu- mento veio impulsionar a atividade teatral.
lo que inaugurou o teatro depois de sua re- Acostumados à vida da metrópole, a Famí­lia
forma. Sabe-se que contratados por Manuel Real e os nobres de Lisboa sentiram falta
Luiz, lá trabalharam: José Inácio da Costa de diversões no triste burgo colonial. Uma
(Capacho), Joaquim da Conceição Lapa (La- corte habituada às salas de espetáculo nos
pinha), Maria Jacinta (Marucas), Francisca moldes italianos necessitava de um teatro
de Paula e a Cia. Lírica de Antonio Nascen- à altura de sua pompa. Tornara-se então
tes Pinto. insuficiente para os numerosos cortesãos
Com a vinda da Família Real para o Bra- aficcionados que chegaram com o Príncipe
sil, a Casa da Ópera de Manuel Luiz foi re- Regente a oferta pobre das terras d’além-
formada para receber o soberano, mas era -mar, e com o deslocamento do centro do
insuficiente para tantos novos espectadores poder do Terreiro do Paço para o Campo
que frequentariam o teatro, “construiu-se de Sant’Anna15, o Teatro de Manuel Luiz foi
uma galeria sobre os camarotes para os perdendo a importância.

Capítulo 1 | O teatro do R io de J aneiro no contexto colonial 55


Notas

1 A Rua do Fogo entre 1775 e 1780 teve as seguintes denomi- 8 AZEVEDO, M. D. Moreira de. O Rio de Janeiro... 3a ed. Rio de
nações: Rua da Pedreira da Conceição, Rua da Pedreira Que Janeiro: Brasiliana Ed., 1969, v.II, p. 156.
Vai Detrás da Sé, Rua da Pedreira e finalmente Rua do Fogo. 9 AUGUSTO MAURÍCIO. Meu velho Rio. Rio de Janeiro: Pre-
2 Alguns historiadores equivocaram-se quanto à localização feitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de Educação e
deste teatro, quando situam a casa da Ópera do Padre Ven- Cultura (s.d.), p. 101-2.
tura no Largo do Capim, local não muito distante da Rua do 10 Na Revista de Teatro da Sociedade Brasileira de Autores Tea-
Fogo. Autores como Múcio da Paixão (O Teatro no Brasil. Rio
trais (Sbat), n. 322, jul/ago de 1961, p. 8-15, encontramos um
de Janeiro: Brasília Editora, 1936, p. 69 -70.): “O mais antigo
artigo (sem autor) intitulado “O Berço da Arte Dramática
teatro do Rio de Janeiro foi a Casa da Ópera, perto do Lar-
do Rio de Janeiro”, e como subtítulo “O Teatro de Manuel
go do Capim, dirigida pelo Padre Ventura.” Segundo alguns
Luiz”. Pela importância do documento, transcrevo-o na ín-
historiadores era situada na Rua da Ópera dos Vivos, atual
tegra, como optei por fazer ao longo do livro com citações
Rua dos Andradas; segundo outros ficava no Largo do Ca-
de importância semelhante.
pim, sendo possível que as duas denominações se refiram
ao mesmo local. 11 Na verdade, o pintor e cenógrafo se chamava José Leandro
Joaquim de Carvalho.
3 CAVALCANTI, Nireu Oliveira. Rio de Janeiro. Centro histórico
1808-1998. Marcos da Colônia. São Paulo: Dreschner Bank 12 MACEDO, Joaquim Manuel de. Um passeio pela cidade do
Brasil, 1998. Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Garnier, 1991, p. 191.

4 Sebastião Fernandes num artigo “Casas de Espetáculos”, 13 AZEVEDO, M. D. Moreira de. O Rio de Janeiro; sua história,
Revista Dionysos, ano XXI, Dez. 70/71, n. 18, p.100-1. monumentos, homens notáveis, usos e curiosidades... 3a ed.
Rio de Janeiro: Brasiliana Editora, 1969, p. 156.
5 CAFEZEIRO, Edwaldo. Gadelha, Carmem. História do Teatro
Brasileiro. De Anchieta a Nelson Rodrigues. Rio de Janeiro: 14 PAIXÃO, Múcio da. O teatro no Brasil; Rio de Janeiro: Moder-

UFRJ/ Funarte, 1996, p. 91. na, 1917, obra póstuma. p. 79-82.

6 Antonio José da Silva (o Judeu), nascido no Rio de Janeiro 15 Chamou-se também Campo de Honra, por pouco tempo;
em 8 de maio de 1705 foi queimado em vida em 18 de ou- depois passou a Campo da Aclamação e, por fim, Praça da
tubro de 1739, por ordem do Santo Ofício, no antigo Campo República, por ocasião da Proclamação, nome que conserva
da Lã, em Lisboa. até hoje.

7 MÚCIO DA PAIXÃO. O Teatro no Brasil. Rio de Janeiro: Brasília

Editora, 1936, p. 69-70.


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Capítulo 2
O teatro de
uma capital ainda
provinciana
O teatro brasileiro, como atividade contínua, alicerçada por três elementos cons-
trutivos da vida teatral – atores, autores e público estáveis só começa, de fato, com
a independência.
Décio de Almeida Prado
A entrada do Brasil na história como e trazer a cultura que caracterizava a Europa
nação, encerrando definitivamente a épo- no início do século XIX, espelhando os va-
ca colonial, foi marcada pelo ano de 1808, lores europeus, principalmente os ingleses
quando, para o Brasil, encerra-se o século e franceses, que correspondiam aos padrões
XVIII: é a data em que Dona Maria I, a rai- da sociedade urbana que para cá se desloca-
nha louca, e seu filho, o Príncipe Regente ra. Era necessário construir teatros. O Prín-
João (o futuro Rei D. João VI), fugindo da cipe mandou edificar o primeiro, ao qual se
invasão napoleônica, vêm refurgiar-se, com seguiram vários no Rio de Janeiro, na pro-
toda a Corte, na grande colônia sul-ame- víncia e em diversas cidades e vilas do país,
ricana, onde estabelece a capital do novo em permanente processo de multiplicação,
Reino de Portugal, Brasil e Algarve, no Rio ao longo do século, atingindo um total de 23
de Janeiro. Embora o teatro no Brasil tenha na primeira metade. Os teatros vão se cons-
existido desde o primeiro século de sua co- tituir num dos inconfundíveis indicativos da
lonização, foi nos primeiros anos do século transformação de valores morais e culturais
XIX que ele começou a apresentar um nível na sociedade do século XIX.
artístico e cultural. Com a transmigração da Para dar início à transformação, chegou
Família Real e da Corte para o Rio de Ja- ao Brasil, em 1816, a Missão Artística Fran-
neiro, todos os setores da vida cultural se cesa, a quem foram confiadas as primeiras
desenvolveram, inclusive, e com destaque, tarefas. Eram ao todo dezesseis os membros
o teatro. da Missão, composta pelos artífices Jean
Pouco depois de sua vinda, o Príncipe Baptiste Level (mestre ferreiro e perito em
Regente determinou medidas econômicas e construção naval); Pilite (surrador de pe-
políticas, para que a cidade do Rio de Janei- les e curtidor); Fabre (curtidor); Nicolas
ro, escolhida para hospedar a Família Real, Magliori Enout (serralheiro); Louis Joseph
pudesse estar à altura das exigências da Cor- Roy e seu filho Hippolyte (carpinteiros e fa-
te portuguesa e se adequasse aos parâmetros bricantes de carros); François Ovide (enge-
da posição política e econômica por ela an- nheiro mecânico); e pelos artistas Joachim
siados. Não só isso, também era preciso afas- Lebreton (chefe); Jean Baptiste Debret
tar os padrões rurais, religiosos e patriarcais (pin­­­­tor histórico); Nicolas Antoine Taunay

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 61


Planta da cidade do Rio de Janeiro em 1817
(pintor de paisagens); Auguste Henri Vic- Na fase romântica, surgiram bons no-
tor Grandjean de Montigny (arquiteto); mes nacionais, que cultivaram os gêneros
Au­­­guste Marie Taunay (escultor); Charles mais conhecidos: a comédia, o drama, o
Simon Pradier (gravador); Segismund Neu- drama lírico, o vaudeville e, em menor es-
komm (compositor, organista e mestre de cala, a tragédia, sem esquecer o popular
capela); e ainda pelos auxiliares dos artis- me­­­lodrama. Ao movimento romântico, à
tas Grandjean de Montigny, Charles Louis semelhança do que ocorrera na Europa, se­
Levasseur e Louis Simphorier Meunié; e guiu-se a fase realista. Passaram então a ser
de François Bonrepos. Os artistas partici­ discutidas no palco as principais questões
param da formação da Imperial Academia sociais do momento. Passados cerca de trin-
de Belas-Artes, convidados a implantar um ta anos, porém, assinalou-se um período
modelo nas áreas de arte e arquitetu­­ra e de decadência, quando predominaram os
de responsabilizar-se pelo ensino. A pri- gêneros “opereta” e “revista”, assim como
meira tarefa foi criar monumentos pa­­ra fes- o drama de “capa e espada”, o repertório
tas e desfiles referentes aos acontecimen- passando a corresponder ao gosto de uma
tos da Família Real. Segundo uma tradição audiência de nível pouco elevado, resultan-
que se estabeleceria no Brasil, desejava-se te da popularização da frequência ao tea-­
a grandiosidade. tro, do rebaixamento do gosto e da exigên-
A política de incentivo à construção de tea­­ cia menos apurada do padrão do espetáculo.
tros no Brasil foi definida ao longo do sé-­ Em 5 de maio de 1900, o jornal O Paiz
cu­­lo XIX, com auxílios por parte do gover- publica matéria escrita por Artur Azevedo,
no, ou sob forma de loterias e subvenções republicada meio século depois, em 1959,
dadas às associações, com o propósito de pela Revista da Sbat, (n. 312) com o título
edificar casas de espetáculos formando o tea­ “Uma súmula da história do teatro brasi-
tro como uma instituição de relevância para leiro”. O Paiz, que no início do século se
a formação social do povo, um espaço apro- considerava “a folha de maior tiragem do
priado para formar uma sociedade, levando país”, decidira, por ocasião das comemora-
em consideração os padrões de civilidade que ções do IV centenário do descobrimento,
nesta época começavam a ser assimilados por fazer um balanço do que a nação tinha rea-
influências externas. O teatro seria um bom lizado, e coube a Artur Azevedo falar sobre
veículo condutor e transformador de valores o teatro. O texto de apresentação do artigo
e deveria participar ativamente da proposta do ilustre dramaturgo chama atenção para
mais vasta de conscientizar e instruir a socie- o fato de haverem algumas incorreções
dade para o progresso e para a civilização. (“pequenas nicas”, como chamaram) que
A construção dos teatros faz surgir uma foram corrigidas em outros artigos do pró-
vida teatral, animando o público, instigan- prio autor: por exemplo, “sobre o teatro de
do a criação e importação de companhias Manuel Luiz”,
de teatro e de grupos amadores, tanto
quanto a produção de textos dramáticos posteriormente contou ele que os es­pe­tá­
influenciados pelos movimentos literários culos continuaram em menores propor-
vindos da Europa, como o Romantismo, ções, depois de retirada do Marquês do
de 1833 a 1855, e o Realismo, que se pro- Lavradio para a Europa, cessando somen-
longou dessa data até os primeiros anos te após a inauguração do Real Teatro de
do século XX. São João.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 63


Mas nada compromete a visão aguçada e Ora, Alencar precisamente, escrevia
extremamente crítica que caracterizou a es- o seguinte, pouco tempo antes de mor-
crita deste importante homem de teatro. rer: “Era minha intenção suscitar algumas
Do texto de Artur Azevedo, intitulado “O ideias acerca da regeneração do nosso tea­
teatro dramático”, além do incrível poder tro, ou antes, da sua criação, pois nunca o
de síntese na abordagem dos principais fa- tivemos; nem alguns esforços individuais
tos que marcaram a vida teatral do país nos constituem uma literatura dramática”.
séculos anteriores, ressalto a amargura com Como se vê, não fiz mais que adotar o
que expõe a decadência do gosto na cultura parecer do nosso primeiro dramaturgo.
do final do século XIX, muito influenciado De então para cá o teatro brasileiro não
pelos estrangeirismos: deu um passo para frente; pelo contrário:
retrogradou, se é que pode retrogradar o
Há dias escrevi o seguinte, no número ex- que não existe.
traordinário com que a revista do Brazil Oxalá que me fosse dado hoje, que nas
Portugal comemorou o 4o centenário da colunas d’O Paiz se dá balanço à nossa ativi-
nossa terra: dade intelectual de quatro séculos, escrever
“É um lugar-comum que o teatro brasi- a notícia das vitoriosas campanhas do teatro
leiro está em decadência, que é necessário nacional! Possa ter esta satisfação o cronista
regenerá-lo etc., mas a dolorosa verdade é que escrever os artigos comemorativos do
esta: o teatro brasileiro nunca existiu. Há 5o centenário, e, conto que tenha, pois é in-
um grande número de peças teatrais espo- crível que o século XX não veja o advento
rádicas, escritas por autores brasileiros, e de nossa literatura dramática.
entre elas algumas que poderiam figurar, Não há civilização mais lenta que a ci-
com vantagem, na literatura de qualquer vilização teatral, e, quando não fôssemos,
país mais adiantado que o nosso; entretan- em matéria de arte, tão fáceis de conten-
to, o que até hoje se tem feito em prol do tar, restar-nos-ia, ao menos, a consolação
nosso teatro não passa de tentativas, a que de que em todos os outros países das duas
faltou a indispensável perseverança e que Américas, inclusive os Estados Unidos, a
não mereceram, desgraçadamente, a aten- literatura dramática é ainda mais incipien-
ção nem o estímulo dos governos. te que a nossa.
A verdade é sempre desagradável e Havia já dois séculos e alguns anos que
aquela então é uma verdade que nunca an- o Brasil tinha sido descoberto, quando a
dou disfarçada. Por isso, não admira que fama do teatro do Bairro Alto, de Lisboa,
o meu artigo fosse um tanto censurado teve a sua repercussão no Rio de Janeiro.
por alguns visionários que se deixam iludir Antes disso, a arte de representar não se
pela magia das recordações. manifestava por qualquer forma em terras
Um cavalheiro, que diverge, um tanto de Santa Cruz, pois não meto em linha de
acriminiosamente, da minha opinião, atira conta os teratológicos mistérios de José de
contra mim Silvio Romero, que aliás, negou Anchieta representados ao ar livre para
a existência de uma verdadeira literatura entretenimento e edificações dos índios.
dramática no Brasil; outro, ainda mais ir- Tivemos por aquele tempo a nossa Casa da
ritadiço, declarou em estilo dos tempos do Ópera, fundada pelo Padre Ventura, mesti-
S. Januário, que os manes de Alencar nunca ço inteligente e letrado, e depois a Nova Casa
me perdoariam artigo tão pessimista. da Ópera, construída pelo músico e dançari-

64 Teatros do Rio
no português Manuel Luiz. Pa­­ra esse teatro Como empresário – terrível coincidên-
vieram os primeiros atores portugueses que cia! – morresse no mesmo dia em que aqui
pisaram em terras americanas. chegou à companhia, depois de uma hor-
Com a retirada do vice-rei, conde de rorosa viagem, D. Pedro I tomou os artis-
Avintes, segundo Marquês do Lavradio, tas sob sua proteção.
grande protetor de Manuel Luiz, acabou a Mas nem por isso foram eles mais feli-
Casa da Ópera e só houve teatro no Rio de zes: dois anos depois, aos 7 de abril, o mo-
Janeiro depois da vinda de D. João VI, que narca saía barra fora e a companhia disper-
fez construir, por Fernando José de Almei- sava-se, abandonando o teatro, que passou
da, o Real Teatro de São João, e mandou a chamar-se Constitucional Fluminense.
vir de Lisboa duas companhias, uma dra- A companhia era tão numerosa, que se
mática e outra lírica. Da primeira faziam dividiu em três grupos; um deles alugou
parte os artistas mais festejados da metró- um teatro particular que havia na Rua dos
pole, e a segunda trazia como regente da Arcos, outro foi dar espetáculos em Nite-
orquestra Marcos Portugal, de quem falou rói, e o terceiro, em que figuravam Ma-
o meu colega Oscar Guanabarino. nuel Soares e Ludovina, construiu o Teatro
Depois da inauguração desse teatro, em da Praia de D. Manuel, depois chamado de
12 de outubro de 1813, outros se cons- S. Januário, e inaugurou-o em 1834.
truíram nas principais cidades do Brasil; Um ano antes aparecera João Caetano
mas até hoje nenhuma província fez por si dos Santos.
mesma qualquer esforço em prol da arte O grande artista mourejou a princípio
dramática. Organização de mesas censó- aqui e ali, no teatro de Niterói, no do Va-
rias, pequenas subvenções, dadas, na maior longo (construído especialmente para ele)
parte dos casos, a companhias estrangeiras, e no de S. Januário, até que, em 7 de se-
e disso não tem passado a intervenção dos tembro de 1839, tendo organizado uma
governos provincianos. companhia da qual fazia parte Estela Se-
Ultimamente, depois de inaugurado o zefredo, com quem se casou, reinaugurou
regime republicano, tem-se notado tal ou o Constitucional, que de novo se intitulou
qual desejo e emancipação artística; mas de S. Pedro de Alcântara, denominação que
os primeiros sinais bruxuleiam apenas. tem conservado até hoje.
Por conseguinte, falando de movimento Naquela noite foi representada pela 1a
teatral no Rio de Janeiro, abrangeremos vez a tragédia Olgiato, de Domingos José
todo o país. Gonçalves de Magalhães. Parecia que o
A 25 de março de 1824 pegou fogo pela teatro brasileiro nasceria naquela oca-
primeira vez o Real Teatro de São João, sião, mas assim não foi. João Caetano não
que estava condenado a mais dois incên- compreendeu que estava nas suas mãos
dios; rapidamente reconstruído, o teatro a nacionalização do nosso palco. De Ma-
foi de novo inaugurado aos 22 de janeiro galhães, o que ele mais apreciava eram
de 1826, intitulando-se então Imperial as traduções de Daucis, e quando apare-
Tea­tro de S. Pedro Alcântara. ceu o incomparável Luiz Carlos Martins
Fernando José de Almeida, o proprietá- Pena, criador da comédia nacional, o
rio, mandou contratar em Lisboa uma com- Frederick Lemaitre brasileiro não com-
panhia dramática da qual faziam parte os preendeu também que esse moço era um
famosos artistas Manuel e Ludovina Soares. predestinado.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 65


Que resultou daí? O autor de O Noviço déspota em todos os espíritos, apagaram-
não nos deixou senão farsas, levando con- -se as últimas esperanças.
sigo para a eternidade, aos 33 anos, todos Furtado Coelho prestou mais relevan-
os seus sonhos de arte, e do genial artista tes serviços à arte dramática no Brasil, e
não se aponta a outra criação notável, em foi, depois da invasão alcazariana, o único
peça brasileira, que não seja o papel de An- empresário e ator que conseguiu, com ele-
tônio José, na tragédia de Magalhães. mentos reunidos no próprio país, dar-nos
Como, desde o êxodo produzido pela o teatro exclusivamente literário; mas não
revolução de 89, houvesse uma impor- se pode dizer que esses serviços aprovei-
tante colônia francesa no Rio de Janeiro, tassem a literatura brasileira.
a qual ainda mais importante se tornou Não é que nos faltassem nem nos faltem
depois que D. João VI trouxe alguns artis- aptidões; mesmo depois da débâcle, apa-
tas notáveis daquela nacionalidade, a nossa receu França Júnior, um continuador de
capital foi sempre visitada por artistas pa- Martins Pena, e apareceram outros autores
risienses, e estes eram tão bem recebidos, cuja nomenclatura tomaria muito espaço.
que alguns deles edificaram em 1832, o E nas províncias (basta citar um Agrário de
teatro que se chamou de S. Francisco e se Menezes, no Norte e um Arthur Rocha,
chamava Ginásio quando há alguns anos foi no Sul) não faltaram bons cultores da lite-
transformado em clube carnavalesco. ratura dramática.
Foi então que o gosto pelo teatro francês Atores notáveis tivemo-los, vindos de
se implantou deveras na população flumi- Portugal e educados no Brasil, como Areias
nense; João Caetano, que tinha músculos e Guilherme de Aguiar, ou nascidos no
para lutar contra ele, deixou-se levar na Brasil, como Vasques, Martinho, Peregri-
corrente! Pode-se mesmo dizer que ele an- no, Pimentel, Fraga, Xisto Bahia e tantos
tipatizava com as peças nacionais, embora outros. Ainda nos restam muitos artistas,
recebesse uma subvenção do Estado para mas nesse artigo só cito mortos.
representá-las de preferência às estrangei- O Rio de Janeiro tem sido visitado por
ras. O caso é que o nosso primeiro artista algumas sumidades da arte dramática,
desapareceu em 1863, sem ter prestado ne- universalmente consagradas; mas essas vi-
nhum serviço às letras nacionais. sitas, longe de concorrer para que o tea-
O mesmo não se pode dizer do empre- tro nacional desabrochasse, produziram o
sário Joaquim Heleodoro dos Santos, que efeito diametralmente oposto. O público
manteve no Ginásio, de 1853 a 1860, uma não perdoa aos nossos autores não serem
boa companhia dramática. Shakespeare e Molières; não perdoa aos
Esses sete anos constituem o período nossos atores não serem Rossis, Novellis
mais interessante do nosso teatro. Repre- e Coquelins; não perdoa às nossas atrizes
sentaram-se ali as melhores peças de Alen- não serem Ristoris, Sarahs e Duses.
car, Macedo, Pinheiro Guimarães, Quinti- Descendo sempre de trinta anos a esta
no Bocayuva, Sizenando Nabuco, Achilles parte, o teatro do Rio de Janeiro (e, por
Verejão e outros; mas pouco durou esse conseguinte, no Brasil) chegou ao estado
fogo de palha, e quando alguns anos mais deplorável em que o vemos.
tarde, com a abertura do Alcazar, o Rio de Atualmente as casas de chopes, cafés
Janeiro foi invadido pela opereta parisien- cantantes, frontões, boliches etc., lhe dão
se e Offenbach começou a reinar como os últimos coices; anteontem, dia feliz do

66 Teatros do Rio
4o centenário do Brasil, a nossa civilização memória das instituições que se observa ao
em matéria de teatro foi caracterizada por longo da história dos edifícios teatrais.
um espetáculo1 de cavalinhos e palhaçadas De modo geral, pode-se verificar que os
no teatro histórico de João Caetano. teatros do século XIX no Rio de Janeiro
mantiveram as características arquitetôni­
O texto de Artur Azevedo também apon­ cas do palco italiano, inserido em espaços
ta um outro dado importante sobre o teatro sem forro, cujas coberturas eram susten-
do Rio de Janeiro: o fato de ele ser um ter- tadas por tesouras metálicas ou de madei-
mômetro do teatro brasileiro. As mudanças ra. As casas de espetáculos construídas no
do teatro no Brasil em geral acompanham o final do século, através da sua arquitetura,
desenvolvimento de acontecimentos históri- sobretudo considerando as decorações e
cos e, em suas variações, refletem a situação ornamentações internas e a volumetria das
política, social e econômica em que a cultura fachadas, mantinham uma identidade pró-
brasileira se encontra. Se no Rio de Janeiro, pria, de tal modo que, apesar das frequen-
ainda que capital, o panorama social ainda tes mudanças de empresários e de nomes,
é bastante provinciano, pode-se imaginar não perdiam sua identidade junto ao públi-
como seria o resto do Brasil nos primeiros co como instituição. Geralmente eram lo-
anos do século XIX. De qualquer modo, não calizadas junto aos cafés e cervejarias, pon-
é inverdade dizer que o teatro foi o diverti- tos de encontro de intelectuais, boêmios,
mento que, após a chegada da Família Real, artistas, de um modo geral, espaços de rica
mais conquistou os cariocas, a ponto de se e intensa vida social e política. O teatro es-
tornar o predileto até o fim do século. tava sempre no imaginário do povo, com
Como observação geral sobre os edifícios sua música, dança e belas senhoras elegan-
das casas de espetáculo, é preciso notar um temente vestidas.
traço importante ocorrido em todas elas: o Durante o século XIX, a partir da vinda
fato de terem sido construídas, reconstruí- da Família Real, muitas casas de espetáculos
das e reformadas muitas vezes, e pari passu foram sendo construídas pelo Brasil afora, a
com essas mudanças físicas, batizadas e reba- grande maioria na cidade e na província do
tizadas outras tantas, até no mesmo ano. Es- Rio de Janeiro. Pode-se estabelecer uma rela-
sas sucessivas modificações, de certo modo, ção dos principais teatros construídos no Bra-
acompanham a história das transformações sil no período. Desses, porém, apenas os do
sofridas no aspecto físico e humano do Rio Rio de Janeiro serão analisados em seu aspec-
de Janeiro. to físico e histórico, de modo a, sobretudo,
A tentativa de reconstruir a arquitetura ressaltar a importância que tiveram na vida
cênica, uma arquitetura tão efêmera quanto cultural da cidade. Serão apresentados por
o espetáculo teatral, resulta quase impossí- ordem de data de inauguração, seguida dos
vel, já que a maioria desapareceu sem deixar nomes que receberam ao longo de sua histó-
registro. As reconstituições foram realizadas ria, e de datas de alteração desses nomes.
através de consultas a periódicos, através das Porém, neste capítulo, serão examina-
descrições de jornalistas e de escritores de dos apenas os teatros da cidade do Rio de
crônicas, publicadas em revistas ou jornais Janeiro, reservando-se ao capítulo seguinte
da época. Também não são muitos os mate- os teatros que animaram a vida cultural do
riais iconográficos disponíveis para análise, interior da província, isto é, dos futuros mu-
tão pouco é o cuidado com a preservação da nicípios do Estado do Rio de Janeiro.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 67


1813 blicas, e sem ser por meio de alguma nova
Real Teatro de São João contribuição que grave mais os meus fiéis
vassalos a quem antes desejo aliviar de to-
A partida para o início de uma vida cultural das elas.
organizada foi a atitude contundente de João E havendo-me proposto o mesmo In-
VI ao incumbir, pelo Decreto de 28 de maio tendente, que grande parte dos meus vas-
de 1810, o Intendente Geral da Polícia, Pau- salos residentes nesta corte me haviam já
lo Fernandes Vianna, de construir um “teatro feito conhecer e que por ser esta obra do
decente”, que possuísse dignidade suficiente meu real agrado, e de notória necessida-
para receber a Corte e seus visitantes ilustres de, se prestavam de boa vontade a dar-me
e estrangeiros, permitindo que funcionas- uma prova de seu amor e distinta fidelida-
se com o nome de Real Teatro de São João. de, concorrendo por meio de ações a fazer
O teor desse decreto é o seguinte: o fundo conveniente, principalmente se eu
houvesse por bem de tomar dito o Teatro
Fazendo-se absolutamente necessário nes- debaixo de minha proteção e de permitir
ta capital, que se erija um Teatro decente que com relação ao Imperial nome se de-
e proporcionando à população, e ao maior nominasse Real Teatro de S. João.
grau de elevação e grandeza em que hoje Querendo corresponder ao amor que
se acha pela minha residência nela, e pela assim prestam a minha real pessoa e com
concorrência dos estrangeiros e de outras que tanto se distinguem nesta ação, sou
pessoas que vêm das extensas províncias servido honrar o dito Teatro com a minha
de todos os meus Estados: fui servido en- real proteção, e com a pretendida invo-
carregar o doutro Paulo Fernandes Vianna, cação, aceitando, além disso, a oferta que
do meu Conselho e Intendente geral da por mão do mesmo Intendente fez Fernan-
polícia, do cuidado e diligência de pro- do José de Almeida, de um terreno a este
mover todos os meios para ele se erigir,
e conservar sem dispêndio das rendas pú- Teatro São João em 1817

68 Teatros do Rio
fim proporcionado, que possui defronte à do terreno; ficando, entretanto, o dito e
igreja da Lampadosa, permitindo que nele quanto nele houver com hipoteca legal,
se erija o dito Teatro, segundo o plano que especial e privilegiada ao distrito dos refe-
me foi presente e que baixará com este as- ridos fundos. O conde de Aguiar, do meu
sinado pelo mesmo proprietário do dito Conselho de Estado, ministro e secretário
terreno, que além disso se oferece a con- de Estado de Negócios do Brasil, o tenha
correr com seus fundos, indústria, admi- assim entendido e faça executar, com as
nistração e trabalho, não só para a criação ordens necessárias ao Intendente geral da
como para o reger e fazer trabalhos. polícia e mais estações, onde convier. Pa-
E sou, outrossim, servido, para mostrar lácio do Rio de Janeiro, em 28 de maio de
mais quanto esta oferta me é agradável, 1810. Com a rubrica do príncipe regente.2
conceder que a tudo quanto for necessário
para seu fabrico, ornato e vestuário até o dia Esta atitude veio a dar frutos, fazendo
em que se abrir e principiar a trabalhar se com que o Marquês Fernando José de Por-
dê livre de todos os direitos nas Alfândegas, tugal e Castro, que havia sido vice-rei do
onde se deve pagar, que se possa servir da Brasil no período de 1801 a 1806, e o em-
pedra de cantaria que existe no ressalto, ou presário e capitão Fernando José de Almeida
muralha do edifício público que fica contí- Castro, ex-barbeiro do Marquês e chamado
guo a ele e que de muitos anos não se tem de “Fernandinho”, tomassem a iniciativa de
concluído; e que, depois de entrar a traba- construir um teatro. Este português, ex-
lhar, para seu maior asseio e mais perfeita -barbeiro, que chegou ao Brasil em 1801
conservação, se lhe permitirão seis loterias e que caiu nas graças de D. João VI, através
segundo o plano que se houve de aprovar, a da proteção de seu ex-patrão, por ser um
benefício do mesmo Teatro. apaixonado pelo teatro, e ter conseguido
E, porque também é junto e de razão assegurar-se de certo prestígio na Corte,
que os acionistas que concorram para o e acumulando uma situação financeira dis-
fundo necessário para a sua criação fiquem creta, reuniu um grupo de acionistas, que
seguros assim dos juros dos seus capitais, eram os principais comerciantes da cidade
que os vencerem, como dos mesmos ca- e prontificou-se a construir um novo teatro.
pitais, por isso mesmo que os ofertaram Imediatamente a proposta foi aceita por
sem estipulação de tempo, determino que D. João VI, concedendo isenção alfandegária
o mesmo intendente geral da polícia, a cuja e todos os materiais que fossem necessários,
particular e privada inspeção fica a dita autorizando, também, seis loterias em be-
obra e o mesmo Teatro, faça arrecadar, por nefício da construção do teatro, onde foram
mão de um tesoureiro que nomeará, to- utilizados blocos de pedras de uma fortaleza
das as ações e despendê-las por férias por inacabada e destinada a erguer a Sé.
ele assinadas, reservando dos rendimen-
tos aquela porção que se deve recolher A primeira pedra do edifício da Sé foi lan-
ao cofre para o pagamento dos juros e a çada no dia 20 de janeiro de 1749, como
amortização dos principais, para depois declara o termo de 21 de junho de 1750,
de extintos esses pagamentos, que devem lavrado no livro 20 do registro da Secreta-
ser certos e de inteiro crédito e confiança, ria do Bispado a fls. 4, e transcrito no livro
passar o edifício e todos os seus pertences do Tomo do Cabido, fls.144, não constan-
ao domínio e propriedade do proprietário do desse documento a inscrição que acom-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 69


panhou essa primeira pedra, nem as ceri- posteriormente chamado de Largo do Ro-
mônias com que foi lançada.3 cio, e enfim, Praça da Constituição, em-
penhou-se nesta obra não só toda a pedra
No ano de 1752, interromperam-se, pois, que era destinada para conclusão da igreja,
os trabalhos da Sé Nova, e interrompidos fi- mas ainda a das duas torres, que já estavam
caram por 44 anos. muito adiantadas, e que desmoronaram.
Serviram, pois, as pedras da mal afor-
As desinteligências do Cabido com a Ir- tunada Sé Nova para os imensos alicerces
mandade de N. S. do Rosário e S. Benedi- e gigantescas paredes do teatro, e por isso
to incitaram os capitulares a tratar a conti- mesmo, severos respeitadores de quanto
nuação da obra, e, aprovado esse empenho se referia as coisas sagradas, agouraram
pelo vice-rei Conde de Rezende e pelo mal daquele edifício profano, e como se
Bispo, recomeçaram os trabalhos no dia o futuro quisesse justificar tais agouros, já
28 de fevereiro de 1796. As obras foram três vezes foi esse teatro devorado pelas
efetivamente paralisadas no dia 27 de maio chamas. Mas nem mesmo com três incên-
de 1797.4 dios se acabaram suas grossas paredes.
Eram as pedras da Sé Nova, contra os
Esse fato fez com que o povo, supersti- quais nada tem podido o fogo destruir.5
cioso, ficasse sensivelmente chocado e atri-
buíram os três incêndios que atingiram mais Com a presença da Família Real e de toda
tarde o teatro (em 1824, 1851 e 1856), a um a Corte, em 12 de outubro de 1813, por
castigo divino. ocasião do aniversário do Príncipe Regente,
foi inaugurada a casa de espetáculos, com o
Tratando-se logo depois de edificar um nome de Real Teatro de São João, em home-
bom teatro na capital, e lançando-se os nagem ao Príncipe D. João, em local pró-
fundamentos dele no campo dos ciganos, ximo ao campo de Santa’Anna, um terreno

Sé Nova, 1817, Thomas Ender

70 Teatros do Rio
pantanoso que pertencera a D. Beatriz Anna quina de Oliveira (Vênus), Laura Joaquina
de Vasconcelos e fora adquirido por Fernan- de Oliveira (Paz) e Bernardino José Cor-
do José de Almeida, a quem coube a inicia- rea (Gênio Lusitano). Apareciam em cena
tiva, com o projeto do Engenheiro Militar, também as três Graças, bem como Ciclo-
Marechal de Campo José Manoel da Silva, pes e Ninfas, personificadas por coristas e
em sítio denominado Campo dos Ciganos bailarinas. Este colunista pode identificar
e Praça da Sé Nova, Praça do Rossio6, de- na Biblioteca da Escola Nacional de Música
fronte à Igreja da Lampadosa, esquina com a as partes de orquestra e do coro que servi-
Rua do Erário, próximo ao centro do poder ram na inauguração do teatro.7
(atual Praça Tiradentes). Seu pano de boca
era uma enorme pintura de José Leandro, Por ocasião das núpcias de D. Pedro I
representando a entrada de uma esquadra com a arquiduquesa austríaca Leopoldina, o
portuguesa na Baía de Guanabara, trazendo pintor francês Jean-Baptiste Debret (1768-
a Família Real. O teatro destacava-se na pai- 1848), que viveu no Brasil de 1816 a 1831,
sagem da praça, uma das mais significativas criou um cenário povoado de figuras mito-
edificações para a história cultural e política lógicas e alegóricas, para um baile, que foi
da cidade. representado a 18 de maio de 1818.
Para a inauguração foi levada a cena O ju- O projeto arquitetônico com sua volume-
ramento dos Nunes, drama lírico do Tenente da tria dominava a paisagem e enobrecendo o
Marinha D. Gastão Fausto da Câmara Cou- Largo do Rossio, obedecendo ao estilo da
tinho (1771-1852), que era um estudioso da cena italiana, seguia hierarquicamente os es-
mitologia, e a música do maestro Bernardo paços internos do edifício teatral, separando
José de Souza e Queiroz, e não de Marcos os limites entre o palco e a plateia, com sua
Portugal, citado por alguns pesquisadores. forma aproximada de ferradura, apresenta-
va a curvatura dos balcões em forma de “U”
Este drama era adornado com muitas pe- alongado, definindo os foyers, o proscênio e
ças de música de composição de Bernardo o fosso da orquestra.
José de Souza e Queiroz, mestre e com- Seguindo o modelo de arquitetura teatral
positor do mesmo teatro, e com danças europeia, o teatro possuía um pórtico ao
engraçadas nos seus intervalos. Segue-se corpo frontal do edifício, para proteção dos
a aparatosa peça intitulada “Combate do espectadores que chegavam de carruagem.
Vimieiro”... Um estilo de fachada próprio para um tea-
O libreto da peça, do qual a Seção dos tro de grande importância cultural e social.
Livros Raros da Biblioteca Nacional possui “Na frente do Teatro tinha apenas um único
um exemplar, confirma a autoria da músi- andar, havendo porém, sobre as três janelas
ca como sendo de Bernardo José de Souza do centro, outras três de peitoril muito pe-
e Queiroz, a qual alguns pretendiam que quenas; no friso estava escrita a data 1813
fosse de Marcos Portugal... com caracteres romanos.” 8 Havia um ter-
A peça tinha um único ato e começava raço, ou varanda na frente do edifício que
por um Elogio a S. A. Real, o Príncipe Re- serviu de palco para importantes pronuncia-
gente. A ação se passava nas faldas do mon- mentos históricos.
te Etna, parte no Templo do Heroísmo. O teatro possuía quatro ordens com quin-
Tomaram parte na representação os atores ze camarotes de cada lado da tribuna, com
Domingos Botelho (Vulcano), Estela Joa- exceção da última, que tinha mais três cama-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 71


rotes sobre a tribuna real. O prédio exter- apresentavam com fardas encarnadas bor-
namente possuía trezentos palmos de com- dadas de ouro e cobertas de condecora-
primento (66m), cento e trinta palmos de ções, e as damas com altos toucados, onde
largura (28,60m) e noventa e nove e meio resplandeciam pérolas e pedras preciosas.
palmos de altura (21,89m). Cortinas de seda, ramos, grinalda de
O Real Teatro de São João possuía uma flores enfeitavam os camarotes... Ha-
semelhança de projeto com o Real Teatro via dois panos, um talar e outro de boca;
São Carlos, de Lisboa (Portugal), de auto- aquele representava a entrada da Família
ria de José da Costa e Silva, que teria vindo Real na barra do Rio de Janeiro, as em-
para o Rio de Janeiro em 1812, onde faleceu barcações e fortalezas a salvarem e grande
em 1819. Em agosto de 1812, fora empos- quantidade de botes, canoas e faluas.9
sado no cargo de Arquiteto Geral de todas
as obras Reais no Brasil. As obras do Real O teatro acomodava 1.020 pessoas na pla-
Teatro de São João haviam sido iniciadas em teia e possuía quatro ordens de camarotes,
1811 e pelas características dos dois teatros, com trinta camarotes na primeira ordem, 28
é possível que José da Costa e Silva tenha na segunda, 28 na terceira e 22 na quarta.
colaborado no projeto neoclássico de José Em 1821, foi feita uma reforma, o tea-
Manuel da Silva. tro foi pintado interna e externamente,
Quase todos os espetáculos montados no forrados os camarotes, de cujos parapeitos
Real Teatro eram assistidos por D. João VI, pendiam sanefas de veludo e ouro, festões
que em certas ocasiões adormecia no cama- de flores, bandeiras e troféus; foi estendido
rote Real. O público que frequentava o tea- um tablado que, encobrindo os camarotes
tro era de pessoas de destaque, que seguindo da primeira ordem, corria até o soalho do
o exemplo de D. João VI, iam assiduamente proscênio. Do teto pendia grande quanti-
às apresentações. Desta forma, no Teatro dade de lustres de cristal, iluminados com
acabavam ocorrendo dois espetáculos: um velas de cera.
no palco e o outro na plateia, que foi final- Em relação ao Teatro João Caetano, pode-
mente franqueada às senhoras. Não só a vida -se reforçar a ideia de que momentos im-
artística como também a vida política e so- portantes da história do Brasil passaram
cial da capital passou a ter como ponto de a ter lugar no teatro: como a leitura, pelo
encontro o Real Teatro de São João. futuro imperador D. Pedro I, do decreto de
Pela descrição que nos faz Henrique Ma- 24 de fevereiro de 1821, pelo qual D. João
rinho, podemos avaliar a decoração do Real VI aprovava a Constituição elaborada pelas
Teatro de São João: Cortes de Lisboa. Em 5 de junho do mesmo
ano, também no teatro, reuniu-se a assem-
Nos dias de gala comparecia toda a Família bleia perante a qual D. Pedro jurou as bases
Real ao teatro, que se mostrava ornado de da futura Constituição de Portugal. Ao re-
sedas, de flores e iluminado com arande- tornar de São Paulo, em 15 de setembro de
las e lustres. Logo que se abriam as corti- 1822, D. Pedro surgiu num dos camarotes
nas encarnadas com franjas de ouro, que do São João mostrando, no braço, uma fai-
fechavam a tribuna, aparecia o Príncipe xa verde e amarela, onde estava escrito “In-
Regente acompanhado de toda sua família. dependência ou Morte”, sendo ovacionado
Os camarotes, principalmente os da 2ª or- pelo público e pela multidão que irrompeu
dem, eram ocupados pelos fidalgos, que se a sala.

72 Teatros do Rio
Em comemoração ao dia 12 de outubro de deu lugar para sair o povo, arrebentando
1822, data em que D. Pedro recebeu o títu- as chamas por todos os lados e reduzindo o
lo de Imperador Constitucional e Defensor teatro às cinzas, em menos de duas horas.10
Perpétuo do Brasil, foi levada à cena a peça
O Príncipe Amante da Liberdade ou a Independên- D. Pedro I, retornando, assistiu à grande
cia da Escócia, de autor desconhecido. fogueira em que se transformou seu teatro.
Em 26 de dezembro de 1822 é baixado Somente ficaram de pé as paredes laterais,
um Decreto encarregando o Banco do Brasil que haviam sido erguidas com as pedras
de formar o plano de uma loteria destinada destinadas para a construção da Sé, no local
a auxiliar o Teatro de São João. Em 26 de em que está hoje o Instituto de Filosofia e
agosto de 1824, o Imperador baixa outro Ciências Sociais da UFRJ, antiga Escola Na-
Decreto, concedendo três novas loterias e cional de Engenharia. Este acontecimento
determinando a compra do edifício da Ca- fez com que o povo acreditasse em uma
deia Nova de propriedade de Fernando José punição divina.
de Almeida, já hipotecado ao Banco do Bra- Mesmo diante da tragédia, “Fernandi-
sil, tudo para avaliar a reconstrução do Real nho” não mediu esforços para conseguir um
Teatro de São João. empréstimo do Banco do Brasil, vendendo
Em 25 de março de 1824, o Real Teatro de ações aos compradores de camarotes e ob-
São João encenou seu primeiro ciclo, após a tendo a concessão de loterias em benefício
assinatura, por D. Pedro I, da Constituição do teatro a ser reconstruído. Em 15 de se-
do Império do Brasil. Antes, na presença do tembro de 1824, por decreto do Imperador
Imperador, houve a representação do drama é concedida a licença para que seja dado ao
sacro Vida de Santo Hermenegildo, retirando- Real Teatro de São João, o nome de Imperial
-se D. Pedro I ao som de banda e com gran- Teatro de São Pedro de Alcântara.
de queima de fogos de artifícios. Logo em Para que o público não ficasse privado
seguida à saída do público, o ator Antonio da por muito tempo de divertimento, en-
Bahia, que havia feito o papel do santo, ao quanto duravam as obras de reconstrução,
tentar saltar do balancim em que estava er- foi preparado em salão da frente, junto à
guido para o tablado, impeliu-o de encontro varanda, um teatrinho, e inaugurado em 1o
a um pano pintado com aguarrás. Encostan- dezembro de 1824, para festejar a coroação
do-se o pano às velas, incendiou-se imedia- e sagração de D. Pedro I. Tomou o nome de
tamente. As chamas comunicaram-se com Teatrinho Constitucional (Teatro Pequeno)
o cenário e foram inúteis os esforços feitos e transformou-se em salão de concertos lí-
para apagar o incêndio. O fogo alastrou-se ricos. Constava de um pequeno palco, 24
por todo o edifício e o teatro ficou reduzi- camarotes, distribuídos em duas ordens e
do a quatro paredes enegrecidas. Toda a sala uma plateia para 150 pessoas.
incendiou-se em pouco tempo, e nem a aju- Sobre o Teatrinho Constitucional cons-
da dos marinheiros de duas fragatas francesas truído no foyer do Imperial Teatro São Pedro
foi suficiente para apagar o incêndio. de Alcântara, são interessantes os artigos do
Edital do Intendente da Polícia da Corte e
Representava-se por oratória a vida de do Império:
Santo Hermenegildo e no momento de su-
bir a glória o Santo, aconteceu pegar fogo II – Edital de 29 de novembro de 1824,
no cenário com tal violência que apenas que estabelece e regula as medidas de se-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 73


Acervo Museu Histórico Nacional
gurança e polícia que se devem observar Fachada do Teatro São João, atual João Caetano.
Nicolas Eduard Lerouge. Litogravura colorida. 30x22cm
nos teatros da Capital.
Francisco Alberto Teixeira de Aragão,
do Conselho de S. M. I. , Cavaleiro da Or- participará circunstancialmente ao Inten-
dem de Cristo, Desembargador da Rela- dente Geral da Polícia, remetendo-se-lhe
ção da Bahia e Intendente Geral da polícia as peças originais; para que, este antes de
da Corte e Império do Brasil. qualquer ensaio ou publicação, possa proi-
Faço saber que sendo conveniente bi-lo quando seja contrário aos bons costu-
ao bem público estabelecer e regular mes e leis do Império.
as medidas de segurança e polícia que 2- Todas as noites de espetáculos o ad-
devem observar-se em todos os teatros mirador do teatro terá prontos no lugar
que nesta Capital se instituírem, para mais conveniente que for possível, os uten-
evitar deste modo as desordens e irre- sílios necessários para o caso de incêndio;
gularidades que privam os povos da uti- os quais por ora se limitam a uma bomba,
lidade que este divertimento deve-lhes duas pipas ou tinas cheias de água, alguns
produzir quando é bem ordenado; e imi- baldes, picaretas e machados. O ministro
tado nesta parte as providências que as Inspetor do Teatro verificando antecipada-
nações mais civilizadas da Europa têm mente a observância deste artigo, mandará
adotado, ordeno que no Teatro Pequeno a tempo fechar o teatro em caso de con-
– que se construiu nas salas do Imperial travenção.
Teatro de S. Pedro de Alcântara se exe- 3- Não se distribuirá maior número de
cutem os seguintes artigos: bilhetes do que houver de cadeiras na pla-
1- Logo que for designado o espetácu- teia, por consequência serão expulsos dele
lo, que se pretenda oferecer ao público, se os indivíduos que os não tiverem.

74 Teatros do Rio
4- O espetáculo deverá começar impre- apre­sentando-se ao Ministro Inspetor e
terivelmente à hora que tiver sido anun- expor-lhe as circunstâncias e razões do
ciado ao público, a quem se dará a devida acontecimento, sobre o que o dito Minis-
satisfação, quando ocorra algum embaraço. tro dará as providências.
5- Enquanto durar o espetáculo fica veda- 13- Toda pessoa sem exceção deve
do o ingresso no cenário a todas as pessoas obedecer provisoriamente ao Oficial da
que não pertencerem ao serviço do mesmo. Polícia; e por isto quando este intimar a
6- Concluído o divertimento abrir-se-ão alguém que saia da plateia o deve imedia-
todas as portas que facilitarem a saída do tamente fazer, apresentando-se ao Minis-
público, e enquanto este durar não se apa- tro Inspetor e expor-lhe as circunstâncias
garão as luzes da sala nem dos corredores. e razões do acontecimento, sobre o que o
7- É proibido entrar na plateia com ar- dito Ministro dará as providências.
mas. Bengalas ou chapéus-de-chuva; mas 14- No Teatro deve somente haver uma
para a comodidade pública haverá junto à guarda exterior, e dessa não entrarão sol-
entrada um Depósito para estes objetos, dados na plateia senão quando a seguran-
que serão restituídos por via de cédulas nu- ça pública o exigir, e sempre por ordem
meradas. Este artigo não compreende os do Ministro Inspetor ou à requisição do
militares que forem com seus uniformes. Oficial da Polícia, o qual em todo o caso
8- Dentro do teatro não se poderão fa- publicará – previamente – que via entrar
zer anúncios de espécie alguma que não força armada.
lhe sejam relativos; nem mesmo recitar 15- Todo o indivíduo que nas noites de
poesias alheias do festejo do dia; ou espa- espetáculo for preso à porta do teatro ou
lhá-las por qualquer maneira sem licença dentro dele, deve logo ser apresentado ao
do Ministro Inspetor. Ministro Inspetor, o qual fica autorizado
9- Proibido perturbar a tranquilidade para lhe dar o destino que merecer.
dos espectadores – com vozerias ou estré- 16- As seges e carruagens devem ar-
pitos antes de se levantar o pano, ou nos rumar-se na Praça da Constituição pela
entreatos; porque, durante a representa- ordem que lhes será designada por solda-
ção, fica livre mostrar moderadamente o dos da Polícia destinados para esse fim e
prazer, os descontentamentos pelo mere- a mesma ordem se observará quando se
cimento do espetáculo. retirarem.
10- Quando alguma pessoa da Família 17- As seges e carruagem irão a passo
Imperial assistir ao espetáculo ninguém se enquanto não saírem da Praça da Consti-
cobrirá; e o mesmo se observará fora deste tuição.
caso enquanto durar a representação. 18- Tomar-se-ão, no momento todas as
11- Igualmente se proíbe estar parado medidas de polícia que forem necessárias,
nas portas da entrada e saída pública, nas sem todavia se dispensarem os procedi-
coxias e corredores; e enquanto dura a re- mentos judiciais, que nas formas das leis
presentação, o falar alto de maneira que do Império devem depois seguir-se.
perturbe a ordem. 19- Este edital será impresso e afixado
12- Haverá na plateia um Oficial da dentro e fora da sala do teatro.
Intendência Geral da Polícia; e por isto O Ministro Inspetor, o Comandante da
quando este intimar a alguém que saia Guarda e o Oficial da Polícia ficam encarre-
da plateia o deve imediatamente fazer, gados de execução na parte que lhes tocar.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 75


Rio de Janeiro, 29 de novembro de 1824 espetáculo fechou de novo para conclusão
– Francisco Alberto Teixeira de Aragão. das obras.
Ser­­viço Nacional de Teatro – Museu. s/d. Reaberto em 4 de abril de 1826, aniver-
sário natalício da Princesa D. Maria da Gló-
Nesse ritmo acelerado, em apenas oito ria, o programa consistiu na representação
meses após o incêndio foi reinaugurado o de “uma ópera italiana havendo também um
teatro em 10 de dezembro de 1824, apenas dançado e um elogio em verso”.12
com o Teatrinho, para comemorar a data da A fachada do “Imperial Theatro de São Pe-
sagração de D. Pedro I, Imperador do Brasil, dro de Alcântara conservou todas as caracte-
apresentando o seguinte programa: Hino – rísticas do projeto anterior”.13
composto pelo Imperador tocado pela or- Quanto ao seu interior:
questra; discurso recitado pela atriz Estela
Joaquina de Moraes e a ópera de Rossini, o teatro possuía 100 camarotes, distri­
O engano feliz. buídos em quatro ordens, com capacidade
Com falta de recursos para dar prossegui- para umas 300 pessoas, e separados por
mento às obras, é baixado um decreto em um gradil dourado da plateia que acomo-
4 de julho de 1825, criando mais seis lote- dava aproximadamente 600 espectadores.
rias em benefício de Fernando José de Al- Ao centro ficava o camarote Imperial, or-
meida, para custeio das despesas. nado com o brasão do Império, com lindos
Rapidamente foram sendo reconstruídas trabalhos de talha dourada e guarnecido
as outras partes do teatro, e apesar dos tra- de cortinas de seda azul, bordadas a ouro
balhos não estarem concluídos, foi reaberto (essa decoração deve ter sido substituída
ao público, em honra de D. Pedro I, com o por verde e ouro, cores a que se refere
nome de Imperial Theatro de São Pedro de Carlos Seidler). A iluminação era feita por
Alcântara (esse nome foi atribuído por de- 220 velas de cera, resguardadas em mangas
creto de 15 de setembro de 1824 baixado de vidro. A não ser no camarote Imperial,
por D. Pedro I, atendendo pedido de seu onde havia um grande lustre e várias aran-
proprietário, Fernando José de Almeida), delas, do teto não pendia nenhum candela-
em 22 de janeiro de 1826, com a ópera Tan- bro para não prejudicar a visão. O edifício,
credi, de Rossini, era bastante arejado, atendendo aos rigo-
res do clima. À entrada havia um Buffet.14
com João Francisco Fasciotti no papel do
protagonista e Maria Tereza Fasciotti como A partir de 1826, porém, tinha sido hipo-
prima-dona. Os outros intérpretes foram tecado ao Banco do Brasil que, por morte de
Majoranine, Salvatori e Carlota Ancelmi. “Fernandinho” e na qualidade de seu credor,
Houve, além da apresentação da ópera, requereu e obteve o prédio em pagamento
um dueto dançado por Falcaux e Bourdon de dívidas contraídas pelo falecido. Com o
e, antes de cair o pano, o poeta repentista falecimento de Fernando José é expedido
Moniz Barreto recitou um elogio à Impe- em 8 de agosto de 1829 o Aviso n. 129, que
ratriz Leopoldina,11 determina que seja o Imperial Theatro de
São Pedro de Alcântara, administrado por
já que coincidia com a data natalícia dela, uma comissão de cinco membros, visto ha-
recebendo “Fernandinho”, na mesma noite ver a viúva do Coronel Fernando de Almei-
a comenda da Ordem de Cristo. Depois do da desistido do direito que poderia ter sobre

76 Teatros do Rio
o teatro. Neste mesmo ano, no dia 28 de minense, nome que respondia melhor aos
agosto é baixado um decreto do Imperador, anseios patrióticos do momento. O nome
concedendo três loterias em benefício do Constitucional Fluminense permaneceu de
teatro. No ano seguinte, 1830, no dia 27 de 3 de maio de 1831 a 9 de junho de 1838.15
setembro, outro decreto imperial concede Para liquidação total da dívida, o Banco
três loterias em benefício do teatro. do Brasil, em 1838, levou o imóvel à praça,
Vários teatros, acrescentando-se aos já sendo arrematado por Manuel Maria Brega-
ci­­tados, foram surgindo em meados do sé­­ ro e Joaquim Valério Tavares que formaram
culo XIX, numa demonstração de entusias­­ uma sociedade por ações, composta por qua-
mo, cada vez maior, do nosso povo pela renta acionistas, um dos quais, o ator João
arte cênica. Caetano dos Santos tornou-se seu principal
No início de 1831 o teatro é fechado; acionista, tomando a si a empresa do Teatro
José Fernando de Almeida, filho do antigo Constitucional Fluminense, em 1843.
proprietário, arrenda o teatro ao Banco. A casa de espetáculo é fechada para uma
Reabrindo “em 3 de maio de 1831, por or- grande reforma, Manuel Maria Bregaro e
dem superior, apresentando a peça Tolita Joaquim Valério Tavares mandaram cons-
ou o Império das Leis, com a Companhia di- truir o segundo andar, que orna atualmente
rigida por Vitor Porphyrio de Borja e a de a frente do edifício assim como o frontão
Baile por Luiz Montani”. Mas, em função que há sobre o corpo central. O teto do tea­
da preparação da abdicação de D. Pedro I, tro foi pintado pelo artista Olivier, sendo
e mesmo da atmosfera carregada de anseios o pano de boca pintado por Manuel Araú-
de nacionalismo que se sucedeu à abdicação, jo Porto Alegre (1806-1879), discípulo de
a vontade de liberdade alcançou também o Grandjean de Montigny, que revelava a “ro-
Imperial Theatro de São Pedro de Alcântara tina” e a “ignorância” sendo afugentadas pela
que, culpado de lembrar o nome de Pedro I,
foi rebatizado de Teatro Constitucional Flu- Praça da Constituição. Teatro Imperial

Arquivo Cedoc /Funarte

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 77


Arquivo Cedoc /Funarte
Praça da Constituição. Teatro Imperial indicado com seta
alegoria do gênio das artes, e tendo ao fundo às 3 e meia da manhã a sentinela do te-
a baía do Rio de Janeiro. Manuel Araújo era souro viu fogo no Teatro de São Pedro e
também autor dramático, sócio fundador do imediatamente deu rebate. O incêndio
Conservatório Dramático do Rio de Janeiro começou a lavrar com violência. Quan-
e da Academia de Ópera Nacional. do a igreja de Santa Ana deu o sinal, que
Em 30 de novembro de 1837 é baixado sucessivamente foi repetido por todas as
o Decreto 154, concedendo duas loterias a igrejas, já as labaredas do abrado teatro
mais ao Teatro Constitucional Fluminense, iluminavam a cidade. O clarão era tão in-
com a condição de manter uma. tenso, que poucos deixaram de assustar-se
Reabre em 7 de setembro de 1839, supondo o incêndio a poucos passos de si.
com a tragédia Olgiato, de Domingos José Era um clarão sinistro. Apesar da chuva
Gonçalves de Magalhães, representada por que começara a cair desde as 4 horas, toda
João Caetano, já com o seu antigo nome de a cidade ergue-se e a Praça da Constituição
Theatro de São Pedro de Alcântara. É ar- e as ruas adjacentes ao malfadado edifício
rendado pelo ator João Caetano, que que- ficaram cheias de povo.
ria criar um teatro com características na- Quando chegaram os primeiros socor-
cionais, porém, ironia do destino, reinou ros, as autoridades, já o fogo havia lavrado
mesmo foi sobre a plateia mais numerosa com imenso furor, e quando ia-se-lhe dar
da Corte, composta de portugueses e por- o primeiro ataque desabou o teto do edifí-
tugueses naturalizados. cio com horrível estampido arremessando
O teatro brasileiro começou a assumir as telhas a grande distância.
seu definitivo caráter individual, em mea­ Nada mais era possível fazer-se. Tratou-
dos do século XIX, sendo fundamental a re- -se de circunscrever o incêndio a seu foco,
presentação em 13 de março de 1838, no e o teatro reduziu-se a cinzas, ficando em
Teatro Constitucional Fluminense da tragé- pé as quatro paredes esfumaçadas.
dia Antônio José ou o Poeta e a Inquisição, de Ardeu o arquivo das companhias líricas
Gonçalves de Magalhães. O drama foi levado e dramáticas, avaliado em mais de 12.000$;
pela companhia de João Caetano, composta vestimentas, cenário, instrumentos de músi-
exclusivamente de atores brasileiros. Outra ca, tudo o fogo devorou. Salvaram-se somen-
corrente destinada a mais sucesso nos anos te os livros do escritório, uma mesa com al-
seguintes, a das comédias leves e divertidas gum dinheiro e os móveis da sala de entrada
foi inaugurada a 4 de outubro de 1838, com do camarote particular do Imperador.16
a comédia O juiz de paz na roça, de Martins
Pena, no Teatro de São Pedro de Alcântara. João Caetano empreendeu reedificá-lo, e
Em 4 de setembro de 1846, é assinado o fez em um ano, com a colaboração dos ar-
decreto concedendo quatro loterias a mais quitetos Olivier e Hosxe, encarregando da
ao teatro. pintura o cenógrafo Joaquim Lopes de Bar-
Uma nova catástrofe se abate sobre o tea­ ros Cabral. Foram feitas diversas modifica-
tro, na madrugada de 9 de agosto de 1851. ções no edifício:
Depois de uma representação de O cativo
de Fez, pelo autor João Antônio da Costa, os camarotes, outrora aprumados perpen-
ardeu o teatro pela segunda vez. Henrique dicularmente uns sobre os outros, recua-
Marinho fez um relato pormenorizado do ram, nas duas ordens superiores, dois pal-
sinistro: mos em cada uma, em forma de anfiteatro,

80 Teatros do Rio
facultando a vista de alto a baixo. Não eram O imperador brindou o artista com um
corridos de um lado do arco da boca a ou- alfinete de brilhante.18
tro, mas cada um sustentado por colunas de Em 1855 o teatro era propriedade do
ferro de 2 polegadas e meia de diâmetro, Banco Industrial e Mercantil. Mais tarde
tinham uma varanda arqueada com moldu- passou para as mãos do Conde de Santa
ras douradas à la Renaissance, forradas nos Marinha, em virtude do ajuste feito com o
encostos de veludo carmecim. A decoração governo federal. 19
da sala era feita em branco e ouro. O arco
do proscênio estreitava vinte polegadas de Novamente é destruído pelo terceiro in-
cada lado, aproximando assim mais da elip- cêndio, em 26 de janeiro de 1856, o mais
se a forma do teto, que alteou seis palmos. grave de todos. Depois de um espetáculo
A tribuna Imperial, rica de ouro, tinha es- em benefício da atriz Isabel Maria Nunes,
pelhos e era forrada de damasco. Na sala com a apresentação do drama de Mendes
havia um lustre e oito candelabros laterais.17 Leal, D. Maria de Alencastro.

