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Doi: 10.5212/Emancipacao.v.13iEspecial.

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O enfoque Metodológico da História Oral na


pesquisa em Serviço Social

The Focus on Methodology of Oral History


Research in Social Work

Reginaldo Guiraldelli*

Resumo: Este ensaio, baseado em análise bibliográfica do tema, pretende


apresentar alguns elementos sobre a apropriação da história oral como
possibilidade metodológica na pesquisa em Serviço Social. A história oral,
procedimento metodológico interdisciplinar presente nas Ciências Humanas e
Sociais, se caracteriza essencialmente pelo recorte qualitativo, enfatizando as
fontes, narrativas e relatos orais de sujeitos singulares e coletivos, sem perder de
vista a análise histórico-crítica e a perspectiva de totalidade.
Palavras-chave: Serviço social. Pesquisa. História oral.

Abstract: This essay, based on literature review of the topic you want to display
some elements on the appropriation of oral history as a possibility in methodological
research in Social Work. Oral history, in this methodological procedure
interdisciplinary humanities and social sciences, is essentially characterized by
qualitative fragment, emphasizing sources, oral histories and narratives of collective
and singular subjects, without losing sight of the historical-critical analysis and
perspective of totality.
Keywords: Social work. Search. Oral history

*Doutor em Serviço Social pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (Unesp). Professor Adjunto do Departamento de
Serviço Social e do Programa de Pós-Graduação em Política Social da Universidade de Brasília (UnB). Coordena o Grupo de Estudos e
Pesquisas sobre Trabalho, Sociabilidade e Serviço Social (GEPETSS/UnB). Brasília, Distrito Federal, Brasil. E-mail: reginaldog@unb.br 

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Introdução fundamental que norteia sua atuação, como por


exemplo, prestar um serviço de qualidade à po-
Nos últimos decênios, o Serviço Social tem pulação, necessita compreender a estrutura e a
apresentado um significativo salto qualitativo no conjuntura societária do tempo presente e isso
seu acervo e na produção de conhecimentos prevê, como pré-requisito, pesquisa sistemática,
envolvendo os diversos âmbitos da formação e incessante, profunda e crítica.
do exercício profissional. Isso é notado diante da Essa prerrogativa exige do assistente
expansão na produção acadêmico-profissional, social o conhecimento dos fundamentos da
tanto nos trabalhos de conclusão de curso de sociabilidade burguesa e as particularidades
graduação, nos mestrados, doutorados, espe- da formação sócio-histórica mundial, nacional,
cializações, aperfeiçoamentos, capacitações, estadual, municipal e/ou local. Para isso, o profis-
quanto na produção e sistematização de conhe- sional necessita se aproximar de conhecimentos
cimentos oriundos da experiência, vivência e atu- produzidos por outras áreas, como a economia
ação nos diversos espaços ocupacionais. Esse política, a história, a sociologia, a ciência políti-
quadro pode ser constatado nos últimos anos, ca, a antropologia, dentre outras. A partir dessa
quando se observa o aumento de apresentações base, acúmulo e mergulho profundo nos funda-
de trabalhos na forma de relatos de experiência mentos que interpretam e analisam o significado
nos fóruns, congressos e encontros organizados da vida social, o assistente social se apropria de
pela categoria profissional. A socialização das habilidades e competências técnico-operativas
experiências profissionais, com seus dilemas, objetivando responder às demandas postas e
repercussões, impasses, desafios, limites, pos- necessidades sociais com vistas aos fins que
sibilidades e sua respectiva publicização traz inú- orientam o projeto ético-político da profissão.
meras contribuições para os assistentes sociais Nesse aspecto, o assistente social precisa ter
refletirem criticamente sobre a realidade social clareza das finalidades da sua atuação profis-
em que se revelam as múltiplas manifestações sional para buscar os meios correspondentes.
da questão social, compreendida como objeto Em se tratando de pesquisa e produção
de investigação e intervenção do Serviço Social de conhecimento no âmbito do Serviço Social,
e resultado das contradições, antagonismos e também é relevante apontar os avanços apre-
desigualdades produzidas no capitalismo. sentados na profissão a partir dos anos 1980,
Nesse sentido, é importante sublinhar que que Netto (2001), no contexto do Movimento de
ao pensar na pesquisa em Serviço Social não se Reconceituação, denominou de intenção de rup-
deve estabelecer sobreposição das formas de tura. Esse período é marcado pela aproximação
conhecimento, priorizando o que é produzido no à tradição marxista e ruptura com o tradicional
âmbito acadêmico da universidade e menospre- conservadorismo, baseado nos preceitos do
zando a produção das experiências cotidianas pragmatismo, do tecnicismo, do metodologismo,
que circundam o exercício profissional, pois o do desenvolvimentismo, do neotomismo e do
conhecimento possui diferenças de natureza e positivismo.
não de hierarquia. Por isso, é preciso destacar Porém, diante de uma apreensão dialética
que não se faz pesquisa somente no espaço desse processo, destacamos que esse movi-
da universidade. A pesquisa é competência e mento não ocorreu de forma mecânica e pro-
atribuição do assistente social e, por isso, está gramática, ou seja, a Teoria Social de Marx não
presente no cotidiano do exercício profissional. substituiu o conservadorismo no Serviço Social
A pesquisa pode e deve ser realizada co- imediata, esquemática e bruscamente. Pelo con-
tidianamente nos espaços ocupacionais em que trário, concepções e abordagens conservadoras
se inserem os assistentes sociais, pois o profis- permanecem vivas e (re)atualizadas na atuali-
sional, para atuar de forma crítica, competente, dade. O que ocorreu foi que a tradição marxista
qualificada, propositiva, tendo como horizonte os ganha fôlego e torna-se um campo fecundo
princípios norteadores do projeto ético-político, de análise no âmbito do Serviço Social a partir
necessita do conhecimento teórico-metodológi- dos anos 1980, sobretudo após o III Congresso
co, e isso requer postura investigativa. Ou seja, Brasileiro de Assistentes Sociais de 1979, mais
para o profissional assegurar um princípio ético conhecido como Congresso da Virada, em que o

