Você está na página 1de 16

l'()[)IÊl{, F.F§'l`Al3O F. Ct'ÍlNTR()l..li SÚ("lf'\l.

| 3]

Todos exercem um controle social sobre os telespectadores, propagando


determinados valores morais, visões da sociedade, modos de compor~
tamento etc. r , 1 i

No vocabulário técnico da sociologia jurídica iii controle socio!


Lição 6 6 definido como “qualquer influência volitiva dominante, exercida
por via individual ou grupal sobre o comportamento de unidades
PODER, ESTADO individuais ou grupais, no sentido de manter-se uniformidade quanto
E CONTROLE SOCIAL a padrões sociais” (Souto e Souto. 1997, p. 177). Segundo uma
tlcfinição mais simples, “controle social é qualquer meio de levar as
pessoas a se comportarcm de forma socialmente aprovatla” (Vila
Hl..ll\-'lÁRlO: l. Controle social: l.l Conceito; l_2 Formz1_<_; de ,¿~,‹¡,¡¡¡¡-013 Nova, l999, p. 94).]
f~'‹u.'i:il': I.Íl.l fianciics l`ormais c inforinaisz l.2.2 Controle positivo c (Í) termo “controle social" possui na sociologia um signil`ir.:atlo
'l*`iz1.i1ll\"<iZ 1.2.3 Controle interno c externo - l.3 Finalidades do controle muito amplo, eis que indica todo o_ pr'‹or;ess‹_1 dc socializftação que orienta
social: l.3.l l'crspcctiva Iihcral«l`nncionalista; l.3.2 Perspectiva da o indivíduo. integrando-o aos valores e aos padrões de comportamento
lt'HI'i‹'I t'Hul`litivn 2. lioder c burocracia: 2.l Poder; 2.2 lštirrici-aging social. Por esta razão, o controle social esta intinutmcute relacionado L

2.2.! Delinição; 2.2.2 Burocracia e controle social. com os conceitos de “poder” e de “dominação política", que criam
determinada ordem social e integram os indivíduos nela. ¬-|':¬

/irsociologia juridica concentra o seu interesse no controle social


efetuado através do direito e trabalha com uma serie de distinções
i. ‹¬oN'rRot.E soc1AL (Soriano, 1997, p. 317), das quais indicamos quatro.
I.I (`.onceito Em primeiro lugar, há dois modos de exercício do controle social:
como instrumento de orientação e como meio defiscniiznção do coin-
portamento social da pessoa. Exemplos: o personagem da novela que
1-

(J controle socio! constitui um tema central da sociologia O termo


detalha as conseqüências desastrosas da droga e dalviolência objetiva i.
.›

a|1:i|'ct'c ein estudos sociológicos a finais do século XIX. Estes estudos


‹-xzuninaram os meios que aplica a sociedade para pressionar O indiV¡'_ orientar o público; os policiais que efetuam rondas noturnas no centro
da cidade fiscalizam as pessoas com relaçäo ao porte de substâncias
duo a adotar um comportamento conforme os valores sociais e dessa \

tóxicas ou de armas ilegais. Na maioria dos casos ci controle social é,


loi ma, garantir tuna convivencia pacífica. A sociologia do século XX
I I I I ^ O I, t

ao mesmo tempo, fiscalizador e orientador. '


‹l‹~dicou~sc ao exame dos elementos e das finalidades do controle social
Em segundo lugar, o controle social diferencia-se com relação aos
Definir o controle social é uma tarefa difícil. Tudo aquilo que destinatários. O controle social pode ser difuso (fiscalização do com»
inllucucia o comportamento dos membros da sociedade, pode ser en- portamento de todos) ou localizado (controle intenso dos grupos mar-
Ivndido como controle social. Alguém quer fazer “A” e uma outra pessoa ginalizâados ou rebeldes que apresentam um comportamento anõmico).1
nn instituição lhe incentiva ou lhe obriga a fazer Isto significa que
qualquer pessoa pode exercer um controle social sobre os demais, mesmo “l Cfr. Rehbinder. 2000, p. 43. Clark e Gibbs (l982, pf. 157) conceituam o
atraves da simples expressão de idéias (Soriano, l997, p. 317). controle social como “reação social a um comportarriento que é definido
lixcmploz quando a professora da uma aula, ela influencia os seus socialmente como desviante, seja porque exprime uma adaptação excessiva
alunos; quando os pais explicam o que é certo ou errado estão também as normas, seja porque as viola". .
‹~xc|'cvinl‹i uma forma de controle social. Pensemos também nas perso- ii' Os indivíduos e os grupos que atuam além das referências normativas de uma
determinada sociedade (“marginais") são inte.nsamen.te fiscalizados pelas
iiznwiis das novelas ou nos conhecidos apresentadores de televisão
I

.._l
;
PODER, F.S'l`Af.lO E (.`ONTR(ll..F. SUCIAI, [33
1 ,¡ -1 . ..¡

l lj Marvtmt . oi L.sortoioonx
. . .iualrncvt
I
denota-se a existência de meios de controle tanto foimais corno infor-
lim t‹¬rcciro lugar, o controle social diferencia-se com relação aos seus mais. O controle formal é realizado, principalmente, pelas autoridades
;u~_t~ntt-s (fim-zz¡i;ta‹1or'e.r)_ O controle pode derivar dos órgãos estatais ou do Estado. Este pressupõe um processo de institucionalização, como é
da .tm '.í‹'‹Ind‹› em geral (pressão exercida pela opinião pública, pela famí- o caso do controle dos comportamentos desviantes, efetuado pelo sis-
lia, pelo ambiente de trabalho). Nas sociedades modernas, o controle so- tema jurídico. ¡_
l
|
i
rial ri cxt-rritlo principalrncntc pelos aparelhos do poder estatal que O controle informal , ao cointrãrio, difuso, mutável e cspontãnco
(`D¬. .
nlr|t~tivain influenciar o comportamento das pessoas orientando-as aos ~|
e reali;»:a-se através da dinâmica que se desenvolve no âmbito de peque-
pa‹lt‹"ics pi'cestal.ielecidos através de normas jurídicas (controle institu- it
nos grupos sociais. Os meios de controle informal são propnios dc
i'to|ial|'.«';itlo). sociedades pequenas e lioniogencas (aldeias. tríl.ios), ondc não lui neces-
l lina ultima tlistinção rclcrc--se ao rifiiIn`r‹› de rrtifrtçriri. O controle so- sidade de criar instituições específicas para o controle de seus membros.
‹ tal |uuIt- operar ‹'1':`r'r:trini‹.-oiii? sobre os indivíduos ou in.a'i'retrmierzre sobre Porém, 0 controle informal também se manifesta nas sociedades moder- it.
ar. i list it nições sociais. O professor exerce um controle social direto sobre
us alunos, sendo que os órgãos do Ministério de Educação podem influir
nas. Neste contexto, este é exercido através da família, amigos, colegas
de trabalho, entre fiéis da mesma religiãoietc., que reprovam determi-
tl,
`|

indi u-.tainente sobre estes, alterando a estrutura ou o programa de ensino nados comportamentos e fazem recomendações. i 2 Iv

I |
tias t'.st?oltlS. - I 'r `.
. il

1.2.2 Controle posi`n`vo e negativo


I.Z lforinas de controle social
Dependendo do tipo de atuação, os rrim'r›.s~ rir' r-oiirmie podem scr
(lt-ontrolc social exerce-se cm todas as situações sociais, de formas rufgarz`vo.r ou pr›.ritiw.›.r. O controle negativo consiste na reprovação de
vai izulas tr imprevisíveis. O olhar rcprovantc do garçom a um cliente mal determinados comportamentos através da aplicação de sanções. A in- .[1
vvstirlo, a risada irônica e o comentário do professor ao corrigir a prova tensidade das sanções negativas é variada. Esta pode ser leve ou grave,
do aluno que confundiu a conduta de “inovação” com a conduta de “rebe- de caráter intimidador ou de coação. Exemplos: advertência dada ao
liíio" (teoria de Merten sobre aanomia) são expressões de controle soci- aluno pelo diretor da escola; condenação a 20 anos de reclusão por I
al. t ) mesmo acontece com a “bronca” levada pelo filho que volta ébrio ao prática de homicídio. As sanções negativas têm o efeito de. coação para
amanhecer para a casa dos pais, com a perseguição do assaltante por poli- .
o infrator e de intimidação para os demais.
ciais armados e com a espionagem informática que procura descobrir ter- O controle positivo consiste em premiar e incentivar o “bom compor-
turistas que preparam um ataque contra uma embaixada. O objetivo co- tamento" ou em persuadir os indivíduos, através de orientações e conse-
uunn 6 adaptar a conduta do indivíduo aos padrões de comportamento lhos (sanções positivas). Levando em consideração o critério da intensi-
tlununantcs. dade, esse controle pode ser gratificador, orientador ou itpersuasivo. Exem-
luunncrzunos aqui algumas formas típicas de controle social.

1.2./ .'›`or'tçr'íe.r_forrn.ai.r e informais t


plos: um prêmio ao melhor aluno da classe, que incentiva o piesmo e ser-
ve como exemplo aos demais (recompensa); os comunicados ao público
divulgados pelo governo através dos meios de comunicação em caso de
epidemia (orientação); as advertências sobre os perigos do consumo de
` ._-ø w-._- .

Sr~p,unrlo o grau de organização, os meios de controle social podem


ser çƒiirmnis ou informais. Nas sociedades desenvolvidas e complexas

anturitlatles do Estatlo (Ferrari, 1999, p. 173). Os comportamentos anômicos


situ t-onsitlcrzulos socialmente “patológicos" e constituem o objeto privilegia-
tabaco que se encontram nos maços de cigarro (persuasão).

