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A PORTA ESTREITA

Lucas 13.22-30

Uma crescente tendência entre os evangélicos hodiernos é a ideia de que


Deus é bom e por isso, não castiga ou pune a ninguém. Assim sendo, defendem
que o conceito de que ele punirá pecadores rebeldes lançando-os no inferno é algo
que não se coaduna com um Deus que é amor. Por isso, ele irá perdoá-los e no
fim, todos serão salvos. Algo parecido, embora mais restrito, era ensinado pelos
escribas da época de Jesus, pois afirmavam fundamentando-se em Isaías 60.21,
que a totalidade do povo judeu seria salva. O perigo da interpretação fora do contexto

Quando olhamos para o texto de Lucas, percebemos que Jesus estava em


viagem, rumo à Jerusalém (22), mas ela não estava começando ali. O evangelista
Lucas registra seu início no capítulo 9, verso 51 (ver). E conforme passa pelas
aldeias e vilas, Jesus ensinava ao povo as verdades do Reino de Deus. Dessa
forma, em certo momento de sua viagem, talvez motivado pelo ensino dos escribas
sobre a salvação dos judeus, alguém lhe questiona: Senhor, são poucos os que
são salvos? (23 ver).

Jesus não responde ao seu interlocutor da maneira como este esperava;


antes faz-lhe uma séria advertência (24 ver). A palavra grega αγωνιζομαι traduzida
como esforçai-vos, é uma expressão que vai muito além do sentido usual de
nossos dias. É um esforço agonizante. A ideia é a de alguém que está na arena
romana e luta com todas as suas forças e com todas as armas que estão à sua
disposição, dando tudo de si para manter-se vivo. Não obstante, é preciso observar
que Jesus não está afirmando que a salvação é resultado do esforço humano, mas
que o homem deve lutar contra sua natureza e contra os inimigos de sua alma,
pois estes farão de tudo para tirá-lo do caminho, desviando-o da verdade. A esse
respeito, temos uma séria advertência I Pedro 5.8-11: “Sede sóbrios e vigilantes.
O diabo, vosso adversário, anda em derredor, como leão que ruge procurando
alguém para devorar; resisti-lhe firmes na fé, certos de que sofrimentos iguais aos
vossos estão-se cumprindo na vossa irmandade espalhada pelo mundo. Ora, o
Deus de toda a graça, que em Cristo vos chamou à sua eterna glória, depois de
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terdes sofrido por um pouco, ele mesmo vos há de aperfeiçoar, firmar, fortificar e
fundamentar. A ele seja o domínio, pelos séculos dos séculos. Amém!

Note ainda que há um contraste entre duas classes de pessoas apresentadas


no verso 24. Jesus exorta aos seus ouvintes: esforçai-vos (presente) e fala de
outros que procurarão (futuro), mas não poderão entrar pela porta estreita. Note
que nos versos 25-28, Jesus compara-se a um homem sábio que sai às ruas de
sua cidadela e ensina aos que ali estão. Mas chega o momento em que este sábio
entra em sua casa e fecha a porta. E ao fechá-la, todos os que desprezaram seu
ensino ficam de fora; mesmo que o chamem de senhor, todos serão rejeitados. Isto
nos faz lembrar do discurso de Jesus em Mateus 7.21-23 (ver).

Aqueles que bateram à porta do sábio sentaram e ouviram seus


ensinamentos, estiveram perto dele, conversaram com ele e talvez até tenham
gostado do que ouviram, mas isso não foi suficiente para garantir-lhes um lugar no
reino (26-27 ver). Isso implica em que assentar-se para ouvir a mensagem do
Evangelho, conhecer o ensino das Sagradas Escrituras, dizer que pertence a Deus,
chamá-lo de Senhor, não são garantia de salvação.

Um aspecto muito importante em todo este contexto é o fato de que Jesus

Contraste com o ensino dos escribas


está falando de acontecimentos escatológicos, isto é, está apontando para o que
há de acontecer no último dia, quando Ele voltar em toda sua glória para julgar
vivos e mortos (II Timóteo 4.1). Perceba que nos versos 28 a 30, Jesus aponta
para uma realidade futura, quando aqueles que acreditavam ser merecedores da
salvação, verão pessoas vindas dos quatro cantos da terra entrando no Reino de
Deus, enquanto que elas mesmas ficam de fora. O choro e o ranger de dentes
apontados aqui, revelam o ódio de seus corações, pois pensavam ser merecedores
do Reino de Deus, mas veem outros tomando o seu lugar.

Os convidados, isto é, os judeus, os primeiros, não vieram à festa, não


tiveram compromisso com seu anfitrião. Assim, os desprezados e ignorados
gentios, os últimos, tomaram seu lugar. O que fica evidente é que não é pela
nacionalidade, mas pela fé em Jesus que o homem alcança a salvação, pois como
afirmou o próprio Senhor Jesus em Mateus 20.16, os últimos serão primeiros, e os
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primeiros serão últimos porque muitos são chamados, mas poucos escolhidos.
Estes, serão admitidos à mesa do banquete, à mesa do Reino, enquanto que
aqueles, tão cheios de si, tão seguros em sua própria justiça, ficarão de fora.
Quando Jesus voltar ou a vida destes se findar, a porta da salvação será fechada
e não mais poderão entrar por ela.

A questão é que há pessoas que dizem não precisar de Deus ou


negligenciam a oferta da salvação, mas quando se derem conta de sua
necessidade de serem salvos, pode ser tarde demais, pois a porta estará fechada.
Por outro lado, há os que presentemente procuram, mas também não encontram,
pois procuram no lugar errado. Buscam a salvação em seu racionalismo, na ciência
ou ainda nas filosofias humanas. Pessoas que continuarão a procurar, mas jamais
encontrarão, pois preferem a porta larga em detrimento da porta estreita. Por isso
devemos atentar para a séria advertência de Jesus em Mateus 7.13: “Entrai pela
porta estreita (larga é a porta, e espaçoso, o caminho que conduz para a perdição,
e são muitos os que entram por ela)”.

APLICAÇÃO

Diante do exposto e caminhando para o fim, precisamos considerar que:

1. Não podemos simplesmente passar pela vida das pessoas, sem


mostrar-lhes a verdade do Evangelho e mais que preocupação com o
número dos que serão salvos, devemos preocupar-nos com os que
precisam ser salvos.

2. Olhando para nós mesmos, faz-se necessário agonizarmos, lutarmos


com todas nossas forças para entrarmos pela porta estreita.
Simplesmente ouvir a Palavra de Deus e chamar Jesus de Senhor, sem
real submissão aos seus ensinamentos, não garantirá lugar no reino,
assim como não garantiu àqueles que ouviram as palavras daquele
homem sábio. Nossa autojustiça não poderá salvar-nos do inferno.