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1

UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ


INSTITUTO DE FILOSOFIA E CIÊNCIAS HUMANAS
FACULDADE DE HISTÓRIA
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA SOCIAL DA AMAZÔNIA

RAFAEL AMARO DA SILVA

Colônia Militar Pedro II:


nação e civilização na fronteira norte do Brasil
(século XIX)

Belém
2013
2

RAFAEL AMARO DA SILVA

Colônia Militar Pedro II:


nação e civilização na fronteira norte do Brasil
(século XIX)

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal do Pará, como exigência
parcial para obtenção do título de Mestre em
História Social da Amazônia.
Orientador: Professor Doutor Márcio Couto
Henrique.

Belém
2013
3

RAFAEL AMARO DA SILVA

Colônia Militar Pedro II:


nação e civilização na fronteira norte do Brasil
(século XIX)

Dissertação de Mestrado apresentada ao


Programa de Pós-Graduação em História da
Universidade Federal do Pará, como exigência
parcial para obtenção do título de Mestre em
História Social da Amazônia.
Orientador: Professor Doutor Márcio Couto
Henrique.

Data de aprovação: ___/___/2013


Banca Examinadora
_____________________________________________
Professor Doutor Márcio Couto Henrique
(Orientador – UFPA)
_____________________________________________
Professor Doutor José Maia Bezerra Neto
(Examinador interno - UFPA)
_____________________________________________
Professor Doutor Ariel Feldman
(Examinador externo – UFPA – Campus Universitário do Tocantins/Cametá)
4

Às mulheres da minha vida, Inês e Carol.


5

“O homem não possui somente o poder de reproduzir, de tirar as conseqüências de


uma conduta adquirida, e possui igual a capacidade de mudar a ordem relativa de seus
atos e de representações”
Pierre Francastell.
6

AGRADECIMENTOS.

Agradeço primeiramente a minha mãe, Inês Terezinha e minha avó, Inês


Lavareda, por acreditarem, apoiarem e possibilitarem minhas escolhas. Ao Bruno,
Carolina e Maria, por sempre estarem presentes ao meu lado. E ao meu primo Felipe,
pela pequena grande ajuda neste trabalho.
A meu orientador Márcio Couto pela paciência, apoio, aos choques de realidade,
pela cobrança e dedicação. Muito obrigado por acreditar neste trabalho e em seu
realizador.
Agradeço a Profa. Shirley Nogueira por me iniciar na pesquisa e apresentar a
vida dos colonos de Pedro II.
Agradeço a todos os meus bons professores que, de alguma forma, construíram
este trabalho. Agradeço, também, ao Carlos Bastos, pelo apoio e pela conversa. E a
Marcos Magalhães, pelo apoio à pesquisa e pelo tempo.
Agradeço a banca de qualificação, ao Prof. José Maia, pelo interesse e por
acreditar nesta pesquisa e ao Prof. Rafael Chambouleyron, por apontar caminhos não
observados.
Agradeço aos meus amigos de turma, por estarem durante esta jornada no
mundo acadêmico e na minha vida. E aos meus velhos amigos por estarem na vida e no
mundo comigo.
A todos os funcionários do Arquivo Publico do Estado Pará, da Comissão
Demarcadora de limites e do Grêmio Literário Português, pela atenção e disposição dos
documentos para a realização desta pesquisa.
Agradeço aos meus colegas de trabalho pelo apoio e compreensão em minhas
ausências, principalmente a direção do Instituto Felipe Smaldone.
E um agradecimento especial à pessoa que dividiu comigo os diversos
momentos destes últimos anos, sendo minha companheira de todas as horas e situações,
Carol, que foi essencial para a conclusão deste trabalho. Obrigado por estar na minha
vida e trazer vida nova todos os dias!
7

SUMÁRIO

RESUMO..................................................................................................................... 8
ABSTRACT................................................................................................................ 9
ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES................................................................................... 10

INTRODUÇÃO................................................................................................... 11

1. NAS MARGENS DOS RIOS E DAS NAÇÕES................................................. 15


1.1 Pedro II na fronteira...................................................................................... 16
1.2 Colônias no Império............................................................................................ 24
1.3 “Braços inúteis... o amor ao trabalho”.............................................................. 26
1.4 As terras abundantes e férteis do Cabo Norte................................................... 28
1.5 “Para o fim de restituí-los ao seio da sociedade”.............................................. 31

2. PLANTAS E MAPAS: O ESPAÇO DESENHADO.......................................... 36


2.1 Casas, jardins e civilidade............................................................................. 38
2.2 Construindo e improvisando......................................................................... 48
2.3 Terras férteis e braços “ociosos”.................................................................. 51
2.4 Fronteiras visíveis........................................................................................ 56

3. GUERRA E PAZ NA FRONTEIRA DOS HOMENS...................................... 58


3.1 Habitar a colônia militar............................................................................... 59
3.2 Soldados, doentes e esqueletos no inóspito..................................................... 65
3.3 Revoltas e reações.......................................................................................... 70
3.4 Discursos de sucesso e fracassos.................................................................... 77

CONSIDERAÇÕES FINAIS.............................................................................. 82
FONTES.............................................................................................................. 84
BIBLIOGRAFIA................................................................................................ 87
8

RESUMO

Esta dissertação aborda a Colônia Militar Pedro II, fundada em 1840, às margens do rio
Araguari, no atual estado do Amapá, limite da região de Contestado entre Brasil e
França. A documentação oficial e notícias de jornais da época revelam preocupação
com a política de vigilância, conquista e povoação da fronteira norte do Brasil. A partir
disso, discute-se a especialidade da Colônia e o cotidiano de seus habitantes, marcado
pela precariedade da vida na fronteira da “civilização” e pelos conflitos resultantes
disso.

Palavras-chave: Colônia Militar Pedro II, fronteira, civilização, Amazônia, século XIX.
9

ABSTRACT

This dissertation addresses the Pedro II Military Colony, founded in 1840, the river
Araguari, the current state of Amapá, Contested region boundary between Brazil and
France. The official documents and newspaper reports of the time show concern for
political surveillance, conquest and settlement of the northern border of Brazil. From
this, we discuss the specialty of the Colony and its inhabitants daily, marked by
precariousness of life on the border of "civilization" and the resulting conflicts that.

Keywords: Military Colony Pedro II, frontier civilization, Amazon nineteenth century.
10

ÍNDICE DE ILUSTRAÇÕES

Figura 1. Carte générale de la Guyane représentant lês prétentions dês deux parties ET
dressée principalent d’àprés Le cartes annexées aux document français et brésiliens. In:
obras do Barão do Rio Branco IV: Questões de limites Guiana Francesa, 2ª memória,
ministério das relações exteriores, p. 144..................................................................18

Figura 2. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (31/12/1854) Nº 1........................39

Figura 3. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (31/12/1854). Nº 1 (detalhe


recortado pelo autor).................................................................................................40

Figura 4. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/01/1855) Nº 3.........................43

Figura 5. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/01/1855) Nº 3 (recorte do


autor)........................................................................................................................46

Figura 6. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/01/1855) Nº 2.........................48

Figura 7. APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/01/1855). Nº 2 (recorte do


autor)........................................................................................................................50
11

Introdução

“Tem sido, com efeito, um desleixo indesculpável o abandono de nossas


fronteiras e esse desleixo é, hoje, maior que nunca”.1
Assim, em 1847, o tenente general Francisco José de Souza Soares Andrea,
iniciava o primeiro artigo de suas observações aos “apontamentos sobre o estado das
fronteiras no Brasil”, de Duarte da Ponte Ribeiro, no qual enfatizava a dificuldade de
defender o território (devido a sua grande extensão) e o abandono em que o Brasil
deixava sua fronteira, indicando como solução a criação de colônias militares agrícolas
nas fronteiras. Andrea defendia que
não basta, também, ter pontos fortificados e destacamentos regulares por toda
nossa extensa fronteira, é preciso desenvolver por toda ela uma população
agrícola ou industriosa da melhor gente do país, nem será isto, de certo, útil ou
proveitoso feito com colonos estrangeiros, ou mesmo com homens de cor. 2

Desta forma, o projeto visado pelo Tenente General Andrea justificava que não
seriam apenas pontos militares ou patrulhas que fariam a extensa fronteira brasileira
protegida. Para o militar, deveria existir colonização eficaz e produtiva, na qual seus
colonos povoariam e defenderiam os limites da nação. Essa proposta havia sido
implantada às margens do rio Araguari, no atual estado do Amapá, em 1840. A colônia
militar Pedro II deveria ser constituída por brancos e indígenas (a serem recrutados
pelos colonos), povoando, produzindo e defendendo a fronteira norte do Brasil. Ou seja,
não haveria a participação de escravos negros e de estrangeiros, o que se tornava difícil
após a Cabanagem, rebelião que deixara a demografia paraense consideravelmente
reduzida.
A colonização do Cabo Norte não significava apenas conquista do território em
si, mas a manutenção constante da soberania nacional do império brasileiro. O Tenente
General Andrea enfatizava a importância da colonização dos rios afluentes do
Amazonas, tendo ele mandado povoar a região. Para Francinete dos Santos Cardoso, a
colônia militar Pedro II constituiu, do lado brasileiro, a principal tentativa de defesa do
território no período do Império, na região Contestada.3

1
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Apontamentos sobre o estado das fronteiras no Brasil. Apontamentos sobre
o estado da Fronteira do Brasil em 1844, em adiantamento à memória de 1842 sobre limites do Império.
Comissão demarcadora de limites. p. 19.
2
Idem, p. 20
3
CARDOSO, Francinete dos Santos. “O Contestado Franco-Brasileiro: conflitos e representações”. In:
NEVES, Arthur de Freitas & LIMA, Maria Roseane Pinto. Faces da História da Amazônia. Belém, Ed.
Paka-Tatu, 2006. p. 578
12

Tais preocupações estavam no discurso colonizador do militar, pois o uti


possidetis era a base de posse do território, que deveria ser conquistado e mantido, já
que o movimento migratório na fronteira era intenso, principalmente por criminosos,
desertores, escravos fugidos e grupos indígenas que tentavam ser recrutados pelos dois
lados da fronteira. Tais questões justificavam a existência de um posto militar que
mantivesse o controle em região tão erma e de difícil acesso, como era o Cabo Norte,
não somente para assegurar o domínio pelas forças militares, mas também como agentes
civilizadores dos grupos marginais da sociedade.
Essa pesquisa possui interesse histórico-geográfico baseado na maneira como o
tempo e o espaço influenciam na construção histórica dos grupos humanos, assim como
os discursos de civilização e formação de uma nação são construídos nos mais diversos
ambientes, sendo eles simbólicos, políticos, físicos e sociais. Logo, busco abordar tais
aspectos sobre a fronteira no império brasileiro, partindo da colônia militar Pedro II,
como referência de existência histórica na fronteira norte do império brasileiro.
Esta pesquisa teve início em meu trabalho de monografia de graduação em
História, orientada por Shirley Maria Silva Nogueira, na Escola Superior Madre
Celeste.4 Inicialmente, com enforque na história militar da Amazônia, apresentando
como o exército exercia sua presença no Cabo Norte, no século XIX, e as dificuldades
da vida na fronteira.
Posteriormente, o mesmo tema foi abordado na especialização, orientada por
Érika Amorim da Silva, com enfoque didático, propondo o uso dos documentos e
discursos da colônia militar Pedro II no ensino da História da Amazônia, em temas
como colonização, militarização da região norte do Brasil, fronteira, território e nação,
no século XIX. 5
Para o projeto do Programa de Pós-Graduação em História Social da Amazônia
“Homens nas Fronteiras: Contexto, motivações e relações sociais na Colônia Militar
Pedro II do rio Araguari (meados do Século XIX)”, buscou-se enfatizar as lacunas
deixadas pelas duas produções anteriores, focando a fronteira como ponto de partida da
pesquisa.

4
PINHEIRO, Carolina de Paula Pereira & AMARO DA SILVA, Rafael. Os homens da fronteira.
Contexto, motivações e relações sociais na Colônia Militar Pedro Segundo do rio Araguari (meados do
Século XIX). Ananindeua, ESMAC (monografia de graduação), 2006.
5
AMARO DA SILVA, Rafael. Nas linhas do tempo e espaço: Análise sobre o estudo da fronteira Norte
a partir da Colônia Militar Pedro Segundo do Rio Araguari (Meados do Século XIX). Belém, Faculdade
Ipiranga (Monografia Aperfeiçoamento/Especialização em Ensino de História do Brasil), 2009.
13

Porém, ao longo do curso, foram feitas modificações no projeto de dissertação,


com a discussão de novas problemáticas e novas bibliografias. Procurei conferir atenção
à análise do espaço físico da colônia militar, baseada principalmente nas imagens da
colônia e das plantas baixas da casa do diretor e do quartel, mas também nas descrições
que fazem parte da região e das edificações à margem do rio Araguari.
Um fator que deve ser ressaltado são as lacunas documentais da colônia militar,
já que mesmo sendo fundada em 1840 e tendo seu fim em 1900, com a sua transferência
para o rio Oiapoque, a correspondência oficial encontrada se inicia em 1851 e tem seu
fim em 1885. Porém, a colônia militar Pedro II é citada em jornais, códices e livros
como parte do projeto de colonização do Cabo Norte, do Segundo Reinado,
encontrando-se diversos discursos e percepções da fronteira norte do Brasil.
Este trabalho se divide em três capítulos. O primeiro versa sobre os motivos e
lógicas de colonização da fronteira, o segundo sobre o espaço físico e sua construção da
colônia militar Pedro II e o terceiro sobre as pessoas que viviam na região do Cabo
Norte.
O capítulo inicial apresenta a fronteira norte do Brasil no século XIX,
contextualizando a fundação da colônia militar Pedro II, no Rio Araguari. Dessa forma,
procura entender as simbologias e lógicas de sua fundação, percebendo também suas
dificuldades e motivação em se estabelecer em área inóspita. Considera-se o discurso
oficial para a motivação civilizadora da colônia e os projetos envolvidos de
desenvolvimento da região para a formação de uma nação moderna forte e produtiva na
província do Pará.
O foco do segundo capítulo passa a ser a colônia em sua constituição física e sua
localização espacial, discutindo como o espaço é dinâmico e cheio de simbologias,
como a importância de determinados prédios como a igreja e o quartel possuem
descrições, enquanto o cemitério e a praça possuem destaques sutis em seu mapa
urbanístico. A documentação básica deste capítulo encontra-se nas plantas baixas de
prédios e na planta da colônia militar, além de descrições do espaço e das ações para o
mesmo, percebendo neste estudo como o espaço e o tempo influenciam as lógicas de
construção urbanas, mas que sofrem influência de várias referências.
O ultimo capítulo aborda o cotidiano dos colonos militares e civis na colônia
militar Pedro II, apontando as relações sociais existentes em conflitos e negociações,
nas lógicas dos motins, deserções e possibilidades de construir uma nova vida na
14

fronteira. Neste ponto da pesquisa pretendo chegar aos habitantes do espaço, aqueles
que eram destinados a defender a soberania na fronteira.
Por fim, esta pesquisa busca contribuir para a historiografia amazônica, no
estudo da fronteira franco-brasileira, em um período que mesmo muito citado em suas
diversas temporalidades, ainda apresenta diversas questões a se abordar, sendo a colônia
militar Pedro II, apenas um ponto na complexa teia do tempo e espaço da história da
Amazônia e do Brasil.
15

1. Nas margens dos rios e das nações

"A quem tem mulher bonita e castelo de


fronteira, nunca lhe falta debate nem guerra."
(provérbio francês)

Este trabalho abordará a colônia militar Pedro II, no rio Araguari, mais
especificamente nas décadas de 1840 a 1860, ou seja, desde sua fundação, que coincide
com o início e consolidação do Segundo Reinado. Essa temporalidade marca o
momento de estabilidade nacional, já que a figura do imperador transmitia a imagem de
um novo regime político, findando muitos movimentos separatistas. Lilia Moritz
Schwarcz define este período da seguinte forma:

O período que vai de 1841 a 1864 — ano do início da Guerra do Paraguai – representa
uma fase importante para a consolidação da monarquia brasileira. Com efeito, as
rebeliões regenciais da Bahia, Pará e Maranhão haviam sido debeladas com a ajuda
do general Lima e Silva, que na época ganhou o título de barão de Caxias,
pelos serviços prestados. Também nesse momento, o Gabinete da
Maioridade, composto de Antonio Carlos e Martim Fr ancisco Andrade,
anistiaria simbolicamente os rebeldes que se entregaram às autoridades, o
que em muito colaborou para acalmar os ânimos e receios gerais. 6

Para a autora, as três primeiras décadas do Segundo Reinado marcam a


consolidação do regime monárquico que não ocorreu nem com D. Pedro I, nem com a
Regência. De fato, D. Pedro I estava mais preocupado em assegurar o Império brasileiro
que consolidá-lo, enquanto os regentes enfrentavam grande insatisfação das províncias
mais afastadas do Rio de Janeiro. Porém, D. Pedro II conseguiu considerável
estabilidade interna, dissuadindo movimentos separatistas como os ocorridos na década
de trinta do século XIX.
O Brasil se encontrava em momento de mudança para “novo” império, de
“novo” imperador e era grande a preocupação com a unidade nacional, diferente dos
traumas advindos do primeiro reinado e das insatisfações regionais do período
regencial. Assim, estava entre as prioridades do novo governo a necessidade de lidar
com as fronteiras.

6
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo:
Cia. Das Letras, 1998, p. 118.
16

1.1. Pedro II na fronteira

O século XIX passou por grandes transformações ao longo de seu percurso,


entre guerras, movimentos ideológicos, surgimento de teorias científicas, políticas e
econômicas7 que influenciaram o Brasil em diversos aspectos.
O Brasil viveu grandes processos, decorrentes de questões internacionais ou
nacionais. Neste século, somente no aspecto político, foi Colônia, Vice-Reino de
Portugal, Império e República. E apenas na primeira metade do século XIX, houve o
processo de independência, a abdicação do trono, muitos movimentos separatistas e um
golpe político (o da Maioridade). Dentro deste processo, existiu a preocupação em
tornar o Império brasileiro nação reconhecida interna e externamente, haja vista que a
preocupação com a formação da imagem de nação moderna era de grande importância.
Durante a construção da nação brasileira, existia a preocupação com três
aspectos básicos: o povo, que deveria compartilhar uma identidade comum; o território,
que abrigaria esse povo; e a soberania, que protegeria o território e o povo de intenções
estrangeiras. Esse “tripé”, no século XIX, estaria ligado, principalmente, ao projeto
nacional e da nacionalidade, sob ideal modernizador dos intelectuais do Segundo
Reinado.
Em busca dessa nação, em meados do século XIX, acompanhada das
transformações ocorridas em âmbito nacional e internacional, o Império brasileiro
encontrava a província do Pará em grande turbulência política e social, marcada por
conflitos tanto no campo de batalha como no campo ideológico. Os principais desses
conflitos, que ocasionaram a desestabilidade, foram a tomada de Caiena, em 1809 (e
mais tarde a sua devolução para a França, em 1817) e a Cabanagem, entre 1823 e 1840,8

7
Ver HOBSBAWM, Eric J. A Era das Revoluções: Europa 1789–1848. Rio de Janeiro: Paz e Terra,
1977.
8
Entendo o período da Cabanagem desde a Adesão do Pará a Independência (1823), interpretando como
primeiro foco separatista influenciado por ideais vintistas, e seu fim em 1840, com os últimos levantes
cabanos no interior. Esta questão é divergente em diversos estudos, já que autores sobre o movimento
cabano como RAIOL, D. A. Motins Políticos ou História dos Principais Acontecimentos Políticos na
Província do Pará desde o ano de 1821 até 1835. Coleção Amazônica, Série José Veríssimo, Belém,
Universidade Federal do Pará, 1970, p. 7, v. 1, apontam os acontecimentos políticos entre a adesão do
Pará a independência até 1840. Tornando-se uma obra fundamental sobre a Cabanagem, o mesmo inspira
obras como CHIAVENATO, Júlio José. Cabanagem: o povo no poder. São Paulo, Brasileiense, 1984; DI
PAOLO, Pasquale. Cabanagem: A Revolução Popular na Amazônia. Belém, CEJUP, 3ª Edição, 1990 e
SALLES, Vicente. Memorial da Cabanagem. Belém, Conselho Estadual de Cultura, 1985. Porém, estes
autores percebem a Cabanagem com início em 1835, com a tomada de Belém pelos cabanos. RICCI,
Magda Maria de Oliveira. “Cabanagem, cidadania e identidade revolucionária: o problema do patriotismo
17

pois estabeleceram uma fragilidade no tripé nacional do Brasil imperial no vale


amazônico, apresentado pela distância geográfica e política da capital do Império, em
relação à província do Pará.
Na tomada de Caiena, decorrente das Guerras Napoleônicas, se estabeleceu um
entrave na relação diplomática franco-portuguesa (e, mais tarde, franco-brasileira) de
definição de fronteira, pois com sua devolução ao governo francês, a queda de Napoleão
e o Tratado de Viena, a questão referente aos limites se tornou confusa, dando
oportunidade à tomada de território, por parte dos franceses no Cabo Norte, já que estes
afirmavam possuir suas fronteiras estabelecidas às margens do rio Araguari e não no
Oiapoque, como afirmavam os portugueses.
A figura 1 apresenta o território pretendido pela França, em vermelho no mapa,
como limite pretendido oficialmente, como parte de um “erro” cartográfico em que os
franceses consideravam como o rio Vicente Pinzon o rio Araguari, como afirmava o
Barão do Rio Branco: “o litígio entre o Brasil e a França tem por objetivo, como vimos,
um território marítimo e uma faixa de terras no interior que ladearia as Guianas
Holandesa e Inglesa e que atingiria talvez o Rio Branco”.9

na Amazônia entre 1835 e 1840”. In: Tempo. Revista do Departamento de História da UFF, 2006 pp.15 –
40. e RICCI, Magda Maria de Oliveira. “Fronteiras da nação e da revolução: identidades locais e a
experiência de ser brasileiro na Amazônia (1820-1840)”. In: Botetín Americanista, 2008. pp.77-96.,
mesmo tomando o ano de 1835 a 1840 como ponto inicial e final do conflito entre cabanos e imperiais,
considera a adesão do Pará como fundamental para a ideologia cabana, mesmo considerando momentos
distintos. Porém, obras de Geraldo Mártires Coelho apontam o movimento Vintista e sua influência em
lideranças como Batista Campos e Felipe Patroni na produção intelectual do movimento cabano
(COELHO, Geraldo M. Letras & baionetas: novos documentos para a história da imprensa no Pará,
Belém/Pa: Cejup, 1989. e COELHO, Geraldo M. Anarquistas, demagogos & dissidentes: a imprensa
liberal no Pará de 1822., Belém/Pa: Cejup, 1993. Obras mais recentes como de LIMA, L. D. B. “Entre
Cabanos e Plebeus: a presença da história clássica romana na obra Motins Políticos”. In: Revista História
em Reflexão: Vol. 4 n. 8 – UFGD - Dourados jul/dez, 2010, apontam como a produção de Raiol em
relação a “conflitos políticos sociais” desde 1821, SOUZA, Sueny Diana Oliveira de. A ordem da
fronteira: a atuação do Comando Militar na fronteira entre Pará e Maranhão (1790-1838). Rio de janeiro,
(artigo apresentado no XIV encontro regional da ANPUH-RIO), 2010, considera a Cabanagem e Adesão
como dois momentos distintos, mas como parte de um só momento, na Amazônia, entre outros trabalhos
mais recentes. Assim, considero que mesmo com nomenclaturas diferentes, 1823 (adesão do Pará ao
império brasileiro) até 1840 (fim oficial da Cabanagem) constituem um só movimento.
9
RIO BRANCO, José Maria da Silva Paranhos, Barão do. Questões de Limites: Guiana Francesa,
Brasília: Senado Federal, 2008(1º Edição 1945), p. 39.
18

Figura 1. Território pretendido pela França, em vermelho no mapa.