1.2.3 Controle inferno e exrerrm


I

Desde pequenos aprendemos as regras sociais (“pode", “não pode”,


l
do de regulamentação e de aplicação de sanções, na tentativa de “normalizar” “deve”) através do relacionamento com outras pessoas, que as ensinam
a 'sncictlarle. I
I
4 .
1

_ _ :
l'OlÍ*l.iR. li$`l`A!`3lÍ`3 F. tÍ.“("ll'~l'l`R(`?l.lÊ §£}(.“`l/tl. 1:15
| rj r«‹1zu×rii.«~.i. oi-1 sor¬ioi.orit.ft .it.iizliur"a

crática de controle social limita o seu exercício em base a quatro prin-


‹~, no raso dc dcscuniprimento, aplicam sanções leves (exemplo: a mãe cípios (Soriano, I997, p. 318): t ¡
azlniocsta os filhos ou ameaça com um castigo). Através desta aprendi-
a) conseguir um bem-estar maior do. que existiria sem o uso do I
zagciii, ti pessoa “interioriza” as regras e os mecanismos de controle
controle social; .
social, sabendo como deve atuar em cada situação. Isto é o que se
tlvnoniina dc controle interno oii autodisciplina. b) limitação da intervenção ao estritamente nccesstirio (proporcio-
l
nalidade entre meio e objetivo); 'i
- 't ' riart c do controle social e efetuada de forma interna. O
maior
indivíduo é ao mesmo tempo objeto do controle e seu fiscalizador. c) criação deniocratica dos instrumentos de controle;
t`ii~utt~ da norma c da cvcntiialitladc de sanção, clc opta, cm geral, por dl respo_iisabilidade dos agentes dc controle (controle dos
zttznttnnizii' se aos requisitos sociais. Ctoiilirfcciitlo, por cxcniplo, as rc- controladores).
pias dc tiãtisito, o indivíduo não cstaciona no meio da rua por medo da
it-ação dos outros motoristas e da polícia. As raízes da “autodisciplina” 1.3.2 Pei'.i'¡.1er:ti`iz=a da rcr;›rt'ci crinflilfƒva
não sc encontram na livre vontade do indivíduo, mas sim no condici-
onamento realizado através de mecanismos de controle social (“socia- Segundo a teoria do conflito socizil, os instrumentos e os agentes do
Iização", isto é, aprendizado de regras e submissão a limites). controle induzem as pessoas a se comportarem de forma funcional ao
sistema. “O que se controla”'? “Quem é controlado"? “Para que se
O controle social e..rtz:.>rn‹› se efetua sobre os indivíduos através da atu-
controla”'? Estas são as perguntas formuladas pela teoria do conflito
:tçãti dos outros e objetiva restaurar a ordem. Isto acontece, sobretudo, social, que afirma que os detentores do poder direcionam o processo de
qnantlo falha o controle interno e o indivíduo transgride as nor'nas. O legislação e de aplicação do direito. '
tiontrolc externo é, na maior parte dos casos, repressivo: manifesta-se atra-
O sistenia atual é fundamentado na concentração do poder econô- l
ves da aplicação de sanções (exemplo: multa por excesso de velocidade).
mico e político. Objeto do controle é o comportamento que agride a
l'ort<.ni, este controle pode ser também preventivo, tendo a finalidade de
ordem estabelecida, sendo que, na maior parte dos casos, o controleté
tionfirinar o valor das normas sociais e de descobrir eventuais violações
exercido sobre as camadas mais carentes da população. l

(i-xcmplo: controle dos torcedores na entrada de um estádio).


Com relação à sua finalidade, o controle social visa favorecer os
interesses da minoria que detém o poder e a riqueza (capital, prestígio,
l..t l"inalidadcs do controle social
educação, bens de consumo). O controle social denota uma preocupação
em condicionar as pessoas para aceitarem a distribuição desigual dos
Dependendo da posição teórica adotada (funcionalista ou conflitiva)
recursos sociais, apresentando a ordem social como “justa” e intimidan-
potlrm scr feitas afirmações diferentes sobre a finalidade. Concentrare-
do queni a coloca em dúvida.
uius missa analise sobre o controle institucionalizrado, que é realizado
pelas autoridades do Estado. As regras sociais não exprimem uma "vontade geral” ou interesses
comuns de todos os cidadãos. Em' outras palavras, os adeptos da teoria
conflitiva não aceitam a idéia deque é possível realizar um controle
1.3.! Perspecri`vn li`bera[-fiincimialista
social democráticoe em favor da sociedade como um todo, tal como
sustentam os liberais. r
Nesta perspectiva, o controle social objetiva impor regras e padrões
de comportamento para preservar a coesão social perante comporta- Resumindo, as teorias do conflito partein da existencia de grupos
iiticiitos desviantes. O controle social diminui os conflitos e garante o sociais desiguais com interesses divergentes e consideram o controle
social institucionaliaado como meio de garantia das relações de poder.
convívio pacífico, exprimindo o interesse de todos por usufruir uma
Tais iiixlações são sgrripre ‹i.r.s£_niérrica.r. Er»-n outras palavras, constata-se
vitlgr social tirttgpzitlti. Nçgtr: caso, o taoiitrole ri r_:onsidei'ado legítimo e
aiii tieseqiiitítrit¬ie pertiiianeiiie entre as gri.iri‹is sociais. .iriexistiiirte o
zt‹~‹~t-ssâtiitti rizifzi ti ifitlâ pm.-nl CT *Q ,_.¡. i-ni.-› ht.”,o-¬\ -...ul
=tiätl'<1 f"l¬fã'í'É`iz* `i`tÊiÊ?=ttäÊíU;*li °1*`°~?¬"ã1% QUÊ
c¬._ (1 G5

.igual tratamento e a reciprocidade nas relações sociais.


.‹a~j:nn respeitadas determinadas regras. Uma política liberal e demo-

f -f~í=~---_ » “ ,
¡ rf, iviantixi.. na sociocooixi iuntoicx PODER, r.=.s'r/too F. contacts sriqiaté |37

2. l'()lÍ)ER E BUROCRAACIA dentro de um restaurante, que, porém, é menos intenso em relação ao po-
der de um policial, fardado e armado, que representa diretamente o poder
.luiito ao direito situam-se outros dois meios de controle social: o do Estado com a sua força (autoridade, possibilidade de aplicar sanções
poder c a burocracia. Direito, burocracia e poder relacionam-se entre si penais, conliecimento de técnicas de imposição de sua vontade). i
‹~ t-slão envolvidos na coniiini tarefa de controlar a sociedade. O poder Outro exemplo: o priineiro governo Fernando Henrique Cardoso
ti o siijt-ito-agctiite do controle. A burocracia c. o sistemajurídico são os criou urna moeda forte e combateu a inflação. Isto estabilizou a econo-
printripais meios utilizados pelo poder para exercer o ct ntrole nas so- mia e aumentou, em tim primeiro momento, o poder aquisitivo de varias
tii-‹l;ii*1t~s tiitiiliutizis. ciiiiiatlas da popiilação. (¬omo coiiscqii(`:iit.¬i:i, o governo tornou-se “po-
pnlai"`, gtiziiiiilti da aceitação da |io|iulação c coiiscgiiiiitlii :i iniposiçiio
-v

Z.I l"otlt'|'
de suas decisoes com poucas resistênciiis.
b) A relação de poder indica 'que existe uma chance de obediência,
ti) |iodcr esta intiniaineiite relacionado com o controle social. Exer- já que o inferior pode opor resistência e, se esta for eficaz, oq superior
tft-.r este controle significa deter um poder sobre as demais pessoas. Pode não alcançará suas finalidades. Por isto, o exercício jdo poder não pode
tratar-se de um poder muito “fraco” e limitado em um determinado ser mais do que uma probabilidade de imposição de mandamentos. As
espaço ou situação. Exeinplos: poder do árbitro sobre os jogadores de opiniões e os interesses dentro de uma sociedade sãosempre conflitivos
Intt-.liol; poder do zelador sobre os funcionários de um prédio. Aqui e criam a tendência à desobediência, mesmo que se trate de um pod|er
inti-icssa principalmente a forma mais concentrada do poder nas socie- extremamente forte, eficiente e legítimo. Assim sendo, quem exerce o
tlâulvs modernas, desenvolvidas ein paralelo ag consolidação do sistema poder muitas vezes necessita fazer concessões e mudar seus planos
diante da resistência de indivíduos ou grupos. `
t~apitalista. Estamos falando do poder do Estado, que é o principal I I .F i

:uu-iitt: de controle social. Exemplo: apos uma greve de funcionarios publicos, ci governo
Il

muitas vezes decide aceitar algumas das reivindicações salariais. Pre-



nr

r ) p‹›d‹=r r'onsi`sre na pr›.r.ribilidade de uma pessoa ou insinuíçao in


fere, assim, adotar a estratégia da concessão (ainda que parcial), já que
/limit-iiii' o rfoiriprirranieiito de outras pessoas. Segundo a definição clás- o confronto direto pode prejudicar a imagem do governo ante os gre-
~zi‹.-a do Weber, “poder significa toda probabilidade de impor a propria vistas e a população. A
voultulc ntuiia relação social, mesmo contra resistências” (Weber, 1991,
|i, llt' lgqq, `
A história indica que nunca exisiiu uni poder verdadeiramente
absoluto, que tenha conseguido, de modo efetivo e pleno, impor a sua
Nesta definição interessam dois elementos. vontade e fazer cumprir as suas ordens. Mesmo o poder do Estado, que
a) t ) poder cria uma relação de desigualdade entre aquele que impõe é o mais eficiente e legitimado nas sociedades modernas, não pode
.~.na vontade (superior) e aquele que se subinete à inesina (inferior). impedir casos de insubmissão. Exemplo: ocorrem milhões de infrações
t *onto já liavíamps afirmado, as relações de poder são assimétricas: as de trânsito (ou penais) a cada ano, que são, nesta perspectiva, casos de
iitiiitiigtiiis que obtém o superior são maiores daquelas obtidas pelo não cumprimento das ordens do poder estatal. O ,
iiil`t~rior. Por esta razão o poder foi definido como “qualquer relação O poder apresenta duas características: ele é plurifacetário e
~.o‹~ia| ittirziiliitlii por uma troca desigual” (Santos, 2000, p. 266). pluridimensional.
t_)uanto mais forte é o poder, mais contundentes serao os meios de O poder é pluríƒaeerário porque apresenta diversas formas de
i-oz~i‹,~ao qn‹¬ estão ã sua disposição; quanto mais forte é o consenso do manifestação: força, coação, influência, autoridade, manipulação. A
qual este pozzi, mais provável será o cumpriinento de suas ordens. força é o poder que se iinpõe e vence airesistência utilizando-se, se
l~`.x‹~niplt i: ti ordcui daria por um policial armado para que uma pessoa necessário, de violência física. Canção é o exercício do poder através
-.i- it-t iu- dt- uni estabelecimento, tem maior probabilidade de ser cumpri- datameaça de violência. Influência é o poder “pacífico”, que se vale da
«ln do qui- sv esta fosse dada por uni garçom. O garçom detém um poder persuasão. A autoridade pode ser definida como o poder aceito, porque
| ia rnawt mi. na socioeoont Juaíotca

