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Projetos de Pesquisa em

Contextos Específicos
Autoras: Profa. Silmara Cristina Ramos Quintana
Profa. Carla da Silva
Colaboradoras: Profa. Amarilis Tudela Nanias
Profa. Maria Francisca S. Vignoli
Professoras conteudistas: Silmara Cristina Ramos Quintana/Carla da Silva

Silmara Cristina Ramos Quintana

Mestrado em Adolescentes em Conflito com a Lei pela Universidade Bandeirantes de São Paulo – Uniban (2010). Especialização em
Psiquiatria e Psicologia de Adolescentes pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp (1989), Orientação e Encaminhamento ao Mundo do
Trabalho pelo Centro Brasileiro para Infância e Juventude – CBIA (1994) e Psicodrama Pedagógico pela Animus (1997). Assistente social graduada
pela Faculdade de Serviço Social de Araraquara (1983). Atua desde 2001 como assistente social no Centro de Orientação ao Adolescente de
Campinas – Comec. Docente e coordenadora do curso de Serviço Social no Centro Universitário Amparense – Unifia. Coordenadora do curso de
pós‑graduação em Gestão de Políticas Públicas e professora‑adjunta do curso de graduação em Serviço Social da Universidade Paulista – UNIP
Interativa, campus Cidade Universitária. Auxiliar de coordenação e docente do curso de Serviço Social da UNIP – campus Swift/Campinas.

Partindo de sua vinculação à Unip, enquanto coordenadora do Curso de pós‑graduação, emergiu a oportunidade de seu atrelamento
também ao curso de graduação de Serviço Social nas modalidades SEI e SEPI, prestadas pela Unip Interativa, ministrando aulas de diversas
disciplinas nessa modalidade de ensino. O vínculo com essa universidade também lhe possibilitou a elaboração de livros‑textos, inclusive este.

Carla da Silva

Mestrado em Serviço Social pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo – PUC‑SP (2011). Especialização/aprimoramento
em Serviço Social, Saúde e Violência Urbana pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp (2007). Graduação em Serviço
Social pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas –PUC Campinas (2005). Curso de extensão universitária em Psicoterapia
Analítica de Grupo, Casal e Família pela Sociedade de Psicoterapia Analítica de Grupo de Campinas – Spag, (2005). Pesquisadora
do Projeto Unicamp – SOS Ação Mulher e Família, financiado pelo CNPq (2008‑2010).

Assistente social com experiência no atendimento direto e indireto a pacientes e familiares vítimas de violência urbana no
Hospital de Clinicas – HC da Unicamp (2005‑2006). Atuou em instituição de acolhimento na Casa da Criança e do Adolescente de
Valinhos (2007‑2009). Participou da equipe interdisciplinar da ONG SOS Ação Mulher e Família, no atendimento direto a mulheres
vítimas de violência doméstica e respectivas famílias (2008‑2012). Assistente social do Centro de Referência e Apoio à Vítima – CRAVI/
Campinas, Programa da Secretaria da Justiça e da Defesa da Cidadania do Estado de São Paulo (2012). Ministra aulas na pós‑graduação
em Psicopedagogia Clínica e Institucional do Centro Universitário Amparense – Unifia (desde 2010). Exerceu a docência na Faculdade
de Serviço Social do Instituto Superior de Ciências Aplicadas – Isca – Limeira (2011‑2013).

Atualmente exerce a docência na Faculdade de Serviço Social do Centro Universitário Amparense – Unifia e na Universidade
Paulista – UNIP, campus Swift/Campinas, além de atuar como pesquisadora nas áreas de gênero e violência doméstica e urbana.
Trabalha também como assistente social do Centro Corsini, em nível ambulatorial, no atendimento e na prevenção de DST/AIDS.

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)

Q7p Quintana, Silmara Cristina Ramos.

Projetos de pesquisa em contextos específicos / Silmara Cristina


Ramos Quintana, Carla da Silva. - São Paulo: Editora Sol, 2014.
144 p., il.

Nota: este volume está publicado nos Cadernos de Estudos e


Pesquisas da UNIP, Série Didática, ano XIX, n. 2-029/14, ISSN 1517-9230.