Esse processo de redefinição territorial exigiu a realização de diversas pesquisas


por parte do Império brasileiro sobre o processo de colonização histórica na fronteira
norte do Brasil. Entre as pesquisas temos as de Duarte da Ponte Ribeiro, em 1842,10 e
do Barão do Rio Branco,11 em suas argumentações no fim do século XIX, levando a
definir a atual fronteira do Brasil com a Guiana Francesa em 1º de dezembro de 1900,
subordinada à arbitragem do governo suíço, sendo que a fronteira foi definida no rio
Oiapoque.
O outro motivo da criação da colônia militar Pedro II está na Cabanagem, que
gerou um fluxo migratório de rebeldes na fronteira franco-brasileira, oferecendo aos
franceses a justificativa de “protegerem” seu suposto território, argumentando existirem
focos de “anarchistas” 12 em seu espaço, levando, assim, o seu antigo plano de chegar ao
rio Amazonas pelo Cabo Norte, mais especificamente pelo rio Araguari. Nesse período
ocorreram desentendimentos diplomáticos que resultaram em suspeitas e invasão
francesa na região:

10
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Memórias sobre os limites do império do Brasil com a Guyana Francesa.
Relatório encontrado na Comissão Demarcadora de Limites, de 1842. (datilografado), este trabalho é
parte de sua função na Secretaria do Ministério das Relações Exteriores entre os anos de 1841 – 1842.
11
RIO BRANCO, José Maria da Silva Paranhos, Barão do. Questões de Limites: Guiana Francesa,
Senado Federal, Brasília, 2008(1º Edição 1945).
12
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Memórias sobre os limites do império do Brasil com a Guyana Francesa.
Relatório encontrado na Comissão Demarcadora de Limites, de 1842. (datilografado), este trabalho é
parte de sua função na Secretaria do Ministério das Relações Exteriores entre os anos de 1841 – 1842. p.
16-20.
19

(...) houve (...) uma invasão à residência do cônsul francês no Pará, o senhor
Diniz Crouan. Malcher esperava encontrar ali refugiados do antigo regime, mas
não localizou nenhum de seus principais suspeitos. Por seu turno, conseguiu, isto
sim, um grave incidente com o governo francês, já que o cônsul protestou
oficialmente a seu país, passando a fixar-se em um navio de sua nacionalidade
ancorado em frente à Belém. Este incidente foi o início de uma longa pendência
diplomática, já que a França reagiu a partir de sua colônia nas Guianas, invadindo
o atual território do Amapá e mandando navios para frente da baía do Guajará em
Belém (...) 13

Tais questões apresentam o quadro da nova situação política (Segundo Reinado),


eis que a instabilidade interna (nacional) e externa (internacional) no pós-Cabanagem
tornou a região norte do império terra devastada pelo conflito, oferecendo possibilidades
a “oportunistas” que há muito tempo cobiçavam a região. No dia 16 de maio de 1840 o
jornal Treze de Maio publicava nota de João Antonio de Miranda, comentando a
intenção de fundar a colônia militar Pedro II, às margens do rio Araguari:

Das inclusas instruções dadas ao comandante do destacamento, que acaba de partir para
o rio Araguari, a fim de estabelecer-se com ele uma colônia militar com o título de
Pedro 2º verá V. Exa não só que em nada se alteraram as ordens de meus antecessores,
que por ventura lhes fossem transmitidas relativamente ao convite de famílias, que
quisessem ir habitar aquele e outros rios, mas ainda conhecerá que o governo toma o
mais vivo e decidido interesse em povoar as margens do rio Araguari e muitos outros
pontos ao norte da linha que oferecem inúmeras proporções à vida e infinitos recursos à
especulação e à indústria (...).14

É possível perceber em seu discurso a preocupação em povoar a região ao norte


do rio Araguari, não somente a colônia, mas muitos outros pontos ao norte da linha que
ofereceriam “inúmeras proporções à vida, e infinitos recursos à especulação e à
indústria”, conforme se vê no treco acima citado. Essa preocupação com a colonização
do Cabo Norte vem desde o período colonial, porém na primeira metade do século XIX
a tensão na fronteira franco-brasileira se tornou mais evidente. Para Vera Alarcón
Medeiros a colônia Pedro II surge

(...) nos receios do governo imperial causados pela constatação do estabelecimento do


posto militar francês no rio Amapá. Ao final dos anos 1830, o governo demonstraria a

13
RICCI, Magda. Fronteiras da Nação e da Revolução: Identidades Locais e a Experiência de Ser
Brasileiro na Amazônia (1820-1840). In: Boletín Americanista, Año LVIII, nº58, Barcelona, 2008, p. 81-
82.
14
Treze de Maio, Belém, 16 de maio de 1840, p. 6. Optou-se por atualizar a grafia de todos os
documentos utilizados.
20

preocupação em reforçar a ocupação ao longo de rios que desaguavam da Guiana


brasileira, Cabo do Norte, em direção ao Amazonas (...).15

No século XIX, mais especificamente nas décadas de 40 e 50, a região


amazônica era preocupação secundária das prioridades imperiais, porém não poderia ser
esquecida, principalmente com interesses exteriores tão evidentes, como o posto militar
francês no rio Amapá. Desta forma, a tensão entre França e Brasil, na região do Cabo
Norte, ocorria desde meados da década de trinta do século XIX, tendo sido implantados
dois pontos militares franceses (um no rio Amapá e outro na ilha de Maracá). Na década
seguinte o limite fronteiriço se tornava mais complicado, pois não existia definição
comum. Vera Medeiros explica que:

(...) Guizot, na chefia do ministério francês, contestaria qualquer processo de


demarcação, pois não havia concordância entre os dois governos sobre onde deveria ser
localizada a fronteira. Até se alcançar a conformidade de ambos os governos, ficaria
acordado que o território contestado, entre o Oiapoque e o Araguari, deveria ser
mantido desocupado. As negociações para determinação dos limites não ocorreriam
(...).16

Mesmo não havendo definição clara, era de comum acordo que a região de
Contestado deveria “ser mantida desocupada”, algo inviável, pois a área possuía fluxo
migratório de escravos fugidos, desertores e “criminosos” de ambos os lados da
fronteira, levando à intervenção das autoridades no Cabo Norte, com a implantação de
fortificações militares de ambos os lados.
Ao longo do processo político legal dos limites fronteiriços entre Brasil e Guiana
Francesa na região do Cabo Norte, o Segundo Reinado estabeleceu sua presença na área
do Contestado Franco-Brasileiro, através do projeto de colônias militares, sendo a
colônia militar Pedro II, no rio Araguari,17 a primeira experiência do projeto de
colonização das fronteiras do Brasil, iniciado em 1840.
Assim, é notória a tentativa do Estado de convencer os leitores do jornal Treze
de Maio a participarem da “nova” política de colonização da fronteira, usando o
discurso de que essas colônias lhes ofereceriam “inúmeras proporções à vida, e infinitos
recursos à especulação e a indústria”. O fato é que esse convite vinha essencialmente,
com o interesse do Estado de incentivar a colonização dessa terra “distante” e “erma”.

15
MEDEIROS, Vera B. Alarcón. Incompreensível colosso: A Amazônia no início do Segundo Reinado
(1840-1850). Barcelona, Universidade de Barcelona (tese de Doutorado), 2006, p. 113.
16
Idem, p. 98.
17
O rio Araguari está localizado no atual Amapá.
21

Contudo, esse não era o único interesse por parte do Estado nestas regiões de fronteira,
havia também o que José Maia Bezerra Neto descreve como a significativa “(...)
presença de escravos fugidos (...), índios, desertores, réus da justiça brasileira e toda
sorte de aventureiros (...)”.18
Dessa forma, com a fundação de colônias militares o governo necessitava tomar
posse do território para vigiar esses “foragidos” e, como posto militar, a colônia teria
como proteger a soberania nacional e esses colonos ao norte do rio fariam o papel de
informantes sobre a movimentação nestas áreas de fronteira. De fato, a Guiana Francesa
havia sido invadida pelas tropas luso-brasileiras, em 1809, devido às guerras
napoleônicas, sendo devolvidas para o domínio francês somente em 1817, decorrente do
Tratado de Viena. Porém, com a província do Pará sendo afetada pelo movimento
cabano até aproximadamente 1840, essa série de situações causava as imprecisões entre
o que pertencia a França e ao Brasil, pois o movimento cabano avançou para o interior
da província e a preocupação com a fronteira somente foi tratada com mais seriedade
com o fim do movimento.
Esse período de turbulência levou a grande instabilidade na soberania nacional
em relação à vigilância e defesa das fronteiras. Nos apontamentos do Duarte da Ponte
Ribeiro, em 1844, garante-se que

Todas as repúblicas que cercam o império cuidam de fixar a sua fronteira com ele pelo
único meio valioso de que tem a lançar mão, o uti possidetis; este é o direito que se
poderá alegar por uma e outra parte, pois que nenhum tratado existe que definisse os
limites do Brasil com as antigas colônias de outras nações, só com a França temos de
direito a raia designada no artigo 8: do tratado de Utrecht. Ainda assim, esta potência
nos move questões que não estão terminadas, avançando e estabelecendo postos
militares nos mesmos lugares aonde já os tivemos e foram abandonados sem previsão
do que depois sucedeu.
A definitiva demarcação de limites do Império com esta colônia acha-se ainda afeta a
negociações diplomáticas que muito conviria a ultimar, se não pelo Oiapoque, ao menos
pelo Caucione, que ainda afasta os franceses da ambicionada navegação do Amazonas,
e poria termo a sua pertinência de fixar limites pelo Araguari com o intuito de passar
deste àquele grande Rio pelos canais de comunicação que têm entre si. Se o posto do
Amapá não pode ser restabelecido ao pé que já esteve, não por isso continue
abandonado; e, sobretudo, se acautele a entrada do Amazonas sentindo a ruína em que

18
BEZERRA NETO, José Maia. “Nas terras do Cabo Norte: fugas escravas e histórias de liberdade nas
fronteiras da Amazônia setentrional (século XIX)” In: ALONSO, José Luis Ruiz-Peinado &
CHAMBOULEYRON, Rafael. T(r)ópicos de História: gente, espaço e tempo na Amazonia (século XVII
a XXI). Belém: Ed. Açaí, 2010, p. 163.
22

serão as fortalezas de Macapá e Gurupá, que a depende e que tanto dinheiro custará para
esse fim. 19

No discurso de Soares de Andréa percebe-se a preocupação com as fronteiras,


porém somente com a França é reconhecido o espaço por direito, mesmo com a
indefinição territorial. Ainda nesse documento Soares de Andréa aponta a implantação
de colônias militares em outras nações, como a colônia militar boliviana do Curajuz, daí
a proposta de implantar postos militares nas áreas de fronteiras.
Assim, surge o discurso de uma terra rica em recursos, com grande potencial
especulativo e econômico, sendo o futuro a conquista de terras selvagens, que
esperavam a civilização. Tal discurso surge com a preocupação com o fluxo da região,
daí a intenção de ocupar militarmente, como no discurso do Tenente-General Andréa
que, além de fundar colônias militares, defendia a necessidade de se ocupar pontos
estratégicos como a Ilha de Bailique, tornando-se pontos de vigilância, proteção e
colonização da fronteira norte. O militar apresentava grande preocupação com os
franceses, relatando que

A França fez invadir o Amapá; e se não fosse um lugar doentio, que lhe devora os
contingentes, estou certo que não largaria a presa. Eu mandei ocupar a Ilha de Bailique,
que, de todas as daquela costa, é a que fica mais ao Norte e me parece que esta medida
deve sustentar-se.
Tratei igualmente (bem que não autorizado) de estabelecer colônias em todos os rios
que deságuam no Amazonas e que entram na margem esquerda; sendo condição
estabelecerem-se os colonos no posto mais remoto das cabeceiras desses rios a quem
pudesse chegar a navegação em canoas.20

A proposta do Tenente-General Soares de Andréa de colonização das fronteiras


se apresentava de forma estratégica, principalmente nas regiões mais “remotas”, já que
as recém-formadas nações vizinhas visavam expandir seus limites e a Guiana Francesa
desejava chegar ao rio Amazonas e expandir seu acesso ao espaço na floresta e suas
riquezas. Como bem relata Duarte da Ponte Ribeiro, em 1842, há uma lógica geográfica
(física) na escolha do rio-fronteira, já que dele depende não somente a fronteira franco-
brasileira, mas também com as guianas holandesa e inglesa.

19
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Apontamentos sobre o estado da Fronteira do Brasil em 1844, em
adiantamento à memória de 1842 sobre limites do Império. Comissão demarcadora de limites. p.
1(atualização de grafia)
20
ANDREA, F. T. S. S. de APUD. RIBEIRO, Duarte da Ponte. Apontamentos sobre o estado da
Fronteira do Brasil em 1844, em adiantamento à memória de 1842 sobre limites do Império. Comissão
demarcadora de limites. p. 21(atualização de grafia)
23

Não omiti notar aqui o inconveniente de concordar que das cabeceiras de qualquer dos
rios que for adotado para a raia, continue ela daí para o Oeste por uma linha reta até o
rio Branco. Alguns dos compreendidos entre o Amazonas e o Oiapoque, que podem ser
lembrados para a divisa, têm pouco curso, tais como o Carapanatuba, cujas nascentes
apenas chegam a trinta minutos (30’) de latitude boreal; e a linha reta que fosse tirada
daí para Oeste; iria atravessar rios que têm as suas fontes nas Cordilheiras que ficam
mais ao Norte dessa reta e correm para o Amazonas. Não seria assim se fosse adotado o
Araguari, porque nasce da latitude de dois graus e dez minutos (2º 10’) e corre por esse
paralelo, pouco mais ou menos, a cordilheira que desde ali principia a separar as
vertentes do Oiapoque e de outros rios que vão para o Norte despejar suas águas no
Atlântico, das que se dirigem para o sul ao Amazonas. Adotando algum dos que ficam
entre o Calçoene e o Araguari, a linha reta atravessaria esse último rio, porque todos
nascem a Leste e mais ao sul da Curva que desde a sua fonte principal, descreve do
Norte para o Sul, que está em 2º 10’
Qualquer que for o rio que se convencione, é essencial declarar que a fronteira seguirá
por ele até a sua nascente principal e continuará daí para o Oeste sempre pelo cume das
elevações ou Cordilheira que separa as vertentes que vão para o Norte ao Atlântico, das
que caem para o Sul no Amazonas. E será ocioso declarar o ponto onde há de terminar
essa linha divisória com a França, pois seguindo ela pelo alto da cordilheira não podem
pertencer-lhe as vertentes do lado Norte até o rio Branco, porque estão de posse delas
antes de lá chegar, a Holanda e a Inglaterra. 21

Desta forma, observando as estratégias de conquista do território pelos rios, era


de fundamental importância delimitar a fronteira partindo do rio Oiapoque e não do rio
Araguari, como os franceses afirmavam ser o “real” rio “Vicente Pinzon”. Tal
delimitação necessitava de argumentos, o que levou a pesquisa de Duarte Ribeiro em
avaliar tratados, mapas e viagens (contando as implantações de pontos militares e
religiosos) de cada nação, já que o Brasil herdava os limites conquistados por Portugal.
De fato, o estudo dos antecedentes históricos foram apenas uma das ações
tomadas, pois foi a forma legal de se tornar o proprietário da terra, mas a imprecisão
territorial da fronteira levava a uma atitude política comum na posse de terras, o uti
possidetis - a posse pelo uso, já que a região de fronteira era oficialmente pouco
povoada. Logo, a implantação do projeto das colônias militares, iniciada com a colônia
militar Pedro II, no Rio Araguari, apontava a necessidade de conquista para essa região.
Assim, a fronteira norte do Brasil, no século XIX, se encontrava em contexto
complexo, em espaço e tempo específico em que tentava construir suas limitações
fronteiriças, já que o momento apresentava instabilidade territorial, em espaço de difícil
acesso, considerado inóspito, porém de grande importância estratégica, já que a
conquista do Cabo Norte representava via de acesso ao rio Amazonas.

21
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Memórias sobre os limites, pp. 13-14.
24

1.2 . Colônias no Império

A colônia militar Pedro II foi a primeira de um projeto. Para J. Carlos Dias, a


preocupação com o extenso território deveria “expandir fronteiras ou assegurá-las”
considerando que as várias colônias agrícolas marciais brasileiras foram criadas com
autorização contida no artigo 15, n. 5 da Lei Orçamentária nº 555, de 15 de junho de
1850. Dias listou as colônias militares sendo que

A primeira foi denominada D. Pedro II, no Pará e as outras lhe sucederam: em


Leopoldina (Alagoas); Guandei (no Espírito Santo); Miranda, Nioac, Brilhante, São
Lourenço, Taquari, Coxin, Itacayú, Conceição de Albuquerque, Piquiri, Corixa (em
Mato Grosso); santa Tereza do Tocantins, São João do Araguaia, Pedro de Araujo, Lima
e Obidos (também no Pará); Nossa Senhora da Conceição de Jatay, Chapecó, Chopin e
Iguassu (no Paraná); Pimenteiras (Pernambuco); Santa Filomena (Piauí); Caseiros e
Alto Uruguai (no Rio Grande do Sul) e Santa Tereza (em Santa Catarina) além dos
presídios de Goiás. Em São Paulo Foram Criadas as colônias de Avanhandava e do
Itapura.22

A partir da leitura acima, é possível perceber a tentativa de colonização de áreas


não povoadas de forma “oficial”, existindo colônias militares em diferentes regiões do
Brasil, objetivando aspectos e objetivos diferentes, pois a preocupação com a fronteira
franco-brasileira é característica da colônia Pedro II. A colônia militar Santa Tereza do
Tocantins, inicialmente, tinha caráter fiscalizador e era um presídio, e a de São João do
Araguaia se dedicava a agricultura, além de outras que não chegaram a ser fundadas,
como outra colônia do rio Araguari e outra no rio Branco.23
As colônias militares não eram as únicas tentativas de colonização do sertão
brasileiro, apesar de ser uma colonização supostamente eficiente, já que os militares
estavam à disposição do Império e logo representantes oficiais em regiões mais
afastadas e, assim, demarcava o território para os habitantes de fronteira. Outras formas
de colonização existiam como as colônias agrícolas24 e missões religiosas25.
Mesmo as colônias militares sendo também agrícolas, necessitavam de outras
formas de colonização. Desta forma, as colônias agrícolas foram parte do projeto de

22
DIAS, J. Carlos. A questão da extinta colônia militar do Itapura. São Paulo: Ed. Equipe, 1981, pp. 12-
13.
23
MEDEIROS, Vera B. Alarcón. Incompreensível colosso..., pp. 113-128.
24
Sobre as colônias agrícolas, conferir NUNES, Francivaldo Alves. Sob o signo do moderno cultivo: O
estado imperial e a agricultura na Amazônia. Niterói, UFF, (Tese de Doutorado), 2011.
25
Sobre as missões religiosas, conferir HENRIQUE, Márcio Couto. “Sem Vieira, nem Pombal: Memória
jesuítica e as missões religiosas na Amazônia do século XIX”. In: Revista Asas da palavra. Belém,
UNAMA, v. 10 nº 23, 2007. p. 209 – 233.
25

colonização da região norte do Império, principalmente como forma de organização


populacional e territorial da província do Pará, ainda mais com o projeto de formação
do povo brasileiro, inserindo europeus em colônias agrícolas e estabelecendo os corpos
de trabalhadores como forma de controle dos “vadios” e de colonização, sendo eles
mandados a trabalhar em terras devolutas.26
As colônias agrícolas foram parte do projeto de colonização da região norte do
Brasil. Para Francivaldo Nunes, em meados do século XIX, existia um discurso oficial
preocupado em povoar o território brasileiro através de colônias agrícolas (não
militares) como forma de criar uma cultura civilizadora sem a figura coesiva do estado,
mas atrás de uma interiorização de valores como o amor ao trabalho e a busca do
combate à pobreza.27 Considerando que as colônias militares deveriam ser pensadas
para regiões limítrofes com outras nações e nas proximidades de locais de “ameaça a
ordem pública”28, desta forma a colônia militar Pedro II encontrava-se em ambas as
situações, já que estava na zona fronteiriça com a Guiana Francesa e com o fim da
Cabanagem muitos grupos ditos “marginais” se estabeleceram no Amapá.
Outra forma de colonização do território norte do Brasil era a colonização
indígena. Para Mauro Cezar Coelho “o Regimento de 1845 determinava o retorno da
figura do diretor de índios”29. A catequese deveria utilizar a mão de obra indígena de
forma não “violenta”. O autor levanta um conflito de interesses entre religiosos e
autoridades civis, conforme se percebe no discurso do editor do jornal O Doutrinário,
bacharel João Antônio Alves, publicado em 29 de abril de 1848:

Quanto se nos aperta o coração, quanto ficamos compungidos, quando atentados


seriamente para o quadro assustador que apresenta esta atualidade flagelante e mortuária
do regime industrial e do estado social dessa nossa malfadada Província [...] a direção e
catequese desses desditosos foi tirada das mãos dos legítimos mestres da moral das
mãos dos ministros da religião, e das dos homens industriosos da classe morigerada dos
comerciantes, para ser cometida a pessoas as menos próprias e adaptadas para isso, os
mandões militares (...).30

26
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Vadiagem, Costumes e Trabalho: Homens livres pobres e
recrutamento nas Companhias de Trabalhadores (Grão-Pará: 1835 -1859). Belém, UFPA (Monografia
de Graduação), 2001.
27
NUNES, Francivaldo Alves. Sob o signo do moderno cultivo: O estado imperial e a agricultura na
Amazônia. Niterói, UFF, (Tese de Doutorado), 2011, p. 37.
28
Idem, p. 43.
29
COELHO, Mauro Cezar; CAMELO, Diogo Soares; SOUZA, Eveline Almeida de; MELO, Patrícia R.
C. de. “Estado, Intelectuais e a Questão Indígena no Pará – Século XIX”. In: IV Simpósio Nacional
Estado e Poder: Intelectuais. Universidade Estadual do Maranhão São Luís/MA, 8 a 11 de outubro de
2007. p. 5-6
30
O Doutrinário. Belém, 29 de abril de 1848, p. 1, apud COELHO, Mauro Cezar; CAMELO, Diogo
Soares; SOUZA, Eveline Almeida de; MELO, Patrícia R. C. de. “Estado, Intelectuais e a Questão
26

O discurso de João Antônio Alves mostra “conflito” ideológico em quem


deveria lidar com a mão de obra, já que a catequese é vista como algo superior ao
recrutamento militar. Para Márcio Couto Henrique, a década de 40 do século XIX foi de
grande importância para o processo missionário no Brasil, com o regimento das missões
e o projeto de catequização financiado pelo governo brasileiro chegando a fundar três
missões na província do Pará. Porém, o projeto missionário perdeu força, sendo que na
década de 60 o governo tinha dificuldades de manter tais missões por falta de
religiosos,31 o que prejudicava a posse até de capelães em instituições militares nas
áreas mais distantes.
Denise Maldi afirma que “os índios tornam-se cada vez menos essenciais como
mão-de-obra e cada vez mais um problema de terras”,32 pois para a autora “o projeto de
expansão do Estado e de unidade territorial passa a não permitir a diversidade, (...)
possíveis vassalos que deveriam viver em terras próprias (...) impossíveis de civilizar
porque teimavam em viver em terras próprias”33. Ou seja, o indígena deveria ser
civilizado e fazer parte da nação como membro útil e participante e não um “selvagem”,
deixando o “nomadismo” e sendo fixado no espaço da produção agrícola.

1.3 – “Braços inúteis... o amor ao trabalho”

Existia a preocupação do incentivo ao trabalho, o que no pós-Cabanagem se


tornava essencial para evitar o surgimento de novas rebeliões. Neste sentido, podemos
perceber que atenção especial era conferida aos assuntos trabalho e mão de obra.

