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I

FACULDADE DE TECNOLOGIA IPPEO


PÓS-GRADUAÇÃO LATO SENSU EM ĀYURVEDA

ANÁLISE COMPARATIVA DOS GUṆAS DRAVYAS ENTRE ERVAS E SEUS


RESPECTIVOS ÓLEOS ESSENCIAIS

Cleber Miranda da Silva

São Paulo
2018
II

Cleber Miranda da Silva

ANÁLISE COMPARATIVA DOS GUṆAS DRAVYAS ENTRE ERVAS E SEUS


RESPECTIVOS ÓLEOS ESSENCIAIS

Pré-projeto de Trabalho de Conclusão de Curso apresentado na


Faculdade de Tecnologia IPPEO como requisito básico para a
conclusão do Curso de pós-graduação lato senso em āyurveda.

Orientadora:
Prof.ª Sabrina Alves

São Paulo
2018
III

Sumário
Resumo ............................................................................................................................................ 1

1. INTRODUÇÃO ....................................................................................................................... 3

2. CORPO TEÓRICO .................................................................................................................. 7

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................................. 21

4. REFERÊNCIAS ..................................................................................................................... 23

5. GLOSSÁRIO ......................................................................................................................... 25
IV
1

Resumo

A utilização de óleos essenciais pela aromaterapia está se mesclando a outras terapias


complementares, incluindo o āyurveda. Sua disponibilidade, tanto em variedade e facilidade de
acesso a óleos extraídos de diversas plantas, quando em maior qualidade dos óleos aumenta o
interesse de terapeutas e pacientes em saber se as ações e os benefícios dos óleos essenciais são
similares ou não aos das ervas frescas ou secas.
A coletânea sobre as ervas do āyurveda, intitulada Dravyaguṇa Vijñāna não dispõe de
informações específicas sobre os óleos essenciais, da forma como estão disponíveis atualmente,
mas traz conteúdo suficiente sobre as ervas para que se pesquise sobre as propriedades dos óleos
essenciais (dravya, rasā, guṇa, vīrya, vipāka, prabhāva, karma e doṣakarma) e se possa compará-
las com os de suas respectivas ervas.
Estabelecer uma metodologia de avaliação para os óleos essenciais de acordo com os
parâmetros e termos do āyurveda e de comparação das propriedades dos óleos essenciais com as
das suas respectivas ervas é o objetivo deste artigo, por meio da revisão de bibliografias sobre
āyurveda e aromaterapia, de forma que os óleos essenciais possam ser julgados quanto ao potencial
de substituir ou não sua erva.
O artigo propõe a comparação do guṇas dravyas da erva e do óleo essencial como essa
metodologia de avaliação e este estudo se limita a apenas dois conjuntos de ervas com os seus
respectivos óleos essenciais.
A metodologia de avaliação proposta se apresenta como uma forma confiável para
determinar se a substituição da erva pelo óleo essencial é recomendada ou não, de acordo com uma
linha de raciocínio rastreável ao āyurveda.

Abstract

The utilization of essential oils by aromatherapy is merging with other complementary


therapies, including āyurveda. Their availability, both in variety and ease of access to oils
extracted from different plants, when in higher quality of oils increases the interest of therapists
and patients in knowing if the actions and benefits of essential oils are similar or not to those of
fresh herbs or dried.
2

The collection about herbs of āyurveda, entitled Dravyaguṇa Vijñāna does not dispose
specific information about essential oils, as they are currently available, but it has sufficient
content on the herbs to research about the essential oils’ properties (dravya, rasā, guṇa, vīrya,
vipāka, prabhāva, karma and doṣakarma) and can be compared with those of their respective
herbs.
To establish an evaluation methodology for the essential oils according to the āyurveda
parameters and terms and comparing the essential oils properties with those of their respective
herbs is the objective of this article, through the review of bibliographies on āyurveda and
aromatherapy, so that the essential oils can be judged on the potential of replacing or not your
herb.
The article proposes the comparison of guṇas dravyas of the herb with those of the essential
oil as this evaluation methodology and this study is limited to only two sets of herbs with their
respective essential oils.
The proposed evaluation methodology presents itself as with a reliable way to determine if
the substitution of the herb by the essential oil is recommended or not, according to a train of
thought traceable to āyurveda.

Palavras-chave: Aromaterapia. Āyurveda. Cânfora. Dravyaguṇa Rasa Shãstra. Ervas. Gengibre.


Óleos essências.
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1. INTRODUÇÃO

Com o avanço da tecnologia, dos processos de produção e dos ganhos de escala, os óleos
essenciais estão cada vez mais acessíveis e com qualidades aceitáveis, por outro lado questões
como sazonalidade, logísticas de armazenamento e transporte dificultam a utilização de ervas in
natura ou secas.
Os óleos essenciais, da forma como estão disponíveis atualmente não existiam quando o
grande conteúdo do Dravyaguṇa Rasa Shãstra foi produzido, o que deixa a pergunta se o Ashta
Dravyaguṇa Vijñāna (dravya, rasā, guṇa, vīrya, vipāka, prabhāva, karma e doṣakarma) dos óleos
essenciais se assemelham com os de suas respectivas ervas.
Há um vasto acervo literário com informações relativas às qualidades, aos sabores, etc. para
uma variedade de ervas, que seguem uma padronização de classificação aceita no āyurveda e que
passaram por um longo período de validações empíricas e de aprimoramento. A elaboração de
conteúdo semelhante para os óleos essenciais ainda é incipiente, deficiente de validações e sem o
conhecimento conveniente de suas ações.
A aromaterapia se consolidou com uma terapia complementar, auxiliando diversos
processos de cura e de manutenção da saúde, o emprego dos óleos essenciais também está se
intensificando nos tratamentos dentro do āyurveda, conhecer o comportamento de tais óleos neste
contexto é de fundamental importância para a eficácia do tratamento.
Em alguns casos, os óleos essenciais vêm sendo empregados como substitutos dos auṣadha,
dos tradicionais preparados ayurvédicos de ervas frescas, secas e dos óleos medicados, por serem
mais acessíveis nas regiões fora da Índia. Os Millers reconhecem esse uso:

Tradicionalmente, o āyurveda usa plantas na forma de ervas e óleos medicados em


tratamentos. Para uma grande população, como na Índia, essas formas foram fáceis de se
obter, fazer ou baratas para comprar. Os autores afirmam que as ervas frescas possuem
propriedades de cura mais completas, ervas secas e óleos medicados sendo uma segunda
escolha. Os óleos essenciais não têm mais os minerais e os componentes solúveis em água,
por isso são uma terceira escolha; no entanto, eles são concentrados, fáceis de usar, e não
perdem a potência ou estragam. No mundo ocupado de hoje, os óleos essenciais podem
ser um aliado prontamente disponível na cura. (1995, p.93)