1. Projetos de pesquisa. 2. Pré-projeto. 3. Procedimentos.


I. Título.

CDU 001.8

© Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra pode ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou
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Vice-Reitora de Graduação

Unip Interativa – EaD

Profa. Elisabete Brihy


Prof. Marcelo Souza
Prof. Dr. Luiz Felipe Scabar
Prof. Ivan Daliberto Frugoli

Material Didático – EaD

Comissão editorial:
Dra. Angélica L. Carlini (UNIP)
Dra. Divane Alves da Silva (UNIP)
Dr. Ivan Dias da Motta (CESUMAR)
Dra. Kátia Mosorov Alonso (UFMT)
Dra. Valéria de Carvalho (UNIP)

Apoio:
Profa. Cláudia Regina Baptista – EaD
Profa. Betisa Malaman – Comissão de Qualificação e Avaliação de Cursos

Projeto gráfico:
Prof. Alexandre Ponzetto

Revisão:
Juliana Maria Mendes
Luanne Batista
Sumário
Projetos de Pesquisa em Contextos Específicos

APRESENTAÇÃO.......................................................................................................................................................7
INTRODUÇÃO............................................................................................................................................................7

Unidade I
1 LEVANTAMENTO DOS TEMAS E DA LITERATURA QUE CIRCUNSCREVE O ASSUNTO
DA PESQUISA......................................................................................................................................................... 19
1.1 Levantamento dos temas de interesse dos alunos.................................................................. 27
1.1.1 Crianças....................................................................................................................................................... 27
1.1.2 Adolescentes.............................................................................................................................................. 28
1.1.3 Pessoas idosas........................................................................................................................................... 29
1.1.4 Pessoas com deficiência........................................................................................................................ 29
1.1.5 Família.......................................................................................................................................................... 29
1.1.6 Políticas públicas sociais....................................................................................................................... 29
1.1.7 Programas de governo........................................................................................................................... 30
1.1.8 Políticas públicas de educação........................................................................................................... 30
1.1.9 Políticas públicas de saúde.................................................................................................................. 31
1.1.10 Políticas públicas de assistência social......................................................................................... 31
1.1.11 Políticas públicas de habitação........................................................................................................ 32
1.1.12 Temas estruturantes............................................................................................................................. 33
1.1.13 Sistema de garantia de direitos....................................................................................................... 35
1.2 Levantamento de literatura que circunscreve o assunto de cada pesquisa................. 40
1.2.1 Escolha do tema....................................................................................................................................... 42
1.2.2 Elaboração do plano de trabalho...................................................................................................... 43
1.2.3 Estrutura...................................................................................................................................................... 43
2 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA E DO OBJETO DA PESQUISA............................................................ 47
2.1 Delimitação do problema da pesquisa......................................................................................... 47
2.2 Delimitação do objeto de pesquisa................................................................................................ 51
3 RELEVÂNCIA DA PESQUISA: SOCIAL, TÉCNICA E CIENTÍFICA......................................................... 52
4 ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES PARA O PRÉ‑PROJETO............................................................................ 55
4.1 Definição dos objetivos da pesquisa............................................................................................. 55
4.2 O marco teórico conceitual da pesquisa..................................................................................... 56
4.3 Formulação de hipóteses................................................................................................................... 60
Unidade II
5 A METODOLOGIA DA PESQUISA................................................................................................................. 67
5.1 Delimitação da metodologia da pesquisa................................................................................... 67
5.2 O campo da pesquisa e o trabalho de campo........................................................................... 73
5.3 Abordagem da pesquisa..................................................................................................................... 74
5.3.1 Pesquisa quantitativa............................................................................................................................. 74
5.3.2 Pesquisa qualitativa................................................................................................................................ 77
5.3.3 Comparações entre as abordagens: quantitativa e qualitativa............................................ 81
5.4 Tipos de pesquisa................................................................................................................................... 83
5.4.1 Pesquisa exploratória............................................................................................................................. 83
5.4.2 Pesquisa descritiva.................................................................................................................................. 84
5.4.3 Pesquisa explicativa................................................................................................................................ 85
6 PROCEDIMENTOS PARA A PESQUISA....................................................................................................... 85
6.1 Pesquisa bibliográfica.......................................................................................................................... 85
6.2 Pesquisa documental........................................................................................................................... 88
6.3 Pesquisa de laboratório....................................................................................................................... 89
6.4 Pesquisa de levantamento................................................................................................................. 89
6.5 Pesquisa de campo............................................................................................................................... 91
6.6 Estudo de caso........................................................................................................................................ 92
6.7 Pesquisa‑ação......................................................................................................................................... 93
6.8 História de vida...................................................................................................................................... 94
6.8.1 Biografia...................................................................................................................................................... 95
6.8.2 Autobiografia............................................................................................................................................. 95
6.8.3 Depoimento............................................................................................................................................... 96
6.9 Coleta de dados..................................................................................................................................... 97
6.10 Instrumentos de coleta de dados...............................................................................................100
6.10.1 Questionário..........................................................................................................................................100
6.10.2 Entrevista................................................................................................................................................105
6.10.3 Observação.............................................................................................................................................106
7 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS DADOS.............................................................................................115
7.1 Categorias de análise.........................................................................................................................116
7.2 Preparação dos dados........................................................................................................................117
7.3 Análise......................................................................................................................................................118
7.4 Considerações finais ou conclusões............................................................................................120
8 QUALIFICAÇÃO DO PRÉ‑PROJETO DE PESQUISA...............................................................................120
8.1 Revisão do pré‑projeto de pesquisa............................................................................................120
8.2 Entrega do projeto de pesquisa.....................................................................................................122
8.3 Entrega do relatório de pesquisa..................................................................................................125
APRESENTAÇÃO