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O enfoque Metodológico da História Oral na pesquisa em Serviço Social

Serviço Social passa a demarcar sua posição e fissional, movimentos sociais, gênero, desigual-
sua direção social e política, dando novos rumos dades sociais, dentre outros, têm sido assuntos
para a formação e o exercício profissional. Isso recorrentes na pauta de debates da categoria.
se verifica com a revisão curricular no ano de Mas como a realidade é dinâmica, contradi-
1982, seguida pela de 1996, a revisão do código tória e complexa, esses estudos e pesquisas de
de ética em 1986, e, em seguida, a de 1993, e maior incidência no Serviço Social serão sempre
também a Lei de Regulamentação da Profissão necessários e relevantes, visto que são inesgo-
de 1993. Esses instrumentos, diretrizes e prin- táveis e sempre assumem novas configurações
cípios, tornaram-se os elementos constitutivos e de acordo com a conjuntura de uma época, tendo
balizadores do projeto ético-político da profissão, em vista que a questão social se manifesta de
considerado hegemônico no âmbito da categoria. diversas formas no decurso histórico mediante
Outro dado importante é o surgimento da as prerrogativas e ordenamentos do capitalismo
pós-graduação (mestrado) em Serviço Social em e o grau de acirramento da luta de classes.
1972 e, posteriormente, o doutorado, em 1981, Também é importante considerar que
que ao longo dessas décadas tem contribuído certos temas ainda são incipientes e pouco
na estimulação de pesquisas e produção de um problematizados no debate profissional, como
conhecimento crítico e comprometido com a é o caso da apropriação metodológica da his-
classe trabalhadora. tória oral na pesquisa em Serviço Social. Como
Assim, com o surgimento dos mestrados e ponto de partida desse debate é importante
doutorados na área de Serviço Social, a profis- diferenciar método e metodologia, para não se
são amadureceu intelectualmente. Atualmente é incorrer em equívocos e distorções. Método é
reconhecida como área de produção de conheci- entendido como a capacidade de apreensão do
mento pelos diversos órgãos de fomento à pes- movimento contraditório da realidade social em
quisa, como a CAPES, o CNPq e as fundações uma perspectiva de totalidade, com base em
de amparo à pesquisa dos estados brasileiros, análises concretas de situações concretas. Já
tendo em vista as expressivas contribuições dos a metodologia diz respeito aos procedimentos
profissionais para os múltiplos ramos do saber. utilizados no percurso investigativo à luz de um
Diante disso, a concepção de um assis- método de análise. Tanto no método quanto na
tente social meramente técnico, prático, inter- metodologia não há neutralidade, pois a escolha
ventivo e executor de políticas sociais tem sido do método e da metodologia prevê uma inten-
descontruída a partir de um esforço coletivo da cionalidade.
categoria profissional em produzir conhecimen- Sabendo da aproximação e identificação
tos de suma relevância para o Serviço Social e do Serviço Social com a tradição marxista,
para as diversas áreas do conhecimento. consubstanciada no projeto ético-político profis-
O que se observa é um processo de sional, no momento de incorporação da história
maturação do Serviço Social nas últimas déca- oral como recurso metodológico na produção
das, tendo produzido um acervo bibliográfico de conhecimento também é possível partir de
diversificado sobre assuntos inerentes à área uma perspectiva dialética, histórica e crítica,
de interesse dos assistentes sociais e demais estabelecendo mediações e reconhecendo as
profissionais que atuam diretamente com as conexões do singular com o universal que se
múltiplas refrações da questão social. dão no campo da particularidade, como pontua
Posto isso, se verifica que determinados Pontes (2009).
temas são mais recorrentes nas pesquisas re- Com isso, pensar a pesquisa na formação
alizadas pelos assistentes sociais, talvez pela e no exercício profissional possibilita ao assis-
maior incidência e necessidade da sua compre- tente social apreender o campo da singularidade
ensão nos espaços da formação e do exercício (o fato isolado, a imediaticidade, o aparente)
profissional, como é o caso das políticas sociais, de forma crítica, questionadora e reflexiva,
em especial com enfoque na seguridade social, sintonizando-a com a universalidade, tendo
abrangendo a saúde, previdência e assistência como parâmetro a totalidade complexa da vida
social. Além desses, outros temas como relações social e as mediações necessárias. No campo
de trabalho, violência, educação, formação pro- da universalidade, de acordo com Pontes (2009),