Em 24 de abril de 1852, o Decreto n. 970, Depois de tanta despesa e trabalho, quan-


abre crédito extraordinário de quarenta con- do já estavam quase findas as récitas dos
tos de réis para auxiliar a reconstrução do acionistas, quando ia começar a colher o
teatro. Reconstruído após o segundo incên- fruto de seus esforços, o ator João Caetano
dio, é reaberto ao público em 18 de agosto de viu o fogo destruir em poucos momentos
1852, com o seguinte programa: Ouverture Re- todas as suas esperanças.20
generação, do Maestro Francisco Sá Noronha; O incêndio começou por cima do arco
o drama O livro negro, de Leon Gozlan, tra- do proscênio, próximo à sala de pintura.
duzido por Joaquim Antonio da Costa Sam- Nesse mesmo lugar começara o incêndio há
paio; uma valsa de Antonio Xavier da Cruz quatro anos. Os trabalhadores logo que vi-
Lima, dedicada à princesa Isabel; o bailado As ram o fogo, correram ao tablado para ver se
Hamadryadas, composição de Júlio Toussaint podiam subir com alguns baldes d’água, po-
e música de Francisco Sá Noronha. O corpo rém as brasas que caíam afugentaram todos.
de baile foi contratado em Paris. Elenco (de Quando o sino da igreja da Lampadoza deu
O livro negro): João Caetano, Matinho, Gus- o sinal, já o incêndio não podia ser extinto;
mão, Paulo Dias, Romualdo, Ludovina, Este- o fogo comunicou-se rapidamente ao telha-
la, Joana, Rosina e Maria Soares: do, que abateu em pouco tempo. Compa-
receram todas as autoridades, cuja presença
Finda a representação, o povo pediu à or­­ podia ser útil, vieram todos os socorros; a
questra que tocasse o Hino da Indepen- bomba do arsenal de marinha foi a primeira
dência. Logo que terminou o hino foi que compareceu. Os almirantes francês e
chamado à cena o ator João Caetano, que inglês mandaram sua marinhagem; mas já
recebeu uma completa ovação. Oferece- era tarde. O teatro era uma fogueira colos-
ram-lhe uma coroa de ouro com brilhantes sal que iluminava a cidade e seus arredores.
e esmalte verde, uma de prata, grinaldas, Viam-se as labaredas elevar-se a grande al-
flores, recitando-se diversas poesias em tura, dir-se-ia que surgira no centro da ci-
louvor do ator. Pouco antes havia-se dis- dade um imenso vulcão.
tribuído o retrato do artista vestido com O povo aterrado por esse medonho es-
a toga dos romanos e coroado de louros. petáculo, que no espaço de 32 anos se re-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 81


petia pela terceira vez, não sabia se devia O teatro estava ornado simplesmente e
considerar o incêndio ou como um casti- com elegância, todo pintado de branco
go, ou como uma fatalidade, ou como um com florões de ouro. Os camarotes eram
atentado, um crime! Seria um sinistro, uma forrados de papel azul e branco, fabrica-
desgraça, um crime nefando ou um castigo dos no país. O fundo dos camarotes tinha
horrível da Providência! Ninguém o sabia. a forma circular, aconselhado pelas leis da
No fim de algumas horas só existiam do acústica. A quarta ordem apresentava um
teatro quatro paredes e o vácuo, a pedra avarandado de muito bom gosto. A abóbo-
e a cinza; tudo desaparecera, só restava o da do forro, em vez de começar na linha
esqueleto horrendo do edifício. em que termina os camarotes, tinha início
Tudo o fogo destruiu. Além de outros na linha em que estas principiam e, assim,
cenários desapareceram os dos dramas: erguendo-se o forro, dá a essa quarta or-
Camões, D. João de Marana e Milagres dem uma elevação que perfeitamente con-
de Santo Antonio no valor de mais de trasta com o acachapado das antigas tor-
26:000$. A guarda roupa, adornos, um rinhas. Reduzindo a menores proporções
museu de pássaros, bichos e de diversos a tribuna imperial, o construtor do teatro
objetos curiosos; muita madeira aparelha- ganhou espaço para mais dois camarotes
da que o ator João Caetano mandara re- em cada ordem, ao mesmo tempo que, es-
colher ao porão do teatro para construir tabelecendo a orquestra no vão por baixo
alguns prédios em Niterói tudo foi consu- do arco do proscênio, deu mais extensão
mido pelas labaredas do incêndio. ao espaço destinado às cadeiras.22
A Sociedade Sumidades Carnavalescas
perdeu o traje, que mandara vir da Euro- Nesta terceira reforma a obra foi coman-
pa para a sua banda de música. O artista dada pelo ator José Romualdo de Noronha,
Dionízio Vega ficou sem o seu repertório que idealizou um teatro cheio de estátuas de
musical. 21 mármore, espelhos, flores, lustres e aran-
delas que realçavam os luxuosos trajes das
Mas graças à proteção de Honório Her- senhoras, que passaram a frequentar os tea-
meto, que já era Marquês do Paraná e Mi- tros. Um teatro com todas as características
nistro do Império, e graças à força de von- das salas de espetáculos europeias. Entretan-
tade do artista, que realizou prodígios de to, as condições técnicas ainda eram insatis-
atividade, o teatro foi reconstruído no cur- fatórias e a acústica péssima. Acreditava-se
to espaço de 1 ano e aberto ao público em que a construção das paredes, o travejamen-
3 de janeiro de 1857, com o drama Affonso to das madeiras e a forma da própria sala,
Prieto, desempenhando João Caetano o papel bem como a caixa cênica, onde o urdimento
do protagonista, que era o primeiro ator do havia sido prejudicado na reforma, influen-
Real Teatro.Vasques, o grande ator cômico de ciaram na acústica.
mais tarde, tinha um papel de criado. Termi- Em 3 de janeiro de 1857, foi reaberto ao
nou com o vaudeville Ketly ou A volta à Suíssa. público, apresentando novas modificações,
Elenco: João Caetano, Ludovina Soares da o Theatro de São Pedro de Alcântara.
Cos­ ta, Motta, Almeida, Jesuína Montani,
Ma­nuel de Soares, De Giovanni, Gabriela de A fachada do edifício é dividida em três
Cunha, Martinho, José Luiz, Riciolini, Lis- corpos. O corpo central é precedido de
boa, Timoteo, Anna, Ramos e Juvêncio. um pórtico formado por três arcos de al-

82 Teatros do Rio
venaria. Essas arcadas sustentam a varanda existem quatro janelas de peitoril. No cor-
histórica do teatro. Debaixo do pórtico, po do teatro vê-se uma porta que vai ter ao
veem-se as três portas, que dão entrada corredor paralelo ao saguão e uma outra,
para o saguão. No segundo pavimento há que dá entrada às cadeiras. Há como do
três janelas rasgadas, que se abrem para o outro lado óculos circulares.
terraço ou varanda do teatro. O edifício se estende até a Rua da Lam-
Essa varanda é cercada com grades de padoza tendo de comprimento 300 pal-
ferro e ladrilhadas de mármore… Nesta mos, 130 de largura e 96 e meio de altura.
varanda se construiu uma tribuna de or- Há no fundo do teatro uma porta larga que
dem jônica ricamente decorada, na qual vai ter ao porão.
SS. e MM. e AA. II. assistiram à inaugura- Do lado da Rua do Sacramento existe
ção da estátua equestre de D. Pedro I. unida ao teatro uma cocheira pertencente
Há no terceiro pavimento três janelas ao empresário; há também um botequim.
com grades de ferro. Lê-se no friso o dístico Entre a cocheira e o botequim vê-se uma
Theatro de S. Pedro d’Alcantara. O fron- porta com uma rampa que conduz à caixa
tão é reto havendo no tímpano o busto de do teatro. Do lado oposto reunida ao edi-
Apolo no centro, aos lados as máscaras da fício está a casa, onde existe a entrada do
comédia e da tragédia com seus atributos. camarote particular do Imperador.
Estes emblemas, assim como as letras do Esta casa tem dois pavimentos. Na face
dístico, estão pintados de verde. Nos corpos que olha para o edifício da Academia Mi-
laterais há duas janelas de peitoril em cada litar, existe no primeiro pavimento uma
pavimento. Um ático, que vai terminar no porta e duas janelas de peitoril e no se-
frontão, oculta de cada lado o telhado do gundo pavimento três janelas de peitoril.
edifício. Fecha a frente do teatro uma gra- Na face que olha para a Rua do Teatro há
daria de ferro semicircular que se estende quatro portas no primeiro pavimento e
do pórtico ao ângulo do edifício. quatro janelas de sacada no segundo. Jun-
Do lado da Rua do Sacramento há no to dessa casa do lado esquerdo há uma
corpo anterior do edifício três janelas de antiga cocheira.
peitoril e uma porta no primeiro pavi- Não há beleza na construção do Tea­
mento. Essa porta, que está tapada, ia ter tro de S. Pedro, não é um monumento
ao botequim do teatro. No segundo pavi- de boa arquitetura; as pilastras da frente
mento há quatro janelas de peitoril e no do edifício são grossas em relação à altu-
terceiro também quatro. No corpo do tea­ ra, as janelas são estreitas e pequenas. [...]
tro propriamente dito há uma porta, que O saguão é espaçoso, ladrilhado de már-
vai ter ao corredor paralelo ao saguão, e more tendo do lado direito duas portas,
uma outra porta menor por onde saíam os que se abrem para o botequim do teatro,
músicos. Notam-se óculos circulares, que e do lado esquerdo uma porta, que vai ter
clareiam os corredores da segunda, da ter- ao escritório onde se vendem os bilhetes e
ceira e da quarta ordem. outra à sala, onde se guardam as bengalas.
Do lado da rua do teatro há no corpo Há no fundo três arcos com uma escada
anterior três janelas e uma porta no pri- de cinco degraus. Subindo-se essa escada
meiro pavimento. chega-se ao corredor paralelo ao saguão.
A porta dá entrada para a tribuna im- Esse corredor se comunica por uma es-
perial. No segundo e terceiro pavimentos cada de três degraus com o corredor da

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 83


primeira ordem de camarotes. Ladrilhado Entre o terceiro pavimento e o teto há o
de mármore vê-se no fundo deste último grande salão da pintura.
corredor, de um lado uma escada que vai O teatro tem quatro ordens de cama-
ter à caixa do teatro e de outro outra es- rotes, havendo em cada ordem 30, na
cada, que se dirige à entrada das cadeiras. quarta ordem, porém, há mais três sobre
A entrada das gerais fica fronteira ao arco a tribuna imperial. Os camarotes da pri-
central do saguão. meira ordem são forrados de papel azul e
Quase no princípio do corredor da pri- branco, os da segunda de amarelo e verde,
meira ordem há uma escada de oito degraus; os da terceira de branco e encarnado e os
onde termina esse lanço de escada começam da quarta de papel branco e verde. O ca-
outros dois em sentido oposto, que condu- marote no7 da primeira ordem é ocupado
zem ao corredor da segunda ordem. pelo juiz inspetor do teatro. Já dissemos
Os corredores de um lado se comuni- que os dois últimos camarotes do lado es-
cam com os do outro lado. querdo, na segunda ordem, são particula-
Na segunda ordem há uma escada igual res da Família Imperial. Uma cortina en-
à que já descrevemos, que vai ter à terceira carnada fecha a frente desses camarotes. A
ordem, e nesta outra que se dirige à quarta. varanda dos camarotes da primeira ordem
Os corredores são largos; há em todos é de madeira, as das outras três ordens de
depósitos d’água; no da terceira ordem grades de ferro. Sustentados por colunas
existe um toilette para senhoras. de ferro são os camarotes divididos por
No corredor da frente da segunda or- um tapamento de tábua em forma de S.
dem há duas portas, que se abrem para Já dissemos que a quarta ordem constitui
um salão, que tem três janelas rasgadas uma varanda elegante.
para a varanda histórica do teatro. Em A tribuna imperial, colocada no centro
dias de gala, quando o Imperador sai da da sala dos espectadores, é forrada de da-
Tribuna, se retira para esse salão. Era ou- masco encarnado, e ornada de espelhos;
trora ornado com os bustos dos princi- corre na frente da tribuna uma cortina de
pais poetas. seda encarnada havendo na parte superior
Foi aqui que se construiu o pequeno as armas do império.
tea­­tro em 1824. Atualmente existe aqui A sala dos espectadores é iluminada por
um teatrinho, onde estudam a declamação um lustre a gás e encerra 354 cadeiras e
os alunos do Jury Dramático inaugurado 564 gerais. Todo o edifício é iluminado
na presença do Imperador em 17 de se- a gás… A pintura do teto é pesada e de
tembro de 1862. mau efeito; o pano representa uma vista de
Este salão se comunica com uma sala, Nápoles… O Teatro de S. Pedro tem falta
que tem quatro janelas para a Rua do Tea­ de acústica; dificilmente se ouve o que os
tro e duas para a praça da Constituição. atores pronunciam. Provém isso da cons-
Entre o salão e a sala há a escada por onde trução das paredes. Do mau travejamento
sobe o Imperador para a Tribuna. No ter- das madeiras, de não ter a sala dos especta-
ceiro pavimento, sobre os aposentos que dores a forma elíptica, de serem os cama-
temos descrito, existem três salas, tendo a rotes forrados de papel, devendo antes ser
do centro três janelas com grades de ferro pintados etc.
e as laterais duas janelas de peitoril para a O urdimento é baixo, o que prejudica e
praça da Constituição. estraga facilmente os cenários.23

84 Teatros do Rio
A propósito da reconstrução do teatro, o Lamberti o projeto arquitetônico, que
Jornal do Commercio comentava em 5 de ja- soube melhorar as condições de acústica
neiro de 1857: e visibilidade. Com supervisão do próprio
Imperador, foi feita a instalação da ilumi-
O teatro com efeito corresponde à expec- nação a gás, dirigida por um funcionário
tação de todos. Ornado com simplicidade da companhia de gás. O teatro ficou mais
e elegância, todo branco com flores de ventilado e iluminado, o saguão comple-
ouro, forrados os seus camarotes de papel tamente transformado, as paredes foram
azul e branco fabricados no país, apresenta pintadas de modo que semelhavam a már-
algumas inovações muito bem entendidas. more legítimo. As cadeiras da plateia, de
O fundo dos camarotes tem a forma cir- assento móvel, eram mais espaçosas e con-
cular aconselhada pelas leis da acústica; a fortáveis. A reforma foi possível graças à
quarta ordem apresenta um avarandado iniciativa dos diretores do Banco Indus-
de muito bom gosto, a abóbada do forro trial e Mercantil, proprietários do teatro
em vez de começar na linha em que ter- na época. O pano de boca foi pintado pelo
minam os camarotes, começa na linha em cenógrafo Rossi, baseado em uma ideia de
que estes principiam, e assim erguendo- Ângelo Agostini.
-se o forro, dá a essa quarta ordem uma Em 1888, foi novamente reformado, pas-
elevação que perfeitamente contrasta com sando o teatro a possuir uma tribuna nobre,
o acachapado das nossas torrinhas. Re- 30 camarotes de primeira classe, 27 cama-
duzindo a menores proporções a tribuna rotes de segunda classe e 30 camarotes de
imperial, o construtor do teatro ganhou terceira classe; 2.888 cadeiras de primeira
espaço para mais dois camarotes em cada classe, 244 de segunda classe, 28 na galeria
ordem, ao mesmo tempo que estabelecen- nobre e 40 lugares na galeria geral.
do a orquestra no vão por baixo do arco Em 3 de maio de 1891, graças aos esfor-
do proscênio deu mais extensão ao espaço ços de Francisco Correia Vasques, foi inau-
destinado às cadeiras. gurada numa praça que existia defronte ao
edifício da antiga Academia Imperial de Be-
O teatro, mesmo com o falecimento de las-Artes, hoje Museu de Belas-Artes, a es-
João Caetano, continuou a ser o mais fre- tátua em bronze de João Caetano, modelada
quentado da Corte. Enfrentando as dificul- do natural, pelo escultor fluminense Chaves
dades técnicas, prosseguiu sua história com Pinheiro e fundida em Roma. Em tamanho
triunfos, insucessos e tumultos. Permane- natural representa o artista na tragédia Os-
ceu durante um longo período o templo da car, filho de Ossian, de Arnault. Em 28 de
arte teatral. agosto de 1916, é transladada para a Praça
Em 12 de agosto de 1881, há a notícia de Tiradentes, diante do Teatro de São Pedro
um requerimento do Conselheiro Mordomo de Alcântara. Após as obras realizadas na re-
da Casa Imperial ao Presidente da Câmara ferida praça, a estátua de João Caetano foi
Municipal, solicitando licença para colocar transferida, a 3 de maio de 1931, para um
na porta do teatro, fronteira dos fundos da refúgio em frente ao teatro.
Escola Politécnica, novo alpendre, visto que O Teatro de São Pedro de Alcântara foi
o existente estava arruinado. remodelado em dezembro de 1916, e essa
Em 1885 foi feita uma outra reforma, remodelação, que custou mais de 300 con-
cabendo ao Arquiteto Pedro Leonardo tos ao Banco do Brasil, foi executada sob a

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 85


direção do Dr. Silveira da Mota, engenheiro pra do Teatro de São Pedro de Alcântara ao
daquela instituição de crédito. Encarregou- Banco do Brasil.
-se das obras, a firma construtora Andrade O Decreto n. 1.891 de 24 de agosto de
Lima & Cia.; da decoração, os irmãos Timó- 1923, do Prefeito Alaor Prata (06/11/1926
teo; da iluminação e dos aparelhos elétricos, a 24/10/1930), designou como Teatro João
F. R. Moreira &Cia. Caetano o antigo Teatro de São Pedro de Al-
O pano de boca, de autoria dos irmãos cântara:
Timóteo,
Dá a denominação de “Teatro João Cae­­­
representa em linhas gerais vasto templo tano” ao atual Teatro de São Pedro de Al-
ornamentado, festivo e repleto. Há dois cântara.
planos, guardando entre si harmonia es- O Prefeito do Distrito Federal:
tética impecável. No primeiro, no cen- Considerando que João Caetano é, pela
tro, dominante, o vulto de João Caetano sua vocação natural e inspirado gênio dra-
na sua criação de Oscar, segundo a lenda mático, reconhecido unanimemente co­
escocesa, o filho de Ossian. Por trás do mo a expressão culminante e o verdadeiro
trágico, a glória coroando-o. À esquerda, precursor do teatro nacional;
no alto de uma escadaria, aparece o Tem- Considerando que se devem perpetuar
po que de pé, o gesto varonil, aponta a no culto da cidade as gloriosas tradições
figura do artista. do local que testemunhou os seus memo-
No segundo plano, ao fundo, côncavo, ráveis dias de justo triunfo e consagração
vê-se o carro de Apolo, puxado por qua- pública, e
tro fogosos cavalos brancos, tendo por Atendendo ao entusiástico apelo da So-
cúpula céu muito azul, onde boia uma ciedade Brasileira de Autores Teatrais e do
nuvem, tocada pelos raios de ouro do sol. Centro de Cultura Brasileira, que tanto se
Há várias figuras, entre elas, a Pintura, a têm empenhado pelo desenvolvimento ar-
Poesia e a Tragédia.24 tístico e literário da cidade;
Por escritura pública datada de 14 de Usando da atribuição que a lei lhe con-
junho de 1898, passada no Cartório do fere, decreta:
Tabelião Evaristo, o Banco do Brasil, mais Artigo único. O atual Teatro São Pedro
uma vez, passou a ser o proprietário do de Alcântara passa a ter a denominação de
imóvel, por permuta feita com o Conde “Teatro Caetano”.
de Santa Marinha, Comendador Antônio Distrito Federal, 24 de agosto de 1923,
Teixeira Rodrigues, e sua esposa. 35º da República. Alaor Prata 26
Por escritura lavrada em Notas do 18º
Ofício, Cartório do Tabelião Álvaro Bor- Em 1928 o São Pedro necessitava de re­­
gert Teixeira, no Livro n. 23, folhas 2, forma, consertos, pinturas externa e inter-
em 22 de dezembro de 1920, o teatro na, outras obras eventuais de conservação
tornou-se propriedade da Prefeitura do deveriam efetuar-se em benefício do imóvel.
Distrito Federal.25 Em 15 de junho de 1928, realizava-se o
último espetáculo do antigo Teatro de São
A Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro, Pedro de Alcântara, pela companhia Marga-
em 1 de novembro de 1920, com a assinatu- rida Max, com a revista Rio nu, que Moreira
ra dos respectivos atos legais, efetiva a com- Sampaio escrevera em 1895.

86 Teatros do Rio
Fotografia: Augusto Malta. Acervo Museu da Imagem e do Som
Foi então que, em 1929, o então Prefeito Fachada e lateral do Teatro São Pedro, atual João Caetano,
17 de abril de 1928
Antonio Prado Júnior determinou a demo-
lição do São Pedro, com bases para alargar mento cuja modernidade simbolizasse o
a Rua Luiz de Camões e a Avenida Passos, desejo de um país novo. Uma estrutura de
para valorizar o Gabinete Real Português, e concreto armado ousada para época.
para dar lugar a outra casa de espetáculos.
Em 25 de abril de 1930, por termo Conquanto os principais teatros do mun­­
aditivo de contrato com a Prefeitura do do sejam considerados obras de arte do
Distrito Federal, Gusmão & Baldassini foi primeiro renascimento arquitetônico,
contratado para a execução das obras e de- o nosso é, no século atual, um monu-
molição e de reconstrução do novo teatro. mento da época. Como construção, en-
Com projeto do arquiteto Gusmão Doura- carado sob o ponto de vista técnico, é
do Baldassini, é então construído o Teatro a última palavra no arrojo a quem tem
João Caetano, com uma fachada futurista e chegado a engenharia moderna, utili-
com sua volumetria purista e é inaugurado zando-se do concreto armado, hetero-
em 26 de junho de 1930, com a Opereta gêneo e monolítico. Assim, observa-se
Rose Marie, libreto de Oscar Hammerstein na estrutura óssea do novel edifício,
e música de Rudolf Friml, apresentada por como no indumento arquitetônico, a
uma companhia francesa, com Jane Mar- ausência absoluta de arcos. E as poucas
ney como estrela. vigas que se veem apresentam originali-
Entretanto, uma reforma poderia ter sido dades de perfis. Os camarotes, balance-
feita, mas para o prefeito, o importante era ados em quase quatro metros, não são
marcar sua administração com um monu- suportados por nenhuma coluna que

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 87


Acervo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro
embarace a vista nem vigas ou consolos, Fachada do Teatro São Pedro, atual João Caetano,
27 de junho de 1928
o que no campo da lógica dá a pensar até
onde chegaremos.27 O fosso da orquestra permaneceu, o
proscênio despareceu, a inclinação da pla-
Obedecendo aos princípios do palco italia- teia bem acentuada, com apenas três ní-
no, delineava os camarotes e balcões através veis de poltronas: plateia e frisas, cama-
de uma semielipse facetada, uma geometriza- rotes do pavimento nobre, três camarotes
ção característica do Art-Déco, que foi ado- de honra no mesmo lugar onde ficava a
tada também na fachada e no projeto de ilu- Tribuna Imperial, ou seja, no primeiro
minação da sala. O teatro denotava uma nova piso frontal ao eixo do palco – as galerias
modernidade ditada pela geometrização. e as arquibancadas.
Paralelo à boca de cena havia dois grandes As três entradas com portas de correr
nichos iluminados por luz indireta. Ao longo abriam-se para o vestíbulo e deste para o
dos camarotes e do teto, as sancas formavam foyer, onde eram localizadas as bilheterias
horizontes luminosos, numa admirável com- em lados opostos. Logo encontrava-se a
binação de projetos e lâmpadas de luz difusa. sala de espetáculos ao nível da plateia e

88 Teatros do Rio
das frisas, ou subia-se para os camarotes O teatro em si não é decorado. Somente
oficiais e aos demais camarotes. Não exis- o bar (foyer) apresenta ornamentação, misto
tia ornamentação, mas alguns pontos de de singeleza e extravagância e cujos bizarris-
luz sob as sancas ou luminárias em esti- mos de algum modo caracterizam assuntos
lo Art-Déco. As escadarias laterais ao hall regionais. Não vamos dizer que esta peça se
permitiam acesso ao segundo foyer, no compare em beleza ao foyer da Ópera.
pavimento nobre, onde era localizado o Conquanto achemos justo a sala de es-
bar e os murais pintados por Di Cavalcan- petáculos despida de qualquer exagero
ti, que podem ser apreciados até hoje. decorativo, porque aí as atenções são para
A boca de cena era arrematada com os o palco, não compreendemos a mesma
trabalhos de esculturas do artista Quirino simplicidade no foyer, onde se vai com as
Silva, o ritmo e o som, um de cada lado, e ideias sugestionadas pelo esplendor das
dois painéis simetricamente dispostos, na cenas viver [sic], na subjetividade de um
passagem para o interior da sala. mundo idêntico, o momento de intervalo.
Em matéria também no Correio da Ma- Aí, pois, a nosso ver, as decorações de-
nhã de 20 de julho de 1930, J. Cordeiro veriam ser representadas pelas artes sim-
Azeredo, faz um apanhado geral do novo bolizadas, em linhas modernas, como aliás
teatro: estão representadas nos dois ângulos que
ladeiam o palco; à direita, pela Sinfonia
A plateia assenta-se sobre superfície ligei- do Som e, à esquerda, pela Harmonia do
ramente parabólica, de forma que as ele- Ritmo.
vações laterais e extremas permitem ao A decoração do salão de espetáculos é
observador não andar catando uma opor- obtida exclusivamente pelos efeitos lumi-
tunidade de ver por trás da cabeça do que nosos, que se espalham nas faixas de alu-
lhe fica bem à frente, como acontece nas mínio dispostas pelas paredes rugosas de
plateias dos nossos cinemas, mesmo os “Craftex” em centenas de tonalidades dife-
mais modernos. rentes, propagadas quase misteriosamente
Os pisos dos camarotes, frisas e foyer das arestas do teto.
são em linóleo, material que amortece Dois nichos se alongam sobre os dois
completamente qualquer ruído, embora símbolos de arte que ladeiam o palco,
seja péssima a sua colocação; o piso da pla- donde sai, em efusão de colorido, verda-
teia, porém, dada a necessidade da acústica deira decoração viva, representando os
é de madeira. crepúsculos da alvorada e do entardecer.
Pouca madeira se vê na construção do O ar ambiente é mantido por diferença
João Caetano; todavia as portas, as divi- de pressão entre o exterior e o interior, me-
sões dos camarotes e da orquestra são de canicamente, sob uma temperatura agradá-
madeira nossa. vel, não se respirando todavia aquele ar da
Também nosso é todo o revestimento montanha da propaganda americana.
em mármore, que apesar da singela orna- Tem capacidade para 1.800 pessoas; 3
mentação se destaca pelo brilho que lhe é tribunas para o Presidente da República,
peculiar e pelo esplendor do colorido. Há prefeito e Conselho Municipal, 28 frisas,
mármores vermelhos, cor de sangue, es- 26 camarotes, 650 poltronas, 260 balcões,
curos com veios multicores, e inteiramen- 480 galerias, afora promenade destes últi-
te negros. mos lugares para 200 espectadores.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 89


O mesmo Correio da Manhã de 24 junho A inauguração do João Caetano se fará,
do mesmo ano corrente, em seu artigo como ficou dito, sábado próximo. O espe-
“O Novo Teatro João Caetano” traça algu- táculo de estreia será dado com a opereta
mas especificações técnicas da caixa cênica: Rose Marie, um dos maiores êxitos do Tea-
tro Mogador, de Paris, estando já, desde já
Ampla, moderna, confortável é a caixa. alguns dias, vendida toda a lotação.
Além do pano, de veludo e seda, divide-a
do corpo destinada ao público uma corti- O arquiteto e construtor J. Cordeiro de
na de fogo, de amianto com o peso de 400 Azeredo em um artigo no Correio da Manhã,
quilos, acionada, como aquele, mecani- do dia 20 de julho, esclarece alguns aspectos
camente. O palco acomoda os conjuntos da acústica e da decoração:
mais numerosos e para os trabalhos cêni-
cos foram colocadas 40 varas metálicas e Hoje se vai ao Teatro para ver e ouvir, e no
84 de cordas, que podem ser movidas por João Caetano não só se vê bem como se
mãos de criança. Tem porta para a rua e ouve melhor. A questão de acústica foi ba-
por ela podem entrar veículos e animais. seada nos métodos modernos, análagos aos
Os camarins dos artistas são claros, ven- usados na construção do grande Salão de
tilados e providos de quanto eles necessi- Música Pleyel, em Paris, verdadeira obra-
tam para exercício de seus misteres. Além -prima no gênero. Por isso mesmo a última
dos lavatórios, espelhos, cabides. E em to- palavra sobre o assunto, até então conside-
dos eles, mesmo nos destinados às coristas rado problemático, é devida a engenharia.
e bailarinas, alto-falantes para indicar sem- O Teatro em si não é decorado. Somen-
pre o que se passa em cena e evitar a possi- te o bar (foyer) apresenta ornamentação,
bilidade das entradas com atraso. Existem misto de singeleza e extravagância e cujos
nos aposentos das coristas acomodações bizarrismos de algum modo caracterizam
confortáveis para dezesseis figuras, tendo assuntos regionais. Não vamos dizer que
cada uma o seu espelho, o seu foco de ilu- esta peça se compare em beleza ao Foyer
minação, a sua gaveta. da Ópera. Conquanto achemos justa a sala
Há mais duas salas chamadas de “im- de espetáculos despida de qualquer exa-
prensa”, para que os artistas possam aten- gero decorativo, porque aí as atenções são
der às pessoas que lhes desejem falar, sem para o palco...
se tornar preciso franquear-lhes a intimi-
dade dos seus camarins. Durante longos anos o prédio projetado
Cinco banheiros espaçosos acham-se por Gusmão Baldassini sofreu inúmeras des-
colocados nessa parte do Teatro, para hi- caracterizações em decorrência de obras.
giene dos que nele trabalharem. Em 1961 foram iniciadas as obras de re-
O porão é alto, dispondo de caixa forma do Teatro João Caetano, com o obje-
d’água, aparelhos sanitários e camarins tivo de, após a conclusão das mesmas, voltar
para os funcionários em serviço. Fica aí um a levar à cena peças de qualidade, como nos
ligeiro bar para os artistas, com fogão a gás. áureos tempos em que figurava como uma
Foi reservado no porão um amplo espa- das melhores casas de espetáculos do Rio de
ço para a casa forte, com cofre a prova de Janeiro. Dispensando os espetáculos de re-
fogo, e destinado à guarda de objetos pre- vista, rompendo o cerco das peças dessa ca-
ciosos, não só do Teatro como dos artistas. tegoria tradicionalmente encenadas na Pra-

90 Teatros do Rio
Teatro João Caetano, S.d.
Fotografia Augusto Malta. Acervo Museu da Imagem e do Som
ça Tiradentes. O responsável pelas obras Em janeiro de 1965, durante o governo de
foi o engenheiro Stélio de Morais, diretor Carlos Lacerda, o teatro entra novamente em
do Departamento de Prédios e Aparelha- reformas, obrigando as equipes a trabalharem
mentos Escolares, o projeto de Roberto dia e noite para que em curto espaço de tem-
Thompson Motta e a inspeção da execução po as obras fossem concluídas e entregue o
ficaram a cargo de Celso Torreão Campos. teatro ao público, conforme matéria do jor-
Um dos problemas fundamentais do teatro nal O Globo de 27 de janeiro de 1965:
era a sua acústica. Consistiu a obra em um
novo teto (a fim de corrigir a acústica), Os operários da firma encarregada da res-
rebaixamento do local destinado à plateia, tauração do Teatro João Caetano trabalha-
com eliminação de balcões e camarotes, rão dia e noite para possibilitar a entrega
além da instalação de equipamentos cêni- da casa completamente remodelada, no
cos e de refrigeração, procedendo-se tam- prazo previsto, antes de 21 de abril. Nes-
bém à reforma de todo o mobiliário. sa data, segundo o administrador do João
João Bethencourt, então diretor do De- Caetano, Sr. Murilo Azevedo, que está no
partamento de Cultura em entrevista ao cargo há menos de dois meses, deverá ser
jornal A Noite, complementa as melhorias: estreada a peça de Artur Azevedo A Capital
Federal, encenada pelo Teatro dos Sete. Já
...além da nova pintura geral, assoalhos, foram tomadas as primeiras providências
ladrilhos, espelhos, lustres etc., as 650 para a instalação dos andaimes que possibi-
poltronas da plateia serão estofadas; as litarão os trabalhos de reforma do sistema
frisas e camarotes terão novo acabamen- acústico, de que foi encarregada a firma
to; o palco, os camarins e os sanitários Avelis, ganhadora da concorrência.
serão totalmente remodelados; além do Depois virão a instalação de 530 pol-
pano de boca e das passadeiras. Só o pano tronas, já adquiridas e forradas em couro-
de boca, em veludo, custou 4 milhões de -plástico e do pano de boca, cujo veludo
cruzeiros e as obras totais custarão cerca também já está no depósito, pronto para
de 30 milhões. ser cortado e colocado. Os camarotes se-
É sabido que uma das muitas deficiên- rão igualmente reformados, de modo a
cias do Teatro João Caetano sempre foi a oferecerem maior conforto aos assisten-
acústica, considerada péssima por quan- tes. O veludo custou cerca de 3 milhões
tos ali têm atuado. Sobre tal problema de cruzeiros e mede 600 metros.
dos mais importantes, disse-nos o dire- Usando a “prata da casa”, como acentuou,
tor do Serviço de Teatros que, segundo a o Sr. Murilo Azevedo disse que está subs-
opinião do engenheiro Piragibe, técnico tituindo as telhas quebradas no teto, para
no assunto, além de Administrador Re- acabar com as goteiras no palco, nos dias de
gional do Centro, as pequenas reformas chuva. Dentro de mais alguns dias, terá iní-
e melhoramentos por que está passando cio o trabalho da reforma da acústica, cujo
o teatro serão suficientes para modificar material, eucatex, já está no teatro…
completamente a acústica da casa. Se, Dentre os serviços já executados des-
porém, tal não se der, o problema será tacam-se a renovação de toda a instalação
atacado futuramente, com novas verbas elétrica e do sistema de iluminação do
especiais para atendê-lo, pois se trata de palco, circuitos na plateia, nos balcões e
dispositivo caríssimo.28 camarotes e conserto da “cortina de aço”,

92 Teatros do Rio
Teatro João Caetano em 1978, (S.E.)

Teatro João Caetano. Planta baixa, (S.E.)

Capítulo 2 | O teatrO de uma capital ainda prOvinciana 93


Teatro João Caetano O Teatro João Caetano fechado desde
1961, após reforma efetuada durante o go-
que se destina a isolar a plateia e o palco, verno de Carlos Lacerda, reabre em 7 de se-
em caso de incêndio. tembro de 1965 com o programa de reinau-
guração que constou da execução do Hino
Em 6 de setembro de 1965, o jornal Nacional; concerto da Orquestra Sinfônica
O Globo, comentava as melhorias do teatro: Brasileira, regida pelo Maestro Eleazar de
Carvalho, apresentando a Sétima Sinfonia de
A fim de corrigir a acústica, o teto foi re- Beethoven; os Choros n. 10, de Villa-Lobos e
baixado em alguns pontos, até 3 metros; um concerto de Schumann, com a pianista
o salão totalmente atapetado; as paredes Guiomar Novaes.
revestidas com lambris de canela na parte
externa, e interna com eucatex acústico, ...com mobiliário totalmente novo...,
segundo projeto de Roberto Thompson. problemas acústicos solucionados, com
Quanto à decoração, foi construído um teto falso todo em gesso a pintura bem de-
ciclorama, isto é, uma espécie de imita- corativa, sistema de iluminação moderno,
ção de veludo velnac, cujo preço foi 3 ar refrigerado e excelentes acomodações
milhões e meio de cruzeiros, e renovado para o público...29
todo o mobiliário. A iluminação, por sua
vez, também totalmente revista, aguarda Em março de 1978, tendo Adolfo Bloch
porém a chegada de 30 refletores, impor- como presidente da Fundação dos Teatros
tados da Alemanha... do Rio e com projeto do arquiteto Rafael

94 Teatros do Rio
Peres, acústico de Roberto Thompson Mot­­ rins foram aumentados, assim como banhei-
ta; Fernando Pamplona na parte cênica, ros, ficando todos à direita do palco.
de iluminação e mecânica do palco, e su- Ampliou-se o fosso da orquestra, e dois
pervisão do engenheiro Carlos Lafayette, palcos laterais foram criados. Num deles es-
são iniciadas as reformas do João Caeta- tavam as antigas salas de administração, que
no, incluindo uma revisão total do sistema passaram para um andar mais elevado sobre
acústico, dos mais deficientes do Rio. Teve um dos palcos. O palco central foi todo re-
fachada alterada e instalação de novas pol- vestido em climatex e teve sua frente au-
tronas, iguais às do Theatro Municipal, sem mentada em cinco metros.
os entalhes de madeira, pois sessenta por Embora com capacidade para 1.422 lu-
cento das que existiam estavam quebradas. gares, pelo menos duzentos deles não ofe-
O teatro esteve fechado, em obras, por um reciam a mínima visibilidade do palco. Isso
período de dez meses. acontecia tanto na plateia, como nos balcões
A entrada do teatro foi totalmente modi- e galeria. O teatro passou a ter 1.326 luga-
ficada. As portas principais avançaram, tor- res, com total visibilidade da galeria e cama-
nando o foyer duas vezes maior. E a marquisa rotes. A ligação entre o palco e a cabine de
também foi à frente para proteger as pessoas. comando ficou pelo interior do teatro, ao
No foyer, colocaram-se duas saídas laterais, contrário do que era anteriormente, sendo
inexistentes antes, o chão em granito e as destinado a este setor um local central aci-
colunas revestidas de alumínio. Foram ins- ma do balcão nobre.
talados também um bar e uma chapelaria,
e os banheiros deixaram de abrir para a sala O luxo e o requinte substituíram o despo-
de espetáculo, como ocorria antes, abrindo- jamento e o abandono a que estava relega-
-se então para o foyer. O mesmo ocorreu nos do o velho teatro. Embora conserve seus
dois outros andares (balcão nobre e simples), 1.300 lugares, quem entrar no novo Teatro
sendo que um dos andares foi eliminado. Foi João Caetano sentirá imediatamente que a
feito também um tratamento antifogo nos operação plástica foi total.30
tetos, paredes e tapetes. No balcão nobre os
dois painéis de Portinari foram restaurados O próprio engenheiro Lafayette é quem
pelo professor Edson Motta. comenta em entrevista a Miriam Alencar,
Além da substituição de todos os elemen- publicada no Jornal do Brasil de 11 de maio
tos que não se encontravam mais em condi- de 1979, as modificações introduzidas no
ções de uso ou que fossem colocar em risco teatro, quando de sua reinauguração:
a nova reforma, foram trocados: pano de
boca, piso da plateia, revestimento das pa- Desapareceram as frisas laterais, a pla-
redes, linha do teto, sistema elétrico, e sis- teia foi reordenada de forma que não há
tema de ar-condicionado. No telhado foram uma poltrona exatamente na frente da
substituídas todas as telhas, porque as que outra, o que facilita a visão do público
existiam eram de diferentes procedências e sob qualquer ângulo. Os balcões foram
não permitiam um encaixe perfeito, deixan- reformados, com transformação dos ca-
do passar água da chuva e provocando infil- marotes em filas de poltronas com me-
tração no palco e na plateia. Os banheiros lhor disposição.
que tinham portas voltadas para a plateia, O veludo é pouco, restringindo-se mais
passaram a ter acesso pelo foyer. Os cama- à moldura do palco e cortina. As paredes

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 95


são revestidas de lambris de cerejeira, O palco passou por revisão geral no
sendo que os balcões levam uma faixa de sistema mecânico de varas para cenários,
couro bege em toda extensão. A cor bege com a troca de seus vários componentes.
predomina no couro das poltronas, traba- Com 12 metros de abertura de boca, o
lhadas em imbuia, sendo cópia das cadeiras palco ficou com 6 metros de altura. O ci-
do Theatro Municipal. Revestimento de clorama foi recuado em um metro e meio,
couro bege está também nos cinzeiros do ampliando a área de encenação. O fosso
hall de entrada e do foyer complementa- da orquestra fixo, também foi ampliado.
dos por aço inoxidável. Ao mesmo tempo o palco pôde ter o piso
Todo encanamento hidráulico foi reno- modulado de acordo com as necessidades
vado, bem como o sistema elétrico além do espetáculo. As paredes internas do pal-
da instalação de moderno sistema de ar- co receberam tratamento especial acústico
-condicionado central… A cabina de luz e com placas de climatex.
som passou a ser frontal, na altura do pri- …os banheiros destinados ao público,
meiro balcão, dominando o palco. A mesa cujas portas davam para dentro da sala de
de iluminação é belga, como a do Munici- espetáculos, foram alterados, ficando iso-
pal e a do Villa-Lobos, com 240 circuitos lados da sala, com saídas para o corredor.
independentes… Nas obras do Teatro João Caetano fo-
O tratamento acústico foi especial. Ro- ram usados móveis da Armando Terroso.
berto Thompson rebaixou o teto, fazendo A mecânica de cena foi da Andersen; Cei-
uma espécie de “asa de gaivota” em sete brasil forneceu a aparelhagem de ar-con-
planos, reduzindo o tamanho em função dicionado; a mesa de iluminação cênica é
da acústica. O sistema de som tem agora da firma belga ADB; instalações hidráu-
uma mesa com 16 canais de estúdio que licas e elétricas da Beleti; a mesa de som
podem inclusive fazer transmissão direta é da CAB – Científica Áudio Brasileira.
para rádio e TV. A construção ficou a cargo da Wrobel
Os camarins eram pequenos e com Construtora.
poucos banheiros. Hoje são seis camarins
considerados principais, com banheiros De acordo com os dados fornecidos, em
próprios e mais oito coletivos com núme- 16 de dezembro de 1981, pelo então Dire-
ro suficiente de banheiros. A administra- tor do Departamento de Engenharia e Ma-
ção ganhou instalações próprias com saí- nutenção da Funarj, Carlos Lafayette Barce-
das independentes e o teatro uma sala de los, o palco possuía as seguintes dimensões:
ensaios e leituras de peças. largura de boca de cena – 11 m; urdimento
O foyer também recebeu tratamento – 19 m; proscênio – 4 m; altura da boca de
especial. Com piso de granito, grandes cena – 7 m e profundidade – 15 m.
portas de vidro fumê que se abrem para Quanto à aparelhagem de iluminação:
uma varanda (onde era um terraço aban- o quadro de luz é do tipo Memolight CL
donado), com jardins e bancos de grani- 240, capacidade de 240 circuitos individuais
to que poderão abrigar o público nos in- com possibilidade de memorização de 300
tervalos dos espetáculos, com visão para efeitos diferentes (FLOPRY-DISC); potên-
a Praça Tiradentes. Os dois painéis de Di cia instalada de 450 KW, 220 V, 60 HZ. Os
Cavalcanti foram restaurados pela equipe refletores incluem aproximadamente 100
do professor Edson Motta. projetores de 1000 W; 50 de 2000 W com

96 Teatros do Rio
Teatro João Caetano
lentes planas e convexas e Fresnel; 2 proje- manutenção de toda maquinaria, restaura-
tores seguidores de 1000 W. Existem ainda ção das poltronas, eliminação de infiltrações
8 conjuntos de gambiarras com 32 projeto- no porão e nas lajes superiores, reparos do
res de 1000 W para o ciclorama. A apare- sistema hidráulico dos sanitários e camarins,
lhagem de som consta de gravador, am­­ novo sistema de refrigeração e a restauração
pli­­­­ficador, misturador, microfone e caixas do painel Samba, pintado por Di Cavalcanti.
acús­­­­­ticas. Sua lotação é de 1.222 pessoas, Todo esse trabalho foi necessário para que a
ofe­­recendo 651 lugares na plateia, 123 no peça Floresta Amazônica em Sonho de uma noite
balcão nobre e 448 no balcão simples. de verão pudesse estrear com a direção do ale-
Em 11 de março de 1979, após a reforma mão Werner Herzog e tendo como produto-
geral, foi reinaugurado com a apresentação ra e atriz principal Lucélia Santos.
da comédia musical O rei de Ramos, de Alfre- Em 22 de abril de 1994 foi inaugurado o
do Dias Gomes, com direção de Flávio Ran- sótão do Teatro João Caetano, que antes era
gel, música de Chico Buarque de Hollanda e um espaço destinado para ensaios tornando-
Francis Hime. No elenco: Paulo Gracindo, -se uma sala de espetáculos acanhada, sem
Felipe Carone, Carlos Kopa, Marília Barbo- recursos técnicos, com capacidade no máxi-
sa, Márcio Augusto, Roberto Azevedo, So- mo para setenta pessoas. A inauguração desse
lange França, Carlos Acioly, Leina Krespi, espaço foi com a encenação da peça Casa de
Jorge Chaia, Abdala, Renato Castelo, Ar- Prostituição Anaïs Nin, de Francisco Azevedo,
mando Garcia, Deoclides Gouvea, Antonio com direção de Ticiana Studart. A sala não
Sasso e Humberto Afonso. teve boa aceitação e deixou de funcionar.
Em julho de 1989, o forro do telhado O Teatro João Caetano passou por mais
no segundo balcão do Teatro João Caeta- uma cuidadosa recuperação em 1995, ape-
no desabou sobre as cadeiras. As causas do sar de seu problema de acústica ainda exis-
acidente foram as infiltrações generalizadas tente. O artigo de Barbara Heliodora, traça
no telhado e a má conservação do prédio. um panorama do teatro e fala das sucessivas
O laudo da vistoria feita por engenheiros reformas:
da Empresa Municipal de Obras Públicas
(EMOP) constatou ter havido desabamento …Mas por volta da época da nossa primeira
parcial das placas defletoras sobre os balcões independência, a de 1822, seria realmente
simples e nobres, e só não fez vítima porque exagero tentar acreditar que houvesse o
não tinha público no local naquele momen- que quer que fosse de muito ‘brasileiro’ na
to. Foram retiradas todas as placas defletoras recente sede do governo português. Sem
e feita uma revisão geral. negar o esforço do Padre Ventura com sua
Entretanto, em maio de 1991, Bibi Fer- Casa da Ópera de 1767, ou de Manuel Luiz
reira mandou fazer uma estrutura no porão com sua Nova Ópera em 1776, é preciso
do palco para escorar todo o palco do tea­ admitir que quando aqui chegou a Família
tro, para que não desabasse durante o espe- Real portuguesa não havia no Rio de Janei-
táculo, porque várias vigas de sustentação ro um único teatro digno de abrigar espetá-
estavam comidas por cupins, e ameaçavam culos capazes de entreter a Corte em mol-
a segurança dos artistas que atuavam em seu des semelhantes aos que estava acostumada
show Bibi in Concert. no velho mundo.
Em abril de 1992, entra em nova reforma Com um espírito de improvisação que
que incluiu a substituição do piso do palco, infelizmente marcou (e ainda marca às ve-

98 Teatros do Rio
zes até hoje) o teatro brasileiro, foi Fer- uso de Ministros de Estado). E com o novo
nando José de Almeida, o cabeleireiro de teatro e a nova vida da Corte o Fernandi-
D. Fernando de Portugal, que vislumbrou nho fez virem companhias líricas italianas
a necessidade de se fazer construir um tea­ e companhias dramáticas, primordialmen-
tro condigno, e com aquele infalível tino te portuguesas.
bajulatório de todos os aventureiros bem- Nessa primeira fase do teatro no Brasil
-sucedidos, o conhecido Fernandinho fez (que é algo bastante diverso de um teatro
com que a nova casa de espetáculos fosse brasileiro) havia um predomínio quase que
chamada “Real Teatro de São João”. Qual- integral de elementos portugueses entre
quer semelhança entre o nome do santo e os atores, sendo que os nascidos na terra
o do Príncipe Regente seria, naturalmen- só raramente eram utilizados, e geralmen-
te, algo mais que mera coincidência. E em te apenas como “cômicos” ou para papéis
verdade seria injusto que procurassem cri- altamente característicos (vide a longa es-
ticar o cabeleireiro empresário, pois ele tirpe de papéis de “caipira” que até tempos
inaugurou seu teatro (fartamente subven- aterradoramente recentes habitaram os
cionado pelo governo na forma da conces- palcos nacionais).
são de várias “loterias”, sem contar com a Participou então o teatro na primei-
notável medida tomada para sustentar as ra e formal independência do Brasil? Se
fi­nanças do novo empreendimento man- não como atividade artística, por certo
tendo o governo três camarotes de pri-
meira, arrendados permanentemente para Teatro João Caetano. Palco e vista parcial da plateia

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 99


dela participou o teatro intensamente 1823
como vinha fazendo desde os primeiros Teatro do Plácido
e graves acontecimentos no Porto. Em
1820 foi da varanda do Teatro São João No século XIX, precisamente nas primeiras
(que depois virou Constitucional, de- décadas, surgiram no Rio de Janeiro teatros
pois virou São Pedro – com alguns in- menores. Como um que foi construído em
cêndios de permeio – e finalmente foi 1815 ao lado do Teatro São João, um tea-
derrubado para que o supostamente ex- trinho que apesar de citado, não tem docu-
celente dito cujo São Pedro fosse substi- mentação alguma sobre sua vida teatral.
tuído pelo modernoso e péssimo João Caetano Por iniciativa do negociante Luís de Souza
que hoje temos sempre a sofrer reformas para Dias, o francês Grandjean de Montigny pro-
conseguir melhorar um pouco)* que o prín- jetou, em 1820, uma pequena casa, que foi
cipe D. Pedro indagou das razões dos construída para ser o Hotel dos Príncipes e
amotinados; foi na mesma varanda que nele funcionou a partir de 25 de janeiro de
D. João VI fez conhecer que assinava sem 1823, um teatrinho, depois chamado pelo
conhecer a Constituição que as cortes povo de Teatro do Plácido, destinado ex-
de Lisboa estavam elaborando. Mais im- clusivamente a apresentação de espetáculos
portante para nós, cariocas, é o fato de amadores para o público da alta sociedade
ter sido também na varanda do mesmo que o frequentava.32 O teatro ficava locali-
teatro que, a 15 de setembro de 1822, o zado no Largo do Rossio, na esquina da Rua
novo imperador, recém-chegado de São do Cano (Rua Sete de Setembro), com a
Paulo, pela primeira vez se apresentou Rua do Piolho (Rua da Carioca).33
em público, ostentando no braço uma Não há referências quanto às caracterís-
fita verde e amarela, onde se lia “Inde- ticas físicas do teatro, quer quanto a sua fa-
pendência ou Morte”. Sim, foi no teatro chada, quer sobre seu interior. Apenas que
a primeira manifestação pública brasilei- era um teatro particular que teve sucessivos
ra…” 31 (*grifo do autor) proprietários: Luís de Souza Dias (1820),
Sociedade de Amadores (1823) e Plácido
Pelo palco do Teatro João Caetano, o mais Antonio Pereira de Abreu (1824). Apenas J.
antigo do Rio de Janeiro, têm sido encena- Galante de Souza, citando Adrien Balbi, diz:
dos os mais variados gêneros de espetácu-
los – dramas, recitativos, bailados, óperas, Sua construção, de alto preço, se deveu a
tragédias, vaudevilles, farsas, sátiras, entre- um grupo de negociantes ricos. Os mais
mezes, operetas, concertos, burletas, comé- ilustres autores compuseram peças que ali
dias, revistas musicadas, shows etc., que, em eram levadas à cena pelos mais distintos
uma análise mais detida, poderiam dar uma amadores. Os cenários eram executados
imagem da vida e dos costumes da cidade e pelos melhores artistas do Rio de Janeiro. 34
do país, sua história política e social, nesses
anos de existência. O famoso “teatrinho” era mantido por uma
Atualmente sua capacidade é de 651 luga- sociedade de amadores que ali realizava seus
res na plateia, 123 no balcão nobre e 148 no espetáculos, algumas vezes honrados com
segundo balcão. Com vinculação estadual, é a presença de D. Pedro I. Segundo Augusto
propriedade da Furnarj, Fundação de Arte Maurício “... logrou sucessos marcantes que
do Rio de Janeiro. atraíram até a presença do Imperador D. Pe-