(...) O intuito desta Presidência é empregar os braços inúteis, e excitar o amor ao


trabalho, aproveitar e tirar os convenientes benefícios das riquezas brutas, que a
natureza tão pródiga e espontânea nos oferece, dar auxilio aos que não tiverem
meios para os seus estabelecimentos esperando movimento á Província, que
tantas comoções e desastrosos sucessos puseram como que em um estado
estacionário. Baldados, porém, seriam os bons desejos do presidente da província;
iludidas as generosas e magnânimas intenções do Governo de S. M., se os bons

Indígena no Pará – Século XIX”. In: IV Simpósio Nacional Estado e Poder: Intelectuais. Universidade
Estadual do Maranhão São Luís/MA, 8 a 11 de outubro de 2007, p. 11.
31
HENRIQUE, Márcio Couto. “Sem Vieira, nem Pombal...”.
32
MALDI, Denise. “De confederados a bárbaros”. In: REVISTA DE ANTROPOLOGIA, São Paulo:
USP, 1997, V. 40 nº2. p. 212
33
Idem, p. 215
27

paraenses, consócios dos interesses de sua província, e ciosos de sua


prosperidade, não acudissem aos reclamos do Governo Provincial e o não
auxiliassem na patriótica empresa, que domina os seus cuidados. V. S.ª em quem
o governo tem depositado tanta confiança e cujos serviços tanto aprecia, é um
desses paraenses, que muito o podem coadjuvar, e com cujos serviços e boa
vontade espera vencer quaisquer obstáculos, que se anteponham às suas intenções
(...).34

Neste trecho do jornal Treze de Maio podemos perceber que havia o interesse do
Estado em desenvolver economicamente a região e também resolver o problema dos
“braços inúteis”, explorando a natureza da floresta supostamente inabitada, unindo
diversos problemas em uma solução: a ocupação de braços ociosos. O Estado
estacionário se refere na matéria à falta de produtividade existente ao norte da província,
com o discurso de convocação dos bons paraenses a tornarem próspera a patriótica
empresa que tanto sofreu com o conflito cabano. O fato é que, a mão de obra na região,
na década de 1840, não era abundante, principalmente a população branca, sendo esse
grupo desqualificado como “vadio” no recrutamento dos corpos de trabalhadores.35
Dessa forma, para ter êxito, o discurso de convocação da população deveria possuir em
sua essência viés emotivo e de união à causa nacional.
Seguindo a lógica de formação nacional as colônias militares seriam a solução
para a construção de um território povoado, construindo o hábito do trabalho em
potenciais trabalhadores que se encontravam, segundo o discurso oficial, “viciados no
ócio e na vadiagem”, criando, assim, hábitos de trabalho e civilização.
Note-se que a noção de trabalho nesse período compreendia diversos
significados. Não estava em questão apenas a preocupação com a agricultura ou com o
aumento da produção de alimentos. O trabalho era visto como atividade civilizadora,
que tanto poderia contribuir para o desenvolvimento da agricultura quanto para a
constituição de hábitos civilizados, o que incluía noções de respeito às autoridades,
compromisso com a manutenção da ordem social e amor à pátria. No fundo, acreditava-
se que a não observância desses fatores teria sido um dos principais motivos da
Cabanagem. O trabalho civilizador seria, portanto, o meio eficaz de evitar novas
cabanagens, à medida que contribuiria para o surgimento do trabalhador que expressaria

34
Treze de Maio, Belém, 16 de maio de 1840, nº2 p. 6 (atualização de grafia)
35
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Vadiagem, Costumes e Trabalho: homens livres pobres e
recrutamento nas Companhias de Trabalhadores (Grão-Pará: 1838-1859), Belém, UFPA, (monografia de
Graduação), 2001.
28

seu amor à pátria dedicando-se ao aumento da produção na agricultura ou defendendo


as fronteiras nacionais em comum acordo com as autoridades provinciais.

1.4. As terras abundantes e férteis do Cabo Norte

A divulgação da imagem da terra de “infinitos recursos", discurso de fartura


comum como motivador para a colonização do lugar, apresenta a tentativa de
colonização do território pretendido. Ao ser nomeado diretor da colônia Pedro II, em
1854, Joaquim Bezerra de Albuquerque solicitou ao capelão da colônia, Estulano
Alexandrino Baião, informações mais precisas sobre a prosperidade da colônia,
especialmente sobre a agricultura. Dessa forma, o capelão da colônia militar informava
que

(...) a experiência feita por algumas pessoas prova evidentemente que a terra (...) excede
todas as esperanças, nada deixando a invejar das demais partes abundantes e férteis do
Pará. Aqui a plantação de legumes não demanda tanto trabalho, para esse que a pródiga
natureza espalhou com mais profusão os seus bens; vê-se que o labrador laborioso,
plantado seu roçado nenhum trabalho mais lhe resta do que chegado o tempo da colheita
desfrutando com prazer e vantagem tudo quanto se mede (...). 36

Desta forma, o cônego ao longo de seu discurso descreve a colônia como paraíso
agrícola com vagens tão grandes e fartas que dão trabalho à colher, comparando o rio
Araguari com rios como Nilo e Eufrates, famosos por sua fertilidade. Ao construir a
noção de fertilidade da terra, o capelão transfere a responsabilidade do êxito da
produção ao colono trabalhador. Ao “labrador laborioso” bastaria fazer sua parte,
plantando seu roçado no tempo certo. Depois disso, era só esperar o temo da colheita
para poder desfrutar com prazer de tudo que havia plantado. De certo modo, a
redundância superlativa da expressão “labrador laborioso” indica claramente o perfil de
colonos que se esperava atrair para a colônia Pedro II.
O discurso do documento traduz a ideia de fartura da terra e está ligado a
justificativa de existência da colônia militar Pedro II. Afinal, não existiria sentido na
manutenção de colônia improdutiva, pois a crise alimentícia da região do Cabo Norte
era realidade preocupante desde o período colonial como demonstrado nos trabalhos de

36
Arquivo Público do Pará (APEP), Secretaria da Presidência da Província (SPP). Caixa 159. Ano: 1851-
1855. Doc. 16, 25/03/1854.
29

Nírvia Ravena37 e Rosa Elizabeth Acevedo Marin38, em que ambas apresentam como a
produção alimentícia era incentivada devido à valorização das monoculturas e
extrativismos em larga escala, em detrimento da agricultura de artigos básicos.
Em 6 de março de 1854, antes de deixar seu posto, o então diretor da colônia
Pedro II, Luiz Félix de Azevedo e Sá, em relatório para Sebastião do Rego Barros,
presidente da província, descrevia a colônia desta maneira:

(...) Não há prosperidade nenhuma absolutamente, (...), indústria nenhuma pela falta de
recursos; agricultura (...), nada adianta, para que a maior parte destes não chega para
comerem verde com fartura e outras apenas só para seu gasto, o único agricultor
descrito desta colônia que vende farinha (...), para remediar a outros, e é quem tem
suprido as necessidades desta colônia, que tem preenchido as obrigações e que se
legitima classificar agricultor, é Manoel João Maciel. (...) muitos Exa. Senhor (informo
que alguns) pela muita ociosidade e outros por lhe faltarem todos os meios necessários,
para que as terras sejam as melhores possíveis da Província do Pará tanto para
agricultora, como para criação de gado vacum, cavalar, e gado miúdo (...)39

Dessa forma, ao ser substituído do posto de diretor, Luiz Felix de Azevedo e Sá


transferia a culpa pelo fracasso da colônia Pedro II aos colonos, cuja ociosidade não
contribuiria para a exploração de todas as possibilidades que a rica terra da região
ofereceria. Havia, ainda, a acusada falta de meios, dada a distância entre a colônia e a
capital da província, fato que dificultava em muito a oferta de ferramentas e
acompanhamento dos trabalhos feitos na colônia.
Ao produzir “só para o seu gasto”, os trabalhadores frustravam as expectativas
das autoridades provinciais, que esperavam deles uma dinamização da agricultura e do
comércio da região, o que levaria a civilização àquele extremo da fronteira norte do
Brasil. Continuavam, portanto, aos olhos das autoridades, “braços inúteis”, incapazes de
expressar amor à pátria ou de contribuir para o crescimento da província.
Para Márcia Motta, o trabalhador rural migrando para outra região como uma
fronteira agrícola deve ser analisado considerando alguns fatores, pois

insiste-se aqui em afirmar que a realidade rural é muito mais complexa do que tendemos
a acreditar. Os homens livres e pobres procuravam assegurar o seu acesso à terra, pois

37
RAVENA, Nírvia. “O abastecimento no século XVIII no Grão-Pará: Macapá e vilas circunvizinhas”.
In: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth (org.). A escrita da história paraense. Belém: NAEA/UFPA,
1998, pp. 29-52.
38
ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth. Agricultura no delta do rio Amazonas: colonos produtores de
alimentos em Macapá no período colonial. In: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth (org.). A escrita da
história paraense. Belém: NAEA/UFPA, 1998, pp. 53-92.
39
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 15, 06/03/1854.
30

sabiam que migrar para outras regiões era um risco ainda maior, não somente em
relação ao desconhecido, mas sobretudo porque a migração implicava em custos. Em
primeiro lugar, custos econômicos, ou seja, a necessidade de dispor de um pequeno,
mas necessário capital para saírem do local em que se encontravam, sobreviver, em
suma, até encontrarem um novo lugar para desbravar e posteriormente plantar. Também
existiam custos sociais, a perda das relações sociais que tinham ou desejavam ter com a
comunidade na qual procuravam se estabelecer. Migrar significaria romper elos já
consolidados ou em vias de se consolidar. 40

Muito embora Márcia Motta esteja se referindo aos movimentos de migração


relativamente espontâneos, a citação acima ajuda a refletir sobre certas situações
vivenciadas pelos trabalhadores da colônia militar Pedro II que, em geral, não tinham
muita escolha. Afinal, eles também eram destinados a um local completamente
desconhecido e ficavam dependentes da ajuda do governo provincial. Sabiam, por outro
lado, que suas chances de produzir para si ou para sua própria família eram mínimas, eis
que sua produção estaria sempre atrelada à perspectiva de crescimento da província,
estando sempre sob certo controle dos administradores.
Acima de tudo, ser destinado para a colônia militar Pedro II significava romper
elos, eis que os custos sociais eram enormes, com o rompimento quase total das
relações sociais construídas em seus antigos locais de moradia. Em nome da construção
de elos na fronteira, que contribuiriam para a consolidação da nação, os trabalhadores
eram obrigados a desfazer seus elos pessoais e familiares. Bastante significativo, nesse
sentido, é o requerimento feito pelo alferes Manoel da Conceição Pereira de Castro,
diretor da colônia Pedro II, em 1859, “pedindo licença para vir a capital consultar a
facultativos e tratar da educação de seus filhos, demorando-se somente o tempo em que
a canoa do correio daquela colônia estiver nesta cidade”.41 O recurso à necessidade de
consultar médicos parece indicar estratégia de reforço da necessidade de rever os
familiares. Sendo diretor da colônia, o alferes tinha mais condições de apelar a este
recurso do que os demais habitantes da colônia.
Mesmo aqueles que levavam mulheres e filhos consigo estavam sujeitos a esse
rompimento, eis que era bastante elevado o risco de perder algum ente querido por
motivo de doenças na colônia, onde não havia atendimento médico adequado. Na edição
de 14 de setembro de 1859, por exemplo, o jornal Gazeta official dava conta de ofício
encaminhado ao Inspetor da Tesouraria da Fazenda ‘enviando para seu conhecimento,

40
MOTTA, Marcia. “Movimentos Rurais Nos Oitocentos: Uma História Em (RE)Construção”
capturado dia 23/05/2012 http://www.historia.uff.br/artigos/motta_movimentos.pdf p. 12
41
Gazeta Official, Belém, 16.12.1859, p. 1.
31

as certidões de óbito de Maria Victória e Honorata, filha de Rosa Maria do Espírito


42
Santo, habitantes da Colônia Militar Pedro II”. Talvez essa fosse a forma pela qual
muitos parentes e amigos tomavam conhecimento da morte de entes queridos que
residiam na colônia, uma simples nota de jornal que não anunciava mais do que a
notícia do falecimento.

1.5 – “Para o fim de restituí-los ao seio da sociedade”

Nos discursos oficiais existem apenas delimitações territoriais entre as nações


reconhecidas, porém como foi mostrado havia grande fluxo de pessoas que transitavam
na região ilegalmente, ignoradas pelas autoridades. Essas pessoas detinham influência
em seu meio, o que preocupava as autoridades. Conforme Vera Medeiros

ao final da década de 1840, as fontes dão conta da concentração de população nas


proximidades do rio Amapá. Essa migração, entretanto, não fora dirigida pelo governo.
Fora espontânea. A exemplo, dos “dissidentes” do início da década de 1840, para ali
continuariam a confluir criminosos, desertores e escravos fugitivos. Mas a concentração
desses “malfeitores”, como eram denominados à época, preocupava as autoridades da
província.43

A presença dos grupos marginalizados como desertores, criminosos e escravos


fugidos recebia atenção das autoridades por serem pessoas que não representavam a
nação como súditos do império brasileiro, eis que os quilombolas são mostrados nas
obras de Flávio dos Santos Gomes e todos os marginais que ocupavam a fronteira no
Cabo Norte, entre eles os desertores abordados por Shirley Nogueira que aponta a
“entrada de colonos, escravos africanos e índios levados para lá dos mais diversos
44
lugares do vale amazônico” , o que nos mostra pouco interesse de povoamento de
forma “oficial” da região por vontade própria. Porém, existiam os grupos indígenas que
possuíam significado para os interesses governamentais, para a povoação do território,
mas para o governo, o indígena deveria ser cristianizado e civilizado. Conforme Andrey

42
Treze de Maio, Belém, 14 de setembro de 1859, p. 1.
43
MEDEIROS, Vera B. Alarcón. Incompreensível colosso: A Amazônia no início do Segundo Reinado
(1840-1850). Barcelona,, Universidade de Barcelona (tese de Doutorado), 2006, p. 102.
44
NOGUEIRA, Shirley Maria Silva. “A soldadesca desenfreada”: politização militar no Grão-Pará da Era
da Independência (1790-1850). Salvador, UFBA (tese de doutorado), 2009. p. 71
32

Cordeiro Ferreira “a fronteira nacional aparece como elemento de desqualificação do


sujeito indígena dentro do processo”. 45
Pela análise destes autores, podemos perceber outra possibilidade, que consiste
na compreensão do porque a colônia Pedro II ser estabelecida em local de difícil acesso,
onde havia fluxo de pessoas suspeitas que se deslocavam de um lado para o outro da
fronteira, que não se limitavam aos marcos entre o território brasileiro e o francês, mas
alcançavam as divisas das guianas holandesa e inglesa e, em alguns casos, dos países
recém-independentes da América espanhola. Essa preocupação pode ser percebida no
trecho abaixo, do relatório do presidente da província do Pará, Antonio Coelho de Sá e
Albuquerque, quando afirma que

“em geral as colônias militares são estabelecidas em lugares pouco populosos, nos
quais a segurança dos viandantes ou dos habitantes exige proteção e socorro contra
mal feitores ou bandidos. Algumas vezes também razões de ordem militar aconselham
a fundação de tais estabelecimentos”.46

O objetivo da construção da colônia Pedro II era o de estabelecer pontos


militares nas fronteiras que permitissem o mapeamento maior no fluxo de pessoas que
transitavam naquele espaço. É o que se depreende do documento de Antônio Joaquim
Diniz, capitão comandante militar do Baixo Amazonas, para o Presidente da Província,
Jerônimo Francisco Coelho, sobre as ameaças que atravessam da Guiana Francesa para
o Brasil, o que demonstra de maneira bem clara esse movimento entre as fronteiras no
Cabo Norte e as demais colônias:

Foi-me entregue o ofício reservado que V Exa se dignou endereçar a este comando com
data de 23 próximo passado no qual V Exa me dá ciência que, segundo as comunicações
vindas da Europa, transmitidas pelo Governo Imperial a V Exa, sabe-se que um mulato
natural de São Domingos, hoje súdito inglês, estivera recentemente em Paris revestido
do caráter de emissário das Sociedades que trabalham pela liberdade dos escravos; o
qual, unindo-se ali com outros agentes das mesmas associações, partiu com eles para a
Inglaterra, com o projeto de se dirigirem de lá para a Guiana Francesa e desta
penetrarem no território do Brasil; ordenando-me V Exa que qualquer estrangeiro de
quem se suspeite achar-se envolvido nesta maquinações [sic], seja imediatamente
remetido preso para essa capital a fim de ser como tal expulso da Província na forma
das terminantes ordens do Governo Imperial; o qual recomenda também a pontual

45
FERREIRA, Andrey Cordeiro. Políticas para Fronteira, História e Identidade: A luta simbólica nos
processos de demarcação de terras indígenas Terena. Mana vol. 15 no.2. Rio de Janeiro, Oct. 2009. p.
382.
46
PARÁ, Governo. Relatorio que o ex.mo s.r d.r Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, presidente da
provincia do Pará, apresentou ao exm.o sr. vice-presidente, dr. Fabio Alexandrino de Carvalho Reis, ao
passar-lhe a administração da mesma provincia em 12 de maio de 1860. Pará, Typ. Commercial de A.J.
Rabello Guimarães, [1860], p. 30.
33

execução do artigo 7o da Lei de 7 de novembro de 1831, que proíbe o ingresso em


qualquer ponto do Brasil dos libertos estrangeiros. Cumpre-me asseverar a V Exa que,
pela repartição do comando militar, tenho dado as providências necessárias que estão ao
meu alcance, e igualmente levo ao conhecimento de V Exa a presente carta, e este
trabalhador que ela trata esteve em um desses dias nesta cidade em meu quartel; e
fazendo-lhe certas indagações, disse-me que em 1840 viera de Caiena em companhia de
um desertor, conduzindo de viagem por terra oito dias até a primeira aldeia do rio Jarí, e
que com muita facilidade se pode transitar por quanto tem vereda de aldeia a aldeia até
as imediações de Caiena, sendo de grande utilidade estabelecer-se ali um pequeno
ponto, visto a fragilidade com que podem transitar de uma para outra parte, é o único
meio de evitar qualquer comunicação que por ventura possam tentar (...) 47.

O documento aponta que deveria se estabelecida uma representação, no caso


militar, que tinha como finalidade resolver tal fragilidade na região de fronteira
assegurando o controle de informações, pois era imprescindível ao Estado Moderno o
pleno conhecimento de seus limites, visto que as intenções e ações de outras nações
refletiam em diversos atos como o do referido mulato da documentação que interligava
ações de três nações nas guianas.
O monitoramento era difícil nas fronteiras devido ao pequeno número de
funcionários nesta parte da nação.48 Contudo, não devemos esquecer que a Guiana
Francesa, devido sua proximidade com o Grão-Pará, já desde o século XVIII, sofria
constantes ameaças de informações “incômodas” ao Estado Português, principalmente
com ideologias iluministas da Revolução Francesa, que havia inspirado diversos
cabanos a resistir contra o Império brasileiro, na primeira metade do século XIX.49
Nos apontamentos de Duarte Ponte Ribeiro existem diversas citações do contato
indígena na fronteira, entre eles o uso de base em “malocas” de indígenas na fronteira
com Guiana Inglesa ou o uso de “índios catequizados” na fronteira no Rio Negro. 50 Em
ambos os casos o oficial demonstra sua preocupação com a deserção tanto indígena
como a dos colonos militares, pois para ele o uso do indígena na área de fronteira
evitaria o deslocamento de colonos de diversas áreas da província, utilizando o nativo

47
APEP, FSPP, OCM, caixa 125, documento 83, 23/04/1849. Sobre informações a respeito da atuação de
sociedades abolicionistas internacionais nas fronteiras do Grão-Pará, conferir GOMES, Flávio dos Santos.
“Experiências transatlânticas e significados locais: idéias, temores e narrativas em torno do Haiti no
Brasil Escravista”. Tempo. Rio de Janeiro, n 13, vol. 7, julho de 2002, p. 230 e pp. 237-239. Conferir,
ainda, BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província
do Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004.
48
BURKE, Peter. Uma história social do conhecimento: de Gutenberg a Diderot. Rio de Janeiro: Zahar,
2003.
49
ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth. “A influência da revolução francesa no Grão-Pará”. In: CUNHA,
José Carlos C. da. Ecologia, desenvolvimento e cooperação na Amazônia. Belém, UNAMAZ, UFPA,
1992, pp. 34-59.
50
RIBEIRO, Duarte da Ponte. Apontamentos sobre o estado da Fronteira do Brasil em 1844, em
adiantamento à memória de 1842 sobre limites do Império. Comissão demarcadora de limites. p. 2
34

da região, além de manter contato mais “próximo” com esses grupos que outras nações,
a exemplo do que os ingleses fizeram com os da Aldeia Pirara, estabelecida no alto Rio
Branco, já que a relação de alianças entre as nações indígenas não seguia uma lógica
formal em relação à europeia, mas sim lógicas de contato como descreve Carlos
Eduardo Chaves:

Este circuito de trocas é relatado por (...) amplas redes de relações interligando diversos
povos, indígenas e não indígenas, mantendo-se ligados uns aos outros por diversas
modalidades de relacionamentos: guerras, rapto de mulheres, fusão e fissão entre povos
indígenas e acima de tudo, o intercambio de bens, baseados em longas cadeias de
intermediários (...). 51

A própria visão do indígena no período colonial era a imagem do último baluarte


da fronteira. Segundo Nádia Farage, os portugueses acreditavam que os índios seriam as
“Muralhas do Sertão”.52 Com esse pensamento, o Marquês de Pombal criou o projeto
para “civilizá-los”, porém, ignorou que muitos destes indígenas eram aliados das outras
nações europeias, deixando a situação complicada para ser resolvida com uma proposta
de integração que o Tenente-General Soares de Andrea tentou solucionar partindo do
contato e alianças com tais grupos.
Em relação aos negros na fronteira as relações eram diferentes, pois os negros
(principalmente os escravos fugidos) não eram considerados “aliados”, mas um
“problema”. Flávio Gomes53 apresenta o fluxo migratório muito intenso na fronteira, já
que era rota de fuga muito eficaz, sendo a região de difícil acesso, com baixa densidade
demográfica, com pouca fiscalização oficial e próxima a uma nação que havia abolido a
escravidão. Essa situação tornava a relação diplomática de ambos os lados da fronteira
entre Guiana Francesa e Brasil muito delicada, pois em ambos os casos os fugitivos
atravessavam os limites territoriais evitando ser capturados facilmente, acontecendo o
mesmo com desertores e outros criminosos. Dentro desta perspectiva, Sueny Souza
defende que

51
CHAVES, Carlos Eduardo. Guerra entre os Carib: Estudo de armas de coleções etnográficas dos
povos indígenas nas Guianas. Belém, UFPA (monografia de graduação), 2004, p. 10.
52
FARAGE, Nádia. As Muralhas dos Sertões: Os Povos Indígenas no Rio Branco e a Colonização. Rio
de Janeiro: Paz e Terra/ANPOCS, 1991.
53
GOMES, Flavio dos Santos. “Fronteiras e mocambos: o protesto negro na Guiana brasileira”. In:
GOMES, Flavio dos Santos (org.). Nas Terras do Cabo Norte: fronteiras, colonização e escravidão na
guiana brasileira – séculos XVIII/XIX. Belém: Editora Universitária/UFPA, 1999, pp. 201-230.
35

(...) são perceptíveis as diferentes estratégias de atuação das tropas militares e a


necessidade de intensificação no trabalho dos mesmos a fim de manter o controle social
da província, pois na medida em que as manifestações populares ultrapassaram as fugas,
deserções e estabelecimento de quilombos, as formas de atuação das unidades militares
também foram modificadas, sendo necessário, nesse contexto, o estabelecimento de
tropas fixas, o que resultou na instituição dos comandos militares (...)54

O fato da região do Cabo Norte ser povoada por esses “marginais” era outro
motivo para que a conquista militar fosse necessária, já que a ordem e estabilidade
nacional deveriam ser implantadas em todos os pontos do Império. Porém, ocorria que
com a insatisfação dos militares da região, aumentava o índice de deserção e
indisciplina, gerando uma rede de solidariedade entre os ditos “marginais” e os
responsáveis em manter a “ordem” imperial na fronteira. No dia 28 de março de 1876,
publicada no Diário de Belém o líder do quilombo no rio Curuá solicita ao Presidente da
Província a reintegração de escravos e desertores na sociedade, demonstrando
solidariedade entre desertores e quilombolas:

(...) o chefe ou cabeça dos habitantes daquele quilombo, onde há centenas de escravos
fugidos e desertores, pedindo a sua intercessão para que sejam declarados livres os
escravos e agraciados os desertores, para o fim de restituí-los ao seio da sociedade. 55.