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se compreende as leis tendenciais da sociedade, prático e instrumental, ausente de suporte teóri-


identificando as relações entre Estado e socie- co, metodológico, ético e político.
dade, o tensionamento entre capital e trabalho, Assim, com vistas a enfatizar a metodolo-
as relações sociais capitalistas, dentre outras gia da história oral como uma das possibilidades
complexidades. O campo das mediações, ou (por isso não única e exclusiva) na produção de
seja, a particularidade, conforme apresentado conhecimentos no Serviço Social, que dialoga
por Pontes (2009), é o momento em que o sin- aportes teóricos com a realidade, concebe-se e
gular se universaliza e o universal se singulariza. vislumbra-se um recurso investigativo de pes-
Por isso, é fundamental ao assistente quisa que não recusa análises referenciadas
social a negação do aparente, do efêmero e no movimento histórico e numa perspectiva
da imediaticidade como “verdades dadas e de totalidade. Essa metodologia também não
inquestionáveis”, de forma a buscar a essência despreza ou inferioriza as singularidades dos
dos fatos, fenômenos e processos sociais, pois sujeitos (individuais e coletivos) que vivenciam
conhecendo criticamente a estrutura, dinâmica e a miséria, as degradantes condições de vida
complexidade do real é possível superar fatalis- e trabalho, a discriminação, o preconceito, a
mos, moralismos, messianismos, voluntarismos violência, dentre outras durezas, mazelas e con-
e culpabilizações. A partir disso, torna-se possí- tradições presentes na sociabilidade capitalista.
vel projetar alternativas profissionais e societá- Por isso, cabe apresentar algumas abordagens
rias sintonizadas por um compromisso coletivo. sobre a metodologia da história oral como forma
A história oral pode ser um dos recursos de aproximação ao debate.
possíveis para se realizar essas construções,
sabendo que o conhecimento sempre se constitui História oral: concepções e abordagens
por aproximações sucessivas, pois a realidade
é inesgotável, diante da sua complexidade e A história oral, compreendida como um
dinamicidade. procedimento metodológico interdisciplinar, ou
Fazer a relação do singular e universal é seja, como um caminho para a construção de
uma tarefa que exige dos assistentes sociais fun- conhecimento, que abarca tanto uma dimensão
damentação teórica, metodológica, ética, política teórico-política quanto uma dimensão técnica,
e técnica para compreenderem as mediações tem tido, nas últimas décadas, uma expansão
nos espaços ocupacionais junto às demandas significativa no Brasil. De acordo com Meihy
profissionais e institucionais. Isso implica tam- e Holanda (2007, p.64), a “História oral é um
bém extrapolar o cotidiano como espaço da reifi- processo de registro de experiências que se
cação, da aparência, da imediaticidade, ou seja, organizam em projetos que visam a formular um
do real caótico, como observa Pontes (2009). entendimento de determinada situação destaca-
A partir desse entendimento, se faz im- da na vivência social”.1
prescindível o desenvolvimento de pesquisas O recurso à metodologia da história oral
como forma de aprofundar os conhecimentos como um dos procedimentos possíveis de aná-
acerca da questão social e assim garantir uma lise crítica e interpretação da realidade social se
intervenção qualificada na realidade concreta. alicerça na busca de qualidade e profundidade
Portanto, pensar a intervenção pressupõe pensar investigativa com os sujeitos sociais envolvidos
a investigação. Isso significa que investigação e no processo de construção do conhecimento.
intervenção possuem uma relação dialética de
unidade.
Da mesma forma que não há dicotomia 1
“A moderna história oral nasceu em 1948, na Universidade de
entre teoria e prática, não há dicotomia entre Colúmbia, em Nova York. Allan Nevins, então, organizou um ar-
quivo e oficializou o termo, que passou a ser indicativo de uma
investigação e intervenção e entre saber e fazer nova postura em face da formulação e da difusão das entrevistas.
profissional. Incorre-se em armadilhas ao se sus- Isso se deu quando se combinaram os avanços tecnológicos com
a necessidade de se propor formas de captação de experiências
tentar o discurso restrito do “fazer profissional”, como as vividas então, tanto por combatentes como por familia-
pois na ausência do saber, o profissional pode res e vítimas dos conflitos da Segunda Guerra Mundial” (MEIHY,
reproduzir uma atuação pautada restritamente 2002, p.89).
na dimensão técnico-operativa, ou seja, no fazer

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O enfoque Metodológico da História Oral na pesquisa em Serviço Social