100 Teatros do Rio


dro I e da Imperatriz D. Leopoldina e mui- ordenando-lhe que adquirisse aquela casa de
ta gente de sangue nobre...”.35 O “teatrinho” espetáculos para o governo e, também, que
apresentava dois espetáculos por mês e era re- falasse ao intendente-geral da polícia para
servado a um clube fechadíssimo da socieda- fechar o “teatrinho”, por ordem do Impera-
de, cujos membros vigiavam a entrada evitan- dor, despejando em seguida os componentes
do o ingresso de pessoas de baixa reputação. da companhia teatral.
Não há menção explícita aos nomes de espe- Tudo assim se verificou, para que ficas-
táculos encenados, mesmo o de inauguração; se vingada da afronta à futura Marquesa de
há apenas, em J. Galante de Souza, sobre o Santos. Indignados, os atores e a empresa
repertório, menção a “importantes peças [...] do “teatrinho” jogaram todos os objetos e
encenadas por amadores” e à mesma decisão equipamentos do teatro pela janela, trans-
n. 10, de 25 de janeiro de 1823, que autoriza­ portando-os ao Campo de Sant’Anna, atual
va o funcionamento do teatro e explicitava Praça da República, onde queimaram tudo
em uma enorme fogueira com gritos e asso-
que possam dar espetáculos duas vezes por vios pouco respeitosos dirigidos ao Impera-
mês, contando que nunca ofereçam em noi- dor, que, satisfeito com a lição dada, não se
tes de representações do Real Teatro de São deu por achado.
João, ainda que sejam em dias de gala.36

Subitamente, a 20 de setembro de 1824, 1824


por volta das 11 horas da manhã, foi o “tea­ Teatro Porphyrio (Teatro da Rua
trinho” visitado por policiais, que traziam do Lavradio)
ordens do intendente-geral de polícia, Es-
tevão Ribeiro de Rezende, para fechá-lo, Nesse período, outros teatros menores vie-
apreendendo os papéis ali existentes. O fato, ram a surgir na cidade do Rio de Janeiro.
logo sabido pelo povo, provocou diversos O Teatro Porphyrio, também conhecido
comentários, espalhando-se a notícia que tal como Teatro da Rua do Lavradio, foi cons-
sucedera por ter sido impedida a entrada da truído por Victor Porphyrio de Borja e por
Marquesa de Santos, favorita do Imperador, outros artistas portugueses que haviam tra-
na referida casa de espetáculos, na véspera balhado no Teatro de São Pedro. Porphyrio,
da violenta diligência. ator da Companhia do Imperial Teatro de
Domitila de Castro teria comunicado ao São Pedro de Alcântara, dela se retirara com
Imperador o ultraje sofrido, atribuindo-o intenções de construir sua própria casa de
aos Andradas, pois José Bonifácio não to- espetáculos. As obras de edificação, libera-
lerava a sua influência junto de D. Pedro I. das por decreto Imperial,
Segundo se espalhou, haviam declarado al-
guns sócios do “teatrinho”, à favorita, que Sendo presente a sua majestade o impera-
aquele teatro “era só para famílias”. Levan- dor o plano que, para edificação de um Tea­
do o fato ao conhecimento do Imperador, tro nesta Corte, propõe, no requerimento
sabia a favorita que seria vingada, pois bem incluso, Victor Porphyrio de Borja: manda
conhecia o gênio violento de D. Pedro I. E, o mesmo senhor pela Secretaria de Estado
realmente, logo na manhã seguinte, o Im- dos Negócios do Império, que o Intenden-
perador chamava o seu servidor e antigo te Geral da Polícia, visto ser este negócio
barbeiro Plácido Antonio Pereira de Abreu, absolutamente particular e dependente da

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 101


vontade das pessoas que quiserem concor- Por fim recebendo convite para fazer parte
rer com ações, nenhum embaraço ponha à de uma companhia (...) Victor Porphyrio
deligência que o suplicante fizer para rea- de Borja abandonou o seu Teatro, cujos
lizar o que pretende. Palácio do Rio de Ja- terrenos foram arrematados pela Loja
neiro, 22 de maio de 1824. João Severiano Glória do Lavradio, sendo o local atual-
Maciel da Costa.37 mente ocupado pelo Grande Oriente e
Supremo do Brasil.40
iniciaram-se em 1824, em um terreno ad-
quirido pelo grupo de artistas, à Rua do
Lavradio. O projeto foi do próprio Victor 1826
Porphyrio, auxiliado por seus compatrio- Teatrinho da Rua dos Arcos
tas, e com o andamento das obras verifi-
cou-se que suas proporções eram pequenas Um outro teatro particular foi inaugurado
para um teatro, além da dificuldade finan- em 1826, à Rua dos Arcos, do lado do Mor-
ceira para “torná-lo suficientemente am- ro do Santo Antonio, nos fundos de uma
plo”.38 Antes mesmo de concluídas, ali se chácara próxima ao aqueduto da Carioca, ao
realizaram alguns espetáculos. Mas o gru- lado direito de quem se dirigia para o Largo
po, passando por dificuldades financeiras, da Lapa, e em frente à Academia de Belas-
não conseguiu concluir as obras do prédio, -Artes.
que acabou sendo arrematado pela loja Erguido nos fundos de uma residência, o
Glória do Lavradio. Assim sendo, o teatro palco era uma caixa de madeira, em frente
teve poucas funções. do qual foi erguida uma cobertura de lona
Não foram encontradas referências quan- para abrigar as cadeiras da plateia. Numa
to aos espetáculos encenados, mesmo o de fase posterior (data não identificada), foi
inauguração. Quanto às características ar- construída uma varanda dividida em cama-
quitetônicas do prédio, Henrique Marinho rotes, em frente ao palco.
assim o descreve: Pertencia à Sociedade do Teatrinho da
Rua dos Arcos. A 15 de junho de 1829, o
Um gradil de ferro entre pilastras de pedra Imperador concede licença, por meio do
e colocado sobre um parapeito também de aviso n. 109, assinado pelo Desembargador
pedra fecha o átrio do edifício. Tem este 3 Ajudante do Intendente-Geral da Polícia,
pavimentos, sendo a fachada dividida em Luiz Soares Texeira Gouveia, aprovando
3 corpos. No corpo central há 5 portas no também seu respectivo estatuto, para que
primeiro pavimento, 5 janelas de sacada se estabelecesse na Corte a sociedade man-
no segundo e 5 no terceiro. Um frontão tenedora do teatro, composta por um cor-
reto coroa o corpo central havendo no po de cinquenta sócios, que já funcionava
tímpano um pelicano dourado entre raios antes mesmo da autorização de D. Pedro I,
também dourados. Os corpos laterais têm pois havia incorporado os sócios do Teatro
no primeiro pavimento uma porta e no se- Constitucional, na ocasião do seu fecha-
gundo uma janela de sacada.39 mento.
O Teatrinho da Rua dos Arcos foi inaugu-
O Teatro Porphyrio não chegou a ter uma rado com um drama denominado O desertor
inauguração oficial, como Múcio Paixão co- francês, de acordo com Múcio da Paixão e J.
menta: Galante de Souza. Há notícias de peças como

102 Teatros do Rio


O Duque de Lituânia, levada a cena em 9 de de- 1832
zembro de 1832; Ministro Constitucional, em Teatro São Francisco de Paula
7 de maio de 1830, além de outros dramas,
recitais e peças musicais, que foram levados O Largo do Rossio estava se tornando uma
ao longo de seus 10 anos de existência. região valorizada e marcada pela ativida-
Em 22 de agosto de 1834, o Teatrinho de teatral. Assim, “em 1832, Grandjean de
da Rua dos Arcos foi vendido em hasta pú- Montigny projeta para Victor Chabry o Tea-
blica pelo leiloeiro Frederico Guilherme, tro São Francisco de Paula, na rua do mesmo
com todos os seus utensílios, desaparecen- nome” 42, o que, ironicamente, levou à pri-
do em seguida. meira de uma série de mudanças do nome
daquela rua para Rua do Teatro. 43
Esta casa de espetáculos, com palco de re-
1828 duzidas proporções, tinha o empresário M.
Teatrinho do Largo de São Sémond como responsável, e foi inaugurada
Domingos em 1833, com repertório francês, não con-
seguindo se manter por muito tempo. Hen-
Em 12 de junho de 1828, a Intendência- rique Marinho o descreve:
-Geral da Polícia concede licença para que
se possa organizar no Largo de São Do- Era uma casa de pequenas dimensões. Na
mingos (deixou de existir com a abertura frente tinha uma única porta larga. A fa-
da Avenida Presidente Vargas), uma socie- chada do edifício é dividida em 3 corpos;
dade com a denominação de Teatrinho do havendo no 1º pavimento do corpo central
Largo de São Domingos, conforme Múcio uma porta larga, e no 2º pavimento 3 jane-
Paixão se refere: las de sacada divididas por pilastras. Segue-
-se um frontão reto existindo no tímpano
Em cumprimento do imperial aviso de 9 as máscaras da tragédia e da comédia com
do corrente, expedido pela Secretaria de os seus atributos. Os corpos laterais apre-
Estado dos Negócios da Justiça, concedo sentam uma porta no 1º pavimento e uma
licença para que se possa organizar no lar- Janela de sacada no 2º. Um ático, que vai
go de São Domingos, uma sociedade para morrer no frontão, oculta o telhado do
um Teatrinho com a denominação de Tea­ edifício. O teatro estende-se até a Rua do
trinho do Largo de São Domingos, pela Cano. É pequeno e muito estreito.44
forma do seu requerimento e estatutos,
que ficam no arquivo da Secretaria dessa João Caetano resolve adquiri-lo em 1841,
Intendência, ficando os membros da dita para reformá-lo, incluindo camarotes, mon­­
sociedade responsáveis pelo abuso que tando um repertório com a sua companhia
desta concessão possam fazer. Esta se cum- e alternando com a companhia lírica fran-
prirá e se registre competentemente. cesa. Reinaugura-o em 2 de maio de 1841
Rio de Janeiro, 12 de junho do ano de com a peça Os dois renegados, de Mendes,
1828. onde atua ao lado de Estela Sezefredo e Pi-
O Desembargador Ajudante Queiroz.41 mentel.
A princípio tinha uma varanda em seu
Não há mais referências sobre o Teatri- interior que, em 1846, foi completamente
nho do Largo de São Domingos. transformada,

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 103


substituída por duas orlas de camarotes. Dava récitas particulares de amadores.
[...] a sala com motivos egípcios executa- Mas em 1839, no ano do nascimento de
da pelo Cicarelli, que havia exposto suas Machado de Assis, apresentou-se neste
obras na Escola de Belas Artes. O pano de tea­tro um mágico chamado Leroux. Fez
boca era damasco azul e as cadeiras forra- sucesso. Realizou pela primeira vez no
das de palhinha. Tinha um lustre ao centro Brasil a decaptação de um homem.46
na plateia.45
Não se pode precisar a data de seu desapa-
Em 19 de setembro de 1846, passa a recimento, entretanto, a crônica que muito
chamar-se São Francisco e é reaberto com a lamentava o seu fim, menciona apenas que
peça Amadeu Bueno ou A fidalguia paulistana, foi desativado em 1884, pouco antes da mo-
de Joaquim Noberto de Souza e Silva, com narquia, mas sua fachada permaneceu até
o ator Artur Costa. 1888.
Em 1855, é arrendado a Joaquim He-
liodoro Gomes dos Santos. Depois de ter
sofrido novas reformas, é reaberto com o 1834
nome de Gymnasio Dramático, no dia 12 Teatro da Praia de Dom Manuel
de abril do mesmo ano, com a peça O pri-
mo da Califórnia, de Joaquim Manoel de Um teatro acanhado, muito mal localizado
Macedo, musicado pelo maestro Demétrio na época, e que ficava afastado da centralida-
Rivero, tendo no elenco Amoedo, Guilher- de urbana, que era o Campo de Sant’Anna
me Orset, Pedro Joaquim, Pedro Montani, e Rossio, é inaugurado em 2 de agosto de
Martins, Adelaide Amaral e Maria Velloti. 1834, dia do aniversário da Princesa D.
Seguiu-se a peça Um erro, de Scribe com Francisca, situado na Rua do Cotovelo47, à
elenco composto por Amoedo, Gabriela de beira-mar, no sopé do Morro do Castelo,
Vechi, Maria Velloti, Pedro Joaquim, Gui- recebendo o nome de Teatro da Praia de
lherme Orsat e Josefina Miró. Dom Manuel. Como anteriormente era um
Em 1861, é arrendado a Joaquim Augusto prédio ocupado por um quartel de artilharia
Ribeiro de Souza e, de 1867 a 1868, L.C. montada, um grupo de artistas portugueses
Furtado Coelho passa a ser o empresário do obteve a concessão de construir o teatro,
teatro. Em 1878 o teatro é comprado por que seria revertido para o governo no fim
Joaquim Antonio Pinheiro. de três anos.
O Teatro São Francisco de Paula, depois Tratava-se de um sobrado com cinco jane-
Teatro Gymnasio Dramático, pelo repertó- las e outras tantas portas em forma de arco
rio significativo de peças nacionais que apre- no pavimento inferior, que não possuía uma
sentou, dramas da escola realista e também arquitetura externa para teatro. Sobre seu
sátiras, além de comédias, óperas e revistas, interior, só há referência a partir de 1842,
teve importante papel na história do teatro quando grandes obras foram efetuadas, do-
do Rio de Janeiro. Nele também se realiza- tando o teatro de maior conforto e elegân-
ram outras atividades, de menor importân- cia, conforme palavras de Lafayette Silva:
cia, como mágicas e reuniões de estudantes.
H. Pereira da Silva, em O Rio de Janeiro na Desapareceram os pesados capitéis que
obra de José de Alencar, faz algumas referências ornavam as pilastras dos camarotes. Em
interessantes sobre essa faceta do teatro: substituição, foi feita uma simples mol-

104 Teatros do Rio


dura dourada, acompanhada de varetas ta da Costa, Maria Soares, Victor Porphyrio
do mesmo metal e recamada de orna- Borja, José Maria do Nascimento, Antonio
mentos verdes. Soares e José Jacó Quesada.
Sobre a tribuna imperial, via um qua- Em 20 de março de 1837 é baixado o
dro representando as figuras da justiça e Decreto n. 153, concedendo duas loterias a
da paz, sustentando as armas nacionais; su- mais para o Teatro da Praia de Dom Manuel.
bia, por detrás delas, o dragão, emblema A 26 de setembro de 1838, passou a ter
da casa de Bragança. Por cima da orques- o nome de Teatro São Januário, em homena-
tra, um quadro, representando o gênio da gem à Princesa D. Januária, irmã do Impe-
poesia. De um lado, o retrato de Molière; rador D. Pedro II, apresentando o seguinte
de outro, o de Corneille, ambos emoldu- repertório: Carlos III ou A Inquisição, drama
rados de arabescos brancos semeados de em quatro atos e a farsa intitulada O maníaco.
uma infinidade de pequenos gênios e de Em 1846, a atriz cantora Del Mastro, não
máscaras antigas, de ouro. No proscênio, logrando êxito na encenação, decidiu, no dia
quatro medalhões com os retratos de Raci- 21 de fevereiro, promover um baile de más-
ne, Voltaire, Beaumarchairs e Maurivaux. caras no teatro, dando início a esta nova utili-
O pano de boca era azul adamascado, sem zação do edifício teatral, que mais tarde seria
pregas, com rica franja de ouro; ao centro, bastante difundida. Esses bailes realizados em
emergindo de uma coroa de murta, via-se outros teatros eram geralmente animados pe-
uma lira. Todos esses trabalhos foram exe- las cocottes (atrizes e prostitutas francesas) que
cutados em vinte e três dias pelos artistas alegravam a vida mundana da cidade.
Olivier e Barros...48 Entretanto, os bailes não foram exclusi-
vamente destinados às mundanas. O Teatro
Já o Correio da Manhã de 21 de fevereiro de São Pedro, em 1908, divulga na imprensa
de 1962, fala de um outro pano de boca: bailes à fantasia nos quatro dias de carnaval,
mas o anúncio permitia observar a preven-
O pano de boca representava a Praça da ção dos organizadores em frisar que seriam
Constituição com o Teatro São Pedro. A bailes familiares. Comenta a Revista do Teatro,
iluminação por meio de um grande lustre (março-abril de 1963) em texto sem assina-
e de gambiarras junto ao palco era alimen- tura, sobre esses bailes realizados no Teatro
tada por azeite. Depois de 1854 foi encer- São Januário:
rado o gás.
O Barão do Rio Branco, nas suas Efemé-
Sua capacidade era de 446 lugares: 24 ca- rides, diz que no sábado de carnaval, 21
marotes de primeira ordem, 22 camarotes de fevereiro de 1846, se realizou no Teatro
de segunda, 22 camarotes de terceira, 180 São Januário, que então já era do governo,
cadeiras e 220 gerais, e ainda uma tribuna o primeiro baile mascarado do Rio de Ja-
privativa da Família Imperial junto à boca de neiro, sendo, portanto, precursor dos bai-
cena, com entrada pela Rua Dom Manuel. les de carnaval do Theatro Municipal, que
O espetáculo de inauguração foi Misantro- também é teatro oficial. Como se vê o mal
pia e arrependimento, drama em cinco atos vem de longe.
de Fernand Kotzbue, tradução de Caetano
Lopes de Moura, com elenco composto de Durante alguns anos o teatro permane-
Ludovina Soares da Costa, João Evangelis- ceu fechado, reabrindo em 4 de novembro

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 105


de 1848. Em 23 de maio de 1862, depois da orquestra. Em seguida, os alunos do Con-
de sofrer grandes reformas, é reinaugurado servatório representaram um vaudeville em
com o nome Teatro Ateneu Dramático, com dois atos, Artur, ou Depois de dezesseis annos. No
a peça Os íntimos, comédia de Sardou, tradu- elenco Lord Melvil, almirante da marinha in-
zida por Manuel de La Peña. Em 1863, no- glesa – Sr. José Antonio Godinho; Maria – D.
vamente recebe o nome Teatro São Januário. Leopoldina Corrêa de Albuquerque; Sr. Ar-
Desapareceu em 1868, quando foi demolido thur – Florentino Carlos Victoria; Jeronymo
para a construção da Secretaria de Viação. O Duflot, estanqueiro de tabaco em Paris – Au-
governo teve de permutar os terrenos que gusto Ângelo Montani; Jobson, pescador, ou-
possuía na Praça Dom Manuel por outros no trora marinheiro – Juvita José Marques; Ca-
Largo do Paço. tarina, mulher de Jobson – D. Leonor Orsat;
pescadores, jornaleiros, náufragos e marujos;
coros de homens e mulheres.
1834 As personagens cantaram as seguintes pe-
Teatro São Pedro e Teatro ças musicais: “duas cançonetas por Maria;
do Valongo três por Arthur, duas por Jobson; dueto por
este e Jeronymo Duflot, sendo todas estas
Da Independência ao 7 de abril de 1831, es- peças ensaiadas pelo professor de música
tenderam-se nove anos de agitação política dos meninos, o Sr. Lino José Nunes”; o ce-
no Brasil, onde um sentimento nacionalis- nário – “todo novo e a caráter” – foi “pintado
ta exagerado deu origem a acontecimentos pelo Sr. José Caetano da Cunha Ribeiro, e o
que marcaram de certo modo a nossa inci- vestuário pelo Sr. Antonio Ferreira da Silva
piente nacionalidade. Santos”. O “divertimento” terminou “com o
Em 29 de junho de 1834, inaugura-se na muito aplaudido Septemino Chinez”.49
Rua do Valongo, mais tarde Rua da Impera- O Jornal do Commercio, em 8 de maio de
triz (hoje Rua Camerino), o Teatro São Pe- 1847, véspera da inauguração, anunciava ao
dro, construído por sugestão de João Cae- público: “... um teatrinho no pavilhão gran-
tano a alguns amigos e inaugurado por ele. de com comodidades, a fim de serem des-
Nessa mesma rua, próximo à praia havia frutados os espetáculos...”.
outro teatrinho, pertencente a uma família O Teatro Tivoly foi construído por inicia-
Barroso e denominado Teatro do Valongo. tiva dos alunos do Conservatório Dramático
Alguns historiadores confundem os dois tea­ Brasileiro (órgão semioficial), reconhecido
tros, consignando como reabertura com pelo Governo Imperial, de utilidade públi-
no­­­­­­­vo nome a inauguração do Theatro São ca. Segundo Galante de Sousa, no Tivoly re-
Pedro. O Teatro do Valongo teve suas ativi- presentavam os alunos do Conservatório de
dades paralisadas em 1843. Música. Ao Conservatório foi atribuído, pe-
las autoridades competentes, o exercício da
censura teatral. Originalmente, a finalidade
1847 era a de servir aos amadores do Conservató-
Teatro Tivoly rio, ideia que foi, posteriormente, relegada
a segundo plano, uma vez que simultanea-
Em 9 de maio de 1847, foi inaugurado o Tea­ mente, com os espetáculos dos amadores,
tro Tivoly, que teve sua programação com vários conjuntos de profissionais também se
uma “abertura” executada pelos professores exibiam, logrando grandes êxitos.

106 Teatros do Rio


Era uma casa toda construída em madeira, com elenco constituído pelos filhos dos
e que destinava-se, também, a salão de baile; fundadores.
era localizada no Campo de Sant’Anna, es- Como Paraizo e Pavilhão Fluminense,
quina da Rua dos Inválidos. pro­­­movia
Em 25 de fevereiro de 1858 passa a chamar-
-se Café-Cantante do Pavilhão do Paraizo, es- bailes de cunho caipira, com roupas e músi-
treando com Les deux normands em goguette, duo cas apropriadas, que se realizavam no teatro
cômico por d’Hôte e Boyreau; Le Chalet, gran- todos os anos, durante as festas do mês de
de duo por Boyreau e Claudel; Chimène, gran- junho: Santo Antonio, São João e São Pedro
de ária por Guillemet; L’Hyppodrome, por Mlle. eram comemorados com entusiasmo.52
Victorine; Reviens mon fils, por Mlle. Caroline;
Pas de L’écharpe, dançado por Mlle. Emma”.50 Houve promoção de bailes mascarados,
Anúncios publicados no Jornal do Commer- fogos, danças e várias outras atividades re-
cio, nos primeiros meses de 1859, dão-lhe a creativas.
denominação francesa de Pavillon Du Parai- Com relação a este teatro vale transcrever
zo. Os anúncios das peças eram, igualmente, a matéria de Bandeira Duarte para esclare-
publicados em francês. cer um pouco de: “A verdade sobre o Tivoly”
Em 1868, seu nome já era Teatro Pavilhão
Fluminense, conforme referência no Almanak Todos os que escreveram sobre a história
Laemmert, (p.366): do nosso teatro incorrem no mesmo erro
quanto a um dos supostos teatros cariocas:
No mesmo estabelecimento há um mesmo o Tivoly. Não afirmo, mas tenho a impres-
salão ricamente ornado e preparado para são de que, errando o primeiro, todos os
grandes bailes, jantares e reuniões polí- demais, copiando, erraram também. Até
ticas etc. Enfim, para tudo quanto for de eu, nas “Efemérides Cariocas”. E inclusive
extraordinária concorrência. o último, José Galante de Souza, no seu
excelente “O Teatro no Brasil”, editado em
O Tivoly foi um teatro experimental, nele boa hora pelo Instituto Nacional do Livro.
trabalharam duas ingênuas que marcaram Um trabalho que seria definitivo se o es-
época: Leonor Orsat, portuguesa, e Jesuína crupuloso e honesto sibliógrafo levasse
Montani, italiana. um pouco mais longe a sua extraordinária
capacidade de pesquisador. Infelizmente
Os admiradores da Jesuína fundaram um porém, essa obra também está cheia de
periódico, O Montanista, pelo qual, não falhas e – o que lamento profundamente
só exaltavam os méritos da sua predileta, – contém vários erros incompreensíveis
como amesquinhavam os da outra, não numa autoridade como a desse respeitável
procediam de forma inversa os fundado- Galante de Souza. Dois desses erros po-
res de O Orsatista. Os dois jornais eram dem ser facilmente apontados: o que me
impressos na mesma tipografia, a de Fran- atribui uma “colaboração” em jornais dos
cisco de Almeida, localizada à Rua da Vala, quais fui, na realidade, “redator permanen-
hoje Uruguaiana, n. 141.51 te” e “crítico teatral”, incluindo o Diário de
Notícias em cujas colunas jamais tive a hon-
O Tivoly foi também o precursor do tea­ ra de aparecer, e esquecendo o Diário da
tro infantil no Rio de Janeiro, em 1847, Noite e O Jornal a cujas redações pertenci

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 107


e que secretariei mesmo, por longos anos; Lord Nelvil, almirante – O Sr. José Anto-
o que envelhece o nosso querido Olavo de nio Godinho; Maria – Dona Leopoldina
Barros, dando-o como nascido em 1893, Corrêa de Albuquerque; Sir Arthur – Flo-
quando ele nasceu em 1894, e colocando-o rentino Carlos Victoria; Jeronymo Dufiot,
como professor do Conservatório Dramá- estanqueiro de tabaco em Paris – Augusto
tico Nacional, quando ele é professor do Angelo Montani; Jobson, pescador, ou-
Conservatório Nacional de Teatro. trora marinheiro – Juvita José Marques;
Não desejo, nem de longe, desvalorizar Catarina, mulher de Jobson – D. Leonor
com essas e outras anotações, uma obra que Orsate; pescadores, jornaleiros, náufragos,
merece, de todos nós, os maiores aplausos marujos, Coros de homens e mulheres –
– distinguida com o Prêmio Sul América, As personagens cantarão as seguintes peças
também não mencionado pelo autor que de música (segue-se uma relação) ensaiadas
se despiu inexplicavelmente desse honroso pelo professor de música dos meninos, Sr.
título – e que representa a maior contribui- Lino José Nunes. Terminará o divertimen-
ção já prestada à nossa história teatral. Mas to com o muito aplaudido Septemino Chi-
é preciso que, desde já, e enquanto estamos nez – a empresa, que é sumamente grata
vivos, comecemos a rever o que deva ser ao respeitável público, e que não esmorece
revisto no livro de Galante de Souza, para em procurar os meios de satisfazer as imen-
evitar que, futuramente, errem os que ali se sas provas de acolhimento que do mesmo
basearem, como têm errado os que escre- tem recebido, estabeleceu, como já anun-
vem sobre o Tivoly. ciou, um teatrinho no pavilhão grande com
Na verdade, nunca houve um Teatro Ti- comodidades, a fim de serem desfrutados
voly. Houve, sim, um teatrinho no Tivoly, o os espetáculos; pretende, por isso, além das
que é bem diferente. Porque o Tivoly era, danças, dar algumas representações dramá-
muito antes desse teatrinho, o que no meu ticas, sendo estas, como dito fica, pelos
tempo de rapaz se chamava de “mafuá” e de- meninos alunos do conservatório; eis por-
pois se classificou como “parque de diver- que implora dos Srs. Espectadores a sua tão
sões”, com danças, jogos, e representações conhecida indulgência não só atendendo
variadas. Nesse parque, no dia 9 de maio de não terem os representantes conhecimen-
1847, inaugurou-se, “no pavilhão grande”, to algum da cena, como pela sua diminuta
um teatrinho. E nesse teatrinho, estreou idade; ela e o encarregado de os ensinar,
um grupo de “meninos do conservatório”. muito se satisfarão se eles obtiverem dos
Do “conservatório de música”, com letra benignos espectadores acolhimento e per-
minúscula. Lá está na última coluna da úl- dão. Bilhetes: 1$000 por pessoa e 500 réis
tima página do Jornal do Commercio daquele pelas crianças menores de 10 anos”.
dia, o anúncio: “TIVOLY – Primeira re- Por esse anúncio ficamos sabendo de
presentação dramática no teatrinho – Do- várias coisas. Além de positivar o gênero
mingo, 9 do corrente – Às 4 horas da tarde de estabelecimento que explorava o Ti-
abrir-se-á o estabelecimento e às 8 horas. e voly, e de testemunhar que não houve um
meia-noite, depois dos professores da or- teatro Tivoly, mas um teatrinho no Tivoly,
questra executarem a ouvertura, represen- informa que a peça representada não foi
tarão os meninos do conservatório Artur ou Artur ou Dezesseis anos depois, como afir-
Depois de dezesseis annos vaudeville em dois mam quase todos os nossos historiadores,
atos ornado de música – Interlocutores: mas Artur ou Depois de dezesseis anos. Fala-se

108 Teatros do Rio


em “meninos alunos do conservatório de A área para edificação do teatro foi es-
música”, mas não se sabe que conservató- colhida no Campo da Aclamação (Praça da
rio era esse. E, ao que parece, o grupo de República, em 1890). O edital de 13 de no­­
meninos que inaugurou o teatrinho, foi a vembro de 1851 foi apoiado pelo Marquês
primeira companhia de teatro infantil da de Olinda, que havia assumido o Ministé­­­
nossa história. Companhia que, domingo, rio do Império. O corpo de jurados era
23 de maio de 1847 apresentou ali, Os dois composto pelo Conselheiro Antonio Ma-
ou O inglês maquinista, para reapresentar, nuel de Melo, pelo Coronel Joaquim Can-
mais tarde, a peça de inauguração. dido Guillobel e pelo Engenheiro Cristiano
Aí está a verdade. De documento. Que, Benedito Ottoni. Como o concurso era de
infelizmente, só agora apurei, errando tam- âmbito internacional, inscreveram-se ar-
­­bém, como todos os outros.53 quitetos de vários países. O projeto vence-
dor foi o de autoria do arquiteto prussiano,
residente no Brasil e responsável pelo Pa-
1852 lácio do Catete, pela Igreja da Candelária e
Teatro Provisório pela fachada da antiga Estação de Ferro D.
Pedro II, Gustav Waehneldt.
Em 9 de agosto de 1851, um incêndio des- Durante a espera pela construção de uma
truiu, pela segunda vez, o Teatro de São Pe- nova casa de espetáculos, obras foram provi-
dro de Alcântara. Aguardavam-se duas com- soriamente iniciadas em 29 de setembro de
panhias: uma de ópera e outra de bailados, já 1851. Estas edificaram rapidamente o Tea-
contratadas na Europa. Pensou-se então em tro da Praça da Aclamação (Santa’Anna) no
adaptar-se o Teatro São Januário para substi- prolongamento da Rua dos Ciganos (hoje da
tuir a casa destruída pelo fogo. Constituição) e do Hospício (Rua Buenos Ai-
No começo da década de 1850 já era de res), uma frente voltada para Rua do Conde
conhecimento público a necessidade de se D’Eu (Frei Caneca, na linha de fundos para o
construir um teatro novo com melhores con- antigo quartel general. Atualmente ocuparia
dições técnicas e conforto para o público. Os o setor compreendido entre as ruas Visconde
teatros de São Pedro e Imperial D. Pedro II de Rio Branco e Frei Caneca). Tendo a edifi-
eram os únicos que possuíam uma arquitetu- cação sido rápida, ficou com a denominação
ra e estrutura material. Mas esta necessidade de Teatro Provisório, um enorme galpão pro-
era urgente, já que em 1851 o Teatro de São jetado e construído por Vicente Rodrigues.
Pedro sofrera o seu segundo incêndio. Segundo Henrique Marinho,
Essa premência de um edifício teatral
que conciliasse os interesses da ópera lírica a frontaria do edifício consta de três corpos,
e do teatro nacional com um porte maior, um central e dois laterais. O corpo central
tanto para os espectadores como para os apresenta três portas de arcada divididas
artistas, deu início a uma concorrência por pilastras e que dão entrada no saguão;
pública, um concurso de arquitetura para no segundo pavimento há quatro janelas de
um teatro, que foi requerido por Manuel peitoril, coroando este corpo um frontão
Araújo Porto Alegre, diretor então da Aca- reto; vê-se no tímpano uma lira. Os corpos
demia Imperial de Belas-Artes, e Guilher- laterais mostram duas janelas de peitoril
me Schuch de Capanema, em 12 de agosto em cada pavimento. Um ático oculta ali o
de 1851 a D. Pedro II. telhado do edifício.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 109


Há no fundo do teatro uma casa, que edifício serve para os ensaios, e vê-se aí
foi construída para sala de pintura. No um teatrinho, onde a companhia de ópe-
primeiro pavimento dessa casa há duas ra nacional ensaia e representa.54
salas: uma serve de depósito de adornos,
a outra é um guarda-roupa; há também E Lafayette Silva também o descreve:
nesse pavimento três grandes camarins
de primas-donas. Medalhões no teto representavam Auber,
A sala de pintura fica no segundo pavi- Bellini, Taglioni, Bibienne, Verdi, Donizet-
mento. Fazendo simetria com a casa, onde ti, Schiller, Catalani, Servandoni e Meyer-
existe a entrada da tribuna do imperador, beer. Fora desse círculo, isolado entre pal-
há do lado oposto uma outra casa, que é a mas e louros, Rossini.55
guarda-roupa do teatro.
Os retratos eram aplicados sobre fundo
E continua o escritor, numa crítica que rosa vivo, de mau gosto, cor de que eram
ele chama de “feio edifício”: pintadas as paredes. Esse teatro, que durou
23 anos, apesar de sua construção ter sido
...construído sem as regras da arte, este provisória, sofreu várias reformas e remo-
edifício é defeituoso e indigno de servir delações por estar, frequentemente, em
de teatro em uma capital. Não deve ser condições precárias.
conservado; seria indecoroso para nós o Conforme o “plano d’Associação de um
deixar viver esse mau edifício. O gover- novo Teatro”, o Teatro Provisório, edificado
no, a quem pertence esse teatro, deve com um capital levantado com vendas de
demoli-lo, erguendo outro, belo, vasto, ações, deveria ser entregue ao governo para
majestoso, que seja um dos monumen- administrá-lo ou arrendá-lo a um empresá-
tos que tenha de ornar a cidade do Rio rio. Aos acionistas foi concedido o usufruto
de Janeiro. de uma cadeira do teatro, pelo espaço de
três anos, a partir da data de sua abertura,
Depois, Henrique Marinho descreve o in- e ficou designada uma comissão para repre-
terior do teatro: sentá-los junto ao governo.
O teatro teve como empresários, no
...o Teatro é vasto e tem largos corre- período de 1867 a 1872, João Batista Via-
dores, com uma extensa plateia com na Drummond (Barão de Drummond –
248 cadeiras da primeira classe, 443 da 1/05/1825 – 7/08/1888) e Manuel Go-
segunda e 147 gerais; quatro ordens de mes de Carvalho, que em 15 de maio de
camarotes havendo na primeira 30, na 1867 havia sido agraciado com o título de
segunda 29, na terceira 32 e na quarta Barão do Rio Negro; o administrador era o
32. A tribuna imperial ocupa 3 camaro- ator José Maria do Nascimento. Era um tea­
tes da segunda ordem, lado direito, jun- tro sem ventilação e que durante as repre-
to ao proscênio. Há na primeira ordem 2 sentações atingia um calor insuportável.
camarotes, que são ocupados pela guarda
de honra do imperador em dias de gala; ...Joaquim Manoel de Macedo chamava de
há um do juiz inspetor do teatro. Na pri- “monstro do campo da Aclamação” e que
meira e na terceira ordem existem toi- José de Alencar dizia ser “o mais insupor-
lettes para senhoras. A sala da frente do tável dos suadores”.56

110 Teatros do Rio


Sua primeira função foi em 1852, com Teatro Provisório. Campo de Sant’Ana, 1853. Aquarela de José
Reis de Carvalho
bailes mascarados no período carnavalesco.
Depois foi chamado de Teatro Lyrico Provi- nome de alguns empresários que dirigiam o
sório. A inauguração oficial, como casa de teatro: o ator João Caetano em 1853 (La-
espetáculos, deu-se após o período momes- fayette Silva); e pelo Almanak Laemmert, Dr.
co, em 25 de março de 1852, com a ópera Antonio José de Araújo (1864); Dr. Pedro
Macbeth, de Verdi, por uma companhia lírica Velloso Rabello (1866); o artista Amoedo
italiana. O elenco, conforme programação (1868).
anunciada no Jornal do Commercio da época: É fechado em 16 de maio de 1852, para
Srs. De Lauro, Capurri, Zechini, Bertolini, reabrir em 19 de maio de 1854, com a ópe-
Vergini, Sicuro, N. N., Marquesi e Tati Filho. ra Ernani, de Verdi, com o nome de Teatro
Com o comparecimento dos jovens impera- Lyrico Fluminense, por não mais se justifi-
dores D. Pedro II e D. Tereza Cristina. car seu nome primitivo, pelo funcionamen-
O teatro era de propriedade da Câmara to da casa em caráter permanente.
Municipal. Em 1856, tem-se o conhecimen- Nesse teatro, representaram eminentes ar-
to de uma “Sociedade Empresária” que, de tistas: cantores líricos, Rosina Stolz, Augus-
acordo com o plano e estatutos da empresa ta Candiani, Henrique Tamberlick, Juliana
sancionados pelo governo, em 26 de outu- Dejean, Emy la Grua, Rosina Laborde, Ana
bro de 1853, fez nova venda de ações em Lagrange; artistas dramáticos, João Caetano,
benefício do teatro, já então, com o nome Adelaide Ristori, Ernesto Rossi; pianistas,
de Teatro Lyrico Fluminense. Emilio Wrolleski, Gottschalk, Sigismundo
A “Agência Teatral” do Lyrico funcionava à Thalberg; concertistas, Carlota Patti, Theo-
Rua do Cano, 245-A. Tem-se informação do doro Ritter e Pablo Sarazate, e muitos outros.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 111


Gottschalk regeu um concerto memorável, Moraes Filho, foi o Provisório o “berço es-
de mais de trinta pianos acompanhados por plêndido da Ópera Nacional”.
uma orquestra de cerca de quatrocentos mú-
sicos. O final dessa festa de arte foi assina-
lado, às últimas notas do hino nacional, por 1854/1857
uma salva de peça de artilharia. Circo Olympico (Teatro Lyrico)
O declínio do Teatro Lyrico Fluminen-
se começou com a inauguração do Teatro Desde 1854, existia o Circo Olympico
D. Pedro II. Em 30 de abril de 1875, com da “Guarda Velha”, na base do Morro de
o drama O Guarani, é fechado para ceder Santo Antônio com frente para a Rua da
lugar a árvores, canteiros e alamedas na Guarda Velha, e que foi transformado em
construção dos jardins da Praça da Acla- seu vasto terreno onde existira um tre-
mação (Campo de Sant’Anna – projeto do cho já desaparecido da atual Rua Treze de
arquiteto francês Glaziou). Ameaçado de Maio (Tabuleiro da Baiana), hoje Largo da
ruir, o edifício é demolido. Carioca.
Para Moreira de Azevedo,
Era uma casa de diversões suntuosa para a
não foram só as companhias italianas que época, levada a termo com muito trabalho,
conquistaram glórias no Provisório, canta- porquanto o proprietário não dispunha de
ram-se naquele tablado solene as primeiras grande capital e atendia às obras de acordo
óperas de Carlos Gomes e Henrique Al-
ves de Mesquita” e, nas palavras de Mello Largo da carioca, 1844. Aquarela de Eduard Hildebrandt

112 Teatros do Rio


com os rendimentos que a bilheteria do pelhos muito velhos, muito sujos, muito
circo proporcionava.57 enodoados e uns porteiros de apresenta-
ção grotesca...58
No terreno do antigo Circo Olympico, Bar-
tolomeu Correia da Silva construiu definiti- Sabe-se que o Lyrico era um teatro gran-
vamente, o Teatro Pedro II, inaugurado em de, ia até a encosta do Morro de Santo Antô-
19 de fevereiro de 1871, para os festejos de nio, com dois pavimentos. Na frente, havia
Momo. Como teatro, foi inaugurado em 20 uma porta central com quatro bandeiras no
de junho de 1871 com a Ópera de Rossini, térreo, e no pavimento superior, em cima
Guilherme Tell, pela Companhia Lírica Italia- dessa porta, um conjunto de cinco janelas
na, contratada com o tenor Ballarini. francesas, em arco, com sacadas em ferro
Por despacho imperial de 3 de setembro batido. De ambos os lados dessas janelas,
de 1875, passou a chamar-se Teatro Imperial uma sacada aberta seguida de duas janelas
Dom Pedro II. francesas de cada lado. Na fachada lateral,
Em 25 de abril de 1890, com o advento da havia no primeiro pavimento, cinco janelas
República, a 15 de novembro de 1889 – em francesas com sacadas de ferro batido.
razão dos Republicanos desejarem apagar Em seu interior a sala principal era
as referências do período imperial e a seus toda pintada de branco e ouro e descrevia
personagens – o teatro é rebatizado com o a forma de uma ferradura. Em torno das
nome de Teatro Lyrico, reinaugurando com cadeiras, encostada à plateia, corria uma
uma Companhia Equestre, contratada em espécie de estrado, fechando uma balaus-
Buenos Aires, pelo empresário Duci. trada para o lado da sala de espetáculos,
Luiz Edmundo descreve o teatro: que ficava em nível superior; entalhavam-
-se no mesmo arco da boca de cena, pre-
O melhor teatro da cidade é o Lyrico, cedido de uma sala de repouso mais seis
uma ruína dourada, mostrando uma reles camarotes. A tribuna imperial erguia-se
entradinha de ladrilhos, cercada de es- sobre a porta principal da entrada, rema-

Teatro Lyrico. Arquivo particular: Marta Luiza Vieira Lopes


Teatro Lyrico. Arquivo particular: Marta Luiza Vieira Lopes
tando na altura do teto e ocupando a lar- Teatro Lyrico. Arquivo particular. Marta Luiza Vieira Lopes

gura de quatro camarotes.


As cadeiras eram de jacarandá e tinham Em 1934, o Lyrico é demolido para que,
como característica especial um encosto de em seu local fosse construída a Caixa Eco-
três recortes, sendo que na tabela central nômica, o que não ocorreu. Na realidade,
havia uma placa de esmalte preto e branco em seu lugar surgiu um estacionamento
com a letra e o número da poltrona. O as- de automóveis. Desde 1925, em projeto
sento era de palhinha e os pés de cachimbo aprovado por Alaor Prata, vinha-se es-
(característica dos móveis usados na déca- tudando a demolição do Lyrico e outras
da de 1860). O Jornal de 31 de janeiro de edificações (Projeto do Largo da Carioca
1965, em reportagem sobre o teatro, chama e Rua Treze de Maio), para beneficiar o li-
a atenção para “O camarote Imperial [que] vre trânsito de veículos em ponto crucial
era montado em grande luxo”. da cidade.
Contava o teatro com 1.400 cadeiras de É interessante citar alguns fatos que
plateia; diversas ordens de camarotes: 42 marcaram a vida artística deste teatro. Foi
de primeira, com 5 cadeiras, 42 de segunda no Lyrico, então Imperial D. Pedro II, que
com 5 cadeiras, 2 de terceira com 5 cadei- no dia 15 de julho de 1886, Arturo Tos-
ras, 252 galerias, 168 fauteuils de varandas, canini rege pela primeira vez na vida. Era
além da tribuna imperial. Isto dava um total Toscanini o violoncelista da Companhia
de 2.500 lugares. que apresentava Aída, de Verdi, no teatro e,
O teatro era particular e seu primeiro no dia da estreia do espetáculo, o regente
proprietário foi Bartholomeu Corrêa da Sil- adoeceu. Toscanini regeu ópera sem par-
va. Em 1913, o teatro é adquirido pela famí- titura, de cor. No Lyrico se apresentaram
lia Celestino Silva que o arrenda, em 1923, a nomes dos mais famosos como Caruso,
José Loureiro. Em 1o de julho de 1925, ten- Domenico Santenelli, Maria Durand, Ci-
do como proprietária Margarida Chaves, é nira Polônio. A Companhia Espanhola de
arrendado à Empresa Nicolino Viggiani até Revistas Velasco, a Companhia Lírica de
fins de abril de 1931, quando é arrendado Angelis, entre tantas famosas também pas-
pela Empresa A. Sonschein. saram pela cena do Lyrico.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 115


1859 viver por três anos, permaneceu por vinte e
Alcazar Lyrique três anos em atividade.
Pensou-se em construir outro teatro que
Em 12 de abril de 1855, o empresário tea­ melhor se prestasse às representações líri-
tral Joaquim Heliodoro dos Santos rebati- cas, e disso cogitou o Decreto de 10 de se-
zou o velho Teatro de São Francisco de Paula tembro de 1856. Mas o teatro não foi cons-
com o nome de Gymnasio Dramático. O truído. Talvez o maior responsável pelo
repertório da companhia de Joaquim Helio- fracasso da Imperial Academia de Música
doro era revolucionário em comparação ao e Ópera Nacional – cujos estatutos foram
o de João Caetano. O dramalhão, em ves- aprovados por decreto em 27 de outubro
tuário a caráter, foi substituído pelo drama de 1858 e extintos por Decreto de 12 de
de casaca, em que os personagens apareciam maio de 1860 – tenha sido a falta de um
com figurinos modernos e onde se debatiam teatro próprio.
temas da atualidade, teses sociais, análises e Na segunda metade do século XIX, foram
conflitos psicológicos. inaugurados 13 teatros no Rio de Janeiro.
Em 1862, José Ildefonso de Souza Ra- Durante muito tempo alguns tiveram o ser-
mos, depois Visconde de Jaguari, ocupando viço de atendimento nos camarotes. Ser-
a pasta do Império, nomeava uma comissão viam-se refrescos, doces, gelados. O Jornal
composta por José de Alencar, Joaquim Ma- do Commercio de 11 de maio de 1850 esclare-
nuel de Macedo e Cardoso Meneses, para ce o público, em nome da direção do Teatro
estudar as causas da decadência da arte dra- de São Pedro de Alcântara,
mática nacional, e sugeriu as medidas por
meio das quais fosse possível reerguê-la. o botequim do dito teatro acha-se de novo
A comissão externou-se em 1862 com um reformado (...) Terá, todas as noites de
parecer do que constavam, dentre outras, espetáculo, sorvetes, refrescos, gelados,
a seguinte sugestão: a construção de um licores, chás, doces etc., e será enviada
edifício, com moldes modernos, destinado uma conta impressa das despesas que se
às representações dramáticas. Entretanto, fizerem no camarote, a fim de evitar qual-
as medidas julgadas necessárias não foram quer abuso que possa haver da parte dos
levadas a sério, apesar do interesse da co- condutores, ainda que os não julga capazes
missão. Somente o Conservatório Dramá- de tal praticarem (porém resguardo nunca
tico foi criado em 1871, que foi a segunda faz mal aos doentes).
sugestão da comissão. A respeito do teatro,
não mais se falou. O teatro de opereta, que iniciava seu su-
Em face do gosto, sempre crescente, do cesso, era dominado exclusivamente pelos
público pelo teatro, resolveu o governo or- franceses. Foi o exótico Alcazar Lyrique o
denar a construção de um teatro no Cam- lugar em que o gênero celebrava o máximo
po da Aclamação (atual Praça da República) em ostentação. Suas portas foram abertas a
para alocar a Companhia Lírica. 17 de fevereiro de 1859, sob a direção do
O primeiro passo para um teatro de ópera pianista francês Joseph Arnaud, na Rua da
foi a inauguração do Teatro Lyrico Provisório, Vala59, atualmente Rua Uruguaiana. Quan-
em 25 de março de 1852. Depois, em 19 de to às características físicas, Múcio da Pai-
maio de 1854, ele passou a chamar-se Teatro xão pondera: “o fato do estabelecimento
Lyrico Fluminense. Construído para sobre- ocupar três prédios prova que suas propor-

116 Teatros do Rio


ções eram grandes e correspondiam a uma embarcou para Paris, onde contratou um
necessidade da época”.60 elenco francês, que aqui chegou pelo navio
A arquitetura do edifício teatral obedecia Bearn, em 16 de junho de 1864, trazendo
principalmente ao classicismo ditado pelos para sua casa de espetáculos a opereta fran-
alunos de Grandjean de Montigny, mas re- cesa, que iria deliciar as noites cariocas. O
fletia também fortes traços da arquitetura sucesso foi estrondoso, os cariocas jamais
portuguesa. Não há registro sobre o seu in- haviam visto nada semelhante.
terior.
No ano de 1875, com o falecimento de As bailarinas e cantoras da dança, que
Joseph Arnaud “além da arte, dispunham de outros dotes
para atrair a plateia masculina, fizeram do
a viúva ficou com a propriedade do teatro Alcazar a perdição de muito homem res-
em que trabalharam companhias do gêne- peitável e o atrativo constante da boêmia
ro alegre até 1880, ano em que o Alcazar noturna”. A simples menção do nome do
foi vendido ao Capitão Luiz de Carvalho teatrinho despertava apreensões e cuida-
Resende. Nesse mesmo ano o famoso tea- dos nas virtuosas esposas cariocas. O Vis-
tro fechou as suas portas sendo em seguida conde de Taunay dá seu testemunho sobre
demolido, tendo com ele desaparecido a o Alcazar (‘Memórias’): “Para as senhoras
mais ruidosa casa de espetáculos que então de boa roda aquilo só era foco de imorali-
houvera no Rio de Janeiro.61 dade e das maiores torpezas; mas quando
se anunciaram espetáculos extraordiná-
Conhecido também durante alguns anos rios, destinados às famílias, foi uma con-
(1866/1877) como Téâtre Lyrique Fran- corrência enorme e a salazinha da Rua da
çais, Teatro Francez, Alcazar Lyrico Flumi- Vala ficou cheia a transbordar do que havia
nense e Alcazar Fluminense, depois de res- de melhor e de mais embiocado no Rio de
taurado, é reinaugurado em 8 de outubro de Janeiro, deixando bem patente a curiosi-
1877 com o nome de Teatro Dona Izabel, dade – e mais do que isto – a ansiedade de
por ocasião da administração do teatro pelo conhecer o que havia de tão encantador e
ator cômico Martins (Antonio Francisco de delirante naquelas representações.”
Souza Martins), apresentando a peça Lei de “O que não padece de dúvida é que o
28 de setembro. Alcazar exerceu enorme influência nos
Figuram depois como proprietários do costumes daquela época e colocou em ris-
D. Izabel, Antonio Gomes Neto e Lucinda co a tranquilidade de muitos lares. Sei de
Chaband. Luis Ribeiro de Souza aparece co­ fonte muito limpa que um marido despo-
mo proprietário em requerimento 50-2-60, jou a esposa dos brilhantes para levá-los
de 15 de fevereiro de 1879. em homenagem à Aimée e alcançar-lhe os
Quando, com um programa variadíssimo, sorrisos feiticeiros.”
o artista francês Arnaud inaugurou o Alca- As francesas do Alcazar faziam carreira
zar, o público não acolheu o empreendimen- e criavam fama. Uma das figuras que mais
to com entusiasmo e, apesar dos esforços, despertaram a atenção dos frequentadores
o empresário não logrou sucesso. Joseph foi Aimée, que Machado de Assis assim
Arnaud suspendeu, então, as récitas do te- descreveu: “Um demoninho louro, uma
atro e, devido à escassez de artistas no Rio, figura leve, esbelta, graciosa, uma cabeça
impossibilitado de modificar seu repertório, meio feminina, meio angélica, uns olhos

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 117


vivos, um nariz como o de Safo, uma boca teve sempre uma programação intensa.
amorosamente fresca, que parece ter sido De seus incontáveis espetáculos citamos
formada por duas canções de Ovídio”. alguns que, pelas críticas dos jornais da
Aimée que conquistou a cidade com as época e pelo registro dos historiadores, fi-
canções “Rien nést sacré pour un sapeur” zeram o maior sucesso: La Fille de Madame
e “Les noces de Madame Crac” não foi Angot, ópera cômica de Lecocq que foi re-
a única. presentada pela primeira vez no Rio; Pont
Pelo Alcazar passaram artistas que de- de Soupirs, Barbe Bleu, La Bele Helène, Vie Pa-
pois se destacaram na cena brasileira, como risienne foram algumas, entre as inúmeras
Suzana Castera, Rose Meryss (grande in- de Offenbach, que mais êxito tiveram no
térprete de Bocaccio), Cristina Massat e a Alcazar Lyrique”.62
belga Marie Philomène Stevens.
Pelo palco do teatro de J. Arnaud desfi- O Alcazar tornou-se o ponto de encon-
laram os mais variados personagens: Hele- tro de artistas, políticos, homens da cultura,
na, a grega, pondo a mitologia em cancã; a além de, naturalmente, lugar de perdição e
Grã-Duquesa de Gerolstein, na caricatura o atrativo constante da boemia noturna do
da realeza; o Barba-Azul matando suas es- Rio de Janeiro. As francesas desenfreadas
posas culpadas de curiosidade… E, na pla- colhiam louros e dinheiro, sobretudo Ai-
teia desse teatrinho, nomes ilustres, como mée, ambiciosa e “desmanchadora de lares”
o Conselheiro Silveira da Mota, o Conde que, ao voltar à pátria, levou consigo o equi-
de Porto Alegre, Perdigão Malheiro, o Ba- valente a um milhão e meio de francos em
rão de Cotegipe, Francisco Otaviano, Sin- joias e objetos de valor. O fato é que, quan-
zenando Nabuco, o Barão do Rio Branco, do, em 1868, a bela Aimée voltou para a Eu-
Gaspar da Silveira Martins, senadores e ropa, enquanto o navio saía da baía do Rio
deputados que diariamente lá estavam. de Janeiro, algumas famílias “de bem” solta-
Terminada a fase romântica das pri- vam fogos de artifícios na Praia de Botafogo,
meiras décadas do século XIX, seguiu- para celebrar a partida do “diabo loiro”.
-se a fase realista que os historiadores da Durante anos foi moda ter em casa um
época dividiram em duas etapas: a pri- móvel ou objeto que houvessem pertencido
meira, com o trabalho realizado pela em- à atriz. Em 1877, o teatrinho foi restaura-
presa dramática de Joaquim Heliodoro e do e reinaugurou dia 8 de outubro com o
a segunda em que se destaca o gosto pela nome de Teatro D. Izabel, sob a administra-
opereta francesa que o Alcazar despertou ção do ator Martins e com outro gênero de
no público carioca. Este gênero alegre espetáculos. Sua vida foi curta. Vendido em
chegou célere ao Rio: em 1855 Jacques 1880 ao capitão Luis de Carvalho Resende,
Offenbach fundou em Paris o Théâtre des logo depois foi demolido, instalando-se em
Bouffes-Parisiens e, já em 1864, na Rua seu lugar uma padaria. Artur Azevedo co-
da Vala, o autor triunfava. Múcio da Pai- mentou sabiamente que era justo destinar
xão observa que a opereta francesa, ga- à distribuição do pão, o lugar no qual tan-
nhando terreno durante dez anos, apon- ta gente o havia perdido. Desaparecia assim
tou ao Tea­tro Nacional o rumo a seguir. sem deixar sucessora a mais ruidosa casa de
Como espetáculos novos e variados de espetáculos que o Rio conhecera.
cançonetas, danças, quadros vivos, opere- Em 1886, a frequência aos clubes e tea-
tas, vaudeville, óperas bufas etc., o Alcazar tros atraía cada vez mais a aristocracia e a

118 Teatros do Rio


burguesia ascendente. Eram muitas as pu- ses da cidade e propagando o gosto pelos
blicações destinadas a promover os teatros espetáculos ligeiros: vaudevilles, operetas,
e clubes musicais. Todas as camadas sociais chansonnettes e, também, bailes de máscaras
participavam das apresentações teatrais en- e fantasias.
tretanto, havia uma nítida segregação do Entretanto, nos cafés-dançantes o com-
espaço. As “torrinhas” eram frequentadas portamento do público era bastante infor-
por um público de entusiasmo espontâneo, mal e os espectadores não eram os mesmos
os mais aficionados em teatro que, com que frequentavam as salas dos espetáculos
muito esforço, destinavam os seus mingua- destinadas ao drama e à ópera.
dos recursos para apreciar a arte teatral. Em 1886, é inaugurado o Folies-Bré-
Dependendo das casas de espetáculos, as siliennes, na Rua da Guarda Velha – que
plateias eram bem heterogêneas. As senho- não chegou ao nível de um café-dançante
ras e senhoritas da elite frequentavam ex- como o Alcazar Lyrique –, uma casa de
clusivamente o Clube Fluminense, o Teatro espetáculos onde a produção artística era
Lyrico e o Derby Club, sendo-lhes vedados de qualidade duvidosa. Todavia, não eram
os espetáculos de teatro musicado, pelo somente os gêneros de espetáculos que
menos até o final do século XIX. A presen- eram criticados. A maioria desses cafés-
ça feminina nos demais teatros era restrita -dançantes e vaudevilles era constituída
às mulheres que alegravam a vida mundana de teatros precários em suas instalações,
da cidade. O público masculino deliciava- onde muitas vezes a arquitetura era im-
-se com as belas coristas. provisada por mestres de obras, contra-
O Café-Cantante tornou-se Café-Con- tados por ávidos empresários. Por esses
certo, e com a introdução de cenas circen- cafés-teatros passaram várias gerações de
ses e pequenas esquetes, foram se desen- artistas europeus e brasileiros, que muitas
volvendo e formando os teatros de revista, vezes, ao desembarcarem para temporadas
como ocorreu com o Café-Cantante Salão nos referidos teatros, tiveram que ser ins-
Paraizo, mais tarde Folias Parisienses, inau- talados em caráter emergencial no Teatro
gurado em 1858, na Rua da Ajuda. Depois Lyrico Provisório ou no Teatro Lírico, por
veio o Teatro Les Bouffes-Parisiens, na Rua se encontrarem parcialmente destruídas as
da Vala, perto do Alcazar Lyrique, na esqui- salas de espetáculos nas quais atuariam.
na da Rua do Ouvidor.
O Alcazar Lyrique situado na Rua da
Vala, com suas belas e sedutoras atrizes 1860
francesas popularizou o gosto pela opere- Teatro Santa Leopoldina e
ta no Rio; uma convivência saudável com Teatro Variedades
a boemia da cidade, e que veio despertar
na sociedade o gosto pelo mundo colorido Em 7 de abril de 1860 foi inaugurado em
e sensual do teatro ligeiro. O Teatro Alca- Botafogo, o Teatro Santa Leopoldina e, no
zar Lyrique tornou-se a mais famosa casa mesmo ano, um dia depois, 8 de abril, em
de espetáculos no Rio. No início o Alcazar São Cristóvão, foi aberto o Teatro Varie-
Lyrique era apenas um teatro de variedades dades – com o drama Dalila, de Octave
com sucesso relativo, mas as artistas fran- Feuillet –, que abrigou as Companhias de
cesas acabaram encantando o público flu- Guilherme Silveira, de Ismênia dos Santos
minense, remodelando os hábitos burgue- e de Souza Barros.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 119


1863 Foi reinaugurado a 14 de outubro de 1863,
Teatro Eldorado (Teatro Phênix) e querendo, como em outros teatros dessa
época, imitar o Alcazar Lyrique, registrou-
A ideia da fundação do Teatro Phênix, -se um verdadeiro fracasso. Aqui transcrevo
nasceu em 1862 e, levada a cabo, ele foi o extenso programa organizado pelo em-
inaugurado no dia 14 de outubro de 1863, presário/ator:
com o nome de Teatro Eldorado, na antiga
Rua da Ajuda n. 57 que, antes de ser fra- Café, Concert, Spectacle
cionada, começava na Rua São José e ter- Inevocablement et sans remise
minava na Santa Luzia, esquina da Travessa Aujourd’hui Mercredi 14 octobre 1863
do Maia, que desapareceu com o traçado
da Avenida Central. OVERTURE
O Eldorado ficava justamente nos ter- Avec MM. Voizel, Gabel, Chéri, Mme.
renos do Palace Hotel onde, naquele tem- Voizel (débuts de MM. Octave et Delmot-
po, existiu, no n. 57 daquela rua, um outro te, et de Mlle. Anaïs).
hotel, o Brisson, que dispondo nos fundos L’orchestre, composé de quinze musi­
de um amplo terreno ajardinado, deu mo- ciens, será dirigé par l’habile chef d’orches­­­
tivo a seu proprietário de construir um te- tre M. Bazolles.
atro: assim surgiu o Eldorado. Sua lotação Première Représentation de BRUNO
era de 860 lugares, assim divididos: 12 ca- LE FILEUR
marotes, 40 galerias nobres, 308 cadeiras e Vaudeville en deux actes
500 gerais. Em 1926, a lotação total do te- Décors nouveaux par M. João Caetano
atro era de 705 lugares: 25 frisas, 23 cama- Ribeiro
rotes de primeira, 8 camarotes de segun- M. Voizel remplira le rôle de Bruno.
da, 6 camarotes de terceira, 526 poltronas, M. Gabel celui de Beauregard.
267 balcões e 350 gerais. Já o levantamento Mme. Voizel remplira le rôle d’Adèle
realizado por Otávio Rangel indica uma lota- Les autres rôles par MM. Octave, Del-
ção total de 713: no térreo, plateia com 320 motte, Charles (parente et invités).
poltronas estofadas e seis frisas; na sobrelo- LE CHEVAL DE BRONZE
ja, balcão nobre com 135 poltronas estofa- (Aubert)
das, 12 frisas nobres e 2 camarotes especiais Ouverture, exécutée par l’orchestre
com antecâmara destinados à Presidência da La Cantinière de 1a 39me
República e à Prefeitura; no primeiro andar, Marche militaire, chantée par Mme.
balcões de primeira com 115 poltronas, 10 Voizel.
camarotes e mais 2 camarotes com antecâ- Grand pout-pourri sur les motifs de
mara; e no segundo andar, balcão de segunda l’opéra
com 105 poltronas e 4 camarotes, além de 2 IL TROVATORE
outros camarotes com antecâmara. (Verdi)
Foi arrendado inicialmente pelo empre- Exécuté par l’orchestre.
sário/ator Cheri Labocaire, que promoveu L’HOMME À LA CHANCE
grandes reparos no prédio primitivo do Te- Scène comique par M. Chéri.
atro Eldorado. A sala de espetáculos foi de- RONDE DES ÉGOUTIERS DE PARIS
corada pelo artista Tacani, e sofreu outras Chantée par Mlle. Anaïs (pour ses dé-
modificações para ficar mais confortável. buts).

