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UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA

CENTRO DE LETRAS, CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS E HUMANAS

CURSO DE PSICOLOGIA

O ABUSO SEXUAL: VIOLÊNCIAS SEXUAIS CONTRA CRIANÇAS


E ADOLESCENTES

JULIANO MELLO SILVA

VASSOURAS
2011
UNIVERSIDADE SEVERINO SOMBRA

CENTRO DE LETRAS, CIÊNCIAS SOCIAIS APLICADAS E HUMANAS


CURSO DE PSICOLOGIA

O ABUSO SEXUAL: VIOLÊNCIAS SEXUAIS CONTRA CRIANÇAS


E ADOLESCENTES

JULIANO MELLO SILVA

Trabalho de Conclusão de Curso


Apresentado ao Curso de Graduação
de Psicologia da Universidade
Severino Sombra como requisito
parcial para obtenção do grau de
Psicólogo.

Orientador: Profº.: Arnaldo Risman

VASSOURAS
2011
SUMÁRIO

Seção Página
Capa
Folha de rosto
Agradecimento
Dedicatória
Resumo
Abstract
Introdução

INTRODUÇÃO

O termo abuso sexual se caracteriza uma violência praticada por qualquer


pessoa contra a vontade do outro, através da força, ameaça ou intimação. Contudo,
poucos são os casos que chegam até as delegacias. A vítima muitas vezes reluta em
denunciar a violência por vários motivos: medo de represálias, vergonha, sentimento
de culpa e devido ao fato do crime ter sido praticado na maioria das vezes por
parentes, pessoas próximas ou conhecidas. Oferecer suporte médico, psicológico,
orientações quanto a seus direitos, bem como encaminhamento a assistência legal é
de suma importância.
O abuso sexual geralmente ocorre dentro de casa, com pessoas próximas
da família ou membros dela. Muitas vezes casos incestuosos que são difíceis de
serem descobertos graças ao “muro do silêncio” que dificulta a descoberta do abuso
sexual e impede a proteção da criança.

A identificação e o adequado acompanhamento às vitimas são de vital


importância para o restabelecimento psicológico e físico das mesmas. O
atendimento deverá ser imediato feito por uma equipe multidisciplinar treinada. Toda
e qualquer vítima deve ter suas vontades respeitadas mesmo que esta seja uma
recusa pelo atendimento, e ser informada sobre quais serão as etapas do
atendimento.
Ao estudar o fenômeno do abuso sexual intrafamiliar é fundamental
compreender que este ocorre numa instituição que desde sua existência é
considerada sagrada tendo seu mundo particular, onde as heranças culturais
determinam os padrões familiares.
Este trabalho se propõe a investigar fatores de risco e de proteção
preponderantes nas ocorrências de abuso sexual contra crianças, adolescente no
contexto intrafamiliar. Teve seu inicio na abordagem sobre a história do abuso e das
intervenções públicas que surgiram a partir da necessidade de atendimento à suas
vítimas e outros tipos de violência contra a mulher, a criança e o adolescente. Dando
continuidade ao desenvolvimento do trabalho, teremos a caracterização do abuso
sexual destacando suas implicações na vida da vítima, de sua família e do próprio
agressor.
CAPÍTULO I

O QUE É ABUSO SEXUAL?

Abuso sexual infantil numa definição mais simples resume-se a “uma


situação em que uma criança ou adolescente é usado para uma gratificação sexual
de um adulto, baseada em, uma relação de poder” (APPIA, 2007)
Num sentido estrito segundo Eisenstein, o termo "abuso sexual" corresponde
ao ato sexual obtido por meio de violência, coação sem possibilidade de resistência
de quem é agredido, chantagem, ou como resultado de alguma condição debilitante
ou que prejudique razoavelmente a consciência e o discernimento da criança, tal
como o estado de sono, de excessiva sonolência ou torpeza, ou o uso bebidas
alcoólicas e/ou de outras drogas, anestesia, hipnose, etc. No caso de sexo com
crianças pré-púberes ou com adolescentes abaixo da idade de consentimento (a qual
varia conforme a legislação de cada país), o abuso sexual é legalmente presumido,
independentemente se houve ou não violência real.
Num sentido mais amplo, embora de menor exatidão, o termo "abuso sexual
de menores" pode designar também qualquer forma de exploração sexual de
crianças e adolescentes, incluindo o incentivo à prostituição, a escravidão sexual, a
migração forçada para fins sexuais, o turismo sexual, o rufianismo e a pornografia
infantil.
‘’Abuso sexual é a situação em que uma criança ou
adolescente é usado para gratificação de um adulto ou mesmo de um
adolescente mais velho, baseado em uma relação de poder, incluindo
desde manipulação da genitália, mama ou ânus, exploração sexual,
voyeurismo, pornografia, exibicionismo, até o ato sexual com ou sem
penetração, com ou sem violência’’ (ABRAPIA, 1992)