Conforme argumentação de Meihy e Holanda, [...] Não há identidade sem alteridade, sem
comparação. (2006, p.61).
História oral é um conjunto de procedimentos
que se inicia com a elaboração de um proje- Nesse entendimento, se observa que o ser
to e que continua com o estabelecimento de social é singular e genérico, membro de uma co-
um grupo de pessoas a serem entrevistadas. letividade e de uma classe social em que compar-
O projeto prevê: planejamento da condução tilha experiências, crendices, valores, ideologias,
das gravações com definições de locais, tem- projetos, dentre outras aspirações, pois “o ser
po de duração e demais fatores ambientais; humano tem múltiplas raízes: familiares, étnicas,
transcrição e estabelecimento de textos; con-
regionais, nacionais, religiosas, partidárias, ideoló-
ferência do produto escrito; autorização para
o uso; arquivamento e, sempre que possível,
gicas, culturais. Sua vida é uma totalidade, na qual
a publicação dos resultados que devem, em processos diversificados conformam a dinâmica
primeiro lugar, voltar ao grupo que gerou as do viver.” (DELGADO, 2006, p.51).
entrevistas. (2007, p.15). Baseadas nessa perspectiva, Ferreira e
Amado (2006) afirmam que, a partir da introdu-
Os autores acrescentam que o principal ção de abordagens sobre memória, identidade
fundamento da história oral se constitui em uma e subjetividade, em especial após a década de
dimensão social que abarca a memória coletiva 1980, a produção científica passou a valorizar a
e a identidade social (MEIHY; HOLANDA, 2007, pesquisa qualitativa e, assim, deu importância
p.131) e, nessa linha de raciocínio, Delgado às experiências e percepções dos indivíduos so-
(2006, p.9) ressalta que “[...] a memória é uma ciais, tendo em vista que as narrativas singulares
construção sobre o passado, atualizada e reno- podem transmitir uma experiência coletiva e re-
vada no tempo presente”. A autora afirma que a presentar uma concepção de mundo/sociedade.
memória engloba tanto as dimensões individuais Assim advém a contribuição da história
quanto coletivas e traz as marcas da lembrança oral na produção do conhecimento, que se
e do passado. caracteriza, entre as várias possibilidades teórico-
Portanto, a memória passa a se constituir metodológicas de análise dos indivíduos sociais,
como fundamento de processos identitários, por uma especial atenção aos segmentos de
referindo-se a culturas, comportamentos e classe silenciados e subalternizados socialmente,
hábitos coletivos, uma vez que o relembrar priorizando suas raízes, seu cotidiano, o espaço
individual – especialmente aquele orientado da vida privada, as inserções na vida pública, os
por uma perspectiva histórica – relaciona-se projetos individuais e coletivos, as territorialidades
à inserção social e também histórica de cada
depoente. (DELGADO, 2006, p.46). e, desse modo, “[...] procura destacar e centrar
sua análise na visão e versão que dimanam do
Sendo assim, os indivíduos sociais, partíci- interior e do mais profundo da experiência dos
pes de pesquisas e produções de conhecimento, atores sociais.” (LOZANO, 2006, p.16).
no tempo e no espaço, reconstituem, pelo crivo Além disso, o autor pontua que “fazer his-
da memória, o seu ser e estar no mundo como tória oral significa, [...], produzir conhecimentos
indivíduos situados e representantes de uma históricos, científicos, e não simplesmente fazer
coletividade, perpassada pela questão identitária um relato ordenado da vida e da experiência dos
de classe, que transita entre o reconhecimento ‘outros’.” (LOZANO, 2006, p.17).
de similitudes, diferenças e desigualdades. Nesse sentido, pode-se compreender a
Delgado argumenta que, história oral como um procedimento metodológi-
co que, conforme apresentado por Janotti (1996,
[...] as identidades podem ser renováveis e,
p.60), rompe as barreiras do silêncio e do anonima-
na maior parte das vezes, encontram-se
demarcadas pelo reconhecimento e pela
to advindos da vida cotidiana, enfatizando aconte-
constatação das diferenças. As identidades cimentos, experiências e percepções que não se
são representações coletivas contextualizadas encontram registradas na documentação escrita
e relativas a povos, comunidades, pessoas, e tampouco nas versões oficiais da historiografia.
já que a humanidade não é genérica nem Com base nessa concepção de história
caracterizada por universalismo abstrato oral, é importante destacar sua preocupação com

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o alcance social da pesquisa e a forma como os O Serviço Social, profissão inserida