Frequentemente a aromaterapia se utilizado de objetos dos sentidos (pañcendriya) de forma


diferentes de como as ervas atuam, enquanto essas podem incluir todos os cinco objetos dos
sentidos (olhos, nariz, pele, orelha e língua), aquela está estritamente relacionado à pele e ao nariz.
4

Diferença que influência diretamente na aplicação de um tratamento, na sua ação e na sua potência.
A aromaterapia tende a atuar em campos mais sutis que as ervas. Uma conclusão semelhante é
apresentada por Frawley:

Os óleos aromáticos trazem em si grande quantidade de prana, a energia vital do cosmos,


que é partilhada conosco. Eles purificam e abrem os canais, permitindo a circulação de
energias no sistema nervoso, nos sentidos e na mente. E servem de agentes catalisadores
para promover o movimento apropriado da energia vital em todos os níveis. De vez que
toda doença envolve certa perturbação ou bloqueio na energia vital através do Prana, os
aromas ajudam a tratar as enfermidades: contudo, usados em excesso, os óleos aromáticos
podem agravar a condição dos humores 1 (embora menos do que as ervas). (1996, p. 196-
170)

O uso dos óleos essenciais dentro do āyurveda justifica a necessidade em se obter


metodologias para o estudo e a comparação das qualidades dos óleos essenciais com os de suas
respectivas ervas.
O objetivo deste artigo é o de revisar algumas das bibliografias relacionadas ao āyurveda e
à aromaterapia, definir uma metodologia de avaliação e criar os parâmetros que possibilitem a
comparação das ervas utilizados no āyurveda com os seus respectivos óleos essenciais, de forma
que os óleos essenciais possam substituir ou não determinada erva e em que condições de aplicação
e uso.
Compreender o mecanismo de análise do Ashta Dravyaguṇa Vijñāna (dravya, rasa, guṇa,
vīrya, vipāka, prabhāva, karma e doṣakarma) para identificar uma metodologia válida de
comparação das ervas e de seus óleos essenciais que permitam definir se o respectivo óleo essencial
pode ou não ser utilizado em substituição a uma erva.
Estabelecer uma relação simples e direta de dois óleos essenciais e suas respectivas ervas,
comparar os seus guṇas e determinar quais os critérios a serem adotados para validar o uso de um
ou o de outro. Os óleos essenciais selecionados para o estabelecimento de tal relação foram os
extraídos das ervas Karpūra (Cinnamomum camphora) – cânfora e Ārdraka (Zingiber officinale)
– gengibre.
A revisão bibliográfica é a base para a realização do projeto, que procurará reunir dados de
ervas e de óleos essenciais sobre a ótica do āyurveda, traçar uma relação das qualidades e
propriedades entre eles e definir critérios para identificar suas semelhanças.

1
O termo humor, nesse contexto tem o mesmo significado que doṣa.
5

O artigo não pretende abarcar todo o universo de ervas e óleos essenciais, mas pelo
contrário, se limitará a apenas dois conjuntos de ervas com os seus respectivos óleos essenciais.
Criando assim um caminho para que outras relações sejam produzidas posteriormente.
Tanto as ervas e os óleos essenciais delas extraídos que figuram neste artigo são de fácil
obtenção e de uso comum no mercado brasileiro.
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2. CORPO TEÓRICO

2.1 Óleos essenciais


São substâncias complexas e voláteis formadas em partes especificas de uma planta, a
depender de cada espécie, podendo ser provenientes de folhas, flores, talos, caules, hastes, pecíolo,
casca, raízes e rizomas. São geradas durante o metabolismo secundário e o seu papel não é
primordial para a sobrevivência da planta, como na fotossíntese, mas tem papeis específicos, como
na defesa contra predadores ou na atração de polinizadores, por não estarem presentes em todas as
plantas e terem estruturas complexas e diversas podem ser utilizados para a quimiossistemática
(taxonomia química).
Corazza afirma que “os óleos essenciais vegetais constituem o componente mais potente e
concentrado das várias partes da planta – flores, frutos, folhas e raízes. As moléculas de óleos
essenciais das plantas frescas são de 75 a 100 vezes mais concentradas do que as das plantas secas.”
A composição química dos óleos essenciais varia de uma espécie para outra, mas também
sofrem influência da região de cultivo, o clima, a presença de acidentes geográficos, a idade do
terreno, o processo de colheita e o método de extração. Portanto, o óleo de um mesmo tipo de
planta pode variar suas características de um lote para outro. De forma geral, eles contêm terpenos
(monoterpenos e sesquiterpenos), ésteres, aldeídos, cetonas álcoois, óxidos, ácidos orgânicos,
éteres, lactonas e cumarinas.
Os óleos essenciais são relativamente fluidos, podendo se solidificar a temperaturas mais
baixas. A coloração varia de totalmente incolor a fortemente dourado, passando por nuances de
verde, âmbar e amarelo, como os óleos essenciais de patchouli, laranja e zimbro.
Os óleos essenciais agem no corpo humano das seguintes formas:
Fisiológica: Substâncias químicas presentes nos óleos essenciais conferem algumas
propriedades, como: antibióticas, anti-inflamatórias, antifúngicas, analgésicas e sedativas. Os óleos
atingem a corrente sanguínea, músculos, articulações ou órgãos por meio da absorção cutânea,
inalação, ou em alguns casos por ingestão, mas no Brasil a ingestão não é regulamentada com fins
terapêuticos.
Psicológica: Ação exercida sobre a mente e as emoções, por meios de estímulos gerados no
sistema límbico. A forma de aplicação que desencadeia reações de forma mais rápida e direta é a
inalação, entretanto, todas as outras técnicas também podem ter efeitos nas emoções.
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Energética: O efeito sobre as energias do corpo humano e suas frequências e consequência


da memória energética trazida pelo óleo essencial. Isso acaba tendo efeito mental, físico e
emocional.