A existência de laços de solidariedade entre os “marginais” no sertão amazônico


nos mostra um pouco como estes grupos se relacionavam. E ainda, como na fronteira
norte da província, além dessas relações, as autoridades lidavam com uma região
inóspita, o que tornava ainda mais difícil alcançar o objetivo oficial da colônia militar
Pedro II. Como é possível observar no espaço habitado e nas simbologias de suas
construções, existem reflexos de um projeto que atinge o local e sofre as transformações
por quem nele vive, como veremos no próximo capítulo.

54
SOUZA, Sueny Diana Oliveira de. A ordem da fronteira: a atuação do Comando Militar na fronteira
entre Pará e Maranhão (1790-1838). Rio de janeiro, artigo apresentado no XIV encontro regional da
ANPUH-RIO, 2010, p. 5.
55
FUNES, Eurípedes A., p. 248, apud BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem:
Indisciplina militar na Província do Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de
mestrado), 2004. p. 131
36

2. Plantas e mapas: o espaço desenhado

O espaço é a “prisão original”, o território é a


prisão que os homens constroem para si.
Claude Raffestin

O espaço conquistado é uma representação de posse de determinado espaço.


Contudo, sua conquista depende de uma série de fatores, pois elas devem representar
não somente a quem toma posse, mas também aos demais grupos que aquele espaço
pertence a alguém. Brian Harley afirma que a cartografia é uma forma de afirmar,
controlar e potencializar o conhecimento e o uso/posse do espaço. 56 Dessa forma, os
mapas definem os limites e fronteiras57 do espaço conquistado, assim como a colônia
militar Pedro II concretiza em forma de paisagem.
Ao ler a descrição do dia 30 de maio de 1840, publicada pelo jornal Treze de
Maio, que tratava da chegada dos primeiros colonos, liderados pelo Capitão Imperial do
Corpo de Engenheiros, André Freire de Andrada Parreiras, a qual descrevia os detalhes
do primeiro dia da colônia militar Pedro II, é possível visualizar uma série de elementos
simbólicos inseridos na paisagem e nas ações daquele dia, com implantação do plano do
governo de colonizar o Cabo Norte pelo rio Araguari.

Dia 29 de abril – suspendemos às 5 horas da manhã e seguimos andando ate às 6 horas,


que chegamos ao lugar em que assentei a 1 barraca para servir de quartel provisório as
praças e asilo às munições das mesmas. Este lugar fica distante da foz do rio Araguari
aproximadamente 36 léguas e 550 braças, fica sobre a margem direita do rio Araguari, a
superfície do terreno fica a uma altura de 20 a 30 palmos do nível das águas do rio, o
terreno é enxuto e de muita boa qualidade para a plantação, tem muito mato da altura de
50 a 60 palmos, barro, saibro e terra preta, tem também alguma pedra solta à superfície
da terra, a natureza de madeira que contem é a seguinte: macacaúba, itaúba, sapucaira,
acarequara, tanhuba, pau mulato e algum angelim, o terreno forma diferentes lombadas
de pequena altura que se estendem a uma grande distância central na direção O.N.O, a
ribanceira do rio segue aqui em direção S.E, 4 ½ S. depois de fazer o reconhecimento
acima mandei desembarcar toda a gente, derrubar e limpar o lugar para o Posto, e
rancho ou quartel provisório, que devem receber os praças e bagagens e quando foram 4
horas da tarde levantou-se a cumeeira do quartel provisório, içou-se o pavilhão
brasileiro, deram-se doze tiros, e ressoaram as cavidades destes vales, os vivas a S.M. o
Senhor D. Pedro II e a sua Augusta Família, ao Exmo. Regente em nome do Imperador,
ao Exmo, Presidente da Província, o Senhor Doutor João Antonio de Miranda, e a

56
HARLEY, Brian. La nueva natureza de los mapas: Ensayos sobre La hitoria de La cartografia.
México: Fondo de cultura econômica, 2005, pp. 85-86.
57
HISSA, Cássio Eduardo Viana. A mobilidade das fronteiras: inserções da geografia na crise da
modernidade. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2002, p. 34. Para Cássio Hissa as definições entre
fronteira e limite são muito próximas, já que ambas representam uma linha abstrata irreal, porém o limite
nos oferece uma visão interna desta linha enquanto que a fronteira no fornece uma visão externa desta
mesma linha.
37

Colônia Militar Pedro 2ª, aos quais foram dados a todos que se achavam presentes com
o maior entusiasmo possível. Às 6 horas da tarde deu-se outro tiro, arriou-se o pavilhão
e recolheu-se a bordo da Guleta, deixando o rancho já em parte encaibrado.58

A conquista do território é fundamental em toda forma de colonização, mas não


somente pela área povoada, já que estar na terra não a faz sua, é necessário marcá-la
como sua. Observando o relato acima é possível perceber sua localização com
referência a foz do rio Araguari indicando o local como a fronteira a se manter, devido a
questão de indefinição territorial entre França e Brasil. As descrições do local e suas
projeções em relação a distância do rio e a diversidade do solo e suas disponibilidades
mostram que a escolha do local levou em conta as potencialidades a serem exploradas.
Observando o relato do primeiro dia da colônia é possível perceber que não foi
uma escolha aleatória do espaço conquistado, mas uma seleção pelo seu solo (no caso
pela sua diversidade que permitia maior variedade de culturas agrícolas) e pela matéria
prima encontrada (no caso diversidade de madeiras para se erguer a colônia, logo, a
descrição de madeiras como o angelim).
Desta forma, escolhido o local da fundação e iniciadas as primeiras preparações
de povoamento da colônia iniciam os rituais descritos. Tem início a posse simbólica da
fronteira, pois quando o comandante mandou limpar a área e depois se organizaram as
formalidades de conquista fazendo içar “o pavilhão brasileiro”, dando-se “doze tiros”,
que “resoaram as cavidades destes vales, os vivas a S.M. o Senhor D. Pedro II, e a sua
Augusta Família, ao Exmo. Regente em nome do Imperador, ao Exmo, Presidente da
Província, o Senhor Doutor João Antonio de Miranda, e a Colônia Militar Pedro 2ª”,
estabeleceu-se que ali estava representando o império brasileiro.
A posse do território era necessária, principalmente pela disputa territorial
franco-brasileira na região entre os rios Araguari e Oiapoque. Logo, era necessário ser
registrado por meios oficiais tais domínios como forma de delimitar seus limites. Por
esse aspecto, tanto na França como no Brasil, tentaram conquistar o espaço por diversos
aspectos como postos militares, missões religiosas e colônias agrícolas civis como já foi
discutido. Dessa forma, se faz necessário registrar através de mapas e plantas essa
demarcação espacial.
Desde o período colonial as cartas cartográficas estipulam os limites fronteiriços
entre as nações e informam o que se encontra em cada área, de aspectos naturais como
rios, lagos, ilhas, montanhas, até intervenções humanas como cidades, vilas e colônias,
58
Treze de Maio. Belém, 30 de maio de 1840, p. 22.
38

que são essenciais para definir o que pertence (ou garante) a nação, estabelecendo
diversos significados e simbologias, ou seja, é necessário construir o espaço existente.
Neste capítulo analisarei o espaço físico da colônia Pedro II, tendo como base
documentos escritos e imagéticos, feitos para visualizar o avanço e os problemas que a
colônia militar possuía entre os dias 31 de dezembro de 1854 e 1º de janeiro de 1855,
sob a óptica do diretor da colônia, Tenente Joaquim Bezerra D’Albuquerque. Deve-se
perceber que dentro da construção espacial da colônia representada nas imagens é
possível definir questões do cotidiano partindo do espaço construído, pois não se pode
esquecer que o espaço está intimamente ligado a sua construção em seu tempo.

2.1. Casas, jardins e civilidade

Ao longo do ano de 1840 os colonos construíram as residências que fariam parte


da colônia por muitos anos, seguindo as instruções de como deveria ser a organização
espacial. Sobre esta questão é muito comum encontrarmos documentações de diversos
períodos sobre a colônia que abordam os habitantes realizando as suas plantações,
colheitas e construções de casas.59 Alguns meses após a chegada dos primeiros colonos
já havia relatos do desenvolvimento da colônia militar Pedro II, descrevendo suas
construções, o espaço descampado e a produção agrícola desenvolvida.

A colônia até hoje se acha sem novidade, seus habitantes, todos bons, partes deles já
com suas roças roçadas, já se constam 13 casas levantadas com alinhamento, formando
as frentes uma para a outra (...) a colônia já é uma frente bonita pelas casas que tem, e
pela limpeza em que se acha, o roçado que se acha em circulação da colônia já esta
queimado, limpo e quase acabado de plantar maniva. 60

Ao ler o relatório acima é possível perceber um potencial para a colônia militar


que se desenvolveria em muito pouco tempo. Já possuía 13 casas e algumas “roças
roçadas”, porém, em aproximadamente 15 anos o crescimento estagnou e seus
habitantes, segundo os diretores da colônia, desviaram seu comportamento tornando o
ócio predominante.

59
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do
Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004.
60
APEP, FSPP, OCM, caixa 56, documento 79, 29/09/1840.
39

Para perceber essa construção do espaço cotidiano, inserida dentro deste espaço-
tempo observado de um olhar histórico, a figura 2 que trata da planta baixa da casa do
diretor da colônia e o quartel é bom exemplo para se perceber as lógicas hierárquicas da
colônia militar Pedro II:

Figura 2. Planta baixa da casa do diretor da colônia e o quartel .

No documento acima são mostradas a casa de residência do diretor da colônia


militar Pedro II na parte superior e o quartel do destacamento na parte inferior,
40

apresentando algumas expressões da arquitetura da época presentes na fachada dos


prédios, como o detalhe de formato triangular acima da porta do quartel e as janelas
com sacadas da casa do diretor da colônia. São descritos em ambos com quintal em um
pavimento de 60 palmos nas construções, referência essa localizada na parte inferior do
documento que serve de referência para a dimensão das construções, a casa do diretor
possui ainda um galinheiro, uma cozinha e uma dispensa, próximo do quintal, não se
descrevendo nada além disso, enquanto que o quartel nos mostra uma enfermaria, um
salão principal, uma cozinha e uma dispensa, além de caracterizar os leitos dos soldados
como tarimbas (estrado alto de madeira onde dormiam os soldados nos quartéis e postos
da guarda). 61
Sendo assim delimitados todos os compartilhamentos da construção, partindo
desta perspectiva é possível distinguir uma construção voltada para a vida privada e
outro para a vida publica. O que chama a atenção é que em ambas as representações
somente o quartel apresenta detalhes de seu interior, conforme se vê abaixo:

Figura 3. Representação do quartel com jardim.

Ao lado da edificação existe um jardim (parte superior da figura 3), algo a ser
pensado como referente à mentalidade do homem moderno, como Keith Thomas aborda
em sua obra “O homem e mundo natural” no qual o cultivo dos jardins vem de uma

61
Capturado dia 12/07/2011 disponivel em: http://www.priberam.pt/dlpo/default.aspx?pal=tarimbas
41

62
ligação do homem com a natureza, neste caso o “controle” desta natureza. Assim, é
possível perceber a necessidade dos jardins como uma marca civilizadora na fronteira.
A simbologia do jardim em um local inóspito possui a preocupação em cultivar uma
produção agrícola e pecuária para a manutenção da colônia e seu entorno, apresenta
uma marca civilizadora na transformação da natureza no espaço selvagem. Desta forma,
o espaço construído nasce de uma proposta de se opor a barbárie e a colônia militar
Pedro II era um símbolo da conquista brasileira da fronteira norte do Grão-Pará, ou seja,
a marca delimitadora da nação nos limites da civilização.
Em um universo tão propício ao cultivo de diversas espécies vegetais, a
descrição de um jardim nos apresenta referência à estabilidade produtiva, já que permite
manter flores ou plantas ornamentais em uma região que prioriza a produção de
alimentos. Neste caso, as operações de “significações” estão na delimitação de
civilizado e selvagem, o cultivo de um jardim tem como simbologia a civilização, sendo
o estabelecimento de poder do Brasil sobre os homens que vivem na fronteira, como
índios, quilombolas, desertores e todos aqueles que não “respondiam” a ordem nacional.
Desta forma, as simbologias de poder não respondem somente entre as nações na
fronteira, mas em todos os membros da sociedade do lugar, incluindo as representações
acerca do espaço habitado.
Além do jardim a imagem apresenta o que existe na dispensa e próximo às
tarimbas: farinha e arroz, alimentação típica da colônia, o que leva a perceber o que se
cultivava na colônia e nas terras próximas ou o que deveria se produzir. A imagem
descreve que a enfermaria também é composta de tarimbas, que propõe servir também
de dormitório, dependendo da situação, apresenta uma improvisação do uso do espaço,
como explicarei mais a frente.
Há descrição na parte inferior da imagem a qual descreve a funcionalidade das
tarimbas que são levadiças e dobráveis, sendo possível comportar 30 praças. O que
propõe um limite populacional a colônia um número de praças do exército definindo um
planejamento urbano e militar, sendo um limite populacional flutuante, já que os praças
deveriam ser colonos e fixar sua residência na colônia. Desta forma, o quartel era um
dormitório para os militares em trânsito ou sem família e casa.
A casa do diretor da colônia não apresenta descrição nenhuma de como ele
utiliza seis compartimentos da sua edificação, além do galinheiro, da cozinha e da

62
THOMAS, Keith. O homem e mundo natural; mudanças de atitude em relação às plantas e aos animais
(1500-1800). São Paulo: Companhia das Letras, 1996, p. 312.
42

dispensa que se encontram na parte externa do prédio, oferecendo a liberdade de


organização do espaço íntimo do diretor e sua família, já que dentro da hierarquia da
colônia o diretor era a mais alta patente e posto. Essa diferenciação pode ser um
controle de uma perspectiva de cima para baixo, ou por ficar a cargo de cada diretor
organizar a casa como bem queira, já que ele morava sozinho ou com sua família.
Enquanto que os soldados dividiam uma vida comum entre si e deveriam respeitar a
ordem existente no quartel. Existem outras explicações que irei abordar mais a frente,
mas neste ponto é importante perceber a simbologia existente nestas representações,
para Albuquerque Junior:

O espaço é visto como instância que nega o tempo, que subjaz à história, que resiste à
mudança, notadamente naquelas versões da história que o vê a partir da chave da
evolução, do progresso, do desenvolvimento orgânico, do avanço da consciência ou
como resultado de um projeto de existência. As experiências espaciais, as relações
espaciais, os fluxos e movimentos de espacialização, as implantações e deslocamentos
no espaço não vêm fazer parte destas modalidades de narrativa historiográfica. O
espaço, para os historiadores, tem sido pensado sob a chave do geográfico e o
geográfico reduzido, em muitos casos, à dimensão física, à base empírica, aos
condicionamentos naturais ou do meio, para usar um termo de largo uso nas ciências
humanas, emergentes no século XIX.63

Partindo desta questão levantada por Albuquerque Jr. o espaço é uma fonte a ser
levada em consideração, já que o espaço e sua simbologia possuem grande importância
na percepção do tempo histórico e suas transformações de mentalidade. Para uma
organização maior desta observação percebe-se a figura 4, na qual é focada a
organização do núcleo urbano da colônia Pedro II, no qual, é possível perceber “as
experiências espaciais, as relações espaciais, os fluxos e movimentos de espacialização,
as implantações e deslocamentos no espaço”. Neste ponto é importante perceber a
descrição e sua comparação com a imagem referida:

63
ALBUQUERQUE JUNIOR, Manoel Teixeira. “Regularização de assentamentos urbanos e
sustentabilidade”. Cadernos de Arquitetura e Urbanismo, v.15, n.17, 2º sem. Belo Horizonte, 2008, p. 3.
43

Figura 4. Organização do núcleo urbano da colônia Pedro II .

Na parte superior da imagem existe um texto, que possui uma descrição da


colônia militar Pedro II, abaixo descrita:

Esta estampa mostra o estado atual da Colônia infra e apresenta os lugares em que
devem ficar a Casa do Diretor, Quartel e a Igreja forçando uma praça em quadrângulo
entre os indicados do fixo; devendo-se para o futuro derrubar-se as casinhas da beira do
rio de nº 8 a 15 e igualmente as de nº 17 e 18 por estarem fora de regra.64

É interessante ressaltar em tal texto o destaque a quatro locais: a casa do diretor,


o quartel, a igreja e uma praça “em quadrângulo”, que respectivamente ilustram a vida
política, militar, religiosa e social que existia dentro das fronteiras internas da colônia. O
que não significa que estejam separadas umas das outras, já que a vida humana é
composta das diversas áreas a ela apresentada. Assim, o colono de Pedro II administra
sua vida política, militar, religiosa e social, relacionando-as ou não em sua realidade
espacial do cotidiano.
Outro fato importante da descrição é o plano de reurbanização da colônia, por
existirem casas irregulares segundo o planejamento urbano da colônia Pedro II. Desde

64
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855, 01/01/1855.
44

1º de abril de 1854, o diretor da colônia, Tenente Joaquim Bezerra D’Albuquerque já


informava que existiam algumas questões urbanas:

(...) 1º formando esta colônia uma pequena rua e uma de suas faces com fundos para o
rio, cujas casinhas amontoadas umas sobre outras, e algumas muito distantes e sem
ordem, fora não só da determinação do artigo 3º do regulamento de 22 de dezembro de
1811, como do plano do capitão de engenharia Jorneis Manuel Cabral de Meneses, que
para ali foi enviado, e mandado observar pelo Exº Senhor presidente Fausto Augusto de
Aguiar; se devo ou não mandar derrubar ditas casinhas e levantar outras, quando não
seguindo a determinação daquele artigo pela falta de terreno, ao menos conforme o
referido plano, que media 7 braças de uma a outra dividi-las por uma cerca, chamando
um outro colono que mora distante em uma roça que nada vale, para o novo
alinhamento.65

Na descrição acima o então diretor da colônia ressalta o crescimento


desordenado do núcleo urbano, e demonstra grande preocupação em seguir o plano do
capitão de engenharia Jorneis Manuel Cabral de Meneses, mesmo que tenha de destruir
e reconstruir todas as casas que fazem parte do “amontoado de casinhas”, tal medida
mostra uma preocupação com a ordem militar na reorganização das ditas casas, que
levariam a desagradar muitos colonos que perderiam sua residências pela organização
espacial da colônia. Um ano antes do tenente D’Albuquerque, o antigo diretor, Luis
Felix de Azevedo e Sá, descrevia a colônia da seguinte maneira:

Há 14 anos que esta colônia foi fundada, só existem três casas na [ilegível] da colônia
pertencentes a nação estas más, sendo não a pior de todas, pois estas desaplumadas, e já
quase caindo, e depois disso serem cobertas de palha o que o tempo que se de cuidar em
outros serviços cuida-se de palha para nova coberta, o que não aconteceria sendo de
telha, e isto devido ao mau ponto das casas e o mau terreno em que se acham colocadas
sendo uma pior a mais nova esticada pelo Reverendo Capelão depois da sua chegada
(...), onde reside, mais rústicas choupanas, sendo 3 de praças destacamento, e 7 de
paisanas moradores nesta [ilegível] estas mas, e em alinhamento destrangolado e nada
mais.66

Nos relatos dos diretores da colônia e na descrição da imagem é possível


perceber um discurso, mesmo que com certa distinção entre os oficiais, já que o antigo
diretor é visivelmente pessimista com qualquer ideia de melhora na colônia descrevendo
como “desaplumadas, e já quase caindo”, afirmando que em 14 anos de fundação as três
casas da nação (quartel, residência do diretor e capela) estavam abandonadas devido ao
suposto ócio dos colonos e pela pouca estrutura dada a colônia. No entanto, o Tenente

65
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/04/1854).
66
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (13/12/1853).
45

Albuquerque demonstra uma postura de continuidade, pois ao chegar para substituir


Luis Felix de Azevedo e Sá, descrevia a colônia da seguinte maneira:

A colônia militar Pedro II, digna sem dúvida da melhor sorte, consta de 13 casas
cobertas de palha e 5 destas são tapadas de barro, sendo 3 cavadas que são as da nação;
(...) do estado desta por serem as mais notáveis, manifestam a V.Ex. para a ordem
seguinte:
Capela: é uma casinha tendo a seu lado um quarto que serve de arrecadação e em
seguida um outro quarto que serve de quartel cujo recinto não passa de uma meia braça
quadrada no estado o mais deplorável.
Casa do capelão: esta para o lugar em proporção a sua pessoa, faltando-lhe somente
telha para ser uma boa casa, e é até assoalhada de taboas.
Casa de residência do comandante e diretor: me informou o ex. diretor, que esta foi feita
para quartel; e hoje nem para isso serve sem um grande concerto: o outro do lado direito
está seguro por esteios supostos e precisa de grande conserto, e quanto as outras casas
são casebres de palha arranjadas pela preguiça de quem ou por desleixo, ou pela pouca
vontade de viver em um lugar destes as tem construído.67

Esta descrição foi feita ao assumir o posto de diretor da colônia. Ao descrever


detalhadamente as edificações, o diretor expõe duas questões fundamentais neste
trabalho, que é a improvisação dos espaços, a qual abordarei mais a frente e a
hierarquização do discurso ao definir a que locais eram definidos cada grupo ou aqueles
que representam prioridades de sua atenção, como os prédios que deveriam seguir as
suas respectivas funções.
Porém, a destruição das casas era necessária por ser um discurso de uma elite
(no caso o diretor da colônia) ou por preservar uma imagem militarizada? Muito
provável que ambas as questões estejam interligadas já que a autoridade era o oficial
diretor da colônia militar e para ele as casas foram construídas por pessoas com
“preguiça” ou “desleixadas”, sendo necessária a disciplina para tais classes e estabelecer
cada grupo em seu lugar.

67
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (25/03/1854).
46

Figura 5. Casa do diretor e vizinhança.

