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A língua, as línguas, o

pensamento: apontamentos
de leitura de Categorias de
pensamento e categorias de língua
Valdir do Nascimento Flores*

Resumo Introdução
Este trabalho visa examinar o artigo O artigo Categorias de pensamento
de Émile Benveniste, Categorias de
pensamento e categorias de língua, de e categorias de língua, publicado por
1958, publicado novamente, em 1966, Benveniste originalmente em 1958 e
no livro Problemas da Linguística republicado em Problemas de linguística
Geral 1. O objetivo geral é apresen- geral I, em 1966, lançou luzes sobre um
tar como Benveniste pensa a relação
tema que, historicamente, tem indaga-
entre pensamento e linguagem. Para
fazer isso, em primeiro lugar, é apre- do os linguistas: o das relações entre o
sentado o contexto de aparição do pensamento e a língua.
artigo; em seguida, faz-se uma leitu- Sobre esse artigo, há muitas e con-
ra do artigo, tentando estabelecer os
troversas opiniões. De um lado, os filó-
principais pontos de reflexão do autor.
Finalmente, as conclusões são formu- sofos: não são poucos os autores que se
ladas. Este texto conclui destacando contrapuseram às ideias de Benveniste
as seguintes relações: o pensamento expostas em Categorias 1. Foi assim
e o símbolo, a língua e a realidade, a com Derrida (1971), Aubenque (1965) e
língua e as línguas.
Vuillemin (1967). Em todos, vê-se uma
Palavras-chave: Pensamento. Lingua- forte crítica dirigida a Benveniste, em
gem. Língua. Línguas. Símbolo. especial, devido o recurso a Aristóteles.

*
Professor Titular em Língua Portuguesa do Instituto de
Letras da Ufrgs. Pesquisador CNPq. E-mail: valdirnf@
yahoo.com.br

Data de submissão: set. 2018 – Data de aceite: out. 2018


http://dx.doi.org/10.5335/rdes.v14i3.8539

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De outro lado, os teóricos da tradução. ce du langage (Gustave Guillaume); Le
É assim com Georges Mounin (1975, coup de dés de Stéphane Mallarmé et
p. 54-56 e p.203), George Steiner (2002, le message (Jean Hyppolite); Qu’est-ce
p. 135) e Oustinoff (2001, p. 20). Nestes que parler le même langage? (André
últimos, reconhece-se a importância do Jacob); Monde et langage: réflexions sur
texto no contexto de abordagem da diver- la philosophie du langage de Wilhelm
sidade das línguas em sua relação com o von Humboldt (Lothar Kelkel); Wittgens-
pensamento e com a realidade. tein, le langage et la philosophie (Albert
Tendo em vista essa duplicidade de Shalom); La voix qui pense et sa pensée:
compreensão do texto – ao que tudo Martin Heidegger (Richard Wisser and
indica, os teóricos da tradução são mais Lothar Kelkel).
receptivos ao artigo do que os filóso- Como é fácil notar, trata-se de um
fos – este trabalho pretende, a seguir, contexto eminentemente filosófico. Con-
apresentar uma leitura de Categorias forme Laplantine (2011),
com a intenção de retomar os principais Benveniste lembra aos filósofos que jamais
argumentos avançados por Benveniste, se pode pretender atingir as realidades, as
em especial, com relação ao papel da essências, os universais [...], mais que isso
ele mostra que uma invenção do pensar é
língua na relação com o pensamento, necessariamente uma invenção de gramáti-
no contexto da diversidade das línguas. ca (LAPLANTINE, 2011, p. 91).
Para tanto, em um primeiro momen-
Quando é republicado, Categorias
to, são feitas considerações gerais acerca
aparece em um contexto mais próximo
do texto e em relação ao contexto de sua
de reflexões antropológicas. Trata-se do
aparição; em seguida, são apresentadas
conjunto de textos do primeiro volume
as grandes linhas de compreensão do
dos Problemas de linguística geral, abri-
artigo para finalmente tecer-se a con-
gados na segunda parte do livro, que,
clusão.
sob o rótulo A comunicação, traçam um
viés de abordagem da problemática da
Categorias no contexto natureza de linguagem (linguageira) do
geral e de Problemas de homem. Gerard Dessons, exímio leitor
linguística geral I de Benveniste, considera que
a noção de comunicação é um elemento
O artigo Categorias de pensamento e fundamental do pensamento de Benveniste
sobre a linguagem e, mais que isso, da an-
categorias de línguas apareceu, original- tropologia linguística que constrói sua teoria
mente, no número 4 da revista Études da enunciação (DESSONS, 2006, p. 43).
Philosophiques, dedicado aos estudos da
Ainda sobre a comunicação, diz Des-
linguagem, junto aos seguintes textos2:
sons:
Pensée et grammaire (Jean Fourquet);
Observation et explication dans la scien-