resultados retornarão aos sujeitos partícipes da na divisão sócio-técnica do trabalho como
construção do conhecimento. Cabe considerar o uma especialização do trabalho coletivo
compromisso desse procedimento metodológico (IAMAMOTO, 2003) e reconhecida como área
em estabelecer vínculos com os participantes/ de conhecimento, conjugando em sua formação
sujeitos da pesquisa para que possam construir e exercício profissional a dimensão interventiva
um diálogo democrático, respeitoso e fraterno na e investigativa, tem em sua organização basilar
busca de compreensão das diversas situações um projeto ético-político com orientações e
concretas vivenciadas pela sociedade. formulações teórico-metodológicas direcionadas
Mas, vale recordar que nem sempre tal para a defesa de uma Teoria Social Crítica, com
metodologia teve adesão no espaço acadêmico- base na tradição marxista.
-científico, pois apenas assumiu destaque na Nesse sentido, cabe sublinhar que a his-
atualidade, uma vez que até a primeira metade tória oral não recusa uma determinada direção
do século XX a produção acadêmica e científica social. Sendo uma abordagem metodológica e,
se respaldava em documentos escritos e em ex- por isso mesmo isenta de neutralidade, pode
perimentos comprovados, pois a fonte oral não se nortear (ou não) por compromissos políticos
possuía critério de validade e de confiabilidade. com os sujeitos sociais e se respaldar (ou não)
Diante desse cenário, a narrativa oral era rejei- em preceitos teóricos embasados na tradição
tada como produto do conhecimento científico e marxista. Pesquisas baseadas na metodologia
representava falibilidade aos critérios objetivos da história oral também podem se apropriar de
e racionais de cientificidade. outras abordagens e concepções analíticas. Por
Com o passar do tempo, diante de isso, esse ainda é um debate recente e importan-
revisões e questionamentos das concepções te para ser aprofundado no âmbito das Ciências
determinísticas, normativas e quantificáveis da Humanas e Sociais.
produção acadêmica, predominantes até o início Diante disso, cabe considerar que a apro-
da segunda metade do século XX, verificou- priação metodológica da história oral a partir da
se uma mudança de concepção e postura na apreensão da tradição marxista, permite o des-
apropriação do conhecimento e foi possível velamento das complexidades e contradições do
reconhecer nos estudos nas áreas das ciências real em suas múltiplas determinações, a fim de
humanas e sociais a dimensão ontológica da extrapolar o fragmento, o reducionismo, a ime-
vida social, considerando as condições objetivas diaticidade e volatilização dos fatos, fenômenos
e subjetivas da sociabilidade humana. A partir e processos. Nessa perspectiva, a história oral,
desse movimento, as fontes orais também como recurso metodológico na produção de co-
passam a ser reconhecidas como elementos nhecimento, pode contribuir dialeticamente para
relevantes na produção do conhecimento. a ultrapassagem do mundo da aparência, retra-
Com isso, a história oral ganha terreno e tado por Kosik (1989) como mundo da pseudo-
reconhecimento nas Ciências Humanas e concreticidade, para desvendar a essencialidade
Sociais como uma forma alternativa de se propor contraditória e dinâmica dos processos sociais.
análises acerca da realidade social.
A partir disso, a história oral foi sendo Serviço Social e História Oral: uma
gradativamente incorporada por algumas áreas aproximação
do conhecimento, com o intuito de decifração da
realidade social e busca de respostas aproxima- Apropriar-se da história oral como proce-
das às diversas questões e situações oriundas do dimento metodológico na pesquisa em Serviço
avanço técnico-científico. Dentre as áreas com Social requer enfatizar as fontes orais e as narra-
expressiva adesão aos procedimentos metodo- tivas como elementos norteadores na análise da
lógicos da história oral, destacam-se a História, realidade e das relações sociais. A história oral,
a Sociologia, a Antropologia, a Psicologia, a compreendida como metodologia de pesquisa e
Linguística, a Comunicação e, atualmente, o campo interdisciplinar de encontro de diferentes
Serviço Social. áreas do saber, [...] não é um fim em si mesma, e
sim um meio de conhecimento.” (ALBERTI, 2005,

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O enfoque Metodológico da História Oral na pesquisa em Serviço Social

