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02/06/2019 A cidade onde o tempo parou

questões ambientais

A CIDADE ONDE O TEMPO PAROU


“Seria melhor que estourasse logo. A expectativa é que está matando a gente”, diz morador de Barão
de Cocais sobre barragem ameaça romper
KARLA MONTEIRO
27maio2019_13h51

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INTERVENÇÃO DE PAULA CARDOSO SOBRE FOTO DE KARLA MONTEIRO

“N
ão sou filho de pai assustado. Sabia, desde o princípio, que
este trem não ia estourar”, disse o aposentado Tarcísio

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Rodrigues, conhecido como Tarcísio do Saxofone, ao chegar para a missa


das nove, na Matriz de São João Batista, Centro de Barão de Cocais.
Corria a azulada a manhã de domingo, 26 de maio, o dia seguinte ao fim
do prazo, iniciado no dia 19, alardeado pela Vale para o
desmoronamento da parede de contenção da mina do Gongo Soco, o que
poderia ocasionar o rompimento da barragem Sul Superior. Se a previsão
tivesse se confirmado, em uma hora e doze minutos, a cidade mineira,
localizada a cerca de 90 quilômetros de Belo Horizonte, teria sido
atingida. Mas, em Barão de Cocais, há algo que pesa tanto quanto o medo
do desastre: a incerteza da espera. E muitos moradores dizem preferir
que a barragem estourasse logo, para acabar com a expectativa do pior.

A missa de domingo, ao contrário das últimas semanas, estava lotada.


Um grupo de crianças, vestidas de anjo, iria coroar Nossa Senhora. “Foi
uma semana horrível, a pior de todas. Só se falou disto. Hoje parece que o
ar está mais leve”, comentou outra fiel, Aline Ferreira, técnica em
metalurgia, enquanto a vizinha de banco, Priscila Giovane, pontuou:
“Passar, não passou. Mas estamos mais tranquilos. Tinha medo até de vir
na igreja, hoje eu vim.” No entorno da velha Matriz, construída em
meados do século XVIII, o meio-fio pintado de laranja, a cor escolhida
pela Defesa Civil para demarcar o perímetro a ser impactado, não
permitia, porém, esquecer: área de risco.

Segundo a Defesa Civil de Minas Gerais, o perigo prossegue. O prazo


fora apenas uma projeção. A movimentação do talude, a parede de
contenção da mina, chegou, no fim de semana, a 20 centímetros de
descolamento em pontos isolados. Ao meio-dia do domingo, a velocidade
de deformação na base da estrutura era de 15,7 centímetros. No dia 19,
quando começara a correr o relógio, esta variação estava entre três e
quatro centímetros. Caso o paredão despenque, o que deve acontecer nos
próximos dias, 5,3 milhões de metros cúbicos de terra vão cair na cava de
mineração, o buraco que se forma na montanha escavada. Com 100
metros de fundura e 60 metros de espelho d’água, o impacto na cava
poderá gerar uma onda vibratória capaz de provocar o rompimento da
barragem Sul Superior, localizada a 1,5 quilômetros do local do
desmoronamento. Nela há 6,8 milhões de metros cúbicos de rejeitos,
metade do volume que vazou da barragem de Córrego do Feijão, em

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Brumadinho. O tempo calculado para esses rejeitos atingirem Barão de


Cocais é de uma hora e doze minutos.

Ao mesmo tempo, o talude também pode não se romper. Ou pode se


romper, mas num deslizamento lento da terra, sem provocar o
rompimento da barragem Sul Superior. Mas há a chance de que a terra
seja contida pela cava. “Só teremos paz quando a Vale descomissionar a
barragem. Descomissionar significa secar a água e retirar o rejeito. Para
isso, coloque dois, três anos”, disse o prefeito Décio Geraldo dos Santos
(PV). “Meu pedido para todo mundo é: continue alerta.”

Aos 47 anos, no primeiro mandato, o prefeito circula por Barão de Cocais


de moto. Dentista de formação, atende num consultório na avenida
Getúlio Vargas, a principal da cidade. Os problemas se acumulam. Na
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última quinta-feira, 23 de maio, deparou-se com as agências bancárias


fechadas: Itaú, Bradesco e Caixa Econômica Federal transferiram os
atendimentos, temporariamente, para a vizinha Santa Bárbara. Os caixas
eletrônicos não tinham dinheiro durante todo o fim de semana. Até o
caixa 24 horas, instalado dentro de um supermercado, encontrava-se fora
de serviço. O único hospital, o Hospital Municipal Waldemar das Dores,
tem estado permanentemente superlotado. No segundo semestre de 2018,
registrou 11 mil atendimentos. De janeiro até o dia 13 de maio, somaram-
se 17,5 mil. A superlotação decorre, de acordo com a Secretaria de Saúde
do município, do aumento de casos de insônia, pânico e depressão.