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[...] a comunicação, tal como a teoriza Benve- porque, além de ser de base signica – o
niste, é menos relevante para as teorias da primeiro texto dessa parte é justamente
informação, para as quais comunicar signi-
fica essencialmente transmitir mensagens, Natureza do signo linguístico – , não
do que para uma antropologia do valor, que pode ser descolada do que o rodeia: a
torna indissociáveis o ato de comunicar e cultura, o pensamento etc. Isso é o que
a elaboração de valores constitutivos da
sociedade humana como fatos de cultura
a diferencia.
(2006, p. 43). A leitura transversal dos textos re-
unidos sob a égide de A Comunicação
Nesses artigos, Benveniste apresenta
permite ver um ponto que eles não evi-
uma face do que chama – no Prefácio
denciam separadamente: o que é “comu-
de Problemas I – uma “contribuição ao
nicado” transcende a pura mensagem.
grande problema da linguagem” (BEN-
O “comunicado” – o sentido, a cabeça de
VENISTE, 1988). Ele parte da definição
Medusa – encontra lugar no signo, sem
de signo linguístico (cf. Natureza do sig-
dúvida, mas também em todas as outras
no linguístico) para, então, caracterizar
faces do humano. Aceitar isso leva à
a linguagem humana em contraste com
excelente conclusão de Boulbina em seu
a comunicação animal (cf. Comunica-
pequeno dossier3 sobre A comunicação
ção animal e linguagem humana); em
em Benveniste:
seguida, discute as relações entre pen-
samento e linguagem (cf. Categorias de as questões da linguística não engajam so-
mente a linguística, mas também a filosofia,
pensamento e categorias de língua) para, a antropologia, e muitas outras disciplinas
finalmente, tratar da linguagem em sua ainda (BOULBINA, 2009, p. 116).
relação com o inconsciente (cf. A função
A comunicação humana, assim en-
da linguagem na descoberta freudiana).
tendida, é apenas a face exterior de
Que fio condutor há entre esses textos
uma propriedade muito maior e mais
que lhes permite figurar sob o mesmo
complexa: a linguagem.
rótulo? Tendo-se em mente que a organi-
zação do primeiro volume dos Problemas
fora feita pelo próprio Benveniste – o
As linhas argumentativas
que não é válido para o segundo volume, de Categorias
organizado por M. DJ. Moïnfar –, essa
pergunta recobre-se de maior relevân- O artigo de Benveniste, para fins de
cia. Por que Benveniste reuniu-os em apresentação, pode ser dividido em cinco
A comunicação? A resposta, segundo momentos: a formulação do problema;
penso, decorre da própria organização os encaminhamentos; a análise; a for-
dessa parte do livro: Benveniste, com mulação de resposta ao problema; uma
ela, anuncia que a comunicação humana demonstração e, finalmente, a conclusão.
– que é bem distinta da animal – tem a A formulação do problema: Benvenis-
propriedade de “comunicar” o humano te parte de duas considerações acerca

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dos usos da língua: de um lado, consiste Esse conteúdo recebe forma quando é enun-
no fato de que “a realidade da língua ciado, e somente assim. Recebe forma da
língua e na língua, que é o molde de toda ex-
permanece, via de regra, inconsciente” pressão possível; não pode dissociar-se dela
(BENVENISTE, 1988, p. 68); de outro, e não pode transcendê-la (BENVENISTE,
consiste no fato de que “por mais abstra- 1988, p. 69).
tas ou particulares que sejam as opera- Ou ainda: a língua “dá a sua forma
ções do pensamento, recebem expressão ao conteúdo de pensamento” (BENVE-
na língua” (BENVENISTE, 1988, p. 68). NISTE, 1988, p. 69).
Essas considerações, apresentadas Deve-se estar atento aqui a dois pon-
por Benveniste quase como constatações tos : a) o conteúdo de pensamento recebe
4