120 Teatros do Rio


LES RASEURS Bruno, pout-pourri sur les motifs de l’opéra
Chansonnette comique, par Mme. Ga- Il Trovatore; 40 – ouverture le Moulin des
bel. Filleuls; 50 – Le Vin des Epicuriens; 60 – Les
LE VIN DES ÉPICURIENS Egoutiers; 70 – L’Homme à la Chance; 80 –
Chant bachique, para Mme. Chéri. La Cantinière; 90 – Les Raseurs.
LE MOULIN DES TILLEULS Prix des Places: Parterre 1$, orchestre
(A. Maillart) et galeries 2$000, Le tarif des Consomma-
Ouverture, exécutée par l’orchestre. tions, à prix modérés, sera affiché dans la
Ordre du spectacle: salle de spectacle.
10 – Ouverture du cheval de Bronze; 20 –
Bruno le Fileurs; 30 – du ler au 2me acte de Teatro Phênix

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 121


Teatro Phênix

Teatro Phênix em 1945


Durante alguns meses o teatro ficou fe- Seguindo-se pela orchestra a chistosa
chado, vindo a ser reaberto pelo empresário valsa, composta pelo Sr. Victor Gusman,
De Giovanni em 27 de novembro de 1864, Os Zuavos
com a estreia das sessões às 16:30 horas Sendo representada depois a muito gra­
atendendo aos interesses da classe comer- ciosa comédia em dois atos, original por­
cial, fazendo com que o Eldorado recebesse tuguês, ornada de música da corda sensí-
a denominação de Teatro Recreio do Com- vel, Filha do Regimento etc., denominada
mercio, somente naquelas sessões. Este foi o O perdão d’ato em perspectiva
programa de inauguração: Personagens
Alfredo, estudante da Universidade de
PROGRAMA Coimbra: Sra. Jesuína
Inauguração do Teatro Recreio do Com- Cesar, ex-estudante, grande pândego: Sr.
mercio De Giovanni
Domingo 27 de novembro de 1864 Carlos, estudante: Sr. Victorino
Espetáculo às 4:30 horas da tarde. Augusto, dito: Sr. Martins
Depois que os professores da orquestra Mendonça, calouro: Sr. Silva Leal
executarem o Hino Comercial Um cauteleiro: Sr. Miguel
Composto expressamente para este dia, Finaliza a comédia com O Kankan infernal
pelo digno maestro Victor Gusman, dedica- dançado pelos estudantes
do e oferecido pelo artista De Giovanni ao O ator Martins, em seguida, vestido de
nobre Corpo do Comercio mulher, executará a cena cômica de sua com-
Representar-se-á a linda comédia em um posição, ornada de música, intitulada: mue
ato, imitação do francês por uma hábil pena panela, dançando com acompanhamento de
portuguesa, ornada de música, composição castanholas a muito graciosa Aragoneza.
do Sr. Victor Gusman, tendo o mesmo se- A orquestra tocará a bela quadrilha,
nhor extraído alguns números das óperas composta, dedicada e oferecida à Sra. Je-
Elixir de Amor, Baile de Máscaras, Aroldo etc., suína pelo digno professor de música o Sr.
adaptando-os perfeitamente, intitulada: Thomaz de Araújo Ribeiro, denominada:
Bolsa e Cachimbo Gloria cênica
Personagens Terminará o espetáculo com a espiri­
Cesar, empregado na companhia do gás: tuo­sa extravagância burlesca, ornada de
Sr. De Giovanni música e dança, entusiasticamente aplau-
Simplício, caixeiro de droguista: Silva dida nos teatros Gymnasio e Lyrico desta
Leal Corte, denominada Uma noite de Carnaval,
Emília, costureira: Sra. Jesuína imitação d’une soirée de carnaval, pelo
A cena passa-se em casa de Emília, em ator Julio Xavier
Lisboa. Personagens
Em seguida a orquestra executará o Narciso Beija-flor, artista em disponibili-
HINO DE D. LUIZ I dade: Sr. De Giovanni
Depois o ator Martins (a pedido) de- Rosa Margarida, florista em exercício:
sempenhará a interessante cena cômi- Sra. Jesuína
ca, ornada de música. O Progressista
D’escacha – Pecegueiro ou o Defensor O novo título pouco durou, pois, em
da classe caixeiral princípios de 1865, voltou a ter seu pri-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 123


meiro nome: Eldorado, sendo depois mo- O Teatro Phênix, posto abaixo pelo Prefei-
dificado novamente, e reinaugurado em 14 to Passos, não possuía fachada teatral carac-
de agosto de 1866, com a denominação de terística. Possuía 10 camarotes, 308 cadeiras,
Jardim de Flora, apresentando a opereta Te- 40 galerias nobres e 500 lugares de geral.
lémaque et Calypso. Nessa época, passou a ter Respeitando a tradição do teatro que a
a alcunha de Teatro Francez das Variedades. nova planta da cidade suprimia, deliberou o
O nome Jardim de Flora também não per- Governo que o trecho onde o Phênix Dra-
durou muito, pois em 3 de maio de 1868, o mático estivera fosse vendido com a con-
famoso ator da época, Francisco Correa Vas- dição expressa de ser ali construído outro
ques, assumindo sua direção, modificou-o teatro.
para Teatro Phênix Dramática, reinauguran- O terreno foi adquirido por Eduardo Pa-
do com o drama de Cesar Lacerda São Se- lassin Guinle. E, em 1906, o engenheiro F.
bastião, o defensor da Igreja, apresentado pela Januzzi, iniciou as obras do Palace Hotel, do
Companhia Correa Vasques, com os atores Teatro Phênix, terminadas em 1908.
Jacinto Heler, Lisboa, Galvão, Pimentel e Sua fachada principal passa a situar-se na
Julia Heler. Rua Barão de São Gonçalo, depois Avenida
Como Vasques era mau administrador, Almirante Barroso n. 53. Já o novo Teatro
apesar do êxito e da boa frequência ao tea­ Phenix, em 1906, era uma construção de
tro, preferiu entregar a Jacinto Heler a em- esquina, apresentando ângulo chanfrado, fa-
presa do teatro que o arrendou em 1870 e chadas extensas, três pavimentos com trata-
1881. O teatro era particular, sendo seus mento individualizado cada um, elementos
proprietários em 1877, Rita E. Duque Es- decorativos de gosto clássico, tratados com
trada Godfroye e outros. espírito barroco, mais notadamente nos vãos
Depois de uma longa e gloriosa tempo- extremos e, principalmente, no central, co-
rada, fechou-se o Phênix Dramática, rea- roado por um grupo escultórico, além de
brindo em 12 de abril de 1888, como Tea- outras estátuas no 2o e 3o pavimento. O gos-
tro Variedades Dramáticas, com a estreia do to que preside à composição desta fachada
drama de Eugène Sue, Os mysterios de Paris, corresponde a uma tendência classicizante
encenado pela Companhia do ator Guilher- presente no ecletismo dessa época, não dei-
me da Silveira, tendo como atores: Mendes xando, no entanto, de acrescentar-lhe uma
Braga, Maia, Boldrini, Almeida, Sepúlveda, ênfase barroca, que permitira caracterizá-la
Araújo, Ismênia, Dolores, Balbina, Eldevira como uma obra neobarroca. Em seu interior,
e Clélia. havia a sala de espetáculos, os corredores, o
Meses depois, novamente Vasques rea- palco, e a cúpula, bem amplos e suntuosos. As
briu o teatro com o nome anterior Teatro escadarias e os corredores eram de mármore
Phênix Dramática, com a estreia da peça Os de carrara, as cortinas de veludo, sendo a de-
sinos de Corneille, empresariado pela firma coração interior caracterizada pelo estuque
de Guilherme da Silveira, Mattos e Lavre- dourado e pela presença de grandes espelhos
ro. Terminada a temporada de Vasques, o ornamentais. Possuía ainda o teatro, amplos
teatro fechava e abria para abrigar compa- camarins e várias salas de ensaio. O palco era
nhias de pouca duração, até ser demolido separado da plateia por uma cortina de velu-
em 1905, com a abertura da Avenida Cen- do bordada em ouro, de quase 10m, idêntica
tral, atual Rio Branco, na administração de em tamanho à outra cortina de ferro, criado
Pereira Passos. para isolar possível incêndio.

124 Teatros do Rio


Desejaram os proprietários do novo Oleneva, e a direção artística de Abadie de
Phênix inaugurá-lo com uma companhia Faria Rosa, funcionou como Cinema Phê-
brasileira, para isso entraram em entendi- nix a partir de abril de 1929, sendo ainda
mentos com o empresário Celestino Silva. remodelado na administração do Prefei-
Entretanto, fracassaram as negociações e to Henrique Dodsworth, e como Cinema
a família Guinle não pode concluir o seu Ópera, desde 1o de julho de 1937. A partir
propósito. de 1940, volta como teatro: o Teatro Ópe-
Somente dois anos depois de pronto o ra. Ali se apresentaram vários conjuntos
teatro, veio ele a ter a sua inauguração quan- artísticos: portugueses, italianos (Canzo-
do arrendado ao empresário Belloni, que fez ne de Napoli); a Casa de Caboclo (Tea-
do Teatro Phênix cinematógrafo e music-hall. tro Regional Brasileiro); Leopoldo Fróes;
Começou então o Phênix a experimentar Alexandre Azevedo etc. Em 1948, foi no-
dias incertos e amargos. Vários empresários vamente transformado em cinema, voltan-
arrendaram-no, nenhum pondo em prática do à denominação de Cinema Ópera, que
o pretendido pelos proprietários do reno- pouco durou, pois no mesmo ano tornou-
vado teatro. Djalma Moreira foi também -se o Teatro Phênix de sempre, até sua de-
um desses concessionários, que tentou es- molição (1958).
tabilizar no Phênix os espetáculos teatrais; Enfim, em 1926, depois de uma série de
entretanto, seu verdadeiro interesse eram efêmeras realizações teatrais, dentre elas a
lucros advindos do funcionamento da casa de Teatro Pequeno, dirigido por Luiz Ed-
de espetáculos como cabaret e casa de jogo. mundo, que havia se associado a Renato Al-
Proibido o jogo pela polícia, o Phênix ficou vim e Mario Domingos no seu empreendi-
fechado durante mais de um ano. Em 1926, mento, o Phênix foi arrendado a J. R. Staffa
passou por reformas, antes de reabrir efe- (1926 a 1927). Outros empresários vieram,
tivamente como Teatro Phênix. Mereceu como Vital Ramos de Castro (1937-1948),
atenção especial a iluminação do teatro: passando o teatro por uma série de degrada-
ções, chegando a abrigar filmes e represen-
de equipamento completo de refletores X tações do gênero livre.
Rey, que são munidos de lâmpadas de 150 Desde 1940, haviam sido realizadas vá-
wts.; formam a ribalta 40 desses refleto- rias tentativas para pôr fim ao teatro: em
res, em cores diferentes, podendo obter-se novembro de 1940, seus proprietários fi-
efeitos de luz da mais elevada resplandecên- zeram um contrato particular com a Cia.
cia, por isso possuem força equivalente a Imobiliária Rex, para a sua demolição,
1.000 wts. de intensidade, no montante do contrato este que foi rescindido. Em 1948,
proscênio. A iluminação do teatro também o empresário Vital de Castro quis expulsar
obedece às tonalidades as mais diversas e a Cia. de Sandro Polloni e Italia Fausta, que
delicadas, pois dispõe de 5 cores. Instalou ali se apresentava, para transformar o tea-
mais a General Eletric aparelho de fumaça, tro em cinema.
produzida quimicamente. Foi bastante me-
lhorada a sala, mais leve, mais acolhedora e a fim de que não lhe tomassem o teatro
sumamente elegante.63 [Itália Fausta], fez com que todos os artis-
tas se instalassem de cama e mesa em seus
Reinaugurado com espetáculos de féeries camarins, formando uma barreira que se
e bailados, sendo balé, criação de Maria tornou um imenso escândalo público, per-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 125


mitindo ao advogado Clóvis Ramalhete do informa Italia Fausta. Ele, em troca,
ganhar a questão em juízo, permanecendo exigia das companhias 35% da renda, sob
assim a Cia. no teatro”.64 a condição de que nunca essa renda fos-
se menor do que duzentos mil cruzeiros
Bibi Ferreira ocupou então o assediado mensais. Assim, o Sr. Vital de Castro re-
teatro da Esplanada do Castelo, contíguo ao cebia 70 mil cruzeiros de aluguel e pagava
prédio do Palace Hotel. Terminadas as duas cinco mil. Mas, como não se pode garan-
temporadas de Bibi, o Phênix voltou às in- tir estabilidade de rendas, várias compa-
certezas e vicissitudes. nhias saíram prejudicadas. Bibi Ferreira,
Em 1948, estando o teatro em poder do Maria Sampaio, Iracema de Alencar, Itália
Sr. Vital Ramos de Castro, Paschoal Carlos Fausta, o Teatro do Estudante, todos ti-
Magno operou o milagre de concorrência veram de se retirar com poucos dias de
em que consistiu a primeira atuação ali do aviso. Paschoal Carlos Magno não con-
Teatro do Estudante. Abrigou depois Sandro seguiu montar Antígona, porque Inês de
Polloni, com Maria Della Costa e Olga Na- Castro não dera ao proprietário a renda
varro, com A respeitosa. que esperava. Maria Sampaio até hoje não
O jornal O Globo de 7 de junho de 1948, conseguiu recuperar-se das perdas que
com a manchete “Acampados no Teatro até teve ao ter de dissolver sua companhia.65
a cena final”, apresentava a seguinte história
do Phênix: A última companhia que ocupou o Phênix
no ano de 1950, foi a da atriz Henriette Mo-
Todos conheciam a história do Fenix; rineau, com a peça Os filhos de Eduardo.
mas, para os novatos e aprendizes, ela foi O minucioso levantamento procedido
repetida. Houve uma Sociedade Dramá- por Otávio Rangel, diretor de cena para o
tica que fez doação do teatro à Prefeitura Serviço Nacional de Teatro (SNT), in locum
do Rio, sob a condição de sempre existi- das dependências do Teatro Phênix, relata,
rem ali um teatro e uma companhia na- na época, as condições físicas do teatro:
cional. Quando da construção do Palace
Hotel, a firma Guinle, em troca do terre- Térreo: (Frente do Teatro) Grande hall de
no que lhe foi cedido, construiu no local entrada com… 22 x 6 m escadaria de már-
do antigo Fenix o moderno Teatro Fenix. more e ferro para acesso ao 1o e 2o anda-
Explorado indevidamente como cinema res.W.C. e lavatórios laterais para homens,
até 1945, pela empresa Vital de Castro, peças estas de 10 x 4 m. Bilheterias com
foi, então, desapropriado pelo decreto 7 x 4 m. Bar com 10 x 4 m. Um pequeno
7.759. O Sindicato dos Artistas conse- hall onde se encontra o elevador.
guira, assim, mais uma casa para que seus 1o andar: Grande salão central de 20 x 4
associados trabalhassem. De acordo com m com 5 janelas e mais 2 salas laterais de
aquele decreto, deveria ser entregue às 7 x 4 m.
companhias nacionais; diretamente, sem 2o andar: Outro grande salão central
a intervenção de terceiros. Foi reapare- de 20 x 4 m e também 2 salas laterais de
lhado, e mil e quinhentos contos gastou 7 x 4 m.
a Prefeitura em obras. Mais tarde, voltou Corpo do teatro: (Térreo) Plateia com
às mãos do Sr. Vital de Castro, arrendado 320 poltronas estofadas, 6 frisas, 2 chape-
por cinco mil cruzeiros mensais, segun- leiras com lavatórios e W.C.

126 Teatros do Rio


Sobreloja: Balcão nobre com 135 pol- 3o andar: Do lado direito um salão com
tronas estofadas, 12 frisas nobres, 2 ca- 12 x 4 m; do lado esquerdo 3 camarins,
marotes especiais com antecâmara des- lavatórios e W.C.
tinados à Presidência da República e à 4o andar: Um salão assoalhado com 20
Prefeitura. 2 chapeleiras com lavatórios x 8 m para ensaios de ballet e mais 5 saletas
e W. C. para vestiário. Um outro salão ladrilhado
1o andar: Balcões de 1a com 115 poltro- com 18 x 8 m para pintura de cenários.
nas, 10 camarotes, 2 lavatórios com W.C. Rangel, Otávio. (Levantamento das de-
mais 2 camarotes com antecâmara e 2 va- pendências do Theatro Phênix, em 13 de
randas laterais. abril de 1951, para o Sr. Diretor do Servi-
2o andar: Balcão de 2a com 105 poltro- ço Nacional de Teatro.)
nas, 4 camarotes, 2 outros com antecâ-
mara, 2 lavatórios com W.C. e 2 foyers e Já o Boletim da Sbat (março-abril de 1951)
galerias. publicava em 1951 um artigo com o título:
Palco e caixa: (Térreo) Recinto para “O Teatro Phênix não pode ser demolido e
a Orquestra com 10 m; Boca de cena de deve ser desapropriado por utilidade pública”:
10 m, 16 m de fundo e 18 m de coxia a
coxia. 2 salas laterais de acesso, 3 camarins O Teatro Fenix do Rio de Janeiro, hoje um
e 3 banheiros e W.C. dos mais luxuosos e confortáveis da Capi-
1o andar: 6 camarins com lavatórios.
2o andar: 8 camarins com lavatórios. Teatro Phênix

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 127


tal é, talvez, o que no Brasil possui história Em sua coluna “Teatro”, do Diário de No-
mais interessante... tícias em 2 de junho de 1956, Henrique Os-
...Somente dois anos depois de pronto car publicava um artigo: “A luta do teatro
o teatro veio ele a ter a sua inauguração Fênix”:
quando arrendado...
...Ora, como tantos problemas, esse com-
Pela lei n. 587, de 21 de junho de 1951, a porta duas soluções: uma de resultado
Câmara Federal autorizava o prefeito a desa- imediato e outra talvez idealmente prefe-
propriar o teatro, incorporando-o ao Patri- rível, mas de efeitos muito remotos. Num
mônio Municipal, para que não fosse demo- caso agudo é sempre da primeira que se
lido. Contudo, não houve a desapropriação deve lançar mão. Ninguém acha o Fênix
por falta de verbas. perfeito; mas todos sabemos que há uma
Artigo de Martin Gonçalves publicado terrível falta de casas de espetáculos no
em O Jornal e transcrita no Boletim da Sbat Rio e que há companhias em formação
(março-abril de 1953, pág.21): ou projeto, cuja atividade ainda é uma in-
cógnita, em virtude de não terem onde
Num país onde os teatros são poucos e se apresentar. Dessa situação não escapa
alguns já foram devolvidos, é dever das nem o Teatro Nacional de Comédia, elen-
autoridades esclarecidas promover a cons- co oficial do SNT, que ou aluga um teatro
trução de novas salas de espetáculos, assim privado ou vai congestionar ainda mais o
como tratar da conservação das já existen- Municipal...
tes, evitando que a torre dos arranha-céus Quanto a que este não seja perfeito, é
devore os sobreviventes... outro ponto pacífico. Mas que outro pal-
Continua Martin Gonçalves – cons­ co de comédia se assemelha ao seu? Os de
truído ainda nas formas do teatro oitocen- Copacabana, do Serrador ou do Dulcina,
tistas, possui uma ampla sala de espetácu- que não têm fundo? E que caixa é espaçosa
los com sua plateia, frisas, camarotes, e como a dele? Se precisamos urgentemente
galerias (uma das mais altas que já conhe- de teatro e possuímos um que é mais do
cemos), que além de um palco bastante que satisfatório, não parece mais razoável
amplo que serve maravilhosamente tanto aproveitá-lo, do que esperar vários anos
ao gênero dramático como também aos por um hipotético moderníssimo a ser ins-
espetáculos de ‘ballet’– Os seus camarins talado, segundo consta, no subsolo do edi-
não são como certos cubículos de outros fício que seus proprietários pensam erguer
teatros cariocas. O Teatro Phenix possui no lugar do atual?
várias salas para ensaios e uma vasta cúpula
onde podem ser executados os trabalhos de No mesmo ano, o Correio da Manhã
cenografia. A sua decoração, o seu estuque (22/05/56) também se manifesta contra a
dourado, as suas cortinas de veludo, o seu sua demolição e ressalta suas qualidades:
velário, as suas escadarias de mármore e
ferrala trabalhada, seus lustres, completam ...No entanto, poucas salas respiram o
a atmosfera, criando um ambiente propício “ambiente” que esta possui, poucas dis-
ao espetáculo. Quando se entra no Phenix, põem dos recursos que esta possui e ne-
tem-se a impressão verdadeira de que se nhuma goza da maleabilidade que esta
trata de um teatro (grifo do autor)... possui. No Fênix, drama ou comédia,

128 Teatros do Rio


clássico ou vanguarda, ópera ou concer­ O Globo de 9 de agosto de 1965 estampava
to, conferência ou balé estão bem situa- como manchete: “O Phenix Ressurgirá à
dos, com amparo técnico, além de con- margem da Lagoa Rodrigo de Freitas”:
forto e atmosfera para o espectador. É
difícil imaginar o que seja o outro lado O Teatro Fênix ressurgirá, à margem da La-
deste teatro, com sua ampla sala para balé goa Rodrigo de Freitas, na Avenida Lineu
(barra e cinquenta metros de extensão), de Paula Machado, no local em que se eri-
caixa de 38 metros de altura (permitindo gia a fundação que emprestou nome àquela
uma amplitude de operação somente en- avenida carioca. O novo “Fênix”, segundo
contrada nos grandes teatros do mundo), promessa dos seus proprietários, será, den-
camarins inigualáveis, salas que se pres- tro de mais algum tempo, uma casa de espe-
tam aos mais variados fins e todo um con- táculos à altura das tradições que sustentou,
junto que antecipa o centro artístico que quando funcionava no centro da cidade...
infeliz e incompreensivelmente ele nunca ...Em 1944 foram feitas obras no teatro,
o conseguiu ser. por conta da Prefeitura, que desapropriara.
Não foi logo demolido, por falta de verba...
Em 1957 (04/07/1957), o Diário de No- ...Demolido, não se executaram as
tícias, comenta sobre o impasse, pois nenhu- obras e os herdeiros de Guinle pediram,
ma decisão havia sido tomada até então: por equidade, lhes fosse concedido cons-
truir um teatro em outro local, no que fo-
Desde fins de 1950 – portanto há sete anos ram atendidos. E vai surgir o novo “Fênix”,
– o Teatro Fênix permanece fechado, nesta à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas.
cidade sem casas de espetáculos...
...O Fênix ficou fechado, inútil, estra- Em 1965, Leo Vitor escreve no Jornal dos
gando-se todo esse tempo... Sports, (29/08/1965) em seu artigo “Os ne-
...Como solução intermediária foi pro- gócios da China”:
posta uma permuta de terrenos, mas os
que a municipalidade lhes ofereceu (na …na antiga Rua da Ajuda, que ligava a Rua
Avenida Presidente Vargas) foram recusa- São José à de Santa Luzia, foi inaugurado,
dos pelos proprietários do teatro, que não em 1863, a “Phoenix Dramática”, que teve
os consideraram de igual valor ao em que uma atuação muito importante, ao lado do
se ergue o Fênix, tendo, todavia, aponta- Teatro Lírico, na vida artística da cidade,
do como aceitável o existente na própria até o princípio do século.
Esplanada do Castelo, limitado pela Ave- Sendo um teatro que acolhia revistas e
nida Nilo Peçanha e ruas México e Chile, operetas, tornou-se a casa de espetáculos
atualmente utilizado como local para esta- mais popular do Rio.
cionamento de automóveis e que é de área A última peça representada foi uma
ligeiramente menor, mas em compensação opereta de Flanquette, traduzida por Ar-
tem três frentes. Esse porém, a Prefeitura tur Azevedo.
não quer ceder... Com a abertura da atual Avenida Rio
Branco foram demolidos centenas de pré-
Em 1958, o teatro é demolido, e no local, dios e, inclusive, o Fênix. A área antes
ergue-se o edifício Cidade do Rio de Janeiro, ocupada pelo teatro foi adquirida por 180
um prédio comercial de 22 andares. contos de réis, por Eduardo Palassin Guin-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 129


le, com a condição contratual do novo res, um teatro para mil espectadores, com
proprietário construir no local um teatro todo o conforto e equipamento modernos.
de mil lugares. As peças inseridas no processo eram lin-
E começou então o jogo tão bem ma- das. Mas a classe não acreditou e protestou
nipulado por esses senhores tão bem-su- em vão.
cedidos. Agora, os herdeiros do Guinle pediram,
Em vez do teatro, construíram um ho- dizem os jornais, por equidade, um terre-
tel, o Palace, e ainda queriam construir no para construírem um teatro.
uma garagem nos fundos. A pretensão foi atendida e será erguido
Houve grito, naturalmente, e o prefeito à margem da Lagoa Rodrigo de Freitas. O
de então exigiu o cumprimento da cláu- sentido da palavra equidade é, realmente,
sula que ordenava a construção do teatro misterioso, neste caso. O que não consti-
no terreno. tui mistério, para ninguém, é que será cer-
Como já haviam ganho a área do hotel, tamente construído um hotel, ou a coisa
que já estava pronto na parte que dava para que estiver dando a maior rentabilidade,
a Avenida, resolveram construir o teatro no momento.
em 1913.
Serviu como sede da casa do Caboclo, Sobre a omissão do Governo Estadual
do Bailarino Duque, foi arrendado à Em- quanto ao teatro, Yan Michalski, em seu ar-
presa Vidal Ramos, funcionando como tigo no Jornal do Brasil (18/03/1966), co-
cinema. E até, por algum tempo, ficou menta:
alojada em uma de suas salas a Academia
Carioca de Boxe. …Hoje, somos obrigados a chamar a aten-
Quando os proprietários se distraíam ção das autoridades estaduais para um as-
com outros negócios desse gênero, o Fê- sunto já antigo, mas cuja evolução recente
nix acolhia companhias de operetas, “Os parece poder se constituir numa ameaça a
comediantes”, a “Cia. Bibi Ferreira”, “San- um direito legítimo do teatro carioca num
dro Polônio-Maria Della Costa”. setor particularmente importante: o setor
Em 1944, a Prefeitura fez obras no tea­ das casas de espetáculos.
tro, a esta altura em ruínas, e o desapro- Há cerca de dez anos atrás, o belo e
priou. tradicional Teatro Fênix, localizado num
Começou então, novamente, a luta excelente ponto no Centro da Cidade,
pela demolição, uma vez que a família foi demolido para dar lugar a um grande
proprietária queria demolir o hotel, para edifício. Ora, existe uma lei estadual que
construir um gigantesco edifício e o Fê- obriga os proprietários, nestes casos, a
nix, atrás do hotel, representava uma área construir um novo teatro no próprio edi-
preciosíssima, pois o teatro dava frente fício levantado no local do antigo teatro.
para duas ruas, valorizando deste modo Os interessados conseguiram, na época,
todo o edifício. escapar em parte da obrigação à qual esta-
O cansaço em descrever todas essas ma- vam, em princípio, sujeitos, e obtiveram
nobras, fez-me resumir a batalha judicial, a autorização para a demolição do Fênix,
para informar apenas que, finalmente, foi mediante o compromisso de construírem
dada licença para a demolição, com a condi- um novo teatro, não no local original,
ção de ser construído nos 4 primeiros anda- mas sim na Lagoa (ou seja, num terreno

130 Teatros do Rio


mais barato e num ponto comercialmen- emissoras de televisão, para ser transfor-
te muito menos interessante). mado em estúdio de TV.
Cerca de dez anos se passaram desde en-
tão: tempo suficiente não só para construir Respondendo a um artigo de Brício de
um teatro, mas para construir uma cidade. Abreu, no O Jornal de 1968, Paula Machado,
O novo edifício da Rua México, erigido escreve-lhe uma carta publicada a 25 de ja-
em cima do cadáver do velho Fênix, in- neiro no mesmo jornal:
tegra, há muito, a paisagem carioca. Mas
o prometido novo Teatro Fênix da Lagoa O Sr. Brício de Abreu publicou ontem nes-
permanece mergulhado num denso misté- se conceituado jornal, comentários a res-
rio. No ano passado, chegaram a circular peito do Teatro Fênix.
boatos sobre a sua próxima inauguração, Assunto já amplamente esclarecido e
logo seguidos de um completo silêncio. resolvido pelos setores competentes, volta
Um silêncio carregado de significados, a ser tratado por aquele ilustre comenta-
ao que parece: esta semana, com efeito, rista com evidente equívoco.
fomos informados, por fontes cuja ido- O terreno onde se ergueu o antigo
neidade está acima de qualquer suspeita e Teatro Fênix não “foi dado de graça” ou
que nos merecem a maior confiança, que “doado” à família Guinle – foi objeto de
o novo Fênix, já quase pronto, estaria em
vias de ser negociado com uma das nossas Teatro Phênix. Vista aérea

Arquivo Cedoc/Funarte

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 131


escritura onerosa da compra e venda la- espontaneamente, reconhecendo o valor
vrada em 1906, sendo comprador Eduar- cul­­­­­tural de uma casa de espetáculos.
do Palassin Guinle e vendedor a Fazenda Aprovado o projeto de construção do
Nacional, representada pelo Ministério Edifício, foi paradoxalmente negada a licen-
da Indústria, Viação e Obras Públicas – ça para a demolição do velho prédio tendo
Comissão Construtora da Avenida Cen- os proprietários impetrado um mandato de
tral, como consta de escritura lavrada em segurança, que lhes foi concedido.
14 de novembro de 1906, no Cartório do Desejando transferir a construção do
30 Ofício de Notas à fl. 40 do livro nú- teatro para outro local, sem incluí-lo num
mero 768. prédio comercial, por desvantagens de or-
A escritura em apreço, em sua cláusula dem técnica, que surgiram ao se detalhar
4 dizia:
o
o projeto aprovado, voltou o assunto, por
‘… 4o - …a venda é feita … livre de fo- ordem do então governador provisório, a
ros e sob as seguintes irrevogáveis e subs- Consultoria Jurídica do Estado. Sobre o
tanciais condições e obrigações: assunto, afirmou o Procurador Geral do
a) construir o outorgado no referido Estado, Dr. Josino Medeiros: “Em suma.
terreno um ou mais edifícios; A cláusula da escritura de 1906 não é de
b) construir um teatro para cerca de mil ser classificada de “modus” ou “encargo”,
espectadores… tratando-se, como se trata de contrato
ficando entendido que a presente condição oneroso, como é o de compra e venda.
será considerada como tendo tido pleno e Constando, portanto, da referida escritu-
satisfatório implemento, mediante a efeti- ra, a obrigação de – a) ‘construir no terre-
va construção do edifício do teatro, sem no um ou mais edifícios; b) construir um
que o outorgado se ache a mais obrigado teatro para mil espectadores, ficando en-
de futuro…; – (tabelião do Terceiro Ofí- tendido que a presente condição será con-
cio de Notas – 14-11-1906). siderada como tendo pleno e satisfatório
Cumprida a condição, conservou-se o implemento, mediante a efetiva construção
Edifício por mais de 40 anos, até que os do edifício do teatro, sem que o outorgado
proprietários resolveram demoli-lo, por a mais se acha obrigado de futuro…’, tenho
desatualizado e imprestável para o fim que a condição aí imposta, está constante,
a que se destinava como tão bem disse o e, obtido o seu implemento satisfatório, de
próprio senhor Brício de Abreu em artigo acordo com a vontade das partes, com a só
publicado no Diário da Noite em 28 de ju- obrigação da construção do edifício, com
nho de 1956, sob o título “Um punhado de um teatro, o que foi observado”.
verdades à margem de um debate”. Resolvida juridicamente a tese do cabal
Por Lei Municipal, foi autorizada a de- cumprimento da condição imposta na es-
sapropriação do imóvel. Havendo falta de critura de compra e venda de 1906, acima
recursos e pelos graves defeitos técnicos citada, não se efetivou naquela oportu-
do imóvel, preferiu o então prefeito não nidade a construção em outro local, que
realizá-la. Embora os proprietários tives- motivara aquela consulta e despacho.
sem pleno domínio do terreno, sem esta- Em 1963, propuseram os atuais pro-
rem obrigados a manter um teatro, sub- prietários ao governador do Estado a
meteram à aprovação projeto de edifício construção do teatro em terreno próprio,
onde se incluía um teatro o que só fizeram no bairro do Jardim Botânico, bairro esse

132 Teatros do Rio


que, com a construção do túnel Rebouças ...Em 1935, observou o Sr. Francisco Mo-
tornou-se rápida e facilmente acessível à reno, “foi promulgada lei que determina-
zona norte, e já com evidentes vantagens va a construção de três teatros na cidade”.
de acesso para os habitantes da zona centro Em 1949, frisou o advogado, “surgiu a Lei
e sul, facilidades de estacionamento etc. n. 346/24/9, que determinava a constru-
Aceita a proposta, foi lavrado Termo de ção de mais 6 casas de espetáculo. Final-
Obrigações entre os proprietários e Go- mente, dois anos depois surgiram a Lei
verno do Estado, publicado no Diário Ofi- n. 587/21/6, que desapropriou o Teatro
cial de 29-8-1963 (Parte I, página 17.609). Fê­­nix, e o Decreto n. 688, que declarou
Em consequência, construiu-se moder- Zona Teatral da cidade a área compreendida
no teatro com todos os requisitos técnicos, pelos seguintes logradouros: toda a exten-
excelente visibilidade e acústica etc… Foi são das ruas do Passeio,Visconde de Maran-
assim plenamente cumprida a obrigação guape e Praça Mahatma Gandhi, Floriano
assumida voluntariamente pelos proprie- e Largo dos Pracinhas; o trecho inicial da
tários, nada havendo de estranhável e ir- Avenida Men de Sá; e o perímetro da Rua
regular. Senador Dantas compreendido entre as
O imóvel do atual teatro, acha-se, pois, Ruas do Passeio e Evaristo da Veiga.
livre e desembaraçado de qualquer ônus,
podendo os proprietários dele dispor co­ A classe teatral na época não estava dis-
mo melhor lhes convier. posta a concordar com a troca de local para
É o que tínhamos a informar ao prezado o Jardim Botânico, porque achava a distância
amigo, pedindo-lhe o obséquio de publicar muito grande. A TV Globo passou a utilizá-
a presente carta no seu conceituado jornal. -lo, depois do incêndio que destruiu o audi-
Atenciosamente – Francisco Eduardo tório da Rua Lopes Quintas.
de Paula Machado.

Em 8 de julho de 1969, é inaugurado o 1870


Teatro Fênix (já sem o Ph), com o auditório Teatro São Luiz
Vicente Celestino, O Globo faz os seguintes
comentários: Não deve surpreender a ninguém o fato de
se representar tanto em francês no Rio de
Reconstruído há dois anos, à margem da Janeiro, nas primeiras décadas do Segundo
Lagoa Rodrigo de Freitas, e mantido de Reinado. Havia, na cidade, considerável nú-
portas fechadas até agora, será finalmente mero de franceses, empenhados em diver-
inaugurado o novo Teatro Phoenix, com sas atividades, no comércio, na hotelaria, no
a encenação da peça Vidrado, de Cruzoni, ensino, nas artes e até no jornalismo. Circu-
que é dirigida por Ricardo Pupo... lavam no Rio de Janeiro vários semanários
...escolhida para reabertura do Teatro em francês e até uma revista de caricaturas,
Phoenix, marca a estreia de uma atriz de intitulada Ba-ta-clan. Era a colônia francesa
18 anos, Scarlet Moon... do Rio de Janeiro imperial bastante nume-
rosa. Mas não era tão numerosa quanto a
Em 1969, O Globo em sua edição do dia portuguesa, engrossada constantemente por
19 de julho, publica: “Casa dos Artistas vai à novas edições, sobretudo de artistas emigra-
Justiça em defesa do Fênix”: dos de Lisboa.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 133


Arquivo Cedoc/Funarte

Um desses artistas que teve grande in- Teatro São Luís

fluência em nosso meio – o ator dramático


e empresário Luis Cândido Furtado Coe- A da frente, para a Rua S. Francisco de Paula
lho – se fixou no Rio de Janeiro em 1858 e n. 37C que, posteriormente, veio a ter sete
aqui prosperou, naquela dupla condição. A outras denominações: Souza Franco (decisão
ele ficaria o Rio de Janeiro devendo a cons- da Câmara em sessão de 01/06/1874); Tu-
trução de dois teatros. O primeiro deles foi cuman (Decreto n. 1.083, de 08/06/1916);
o Teatro São Luiz, que tinha duas fachadas. Teatro (Decreto n. 1.165, de 31/10/1917);

134 Teatros do Rio


Professor Gomes de Souza (Decreto n. 1.703, nos. Havia ainda ao lado da Tribuna Imperial
de 24/03/1922); Teatro (Decreto n. 2.517, algumas salas de descanso.
de 22/12/1926); Leopoldo Fróes (Decre- No fundo do palco foram construídos vin-
to n. 3.839, de 11/04/1932); e atualmen- te camarins, todos com janelas para a rua e
te, Rua do Teatro (Decreto n. 6.277, de o pano da boca corria inteiro. O risco, o de-
20/08/1938). A outra fachada dava para a senho das fachadas e o teto eram de Leroyer,
Rua do Cano, com a entrada de acesso do que dirigiu também a construção do teatro.
Imperador. A Rua do Cano é a Rua Sete de Os trabalhos de escultura de Sommer e os
Setembro e o local onde existiu o teatro é, das pinturas dos mármores, fachadas e en-
hoje, ocupado pela Galeria Silvestre – Rua tradas principais, de Medeiros; os trabalhos
do Teatro, n. 19. de pintura geral e dourados de Guimarães.
O Teatro São Luiz era uma casa pequena, Nas décadas seguintes à inauguração, Furta­­
cuja inauguração se deu em 1 de janeiro de do Coelho, depois de muitas aventuras e liga­­
1870 com a peça romântica A Morgadinha ções com atrizes, apaixonou-se pela jovem
de Val-Flor, do escritor português Pinheiro por­­­­tuguesa Lucinda Simões. Os dois se casa-
Chagas e teve como empresário o próprio ram, apesar da grande diferença de idade, e em
Luiz Cândido Furtado Coelho, e como pro- honra de sua jovem esposa, Furtado Coe­lho
tagonista a atriz Ismênia dos Santos. deu logo início à construção de um novo tea-
A fachada, sustentando padrões estéticos tro, mais amplo e mais luxuoso que o primei­­ro:
neoclássicos, o Teatro Lucinda, de que falarei mais adiante.
Em requerimento de 6 de julho de 1877,
Apresentava várias ordens de pequenas ja- José Feliciano Castilho solicita à Câmara
nelas, separadas por colunetas, e abria três autorização para a realização de obras no
portas para a rua... A fachada da frente, a teatro a fim de melhorar a sua ventilação.
da Rua do Teatro, que mais obedecia aos O proprietário decide, também, abrir uma
rigores da estética, rematava por uma pla- varanda, na altura dos camarotes, à qual se
tibanda triangular, ornada de três estátuas tinha acesso através de três portas.
em alto-relevo.66 Em 1883, conforme o Almanak Laemmert,
(p.1243) “a lotação do teatro passa para 356
Sua plateia tinha 294 cadeiras numera- cadeiras, 150 lugares nas galerias, 18 cama-
das, divididas por uma grade, separando as rotes e 1 camarote imperial”.
do lado par das do lado ímpar. Ao longo das Como propriedade particular, o Teatro São
paredes laterais havia bancos de palhinha Luiz teve sucessivos donos. Foi fundado pelo
com lotação para 32 pessoas e nas laterais da advogado Francisco Carlos A. Brício, um dos
orquestra existiam duas plataformas eleva- signatários da Proclamação da República.
das destinadas aos camarotes da polícia e de Vários outros proprietários se sucederam:
administração pública, cercadas de grades. Luiz Cândido Furtado Coelho (1869/1872);
Ambas se comunicavam com o palco e com D. Ismênia, empresá­ria (1875); José Felicia-
a plateia. Contava ainda com 34 camarotes no de Castilho (1876/1877); Dr. Joaquim
dispostos em duas ordens, e mais dois que Luiz de Oliveira Castro (1877); D. Emília
formavam a Tribuna Imperial elegantemen- Adelaide Pimentel, empresária (1877).
te dourada e disposta ao lado direito do pal- O Teatro São Luiz desapareceu no início
co, com abertura para a fachada na Rua Sete de 1886. No seu local construiu-se um pré-
de Setembro, por onde entravam os sobera- dio residencial.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 135


1872 fachada se voltava para o Largo do Rossio.
Teatro Casino Franco – Brésilien A entrada do teatro era feita por um amplo
(Teatro Carlos Gomes) corredor da Rua do Espírito Santo porque
não possuía fachada para a rua,
O Teatro Casino Franco-Brésilien, foi inau-
gurado em 1o de fevereiro de 1872 e ficava Aberta pelos lados sobre o jardim que a
situado na Rua do Espírito Santo, n. 2, na cercava, a sala de espetáculos era fresca e
Praça da Constituição. Em 1896, com a mu- agradável. Por sobre a plateia, corria uma
dança de nome do logradouro, seu endere- galeria única, em cujas extremidades se
ço passou a ser Rua Luiz Gama. Pela revisão formavam os camarotes.67
da nomenclatura dos logradouros públicos,
Decreto 1.165 de 31 de outubro de 1917, Em estilo campestre, apresentava um ca-
restabeleceu-se a antiga denominação de marote imperial, 18 camarotes de primeira
Rua do Espírito Santo (1796-1917). Final- e 4 de segunda, 129 varandas, 81 cadeiras
mente o Decreto 1.599, de 6 de setembro numeradas e 300 lugares na galeria.
de 1921, alterou o nome para Rua Pedro I. A empresa foi dirigida pelo ator Sou-
Atualmente o teatro ocupa o n. 19 da Praça za Martins, que permaneceu no teatro de
Tiradentes (ex-Constituição), esquina com 1872 (dois meses após sua inauguração)
a Rua D. Pedro I. até meados de 1877, quando foi arrendado
O teatro havia sido construído com a fina- pelo casal Lucinda Simões e Furtado Coe-
lidade de exibir números de café-concerto, lho, até 1879.
com predominância de artistas franceses e O programa de inauguração constou de
ficava nos fundos do Hotel Richelieu, cuja canções brejeiras, duas árias pelo artista Du-
pont, e duas comédias nas quais tomaram
parte Céline Pons e os atores Auffray e Desir,
Arquivo Cedoc/Funarte

componentes da Troupe Française, sob dire-


ção de Brício. O teatro havia sido proprieda-
de particular e a primeira notícia que se tem
faz referência a João Braulio Muniz como
sendo seu proprietário.
A partir de 29 de outubro de 1880, passa
a chamar-se Teatro Sant’Anna, em homena-
gem a Ana, mulher do novo proprietário,
Pedro Ferreira de Oliveira Amorim. Foi rei-
naugurado com a apresentação da Opereta
de Hervé, La fille du tambour major. Por sua
morte, torna-se propriedade de seus her-
deiros: D. Balbina de Amorim Moraes, José
Fernandes de Faria Machado e sua mulher
D. Maria do Carmo Ferreira Machado, Pe-
dro Ferreira de Amorim Júnior, Dr. João
Paulo de Carvalho e sua mulher D. Alber-
tina de Carvalho e José Bruno Nunes e sua
Teatro Carlos Gomes. Fachada primitiva mulher D. Henriqueta Nunes.