p.29). Sendo assim, a história oral não recusa e tória oral é uma parte do conjunto de fontes
nem substitui a pesquisa acadêmica com seu ri- orais e sua manifestação mais conhecida é a
gor científico e tampouco a documentação oficial entrevista. (MEIHY; HOLANDA, 2007, p.14).
existente. Pelo contrário, a história oral contribui As pesquisas que adotam os procedimen-
e fornece subsídios qualitativos para a produção tos metodológicos da história oral se respaldam
de conhecimento por meio das fontes orais. na apreensão de uma realidade situada, com
Por isso, a partir das histórias narradas pelos suas circunstâncias, temporalidades, determi-
sujeitos partícipes de um processo investigativo, nações históricas, e com sujeitos vivos, pois “o
podem ser traçados inúmeros elementos que cir- espaço e o tempo da história oral, [...], são o
cundam as relações sociais, sejam as experiências ‘aqui’ e o ‘agora’, e o produto é um documento.”
individuais e coletivas, as trajetórias, tradições, (MEIHY; HOLANDA, 2007, p.15).
relações familiares, os aspectos econômicos, políti- Ademais, “A evidência oral, transformando
cos, sociais, culturais, religiosos, o território, a rede os ‘objetos’ de estudo em ‘sujeitos’, contribui para
de sociabilidade, pois esses são elementos que uma história que não só é mais rica, mais viva e
tecem a vida em sociedade. Contudo, é importante mais comovente, mas também mais verdadeira.”
salientar que as histórias narradas são sempre re- (THOMPSON, 2002, p.137, grifo do autor).
cortadas, mediante a referência do tempo presente Conforme Lang (1996, p.36),
da narrativa. Assim, se reconhece a importância
de apreensão das relações sociais sob o prisma É no indivíduo que a História Oral encontra
da totalidade e do movimento histórico, de forma sua fonte de dados, mas sua referência não
a não fragmentar a realidade. se esgota nele, dado que aponta para a socie-
A história oral, como metodologia, tem dade. O indivíduo que conta sua história, ou
dá seu relato de vida não constitui ele próprio
como base as narrativas orais dos sujeitos que
o objeto de estudo; a narrativa constitui a ma-
relatam suas experiências, valores, crendices, téria prima para o conhecimento sociológico
fatos, projetos, aspirações e acontecimentos da que busca, através do indivíduo e da realida-
vida privada e pública e, com isso, de por ele vivida, apreender as relações so-
ciais em que se insere em sua dinâmica.
Através da narrativa de uma história de vida,
se delineiam as relações com os membros de A autora acrescenta que “A versão do indi-
seu grupo, de sua profissão, de sua camada
víduo tem, portanto, um conteúdo marcado pelo
social, da sociedade global, que cabe ao pes-
quisador desvendar. Há histórias de vida mais
coletivo” (LANG, 1996, p.45) e também conforme
ou menos ricas, mais completas ou mais frag- Meihy (2002, p.68), “[...] a história oral é sempre
mentadas. (LANG, 1996, p.34).2 social. Social, sobretudo porque o indivíduo só
se explica na vida comunitária”.
Para apreender a riqueza das histórias Portanto, metodologias pautadas na história
narradas, um dos instrumentos utilizados na oral têm sido adotadas e centradas em estudos
pesquisa é a entrevista. que abordam sujeitos silenciados e subalterniza-
A técnica da entrevista é incorporada pela dos ao longo da história e, por isso, em sua maio-
história oral como processo dialógico e como ins- ria, enfatizam mulheres, negros, homossexuais,
trumento de registro de experiências individuais migrantes, quilombolas, indígenas, dentre outros
e/ou coletivas, que objetiva capturar expressões segmentos da classe trabalhadora.3
do real pela via da documentação oral, ou seja, Além do mais, a pesquisa com as expe-
da linguagem verbalizada pelos sujeitos partíci- riências e trajetórias dos sujeitos possibilita a
pes do conhecimento produzido. Sendo assim, compreensão de ser e estar no mundo no plano
A documentação oral quando apreendida por da singularidade e também sua relação com
meio de gravações eletrônicas feitas com o
propósito de registro torna-se fonte oral. A his-
3
“[...] a esquerda e os militantes têm sempre estado atentos à ‘voz
proletária’ ou dos subalternos para poder usá-la como argumento
da transformação social. A íntima relação com aqueles que não
2
Em sua obra, Meihy (2002) identifica três perspectivas da história detém o código escrito é uma das marcas mais fortes da história
oral: a história oral de vida, a história oral temática e a tradição oral. oral” (MEIHY, 2002, p.96).

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os processos sociais, econômicos, culturais e tos sociais sem desconsiderar e/ou descaracteri-
políticos em sua universalidade. zar os processos políticos, culturais, sociais, sim-
Considerando esse cenário, a história bólicos, ideológicos e econômicos, pois somente
oral se torna um arcabouço para a apreensão assim torna-se exequível construir possibilidades
da realidade, que é de suma importância para o de ação. Por isso, para não cair em falsas abs-
Serviço Social, tendo em vista que essa profissão trações, é imprescindível atribuir historicidade aos
e área de conhecimento têm como uma de suas processos sociais, ou seja, partir do devir histórico
preocupações as experiências e histórias de das relações sociais, compreendendo o real como
vida da população demandatária dos serviços síntese de múltiplas determinações, permeadas
prestados pelos profissionais. Assim, se busca de rupturas e continuidades.
no cotidiano de trabalho do assistente social O que pode ser destacado é que, ao lon-
compreender a realidade e a temporalidade go do seu processo de maturação intelectual, o
em que os sujeitos estão situados. Pela Serviço Social tem contribuído de forma signi-
aproximação das histórias de vida é possível ficativa para a produção do conhecimento nas
articular experiências concretas e cotidianas áreas das Ciências Sociais e Humanas. Nesse
dos indivíduos sociais com questões genéricas sentido, tem buscado estratégias de enfrenta-
que envolvem as relações humanas e, assim, mento das refrações da questão social a partir
compreender as multifaces da questão social4. de uma fundamentação teórica, ética, política e
O campo investigativo e interventivo do metodológica consistente, diante do incentivo de
Serviço Social se circunscreve nas manifestações pesquisas na área e pelo vínculo orgânico entre
da questão social e nos seus desdobramentos investigação e intervenção.
na cena contemporânea. Nesse prisma, o Uma das características peculiares na pro-
Serviço Social tem adotado uma perspectiva de dução do conhecimento em Serviço Social é a
problematizar e considerar algumas discussões, centralidade do trabalho, tendo como referência
tais como o mundo do trabalho, as relações a perspectiva sócio-histórica, os sujeitos e suas
de gênero, os direitos humanos, a violência, relações sociais. A atuação profissional dos as-
as desigualdades, dentre outros assuntos sistentes sociais possui como epicentro as ações
que tangenciam a questão social. O debate direcionadas ao atendimento das refrações da
acerca dessas temáticas contribui para a questão social, que se expressam nas histórias
reflexão teórica, a realização de pesquisas, o de vida da população usuária dos serviços pres-
posicionamento ético-político e a qualificação tados pelas instituições nas quais o profissional
do trabalho profissional. está inserido como trabalhador assalariado.
Por isso, os assistentes sociais devem Assim, é importante considerar que os
se empenhar em compreender as dimensões sujeitos que constituem o público atendido pelos
singulares e universais do real, a partir das expe- profissionais de Serviço Social são dotados de va-
riências e vivências da população que demanda lores, experiências, singularidades, sentimentos,
seus serviços, para apreenderem as relações sonhos, projetos e expectativas e, por isso, há a
contraditórias e conflitantes entre capital e traba- necessidade de conhecê-los, buscando desvelar
lho no cerne de uma realidade complexa, palco o sentido que essa população atribui para sua
da luta de classes. realidade, sua vida, sua história e seu contexto.
Nesse aspecto, pensar a pesquisa e a pro- Por isso, se torna indispensável o conheci-
dução do conhecimento nas Ciências Humanas mento pelos profissionais dos diversos aspectos
e Sociais e, considerando as especificidades do que agudizam as manifestações da questão
Serviço Social, exige uma aproximação aos sujei- social e que circundam a vida da população,
seja no trabalho, nas relações familiares, nas
organizações sociais e políticas, nas expressões
4
Com base nas obras de Iamamoto (2003; 2008), a questão so- culturais, na ausência de direitos, nas carências
cial é resultante das desigualdades sociais, expressas na contra-
dição capital versus trabalho, no momento em que, tendo como socioeconômicas, na segregação territorial, no
cenário o século XIX, os trabalhadores passam a reivindicar direi- desmonte das políticas públicas, dentre outros
tos e sua legitimidade de classe, fazendo pressão junto ao bloco
dominante representado pelo Estado e burguesia.
elementos que perpassam a história da humani-
dade e são reflexos da sociabilidade burguesa,