tácitas, são fonte de muitas ambiguida- forma “da” e “na” língua; b) a língua dá
des e a principal diz respeito à convicção “sua” forma (em itálico na passagem ori-
de a língua apresentar os recursos “ao es- ginal) à língua e não “a” forma ou mesmo
pírito para o que chamamos a expressão apenas “forma” à língua. Quanto ao pri-
do pensamento” (BENVENISTE, 1988, meiro, é justo reconhecer que “língua” é
p. 68). “Esse é o problema que encaramos entendida, simultaneamente, como meio
sumariamente aqui” (BENVENISTE, e modo de realização; quanto ao segundo,
1988, p. 68). impõe-se perceber que Benveniste enten-
Eis o problema do qual parte Benve- de que o pensamento tem uma forma que é
niste: o fato de que “podemos dizer tudo, “a sua”, a qual é, por sua vez, como a forma
e podemos dizê-lo como queremos” (BEN- da língua. Se se entende “forma”, no sen-
VENISTE, 1988, p. 68) implica afirmar tido de organização – que é exatamente
que a língua expressa o pensamento? como Benveniste a entende ao dizer que
Observe-se que há uma diferença a língua é “organizada como combinação
importante aqui entre considerar que de ‘signos’” (BENVENISTE, 1988, p. 69) –
as operações de pensamento recebem conclui-se que o pensamento é organizado
expressão na língua e afirmar que a lín- “como” a língua é organizada.
gua permite a expressão do pensamento. É isso que o leva a concluir que a for-
Para dar conta dessas indagações ma da língua é condição de transmissão e
iniciais, Benveniste tenta circunscrever de realização do pensamento: “não capta-
o que chama de “pensamento”: mos o pensamento a não ser já adequado
[...] “o que queremos dizer” ou “o que temos aos quadros da língua. Fora isso, não há
no espírito’ ou ‘o nosso pensamento” (seja lá senão obscura volição” (BENVENISTE,
como for que o designemos) é um conteúdo
de pensamento, bem difícil de definir em si 1988, p. 69).
mesmo (BENVENISTE, 1988, p. 69). Mais uma vez, cabe chamar a atenção
aqui, pois os termos podem ser engana-
Nesse ponto, Benveniste formula uma
dores: esse raciocínio de Benveniste não
tese forte:
implica dizer que a língua dá uma forma

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ao conteúdo de pensamento ou mesmo o que confirmaria certa independência e
que a língua tem formas prontas que superioridade do pensamento em relação
servem para transmitir o pensamento. à língua.
Benveniste nega isso ao recorrer à ideia Assim, ele passa a estudar as ca-
do continente conteúdo: tegorias de Aristóteles, tomadas como
[...] falar de continente e conteúdo é simpli- espécie “dados”, ou ainda, como
ficar. A imagem não deve enganar. Estri- [...] inventário das propriedades que um
tamente falando, o pensamento não é uma pensador grego julgava predicáveis a um
matéria à qual a língua emprestaria forma, objeto, e consequentemente como a lista dos
pois em nenhum momento esse ‘continente’ conceitos a priori que, segundo ele, organi-
pode ser imaginado vazio de seu ‘conteúdo’, zam a experiência (BENVENISTE, 1988,
nem o ‘conteúdo’ como independente do seu p. 70-71).
‘continente’ (BENVENISTE, 1988, p. 69-70).
Em outras palavras, Benveniste toma
Além do mais, o raciocínio apresenta-
a obra de Aristóteles5 como corpus de
do até aqui não passa de pura constata-
exame rigoroso das categorias de um
ção de uma relação de fato, pois
pensamento e de uma língua definidos,
[...] apresentar esses dois termos, pensamen- no caso, o grego.
to e língua¸ como solidários e mutuamente
necessários não nos indica a forma pela A análise: observe-se a tradução li-
qual são solidários, nem a razão por que teral proposta por Benveniste do texto
os julgaríamos indispensáveis um ao outro original de Aristóteles:
(BENVENISTE, 1988, p. 69).
Cada uma das expressões que não entram
Em outras palavras, não basta dizer numa combinação significa: a substância;
ou quanto; ou qual; ou relativamente a que;
que um não existe sem o outro se não se
ou onde; ou quando; ou estar em posição; ou
explica a relação específica que há entre estar em estado; ou fazer; ou sofrer. “Subs-
eles, afinal é evidente que os termos não tancia”, por exemplo, em geral, “homem”;
“cavalo”; — “quanto”, por exemplo, “de dois
são sinônimos.
côvados; de três côvados”; — “qual”, por
Eis, então, o problema tal como exemplo, “branco; instruído”; — “relativa-
Benveniste o reformula: apesar de se mente a que”, por exemplo, “duplo; meio;
maior”; — “onde”, por exemplo, “no Ginásio;
reconhecer a estreita relação entre pen-
no mercado”; — “quando”, por exemplo, “on-
samento e língua, é possível reconhecer tem; no ano passado”; — “estar em posição”,
algo que seja exclusivo de um e de outro? por exemplo, “está deitado; está sentado”; -
“estar em estado”, por exemplo, “está calçado;
Os encaminhamento: Benveniste tra-
está armado”; — “fazer”, por exemplo, “corta;
ta o problema pela via das “categorias”. queima”; — “sofrer”, por exemplo, “é cortado;
Quer dizer, em um primeiro momento po- é queimado” (BENVENISTE, 1988, p. 71).
der-se-ia dizer que “o pensamento pode Tradicionalmente, assim se apresen-
pretender apresentar categorias univer- tam as categorias: (1) substância, (2)
sais, mas que as categorias linguísticas quantidade, (3) qualidade, (4) relação,
são sempre categorias de uma língua em (5) lugar, (6) tempo, (7) posição, (8) posse,
particular” (BENVENISTE, 1988, p. 70), (9) ação e (10) paixão.