Podemos observar a imagem acima e perceber a proximidade da residência do


diretor a tais casinhas e notar certo incômodo do diretor Tenente de Albuquerque com
sua vizinhança, já que as “casinhas amontoadas umas sobre outras” não deveriam
agradar sua visão da janela em direção ao rio. Logo, devemos ressaltar que o projeto
estabelecido para a colônia condiz com a vontade do dito Tenente, que se justifica no
plano do capitão de engenharia Jorneis Manuel Cabral de Meneses. Segundo a análise
de Caio Amorim Maciel:

a paisagem considerada como entidade concreta foi objeto de uma ampla apreensão
técnica, justaposta aos modos culturais de olhar os lugares e classificá-los numa
hierarquia mundial. A objetividade deste monumental trabalho de conhecimento do
mundo permaneceu, apesar de tudo, entremeada por pressupostos simbólicos do olhar
fortemente calcados na cultura, incluindo as tradições científicas.68

Neste discurso existe também uma preocupação com a proposta civilizadora da


região, pois a colônia militar Pedro II não é somente uma área de fronteira política
(Brasil e Guiana Francesa), mas também uma região de fronteira de natureza inóspita.
Em 14 de maio de 1875, o então diretor da colônia militar Pedro II, Capitão Antonio
José dos Santos Bentes, relata “que esta colônia está colocada em um lugar esmo e

68
MACIEL, Caio Amorim. “Morfologia da Paisagem e Imaginário Geográfico: Uma Encruzilhada Onto-
Gnoseológica”. In: GEOgraphia, Vol. 3, No 6, Rio de Janeiro 2001.p. 2
47

isolado (...) está muito perto do Amapá, aonde propriamente dito é o depósito de
desertores, criminosos e pretos fugidos...”.69 Para Maria Stella Bresciani

a natureza foi concebida no passado como espaço não organizado, não protegido,
espaço de fronteira, habitado por seres cuja natureza parecia incerta e ambígua, entre o
humano e o animal e que, ao se estender para além do campo cultivado, chegava até a
verdadeira natureza, selvagem, inimiga, inacessível, inviolada, frequentada pelas feras,
pelos gênios do bem e do mal e por Deus.70

Daí a importância da igreja na colônia, já que eram os representantes da


civilização cristã, devendo ser um exemplo para os homens que habitavam a região:
indígenas, ribeirinhos e quilombolas. Uma das preocupações da implantação da colônia
militar Pedro II no rio Araguari, além da vigilância e proteção, era a conquista
civilizadora, daí a preocupação do cônego Estulano Alexandrino Gonçalves Baião, ao
chegar à colônia em 1851 e se deparar com a capela. Ele relata:

Sou (...) bastante sensível a falta do portal para Capela que não se pode arranjar nessa
capital, mas para suprir, a minorar a despesa, que tem de fazer-se com um de seda, seria
melhor mandar se fazer de madeira e aqui mesmo, para o que só se necessita de quatro
libras de tinta, correspondente às quatro cores, encarnado, branca, verde, e roxa, ou
preta.71

O relato do cônego ao chegar à colônia nos apresenta questão fundamental no


entendimento do cotidiano da fronteira, região inóspita: a dificuldade de se realizar
qualquer serviço, já que a colônia Pedro II dependia da Presidência da Província do
Pará. Pode-se perceber nas páginas do jornal Treze de Maio a movimentação de
documentos expedidos pelo diretor da colônia solicitando ao presidente da província
equipamentos, medicamentos e profissionais para cumprir determinadas tarefas, cujo
atendimento, quando feito, demorava meses. Porém é possível perceber a preocupação
em estabelecer os detalhes como as cores e os materiais utilizados na reforma que a dita
capela necessitava sendo ponto importante do cotidiano dos colonos.

69
APEP SPP. Caixa 347. Ano: 1875. (14/05/1875).
70
BRESCIANI, Maria Stella. Cidades e urbanismo. Uma possível análise historiográfica. In: POLITEIA:
Hist. e Soc., Vitória da Conquista, v. 9, n. 1, p. 21-50, 2009, p. 26.
71
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (15/06/1851).
48

2.2. Construindo e improvisando

A burocratização acaba por levar a outra situação existente nessa área de


fronteira: a improvisação, que é uma realidade típica da colônia Pedro II, já que como a
colônia militar se localizava em região erma e distante, improvisar era muitas vezes a
única opção. Para isso vamos observar a figura 6, que nos apresenta a situação de forma
bem clara sobre a precária situação da colônia.

Figura 6. Vista geral do espaço da colônia.

O texto da legenda diz o seguinte:


“Toda a circunferência da colônia é uma mata espessa, pelas costas desta é campo, a
casa no 1 é o quartel, e serve de residência do diretor: a então aparece cair toda, e toda a
casa se acha em mal estado ou ruína. A casa no 2 esta servindo de capela, quartel, e
agora de residência do diretor, tendo a sua direita uma cozinha de forno. A casa no 3 é a
do capelão, esta casa é a melhor da colônia, e a exceção das casas no 5 e 10 que se estão
(ilegível), as mais são casinhas que pouco ou nada valem. É este o estado atual da
colônia infra mencionada”.

Percebe-se uma adaptação dos espaços, como já observamos no uso do espaço


do quartel e das demais descrições, que mostra um fato comum nas áreas de pouco a
49

acesso e recursos. A descrição aponta a casa nº1 que serve de quartel, mas que
inicialmente era a residência do diretor da colônia, sendo relatada como uma casa em
ruínas. Já a casa nº 2 serve de quartel, capela e residência do diretor, enquanto a casa nº
3 é a casa do capelão, que é apresentada como a melhor da colônia Pedro II. As casas de
nº 5 a 10 estavam em reforma, enquanto as demais valiam pouco ou nada, segundo o
diretor.
Essa descrição apresenta uma característica interessante que é a preocupação do
diretor em avaliar as residências da colônia, o que aparentemente não possui
importância. Porém, sugere uma valorização do espaço da área de fronteira, daí a
preocupação em mostrar as casas em reformas e a derrubada das casas em forma
desordenada, já que as casas existentes não possuíam nenhum valor, estando nas
descrições quase em ruínas.
No relatório, é perceptível também a insatisfação da situação do diretor, ao
relatar que sua residência serve de quartel e está em estado deplorável, tendo ele que
morar em uma casa que é dividida em quartel, capela e residência do diretor, enquanto o
capelão morava sozinho na melhor residência da colônia.
Provavelmente este fato contribuía para a tensão existente entre o diretor e o
capelão da colônia militar Pedro II. Consta, sobre isso, no jornal Treze de Maio, de 8 de
abril de 1854, a informação de que o capelão teria enviado ao presidente da província
um ofício reclamando da relação que tinha com o diretor. Em resposta, o presidente da
província afirmava que

“viu com bastante pesar a desinteligência havida entre S. Mc. E o Diretor da mesma
Colônia e que, portanto, se espera que S. Mc. Viverá de ora em diante na melhor
harmonia com o mencionado diretor, cumprindo cada um pela sua parte com as suas
obrigações e deveres”.72

Certamente as desavenças entre as duas principais autoridades da colônia


preocupavam a presidência da província, eis que poderiam comprometer a desejada
harmonia social entre todos os habitantes da colônia.
Outro fator interessante da figura 6 é o cemitério, que é omitido nas descrições
escritas, porém em ambas as imagens (nº 2 e 3) é representado como duas cruzes e uma
planta, o que não corresponde à realidade, já que a taxa de óbitos na região era
considerada grande. O cemitério atendia não somente aos moradores da colônia Pedro

72
Treze de Maio. Belém, 8 de abril de 1854, p. 2.
50

II, mas a todos os habitantes da região, já que a preocupação era com a povoação da
fronteira, sendo uma “responsabilidade” do exército o atendimento a essas pessoas nas
áreas fronteiriças, para assim saberem que estão em território brasileiro.

Figura 7. Representação do cemitério da colônia.

Logo, as cruzes aparecem em forma simbólica, tendo uma representação de


legenda cartográfica da imagem, sendo de importância informativa, já que o estado do
cemitério não era preocupação do diretor da colônia, representada de forma apenas
informativa, apresentando poucos detalhes. Porém, possui grande importância no
cotidiano do lugar devido ao grande índice de óbitos decorrentes dos casos de várias
“moléstias” sendo as principais: “Sesões; icterícia; algumas crutifações [sic.], a outras
moléstias passageiras...”73, além de casos de afogamentos, acidentes de trabalho,
ataques de animais.
O cemitério se localiza em uma área afastada do centro urbano da colônia,
porém se localiza próximo da área descampada, que deveria ser utilizada para o cultivo,
mas que não apresenta nenhuma descrição de tal cultivo na proximidade da colônia
Pedro II em sua representação imagética ou em suas observações acerca da mesma.

73
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. 16/03/1852.
51

2.3. Terras férteis e braços “ociosos”

A província do Pará sofria com diversos problemas em meados do século XIX,


entre eles podemos citar o difícil acesso de alguns pontos de seu imenso território, o
elevado índice de mortalidade e a falta de mão de obra disponível para realizar as
atividades econômicas da região.
Percebendo a grandiosidade do território a ser conquistado surge daí a
preocupação em implantar algumas tentativas de diminuir a distância entre a Capital
Belém e seu interior, implantando estradas e a navegação a vapor, sendo esta última
restrita a algumas regiões como a navegação a vapor no rio Amazonas e seus afluentes,
os rios Tocantins, Solimões, Negro, Madeira e Tapajós. Existia um projeto para poder
diminuir a distância geográfica com o sul do Brasil por meio fluvial. Segundo Vítor
Marcos Gregório a Amazon Steam Navigation Company, de Nova York, de propriedade
da firma Le Roy, Bayard & Co. entregou em 1826 um navio da companhia:

o objetivo dessa embarcação seria descarregar suas mercadorias no porto de Belém e


seguir viagem rio acima, até os portos das demais nações confinantes. a navegação a
vapor era defendida unanimemente como algo positivo para a região norte do País,
desde que praticada sem interferência de capitais estrangeiros, entendidos como
prejudiciais a interesses estratégicos brasileiros. Estes diziam respeito à manutenção da
soberania brasileira sobre a Amazônia, território de grande potencial econômico, que,
por isso mesmo, despertava a cobiça das principais potências da época.74

Apesar de se buscar meios para facilitar a navegação a vapor na entrada do


território amazônico, o mesmo não se aplicou ao Cabo Norte, que não fazia parte do
itinerário, pois não havia grande interesse econômico na região. Sendo assim, o
transporte de pessoas e correspondências com Macapá era realizado por canoas.
Em 1840, no dia 3 de junho, o jornal Treze de Maio publicava a pretensão de se
construir uma estrada que reduziria a apenas 6 dias a distância entre Macapá e a colônia
militar Pedro II.75 Porém, as estradas por sua vez sofriam a dificuldade natural de se
localizar em floresta de vegetação fechada e densa, não que a tornasse impraticável,
porém tal processo era lento demais, considerando os entraves geográficos da natureza
amazônica, como a hidrografia, o clima úmido e a vegetação equatorial. Em seu

74
GREGÓRIO, Vitor Marcos. “O progresso a vapor:navegação e desenvolvimento na Amazônia do
século XIX”. Nova Economia, Belo Horizonte Vol. 19 (1) janeiro-abril de 2009, p. 188.
75
Treze de Maio. Belém, 3 de junho de 1840, nº7 p. 27.
52

levantamento, o cônego Estulano Alexandrino Gonçalves Baião, promovido a capelão,


na sua chegada a Colônia Pedro II, em 1851 afirmou:

(...) Na minha passagem por Macapá tive a ocasião de me informar de algumas pessoas,
como do senhor delegado de polícia, o Comandante Militar, entre outros, acerca do
melhor modo de se abrir a estrada, como V. Exª. me recomenda em seu ofício de quatro
do mês passado; a maior parte daqueles senhores passaram infinitos obstáculos, por não
convir sem seus interesses comerciais. O Capitão João Pereira, porém, homem de boa
fé, desinteressado e com muito conhecimento desses matos e que goza da estima de
todos os macapaenses, diz não ser tão dificultoso, sendo principalmente do lugar
denominado Prainha quase uma maré rio acima distante da colônia, por estarem os
campos gerais muito próximos à margem, mas que por defronte da colônia também se
pode abrir não sem grande custo.
Na colônia mesmo encontrei dois guardas conhecedores também do lugar, que me
disseram poder-se abrir por defronte da colônia, mas que os igapós nas cabeceiras de
rios pelo inverno a tornariam intransitável, por serem tecidos de tábuas e encheria tanto
que um homem não poderá passar a nado: dizem, entretanto, que do lugar já
mencionado é melhor, por ser terra firme (...).76

No documento acima é possível perceber a tentativa de integração do Cabo


Norte por meios de transporte. Porém, a natureza apresentava sua grandiosidade, o que
dificultou o projeto de acesso de transportes da colônia militar Pedro II. Na geografia da
região, os rios e a paisagem de igapó dominavam o espaço e limitavam, de certa forma,
a possibilidade de transformação do lugar em um espaço de terra firme e que pudesse
integrar o acesso da colônia militar com outras regiões.
Outro aspecto relacionado aos colonos é sobre a questão levantada por Ernesto
Cruz que descreve a constituição de colônias de abastecimento, as quais tanto militares
quanto civis, tinham como objetivo produzir alimentos para suprir as necessidades das
cidades e vilas de maior população, como as de Belém e Macapá.77 Grande parte do
abastecimento destas cidades era realizado pelas colônias do interior, fundadas pelas
missões catequizadoras e, mais tarde, controladas pelo Estado, inspirando o Segundo
Império a prosseguir com esta forma de abastecimento.78
Para Rosa Acevedo Marin, percebe-se que o abastecimento da colônia militar
Pedro II surge de um modelo de exploração que foi implantado no século XVIII, como
por exemplo, a vila de Mazagão, que possuía entre seus colonos militares em regiões de
fronteira, mais especificamente colonos transferidos do norte da África para o norte do

76
APEP SPP Caixa159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 1. 15/07/1851.
77
CRUZ, Ernesto. Colonização do Pará. Belém: Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1958.
78
RAVENA, Nirvia. “O abastecimento no século XVIII no Grão-Pará: Macapá e vilas Circunvizinhas.”
In: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth (org.). A escrita da História paraense. Belém: NAEA/UFPA,
1998.
53

Grão-Pará, que tinham como objetivo dar um destino a tais militares e assim buscava
utilizar essa mão de obra para o abastecimento da vila de Macapá e a vigilância militar
da região.
Referente a esta mão de obra o diretor da colônia Pedro II, Luiz Felix de
Azevedo e Sá, em seis de março de 1854, em relatório para Sebastião do Rego Barros,
então Presidente da Província, além de reforçar que o fracasso da colônia militar devia-
se a “ociosidade” dos colonos, chegando a comer “verde” seus produtos devido a falta
de produtividade, assim como a falta de recursos que explicava a falta de perspectiva
tanto na agricultura como na indústria, reforçava sua ideia da existência de apenas um
exemplo de colono. Manuel João Maciel, apontado como único que se pode “classificar
de agricultor”, afirmando que o local possui potencial tanto na agricultura como na
pecuária, tal discurso não é raro nos relatos sobre a colônia, sempre afirmando que o
grande responsável do fracasso de produção era a falta de interesse dos colonos
(ociosidade).
O discurso de ociosidade é muito utilizado como justificativa de não
desenvolvimento da colônia militar Pedro II. Em 25 de março de 1854, o então diretor
da colônia, o tenente comandante Joaquim Bezerra De Albuquerque, em relatório para
o mesmo presidente da província sobre a prosperidade da colônia, pedia ao capelão
Estulano Baião uma descrição da situação produtiva, sendo descrita assim:

(...) a experiência feita por algumas pessoas prova evidentemente que a terra (...)
excedem todas as esperanças, nada deixando a invejar das demais partes abundantes e
férteis do Pará. Aqui a plantação de legumes não demanda tanto trabalho, para esse que
a pródiga natureza espalhou com mais profusão os seus bens; vê-se que o labrador
laborioso, plantado seu roçado nenhum trabalho mais lhe resta do que chegado a tempo
da colheita desfrutá-lo com prazer e vantagem tudo quanto se mede. A mandioca neste
lugar intimida por assim dizer (...); o arroz não lhe fica com inveja (...); a bananeira nos
lugares desta província não tem competidores; o milho produz com muito vício, dando
grandes e bem povoadas espigas, o que não acontece em outros lugares: o feijão com
quanto se tenha muito pouco plantado, também é de muita vantagem, (...). Finalmente, a
melancia e mais frutas da mesma família, o maxixe, tomate, a laranja, outras muitas
qualidades dão em tanta quantidade que sem mais de passar-se por exagerado, se podem
comparar aos antigos (ilegível) das terras vizinhas aos rios Nilo e Eufrates(...).79

Nas duas descrições sobre a produção da colônia militar Pedro II, pode-se
perceber que as terras exploradas eram bastante férteis como Cruz defende; mas
diferente do autor que atribui o fim das colônias militares às diversas moléstias que

79
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 16. (25/03/1854).
54

assolavam a região, os diretores atribuem o fato a “ociosidade” dos colonos, pois não
faziam esforço algum para o progresso da colônia que habitavam e, logo, da nação que
defendiam. O capelão Estulano Alexandrino Gonçalves Baião chega a comparar o rio
Araguari com os rios Nilo e Eufrates, comparando a floresta, em certa perspectiva com
o deserto mesopotâmio, considerando ambas as regiões como ermas e de difícil
conquista, sendo o rio o meio de sobrevivência mais eficaz dos colonos, sendo o meio
de transporte e de sustento, por isso a preocupação em comprovar a fertilidade da terra,
afirmando que aqui tudo cresce e se desenvolve sem o menor esforço.
É interessante observar a linguagem utilizada pelo cônego, utilizando um
discurso habilidoso, no qual cada palavra possui grande impacto como, por exemplo, a
mandioca que “intimida” com sua produção fazendo o lavrador suar de tanto trabalho,
ou o milho que produz com muito “vicio”, ou seja, produz de forma viciosa, sem
descanso, sendo tão “grandes e bem povoadas espigas, o que não acontece em outros
lugares”, ou mesmo as outras produções agrícolas que não deixam nada a dever a
nenhum outro lugar da província. Nesse discurso fica claro que a culpa da
produtividade da colônia Pedro II não está em seu solo impróprio para a plantação de
gêneros alimentícios, mas está na “ociosidade” dos colonos que não permitem a colônia
crescer.
De certa forma, Cruz tem razão em defender que um dos fatores que
possibilitaram o fim das colônias seria o estado de saúde de grande parte dos colonos,
agravado pela distância que as mesmas tinham dos centros urbanos, no caso Belém e
Macapá. Observe o relatório do capelão Estulano Alexandrino Gonçalves Baião sobre
sua chegada a colônia, ao então presidente da província Doutor Fausto Augusto
D’Aguiar.

(...) por falta de barco para o meu transporte para o rio Araguari, até o dia quatro do
corrente mês em que parti pelas dez horas da manhã para a colônia, onde cheguei no dia
doze com parte da gente doente das febres dominantes em Macapá. Contando-se entre
os doentes os mestres pedreiro e carpinteiro, este último, porém, já com alguma
melhora.80

No documento acima é visível que tais doenças impediam as atividades


produtivas da colônia, não se restringindo somente a produção agrícola ou pecuária,
mas também a manutenção da colônia militar, já que os mestres pedreiros e carpinteiros

80
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 1, 15/07/1851.
55

doentes não poderiam construir ou reformar, a constituição física ficava dependendo da


manutenção de leigos, o que de fato não ocorria, assim, a colônia ficava abandonada.
Neste documento percebe-se a grande dificuldade que a colônia enfrentava: o
trânsito entre Pedro II e as cidades de Macapá e Belém. Devido a sua localização, o
acesso a colônia Pedro II se tornava muito difícil, pois o ambiente não era muito
favorável, principalmente nos períodos em que a região se tornava uma prisão natural.
Na chegada de Joaquim Bezerra de Albuquerque à colônia militar, em 10 de março de
1852 (tendo saído de Belém em 8 de fevereiro do mesmo ano), ele descreve sua viagem
desta forma:

Dou parte a V. Exª que tendo partido dessa Capital a 8 de fevereiro último, cheguei em
Macapá 19 e não tendo encontrado ali canoa da colônia tive de me demorar até 5 do
corrente; e me emprestando o tenente Coronel da guarda nacional Procópio Antonio
Rolla, uma canoa, parti daquela vila a 6 e aqui cheguei a 21 pelas 10 horas da noite,
havendo alguma demora em viagem com virtude das grandes marés, chuvas e a
extraordinária e misteriosa arrebentação da pororoca na foz do rio Araguari, que não
obstante o eminente perigo que se encara até a entrada de sua embocadura, depois de
uma hora de viagem rio acima, o encanto de sua navegação compensa e faz perdoar
todos os sustos e incômodos passados: ele está muito longe de comparação com o
gigantesco e majestoso Amazonas, mas a mansidão de suas cristalinas águas, constante
largura de mais de 140 braças e elegância de suas margens incitam uma navegação
comercial e convidam habitantes a desfrutar as suas produtivas matas.81

Partindo no dia 8 de fevereiro o diretor da colônia Joaquim Bezerra de


Albuquerque somente chegou no dia 21 de março, ou seja, quase dois meses,
dependendo, além da natureza, como chuvas, marés e da pororoca existente no rio
Araguari, essa viagem foi concluída devido ao Coronel da guarda nacional Procópio
Antonia Rolla ter emprestado a canoa para concluir o trajeto restante, reforçando a
ideia de região erma.
O diretor da colônia descreve também uma pomposa imagem do rio Araguari
como um rio de largura de 140 braças e de grande capacidade de se estabelecer
comércio e de produzir atividade agrícola, apesar de suas dificuldades de acesso, o que
de certa maneira foi contornado posteriormente com a abertura de uma estrada, essa
realizada pelo mesmo Procópio Antonio Rolla, citado no relatório, o que vale
acrescentar que o coronel possuía exclusividade no comércio com a Colônia do
Araguari, além de um sistema de correio estabelecido com Macapá e Belém.

81
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 16, 25/03/1854.
56

A questão estratégica da colônia Militar Pedro II se faz por todos esses aspectos
territoriais, a proposta militar de proteção e vigilância da fronteira com a Guiana
Francesa, a proposta política de integração nacional dos sertões do Grão-Pará através
da colonização de áreas inóspitas, a questão agrícola de abastecimento para cidades
como Belém e Macapá. Pode-se estabelecer as relações de uns com os outros, estando
os colonos responsáveis por todas essas obrigações.

2.4 – Fronteiras visíveis

Outro aspecto das imagens que gostaria de abordar são os vazios visualizados
principalmente na imagem nº 2 demonstrando as terras “dominadas”, que seriam
“aráveis”, pertencendo à colônia, enquanto a mata em volta marca seu limite. Esse vazio
é o que Brian Harley chama de “silêncio dos mapas”, ou seja, uma “filtragem” das
informações imagéticas, além de ser um estudo prévio de possibilidades de utilização do
espaço. Para Harley “os mapas invadem de maneira invisível a vida cotidiana”82, ou
seja, os mapas além de determinarem limites e fronteiras das nações são também um
estudo de potencialidades e um modo de “disciplinar o espaço”83. Segundo Georges
Bertrand:

a delimitação não deve nunca ser considerada como um fim em si, mas somente como
um meio de aproximação em relação com a realidade geográfica, em lugar de impor
categorias pré-estabelecidas, trata-se de pesquisar as descontinuidades objetivas da
paisagem. 84

Logo, esse “limite” não só estabelece a extensão da colônia Pedro II, mas
apresenta a floresta como presente no cotidiano dos habitantes da região. Para M.
Martinelli e M. Pedrotti “paisagem é o que vemos diante de nós (...) ela existe a partir
do sujeito que apreende (...) como também em termos de seus interesses individuais”. 85
Assim, a paisagem deste tempo e espaço fronteiriço não só atingia o espaço
“urbanizado”, mas também toda a simbologia existente nas entrelinhas, como a morte e
o além do limite “conquistado”.

82
HARLEY, Brian. HARLEY, Brian. La nueva natureza de los mapas: Ensayos sobre La hitoria de La
cartografia. México: Fondo de Cultura Econômica, 2005, p. 90.
83
Idem.
84
BETRAND, G. “Paysage et geógraphie physique globale, Esquisse methodologique”. In:
Geógraphique des Pyrénées et du Sud-Ouest, Toulouse, 39 (3), 249-272, 1968. p. 4
85
MARTINELLI, M & PEDROTTI, M. “A cartografia nas unidades de paisagem”. In: Revista do
departamento de Geografia, v.14, 2001, p. 40.
57

A linha desenhada como floresta nas imagens 2 e 3 representam o limite urbano


da colônia militar, não havendo o que mostrar além das matas próximas, sendo estas a
fronteira da colônia militar. Desta perspectiva, os limites espaciais da colônia, como
normalmente da fronteira, tende a ser uma característica natural. Lucien Levbre nos
apresenta essa perspectiva de fronteiras naturais em sua obra “O Reno” 86, na qual um
mesmo rio é, ao mesmo tempo, diversos rios quando está em territórios diferentes, ou
seja, a colônia militar Pedro II é apenas uma faceta da fronteira norte do território do
Cabo Norte, no século XIX.
Através dessa perspectiva do espaço ao redor como uma limitação construída, o
entorno das construções e espaços de convívio social, existe uma área a ser conquistada
e mantida, além de fornecer recursos para a sobrevivência da colônia, como madeira,
palha, alimentos, rotas fluviais, relações comerciais, etc. A fronteira necessita de elos
com o centro político, mas também necessita que os mesmos elos estejam ligados às
pessoas da fronteira. Como do “sítio do cidadão João Manuel de Ferreira” que ficava a
uma légua da colônia e servia como referência para a localização da colônia militar
Pedro II. 87
O espaço apresenta o rio como elo mais próximo, já que ao mesmo tempo ele
limita a colônia militar Pedro II, o rio Araguari também é o meio de transporte mais
viável com o resto do império brasileiro. As correspondências e pessoas que vinham ou
voltavam através do rio e, muito provavelmente, de maneira furtiva, fugindo ou
chegando.
Para Simon Schama, todo espaço natural ao entrar em contato com o homem
deixa de ser intocado e passa a ser influenciado.88 Mas, quem são as pessoas que
transformaram o espaço da colônia militar Pedro II?