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O enfoque Metodológico da História Oral na pesquisa em Serviço Social

que se sustenta na desigualdade social entre ção do conhecimento, a metodologia da história


classes antagônicas. oral não tem como prioridade enfatizar esse tipo
Sendo assim, uma das contribuições da de abordagem, porém, não o recusa como um
pesquisa para a área de Serviço Social é trazer aporte para o aperfeiçoamento das pesquisas.
à tona experiências e histórias de vida de sujeitos O Serviço Social, por atuar diretamente
individuais e coletivos, como forma de se apro- com sujeitos concretos, historicamente situados,
ximar da realidade e, assim, possibilitar ações dotados de valores, sentimentos, sonhos, proje-
críticas, criativas e propositivas que atendam aos tos, ações, não recusa a pesquisa quantitativa,
interesses efetivos da população. mas, pelo contrário, reconhece sua importância e
Para tanto, a profissão tem se apropriado contribuição para a análise da realidade. Porém,
de aportes teórico-metodológicos para decifrar a profissão também tem como primazia em suas
a realidade social, utilizando de abordagens pesquisas a abordagem qualitativa, por buscar
quantitativas e qualitativas para a apreensão da compreender a trama das relações sociais ca-
questão social. pitalistas, objetivando respostas aproximativas
A dimensão qualitativa ganhou terreno às satisfações e necessidades humanas. Sendo
nos últimos decênios nas Ciências Humanas e assim, a apropriação da história oral na pesqui-
Sociais, tendo em vista seu foco de abordagem sa em Serviço Social é relevante por contribuir
direcionado para as relações sociais. Na abor- diretamente com o propósito investigativo e in-
dagem qualitativa, terventivo da profissão no que tange à decifração
das múltiplas manifestações da questão social
[...] a realidade do sujeito é conhecida a partir
na contemporaneidade.
dos significados que por ele lhe são atribuí-
dos. Esse é fundamentalmente o motivo pelo
qual se privilegia a narrativa oral. Não se tra- Conclusão
ta, portanto, de uma pesquisa com um grande
número de sujeitos, pois é preciso aprofundar O Serviço Social, nas últimas décadas, tem
o conhecimento em relação àquele sujeito se consolidado como uma profissão investigativa
com o qual estamos dialogando. [...] No que e interventiva, pois busca, por meio do conhe-
se refere às pesquisas qualitativas, é indis- cimento acumulado e sistematizado, apreender
pensável ter presente que, muito mais do que os fundamentos da questão social no sentido de
descrever um objeto, buscam conhecer traje- contribuir com respostas às situações e necessi-
tórias de vida, experiências sociais dos sujei- dades concretas das demandas da população.
tos [...] (MARTINELLI, 1999, p.23-25). Em sua gênese, o Serviço Social brasileiro
É importante mencionar que a pesquisa incorporou conhecimentos oriundos da doutrina
qualitativa também considera a totalidade da social da Igreja, do pragmatismo, e sofreu fortes
vida social e sua abordagem não significa o influências do lastro positivista até o início da
menosprezo pela dimensão quantitativa. Afinal, segunda metade do século XX.
os dados quantitativos e estatísticos contribuem Somente em meados dos anos 1960 é
para o processo de construção do conhecimen- que a profissão passou a repensar suas bases
to. Sendo assim, conforme apresenta Minayo teóricas, metodológicas, ideológicas e políticas,
(2000), as pesquisas qualitativas e quantitativas originando o Movimento de Reconceituação
possuem natureza de complementaridade e não latino-americano da profissão que trouxe inúme-
de oposição. ros avanços para a categoria profissional. A partir
A pesquisa baseada na história oral enfati- desse Movimento, também denominado por Netto
za a dimensão qualitativa, pois lida com histórias, (2001) de Renovação, a profissão se aproxima
experiências e trajetórias de sujeitos singulares de outras matrizes teórico-metodológicas, como é
e coletivos. Por isso, parte da compreensão de o caso da tradição marxista e da fenomenologia.
seus relatos, depoimentos e narrativas para a Mas somente nos anos 1980 é que o Serviço
compreensão e leitura crítica da realidade social. Social rompe com suas bases tradicionais e inau-
Mesmo considerando a pesquisa quantitativa gura uma fase direcionada para a compreensão
como um elemento também necessário na produ- dialética da realidade, com respaldo na Teoria
Social de Marx.

