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GARAPON, Antoine. Bem julgar : ensaio sobre o ritual judiciário.

Existem vários tipos de actores do ritual judiciário. Em primeiro lugar, temos os


celebrantes, que formam um corpo e ocupam o seu lugar no interior do espaço
delimitado pela cancella. Por outro lado , temos o público, que age e reage
enquanto massa. Entre estes, o acusado distingue-se pela sua solidão.

Os celebrantes

São todos aqueles que ostentam a toga judiciária ou um outro uniforme. Estão
assim vestidos porque são,antes de mais, depositários de uma função. O traje
ritual faz daqueles que o vestem representantes. O representante não age em
seu próprio nome, apenas oficialmente. Ele cumpre e assegura uma função.

As profissões judiciárias organizam-se em corpos ou em ordens. O corpo


constitui-se a partir de um conjunto de ritos, distintos do ritual judiciário
propriamente dito, que habilitam os seus membros a falar em seu nome.

A constituição em corpo

Qualquer carreira judiciária começa com a prestação do juramento, pela qual


os jovens profissionais envergam a toga pela primeira vez. A prestação de
juramento é sempre uma audiência solene, o que significa que os juízes
vestem , para a ocasião, o respectivo traje de cerimônia. A analogia com a vida
religiosa é deveras marcante: tanto uma como outra se iniciam mediante uma
investidura, na verdadeira acepção do termo. O hábito cria um homem novo no
decurso de uma verdadeira iniciação.

Da mesma maneira que se atribui ao monge um nome de professo, o


magistrado, quando no exercício das suas funções, nunca é chamado senão
pelo respectivo título.

Ao contrário dos magistrados com assento no tribunal, os membros do


Ministério Público são intermutáveis: só actuam judicialmente enquanto
representantes anônimos da sociedade.

A repartição por papéis


Ao mesmo tempo que cobre todos os actores com um traje idêntico, o ritual
atribui-lhe papéis diferentes : o de acusar é reservado ao procurador, o de
defender cabe ao advogado de defesa e o de julgar é confiado ao juiz. No
processo civil, o triangulo é composto pelo queixoso, pelo arguido e pelo juiz.

A figura do procurador é terrível. É ele que dispõe da força pública.


Surpreende, detém, submete ao tribunal e acusa. Cabe a ele a iniciativa do
processo. É ele que cria a ruptura com a vida quotidiana. Vincula as pessoas,
tanto em sentido próprio como em sentido figurado, clamando por vingança.

Ao invés, a imagem do juiz do tribunal é mais serena. Só intervém quando isso


lhe é solicitado e deve situar-se entre as partes, acima da confusão, ao
contrário do procurador, que desce à arena. É uma personagem refletida, que
ouve, aconselha, delibera e necessita de ter o seu tempo. A sua ação é mais
ponderada que a do procurador. Um procede judicialmente, o outro põe fim ao
litígio proferindo uma decisão. Um cerca o mal, o outro procura o equilíbrio
entre o individuo e a sociedade, entre o acusado e a sua vítima. O juiz decide,
o procurador executa; o juiz delibera, o procurador age; o procurador aponta
um individuo e separa-o do resto do grupo, o juiz procura reintegrá-lo. O
procurador permite a efetividade da lei suscitando as decisões do juiz. O juiz
confere legitimidade às iniciativas do procurador. O procurador executa as
decisões do juiz. Em suma, juízes e procuradores têm papéis complementares.

Esses papéis, que são fruto tanto de representações coletivas como do


estatuto, são evolutivos. Nos dias de hoje, o procurador surge como um
magistrado que emite um parecer público sobre um caso, propondo a solução
que tomaria se tivesse assento no tribunal. O Ministério Público tornou-se
centro da politica penal descentralizada, fato que é comprovado pela politica
municipal atual. Nas casas da justiça, conduz a audiência, o que não é do
agrado de todos os juízes do tribunal. Reciprocamente, o juiz do tribunal tem
cada vez mais iniciativa no processo: coloca questões, toma parte ativa no
debate e procura transmitir a imagem de um homem de ação preocupado com
a eficácia.

O advogado conhece uma tensão quando inserido no seu papel. Os advogados


são apanhados num conflito de lealdade entre, por um lado, a sua origem
social e a sua formação jurídica e por outro lado, os seus deveres para com os
arguidos. A sua atitude variará em função da frequência com que é chamado a
argumentar perante a juridição.

A figura do terceiro

Não basta a existência dos presentes perante a justiça para que haja direito. É
necessária a presença de um terceiro imparcial e desinteressado. E podemos
mesmo afirmar que a especificidade do direito reside precisamente na
presença desse terceiro. É preciso analisar a pessoa desse terceiro para
entender o fenômeno jurídico. Só um terceiro, isto é, uma personagem que não
o chega a ser totalmente, pode promover o diálogo tornando os parceiros
iguais por estarem equidistantes de si.