136 Teatros do Rio


O Jornal Méssager du Brésil, de 25 de junho esta ideia, pois estando isolada, esta últi-
de 1880 (Apud, Lafaiette Silva, p. 63), for- ma será preferida pelas famílias. As pro-
nece uma descrição do teatro: porções e a simetria foram observadas em
todo o edifício. A boca do palco cênico
Na esquina da Praça da Constituição e Rua tem 10 metros de largura e mais ou menos
do Espírito Santo eleva-se um edifício ve- outros tantos de fundo. A sua altura desde
dado aos olhos dos transeuntes pelas casas a base é de 4,5 metros. Não somos de opi-
que o rodeiam. Se penetrarmos, porém, nião que este palco seja grande, mas para
pela estreita e baixa entrada entulhada o gênero a que está destinado, o julgamos
por materiais de toda espécie, nos admi- suficiente. Esta é a impressão que nos dei-
raremos em ver um edifício tão majestoso. xou este teatro na nossa rápida visita. O
Com efeito, à frente de seis enormes co- conjunto e as partes honram o arquiteto e
lunas, surge um frontão triangular. O ris- os artistas que o coadjuvaram.
co arquitetônico, apesar da simplicidade,
tem um quê de grandioso. À primeira vista Apesar de possuir uma acústica que dei-
nos lembra a Igreja da Madalena ou Cor- xava a desejar, era um teatro com uma boa
po Legislativo. O antigo cassino lá se foi, frequência de público, pois ficava lotado em
hoje nem vestígio fica dele, e, em seu lugar todas as suas sessões e por lá passaram várias
aparece o Teatro Sant’Ana com elegância e companhias estrangeiras: uma francesa, da
garrídia esperando a sua abertura. Passan- atriz Julie Lentz; uma espanhola, de zarzue-
do o peristilo, nos chama repentinamente las e a companhia italiana Semma Cuniberti.
a atenção a habilidade com que se aprovei- Em 13 de julho de 1888, após algumas re-
tou a forma circular da sala, dando-se-lhe formas, foi reaberto ao público oferecendo
assim toda a comodidade que um recinto segurança e melhores acomodações ao pú-
desta espécie requer: a mesma disposição blico. Uma agradável aparência, quer pelas
se observa no andar dos camarotes: entre pinturas e outras pequenas reformas ou res-
cada coluna há uma sacada, que dá para o tauro tanto da parte externa como interna
jardim. No segundo andar há uma disposi- do teatro. Possuía uma tribuna nobre, 18
ção análoga, com a diferença que aqui os camarotes de primeira classe e 4 camarotes
camarotes são substituídos por uma série de segunda classe, 81 cadeiras numeradas e
de bancos. Tanto aqui como no andar dos 50 lugares nas galerias.
camarotes nada se descuidou para o bem- No final de 1881, o teatro foi arrendado
-estar do espectador e para que se veja e se pela Companhia Jacinto Heler, que montou
ouça comodamente. O teto é muito alto, diversas revistas da parceria de Artur Azeve-
para a comodidade das galerias. As aber- do e Moreira Sampaio.
turas, profissionalmente colocadas hão de Em 1904, o teatro é vendido à Empresa
permitir uma constante ventilação. Paschoal Segreto Diversões S/A, que per-
O teatro poderá conter 1.500 espec- maneceu na propriedade até 31 de dezem-
tadores. Podia aumentar-se este número, bro de 1981. Em 1 de janeiro de 1982, José
porém limitaram-se a este para a como- Rômulo Dantas adquiriu-o.
didade da sala. Há na plateia cadeiras de Em 1905, já de propriedade de Paschoal
primeira e segunda classe, e ao redor das Segreto, o teatro foi todo reformado, mo-
mesmas, existe uma varanda com três ou dernizando suas dependências internas de
quatro fileiras de cadeiras. Foi muito feliz acordo com os preceitos higiênicos exigi-

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 137


dos pela Saúde Pública, e nessa época a di- A galeria que tem 2 camarotes por cada
retoria da Empresa Segreto Diversões, com lado, corre por cima dos camarotes. Tem
sede no primeiro andar do anexo do Teatro uma frisa do lado direito do proscênio que
Carlos Gomes, na Rua Pedro I, era formada não figura na planta. Dimensões: compri-
pelos irmãos Luiz e Martinho Segreto, seu mento da plateia: 14,9 m; largura: 17 m;
sobrinho Caetano Segreto e o Sr. Emílio altura do teto: 9,2 m; largura da boca de
Ibrahim, além de vários acionistas. cena: 10,4 m; altura: 8 m; lotação: cama-
O teatro foi todo pintado em agradável rote de 1ª - 20; camarote de 2ª - 4; cadeiras
tonalidade verde, as escadas forradas de ta- - 537; galerias - 250; entradas gerais - 500;
petes e montado o gabinete de toilette para frisas - 1.
senhoras. O terraço e o bar, mais arejados,
receberam nova decoração. Com estilo mais Já o Almanak Laemmert de 1911/1912
moderno para a época, a iluminação dupla a (p. 97) informa que eram 20 camarotes de 1ª,
bico Auer e a eletricidade; a remoção do ar
fazia-se por ventiladores laterais fixados nas
colunas circulares; a plateia mais alargada,
com as passagens forradas de tapetes; repos-
teiros, cortinas e lavabos nas passagens dos
camarotes; e a caixa, aumentada, foi toda
repintada. Descreve o Almanaque Brasileiro
Garnier, de 1908 (p.421):

Fotografia Augusto Malta


A entrada da Rua Pedro I atual, então ainda do Espírito
Santo, em 1916. À direita o primeiro prédio que abrigava o
Teatro Sant’Ana, depois denominado Carlos Gomes

138 Teatros do Rio


2 camarotes de 2ª; 475 poltronas (fauteils); como tudo quanto possuíam os artistas. O in-
60 cadeiras de 2ª, 260 lugares na galeria e cêndio consternou a cidade e a classe teatral.
400 nas gerais. A Casa dos Artistas fez um apelo às compa-
O teatro situava-se em frente a um largo nhias que se achavam trabalhando para que,
pátio cimentado, defendido por um gradil cada uma das pessoas empregadas cedesse um
de ferro e com cobertura de folhas de zinco, dia de serviço, em favor do pessoal da Com-
mobiliado com mesas e cadeiras de ferro, panhia Margarida Max.
fornecidas por uma companhia de cerveja, Reconstruído, em estilo art-déco, foi rea-
onde eram servidas refeições, antes e depois berto no mesmo local e com o mesmo
do espetáculo. nome, em 6 de abril de 1932, com o pro-
É inaugurado em 26 de janeiro de 1905, jeto do arquiteto Nazareth de Castro. O
com o nome de Teatro Carlos Gomes, apre- teatro em si não era uma nova volumetria
sentando o drama em quatro atos Papa Le- no espaço da paisagem da Praça Tiradentes,
bonnard, de Jean Aicard, versão de Manoel mas sim uma sala de espetáculos no inte-
Penteado e Luiz Galhardo, com a Compa- rior de um prédio, abrindo caminho para
nhia Christiano de Souza e Lucinda Simões, as inovações arquiteturais, cabendo a cons-
compondo o elenco, por personagens; Le- trução à Companhia Construtora Nacional
bonnard, Christiano de Souza; Marquês S.A., sob a direção do engenheiro militar
D’Estrey, Ferreira de Souza; Roberto Le- Hildeberto de Albuquerque. O novo teatro
bonnard, Antônio Serra; Dr. André, Ernesto foi concebido sob um prédio de aparta-
Silva; Madame Lebonnard, Lucinda Simões; mentos cuja fachada arredondada obedecia
Joana Lebonnard, Adelaide Coutinho; Bran- à curvatura da esquina. Apresentava uma
ca D’Estrey, Julieta Pinto; Martha, Adelaide arquitetura despojada, com geometrização
Pereira. Cenografia de Chrispim do Amaral. de elementos decorativos típicos da lingua-
Em 1929, o teatro era ocupado pela gem art-déco.
companhia de revistas empresariada por No pavimento térreo, o teatro oferecia aos
Manoel T. Pinto, sendo a atriz principal seus frequentadores, a novidade da tempora-
Margarida Max. Na manhã de 27 de agosto da: uma sala de chá, no nível dos camarotes
do mesmo ano, o velho casarão foi total- e balcões, além de butiques e pequenas lojas.
mente destruído por um incêndio, ocasião Na época da sua inauguração, o Carlos
da temporada da peça de Luis Iglesias Onde Gomes possuía mil poltronas dispostas na
está o gato?. Só restaram de pé as colunas plateia, no balcão nobre e nas galerias.
de ferro que formavam o esqueleto do tea- A caixa cênica de modelo italiano, com
tro, sustentadoras dos andares onde havia um enorme palco, com ampla boca de cena
camarotes e galerias. e urdimento, permitia que fossem encena-
A causa do sinistro foi atribuída a operários dos quaisquer gêneros teatrais, inclusive,
da Light que, com maçarico aceso, faziam re- óperas e grandes balés. Camarins grandes e
paros na instalação elétrica. Foi total a perda, pequenos foram distribuídos em três pisos:
para as Empresas Paschoal Segreto, M. Pin- O pano de boca, com motivos do Gua-
to e para a Companhia Margarida Max, que rani, foi pintado pelo cenógrafo Hyppolito
ocupava o teatro na ocasião e estava no ápice Colomb com um belo desenho colorido e
de rendosa temporada, com a peça de Luis justeza de perspectivas admiráveis.
Iglesias. Arquivos, cenários e guarda-roupa da Já finalizando as obras, a imprensa é con-
companhia ficaram reduzidos a cinzas, assim vidada para acompanhar os últimos retoques:

Capítulo 2 | O teatrO de uma capital ainda prOvinciana 139


Sua decoração interna é alegre e de bom Fachada do teatro Carlos Gomes em 1929

gosto: as instalações elétricas, quer do pal­


co, como da plateia, nada deixam a dese- formista Fátima Miris. O programa foi di-
jar. Na plateia ficam 900 cadeiras e 200 vidido em duas partes: a primeira, de puro
lugares nos balcões. Possui ainda o teatro transformismo, com a mostra de um arranjo
400 lugares nas galerias e 28 nos camaro- da Viúva alegre e a segunda, de variedades,
tes. Para comodidade dos espectadores foi em que cantou, apresentou duas girls e ofe-
construída no primeiro andar do edifício receu, em companhia de sua irmã Emília
uma luxuosa e ampla sala de espera, onde Frassinesi, um número de imitação. Além
os frequentadores poderão, nos intervalos, dessas exibições, Fátima Miris cantou um
servir-se de chá, sorvetes e refrescos. Além número cômico e outro sentimental.
dessa linda sala de espera, o teatro possui Por mais de uma vez houve tentativa de
outras destinadas aos espectadores das ca- transformar o Teatro Carlos Gomes em ci-
deiras e dos balcões. Embaixo está um es- nema. De 1o de abril a fins de outubro de
paçoso hall decorado com apurado gosto. 1935, funcionou como cineteatro, passando
O palco tem 20m de largura por 17m de somente em novembro de 1935 exclusiva-
comprimento; a boca de cena mede 11m. mente para cinema. Em 8 de abril de 1935,
Os excelentes camarins, em número de com o início da temporada cineteatro, foi
20, estão localizados em 3 andares do lado apresentado Espelho de casa, interpretado
esquerdo do palco, tendo todos especial por Manuel Durães, Conchita de Moraes,
instalação elétrica e água corrente. Possui Hortensia Santos e outros.
ainda o teatro uma ventilação especial no Um segundo incêndio destruiu o teatro,
teto e uma renovação de ar, por aparelhos no dia 7 de maio de 1950. Estava alugado
colocados no assoalho.68 ao empresário Hélio Ribeiro que apresenta-
va a companhia de sua própria esposa, Bibi
Em 6 de abril de 1932, após o primeiro Ferreira, na revista musicada Escândalos de
incêndio, reabriu com a exibição da trans- 1950. O fogo atingiu o palco, a caixa, os

140 Teatros do Rio


camarins (exceto o de Mara Rúbia), os ce- taldo Policena, com direção de José Maria
nários, o pano de boca, a oficina de carpin- Monteiro e cenários de Luiz Paulo Senra.
taria, a central de eletricidade, os aparelhos Dois anos depois, em 1963, foram reali-
de transmissão de uma emissora, o guarda- zadas obras por ordem do Sr. Lívio Bruni,
-roupa das girls e dos artistas e mais alguns visando adaptar o teatro para cinema, com
instrumentos de música. abertura da boca de cena para colocação de
Apesar de todo danificado, o Teatro Car- tela cinemascope.
los Gomes foi reparado em poucos meses, Durante aquele ano, foram apresentados
ficando as obras de reconstrução a cargo da filmes intercalados com espetáculos ao vivo.
Companhia Nacional e foram introduzidos Contra este fato houve veementes protestos
novos melhoramentos aos já adaptados. do Sindicato dos Atores Teatrais, Cenógrafos
Em 31 de agosto de 1950, o teatro refor- e Cenotécnicos do Rio de Janeiro, represen-
mado reabriu com a revista de Luis Peixoto, tados pelo seu Presidente Fred Villar, e da
Mão boba, com Beatriz Costa, Colé, Salomé, Casa dos Artistas, junto ao então Governador,
Rafael Garcia, Spina, Jurema de Magalhães, Carlos Lacerda. A classe teatral movimentou-
Celeste Aída, Zé Coió, Zilca Salaberry, -se a fim de preservar um patrimônio que
Francisco Dantas, Virgínea de Noronha, Re- pertencia, de fato, à cidade, impedindo que o
nato Restier, Vanete e João Elísio. Bailarinas: excelente palco se transformasse em mais um
Inez Helmkapf, Nelida Galvan e Neli Lujan. cinema da cadeia Bruni.
Ballets: Las Chicas del Mar del Plata, vindas de Em 2 de agosto de 1963, o Diretor Na-
Buenos Aires, Garotas de Copacabana e o Ne- cional do Teatro do Ministério da Educação
gro. Música do Maestro Vicente Paiva; José e Cultura, Joaquim Roberto Correia Freire,
de Alencar, diretor de montagem; Humber- e o presidente do sindicato assinaram uma
to Cunha, diretor de ensaios e palco; Helena
Soares, guarda-roupa; Aurélio Sá, chefe de
contrarregra; Lucídio Soares, direção dos
efeitos de luz.
Como consequência de um curto-circui-
to, um terceiro incêndio atingiu o teatro, em
27 de setembro de 1960, destruindo os ce-
nários, o palco, o camarim de Virgínia Lane
e o porão, onde estavam guardados mate-
riais diversos de propriedade da empresa e
de seus empregados. No dia do incêndio ali
se exibia a Companhia de Max Nunes e J.
Maia, que havia estreado no dia 23 e apre-
sentava a revista Segura o Ximango.
O teatro reabriu em 15 de setembro de
1961, completamente reformado, com pal-
co maior, poltronas novas e instalações elé-
tricas modernas, apresentando a peça L.R.S.
– Liga de Repúdio ao Sexo, de Abílio Pereira
de Almeida, contando no elenco com Dercy
Gonçalves, Jean Jacques, Peggy Aubry, Ca- Teatro Carlos Gomes

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 141


Declaração Pública em defesa da permanên- nados a qualquer outro fim, sem expressa
cia do Teatro Carlos Gomes, exclusivamen- autorização, em processo próprio, do Pre-
te como teatro, com amparo legislativo no feito do Distrito Federal.
Art. 2º do Decreto- Lei n. 7.959, de 17 de
setembro de 1945, que determinava: O jornal A Noite, em 8 de agosto de 1963
publicava:
Os atuais edifícios ocupados por teatros,
bem como os que foram ou venham a ser Em 1955, houve da parte da Empresa Pas-
construídos com sua finalidade, não pode- choal Segreto uma tentativa de transfor-
rão ser utilizados como cinemas ou desti- mação da referida sala de espetáculos cêni-

Teatro Carlos Gomes em 1932. Fachada

142 Teatros do Rio


cos, em cinema, sob pretexto de não haver superiores onde, no primeiro, após outro
interesse por parte das empresas teatrais hall, com espelhos nos cantos, se situam
de ocupá-lo em temporadas. os camarotes. No último andar, as galerias,
com suas fileiras de cadeiras. Por trás do
E o jornal A Notícia, no dia 17 do mesmo imenso palco há espaço de sobra. Os ca-
mês, ameaçava: marins, bem espaçosos, em número de 16
se situam nos primeiro e segundo andares.
Se o Governador Carlos Lacerda liberar, Ao percorrer-se o teatro, sente-se a cada
em seu despacho, o Teatro Carlos Gomes passo o estado de abandono em que se en-
para cinema, os artistas vão residir no pré- contra: paredes descascadas, infiltrações no
dio do teatro, caso a polícia venha a inter- teto, portas em mau estado e nas janelas,
vir, daremos um “show” para ela, foi o que que imitam vitrais, os vidros estão aos pe-
declarou ontem, na reunião do Sindicato daços ou são simplesmente espaços vazios.
da classe, o Sr. Fred Villar (Fred do “care- Não há no Teatro Carlos Gomes uma ar-
quinha”), na presença do Sr. Mauricio Fé- quitetura que marque época, nem obras de
lix de Souza, Diretor de Serviços de Teatro arte em sua decoração. Seu valor maior é o
do Estado da Guanabara. sentimental, além do fato de ser uma das
melhores casas de espetáculos do Rio.69
Em novembro de 1966, o teatro, arren-
dado por Lívio Bruni, foi temporariamente Como comentário à observação de Mi-
transformado em cineteatro, apresentando riam Alencar, no último parágrafo, “... uma
como espetáculo de estreia o show dirigi- arquitetura que marque época...”, aponta-
do pelos artistas Colé e Silva Filho, Pra ver mos a falta de informação da autora da ma-
a banda passar, com Manula, José Mafra, téria: na verdade o Teatro Carlos Gomes, em
Osni José, Sandra Moura, Marília, Marlene, estilo art-déco, foi tombado pela Prefeitura
Marinês, Dulcinéia e outras vedetes, sendo da Cidade do Rio de Janeiro, Lei 568, de 20
o espetáculo complementado com o filme de julho de 1984, como Patrimônio Cultu-
O dólar furado. ral (Publicado na relação de Bens Tombados
A situação de funcionamento normal do – Patrimônio Cultural – da Prefeitura da
teatro foi restabelecida em 1966, quando o Cidade do Rio de janeiro, Centro, Glória,
Governador Negrão de Lima determinou Catete, Flamengo. Departamento Geral de
o fechamento do teatro, por estar exibindo Patrimônio Cultural e Secretaria Municipal
filmes nos intervalos dos espetáculos apre- de Cultura, 1996).
sentados por Colé e Silva Filho. Por outra reportagem publicada no jornal
Em 1975, Miriam Alencar, em reporta- O Globo, de 18 de julho de 1980, tinha-se
gem sobre o Teatro Carlos Gomes escreveu: notícia de um movimento para a recupera-
ção do Carlos Gomes, com planos de fazer
O velho prédio cinza não mostra, por fora, reviver o teatro revista. Benjamim Gra-
o que realmente é o teatro. A entrada não ça Aranha, arrendatário, com uma equipe
muito grande, dá acesso a um espaçoso hall constituída por Tânia Scher, atriz; Luiz Sér-
que abriga grandes vitrinas e muitas placas gio Lima e Silva, divulgador e ator; e Luiz
de bronze nas paredes. Uma larga porta dá Garcia, empresário, lançaram o projeto
acesso à plateia, uma das maiores do Rio. “150 pratas” (o preço da entrada), com du-
Escadarias de mármore levam aos andares ração de dois meses.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 143


Teatro Carlos Gomes. Planta baixa, (S.E.)

O prédio do teatro passou por uma gran- Em 1980 o prédio possuía um palco com
de limpeza e, pelo teor da entrevista con- 19m de largura por 15m de altura, 10m de
cedida pela equipe, percebe-se o estado de profundidade, 20m de urdimento e 3m de
abandono em que se encontrava, na época, proscênio. Havia 3 sanitários femininos, e
aquela casa de espetáculos: 3 masculinos, o sistema de refrigeração era
feito por meio de ventiladores, 12 camarins
A entrada do Teatro Carlos Gomes já está individuais e 3 coletivos, comportando 15
diferente: as paredes pintadas de branco; pessoas, cada um.
as vitrinas do hall, que há poucas semanas A iluminação era feita por um quadro de
anunciavam sapatos e bolsas, ou estavam luz existente no palco. Depois do último
vazias e empoeiradas exibem trabalhos de incêndio, esse quadro de 110v. e 220v. pas-
papelão e cartolina feitos por Analu Pres- sou para o fundo do balcão. As aparelhagens
tes, dando um ar mais festivo ao ambiente. de iluminação e de som eram trazidas pela
A equipe descobriu coisas incríveis nes- companhia que estivesse ocupando o teatro.
se período de limpeza. Desde um amon- Havia seis refletores.
toado de placas velhas atrás do cartaz da A capacidade do teatro era de 1.100 pes-
fachada principal, até cortinas e cenários soas, tendo 800 lugares na plateia, 24 ca-
apodrecidos, além de alguns baús fecha- marotes com 15 lugares, e 110 lugares no
dos, onde, garantem, existem guarda- balcão e 100 na galeria.
-roupas de antigas montagens de teatro de O Alvará de Licença para funcionamento,
revistas e mais de 100 textos originais.70 em vigor em 1963, tinha o número 89.303/63

144 Teatros do Rio


e foi expedido pela Secretaria de Estado de Se- E o empresário Rômulo Dantas, que havia
gurança Pública. adquirido por quinhentos milhões o contro-
São várias as placas comemorativas existen- le acionário da Companhia Paschoal Segreto
tes, homenageando: Jardel Jércolis (colocada de Diversões diz, ao Jornal do Brasil de 14 de
em 1932); Leopoldo Fróes (31 de agosto de janeiro de 1982:
1933);Vicente Celestino pelo grande sucesso
obtido com O ébrio e, o centenário de morte A preocupação do Secretário Arnaldo
de Almeida Garret, em 1954. Niskier é válida, mas não há razão para
Muitas companhias nacionais e interna- receios, pois no lugar de Carlos Gomes
cionais passaram pelo Carlos Gomes, das construiremos um outro teatro de mes-
nacionais que arrendaram o teatro pode- ma capacidade, mesmo nome e com o
mos citar: Souza Martins, Lucinda Simões e aval do maior artista plástico do país, o
Furtado Coelho, Christiano de Souza e Dias arquiteto Oscar Niemeyer...
Braga, M.T. Pinto, Barreto Pinto, Procópio
Ferreira, Artistas Unidos, Helio Ribeiro, Vi- Radicado no Rio desde a década de 1950,
cente Celestino, Dulcina e Odilon, Chianca o pernambucano Rômulo Dantas sempre se
de Garcia, Lívio Bruni, Silva filho e Colé. dedicou às atividades de incorporação imo-
O início de 1982 foi marcado por notícias biliária. À frente de três empresas – Rômu-
que deixaram toda uma classe teatral per- lo Dantas, J.R. Dantas e Gonçalves Dantas
plexa: o Teatro Carlos Gomes seria demoli- Participações e Empreendimentos – ele ar-
do para dar lugar a um apart-hotel. ticulava negócios que iam desde construções
No Anuário da Casa dos Artistas era publi- na Barra da Tijuca, Copacabana e Lagoa, até
cado um artigo que comentava o referido loteamentos em Campo Grande, Realengo,
assunto: e em Recife. Sua última transação no ano de
1981, tinha sido a venda à Veplan de uma
Há uma incontrolável fúria imobiliária à ilha ao lado da Ilha dos Pescadores, onde foi
cata de meios para expandir e fazer dinhei- construído um clube de lazer. Em dezem-
ro e essa fúria é responsável pelo desapa- bro de 1981, Rômulo Dantas havia investi-
recimento de monumentos arquitetônicos do quinhentos milhões na aquisição de 82%
cuja não permanência, modificou, total e do valor acionário da Companhia Paschoal
infelizmente toda a fisionomia do Centro Segreto de Diversões, onde a participação
do Rio. anterior de 35 acionistas, ficou reduzida a
E será irreparável a perda do Carlos apenas três. Assumiu assim o controle dos
Gomes se realmente ele vier a desapare- negócios da empresa, basicamente a locação
cer, caso não se encontre meios de con- de lojas, apartamentos, terrenos e edifícios
servá-lo e fazer valer leis de proteção, na área da Praça Tiradentes. Da antiga dire-
como Decreto-Lei n. 7.959, de 17 de se- toria, apenas o diretor Caetano Segreto foi
tembro de 1945 que impediu, em 1977, convidado a permanecer no cargo, como as-
a passagem desse mesmo teatro a cinema sessor direto de Rômulo Dantas.
que é hoje um dos maiores do Rio e um Ainda na reportagem do Jornal do Brasil, de
dos poucos capacitados a abrigar um es- 14 de janeiro de 1982. O empresário afirma:
petáculo de real envergadura, dados a di-
mensão do palco e o número de poltronas De uma coisa faço questão: já me comu-
acessíveis ao público.71 niquei com o Niemeyer na Itália e ele

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 145


se comprometeu, ao chegar, de discutir Há cerca de um mês ele foi convidado pelo
o projeto passo a passo com artistas, a Jornal do Sindicato dos Arquitetos, para que
imprensa, os órgãos públicos e todos os divulgasse o seu plano, mas ele se negou,
interessados. Tudo vai atender o interesse alegando que o Sindicato existia para pro-
coletivo e todos serão beneficiados... teger os interesses dos arquitetos. “Mas
apenas quando esses interesses estão de
A tentativa de colocar abaixo o Teatro acordo com a comunidade” – ressalta Ma-
Carlos Gomes foi o estopim para que toda rilena Barbosa, vice-presidente da AMA
uma classe unida lutasse contra a desfigu- Centro. “E qual projeto de Oscar Nie-
ração da Praça Tiradentes, a destruição de meyer que serve ao povo? Apenas o Sam-
um patrimônio da cidade. A imprensa de um bódromo, talvez, que mesmo assim será
modo geral deu cobertura aos artistas, in- mantido pelo Governo do Estado. O que
formando os leitores da grave situação que deve ser feito em relação aos teatros é uma
estava para ocorrer. reforma para que ali possam ser montados
Em O Globo, de 5 de março de 1982, na espetáculos a preços populares, pois nada
coluna de Carlos Swann, sai a informação: mais resta à grande massa do povo, apenas
praia e samba. O trabalhador já não pode
Serão dos arquitetos Oscar Niemeyer e pagar cinema, e nem mesmo uma entrada
Marinho Estelita os projetos dos maiores no Maracanã.” 72
edifícios que se erguerão na Praça Tira-
dentes onde hoje existem o cinema São O ano de 1984 continua sendo de luta,
José e o prédio do Teatro Carlos Gomes. entidades como Associação de Moradores
Uma comissão de representantes de artis- e Amigos do Centro, Associação Carioca
tas, autores, empresários e músicos esteve de Empresários Teatrais e da Comunidade
com o proprietário do empreendimento, de Preservação do Centro foram recebidos
Rômulo Dantas, recebendo a promessa de pelo Prefeito Marcelo Alencar e, através de
que em lugar do Carlos Gomes surgirá um um documento, pediam o tombamento do
teatro de 1.200 lugares, e que sua demo- Teatro Carlos Gomes e atenção para o ex-
lição só começa após a conclusão de outro -cinema e Teatro São José, que praticamente
teatro, este de 800 lugares, onde hoje se já estava quase todo demolido.
ergue o São José. O São José, um velho teatro que ao lon-
go dos últimos anos mergulhou numa triste
Durante um longo período uma luta foi decadência, poderia ter sido reconquistado
travada contra a demolição do teatro. Diver- como área para a representação teatral não
sas entidades se manifestaram repudiando a só pela sua excelente localização como pelo
iniciativa de Rômulo Dantas, alegando que espaço disponível para que se criasse uma
o mesmo não tinha respeito algum pela me- arquitetura teatral mais adequada à moder-
mória de uma população e que, mais uma na linguagem do espetáculo. O Carlos Go-
vez, esta não estava sendo consultada em mes, entretanto, é uma sala bem ao estilo
relação ao seu patrimônio cultural. A Asso- clássico, com plateia, balcões e galeria, palco
ciação de Moradores do Centro denunciava amplo, urdimento que permite montagens
a omissão de Oscar Niemeyer, responsável mais complexas, e com uma boa reforma se
pelo projeto: transformaria num dos melhores teatros do
Rio, o que de fato veio a ocorrer.

146 Teatros do Rio


Arquivo Cedoc/Funarte
Teatro Carlos Gomes (reforma)

Arquivo Cedoc/Funarte

Teatro Carlos Gomes. Plateia antes da reforma


Arquivo Cedoc/Funarte

Fachada do teatro Carlos Gomes


O Rio de Janeiro, já havia perdido ao tro de Artes Carlos Gomes estava Orlando
longo dos últimos anos vários teatros, como Miranda, empresário teatral, que prometia
o Fênix, Santa Rosa, Tijuca, Manchete e entregar o teatro em janeiro de 1986. Com
Follies, e a experiência com casas de espe- capacidade para 1.700 pessoas, além de um
táculos em Shopping Center estava se con- teatro gafieira, um sebo-arte (livraria especia-
firmando, como os três da Gávea (Vanucci, lizada), uma casa de chá, um espaço para ex-
Clara Nunes e Dos Quatro) oferecendo um posições permanentes e uma galeria de arte.
movimento grande do público que circula
pelos corredores, garantindo ainda segu- A ideia era demolir tudo e construir ou-
rança maior para o público e conforto de es- tro teatro. Fui radicalmente contra porque
tacionamento, que o teatro na beira da rua seria um equívoco. O Carlos Gomes faz
nem sempre oferece. Mas infelizmente, dos parte da tradição desta cidade e não faria
novos shoppings, o da Gávea, até a data, era o menor sentido um teatro moderno no
o único a acreditar no teatro. lugar dele. Foi preciso deixar de lado o
aspecto puramente empresarial. Além do
Em 1 de julho de 1984, O Globo publicava: mais, seria uma agressão à paisagem da
Praça Tiradentes.73 [...] Vamos preservar
No último dia de plenário antes do re- tudo quanto for possível, não só do pon-
cesso, na Câmara Municipal, foram exa- to de vista arquitetônico, mas também de
minados 20 projetos, aprovados em três programação cultural, que será basica-
sessões, duas extraordinárias. Entre as mente em torno de um só gênero teatral:
propostas aprovadas, estão o tombamen- A Revista
to do Teatro Carlos Gomes, da vereadora
Ludmila Mayrinck (PDS) e a do Vereador Todo o segundo semestre de 1985 foi
Alberto Garcia (PDT)... empregado para a reforma, sob a responsa-
bilidade de Rômulo Dantas, que contratou
No mesmo ano, o Prefeito Marcelo Orlando Miranda, ex-presidente do Institu-
Alen­­car sancionou o projeto de lei de au­ to Nacional de Arte Cênicas (Inacen) para
toria da vereadora Ludmila Mayrinck, supervisionar as obras, que não contaram
datado de agosto de 1983, que tombava com apoio financeiro do Estado e tampouco
por interesse histórico e cultural o Teatro da iniciativa privada.
Carlos Gomes. Durante sete meses Orlando cuidou dia-
Assim foi abandonado o projeto que riamente dos aspectos burocráticos e coor-
transformaria o Teatro Carlos Gomes num denou o trabalho de todas as equipes en-
apart-hotel, como pretendia Rômulo Dan- volvidas. E com ar de quem já previa uma
tas, e o teatro ficou funcionando exclusiva- estreia próxima, declarava:
mente com o Projeto Seis e Meia de Música
Popular Brasileira. Não se trata de uma obra de arquitetura
O teatro foi preparado então para, no ano ou de engenharia, com um projeto defini-
de 1985, reviver seus momentos de glória, do. O que está sendo feito é um esforço de
desde 1872, quando foi inaugurado com o restauração, reconstituindo tudo o que foi
nome de Casino Franco-Brésilien. À frente estragado. A lei é obedecer ao estilo que
do projeto de transformá-lo em um Cen- sempre caracterizou o teatro.74

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 149


Com estas palavras pretendia entregar o Depois da restauração e da temporada
teatro à população carioca no prazo de trin- de Miss Banana, o teatro começou a ter que
ta dias. Entretanto, faltava ainda forrar as se equilibrar com as dificuldades na glória
1.700 poltronas de couro, concluir o palco e do passado, foi quando, em 1987 surgiram
fazer toda a instalação do sistema central de dois irmãos vindos de São Paulo: Manoel
ar-condicionado, para plateia, palco, cama- Poladian e Jorge Poladian, através da firma
rins e saguões. Até então o teatro não pos- Poladian Promoções Ltda., que pretendiam
suía um sistema de ar-condicionado. montar shows no Rio de Janeiro. O primeiro
Tudo foi feito de modo fiel à época, ob- seria o de Ney Matogrosso e o segundo o es-
jetivando resgatar o estilo arquitetônico da petáculo infantil A bela adormecida, estrelado
década de 1930. Para polir o mármore ita- por Miriam Rios. Já haviam anteriormente
liano que compõe os degraus das escadarias, assinado contrato com o Teatro Tereza Ra-
bancadas e detalhes nas paredes, um técnico chel, entretanto, acharam melhor pagar a
especialista precisou de dois meses. Os azu- multa de rescisão de contrato e montaram
lejos de cores claras e trabalhados em flores os espetáculos no Carlos Gomes, pois acha-
discretas, foram escovados, pois estavam co- vam o espaço ideal para mostrar ao público
bertos por placas de Eucatex. suas produções e ressuscitar o teatro.
Com louças inglesas compradas numa Através da Light, conseguiram aumentar
demolição, um banheiro feminino foi cons- a capacidade para 500kva para alimentar
truído no subsolo, que só dispunha de um todas as instalações dos sistemas de ilumi-
masculino. Foram adquiridas também lu- nação e refrigeração, que antes funcionavam
minárias antigas com detalhes de um vitral com 50kva; foram restauradas quase 1.400
onde se destacava uma mulher reclinada, poltronas, realizadas pinturas gerais e refor-
cópia de um J. Carlos. Os tacos que reves- mados alguns camarins. As cordas das ma-
tiam a maior parte do solo foram conserva- nobras foram substituídas por cabos de aço.
dos, assim como as cores originais: creme E Jorge Poladian afirmava:
e preto.
Os seis andares de camarins, cada um Temos a intenção de dar a este teatro o pa-
com 80m2, foram completamente modifica- drão que costumamos usar em nossos shows.
dos e, por vezes o espaço de dois camarins E, antes de mais nada, absoluta seguran-
se fundiu em um maior, com um luxo até ça. Acabamos de rever todo o sistema de
então desconhecido, incluindo bancadas de incêndio; mandei encher os extintores,
mármore e antigas luminárias. restaurar mangueiras e refazer o sistema
Em 18 de dezembro de 1985, era realiza- de sinalização. Cada etapa do trabalho aqui
do um coquetel para o lançamento do Cen- dentro é feito por mão de obra especia-
tro de Artes Carlos Gomes e também para lizada. Não temos a menor intenção de
apresentação da equipe da comédia Miss Ba- brincar com a segurança do público, além
nana, de Garson Kenin com tradução de Ge- de querer oferecer o que há de melhor em
raldo Queiroz e Roberto de Cleto; direção termos de conforto.75
de Wolf Maya; cenários de Arlindo Rodri-
gues; figurinos de Marco Aurélio. O elen- Em 1988, já com o Prefeito Saturnino
co era formado por Regina Duarte, Nestor Braga, depois de dois meses de negociações
de Montemar, José de Abreu, Adriano Reis, junto ao empresário Rômulo Dantas, respon-
Oswaldo Loureiro, entre outros. sável pela Companhia Paschoal Segreto, dona

150 Teatros do Rio


do teatro, foi efetivada a transferência do Te- Como havia risco de incêndio, por cau-
atro Carlos Gomes para o Município. Isso foi sa da péssima conservação dos quadros de
possibilitado pela permuta de dois terrenos luz e da má qualidade dos fios elétricos sem
da Prefeitura localizados na Cidade Nova. nenhuma proteção, o teatro foi interditado
A intenção da Prefeitura, vencida esta ba­­ pelo Corpo de Bombeiros.
talha era reformá-lo, substituindo as poltro­ As arquitetas Vera Lúcia Pinto de Lima
nas e fazer uma restauração geral do teatro, e Maria Lúcia Cunha Avelar começaram as
que se encontrava em péssimo estado. obras da reforma e restauração em agosto
Ele havia sido reaberto pela última vez de 1988, contratando firma diferente para
com o show Cantando para o Rio, em que cada serviço. As reformas mais urgentes
artistas famosos se apresentaram para aju- foram os sistemas elétrico e hidráulico, no
dar as vítimas das enchentes de fevereiro palco e no lençol freático.
de 1988; mas artistas e o público estiveram
expostos ao perigo, com fios sem proteção Mas em meio aos sinais de deterio­ração
que se enrolavam nas pernas dos técnicos do prédio, ainda se encontra luxo no ca-
nas coxias, e o público sen­­tado em cadeiras marim reformado especialmente para
quebradas (algumas sustenta­das por pedaços Regina Duarte. O banheiro é revestido
de madeira), convivendo com a total falta de azulejos assinados por Valentino, tem
de segurança. O sistema de prevenção de banhei­ra de hidromassagem, louças sani-
incêndio, embora com mangueiras novas, tárias de luxo e um box de vidro blindex.
possuía dutos de água com cano de PVC, O ca­­­ma­­­­­r im é todo acarpetado, tem dois
que derretem com o calor excessivo. Enfim, apa­re­lhos de ar-condicionado, grandes
a reforma que fizeram foi na verdade uma espelhos, bancadas de mármore e papel
maquiagem, pois os aspectos mais delicados de parede em todo ambiente. O papel
não foram realmente atendidos. Teatro Carlos Gomes. Plateia e palco

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 151


foi exigência de outra grande estrela do transformando-o em sala, ou seja, espa-
show business, o cantor Roberto Carlos, ço tanto para os atores como para espec-
que queria um camarim bonito e leve tadores. O “ Carlitos” e sua estrutura de
para a sua mulher, a atriz Miriam Rios, arquibancadas móveis é um teatro trans-
descansar nos intervalos da peça infan- formável. Com isso, aumenta o número
til que ela encenou no Carlos Gomes. O de salas dentro do teatro e a quantidade
pa­­pel de parede é todo desenhado com de horas utilizáveis. O formato dos no-
sua­ves nuvens em azul-claro.76 vos espaços amplia os gêneros de espetá-
culos que o Carlos Gomes pode abrigar.
Após ser reformado pela Prefeitura do Explorar a coexistência de possibilida-
Rio, o Teatro Carlos Gomes foi entregue ao des teatrais distintas resulta numa práti-
público em 28 de dezembro de 1993, pelo ca fundamental para o teatro hoje.77
Prefeito Marcelo Alencar e os secretários
Carlos Eduardo Novaes (Cultura) e Luis
Paulo da Rocha (Obras), homenageando os 1874
artistas: Bibi Ferreira, Colé, Dercy Gonçal- Teatro Vaudeville
ves, Eva Todor, Grande Otelo, Henriqueta
Brieba, Oswaldo Louzada, Paulo Gracindo, O Teatro Vaudeville foi inaugurado em 11 de
Virgínia Lane e Walter Pinto. junho de 1874 e o espetáculo de inaugura-
A direção artística do teatro coube a ção constou do Hino Nacional cantado pela
Aderbal Freire Filho e o espetáculo de rei- atriz Amélia Gubernatis e todos os artistas
nauguração foi Instruções de uso, apresenta- da companhia. Seguiu-se uma ouverture do
do pelo Centro de Demolição e Constru- maestro Caneppa e, por último, represen-
ção do Espetáculo. tou-se a ópera cômica em dois atos, A ba-
talha de Monterand, tradução do Conselheiro
Mostrava a maneira de um manual de José da Silva Mendes Leal, com música de
instruções como as novas instalações de Casimiro Júnior, elenco composto de: Ma-
iluminação, som e maquinaria podem ser ria das Neves, Amélia Gubernatis, Francisca
utilizadas. Em esquetes – bem-humoradas, Monclar, Barbosa e Guilherme.
assim como nas revistas – foram apresen- O teatro era localizado à Rua São Jorge
tados os modernos recursos instalados no n. 57, 59, 61 e 63, e ficava nos fundos dos
palco centenário como a cortina corta-fo- sobrados que faziam esquina com a Rua do
go, o fosso da orquestra e seu elevador e as Hospício. Posteriormente, a Rua São Jorge
varandas automatizadas. passou a chamar-se Gonçalves Ledo e a Rua
O espaço do teatro vem sendo explo­ do Hospício é hoje a Rua Buenos Aires.
rado para além do uso tradicional do Sobre suas características físicas nada foi
palco italiano. O foyer da galeria, no encontrado a respeito do aspecto externo
terceiro andar, recebeu um tratamen- do teatro, e quanto ao seu interior, segundo
to acústico para ser usado como uma Lafayette Silva, “tinha uma ordem de frisas,
pequena sala de espetáculos. O outro duas de camarotes, espaçosas varandas na
projeto da atual administração – a cria- primeira ordem, galerias na terceira, circu-
ção do Teatro Carlitos – se concretizou. lado de pequenos e bonitos jardins”.78
Trata-se da ocupação do palco (264 me- O teatro era de propriedade de Anastá-
tros quadrados e 20 metros de altura), cio de Miranda Coelho, e por ocasião de

152 Teatros do Rio


sua inauguração, era seu empresário o Dr. aço na cumeeira, de onde pendiam trapézios
Diogo de Pinho, sendo o pano de boca pin- e outros aparelhos destinados a ginásticas
tado pelo cenógrafo português José Anto- aéreas. Os artistas, que se exibiam nos seus
nio da Rocha. trabalhos arriscados, eram protegidos por
Em 1o de janeiro de 1875, o teatro foi extensas redes, fabricadas de tecido encor-
arrendado pela empresa dirigida pelo ator pado e corda, armadas a determinada altura
Martins e não há informações a respeito de do solo.
causa e data de seu desaparecimento. O edifício era aberto em volta e rodeado
de jardins. O acesso do público fazia-se por
corredor, espécie de túnel, com a largura de
1876 cerca de 6m, tendo 20m de extensão. Em
Teatro Circo (Teatro Polytheama 1883, o Almanak Laemmert, informava que o
Fluminense) teatro comportava 1.500 pessoas.
Saindo do corredor, e antes de alcan-
O Teatro Circo foi inaugurado em 26 de se- çar a porta do teatro, o público encontra-
tembro de 1876, uma espécie de pavilhão va um imenso parque arborizado, tendo
de madeira, onde costumavam trabalhar ar- do lado direito, um bar bem apresentado
tistas circenses, sendo localizado à Rua do e bem sortido. Mesas e cadeiras de ferro
Lavradio n. 94, entre as ruas da Relação e achavam-se dispostas no interior do bar e
Resende. O espetáculo de inauguração foi no parque defronte, que criavam aspecto
oferecido pela companhia equestre e acro- alegre e recreativo.
bática dos senhores Hadwin & Wilson, vinda Em fins de 1870, o Teatro São Luiz, ocu-
do Rio da Prata e chegada ao Rio de Janeiro pado pela Companhia Portuguesa de Emília
no dia 17 daquele mês, pelo navio Potosi. O Adelaide, precisou de reparos e a atriz en-
programa compreendia exercícios de arrojo trou em negociações com o proprietário do
e número de variedades. circo, para lá alojar-se. A casa passou por
O teatro era de propriedade do francês algumas modificações, indispensáveis para
Augusto Barthel, que o construiu em grande poder funcionar como teatro: construção de
área de terreno adquirida na Rua do Lavra- um palco, colocação de cadeiras na plateia,
dio. Lafayette Silva refere-se ao proprietário de cortinas etc. Não voltou mais a funcionar
do prédio, como sendo um italiano de nome como circo, e em 1880 foi inaugurado com
Bartelli. Foi construído pelo engenheiro o nome de Teatro Polytheama Fluminense.
Francisco Justin, segundo informações do Faltam maiores dados a respeito da fachada,
Almanak Laemmert de 1883. Edificado em ca- cuja licença para construção foi solicitada
ráter provisório, em estilo de barracão de por seu proprietário em outubro de 1883,
madeira, de proporções grandiosas, destina- e também não foram encontradas informa-
va-se a espetáculos de circo. ções a respeito do espetáculo que inaugurou
Sobre suas características físicas, não há o Polytheama Fluminense.
registros a respeito de sua fachada primitiva, Por requerimentos diversos, dirigidos à
entretanto, sobre o seu interior, há algumas Câmara Municipal em 1883, 1891 e 1893,
indicações de que não tinha palco, os cama- sabe-se que o teatro passou por obras de re-
rotes eram toscos, abertos nos fundos e ha- formas e melhoramentos. Em 1890, o Alma-
via excesso de iluminação. Era quase todo nak Laemmert mencionava uma lotação para
em madeira, com travamentos de vigas de 2.500 pessoas.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 153


Em requerimento feito por Soares & Cia 1877
à Câmara Municipal, a 18 de fevereiro de Teatro Variétés (Teatro Recreio)
1895, o Teatro Plytheama Fluminense cons-
ta como tendo sido localizado no n. 104, e Em 1876, uma fábrica de sabão veio a falir.
não no n. 94. Ficava situada junto à barreira do Morro de
A partir da mudança de circo para teatro, Santo Antonio, ao fundo e fechando a Rua do
tem-se notícia de vários empresários que Espírito Santo n. 43 e 45, com frente volta-
nele apresentaram suas companhias: Com- da para a Praça da Constituição. A Rua Espí-
panhia de Emília Adelaide (1879), Lourenzo rito Santo, posteriormente, denominou-se
Ponini (1880/1881), Sansone (1894). Luiz Gama e Pedro I, nome atual. Com o
O Polytheama, tendo sido construído para desmonte do Morro de Santo Antonio, o te-
ser utilizado como “circo de cavalinhos”, atro passou a confinar com a Avenida Chile.
com picadeiro e tudo mais, transformou- O prédio ficou fechado, em estado de quase
-se em teatro, servindo, especialmente, para abandono, até que o ator francês Roger, que
companhias de operetas e de grande ópera, se encontrava no Rio, resolveu aproveitá-lo,
devido às suas condições acústicas que favo- montando uma casa de espetáculos: o Teatro
reciam muitíssimo os cantores, principal- Variétés, inaugurado no dia 18 de agosto de
mente, aos que eram dotados de limitados 1877, com a opereta Le Canard à Trois Becs,
recursos vocais. de Jonas. No elenco: o diretor Roger, Mar-
Na noite de 14 de julho de 1894, quan- tin, Briet, Blanc, Charson, Peuillet e as atri-
do se exibia a Companhia Lírica Italiana da zes Lafourcade, Clairville e Christiane.
Empresa Sansone, apresentando a ópera Em 12 de abril de 1878, não se sabe ao
Rigoletto, de Verdi, um incêndio irrompeu certo se já sendo propriedade do Visconde
no cenário, propagando-se pelo palco e de Guilhofrey, ou de outra empresa, o tea­
pela plateia, destruindo em pouco tempo tro teve o nome primitivo vertido para o
o teatro. O barítono Atos, encarnando o português: passou a chamar-se Teatro Varie-
protagonista, acabava de entrar em cena e dades. Só depois de dissolvida a companhia
começava a cantar a ária quando o fogo se francesa e substituída, logo em seguida, por
manifestou. O público que lotava a casa – uma nacional, com Peregrino de Menezes,
haviam sido vendidas 1.500 entradas para João Colás, Jesuína Montani etc., que es-
as gerais – dominado pelo pânico, saiu treou a comédia Caprichos do Acaso e com a
em tumulto, registrando-se contusões re- zarzuela Fogo no Céu. Depois dessa, outras
sultantes do atropelo. Os artistas fugiram companhias nacionais realizaram espetácu-
com as vestes com que entrariam em cena, los dramáticos, sem maiores resultados, até
e o empresário Sansone perdeu todo o ma- que fechou suas portas em agosto de 1878.
terial cenográfico. Foram consumidos pelo Melo Morais Filho a respeito do prédio
fogo os cenários da Empresa Clementina escreveu: “Assim, valendo-nos de pesquisas,
dos Santos, que estavam guardados no te- destacamos vasto e abarracado palacete, de
atro, e todos os artistas tiveram prejuízos porta de cocheira, situado no local em que
com a perda de suas joias e roupas. Em 18 ora se acha o Teatro das Variedades”.79
de fevereiro de 1895, um requerimento de Reabriu em 26 de outubro de 1879, com
Soares & Cia, solicitava licença para cons- nome de Brazilian Garden e apresentando
truir um prédio sobre o terreno que fora uma companhia italiana de fantoches, sob a
ocupado pelo teatro. direção de Luiz Lupe, que representava os

154 Teatros do Rio


Fotografia de Augusto Malta
bailes elétricos e fantasmagóricos As pílulas Teatro Recreio em 1906

do Diabo, ou O prodígio do nigromante Concor-


dor, extraído da peça Les pilules du diable. Em 1885, Dias Braga monta, O Conde de
Novamente parou de funcionar, até 4 de ja- Monte Cristo, de Alexandre Dumas, que cau-
neiro de 1880, quando, com o nome de Tea­ sou furor, e teve sucessivas representações.
tro Recreio Dramático, popularizado como Em turnê, Dias Braga passou o Teatro Re-
Teatro Recreio somente, foi franqueado ao creio para a Empresa Silva Pinto que em 1895,
público por uma companhia dirigida por Gui- apresenta O Rio nu, de Moreira Sampaio.
lherme da Silveira, com o drama de E. Blum, Voltando ao Recreio, Dias Braga mon-
Rosa Miguel, traduzido por Lino de Assunção. ta então uma peça sacra, permanecendo
No elenco os atores Guilherme da Silveira, nesse teatro até 1907. Nessa época, o pe-
Amoedo, Silva Pereira, Ferreira de Sousa, queno jardim no interior do teatro era
Machado e Peixoto e as atrizes Ismenia dos lugar preferido por alguns escritores e
Santos, Clairville e Inês Gomes. Apesar da boêmios, que ali se reuniam até alta ma-
completa reforma executada por Guilherme drugada, para também namorar as atrizes,
da Silveira, e de ficar famoso e frequentado, depois dos espetáculos. Conforme relata
o teatro não obteve êxito por muito tempo. Lafayette Silva,
Em 1884, já sob a Empresa Dias Braga,
apresenta O Grã Galeoto, de Echegaray, em era na época a melhor casa de diversões,
tradução de Valentim Magalhães e Filinto para a estação calmosa, cercada de jardins,
de Almeida, desempenhada por Dias Braga, abertos para todos os lados. A sala era
Eugênio de Magalhães, Lívia Magioli, He- oblonga, aproximando-se de um semicír-
lena Cavalier e Leolinda Amoedo. O Impe- culo; em torno corriam duas galerias so-
rador assistiu à pré-estreia dessa peça que brepostas, podendo-se de todos os pontos
constituiu um grande sucesso. ver o palco. 80

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 155


O Almanak Laemmert de 1883 assim se re- Em 1917, Mário Nunes fez referência a
fere: “Este bonito teatro campestre tem 16 obras que resultaram no aumento do número
camarotes, 310 cadeiras e galerias, e lugares de frisas e camarotes – 51 ao todo; modifica-
de entrada geral para mais de 500 pes­soas”. ção da plateia, do vestuário das senhoras e dos
Em 1890 comenta: “... é um dos mais apra- camarins, substituição das colunas existentes
zíveis e bem ventilados e tem em seu âmbito por outras de ferro e pintura bonita e alegre.
toda a confortabilidade exigida para os tem- Segundo o Annuario Theatral Argentino-Bra-
pos calmosos”. E ainda, em 1892: sileiro, de 30 de outubro de 1926, havia uma
ligeira alteração nos dados a respeito da lo-
É frequentado por boa sociedade onde às tação do teatro: 20 frisas; 20 camarotes; 508
noites reúne-se a elite da rapaziada flumi- cadeiras; 223 galerias; 500 gerais.
nense em um jardim no mesmo teatro, em Ainda por Mário Nunes, sabe-se que, em
palestra e passeios durante os intervalos dos 1928, a Empresa Neves, arrendatária do tea-
espetáculos. Tem no interior do mesmo jar- tro, instalou um aparelho para renovação do
dim um buffet bem sortido de bebidas. ar, constituído de “uma bomba que capta 900
metros cúbicos de ar puro por minuto a 40
Em sua longa existência o teatro sofreu metros de altitude e os injeta no teatro”. E o
várias reformas: em 1879, passou pelas pri- mesmo autor refere-se à conclusão das obras
meiras pinturas. Em 1890, tem-se a notícia de remodelação em 1933, para a estreia que
de uma reforma, para puxar o terraço para ocorreu em 31 de março daquele ano.
a frente. Quatro anos depois, houve gastos Com o falecimento de Manuel Pinto, a
com a restauração do teatro pelas avarias so- empresa passou a seus filhos: primeiro Ál-
fridas, em 1893, com a Revolta da Marinha. varo que veio a falecer em um desastre de
Pelo Almanak Laemmert de 1911/1912, avião; depois Walter, que durante anos diri-
constava-se sua lotação como tendo 20 cama- giu o teatro, deslumbrando a cidade com as
rotes, 508 cadeiras, 2 frisas, 60 galerias no- riquíssimas montagens de suas revistas.
bres, 223 entradas numeradas e 500 gerais. O teatro sempre foi de propriedade par-
Em 1909 ocupa-o a Companhia Portugue- ticular. Sabe-se que pertenceu ao Visconde
sa Miranda e nesse mesmo ano outra com- de Guilhofrey e à Beneficência Portuguesa.
panhia lusa, da qual fazia parte o ator Valle. Foram vários seus arrendatários: Roger, o
Vieram, a seguir, as Companhias Carlos Leal, primeiro deles que, em 1877, teve a ideia
Nascimento Fernandes, Aura Abranches e Es- de transformar a antiga fábrica em teatro;
perança Iris. Schmidt C. (diretor e empresário) em 1879;
Mais tarde, surge a Companhia Dramáti- Guilherme da Silveira, de 1880 a 1882; Dias
ca Nacional, tendo como primeira figura a Braga, que de 1884 a 1907 o utilizou como
atriz Itália Fausta e sob direção do Dr. Gomes empresário; José Loureiro – 1917; Rangel
Cardim. A partir daí, outras companhias vão & Cia. (Rangel Júnior); Antonio Neves em
arrendando o teatro, dentre elas a empresa 1930; Manuel Pinto a partir de 1933 e, de-
Rangel Júnior, Empresa A. Neves & Cia, as- pois de seu falecimento, seus filhos Álvaro e
sociada a M.T. Pinto. Dissolvida a sociedade, Walter Pinto.
fica a empresa A. Neves até 1932, sendo que Em 28 de abril de 1961, um incêndio no
em 1933, o teatro é arrendado à Empresa prédio da firma Isnard Cia. Ltda., na Rua do
Pinto Ltda., estreando com a Companhia Lavradio 67, (em seu depósito de gás freion
Margarida Max. para geladeiras e outros materiais elétricos,

156 Teatros do Rio


Reprodução: acervo particular José Dias
Teatro Recreio Dramático. Cena do 1o ato de O destino, representado pela
primeira vez pela Companhia Lucinda-Christiano, em 25 de agosto de 1905

Reprodução: acervo particular José Dias

Teatro Recreio Dramático. Cena do 2o ato de O destino, representado pela


Companhia Lucinda-Christiano, em 25 de agosto de 1905
Reprodução: acervo particular José Dias

Teatro Recreio Dramático. Cena do 4o ato de O destino, representado pela


primeira vez pela Companhia Lucinda-Christiano, em 25 de agosto de 1905

158 Teatros do Rio


de desapropriação. Na verdade, o Teatro Re-
creio já estava em completa decadência. Mas
a Superintendência de Urbanização sugeriu
ser ele totalmente remodelado e conser-
vado, nas suas linhas arquitetônicas, como
monumento histórico artístico da Guanaba-
ra, já que ele havia sido em junho de 1963,
tombado pelo Instituto Histórico.
Em outubro de 1964, Walter Pinto, que
tinha arrendado o teatro até novembro, re-
cebeu ordem de despejo, mas o Dr. Laércio
Pelegrino, seu advogado, já havia entrado
com recurso no Supremo Tribunal Federal,
alegando ser o Teatro Recreio parte inte-
grante do Patrimônio Histórico e Artístico
da Cidade, e pediu a suspensão do despejo.
Mas a imprensa não perdoava Walter Pinto:

A Beneficência Portuguesa, pelo seu advo-


gado, Adalberto Aguiar, requereu e obte-

Teatro Recreio Dramático Teatro Recreio em 1961

além de combustíveis que ali estavam armaze-


nados), causou sucessivas explosões, sacudin-
do toda esta região do Centro da cidade, alas-
trando-se por outros prédios antigos da Rua
do Lavradio com a Avenida República Chile.
As pessoas que naquele momento assistiam
à revista A geripoca vai piar, pela companhia
do empresário Gomes Leal, alarmadas com
as explosões, saíram correndo para a rua,
sendo o espetáculo suspenso imediatamente,
porque quando tomaram conhecimento, o
fogo já estava atingindo os fundos do Teatro
Recreio, onde era localizada a carpintaria do
teatro, que foi totalmente destruída.
Em fins de 1963, o velho Teatro Recreio,
agonizava, estava para ser demolido, em
função do projeto de desenvolvimento ur-
banístico da área do Morro de Santo Anto-
nio, entretanto, a proprietária do edifício
do Teatro Recreio, Sociedade Portuguesa de
Beneficência, apelou em juízo da sentença

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 159


ve da 7a Vara Cível, ordem de despejo da petáculos. O Teatro Recreio havia acabado.
Empresa de Teatro Pinto Ltda. do Teatro O despejo e a emissão de posse foram de-
Recreio. A execução não se efetuou ainda finidos em favor da Superintendência de Ur-
porque está na dependência do STF (Su- banização (Sursan), que iniciara a demolição
premo Tribunal Federal). no mais curto prazo de tempo, para fazer
A tradicional sala de espetáculos não ali passar uma avenida que ligaria a Rua D.
deve desaparecer porque já faz parte do Pedro I à Avenida Chile.
patrimônio histórico e artístico da Guana- Em 1 de abril de 1968, o Teatro Recreio
bara. A Beneficência Portuguesa, proprie- foi definitivamente despejado para conclu-
tária do imóvel declara que não pretende são do plano de urbanização do Morro de
demolir o teatro, pois o recebeu por tes- Santo Antônio, e em seguida iniciou-se todo
tamento do Visconde de Guilhofrey com a o processo de demolição.
condição de não ser demolido e destinado A maior parte dos teatros já citados ou que
a outro fim. Vê-se, pois que a Beneficência existiam no Rio de Janeiro, exteriormente,
Portuguesa está agindo com a maior lisu- não tinha a aparência de uma casa de espetá-
ra e dentro dos seus legítimos direitos. De culos. A quem os mandou construir, ou fal-
15 mil cruzeiros mensais passou a cobrar taram recursos, ou bom gosto em dotar os
55 mil de acordo com a lei que regula a citados teatros de bonitas e vistosas fachadas.
matéria. E foi só. O que ninguém sabe e Como se pode verificar, as reformas eram
se precisa dizer é que o Sr. Walter Pinto, constantes, e em períodos curtos, entretan-
que durante anos pagava pelo teatro 15 to, quase sempre muito superficiais, e não
mil cruzeiros por mês, subalugava-o por solucionavam os problemas de palco, técni-
10 mil por dia às demais empresas teatrais, cos e de acústica. As grandes melhorias eram
sendo que às quintas-feiras, sábados e do- sempre pinturas. Começaram a preocupar-
mingos, subia para 15 mil cruzeiros diá- -se com a segurança tanto do público como a
rios, com garantia mínima e mais cerca de dos atores, com mais saídas independentes e
20 ou 30 poltronas (as primeiras vendidas) mais largas. A caixa cênica também recebeu
cativas, quer dizer: extra bordereau. nesta sua última reforma duas portas ligadas
Graças a esse rendoso negócio, o Sr.Wal- diretamente ao terreno de fundos, para per-
ter Pinto pôde acumular uma boa fortuna, mitir uma rápida evacuação dos artistas em
e tornar-se milionário. Ultimamente, o Sr. caso de incêndio.
Walter Pinto, nem mantém mais compa- Era um teatro bonito, bem ventilado, e
nhia. Vive de subalugar o Recreio e até para bem confortável para as exigências da épo-
uma organização de explora certo “carnet” ca. A sala aproximava-se de um semicírculo,
juntamente com uma cadeia de televisão. em torno do qual corriam duas galerias so-
Muito justo como se espera a decisão brepostas, tinha boa visibilidade do palco.
do STF, confirmando a decisão da 7a Vara O teatro possuía aberturas para todos os la-
Cível.81 dos, permitindo boa ventilação e podendo-
-se ver o palco de todos os lados.
Na manhã do dia 1 de fevereiro de 1968, Em 1940, Walter Pinto assumiu o tea-
um oficial de justiça, executando sentença tro inaugurando a fase de deslumbramento.
emitida pelo Juiz da Terceira Vara da Fazenda Grande empresário, dividiu os setores de
Pública do Estado, ordenava a retirada dos produção e conquistou as camadas mais di-
móveis que guarneciam a velha casa de es- versas da população, dotando a sala de luxos

160 Teatros do Rio


Saída do teatro Recreio em 1961
até então inéditos. Foi a primeira sala a ter ca- de 1878, lê-se na Gazeta de Notícias, uma
deiras estofadas. Pelos dados encontrados na nota com a informação de que “O Grêmio
ficha técnica do SNT, o Recreio possuía 515 Dramático da Gávea realizou anteontem
lugares na plateia, 16 camarotes, 14 frisas, a sua 5a récita”. Sendo essas récitas men-
180 galerias, 40 gerais, 258 super-pulmans, sais, a primeira deve ter sido no mês de
102 pulmans – totalizando 1.100 lugares. dezembro, apesar das festas de aniversá-
O Teatro Recreio foi o último reduto do rio no Teatrinho ocorrerem sempre a 1o
teatro de revista, terminou em 1963, quan- de novembro.
do foi desapropriado e destruído, vindo a A matéria da Gazeta de Notícias, de 30 de
ser demolido em 1969. Os portões de fer- abril de 1879, sobre a 5a récita, foi a primei-
ro que existiam na fachada do teatro, estão ra notícia do Teatrinho da Gávea;
atual­mente na entrada do Retiro dos Artis-
tas, em Jacarepaguá. Realizou-se sábado a 5ª récita do Grêmio
Dramático da Gávea, sociedade muito dis-
tinta e que consegue sempre fazer as suas
1878 festas com muito brilhantismo. O espetá-
Teatrinho da Gávea 82
culo compôs-se do seguinte: sortes de pres-
tidigitação, balada do Guarany, fantasia de
Muito antes de 1878, já morava em uma piano, cena cômica Ventura o bom velhote,
chácara da velha Rua Boa Vista da Lagoa de as comédias Batizado e casamento e Esperteza
Rodrigo de Freitas, hoje Marquês de São do gato. As distintas amadoras e amadores
Vicente, bem próximo da Matriz de Nossa colheram larga messe de justos aplausos.
Senhora da Conceição da Gávea, o Coronel
do Estado Maior do Exército, Conselheiro A récita seguinte teve lugar na noite de
do Império e Engenheiro Superior da Esco- 2 de junho, e os amadores continuaram a fa-
la Militar, Antonio José do Amaral. Fora ali zer sucesso:
residir em busca do excelente clima da Gá-
vea, de que precisava uma de suas filhas, por Realizou-se sábado a 6a récita do Grêmio
motivo de saúde. Em uma reunião em dia de Dramático da Gávea. A concorrência foi
aniversário em sua casa, teve o Conselheiro numerosa e escolhida. Os distintos ama-
a ideia de fundar no bairro, então habitado dores representaram com o melhor êxi-
por uma elite burguesa, uma associação de to as engraçadas comédias Tio Torquato
teatro, idêntica às muitas que existiam na ci- e Mestre Igreja muito em cima. Tiveram
dade, que servisse de traço de união entre uma verdadeira ovação.
as famílias, em boa e agradável companhia.
Não foi difícil ao Conselheiro Amaral, con- É possível que as primeiras récitas se te-
tando com um grupo de alunos da Escola nham realizado na residência do Conselhei-
Militar da Praia Vermelha, levar adiante o ro Amaral, porque as adaptações para teatro
projeto do teatrinho e dentro em pouco no prédio da Rua da Boa Vista n. 39, hoje,
estava organizada a Associação Dramática Marquês de São Vicente n. 147 – alugado ao
União Familiar da Gávea. seu proprietário, o advogado Carlos Taylor
Deve ter começado a funcionar dando – só foram inauguradas um ano depois de
sua 1a récita em novembro ou dezembro fundada a Associação, a 22 de dezembro de
de 1878, pois no número de 30 de abril 1879. O prédio ainda hoje de pé, acomodou