O presente livro‑texto buscará construir com o aluno a investigação, como dimensão constitutiva
do trabalho do assistente social – subsídio para a produção do conhecimento sobre processos sociais –,
e como fortalecimento do objeto da ação profissional.

Para tanto, abordará a pesquisa como espaço para o exercício da práxis profissional, contando com
a articulação entre o conhecimento teórico‑metodológico e o técnico‑operativo na compreensão da
realidade social, com vistas à produção do conhecimento científico.

Vamos pensar juntos na concepção, elaboração e realização de seu projeto de pesquisa, como
exigência curricular para a graduação em Serviço Social, lembrando sempre que esse poderá ser o
primeiro de muitos projetos de pesquisa na sua trajetória profissional.

Assim, por agora, teremos como objetivos: problematizar a investigação como dimensão constitutiva
do trabalho do assistente social, como subsídio para a produção do conhecimento sobre processos
sociais e como reconstrução do objeto da ação profissional; fortalecer em você, aluno, uma atitude
investigativa diante da realidade social; compreender e discutir a natureza, o método e o processo de
construção de conhecimento, bem como o debate teórico‑metodológico na área de Serviço Social.

Esses objetivos serão alcançados a partir de uma discussão aprofundada sobre o olhar estabelecido
pelo aluno para com a realidade social, por meio de experimentação, com a Teoria da Pesquisa Social,
que se fortalece e instrumentaliza por meio da inclusão no estágio, espaço privilegiado de investigação
e elaboração do conhecimento teórico, que é agregado à vivência técnico‑operativa. Nesse espaço, a
experiência gera a análise e o confronto das teorias, estimulando a investigação, donde nasce um novo
saber‑fazer teórico e prático. Maria Liduína Silva (2011) afirma que o pesquisador tem possibilidade
de interpretar e transformar a realidade, estabelecendo‑se assim o método dialético.

Na lógica de se estimular a concretização da pesquisa social, em que se estabeleça a práxis


profissional do Serviço Social, partiremos para o desenho do modelo de projeto de pesquisa, organizando
o pensamento e delineando os caminhos a serem traçados. Para tal, cumpriremos os seguintes objetivos
específicos: escolher e delimitar o objeto de estudo, contando com a orientação e o acompanhamento
do professor; elaborar o pré‑projeto de pesquisa e apresentá‑lo a uma banca examinadora, com vistas a
qualificá‑lo para desenvolver o Trabalho de Conclusão de Curso (TCC).

Se de um lado estão os métodos que nos indicam os caminhos da práxis profissional, de outro,
simultaneamente, existe a necessidade de saber registrar os achados de pesquisa. Para ter um
ordenamento, deveremos planejar um caminho para a pesquisa e seu registro, nascendo assim o projeto
de pesquisa.

INTRODUÇÃO

Ao longo do curso de Serviço Social, que já dura dois anos, você, aluno, teve de estabelecer critérios
de tempo, disponibilidade emocional e aprendizado para sua formação profissional.
7
Não tem sido fácil, com certeza. Afinal, temos de fazer escolhas e, com isso, deixamos para outro
momento atividades que nos são importantes e prazerosas.