2.2 Aromaterapia moderna:


Por volta de 1900 o dr. Renné-Maurice Gattefossé, um químico francês, passou a pesquisar
sobre os poderes dos óleos essenciais, cunhando o termo Aromaterapia, sendo o precursor de
muitos outros estudiosos na Europa, como Jean Valnet, Marguerite Maury e Robert Tisserand, do
Instituto Tisserand, um dos maiores expoentes da atualidade em aromaterapia.
A enfermeira austríaca, Marguerite Maury (1895 – 1968) é a pioneira da aromaterapia
moderna. Ela combinou técnicas da massagem oriental com as propriedades medicinais dos óleos
essenciais, formulando misturas específicas para cada paciente.
Em 1938, o Médico Godissart inicia suas atividades na aromaterapia clínica, com uso de
óleos essenciais, realizando tratamentos de úlceras faciais, câncer de pele, gangrenas e outras
inflamações cutâneas.
As modernas tecnologias de análise, os controles de temperatura, atmosfera gasosa e
pressão, o avanço no estudo de células e atividades metabólicas, os modernos testes clínicos, os
profissionais de medicina, farmácia, química e botânica, o acesso à informação e a internet, fazem
com que o interesse pelos óleos essências só aumente, sendo fonte de inovação e atendendo a
necessidade de se viver melhor. Permitem o amplo e eficaz uso do óleo essencial como princípio
ativo natural e comprovam cientificamente o conhecimento empírico do passado.
O uso de óleos essenciais potencializa os efeitos de técnicas naturais e holísticas, tais como
massoterapia, cromoterapia, essências florais e acupuntura. Sinergias garantem efeitos mais
rápidos e duradouros para procedimentos estéticos e capilares.
A aromaterapia é a ciência que se dedica às propriedades medicinais das plantas aromáticas,
por meio dos óleos essenciais delas extraídos. É o conjunto de técnicas que buscam atender à
necessidade de se cuidar integralmente da saúde e da boa forma, com tratamentos individualizados,
proporcionar equilíbrio e bem-estar físico, mental e emocional. (AMARAL, 2015)
Não se limitando apenas a função odorífera, por atuar em funções metabólicas e
psicológicas.
9

O estudo dos efeitos do odor na aromaterapia é da osmologia, ciência que ajuda a entender
os mecanismos do odor em nosso sistema olfativo e límbico cerebral.
Existem duas abordagens na aromaterapia, que se diferem principalmente na forma como
os tratamentos são abordados
A abordagem clínica baseia-se nas características físico-química dos óleos essenciais, para
fortalecer o sistema imunológico, estimulando as defesas naturais internas do organismo. Essa
abordagem surgiu na França, representada pelo trabalho do Renné Gattefossé e dos médicos dr.
Valnet, dr. Pénoel e dr. Francômme. A escola francesa indica o uso oral dos óleos essenciais sob
formas galênicas em cápsulas e supositórios. A França é o único país que possui uma legislação de
saúde que permite o uso oral dos óleos essenciais. (AMARAL, 2015)
A abordagem holística sugere o uso dos óleos essências na aromaterapia de forma mais
intuitiva. A pesquisa dessa escola, que foi desenvolvida na Inglaterra, visa proporcionar o bem-
estar físico, mental e emocional, restaurando o equilíbrio entre o corpo, mente e espírito com
auxílio da vibração olfatória dos óleos essenciais. (AMARAL, 2015)
Representada por Marguerite Maury, Robert Tisserand, Patricia Davis e Shirley Price.
Foca o uso externo dos OE em massagens, Aromatização Ambiental e outras terapias
holísticas.
A abordagem holística é a que está sendo utilizada no estudo desse artigo.

2.3 Āyurveda
No capítulo Sūtrasthāna, śloka 2 do Aṣṭāṅga Hṛdayam de Vāgbhaṭa com comentários de
Śaśilekhā, se define o āyurveda como a ciência da vida para se obter a longevidade.

As pessoas que desejam vida (longa), que é a forma (o instrumento) para alcançar o
dharma, o artha e o sukha devem depositar a máxima confiança nos ensinamentos do
āyurveda.

O āyurveda tem origem nos conhecimentos védicos, frequentemente relacionado com o


Atharva Veda ou Brahma Veda, o que o classifica como um Upaveda. Em sua etimologia, āyus é
o que pode ser definido como vida e veda é compreendido como ciência, conhecimento ou verdade.
O āyurveda não deve ser compreendido simplesmente como uma medicina ou um sistema de cura,
mas como uma ciência védica ancestral de prevenção, de cura de doenças e de longevidade, um
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estilo de vida que se harmoniza com a natureza, de acordo com o meio ambiente, as estações
climáticas e a época em que um indivíduo vive, mantendo o equilíbrio entre corpo, mente e
espiritualidade.

2.4 Doṣas, agni e dhātus


De acordo com Suśruta Saṃhitā, saúde é o equilíbrio dos doṣas, do agni e dos dhātus, a
eliminação correta dos malas, a harmonia do ser com os sentidos e a mente e a sua correlação com
a natureza.
No Aṣṭāṅga Sangraha of Vāgbhaṭa se define corpo como sendo composto somente de
doṣas, dhātus e malas.
Vāta, pitta e Kapha são os três doṣas do corpo, onde cada um deles é de três tipos: vṛddhi
(aumentado), kṣaya (reduzido) ou sāmya (normal). Vṛddhi e kṣaya também são divididos em três
tipos: utkṛṣṭa (severo) madhya (moderado) e alpa (suave). Os doṣas podem prejudicar ou manter
o corpo, se estiverem anormais ou normais, respectivamente.
Vāta ou vāyu mantém o corpo com a inspiração, a expiração, o entusiasmo, o início das
eliminações, como fezes e urina e muitas outras funções.
Pitta mantém o corpo com a digestão, a produção de calor, o desejo, a fome, a sede, a cor
e a compleição, o entendimento, a inteligência e outras funções.
Kapha mantém o corpo com a estabilidade, a lubrificação, as articulações, a virilidade, a
paciência, a coragem, a inteligência, a força, a atração, dentre outros.
Os Dhātus são definidos como tecidos e são divididos em sete tipos, cada um deles tem
função específica e dá suporte ao corpo e serve como transporte de nutrientes para o dhātu seguinte,
sendo eles: rasa (plasma), rakta ou asṛk (sangue), māṁsa (músculo), medas (gordura), asthi (osso),
majja (medula óssea) e śukra (elementos reprodutivos). Suas funções são prīṇana (nutrir), jīvana
(dar suporte a vida), lepa (cobrir, aderir), sneha (lubrificar), dhāraṇa (sustentar), pūraṇa (preencher
as cavidades) e garbhotpāda (produzir embrião).
Cada dhātu sofre vṛddhi pelo uso ou pela associação com dravya com guṇas similar ou
kṣaya pela associação com dravya com guṇas opostas.
Os principais malas do corpo são: mūtra (urina), śakṛt (fezes) e sveda (suor). Mūtra elimina
o excesso de umidade da alimentação, śakṛt dá força e suporta vāta e pitta e sveda mantem a
umidade e oleosidade da pele e suporta os pelos. (ŚAŚILEKHĀ, 2017)
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2.5 Ashta Dravyaguṇa Vijñāna