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Reginaldo Guiraldelli

A partir dessa apropriação teórico- Diante do exposto, trazer as narrativas e


metodológica pelo Serviço Social e diante histórias de vida dos indivíduos sociais para a cena
das exigências atuais de enfrentamento da contemporânea torna-se um grande desafio no que
questão social em suas múltiplas dimensões é tange ao processo de produção do conhecimento
que emerge a necessidade da interlocução da e pesquisa, pois, de acordo com Thompson,
profissão com a história oral, visando conhecer
Aprender a ouvir é uma habilidade humana
de forma aproximativa as condições de vida e
fundamental: para aqueles que importam, a
trabalho dos indivíduos sociais que recorrem aos história oral está aí para nos ajudar a compre-
profissionais buscando respostas às situações ender melhor nossos passados e para criar
vivenciadas. memórias nacionais muito mais ricas, mas
A grande preocupação para que os assis- também para nos ajudar a construir um fu-
tentes sociais se apropriem desse procedimento turo melhor, mais amável, mais democrático.
metodológico de forma consistente, fundamenta- (2002, p.28).
da e comprometida com os preceitos do projeto
Com isso, se apropriar da história oral
ético-político profissional é não desconsiderar no
requer de pesquisadores e profissionais de di-
processo investigativo elementos basais como
versas áreas o desafio de conhecer o passado
a objetividade, a subjetividade, a singularidade,
para entender o presente e forjar o futuro. Para
a totalidade, a historicidade e as contradições
isso, é crucial a produção de conhecimentos,
presentes na vida social.
tanto para avançar no acúmulo e amadureci-
Frente ao explicitado, é importante ressal-
mento teórico, metodológico, ético e político,
tar que o intuito da metodologia da história oral
quanto para fundamentar e qualificar o exercício
não é buscar “verdades” absolutas e estanques,
profissional em busca de novas sínteses que
mas apresentar e revelar as experiências e per-
apreendam o movimento contraditório do real e
cepções dos sujeitos sociais com base em suas
contribuam efetivamente para a construção de
narrativas para uma maior aproximação com a
uma sociedade emancipada.
realidade circunscrita.
Ao enfatizar a necessidade dos aspectos
A história oral tem como centralidade a
críticos, reflexivos, investigativos e interventivos
contribuição do indivíduo social na construção
na formação e exercício profissional do assis-
do conhecimento, valorizando substancialmente
tente social, inúmeros desafios se apresentam
sua essência, ou seja, sua subjetividade, expe-
ao Serviço Social. E, para isso, é necessário
riências, visão de mundo e impressões sobre a
considerar que esse movimento de divisas,
realidade. Mesmo sendo indivíduos isolados, que
de rupturas, tensionamentos e de inquietudes
narram suas histórias singulares, são também
requer posturas densas, rigorosas, políticas e
representantes de um coletivo e de uma classe
eticamente comprometidas com o conhecimento
social. Por isso, por mais que os depoimentos
produzido no sentido da socialização, publiciza-
sejam individuais, eles refletem uma experiência
ção e função social da pesquisa.
e uma história coletiva.
As reflexões e inquietações apresentadas
A apropriação da história oral, em muitos
acerca da história oral como possibilidade meto-
casos, acontece, conforme mencionado por
dológica na pesquisa em Serviço Social e áreas
Meihy (2002, p.24), quando não há vestígio do-
afins não objetivam hierarquizar a produção de
cumental, ou estes se apresentam em variações
conhecimento, priorizando o acervo teórico e
distintas da história oficial ou mesmo quando se
documental existente ou enfatizando relatos dos
pretende elaborar outra versão da história.
sujeitos sociais, mas reconhecer a importância,
Quando a cultura oficial aborda os grupos tanto do aporte teórico-documental, quanto das
excluídos, colocando-os como tema de seus narrativas dos sujeitos singulares e coletivos para
estudos, o faz por via indireta, pelos docu- a compreensão da realidade social.
mentos escritos. Assim, essas análises são
sempre “sobre” eles e nunca “deles”. (MEIHY,
2002, p.31).

130 Emancipação, Ponta Grossa, 13, nºEspecial: 121-131, 2013. Disponível em <http://www.revistas2.uepg.br/index.php/emancipacao
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