0 visto conto razoável ou porque resulta da imposição de uma regra pré-


instittiítlzi. t) potlcr se manifesta também através da mainpitlação quan-
PODER. ESTADO E CONTROLE social-
1

t - o poder legal, fundamentado na validade de regras preestabelecidas


139
. T'
e racionais, que organizam um sistema de poder de forma estável,
zlo utiliza o engano para obter os seus objetivos.
respeitando determinadas formas; aqui não se obede,ce à pessoa, mas Ei
Ifinalincntt-, existem formas de manifestação do poder de caráter regra que determina um sistema de poder. ` t
zririi.-eai. l\l‹~ste caso, o poder se manifesta atraves do silêticiti e da
nitliltwrtiçzi. lãxeiiiplo: quando o Estado não toma as providências tie-
z~z-+;.s:ii'i:|s para efetuar os direitos sociais estabelecidos na Constituição
ou ‹p|;in‹lo não criiicctle um aumento de salario aos funcionarios em
,i'.|t~vt~. .»\ssiin scntlo. o "silt`fncio" exprime o poder político e econômico
Dependendo do período historico. estas formas de poder go';.ani de
um determinado grau de aceitação pela população, isto e. de legitimi¬
dade: não se exercem através do recurso ii violência, mas, em geral.
:itiaves do consenso da maioria da população. que rcconliccc o poder
Y
como legítimo. ` i
rpa- se revela niais forte que a reivindicação popular.
Cada forma de poder possui ti ma específica fonte de legitimidade, que
t) poder é ainda pinria'r':nerisíoriaI, ou seja, tem vários campos de
lhe oferece aceitação popular. No poder tradicional encontramos o pres-
atuação. Geralmente, identifica-se o poder com a capacidade de tomar
tígio de costumes multisseculares, que todos aceitam; no poder
tlccisões sobre questões públicas e de comandar a força pública. Este l

carismático, as virtudes pessoais que levam uma pessoa a apresentar-se l


6 o poder político. Existe também um poder econômico, atualmente i .

como superior a todos os outros; no poder legal, encontramos a força


exercido por aqueles que possuem meios de produção e conhecimentos
legitimadora das regras escritas, quegarantem estabilidade, previsibili-
tecnológicos. Isto lhes possibilita comprar a força de trabalho dos
dade e oferecem segurança aos demais. Esta terceira forma de poder ga-
demais e influenciar as decisões sobre a política econômica de um país.
nha sua legitimidade através da legalidade (lcgi`riniiEíride legal-i'rtc'ioiirtli).
lima outra forma de poder fundamenta-se em qualidades pessoais.
'l`rata-se do poder em-i.rfsriári'co, que se expressa através do exercício da Nas sociedades modernas o poder corresponde ao terceiro tipo
liderança de um indivíduo sobre os demais (chefes de religiões, de (poder legal), ou seja, adquire sua legitimidade através da legalidade.
sindicatos, de partidos políticos e de comunidades locais; “grandes O poder legítimo é aquele que detém os meios de coerção e que exerce
intel'ectuais°`; “estrelas” do espetáculo). Há também um poder exercido o comando, em conformidade com as regras jurídicas estabelecidas
em âmbitos estritamente privados, como na família, por parte dos pela constituição. Trata-se do Estado, que consegue ser respeitado não
homens em relação as crianças e as mulheres. Este poder é denominado sb pela força, mas também pelo consenso.
de “dominação masculina” ou “parri'arcado" e se manifesta através da Observa-se, atualmente, que outras formas de poder não possuem
desigualdade das relações entre os gêneros masculino e feminino. a força de coerção própria do Estado, nem conseguem ser legitirnadas.
No famoso estudo sobre “Os tipos de dominação", Weber distingue Exemplo: o pai que proíbe o filho maior de l8 anos de sair de casa,
tres formas de poder legítimozf* para puni-lo por uma “desobediência”, comete um delito (cárcere pri‹
vado, art. 148 do Código Penal). O Estado reconhece um poder aos pais |
I

- o poder tradicional, fundamentado em costumes antigos, que são |

consagrados através do tempo e impõem o dever de obediência aos em determinadas situações e com limites muito estreitos. Assim, por 1 l
exemplo, o novo Código Civil regula o “poder faiiiiliar", ao qual estão
chefes da comunidade (família, clã, feudo);
sujeitos os filhos menores (art. l.63O e ss.). A lei concede aos pai a I

- o poder mri'.rmán`co, fundamentado nas virtudes pessoais e quase possibilidade de dirigir a educação dos filhos e administrar os seus beiis,
1 r

soli|'ciuitiirais dc um indivíduo nilmirttdo por todos (rci¬giicrrciro, chefe podendo exigir dosuncsmos olicdiüncin, respeito c. os serviços proprios
ineontestado de uni partido político); - de sua idade e condição. Se os pais. superarcm os- limites do exercício
de tal poder (exemplo: “castigar imoderadamente 0 filho" -› art. 1.638
' * '\Vi._bfli. l99l, pp. Í39 ff
.1 -¡ z ,_
sobre a sopiologla d._i_ dominaçao , ver extensi¡›
Ii Í ' Í v Q. _ 1; ¡
do Cégligo Civil), poderão perder esta prerrogativa, estando sujeitos a
i «.if'|*' fifa *«\iz;.tzzz!s- Wiz as fã* 53-ti. ti* azflvr iiitasiif-»'fl entre fifaffv titzis-sit:
'§ * .¿,¢_¬¡ , `- : Í ( Í. 1 -.

-
.. . Í... -z 1'

Í
I I ¡., .E I fl;

Saiistira <"iiieus-iiiita5" st-*tz 136 fls cšãiligo !tsaa!)~ lata sisiiitisa tias
potit*.r)` tftic. indica todas as lo*ri"iitls de ptiuëi, e fíei'i'scFiÊiÍÊ itibiii'i.i'i.Êi§`i'Í-iiíi: iiiiibi-`
. I Ê :I os iliiõ detêm um poder proprio, mas que o Estado lhes concédë 'diii
ridadc) que indica o poder legítimo, aceito pela maioria dos ihdii/itií.it›`š.
poder limitado, podendo revoga-lo e aplicar sanções em caso de abuso.

_ -- - _ ~ -'Ir
_ _. Í n--L Ff\-_-¬“
l

tm itxrtt vu. on soctoioota iuatnttfzx Poor-.a. nsivxoo n cot×rraoi.n sotíft/ti... 141


t
t) caso do poder do Estado é diferente. Criando e aplicando um terino possui em geral um significado pejorativo, indicando o funcio-
sistt-.tna de normas jurídicas, o Estado concentra e monopoliza o poder namento defeituoso de uma organização por excesiso de formalidade. Í
lt-;›_ítimo. Isto significa que não regula somente o próprio poder, mas Na sociologia, a burocracia é estudada como um sistema de orga-
t:tniht'*tn o espaço de atuação de outros poderes sociais. Por exemplo, 0 nização de grandes grupos sociais e de atividades coletivas (exemplo:
patrão pode aplicar sanções disciplinares contra seus empregados so- Estado, grandes empresas), que objetiva a racionalização e a el`tcác¡ia.
tttvtitv na tncditla ein que estas sejam previstas por normas jurídicas Para a gestão de uma microempresa com três empregados evidente-
t-s|:ttnis." (faso contrario. as eventuaia sanções são ilegais e o empregado mente não é necessario criar um departamento de “recursos Iiumanos".
potlc pedir ajuda ao F.stado, através dc uma ação judicial. (Í) mcstno não se pode. tli'f.er de uma empresa corn três tnil etnpregatlos.
` _

l lina visão iiiovadora sobre as formas de poder encontra-se na obra As analises de autores como Weber, l\~”lcrton, Chinoy c Blau, que
do lilósofo francês Michel Foucault (1926-1984). O autor analisou o examinaratn os aspectos da burocracia, permitem formular uma série de
¡›o‹l‹›r ‹ii'.rct'plinar, que é exercido de forma difusa e fragmentada nas princípios, que caracterizam O seu funcionamento (Soriano, 1997, pp.
escolas, nas famílias, nas fábricas, nas prisões, nos hospitais. Foucault 327-328): ~ Q .
t-onsidera que a sociedade constitui-se num conglomerado de poderes a) Princípio da generalidade e da imparcialidaiie. Há regras c pro-
tli|`t~rt~ntt~s, que visam tnoldar o comportamento 'littmano através de ccditncntos preestabelecidos, que vinculam a todos. A aplicação destas
in"|t~rvençoes pontuais - tuas tiiuito efetivas - na vida das pessoas. regras independe da vontade das pessoas que as executam e dos desti-
'fodas estas formas de poder convergem a um mesmo ponto: educar natários.
o indivíduo a comportar--se de acordo com modelos sociais. Exemplo: Exemplo: um funcionario que falta ao traballio, sem justificativa
na escola c na empresa, o indivíduo não só aprende que o trabalho é uma legal, é submetido a um desconto salarial, mesmo se solicitar ao depar-
obrigação que enaltece o homem, mas também aprende a trabalfiar de tamento de “recursos humanos” que o perdoe pela sua falta. A empre-
nina determinada forma: executando tarefas diferenciadas, colaborando gada doméstica que falta um dia, porque se sentia muito cansada, ao
com os colegas, cumprindo os horários de trabalho etc. conversar com a patroa e explicar o seu caso, pode obter uma resposta
Trata-se de intervenções produtivas, que o autor denominou de diferente, já que a decisão depende da boa vontade da patroa e não de
“tecnologias do poder”. Ou seja, através do poder disciplinar o indivíduo um sistema de regras rígidas.
aprende a agir de determinadas formas e adquire determinados hábitos. b) Princípio da racionalidade. Manifesta-se na adequação da orga-
Foucault afirma que nosso comportamento é muito mais influenciado nização aos fins que persegue. '
pelos poderes disciplinares do que pelo poder legal exercido pelo Estado, c) Princípio da eficiência. Consiste na obtenção dos melhores resul-
atraves de proibições c sanções (Foucault, 1977, 1990 e 2001). tados através da aplicação de técnicas mais idõneas, por pesso'as com
preparo profissional.
2.2 Burocracia d) Princípio da impersonalidade. As pessoas concretas “não con-
tam”; o que vale são os cargos por elas ocupados. Os cargos sobrevivem
2.2. l Drzƒinição as pessoas e não podem ser cedidos pelos seus titulares.
Em base a tais princípios podemos dar uma definição: A biirocracia é
O termo btirocracia significa “poder de escritório". Bureau: escri-
a organização racional, formalizado e certrralizada de uma série de re-
tório (em francês) e krarein: deter um poder, dominar (em grego). O
cursos humanos e materiais, para obter a máxima eficácia, por meio de
"“ “O específico da atualidade é que a todas as demais associações ou pessoas
regras e procedimentos gerais de aplicação uriifai-rne. O fim principal da
individuais somente se atribui o direito de exercer coaçao na niedida em que burocracia é a eficiência. A racionalidade é intrínseca à burocracia e re-
o l*~`.s1:nlo o permita” (Weber, 1999, pp. 525-526). sulta da adequação da organização à consecução dos fins estabelecidos.
I

im
.t. i |

¡,|_t rvt/u~tttAt. oa so‹;¬tot.ootA JuRíotCA

”..* Ê Httt^‹›‹'r‹t‹'t'‹t rf rfritttrofe .ror:t`n1

t 1 |totIt~r do l-Estadomoderno exerce-se atraves de aparelhos burocrá-


ticos, ot'i_;at1i?.atlos de acordo com regras jurídicas. É que a burocracia
|›t-tutitv tt cctttt'alirf.:tç:'io política do poder moderno, isto é, o controle , Lição 7
z-It-tivo de um tct'ritorio C de urna populaçiio. Com os seus arquivos,
z~utttptttat|ot'es, saber técnico e com a possibilidade de aplicar sanções, CONTROLE SOCIAL E DIREITO
t= |¬ossívcI obter uma aplicacao efetiva das regras estabelecidas pelo
t\ttt|t'l 1-