Além deste conceito, o relatório Oficial da UNICEF (1986), conceitua o Abuso


sexual como qualquer contato sexual entre uma criança e um adulto maior, cujo
propósito tenha sido a gratificação sexual do atacante. Neste contexto, encaramos o
termo “adulto maior”, como perpetrador 1 adulto, adolescente e até mesmo criança
que possuam maior idade que a vitima, e que busque na sua ação uma satisfação
sexual.
Trabalharemos com uma idéia resumida de todas essas classificações,
apresentando o abuso sexual como todo e qualquer ato libidinoso com ou sem
contato físico, com ou sem o consentimento da criança, mas que envolva uma
relação de poder2.

1
Aquele que atua como causador ou perpetra o abuso. Em outros termos, o agressor ou abusador sexual
no caso do abuso sexual.
2
Este poder pode ser de âmbito físico, na medida em que o abusador seja mas velho que a vitima, assim
como hierárquico, quando falamos em alguém que exerça algum controle sobre a criança, como por
exemplo um professor, uma diretora, um pai ou uma mãe.
1.1. Sintomas apresentados pela vítima

Alguns sinais são vistos em crianças vítimas de abuso sexual: Perda ou


excesso de apetite, agressividade, choro, isolamento social, insegurança, alterações
de sono, baixo rendimento escolar, silêncio, retrocesso no desenvolvimento (voltar a
agir como bebê), comportamento sexual incompatível com a idade, desenhos de
órgãos genitais masculinos e corpos nus, medo de adultos estranhos, de escuro, de
ficar sozinho e de ser deixado próximo ao agressor, marcas pelo corpo, mudança no
modo de se movimentar, andar e sentir, problemas físicos, como corrimento,
sangramento, ardência e infecção, gravidez, doenças sexualmente transmissíveis.

Christiane Sanderson, em seu livro “Abuso sexual em Crianças: Fortalecendo


Pais e Professores para Proteger Crianças e Adolescentes (2005)” relata que nem
todas as crianças são capazes de revelar o abuso por temerem as conseqüências,
mas podem encontrar múltiplas maneiras de comunicar seus medos e ansiedades
aos adultos. Esses meios, de tão sutis, podem passar despercebidos ou serem
evidentes e, ainda assim, ignorados. Ela ainda relata que como existe grande
variedade de sinais, deve-se ter cuidado para não aplicar uma abordagem de
“conferir a listinha de compras” as manifestações, nem considerar que já que há a
presença de sintomas, não quer dizer propriamente dita que a criança foi ou está
sendo vitima de abuso sexual.

“Pais e professores devem estar atentos para não elaborar


nenhuma hipótese quanto à possibilidade de abuso sexual com base
na presença de um único sintoma. Muitos dos sinais e sintomas
individuais podem indicar outros problemas que a criança esteja
eventualmente enfrentando. É essencial observar tanto a criança
quanto a constelação de sinais e símbolos indicativos do ASC. É preciso
contextualizar a situação conhecendo a criança, sua família e seu
mundo social, assim como os sinais e sintomas observados.”
(Sanderson, 2005)

Sanderson neste mesmo livro agrupa os diferentes efeitos do abuso sexual


em crianças nas seguintes categorias:
Efeitos Emocionais: tendo como o efeito mais comum a vergonha, crianças
onde sua cultura reprima que elas mostrem o corpo, quando coagidas a um contato
sexual deste porte, acabam se envergonhando com o que estão fazendo. Crianças
que respondem ao contato sexual com prazer ou algum tipo de orgasmo tendem a se
envergonhar também, principalmente aquelas mais velhas que sabem que o abuso
sexual não é uma coisa boa, mas mesmo assim conseguem tirar algum prazer. Esta
vergonha acaba se misturando com uma variedade de emoções desencadeadas
pela experiência do abuso, que se misturam e acabam não se tornando muito claras
na cabeça da criança, a essa “vergonha” soma-se sentimentos como timidez,
impotência, desamparo, falta de valor próprio e aversão por si mesma. Induzindo
assim a humilhação, desgosto, perplexidade e confusão.