Dravyaguṇa Vijñāna é uma coletânea em três volumes, sobre as ervas do āyurveda, estrito
por Yadavji Trikamji Ācārya no século XIX. O trabalho é dividido em duas partes, uma sobre os
fundamentos de dravyaguṇa e a outra sobre as ervas. Outro trabalho, em cinco volumes, foi escrito
por Ācārya Priyavrata Sharma (1976 - 1983).
Caraka traz algumas definições, como segue
Dravya é definido como “aquele que é um substrato das qualidades e ações e que é uma
causa concomitante é a matéria”.
Guṇa “é a causa desprovida de esforços ou atividades”.
Karman é a causa da combinação e da separação. Karman é a ação relacionada com algo a
ser adquirido. Não requer qualquer outro fator para esta ação.”
Para Vāgbhaṭa, há dez pares de guṇa: guru (pesado) e laghu (leve no peso); manda (lento) e tīkṣṇa
(rápido); hima (frio) e uṣṇa (quente); snigdha (oleoso) e rukṣa (seco); ślakṣṇa (macio) e khara
(áspero); sāndra (sólido) e drava (líquido); mṛdu (mole) e Kaṭhina (duro); sthira (estável) e cala
(instável, móvel); sūkṣma (sutil, pequeno) e sthūla (grande, grosseiro); viśada (não viscoso) e
picchila (viscoso).
Na definição de Vāgbhaṭa os rasās (sabores) presentes nos dravyas (substâncias) são os
seguintes: svādu (doce), amla (azedo), lavaṇa (salgado), tikta (amargo), uṣṇa (picante) e kaṣāya
(adstringente).
Svādu ou madhura, amla e lavaṇa aliviam vāta, quando tikta, uṣṇa ou kaṭu e kaṣāya o
aumentam. Kaṣāya, tikta e madhura diminuem pitta e amla, lavaṇa e kaṭu aumentam. Kapha é
apaziguado com tikta, kaṭu e kaṣāya e é agravado com madhura, amla e lavaṇa. (ŚAŚILEKHĀ,
2017)
Madhura tem predominância dos mahābhūtas jala e pṛthvi, amla tem agni e pṛthvi, lavaṇa
tem jala e agni, kaṭu tem agni e vāyu, kaṣāya tem vāyu e pṛthvi e tikta tem vāyu e ākāśa.
Vīrya é definido com a qualidade de potência, Vāgbhaṭa afirma que pode ser uṣṇa ou śita,
porque essas duas são as únicas qualidades dominantes (ŚAŚILEKHĀ, 2017), mas reconhece que
outros autores afirma a existência de oito vīryas (BAMBAI V.S. 2013). Para Caraka, é por meio do
vīrya que qualquer ação se torna possível.
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Relacionando o vīrya com o rasa, Vāgbhaṭa diz que kaṭu, amla e lavaṇa possuem vīrya
uṣṇa e tikta, kaṣāya e madhura possuem vīrya śita.
Também por Vāgbhaṭa, vipāka é a alteração do rasa que ocorre no final da digestão, gerada
pelo Jaṭharāgni (fogo digestivo), sendo svādu, amla e kaṭu.
O vipāka é madhura para os rasas madhura e lavaṇa, é amla para o rasa amla e é kaṭu para
os rasas kaṭu, tikta e kaṣāya.
Prabhāva é a ação especial de um dravya, onde essa ação é diferente do que se é esperado
de outro dravya com mesmo rasa, vīrya, guṇas ou vipāka. (ŚAŚILEKHĀ, 2017)
Doṣakarma é a ação que o dravya tem sobre o equilíbrio do doṣa.

2.6 Cinnamomum camphora


Nome em português: Cânfora
Nome Clássico: Karpūra
Nomes em sânscrito: Karpūra, Ghanasāra, Candra, Himāhva.
Família: Lauraceae
Tabela 1 – Guṇas dravyas do Karpūra
Dravya Karpūra
Rasā Tikta, kaṭu, madhura
Guṇa Laghu, tīkṣṇa
Vīrya Śita
Vipāka Kaṭu
Prabhāva Nenhum
Doṣakarma Tridoṣahara
Karman Hṛdya-hṛdayottejaka-raktavāhinīsaṁkocaka-raktabhara-vardhaka,
kaphaniḥsāraka-kāsaghna-śvāsahara-Kaṇṭhya, medhya-
vedaṅāsthāpana, Koṭhapraśamana-raktotkleśaka, cakṣuṣya,
mukhadourganghyahara-mukhaśodhaka, tṛṣāśamanakara,
jantughna-ākṣepahara, anulomana-tīkṣṇa-lekhana, vāntikara, nāḍī
avasādaka-śaityakara, mūtrajanana, vājīkaraṇa-kāmottejaka,
svedajanana, dāhapraśamana, viṣaghna, stanyakṣayakara
Fontes: Pandey (2004)
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Em altas doses a cânfora é tóxica por ingestão. Atua como carminativo, expectorante e
estimulante reflexo do coração, da circulação e da respiração. É sedativa e depressiva nervosa em
convulsões, histeria, epilepsia e coreia. Uso tópico da cânfora tem efeito analgésico rubefaciente.
(KHARE, 2007) Frequentemente usado para desordens do trato respiratório, como catarros e para
alívio de dores musculares e reumatismo.
Há diferentes quimiotipos para a cânfora, que pertencem a mesma espécie de planta, mas
que possuem variações de substâncias decorrentes a adaptações necessárias as condições
ambientais diferentes. A referência para esse artigo é o quimiotipo cânfora branca, que é a mais
comumente utilizada.
O Karpūra contém uma série de óleos voláteis, incluindo a cânfora, o safrol, o linalol, o
eugenol e o terpenol. Tais óleos possuem atividades antibacteriana e antifúngica. (KHARE, 2007)