A burocracia “conl1CCe. os cidadãos”. As autoridades do Estado SUMÁRIO: l. Características do controle social atraves do direito: l.l
.sztlictti se determinada pessoa é casada ou solteira, onde mora, onde Ameaça de coerção: l.l.l Diferenças com as sanções sociais; I.l.2
trabalha, quanto ganha, qual éç o seu nível de estudo, se possui patrimõ- Formas e graus de coerção no sistema jurídico - 1.2 Tipos de
uio, se tem antecedentes criminais, se viajou para o exterior etc. Como
t
sanções jurídicas - 2. A ótica fdncionalista do citntrole social através 1

l
todos somos obrigados a fornecer ao Estado dados importantes de nossa do direito - 3. Abordagem crítica do controle sodiai através do direito:
vida r-. :ttividadv (ccrti~d:'ío de nascimento, carteira de identidade, carteira TI Funções declaradas e fnttções Iatetttes; 3.2 í\legaçñt› da ideologia
de traliallto, pertnissflo para iniciar atividade econômica, declaração de litncionalista cont relação ao controle sociali 3.2.l ilegitimidade do
renda), a burocracia pode planejar várias intervenções na vida daspes- poder punitivo; 3.2.2 Inexistência da distinção entre Bem e Mal (“nor~
malidade do crime"); 3.2.3 Inexistência da citlpabilidade pessoal
soas e influenciar o seu comportamento.
(pluralismo cultural); 3.2.4 Impossibilidade de ressocialização; 3.2.5
/\ssim sendo, a orgartização'burocrática oferece a base para que o Desigualdade na aplicação. l.
direito possa desempenhar um papel de controle social sobre o compor- |l
'I
|z
tamento das pessoas. As sociedades modernas são tão complexas que lt
It
tu
o direito não poderia ser aplicado sem a existência de uma rede de
informações administrada pelo Estado. Pensem nas possibilidades de O direito é a forma específica de controle social nas sociedades
r-.outrole dc uma polícia, que possui um sistema de cadastramento ele- complexas. Trata-se de um Controlefm-mal, determinado por normas de
tr‹“`utico das iinpressões digitais da população. Esta pode facilmente conduta, que apresentam três características. Estas normas säo:
conferir as intpressões digitais deixadas por assaltantes no local do a) explícitas, indicando à população de forma exata e clara aqpilo iv
Critnc. Em outras palavras, a organização burocrática torna-se uma t.

que não deve fazer; r


importante condição de eficácia do direito no Estado moderno, permi- t

tindo um controle social massivo da população. b) protegidas pelo uso de sanções; . tlI

c) interpretadas e aplicadas por agentes oficiais.


Para ir mais longe -__Í.-+-

._í_ ,_

Campilongo, 1997; Clarke Gibbs, 1982; Cotterrell, 1991, pp. 93 e


1. CARACTERÍSTICAS Do Co1\rrRot.E soC1AL ATRAVÉS no ll.
ss.; Faria, l984,pp.3l ess., 104ess.;Ferrarl, l983,pp.448ess.;Luhmann,
omarro .l :
t .
1983; Macionis e Plummer, 1997, pp. l90e ss.; Pocar, 2001, pp. 103 e ss.; ,l
1.1 Ameaça de coerção litltl
Raiseçr, I999, pp. e ss.; Santos, 2000, pp. 264 Scuro Prieto, 2000, it
t :ÊÍ 1 Uta ei tra353 Gir. ta aspsettiea
.'33 CÍÃ- as EEE' » 9.. '
EIS. '-'É' ,_ _ .Iii _iat~sírši‹zas e tata de sstftet~it
l9f)7, pp. i8l e ss., Weber, l99l e i999;`iW`oiiäiflei', {`.:'§l'š-‹-:-

associadas à aplicação de sanções em Caso de não cumprimento.sEm


CornparaçI:'to com outros sistemas de normas sociais, os sistemasjurídi-

- to 1..
_ ,.__z-z_-
|.¡,¡ rvtAt×tttAt. ou soCtot-ootA soctorooa CoN"rRoL.E soCtAL E otatarro 145

ou -Í

vt ts Cttracterizatn-se pela formalização da ameaça de coerçao, através do dívida, este nao poderá posteriormente pleitear a delvoluçao da quantia
vstzthelecitnento de sanções concretas, de procedimentos e instituições paga (art. 814 do novo Código Civil). `
que são competentes para a sua aplicação. - Normas de caráter promocionai. São normas que prevêem um
incentivo no caso de seu cumprimento, mas não existe aiobrigação de
Í. I. I l)t_`f‹'r'‹*ttç'rt.r font ns' .rrmçõrfs .r0r?t`m`.r obedece-las c, muito menos a possibilidade de coerção. Exemplo: urna
lei pode prever que empresas que contratam empregados corn deficiên-
t_)ttt~nt ignora o anivc.rsr'irio de um irmão, pode sofrer sanções de cias físicas ctn porcentagem superior a 5% dos futtcioníirios, usulruam
t àttàitvt stt‹'i;tl. l*ot'‹.itn. estas dependem de uma decisão da pessoa “ofen- tlc.scotttos no_ imposto de renda. ç
tIt‹|:t", tttt seja. não são pt'ccst:tltclecidas. O irmão pode ficar magoado -vw

- Normas de direito constitucional, que nao prevêem a possibilida-


t- optar' pela ruptura da relação, mas pode, também, aceitar as nossas
de de coação no caso de não cumprimento, sendo as sanções de caráter
tlt~scttl|¬›as ou simplesmente não reagir.
JI-I
t político. Exemplo: o art. 3.°, inc. III, da Constituição Federal, prevê,
As sanções informais sao, em todo caso, diferentes daquelas jurí- como um dos objetivos fundamentais da Repúbliczifederativa do Bra-
tlivzts. (0) sistemajurídico estabelece uma sanção determinada, um órgão sil, a erradicação da pobreza e da marginalização. Seios governantes não
ttttttpr'Icntc, um procedimento de aplicação. Neste âmbito é também se empenham por fazer cumprir a norma constitucional, não serão
ptvvistzt uma serie de garantias para o possível infrator da norma, que submetidos a uma sanção formal. Porém, podem sofrer críticas por parte
ttIi¡t°tivztt protegê-lo da arbitrariedade. Tais garantias são inexistentes no da oposição e correrem o risco de não serem reeleitosz Í
t-tttstt das sanções informais. Em geral, a “juridificação” ou “juridiciza-
- Normas de direito internacional que, em geral, não são associadas
t;:to“' da coerção estatal é ausente em outros sistemas de controle social 'lí

à coação porque não existe um poder público internacional que possa


t|t‹-riso no caso de quem não paga os impostos e de quem não dá uma
aplicar sanções. O cumprimento de tais normas estãi sujeito à discriçãd
t-t ttttt'ihttiç:*io à Igreja) ou encontra-se com uma intensidade muito menor
dos Estados e depende também das medidas de pressão política, que
tt-twtttplo: o estatuto de um clube esportivo).`
pode exercer a comunidade internacional sobre um determinado Estado.
Exemplos: ruptura das relações diplomáticas, embargo econômico. As
/ I .* Hftrntns r* ,rztrntršè de ‹¬or>r_çft'n no .rt`.rremn _ƒtirt'dírfo normas coercitivas de direito internacional são excepcionais e muito __

raramente aplicadas. Exemplos: sançõés militares por parte do Conse- l


Normas de organização não associadas a sanções. Trata-se de lho de Segurança da Organização das Nações Unidas, como no caso do i l
I I
uortttas que organizam a aplicação de outras (normas processuais). Iraque em 1990; condenações por crimes de guerra por tribunais penais t
i ,t
I-Í.~u~tnp|o: o conjunto de normas que regula a organização de um tribunal internacionais, como no caso da guerra da Bósnia. t'
i-l
I

t|ttr~. :tplicaräi as leis penais.t


t
I

_?
l

_t
'1
II-I lr

Normas que estabelecem uma obrigação sem impor uma sançao. 1.2 Tipos de sanções jurídicas '
I-1xtf.tttplos: o aboito na Alemanha que, segundo a jurisprudência do
'I`tiltttnal Constitucional Federal, não é permitido pelo direito, mas, se
ptttticftttlo em determinadas condições, não é punido penalmente (Arzt
t~ Wi-her, 1999, pp. I 16-I 17). As dívidas de jogo que são consideradas
O elemento principal de exercício do controle social através do
direito é a sanção. A sanção jurídica define-se como uma conseqüência,
it
I
ztq 1
tj
_

positiva ou negativa, que decorre do cumprimento ou não cumprimento l t


rutttu “ohrigações naturais". Não se pode processar uma pessoa para
de urna norma jurídica.
Itnçztt' o pagamento, porém se o devedor pagar espontaneamente a
A definição da sanção indica que a distinção principal refere-se ao
.t
"* (ls tt~rtttt›s signilicattt “tornar algo jurídico", submeter um setor da vida carater po.rt'tt'¬t-to ou negativo da tncsma. As sanções positivas (ou tt,
promocionais) oferecem uma vantagem ou um prêmio a quem curnpre _ I
.-.twittl tt normas _ittrí‹,licas. regulamentando determinadas atividades através
titt t|iIt'iItt. a norma. Exemplo: os universitários com o melhor desempenho no
í
t"
t
te t
CONTROLE SOCIAL E DIREITO |4"}
t.t‹, tu/\t×tt.tAt. na soCtoLootA soCtot.,ooA
I Í r'
I I

_;
I

"l'rovfto" ganltzpn uma bolsa de estudos de pós-graduação. Objetivo da


::_
tempo, devem aplicar as sanções em questão a todos os atos de trans-
gressão da norma penal, sem nenhuma discriminação de pessoas.
not tua t.< incettttvar os_estudant.es a melhorarem seu desempenho. -tuu-,pu
_-r-1
't
I›
I

As sançoes negativas (ou repressivas) impoem uma conseqüência b) Proporct`onalr`dade. A gravidade da sanção deve corresponder ã
gravidade da infração. O problema da proporcionalidade das sanções .l_t
F
«It-tslztvoravel (pena). no caso de descumprimento de tuna norma. Consis- ' \
-‹¬.