Agora temos um novo desafio para você. Não basta desejar, “arrumar um tempinho”. Será necessário
muito mais: chegou o tempo de intensificar essa dedicação, a fim de ter uma produção científica.

Aqui, teremos o objetivo de desconstruir o medo de escrever e buscar sua criatividade de expressar
tudo aquilo que vem vivenciando durante as aulas, as leituras, os estudos e o estágio.

Outro desafio importante é saber que o projeto de pesquisa poderá ser elaborado com outras
pessoas; para que isso se traduza em avanço e crescimento, você precisará identificar características
convergentes e divergentes para os participantes se complementarem, pois vão trabalhar durante
dois anos: juntos, iniciarão o projeto, realizarão a pesquisa e elaborarão o relatório da pesquisa – TCC
(Trabalho de Conclusão de Curso).

Perceba que estamos falando de um tempo longo e que precisa ser planejado de forma que alinhe
todas as demandas (pessoais, familiares, profissionais e de estudo e pesquisa).

Precisamos estar bem próximos, a fim de que, à medida que formularmos o conhecimento teórico
sobre projetos, identifiquemos os caminhos a serem trilhados.

Expostas essas nossas demandas relacionais, vamos abordar alguns conceitos importantes para a
nossa tarefa.

A pesquisa social tem um cunho científico, portanto gera conhecimento, ou seja, seu trabalho não
pode ser considerado algo isolado: pelo contrário, deverá ter a função de construir conhecimento.

Assim, buscaremos na Antropologia a preocupação do Homo sapiens com o conhecimento da


realidade (MINAYO 2008 apud VOGEL, 2011).

Minayo (2008 apud VOGEL, 2011) reporta‑se às tribos primitivas, que explicavam a vida e a morte e
suas relações individuais e sociais com mitos.

Historicamente, tivemos as religiões como impulsionadoras da chamada moral para deliberar sobre as
relações individuais, sociais e espirituais, impetrando poder à ordem de seus superiores, em nome do extranatural.

Simultaneamente, a filosofia teve a responsabilidade de explicar a existência individual e a coletiva,


creditando a si todo o saber, conforme o olhar do filósofo/estudioso.

Também o artista, por meio da sua arte, seja ela escrita, plástica, musical ou interpretativa, teve o
papel de registrar o consciente e o subconsciente das relações humanas/individuais e sociais/coletivas.

Contudo, é a ciência “não exclusiva, não conclusiva, não definitiva” (MYNAIO, 2011, p. 9) que coloca
à prova o conhecimento passado, o presente e o futuro, com sua função investigadora, que delimita
8
o problema, estabelece o foco de atenção, registra suas múltiplas relações e reações com seu entorno
direto e indireto, contudo não o limita; pelo contrário, insere‑o, sempre que pertinente, em novas
reações, a partir de novas variáveis.

Vogel (2011) lembra que “a ciência é permeada por conflitos e contradições”, sendo um dos embates
o existente entre Ciências Sociais e Ciências Naturais. Minayo (2008 apud VOGEL, 2011) considera que,
para alguns autores, existe uma uniformidade: eles indicam que o natural deve se equiparar ao social,
pois somente assim poderá receber o título de ciência. Outros estudiosos, no entanto, defendem que as
diferenças, singularidades e peculiaridades dessas áreas devem prevalecer.

O campo científico possui ao mesmo tempo dois polos: um de unidade, pois


pode existir a semelhança em todas as atividades que partem da ideia do
conhecimento construído por meio de conceitos; e outro de diversidade,
pois o campo da ciência não pode ser reduzido a uma única forma de
conhecer, mas ela contém maneiras diversas de realização (BRUYNE apud
MINAYO, 2011, p. 10).

Vogel (2011) prossegue, afirmando que, diante de inúmeros questionamentos sobre a configuração
das ciências sociais na lógica de conhecimento científico, Minayo propõe a ponderação sobre os
seguintes dilemas: “[...] seguir os caminhos das ciências estabelecidas e empobrecer seu próprio objeto?
Ou encontrar seu núcleo mais profundo, abandonando a ideia de cientificidade?” (MINAYO, 2008, p. 11
apud VOGEL, 2011). Lembra também que, para discutir as Ciências Sociais em sua singularidade, essa
autora utiliza cinco critérios (listados a seguir), que as diferenciam, mas que não as desvinculam dos
princípios da cientificidade:

O primeiro é que o objeto das Ciências Sociais é histórico, ou seja, cada


sociedade humana se constrói de maneira diferente, porém aquelas que
vivenciam o mesmo período histórico têm traços em comum devido à
influência das comunicações, e as sociedades presentes são marcadas pelo
seu passado e constroem o seu futuro.