86
FEBVRE, Lucien. O Reno: História, Mitos e Realidades. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000.
87
Treze de Maio, Belém, 30 de maio de 1840, nº6, p. 22.
88
SCHAMA, Simon. Paisagem e memória. São Paulo: companhia das letras, 1996.
58

3. Guerra e paz na fronteira dos homens

“O desertor sabe que sua vida está perdida se for


capturado, e por isso não vacilará perante nenhum
crime, por mais vil ou cruel que seja.”
(Eddard Stark, “A Guerra dos Tronos”, George
R.R. Martin)

No dia 30 de maio de 1840 o jornal Treze de Maio publicava a chegada dos


colonos ao rio Araguari, para construção da colônia militar Pedro II, importante
acontecimento para a colonização do território do Cabo Norte.

Camaradas, de hoje a avante vai datar a vossa Gloria! A um duplo dever tendes de
satisfazer! Sois militares e sois povoadores deste importante sítio! Como militares
deveis a vossos superiores uma obediência sem limites, uma confiança plena e a certeza
de vosso castigo, ou vosso prêmio irrevogável. Como colonos, deveis á Pátria o amor ao
trabalho, a cultura de vossos terrenos, a educação e a instrução de vossos filhos nos
preceitos da moral, no amor da ordem, no respeito e obediência a todas as autoridades,
muito particularmente ao nosso enérgico Presidente, o Sr. Doutor João Antonio de
Miranda, que nesta província representa a pessoa do nosso adorado jovem monarca, Sr.
D. Pedro 2º. O Exmº presidente da província tudo espera de vos e confia que não
desconceituareis o que há a vosso respeito afiançado ao magnânimo governo de V. M.,
que lançará sobre vós as suas generosas vistas e valiosa proteção. Viva a nossa Santa
Religião – Viva a V. M. Sr. D. Pedro 2º – Viva o Regente em nome do Imperador –
Viva o nosso Presidente, o Sr. Doutor João Antonio Miranda – Viva a Colônia Militar
Pedro 2º. 89

No discurso do capitão André Freire de Andrada Parreiras, ao fundar a colônia


militar Pedro II, é possível perceber o peso do império brasileiro na fronteira, pois como
pertencentes a uma instituição militar os soldados deveriam seguir a obediência e a
hierarquia militar e social, mesmo tão distante dos centros do poder político. É visível
no discurso que os militares não eram apenas militares, mas sim “povoadores” da
fronteira brasileira. Ao definir tais conceitos aqueles colonos ficavam conscientes de
que não somente deveriam povoar e desenvolver a região destinada a eles como
deveriam proteger os limites territoriais ao seu entorno.
A colônia mostra neste momento a importância do fator humano em sua
constituição, pois a autoridade militar e monárquica era formada por soldados e súditos,
que lutavam e serviam a nação. Essa distinção é bem clara no discurso, pois como
militares era dever aos “superiores uma obediência sem limites, uma confiança plena, e

89
Treze de Maio, Belém, 30 de maio de 1840, nº6, p. 22–23.
59

a certeza de vosso castigo ou vosso prêmio irrevogável”, enquanto que como colonos
deveriam “á Pátria o amor ao trabalho, a cultura de vossos terrenos, a educação e a
instrução de vossos filhos nos preceitos da moral, no amor da ordem, no respeito e
obediência a todas as autoridades”. 90
Desta forma, como militares deveriam obediência aos superiores, caso contrário
seriam punidos, como colonos deviam trabalhar, instruir seus filhos e obedecer as
autoridades, ou seja, os colonos estavam acima de tudo cumprindo ordem das
autoridades ao povoar, tornar a terra produtiva e proteger a fronteira.

3.1. Habitar a colônia militar

Os primeiros colonos que saíram de Belém com destino ao rio Araguari eram
compostos pelo alferes comandante Joaquim Manuel Bahia, sua esposa Joaquina
Antonia do Espírito Santo, sua filha Luiza Margarida de Souza, 20 praças do 8ª batalhão
91
e 8 praças do 4ª batalhão de artilharia, com suas companheiras, alguns com filhos.
Esperava-se que o colono tivesse amor pela terra na colônia militar, por isso, sua família
ia junto, a fim de evitar a deserção e os pedidos de transferência, devendo a pátria
construir estruturas firmes na soberania nacional.
No entanto, a tarefa de arregimentar famílias para habitar a colônia não foi tarefa
fácil. Em discurso de 15 de agosto de 1840 o presidente da província do Pará afirmava
que
“A dificuldade de achar de pronto famílias que quisessem marchar para os lugares que
fossem designados, dificuldade com que lutaram meus antecessores, levou-me a lançar
mão de praças de primeira linha. Com estas estabeleci, pois, uma colônia na margem
direita do Araguary, a qual tendo sido fundada com o título de Colônia Militar de Pedro
II, conserva hoje a denominação de Colônia Pedro II. (...)(...) tenho sido cauteloso em
receber os que se oferecem, porque só quero trabalhadores e não ociosos que vão
perturbar o sossego dela, introduzindo os maus costumes”.92

O recurso aos praças de primeira linha surge em decorrência da dificuldade de


conseguir famílias dispostas a viver na colônia. Nota-se a preocupação do presidente da

90
Idem.
91
Treze de Maio, Belém, 20 de maio de 1840, nº3, p. 10–11.
92
PARÁ, Governo. Discurso recitado pelo exm. snr. doutor João Antonio de Miranda, prezidente da
provincia do Pará na abertura da Assemblea Legislativa Provincial no dia 15 de agosto de 1840. Pará,
Typ. de Santos & menor, 1840, p. 67.
60

província, “cauteloso em receber os que se oferecem”, a fim de garantir que a colônia


seria habitada apenas por trabalhadores, evitando o risco de enviar para lá pessoas tidas
como ociosas, que perturbariam o cotidiano da colônia, “introduzindo os maus
costumes”.
Mesmo com os 29 militares e suas famílias que saíram de Belém e de algumas
famílias que se ofereceram em Macapá para compor os colonos que fundaram a colônia
militar Pedro II93, o governo brasileiro criou medidas de povoamento da fronteira com
incentivos e propagandas da colonização ao longo do rio Araguari. Em 10 de junho de
1840, nas instruções de fundação da colônia militar o governo garantia o transporte da
família e dos bens dos colonos que quisessem morar tanto em Pedro II como em Araújo
Lima (colônia que não foi bem sucedida) e seria pago a cada chefe de família que
estivesse na colônia o valor de 6$000 reis. 94
Ao longo dos meses algumas famílias partiram para a colônia para iniciarem
suas vidas na fronteira, integrando a colônia Pedro II, garantindo não somente os
colonos militares, como suas famílias, criando vínculos com a colônia já que a saudade
da família é um dos motivos para desertar.
Contudo, a ambição de atrair colonos para esta região de fronteira não foi como
as autoridades esperavam, pois os mesmos afirmavam que dificilmente alguém sairia de
seus lugares de origem para uma região onde não “houvesse recurso algum”. Mas,
mesmo assim algumas pessoas dirigiram-se para a colônia em busca de promessas feitas
pelos oficiais como o pagamento de soldos altos. Desta forma, a distribuição dos
primeiros moradores da colônia ficou dividida em 28 homens, 28 mulheres e 18
crianças.95
Outro ponto a se observar é a preocupação com quem deveriam ser os colonos
da colônia militar Pedro II. Todos deveriam ser brasileiros, pois a colônia militar estava
localizada em uma região disputada de fronteira, pois os estrangeiros não apresentavam
os valores e interesses nacionais, consequentemente oferecendo risco a soberania
nacional96, já que a construção de um posto militar na fronteira simbolizava a soberania
brasileira em sua fronteira. Enquanto os estrangeiros não seriam os colonos ideais, os

93
Treze de Maio, Belém, 16 de maio de 1840, nº2, p. 8.
94
Treze de Maio, Belém, 10 de junho de 1840, nº9, p. 39.
95
Idem.
96
NUNES, Francivaldo Alves. “Aspectos da colonização militar no Norte do Império: povoamento,
segurança, defesa do território e conflitos.”. In: Revista Brasileira de História Militar, Rio de Janeiro,
ano: III, na 7, abril de 2012, p. 10.
61

indígenas eram considerados colonos em potencial, existindo nas instruções de


colonização da colônia militar Pedro II dois artigos estabelecendo que:

Art. 14ª Convindo muito ao serviço da nossa Santa Religião e aos interesses do
Estado, que se chamem aos braços dela e aos seios de nossa sociedade os índios,
nossos infelizes irmãos, o presidente da província mui especial e instantemente
recomenda ao senhor comandante da colônia empregue todos os meios
necessários e caritativos para chamar á povoação o maior número deles.
Art. 15ª O Governo garante
 1ª O fornecimento de brindes, ferramentas e vestuários, como meios
próprios para angariar a amizade e a união dos índios. O Governo pagará ao
senhor comandante aquelas que assim fizer ou porá a disposição as que pedir.
 2ª A prestação a uma quantia igual ao soldo de três meses a toda aquela
praça que angariar um índio, que o fizer habitar colônia e lhe ensinar a doutrina
cristã necessária.
 3ª A gratificação de cinquenta mil reis á qualquer que se casar com uma
índia e com ela habitar a colônia, recebendo, além dela, uma porção de terra para
cultivar como propriedade. Todas as despesas, de que tratam esses serão feitas
pelos cofres provinciais.97

Estes grupos indígenas que seriam atraídos para a colônia simbolizavam um


aliado na conquista da fronteira norte do Brasil, pois para a conquista da fronteira
seriam fundamentais no reconhecimento e povoação da região, considerando a posse da
terra pela uti possidetis. Desta forma, em meados do século XIX, o projeto indigenista
possuía a preocupação em inserir o indígena como símbolo nacional, estando ele em
diversos discursos de integração, pois para alguns autores como Ilmar Mattos e Maria
Helena Machado o Brasil passava por uma intensa transformação político-ideológica
preocupado em assumir a sua postura de nação, como um país que integra todo seu
território, com o objetivo de levar a “civilização” para todas as partes de seu espaço
nacional, principalmente nos sertões98. Contudo, a inclusão do índio era apenas
simbólica, pois a intelectualidade brasileira99 (influenciada pelo Romantismo e
Evolucionismo) estava preocupada em construir uma ideia de nacionalidade “pontuada
pela exclusão de todos aqueles que não se encaixassem no padrão cultural europeu”.100
A própria documentação descreve os índios como “nossos infelizes irmãos”, o
que reafirma a necessidade de integrar o indígena a nação brasileira, não somente como

97
Treze de Maio, Belém, 10 de junho de 1840, nº9, p. 39-40.
98
MATTOS, Ilmar Rohloff de. O tempo saquarema: A formação do Estado Imperial. Editora HUCITEC,
1986. & MACHADO, Maria Helena P. T. “O olhar imperial sobre a América”. In: NODARI, Eunice;
PEDRO, Joana Maria & LOKOI, Zilda M. Gricoli (Org.), Historia: Fronteiras, Florianópolis,
Humanitas/FFLCH/USP, 1999.
99
Entre estes intelectuais podemos encontrar Couto de Magalhães, Martius e os sócios do IHGB.
100
HENRIQUE, Marcio Couto. O general e os tapuios: linguagem, raça e mestiçagem em Couto de
Magalhães (1864-1876). Belém, UFPA (dissertação de mestrado), 2003.
62

aliado, mas como grupo que necessita de apoio, por não ser um membro civilizado na
nação, ou seja, o discurso afirma que é necessário civilizar o indígena para fazer parte
do império brasileiro. A estratégia de atração dos índios era baseada na oferta de
brindes, ferramentas e vestuários, prática recorrente ao longo da história do Brasil e que
seria oficialmente estimulada a partir de 1845, com a publicação do Decreto de 24 de
101
julho de 1845. Partia-se do princípio de que os índios seriam facilmente seduzidos
pelos brindes, pensados como instrumentos de civilização.
Partindo deste discurso civilizatório, o indígena deveria ser inserido como
membro participante desta nação. Com a diminuição da população devido às muitas
mortes ocasionadas pelo conflito entre cabanos e monarquistas brasileiros, os indígenas
seriam fundamentais a conquista da fronteira norte da província, já que o governo
precisava de colonos para a povoação e potenciais soldados para a vigilância e proteção
do território.
A relação da colônia militar com a perspectiva de civilização dos índios
permanece ao longo da existência da colônia Pedro II. Em 1860, matéria publicada no
jornal Treze de Maio informava que
O seu estado atual não é próspero. Entretanto, atenta a conveniência de termos
estabelecimentos militares nos territórios desertos do norte da província, não julgo
perdidas as despesas feitas com esse presídio de reconhecida utilidade para os
indivíduos que negociam com os habitantes daquelas paragens e para as tribos que
desejam pôr-se em contato com a civilização.102

A existência de índios nos arredores da colônia militar constituía indicativo de


que não se tratava de “territórios desertos do norte da província”. Mas, como eram
povos considerados selvagens, não civilizados, o espaço que eles habitavam era
definido como espaço vazio, a ser preenchido com a presença dos colonos e com a
esperada civilização dos índios. A colônia atuaria como ponto de apoio aos
comerciantes que se aventuravam pela região e também como ponto de atração dos
índios à civilização. Vejamos o que disse, a esse respeito, Fausto Augusto de Aguiar:

Do Araguari e terras vizinhas ao Cabo do Norte. Era de reconhecida conveniência o


estabelecimento desta missão para catequese das tribos que existem na parte superior do

101
Sobre a leitura que os índios faziam desses brindes, conferir HENRIQUE, Márcio Couto. Presente de
branco: a perspectiva indígena dos brindes da civilização. Comunicação apresentada no XVII Simpósio
Nacional de História/ANPUH. Natal, Rio Grande do Norte, 2013. Cópias do referido decreto podem ser
encontradas em BEOZZO, José Oscar. Leis e regimentos das missões: política indigenista no Brasil. São
Paulo: Loyola, 1983; SAMPAIO, Patrícia Melo e ERTHAL, Regina de Carvalho. Rastros da memória:
histórias e trajetórias das populações indígenas na Amazônia. Manaus: EDUA, 2006.
102
Gazeta Official, Belém, 16.6.1860, p. 1.
63

rio e nas terras que além se estendem para o Cabo do Norte, as quais, em grande parte,
nunca foram exploradas. Sobre as vantagens que provirão de se criarem povoações
nessa extremidade da província, acresce que pela proximidade da colônia militar de
Pedro II, entre elas e esta se formarão relações que concorrerão para o seu mútuo
desenvolvimento.
Foi confiada esta missão ao beneficiado da catedral desta província, Estulano
Alexandrino Gonçalves Baião, sacerdotes de recomendáveis qualidades.103

Chama a atenção o fato de que os religiosos designados para o cargo de capelão


da colônia militar eram, ao mesmo tempo, responsáveis pela atividade missionária junto
aos índios da região. Para isso, o governo provincial criou uma missão no rio Araguari.
Por todas essas razões, entende-se a manutenção da colônia por tanto tempo, mesmo
com os permanentes sinais de falta de prosperidade.
A colônia militar, mesmo sendo constituída principalmente por militares, era
também habitada por alguns civis. Faziam partes de seus habitantes oficiais e soldados
do exército, praças da polícia, artesãos e operários, mulheres e crianças, porém todos
eles deveriam responder ao diretor da colônia como autoridade local e prestar serviços
para o desenvolvimento da colônia Pedro II. Estas pessoas realizavam todos os tipos de
atividades como a formação de roças, a construção de canoas e casas, a criação de gado,
a pesca, a colheita, entre outros serviços.
Porém, existiam alguns colonos que exerciam funções mais específicas, como os
mestres carpinteiro e pedreiro, descritos em diversos documentos em situações
inoperantes devido a doenças ou sem matéria-prima para realizar suas atividades. Quem
descreve normalmente tais situações é outro colono específico: o cônego, que diferente
dos demais colonos, que estavam relacionados com uma área produtiva
economicamente ou de manutenção da colônia, estava ligado a vida espiritual,
realizando missas, batismos, funerais, casamentos.
Outras funções específicas estavam relacionadas a uma função vital para o
contato dos colonos com o território em sua volta, a de remadores. Uma publicação no
do jornal Treze de Maio, na folha “expediente do Governo”, do dia 3 de janeiro de
1855, em resposta ao ofício de 16 de novembro de 1854, feito pelo então diretor da
colônia militar, Joaquim Bezerra de Albuquerque, informava que os ditos remadores
deveriam ser os colonos civis, devendo estes receberem um pagamento pelo serviço e

103
PARÁ, Governo. Relatório do presidente da província do Gram-Pará, o exm. Sr. Dr. Fausto Augusto
de Aguiar, na abertura da segunda sessão ordinária da sétima legislatura da Assemblea Provincial, no dia
15 de agosto de 1851. Pará: Typ. de Santos & Filhos, p. 58.
64

devendo, somente em último caso, empregar os praças como remadores104. O que


delimitava a importância de haverem não somente militares e suas famílias, mas pessoas
que servissem de base para diversas funções, dentro do cotidiano.
Segundo Bastos, a formação da colônia militar deve-se ao recebimento de
instruções para que alguns oficiais fundassem a mesma. Dessa forma, estes oficiais
deveriam “providenciar o transporte de soldados e seus familiares para a colônia, onde
105
os praças poderiam erguer suas casas e cultivar plantações próprias”. Inicialmente, o
presidente da província, João Antônio de Miranda, acreditava que dentro da colônia
prosperava a moralidade e os bons costumes entre seus moradores. Tanto é que pediu
para que mulheres de “má vida” fossem enviadas para a colônia, para que seus “maus
costumes” fossem “purificados” pelo gosto do trabalho que estas adquiririam dentro da
colônia.
O pensamento de “purificação” das pessoas na fronteira é muito próximo da
ideia de “correção” de conduta, já que mesmo com pedidos dos diretores por praças de
boa conduta, os militares enviados são, pelos relatos, indisciplinados, ociosos e doentes
o que prejudicava, segundo os relatos, o desenvolvimento da colônia militar Pedro II.
Inicialmente, a colônia deveria ser um lugar de desenvolvimento da região do
Cabo Norte, porém com o tempo a colônia passou a ser um lugar em que, segundo o
então diretor da colônia Joaquim de Bezerra de Albuquerque, “a preguiça aqui reinava e
ainda vai reinando”.106 Essa descrição demonstra como se estabeleceu a relação de
tensão entre os colonos com os administradores da colônia militar.
Como argumento os diretores afirmavam que as diversas casas da colônia militar
Pedro II, sendo três pertencentes a “Nação”, se encontravam em péssimo estado e
serviam para diversas funções, como a capela, que servia de casa de arrecadação e casa
de residência do comandante e diretor da colônia que servia de quartel. Isso se dava por
um constante improviso de funções,107 como discutido no capítulo anterior, fazendo
referência a falta de trabalho por parte dos colonos ou de condições de infraestrutura
para os mesmos para o desenvolvimento do lugar, o que de certa forma, estava
relacionado um ao outro, já que os colonos deveriam manter a colônia e, segundo os
relatos, não o faziam.

104
Treze de Maio, Belém, 23 de janeiro de 1855, nº439, p. 1.
105
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do
Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (monografia de mestrado), 2004.
106
APEP. SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855, 11/11/1854.
107
APEP. SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 16, 25/03/1854.
65

3.2. Soldados, doentes e esqueletos no inóspito

Os relatórios nos mostram o difícil acesso decorrente da natureza específica da


entrada ao rio Araguari, como foi descrito no capítulo anterior e a falta de estrutura para
tal colonização, como o meio de transporte precário mesmo depois de 14 anos de
fundação da Colônia Militar o que tornava menos atrativo ainda o seu povoamento e
logo a motivação de colonizar a região do Cabo Norte diminuiria, devido a distância e
as dificuldades da região.
Como já foi visto, é possível visualizar que além da distância da capital e da
falta de infraestrutura, os casos de doenças recorrentes na região e, como o próprio
cônego apontava, as “febres dominantes em Macapá” eram comuns e prejudicavam a
própria produção econômica já que uma pessoa doente não produz, como afirmava o
cônego Estulano alexandrino Gonçalves Baião ao informar que o mestre carpinteiro não
trabalhava de 6 de janeiro até 26 de fevereiro de 1853, por estar doente108 ou no
relatório da colônia militar de 19 de janeiro de 1865, que afirmava ter parte dos praças
doentes, obrigando a dividir as tarefas com poucos colonos.109
Decorrente destas características naturais a província enfrentava elevado índice
de mortalidade devido às diversas doenças que se alastraram principalmente no Cabo
Norte, que registrava alto índice de pessoas contaminadas por diversas doenças no
século XIX. Em correspondência do dia 25 de março de 1854 ao presidente da
Província, o tenente Joaquim Bezerra de Albuquerque, então diretor da colônia
denunciava:

(...) essa voz de epidemia que por aí propagam não é aqui tão assustadora, e as pessoas
existentes não apresentam aquele caráter sezonativo de Macapá, cujos habitantes
obstruídos e amarelos estão sempre doentes, e o mesmo se observa nos soldados da
Fortaleza, que parecem uns esqueletos (...) 110

Mesmo sendo uma visão otimista, ao comparar os soldados de Macapá com os


da colônia Pedro II, o diretor da colônia apresenta a existência das doenças como
recorrentes, a epidemia da região do Cabo Norte é uma questão a se discutir, já que uma
população doente não produz devidamente e apresenta problemas que levam a afetar a
produção econômica da província e o projeto de nação, principalmente ao tratar da

108
APEP SPP Caixa159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 6, 08/04/1853.
109
APEP SPP Caixa268. Ano: 1863 – 1868. Doc. 9, 19/01/1865.
110
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 16, 25/03/1854.
66

soberania na fronteira política, já que os soldados doentes “que parecem uns esqueletos”
representam fragilidade da nação.
O outro aspecto é a crise de abastecimento da região, pois sendo reduzida a
população, doente e somente parte dela trabalhando nas roças, o setor alimentício não
poderia contribuir para manter o contingente populacional da província do Pará. Carlos
Bastos apresenta que

o desabastecimento porque passava a província paraense, (...), era a conseqüência do


número diminuto de trabalhadores disponíveis, enquanto que parte considerável dos
homens da região estava mais empenhada em se dedicar em circunstancialmente a
atividades extrativistas, que não contribuíam para a economia provincial como um
todo.111

