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Ação do Inibidor da Aromatase na Redução Volumétrica

do Leiomioma do Útero na Menacme

Pesquisadores:

Sandro Garcia Hilário, Nilo Bozzini, Rodrigo Borsari, Marcos de Lorenzo Messina,
Eduardo Vieira da Mota, Ângela Maggio da Fonseca, Edmond Chada Baracat.

Introdução

O leiomioma do útero é o tumor benigno mais comum do trato genital feminino.


Aproximadamente 200.000 histerectomias e 20.000 miomectomias são realizadas
anualmente nos Estados Unidos em virtude dos sintomas causados por essa doença. Esse
tumor pode alcançar grandes dimensões com pequena sintomatologia, e ao contrário,
pequenos nódulos podem trazer exuberantes sintomas. Estima-se que cerca de 70% das
mulheres são portadoras de leiomioma (1).

O leiomioma do útero manifesta-se clinicamente de diversas formas, a depender do


tamanho e da posição dos tumores. Os sintomas mais comuns são sangramento uterino
excessivo, dismenorréia, dispareunia, dor pélvica crônica, compressão de vísceras
adjacentes (bexiga e intestino), aumento do volume abdominal, infertilidade e abortamento
de repetição.

O sangramento uterino excessivo ( hipermenorréia ) freqüentemente causa anemia, bem


como a dispareunia e a dor pélvica crônica prejudicam sobremaneira a qualidade de vida
da paciente. O aumento do volume abdominal, geralmente observado nos casos de
leiomiomas subserosos, traz desconforto estético, além de propiciar alteração no ritmo
intestinal e urinário, devido à compressão exercida nos órgãos circunvizinhos. Os casos que
cursam com infertilidade ou abortamento de repetição estão geralmente relacionados a
nódulos que se apresentam distorcendo a cavidade endometrial ou obstruindo a implantação
tubária (2).

O leiomioma do útero é tumor benigno originário da expansão clonal de células


miometriais responsivo aos esteróides sexuais (3). Histologicamente, este tumor é
virtualmente indistinguível do tecido miometrial normal, geralmente apresenta áreas de
calcificação, principalmente após a menopausa. Nos casos de crescimento acelerado, como
pode ocorrer na gravidez, pode desenvolver área central de degeneração hialina, que se
superpõe à necrose advinda da irrigação sangüínea insuficiente (4).

O leiomiossarcoma é raramente distinguível clinicamente do leiomioma. Este tipo de tumor


maligno representa apenas 0,1% dos tumores uterinos e está presente geralmente em
pacientes idosas. Os critérios histológicos para a identificação do leiomiossarcoma são o
número de mitoses aumentado, pleomorfismo celular e a presença de degeneração
trombótica. Dada essa dificuldade de diferenciação clínica e a baixa probabilidade,
tumores uterinos devem sempre ser considerados, em princípio, benignos na menacme, e
serem de rotina, submetidos a exame patológico após o ato cirúrgico (5).

Comparativamente com o miométrio normal, o nódulo de leiomioma apresenta número


maior de receptores de estrogênio e progesterona. A exacerbação na expressão desse
receptor esteroídeo varia durante o ciclo menstrual (6). A análise desse fato, bem como as
evidências epidemiológicas relacionadas ao surgimento e desenvolvimento do leiomioma
do útero, descrevem esta entidade patológica como fortemente relacionada ao “status”
estrogênico da paciente (7).

Além dos receptores, a concentração estrogênica no leiomioma se mostra bastante elevada


sendo comparável aos níveis encontrados em cistos mamários e outros tecidos fortemente
estimulados por esteróides (8).
Esse fato se deve à capacidade de produção local de estrogênio no tecido miomatoso,
identificando uma ação parácrina desse hormônio e tornando o leiomioma um tecido
possuidor de parte do controle hormonal de seu próprio crescimento (9). Esta capacidade
de produção local de estrogênios está relacionada à atividade da enzima aromatase isolada
em alta atividade nesse tecido (10).

O diagnóstico do leiomioma do útero em grande parte pode ser feito pela anamnese aliada a
um minucioso exame ginecológico. Porém a confirmação diagnóstica, bem como a
localização e definição das características dos nódulos, necessita de exames
complementares.

Os exames complementares disponíveis para o diagnóstico do leiomioma do útero são os de


imagem. Em destaque contamos com a ultra-sonografia pélvica e transvaginal, devido a
sua precisão na identificação dos tumores, facilidade de execução e baixo custo
operacional. Outros métodos como a tomografia computadorizada, ressonância nuclear
magnética, histerossonografia e histerossalpingografia podem ser usados como
complementos à ultra-sonografia ( 11, 12, 13 ).