-2.'

tt-tn ua privação ou restrição de um direito do ittfrator (liberdade de esta na fixação de um qttnntttm dc sanção: quão inteÍnsa deve ser a sanção
Iovtttttttçiitt, Iiltetdatle de profissão, sanção pccut1itit'ia). para cada violação do direito? Deve tratar-se de pena privativa de
lil¬ti¬trI:'trle'? Qual a sua dttraçíio'? suficiente uma tnttIta'? Qual qttatttia
-\'t t-;:tttt¿t`íit*s ttt'_s',:ttiv:ts tlivitlctn-se em duas ratc_gorias: pt'‹›t'rvttt`t'n.r _u. -4-_

tlevt' ser |'t;t_tg_;t`?


t t‹'¡›.uttt‹itt`tt.t. As s:tttt¿t"it:s ptt~vt'tttiv;tts oltjclivttttt evitar a violaçíio dc Ii
- t
ttot tuas. aplicando a determinados indivíduos formas de controle rela- '- t. A intensidade da sanção ti estabelecida em função de tuttitos crite- ti
st'
`
rios (natureza do ato, circunstãncias, idade e situação social do infrator)
.`

tiottudas com conseqiiências negativas. O Estado de direito não aceita, . _

‹-tu geral, as sanções preventivas. Várias medidas de fiscalização po- e muda em função dos valores sociais e da política de um determinado II
I
t

tlr-ttt, porém, ser consideradas como preventivas, em vista do efeito período e país (exemplo: nas últimas décadas de I-se um aumentodas ,t
t
I:

pr:'ttieo das mesmas (medo, incômodo). Exemplo: a blitz da polícia penas dos delitos ambientais e econômicos e forffln descriminalizãdos II I I
qtte submete os motoristas ou os pedestres a controles de identidade,
revistas etc. 'I J
alguns delitos contra os costumes). O problema diwmplica-se devido it
dificuldade de comparar Comportatnentos desviantes com sanções de | .I
I
privação de liberdade ou pecuniárias (exemplo: quantos meses de prisão
As sanções reparatorias aplicam-se contra o autor de um dano,
|ttov‹te:t‹l‹› pela violação de normas jurídicas. (`)bjetivam restaurar, na
I ou quanto dinheiro .é proporcional a uma difamação?). I
I, t
It*
tttt-dida do possível, a situação anterior ou, pelo tnenos, restabelecer a
.!,,
l..
c) ltn¡mt'r_'inIt`dade. Para garantir a imparcialidade, as vítimas não
ottlem lesada e a confiança dos indivíduos no sistema jurídico. As ._
H
Í
podem decidir acerca da aplicação de sanções penais. Os sistemas
sztttções reparatõrias decorrem do princípio-de que uma pessoa pode ser modernos não admitem a vingança privada (fazer justiça pelas proprias 3*-Zi-
A-E5

I pttuida somente após a comprovação (via processo) da comissão de um


- _

.
›.

¡
7
mãos). A competência sancionatória pertence aos órgãos do Estado e ~,~
:tto eontrãrio ao direito. As sanções reparatórias podem =er divididas em 4t pirincipalmente aos tribunais. Muitas normas do Código de Processo
t tt(~s categorias:
I

Penal estabelecem garantias da imparcialidade do juízo. Um exemplo


.t
t
t '
tt
I'
,
tl
t
|
l A Cr:›nstrangirr1entr.t para forçar o cumprimento de uma obrigação. ._ .i-
I
é o art. 98 que regulamenta a suspeição (caso em que a partepodc It
t I
I

tt ~,
_' I..

-t
recusar o juiz).
I Iixemploz pagar uma dívida através da execução de uma sentença tran-
_ -'I

u -
t'
`.
I
II
I

sitada em julgado. 'I¬t


I i

2. AÓTICA FUNCIONALISTA Do Couraoca soCrALA'raA- |l


- Condenação ao ressarcimento de um dano através do pagamento
t em dinheiro. Exemplo: indenização dos parentes da vítima de umaci-
vas no DIREITO .A-'

t
tt

dente automobilístico. t
I Osjuristas-sociólogos de formação funcionalista consideram que o Il
I - imposição de uma obrigação que objetiva castigar e ressocializar I
sistema jurídico realiza o controle social 'em base às seguintes caracte-
o desviante e tnostrar a comunidade a eficácia do sistema de Controle .Í_ç¬
l social. Este ti o caso das penas pecuniárias que heneficiam o Estado e '
I .I
ti rísticas (cfr. Soriano, I997, pp. 339 e ss.). '
I a) Certeza. O direito possui um ,alto grau de certeza na fixação dos
_ ¡,
I

das condenações penais à prisão ou à prestação de serviços não remu- cj ‹ .'


.
_ $-
trtodelps de cor;-gj~)prtat11ent'Q, Expressgzse att:av駧 de uma linguagem
tttvrçpvltts a cormtttidrtde. sanções; t'eparat,_r,'si_t_-i,:,à1s penais são as mrgis \. :_
fi
,z
-_,. _:'fi“¡t t;:ot-tlteeii.lét por todos levaria .fin ea-rtitt1r:itt«1eti!ti da tiriptriatçãrif A
t=.t-trust. A sita ztt.t!it_»:t:tt.¿-'šittt tlsvtt tra;ttzltê-ti: t¬ttittei_títit:ts r.1-trt-.tis ¿.I`›'.2 :L1-¢_q aí
sat da ç_
I ^¡
t
cerleztt do direito é obtida at-ravds da sua clã'lrer.rt e da sua pttbIicIrla‹.Ie.
t-ottsti|tti‹;:`lo e da legislação penal dos Estados tnoderttos.
I
1--_›-

:tl !.‹‹_r;‹tIt'‹t'n‹t'‹+. As at.ttoridai;les do Estado podem aplicar somente as "¢-'.;'ví


' b) Exígíbiíídade. O direito é “exigível", porque existem órgãos dc __.¿__.

_.

poder, regimes sancionatõrios e instituições que velatn pelo seu res- .jt I
I ~.ttttt,o‹~=t pt-ttttis previstas ein lei anterior ao fato delitivo. Ao mesmo _ L
"':¬.-:'‹
1.

t
P'
1
A , I

L"Ç;.;-%«_=__
I

MH t×»n\r×nmt. ou st›r:|‹:›t.or:1z~. sot'ftt›t.oof\


't
I Â
con'raot.a social. tt otar=.rro 149
I

t ¡
J
l

peito, empregando, se necessário, coação e violência física contra os l


s plo: em diversos países foi abolida a norma que inpriminava a prosti-
infratores. .
ll

tuição. Existem também âmbitos pouco “normatiza‹tlos”, como a esfera


c) Gerzeralidade. O direito cria modelos gerais de comportamento, privada da vida humana. Um exemplo recente de desregulamentação da
já que a norma jurídica afeta questões importantes que originam con- esfera econômica constitui a política neoliberal adotada em muitos
Ilitos na sorit-tliulc. Os compor!amentos regulados pelas normas obri- países: as regras jurídicas relativas ao mercado de trabalho e it concqr-
?'-“*1._.71'"_.7.'_T:.'*-"_z,z-'-~___x.:.-_
'_.-1-
--.. .-1,.

pnnt ii todos os que se incluem em situações-tipo (quem rouba será rêncin são sensivelmente rcdu?.'.i'das, permitindo que os agentes econíi-
punido independentemente de sua condição social, profissão, sexo etc.). micos mais fortes imponham sua vontade, sem limitações jurídicas.
.-\ _i{c|.tct'ztlitl;ulc do direito c' típica do Estado liberal. l`f..sta tiltinia tendência e, porem, secundziria se a compararmos com
tl) Gzmrtntitt do bem tftmztmz. O direito constitui um sistema de o processo de expansão do direito. Exemplos: a legislação sobre zt
controle social que exprime os valores de uma sociedade. (A sua fina- informática (proteção de dados pessoais e da propriedade intelectual);
lidade é garantir tais valores, aplicando sanções contra aqueles que a legislação de proteção dos direitos e interesses difusos.
lesionam os direitos dos indivíduos ou os bens coletivos. r
i 'l'*|

i Í) Umformídade. Corno já indicamos anteriorniente, o direito mo-


Q

I
e) Expansão. As esferas do comportamento humano que não são f

É i
derno funciona como instrumento de controle social em base a regras
lreguladas pelo direito são cada vez mais restritasl. Trata-se do referido u uniformes, constituindo um sistema que objetiva submeter todos os
fenômeno da jt.tr'idt`_fir_f‹tçãr› ou _jurr'dz`cízc2ção. Hoje é difícil imaginar membros da sociedade fãs mesmas regras. A tendência de uniformidade
urna atividade humana não regulada pelo direito. Nascimento, casamen- não se detecta somente no âmbito de um Estado, mas também em nível
I _z
to, estudo, traballio. morte e tantas outras situações são reguladas por X..
_ '..z
mundial. Trata-se do fenômeno de aculturação jurídica (Lição 4, 3.4.2).
_!
normas jurídicas. Falar em público é um direito garantido pela Consti- .: '
Apos a Segunda Guerra Mundial, a forma mais comum de acultnração
'._ E il

tuição (livre manifestação do pensamento). Comprar uma caixinha de l

-:.
-,
tem sido a transferência dos ordenamentos jurídicos dos países mais
_
,.
fósforos é um ato jurídico (contrato), baseado em acordo recíproco e Í'._ ru
'_: desenvolvidos para os países em desenvolvimento.
_ ,z

implicando obrigações das duas partes, como a responsabilidade do _:


1-
-_- I
_., ,
.
Rehbinder (2000, pp. 94 e ss.) situa a tendência de uniformização
. ._ 1

vendedor e/ou do produtor por um acidente causado por defeitos de do direito nos planos espacial, objetivo e subjetivo. Soriano (1997, pp.
fabricação e a obrigação do cliente de pagar o preço acordado. ›
I.

341-342) considera que deve ser acrescido a esta lista o plano temporal.
Esta onipresença do direito não é percebida facilmente na vida l
x

- Na ordem espacial, o direito uniformiza-se através do processo


cotidiana. Na maior parte dos casos, as relações se desenvolvem sem político de unificação de um territóiio. Em outras palavras, é a partir do
f
conflitos, não sendo necessário recorrer ao sistema judicial. Mesmo surgimento dos primeiros Estados nacionais, já no século.XVlII, que
quando surgem sérias divergências de interesse, os envolvidos optam 't
L
desponta urna preocupação por unificar as regras em vigor em cada
freqüentemente por vias de solução extrajuridicas (negociação direta, 1 1
nação. O “pluralismo jurídico”, que vigorava nos séculos passados, é
mediação de terceiro, e até uso de violência). substituído por um único direito estatal (ver Lição 5, 5). Um recente
Isto não signif1ca,porém, que o sistemajurídico não esteja presente. fator de uniformização do direito é a multiplicação dos 'acordos inter-
Í

Em primeiro lugar, suas normas orientam o comportamento dos indi- l


nacionais, decorrentes da intensificação dasrelações comerciais inter-'
víduos, mesmo quando estes não invocam o direito. Em segundo lugar, f
uz

ii' If
.
nacionais. Finalmente, várias organizações trabalham hoje com o intui-
ha sempre a possibilidade de recorrer às instituições jurídicas em caso _?