162 Teatros do Rio


Arquivo Cedoc/Funarte
Teatrinho da Gávea ouro, atraindo pelas suas festas a fina flor
da sociedade fluminense.
durante muitos anos a administração e ser- Com o desenvolvimento dos bairros de
viços sociais do Parque Proletário da Gávea. Botafogo a Laranjeiras, com sociedades se-
Nos sete anos de sua existência, a vida do melhantes ao Clube Dramático da Gávea,
Teatrinho da Gávea pode ser dividia em duas foi este entrando em decadência até se ex-
fases. A primeira, da sua fundação, em no- tinguir silenciosamente.
vembro ou dezembro de 1878, até janeiro O teatrinho devia ser de acanhadíssimas
de 1889, e a segunda, até o seu desapareci- proporções. Entretanto, o sucesso das re-
mento, em 1913. presentações levou a diretoria a alugar um
Na fase inicial, como dizia o título da as- prédio em centro do grande terreno, na Rua
sociação, era um teatro familiar, dando aos Boa Vista n. 39, de propriedade do Dr. Car-
sócios e convidados, uma vez em cada mês, los Taylor. A Gazeta de Notícias em 21 de de-
uma reunião artística com representação de zembro de 1879, em poucas linhas, dá conta
uma peça, cenas cômicas, número de pres- da mudança do teatrinho:
tidigitação, recitativos e números de canto,
piano e violino. Vez por outra havia récitas Inaugura-se amanhã o novo teatro do Grê-
em benefício de instituições de caridade e mio Dramático da Gávea, uma sociedade
da Irmandade da Matriz de Nossa Senhora que graças ao zelo de seus membros e es-
da Conceição da Gávea. forços da sua diretoria, está numa próspe-
Na segunda fase, as atividades foram ra carreira de prosperidade.
ampliadas no setor social, reformando-se
completamente a sede para proporcionar Em sua nova casa, pode o teatrinho receber
divertimentos, jogos e bailes. Foi nessa maior número de sócios e acolher convida-
época que o teatrinho viveu sua idade de dos, expandindo-se, assim, nos meios sociais.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 163


Foi a partir de 1886, que se acentuou o nástico Português, a sociedade que alcançou
prestígio do Teatrinho da Gávea na socieda- vida mais longa.
de fluminense. A diretoria chegou a arran- Deve-se a sua existência e o prestígio que
jar com o sócio morador no bairro – Barão disputou durante alguns anos perante a socie-
Ribeiro de Almeida, diretor da Companhia dade fluminense à figura ilustre sob todos os
Jardim Botânico – bondes especiais, com os títulos, do Conselheiro Antonio José Amaral
bancos forrados de pano branco para a con- (01/07/1824 – 28/07/1892), que faleceu
dução dos espectadores. re­­pentinamente aos 68 anos em sua residên-
Às vésperas de completar seu primeiro cia à Rua Marques de São Vicente, n. 75, viti-
decênio, tudo corria às mil maravilhas no mado à tarde por um insulto cerebral.
Teatrinho da Gávea, mas além dos dramas
e comédias, havia algo nos bastidores que
ameaça a sobrevivência da sociedade. 1880
Chegou-se na época, a noticiar o apareci- Teatro Lucinda
mento do Clube da Gávea, como se tratasse
de nova sociedade, sem qualquer ligação de Não fugiu à regra dos teatros existentes na
continuidade com a anterior. Se houve in- época o Teatro Lucinda, localizado na an-
terrupção nas suas atividades, não perdurou tiga Rua do Espírito Santo n. 24, (hoje D.
por mais de trinta dias, o que pode ter ocor- Pedro I), entre a Rua do Senado e o Largo
rido por conta na verdade das obras e adap- do Rossio, hoje Praça Tiradentes. Foi man-
tações introduzidas no teatrinho. dado edificar pelo ator, autor e empresário
O que houve de fato foi uma completa e comendador Luiz Cândido Furtado Coe-
transformação. Elegeu-se uma diretoria e lho (Lisboa, 1831/1900), que desejou ho-
foram criados mais atrativos para os sócios menagear a esposa, a atriz Lucinda (Lucinda
e suas famílias, que propuseram rumos mo- Simões/Lisboa, 1831/1928), filha do ator
dernos à Sociedade, que passou a chamar-se Simões, batizando o teatro em seu nome.
simplesmente Clube da Gávea. A inaugura-
ção do Clube Dramático da Gávea ocorreu O Teatro Lucinda tal como sucedeu à maior
em 19 de janeiro de 1889. parte dos teatros existentes ou que existiam
O prédio em que funcionava o Clube, no Rio de Janeiro, exteriormente, não ti-
desde a reforma por que passou em 1888, nha aparência de uma casa de espetáculos...
dispunha de salas para diversos jogos, biblio- quem passava pela porta, verificava estar
tecas, dependência para moradia do admi- junto a um teatro, por causa dos cartazes
nistrador e um amplo jardim. O palco e a que via estendidos nos portais de entrada
plateia ficavam em um prolongamento nos onde eram anunciadas as peças do dia. 83 Sua
fundos do edifício, feito de madeira e cober- construção era composta de corpos diver-
to de zinco, tudo devidamente disfarçado sos e não ostentava pretensões arquitetôni-
com efeitos de papel pintado, colunas late- cas. A entrada sobre a Rua do Espírito Santo
rais, lustres de gás etc. Lugar de reuniões de era modesta, dando difícil escoamento ao
famílias e dos sócios, era o ponto ideal para público no fim do espetáculo. Um caminho
se tratar de negócios e cuidar da política. coberto estendia-se até ao teatro, cercado
O Teatrinho da Gávea em boa parte de pela frente e pelos dois flancos de um ter-
seus trinta e tantos anos de existência foi, reno assaz vasto. Em torno desse terreno
com exceção da Real Sociedade Clube Gi- corriam caminhos, também cobertos, e di-

164 Teatros do Rio


versos telheiros adjacentes ofereciam mesas tima; ganhou um salão de exposições, serviço
e assentos para os frequentadores do bote- de bar, amplas galerias, jardins, sala de jogos
quim.84 [... ] Era abarracado, circundado e pequenos estabelecimentos comerciais. Foi
na altura dos camarotes por uma varanda a primeira casa de espetáculos no gênero no
que servia de passeio, oferecendo ao lado Rio de Janeiro.
da frente, em que era mais larga, também Os lugares de segunda circundavam toda
espaço para mesas. Interiormente, era de- a sala. Tinha 13 camarotes, 306 cadeiras, 96
corado elegantemente, com simplicidade lugares nas galerias nobres e 200 lugares nas
e bom gosto, sobretudo alegre. galerias gerais.
Era uma sala arejada, dispondo de varan-
Foi inaugurado em 3 de junho de 1880 das ao nível dos camarotes configurada em
com o espetáculo O casamento de Olímpia, de “U” alongado. Um guarda-corpo em gradil
Emílio de Augier, pela Companhia de Fur- de ferro protegia os espectadores. Sob os
tado Coelho – Lucinda Simões. No elenco, camarotes, estreito lambrequim rendilhado
além do casal Furtado Coelho, faziam parte ornava a sala, descrevendo idêntica curva.
do conjunto os atores: Amoedo, Martins, Recobrindo a sala retangular e fazendo tran-
Ferreira de Sousa, Araújo e as atrizes Clélia sição para o formato elíptico, o teto era pin-
de Araujo, Adelaide Pereira, Inez Gomes e tado em motivos florais. Um lambrequim
Clairville. O pano de boca foi pintado pelo mais largo arrematava as colunas de ferro
cenógrafo José Canelas y Clavell, que visi- em sucessivos arcos.
tou-nos em 1879. Por algum tempo perma- Em 9 de fevereiro de 1888 foi inaugurada
neceu fechado, e em 8 de abril de 1882, a luz elétrica no teatro, pelo sistema Julien,
movido por um pequeno gerador a vapor,
no sábado consagrado aos folguedos de por ocasião da estreia da opereta O capelinho
Momo, reabriram-se as portas do teatro vermelho, de Blum e Touché, musicada por
com o nome de Novidades, realizando-se Gastão Serpette.
pomposos bailes à fantasia. A 18 de abril es- Durante muito tempo o Teatro Lucinda
treava ali uma companhia de variedades.85 permaneceu fechado, sendo reaberto em
julho de 1889 para receber uma compa-
Em 1884, Lucinda Simões e seu marido nhia francesa de operetas. Vitorino de Oli-
reassumem o teatro, estreando Fedora, de veira atribuiu ao Lucinda o lançamento, no
Sardou, mudando-lhe o nome novamente Rio, dos “espetáculos por sessões”, quando
para Teatro Lucinda. em 24 de abril de 1904 estreou a comé-
Esta casa de espetáculos apresentava uma dia As obras do Porto. Rubens Gill, porém,
arquitetura simples, sem grandes preten- considera que a implantação do “teatro por
sões, porém possuía um foyer, que era um sessões” no Rio se deve a Paschoal Segre-
ponto de encontro dos intelectuais da épo- to, alegando que as iniciativas havidas ante-
ca, entre os quais Joaquim Serra, Machado riormente no Lucinda, Chantecler e Car-
de Assis e Quintino Bocaiúva. los Gomes foram efêmeras.
Em outubro de 1887, depois de reformado Em janeiro de 1905, o teatro passou por
por Furtado Coelho, é reaberto ao público reformas, sendo realizado o conserto das
com o nome de Éden Concerto. Todo o vas- paredes dos fundos e do lado direito, dos
to espaço que ficava por detrás da plateia foi camarins, das varandas externas e do muro
assoalhado, ficando ao mesmo nível desta úl- divisório; reforço do vigamento do passadiço

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 165


e parte da varanda; aumento das dimensões pestre. Um requerimento de Manoel Do-
das janelas; reparo nos assoalhos e forros; mingues Duarte à Câmara (não sabemos se
as­faltamento do pátio; emboço; reboco e era proprietário ou construtor) – encami-
pintura geral. nhado quatro meses após a inauguração do
Desde 1887, sucessivas Companhias deti- Teatro Príncipe Imperial – solicitava licença
veram a responsabilidade dos destinos do Tea- para demolir a parte coberta do teatro, a fim
tro Lucinda. Foram elas: Companhia de Bur- de construir um prédio com outra licença já
letas e Revistas (do empresário Souza Bastos), obtida. O requerimento n. 50-2-60, fl.s/n.,
1887; Companhia Francesa de Operetas, ju- teve despacho em 5 de abril de 1881, sendo
lho de 1889; o empresário José Fernandes de concedida a licença para as obras. O mes-
Carvalho, em 1894; a Empresa Colás (Silva mo Manoel Domingues, já em 3 de abril
Pinto), em 1902 e, por último, D. Pedro de de 1888, encaminha outro requerimento à
Almeida Godinho, em 1905. Câmara Municipal, solicitando licença para
O Teatro Lucinda teve suas atividades en- alargar o Teatro Príncipe Imperial e dar mais
cerradas em 29 de janeiro de 1909. Foi ven- espaço para o jardim na frente do teatro. O
dido em hasta pública para fins mais lucra- requerimento n. 50-2-63, fl.3, 3v, obteve a
tivos, vindo a ser arrendado à firma Hime licença em despacho de 10 abril de 1888.
& Liz, que possuía no prédio contíguo uma Em 1883, o Teatro Príncipe Imperial pos-
fábrica de ferros de engomar. suía 14 camarotes, 465 cadeiras, 60 lugares
Na ocasião, o teatro era ocupado por uma na galeria nobre, e 150 na galeria geral. Já
companhia de revistas da qual faziam parte em 1908, o teatro comportava duas frisas,
Colás, Brandão, Ismênia Mateus, Gabriela 21 camarotes, 524 cadeiras, 67 varandas,
Montani e outros. 250 galerias e 500 entradas gerais. Cinco
anos depois, em 1886, sofre reforma, trans-
formando-se em um café-dançante com o
1881 nome de Eden Theatre.
Teatro Príncipe Imperial (Teatro Em 26 de maio de 1886, reinaugura como
São José) Teatro Eden Fluminense, com a comédia Re-
médio para curar paixões, encenada pela com-
Mudanças de nome de teatros eram coisas panhia de que era principal figura o ator Flá-
comuns no meio. Em 1 de janeiro de 1881, vio Wandeck.
por exemplo, inaugurou-se na Praça da Em 27 de outubro do ano seguinte, como
Constituição n. 3 – (anteriormente Largo do o novo nome não houvesse dado certo, hou-
Rossio e a partir de 1890 Praça Tiradentes), ve uma nova mudança para Teatro Recreio
com fundos para a Travessa da Barreira (Rua Fluminense, inaugurado com o Barbeiro de
Silva Jardim) – um teatro de verão, o Teatro Sevilha, apresentada por uma Companhia
Príncipe Imperial, que havia sido mandado Italiana, em que atuavam as atrizes Rosina
construir por um monarquista, Dr. Roberto Belegrandi e Marion André. Mas esse novo
Jorge Haddock Lobo. A inauguração se deu nome se prestava a confusões com o do Re-
com a peça O solar do Rocha Azul, do portu- creio Dramático, dois quarteirões adiante. E
guês Eduardo Garrido traduzida do francês; acabou sendo trocado para Teatro Varieda-
seguindo-se a peça As três rocas de cristal. des Dramáticas, em 21 de maio de 1888.
Não se encontrou nenhuma descrição da O Almanak Laemmert de 1890, relata que o
sua fachada. Sabe-se que era um teatro cam- Teatro Variedades Dramáticas

166 Teatros do Rio


reconstruído com todas as regras pres- Fachada do Cine Teatro São José

critas pela higiene e bom gosto, oferece


ao público todas as comodidades e bem- de dezembro de 1900, já em propriedade da
-estar. Possui entre a porta de entrada e o Empresa Paschoal Segreto, num café-cantante,
edifício do teatro um grande pátio arbo- permanecendo durante algum tempo como
rizado e refrigerante e na frente, sobre o Moulin Rouge, tornando-se ponto de reunião
saguão, um longo terraço que se comuni- noturna da juventude burguesa da cidade.
ca com os camarotes. Em cópia, a mais semelhante possível do
original existente na capital francesa. Con-
Como Variedades, foi inaugurado com a forme relata Jota Efegê,
peça O trem do recreio, em quatro atos, de
Hennequim, Saint Alban e Mortier, tradu- por muitos anos, com o indispensável
zida por Azeredo Coutinho e Figueiredo moinho movido a eletricidade (como es-
Coimbra, tendo como intérpretes Gui- clarecia a publicidade alardeando a utili-
lherme da Silveira, Joaquim Maia, Augusto zação desse recurso, à época tido como
Boldrini, Sepulveda, Portugal, Ismênia dos requinte e progresso), girando na fachada,
Santos e outros. o alegre Moinho tornou-se em atraente
Os cafés-cantantes, os cafés-concertos e centro de diversões.86
cabarés floresciam no começo do século XX
para todas as camadas sociais. Foi então que o A estreia de Moulin Rouge, sob a dire-
Variedades Dramáticas transformou-se, em 22 ção artística de J. Cateysson, apresentou

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 167


um programa com a participação de La Mais um velho teatrinho que não mais
Bele Guerrerito, bailarina espanhola, Inez condizia com os progressos de constru-
Alvarez; Enriqueta Guerrero; os Admirá- ção dessa natureza vai sofrer os oportu-
veis Palácios e Geraldo Magalhães, apre- nos embates da picareta: – o Teatro São
sentando cançonetas, além do concurso de José. O ex-Variedades estava requeren-
uma orquestra de 16 professores, dirigida do, com efeito, a sua baixa de serviço, e
pelo maestro José Izzo. não sabemos o porquê da longanimida-
Em 1 de janeiro de 1903, o Moulin Rouge de de nossa Prefeitura, de braços dados
passa a chamar-se Teatro São José, deixando com a Saúde Pública, deixavam-no em
de ser café-concerto para voltar a ser teatro. atividade apesar do patente atestado de
Foi inaugurado com o drama A virgem negra, invalidez afixado no seu velho madeira-
de Eugenio Nus e Raul Bravard, traduzido mento e na sua desgraciosa fachada de
por Azeredo Coutinho, e levado à cena pela coliseu barato. Ademais, numa época em
Companhia Dramática dos atores J. Veiga e que os cinemas estão se transformando
Domingos Braga, participando do elenco os em teatros modernos, luxuosos e higiê­
atores Antonio Marques e Edmundo Silva, e nicos, cujos materiais empregados na
as atrizes Olímpia Montani, Adelina Nunes, construção evitam perigos dos acidentes
e Maria Layrot. pelo fogo, seria exigir sacrifício de nos-
Em janeiro de 1904, com a encenação da so público, obrigá-lo a ir divertir-se em
peça O Mandarim, de Artur Azevedo e Mo- suas salas onde o ar mantém-se impreg-
reira Sampaio o Teatro São José é consagra- nado de gás carbônico, do começo ao fim
do como casa de espetáculos. Com o tempo dos espetáculos; onde a temperatura é de
passou a ser a casa mais famosa com o teatro fornalha devido à reduzidíssima cubagem
de revistas, que durou quase três décadas. de ar e onde, afinal, as saídas são pou-
Apesar das críticas quanto à precariedade da cas, acanhadas no caso de incêndio. Se as
arquitetura, e de sua estrutura frágil, teve tradições teatrais podem lamentar com
longos dias de glória. certo fundamento o desaparecimento
Segundo o Almanaque Brasileiro, em 1908, do Teatro São José, o público e a cida-
o Teatro São José apresentava as seguintes de, porém, exultarão com a edificação
dimensões internas: comprimento da pla- do novo São José que irá dar àquele tre-
teia – 19,1 m; largura – 14,3 m; altura cho da Praça Tiradentes – uma das mais
do teto – 9,4 m; boca de cena – 7,9 m centrais e importantes do Rio – aspecto
de altura por 7,1 m; comprimento do pal- mais compatível com a estética e o grau
co – 14,9 m; largura – 13 m. Na edição de adiantamento de nossa capital. Mas
de 1911/1912, consignava: 21 camarotes, será apenas o São José que está demodé
532 cadeiras; 67 galerias nobres e 800 para a cidade e indesejável para a higiene
entradas numeradas, enquanto em 1926 pública? Não, ali pelas circunvizinhanças,
a lotação do teatro era composta de duas ali na própria antiga Rua do Espírito San-
frisas, 28 camarotes, 840 poltronas, 57 to há muita velharia perigosa à vida de
balcões e 30 gerais. quantos a procuram para passar o tem-
Passados quase vinte anos o teatro foi po, que mereceria sofrer um arrasamen-
alvo de muitas críticas da imprensa, como to semelhante ao do Morro do Castelo.
a de um cronista da revista O Malho, em Mas como Roma não se fez em um dia,
1921: esperamos que a queda de um pardieiro

168 Teatros do Rio


muito brochado de tinta com esmalte, de Almeida, quando tinha início o filme
muito pontilhado de lâmpadas elétricas, A minha noite de núpcias, de Leopoldo Fróes,
arraste ao trambolhão os outros que lhe o prédio incendiou-se, só ficando de pé
são idênticos em idade, em defeitos e em a fachada e as escadas laterais da sala de
malefícios…87 espera. Após sua reedificação passou a
fun­­cionar como Cinema São José. A fim
O teatro passou por várias reformas: em de criar a casa da canção nacional, Duque
1921, foi feita uma completa remodelação (Antônio Lopes de Amorim Diniz), com
em suas instalações; em 1930, uma refor- o concurso da Empresa Paschoal Segre-
ma geral. to, aproveitou a parte não incendiada do
A Empresa Paschoal Segreto, cansada teatro e instalou a Casa de Caboclo, re-
de perder dinheiro, transformou o São produzindo a morada do nosso tabaréu:
José em 3 de setembro de 1926 em Ci- o madeiramento rústico, de paus toscos,
neteatro São José, com o espetáculo de cobertura de sapé, formando frisas e ca-
estreia: A corte na roça, peça de Palhares marotes; palco e uma varanda de casa da
Ribeiro, com a Empresa Sousa Bastos. roça, ao fundo. Foi inaugurada com um
Nesse espetáculo entrou como composi- espetáculo em que o samba “Minha terra”,
tora Francisca Gonzaga. Como relembra de J. Aimberé, foi apresentado pela atriz
Augusto Maurício, Dercy Gonçalves. Fizeram-se aplaudir, tam­­­
bém: João Lino, Jararaca e Ratinho, os
pelo palco do antigo Teatro desfilaram na Rouxinóis Cariocas (com o cantor René
representação das peças que jamais desa- Bittencourt).
pareceram da memória de quem a elas as- Em 13 de dezembro de 1934, tiveram
sistiu. Não somente comédias ou dramas, início as obras de construção do novo
mas óperas, revistas e burletas – artistas cinema, confiadas à firma de Duarte &
dos mais notáveis, quer nacionais, quer Cia., de São Paulo. O São José transfor-
estrangeiros... mado em cinema foi, até 1931, um dos
teatros mais populares da cidade do Rio
A fluência ao teatro era tão numerosa, de Janeiro.
que Paschoal Segreto introduziu um novo Já no então Cinema São José, o sistema
sistema de funcionamento da casa – o es- de refrigeração era feito por meio de ven-
petáculo por sessões, que deu início a uma tiladores e a casa possuía uma aparelhagem
nova modalidade de funcionamento, logo de projeção convencional, de 35mm, com
adotada por quase todos os teatros do Rio. tela plana, e capacidade para comportar oi-
Ruben Gill escrevendo sobre o Teatro São tocentas pessoas.
José lembra que o “teatro de tipos, lingua- A Empresa Paschoal Segretto foi vendida
jar, e assuntos exclusivamente locais, nasceu a José Rômulo Dantas em 31 de dezembro
no palco do S. José”. E ainda, “no São José de 1981.
foi, realmente, empreendido o repertório Nos seus 100 anos de existência, foram
regionalista carioca, o repertório urbano, numerosos os empresários que passaram
melhor dizendo”. pelo São José. Entre eles Guilherme da Sil-
Em 12 de setembro de 1931, com o São veira, Ismênia dos Santos, J. Veiga e Domin-
José funcionando como cineteatro, após a gos Braga, Leopoldo Fróes, Antônio Lopes
apresentação de Amores e modas, de Mauro de Amorim Diniz (Duque).

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 169


1886 ras de primeira; 200 lugares de segunda; 75
Teatro Apollo (Inválidos) galerias nobres e 300 lugares nas arquiban-
cadas. O pano de boca era uma cópia exce-
O Teatro Apollo na Rua dos Inválidos n. 120, lente do Parnaso, de Rafael Sanzio, existen-
da Empresa A. Costa, foi inaugurado em uma te na galeria do Vaticano, e foi pintado por
antiga chácara no dia 2 de janeiro de 1886 um irmão do ator Carlos Rossi.89
com as peças: A casa do diabo ou O espelho má-
gico e As más informações, com a Companhia de Amplo, arejado e luxuoso, de constru-
Comédias do ator Sales Guimarães. ção sólida, sem arcabouço, todo de ferro
Quanto às suas características físicas, a revestido de tijolos e massa, fora impor-
única referência, é feita por Lafayette Silva tado da Europa pelo empresário e pro-
que escreve: “tinha pequenas dimensões mas prietário Celestino da Silva. Erguido em
era arejado”. 88 forma de ferradura, teve sua armação de
Não há precisão sobre o seu período de ferro fabricada na Europa, nas oficinas de
atividades, porém as crônicas mencionam a Moisant Savey, Laureys & Comp., segun-
duração de um ano, não se referindo às cau- do o modelo apresentado pela Casa Eiffel,
sas do seu desaparecimento. e aqui colocada pela firma Haupt e Rapp.
Foi responsável pelo seu projeto a firma
Meanda & Curty.
1890 Em 1891, o Almanak Laemmert assim infor­­­
Teatro Apollo (Lavradio) mava:

Em 18 de setembro de 1890, surge o segun- Este bonito teatro de construção elegante


do Teatro Apollo, à Rua do Lavradio, com e sólida é um dos mais aprazíveis e bem
o projeto de arquitetura de Morais de Los ventilados, tem um grande jardim onde se
Rios, e edificado pelo ator Guilherme da Sil- acha construído um buffet o qual está em
veira, em terreno da antiga chácara do Barão condições de bem servir aos frequentado-
do Flamengo. O Almanak Laemmert de 1891, res deste teatro. A sala é vasta e pode com-
acrescenta ao nome de Guilherme da Silveira, portar mais de mil e quinhentas pessoas.
o do empresário Braga Júnior, como respon- Tem uma ordem de camarotes, tribuna
sável, também, pela construção daquela casa nobre, camarote de polícia e conservató-
de espetáculos. Como espetáculo de inaugu- rio, lugar para quatrocentas cadeiras na
ração, foi apresentada a opereta Mademoisele plateia e uma vasta galeria.
Nitouche, de Hervé, pela Companhia dirigida
pelo ator Guilherme da Silveira. Elenco: nos Essa mesma publicação, em 1911/1912,
papéis principais, figuravam Celestino Silva e especifica sua lotação: 24 camarotes; 2 fri-
Heloisa, Machado e Rose Villiot. sas; 592 cadeiras de primeira; 32 cadeiras de
De acordo com a descrição de Lafayette segunda; 45 galerias nobres; 200 entradas
Silva, numeradas; 500 gerais.
O Teatro Apollo, em seus 26 anos de exis-
era um teatro alegre, ajardinado, com a tência, apresentou artistas consagrados pelo
extensão de 74 metros e a largura de 18... público e pela crítica, registrando grandes
com a seguinte lotação: 18 camarotes de sucessos na vida teatral carioca. Nele traba-
primeira ordem; 10 de segunda; 360 cadei- lhou, na última vez em que aqui esteve, a

170 Teatros do Rio


atriz Sara Bernhardt. Marcando sua passa- Teatro Apollo (Lavradio)

gem, afixou-se em uma das paredes da sala


de espetáculos uma placa com os dizeres empresário José Loureiro, cinco dias após o
alusivos ao evento. Essa placa agora perten- falecimento de Celestino Silva.
ce ao Arquivo do Município. Atualmente, no local onde ficava o teatro,
No Apollo, apresentaram-se muitos ato- há a escola Municipal Celestino Silva.
res portugueses consagrados entre eles José A matéria de Augusto Maurício no Jornal
Ricardo, Ângela Pinto, Augusto Rosa e Pal- do Brasil vem esclarecendo melhor a quanti-
mira Torres. Atores brasileiros também re- dade de teatros com a denominação Apollo.
gistraram grandes sucessos: Eduardo Gar- Entretanto, com relação ao quarto Teatro
rido, Brandão – o popularíssimo, Machado, Apollo, não há nenhum outro registro sobre
Vasques e tantos outros. sua inauguração em 1958 ou de suas ativida-
O Teatro era o preferido das companhias des. Do terceiro teatro com o nome do deus
portuguesas de revistas e operetas, por lá mitológico, situado na Rua Pedro I (antiga
passaram vários empresários: Guilherme da Espírito Santo) de 1940, sabe-se que teve
Silveira (1890), Sociedade Emprezaria Gar- vida efêmera.
rido & Cia. (1892), Cia. Souza Bastos, Afon-
so Taveira (1895), Empresa José Loureiro, e …cogita-se de dotar a Zona Sul de mais
muitos outros. um teatro. (…) Essa casa de espetáculos
O Apollo encerrou sua atividade teatral seria montada na sobreloja do prédio n.
com a morte de seu proprietário, Celestino 750 da Avenida N. S. de Copacabana.
Silva, ocorrida em 3 de setembro de 1916. Soubemos, ainda, que o teatro teria o tí-
O imóvel fora alegado em testamento ao tulo de Apolo, ofereceria uma plateia com
Município, com a condição de ser transfor- cerca de quatrocentas poltronas e seria
mado em escola para o povo. A entrega das inaugurado pelo nosso festejado cômico pa-
chaves do prédio à Prefeitura foi feita pelo trício José Vasconcelos, (…) Seria então, o

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 171


quarto teatro carioca com a denominação 1895
de Apollo. O primeiro era situado na Rua Teatro Eden-Lavradio
dos Inválidos n. 120, inaugurado em janei-
ro de 1886 com as comédias A casa do diabo O Teatro Eden-Lavradio, situado na Rua
e As más informações, por uma Companhia do Lavradio n. 96, pertencia ao Dr. Luis
chefiada pelo ator Sales Guimarães. Teve Delfino dos Santos. Mas foi Luiz Alves da
vida efêmera. Silva Cândido que inicialmente requereu
O segundo Apollo, no entanto, desfru- a construção, sendo substituído por Sera-
tou um período áureo, de grande sucesso. phine. Em requerimentos datados de 8 de
Era na Rua do Lavradio n. 56, onde hoje outubro de 1894 e 23 de abril de 1895,
funciona a Escola Celestino da Silva. Foi ali ao diretor de Obras Públicas do Rio de
levantado no ano de 1890, sendo inaugura- Janeiro e ao Prefeito, aparece o nome de
do a 18 de setembro com uma Companhia Seraphine, solicitando licença para modi-
empresada pelo ator Guilherme da Silvei- ficar a planta do teatro “apresentada pelo
ra, tendo subido à cena a opereta Mademoi- seu antecessor, Luiz Alves da Silva Cândi-
sele Nitouche, de autoria de Hervé. Teve, do...”91 Não está bem claro, se o Sr. Luiz
esse Apollo, a existência de 26 anos e pelo Alves da Silva Cândido era o proprietário,
seu palco passaram artistas celebrados no ou o engenheiro encarregado das obras. O
tempo, entre outros, Corrêa Vasques, José processo de construção foi deferido pelo
Ricardo, Angela Pinto, Brandão – o po- município em 4 de dezembro de 1894.
pularíssimo – Gabriela Montani, Olímpio A polícia efetuou a vistoria final e conce-
Nogueira, e ainda a genial Sara Bernhardt, deu, em 1 de maio de 1895, autorização
quando de sua rápida visita à nossa cidade. de funcionamento. O teatro foi inaugu-
A última Companhia que esteve no te- rado em 28 de maio de 1895 pela Com-
atro da Rua do Lavradio foi a portuguesa panhia Pepa Ruiz com a revista Tim-Tim
do Politeama de Lisboa. Deixou o teatro a por Tim-Tim, de Souza Bastos. Pepa Ruiz,
2 de dezembro de 1916, e no dia seguin- como empresária, levou ao Eden-Lavradio
te falecia o proprietário, Celestino da Sil- várias revistas e uma opereta. Em 1896,
va, que, em testamento, doava o imóvel à ou­­tra companhia ocupou o teatro e fo-
Municipalidade, sob a condição de que no ram apresentados espetáculos de mágicas.
local fosse instalada uma escola. “Construído no fundo de uma chácara, na
O terceiro Apollo é de data recente. Nas- Rua do Lavradio. É pequena e desgraciosa
ceu da transformação em teatro do antigo a sua entrada”.92
Cinema Moderno, da Empresa Pascoal Se- Nesta casa de espetáculos de curta exis-
greto, à Rua Pedro I. A estreia teve lugar a tência, passaram vários artistas do teatro
12 de abril de 1940, com a apresentação da ligeiro, que começaram suas carreiras para
revista em dois atos Ó Seu Oscar, de autoria a fama.
da Freire Júnior. Como o primeiro Apollo, Adquirido pela Prefeitura em 1899, foi
durou pouco. O prédio foi demolido e le- remodelado e nele instalou-se a Escola Pro-
vantado outro, mas sem o teatro. fissional Souza Aguiar.
Efetivando-se, como é desejável, a ins- Em 1824, com o mesmo nome, e na mes-
talação da casa de espetáculos na Avenida ma rua, houve um início de construção de
N. S. de Copacabana, será mais um Apolo uma casa de espetáculo, sem condições para
na história do teatro no Rio de Janeiro.90 funcionar.

172 Teatros do Rio


1900 por André Nerac; a Companhia de Zarzue-
Cassino Nacional las Sargi Barba; a Dramática Italiana Verga-
ni, que representou aqui pela primeira vez
Em 1900 surgia o Cassino Nacional, à Rua do no Rio, O ladrão, de Bernstein; a de ope-
Passeio n. 44. O imóvel pertenceu a Roma- reta, da mesma nacionalidade, Lahoz, que
na G. Rocha Monteiro no período de 1900 a trouxe por principal figura Linda Morosini,
1905, sendo que em 1902 passa a chamar-se e estreou com o Bocaccio; a alemã Augusto
Teatro Cassino Nacional, não havendo refe- Papke, cuja primeira figura feminina era a
rências nas fontes pesquisadas sobre o espetá- Hansen. Foi essa companhia que aqui repre-
culo de inauguração, sabendo-se que foi pro- sentou pela primeira vez A viúva alegre, que
jetado por Grandjean de Montigny. passou despercebida. Mais tarde ocupou o
O teatro teve, originalmente, sua constru- Palace a companhia italiana, Vitale, com Ita-
ção adaptada de um boliche, sendo o projeto lo Bertini. Depois, passaram por ali os artis-
da autoria de Morales de Los Rios. Segundo tas Leopoldo Fróes, Palmyra Bastos, Adelina
o arquiteto e Aura Abranches. Ernesto Vilchas e Irene
Lopes Neredia.
construção leve, completamente aberta,
mas com enormes beirais, permitia que A 21 de dezembro de 1911 o elegante
em sua volta houvesse largas esplanadas, Palace-Theatre voltava a funcionar como
onde os espectadores podiam assistir, ao ar café-concerto, numa temporada de verão,
livre, aos espetáculos. 93 com artistas de um tal “South American
Tour”. O teatro da Rua Joaquim Nabu-
A partir de princípios de 1906 (até 1926), co prestava-se muito bem para o gêne-
passa a ser propriedade da Empresa Theatral ro. Além da bela sala de espetáculos e do
e de variedades de C. Sequim e João Cateys- chamado “promenoir”, havia cá fora, no
son, recebendo o nome de Cassino Palace. pátio, mesas e cadeiras sob árvores para
Foi inaugurado em 25 de abril de 1906 com o refrigério da cerveja e dos refrescos nos
a peça Allons au Palace, libreto de Chicot e intervalos. O café-concerto era, por outro
partitura musical de Luiz Moreira. Faziam lado, da acentuada preferência do carioca.
parte do elenco: Cristiano de Souza, Lucin- “O público há muito, dizia A Notícia, ansia-
da Simões, Itália Fausta e Cinira Polônio. va por esse gênero de espetáculos em que
Apesar do sucesso junto ao público, não ao lado do “flirt”, há os alegres momentos
foram levadas à cena novas revistas e a casa de cançonetas brejeiras, cenas cômicas etc.
voltou a exibir números de canto e músi- Escoando-se as horas rápidas.
ca. Em dezembro de 1906, era inaugurado E a Careta, aplaudindo com entusiasmo
como teatro, Palace-Théâtre, com a revista o retorno do gênero, manifestava a espe-
Chic-chic de João do Rio e J. Brito. rança de que “o empresário, inteligente e
Neste período possuía 400 cadeiras de versado em cançonetas e canções, propor-
primeira, 96 de segunda, 28 camarotes de cionasse um ambiente onde a arte humana
primeira, 25 frisas e 106 galerias nobres, o e singela, doce e confortante do “cabaret”
que dava um total de 655 lugares. iniciasse a sua obra deliciosa de educação
Desde então ficou sendo o teatro do anti- do povo…” O certo é que o público, em
go cassino. Abrigou companhias dramáticas massa, prestigiou a iniciativa da Empresa
francesas, uma de Grand-Guignol, dirigida Luiz Alonso.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 173


Os espetáculos se renovavam periodica- 514 poltronas na plateia, 164 nos balcões,
mente sempre atraentes e bem organiza- 28 camarotes e 32 frisas.
dos. No inaugural, as “chanteuses” que mais Até a remodelação sofrida em 1925, não há
se destacaram todas “alegres e decididas” – referências, nas fontes pesquisadas, quanto ao
foram, segundo a crônica contemporânea, interior do teatro. Naquela data, há uma cita-
as francesas Gilberte, Jane e Bluete e a in- ção, apenas dizendo que, o teatro tornou-se
candescente espanhola La Bela Esmeralda, mais confortável e decorado com cores claras.
que dançava, na verdade, a capricho, per- De 1926 até 1928, foram proprietários os
turbadora nos menores gestos e dona de irmãos Vitor e José Maria Fernandes, sendo
um “salero” que virava, à primeira vista, a em 13 de julho de 1928, reinaugurado como
cabeça a muita gente… Havia também um Palácio Teatro. A partir deste ano, encontra-
duo muito aplaudido – Mademoiselle De- mos mais detalhes quanto ao interior do Pa-
pierke e M. Abelin – que representava um lácio Teatro:
mimodrama terrível de Raul d’Ast, Soir
rouge, história trágica de um apache e de ...tudo é amplo e confortável, bem assim as
uma gigolete, cena de grand-guignol que dependências, salões, terraços e varandas.
causava arrepios. Acrobatas, excêntricos e As linhas da sala, belas na harmonia do seu
cançonetistas menores faziam a contento conjunto, decoração clara, alegre, artística,
geral os demais números do programa. luz profusa, bem distribuída. O palco é de
A concorrência do Palace – sempre grandes dimensões, como a caixa. Os cama-
numerosa e eclética – era especialmente rins e acomodações para artistas são exce-
bem-humorada. “Há no público – registra- lentes, obedecem aos preceitos de higiene
va um diário – ausência completa de pose e máximo conforto. O acesso ao teatro se
e pretensão; todo o mundo ali é camara- faz por longa galeria, rebrilhando toda em
da e se sente fraternal e alegre”. E outro luzes, com serviço de bar; ladeando-as vi-
jornal, falando da estreia, informava: “O trines artísticas, de casas comerciais. Fica o
teatro encheu-se. Os camarotes bem guar- teatro ao fundo, longe dos rumores da rua.95
necidos das mais elegantes demi-mondai-
nes apresentavam lindo aspecto…94 Como Palácio Teatro, em 1928, possuía
1.073 lugares na plateia, 300 lugares nas ga-
Sua inauguração como cinema, em 16 de lerias numeradas e outros 106 nos balcões;
janeiro de 1924, deu-se com Oliver Twist, 28 camarotes acomodavam 140 pessoas,
com Jackie Coogan, o garoto prodígio, re- 40 frisas com acomodações para 200 pessoas;
cebendo o nome de Cinema Palácio. Após balcões de primeira com 202 lugares e, gale-
a exibição do filme, foram apresentados al- rias e gerais com lotações não especificadas.
guns números de atração. A partir de 1928, nova numeração foi
Em 31 de julho de 1925, depois de pas- dada e o prédio passou a ser o n. 38, conser-
sar por algumas reformas, foi reaberto co­ vado até hoje.
mo teatro, recebendo o nome de Palace- Em 20 de junho de 1929, passa a se cha-
-Théâtre, com a peça Um homem encantador, mar Cinema Palácio, sendo a estreia com a
de B. de Garay, tradução de Simões Coelho. exibição do filme sonoro falado, Broadway
O elenco era da Companhia de Declamação Melody, da MGM, que foi muito aplaudido
de Jaime Costa. Neste ano a lotação do tea- com o Presidente da República honrando a
tro reformado era de mil lugares nas gerais, apresentação com a sua presença.

174 Teatros do Rio


Vários foram os arrendatários do teatro: Era situado à Rua do Lavradio n. 49, um
Companhia Lucinda Simões e Cristiano de teatro de construção provisória e precária,
Souza, em 1906; Empresa Luiz Alonso, em que foi objeto de várias exigências do Muni-
1911; Empresa José Loureiro, a partir de ju- cípio, e teve curta duração.
nho de 1917; Empresa Pinfild, em 1925; Com- Em requerimento de agosto de 1898
panhia do Moulin Rouge de Paris, em 1928. consta como proprietária D. Maria Luiza
Atualmente, o Cine Palácio é de propriedade Bonnana da Câmara, pedindo licença para
de Luis Severiano Ribeiro e Fox Film, e, tem conserto do prédio.
1.004 lugares: 774 na plateia, 230 no primeiro Pelo requerimento de José Mourão,
balcão. O segundo balcão foi transformado no seu proprietário, em 13 de agosto de
Cine Palácio II, com 304 lugares. 1900, sabe-se que o teatro tinha uma va-
Possui uma ampla sala de espera, toda for- randa e um jardim. Pode-se precisar as
rada de carpete marrom e suas paredes deco- dimensões do teatro por outro requeri-
radas com espelhos. Na sala de espetáculos, as mento: de 23 de maio de 1903, onde se
poltronas são vermelhas, o revestimento da encontram os seguintes dados: pé-direi-
parede é ocre e, junto ao palco, a forração é to 4,9 x 4,4 m; fachada de 6,4 x 25 m de
com papel de parede ocre com desenhos em comprimento; e a indicação de existên-
marrom. Tem ainda três toilettes masculinos e cia de um terraço no segundo pavimento.
três femininos (dois na plateia e um no pri- Esse mesmo requerimento faz referência
meiro balcão). O palco não é utilizado para ao fato de “o prédio estar semidestruído
espetáculos (tem uma boca de cena de 13 m pelo incêndio”.
de altura por 6 m de profundidade). Por meio de outro requerimento, de 14
O Cassino Nacional, como teatro, café- de março de 1904, “...para que o prédio
-concerto, cinema e, sob seus diversos no- não tivesse mais caráter provisório...” foram
mes, foi sempre muito versátil em seu gê- feitos melhoramentos como: colocação de
nero de espetáculos (variedades, operetas, duas terças na cobertura do palco; coloca-
revistas, comédias, dramas, folies-bergères, e, ção de uma claraboia na cobertura dos ca-
até mesmo atividades de circo-equestre). marins; substituição dos camarins por ou-
tros, e remoção de um camarim existente
no fundo do palco.
1900 Em 1918, era adquirido por Paschoal
Teatro High-life Segreto, não existindo nas fontes data
de encerramento de suas atividades tea-
Em 24 de junho de 1900, foi inaugurado trais, porém, foi reaberto em setembro de
o Teatro High-life, com a ópera Fausto, de 1935, como clube noturno, music-hall e
Gounod, tendo como cantores Camilo Ri- danças, passando depois a funcionar como
cossa, Ernesto Cappa e Rastelli Parodi. casa de jogo.

Capítulo 2 | O teatro de uma capital ainda provinciana 175


Localização das casas de espetáculos na cidade do Rio de Janeiro. De 1767 a 1895
Notas

1 Grande companhia equestre Norte-Americana dos irmãos 27 (Azeredo, 1930).


Carlo, 5a feira, 3 de maio de 1900, no teatro São Pedro de 28 (Jornal A Noite, 28/01/1964).
Alcântara.
29 (Luta Democrática, 22/08/1965).
2 (Correio da Manhã, 24/06/1930).
30 (Alencar, 1979).
3 (Macedo, 1991, p. 240).
31 (Heliodora, 1972, p. 63- 64).
4 (IDEM).
32 (Taunay, 1956).
5 (IBIDEM, p. 244).
33 Praça da Constituição, posteriormente passou a denomi-
6 O Largo do Rossio passou a chamar-se Praça da Constitui-
nar-se Largo do Rossio (Rocio) Grande, sendo atualmente,
ção em 1822 e, a partir de 1890, denominou-se Praça Tira-
Praça Tiradentes. A rua do Cano passou a chamar-se Rua do
dentes. Enquanto Praça da Constituição há menção de ter
Egito, e atualmente Rua Sete de Setembro, enquanto a Rua
o teatro ocupado o número 24, e o número 28. Seu ende-
do Piolho é a atual Rua da Carioca.
reço atual é Praça Tiradentes, s/n. e a área primitiva está
ocupada pelo Teatro João Caetano. Ver: (Cavalcanti, 1878, v.I, 34 (Souza, 1960, p.288).
p. 338), (Alencar, 1979). 35 (Augusto Maurício, s.d., p.115, 117).
7 (Andrade, 1969). 36 (Souza, op.cit.).
8 (Marinho, 1904, p.20). 37 (Paixão, op.cit., p.124).
9 (IDEM, p.22). 38 (IDEM).
10 (Emygdio, 1928). 39 (Marinho, op.cit., p.132).
11 (Correio da Manhã, 24/06/1930). 40 (Paixão, op.cit,p.124).
12 (Marinho, op. cit.). 41 (Paixão, op.cit,p. 130).
13 (Labanca, 1959, p.40-42). 42 (Taunay, 1956).
14 (Souza, 1960, p.284-289). 43 Rua São Francisco de Paula, entre os ns. 27 e 29, dando os

15 (Paixão, 1917, p.141). fundos para a Rua do Cano. A Rua São Francisco de Paula
teve, posteriormente, sete nomes: Souza Franco (decisão
16 (Marinho, op.cit).
da Câmara sessão 01.06.1874); Tucuman (Dec. 1083 de
17 (Correio da Manhã, 17/12/1925). 08.06.1916); Teatro (Dec. 1.165 de 31.10.1917); Prof. Gomes
de Souza (Dec.1.703 de 24.03.1922); Teatro (Dec. 2.517 de
18 (Marinho, op.cit).
22.12.1926); Leopoldo Fróes (Dec. 3.839 de 11.04.1932); e,
19 (Labanca,op.cit). atualmente, Rua do Teatro (Dec. de 20.08.1938). O local
do Teatro São Francisco de Paula é hoje o n. 23 da Rua
20 (Marinho, op.cit).
do Teatro.
21 (IDEM).
44 (Marinho, op.cit., p.72).
22 (Correio da Manhã, 24/6/1930).
45 (Augusto Maurício, op. cit., p.175-177).
23 (Marinho, op.cit.).
46 (Silva, 1991, p.93).
24 (Nunes, 1956, p.88).
47 Rua do Cotovelo, entre a Praia D. Manuel e a Rua Dom
25 (Labanca, 1959.p.40-42). Manuel. Posteriormente a Rua do Cotovelo passou a se
chamar Beco do Cayru e depois Rua Vieira Fazenda. Estas
26 (Revista Teatro Ilustrado, 1959,p.42).
ruas desapareceram com a urbanização do castelo e o lo-
cal onde existiu o Teatro, segundo Brasil Gerson, é hoje o 69 (Alencar, 1975).
Palácio da Justiça. 70 (O Globo, 18/7/1980).
48 (Silva, 1938, p.39). 71 (Anuário da Casa dos Artistas, 1982, p.17).
49 (Jornal do Commercio, 09/05/1847). 72 (Jornal Última Hora, 23/09/1983).
50 (Paixão, op.cit, p.236). 73 (O Globo, 11/11/1985).
51 (Silva, op.cit.,p.48-9). 74 (Jornal do Brasil, 04/02/1986).
52 (Augusto Maurício, op.cit.,p.201-202). 75 (Jornal O Estado de São Paulo, 13/01/1987).
53 (Duarte, 1960). 76 (Chaves, 1988).
54 (Marinho, op.cit.,1904, p.75). 77 (Fabião, 1993).
55 (Silva, op.cit.,p.44-48). 78 (Silva, op.cit., p. 49).
56 (Aguiar, 1971, p.21). 79 (Morais, 1904).
57 (Silva, op.,cit, p.55-59). 80 (Silva, 1938, p.67).
58 (Luiz Edmundo, 1957,p.429). 81 (Revista Careta, 1964).
59 Chamada de Rua da Vala, porque as sobras das águas do 82 (Gazeta de Notícias, 1879).
chafariz do Largo da Carioca corriam para uma vala até a
“prainha”, beira mar, hoje Praça Mauá. Depois da guerra do 83 (Santos, 1956, p.13-14).
Paraguai, com os sucessos militares do Sul, denominaram 84 (Silva, op. cit.,p.72).
Uruguaiana. A localização da casa de espetáculos era entre
os números 43, 45, 47, 49 e 51. Posteriormente com o nome 85 (IDEM, p.73 e 74).
de Uruguaiana, de acordo com requerimento 50-2-60 de 86 (Jota Efegê, 1972).
15/02/1879, o prédio do teatro, recebeu o número 39.
87 (D’az.,1921).
60 (Paixão, op.cit., p.236).
88 (Silva, op.cit.,p.81).
61 (IDEM, p.240).
89 (Silva, op.cit., p. 81-82).
62 (Revista Perspectiva Universitária, 1983).
90 (Augusto Maurício, 1958).
63 (Nunes, op.cit., p.49).
91 (Silva, op.cit.,p.85-86).
64 (Abreu, 1963, p.128).
92 (Azevedo, 1862, p.375).
65 (O Globo, 07/06/1948).
93 (Sousa, 1960).
66 (Silva, op.cit., p.54).
94 (Correio Souza Rocha, 28/1/1962).
67 (Silva, op.cit., p. 59-60).
95 (Nunes, op.cit.,p.105).
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neiro. Dionysos, 1974, p. 102-103. lo. Comoedia. Rio de Janeiro, agosto/setembro de
Macedo, Roberto. História carioca; teatros. O Glo- 1946, p. 72-74.
bo. Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1962. Nunes, Mário. 40 anos de teatro. Rio de Janeiro: Ser-
Marinho, Henrique. O teatro brasileiro. Paris/Rio de viço Nacional de Teatro, 1956, v. I, p. 38, 118 e
Janeiro: Garnier, 1904, p. 96. 220; v. II, p. 105, 121 e 168.
Nunes, Mário. 40 anos de teatro. Rio de Janeiro: Ser- Silva, Lafayette. História do teatro brasileiro... Rio de
viço Nacional de Teatro, 1956, p. 35. Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938, p.
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Janeiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938, p. Sousa, J. Galante de. O teatro no Brasil. Rio de Ja-
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Sousa, J. Galante. O teatro no Brasil... Rio de Janeiro:
Ministério da Educação e Cultura, Instituto Nacio-
nal do Livro, 1960, v. 1. Teatro High-life
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Cassino Nacional Augusto Maurício. Meu velho Rio. Rio de Janeiro:
Almanak Laemmert, 1902, p. 760; 1903, p. 772; 1905, Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de
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Annuário da Casa dos Artistas. Rio de Janeiro, a história anedótica do teatro nacional; II capítu-
1941/1942. lo. Comoedia. Rio de Janeiro, agosto/setembro de
Annuário Theatral Argentino-Brasileiro, 30 de outubro de 1946, p. 72-74.
1926 Nunes, Mário. 40 anos de teatro. Rio de Janeiro: Ser-
Augusto Maurício. Meu velho Rio. Rio de Janeiro: viço Nacional de Teatro, 1956, v. IV, p. 127.
Prefeitura do Distrito Federal, Secretaria Geral de Silva, Lafayette. História do teatro brasileiro... Rio de Ja-
Educação e Cultura (s.d.), p. 204. neiro: Ministério da Educação e Saúde, 1938, p. 772.
Brasil, Gerson. História das ruas do Rio de Janeiro. Rio Sousa, J. Galante de. O teatro no Brasil. Rio de Ja-
de Janeiro: Prefeitura do Distrito Federal, Secreta- neiro: Ministério da Educação e Cultura, Instituto
ria Geral de Educação e Cultura (s.d.), p. 236. Nacional do Livro, 1960, v. 1.
Capítulo 3
Teatros do interior
da província e dos municípios
do R io de J aneiro
Se há dificuldade de se encontrar documentação sobre os teatros da cidade, pode-
-se imaginar o quanto seja escasso o material a respeito dos edifícios teatrais do
interior do Esrado. Por outro lado, em relação ao estado de conservação dos teatros
é triste verificar a precariedade de instalações da maioria deles, como traço domi-
nante durante suas trajetórias. E, quanto ao desaparecimento, também só se tem a
lamentar que, às vezes, o único teatro de uma cidade tenha desaparecido sem que
algum movimento tenha sido feito para substituí-lo ou salvá-lo.
A província também foi sendo aqui- pode-se imaginar o quanto seja escasso o
nhoada com a sua parte na construção dos material a respeito dos edifícios teatrais do
edifícios teatrais, seguindo, na medida do interior do Esrado. Por outro lado, em re-
possível, e dos interesses da Coroa, o de- lação ao estado de conservação dos teatros
senvolvimento da capital. É o que se pode é triste verificar a precariedade de instala-
acompanhar, desde o século XVIII, neste ções da maioria deles, como traço domi-
capítulo dedicado ao inventário e à análise nante durante suas trajetórias. E, quanto
dos teatros das principais cidades da pro- ao desaparecimento, também só se tem a
víncia e, posteriormente, do Estado do Rio lamentar que, às vezes, o único teatro de
de Janeiro, até o final do século XX. uma cidade tenha desaparecido sem que
As cidades serão apresentadas pela ordem algum movimento tenha sido feito para
de inauguração das primeiras casas de espe- substituí-lo ou salvá-lo.
táculos. Neste caso as pioneiras serão São Sal- A história dos teatros no interior da
vador de Campos de Goitacazes (Campos dos província, em tempos passados, e a tra-
Goitacazes) e o Arraial de São João de Itaboraí jetória das casas de espetáculos no nosso
(Itaboraí), locais onde se tem notícia de exis- século não se diferenciam muito em ter-
tência de teatros desde a longínqua data de mos da existência de curvas ascendentes
1795. Seguem-se as outras: Petrópolis, Macaé, e descendentes, revelando os resultados
Friburgo, Nova Iguaçu, Duque de Caxias... críticos da dificuldade de manutenção.
Se há dificuldade de se encontrar do- Acompanhar a trajetória de muitos deles
cumentação sobre os teatros da cidade, é desalentador.

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 195


1. SÃO SALVADOR iniciar os trabalhos e de dirigir a construção
do teatro; ele era autor da planta da cidade
DE CAMPOS DOS
de Campos.
GOITACAZES: CAMPOS As obras tiveram início em 1839 e foram
concluídas em 1844, mas o teatro ainda não
tinha nome. Entretanto, diz A Notícia, “em
1823 março de 1842, por exemplo, exibia-se ali
Teatro João Daniel French a Companhia Ginástica e Equestre Berna-
bó”, e no anúncio então publicado, constava:
“Tea­tro da Rua Direita”...
1833 Luis Gonzaga Cony foi responsável pelas
Teatro Campista (Teatro Feliz pinturas internas e do teto. O São Salvador
Esperança) teve três panos de boca: o primeiro, pinta-
do por Cony, o segundo por Paulo Belido
Campos podia ser considerada uma cidade e o terceiro por Clóvis Arrault, no qual re-
bastante fértil em meados do século XVIII presentou cenas do livro Volta ao mundo em
para as manifestações dramáticas. O Teatro 80 dias, de Júlio Verne (1873).
Campista (1833) foi reinaugurado em 1841 Sua lotação era: 21 camarotes, sendo um
com o nome de Teatro Feliz Esperança. privativo da diretoria, 100 varandas, 350 ca-
deiras e 200 entradas para as galerias.
O Teatro São Salvador foi a primei-
1845 ra casa de espetáculos de Campos, que
Teatro São Salvador madrugara na construção de sua Casa
de Ópera, lançando a pedra fundamen-
Em 22 de outubro de 1836 era publicado o tal de seu quinto teatro a 7 de setembro
projeto dos Estatutos da Sociedade que se de 1839, o qual, pronto em 1842, serviu
propunha construir um teatro. Em 8 de janei- de circo, só recebendo o nome de Tea­tro
ro de 1837 reunia-se no consistório da Igreja São Salvador em 2 de outubro de 1844.
do Carmo a primeira Assembleia Geral dos Foi oficialmente inaugurado a 7 de se­tem-­
Acionistas, sob a presidência de Dom José de bro de 1845. O nome deriva do primitivo
Saldanha da Gama. Nesta assembleia foi eleito nome da cidade, que era São Salvador de
o primeiro conselho administrativo, que fun- Campos dos Goitacazes. Relembra o jor-
cionou até 5 de junho de 1853. nal A notícia, de Campos, a 7 de setembro
A princípio, a diretoria da sociedade en- de 1964:
carregou o Major Engenheiro Henrique
Luiz Niemeyer de Bellegarde de apresen- Às dezesseis horas do dia 7 de setembro
tar o projeto e dirigir os trabalhos de cons- de 1839, uma salva de 21 tiros anunciou
trução. Bellegarde chegou a fazer alguns aos moradores da cidade, a partida do car-
croquis e estudos parciais, no entanto, não ro que conduzia a pedra angular do tea-
teve tempo de apresentar o projeto e ini- tro. Esse carro se achava ornamentado de
ciar os trabalhos, por haver falecido em ja- festões, folhas e flores, conduzia a pedra e
neiro de 1839. era seguido da música; na frente marchava
Em face da morte de Bellegarde, o en- uma escolta de policiais, e outra na reta-
genheiro Aurélio Pralon foi encarregado de guarda dos Srs. Juiz de Paz, Inspetor, Di-

196 Teatros do Rio


Teatro São Salvador. Campos. RJ imposição do progresso, no ano de 1921,
quando foi concluída a sua demolição.
retoria da Sociedade, Acionistas e grande
acompanhamento popular.
1874
A pedra foi então depositada em um ter- Teatro Empíreo
reno de esquina das ruas 13 de Maio e Te-
nente Coronel Cardoso, e mais uma salva de O Teatro Empíreo, durou três anos, inau-
21 tiros anunciou o fim da cerimônia. gurado a 6 de setembro de 1874, com o
Para a inauguração programou-se a exi- drama O poder do ouro. Paralisado por três
bição do espetáculo da Companhia Mista anos, só foi demolido em 1893.
Dramática e de Bailados, dirigida por Luiz
Montani, que foi atingido com a queda do
pano de boca, quando participava do baila- 1885
do. Com o acidente, o espetáculo inaugu- Teatro Gynásio Campista
ral teve que ser suspenso e substituído pela
representação da comédia que já estava na Além do Teatro São Salvador, Campos dis-
programação. pôs ainda no Império, do Teatro Gynásio
Dentre as reformas e melhoramentos que Campista, armado a partir de um barracão,
o prédio experimentou, destaca-se a de Cló- por José de Almeida Cabral em 1885, inau-
vis Arrault em 1890. gurado a 1o de novembro, com a comédia de
Em setembro de 1920, começou a ser Joaquim Manuel de Macedo, Luxo e vaidade.
demolido para permitir o alargamento da Entretanto, durou somente um ano, indo a
então Rua Formosa. Desapareceu por uma leilão já em 1886.