“A criança se sente tão sem poder internamente e


externamente que é incapaz de desenvolver um senso de auto-eficácia
e competência. Ela pode se sentir inútil, patética e estúpida,
considera-se incapaz de controlar tanto o mundo externo como seu
caótico mundo interior e, assim, sofre um enorme impacto em sua
habilidade de equilibrar as emoções. Ou ela pode não sentir nada
(como resultado da dissociação) ou se sentir tão inundada pela
intensidade das emoções que passa a temer a combustão interna.”
(Sanderson, 2005).

Efeitos interpessoais: efeitos nocivos a relação da criança com outras


pessoas e na qualidade destas relações. A criança que se sente intensamente
envergonhada pode evitar a intimidade nos relacionamentos por causa da
necessidade de encobrir ou negar o sentimento de vergonha além do temor que o
segredo escape inadvertidamente (Sanderson, 2005). Crianças sexualmente
abusadas geralmente não possuem muitas habilidades apropriadas e desenvolvidas
de comunicação e podem apresentar risos, conversas e espontaneidade reduzida,
pouca curiosidade e falta de interesse nas coisas. Muito desconfiada em relação a
outras pessoas, sempre atenta ou se mostrando hipervigilantes em relação às outras
pessoas, contudo a grande falta de espontaneidade e de iniciativa levam a criança a
uma aceitação passiva das atitudes do adulto, tornando-a assim mais vulnerável a
abusos sexuais.

Efeitos comportamentais: é através do comportamento que as crianças


abusadas sexualmente tentam comunicar algum tipo de abuso sofrido, um veiculo
universal para a comunicação infantil é a brincadeira. Brincar é o modo natural e
criativo usado pela criança para expressar-se e relacionar-se com o mundo.

Sintomas cognitivos: esse impacto do abuso resulta em vários transtornos


cognitivos, causando falhas na concentração, atenção e memória além de criar uma
compreensão limitada do mundo.

Um dos efeitos do abuso sexual em crianças é distorcer a


percepção de mundo da criança. Um relacionamento aparentemente
amoroso pode ser tornar um pesadelo abusivo sexualmente, levando
a uma confusão sobre quais os comportamentos adequados e
inadequados entre adultos e crianças. (Sanderson, 2005)

Crianças que são sexualmente abusadas acabam se culpando pelo que está
ocorrendo com elas. Isso como relata Sanderson distorce a realidade, já que embora
elas não estejam fazendo nada e mesmo elas não tendo o controle sobre o abuso,
acabam considerando culpadas por tudo.

Crianças pequenas quase sempre acreditam que coisas ruins


só acontecem com gente má, crença reforçada por livros de historia e
filmes. Uma criança em um estágio de desenvolvimento cognitivo
inicial, que ainda não é capaz de pensar de modo abstrato, acreditará
que, como algo ruim está acontecendo com ela, então ela é má.
(Sanderson, 2005)

Sintomas físicos: os sintomas físicos são no geral difíceis de serem


detectados, Sanderson relata que um dos aspectos mais difíceis do abuso sexual em
crianças é que ele freqüentemente não deixa nenhum sinal nem marcas físicas.
Contudo, devemos levar em conta que as marcas físicas geralmente começam a
surgir em casos de abuso sexual já de longo período, aonde o abuso já deixou de ser
uma troca de caricias, ou um jogo de sedução. Geralmente os sinais físicos são
hematomas, sangramentos, traumas físicos na região oral, genital, retal, seios e
nádegas.

Sintomas Sexuais: crianças que são abusadas sexualmente tendem a


comunicar sua experiência de abuso por meio de comportamentos sexuais
incomuns. Compelidas a agir desta forma, a criança acredita, assim como foi
passado pelo abusador, que essa atitude é normal na relação dela com o adulto, e
não consegue entender o porquê que muitos adultos se sentem constrangidos
mediante a essa forma de interação dela.
De acordo com Sanderson (2005 p.226)

Masturbação compulsiva, geralmente praticada em público,


pode ser uma forma de comunicar a experiência de abuso sexual da
criança. Em geral, a masturbação compulsiva não é completamente
satisfatória para a criança. Algumas ficam totalmente perturbadas
depois da masturbação, rolando no chão em profunda dor psicológica
e emocional. O exibicionismo repetitivo e compulsivo é outro do qual a
criança pode lançar mão para tentar comunicar as experiências de
abuso.