2.7 Zingiber officinale


Nome em português: gengibre
Nome Clássico: Ārdraka
Nomes em sânscrito: ārdraka-ārdrikā, śuṇṭhī, uṣṇa, nāgara, viśvabheṣaja, śṛṅgavera.
Família: Zingiberaccae
Tabela 2 – Guṇas dravyas do Ārdraka
Dravya Ārdraka
Rasā Kaṭu
Guṇa Laghu, snigdha (śuṇṭhī) guru, rukṣa, tīkṣṇa (ārdraka)
Vīrya Uṣṇa
Vipāka Madhura
Prabhāva Nenhum
Doṣakarma Kaphavātasamaka
Karman Amanasaka, anulomana, dīpana, hṛdya, chardinigrahana, pācana,
hikkanigrahana, agnidīpana, grahi, rasāyana, kasasvasahara,
tṛptighna-rocana-dīpana-pācana, vātānulomana-śūlapraśamana,
arśoghna, pittaśāmaka-raktaśodhaka, hṛdayottejaka-śothahara,
kaphaghna-śvāsahara-kāsaghna, svarya, vṛṣya-uttejaka,
jvaraghna-sitapraśamana, balya, vedaṅāsthāpana-nāḍyuttejaka.
Fontes: Pandey (2004)
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O ārdraka ou śuṇṭhī (rizoma do gengibre fresco e seco respectivamente) é antiemético,


antiflatulento, hipocolesterolêmico, anti-inflamatório, antiespasmódico, expectorante, estimulante
circulatório e diaforético. O gengibre é usado para síndrome do intestino irritável e para diarreia,
resfriados e gripe.
O śuṇṭhī (o rizoma seco) é recomendado em casos de dispepsia, perda de apetite, gases,
anemia, reumatismo, tosse e dispneia; já o ārdraka (o rizoma fresco) é recomendado em casos de
infecções por constipação, cólicas, edema e garganta. (KHARE, 2007)
O rizoma contém óleos essenciais monoterpenos (geranial e neral), sesquiterpenos (beta-
sesquifelandreno, beta-bisaboleno, ar-curcumeno e alpha-zingibereno) e derivados fenólicos de
cetona. (KHARE, 2007)

2.8 Óleo essencial de Cinnamomum camphora


Tabela 3 – Guṇas dravyas do óleo essencial de cânfora
Dravya Óleo essencial de cânfora
Rasā Kaṭu, amla
Guṇa Uṣṇa, snigdha
Vīrya Uṣṇa
Vipāka Kaṭu
Prabhāva Nenhum
Doṣakarma Reduz kapha e vāta, em excesso aumenta pitta e desequilibra vāta.
Karman Expectorante, descongestionante, estimulante, antiespasmódico,
bronco dilatador, nervino, analgésico, antisséptico, afrodisíaco,
constipação, circulação, antitérmico, estimulante cerebral, auxilia
na memória, alívio de cansaço mental, relaxante muscular.
Fontes: Miller (1995)

A Cânfora aumenta o prana, abre os sentidos e traz clareza à mente, alivia a dor de cabeça
e desperta a percepção. Em excesso age como um narcótico e agrava pitta e vāta. (MILLER, 1995)
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A composição do óleo essencial de cânfora normalmente contém os seguintes compostos:


(TISSERAND; YOUNG, 2014)
(+)-limoneno 44.2%
p-cimeno 24.2%
α-pineno 8.9%
1,8-cineol 6.5%
sabineno 4.2%
β-pineno 4.0%
canfeno 3.0%
cânfora 2.4%
safrol traços

O óleo essencial de cânfora é um líquido que vai de incolor a amarelo, com odor suave,
herbal e canforado.
Seu processo de extração é por destilação a vapor, que é o método mais comum e
geralmente é o de menor custo, onde partes da planta (no caso da cânfora são partes da madeira,
raízes e galhos) são colocadas em uma câmara por onde passa vapor e arrasta as substâncias
voláteis, tal vapor é condensado e o óleo essencial, por possuir menor densidade e ser insolúvel em
água, se separa na superfície, quando é recolhido. Entretanto, a destilação por vapor pode gerar
reações nos componentes mais sensíveis e instáveis do óleo, alterando as propriedades e qualidades
do produto.
Neste processo de extração se obtém três qualidades diferentes de produtos, de acordo com
a volatilidade e o tempo de extração, a fração mais leve contém safrol em quantidade insignificante,
as outras duas frações mais densas, obtidas com maior temperatura e maior tempo de extração
possuem de 20% até 60% em massa de safrol, que por ser uma substância potencialmente
carcinogênica (TISSERAND; YOUNG, 2014) as frações com o safrol não são utilizadas para a
aromaterapia.
O que faz com que o estudo se concentre no óleo essencial da cânfora branca extraída na
primeira fração da destilação a vapor.
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2.9 Óleo essencial de Zingiber officinale


Tabela 4 – Guṇas dravyas do óleo essencial de gengibre
Dravya Óleo essencial de gengibre
Rasā Kaṭu, Madhura
Guṇa Uṣṇa, rukṣa
Vīrya Uṣṇa
Vipāka Madhura
Prabhāva Nenhum
Doṣakarma Reduz kapha e vāta, em excesso aumenta pitta
Karman Estimulante, diaforético, antidepressivo, expectorante,
antiemético, analgésico, carminativo, adstringente,
afrodisíaco, antiespasmódico, antirreumático,
antisséptico, antitussígeno, aperitivo, digestivo,
febrífugo, laxante, rubefaciente, tônico.
Fontes: Miller (1995)

A composição do óleo essencial de gengibre, da Índia, normalmente contém os seguintes


compostos: (TISSERAND; YOUNG, 2014)
zingibereno 40.2%
ar-curcumeno 17.1%
β- sesquifelandreno 7.3%
β-bisaboleno 6.0%
canfeno 4.5%
β-felandreno 3.4%
borneol 2.8%
1,8-cineol 1.7%
α-pineno 1.4%
2-undecanona 1.4%

O óleo essencial de gengibre possui odor característico, terroso, seco e aromático diferente
do rizoma fresco. A coloração é amarela.
Seu processo de extração é por destilação a vapor, a partir do rizoma.
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2.10 Uso terapêutico