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Como se pode ver, a tradução de Ben- mais importante era realmente entre o
veniste evidencia um ponto poucas vezes ativo e o médio. Isso quer dizer que
destacado, qual seja, o da relação entre
[...] sob o aspecto da língua, essa é uma no-
as categorias e a língua grega. Observe- ção essencial. Contrariamente ao que nos
-se a seis primeiras categorias pareceria, o médio é mais importante que
A “substância”, (1), indica o subs- o passivo que dele deriva (BENVENISTE,
1988, p. 74).
tantivo; o “quanto”, (2), a quantidade (o
“ser-quantésimo”, quantidades discretas, Quanto à categoria (8), posse, ela não
o número propriamente dito, ou quanti- deve ser tomada no sentido habitual
dades contínuas); a categoria “qual”, (3), de “ter”, posse material. Os exemplos
indica o adjetivo (“qual-idade” sem acep- aqui também são esclarecedores: “está
ção de espécies); a “relativamente a que”, calçado” e “está armado”. Benveniste
(4), indica elementos em si mesmos rela- classifica-os como formas verbais do
tivos (o conceito de “duplo” ou de “meio”) perfeito médio que, em grego, não tem
ou as especificidades dos adjetivos de apenas valor temporal, mas indica
possuírem uma forma comparativa; a também, conforme o caso, um modo da
“onde”, (5), indica o espaço, o advérbio; a temporalidade ou uma maneira de ser do
“quando”, (6), o tempo, também advérbio. sujeito, o que se sobressai nos exemplos
Essas seis primeiras categorias “re- ao traduzi-los incluindo a noção de “ter”:
ferem-se todas a formas nominais. É na “tem os calçados no pé” e “tem as armas
particularidade da morfologia grega que sobre si”. Segundo Benveniste,
encontram sua unidade” (BENVENIS- concebe-se, tendo em vista o número de
TE, 1988, p. 73). São um conjunto. noções que só se exprimem em grego sob a
forma do perfeito, que Aristóteles o tenha
As quatro categorias finais também tornado num modo específico do ser, o esta-
formam conjunto: “são todas categorias do (ou habitus) do sujeito (BENVENISTE,
verbais” (p. 73): a categoria “fazer”, (9), 1988, p. 75).
indica a voz ativa do verbo; a “sofrer”, O que essa análise de Benveniste colo-
(10), a voz passiva do verbo. Quanto às ca em destaque é absolutamente original:
duas outras categorias, a (7) e a (8), é justo a língua grega é colocada em relação com
dizer que com relação a elas Benveniste as categorias de pensamento. É isso que
demostra toda a sua erudição. Observe-se. o leva a concluir que é possível “trans-
Pode-se questionar sobre o interesse crever em termos de língua a lista das
de uma categoria como a (7), posição. Que dez categorias” (BENVENISTE, 1988,
valor teria? A resposta está nos exemplos p. 75). Para Benveniste, Aristóteles, ao
“está deitado” e “está sentado” que na propor a “tábua das categorias” pensava
morfologia grega correspondem à voz arrolar os predicados da proposição, no
média. Benveniste chega a afirmar que no entanto, não percebe que faz isso com as
sistema verbal do grego antigo a distinção distinções que o grego manifesta:

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Pensava definir os atributos dos objetos; que encontra eco na afirmação acima de
não apresenta senão seres linguísticos: a que “É o que se pode dizer que delimita
língua que, graças as suas próprias catego-
rias, permite reconhecê-las e especificá-las e organiza o que se pode pensar”.
(BENVENISTE, 1988, p. 76). Benveniste (1988), para comprovar
essa segunda tese, procede de uma ma-
A tese é forte e precisa ser melhor
neira completamente nova: ele examina
detalhada.
a noção grega de “ser”, presente no verbo
A formulação de resposta ao proble-
grego “ser”, para afirmar que a língua
ma: após essa análise, Benveniste crê
grega permitiu, com o seu verbo “ser”,
ter reunido as condições para responder
fazer do “ser” uma noção filosófica6, e faz
o problema que apresenta no início do
isso contrapondo o valor do verbo “ser”
artigo:
em grego – e em boa parte das línguas
Temos assim uma resposta para a questão
apresentada no inicio e que nos levou a
indo-europeias – à distribuição que tem
esta analise. Perguntávamo-nos de que na língua ewe, falada no Togo. Observe-
natureza eram as relações entre categorias -se a demonstração.
de pensamento e categorias de língua. Na
Conforme Benveniste (1988), a língua
medida em que as categorias de Aristóteles
se reconhecem válidas para o pensamento, ewe distribui a noção de “ser” em muitos
revelam-se como a transposição das cate- verbos. O linguista lista cinco:
gorias de língua. É o que se pode dizer a) Nyé – marca a identidade entre o
que delimita e organiza o que se pode
pensar. A língua fornece a configuração sujeito e o predicado (“ser quem”,
fundamental das propriedades reconhe- “ser o que”);
cidas nas coisas pelo espirito. Essa tábua b) Le – exprime a existência (Mawu
dos predicados informa-nos, pois; antes de
le, “Deus existe”); tem também
tudo, sobre a estrutura das classes de uma
língua particular (BENVENISTE, 1988, emprego predicativo de situação,
p.76, grifos meus). de localização (“estar num lugar,
De fato, a explicação de Benveniste num estado, num tempo, numa
é incontestável e seus argumentos são qualidade”): e-le nyuie (“ele está
irrefutáveis. Sua tese é absolutamente bem”), e-le a fi (“ele está aqui”),
comprovável: a análise categorial de (e-le ho me (“ele está em casa”);
Aristóteles decorre da estrutura espe- c) Wo – significa “fazer, cumprir,
cífica da língua em que fora formulada, produzir um efeito”, em combi-
no caso, o grego. nação com um termo indicador
No entanto, há ainda uma segunda de matéria, permite predicação
tese, decorrente desta, que está bem (wo com ke “areia” = “estar/ser
clara na passagem acima: se as cate- arenoso”7; com tsi “água” = “estar
gorias aristotélicas são as categorias úmido”). O que se apresenta como
do grego segue-se que as categorias de um “ser” de natureza em francês,
pensamento são categorias de língua, o Il “fait” du vent, “está ventando”,
é um “fazer” em ewe;