Outra forma de comunicar esse abuso é quando a criança leva objetos ao


órgão genital, da mesma forma a criança pode se esfregar no adulto simulando uma
relação sexual ou masturbação. Contudo como ressalta Sanderson, (...) Esses sinais
e sintomas podem apenas alertar o adulto sobre a dor e a perturbação da criança e
não são critérios de diagnostico seguros por si mesmos. (...). Portanto, a importância
destes sinais e sintomas não está integrada a uma forma de diagnóstico de abuso
sexual, mas primeiramente a alertar a sociedade sobre possíveis “pistas”, a serem
levadas em consideração.
1.2. A revelação do abuso sexual

A criança sexualmente abusada pode inicialmente revelar seu segredo para


qualquer pessoa, um tio, um pai, um professor, uma vizinha, enfim, qualquer pessoa
que tenha uma ligação de confiança com a mesma. Mas a revelação que falaremos
neste tópico é a revelação legal do abuso, aquela usada como depoimento no
sistema judicial, que é realizada pelo profissional da psicologia.

O sistema judicial tem o costume de nomear esse processo de revelação


legal, como “estudo de revelação do abuso sexual”, estipulando data para que o
psicólogo “arranque” a revelação da criança. Contudo quem fará a revelação deverá
ter a clareza que não existe uma “varinha de condão” que ao tocar na cabeça da
criança ela revela. Na realidade a revelação é um processo que pode demorar, e é o
vinculo de confiança que define o tempo para que este processo seja concluído. Hoje
este termo “estudo de revelação do abuso sexual” foi substituído por “estudo da
alegação do abuso”, principalmente para facilitar o entendimento que não existem
atalhos para a revelação de um abuso, tirando a grande pressão sob o psicólogo, no
sentido de obter informações verdadeiras e objetivas em curto prazo.

O terapeuta devera encontrar maneiras de reverter os


sentimentos de vergonha e a impressão de serem sejas, más ou
responsáveis pelo que abusou e traiu a confiança delas. Deverá
também promover a transformação das experiências de dor e
vergonha da criança em historias de cura e integridade. O preparo
para a revelação da criança sobre o abuso sexual sofrido pode
conduzir a uma crise na rede de profissionais envolvidos, que por sua
vez, induzirá a uma crise na família. São dois momentos distintos,
porem importantes de serem considerados. (APPIA, 2007)

A crise profissional é facilmente percebida no impulso destes em entrar com


uma intervenção imediatamente após uma suspeita ou uma revelação parcial. “(...)
nós reagimos levados por nossa própria crise profissional, desencadeada pelo fato
de recém termos sabido do abuso e, muitas vezes agimos imediatamente de modo
bastante equivocado, intervindo cegamente em um processo de segredo que não
chegamos a entender completamente (...)” (Furniss, 1993). Este impulso imediato
poderá levar ao fracasso de qualquer tipo de intervenção, desencadeando até um
dano secundário na criança e na família.

Na suspeita e/ou na revelação da criança vitima de abuso


sexual, os profissionais primeiramente precisam reconhecer a crise na
rede e trabalhar com ela. Isso não significa dizer que em todos os
casos deve ser assim, alguns exigem de fato uma intervenção
imediata. Porém, é necessário que os profissionais envolvidos tenham
clareza das informações que possuem, e especialmente se estas são
suficientes e fundamentadas. (APPIA, 2007)

De acordo com Furniss (1993, p.168)

Muitas vezes, os profissionais percebem, mais tarde durante


a intervenção, e geralmente tarde demais, que eles tinham fatos
insuficientes para intervir. À primeira vaga suspeita de abuso sexual
da criança eles normalmente se apressam em agir, sem ouvir a
criança com cuidado necessário.

Quando furniss relata que a intervenção exige paciência, não significa que
em alguns casos não teremos que agir rapidamente, mas que em muitos casos que
parecem exigir imediata resposta profissional, parecem exigir essa imediata resposta
porque nós, como profissionais, induzimos a crise familiar ao agir prematura e
caoticamente, em virtude de nossa própria crise na rede profissional.

Um dos exemplos de catástrofes causadas pela intervenção prematura


graças à crise profissional é o envolvimento precoce de membros da família, como
por exemplo a mãe, que é acionada muitas vezes na crença de que ela é “aliada da
criança”, coisa que na maioria das vezes realmente é verdade. Contudo em muitos
momentos a mãe acaba denunciando a suspeita ao abusador.