-.z-vn
to de uniformizar os direitos nacionais, sobretudo com relação ao direito
de conflito. Por estas razões, a onipresença do direito nas nossas socie- J ,ze
civil, comercial e trabalhista. 9
1'

dades é um fato real. |


_|_._
'|_¡ - Na ordem objetiva, as constituições dos Estados estabelecem
H' ta

Assim mesmo, a expansão do direito não segue uma linha contínua ü._. .__,._
l_
_
-
Ill›
›,.
h princípios similarese as diferenças situam-se na legislação e na juris-
51,5
de apropriação da realidade social. O direito também deixa de regular 1 _
I
z
prudência. Constata-se também a tendência de criar institutos jurídi-
algtins campos que antes estavam submetidos ao seu controle.. Exem- . -. ¬_-.,
cos uniformizados. Este é o caso dos “contratos de massa” ou “con-
\\\\\\\\
,_.,_., :.'1-
.-.-:. ¬.¬

.
I ._
ú

1-' T

F0 7 -%r$fi. _ ..-.f... ----7 .' *


-

tt' _
‹'oi×rt¬t‹1oi.i=_ social. F. |*›ttu=.n'o ¡5¡
|'¡,{) l__\1t\NllAl.' l`Jl`i F§O(`l{`ll.UÍ`il/\ SO(`lí)l.l')G/'\ t
.il '
.ls ¡¡

tratos de adesão”, que não permitem negociações pessoais. Fl consu- .I


-l. '~_
r:
do através do direito exerce funções latentes, difet'entes das suas funções
midor simplesmente assina um contrato já preparado para a prestação declaradas e criticam o funcionalismo por adotar idéias pro¬lfenie.ntes do
de serviços como eletricidade, telecomunicações, empréstimos, segu- \.'._..`_
'~"1z:-_=.-_-'Í
,_ ¬1:7'.'-az'-:LIJ ¬ía.
_-..-_._ .
“senso comum”. Estas idéias são expressas pela maioria das pessoais,
ros e transportes. i _ -_ 1-] porém não correspondem aos dados de uma analise cienti'f1ca_ Trata-se
'l t
'zl
«-__',-' de opiniões que possuem um carater ideológico e que servem para
Na ordem .o_tb;'etiva, os ordenamentos jurídicos modernos procla- '= tj
 it
legitimar o controle social através do direito, ocultando assim a sua
mznn o princípio da igualdadejurídica. Assim são abolidas as diferenças verdadeira função social.
de srnrits: e hierarquias conhecidas em outras épocas, onde o direito
‹~st:tli‹.~lecia privilégios dc grupos de pessoas. Sem dúvida, não existe 3.1 Funçíites'tlcclaradas e ltlttçíics latentes
Iiojv tinta ignaltilzitlc ntntcrial, porétn todos possuem os mesmos direitos
t- :is mcsntas tiluigaçõtrs. Para entender a abordagem dos teóricos do conflito devemos levar
em consideração a distinção entre funções declaradças (ou manifestas)
.v
L
- Na ordem temporal, o fenômeno da aculturaçãojurídica apresenta _ t' l

t ”t“¡t
,. i.

uma particularidade: os países em desenvolvimento adotam rapidamen- _ .. e funções latentes (ou reais) de uma instituição sociaç. Esta distinção foi
feita por Merten, que desenvolveu uma visão dttalidfa das funções que
_ _¡

te o direito ocidental, sem passar por etapas seculares de desenvolvi- *_'10'


_
-z_'
-__-_ É'L'
.fl

mento, tal como aconteceu no direito europeu (ver Lição l). Esta trans-
_
-' .Y
~

cumprem as varias instituições no âmbito de nrn sistema social (l970,


lorntação repentina causa grandes conflitos entre a cultura tradicional pp. 120 e ss_). t

v o novo sisterna jurídico. Tais conflitos são exprimidos na recente l


Segundo este autor, aƒnnção declarada de uma instituição consiste
tliscttssão sobre a universalidade dos direitos humanos: devem todos os F
t
nos efeitos que causa o seu funcionamento para o sistema social, sempre
il

países garantir os mesmos direitos humanos, que são uma invenção da ..‹ que tais efeitos sejam desejados e admitidos por aqueles que participam
á
cultura ocidental (universalismo)'? Ou cada país possui o direito de do sistema. ¡ J
t.
É

preservar as suas tradições, mesmo quando estas se chocam com os .Í


Exemplo: cria-se em uma cidade, que apresenta graves problemas de
i 5- 1.
direitos humanos (particu1arismo)'? t . r.
._.ri. -.¬-.-I- poluição do ar, um hospital especializado em doenças do sistema respi-
..
-u

Exemplo recente de aculturação jurídica rápida: após a derrocada _ u.


ratório. A função manifesta do hospital consiste em curar as referidas
dos regimes comunistas, o direito inspirado nos princípios socialistas
un.._ _-_
4 .
'T
_.__... ‹-....__
-FE'.fl'i`z_¡Il¬
J.
.: doenças de modo eficiente e melhorar a qualidade de vida dos pacientes.
Ioi abandonado; os novos dirigentes dos países da Europa do Leste ~.J_..

VL
.‹
-.-z.- ._,

.'._.¡rt
.au-
A população é consciente desta finalidade e deseja que o hospital possa 'il I I

t-onvidaram juristas da Europa Ocidental e, em poucos anos, foram cumpri-la. Se o funcionamento do hospital repercutit na melhoria da l t
ij'

visitados sistemas jurídicos completos, conforme as necessidades de um saúde pública, diremos que cumpriu a sua função manifesta. t ti

.~.isn~|na capitalista baseado na livre concorrência. Muitas vezes as instituições sociais cumprem funções diferentes
tt
daquelas declaradas. Trata-se dasfwições latentes, que ihfluem sobre o lt

'
|
1. Atsoanxcam catrtcâ Do coN'rRoLE social. ATRA-
V-
'L
1-L_.`I;,Í" _ _-_-=
f
1
5'
1'`z-~`_¬*-~Ê'-_"z' :. =-:-;=ø- .›-zr.âú¬n___..s-.¬ø.zv.z~r'-tvr.-*___
-\
'?
_'.,
sistema social, sem corresponder à vontade das pessoas que, muitas j
_. ¿_
vns no DIREITO _'
_ _,'
\
vezes, nem sequer as percebem. .I
I

l
¡ _
lt.l'_| i¡
Exemplo: a criação deste hospital com a manifesta função de me-
.' _-__

Os juristas-sociólogos que adotam a abordagem do conflito social .a .


__:' -:_
I
' lhorar a saúde da gti;-ptilaçao pode também cumprir duas funções laten-
t~on‹~or‹latn |i;ucirtlii1t:iite, com a tle_set*ição fttpciottt1list_:t do papel do , .-¡| z
§I._'_ t
sf. .
tes. printeirti läqttr, o atep¿lçi_tt1ento njjgqtttttlri tlnpliitiirá o i it-ppacto da
| | .__-
z'~*_--

~!ttt--tt* to <-tfftttt-alt fiat.t.tt. E


1 `* ` _ _

s-
I
_~!'

ztw *
az
_

_
_

_
it
as gittê
uz
if
na-Í
É -Ê

a.
zt' 'z
Í

I
I

_:
L-' tasftsrtê.ât tl?
[I

f
À H

?{`*'¬r
E
.I

.
pru..

932:. CIT. C1.. (Ta


zf '_
--.mf .
z. 'rzt
E
_¡:
'¡,:_ 'Iz -'Í'
~.¬ -'-'un- J
«I
›?*:l_*~‹y-by
.-D '.flláífl \`i'Í£°4"3
*tv
' |._`¡¡vHH-›. -1 l»*f"f-`-3`fH_'‹nv r-.‹¡.`.¡ PMÀJ
F'-I-nr 1-..^. '°¬-M-um ‹.‹-1r›-mi |?.'-‹h\I- ~`*_i I

.~ס›zttistt‹t tz «tc ttt~tt-termizzt v-("I- ›'I*-1*-:CZE'


_I CL. e direi-te naõ div'eiigs.iet __ .- -_\,
ri " 1'
. 1 l
,oluindo a cidade, sem muitas críticas. Talvez se o hospital não fosse
‹¬pi|iii'›‹~s entre os esttnliosos de ambas as abordagens. criado, a população poderia protestar e conseguir a proibição de ativi-
-4-
.Fi .¡' dades poluidoras resolvendo o problema na sua raiz! Em segundo lugar,
t ts tt~‹"n icos do conflito discordam, porém, de forma radical, no que _
.'
'i
"

a criação deste hospital pode estar inserida em uma estratégia política,


tl
‹.‹- wtt-|t~':`ts |`in:tlidades do controle. Consideram que o controle realiza- J- i .I
.| 1.

lê.._|
"..t_
T l I'
__ ,.
| I
_ |
tl I
L'- ?_--1"¡ã~
U
couraote social. E. otserro, |53 '-¬-" 'Ér`. -
ti

|';] M/\I\lllAL DE SOCIOLOGIA SOCIOLOGA I

-1

I'

pt-rmitimlo que os políticos da cidade promovam sua imagem, ganhan- no inconsciente coletivo e não constitui uma legítima reaçao contra o
‹Io não só o agradecimento, mas também os votos da população. Em
“' t desvio individual, tal como sustentam os funciorialistas.
outras palavras, a criação do hospital pode ser um meio para alcançar
5 I
. Vários estudos sociológicos indicjam que 0 'cdntrole social é ca-
‹Iivvrsas finalidades econômicas e políticas? rente de legitimidade porque está a serviço dos grupos de poder que,
Hs sociólogos do conflito sustentam que esta distinção vale no caso
'L. "57
-¡_`¡'

~-:
através da criação e da aplicação das normas de controle, asseguram
‹Io controle social efetuado através do sistema penal. Este sistema não seus interesses: a repressão do furto protege a propriedade dos ricos,
‹-umprc as suas funções manifestas, ou seja, não corresponde às finali- a legislação sobre os crimes políticos objetiva a proteção 'do regime
pt¬›lÍlÍt'n CIC. _ .
zl.ul‹-s otiú-inis c tlt-scjâulas. Ao mesmo tempo, tlcscnvolvc outros cfcitos I

‹.oIm~ a socictlatlc. I-im outras palavras, a sua função oficial ti. tlilerentc Estes grupos apresentam a proteção ,dc seus interesses particulares
'I'

«la l`nncíío que cunipre na realidade. Assim sendo, os funcionalistas como uma reação legítima de “toda a sociedade” contra o “mal", encar-
‹-omctcm um grave erro científico, porque crêem no discurso oficial do ., ¡-
nado na figura do criminoso. Em outras palavras, os referidos grupos
sistema penal, pensando que as suas funções declaradas (proteger os r..
possuem o poder de definição dos comportamentos desviantes e con-
lions jurídicos de todos, respeitar os princípios da certeza, da generali- seguem, também, controlar a aplicação das normais jurídicas. Assim
tlatle etc.) são aquelas realmente desenvolvidas na prática. -
.-_. .
sendo, o direito penal protege os interessesdos mais fortes, que são
J
'I

apresentados, ideologicamente, como interesses gerais.