O objetivo do tratamento do leiomioma é o controle dos sintomas e/ou retorno à capacidade


reprodutiva, quando assim desejada. Dessa forma, a escolha do melhor tratamento deve ser
feita de forma individualizada (14).

O tratamento clínico tem como objetivo o controle dos sintomas evitando ou postergando
uma possível intervenção cirúrgica. Pode ser feito com uso de antiinflamatórios não
hormonais, anti-fibrinolíticos, progetágenos ou anticoncepcionais hormonais. Outro papel
do tratamento clínico pode ser a neoadjuvância, buscando a redução do volume dos nódulos
de leiomioma e a melhora das condições clínicas da paciente para uma posterior cirurgia.
Nesse sentido destaca-se o uso dos análogos do hormônio liberador de gonadotrofina
(GnRH) (15).
O tratamento cirúrgico do leiomioma uterino pode ser conservador, quando se preserva o
útero, ou radical nos casos de histerectomia. O tratamento conservador é realizado por
miomectomia convencional laparotômioca, ou ainda através da videolaparoscopia ou
histeroscopia. A histerectomia também pode ser realizada por laparotomia,
videolaparoscopia ou por via vaginal (16, 17,18).

Outros tipos de tratamento, mais recentemente desenvolvidos, podem ser aplicados à


paciente com leiomioma do útero, embora alguns deles ainda estejam em fase de
experimentação. Dentre eles se destaca a embolização de artérias uterinas, criomiólise,
diatermo-miólise, eletro-miólise, miólise por laser e a alcoolização (19, 20).

Aromatase

Aromatase é uma enzima microssomal que pertence à superfamília citocromo P450 que
catalisa a conversão de androgênios em estrogênios. Aromatase (P450 aromatase) forma um
complexo enzimático funcional com a NADPH-citocromo P450 redutase que é responsável
pela redução de equivalentes de NADPH para aromatase. Aromatase humana está
codificada pelo CYP19, um gene único no sítio 15q21.2. CYP19 contém 10 éxons, com
éxons II a X codificando a banda de leitura inicial da aromatase. Cada éxon possui sua
própria região promotora. Éxon inicial e região promotora são usados de forma
individualizada em diferentes tecidos, proporcionando uma forma independente de
regulação da expressão da aromatase em cada local (21).

Em 1984, Folkered et al e Yamamoto et al concluíram que o tecido miomatoso possui alta


atividade de aromatase, enquanto o miométrio normal desenvolve baixa, ou nenhuma
atividade (22, 23). Em 1994, Bulun et al detectou o mRNA da aromatase usando técnicas
de transcrição reversa em reação de cadeia de polimerase (RT-PCR), demonstrando que os
níveis de mRNA da aromatase são de 1,5 a 25 vezes maiores no leiomioma que no tecido
miometrial circunvizinho, sendo esses níveis correspondentes aos do tecido adiposo (24).
Um estudo bem desenhado desenvolvido por Shozu et al demonstrou que as células do
leiomioma são capazes de sintetizar estrogênio em quantidade suficiente para promover seu
próprio crescimento, usando androstenediona circulante como substrato. In vitro, a adição
de uma quantidade correspondente ao nível circulante de androstenediona ( 10 nmol/L ),
promove a proliferação celular do leiomioma, provocando um diminuto aumento na
concentração de estradiol ( 10 pM0). Essa concentração é uma ordem de grandeza menor
do que aquela mínima exigida para que o estradiol induza o crescimento celular, quando
acrescido a uma cultura de células. O estrogênio produzido nas células de leiomioma atinge
uma concentração tão baixa que é incapaz de promover qualquer efeito endócrino em
células distantes, sendo apenas capaz de levar a um efeito parácrino/autócrino de
crescimento celular (25).

As pacientes que se encontram no climatério ou na pós-menopausa imediata, ainda


guardam uma produção local de estrogênio significante no tecido miomatoso, a semelhança
das mulheres no menacme, devido à manutenção dos níveis circulantes de androstenediona.
A esse fato se atribui a lenta regressão do volume do útero miomatoso nos seis primeiros
meses de pós-menopausa (26).