No Bhāvaprakāśa de Bhāvamiśra o karpūra é usado em diarreia e motilidade intestinal
excessiva e é utilizado internamente em todos os tipos de problemas respiratórios para controlar e
solidificar secreções. Como afrodisíaco, é usado para controlar a ejaculação precoce. As doenças
da cavidade oral são controladas pelo karpūra devido a sua ação antisséptica.
No Dravyaguṇa Vijñāna é usado em asma, bronquite, diarreia, doenças oculares, febre,
doenças femininas, dor de cabeça, condições inflamatórias, pneumonia, doenças de pele, dor de
dente e distúrbios urogenitais.
O ārdraka ou śuṇṭhī aparece no Bhāvaprakāśa de Bhāvamiśra como indicado para reduzir
vāta e kapha, aperitivo, estimulador do sabor, agente de limpeza da língua e da garganta. Suco de
gengibre com cebola é antiemético, decocções são uteis para todos os tipos de artrites, junto com
açúcar mascavo cura erupções cutâneas e atua como galactagogo.
No Dravyaguṇa Vijñāna é usado analgésico, laxativo, carminativo, rubefaciente,
expectorante, sialagogo, febrífugo, tônico, afrodisíaco, aperitivo, estimulante cardíaco, entre outros
usos.
2.11 Hipótese
O processamento das ervas para a extração do óleo essencial coleta as substâncias voláteis
e aromáticas, que incluem os hidrocarbonetos, álcoois, aldeídos, cetonas, ácidos, fenóis, ésteres,
cumarinas e furanocumarinas (Price, 2012). Separando-os de outras substâncias de peso molecular
maior, sais minerais e água, o que pode alterar o Ashta Dravyaguṇa Vijñāna, tendo impacto
significativo na sua aplicação e formas de uso terapêutica.
Observar as características do Ashta Dravyaguṇa Vijñāna das ervas e compará-las com as
dos respectivos óleos essenciais pode determinar se o óleo essencial pode substituir ou não a erva
e em que condições, formas de aplicação e indicações tal substituição seria viável.
A ingestão de óleo essencial não é regulamentada no Brasil, o que limita as formas de
aplicação. A mudança do guṇa de snigdha ou guru para rukṣa ou laghu pode interferir na condição
do dravya para o uso, o vīrya de śita para uṣṇa pode mudar a sua indicação, tendo efeitos no
doṣakarma e no karman do dravya. Tais mudanças não se limitam a serem negativas ou positivas
simplesmente, essa conclusão tem que ser avaliada individualmente e estar relacionada ao
desequilíbrio dos doṣas e ao roga que se pretende tratar.
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2.12 Comparativo entre o karpūra e óleo essencial de cânfora


O karpūra possui rasa madhura, kaṭu e tikta e o seu óleo essencial tem majoritariamente
os rasas kaṭu e amla, que quando observados pela perspectiva dos mahābhūtas presentes, o karpūra
possuiu os cinco mahābhūtas – ākāśa, vāyu, agni, jala e pṛthvi – de forma significativa, já o óleo
essencial tem a predominância dos mahābhūtas agni, jala e vāyu, o que afeta consideravelmente
os seus guṇas e consequentemente a sua ação sobres os doṣas, enquanto a erva tem efeito de
apaziguar os três doṣas – kapha, pitta e vāta – o óleo essencial pode gerar pitta vṛddhi e
desequilibrar vāta se usado em excesso.
Há mudanças também sobre os guṇas da erva em relação ao óleo essencial, onde os guṇas
principais são laghu, tīkṣṇa e śita, contra os guṇas uṣṇa e snigdha respectivamente. Uma
interpretação possível é a de que um preparado contendo o karpūra a partir da erva possa ter efeito
mais rápido e abrangendo uma maior área a partir do ponto de aplicação, quando um preparado
contendo o óleo essencial possa ser mais quente e mais viscoso, tendo ação mais pontual e lenta e
também aumentar pitta.
Vīrya é responsável pela ação do dravya, desta forma quando o vīrya do karpūra é alterado
do śita para uṣṇa no óleo essencial, há também uma mudança no mecanismo de ação do dravya no
corpo humano. A erva, que é de potência mais fria, tende a produção, a construção, a restrição, o
acúmulo e a redução de pitta, por sua vez, o óleo essencial, mais quente, tem a tendência de
consumir, cozinhar, queimar e de reduzir vāta e kapha.
O vipāka do karpūra se mantem kaṭu nas duas formas apresentadas, o vipāka kaṭu tende a
aumentar pitta, a depender da constituição do corpo.
Para este dravya não se observou nenhum prabhāva.
A observação dos dados comparativos entre o karpūra e o seu óleo essencial permite fazer
a interpretação de que a substituição de um pelo outro não é direta ou mesmo possível para todos
os casos onde a erva é tradicionalmente indicada. A substituição é menos recomendada para os
casos onde haja pitta vṛddhi, uma vez que no processamento da erva para a obtenção óleo se
observa, em muitos dos pontos investigados, uma tendência ao aumento do agni no dravya. Nos
casos onde é possível se fazer a substituição, pode-se recomendar a verificação das vias de
aplicação e os caminhos pelo qual o dravya irá percorrer no corpo, para se considerar o aumento
de snigdha e uṣṇa e a diminuição de laghu e tīkṣṇa no óleo essencial e assim fazer uso de outros
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dravyas em conjunto, para se compensar estas variações, por exemplo, usando-se um óleo
carreador mais leve.
Algum dos karmas se mantêm, mesmo com as alterações de rasa, guṇa, vīrya e doṣakarma,
tais como, as ações: expectorante, estimulante, analgésica, antisséptica, afrodisíaca e antitérmica,
o que permite considerar a substituição em determinados casos, mas deve-se levar em conta as
observações apresentadas acima.