A crise familiar é decorrente das mudanças movidas com a descoberta do


abuso, que por sua vez causa um desconforto a família, que não sabe o que fazer
nesse momento novo, sem mecanismos de resolução no seu repertorio, ela acaba se
desesperando.

Depois de reconhecida e trabalhada a crise profissional, a família se torna o


foco da intervenção, que agora está pronta para fundar-se terapeuticamente.

A confusão entre falar com crianças de uma maneira em que


damos permissão terapêutica explicita para revelar o abuso sexual
com síndrome de segredo e a entrevista legal de crianças, de acordo
com os requerimentos legais das normas de evidencias que são
aceitas no tribunal, conduz a um alto índice de fracasso na
identificação do abuso sexual da criança. (Furniss, 1993)

A citação acima se trata da maneira legal de se realizar a revelação, uma


revelação desqualificada, acaba comprometendo o trabalho da equipe técnica. O
estudo de Revelação não deve ser encarado como uma permissão dada à criança
para relatar a sua experiência, mas uma (...) entrevista de modo a obter informações
objetivas de uma maneira que seja aceita pelas agencias de proteção e pelos
tribunais (...) (Furniss, 1993), de forma aberta, uma entrevista de maneira factual e
não-sugestiva.

Mesmo com todo este trabalho, a revelação ainda pode não ocorrer, graças a
uma resistência da criança em não revelar o abuso sexual. Sanderson relata
diversos fatores que podem contribuir para essa resistência.

É certo que a razão mais obvia pela qual as crianças


encontram dificuldade para revelar o abuso é que elas são forçadas a
guardar segredo mediante ameaça de violência ou de morte. Alguns
abusadores sexuais ameaçam machucá-las fisicamente ou dizem que
vão matá-las. (Sanderson, 2005)

Sanderson (2005, p.237) ainda relata:

Crianças mais novas não necessariamente vêem o abuso


sexual como abuso por causa da pouca idade e da falta de
conhecimento das coisas. Elas se baseiam nos adultos para formar
uma percepção do mundo. Assim, se disserem a elas que a atividade
sexual entre adultos e crianças é normal, acreditarão e considerarão o
abuso sexual como algo normal.

Além destes ainda existem diversos outros fatores que contribuem para a
resistência em revelar o abuso sexual segundo Sanderson como: o medo de não ser
acreditada, o medo de ser punida pelo que “ela” fazia, o abusador geralmente
distorce a realidade fazendo com que a vítima sinta que ela é a abusadora que o
seduz, e que ele é a vítima, que caí na sedução, o sentimento de vergonha, culpa e
embaraço, que acabam confundindo a cabeça da criança e impedindo “... a criança
de revelar o abuso sexual porque ela simplesmente não sabe por onde começar e o
que dizer.” (Sanderson, 2005).
Existem “bonecas Anatomicamente Exatas” para se revelar o abuso, contudo
como relata Furniss:

“não resolvem nenhum problema na avaliação do abuso


sexual da criança se não forem utilizadas com competência,
habilidade e sensibilidade no contexto da comunicação da criança e
no contexto do abuso sexual da criança como síndrome do segredo”
(Furniss, 1993).

Isso quer dizer que para utilidade dessas bonecas é necessário que o
profissional já tenha tal identificação com a criança, a ponto de não mais permanecer
dentro desta síndrome de segredo, sabendo principalmente que essa criança
revelaria o abuso para este profissional com bonecas e sem bonecas.
CAPÍTULO II

O RESULTADO DO ABUSO SEXUAL NA VIDA DA


CRIANÇA E DO ADOLESCENTE

A vítima de abuso sexual está exposta a diferentes riscos, que


comprometem sua saúde física e mental. (Neves, Ramirez & Brum 2004, apud,
VIODRES; RISTUM, 2008). As conseqüências da violência sexual são múltiplas, e
seus efeitos físicos e psicológicos podem ser devastadores e duradouros. (Kaplan &
Sadock, 1990, apud, VIODRES; RISTUM, 2008).