Inibidor da Aromatase

Os inibidores da aromatase podem ser divididos em dois grupos: os esteroidais (tipo 1) e os


não-esteroidais (tipo 2). Ambos simulam o substrato natural da enzima (androgênio),
competindo com esse substrato pelo sítio de ligação na enzima. Após a ligação inicial o
próximo passo difere nos dois grupos. No grupo esteroidal, quando a ligação do inibidor ao
sítio de ligação da enzima acontece, a seqüência de hidroxilação típica ocorre, porém
formando uma ligação covalente entre enzima e substrato tão forte que se torna
indissolúvel, tornando esse tipo de inibição irreversível ( inibidor suicida ). Os inibidores
não-esteroidais, se ligam ao sítio de ação da enzima, impedindo a ligação do substrato
natural, porém o fazem de forma reversível. Estes últimos se ligam normalmente ao sítio
heme da enzima, uma estrutura comum nas enzimas citocromo P450, dando dessa forma,
baixa especificidade aos inibidores da aromatase desse grupo.

Historicamente, a aminoglutetimida foi o primeiro inibidor da aromatase a ser utilizado


clinicamente ( final da década de 70 ). Essa medicação se mostrou bastante eficiente no
tratamento de câncer avançado de mama, apresentando resposta efetiva em 20 a 40% das
pacientes e duração de remissão entre 6 e 12 meses. O principal obstáculo ao uso dessa
droga, foi o surgimento de importantes efeitos colaterais, como rush cutâneo, sonolência e
inibição da síntese de cortisol, sendo então necessária a administração de corticosteróide
exógeno, acarretando seus próprios efeitos colaterais ( 27 ).

A geração de inibidores da aromatase mais atual compreende o Anastrozol, o Letrozol, o


Exemestane, o Vorozol e o Fradozol ( os três primeiros disponíveis no Brasil ). Dentre eles
o Exemestane é esteroidal e os demais não-esteroidais.

O Anastrozol passou a estar disponível comercialmente em 1995, e hoje é indicado como


terapia de primeira linha para o câncer de mama avançado e terapia adjuvante para o câncer
de mama em estágio inicial (28, 29). A dose diária recomendada é 1mg/dia em
administração única.

O Anastrozol é altamente seletivo e não apresenta nenhum efeito nos níveis de cortisol ou
aldosterona, mesmo quando usado em doses até 10 vezes maiores que a recomendada
durante até três meses (30). Além disso, não causa nenhum efeito androgênico,
progestagênico ou estrogênico, como ganho de peso, acne ou hipertricose, e não altera o
perfil lipídico. (31, 32).

A concentração sérica máxima do Anastrozol é obtida 2 a 3 horas após a administração oral.


A ingestão de alimentos tem pouca ou quase nenhuma influência na absorção da droga. A
eliminação desse medicamento é primariamente realizada por metabolismo hepático (aprox.
85%). Em três dias, cerca de 10% da droga administrada é excretada sem modificações por
via urinária, e o restante se apresenta como metabólitos na urina. O principal metabólito do
Anastrozol identificado na circulação é o triazol. Outros dois metabólitos identificados são:
hidroxi-anastrozol e o próprio anastrozol. Vários outros metabólitos menores não foram
identificados ainda (cerca de 5% da radioatividade após administração de dose marcada),
porém nenhum destes aparenta ter atividade farmacológica (33).

A farmacocinética do Anastrozol é linear com doses variando de 1 a 20 mg e não se


modifica com doses repetidas. A meia vida dessa droga é de 50 horas e a concentração
plasmática atinge o nível de equilíbrio (steady-state) após 7 a 10 dias de administração
diária (34).

Novas aplicações dos Inibidores de Aromatase

Listamos a seguir algumas publicações em que os inibidores de aromatase, foram aplicados


para outros fins que não o tratamento do câncer de mama, como endometriose,
infertilidade, câncer de endométrio, puberdade precoce e até mesmo leiomioma uterino:

- Successful treatment of a symptomatic uterine leiomyoma in a perimenopausal


woman with a nonsteroidal aromatase inhibitor – Makio Shozu, Kouichi Murakami,
Tomoya Segawa, Tadayuki Kasai, Masaki Inoue – Fertility and Sterility – Vol. 79, No
3, 2003.
Nesse artigo os autores relatam a utilização do Fadrozole, um inibidor da aromatase
não esteróide, no tratamento de uma paciente na peri-menopausa com mioma uterino
volumoso, causando sintomas principalmente urinários. Com o uso da medicação os
sintomas urinários regrediram após duas semanas e o volume uterino decresceu em
71% em oito semanas. Essa publicação sugere que o inibidor da aromatase pode se
tornar uma arma terapêutica útil no tratamento do mioma uterino, a depender de
confirmação através de estudos científicos.
- Use of an aromatase inhibitor for induction of ovulation in patients with an
inadequate response to clomiphene citrate – Mohamed F. M. Mitwally, Robert F.
Casper - Fertility and Sterility – Vol. 75 (2), 2001, 305-9.
Descreve o uso do inibidor da aromatase, Letrozol, em vinte pacientes com síndrome
dos ovários policísticos anovulatória e dez pacientes com infertilidade ovulatória, todas
tendo recebido previamente citrato de clomifeno sem sucesso. O letrozol foi utilizado
entre os dias 3 e 7 após a menstruação. Concluiu-se que a administração oral de
inibidor de aromatase é efetiva para indução de ovulação em infertilidade anovulatória
e para aumento do recrutamento de folículos em infertilidade ovulatória e que o
Letrozol parece evitar os efeitos indesejados no endométrio frequentemente vistos com
o uso dos antiestrogênios para indução de ovulação.

- Successful treatment of severe endometriosis in two premenopausal women with an


aromatase inhibitor - Eugene R. Shippen, William J. West Jr – Fertility and Sterility –
Vol 81, 5, 2004, 1395-8.
Foram utilizados em duas pacientes na pré-menopausa, com diagnostico confirmado de
endometriose por vias laparoscópica, 1 mg/dia de anastrozol, associado a 200 mg de
progesterona por via oral por 21 dias com interrupção por 7 dias, com 6 repetições
desse ciclo. Esse tratamento resultou em rápida redução progressiva dos sintomas após
3 meses, com manutenção dos resultados por 24 meses. As duas pacientes engravidaram
24 meses após o tratamento. Em um dos casos a remissão completa da doença foi
documentada por vídeo-laparoscopia.

- Neoadjuvant therapy of endometrial câncer with the aromatase inhibitor letrozole:


endocrine and clinical effects – Lev Berstein, Sergei Maximov, Eduard Gershfeld,
Irina Meshkova, Vera Gamajunova, Evgenia Tsyrlina, Alexei Larionov, Anatolii
Kovalevskij, Dmitry Vasilyev – European Journal of Obstetrics & Gynecology and
Reproductive Biology - Vol 105, 2002, 161-165.
Os autores investigaram os efeitos hormonais e clínicos do uso do Letrozol por 14 dias
previamente a cirurgia, em dez pacientes na pós-menopausa com câncer de endométrio
predominantemente estádio I, e mostraram que o tratamento foi bem tolerado pelas
pacientes, com redução significante da espessura do endométrio, menor perda
sanguínea e, em dois casos, redução da dor, importante sintoma nesse tipo de paciente.
O tratamento não influenciou na cirurgia.

- Aromatase inhibitors for male infertility - Jay D. Raman, Peter N. Schlegel – The
Journal of Urology – Vol 167, 2002, 624-9.
Os autores avaliaram o efeito do anastrozol no perfil hormonal e no sêmen de homens
com infertilidade e alteração nos valores de base da relação testosterona-estradiol. Um
total de 140 homens foi tratado com 1 mg de anastrozol ou 100 a 200 mg de
testolactone. Mudanças nos níveis de testosterona, estradiol, relação testosterona-
estradiol, e parâmetros de análise do sêmen foram apontadas durante o tratamento. A
conclusão foi que homens com infertilidade e baixa relação sérica testosterona-
estradiol podem ser tratados com anastrozol. Com o tratamento houve uma melhora
significativa dessa relação e dos parâmetros do sêmen, comparáveis àqueles
encontrados nos usuários de testolactone.

- Treatment of severe postmenopausal endometriosis with an aromatase inhibitor -


Kazuto Takayama, Khaled Zeitoun, Robert T. Gunby, Hironobu Sassano, Bruce R.
Carr, Serdar E. Bulun – Fertility and Sterility – Vol. 69 (4),1998, 709-13.
Os autores descrevem o uso do Anastrozol ( 1mg/dia ) por nove meses em uma
paciente de 57 anos com endometriose severa recorrente pós histerectomia e salpingo-
ooforectomia bilateral. A dor decresceu rapidamente e desapareceu após dois meses de
uso, o implante endometriótico vaginal reduziu de 30 x 20 mm para 3 mm após nove
meses, a densidade óssea lombar reduziu em 6,2% ao término do tratamento, com uso
associado de alendronato sódico 10 mg/dia. Concluiu-se que apesar deste ser o
primeiro caso relatado do uso de inibidor de aromatase para tratamento de
endometriose, os resultados foram extremamente satisfatórios, tornando o anastrozol
uma opção no tratamento de endometriose severa resistente aos tratamentos
convencionais.