O segundo é que o objeto das Ciências Sociais possui consciência histórica


[...], não é apenas o investigador que tem capacidade de dar sentido ao
seu trabalho intelectual, mas todos os seres humanos dão sentidos às suas
ações, explicitam suas intenções [...], planejam o seu futuro, portanto o nível
de consciência histórica das Ciências Sociais se refere ao nível de consciência
histórica da sociedade de seu tempo.

O terceiro critério é que nas Ciências Sociais existe uma identidade entre
sujeito e objeto, pois lida com seres humanos, que por seus traços como
classe, faixa etária etc., se aproximam do investigador.

O quarto critério é que as Ciências Sociais são intrínseca e extrinsecamente


ideológicas, pois não existe ciência neutra [..., mas] apresenta[m] uma
9
visão de mundo [que] implica [...] todo o processo de conhecimento, desde
a escolha do objeto, a aplicação e o resultado, e isso ocorre também nas
Ciências Naturais, de forma diferente, mas que aparece quando se escolhem
ou descartam temas, métodos e técnicas.

O último critério é que o objeto das Ciências Sociais é essencialmente


qualitativo, pois elas possuem instrumentos e teorias que permitem a
aproximação da existência dos seres humanos em sociedade, abordando o
conjunto das expressões humanas nas estruturas, processos, representações,
símbolos e significados (MINAYO, 2008, p. 11 apud VOGEL, 2011).

Minayo (2008, p. 14 apud VOGEL, 2011) apresenta o

conceito da metodologia de pesquisa, afirmando que [...] a metodologia


inclui simultaneamente a teoria da abordagem (o método), os instrumentos
de operacionalização do conhecimento (as técnicas) e a criatividade do
pesquisador (sua experiência, sua capacidade pessoal e sua sensibilidade) [...]
metodologia é muito mais que técnicas, mas é a própria articulação entre a
teoria e a realidade dos pensamentos sobre a realidade [...] Minayo (2008, p.
15) prossegue afirmando que, com base em Lenin, para quem “o método é
a alma da teoria”, nada substitui a criatividade do pesquisador, e que tanto
segundo Feyerabend quanto Kuhn, o progresso da ciência ocorre de forma
mais veemente quando as regras são violadas, e não quando são seguidas.
Dilthey (apud MINAYO, 2008) complementa que apesar de precisarmos de
determinados parâmetros para produzirmos conhecimento, assim sendo a
criatividade é passa a ser considerada fundamental (apud VOGEL, 2011).

A pesquisa é uma atividade basilar da ciência, que investiga para construir a realidade. Mesmo
sendo uma prática teórica, vinculada o pensamento à ação. Donde se tem que qualquer pesquisa deve
ser iniciada com uma pergunta ou uma dúvida, que para ser respondida demanda articulação dos
conhecimentos anteriores ou a criação de novos conhecimentos.

Leia a seguir várias definições de pesquisa, dadas por diversos pesquisadores e compiladas por Silva
e Menezes (2001):

Minayo (1993, p. 23), vendo por um prisma mais filosófico, considera


a pesquisa como: “atividade básica das ciências na sua indagação e
descoberta da realidade. É uma atitude e uma prática teórica de constante
busca que define um processo intrinsecamente inacabado e permanente. É
uma atividade de aproximação sucessiva da realidade que nunca se esgota,
fazendo uma combinação particular entre teoria e dados”.

Demo (1996, p. 34) insere a pesquisa como atividade cotidiana considerando‑a


como uma atitude, um “questionamento sistemático crítico e criativo, mais
10
a intervenção competente na realidade, ou o diálogo crítico permanente
com a realidade em sentido teórico e prático”.

Para Gil (1999, p.42), a pesquisa tem um caráter pragmático, é um “processo


formal e sistemático de desenvolvimento do método científico. O objetivo
fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas mediante o
emprego de procedimentos científicos” (apud SILVA e MENEZES, 2001, p. 19).