3.2 Negação da ideologia funcionalista com relação ao controle Esta visão é fundamentada em extensas análises filosóficas, estud|os
social sociológicos e pesquisas empíricas sobre os sistemas de controle social.
Criou-se, assim, uma abordagem denominada crz'rm'riología~crítica, que
A visão da teoria do conflito pode ser exprimida através de cinco analisa o controle social como uma construção de determinadas rela-1
críticas, que indicam quais são as funções reais do controle social ções de poder. Muitos sociólogos do direito e criminõlogos adotam hoje
através do direito e invalidam a perspectiva funcionalista, mostrando o 1
T
esta perspectiva de leitura do controle penal?
faut caráter ideológico (Baratta, 1997, pp. 41 e ss.).
3.2.2 Inexistência da distinção entre Bem e Mal (“n0rmalidade do
3.2./ ilegitimidade do poder punitiva crime“) I
[ › .
Í.. I I
_ 1!-

O controle social através do direito apresenta-se como expressão de I' À


_-.
L
L.

I O desvio é considerado, por muitos funcionalistas e pela maioria
1

um poder legítimo, que protege todos os indivíduos, reprovando e


N
.`

...F
| I
u
1!
dos juristas, como um dano e o desviante é visto como um elemento
'J
reprimindo comportamentos desviantes e reafirmando os valores so- vç
1
negativo, que lesa a ordem, a tranqüilidade e a justiça social. Uma I jjl
1

ciais exprimidqs pelo direito. Esta opinião é criticada por vários autores. ¬}
posição contrária é adotada pelos sociólogos-« do co'nf`lito que indicam
4,
Apresentamos aqui a visão da corrente psicanalítica e dos sociólogos
Av

í - ao lado de alguns autores funcionalistas que se ocupam da anomia - lj'

ijl:
ligados ao movimento da criminologia crítica.
I*


que o desvio é um fenômeno normal em qualquer sociedade.

Segundo uma visão baseada na psicanálise freudiana, o controle J
I
Como já destacava Durkheim, o crime permite à sociedade definir
social exprime mecanismos irracionais de expiação do crime. A socie- melhor a sua ordem moral (a “consciência coleti,va”) e, ao mesmo
tl:u Iv, tem a necessidade de punir uma pessoa para “limpar-se” da sua má- .^._ ' :J
1 tempo, fortalecê-la através da reação à violação da lei. Esta reação
‹~‹ msri‹^¬ncia e para exorcizar os instintos de destruição. Assim sendo, os n
'*";
_ I'
.n_
fortalece a solidariedade social e confirma os valores coletivos. Desta
n~p|z~.›;‹-utatttvs tlcsta corrente entendem que a repressão está enraizada i

›5

J
W' Para uma apresentação da criminologia crítica cfr. Baratta, l997; Swaaningen,
"* .f\|muIm_o na n›l1*.‹'tvn‹_-‹"`u~s ‹Io Professor Gessé Marques Junior. l997. -

., Wi,
z
couraore social.. E Dtaarro 155
|'-1.1 MANUAI.. DE SOCIOLOGIA SOCIOLOGA
regras. Em outras palavras, a transgressão de nlorfnas é considerada
lorma, o crime revela-se como um fenômeno social normal em três como expressão de uma atitude individual que é 'reprovável porque
_-a~ntidos: em prlimeiro lugar, o crime encontra-se em todas as socie- contraria norrnas e valores sociais. O legislador protíege estes valores e
rlâules humanas; em segundo lugar, o crime ajuda a sociedade a afirmar aplica sanções negativas contra indivíduos que não osrespeitam, por
sua própria identidade em torno a determinados valores; em terceiro motivos que a sociedade desaprova (satisfação de instintos e paixões,
ln¡=_:tr, lui crimes que apresentam um carater progressista, ajudando a abuso de poder, lesão de direitos).
‹.ocic‹l:ule a mudar regras e crenças superadas. Neste último caso, o Os críticos do controle social sustentam que o princípio da culpa-
«time antecipa a consciência coletiva do futuro (Durkheim, 1999-a, bilidade pessoal não corresponde ã realidade social. Na sociedade não
|qí 'fl t' .'~`.F¡.l.
existe unanimidade sobre conceitos eo-no -“o licm c o Mal". Para estes
t) desvio pode, por exemplo, ser uma antecipaçao de mudanças autores, também não é possível considerar que uma conduta possa ser
sociztis, tentando introduzir uma “inovação” ou constituindo uma “re- imputada a um indivíduo, que decide violar os valores morais de toda
Ia-.l¡ao" (ver Lição 4, 2.3). Pense-se no caso da ciência racionalista e da a sociedade. A
Iilosoíia iluminista que a Igreja perseguiu, na Idade Moderna, como A concepção do que é justo ou correto pode-¿ diferir não só de
zueia ou herética. O mesmo aconteceu com a Revolução Francesa de pessoa para pessoa, mas também em função do grupo social onde está
1789, cujas idéias e ações constituíam, na ótica juríiica do Antigo inserido o indivíduo. Assim, um menino de rua, um morador da favela,
ltcgimc, crimes de lesa majestade, passíveis de pena de morte. um jovem desempregado de uma grande cidade, um trabalhador rural,
Assim sendo, o criminoso desenvolve um papel útil para a socie- uma dona de casa, um político e um grande empresário podem ter
dzulc, seja quando contribui para o progresso social, criando impulsos idéias completamente diferentes sobre o que é justiça. Ademais, estas
para a mudança de algumas regras sociais, seja quando os seus atos idéias podem não estar em consonância com as regras estabelecidas
oIi~n~cctn a ocasião de afirmar a validade destas regras, mobilizando a pelo ordenamento jurídico. , A
r-àocicrlatlet em torno a valores coletivos. . Isto se deve ao fato de existirem, numa mesma sociedade, culturas
Nesta ótica, o controle jurídico e social de alguns comportamentos e sistemas de valores diversos (pluralismocultural). No que tange ao
dcsviztntes não exprime o combate do Bem contra o Mal. Assim sendo, direito, cabe observar que a proibição de determinadas condutas ape-
nr-m o criminoso ó um elemento anormal, nem o crime destrói a so- nas exprime os valores e os interesses das classes dominantes. Para

rtctlat e. um jovem desempregado o fato de roubar um carro, de agredir fi-


Além disso, o controle social é caracterizado pelas fortes mudanças sicamente um companheiro ou de evadir de um presídio, pode ser
ltistórlcas na avaliação jurídica de alguns comportamentos. Isto nos vivido como um ato de coragem, que aumenta seu prestígio dentro da
itnpcoe de distinguir o Bem do Mal de forma definitiva. Se a homos- “gangue”, onde ninguém considera tais atividades como moralmente
s‹'xnn`.itlade era considerada crime até alguns anos atrás em muitos reprováveis. Neste caso, o indivíduo não teria a mesma “consciência
pníscs c hoje constitui uma legítima expressão do direito de liberdade do mal” que um membro da classe alta, que estudou em boas escolas
sruxual, onde está o “mal"'? Como pode o direito reivindicar para si o e nunca passou por urna situação de privação. Em outras palavras, o
monopólio da verdade moral, quando ele mesmo se altera com o tempo? comportamento do indivíduo é,.salvo raras exceções, o produto da stia
isocialrznçao.
l.;*,,t I›n+\ri.rrenriirr da ‹~rrI¡›afn'iirinde pessoal (pfnrrsrlirnno cuitrtrni) Em todos estes casos, encontramos o fenõrneno das denominadas
'sabcnlturas”, que se desenvolvem em grupos sociais politicamente
A rusponsabilirlade pessoal do indivíduo que transgride normas ou socialmente marginalizados. No âmbito da subcultura, a avaliação
constitui o fundamento do direito penal. A sanção é considerada legí- de muitos atos é contrária ao juízo de valores dominante. Cria-se assim
tima quando um determinado comportamento pode ser imputado a um um conflito: o ambiente social ordena que se pratique um determina-
indivídiuo, quando ele é considerado como autor de urna violação de