Sobretudo, falta dinheiro. Até 2015, quando a Vale anunciou o


fechamento da mina de Gongo Soco, a arrecadação de Barão de Cocais
girava em torno de 95 milhões, segundo a prefeitura. Em 2018, caiu para
71 milhões. De acordo com Santos, a Compensação Financeira por
Extração Mineral (CFEM) varia entre 1,5% e 3,5%. No último ano de
funcionamento, a Gongo Soco rendera 21 milhões ao município. “Em
países como o Canadá, por exemplo, esta porcentagem chega a 15%”,
comparou. “O impacto social é imensurável. O nosso comércio caiu 50%.
A mineradora também está apoiando muito pouco”, disse. A Vale, de
acordo com ele, destinou 100 milhões de reais a dez municípios mineiros
impactados pela paralisação de minas afetadas pelo risco de rompimento
de barragens. Deste total, Barão de Cocais ficou com apenas dois milhões.
“Sendo Barão uma das mais impactadas, não podemos receber apenas 2%
do valor.”

A esperança está no futuro. “Em 30 de novembro do ano passado, nós,


enfim, conseguimos o licenciamento para a exploração da mina Cava da
Divisa”, informou o prefeito. Localizada entre os municípios de Barão de
Cocais e São Gonçalo do Rio Abaixo, a Cava da Divisa pertence ao
complexo Brucutu, operado pela Vale, segundo maior complexo
minerário do Brasil. Usando a técnica a seco, que dispensa barragens de
rejeitos, a nova mina deve render 5 milhões de toneladas de minério por
ano. Além disso, a mineradora MR, que hoje produz 300 mil toneladas
por ano na mina do Baú, está em processo de licenciamento para
expandir a produção para 4,5 milhões. “Teremos algum fôlego. Quero
ressaltar que ambas as minas, tanto a Cava da Divisa quanto a mina do

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Baú, vão usar o método a seco. Não queremos mais barragens na nossa
região”, diz Santos.

Em nota, a Vale afirmou que o talude da mina de Gongo Seco e a


barragem Sul Superior estão sendo monitorados 24 horas por dia e que
não há elementos técnicos para dizer que o eventual deslizamento
poderia romper a barragem. Reiterou, porém, que as medidas
preventivas estão sendo tomadas e que segue à disposição das
autoridades.

N
a tensa noite de sexta, 24 de maio, véspera do deadline, a praça
Nossa Senhora Aparecida, a principal da cidade, estava cheia, com
as barracas de comida exalando cheiros, o sertanejo universitário
ecoando nas caixas de som e os moradores enrodilhados. “O tempo
parou. Eu queria que estourasse isso, e a gente poderia tocar a vida”,
disse Denise Maria do Carmo. Ela vende massas italianas congeladas de
porta em porta: “Ninguém mais compra. As pessoas não querem encher o
freezer sabendo que de uma hora para outra terão que deixar tudo para
trás. Nossa vida agora é isto: esperar.” O problema da prima, Patrícia do
Carmo, era outro: convencer o filho Lucas do Carmo, de 17 anos, a voltar
a frequentar as aulas. O garoto estuda na Escola Estadual Odilon
Behrens, localizada à beira do rio Santa Bárbara. “Os corredores são
estreitos. Se tocar a sirene, vai todo mundo se empurrar nas escadas, cair,
machucar. Não quero estar lá. A gente chega e não tem certeza se vai
voltar para casa”, pontuou ele, enquanto a falante Patrícia ralhava: “Tem
isso não, Lucas, tem que ir. A gente não pode deixar de viver.”

“A morte marca Gongo Soco desde sempre. Em 1856, por exemplo,


morreram soterrados 33 escravos”, comentou o vereador Leonei Pires, do
Partido Verde, sentado na varanda da casa dos pais, na rua Capitão
Soares, bairro Viúva, também marcado pela cor laranja. Na noite de
sexta-feira, uma romaria de amigos passava por ali, em busca de notícias.
Estudioso da história de Barão de Cocais, Léo Pires, como é conhecido na
cidade, tem na cabeça nomes e datas: “Até Dom Pedro já esteve no
Gongo. Visitou a mina em 10 de março de 1881.” O primeiro explorador
fora o Barão de Catas Altas, João Batista Ferreira Chichorro de Souza
Coutinho. Depois, vieram os ingleses, cerca de 600 famílias, com a venda
da propriedade para a Imperial Brazilian Mining Association. Até então

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era uma mina de ouro. A exploração de minério de ferro só começara


mais tarde, já em 1900. No começo do ano 2000, após a privatização, a
Vale, enfim, encampara Gongo Soco, explorada até 2015, quando a
mineradora anunciou o esgotamento do veio de minério.