Nesse contexto, Minayo (2008, p. 17 apud VOGEL, 2011) apresenta a necessidade da teoria, que é

“[...] construída para explicar ou para compreender um fenômeno, um


processo ou um conjunto de fenômenos e processos”, e que tem como
funções esclarecer melhor o objeto de pesquisa, fornece[r] elementos
para questionamentos e o estabelecimento de hipóteses, colabora[r] na
organização dos dados com mais nitidez e guiar a análise [destes] (apud
VOGEL, 2011).

Vogel (2011) considera ainda que:

A teoria pode ser o conhecimento de um determinado assunto construído


cientificamente por outros pesquisadores e que esses subsidiam novas
pesquisas, como por exemplo, as grandes teorias (macroteorias) que são
[propostas] por autores de referência, sendo [...] as quatro principais [...]
o positivismo, o marxismo, a teoria da ação, e o compreensivismo, mas
há [outras] teorias menores, que se baseiam em alguma grande teoria e
especificam a explicação e a interpretação de um fenômeno (VOGEL, 2011).

Entretanto, devemos considerar que surgem problemas que as teorias existentes não abrangem,
ou não são suficientes para esclarecer. Portanto, faz‑se necessária a pesquisa exploratória, na qual é
proposta uma nova interpretação. Nenhuma teoria, por mais bem‑formulada que seja, tem o potencial
de explicar todos os fenômenos e processos (VOGEL, 2011).

Nesse sentido, a teoria se baseia em um conjunto de proposições, que são as hipóteses cujo
referencial está comprovado. Quando elencadas, devem ser claras, possibilitando o fácil entendimento e
trazendo, em sua apresentação, as relações abstratas, para que estas norteiem as questões reais.

Temos ainda os conceitos,

[...] que são os temas mais significativos num discurso científico, são eles
que focalizam e delimitam o tema de estudo e são carregados de sentido, já
que uma mesma palavra pode ter conceitos diferentes em teorias distintas.
Minayo (2008) aponta quatro características do conceito que devem estar
claras para o pesquisador: o conceito tem que ser valorativo (explicitação
da corrente teórica onde os conceitos foram concebidos), pragmático
11
(descrição e interpretação da realidade) e comunicativo (nítidos, inteligíveis,
abrangente e específico ao mesmo tempo). Os três tipos de conceitos são os
teóricos (compõem o discurso da pesquisa), de observação direta (definem
os termos para serem trabalhados em campo ou nas análises documentais),
e de observação indireta (relacionam o contexto da pesquisa com os
conceitos da observação direta). A autora afirma que tanto as teorias como
os conceitos são fundamentais para qualquer pesquisa, porém eles não
podem ser camisas de força (VOGEL, 2011).

Para se iniciar uma pesquisa, é necessário reconhecer as correntes de pensamento existentes para
dialogar com as suas hipóteses e estabelecer critérios para suas escolhas. Para alguns autores, como
Minayo (2007), Demo (1996 apud SILVA e MENEZES, 2001), Severino (2007) e Gil (1997, 2002, 2008), é
necessário reconhecer os métodos de pesquisa para poder identificar qual o mais apropriado à realidade
que se apresenta, ou mesmo considerar o diálogo entre eles, para então iniciar o percurso da elaboração
do conhecimento.

Esse conhecimento científico se estabelece mediante métodos, mas o que são métodos, vejamos
alguns conceitos:

“É um esforço para atingir um fim, investigação, estudo, caminho pelo qual se chega a um determinado
resultado” (LALANDE, 1999, p. 678).

“Método significa uma investigação que segue um modo ou uma maneira planejada e determinada
para conhecer alguma coisa; procedimento racional para o conhecimento seguindo um percurso fixado”
(CHAUÍ apud SILVA, 2011, p. 5)

[...] caminho pelo qual se atinge um objetivo;

estrada, simultaneamente, rumo, discernimento da direção; panorama que


regula várias operações, técnicas;

via de acesso, onde se constrói o conhecimento científico;

como fazer (modo de fazer);

melhor maneira para compreender o objeto, objetivos;

uma abordagem teórico‑metodológica escolhida pelo pesquisador


(conceitual e operacional);

escolha de instrumentos, técnicas de coletas e análise;

é um jogo de quebra‑cabeça (criação/encantamento/revelação).