Dessa forma, a produção agrícola não atingia seu objetivo. Essa ausência de mão
de obra é vista por Jonas Marçal de Queiroz e Mauro Cezar Coelho como parte do
índice de mortalidade provocado “após o período da Cabanagem, que significou um
desastre para a região em termos demográficos, pois provocou a morte ou a dispersão de
um contingente expressivo daquela população...”.112
Seguindo essa lógica, a colônia militar foi fundada em 1840, ano do término do
conflito cabano, contexto em que a Província do Pará passou a ter a preocupação com as
fronteiras, porém com uma população consideravelmente reduzida, “o saldo final da
Cabanagem foi trágico, calculando-se que morreram cerca de 30 mil pessoas – 20% da
113
população estimada da província” , além dos feridos, desertores, fugitivos e os
inaptos para o trabalho, como crianças e idosos.
Daí a utilização de uma força de trabalho dos corpos de trabalhadores e do uso
das forças armadas, logo na fronteira deveria ter a presença militar. As colônias
militares são parte de um projeto do Segundo Reinado, porém com base de experiências
coloniais, já que utilizou da mesma estratégia para povoar a fronteira, por exemplo, a
utilização de militares açorianos na fundação de Mazagão.114

111
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Vadiagem, Costumes e Trabalho: Homens livres pobres e
recrutamento nas Companhias de Trabalhadores (Grão-Pará: 1835 -1859). Belém, UFPA (Monografia
de Graduação), 2001, p. 19.
112
QUEIROZ, Jonas Marçal de & COELHO, Mauro Cezar. Amazônia: Modernização e Conflito (Séculos
XVIII e XIX). Belém: UFPA/NAEA; Macapá: Unifap, 2001, p. 119.
113
VAINFAS, Ronaldo (org.). Dicionário do Brasil Imperial. Rio de Janeiro: Objetiva, 2002, p. 105.
114
Ver ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth. Agricultura no delta do rio Amazonas: colonos produtores
de alimentos em Macapá no período colonial. in: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth (org.). A escrita
da história paraense. Belém: NAEA/UFPA, 1998. p. 53-92 e RAVENA, Nìrvia. “O abastecimento no
67

Outro aspecto que mostrava a fronteira como inóspita é a utilização da colônia


militar como punição, local de degredo. Em 14 de maio de 1875, o então diretor Capitão
Antonio José dos Santos Bentes escrevia para o presidente da província, pedindo a
nomeação de “um oficial inferior de confiança e boa conduta para sargentear o
destacamento (...), visto que hoje só mandam para este lugar soldados de péssima
conduta e incorrigíveis, que só servem para fazerem barulho e provocarem seus
camaradas”. 115
Essa descrição apresenta a fronteira como punição aos soldados (ou não) de má
conduta, que ameaçam o bem estar da sociedade e a formação da nação a qual deveria
enviar estes “problemas” para longe da sociedade civilizada, local que os corrigisse e os
tornasse elemento de “bem” e com amor ao trabalho e à pátria. Prioritariamente, estes
“marginais” deveriam ser enviados para o inóspito local da fronteira, atingindo com isso
a punição como solução para a colonização da fronteira.
O fato é que o discurso de fronteira inóspita não apresenta somente em sua
essência a distância geográfica, a falta de estrutura, as doenças, o déficit populacional,
mas atinge primordialmente a função social de degredo, a punição e a correção dos
sujeitos sociais desenquadrados nos parâmetros de civilização a que se pretende atingir.
Desta forma, na colônia militar Pedro II seus habitantes eram perseguidos pelas
moléstias. Logo, as diversas moléstias assolaram a região tornando os trabalhadores
fracos e indispostos.
Para Fábio Pontarolo os degredados não se enraizavam com o lugar destinado e
entre as atitudes de reação a mais comum era a fuga. Porém, não era uma tarefa fácil,
não pela vigilância interna, mas pela localização com “trilhas difíceis, repletas de
indígenas, animais e outras dificuldades”.116 Desta forma, os colonos encontravam-se
em uma prisão natural e deveriam reagir perante o espaço que os cercava e as situações
que exigissem.
Contudo, a documentação existente sobre a colônia militar Pedro II revela que,
muito embora estivessem marginalizados na fronteira norte do Brasil, abandonados pelo
governo, longe de familiares e amigos, os colonos eram capazes de demonstrar
solidariedade com seus companheiros de infortúnio. Foi o que aconteceu em 1859,

século XVIII no Grão-Pará: Macapá e vilas circunvizinhas”. in: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth
(org.). A escrita da história paraense. Belém: NAEA/UFPA, 1998, pp. 29-52.
115
APEP SPP. Caixa 347. Ano: 1875. Doc. 12, 14/05/1875.
116
PONTAROLO, Fabio. Homens de ínfima plebe: os condenados ao degredo interno no Brasil do
século XIX. Rio de Janeiro, Ed. Apicuri, 2010, p. 112.
68

quando surgiu na província a notícia de que em Santarém havia sido descoberta a cura
da lepra. O jornal Gazeta Official informava sobre as

quantias com que os senhores empregados, operários, praças do destacamento e alguns


habitantes da colônia militar Pedro II, do Araguari, contribuíram espontaneamente em
benefício dos morféticos indigentes que existem no lazareto do Paracary.117

A Gazeta Official indicava os nomes dos colonos, seguidos da quantia que cada
um havia oferecido para o tratamento dos leprosos:
O diretor, alferes M. da C. P. de Castro 50$000
O capelão, padre José Rodrigues da Silva 10$000
O almoxarife, 2º cadete J. B. de C. F. 6$000
O 2º cadete, 2º sargento R. A. Benício 2$500
Cabo Francisco Antonio 2$000
Cabo Francisco do Nascimento 2$000
Cabo Ignacio de Freitas dos Santos 2$000
Soldado Fortunato C. de Santana 10$000
Soldado Amâncio José 2$000
Soldado Joaquim José de Azevedo 2$000
Soldado Gabriel dos Anjos 2$000
Soldado João Pedro da Silva Pereira 2$000
Soldado Jerônimo Loureiro 2$000
Soldado Honorato Antonio de Assunção 2$000
Soldado Romualdo Antonio 2$000
Soldado Manoel Quitério 2$000
Soldado Balduíno Ribeiro Ramos 2$000
Soldado Antonio José Ribeiro 2$000
Soldado José Cardoso de Carvalho 2$000
Soldado João Cabenda 2$000
Soldado Firmino José Pedro 2$000
Habitantes, Francisco Manoel Diniz 5$000
Maria de Lima Diniz 5$000
Baltazar Batista dos Santos 2$000
Alexandrina Antonia dos Santos 2$000
Julio Serrão 1$000
Maria Joaquina da Conceição Serrão 1$000
Rita de Cácia Simôa $500
Beneto Monteiro de Buenos-Ayres Sereno 1$000
Anna Francisca de Miranda 1$000
Angélica Serrão 1$000
Caetana Maria 1$000
Manoel João Quaresma 1$000
Inês Maria da Conceição 1$000
Honório Antonio de Lima 1$000
Maria Engrácia 1$000
133$000

Justifico ao leitor a apresentação dessa lista, relativamente extensa. Em primeiro


lugar, ela nos permite dar nome a estes sujeitos que tantas vezes foram retratados na

117
Gazeta Official, Belém, 16.9.1859, p. 2.
69

documentação oficial como preguiçosos, viciosos e desordeiros. A lista apresenta este


grupo de colonos atribuindo a eles dignidade, eis que mesmo vivendo em situações
precárias, com baixos salários, que atrasavam por meses, “contribuíram
espontaneamente”, enfatizava jornal, para o tratamento dos leprosos.
Por outro lado, a lista nos permite investigar um pouco mais o perfil dos
habitantes da colônia. Em matéria publicada no Treze de Maio, em 1856, Manoel da
Conceição Pereira de Castro, diretor da colônia militar Pedro II, em ofício encaminhado
ao presidente da província, apresenta dados de uma das pessoas citadas na lista:
Comunico a Vmc. que em deferimento ao requerimento de Rita de Cácia Simôa,
condenada a vinte anos de prisão nessa colônia, tenho nesta data expedido as
convenientes ordens a Câmara Municipal de Macapá para que arbitre uma quantia
razoável para subsistência da suplicante enquanto estiver ela cumprindo a sua
sentença... 118

Note-se que Rita de Cácia Simôa consta na lista contribuindo com a menor
quantia entre os doadores ($500). Por outro lado, a presença dessa mulher entre os
colonos nos permite refletir sobre o discurso das autoridades que defendiam que a
colônia fosse habitada apenas por pessoas de boa conduta, muito embora não saibamos
as razões que levaram Rita de Cácia Simôa a ser condenada. De todo modo, fica claro o
uso da colônia Pedro II como lugar de degredo, de punição a pessoas que apresentassem
comportamento considerado inadequado pelas autoridades.
A forma como a lista foi elaborada nos permite perceber a hierarquia social
existente na colônia militar Pedro II: diretor, capelão, almoxarife, cadetes, cabos,
soldados e habitantes. É no último escalão, o dos habitantes, que Rita de Cácia Simôa
aparece. Os valores doados também acompanham, em certa medida, essa hierarquia,
note-se que diretor, capelão e almoxarife foram os que contribuíram com alguns dos
maiores valores, 50$000, 10$000 e 6$000, respectivamente. Mas, chama a atenção os
valores doados pelo soldado Fortunato C. de Santana (10$000) e pelos habitantes
Francisco Manoel Diniz (5$000) e Maria de Lima Diniz (5$000), bem acima do valor
oferecido pela maioria dos colonos.
Outro colono que a lista nos permite conhecer melhor é o soldado Balduíno
Ribeiro Ramos. Vejamos o que publicou, sobre ele, o jornal Treze de Maio, de 18 de
setembro de 1861

O marechal de campo comandante das armas ordena que o soldado do batalhão 11 de


infantaria Balduíno Ribeiro Ramos responda a conselho de guerra, por ter-se provado

118
Treze de Maio, Belém, 2.9.1856, p. 2.
70

no de investigação, a criminalidade dos fatos de haver-se embriagado e tentado forçar


diversas mulheres existentes na colônia militar Pedro II, achando-se com uma navalha,
causando por essa forma ofensas físicas a uma e ter resistido armado de uma baioneta a
ordem que dera o diretor da dita colônia para ser metido no tronco, visto não haver
segurança na prisão e querer continuar nos mesmos desatinos...119

Balduíno Ribeiro Ramos desafiou a ordem que se desejava para o espaço da


colônia militar Pedro II. O episódio revela a presença de bebidas alcoólicas na colônia,
razão da indicada embriaguês do soldado. Alterado pela embriaguês, ele tenta violentar,
ofende e agride fisicamente mulheres da colônia, chegando ao ponto de, armado, resistir
a voz de prisão. Pode-se perceber, ainda, a prática de castigar os soldados colocando-os
“no tronco” e a curiosa falta de segurança da prisão dentro de uma colônia militar.
Dois outros soldados que constam na lista de doadores podem ser vistos em
ações posteriores referentes à colônia. Em 1856, o Comandante das Armas solicitou ao
diretor da colônia que enviasse para Belém cinco soldados “a fim de serem ouvidos
como testemunhas no Conselho de Guerra a que se vai proceder contra os soldados
comprometidos no assassinato do ex-diretor e comandante do destacamento da mesma
colônia”.120 Duas das testemunhas seriam Honório Antonio de Lima e Julio Serrão.

3.3. Revoltas e reações

Dentro do período imperial todo homem era um soldado em potencial e como


era obrigatório a servir nas forças armadas, tanto nas tropas pagas quanto nas auxiliares
encontravam-se pedreiros, sapateiros, carpinteiros, lavradores e outros. Ser militar fazia
parte da vida de qualquer homem que tivesse acima de quatorze anos. Essa situação é
vista nos relatos da colônia Militar Pedro II. Mesmo as tropas pagas deveriam servir
para trabalharem em algum lugar, de preferência nas roças, o que tornava a vida deste
soldado muito difícil, pois ele deveria trabalhar como lavrador e servir como soldado.
Shirley Nogueira discute que a vida militar atrapalhava também os lavradores, pois lhe
tomava bastante tempo. Tempo este perdido que prejudicava as suas roças. 121

119
Treze de Maio, Belém, 18.9.1861, p. 5.
120
Treze de Maio, Belém, 2.5.1856, p. 2.
121
Apresenta que dentro do contingente das forças do Exército existia uma variedade de profissões, entre
as quais se destacava a de lavradores. Estes lavradores, segundo ela, tinham maior freqüência dentro das
tropas auxiliares, seguido de carpinteiros e sapateiros, mas também podiam ocupar as tropas pagas. In:
NOGUEIRA, Shirley Maria Silva. Razões para desertar: A institucionalização do exercito no Grão-
71

Não significa, entretanto, que todos dentro da colônia “acatassem” com


passividade esta realidade. Assim, parte da vida destes militares girava em torno não
dos seus deveres para com as forças armadas, mas sim com as suas relações familiares e
as suas relações de solidariedade para com seus companheiros. Estas relações sociais
mútuas ajudavam estes sujeitos a encararem o serviço militar, que muitas vezes era
abusivo, o que de certa maneira facilitava as sublevações que aconteceram em diversos
períodos da história militar mundial e brasileira.122 Dentro da colônia Pedro II não foi
diferente. As documentações nos mostram diversos casos em que os soldados
realizavam motins, jogatinas e frequentemente, insultavam os seus superiores
hierárquicos.
Dentro desta perspectiva, pode-se perceber que as relações sociais da colônia
não ocorreram de uma forma romântica e patriótica, como a história militar tradicional
afirmava.123 O sargento Serafim José Ferreira, em 1853, descrevia a “insubordinação”
de soldados dentro da colônia para com sua pessoa:

(...) mandando eu recolher a prisão um cabo de esquadra da mesma Arma por me faltar
com respeito este mencionado soldado (cabo) se levantou contra mim estando todo o
destacamento em forma e dizendo aos seus camaradas em voz alta que não
consentissem eu recolher o dito cabo por que (eu) era uma maroteira, pois eles não
estariam sujeitos a castigo algum, pois Exmº Sr. Eu (ilegível) tendo que quem está
ensinando seus companheiros para o mal é ser um cabeça da revolução e dizendo lhe eu
que não estivesse falando asneiras(...).124

O fato acima descrito mostra que toda a disciplina investida na colônia militar
não fazia dos colonos militares “padronizados”, muitas vezes devido a relação tensa
entre colonos e seus superiores. O cabo, demonstrando pouco respeito para com a
125
autoridade representada no sargento, chama-o de “maroteira” , dando a entender que
o seu superior era “malandro” e ao referir-se de forma feminina, duvidava da
“masculinidade” e desafiava sua autoridade perante os outros soldados.
Após quase um mês do relato acima descrito, na noite do dia 18 de março de
1853, um motim ocorreu, participando dele os praças de linha e a guarda policial

Pará, no ultimo quartel do setecentos. Belém, (Dissertação de Mestrado), NAEA/UFPA, 2000. Pp. 159 -
167.
122
CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor & KRAAY, Hendrink. “da História militar à ‘nova’ História
militar”. In: CASTRO, Celso; IZECKSOHN, Vitor & KRAAY, Hendrink (org.), Nova história militar
brasileira. Rio de Janeiro: editora FGV, 2004.
123
Idem.
124
APEP SPP – Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 3, 12/02/1853.
125
Maroteira é um sinônimo feminino de ladino, esperto, velhacaria. Referência: FERREIRA, A. B. H.
mini Aurélio da língua portuguesa. 6ª Ed. Curitiba, 2004.
72

destacada na colônia, agindo violentamente contra o almoxarife sargento Serafim José


Ferreira, relator da denúncia. Depois do ocorrido foram presos os “cabeças” da revolta:
Ausdeão de Ignacio, Antonio de Souza, Maximo Gomes de Souza e Herculano José
Solteiro.126
Tais desentendimentos eram recorrentes, o que levava, em alguns casos, aos
motins, que eram bastante comuns nas organizações militares. Paloma Siqueira Fonseca
cita a diversidade de grupos sociais que as forças armadas punia, como principais presos
não somente militares, mas a própria sociedade civil como “(...) infratores dos corpos da
Marinha e do Exército, prisioneiros de Guerra, (...) escravos mandados por seus
senhores para correção, pessoas condenadas pela Justiça comum a trabalhos forçados e
a degredo, além de indivíduos recrutados à força acusados de vadiagem”.127 Ou seja, a
indisciplina militar afetava a imagem disciplinadora que as forças armadas deveriam
exercer.
Para Carlos Bastos, já no primeiro ano de existência da colônia militar Pedro II
parte das praças pretendeu realizar um motim parecido com o que houve no
destacamento do furo do Limão.128 Este motim mostrou que as ideias e as ações de
indisciplinas migram no meio militar e acabam servindo de referência para outras
sublevações. O fato é que as sublevações dentro da colônia Pedro II são bastante
recorrentes nas documentações.
Os colonos que foram enviados para ocuparem a colônia esperavam uma
mensalidade de seis mil réis para morarem na mesma, o que acabou não ocorrendo.129
Eram comum a publicação de ofícios nos jornais informando sobre o atraso no
pagamento dos soldados, como este publicado na Gazeta Official, de 21.1.1859:

Ao inspetor da tesouraria de fazenda, remetendo-lhes as folhas do almoxarife e


operários da colônia militar Pedro II para pagamento de seus vencimentos relativos aos
meses de outubro do ano próximo passado a março do corrente ano, a fim de que mande
satisfazer a sua importância.130

126
APEP SPP – Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 4, 08/04/1853.
127
FONSECA, Paloma Siqueira. “A Presiganga e as Punições da Marinha (1808 – 31)”. In: CASTRO,
Celso; IZECKSOHN, Vitor & KRAAY, Hendrink (org.). Nova história militar brasileira. Rio de Janeiro:
editora FGV, 2004, pp. 140-141.
128
O furo do Limão foi citado pelo comandante da Colônia como um motim. In: BASTOS, Carlos
Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do Grão-Pará (meados
do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004, p. 215.
129
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do
Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004.
130
Gazeta Official, Belém, 21.1.1859, p. 1.
73

Esperava-se que a colônia se tornasse ao longo do tempo bastante próspera o que


acabou não acontecendo.131 A condição de vida destes soldados era bastante precária,
pois os soldados muitas vezes não recebiam seus soldos, faltavam remédios, roupas,
madeira para as construções, etc. Tudo isso somava para a insatisfação dos soldados. Se,
de modo geral, as autoridades atribuíam a falta de prosperidade da colônia à suposta
ociosidade dos colonos, eis que alguns presidentes da província apontavam outras
razões para isso. É o que se depreende da fala de Jerônimo Francisco Coelho, em 1849:

A Colônia de Pedro II, no rio Araguari, mandada fundar em 1840 por um de meus
dignos antecessores, o Desembargador João Antonio de Miranda, tendo a princípio
florescido enquanto a persistência do seu fundador na administração lhe proporcionou
meios e lhe prestou proteção, veio posteriormente a cair em completo abandono, sendo
as principais causas a falta de cumprimento de promessas aos primeiros colonos sobre a
doação de terrenos e o severo tratamento que em lugar tão remoto sofriam os mesmos
colonos da parte do último diretor que ali existiu”.132

Partindo desta realidade de abandono pelos poderes públicos, os diversos


diretores que passaram pela Colônia enviavam suas “súplicas” para que o presidente da
província atendesse pelo menos os pedidos mais importantes e que pagasse os soldos da
tropa urgentemente, visto que estavam sempre atrasados, apesar dos mesmos sempre
culparem os colonos de que esta situação devia-se a “preguiça” frente ao trabalho que
deveriam realizar. É o que se observa no documento abaixo.

(...) e a folha do pagamento que me foram entregues, estando já a levantar ferro, donde
V. Exª ponderar haver a maneira pela qual até que se tem feito pagamento aos guardas
do destacamento da colônia , sendo essa uma das causas da deserção de algum destes,
como também a falta de regularidade do tempo de serviço (...).133

O fato é que estas sublevações entravam em choque com um manual do exército


escrito no século XIX, onde havia as definições de que os soldados deveriam ser fiéis às
ordens militares e aos regulamentos.134 Além disso, dentro do exército brasileiro havia a
constante punição de soldados pelos castigos físicos, apesar de existirem diversas
discussões contrárias a este tipo de prática. Contudo, os soldados sabiam diferenciar

131
CRUZ, Ernesto. Colonização do Pará. Belém, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia, 1958.
132
PARÁ, Governo. Falla dirigida pelo exm.o sñr conselheiro Jeronimo Francisco Coelho, prezidente da
provincia do Gram Pará á Assembléa Legislativa Provincial na abertura da segunda sessão ordinaria da
sexta legislatura no dia 1.o de outubro de 1849. Pará, Typ. de Santos & filhos, 1849, p. 141.
133
APEP SPP Caixa159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 1, 15/07/1851.
134
KRAAY, Hendrink. “Cotidiano dos soldados na guarnição da Bahia (1850-89)”. In: CASTRO, Celso;
IZECKSOHN, Vitor & KRAAY, Hendrink (org.). Nova história militar brasileira. Rio de Janeiro:
editora FGV, 2004.
74

quando o castigo passava de seus limites. E o resultado disso eram as diversas formas
de resistência elaboradas por estes sujeitos históricos.
Bastos mostra que a disciplina dentro das tropas dependia da formação de
valores que eram compartilhados entre os soldados e oficiais. Ou seja, se uma das partes
ignorasse estes valores “rompia-se a negociação que ajudava a sustentar a disciplina”.135
O diretor da colônia militar Pedro II, em 18 de novembro de 1853, relatava que a
insubordinação da tropa era preocupante, pois os soldados afirmavam que se fossem
castigados fugiriam para Caiena e o diretor não tinha como manter muitos praças ou
paisanos presos por muitos dias, pois logo recebiam ameaças de invasão do quartel e
assassinato das autoridades do colônia.136
Porém, não existia apenas uma pressão vinda de baixo para cima, ameaçando a
ordem da colônia, as próprias autoridades muitas vezes provocavam a tensão
provocando motins e deserções. Vejamos a denúncia do escrivão no anexo do ofício de
1855, de João Florêncio Dantas para Sebastião do Rego Barros que nos mostra o abuso
de poder do diretor da colônia para com seus soldados.

(...) V. Exª os atos praticados pelo tenente diretor desta colônia, Joaquim Bezerra de
Albuquerque, que este só cuida em negociar e não se importa do que pertence a nação;
tem mandado fazer canoas para si com a madeira da nação, pelo próprio operário desta
colônia, Justiniano Francisco da Costa; tem mandado por vezes soldados pescarem
pirarucu, para depois vender ao mesmos soldados e a outras pessoas, pelo preço de 160
reis a 18; tem mandado buscar canoas e canoas carregadas de cação; mandou demolir
uma roça de milho para si, dizendo que era da nação, como se esta tivesse galinhas nesta
colônia que precisasse de milho; cuja roça é a da várzea que o mesmo diretor(...).137

O fato é que as relações serão rompidas entre soldados e oficiais dentro da


colônia. Os oficiais acusavam os soldados de preguiça, “ociosidade” e insubordinação
acabando por caracterizar uma constante tensão entre soldados e praças em relação aos
oficiais e as autoridades da colônia. Contudo, o que os oficiais chamavam de “preguiça”
e “ociosidade” deve ser considerado como uma forma de reação. Pois, os soldados eram
levados para uma região onde não havia nenhuma estrutura, eram maltratados pelos
oficiais, não recebiam seus soldos regularmente. Desta forma, recusavam-se a trabalhar
ou faziam diminuíam o ritmo do trabalho.

135
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do
Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004.
136
APEP SPP. Caixa 159, ano: 1851 – 1855, 18/11/1853.
137
APEP SPP. Caixa 159, ano: 1851 – 1855. Doc. 41, 1855.
75

Na verdade, havia uma espécie de “regra” implícita dentro dessas relações.