E----f-f-e ¬ =
¡ 55 tvtatvttzxt. os soctotoota soctotooa
cotvrsote soctat. E otaetro |57
\\U
i
do ato, por motivos de “honra” ou de “coragem”, enquanto o direito,
o reprova. » 3.2.4 Impossibilidade de ressocialização
Sem tornar posição sobre o que é justo, o estudio: o deve registrar
esta situação conflitiva, gerada pelo pluralismo cultural, e rejeitar o As sanções mais graves são em grande parte justificadas por serem
princípio da ettlpabilidade pessoal como justificação da reação do Es- medidas de ressocialização dos desviantes. Todos sabern que ninguém
tado. As pessoas provenientes de subculturas são, rnuitas vezes, punidas pode ser “recuperado” nas prisõps, onde se convive com a violêttcia
porque fazem o exigido pela respectiva comunidade. mais exasperada, em uma situação de miséria, corrupção e desrespeito
ã dignidade humana. Urna série de estudos sobre os índices de reinci-
Alem disso, o direito encontra-se treqíientetnettte etn “defasa_gem" dência dctnonstra que a prisão só estimula as assim dcnotninadas “ear-
com os valores dominantes na sociedade: algumas vezes antecipa de- reiras criminais”.
terminados valores na tentativa de modemizar a sociedade e, outras
vezes, exprime valores socialmente superados. As condenações penais confirmam a validade das leis e ameaçam
os possíveis infratores. O criminoso é apresentado como exemplo ne-
Uma antecipação encontra-se na criação dos crimes contra o meio gativo (encarnação do Mal), ele é justamente o coritrário do homem
ambiente, sendo que a maioria das pessoas não coqsidera o autor de uma honesto e bom. Esta imagem é insistentemente apresentada pelos meios
t|tp,t*esst'í‹t contra tt ntcio ntubiente como tttn crinunoso, mesmo que as de eottuttticaçllo, através de reportagens sobre casos trritninnis “espeta-
penas previstas para tais delitos sejam mais altas do que as previstas culares", transmissões televisivas onde se acontpanha a atuação de
para alguns crimes clássicos. policiais, e outras que se ocupam de apresentar ao vivo julgamentos ou
lixemplo da legislação brasileira: quem causa grave poluição que reproduzi-los em forma de minisséries. O crime constitui um importan-
pode criar perigo a saúde humana e dificulta ou impede o uso público te “objeto” de consumo, e por ltal tnotivo, passou a ser explorado de
de praias é punido com reclusão de até cinco anos e multa até 50 milhões forma exacerbada (Barata, 2000). Neste processo, o futuro do critnino-
de reais (art. 54 da Lei 9.605, de 12.02.1998, e art. 41 do Decreto 3.179, so não possui nenhuma importância, sendo que a ressocialização não
de 21.09.1999). Quem pratica estelionato é punido com reclusão de até passa de mera ilusão.
cinco anos e quem pratica furto comum, com reclusão de até quatro anos
(arts. 171 e 155 do Código Penal). ' 3.2.5 Desigualdade na aplicação
Assim sendo, o legislador considera que crimes ambientais lesionam
a comunidade de forma mais grave do que furtos ou fraudes. Apesar A maior parte das normas legais de controle social é formulada de
desta situação, a maioria das pessoas considera o poluidor como uma modo impessoal: protegem todas as pessoas e punem qualquer pessoa
“pessoa deseuidada“ e não como um criminoso. O “estelionatário" e o que apresenta um comportamento contrário à leiƒ* As norrnasde contro-
“ladrão” são, ao contrário, socialmente estigmatizados como “crimino- le são “iguais", ou, como dizem os autores funcionalistas, apresentam
sos”. Ninguém negaria emprego a um capitão de navio que, por omis- a característica da generalidade. As pesquisas sociológicas indicam,
são, provocou um vazamento de petróleo que destruiu uma praia; ao porém, uma forte seletividadeçna aplicação de tais normas. Estudos
‹~ontrãrio, oferecer emprego a um “ex-ladrão” é considerado como uma sobre o comportamento da polícia, do Ministério Público e dos juízes
atitude, no tníttinto, arriscaria. ~ demonstram que eles muito freqüentemente atuam segundo preconcei-
ílcontrãrio observa-se no caso do controle social através de normas tos e estereótipos sobre a criminalidade e o criminoso, apresentando
lcgttis, que exprimem idéias superadas. Exemplos no direito brasileiro: t
“posse sexual mediante fraude”, punida quando se trata de “mulher W Existem poucas exceções. O estupro pode ser cometido, no Brasil, somente
ltottt~s|:t" (art. 215 do Código Penal); punição do adultério (art. 240 do contra mulheres (art. 213 do Código Penal). Hátambém delitos que podem
t 't"ttIi;t_‹t l'ti-..ttal,). Aqui o direito penal continua arraigado em valores que ser perpetrados somente por determinadas categorias de pessoas. Exemplo:
tttttt `t~‹tt't-espotttlcttt ao comportamento social atual. j autor do delito de peculato pode ser somente um funcionário público (art. 312
` l
do Código Penal).
l
í .
coNTnoi-.e sociae F. oiaeiro 159
|'›¡}{ l\-lAl\lllAI.. 111:. S()C1OL(_)GlA SOCIÚIDGA

Em todos estes casos, há uma evidente despropqrçaq entre a pagtis


uma ti~iiilí".iicia a controlar e reprimir, Coin maior intensidade, os grupos C¡p¿,ç;»-¡0 do grupo na pígpiilaçao carcerária e na poptilaçao total. Al
s-.oriiiliiiciitc desl`avorecidos.-i
disso, as estatísticas indicam que as pesspassancionadas com penas
(It “bom cirladão”* consegue um tratamento preferencial graças à sua mais graves pertencem aos grupos sociais mais pobres (Baiatta, 2000.
:i|i;in"~iiciii (vestidos, gestos), o modo de falar e outros elementos de p_ 42; Wacquant 2001-a, pp. 97-107).
riiltuiii i' liiiliitiis que ele compartilha com os õrgi`ios de controle. Além
Finalmente, as autoridades encalregadas da repressão perseguem
ilisso, uma pessoa poderosa tem maiores possibilidades de ser defendi-
ilii di- l`oriiia adeqiiada, conhecer melhor os seus direitos, receber apoio principalmente crimes contra a propriedade, tais como o lurto e o roubo.
lixeiiipln: na Alemanha, ein l99Íi. 77,9% dos fatos PPI'-50_šl1llfi9-“i llf3l_il
ili- ¡ii-s.sii:if~; iiilliiciitcs etc-
polícia i'oi'i'cs`poiiiliam aos delitos ilt' lurtti. dano e cstclioiiato. lltlft
t) piiiiigipal alvo do coiitrole policial siio as pessoas pobres, de delitos são cometidos quase exclusivamente pelas camadas pobres da
minorias e com escassa educação, porque correspondem ã imagem população indicando que o sistema penal protege, na prática, os bens:
social que se construiu do “bandido” e possuem menos recursos para dos “privilegiados” (Smaus, 1998, p. 219). ë1 .
se defender. Indicamos que nos EUA, em 2000, 46% dos detentos eram
A seletividade de classe é particularmente gritaiite no Brasil onde,
homens negros. Comparando o número total da população branca,
segundo o censo penitenciário de 1993, dois terços dos detentos sao
Iaiiiio-aiiieiicana e negra nos EUA com o número de detentos das
negros ou mulatos, 76% analfabetos ou semi-analfabetos e 95% encon-
i'i~spectiviis categorias, constatamos que se encontram encarcerados
tram-se na faixa da pobreza absoluta (Minhoto, 2000, p. 180). Alein
tres vezes mais latino-americaiios do que brancos e nove vezes mais
disso existe também uma forte seletividade de gênero nas prisoes
negros do que bi'ancos.'~'*
brasileiras, já que se constata a presença de uma porceiiiageiiri de mu-
Estatísticas realizadas na Europa nos anos 90 também demonstram lheres de cerca de 5%,9 confirmando a tese de que o sistema de Justiça
a seletividade do sistema de controle penal. Analisando os dados refe- penal é quase exclusivamente masculino.
rentes à criminalidade feminina, observou-se que a porcentagem de Para estes fenômenos podem ser dadas duas interpretações: as
mulheres presas é muito pequena (entre 2% e 6%).i O contrario ocorre autoridades controlam e sancionam de forma mais densa e rigida as
com os estrangeiros e os toxicômanos, que constituem aproximadamen- pessoas socialmente desfavorecidas e de sexo masculino, ou este grupo
Ii' 50% da popiilaçãii c:iii'eei'fii'i:i.“ apresenta o inaior nifirnero de desviantes. Soineiite uma pesquisa empírica
pode dizer qual é a explicação mais adequada para um determinado país.
'il (`Fr. a apresentação de pesquisas empíricas em Smaus, 1998, pp. 2"*'3-286. Eni todo caso, estas duas possíveis interpretações indicam que o
"`l Fonte: littp://www.ojp.usdoj.gov/'bjs/pub/ascii/p00.txt.
controle social efetuado através do direito, não respeita, na prática, o
princípio da igualdade. O público alvo do sistema penal é definido
fil A única exceção encontra-se na Espanha e em Portugal, onde as mulheres
através de um processo de seleçao social: trata-se principalmente de
representam 10% da população prisional (dados de 1997; fonte: http:/i'
stars.coe.fr/doc/cloc00fedoc8762.htm). Nos EUA, a população carcerária
feminina era 6,6% em 2000 (http://www.ojp.uscloj.govfbjslpub/asciiIp00.txt). *il Em 2000 a porcentagem era de 4,5% (fonte: http://wwvzmj.gov.brƒdepen/
ii” Wacquant 2001-a, pp. 107-117. Dois exemplos do ano 2000: a) Na Grécia sipenlpresosXsexio.htm). Sobre a situação das mulheres na prisão e as razões
que explicam a baixa taxa de encarcerainento, cfr. Lemgruber, 2001;
entre os 8.150 encarcerados 3.832 'eram estrangeiros (47%): 3.078 eram
condenados por delitos relacionados às drogas (38%) e o número total de Rostaing, 1997. Uma pesquisa realizada nas penitericiárias femininas de
mulheres encarceradas era de 382 (4,7%). Fonte: Ta Naa, 06.11.2000, p. 16. São Paulo demonstrou a seletividade de classe: 84%;das detentas tinham,
hi Na Itália entre os 57.507 presos, 14.000 eram estrangeiros (26%): 15.097 no máximo, concluído o primeiro grau; 80% exerciam trabalhos precários:
i-iiiiilviiziilos por delitos relacionados às drogas (28%) e o número total de 40% tinham sido condeiiadas por tráfico de entorpecentes, Scfltlü 01215 N12-W135
iiiiillivii-'i i~iu'iii rerailas era de 2.345 (4,Í-5%). Fontes: La Rqiailibiica, 07.07.2000,
dependentes de drogas' “pesadas"; 18% eram infectadas pelo vírus HIV
p I http//www.piustixia_it/mise/Statistichedaphtm. (Teixeira, 2001).
Inu Mztnuzti- na sociotooix socioi..oo.=\

Iioineiis, jovens, de baixo nível de educação e desprovidos de recursos


econômicos. O sistema penal determina a reclusão, para eliminar pro-
hlemas concretos e para intimidar as demais pessoas.
Onde está a igualdade prometida pelo Estado de direito? Onde está
:i proporcionalidade entre o crime e' a punição? Onde está a imparcia-
lidade dos orgãos estatais ciicarregados do controle social? A frase
irônica do cscrit.or frances Anatole France “e igualmente proibido aos
ricos c aos polires dormir soh as pontes" possiii ate lioje validade.

Porri ir iiiais longe

Andrade, 1997; Baratta, 1997 e 2000; Bergalli e Bodelón, 1992;


Blankenburg, 1995, pp. 9 e ss.; Dimoulis, 2000; Ferrari, 1999, pp. 173
e ss., 193 e ss.; Kunz, 1998; Minhoto, 2000; Pavarini, 1983; Santos,
1984; Smaus, 1998; Soriano, 1997, pp. 339 e ss.; Souto e Falcão, 2001,
pp. 311 e ss.; Swaaningen, 1997; Vago, 1997, pp. 190 e ss.; Void,
Bernard, Snipes, 2002; Wacquant, 2001 e 2001-a. 1

I UÍ Í Í Í Í ÍÍÍ