(SILVA, 2011, p. 5).
12
Assim, verificamos que, para se pensar em construção de conhecimento, precisamos identificar um
caminho a percorrer, em que se estabeleça um ponto de partida, um como sair, como caminhar e
como retornar. Com isso, sabemos da necessidade de ter um método para se investigarem as questões
sociais, objeto do Serviço Social, por exemplo, a violência, a pobreza, a fome, a miséria etc.

Para entender melhor, precisamos reconhecer que a investigação científica depende de um “conjunto
de procedimentos intelectuais e técnicos” para que seus objetivos sejam atingidos: são os métodos
científicos, “conjunto de processos ou operações mentais que se devem empregar na investigação. É a
linha de raciocínio adotada no processo de pesquisa” (GIL, 1999, p. 26 apud SILVA e MENEZES, 2001).

Os métodos que fornecem as bases lógicas da investigação são: dedutivo, indutivo,


hipotético‑dedutivo, dialético e fenomenológico. Para facilitar o entendimento, vamos descrevê‑los
no quadro 1, a seguir:

Quadro 1 – Métodos de investigação

Método Propositores Compreensão


Só a razão é capaz de levar ao conhecimento verdadeiro.
O raciocínio dedutivo tem o objetivo de explicar o
conteúdo das premissas. Por intermédio de uma cadeia
Racionalistas: de raciocínio em ordem descendente, de análise do geral
Dedutivo Descartes, Spinoza e para o particular, chega a uma conclusão. Usa o silogismo,
Leibniz construção lógica para, a partir de duas premissas, retirar
uma terceira logicamente derivada das duas primeiras, a
que se denomina conclusão.
Considera que o conhecimento é fundamentado
na experiência, não levando em conta princípios
Empiristas Bacon, preestabelecidos. No raciocínio indutivo, a generalização
Indutivo Hobbes, Locke e Hume deriva de observações de casos da realidade concreta.
As constatações particulares levam à elaboração de
generalizações.
Quando os conhecimentos disponíveis sobre determinado
assunto são insuficientes para a explicação de um
Hipotético‑dedutivo Popper fenômeno, surge o problema. Para tentar explicar as
dificuldades expressas no problema, são formuladas
conjeturas ou hipóteses.
As contradições se transcendem, dando origem a novas
contradições que passam a requerer solução. É um método
Dialético Hegel, Marx de interpretação dinâmica e totalizante da realidade.
Considera que os fatos não podem ser levados em conta
fora de um contexto social, político, econômico etc.
Não é dedutivo nem indutivo. Preocupa‑se com a descrição
direta da experiência tal como é. A realidade é construída
socialmente e entendida como o compreendido, o
Fenomenológico Husserl interpretado, o comunicado. Portanto, não é única: existirão
tantas realidades quantas forem as suas interpretações
e comunicações. O sujeito/ator é reconhecidamente
importante no processo de construção do conhecimento.
A análise deveria se dar por meio da compreensão do
sentido existente na ação social dos indivíduos movida por
Compreensivista Max Weber valores, e não por determinantes econômicos ou pela força
da sociedade sobre o indivíduo.

Adaptado de: Gil (1999, p. 26 apud SILVA e MENEZES, 2001).

13
Das hipóteses formuladas, deduzem‑se consequências que deverão ser testadas ou falseadas. Falsear
significa tornar falsas as consequências deduzidas das hipóteses. Enquanto no método dedutivo se
procura a todo custo confirmar a hipótese, no método hipotético‑dedutivo procuram‑se evidências
empíricas para derrubá‑la (GIL, 1999, p. 11‑5 apud SILVA e MENEZES, 2001).

Saiba mais

Há diversos sites com informações importantes sobre a vida dos


pensadores que propuseram os métodos de investigação. Para saber mais
sobre cada um, acesse: <www.filosofia.com.br/>.

Entretanto, uma pesquisa não se limita ao método: envolve também sua natureza, que pode ser:

Básica/Pura: objetiva gerar conhecimentos novos úteis para o avanço


da ciência sem aplicação prática prevista. Envolve verdades e interesses
universais.

Aplicada: objetiva gerar conhecimentos para aplicação prática dirigidos à


solução de problemas específicos. Envolve verdades e interesses locais (GIL,
2008, 26‑7).