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 197


1886 toda a obra custeada pelo capitão Francisco
Alcazar Campista de Paula Carneiro.
O Teatro Trianon era formado de 156
Em 1886, surgiu outra sala de espetáculos, frisas, 554 cadeiras na plateia, 290 balcões,
o Alcazar Campista, meio teatro, meio café- 38 camarotes e 610 gerais para comportar
-cantante. 1.800 espectadores. A caixa tinha 25 cama-
rins, sendo dois luxuosos, para os primei-
ros artistas.
1910 O capitão Francisco de Paula Carneiro,
Teatro Parque contratou os arquitetos da Meanda Curty &
Companhia, do Rio de Janeiro, para ideali-
zar o seu sonho de construir um cineteatro.
1921 A obra foi considerada arrojada e o Trianon
Teatro Trianon (Teatro na época foi considerado um dos grandes
Municipal Trianon) espaços culturais do Estado, pelo seu tama-
nho, arquitetura e decoração.
A obra de construção do Teatro Trianon, A inauguração foi marcada para às 18 ho-
de Campos, foi iniciada em 8 de agosto de ras do dia 25 de maio de 1921, e o capitão
1919, e na primeira quinzena de outubro Francisco de Paula Carneiro foi conduzido
de 1920 foi entregue a parte da construção de sua residência à Rua 13 de Maio, esquina
civil para que fossem feitos os trabalhos ne- com Saldanha Marinho, onde era localizado
cessários de adaptação e decoração exigidos
por um teatro daquela natureza, tendo sido Hall de acesso Teatro Trianon, Campos, RJ

198 Teatros do Rio


Vista do interior do Teatro Trianon, Campos, RJ

Teatro Trianon, Campos, RJ, 1998


o teatro, por uma enorme massa popular, 1948
acompanhada pelas quatro bandas de música Teatro São Salvador
da cidade: Apolo, Guarani, Conspiradora e
Operários Campistas.
À frente do Trianon, na rua estreita, 1960
comprimia-se o povo para assistir à entrada, Teatro Municipal Joracy
abrindo alas à chegada dos carros de luxo Camargo – projeto
da época, como: Benzi, Overland, Hudson
e também os modelos Ford, com as senho- Em 21 de junho de 1960 o prefeito de
ras trajando soirée, calda arrastando, e os ho- Campos, José Alves de Azevedo, lançava-se
mens de casaca e smoking. a missão de construção do Teatro Municipal
O orador da solenidade foi o advogado Joracy Camargo, projeto que nunca se con-
criminalista Carlos Fonseca, que falou em cretizou.
nome do povo campista.
O espetáculo de estreia aconteceu no
dia 29, com a apresentação de A Duqueza de 1968
Balt-Tabarin, da companhia Esperanza Iris. Teatro de Bolso de Campos
A estrela, conhecida como a “Rainha da
Opereta”, era mexicana, dotada de beleza e O Teatro de Bolso de Campos foi inaugu-
virtuosidade. O elenco artístico era forma- rado em 13 de abril de 1968, construído
do por 105 figurantes e mais a orquestra de pela Prefeitura ­– gestão de José Carlos
22 professores, dirigida pelo maestro San- Vieira Barbosa – em convênio com a As-
tiago Sabine. sociação Regional de Teatro Amador. Este
Durante décadas, o Teatro Trianon foi teatro só foi possível graças ao esforço do
palco para grandes nomes: Leopoldo Fróes, movimento amadorista de Campos, apro-
Henriette Morineau, Eva Todor, Jayme Cos- veitando o prédio do Clube Tenentes de
ta, Procópio Ferreira, entre inúmeros ou- Plutão. Possuía 210 lugares e um palco de
tros nomes. Sua última sessão foi realizada 8,4 x 5 m, com a boca de cena de 7 x 3,5 m,
em 8 de junho de 1975, ano em que foi de- profundidade de 5 m, proscênio de 1,2 m
molido. e urdimento com 1,5 m acima da boca de
Passados 14 anos, exatamente em 1989, cena, segundo A Notícia, de 17 de março
a comunidade campista se mobilizou para de 1970.
reconstruir o Teatro Trianon. Para alcançar
este objetivo foram vencidas inúmeras eta- É um teatro nu, inteiramente deserto dos
pas de dificuldades financeiras ao longo de necessários implementos técnicos impres-
alguns anos. E em 31 de julho de 1998, às cindíveis a seu funcionamento.
10 horas era inaugurado o Teatro Municipal
Trianon, na gestão do Prefeito Arnaldo Via- E continua Hervé Salgado Rodrigues, na
na e da Sra. Ilsan Santos Viana, presidente da mesma notícia
Fundação Theatro Municipal. A comemo-
ração contou com os espetáculos: Rota, da Custou muito esforço ao Fernando Go­mes
Companhia de Dança de Deborah Colker, e e o grupo da Arta, muitas gestões junto ao
a peça Brasileiro, profissão esperança, de Paulo Prefeito Rockfeller de Lima, que começou
Pontes, com Bibi Ferreira e Gracindo Júnior. a obra e a deixou no meio. Em seguida, o

200 Teatros do Rio


O Teatro de Bolso, único de Campos, foi
fechado por Zezé Barbosa, por ter sido o
seu nome retirado do out-door colado pela
Prefeitura Municipal de Campos, na facha-
da do prédio, por exigência dos artistas.

A Associação Regional de Teatro Amador,


fez tudo para recuperá-lo, inclusive ingressan-
do na justiça, devido a um comodato vencido
em 1986. Depois de muitas pressões o Prefeito
José Carlos Barbosa anunciou em 2 de setem-
bro de 1988 que reabriria o Teatro de Bolso,
fechado ele por dois anos, o que, oficialmente,
foi acontecer em 15 de abril de 1989.

2. ARRAIAL DE SÃO JOÃO


DE ITABORAHY: ITABORAÍ
Teatro de Bolso, Campos, RJ

Prefeito José Carlos Barbosa completou a 1827


construção do teatrinho que de fato ficou Teatro de Itaborahy (Teatro
uma beleza. Municipal João Caetano)
Mas no sentido técnico, o verbo com-
pletar não corresponde à realidade. Como O Teatro de Itaborahy, o primeiro a levar
dissemos acima, o teatrinho é nu, signifi- nome de João Caetano, ilustre itaboriense,
cando um esforço muito grande a monta- considerado o mais importante ator do país,
gem nele de certos espetáculos. no século XIX, faz parte de uma importante
e destacada página do passado histórico deste
Em outubro de 1975, foi cogitada a trans- município do Rio de Janeiro. A surpreenden-
ferência do Teatro de Bolso para o acervo te presença de um teatro neste município já
municipal, que após decisão tomada em as- no século XVIII, é atestada por Múcio da Pai-
sembleia conjunta da Associação Regional xão, que assim descreve o contexto da época:
do Teatro Amador e o Clube Tenentes de
Plutão, em 5 de abril de 1976, foi efetivada. No ano de 1795 o arraial de São João de
O teatro em 1978, tinha como administra- Itaboraí era composto de 72 casas cobertas
dor Belcy Drummond, que pretendia fazer de telhas e já tinha um teatro. Em uma casa
uma reforma, entretanto foi reaberto em 4 de sofrível aspecto, diz um historiador, na
de agosto de 1978, sem a reforma pretendida, mesma povoação se levantou um teatro,
para que as atividades não fossem interrompi- no qual cumpria os representantes dele
das, pelo fato da verba não ter sido liberada. as cenas com asseio competente, acompa-
Ficou um longo período fechado. E O Flu- nhando esses atos destros professores de
minense, de 30 de abril de 1987 noticia: instrumentos musicais1

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 201


Em 1827, é oficialmente construído o mento da fachada, com a utilização de um
teatro da então freguesia de São João de frontão irregular, semelhante ao prédio da
Itaboraí, conforme escreve o texto do mes- atual Câmara Municipal da Cidade de Ita-
mo autor: boraí.
É neste teatro que se dá, em 1827, a es-
No segundo quarto do século passado o treia de João Caetano, com a peça O carpin-
coronel João Hilário de Menezes Drum- teiro de Livônia, abrindo espaço para que este
mond...dotou a Villa de um teatro cons- talentoso artista, (nascido em Itaboraí, na
truído à sua custa e a que chamava de sua Serra do Lagarto, a 27 de janeiro de 1808),
loucura de pedra e cal. Este teatro que conquistasse o Brasil com suas brilhantes in-
veio substituir aquele referido (...) existe terpretações e seu ousado espírito empre-
ainda hoje no Largo da Matriz, em frente sarial. Também é importante destacar que
à igreja... nesse teatro, já denominado João Caetano, a
Princesa Isabel e seu esposo, o Conde D’Eu,
Embora não seja possível verificar com assistiram à peça A cavalhada, quando visita-
exatidão o projeto arquitetônico deste tea- ram Itaboraí, a 13 de julho de 1863.
tro, percebe-se a influência do neoclássico Sobre a estreia de João Caetano, escreveu
(estilo artístico europeu, adotado tardia- Múcio da Paixão:
mente no Brasil, a partir da vinda da Mis-
são Artística Francesa em 1816) no trata- (...) e nele estreou João Caetano dos
Santos, perante a primeira plateia que lhe
Fachada do Teatro João Caetano em 1927 pagava as entradas. Para esse teatro es-

Reprodução: Acervo Prefeitura Municipal de Itaboraí, Niterói, RJ

202 Teatros do Rio


creveram Joaquim Manoel de Macedo e ficando a cidade órfã de um monumento ar-
Martins Pena, algumas de suas melhores quitetônico histórico.
comédias.2 Com o retorno de João Baptista Cáffaro
à Prefeitura Municipal de Itaboraí (1984-
Em 1920, o teatro é reformado, e na fa- 1988), o Teatro Municipal João Caetano é
chada do antigo frontão é acrescida uma pla- reconstruído, tendo como base a última fa-
tibanda. A segunda reforma ocorre, prova- chada e um novo projeto arquitetônico.
velmente em 1927, com uma alteração mais Apesar de não concluir totalmente as
acentuada na fachada, que se tornou bem obras, o teatro foi reaberto ao público com
mais rebuscada. O refinamento técnico, sur­­­­- eventos culturais, no intuito de que este im-
gido com a importação pelo Brasil, de ma- portante monumento resgatasse sua impor-
teriais e técnicas construtivas, a partir do fi- tância para a irradiação da arte e da cultura.
nal do século XIX, ficou evidenciado nesse
teatro, na bela fachada e nas paredes inter-
nas circulares, compostas por camarotes em
madeira, distribuídos em dois pavimentos. 3. NITERÓI
Preocupado com a manutenção do imó-
vel, que em 1937 já apresentava sinais de
deterioração, o comerciante Januário Cáffa- 1842
ro apresentou ao Executivo municipal, uma Teatro Santa Teresa (Teatro
petição sugerindo algumas medidas para a Municipal João Caetano)
administração do teatro.
Entre as décadas de 1940 e 1960, seu es- O teatro niteroiense surgiu com a Sociedade
paço é utilizado com bastante frequência, Filodramática, estabelecida em 1827, com
tanto por espetáculos teatrais como para um teatrinho no antigo Caminho do Capitão
bailes carnavalescos, saraus e comemora- Mor, hoje Rua XV de Novembro.
ções oficiais da cidade. Do prédio, transformado, de reforma
Ciente do estado precário em que se em reforma, no hoje Teatro Municipal João
encontrava o teatro, o então Prefeito João Caetano, sabe-se que pertencia a José Fran-
Baptista Cáffaro, em seu primeiro mandato cisco Furtado de Mendonça, que em 22 de
(1963-1967), inicia um projeto de reforma julho de 1834 vendeu-o a um dos fundado-
geral do edifício, não concluído em seu go-
Reprodução: Acervo Prefeitura Municipal de Itaboraí, Niterói, RJ

verno por falta de verbas. As administrações


municipais posteriores também não concluí­
ram as obras, nem desenvolveram projetos
de consolidação, ocasionando assim, uma
total deterioração do prédio.
No mandato do governo de Jonas Dias de
Oliveira (1967-1971) houve uma tentativa
de recuperação do imóvel.
Em 1974, com o prédio já em ruínas, o en-
tão Prefeito Francisco Nunes da Silva, não en-
contrando alternativa, decide demolir aquela
importante relíquia histórica do município, Fachada do Teatro João Caetano em 1920

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 203


e XV de Novembro, projeto do Coronel En-
Reprodução: Acervo Prefeitura
Municipal de Itaboraí, Niterói, RJ
genheiro Pedro de Alcântara Belegarde, en-
tão diretor da Escola de Arquitetos Medido-
res de Niterói. A obra não foi adiante; toda
a verba foi consumida nos alicerces, e João
Caetano teve de abandonar o sonho e retor-
nar para o Rio. Em fins de 1841, volta ao
teatrinho para algumas apresentações e con-
segue a prorrogação da concessão do mesmo
até o ano de 1864, e conquista também o
aumento de loterias anuais através do então
Desenho s/autor do primeiro teatro oficial de Itaboraí,
em 1827 Presidente da Província, Honório Hermeto
Carneiro Leão (depois Marquês do Paraná),
res da Sociedade, Joaquim Antonio Correia podendo então adquiri-lo da Sociedade Fi-
Bacelar, que o transferiria, em 31 de julho lodramática em agosto de 1842, por quatro
de 1840, àquele grupo dramático, já então contos de réis.
denominado Sociedade Filodramática de Com ajuda de Albino Joaquim da Silva
Niterói. Esta o explorou até 1842, quando (carpinteiro) e Antonio José Areias (ator de
João Caetano adquiriu o teatrinho e o trans- sua própria companhia) são iniciadas a re-
formou no Teatro Santa Teresa. forma de carpintaria, os trabalhos de pintu-
A importância do teatrinho só se distin- ra e decoração, inclusive confecção de cená-
guirá a partir de 2 de dezembro de 1833, rios e pano de boca.
quando nele estrearia a primeira Compa- Com o nome de Teatro Santa Teresa, ho-
nhia Dramática Nacional, formada por João menagem à Imperatriz Teresa Cristina Maria
Caetano, representando O príncipe amante da de Bourbon, consegue inaugurá-lo em 25 de
liberdade ou A Independência da Escócia. Par- dezembro de 1842, com a comédia As memó-
tindo a Companhia Dramática, voltou o tea­ rias do diabo.
trinho a seu silêncio. Em 1838, volta João Em 1843, João Caldas Viana, sucessor de
Caetano para uma série de récitas que se Honório Hermeto no Governo da Provín-
prolongariam até o ano seguinte. cia, convenceu os deputados da necessidade
Em 12 de abril de 1839, o então Pre- de dotar o teatro de uma sólida construção,
sidente da Província, Paulino José Soares tendo que desapropriar terrenos para ben-
de Souza, sanciona em contrato firmado feitorias na parte do fundo da casa de espe-
no dia 24 de abril com João Caetano, para táculos.
num prazo de 12 anos construir e explorar Em junho do mesmo ano, o engenheiro
o teatro provincial com o produto de 12 Carlos Garçon Revière começou a segunda
loterias anuais no valor de 120 contos de reforma, dando-lhe um frontispício mais ele-
réis cada uma. gante, melhorando os camarins, acrescentan-
O sonho de João Caetano – de construção do as varandas laterais e construindo o cama-
do seu próprio teatro – estava se concreti- rote de honra, destinado ao Imperador. Em
zando e, em 18 de dezembro de 1839, co- 1844 estava definitivamente concluído. Daí
meçava oficialmente a construção do teatro por diante não houve Presidente da Província
elegante e espaçoso com 60 camarotes e 400 que deixasse de beneficiar com dinheiro e fa-
cadeiras, na esquina das ruas Almirante Tefé vores o empresário João Caetano:

204 Teatros do Rio


Teatro Municipal João Caetano em 1935, Niterói, RJ nistro do Estado). Antonio Nicolau Tolentino
triplicou a subvenção em 1857 (era público
Candido Batista Oliveira permitiu-lhe trans­ e notório que esse dinheiro não seria inves-
ferir o contrato de exploração do Santa Teresa tido no Santa Teresa, mas na reconstrução
a seus herdeiros e sucessores. José Ricardo de do Teatro São Pedro do Rio, destruído por
Sá Rego estendeu-lhe a concessão até 1869. um incêndio no ano anterior). Luis Antonio
Pedreira subvencionou-o em 925 contos de Barbosa adiantou-lhe 77 contos de réis, a se-
réis mensais (o salário da época de um Mi- rem cobertos pela extração de loterias, cujo

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 205


Teatro Municipal João Caetano, Niterói, RJ espetáculos do Santa Teresa, apresentados por
outras companhias tornam-se raros e inex-
número Silveira da Mota mandou em 1859 pressivos.
aumentar para quatro por ano, mas com re- Em 1861, depois de retornar da Europa,
troação a 1857, e adiantando-lhe também o João Caetano, monta no Santa Teresa O pres-
valor destes, ou seja, sacando sobre recursos tidigitador; após a representação do drama, a
que não existiam. O Visconde de Barbacena plateia, saudosa dele, aplaudiu-o de pé. Logo
permitiu-lhe contratar companhias dramáti- voltaria à tragédia, encenando Cina, de Cor-
cas de outros empresários, o que lhe possibi- neille, e A Nova Castro, em que contracenou
litou viajar pelo Brasil e exterior. com Ludovina da Costa. Foi no decorrer
Garantido pelas leis e cofres da província, deste espetáculo, em dezembro de 1862,
João Caetano desinteressa-se de Niterói e os que João Caetano caiu do palco, derrubado

206 Teatros do Rio


por um insulto cerebral; o que novamente leilão do patrimônio dos construtores, di-
ocorreu a 14 de junho de 1863, quando re- latação do prazo concedido pela província
presentava Os íntimos, de Sardou, na cena em para inauguração ao teatro, empréstimos e
que beijava uma criança (seu próprio filho execuções, é que Felice Fortunato Tati con-
João Caetano Júnior), nos braços da atriz segue um empréstimo do comendador José
Antonina Marquelou. Não pôde continuar, de Góis Viana, e apronta de fato o teatro.
nem voltaria mais ao palco. O terceiro in- O Teatro Santa Teresa é reinaugurado em
sulto matou-o, no Rio de Janeiro, a 24 de 8 de agosto de 1884, com a representação
agosto de 1863. do drama O grã Galeoto, de José Echegaray,
Com a morte de João Caetano, a viúva, tradução em versos de Filinto de Almeida e
a atriz Estela Sezefredo e os filhos do casal Valentim Magalhães, pela Companhia Dias
ficaram responsáveis pelo teatro. Temendo a Braga, comparecendo o Imperador e a Im-
responsabilidade, ela devolve-o ao Governo peratriz, além do Presidente da Província
Provincial, no estado em que se encontra- José Leandro, ministros, senadores e depu-
va, rescindindo o contrato de concessão. Em tados.
1886, sem recuperação ou novo arrendatá- O grande sucesso na época acaba sendo o
rio, o prédio ruiu. pano de boca que retratava a Praia de Icaraí;
Em 1871, o Presidente da Província, Jo­ trabalho do jovem pintor Antonio Parreiras.
si­no do Nascimento Silva autoriza a sua Apesar de todos os movimentos tais co­
reconstrução a cargo do Major Prudêncio mo ameaça de desabamento, pagamentos de
Luiz Ferreira Travassos, da Guarda Nacio- empréstimos, venda do mobiliário de cena,
nal. Em 1873, é vetada a reconstrução pelo cenários, dos acessórios de instalação de gás
novo presidente, Manuel José de Freitas Tra- e de parte das cadeiras, o maestro Felice Tati
vassos, que entendendo que a reconstrução tenta desesperadamente salvar o teatro. To-
devia processar-se por meio de concorrên- das as suas solicitações ao governo são nega-
cia pública, não mandou realizá-la. das, por não ter instalado a escola dramática.
Em 1875, o Presidente Francisco Xavier O teatro é então adjuciado à província em
Pinto Lima, manda de novo contratar a sua 12 de novembro de 1887, na gestão do Pre-
reconstrução ficando a cargo do Maestro sidente Antonio Fernandes da Rocha Leão.
italiano Felice Fortunato Tati – radicado mui- Durante certo período poucas apresenta-
tos anos em Niterói – e do sogro deste, José ções foram realizadas pelas companhias de
de Sá Carvalho, Deputado Provincial. Dias Braga e Braga Júnior, que se sujeitavam
O teatro é inaugurado, com a promessa de a um teatro sujo e desmobiliado. Entretan-
Felice Tati de instalar uma escola dramática, to, é o deputado Luis Carlos Fróes de Cruz,
para qual o governo concederia uma subven- pai de Leopoldo Fróes, que consegue, no
ção anual de vinte contos de réis, paga por orçamento provincial de 1889, uma verba
trimestre. É organizada então a Companhia para reformar o Teatro Santa Teresa, caben-
Teatro Santa Teresa, mas as obras só tiveram do ao professor de pintura Thomas Driendl
início em 5 de abril de 1876, executadas a decoração interna e a pintura dos cenários
pelos construtores Carlos e Abílio Amand, e do pano de boca, provocando ciúmes no
segundo o projeto do engenheiro provincial jovem pintor Antonio Parreiras.
Ernesto Fernandes Barradon. As obras foram iniciadas em fevereiro
Uma comissão técnica atesta irregulari- de 1889, e Felice Tati é nomeado adminis-
dades na construção e entre ações judiciais, trador, ficando pouco tempo no cargo. As

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 207


Teatro Municipal João Caetano. Reprodução: Projeto de restauração T.M. João Caetano, Niterói, RJ
Teatro Municipal João Caetano. Reprodução: Projeto de restauração T.M. João Caetano, Niterói, RJ
Teatro Municipal de Niterói. Planta baixa, (S.E.)

obras, entretanto, prosseguiram, e o teatro Dias Braga com o drama Capricho feminino,
foi reinaugurado em 31 de julho, sendo ce- de Julia Lopes e a comédia Portugueses às di-
dido ao Clube Dramático Kean. reitas, de França Júnior.
Durante a Revolta da Armada em 1893, Alguns grupos de amadores como o gru-
o teatro localizado junto ao litoral, foi alvo po Chateaux Desireux, o Clube Dramáti-
fácil dos bombardeios e, em abril de 1894, co Vinte e Sete de Julho e o Clube Flumi-
quando a revolta terminou, o Teatro Santa nense conseguem se manter, independente
Teresa estava semidestruído. Leiloado em do Teatro Santa Teresa. Com a competição
30 de junho de 1896, é arrematado pela e o desentendimento entre estes, surge o
Câmara dos Vereadores. As reformas, ou Clube Dramático Assis Pacheco, que es-
melhor, a reconstrução é iniciada a cargo treia em setembro de 1898 e revela Le-
do engenheiro municipal Pedro Joaquim da opoldo Fróes como amador. Durante um
Silva Fontes; ao decorador Roma coube a ano o teatro é arrendado pelo Clube As-
ornamentação, e a Orestes Colina o pano de sis Pacheco, que logo depois é dividido,
boca e os cenários. Pronto, é reinaugurado se extingue e é dissolvido pela Câmara
em 1º de janeiro de 1897 pela companhia em 1900. O teatro então já necessitava de

210 Teatros do Rio


uma boa reforma, que não foi providencia- O teatro é reinaugurado em 1o de setem-
da. O máximo que se fez foi mudar-lhe o bro de 1911 pelo Prefeito Sodré e pelo Go-
nome para Teatro Municipal João Caetano, vernador Oliveira Botelho, e um longo pe-
por deliberação firmada em 24 de julho de ríodo de fausto se estabelece no teatro, com
1900, pelo Presidente Interino da Câmara a Companhia de Ismênia dos Santos.
Pedro Severino Dantas. Depois de um período de turbulência,
Durante alguns anos o teatro permaneceu com a morte de Ismênia, o teatro volta em
em funcionamento em precárias condições: 1922 a ter uma frequência maior com as
sujo, com goteiras e desequipado. Somente temporadas de Renato Viana e a Companhia
com um acidente ocorrido em 1903 com o de Viriato Corrêa.
maquinista é que foram tomadas medidas Durante um longo tempo o teatro passou
emergenciais. Foi contratado o arquiteto por sucessos e incertezas. Reformado em
Felice Antonio Miragle, e sob a supervisão 1944, em 1950 sofreu um início de incên-
do diretor municipal de obras Godofredo dio após a formatura da Faculdade de Filo-
de Freitas Travassos foram iniciadas as obras. sofia. Em 22 de março de 1952 o Prefeito
Mais tarde também foi contratado Ludovico Daniel Paz de Almeida concede autonomia
Berna para auxiliar Felice Miragle. administrativa ao teatro, introduzindo di-
O Teatro Municipal João Caetano foi inau­­­­ versos melhoramentos, entre eles o palco
gurado mais uma vez, a 14 de julho de 1904. giratório, inaugurado pela Companhia Bibi
A presidência da solenidade ficou a cargo de Ferreira. Reformas mais radicais foram
Artur Azevedo, e foi mostrado o busto de executadas em 1956, pelo Prefeito Alberto
João Caetano adquirido a Benevenuto Ber- Fortes, e em 1958 as cadeiras de madei-
na. Foi apresentada a comédia Os três cha- ra foram trocadas por modernas poltronas
péus, de Augusto de Castro, por um grupo estofadas. Daí por diante várias reformas
de amadores. se realizaram nas administrações: Wilson
Os anos seguintes foram de incertezas, de Oliveira (1960), Emílio Abunahman
com as companhias de Cinira Polônio, Dias (1965), Yvan de Barros (1973), Ronaldo
Braga, Silva Pinto, Lucinda Simões, Jacin- Fabrício (1976), todas muito superficiais.
to Heler e Ismênia Santos. Em 1908, é que Reformas definitivas, apesar de necessá-
acontecem os grandes sucessos com a com- rias, iam sendo empurradas de um ano para
panhia de Artur Azevedo e principalmente a outro. Com isso o prédio foi perdendo suas
de Leopoldo Fróes. Mas em 1910 o teatro é características arquitetônicas.
arrendado a Luigi Schisa que o transformou Em 1977, o Prefeito Moreira Franco
numa espécie de circo, cabendo ao Prefei- manda levantar as necessidades imediatas
to Feliciano Sodré rescindir o contrato com do teatro e com recursos liberados via Mi-
Schisa e mandar mais uma vez reformar o nistério do Interior, permite a execução de
teatro, embora reconhecendo que seus de- um projeto de tratamento arquitetônico
feitos originais de construção só desapare- para o mesmo.
ceriam se o demolissem e construíssem de A reforma foi geral, sendo atacadas todas
novo. Foram designados então os engenhei- as partes do teatro, da fachada aos camarins;
ros Valdemar Kastrupp e Romeu Seixas Ma- do palco à plateia; da iluminação cênica à
tos, que encontraram de tudo no teatro, até instalação hidráulica, tudo foi reformado,
mesmo um centro espírita que funcionava revisto e restaurado. As obras iniciadas em
em uma de suas salas. 1978 prolongaram-se até 1983, cabendo ao

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 211


Prefeito Waldenir Bragança a conclusão das 193?
mesmas, sendo reinaugurado em 22 de no- Cineteatro Central
vembro daquele ano.
Em 1991, na administração do Prefeito Em 28 de julho de 1953, por decreto do
Jorge Roberto da Silveira, o teatro entrou Prefeito Altivo Linhares, era desapropriado
novamente em processo de restauração o Cineteatro Central, uma casa de espetácu-
total, coordenada pelo artista plástico los, bem no coração de Niterói. Pertencia
Cláudio Valério Teixeira, com uma equipe a um empresário cinematográfico, e estava
de arquitetos e restauradores. A grande fechado desde 1940.
prova de fogo foi o teto, onde uma grande Além desse teatro, outras casas existiram
área do lado direito tinha se perdido com em Niterói, mas foram demolidas sem que
a ruína total da madeira na qual estavam tenhamos conseguido informações sobre
pintados motivos florais do artista Tho- inaugurações, desativações e demolições.
mas Driendl. Mas o lado esquerdo estava Uma matéria de 29 de julho de 1953, no
inteiro, e era igual ao direito, possibili- Correio da Noite, comenta esses teatros:
tando rebater a pintura de um lado para
o outro. Niterói já foi uma das melhores praças de
A reforma foi completa, resgatando o teatro do Brasil. Ali há anos passados, fun-
estilo arquitetônico do prédio, que ganhou cionavam durante a estação propriamen-
anexos, instalação dos sistemas elétricos, te artística, vários teatros, entre os quais
de refrigeração central e contra incêndio. nos lembramos o Terpsichore, o Roial, o
A iluminação cênica, um sistema compu- Odeon, o Municipal e o Central, o que ora
tadorizado e equipamentos de cenotécnica está em questão. Companhias das melho-
para produções de grande porte. Além do res, desde as líricas, as de comédia até as
teto, o palco, telhado, plateia, balcões, so- de revista. Depois, esses teatros, todos de
frem também reformas profundas. grandes lotações, foram desaparecendo,
Da equipe de Cláudio Valério Teixeira fa- ficando somente o Municipal, justamente
ziam parte as restauradoras Lucineri Telles, o mais fora de mão e o de menor de pesa
Regina Pontim de Mattos e a arquiteta Fer- financeira.
nanda Teixeira.
O teatro reinaugurado em 22 de novem-
bro de 1995, com apresentação da Compa- Parece que não havia uma preocupação
nhia de Ballet da Cidade de Niterói. com o desenvolvimento artístico do povo
niteroiense, e acumulado às péssimas admi-
nistrações, os teatros não conseguiam man-
1880 ter uma organização e programação teatral,
Teatro Fênix Niteroiense ficando abandonados ou entregues a outras
finalidades.
Desde 1880 funcionava regularmente na Em 1953, a administração do Prefeito
Rua Visconde do Uruguai, esquina de Ma- Altivo Linhares – depois da medida de de-
rechal Deodoro, em Niterói, o Teatro Fenix sapropriação do Central – estava disposta
Niteroiense, que duraria até 1891, com uma a reativar o movimento artístico da cidade
frequência assídua e constante durante seu com maior interesse, amparando as repre-
tempo de vida. sentações e facilitando as temporadas da

212 Teatros do Rio


Companhia Dramática Nacional e a de Jay- no sentido mais comercial, oferecia fun-
me Costa no Teatro Municipal João Caetano. ções populares, dando ao grande público a
Em uma nota publicada na Folha Carioca, de chance de assistir a espetáculos culturais a
3 de agosto do mesmo ano, lê-se: preços acessíveis, e sem a obrigatoriedade
do paletó e da gravata.
O Serviço Nacional de Teatro havia estabe- Depois de permanecer dez meses fecha-
lecido entendimentos com elementos da do pela Mitra Diocesana de Niterói, que o
Câmara Municipal da cidade vizinha, neste mantinha para apresentações esporádicas
sentido, desejando viesse aquela casa de de grupos fluminenses e cariocas, o teatro
espetáculos a lhe ser entregue para assim foi reaberto em 9 de outubro de 1973, com
instalar ali a sua delegacia, tal como acon- o recital do Soprano Dalca Azevedo, com
tecera mais ou menos em Natal, Rio Gran- o nome de Teatro Leopoldo Fróes, fican-
de do Norte, e Salvador, Bahia. De qual- do então sob responsabilidade do Instituto
quer forma, o importante é que o Central Niteroiense de Desenvolvimento Cultural.
voltará a ser teatro... Em 1980, a casa passa também a ser explo-
rada como cinema, conforme matéria no
Nada mais se soube do Cineteatro Cen- jornal de Niterói O Fluminense de 18 de ju-
tral de Niterói. lho de 1980:

Com a recente mudança de presidên-


1967 cia, a Cooperativa Brasileira de Cinema,
Teatro Alvorada (Teatro ainda não decidiu se vai ou não explorar
Leopoldo Fróes) o Teatro Leopoldo Fróes, em Niterói,
como cinema de arte em circuito com o
O Teatro Alvorada, na Praça da República, Cine Ricamar, em Copacabana, também
Niterói, foi inaugurado em 14 de dezem- da Cooperativa.
bro de 1967, sendo proprietário na época Já estando instalado o projetor de fil-
a Mitra Diocesana de Niterói, que man- mes, falta apenas a instalação do som e da
tinha convênio com a Associação Recrea­ tela móvel, pois o Teatro Leopoldo Fróes
tiva Comércio e Navegação. Seu primei- continuaria a abrigar atividades teatrais,
ro administrador foi Albino Ferreira dos transformando-se num cineteatro, em ho-
Santos, com a supervisão a cargo do Padre rários intercalados.
Antonio Mazzotti.
A capacidade do teatro era de 450 es- Em 1983, o estado do Teatro Leopoldo
pectadores, e a peça de inauguração foi Esta Fróes era precário, não só pelas suas possi-
noite choveu prata, de Pedro Bloch, tendo bilidades técnicas, mas pelo seu estado de
Procópio Ferreira como ator principal, que conservação. Em março daquele ano, a luz
recebeu uma grande homenagem após a es- havia sido cortada por atraso no pagamento
treia da plateia niteroiense por suas ativida- da conta, desde o mês de dezembro de 1982;
des teatrais. o telefone também já havia sido cortado; as
Niterói passou nesta época a possuir en- inúmeras goteiras no palco, prejudicaram as
tão dois teatros: o Teatro Municipal João apresentações em dias de chuva; além dos
Caetano que tornou-se mais reservado nas ratos que destruíam tudo o que encontra-
suas apresentações, enquanto o Alvorada, vam no palco e nos camarins.

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 213


Depois de algumas melhorias, oTeatro Leo­ No início da década de 1990, o Teatro
poldo Fróes, no decorrer do ano de 1986, Leopoldo Fróes, encerrava suas atividades
já sob administração de Hipólito Gerandes, teatrais. O prédio passou a ser utilizado
passa a receber espetáculos profissionais vin- para fins religiosos.
dos do Rio de Janeiro, com isso os preços dos
ingressos passam a ser mais caros, e para que
possibilitasse as montagens das programa- 1978
ções, permanecia fechado de segunda a quin- Teatro da UFF
ta; esta medida gerou um descontentamento
dos grupos e entidades que faziam uso da casa É no início do século que começa a história
durante toda a semana, com atividades cul- do teatro da Universidade Federal Flumi-
turais bem populares, sempre a preços com- nense. Em 1916, entre o mar e a montanha,
patíveis com seu público, situação denuncia- no aprazível bairro de Icaraí, foi construído
da em uma matéria do dia 28 de outubro de por Eugen Urban um casarão residencial, de
1986, no jornal O Fluminense. três andares. Mais tarde foi adquirido por
Alberto Bianchini e Luciano Airosa para se-
Todos, sem distinção, pedem a ativação diar um cassino. Comprado, nos anos 1930,
da casa de espetáculos durante toda a se- por Luiz Alves Castro, o Capitão Lulu, e
mana, pois sem dúvida é a maior opção Joaquim Rollas – sócios da Empresa Flumi-
de cultura – em termos populares – do nense de Diversões – o palacete foi demo-
centro de Niterói. [...] Não é possível lido para a construção do Hotel Balneário
que o Leopoldo Fróes fique fechado de Casino Icarahy. Em 8 de julho de 1939, uma
segunda a quinta-feira e quando abre suas festa filantrópica, patrocinada pela primei-
portas no fim de semana, sexta à domin- ra dama Darcy Vargas, inaugurava as novas
go, seja para trazer peça com preços al- instalações. Com 107 apartamentos, duas
tos, sem deixar a opção de um trabalho quadras de tênis, dança, música e muito
mais voltado para o povão. jogo. “O Balneário Casino Icarahy” era um
dos mais elegantes e seu único concorrente
A defesa de um “teatro aberto de fato ao era o Hotel Imperial, no centro de Niterói.
povo”, era também a opinião de Presidentes O prédio, estilo Art-Déco, em moda na
de Associações de Bairros e de Sohail Saud, época, já foi importante ponto na noite ni-
ligado a movimentos teatrais em todo Esta- teroiense. Hoje o hall do hotel é o saguão da
do do Rio de Janeiro, em O Fluminense, de 28 Reitoria e a atual entrada do Cine Arte dava
de outubro de 1986: acesso às roletas e às cartas. Na sua melhor
fase – final da década de 1930 e primeira
Criar alternativas culturais para que a metade da década de 1940 – seus shows
população mais carente possa participar, rivalizavam em prestígio com os do Cassi-
numa casa de espetáculos como Leopol- no da Urca e do Cassino Atlântico, no Rio,
do Fróes, instalada no centro e, por- e do Quitandinha, em Petrópolis. Nele se
tanto, de fácil acesso, é mais que uma apresentaram os maiores astros da época,
obrigação , é um dever, pois só assim in- nacionais e internacionais: Josephine Baker,
centivarão a prática de promoções desse Ymma Sumack, Pedro Vargas, Tito Guizar,
tipo para os que não podem ir ver espe- Carmem Miranda, Grande Otelo, Francisco
táculos caros. Alves, Orlando Silva, Silvio Caldas e muitos

214 Teatros do Rio


outros; todos no auge de suas carreiras. O tradição do local como espaço de lazer, arte
cantor solista ficava em cima de uma estrela e cultura, além de funcionarem o teatro e
móvel, em frente ao palco, que se elevava o cinema (Cine Arte UFF), ainda estão em
impulsionada por um elevador. atividade uma editora, uma galeria de arte, a
Com a proibição de jogo em 1946, o hotel orquestra sinfônica, o coral, um conjunto de
entrou em decadência, embora continuasse música antiga, curso de formação de atores
em funcionamento até o início da década de e uma livraria.
1960. Até 1967, três atividades mantiveram a Apesar da oposição feita na época por se-
tradição do local como estabelecimento de la- tores expressivos da sociedade de Niterói,
zer e entretenimento: O Cine Cassino, onde a desapropriação do antigo hotel e cassino
funcionava o salão de jogos e hoje é o cinema; tirou a Reitoria da UFF do Hospital Univer-
O Cine Grill, onde hoje é o Teatro da UFF, e sitário Antônio Pedro.
a Blue Sky, uma boate, bar e restaurante que O cassino funcionou até 30 de abril de
por cerca de seis ou sete anos foi o principal 1946, quando o jogo se tornou uma atividade
lugar de badalação noturna da cidade. ilegal no Brasil. Desapropriado em 1966, por
A instalação da UFF no antigo hotel-cas- ato do Presidente da República, passou, a par-
sino, manteve, no entanto, de certa forma, a tir de 1967, a sediar a Reitoria da Universida-

Teatro da UFF (ex-Cassino de Icaraí)

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 215


Teatro da UFF. Planta baixa, (S.E.)

de Federal Fluminense. Em 1968 era noticiada vares Cardoso, que visava à participação da
a criação do Teatro da Universidade Federal Universidade no desenvolvimento cultural
Fluminense, conforme palavras de Dias Go- do então Estado do Rio de Janeiro (O Flumi-
mes, no Correio da Manhã, de 12 de outubro nense, 20 de junho de 1975.
de 1968:
A Universidade Federal Fluminense está
Acho a criação do TUF uma iniciativa al- anunciando, para o segundo semestre deste
tamente louvável. Se com isto se obtiver ano, o início da construção de moderno te-
rendimento semelhante aos TUCAS (de atro na sede da reitoria, em Icaraí, Niterói,
São Paulo e do Rio), o teatro lucrará con- no mesmo local onde funcionou o Cinema
sideravelmente. O interesse da juventude Grill, hoje almoxarifado central da UFF.
pelo teatro, com a visão que tem e vem
pondo em prática do papel conscientiza- Em agosto de 1978 inaugurava na Rua
dor da arte teatral, é um dado novo em Miguel Frias n. 9, no andar térreo da Reito-
nosso quadro de cultura. Incentivar o de- ria, o Teatro da UFF, com 342 lugares, pal-
senvolvimento do teatro na área estudan- co, sistema de iluminação e som, camarins e
til, só pode ser recebido com entusiasmo. banheiros, além de uma galeria de arte em
torno do auditório. Sua capacidade com-
O início da construção do teatro ocorreu preendia 286 poltronas na plateia e 56 no
em 1975, na gestão do Reitor Geraldo Ta- balcão, onde ficaram a mesa de som e luz

216 Teatros do Rio


Teatro DCE UFF. Planta baixa, (S.E.)

e parte dos camarins. O palco possuía uma nando toda a fachada do teatro, que passou
boca de cena de 8 m de largura por 4 m de a uma capacidade de 334 pessoas; 278 pol-
altura, com pé direito de 4,5 m até as varas, tronas na plateia e 56 no balcão. Seu piso
que eram fixas e profundidade de 5 m. sofreu uma inclinação para permitir maior
Dezesseis anos depois, passou por uma visibilidade e as paredes foram revestidas de
reforma que alterou o espaço do antigo res- madeira; ganhou duas galerias, nas laterais
taurante. A obra de restauração do Teatro do teatro, assim como no sistema de som
UFF contou com recursos da Fundação Na- e iluminação. Ganhou refrigeração central,
cional de Arte. A professora Lecyr de Paiva ampla sala de espera, três banheiros e duas
Lessa, então diretora do Departamento de saídas laterais. Seu palco de 154 metros qua-
Difusão Cultural, diz em O Fluminense, de 14 drados inteiramente novo tinha 9,8 m de
de agosto de 1982, que: boca de cena por 3,8 m de altura, 10 m de
profundidade e 2,5 m de coxia de cada lado.
A inauguração do Teatro da UFF é uma Era equipado com cortina de boca, câmara
realização que ratifica a destacada posição negra e um ciclorama, além de seis camarins
que a UFF conquistou entre as instituições e cinco banheiros.
de ensino superior do país. O sistema de som, com uma mesa de 16
canais de entrada e dois de saída, possibili-
O teatro construído na parte da frente da tava a utilização de 16 microfones. Toda a
sede da Reitoria, tendo seus jardins contor- iluminação era comandada por uma mesa

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 217


central de frente para o palco. Dispunha interpretado pelo Grupo Galpão de Minas
ainda de um sistema de intercomunicação Gerais; Andersen – O contador de histórias
nos camarins, palco, sala de diretor, central em O soldadinho de chumbo, dirigido por
de iluminação e som, e portaria. Rogério Blat (Prêmio Coca-Cola de Tea-
O teatro reabriu suas portas em 26 de tro Infantil); Três mulheres altas, de Edward
agosto de 1982, com apresentação do espe- Albee; e mais recentemente a pré-estreia
táculo A partilha, textos de poetas brasi­leiros de As três irmãs, de Tchecov com direção
e portugueses, interpretados por Walmor de Enrique Diaz.
Chagas, com roteiro de Paulo Hecker Filho, Todas essas peças tiveram que separar
abertura da exposição Coletiva de Artistas de uma parcela da bilheteria para pagar a ins-
Niterói, reunindo trabalhos de 62 artistas tituição, e como prova do compromisso do
plásticos niteroienses, como Aluízio Valle, teatro com a UFF, em plena temporada,
Candida Boechat, Galizia Tagliaferri, Qui- encontramos o teatro fechado para realiza-
rino Campofiorito, Zaluar e Hilda Campo- ções de formaturas da graduação. O lado
fiorito. O Teatro UFF veio suprir uma das positivo desta interferência é encontrar
maiores carências culturais de Niterói: a fal- também, no decorrer do ano letivo, aten-
ta de espaços profissionais e bem aparelha- dendo a comunidade universitária, o teatro
dos para receber espetáculos. aberto para debates e palestras sobre as-
Atualmente o papel de importante polo suntos atuais, discussões políticas, econô-
cultural ainda é assumido pelo teatro. Por micas e sociais.
estar ligado a uma instituição governamen- Ao começar de sua reinauguração em
tal voltada ao desenvolvimento da educação, 1982, diversos artistas já se exibiram nos
toda a programação do teatro é escolhida palcos do Teatro UFF e vários eventos já
através de um processo rígido, onde é ana- criaram polêmica no local. Desde a épo-
lisado principalmente o aspecto contextual ca do antigo cassino aos debates da última
de cada espetáculo, tendo como objetivo eleição, o n. 9 da Rua Miguel de Frias vem
final trazer ao público além de um bom en- sendo centro de efervescência cultural da
tretenimento, o conhecimento do que há de comunidade de Niterói.
melhor no teatro atual.
Além das representações teatrais, o Teatro
da UFF ainda possui em sua programação, 1980
shows de humor, concertos e balés. O tea­ Teatro de Arena do DCE da UFF
tro, pela sua diversificação, é reconhecido
tanto por diferentes artistas quanto pelo pú- A UFF possui também o Teatro de Arena, do
blico, que já somou em menos de duas déca- DCE, em frente ao terminal sul, estação das
das meio milhão de espectadores em quase barcas, que foi utilizado pelo Serviço Cultural
dois mil espetáculos. da Prefeitura de Niterói, durante dois anos,
O Teatro da UFF leva a Niterói tanto de acordo com convênio assinado em 17 de
peças em cartaz no Rio de Janeiro, quanto julho de 1980, entre a Prefeitura e o DCE.
espetáculos premiados em outros estados. A Prefeitura se propôs a fazer a reforma
Como exemplos: Vau da Sarapalha, base- total, que incluía acabamento, revestimen-
ado em texto de Guimarães Rosa (com o to, limpeza, novas instalações elétricas e hi-
grupo de teatro Piolhim, da Paraíba); Ro- dráulicas, além da construção e instalação da
meu e Julieta, dirigido por Gabriel Vilela e bilheteria, bar e camarins.

218 Teatros do Rio


Com as obras a Prefeitura pretendia que Brito, Guiomar Vasconcelos e Marisa Al-
o teatro do DCE com capacidade para 500 varenga.
pessoas, abandonado desde 1981, pudesse Apesar das limitações do espaço, quanto ao
ocupar o espaço que a paralisação do Teatro palco e condições técnicas, tratava-se de uma
Municipal de Niterói havia deixado. Pelo sala para 100 espectadores, com ar-condicio-
convênio, a Prefeitura passou a usar o teatro nado, que poderia ter sido bem utilizada por
de quinta a domingo, ficando os dias restan- grupos de teatro de Niterói, dando um sopro
tes para a programação artística e cultural de vida cultural a esta região tão carente de
do próprio DCE. espaço cênicos. O teatro teve vida efêmera.
O término da construção do teatro foi Da mesma forma que surgiu, desapareceu.
custeado pela UFF, depois da insistência dos
es­tudantes. Foi inaugurado em 4 de outubro
de 1985 com o nome Teatro MPB 4, com S/d
500 lu­gares e ar-condicionado, uma home- Centro Cultural Paschoal Carlos
nagem ao conjunto nascido em Niterói, e Magno
que havia feito sua estreia exatamente no
esqueleto do anfiteatro. O Centro Cultural Paschoal Carlos Magno,
Rua Lopes Trovão, s/n., Campo de São Ben-
to. O Centro ligado à Prefeitura de Niterói
1980 é pequeno, mas atraente. Uma de suas maio-
Teatro Gay-Lussac res atrações é o projeto “Música no Campo”,
acontecendo todos os fins de semana na va-
Em 5 de setembro de 1980 era inaugurado randa.Também oferece cursos diversos.Tem
o Teatro Gay-Lussac construído ao lado do a sala de vídeo Raul Seixas com 60 lugares e
Colégio Mini-Gay em São Francisco, Nite- a galeria de arte Quirino Campofiorito.
rói, com capacidade para 400 espectadores,
ar-refrigerado central, poltronas e um siste-
ma simples de iluminação e som. Sua estreia 1986
foi com um show de Chico Anysio. Perma- Teatro Abel
neceu servindo à programação artística do
Colégio Gay-Lussac. O Teatro Abel pertencente ao Instituto
Abel, localizado à Rua Paulo Alves n. 2, 2o
andar, Icaraí, Niterói, teve sua inauguração
1981 programada para outubro de 1985, com a
Teatro Pasárgada peça Piaf, dirigida por Flávio Rangel e es-
trelada por Bibi Ferreira. Quando já estava
Em 21 de novembro de 1981, era inaugura- praticamente pronto, não pôde abrir suas
do o Teatro Pasárgada, com sua sala batizada portas por falta de alvará de funcionamento,
de Manuel Bandeira, localizado à Rua Tava- alegando a Prefeitura, que o projeto feria o
res de Macedo n.100, em Icaraí. código de obras, conforme nota:
O espetáculo de estreia foi a peça A
dama de copas e o rei de Cuba, de Timochen- O Teatro... do Instituto que é mantido
co Wehbi, produzida pelo Grupo Grite, pelos irmãos Lassagistas e dirigido atual-
direção de Ademar Nunes, com Evans de mente pelo Irmão Albano, que disse ter

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 219


Teatro Abel. Plateia dos tempos, o teatro tem sido um aconte-
cimento dos grandes centros, mas depen-
recebido uma autorização verbal do Pre- dendo dos animadores culturais de uma
feito Waldemir Bragança para começar a cidade, até mesmo do interior, esta pode
obra em 1983. vir a se tornar palco de grandes manifesta-
ções artísticas.
E continua a matéria, de O Globo de 23 de
agosto de 1985: Bibi Ferreira, em visita ao novo espaço,
afirmava ao Jornal do Commercio, de 29 de
O Secretário de Obras, Almir Antunes, diz agosto de 1986:
que o projeto fere o código em vários itens...
O Teatro Abel é essencialmente profissio-
Flávio Rangel em visita ao teatro comen- nal, tendo todas as condições para realizar
tava para O Fluminense, em 18 de agosto de qualquer espetáculo. Ele é bonito e con-
1985: fortável, além da acústica, da iluminação e
do palco que são perfeitos. Qualquer ator
A dificuldade primeira para uma compa- gostaria de se apresentar nesse teatro.
nhia vir a se apresentar em Niterói era a
falta de um teatro, já que o Municipal vivia O teatro com 538 poltronas estofadas de
constantemente em obras. Depois, vem o veludo vermelho, um palco de aproximada-
fato de que para as companhias, o seu des- mente 170 metros quadrados com piso em
locamento com um espetáculo para outras quarteladas, porão, com 220 pontos de luz,
cidades provoca sempre altos custos, os seis camarins, boa acústica, todo acarpetado,
quais deverão ser necessariamente recu- paredes revestidas de lambris, ar-condicio-
perados. Em suas apresentações através nado, boca de cena de 9 m por 4,85 m de

220 Teatros do Rio


altura, com urdimento a 16m de altura com ta as pessoas dos seus canais de veiculação,
24 varas, cabine e equipamentos para opera- entre eles o teatro.
dores de luz e som. Os projetos de cenotécni-
ca e acústica foram de Fernando Pamplona e Outro profissional com larga experiência
Roberto Thompson Motta, respectivamente. em produção e diretor do Teatro Leopoldo
Possui, ainda, um quadro fixo de profissionais Fróes na época, Hipólito Geraldes, endossa-
que atendem às produções: um maquinista, va as palavras de Isaac e complementava na
um eletricista, um técnico de som, além de mesma matéria:
um guia de plateia e dois porteiros.
A construção da casa de espetáculos gerou ...as coisas não são tão fáceis quanto pare-
muita polêmica, entre a classe teatral de Nite- cem. O público de Niterói – talvez por uma
rói, apesar de todos serem unânimes em lou- política errada dos órgãos culturais – não
var a iniciativa de criação de mais uma casa de está acostumado a comparecer regularmen-
espetáculos. O ator Isaac Bardavid residente te aos espetáculos teatrais aqui apresenta-
em Niterói, mesmo não tendo visitado o tea- dos. Se anunciamos a apresentação de uma
tro, e tomado conhecimento somente através peça para 15 dias, nas primeiras apresen-
de comentários de colegas, afirma em depoi- tações a casa fica praticamente vazia, pois
mento a Simone Botelho, para O Fluminense, todos deixam para assistir nos últimos dias
em 19 de agosto de 1985. de apresentação. Manter um teatro aqui,
contando apenas com o lucro que o mesmo
...por conhecer de perto os problemas que possa vir a dar é muito difícil...
afligem a área teatral em Niterói – embora
meus 37 anos de carreira terem se desen- Agravando-se mais ainda a situação, o
volvido principalmente no Rio de Janeiro ar­­­­quiteto e cenógrafo, na época do con-
– não me arriscaria a tecer comentários al- junto Blitz, Wladimir Cardia Filho (Gringo
tamente esperançosos, por saber das muitas Cardia), entrou com uma ação por perdas
dificuldades que os responsáveis pelo Teatro e danos, cobrando na Justiça honorários
Abel terão que enfrentar. Não acredito, por como autor do anteprojeto do teatro. Um
exemplo, que a possibilidade de uma tempo- dos réus era o engenheiro Massaki Yokoyo-
rada regular – por cerca de seis meses – de ma, que em consórcio pelas construtoras
uma grande companhia em Niterói, venha a Icaraí e Yokoyoma haviam executado a
acontecer, a não ser que haja uma mudança obra. No Jornal do Brasil de 21 de junho de
radical na mentalidade daqueles que dirigem 1985 após ter sido adiada a decisão do Juiz
os órgãos culturais do município, o que cer- era publicado:
tamente provocaria também uma mudança
na cabeça do público niteroiense, que ainda Gringo afirma que, há dois anos, fez um
não criou o hábito de ir ao teatro. [...] Mas anteprojeto para a construção do teatro,
Niterói ainda não tem um público que por intermédio da Construtora Icaraí, de
comporte longas temporadas. Não sei seu cunhado Marcos Sávio Pires Jardim.
ex­­plicar bem o porquê, mas existe ainda “Mas não assinei contrato nenhum”.
nesta cidade – digo isto por experiência
própria – uma falsa moral que acaba por Já o diretor-geral do Instituto na épo-
cercear a liberdade de expressão – tolhe ca, irmão Albano afirmava, na mesma ma-
os movimentos artístico-culturais – e afas- téria:

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 221


Teatro Abel. Planta baixa, (S.E.)

Teatro Abel. Corte, (S.E.)