* Para triangular as relações sociais, o juiz deve situar-se à margem do mundo.


Ele só pode ordenar as relações desse mundo assinalando, simultaneamente,
o seu distanciamento em relação ao mesmo. (GARAPON, p. 102).

- A única condição decisiva, o mínimo necessário à instituição de uma ordem


de justiça, é a de que a função arbitral do terceiro seja representada enquanto
tal e a de que ela não se confunda com o ator, ou seja, o órgão, que a
desempenha. Sem isso,esse ator acabaria por ser pura e simplesmente um
parceiro entre os demais. É por essa razão que os protagonistas do processo
são designados por símbolos : o siège (assento) designa o tribunal; o espaço
do Parquet, os membros do Ministério Público e o espaço do barreau os
advogados em geral. O assento do juiz está vazio por necessidade, é o
símbolo puro de uma função.

Quando o ritual desaparece, a intervenção do procurador ou mesmo até a do


advogado de defesa, surge como algo de insólito, tão grande é o afastamento
do universo tradicional do processo.

O acusado

Cada um ocupa o lugar que lhe foi atribuído pelo rito: o presidente no topo do
tribunal, a acusação à direita, a defesa à esquerda, as testemunhas defronte do
tribunal, o público ao fundo, esmagando-se contra uma barreira, e de pé,
dentro do banco dos réus, o herói,soberbamente solitário. (...) um homem só,
posto a nu e ignorante, mas ainda assim uma personagem central.

O ritual exige um certo farisaísmo por parte do acusado. É preciso responder


educadamente às questões do presidente, exprimir-se com moderação e
manifestar permanentemente uma submissão total à ordem ritual. Durante todo
o processo, o seu sangue-frio, a sua engenhosidade, a sua perseverança e sua
resistência serão duramente postos à prova.

O ritual pode assim restaurar a dignidade de um acusado que a perdeu de fato.


Quando o acusado é apresentado pelo dispositivo simbólico no mesmo plano
da vitima, o seu estatuto de membro da comunidade é reafirmado de forma
espetacular. Cada ação racional é a dramatização do seu princípio; o processo
contem uma afinidade muito forte com o teatro ou o ritual. (p. 105).
Os ritos dos processo são transitivos: tanto podem derrotar o acusado como
ridicularizar a acusação, ou atuar a favor da exclusão do arguido preterindo a
sua reintegração simbólica. Tudo isto mais não é do que uma ilusão
suplementar da ambivalência do ritual.

O processo penal tem também um valor de rito de passagem, cuja função é


formalizar a desvalorização do estatuto social do acusado. Enquanto que, aos
olhos do senso comum, é o crime que dá origem ao ritual, poder-se-ia afirmar
que, pelo contrário, é o ritual judiciário que constrói a figura do acusado. Ao
mesmo tempo que é presumido inocente até ao anúncio da sentença, o
acusado é, logo à partida, apontado como culpado pelo ritual, que debilita a
sua defesa. Como se a instituição, em sentido contrário às suas intenções
declaradas, segregasse indivíduos da forma como os encara, ou seja,
presumindo-os culpados.

O espetáculo do ritual judiciário espera do espectador uma dupla ratificação: a


confirmação dos valores da ordem jurídica e a adesão à escolha feita pela
justiça de deter e trazer perante a justiça essas pessoas. Esta construção do
objeto por parte do ritual penal não é puro sadismo, encontrando antes a sua
justificação no mecanismo sacrificial presente durante todo o processo penal. O
ritual judiciário deve apresentar ao público uma boa vitima que não se revolte e
cuja falta encubra todas as trocas simbólicas feitas à sua custa. O acusado crê
que este processo é o seu: engana-se. É como que trapaceado num drama
que, no entanto, lhe diz respeito. A forma como os acontecimentos se vão
encadeando construí, para ele, um espetáculo irreal.

O público

A presença do público dá uma certa dimensão às audiências. O diálogo entre o


acusado e as principais personagens do drama judiciário torna-se ainda mais
difícil, em virtude da presença de jornalistas e do publico, os quais acrescentam
à atmosfera da audiência, já de si propícia a mal-entendidos, a pressão afetiva
e ilógica de uma consciência coletiva.

Em principio, os processos são debatidos de dia, sem mistérios, sendo a


opinião pública tida como testemunha coletiva do respeito pelas formas, da
imparcialidade dos juízes e da devida condução dos debates, resumindo, da
regularidade do ritual.

O DISCURSO JUDICIÁRIO