2.13 Comparativo entre o Ārdraka e óleo essencial de gengibre


O ārdraka possui rasa kaṭu e o óleo essencial de gengibre tem os rasas kaṭu e madhura,
que quando observado pela perspectiva dos mahābhūtas o karpūra possuiu agni e vāyu e o seu
óleo essencial possui os mahābhūtas agni, vāyu, jala e pṛthvi. O rasa madhura que surge no óleo
essencial, sugere um aumento das características de kapha e a diminuição de vāta e de pitta,
entretanto ao se considerar os guṇas de cada rasa, kaṭu tem potência uṣṇa e é laghu e rukṣa, que
têm intensidade alta para a potência e média para o peso e a untuosidade, já o rasa madhura é śita,
guru e snigdha, mas com intensidades baixas, o que não é capaz de neutralizar os efeitos do rasa
kaṭu. Assim uma interpretação possível é de que a mudança ocorrida durante o processamento gera
pouco efeito sobre o rasa.
As mudanças nos guṇas do gengibre em relação ao óleo essencial ocorrem para o śuṇṭhī –
gengibre seco - que é laghu e snigdha, o óleo essencial é rukṣa e uṣṇa, que se assemelha aos guṇas
do ārdraka – gengibre fresco – que é guru, rukṣa, tīkṣṇa e uṣṇa. A análise comparativa faz mais
sentido em ser realizada para ārdraka, sendo justificada pelo fado do óleo essencial ser extraído
pelo processo de destilação a vapor do rizoma do gengibre fresco.
O vīrya do gengibre fresco não é alterado, se mantendo uṣṇa também na forma de óleo
essencial.
O doṣakarma do ārdraka é Kaphavātasamaka, característica que se mantém no óleo
essencial, entretanto o óleo tem uma tendência a aumentar pitta se administrado em excesso, que
deve sempre ser observado para os casos onde se identifique pitta vṛddhi.
Para este dravya não se observou nenhum prabhāva.
Os karmas semelhantes do ārdraka e do óleo são: estimulante, expectorante, antiemético,
analgésico, carminativo, afrodisíaco, antisséptico, antitussígeno, aperitivo, digestivo, febrífugo,
laxante e tônico.
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Pela comparação das propriedades do ārdraka com as do seu óleo essencial pode-se
recomendar a substituição da erva pelo óleo em aplicações externas, na medicação de óleos para
massagens, nos auṣadhas e em outras técnicas corporais onde se deseja a redução de vāta ou de
kapha, o alívio da dor, o estimulo do agni digestivo, a ação antisséptica, o tratamento de problemas
nas vias respiratórias, entre outros.
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3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A aplicação da análise comparativa dos guṇas dravyas das ervas com os dos respectivos
óleos essenciais demostra, nos dois casos estudados neste artigo, que é possível se obter uma linha
de raciocínio, que se baseia nos conceitos do āyurveda, com o objetivo de determinar se a
substituição da erva pelo óleo essencial é recomendada ou não. O método de avaliação aqui
utilizado pode ser estendido a outros dravyas, mas deve-se levar em consideração as fontes de
pesquisas e a origem dos dados para que se possa garantir uma padronização do processo dos
resultados desta análise.
A partir da alteração do rasa é possível se avaliar como será o efeito do óleo nos doṣas,
aumentando ou redundo-os. Este item de comparação é importante por possibilitar identificar
previamente se a substituição da erva pelo óleo essencial tenderá a ter uma ação nos doṣas diferente
do esperado pela erva.
Com os guṇas, também é possível se identificar os efeitos sobre os doṣas, mas
principalmente como essa ação irá ocorrer, como exemplo, uma erva que seja laghu e tīkṣṇa e que
o seu óleo essencial se torna guru e manda pode ter sua forma de penetração nos dhātus alterada e
não atingir os locais que se desejaria.
A alteração sobre o vīrya pode significar que o dravya que antes teria uma ação mais rápida,
por ser mais uṣṇa passe a ter uma atuação mais lenta ao se tornar śita, alterando também a tendência
de queimar, consumir para a de construir, produzir, por exemplo.
Assim como o rasa, o vipāka afeta a ação nos doṣas, aumentando ou reduzindo-os. O efeito
vipāka é importante inclusive para as aplicações sobre a pele ou a face, uma vez que nestes locais
há a ação do bhrājakāgni e do bhūtāgni.
O doṣakarma do dravya pode afetar de forma significativa o equilíbrio dos doṣas, a sua
mudança no óleo essencial deve ser observada para se certificar que a harmonia dos doṣas que se
deseja poderá ser atingida.
A manutenção do karma do dravya no óleo essencial é uma das formas mais diretas para
avaliar se as ações desejadas estarão presentes no momento da aplicação do auṣadha e se seus
efeitos foram aumentados ou reduzidos.
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Não se observou nenhum prabhāva para os dravyas pesquisados, mas este é um ponto de
atenção caso a ação desejada seja uma ação específica, que não leve em consideração o rasa, o
vīrya e o vipāka do dravya.
A análise do karpūra recomenda cautela na substituição pelo óleo essencial, visto que
ocorrem alterações significativas nos rasas, guṇas, vīrya e doṣakarma do dravya, por outro lado a
análise do ārdraka é mais propensa a substituição porque muitas das propriedades do dravya se
mantêm praticamente inalteradas, a exemplo, dos guṇas, do vīrya e do vipāka. Entretanto como o
artigo não pretende esgotar o assunto e seu objetivo é a proposta de uma metodologia de
comparação para substituição da erva pelo óleo essencial e não um estudo específico do karpūra e
do ārdraka em si, entende-se que há um caminho para novas pesquisas e para um aprimoramento
do método de avaliação.
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4. REFERÊNCIAS

FRAWLEY, David. Uma visão ayurvédica da mente a cura da consciência. Pensamentos, 1996
MILLER, Light; MILLER, Bryan. Āyurveda & aromatherapy. Lotus Press, 1995.
PRICE, Shirley; PRICE, Len. Aromatherapy for Health Professionals. 4ª Edição - Churchill
Livingstone, 2012.
AMARAL, Fernando. Técnicas de aplicação de óleos essenciais. Cengage Learning, 2015.
TISSERAND, Robert; YOUNG, Rodney. Essential Oil Safety A Guide for Health Care
Professionals. – 2ª Edição - Churchill Livingstone, 2014.
CARAZZA, Sonia. Aromacologia: uma ciência de muitos cheiros. 4ª Edição – Senac, 2015
PANDEY, Gyanendra. Dravyaguṇa Vijñāna. Vol. 1 - Chowkhamba Krishnadas Academy, 2004
PANDEY, Gyanendra. Dravyaguṇa Vijñāna. Vol. 2 - Chowkhamba Krishnadas Academy, 2004
SITARAM, Bulusu. Bhāvaprakāśa of Bhāvamiśra. Vol. I - Chaujhambha Orientalia, 2015
MURTHY, Srikantha. Aṣṭāṅga Sangraha of Vāgbhaṭa. Vol. I - Chaujhambha Orientalia, 2017
MURTHY, Srikantha. Sārṅgadhara-Saṃhitā Atreatise on Āyurveda. Chaujhambha Orientalia,
2017
LOCHAN, Kanjiv. Encyclopedic Dictionary of Ayurveda. Chaukhambha Publications, 2015
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25