O projeto do teatro é de uma ex-aluna do de Helio Eichbauer, e tendo no elenco Fer-
colégio, a arquiteta Patrícia de Mendonça nanda Montenegro, Edson Celulari, Cássia
Taveira, formada pela Universidade Santa Kiss, Jonas Mello, Linneu Dias, Wanda Kos-
Úrsula e empregada da Yokoyoma. mo, Betty Erthal e Joyce de Oliveira.
Em 1988 o espaço sofreu algumas refor-
O irmão Albano desmentia que o ante- mas, e foi reinaugurado com a comédia Ti-
projeto do teatro pertencesse a Gringo Car- nha que ser você, de Joseph Bologna e Renée
dia, alegando ter ele apenas transposto para Taylor, direção de Marília Pera, cenários de
o papel vegetal, “de forma organizada e bo- Colmar Diniz, figurinos de Biza Vianna, ilu-
nita, já que ele é arquiteto”, sua ideia inicial. minação de Maneco Quinderé e trilha sono-
“Ele fez apenas a planta baixa, onde eu podia ra de Fernando Moura.
localizar as salas. Nada mais.” O Teatro Abel pelo conforto para o públi-
A defesa deYokoyoma Construtora basea- co e atores, e pelas condições técnicas, vem
va-se em três pontos, como publica O Flumi- sendo o preferido pelas produções, que en-
nense, de 21 de agosto de 1985: cerram suas apresentações no Rio, fazendo
curta temporada em Niterói.
O autor, ao tempo em que diz haver ela-
borado o estudo era sócio da ré Icaraí
Construtora e Incorporadora (ICI); o au-
tor não provou a existência do projeto, 4. PETRÓPOLIS
mas apenas de estudos preliminares sem
detalhamentos necessários para a execu-
ção da obra; e o autor não provou que 1874
seus estudos foram aproveitados ou utili- Teatro Progresso Petropolitano
zados na obra...
A província do Rio de Janeiro contou ainda
A atriz Debora Bloch, amiga de Gringo, no Império com o Teatro Progresso Petro-
afirmava, na mesma matéria: politano, surgido em 1874, em Petrópolis,
trinta anos após a fundação da cidade.
É um absurdo o que essas pessoas estão
fazendo com ele, conheço Gringo e sua
idoneidade e sei que não seria capaz de se 1921
apoderar de uma coisa que não fosse sua. Teatro Capitólio

Totalmente pronto, o teatro manteve-se À Rua do Imperador n. 992, em Petrópo-


fechado para o público e a inauguração com o lis, ficava o Teatro Capitólio inaugurado em
espetáculo Piaf, com Bibi Ferreira, foi adiado. 1921, todo com piso de mármore, espelhos
A casa passou então a funcionar internamente e lustres de cristal, com capacidade para
para as atividades do curso de teatro da insti- mais de 1.500 espectadores, entre frisas, ca-
tuição e para gravações em vídeo. marotes, gerais e plateia, com sete camarins
Em 11 de setembro de 1986, o teatro foi e amplo foyer.
inaugurado com a apresentação de Fedra, de Suas atividades foram interrompidas em
Racine, tradução de Millôr Fernandes, diri- 1971 e em 1976 era estabelecida no local
gida por Augusto Boal, cenários e figurinos uma agência de automóveis (Capitólio Au-

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 223


tomóveis) e estacionamento. Até 1984 era pintura interna dependendo do orçamento.
ainda proprietária do imóvel a senhora Zai- Do Jornal do Brasil, de 24 de maio de 1997:
de Ferreira Alves.
Outros negócios se estabeleceram no lo- Esta foi a melhor maneira que encontra-
cal, entre eles uma academia de ginástica, mos para usarmos o teatro como está e ti-
que ocupava o segundo andar do prédio. A rarmos o estigma da plaqueta fechado para
Secretária de Cultura de Petrópolis, por in- obras.
termédio da Divisão de Artes Cênicas, tentou
na década de 1980 sensibilizar os políticos e Em maio de 1997, o teatro já apresentava
a comunidade para a restauração e reabertu- sua primeira temporada pós-obras, com o
ra do teatro. Esperavam conseguir cerca de musical Francisco de Assis, de Ciro Barcelos.
dez mil assinaturas e ao mesmo tempo pro- Antes deste espetáculo o teatro já havia feito
curavam a colaboração de empresários para o apresentações únicas do violinista Baden Po-
custeamento das obras necessárias. well e do cantor Edson Cordeiro.
Em 15 de novembro de 1984 era publica- Desta forma, neste mesmo ano, o teatro
da uma nota no Jornal do Brasil: manteve uma programação com atividades
teatrais de artistas locais, shows de música e
A Prefeitura de Petrópolis vai desapro- espetáculos de dança.
priar na segunda-feira o prédio da Rua do
Imperador onde está instalada uma reven-
dedora de automóveis. Vai transformá-lo 1955
no que era originalmente, um teatro: o Teatro Santa Cecília
Teatro Capitólio.
Em maio de 1977 sob a determinação da Es-
Nada mais se soube sobre o Teatro Capi- cola de Música Santa Cecília, era reaberto
tólio. o Teatro Santa Cecília, de Petrópolis, que
durante 20 anos funcionou como cinema ar-
rendado à empresa Art Filmes. Esta casa de
1930 espetáculos, inaugurada em 1955, possuía
Teatro Municipal de Petrópolis 670 lugares, e, servia para apresentações de
teatro, concertos, balés e outras manifesta-
O Teatro Municipal de Petrópolis em estilo ções culturais inclusive cinema.
Art-Déco foi inaugurado por volta de 1930 Para a reinauguração do teatro foi previs-
e acumulou a dupla função de cinema e tea­ ta a apresentação da peça Sonata sem dó para
tro. Em sua sala em 1933 foi exibido Tempos três executantes, de Marcílio de Morais. O es-
modernos, de Chaplin, e com o passar dos petáculo foi produzido pelo Grupo Candeia,
anos, o prédio foi se deteriorando e a pro- direção e cenografia de José Luis Ligièro
gramação também decaiu. Coelho, e no elenco Amelim Fiani, Carlos
Em março de 1996, a então presidente Alberto Lopes e Duca Rodrigues, tendo so-
da Fundação Petrópolis, Katia Chalita e sua noplastia de Caíque Botkay. Diz o Jornal do
equipe passaram a dar função à casa, mesmo Brasil, de 18 de junho de 1977:
estando em obras, responsabilizando-se pe-
las goteiras, limpeza geral, pintura do pal- A sala de espetáculos pertence à Escola de
co, hall e reforma dos banheiros, ficando a Música Santa Cecília, obrigada a assinar

224 Teatros do Rio


contrato com a Art Filmes há duas décadas de Castro e Leônidas de Mattos Filho, am-
porque era difícil levar peças do Rio para bos da Secretaria de Planejamento, e toda
lá. Como teatro, a sala funcionou durante a captação de recursos viabilizada através
dois anos. Na época, o então presidente da dos incentivos da Lei Sarney.
entidade Reynaldo Chaves, disse que ao
firmar contrato com a empresa cinemato- Para se chegar ao antigo matadouro, há
gráfica sentia-se como se estivesse “prosti- toda uma história a ser contada, que come-
tuindo uma filha”. ça com o prédio do ex-Teatro Capitólio. Em
1984, o decreto do prefeito considerava o
O teatro, com palco de 14 metros de Capitólio de utilidade pública, para fins de
boca, sofreu alguns reparos, com a colocação desapropriação, e viável para funcionamen-
de novas pernas, bambolinas e rotundas, fal- to de um teatro municipal. A comunidade
tando para a estreia a cortina de boca. Mes- cultural era chamada a cooperar para pagar
mo em estado precário, sem equipamentos o valor exigido pela família que explorava o
de luz e som e problemas de acústica, o tea- local. Era lançado então um livro de ouro.
tro passou a ser utilizado por outros grupos, Seis meses depois, o projeto não foi adiante,
mas por pouco tempo. Nada mais se sabe do e o decreto estava expirado.
Santa Cecília. Em 1985, o prefeito tenta desapropriar o
Cinema D. Pedro onde já havia espaço pron-
to para funcionamento de teatro com frisas e
1988 camarotes. Entretanto, houve relutância dos
Teatro Municipal de Petrópolis proprietários. E em 1987 o governo tentava
(Matadouro Municipal Modelo) então arrendar o Teatro Santa Cecília, cuja
proposta não foi aceita pelos proprietários,
Em janeiro de 1988, era criado em Petró- apesar do prejuízo com a manutenção do
polis um movimento com o objetivo de teatro que não era utilizado.
trans­formar o extinto prédio, onde funcio- Em 1984, a bailarina Márcia Haydée já so-
nava o sacolão, em instalações para o fun- nhava em ver o então prédio do antigo mata-
cionamento do Teatro Municipal, à Avenida douro municipal transformado numa grande
Barão do Rio Branco n.2.053, Bairro Quar- escola internacional de dança. Encantada com
teirão Brasileiro, Petrópolis. Uma iniciativa a arquitetura do prédio e ao mesmo tempo
de Fernando Portela, Secretário Municipal desolada ao constatar sua subutilização para
de Cultura e de Arthur Varella, Diretor do feirão de atacado de produtos hortifrutigran-
Departamento de Cultura da Secretaria de jeiros, comprados pelo município ao Ceasa.
Cultura, que conta um pouco da viabiliza- Um projeto chegou a ser elaborado pela
ção desse sonho. Lê-se em Última Hora, de arquiteta Bebel Klabin, que previa um cen-
7 de outubro de 1988: tro de dança e um anexo para teatro. O so-
nho ficou só na memória e não chegou a
De início contamos logo com a colabo- despertar muita atenção na época.
ração espontânea do engenheiro Marcelo Três anos depois, coincidência ou não, a
Iliescu, ex-secretário de Obras do Muni- Secretaria de Cultura buscava espaços alter-
cípio, e com a mão de obra especializada nativos para realizar o evento Dançar por
das várias secretarias municipais. O proje- Dançar, voltando ao Matadouro. Após muitas
to arquitetônico foi feito por Luis Ernesto conversações, o próprio prefeito, na época,

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 225


Paulo Rattes resolve, em decreto 761 assina- namento de viaturas para coleta de lixo e
do em 29 de março de 1988, de sessão de sucata de carros da Prefeitura. Quando Pau-
uso, passar a administração da Secretaria de lo Rattes assumiu a Prefeitura resolveu dar
Cultura, o prédio do antigo Matadouro, para um fim social ao prédio, aproveitando o seu
nele ser instalado o Teatro de Petrópolis. primeiro pavimento para promover vendas
De características neoclássicas o prédio a varejo a baixo custo de produtos hortifru-
de propriedade do governo havia sido cons- tigranjeiros, que foi apelidado de “sacolão”.
truído em 1928, às margens de um curso de Antes em 1978, já havia sido tombado pe­
água, o Rio Piabanha, como era frequente lo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural
ocorrer com imóveis de uso industrial. O (Inepac) e o próprio conselho de Preserva-
Matadouro tinha capacidade de abate diário ção do Patrimônio Histórico e Artístico Mu-
de 120 rezes, 50 suínos, 30 carneiros e 30 nicipal.
vitelos. Após a Segunda Guerra Mundial, Para que o Matadouro Municipal Modelo
com o aparecimento das companhias frigo- pudesse então dar início às suas transforma-
ríficas, que passaram a monopolizar todo o ções, o Secretário Fernando Portela conse-
setor, o matadouro entrou em processo de guiu instalar o sacolão em terreno adequa-
falência, fechando definitivamente. O pré- do, existente ao lado do prédio. A sucata foi
dio ficou então abandonado por quase dez leiloada e os caminhões de lixo removidos
anos, quando voltou a ser utilizado como para a usina de lixo, que na época estava em
depósito de material de construção, estacio­ construção na Estrada do Contorno.
O projeto para reforma do prédio do Ma-
Matadouro Municipal Modelo. Petrópolis, RJ tadouro Municipal previa obras em seus três

226 Teatros do Rio


pavimentos, além de urbanização externa. De acordo com o andamento das obras a
A primeira fase previa o funcionamento de previsão de conclusão definitiva ficou para
um teatro de palco italiano; plateia (conser- novembro. Sendo que em julho Arthur Va-
vando-se até os trilhos suspensos do teto, rella Guedes, diretor do Departamento de
onde eram penduradas as peças de carne, Cultura, comunicava que o teatro havia re-
integrando-se à sala de espetáculos); hall cebido uma colaboração da General Motors
com dois banheiros para o público; cabine do Brasil, que se encarregaria de instalar a
de controle de iluminação e som; quatro ca­ parte elétrica e a parte da segurança; assim
ma­rins; sala de contrarregragem; e sala de como o Ministério da Cultura liberava uma
administração. O palco teria 120 metros verba para as obras dos camarins e finaliza-
qua­­­drados e plateia com capacidade para ção do palco.
350 espectadores, poltronas que já haviam Na segunda quinzena de julho já estavam
sido doadas pelo dono de um cinema desa- programadas a colocação de esquadrias de
tivado. O projeto cênico foi todo desenvol- madeira das janelas e a pintura externa do
vido por José Dias, que prestava assessoria prédio, para em seguida serem colocados os
técnica à Secretaria de Planejamento, para o carpetes, executado o projeto paisagístico,
desenvolvimento dos projetos executivos e com os jardins externos, e o estacionamento
complementares. no entorno do prédio.
A segunda fase da obra incluía o aprovei- Mesmo em obras, os espetáculos tiveram
tamento do segundo pavimento do prédio continuidade, mantendo a programação do
onde a comissão formada por membros da Festival de Dança que reunia grupos de várias
Secretaria de Cultura, grupos teatrais, mú- partes do país. A inauguração oficial estava
sica e dança optou por fazer funcionar um prevista para 5 de novembro do mesmo ano.
espaço alternativo, criando-se o teatro mo- O empenho de transformar o antigo Ma-
dular, cuja plateia e palco eram dispostos em tadouro Modelo de Petrópolis em Teatro
um módulo de arquibancadas, para várias Municipal foi praticamente abortado pelo
modalidades de teatro: arena, semiarena ou prefeito que assumia a Prefeitura: Paulo
elizabethano. O projeto previa ainda neste Gratacós, conforme palavras de José Dias e
andar, camarins e banheiros. O terceiro pa- Luciana Nunes Leal, para o Jornal do Brasil,
vimento, chamado Torreão, ficaria apenas de 27 de agosto de 1988.
como apoio às atividades do segundo andar.
Além das obras de adaptação como pin- O teatro estava quase inaugurado. Tí-
tura, troca de vidros, reforma de madei- nhamos conseguido doações de materiais:
ramento, troca de telhado, calhas, palco tinta, cadeiras e chegamos a fazer até uma
e cortinas, teria também a de urbanização apresentação de dança. Faltavam apenas os
externa onde seriam aproveitados os anexos camarins. De repente, tudo foi desfeito e
do prédio para funcionamento de restauran- agora ninguém sabe em que vai se tornar o
tes, oficinas, alojamentos e administração antigo matadouro.
do teatro.
Foi pré-inaugurado em 12 de junho de Vários nomes das artes cênicas se empe-
1988, e entregue à comunidade petropo- nharam e se manifestaram, além de notas assi-
litana com o projeto “Dançar por Dançar”, nadas por associações artísticas de Petrópolis,
organizado pela Associação Petropolitana músicos, dançarinos, atores e compositores,
de Dança. denunciando que o prefeito havia tirado a se-

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 227


gurança que cuidava do prédio, desaparecen- 1935
do rapidamente todo o material cedido por Teatro Taboada
empresas particulares para a restauração do
matadouro e construção do teatro. Pouca notícia se tem sobre o Teatro Taboa-
A primeira informação recebida logo após da, localizado em Macaé, Estado do Rio, e
os saques foi confirmada: o matadouro havia que foi inaugurado em 1935, com capaci-
sido em curto espaço de tempo transformado dade para 1.200 espectadores, distribuídos
em depósito da Secretaria Municipal de Trans- entre plateia, camarotes, balcão e galeria.
portes: Na mesma matéria do Jornal do Brasil, Possuía um bom palco com todos os recur-
diz José Dias: sos cênicos, inclusive urdimento. Não se
tem informações sobre sua inauguração, fa-
Isso é um crime contra a cultura. Não chada e nem tampouco sobre a paralisação
tenho coragem de ver o matadouro agora. de suas atividades.

Ao que a jornalista complementa:

Se for ao antigo matadouro – cons­truído 6. FRIBURGO


em 1928, no modelo de matadouros fran-
ceses e tombado pelo Patrimônio Histórico
Estadual – o cenógrafo terá gran­­de decep- 1895
ção. Operários trabalham na construção Teatro D. Eugênia
de um muro em volta do terreno, mas
dentro do prédio tudo está destruído. So- Também em Friburgo, outra cidade serra-
bram pedaços de madeira, tijolos e parte na, em 30 de maio de 1886 foi lançada a
do que seria o palco do Teatro Municipal pedra fundamental em terreno adquirido
de Petrópolis. ao Major Pedro Eduardo Salusse, situa­
do na então Rua General Camera, hoje
A assessoria de imprensa do Prefeito Pau- Rua Augusto Spinelli, para construção do
lo Gratacós, informava que o teatro não se- Tea­tro Victor Hugo. Mas por falta de ver-
ria instalado lá e sim no antigo cinema Dom ba as obras foram paralisadas. Foi então
Pedro no Centro, que em sua gestão foi de- que o fazendeiro de Sumidouro, Manoel
sapropriado para essa finalidade. Amâncio de Souza Jordão, indo morar em
Friburgo, se dispôs a comprar o imóvel, e
dar continuidade à construção, mas com a
condição de que o teatro levasse o nome
5. MACAÉ de sua esposa: Teatro D. Eugênia. Durante
as obras, Manuel Amâncio faleceu, mas a
viúva e seu cunhado, o também fazendeiro
1865 João do Prado Jordão, uniram-se e leva-
Teatro Santa Isabel ram a empreitada a bom termo. No dia
19 de fevereiro de 1895, era inaugurado
A província do Rio de Janeiro contou ainda o teatro.
no Império com o Teatro Santa Isabel, em Durante longos anos sofreu diversas re-
Macaé, a partir de 23 de maio de 1865. formas, chegando ao nome de Teatro Leal, e

228 Teatros do Rio


sendo demolido em 1975, para dar lugar a que existia na cidade, e que já tinha mais de
um grande edifício. Publica O Fluminense, de 1.300.000 habitantes.
23 de julho de 1975: Da Arcádia Iguaçuana de Letras, funda-
da em 11 de agosto de 1955, existe hoje
...reação nos meios artísticos, que não se apenas o nome, pois seus membros aban-
conformam com o desaparecimento de donaram o prédio e criaram a Academia
uma casa de espetáculos que representou Iguaçuana de Letras. Foi da Arcádia Igua-
para os friburguenses um verdadeiro pa- çuana que surgiu o teatro, fundado por um
trimônio histórico. grupo de rapazes interessados em cultura.
Inicialmente eles tomaram emprestado um
projeto de cinema e criaram o Cine Clube
Humberto Mauro. De janeiro de 1976 em
7. ITAPERUNA diante foram exibidos vários filmes nacio-
nais, seguidos de debates.
A maioria do público que participava do
1906 Cine Clube era formada por universitários
Teatro São José da Faculdade de Nova Iguaçu, e o espaço
era destinado a apresentação de cantores
e de filmes, pois não possuía o mínimo de
recursos para a apresentação de um espe-
8. SÃO JOÃO DA BARRA táculo teatral. Como declara o Professor
de Arte Dramática do Teatro Arcádia, Cel-
so Mosciaro a O Globo, em 21 de junho de
1907 1976, que “o Teatro Arcádia não tem mais
Teatro São Joanense condições de funcionar como casa de espe-
táculos...” O teatro foi então cedido à Pre-
feitura de Nova Iguaçu pela Arcádia Igua-
çuana de Letras.
9. NOVA IGUAÇU Na madrugada de 21 de novembro de
1976 foi completamente destruído por um
incêndio, sendo os escombros interditados
1955 sob suspeita. O motivo era que o Corpo de
Teatro Arcádia Bombeiros havia encontrado nos camarins
dois mosquetões velhos desativados, dois
Em 1969 o Teatro Arcádia de Nova Igua- capacetes de fibra de vidro usados e um te-
çu, localizado à travessa Alberto Cocozza, lefone de campanha fora de uso.
n. 38, fazia, regularmente, apresentações, Mesmo tendo a Assessoria de Educação
em convênio com o Serviço Nacional de Artística da Secretaria de Educação da-
Teatro, tornando-se um polo cultural en- quele município informado e provado que
tre a antiga Guanabara e Nova Iguaçu. O o material havia sido cedido pelo Centro
convênio havia permitido, na época, uma de Instrução General Penha Brasil, da Vila
regularidade, para que peças de sucesso, Militar, para a montagem da peça Piqueni-
pudessem se apresentar em Nova Iguaçu. que no Front, de Arrabal, o local continuou
Um teatro de apenas 156 lugares, o único, interditado sob “suspeita de servir a fins

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 229


subversivos”, como revela o Capitão Ma- cadeiras quebradas, tacos do piso da pla-
deira do Batalhão do Corpo de Bombeiros teia soltos, refletores sem lâmpadas, cor-
de Nova Iguaçu ao Jornal do Brasil, em 25 de tinas sujas, e problemas em seu sistema de
novembro de 1976. iluminação. O Fluminense e, em 3 de agos-
Na mesma matéria sabe-se que, embora o to do mesmo ano denunciava; “Descaso das
delegado de Nova Iguaçu Amil Ney Richard autoridades, que ignoram e marginalizam a
tivesse liberado a sala de espetáculos após ter classe teatral, deixando de preservar a única
ouvido os assessores da Secretaria e examina- casa de espetáculo do município”.
do toda a documentação, a interdição conti- Em 1988, a proprietária do imóvel, Nei-
nuou até que fosse dado um laudo pericial. de Carvalho, apelava para que fosse sus-
penso o contrato de aluguel, já que a dívida
Os mosquetões são velhos e sem ferrolho, da Prefeitura somava a dez meses de atraso.
o dito radiotransmissor, é apenas a caixa O apelo sai em Última Hora, em 6 de se-
de um telefone de campanha. A polícia tembro de 1988:
precisa entender que teatro é um espaço
cênico, arrumado de acordo com a peça: Já implorei pelo amor de Deus que sus-
se ela trata de química, vira laboratório; pendam o contrato de aluguel, que não
se fala de guerra, tem de ter armas. foi para o teatro, mas para Arcádia Igua-
çuana de Letras.
Com apoio financeiro do Serviço Nacio-
nal de Teatro, que possibilitou uma com- A Secretária de Educação de Nova Igua-
pleta reforma no prédio, sendo equipado çu, Rosa Forte, admitiu ao Estado de Minas,
com ar-condicionado, sistema de ilumina- de 23 de outubro de 1988, que a popula-
ção, 168 poltronas, camarins e banheiros ção e a classe artística não poderiam mais
destinados ao público e aos artistas, foi re- contar com o único teatro do município.
aberto no final do ano de 1977. “O prédio do Arcádia não tinha as mínimas
Celso Mosciaro, na época assessor de condições de funcionamento, e os artistas
arte da Secretaria de Educação da Prefei- merecem uma coisa melhor”.
tura, pretendia que na reabertura houvesse O Arcádia foi fechado, em caráter de-
homenagem a um famoso ator, antigo mo- finitivo, em 1988, atendendo a parecer
rador do bairro Juscelino, de Nova Iguaçu. técnico de engenheiros da Secretaria de
Lê-se em O Fluminense, em 12 de julho de Obras, que foram no local e concluíram
1977, que ia sugerir a colocação, no Arcá- que problemas na instalação elétrica e a
dia de “uma placa de bronze em homena- falta de manutenção inviabilizavam a con-
gem a Procópio Ferreira...”. tinuidade do teatro no prédio da Rua Al-
Em 1979, a notícia na imprensa (Jornal de berto Cocozza, 38, onde funcionava há
Hoje, de 20 de julho de 1979) era de que 33 anos.
o Teatro Arcádia, o único em Nova Iguaçu,
corria sério risco de ser despejado: “Há
quem diga que o teatro vai virar restaurante. 1967
Há quem diga que o teatro será despejado. Teatro Procópio Ferreira
Há fumaça. E onde há fumaça...”
Em 1982, o Teatro Arcádia estava em O Teatro Procópio Ferreira, localizado
péssimas condições, cheio de infiltrações, à Rua Afrânio Peixoto n.99, em Nova

230 Teatros do Rio


Iguaçu, é de propriedade do Instituto de 10. TRÊS RIOS
Educação Afrânio Peixoto. Possui 12m de
largura de boca de cena, o palco com pro-
fundidade de 6m, seu urdimento está a 1962
10m de altura, tem 3 camarins e sua lota- Teatro Celso Peçanha
ção é de 358 lugares. Compreende ainda
uma sala para ensaios (Sala Paschoal Car- Em Três Rios, o Grupo de Amadores Teatrais
los Magno). Viriato Corrêa, única instituição artístico-
Foi construído pelo diretor Prof. Rui -cultural da cidade, que em 1958, já tinha
Afrânio Peixoto do Instituto de Educação 22 anos consecutivos de inestimáveis servi-
Afrânio Peixoto (antigo Colégio Afrânio ços, deu a arrancada decisiva para a constru-
Peixoto), que também é responsável pela ção de um teatro.
construção da Arcádia Iguaçuana de Le- Depois de um trabalho incessante, em
tras. 1958, junto ao Governo do Estado, conse-
Procópio Ferreira, que antes da inaugu- guem a doação de uma área à Praça São Se-
ração, já estava residindo em Nova Iguaçu, bastião (ao lado do Forum), de 600m2 , com
passou a professor de teatro do Instituto de escritura definitiva e devidamente registra-
Educação, auxiliado por Amilta Ferreira, da no cartório.
desde a abertura da casa de espetáculos que O projeto do teatro coube a Wanderley
recebeu seu nome. José Rodrigues, uma casa de linhas moder-
O teatro foi inaugurado em 16 de janeiro nas, com completas instalações, ficando a
de 1967 com a peça Esta noite choveu prata, execução de maquete a cargo de Júlio As-
de Pedro Bloch, tendo Procópio Ferreira sumpção.
como protagonista. O Grupo de Amadores criou uma classi-
Até 1975, o teatro era utilizado para ati- ficação de sócio benemérito que com uma
vidades da instituição, quando passou então quantia desdobrada em parcelas, em um pe-
a receber na sua programação companhias ríodo pouco superior a três anos, atenderia
profissionais de teatro e grupos amadores. aos custos da obra, com finalidades amplas:
Em 1979, foi construída a bilheteria e a se- as rendas obtidas pelo grupo destinavam-se
cretaria do teatro, com acesso pela Rua Dr. às instituições de caridade locais. Desta for-
Tibau, 462, dando independência ao pré- ma, os doadores tiveram o seu capital em-
dio teatral do colégio. pregado em patrimônio, arte, cultura e bem
O teatro sofreu ao longo desse período social. Foi publicado no Entre Rios, jornal de
outras reformas, como alteração da boca Três Rios, em 29 de novembro de 1958:
de cena, novo sistema de coleta de águas
pluviais, aumento de 4,20m de altura do A campanha do teatro em Três Rios foi re-
urdimento, modificação da varanda e pin- cebida de maneira entusiástica por nossa
tura geral. população, que tem atendido prazerosa-
Apesar das alterações sofridas, pouco foi mente a subscrição dos títulos. Basta di-
utilizado pelas produções profissionais do zer-se que, sendo o plano de 3 milhões de
Rio de Janeiro. Sua ocupação tem sido feita cruzeiros, já se acham subscritos mais de
por grupos amadores e por trabalhos desen- 1 milhão, ou seja, um terço do total exigi-
volvidos pelos alunos do Instituto. do para a construção...

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 231


Teatro Celso Peçanha. Planta baixa, (S.E.)

Teatro Celso Peçanha. Corte, (S.E.)


Desta forma o Teatro Celso Peçanha foi letreiro que cobria toda a fachada de um
totalmente construído com doações em di- edifício. Resistiu até 1967, porém no pri-
nheiro da população. Sua diretoria foi for- meiro semestre daquele mesmo ano, o
mada por amadores. teatro já não existia mais, não chegou a
O teatro foi inaugurado em 1962, como durar um ano. Seu interior foi transfor-
se vê no mesmo jornal da cidade, de 24 de mado em um parque de diversões, con-
fevereiro de 1962. forme matéria no Jornal Fluminense, de 9
de julho de 1967:
Os detalhes técnicos do novo prédio fo-
ram meticulosamente estudados... os se­ O teatro só existia na fachada. Lá dentro
nões existentes em nada desmerecem a havia mesmo era uma confusão de tabi-
obra, não tendo mesmo encontrado os de- ques dividindo um enorme galpão [...] De
feitos insanáveis existentes na maioria dos teatro mesmo só as máscaras humanas vi-
teatros nacionais... vidas, sofridas e somadas aos defeitos em
que sons e luzes completavam o conflito
Apesar de ser uma boa casa, poucas são as de um bric-a-brac onde criaturas e utili-
companhias profissionais que lá fazem apre- dades compunham um painel de dramas.
sentações, quando em excursão. Continua
hoje atendendo a grupos amadores.
1967
Teatro Municipal Armando
Melo (Teatro Municipal Duque
11. DUQUE DE CAXIAS de Caxias)

O Teatro Municipal de Duque de Caxias fica


1966 no Shopping Center de Caxias. Foi inau-
Teatro Galpão (Teatro Moderno gurado em 1967, e batizado com o nome
de Comédia) de Teatro Municipal Armando Melo, uma
homenagem ao ator que introduziu a arte
Em Duque de Caxias surgia, em 1966, o tea­tral no município de Duque de Caxias.
Teatro Galpão, uma iniciativa de Afon- A casa tem apenas 90 lugares e não possui
so Fernandes e George Feny, uma sala de recurso cênico.
espetáculos em três ângulos que abrigava Em 1972, entrou em reformas que com-
aproximadamente 500 pessoas em arqui- preenderam substituição da parte elétrica,
bancadas. Sua inauguração se deu em 28 melhorias no palco e na plateia. Pronto em
de outubro de 1966 com a peça Um deus agosto do mesmo ano, passou a ser utilizado
dormiu lá em casa, de Guilherme Figueire- para apresentações de peças infantis, ence-
do e com elenco composto de Afonso Fer- nadas por alunos de escolas da cidade e de
nandes, Wanda Frey Muth, George Ferny e grupos amadores. Fechado pela Prefeitura
Elizabeth Sandres. em 1980, a Associação dos Artistas Indepen-
O Teatro Galpão recebeu o nome de Te- dentes do município estabeleceu contatos
atro Moderno de Comédia, e era locali- em 1983 com a administração municipal na
zado à Avenida Rio–Petrópolis n. 1.551, tentativa de reabri-lo. A dramática situação
na Praça da Pacificação, com seu enorme do teatro é narrada por Nélio Menezes e

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 233


Paulo Renato Nogueira, presidente e secre- A ideia de ampliar a sede do Legislativo
tário da associação, afirma a Última Hora, deveu-se à grande aceitação que teve a
de 10 de outubro de 1983: instalação, há cerca de três anos, da bi-
blioteca e do Instituto Histórico, visita-
...O importante espaço cultural teve dos por milhares de pessoas, especial-
gloriosos dias até que, em 1979, quando mente jovens.
encenávamos uma peça infantil, operá-
rios munidos de marretas e picaretas in- Entusiasmado com a iniciativa o dire-
terromperam o espetáculo e passaram a tor administrativo da Câmara Municipal,
quebrar o piso e o palco. Eles cumpriam Elias Lazaroni, propôs a construção do
ordens do Coronel-prefeito “pro-tempo- teatro e da biblioteca, recebendo integral
re”, Américo Barros. [...] Os trabalhado- apoio dos membros da mesa executiva da
res fecharam a passagem, cujo acesso era Câmara.
feito pelo corredor central do Shopping Ao ato inaugural estiveram presentes:
Center. Ali foi construída a Sapataria Fa- Bibi Ferreira, o Senador Nelson Carneiro,
brum...Um buraco aberto na parede la- deputados Amaral Peixoto, Edson Guima-
teral, fechado por uma improvisada porta rães e Sandra Cavalcanti, entre outras per-
de madeira, passou a servir de passagem sonalidades.
a quem desejar chegar ao lugar onde fun- Trata-se de um grande auditório, que
cionava o Teatro Armando Melo. ocupa uma área de 720m2, com capacida-
de para 700 espectadores, com um palco
Na jornada em busca do espaço, em que sem equipamentos técnicos, com dois ca-
pediam a reativação da casa de espetácu- marins, poltronas estofadas e banheiros.
los, os membros da Associação não con- Uma casa que atendia no início de sua
seguem obter respostas do então Prefeito inau­­guração às companhias profissionais,
Hydekel de Freitas. Só em 1986, na gestão grupos amadores, era utilizada como cine-
do Prefeito Juberlan de Oliveira é refor- ma e para outras atividades culturais e ce-
mado e reinaugurado em 17 de março de rimoniais. Durante alguns anos, a casa não
1986, passando a funcionar como oficina foi mais utilizada por grupos teatrais, mas
de artes, onde eram ministrados diversos de forma quase exclusiva para congressos,
cursos de iniciação artística, como espaço reuniões e formaturas dos colégios de Du-
para ensaios e debates culturais, e não mais que de Caxias.
como casa de espetáculos. Em curto período, suas dependências
entraram em desgaste, e em 1981 as con-
dições físicas do teatro não atraíam mais
1975 seu público, levando a uma decadência de
Teatro Procópio Ferreira programação e espectadores como consta-
va matéria do jornal A luta, em 2 de de-
Um outro teatro em homenagem ao ator zembro de 1981. “...em péssimas condi-
Procópio Ferreira é inaugurado em 28 de ções higiênicas e estéticas, causando danos
fevereiro de 1975, em Duque de Caxias, um aos grupos e afastando o público daquela
presente da Câmara Municipal de Duque de casa de espetáculos.”
Caxias à comunidade. Lê-se em O Fluminen- Em 1983, com a nomeação dos atores
se, de 28 de fevereiro de 1975: Nélio Menezes e Ediélio Mendonça para

234 Teatros do Rio


assessores do teatro, uma nova mentalida- 12. VOLTA REDONDA
de artística e profissional foi implantada no
Teatro Procópio Ferreira de Duque de Ca-
xias. Fizeram uma limpeza geral, pinturas 1981
e arrumação das dependências do teatro. Teatro GACEMSS
A nova administração elaborou uma pro-
gramação que incluía temporadas de di- O Grêmio Artístico e Cultural Edmundo
versos grupos teatrais da baixada flu- Macedo Soares Silva (GACEMSS) tem sua
minense e do Grande Rio. Para Nélio o história, e tudo começou no dia 17 de no-
trabalho era exaustivo, mas muito recom- vembro de 1945, numa das salas de aula
pensador, como se considera em maté- do atual Colégio Estadual Professor Ma-
ria da Tribuna da Imprensa, de 7 de abril nuel Marinho, quando um pequeno grupo
de 1983: de pessoas residentes do então 8º distrito
de Volta Redonda, reuniu-se para dar for-
A conquista deste espaço cultural é o ma legal às atividades artísticas e culturais
resultado de um esforço conjunto de- que vinham desenvolvendo e que preten-
senvolvido por artistas da terra, princi- diam incrementar. No início, o GACEMSS
palmente daqueles que, anos a fio, pro- brilhou, e seu patrimônio se limitava aos
duziram cultura em Caxias, resistindo a apetrechos necessários à instalação de um
ausências de apoio de sucessivos gover- concerto ou de uma peça teatral, utilizan-
nos municipais. do sempre local cedido por terceiros. Mas
o Grêmio já possuía o essencial: a alma de
O primeiro ato dos assessores foi mudar uma associação organizada e com objetivos.
o local das solenidades de formatura que Com o decorrer do tempo o GACEMSS
antes eram realizadas no teatro, impedin- se aperfeiçoava, ganhava meios, conquistava
do apresentações teatrais. O segundo ato novos adeptos e formava o seu patrimônio.
foi a criação do projeto seis e meia, que Cada vez mais pessoas uniam-se em torno
fez com que o público voltasse a frequen- dessa iniciativa pioneira na cidade do aço.
tar aquela casa de espetáculos. Por longo tempo viveu fases obscuras,
Nesta administração da dupla de atores por desonestidade de um antigo contador,
o teatro conseguiu dar impulso aos movi- que fez uso do dinheiro da entidade para
mentos artísticos da cidade de Duque de fins particulares, desaparecendo de Volta
Caxias, inclusive com a ida de produções Redonda. Reorganizado, iniciou as obras
profissionais para curtas temporadas. de seu prometido teatro, compreendendo
Entretanto, por estar localizado nas de- lojas em seu conjunto arquitetônico.
pendências da Câmara Municipal, a co- Em 1972 começaram as obras do Teatro
brança de ingressos gerou polêmica entre GACEMSS, e em 1980 ainda não estavam
os vereadores e a nova direção da casa. concluídas, devido às dificuldades financeiras
Como não foi construído para ser um tea­ que impediam a finalização da obra à Rua 14,
tro, mas sim um auditório, permanece n. 22 – Galeria GACEMSS, Volta Redonda.
hoje nesta função, atendendo às neces- A obra que foi projetada pelo arquiteto
sidades da Câmara Municipal de Duque Oswaldo de Oliveira Moreira, compreende:
de Caxias. prédio com três andares, com entrada prin-
cipal, duas saídas laterais, teatro com um pal-

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 235


Teatro Gacemss. Planta baixa, (S.E.)

Teatro Gacemss. Planta baixa, (S.E.)


co com fosso de orquestra, sala de operações freu uma adaptação em 1983, recebendo o
para teatro e cinema, camarins, banheiros, e nome de Teatro George Gomes, em home-
subsolo onde foram construídas nove lojas. nagem ao palhaço “Carequinha”, residente
No jornal O Fluminense, era publicada uma nesse município.
matéria em novembro de 1980, na qual se Em 1991 José Dias projetou o novo pal-
relatava a dificuldade do Grêmio Artístico co, aumentando suas dimensões, possibi-
de conseguir verba para conclusão das obras: litando uma visibilidade melhor da pla-
teia, além de ser construído um pequeno
Explica Alexandre Geraldine Clemente, urdimento para manobras de cenários e
assessor de Assuntos Culturais e Promocio- varas de luz. Possui 11 m de largura por
nais, que “não sabemos como vamos adqui- 6 m de profundidade e 4 m de altura, com
rir verba para a finalização da obra, é um dois camarins e precário equipamento de
assunto que está sendo debatido pela dire- luz e som. Sua capacidade é de 300 espec-
ção do teatro, pois a parte de acabamento tadores, sem ar-condicionado. Chegou a
apesar de ser fundamental é a mais cara... ser utilizado por alguns profissionais, mas
com o decorrer do tempo permaneceu
Enquanto o teatro não ficava pronto o somente com encenações de grupos ama-
Grêmio Artístico fazia uso de seu Teatro de dores, e atividades culturais da instituição
Bolso do GACEMSS, local que comportava de ensino.
aproximadamente 150 pessoas.
O Teatro GACEMSS é um dos principais
espaços para espetáculos da região compreen­
dida pelas cidades de Volta Redonda, Barra
Mansa, Barra do Piraí e Resende. Mesmo em 14. ARARUAMA
fase de acabamento suas portas foram aber-
tas ao público em 1981. O teatro possui 480
lugares distribuídos entre plateia e balcão, 1987
equipamento de luz e som, palco com 9 m de Teatro Municipal Prefeito
boca, com 6 m de profundidade, sendo que no Graciano Torres Quintanilha
fundo sua largura diminui para 3,5 m.
É procurado pelas companhias que excur- Em 12 de setembro de 1987 era inaugu-
sionam com produções de pequeno porte, rado pelo prefeito de Araruama, Altevir
em virtude de suas condições técnicas. Vieira Pinto, com a presença do Gover-
nador Chagas Freitas o Teatro Municipal
Prefeito Graciano Torres Quintanilha, lo-
calizado na Praça Antonio Maria Raposo.
13. SÃO GONÇALO Uma casa que não teve atividade teatral,
servindo a comunidade local para eventos
políticos, sociais e culturais.
1983
Teatro George Gomes

O antigo auditório do Colégio Municipal


Ernani Faria, em Neves, São Gonçalo, so-

Capítulo 3 | T eatros do interior da província e dos municípios do R io de J aneiro 237


Notas

1 (Paixão, 1917, p.412)


2 (IDEM)
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Jornal O Globo. Rio de Janeiro, 21 de junho de 1976.
Jornal Diário de Petrópolis. Petrópolis, RJ: 27 de maio
Jornal Última Hora. Rio de Janeiro, 30 de agosto de
de 1977; 21 de junho de 1977; 2 de junho de
1988; 06 de setembro de 1988; 11 de outubro de
1978.
1988; 25 de outubro de 1988.
Jornal do Brasil. Rio de Janeiro, 18 de junho de 1977;
24 de maio de 1997.
TRÊS RIOS
Teatro Municipal de Petrópolis (Matadouro
Municipal Modelo) Teatro Celso Peçanha
Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 20 de junho de 1988; Jornal Entre Rios. Três Rios, RJ: 22 de novembro de
27 de agosto de 1988. 1958; 29 de novembro de 1958; 6 de dezem-
bro de 1958; 13 de dezembro de 1958; 20 de Jornal Luta Democrática. Rio de Janeiro: 28 de feverei-
dezembro de 1958; 17 de janeiro de 1959; de ro de 1975; 2 de dezembro de 1981.
fevereiro de 1962. Jornal O Dia. Rio de Janeiro: 9 de abril de 1983.
Jornal Última Hora. Rio de Janeiro: 28 de julho de Jornal O Fluminense. Niterói, RJ: 28 de fevereiro de
1975. 1975; 02 de março de 1975; 29 de julho de 1975;
Revista Boa Vista Notícias. Três Rios, RJ: n. 16, julho 30 de abril de 1983.
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Revista do GATVC. Três Rios, RJ: ano I, n. 1, março Jornal Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro: 7 de abril
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Jornal Última Hora. Rio de Janeiro: 13 de abril de
DUQUE DE CAXIAS 1983; 20 de abril de 1983.

Teatro Galpão VOLTA REDONDA


Jornal Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro: 22 de outu-
bro de 1966. Teatro GACEMSS
Jornal O Fluminense. Niterói, RJ: 9 de julho de 1967. Informativo Mensal GACEMSS. Rio de Janeiro: n. 2, ju-
nho/julho de 1985.
Teatro Municipal Armando Melo (Teatro Mu- Jornal O Fluminense. Niterói, RJ: 25 de novembro de
nicipal Duque de Caxias) 1978; 06 de novembro de 1980.
Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 13 de julho de 1972.
Jornal dos Sports. Rio de Janeiro: 23 de março de SÃO GONÇALO
1986.
Jornal Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro: 22 de outu- Teatro George Gomes
bro de 1966; 11 de abril de 1986.
Jornal dos Sports. Rio de Janeiro: 18 de julho de
Jornal O Dia. Rio de Janeiro: 14 de abril de 1986. 1987.
Jornal O Fluminense. Niterói, RJ: 9 de julho de 1967;
18 de março de 1986.
ARARUAMA
Jornal Última Hora. Rio de Janeiro: 10 de outubro de
1983; 14 de outubro de 1983.
Teatro Municipal Prefeito Graciano Torres
Quintanilha
Teatro Procópio Ferreira (Duque de Caxias) Casa de Cultura. Araruama, RJ: 28 de março de
Jornal do Brasil. Rio de Janeiro: 9 de março de 1975. 1987.
Jornal Gazeta de Notícias. Rio de Janeiro: 5 de março Jornal O Fluminense. Niterói, RJ: 8 de setembro de
de 1975. 1981.
Capítulo4
O s teatros do
R io de J aneiro
no século XX
Em função das prioridades estabelecidas pela reurbanização avassaladora. Entre
abrir uma avenida e sacrificar um teatro não havia dúvida de que o segundo viria
a baixo, sempre com a promessa de uma reconstrução que, na maioria das vezes,
não acontecia.
A história dos teatros no século XX Artur Azevedo foi sem dúvida uma das
conta uma trajetória de resistência. É sur­ vozes mais contundentes em defesa do tea­
preendente o esforço desempenhado por tro nacional. E muito do seu esforço e das
intelectuais e artistas ligados ao universo campanhas que encetou resultaram positi­
das artes cênicas para incentivar, defender e vamente, como no caso da construção do
manter um panorama estável de casas de es­ Theatro Municipal, por exemplo. Mas ou­
petáculos em bom funcionamento. Se a pri­ tras vozes se levantaram ao longo do século,
meira metade do século XIX conheceu um pois década após década aumenta o coro dos
período de impulso e de uma certa euforia insatisfeitos, dos eternos vigilantes da ma­
artística, as décadas seguintes já enfrenta­ nutenção das casas de espetáculos.
ram uma realidade mais difícil para o pano­ Dentre os defensores pode-se apontar
rama teatral, às vezes mesmo em função das Bastos Tigre, cuja opinião manifesta-se em
prioridades estabelecidas pela reurbaniza­ interessante artigo intitulado “O Teatro
ção avassaladora. Entre abrir uma avenida e sem Casa”, publicado originalmente no
sacrificar um teatro não havia dúvida de que jornal Correio da Manhã, de 26 de maio de
o segundo viria abaixo, sempre com a pro­ 1940 e republicado no Anuário da Casa dos
messa de uma reconstrução que, na maioria Artistas, na década de 1940. O artigo é uma
das vezes, não acontecia. das primeiras manifestações mais evidentes
O que se vai conhecer na história dos edifí­ de uma crise que se agravará, sugerindo
cios teatrais do século XX é uma sucessão de alternativas imaginosas da parte de todos
crises, gerando lamentações, reclamações e os interessados na causa dos teatros. Para
protestos, manifestados pelas mais diversas se ter uma visão da situação das casas de
vozes e através dos mais diferentes canais de espetáculos na cidade do Rio de Janeiro no
comunicação. Por isso, para se reconstituir período, transcrevo a seguir, na íntegra, o
a trajetória dos edifícios teatrais, mantendo artigo de Bastos Tigre:
fidelidade às diferentes circuntâncias por
que passou, o melhor veículo será sempre A crise já se tornou, para o nosso teatro,
a imprensa que registrava a opinião no calor uma segunda natureza. Relendo-se, hoje,
do momento. as crônicas de Alencar, de Machado de

Capítulo 4 | O s teatros do R io de J aneiro no século XX 245


Assis, de Urbano Duarte e de Artur Aze­ E assim é, com efeito. Se não, vejamos:
vedo, encontram-se queixas e lamúrias que imagine-se, por um momento, que dispo­
somente no estilo diferem das atuais. mos de excelentes artistas de cena, peças
Dá-se com o teatro este paradoxo: ele do mais alto valor e público ansioso por
trabalha mesmo quando em “chômage”: assisti-los. Com tudo isso junto teríamos
vive exibindo a sua própria tragédia. De “teatro”? Evidentemente, não; não, porque
que se queixa o teatro? de que o público o faltaria, ainda, o empresário que montas­
deixa às moscas. Mas o público justifica-se; se devidamente as peças e contratasse os
e os autores de peças dizem que lhes fal­ atores, remunerando-os na proporção dos
tam bons intérpretes; e os artistas lamen­ seus méritos.
tam-se porque não há empresários e estes, Esse empresário tem de ser forçosa­
por sua vez, clamam que não existem casas mente um homem de negócios, isto é, um
para espetáculos em condições de propor­ homem que emprega um certo capital no
cionar-lhes uma remuneração convenien­ muito louvável intuito de ganhar dinheiro.
te ao seu capital. A indústria teatral passa, E esse empresário não aparecerá enquanto
portanto, a ser negócio de tanto risco que não existirem casas convenientes.
melhor se diria uma aventura ou um jogo Mas e os teatros A, B, C…X que temos
de azar. por aí? Objetará o meu leigo e amável lei­
À falta de capitalistas – que estes prefe­ tor. Resposta: não são teatros, no sentido
rem inverter capitais em jogos mais certos, econômico da palavra. O problema é mui­
como os dos cassinos – surgem autores que to complicado e eu estou aqui a ver como
se arvoram em empresários, tentando a é que me arranjo para o explicar, sem
parada com meia dúzia de vinténs e mon­ complicá-lo ainda mais.
tam as próprias peças; ou são artistas do Prestem atenção, porque eu não res­
palco que organizam companhias e correm pondo pela minha clareza: a capacidade
à aventura com alguns colegas dispostos a econômica do nosso público é muito baixa;
tudo. Já se tem dado o caso de ser o empre­ as entradas têm, portanto, de ser baratas;
sário, ao mesmo tempo, primeira figura do cinco mil réis, no máximo, pela poltrona.
elenco, autor da peça, ensaiador, acabando Cidade de trabalho e não de turismo (por
por ser, também, o próprio público… mais que lhe pretendam pôr a máscara) o
Esse fregolismo nos mostra a que pon­ Rio não tem gente para encher os teatros
to chega o amor à arte e a disposição para todas as noites. É preciso, por isso, contar
trabalhar dessa brava gente e o quanto po­ apenas com as lotações completas aos sá­
deria ela fazer se fosse possível organizá-la, bados e domingos, e meios, terços, quar­
discipliná-la e dar-lhe os elementos essen­ tos de casa nos outros dias da semana.
ciais para exercer a sua profissão. Mas que Não sendo possível forçar a frequência
elementos são esses? diária de espectadores, numa cidade que
Em primeiro lugar, casas, casas de teatro. dorme cedo, (porque tem o “batente” no
Parece, à primeira vista, um absurdo que dia seguinte) e onde os desocupados são
problema tão transcendente que envolve prontos, “espetadíssimos”, nem aumentar
inteligência criadora, talento artístico, mo­ os preços das localidades (motivos já ex­
vimento de capitais, gosto do público etc., postos) só resta uma solução: casas com
esteja na dependência precípua do fato ma­ um número tal de lugares que os dias de
terial de quatro paredes e um teto por cima. grande afluência, as enchentes de sába­

246 Teatros do Rio


dos e domingos, compensem as vasantes da de conforto e de higiene e, sobretudo, de
semana, facultando o que se chama na gí­ segurança contra incêndios. Um alarme de
ria teatral, “fazer a média”. Precisamos de fogo naquele buraco será o bastante para
teatros “com defesa” para usar ainda o jar­ que se registre uma verdadeira hecatom­
gão dos bastidores. be: só escaparão do sinistro as almas dos
É o que acontece com os cinemas da ci­ espectadores que, essas, poderão fugir
dade, que todos têm essa “defesa”; e, ainda pela quarta dimensão.
assim, raramente uma fita vai mais de uma O governo, mostrando o seu interesse
semana e quando passa para os bairros é pela arte cênica, o que já é alguma coisa,
com redução de 50% nos preços. mantém um Serviço Nacional de Teatro
As casas de teatro com que contamos sob a competente direção de um homem
são míseros cochicholos “indefesos”; os do “métier”, Abadie de Faria Rosa – ativo,
maiores estão fora de mão e alguns, o João inteligente e cheio de entusiasmo. Mas que
Caetano por exemplo, só têm acústica pode fazer o Serviço se não lhe dão casas
para pantomimas e bailados. para as representações?
As empresas cinematográficas (artistas Os auxílios pecuniários não passarão,
estrangeiros em latas de goiabada Cascão) jamais, de injeções de óleo canforado,
açambarcaram tudo quanto de melhor exis­ graças às quais as companhias levam mais
tia. O antigo Phênix, construído em terre­ tempo a morrer…
no doado pelo governo com a cláusula taxa­ Sendo os teatros-casa, além de ruins,
tiva de servir só para teatro, transformou-se em número reduzido, os seus proprietá­
em cinema de bairro, meio “poeira”. rios aproveitam-se e com todo o direito
Mudando de ofício, mudou também da irrevogável lei da oferta e da procu­
de nome: passou a ser Ópera. “Ópera” ra. Daí resulta que as empresas pagam ao
como?!… Concordem que como deboche “senhorio” um mínimo de 50% sobre a
aos contratos e às cláusulas legais e como importância bruta das entradas, ou seja
ridículo em cima do público e dos artistas, de 80% a 90% sobre o líquido. São os
nada mais cômico que isso de crismar-se grandes comandatários, com capital em
de Ópera uma casa de espetáculos, justa­ cimento armado. Convém acrescentar,
mente quando ela passa a servir exclusi­ aqui à margem, que não correm eles o
vamente à exibição de filmes de mocinho, menor risco, visto como os 50% do bruto
dos irmãos Marx e do Gordo e o Magro. passam a não ser computados quando não
Dois teatrinhos de recente construção, atinjam a 500$000; caso em que regula
o Ginástico e o Serrador, vão se desem­ este “minimun” de quinhentos para efeito
penhando, à falta de melhor, do seu papel do aluguel diário.
de agasalhadores da pobre arte cênica na­ Compreende-se que, por esse caminho,
cional. Embora “catitas” de aspecto, a am­ não há quem se atreva a organizar compa­
bos falta a “defesa” a que já me referi. Há nhias em ordem, com finalidade artística e,
também um porão inabitável, o Rival, ir­ ao mesmo tempo, como negócio comercial.
rivalizável como sítio impróprio para fun­ Ou o governo se determina a fazê-lo,
ções teatrais. Só uma extrema benevolên­ criando companhias, organizando elen­
cia – se não a completa indiferença – das cos e considerando o teatro um serviço
autoridades, permite espetáculos públicos público (o que estou longe de aconse­
num local a que faltam todas as condições lhar) ou manda construir casas de es­

Capítulo 4 | O s teatros do R io de J aneiro no século XX 247


petáculos nas condições técnicas e eco­ possa o Rio de Janeiro contar com um bairro
nômicas necessárias; e não somente no ou zona teatral, à semelhança da Broadway,
centro urbano, como nos bairros popu­ em Nova Iorque, e do West End, em Londres;
losos da cidade.Tudo mais são paliativos Considerando que a zona referida, des­­­
que nada adiantam ao pobre doente e à bra­­
vada pelo dinamismo de Francisco
sua numerosa família de autores, artis­ Ser­­rador, era desvalorizada e decadente,
tas, músicos, cenógrafos e pessoal do tendo alcançado a enorme valorização es­
movimento…parado. pecialmente através do prestígio que lhe
deu a construção dos cinemas e dos tea­
A argumentação de Bastos Tigre é lúcida e tros que a tornaram importante centro de
legítima, e continua adequada. Contrapon­ atração e de movimento;
do-se à dramática situação dos teatros, sur­ Considerando, pois, que é justa a re­
gem propostas otimistas, que se propõem versão de uma parte dos benefícios des­
a solucionar definitivamente a crise. Como sa gigantesca valorização e em favor do
um projeto de lei elaborado em 1951, por teatro;
Raymundo Magalhães Júnior, e assinado por Considerando que a vinculação dessa
42 vereadores, que foi apresentado e apro­ área, como zona teatral, pode ser por ou­
vado pela Câmara dos Vereadores do Rio de tro lado, equilibrada pelas facilidades de
Janeiro, publicado na Revista da Sbat, n. 263, obtenção de financiamento pelo Banco da
de set/out de 1951, p.9: Prefeitura do Distrito Federal (n. 12 ar­
tigo 90 do Decreto-lei n. 7.355, de 2 de
Um projeto criando uma zona teatral no março de 1945), bem como pela isenção
centro da cidade do imposto predial sobre a parte que nos
Assinado pelo Vereador Magalhães Ju­ edifícios seja destinada a teatros;
nior e mais 42 vereadores foi apresentado Considerando que é legítimo o con­
à Mesa da Câmara dos Vereadores o se­ dicionamento do uso de propriedade ao
guinte projeto de Lei: interesse social, como a Constituição da
Considerando que é de todos reconhe­ República reconhece:
cida a necessidade e, mais do que isso, a A Câmara do Distrito Federal resolve:
obrigação, por parte do Poder Público, de Art. 10 É declarado zona teatral o tre­
amparar as atividades artísticas e, particu­ cho da cidade compreendido entre as
larmente, o teatro; ruas do Passeio, Avenida Mem de Sá, (até
Considerando que as possibilidades de o Largo dos Pracinhas), Praça Mahatma
construção de novos teatros diminuem à Gandhi, Praça Floriano (ambos os lados),
medida que aumentam as especulações Senador Dantas (trecho compreendido
imobiliárias; entre a Rua do Passeio e a Rua Evaristo
Considerando que já existe uma ten­ da Veiga), Visconde de Maranguape e Eva­
dência de fixação das atividades teatrais risto da Veiga.
numa das zonas centrais da cidade, aquela 10 No plano de urbanização atual, ou no
em que hoje funcionam o Glória, Rival, que vier a ser elaborado, deverá ser previs­
Regina, Serrador e que é das mais acessí­ ta a utilização de lotes destinados a teatros,
veis populações; obedecidas as seguintes condições;
Considerando que tudo aconselha a in­ a) os lotes não poderão ter testada mí­
centivação dessa tendência, a fim de que nima de 15,00;

248 Teatros do Rio


b) em cada lote não deverá haver uma Se a proposta de R. Magalhães Jr. dizia
percentagem menor de 50% (cinquen­ respeito à criação de uma Broadway brasi­
ta por cento) do uso para esse fim, e os leira no centro da cidade, ainda em 1951, o
outros 50% (cinquenta por cento) serão Vereador Hugo Ramos Filho, também pre­
destinados a outros tipos de casas de di­ ocupado com a situação das casas de espetá­
versões diferentes além de estabelecimen­ culos, apresentou à Câmara dos Vereadores
tos comerciais destinados a confeitarias, do Rio de Janeiro um projeto de lei, apro­
“boites”, “music-hall”, bares, restaurantes, vado, que complementa a ideia anterior,
bombonieres etc. porém garantindo a expansão desta rede a
20 Quando no futuro reloteamento da mais dez teatros, desta vez construídos em
quadra decorrente de plano de urbaniza­ bairros periféricos ao centro. Eis os termos
ção, o órgão competente do Secretário da proposta, na íntegra:
Geral de Viação de Obras deverá fixar em
determinados lotes e dentro da percenta­ O rio vai possuir mais dez teatros
gem estabelecida neste artigo, o uso obri­ A Câmara dos Vereadores aprovou,
gatório de construção de teatros com pe­ em votação final, o seguinte projeto do
los menos 500 (quinhentos) lugares, para Vereador Hugo Ramos Filho, mandando
os fins previstos nesta lei. construir, imediatamente, 10 teatros nes­
Art. 20 Na zona teatral criada por esta ta capital:
lei não será permitida a construção de edi­ Considerando que é da mais absoluta
fícios de mais de dez andares, excetuados conveniência estabelecer no Distrito Fe­
os de serviços públicos ou municipais, sem deral uma rede de teatros complementa­
que do respectivo projeto conste um tea­ res por dependências que sirvam ainda a
tro com pelo menos quinhentos lugares. outros fins culturais, a fim de interessar
Art. 30 As construções de novos teatros a população dos bairros, da difusão ar­
serão isentas de quaisquer taxas e do im­ tística;
posto predial pelo espaço de quinze anos. Considerando que a lei n. 1.949, con­
Art. 40 Fica subordinada às exigências substanciou, em parte, esse ponto de vist