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d) Du – indica predicação relativa a que a língua seria “o decalque de uma
um termo de função, de dignida- ‘lógica’ inerente ao espírito, [...], exterior
de: du fia = “ser rei”; e anterior à língua” (1988, p. 79). Ambas
e) Di – empregado com certos pre- são tautológicas. Isso leva Benveniste a
dicados de qualidade física, de concluir, em relação ao problema coloca-
estado: di ku = “estar magro”; di do no começo – se a língua expressaria o
fo = “ser devedor”. pensamento –, que a língua é condição
Essa demonstração serve para Ben- do pensamento. Nem expressão, nem
veniste afirmar que os cinco verbos em decalque, mas condição.
ewe correspondem aproximativamente
ao nosso verbo “ser”. O linguista faz isso Conclusões acerca dos
ressalvando que essa demonstração é
feita a partir do exterior do ewe e não
apontamentos de leitura
do interior. Quer dizer, usa-se a “nossa” A leitura feita acima permite expor
língua, a língua indo-europeia, para des- alguns pontos conclusivos que dizem
crever as cinco possibilidades presentes respeito aos encaminhamentos possíveis
em ewe, no entanto, acerca da reflexão esboçada aqui. Para
[...] no interior da morfologia ou da sintaxe mim, a prospecção da teoria benvenis-
ewe, nada aproxima esses cinco verbos entre
tiana, a partir de Categorias, está sin-
eles. É com relação aos nossos próprios usos
linguísticos que lhes descobrimos qualquer tetizada no título deste artigo: trata-se
coisa em comum (1988, p. 79). das relações entre a língua, as línguas e
Segundo ele, essa análise “egocêntri- o pensamento.
ca” esclarece melhor o próprio grego na Como evidência disso, observe a con-
medida em que coloca luzes sobre um clusão de Benveniste em Categorias:
fato que é próprio das línguas indo-eu- Sem dúvida, não é fortuito o fato de que a
epistemologia moderna não tente constituir
ropeias e não uma situação universal8.
uma tábua das categorias. É mais produtivo
A conclusão: Benveniste conclui seu conceber o espirito como virtualidade que
artigo convicto de que pode refutar duas como quadro, como dinamismo que como
ilusões, de sentido opostos, acerca do estrutura. É inegável que, submetido às
exigências dos métodos científicos, o pen-
tema que o mobilizou. samento adota em toda parte os mesmos
A primeira ilusão é a de que a língua meios em qualquer língua que escolha para
seja “apenas um dos intermediários do descrever a experiencia. Nesse sentido,
torna-se independente, não da língua, mas
pensamento”. Não. Para Benveniste das estruturas linguísticas particulares. O
quando “tentamos atingir os quadros pensamento chinês pode muito bem haver
próprios do pensamento, só nos apode- inventado categorias tão específicas como
o tao9, o yin e o yan10: nem por isso é menos
ramos das categorias da língua” (1988,
capaz de assimilar os conceitos da dialética
p. 79), logo ela é o grande intermediário; materialista ou da mecânica quântica sem
a segunda ilusão, inversamente, é a de que a estrutura da língua chinesa a isso se

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oponha. Nenhum tipo de língua pode por liga-se à faculdade de linguagem”,
si mesmo e por si só favorecer ou impedir a faculdade esta definida, posterior-
atividade do espirito. O voo do pensamento
liga-se muito mais estreitamente às capa- mente, no artigo de 1963, Vista
cidades dos homens, às condições gerais da d’olhos sobre o desenvolvimento
cultura, à organização da sociedade que à da linguística, como “a mais alta
natureza particular da língua. A possibili-
dade do pensamento liga-se à faculdade de
forma de uma faculdade que é
linguagem, pois a língua é uma estrutura inerente à condição humana, a
informada11 de significação e pensar é ma- faculdade de simbolizar”. Nesse
nejar os símbolos da língua.
sentido, pode-se compreender
A citação é longa, mas é necessária. que “os mesmos” meios que o
Nela, Benveniste coloca alguns pontos pensamento tem para “descrever a
essenciais: experiência”, independentemente
• Os meios do pensamento – no- do idioma (grego, ewe, etc.), são os
tadamente quando este é sub- meios do símbolo, pois “pensar é
metido aos métodos científicos manejar os símbolos da língua”.
– se repetem (são “os mesmos”), • Apesar de as operações do pensa-
independentemente da estrutura mento receber sempre “expressão
linguística particular. Isso conduz na língua”, esta não é um limita-
Benveniste a afirmar que, ao me- dor dessa expressão. O mesmo
nos em certo sentido, o pensamen- chinês que inventou o Tao com-
to independe das línguas embora preende a dialética materialista.
não independa da língua. Ora, Isso quer dizer que, sendo a língua
isso é quase contraditório com o “uma estrutura informada de sig-
raciocínio exposto antes a respeito nificação” em que a função simbó-
das categorias de Aristóteles, uma lica da linguagem opera, o homem,
vez que Benveniste considera como animal simbólico que é, está
que, vale repetir, “Aristóteles, ra- sempre sob o império das línguas.
ciocinando de maneira absoluta, Cabe lembrar aqui uma bela for-
reconhece simplesmente certas mulação de Jakobson, justamente
categorias fundamentais da lín- em um texto sobre tradução: “as
gua na qual pensa” (BENVENIS- línguas diferem essencialmente
TE, 1988, p. 71), no caso, o grego. naquilo que devem expressar. E
Isso me leva a indagar: o que são não naquilo que podem expressar”
esses “mesmos meios” presentes (JAKOBSON, 1974, p. 69). Nos
em “qualquer língua” que permi- termos de Benveniste: pode-se
tem “descrever a experiência”? expressar a dialética materialista
A resposta parece vir adiante: em qualquer língua, mas é mister
“a possibilidade do pensamento que se atente para como isso deve
ser feito em cada língua.