- Effective aromatase inhibition by Anastrozole in a patient with gonadotropin-


independent precocious puberty in McCune-Albright Syndrome - C.Roth, C.
Freiberg, H. Zappel, N. Albers – Journal of Pediatric Endocrinology & Metabolism –
Vol 15, suplemento 3, 2002, 945-8.
Testolactone é usado no tratamento da produção excessiva de estrogênio, por exemplo,
na puberdade precoce independente de gonadotrofina na Síndrome de McCune-
Albright (SMA). Infelizmente, o tratamento diário com testolactona requer 3 a 4 doses
( 10 – 20 comprimidos ) e mesmo assim muitas vezes é ineficaz. Essa publicação relata
o tratamento de um paciente com SMA com o inibidor de aromatase altamente seletivo
anastrozol ( 1mg/dia ). Tamoxifeno 1 mg/kg/dia foi associado por um ano, mas foi
descontinuado devido ao desenvolvimento de um cisto de ovário. Os níveis de estradiol
voltaram ao normal após um curto tratamento exclusivo com anastrozol e manteve a
progressão da idade óssea em 6 meses durante 2,5 anos de tratamento. A ação
supressora potente e o esquema posológico simples do anastrozol sugerem que ele seja
vantajoso em comparação com outros inibidores da aromatase, bem como ao
testolactone ou antiestrogênios.

- Delayed closure of epiphyseal cartilages induced by the aromatase inhibitor


anastrozole. Would it help short children grow up? - G. Faglia, M. Arosio, S. Porretti
– Journal of Endocrinology Investigation – Vol 23, 2000, 721-3.
A produção local de estrogênio originada de precursores androgênicos através da
aromatase tem papel importante na fusão da cartilagem epifiseal. Neste trabalho os
autores relatam o tratamento de um garoto previamente operado de um hamartoma
causador de puberdade precoce e com idade óssea avançada, com anastrozol 1 mg/dia
por 3 anos. Observou-se uma desaceleração na fusão da cartilagem epifiseal,
conferindo ao paciente uma estatura final maior do que a esperada (164,4 cm vs 158,4
cm ). Isto sugere que o tratamento com inibidor da aromatase, sozinho ou em conjunto
com rh-GH, pode ser útil em crianças com baixa estatura constitucional para levar a um
atraso no fechamento epifiseal e a uma maior estatura final.

Benefícios do Uso do Inibidor da Aromatase no Tratamento do Leiomioma do Útero

O inibidor da aromatase oferece uma série de vantagens sobre os análogos de GnRH no


tratamento do leiomioma do útero. Primeiramente, uma inibição diferenciada da síntese de
estrogênio no leiomioma e no ovário, pode possibilitar a redução do leiomioma sem os
efeitos colaterais sistêmicos observados com o uso dos análogos de GnRH ( fenômeno de
“flare-up” e sintomas menopausais, em geral). Dessa forma, poder-se-ia obter uma
supressão completa da produção de estrogênio no leiomioma e uma supressão parcial no
ovário, o que se assemelharia à condição encontrada naquelas pacientes que em vigência do
tratamento com análogo de GnRH apresenta apenas redução parcial dos níveis de
estrogênio, mas que obtém o resultado esperado: redução do volume uterino (21).

Outra vantagem do uso dos inibidores de aromatase é a rápida instalação da deprivação


estrogênica. Os níveis séricos de estrogênio decaem logo no primeiro dia do tratamento
(35). A ausência do fenômeno de “flare-up” (hiperestrogenismo observado no início do
tratamento com agonista de GnRH ), também pode ser apontada como uma vantagem do
uso dos inibidores de aromatase.

A segurança que essa droga demonstra na prática clínica vem permitindo o seu uso em
novas aplicações, inclusive como potencial nova ferramenta no tratamento de pacientes no
menacme com leiomioma do útero.
Objetivo do Estudo

Avaliar a ação do inibidor da aromatase no tratamento do leiomioma uterino, em pacientes


na menacme, considerando: volume uterino, sintoatologia, perfil hormonal, lipídico e
glicêmico.