Depressão, sentimentos de culpa, comportamento autodestrutivo,


ansiedade, isolamento, estigmatização, baixa auto-estima, tendência à revitimização
e abuso de substancias, queixas somáticas, agressão, problemas escolares,
transtorno de estresse pós-traumático (TEPT), comportamentos regressivos, fuga de
casa e ideação suicida são sintomas que podem aparecer na infância e se estender
pela vida adulta (Boney-McCoy & Finkelhor, 1995; Finkelhor & Tackett, 1997;
Williams, 2002, apud, VIODRES; RISTRUM, 2008)

As manifestações do TEPT na infância e adolescência são mais graves e


comprometedoras, uma vez que as funções afetivas e cognitivas do sistema nervoso
central não amadurecem e não foram ainda totalmente reguladas. Doenças
sexualmente transmissíveis, traumas físicos e ginecológicos, gravidez, transtornos
mentais e dificuldades no ajustamento sexual adulto são apenas algumas das
possíveis conseqüências físicas, emocionais, sexuais e sociais da violência
(Amazarray & Koller, 1998, apud, VIODRES; RISTRUM, 2008)

Dentre os indicadores mais relatados, encontra-se o comportamento


sexualizado, que não é exclusivo de crianças vítimas de abuso sexual, mais é
considerado como o que melhor as identifica (Williams, 2004, apud, VIODRES;
RISTRUM, 2008).
Alterações no desenvolvimento cognitivo, na linguagem, na memória e no
rendimento escolar, rebaixamento da percepção do próprio desempenho e
capacidade, agressividade e impulsividade tem sido freqüentemente relatados
(Amazarray & Koller 1998; Ferrari & Vecina, 2002; Finkelhor & Tackett, 1997; Kaplan
e Sadock, 1990; Williams, 2002, apud, VIODRES; RISTRUM, 2008). Dados mostram
que as vitimas podem ser afastadas minimamente ou ter graves problemas sociais e
psiquiátricos. (VIODRES; RISTRUM, 2008).

Crianças que passam pelo trauma de um abuso sexual podem desenvolver


agressividade ao lidar com determinadas situações, respondendo assim ao estresse.
Por estas atitudes passam a ser rejeitadas ou hostilizadas por pessoas de seu
convívio, gerando ainda mais estresse. (VIODRES; RISTRUM, 2008).

Segundo a hierarquia de Maslow (apud, VIANNA; BOMFIM; CHICONE,


2006).

“Nós, seres humanos, após a satisfação das necessidades fisiológicas,


temos necessidades de segurança relacionadas ao abrigo e à proteção ao nosso
físico, família, lar e comunidade; em seguida vêm às necessidades de estima
relacionadas ao egoamor próprio, auto-estima, auto-respeito, confiança-necessidade
de reconhecimento, apreciação e admiração. A satisfação das necessidades de
auto-estima leva o individuo a se sentir confiante (no se valor, força, capacidade e
adequação), mais útil e necessário ao mundo. A não satisfação produz no individuo
sentimentos de inferioridade, fraqueza e impotência. A persistência desses
sentimentos desencadeará fracassos na sua trajetória ou processo quanto mais
seguros nos sentimos no ambiente em que estamos circunscritos, nossas auto –
estimas estarão sendo alimentada pela confiança e respeito e, conseqüentemente,
mantendo – se elevada”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

APPIA. (2007). Apostila Técnica do curso de capacitação pela ABRAPIA. (p.


65). São Paulo: ABRAPIA.

ARAÚJO, M. d. (2001). Violência e abuso sexual na família. Revista online


Scielo - visitado no dia 22 de agosto de 2008 às 00:09 .

EISENSTEIN, E. (2004). Quebrando o Silêncio Sobre o Abuso Sexual.


Adolescência & Saúde , 26-29.

FURNISS, T. (1993). Abuso Sexual da Criança: Uma Abordagem


Multidiciplinar. Porto Alegre: Artes Médicas.

GONÇALVES H.; ROCHA R.; OLIVEIRA A.C. Abuso Sexual de Crianças e


Adolescentes, 2006, p. 49-56.

SANDERSON, C. (2005). Abuso Sexual em Crianças. São Paulo: M.Books do


Brasil Editora Ltda.

VIANNA L.; BOMFIM G.; CHICONE G. Auto-estima de mulheres que


sofreram violência Ver. Latino-Am. Enfermagem, vol. 14 nº 5 Ribeirão Preto
sep\oct. 2006.

VIODRES INOUE S. R.; RISTRUM M.; Violência sexual: caracterização e


análise de casos revelados na escola, 2008, p. 11-20.

VOLNOVICH, J. R. (2005). Abuso Sexual na infância. Rio de Janeiro: Editora


Nova Aguilar S.A.

UNICEF (1986). Relatório Oficial da UNICEF sobre a Situação


mundial da infância, UNICEF <http://www.unicef.pt/artigo.php?
mid=18101114> Acesso em: 18 OUT. 2008, 00:02:45