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Langue, langues, pensée: notes 6
Benveniste considera o “ser” “a condição de
todos os predicados” (BENVENISTE, 1988, p.
de lecture de Catégories de 76). No grego, ele tem empregos que abarcam
pensée et catégories de langue a função lógica (cópula), a função nominal
(posposto ao artigo), pode servir de predicado
a si mesmo, etc.
Resumé A tradução brasileira opta por “estar areento”.
7

8
Neste ponto é que os filósofos, em especial
Ce travail a pour but d’examiner l’ar- Derrida (cf. supra), reagiram contrariamente:
Benveniste chega a sugerir certa relativização
ticle d’Émile Benveniste, Catégories de da metafísica ocidental, na medida em que
pensée et catégories de langue, 1958, considera que a estrutura do grego predispõe
publié en 1966 dans l’ouvrage intitulé a noção de “ser” a uma vocação filosófica. Como
Problèmes de la linguistique générale disse acima, não seguirei o viés filosófico, mas
1. L’objectif général est de présenter o leitor interessado se beneficiará bastante
comme Benveniste pense la relation da discussão presente em Laplantine (2011,
entre pensée et langage. Pour ce faire, p. 69-92).
9
Termo de filosofia e religião chinesas.
dans un premier temps, le contexte 10
Também grafados como Yin-Yang, são termos
d’apparition de l’article est présenté; da filosofia oriental chinesa, ligada ao taoísmo.
alors l’article est lu, essayant d’éta- 11
Em francês, “enformée”. A tradução brasileira
blir les points principaux de réflexion propõe “enformada”; eu prefiro “informada”.
de l’auteur. Enfin, les conclusions sont Para entender o valor de “informada” aplicada
formulées. Ce texte conclut en soulig- à teoria de Benveniste, ver Normand (2009) em
nant les relations suivantes: la pensée Referências.
et le symbole, la langue et la réalité,
la langue et les langues. Referências
Mots-clés: pensée; langage; langue;
langues; symbole. AUBENQUE, Pierre. Aristote et le langage,
note annexe sur les catégories d’Aristote. A
propos d’un article de M. Benveniste. Anna-
Notas les de la facultés des Lettres d’Aix, v. XLIII,
Aix-em-Province, n. 43, p. 85-105, 1965.
1
O artigo Categorias de pensamento e categorias
de língua também será referido aqui pela pala- BENVENISTE, Emile. Catégories de pensée
vra Categorias. A edição utilizada é a brasileira, et catégories de langue. In: ______. Problèmes
presente em Problemas de linguística geral I de linguistique générale, 1. Paris: Gallimard,
(cf. Referências). Quando necessário, a edição 1966.
francesa foi também consultada (cf. Referên-
cias). BENVENISTE, Émile. Categorias de pen-
2
Disponível em: <https://www.jstor.org/stable/ samento e categorias de língua. In: ______.
i20842780>. Problemas de linguística geral I. Campinas:
3
BOULBINA, Seloua Luste. “Dossier”. In: Pontes, 1988 (tradução de Maria da Glória
BENVENISTE, E. La comunication: extrait Novak e Maria Luiza Neri).
de Problémès de linguistique générale. Paris,
Folioplus, Philosophie, 2009. BOULBINA, Seloua Luste. “Trois questions
4
Esses pontos também são lembrados por posées au texte”. In: BENVENISTE, E.
Laplantine (2011, p. 71-72), embora com pro- La comunication: extrait de Problémès de
pósitos ligeiramente distintos dos meus aqui. linguistique générale. Paris, Folioplus, Phi-
5
As categorias é o primeiro texto do Organon losophie, 2009.
conjunto dos tratados de lógica de Aristóteles.

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