Pacientes e Métodos

No ambulatório de leiomioma uterino do Departamento de Obstetrícia e Ginecologia do


Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo serão
selecionadas 20 pacientes portadoras de leiomioma do útero, observando-se os seguintes
critérios:

A) Inclusão:
1- Idade entre 35 e 45 anos.
2- Sem desejo reprodutivo.
3- Volume uterino maior que 300 cm3.
4- FSH menor que 15 mUI/L.
5-Sintomática (Hipermenorréia, dismenorréia, dispareunia, aumento do volume abdominal
ou dor em baixo ventre).

B) Exclusão:
1-Uso de método contraceptivo hormonal nos últimos três meses.
2-Portadora de doença extra –genital concomitante.
As pacientes receberão informações sobre o medicamento e a proposta de tratamento
experimental por escrito e assinarão termo de consentimento informado. Dessa forma a
paciente incluída no estudo receberá medicação suficiente para 90 dias de tratamento ( 90
comprimidos de 1 mg de Anastrozol), em três etapas, e seguirá plano de acompanhamento
conforme descrito a seguir:

-Consulta Zero: Apresentação do estudo à paciente. Anamnese completa e exame físico


geral e ginecológico, com coleta de material para colpocitologia oncótica. Solicitação dos
seguintes exames: ultra-sonografia de pelve transvaginal, mamografia, densitometria óssea,
dosagem de FSH (hormônio folículo estimulante), LH (hormônio luteinizante), estradiol,
colesterol total e frações, triglicérides, hemograma completo, TGO (aspartato amino
transferase), TGP (alanina amino transferase), gama-GT (gama glutamil transferase),
fosfatase alcalina, bilirrubinas toais e frações, androstenediona, testosterona livre.

-Consulta 1: Retorno com exames realizados, avaliação dos exames e possível


enquadramento da paciente no estudo. Fornecimento do medicamento para uso por 30 dias.
Orientação para início da medicação na segunda fase do ciclo.

-Consulta 2: Retorno 14 dias após início do tratamento. Verificação rigorosa de efeitos


colaterais, aplicação do questionário de Hauser para verificação de sintomas climatéricos,
pesquisa de padrão menstrual.

-Consulta 3: Retorno após 30 dias do início do tratamento. Realização de ultra-sonografia


pélvica transvaginal, solicitação de exames laboratoriais (os mesmos da consulta zero),
verificação rigorosa de efeitos colaterais, aplicação do questionário de Hauser para
verificação de sintomas climatéricos, pesquisa de padrão menstrual. Fornecimento de
medicação para mais 30 dias.

-Consulta 4: Retorno após 60 dias do início do tratamento. Verificação rigorosa de efeitos


colaterais, aplicação do questionário de Hauser para verificação de sintomas climatéricos,
pesquisa de padrão menstrual. Fornecimento de medicação para mais 30 dias.
-Consulta 5: Retorno após 90 dias do início do tratamento. Realização de ultra-sonografia
pélvica transvaginal, solicitação de densitometria óssea, solicitação de exames laboratoriais
(os mesmos da consulta zero), verificação rigorosa de efeitos colaterais, aplicação do
questionário de Hauser para verificação de sintomas climatéricos, pesquisa de padrão
menstrual. Encerramento do uso da medicação. Definição com a paciente de tratamento
cirúrgico a ser seguido futuramente.

A equipe participante do presente estudo será responsável pelo atendimento das pacientes e
estará concisa nas condutas conforme o plano de acompanhamento proposto.

Todos os exames serão realizados no Hospital das Clínicas pelo Laboratório Central e
departamentos afins, quanto à ultra-sonografia será realizada pelo mesmo profissional no
Instituto de Radiologia do HCFMUSP, e a densitometria óssea realizada pelo Laboratório
de Investigação Clínica de Metabolismo Ósseo da Disciplina de Reumatologia na
Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Ao término do protocolo, analisaremos os dados obtidos dividindo as pacientes em dois


grupos conforme a porcentagem de redução volumétrica do conjunto útero e leiomiomas,
tendo como divisor redução de 30%. Levaremos em conta na análise estatística os seguintes
parâmetros: idade, FSH, estradiol e perfil androgênico, no início do tratamento, após um
mês e ao término do tratamento.

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Paciente portadoras de Leiomioma do Útero
Volume ≥ 300 cm3, sem desejo reprodutivo,
idade entre 35 e 45 anos, FSH ≤ 15, sem doença
concomitante e sem uso de MAC hormonal

Uso do Anastrozol
1 mg/dia por 90 dias

Redução Volumétrica Redução Volumétrica


Menor que 30% Maior que 30%

Análise de FSH, E2, Análise de FSH, E2,


Perfil androgênico Perfil androgênico
e idade e idade

Resultados
Discussão
Conclusão