“Por que não iniciaram o descomissionamento, então? Poderiam ter


começado a desativar a barragem lá, em 2015. Simplesmente a Vale
abandonou a mina do Gongo”, disse Léo Pires. “Defendemos a mineração
a seco, que não utiliza barragem de rejeito. Nossa luta tem sido esta:
acabar com as barragens. Não com a mineração. Precisamos da
mineração.”

Na sexta-feira de manhã, moradores da região se reuniram com os


senadores Carlos Viana (PSD-MG) e Fabiano Contarato (Rede-ES), além
de representantes da Vale e da Agência Nacional de Mineração (ANM).
Cobraram uma solução para o problema que se arrasta há meses. Após
sobrevoar a mina de Gongo Soco, os senadores estavam ali para uma
reunião pública. Morador da vila do Gongo Soco, evacuada em 8 de
fevereiro, quando a mineradora elevou o risco de rompimento da
barragem Sul Superior para o nível 3, o professor Nicolson Pedro de
Rezende está morando num hotel de Barão de Cocais desde então.
“Fizemos perguntas válidas. Se não responde ao povo vai responder a
quem? Faço parte da comissão dos moradores evacuados de Socorro,
Piteiras, Tabuleiro e Gongo Soco. Queremos saber quem é quem.” E
segue: “Seria melhor que estourasse logo. A expectativa é que está
matando a cidade.”

Rezende tinha nas mãos uma edição do jornal O Tempo, de Belo


Horizonte, informando que, em 2014, último ano em que as empresas
puderam realizar doações para campanhas políticas, as mineradoras
despejaram recursos nas campanhas de 102 deputados federais e
estaduais eleitos pelo Estado. “Temos muitas perguntas a todos que veem
aqui. A Vale está fazendo hora com a gente”, disse o professor. “Por ser
solteiro, sou o último na lista de prioridades da mineradora. Aluguei um
lugar para colocar os meus quatro cachorros e moro no hotel.” De acordo
com ele: “Somos 459 evacuados. Estamos cansados deste circo.
Rompendo ou não rompendo o talude, a saga continua. O prazo que a

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mineradora nos deu para voltar para casa, isso se a barragem não romper
e se conseguirem fazer o descomissionamento, é de três a cinco anos.”

Pelo menos aparentemente, foi um sábado como outro qualquer em


Barão de Cocais, com comércio funcionando e muita gente nas ruas.
Naquele 25 de maio, porém, encerrava-se o tempo previsto para o
desmoronamento da parede de contenção da mina. “Sem informações
oficiais, as pessoas ficam nas esquinas fazendo conjecturas. Parece que
está tudo normal, mas já não está normal há quatro meses”, comentou o
jornalista Felipe Jacome, do Diário de Barão. A sede do jornal fica na rua
Geraldo Cleofas Alves, com vista para o Centro de Eventos José Furtado,
um dos sete pontos de encontro estabelecidos pela Defesa Civil. “Ali vai
se concentrar o maior número de moradores em caso de evacuação”,
apontou. “A Vale virou as costas, não conversa, só emite nota. O pânico
poderia ser menor se houvesse mais diálogo. Não rompeu a barragem
ainda, mas há muita lama invisível abalando a saúde da cidade.”

A aposentada Sylvia Duarte, de 82 anos, não quer mais saber de esperar.


Na manhã de sábado, deixou sua casa, na rua Doutor Moura Monteiro,
na zona laranja, para morar com amigas no bairro Lagoa, parte alta da
cidade. Na velha casa, construída nos anos 30, onde mora há mais de
setenta anos, abandonou o que tem de mais precioso: mais de 300 vasos
de plantas. “Levar para onde?”, perguntou. A vida coube em quarenta e
poucas caixas. Pela segunda vez, estava sendo despejada pela Vale. A
primeira vez fora em 1942, quando tinha 5 anos e a recém-criada
Companhia Vale do Rio Doce desapropriou a residência de sua família,
no bairro Campestre, em Itabira. “Moro aqui desde esta época. Viemos
para Barão corridos da Vale. Naquele tempo não tinha indenização
direito, nada. Meu pai penou. Isso parece a repetição do pesadelo”,
suspirou. “Não durmo direito há não sei quanto tempo. Não como. Vivo
numa afobação danada. Não aguento mais não.”

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