Embora a disciplina militar fosse bastante rígida, ela deveria também ser moderada, sob
pena da sublevação. Realidade que os conhecidos como “subjugados” pela ordem
militar, habitualmente, propagavam o medo para as autoridades competentes e desta
forma, deveria existir um “bom senso” nas relações de poder.
As mesmas autoridades da colônia para justificarem suas atitudes ou punirem os
soldados também escreviam para a capital para informar a indisciplina e “maus hábitos”
dos soldados. O mesmo Joaquim Bezerra de Albuquerque, diretor da colônia Pedro II,
denunciava que

habitando nesta colônia o paisano denominado colono Manuel João, casado com Ignez
Maria Rosa, com a mesma denominação desapareceram de uma pequena roça onde se
achavam morando no fim de junho para o princípio de julho, levando em sua companhia
Romana Francisca, também colona. Quando tomei conta da dita colona ela morava com
o referido Manuel João; e como a sua casa fosse um ponto de reunião dos soldos para
jogos e embriaguês, impôs ao mesmo Manuel João que não convertesse se reunir nela 2
soldados afim de evitar rixas que já se iam formando entre eles; mas não permitindo a
preguiça de Manuel João que ele pudesse aqui existir sem o (...) que lhe deixavam as
reuniões. Me pediu licença e retirou-se para a roça de onde desapareceu queixando-se
que eu o perseguia; porém para que o meu procedimento aqui não cause cuidado a V.
Exª. relativamente aos colonos, permita-me V.Exª a liberdade:
Dois soldados de 4 que tive de fazer recolher á praça de Macapá se achavam amasiados
com ambas as mulheres supraditas e combinaram para que elas fugissem que eles
também fugiam quando a canoa fosse para Macapá e se reuniam para irem para o
Amapá, assumindo a tudo isto o próprio Manuel João(...).138

Neste documento percebe-se a situação de tensão formada entre os colonos e o


diretor da colônia. Nota-se no documento a tentativa de deserção de soldados, que no
caso específico iriam fugir com as colonas, sendo uma delas casada. Neste contexto, o
diretor justifica sua atitude, a partir de um discurso oficial, afirmando que os colonos
são “ociosos” e vivem “para jogos e embriaguês” e que apesar de seu esforço “a
preguiça ali reinava e ainda vai reinando”.139 Mas, como foi citado acima, esta era uma
situação elaborada pelos soldados como forma de reagir a “dominação” dos oficiais, ou
seja, evitando o trabalho, fugindo e fazendo motins como o que levou ao assassinato do
diretor Joaquim Bezerra de Albuquerque, a pilhagem da colônia militar e a castração a
malho140 e fuga do capelão e diretor da missão do rio Araguari, Estulado Alexandrino

138
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 24, 03/11/1854.
139
Idem.
140
Martelo sem unhas nem orelhas, usado freqüentemente por ferreiro, referência: FERREIRA, A. B. H.
mini Aurélio da língua portuguesa. 6ª Ed. Curitiba, 2004.
76

Gonçalves Baião, que partiu da colônia antes de ser também vítima da revolta.141 Esse
motim tomou grande espaço na imprensa, pois os amotinados fugiram, alguns para
Caiena e outros para a região contestada franco-brasileira, sendo capturados alguns
pouco tempo depois.
O fato da castração pode possuir diversos significados, mas o fato foi tão
chocante que depois foram publicadas diversas informações que se desencontravam,
afirmando a morte do cônego142, abertura de sua vaga na missão do Araguari e de
capelão da colônia Pedro II143 pouco tempo depois a exoneração do cargo de capelão da
colônia Militar144, até o cargo de capelão ser ocupado pelo frei Marcello de Santa
Catarina de Sena.145 Tal cobertura ignorava totalmente o fato da castração ocorrido na
colônia Pedro II como uma forma de selecionar a imagem do cônego como membro
importante da sociedade paraense.
Muitos dos conflitos ocorridos na colônia relacionados a tensão entre os
diretores e os colonos estavam ligados não somente aos maus tratos e pelas punições
disciplinadoras, mas também a falta de promessas cumpridas como soldos atrasados,
benefícios não dados, terras não entregues. Sendo o motivo de revoltas e deserções,
principalmente por estarem em uma região tão remota como o Cabo Norte. 146
Tais reações dos colonos eram possíveis devido às relações construídas com
grupos no entorno da colônia, criando relações de solidariedade como no caso relatado
pelo diretor Joaquim Bezerra de Albuquerque, no dia 3 de novembro de 1854. Meses
antes de ser assassinado, denunciava:

Acuso a recepção do ofício de V. Exª, de 26 de maio, acerca do desertor do brigue


escuna de guerra Leopodina, de nome Euzebio Correia (...) Alferes ex. comandante
desta colônia, (...) fora capturado e conseguira se evadir, se acha homiziado no lugar
denominado Apurema, em casa de João Manuel de Lira Lobato, a V. Exª, me
recomenda que empregue todas as diligências para de novo ser capturado e remetido
conveniente, tendo em resposta de dizer a V. Exª (...) pelo referido alferes não é exata,
pois que nunca aqui constou que aquele desertor estivesse homiziado em casa do dito
Lobato e nem em imediações (...). O que posso dizer a V. Exª é que tendo desertado do
destacamento de Macapá os soldados Manuel de Cristo e Manuel do Carmo Ferreira os
quais fizeram parte deste, constou-me que se foram homiziar no mencionado lugar em

141
Treze de Maio, Belém, 9 de junho de 1855, p. 4.
142
Treze de Maio, Belém, 16 de agosto de 1855, p. 1.
143
Treze de Maio, Belém, 25 de agosto de 1855, p. 3.
144
Treze de Maio, Belém, 27 de dezembro de 1855, p. 2.
145
Treze de Maio, Belém, 08 de agosto de 1856, p. 1.
146
NUNES, Francivaldo Alves. “Aspectos da colonização militar no Norte do Império: povoamento,
segurança, defesa do território e conflitos”. In: Revista Brasileira de História Militar, Rio de Janeiro, ano:
III, na 7, abril de 2012, p. 13.
77

casa de Manoel João Maciel criador de gado e vindo dali uma canoa de casa de Lobato
o dito Manoel João Maciel participou-me que por ali andavam aqueles dois soldados os
quais se retiraram com a vinda da canoa (...).147

No relato acima, é possível perceber as redes de solidariedades entre os


desertores e os grupos que viviam na região apoiando os soldados desertores com
hospedagem e transporte,148 mas é interessante analisar como as deserções não eram
uma característica somente dos soldados, mas também de oficiais, como o caso do ex-
diretor da colônia, Euzébio Correia, que foi capturado e fugiu, sendo um desertor
procurado pelas forças armadas e, mesmo não sendo encontrado, as buscas
apresentavam pessoas relacionadas a sua fuga, como a casa de João Manuel de Lira
Lobato, mesmo não apresentando nenhum vestígio de ter ajudado o dito alferes. Porém,
foram encontrados provas de que o dito João Manuel de Lira Lobato ajudava outros
desertores como os praças de Macapá Manuel de Cristo e Manuel do Carmo Ferreira.
As relações do cotidiano da fronteira marcavam as diversas realidades como
trabalho, relações de poder, deserções, motins, vida e morte na colônia militar Pedro II.
Tais interações influenciavam os discursos que justificavam a manutenção da colônia
que variavam entre o sucesso e o fracasso.

3.4. Discursos de sucesso e fracassos

Pode-se perceber que o cotidiano de uma vida na fronteira era bastante difícil
além do quadro exposto a variedade de epidemias presente nestes lugares levavam
muitos colonos, as distâncias e dificuldades de contato com o governo da Província e as
tensas relações de poder existentes entre colonos e seus diretores faziam a colônia
militar Pedro II se encontrar em estado frágil, levando os discursos a tenderem para uma
perspectiva maniqueísta acerca das informações levadas a presidência da província,
caracterizando os colonos como preguiçosos e rebeldes. Porém, os discursos sobre o
fracasso e sucesso da colônia Pedro II variavam quanto a seu motivo.
Desta forma, Rosa Acevedo Marin afirma que o fracasso destas colônias
militares não depende somente da natureza ou do esforço dos colonos, mas sim das
diversas relações que ocorrem dentro da colônia e fora dela. Em 15 de março de 1852, o

147
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 26, 03/11/1854.
148
Ver NOGUEIRA, Shirley Maria Silva. Razões para desertar: A institucionalização do exercito no
Grão-Pará, no ultimo quartel do setecentos. Belém, (Dissertação de Mestrado), NAEA/UFPA, 2000.
78

diretor da colônia, o alferes Manuel da Conceição Pereira de Castro, em


correspondência ao Diretor Geral de terras públicas do Império na Província do Grão-
Pará, Doutor Marcos Pereira de Salles, informava:

(...) a relação junta dos medicamentos quanto esta data fica existindo na botica desta
colônia inclusive os que proximamente para a [ilegível] foram remetidos, informando
igualmente a V. Exª. que as moléstias que aqui reina são; seções, icterícia, algumas
constipações e [ilegível], poucos casos [ilegível] e outras moléstias passageiras que aqui
não merecem menção (...). 149

A partir destes fatores apresentados acima, acerca das “moléstias”, os diretores


deixavam entender que era muito difícil que a colônia prosperasse em algum quesito, já
que seus colonos estando doentes não poderiam desenvolver a colônia como era
esperado. Tendo em vista que estes colonos produziam apenas para seu sustento, sem
pensar no abastecimento para outras vilas de seu entorno, já que, habitualmente,
encontravam-se doentes demais para trabalhar ou, muitas vezes, recusavam-se a se
empregar nos serviços fingindo-se de doentes150 e até mesmo as relações que ocorriam
dentro da colônia contribuíam para este caminho.
Outro fator que também contribuía para o entrave econômico dentro da colônia,
segundo seus diretores, consistia na falta de recursos para o trabalho dos colonos, ou
seja, a falta de investimentos que o governo da província fazia na colônia militar. Em
relatório de 8 de Abril de 1853, o Sargento Serafim José Ferreira justificava porque
alguns colonos não trabalhavam diariamente:

(...), não se trabalhou sempre o efetivo por falta de mantimentos de farinha de que
deparou muita necessidade por causa de não ter aqui correio que se pode mandar daqui
para fora (...). 151

No documento acima é possível perceber que a fome também fazia parte da


realidade dos colonos, levando a indisposição dos colonos e a propagação de doenças,
pois, sem uma alimentação básica a resistência física das pessoas tornava-se mais
vulnerável às diversas moléstias que dominavam a região, fortificando o discurso de
fracasso. Um ano depois, o mesmo diretor da colônia remetia outro pedido ao presidente
da província.

149
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 2. 16/03/1852.
150
BASTOS, Carlos Augusto de Castro. Os Braços da (des)ordem: Indisciplina militar na Província do
Grão-Pará (meados do XIX). Niterói, UFF (dissertação de mestrado), 2004.
151
APEP SPP. Caixa 159. Ano 1851 – 1855. Doc. 5. 08/04/1853.
79

(...) e conveniente ao pedido de que tomo liberdade remeter incluso, tomando-se nossa
necessidade dos machados, facões, pelo inventário vera V. Exª a qualidade destes
gêneros de ferramenta, que poderão ter um destino qualquer (...).152

Essa situação da Colônia Militar Pedro II apresenta o discurso sobre a falta de


ferramentas básicas ao trabalho como machados e facões, levou a frequentes
reclamações dos responsáveis pela produtividade, afirmando que não podiam
“progredir” devido ao descaso do governo imperial e dos colonos que não trabalhavam
como deveriam ou estavam impossibilitados de trabalhar, pois não tinham a mínima
forma de se pôr o trabalho em prática. Tais relatórios mostram que mesmo com todos os
pedidos de investimentos a colônia mantinha o estado de descaso, pois mais de dez anos
depois dessas reclamações acima o discurso de descaso continuava. No relatório da
colônia, de 18 de outubro de 1865, consta que

o estado da colônia tem sido um pouco desanimador, por ser a que menos consideração
tem merecido do governo que tem deixado de atender suas palpitantes necessidades e
necessidades e de operários, aliás tão necessários, pois que, (ilegível) carpinteiro e este
mesmo soldado e o limitado número de 22 praças de que se compõe o destacamento, é
possível acudir-se a tantas necessidades reclamadas em um estabelecimento desta
ordem, visto o seu estado lastimoso quando dele tomou conta o atual diretor, que nem
casa achou para sua residência.
O dito número de praças é ainda reduzido porque o empregam efetivamente na canoa
que serve de correio, acontecendo serem outras afetadas das sezões que infestam o
lugar; os serviços de colonos, se tornou remissas por não serem a isso obrigados, e
estarem algumas habituadas, a aquosidade; entretanto que o estabelecimento precisa de
homens agricultores e amigos do trabalho, para o que tem a colônia solo fértil e
excelentes campos. (...) a população da colônia é composta, a exceção das praças do
destacamento e suas famílias, de habitantes como os de outras partes da província e
povoados a trabalho á ponto de só plantarem o que lhes é necessário para manterem-se.
(...)153

Dentro destas relações, pode-se perceber as questões mais diretas entre os


superiores da colônia e os “subalternos” da mesma, que como é descrito no relatório não
era igual em sua constituição demográfica, sendo formada por militares, estes reduzidos
por estarem em funções que não lhes eram atribuídas (de remadores) ou doentes, e
paisanos, que segundo o discurso somente produziam para seu próprio sustento
conviviam juntos dentro do cotidiano de fronteira. Cruz afirma que as colônias
fracassaram, não chegando a produzir muito mais que para o seu próprio sustento154. O

152
APEP SPP. Caixa 159. Ano 1851 – 1855. Doc. 16. 25/03/1854.
153
APEP SPP. Caixa 268. Ano: 1863 – 1868. Doc. 25, 18/10/1865.
154
CRUZ, Ernesto. Colonização do Pará. Belém, Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. 1958.
80

motivo não era a infertilidade da terra ou a necessidade de técnicas avançadas de


agricultura, mas sim a relação de trabalho entre os colonos e as colônias.
O fato é que tais discursos fortificavam o discurso de fracasso do projeto da
colônia militar Pedro II, como era planejado e esperado em sua fundação e não deu
certo porque, em 1900, com a definição da fronteira estabelecida no Oiapoque, talvez a
colônia não tivesse mais sentido de existir ou talvez como Acevedo Marin descreve,
porque as diversas relações sociais ocorridas na fronteira das colônias militares
culminaram para o seu fim155.
Porém, o discurso de sucesso da colônia é mais sutil, defendendo que apesar de
ter sido uma sucessão de fracassos ao longo de sua existência, em que o governo passou
ao longo do século XIX tentando sempre recolonizar a colônia militar, ela atingiu seu
objetivo, de marcar um ponto de vigilância e proteção da região, como base de controle
da região do contestado e distribuição demográfica, de uma província devastada pela
Cabanagem. Desta forma, é possível ver sucesso escondido no fracasso oficial,
existindo nas estrelinhas do discurso oficial, vozes de experiências sociais do cotidiano
da fronteira.
Quando se faz uma leitura cuidadosa das documentações sobre a colônia, ela nos
revela a teia complexa das relações sociais que existiram em seu interior e em seu
exterior. Além de nos mostrar como os soldados e os colonos criaram suas próprias
elaborações de sociedade. Muitas vezes a vida dentro desta sociedade foi bastante tensa
entre os mais variados grupos sociais e bastante sacrificada pela falta de recursos e de
assistência para com as pessoas.
Um caso que demonstra bem essa situação é o destaque dos jornais aos
assassinos do diretor Joaquim Bezerra de Albuquerque, que fugiram para a região do
Amapá, conhecida por reunir todo tipo de “marginais” e alguns até chegaram a Guiana
Francesa. Essas vias de acesso serviam para mostrar a complexidade e a necessidade da
povoação no Cabo Norte, sendo um ponto essencial para o acesso regional.
O discurso da fundação da colônia militar Pedro II como um fracasso em sua
existência é reavaliado pela história oficial ao perceber que a região do Contestado entre
o Brasil e Guiana Francesa, hoje pertence ao Brasil e a fixação de ponto militar no rio

155
ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth. Agricultura no delta do rio Amazonas: colonos produtores de
alimentos em Macapá no período colonial. In: ACEVEDO MARIN, Rosa Elizabeth (org.). A escrita da
história paraense. Belém: NAEA/UFPA, 1998. p. 53-92
81

Araguari foi um dos fatores de permanência e da conquista do Cabo Norte, depois de


séculos de disputa entre as nações.
82

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A colônia militar Pedro II, no rio Araguari, pode ser considerada como um fator
de fundamental importância na discussão da definição territorial do norte do Brasil. Não
necessariamente por sua contribuição política, militar ou produtiva, mas pela sua
existência, já que sua existência permite perceber a participação histórica na região do
Cabo Norte, no período que era contestado pela França e pelo Império brasileiro.
Nesta pesquisa, foi possível perceber como os discursos de fundação da colônia
militar, de construção de seu espaço físico e de convivência social foram fundamentais
para se entender a existência de indefinição territorial, espacial e civilizadora na
fronteira, já que essa era a principal motivação de sua existência. Porem, a própria
existência possuía um caráter delimitador e estratégico.
Desta forma, o estudo da colônia militar Pedro II nos estabelece uma
contribuição historiográfica sobre a fronteira amazônica no Império brasileiro, que
mesmo muito abordada ainda carece de pesquisa, sendo uma área vasta e complexa.
Dentro desta perspectiva, tentou-se neste trabalho construir as relações políticas,
econômicas e sociais da colônia militar Pedro II do Araguari. Desta forma, pode-se
encontrar varias definições sobre fronteiras dentro da colônia militar Pedro II, sendo
elas físicas ou ideológicas.
Outra questão abordada foi o surgimento das colônias militares, principalmente
no Segundo Império, que justificava as suas fundações a partir de um projeto nacional
de integração dos Sertões do Brasil (neste caso específico o do Grão-Pará). É dentro
deste contexto que surge a colônia militar Pedro II que é vista neste trabalho como uma
das colônias que representam este projeto nacional de civilizar e colonizar o território
brasileiro.
Seu espaço também nos apresenta uma grande simbologia em sua construção,
representando o discurso civilizador da colônia militar como representante da “ordem”
do Brasil no Cabo Norte. Desta forma, sua constituição física (enquanto espaço
habitado e utilizado) representa o discurso colonizador da região contestada pela França
e Brasil, marcando o espaço como território brasileiro.
A colônia Pedro II do Araguari, por localizar-se em um local estratégico, tanto
militarmente (por localizar-se em uma região de fronteira) quanto em um local de terras
férteis (para que as cidades fossem abastecidas) justificando um discurso otimista.
Logo, na sua fundação, as autoridades do período se mostraram bastante motivadas,
83

uma vez que viam o seu estabelecimento naquela região como vantajoso. Tanto era a
motivação das autoridades que o presidente da província do Grão-Pará do período,
acreditava mesmo que “meretrizes” fossem mandadas para a colônia, elas mudariam seu
estilo de vida e pegariam “gosto” pelo trabalho.
A colônia Pedro II não deu certo para os diretores da colônia, pois seus colonos
eram vistos como ociosos e sem compromisso com o progresso da nação. Logo, os
planos que as autoridades possuíam para que a colônia prosperasse como abastecedora
de alimentos para diversas vilas de seu entorno falharam, já que diversos fatores
contribuíram para o seu fracasso.
Dentre estes fatores, citados pelos diretores, estão as sublevações que foram
constantes no decorrer de toda a existência da colônia militar Pedro II. A primeira
revolta citada nas documentações ocorreu no primeiro ano de sua fundação, em 1840.
Os grandes motivadores desse acontecimento foram os soldos, os maus tratos das
autoridades, a falta de infraestrutura, entre outros motivos. Além disso, existia a questão
da “ociosidade” no qual os colonos da Pedro II eram bastante acusados pelas
autoridades da colônia. Esta “ociosidade”, segundo os oficiais, era responsável pelo
“fracasso” da colônia. Contudo, o fato dos colonos se recusarem a trabalhar ou fazerem
“corpo mole” nos indica que essa era uma forma de resistir frente às diversas formas de
“opressão” pelas quais passavam.
De fato, a colônia militar Pedro II é uma fonte importantíssima para o
aprofundamento do conhecimento sobre a povoação das fronteiras do Grão-Pará, uma
vez que a partir das documentações pode-se perceber o projeto político e econômico que
o Império brasileiro possuía para os sertões do Grão-Pará. Além disso, a região foi
habitada pelos mais diversos tipos de pessoas (que na maioria das vezes não eram os
grandes vultos, mas pessoas comuns). Sendo que estas pessoas não foram passivas
frente ao processo colonizador (neste caso específico, dos oficiais), reagindo de diversas
formas a tentativa de “dominação” das autoridades, indo desde a indisciplina e “ócio”
até a rebeliões.
Desta forma, a colônia militar Pedro II foi um projeto do Império brasileiro de
colonização da fronteira, que ao longo de sua existência mostrou as complexidades da
vida no ermo e suas motivações em meados do século XIX.
84

FONTES

MANUSCRITAS
ARQUIVO PÚBLICO DO PARÁ (APEP)
APEP, SPP, caixa 125, documento 83, (23/04/1849).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (15/06/1851).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 1 (15/07/1851).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (16/03/1852).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 2 (16/03/1852).
APEP SPP – Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 3. (12/02/1853).
APEP SPP. Caixa 159. Ano 1851 – 1855. Doc. 5. (08/04/1853).
APEP SPP Caixa159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 6. (08/04/1853).
APEP SPP. Caixa 159, ano: 1851 – 1855. (18/11/1853).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (13/12/1853).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 15. (06/03/1854).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. Doc. 16. (25/03/1854).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/04/1854).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855, Doc. 24. (03/11/1854).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851 – 1855. Doc. 26 (03/11/1854).
APEP. SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855 (11/11/1854.).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (31/12/1854).
APEP SPP. Caixa 159. Ano: 1851-1855. (01/01/1855).
APEP SPP. Caixa 159, ano: 1851 – 1855. Doc. 41. (1855).
APEP SPP Caixa268. Ano: 1863 – 1868. Doc. 9. (19/01/1865).
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APEP SPP. Caixa 347. Ano: 1875. (14/05/1875).

COMISSÃO DEMARCADORA DE LIMITES


RIBEIRO, Duarte da Ponte. Memórias sobre os limites do império do Brasil com a
Guyana Francesa. Relatório encontrado na Comissão Demarcadora de Limites, de
1842. (datilografado), este trabalho é parte de sua função de na Secretaria do Ministério
das Relações Exteriores entre os anos de 1841 – 1842.
85

RIBEIRO, Duarte da Ponte. Apontamentos sobre o estado da Fronteira do Brasil em


1844, em adiantamento à memória de 1842 sobre limites do Império. Comissão
demarcadora de limites.

RELATÓRIOS DOS PRESIDENTES DA PROVÍNCIA


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prezidente da provincia do Pará na abertura da Assemblea Legislativa Provincial no dia
15 de agosto de 1840. Pará, Typ. de Santos & menor, 1840.
PARÁ, Governo. Falla dirigida pelo exm.o sñr conselheiro Jeronimo Francisco Coelho,
prezidente da provincia do Gram Pará á Assembléa Legislativa Provincial na abertura
da segunda sessão ordinaria da sexta legislatura no dia 1.o de outubro de 1849. Pará,
Typ. de Santos & filhos, 1849.
PARÁ, Governo. Relatório do presidente da província do GRam-Pará, o exm. Sr. Dr.
Fausto Augusto de Aguiar, na abertura da segunda sessão ordinária da sétima legislatura
da Assemblea Provincial, no dia 15 de agosto de 1851. Pará: Typ. de Santos & Filhos.

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Gazeta Official, Belém,16.9.1859.
Gazeta Official, Belém,16.12.1859.
Gazeta Official, Belém, 16.6.1860.

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Treze de Maio, Belém, 16.5.1840.


Treze de Maio, Belém, 20.5.1840.
Treze de Maio, Belém, 30.5.1840.
Treze de Maio, Belém, 3.6.1840.
Treze de Maio, Belém, 10.6.1840.
Treze de Maio, Belém, 23.1.1855.
Treze de Maio, Belém, 09.6.1855.
Treze de Maio, Belém, 16.8.1855.
86

Treze de Maio, Belém, 25.8.1855.


Treze de Maio, Belém, 27.12.1855.
Treze de Maio, Belém, 2.5.1856.
Treze de Maio, Belém, 08.8.1856.
Treze de Maio, 2.9.1856.
Treze de Maio, 18.9.1861.
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