5. GLOSSÁRIO

Agni: fogo. Transformação, digestão. Bhūtāgni: agni que transforma os cinco


Agnidīpana: promotor do poder digestivo. elementos.
Estomacal. Estimular fogo digestivo, Brahma veda: ver atharva veda.
aperitivo. Cakṣuṣya: benéfico para a visão.
Ākṣepahara: anticonvulsivo. Cala: casuística, algo móvel.
Alpa: suave, pequeno. Chardinigrahana: alivia o vômito
Amanasaka: destrói toxinas. Dāhapraśamana: remove a fadiga
Amla: azedo, ácido (com ou sem rasa), Dhāraṇa: sustentar.
acidez, vinagre. Dharma: conduta ou deveres morais e
Anulomana: movimento descendente do religiosos.
vāta. Laxante ou purgante administrado para Dhātu: os tecidos fundamentais.
esse propósito. Agente anulomana. Dīpana: estimulante do poder digestivo.
Ārdraka: Zingiber officinale, fresco. Estomacal. Droga que promove o poder
Arśoghna: um grupo de drogas que cura digestivo e estimula o apetite.
hemorroidas. Doṣa: defeito.
Artha: riqueza. Doṣakarma: ação sobre os doṣa.
Asṛk: sangue Drava: líquido, fluido, fundido, derretido
Aṣṭāṅga hṛdayam: nome do trabalho médico Dravya: substância, coisa, objeto.
de vāgbhaṭa. Ingredientes ou materiais de algo. Substância
Aṣṭāṅga sangraha: nome do trabalho médico medicinal ou droga.
de vāgbhaṭa. Garbhotpāda: produzir embrião.
Asthi: osso. Grahi: drogas que solidificam as fezes
Atharva veda: um dos quatro vedas. líquidas. Atua como dīpana-pācana e absorve
Auṣadha: medicamento, droga. fluidos. Adstringente
Āyurveda: a ciência da saúde, classificada Guṇa: atributos ou propriedades, geralmente
como uma ciência sagrada e considerada um aplicados as qualidades das ervas e drogas.
suplemento do atharva veda. Guru: pesado.
Balya: tônico. Hikkanigrahana: grupo de erva que é anti-
Bhrājakāgni: agni do sub doṣa bhrājaka. soluço.
Hima: frio. Madhya: moderado.
Hṛdayottejaka: cardioestimulante Mahābhūta: principais elementos. Inclui
Hṛdya: benéfico para o coração. ākāśa (espaço), vāta ou vāyu (ar/vento), jala
Jantughna: viḍaṅga. Germicida ou ap (água), agni (fogo) e pṛthvi (terra).
Jaṭharāgni: funções digestivas do corpo. Majja: medula óssea.
Fogo digestivo. Mala:
Jīvana: dar suporte a vida. Māṁsa: músculo.
Jvaraghna: febrífugo. Manda: lento, embotado.
Kāmottejaka: sedução. Medas: gordura.
Kaṇṭhya: benéfico para a garganta. Medhya: promove a memória
Kapha: um dos três doṣas. Mṛdu: mole.
Kaphaghna: remove kapha. Mukhadourganghyahara: remove cheiro
Kaphaniḥsāraka: expectorante ruim emanado da boca.
Kaphavātasamaka: pacífica kapha e vāta. Mukhaśodhaka: limpeza da boca
Karma: ação, atividade. Mūtra: urina.
Karpūra: Cinnamomum camphora Mūtrajanana: produz urina.
Kāsaghna: remove ou alivia a tosse, peitoral Nāḍī avasādaka: depressor das veias.
Kasasvasahara: remove tosse e dificuldade Nāḍyuttejaka: estimulante das veias.
respiratória, expectorante Pācana: digestão, cozimento.
Kaṣāya: adstringente. Pañcendriya: os cinco órgãos dos sentidos.
Kaṭhina: duro. Picchila: viscoso, lubrificante, escorregadio.
Khara: áspero Pitta: um dos três doṣas.
Koṭhapraśamana: reduz urticária, lepra e Pittaśāmaka: reduz pitta.
problemas de pele. Prabhāva: ação especial de uma droga.
Kṣaya: consumo, depleção dos tecidos. Prana: energia, vigor, poder, vida.
Laghu: leve Prīṇana: nutrir.
Lavaṇa: salgado. Pūraṇa: preencher as cavidades.
Lekhana: droga que reduz a gordura do Rakta: ver asṛk.
corpo. Elimina dhātus e malās indesejados. Raktabhara: agente hipotensivo.
Lepa: cobrir, aderir. Raktaśodhaka: purifica o sangue.
Madhura: doce
Raktavāhinīsaṁkocaka: contrai os vasos Śuṇṭhī: Zingiber officinale, seco.
sanguíneos. Suśruta saṃhitā:
Raktotkleśaka: cessa o sangramento. Sūtrasthāna: capítulo do aṣṭāṅga hṛdayam.
Rasa: plasma. Svādu: ver madhura.
Rasā: sabor. Svarya: benéfico para a voz.
Rasāyana: terapia ou droga que rejuvenesce Śvāsahara: antiasmático, anti-dispneia
o corpo. Sveda: suor.
Rocana: aperitivo. Svedajanana: diaforético, sudorífero.
Roga: doença. Tīkṣṇa: rápido, penetrante, afiado, drástico.
Rukṣa: seco Tikta: amargo
Śaityakara: refrigerante, antitérmico. Tridoṣahara: pacífica os três doṣas.
Śakṛt: fezes. Tṛptighna: removedores do sentido de
Sāmya: normal. pseudo-contentamento.
Sāndra: sólido, denso, viscoso, untuoso, Tṛṣāśamanakara: pacífica a sede.
oleoso. Upaveda: uma classe de escritos
Sitapraśamana: reduz a sensação de frio. subordinados.
Ślakṣṇa: macio Uṣṇa: quente.
Śloka: verso. Utkṛṣṭa: severo
Sneha: lubrificar. Uttejaka: estimulante, instigante.
Snigdha: oleoso, pegajoso, viscoso, Vājīkaraṇa: afrodisíaco, estimulante,
glutinoso, untuoso, calmante, escorregadio, fortalecedor, produz virilidade.
suave. Vāntikara: produz vômito
Śothahara: alivia edema. Vardhaka: crescimento.
Stanyakṣayakara: depleção do leite Vāta: um dos três doṣas.
Sthira: estável. Vātānulomana: substância que ajuda no
Sthūla: grande, grosseiro, robusto, maciço, movimento descendente do vāta;
volumoso, bruto e áspero. carminativo.
Sukha: felicidade. Vāyu: ver vāta.
Śukra: elementos reprodutivos. Vedaṅāsthāpana: remove a dor e restaura a
Sūkṣma: sutil, pequeno. normalidade.
Śūlapraśamana: reprime a dor da cólica.
Vipāka: produto da digestão. Sabor após a Viṣaghna: antialérgico.
digestão. Fim e feito de uma substância que Vṛddhi: aumento, aumentado.
vem a ser digerida. Vṛṣya: aumenta śukra, virilidade, vigor
Vīrya: potência. sexual.
Viśada: clareza, não viscoso .