Do ponto de vista da forma de abordagem do problema, pode ser:

Quantitativa: considera que tudo pode ser quantificável, o que significa


traduzir em números opiniões e informações para classificá‑las e analisá‑las.
Requer o uso de recursos e de técnicas estatísticas (percentagem, média, moda,
mediana, desvio‑padrão, coeficiente de correlação, análise de regressão etc.).

Qualitativa: considera que há uma relação dinâmica entre o mundo


real e o sujeito, isto é, um vínculo indissociável entre o mundo objetivo
e a subjetividade do sujeito que não pode ser traduzido em números. A
interpretação dos fenômenos e a atribuição de significados são básicas no
processo de pesquisa qualitativa. Não requer o uso de métodos e técnicas
estatísticas. O ambiente natural é a fonte direta para coleta de dados e o
pesquisador é o instrumento‑chave. É descritiva. Os pesquisadores tendem a
analisar seus dados indutivamente. O processo e seu significado são os focos
principais de abordagem (MYNAIO, 2007, p. 26).

Do ponto de vista de seus objetivos (GIL, 2008) pode ser:

Exploratória: visa proporcionar maior familiaridade com o problema com


vistas a torná‑lo explícito ou a construir hipóteses. Envolve levantamento

14
bibliográfico; entrevistas com pessoas que tiveram experiências práticas com
o problema pesquisado; análise de exemplos que estimulem a compreensão.
Assume, em geral, as formas de Pesquisas Bibliográficas e Estudos de Caso.

Descritiva: visa descrever as características de determinada população ou


fenômeno, ou o estabelecimento de relações entre variáveis. Envolve o uso
de técnicas padronizadas de coleta de dados: questionário e observação
sistemática. Assume, em geral, a forma de Levantamento.

Explicativa: visa identificar os fatores que determinam ou contribuem


para a ocorrência dos fenômenos. Aprofunda o conhecimento da realidade
porque explica a razão, o “porquê” das coisas. Quando realizada nas Ciências
Naturais, requer o uso do método experimental, e nas Ciências Sociais requer
o uso do método observacional. Assume, em geral, as formas de Pesquisa
Experimental e Pesquisa Expost‑Facto (GIL, 2008, p. 27‑8).

Do ponto de vista dos procedimentos técnicos (SEVERINO, 2007), pode ser:

Bibliográfica: quando elaborada a partir de material já publicado,


constituído principalmente de livros, artigos de periódicos e atualmente
com material disponibilizado na Internet.

Documental: quando elaborada a partir de materiais que não receberam


tratamento analítico.

Experimental: quando se determina um objeto de estudo, selecionam‑se


as variáveis que seriam capazes de influenciá‑lo, definem‑se as formas de
controle e de observação dos efeitos que a variável produz no objeto.

Levantamento: quando a pesquisa envolve a interrogação direta das


pessoas cujo comportamento se deseja conhecer.

Estudo de caso: quando envolve o estudo profundo e exaustivo de um ou poucos


objetos de maneira que se permita o seu amplo e detalhado conhecimento.

Expost‑Facto: quando o “experimento” se realiza depois dos fatos.

Pesquisa‑Ação: quando concebida e realizada em estreita associação com


uma ação ou com a resolução de um problema coletivo. Os pesquisadores e
participantes representativos da situação ou do problema estão envolvidos
de modo cooperativo ou participativo.

Pesquisa Participante: quando se desenvolve a partir da interação entre


pesquisadores e membros das situações investigadas (SEVERINO, 2007, p. 120‑4).
15
Observação

Uma pesquisa que requeira participação do pesquisador merece atenção


redobrada, para que os dados sejam fidedignos e tenham credibilidade
científica. Corre‑se o risco de comprometer os resultados, portanto é
necessário ter clareza de que, mesmo com lisura e ética, o processo contará
com essa participação, que nunca será neutra.

Retomando, não podemos acreditar que uma pesquisa seja a finalização de um saber. Pelo contrário:
no campo da pesquisa social, ela poderá indicar novos caminhos de intervenção, considerando
que, em Ciências Sociais, o movimento é constante, cíclico e espiral, demandando continuidade na
investigação. Contudo, somente a partir do reconhecimento das histórias de vida e, simultaneamente,
das histórias sociais é que teremos a identificação do lócus da política que agrega ou desagrega as
relações sociais.

Assim, estabelecemos aqui as dimensões da profissão de assistente social para os conhecimentos


fundantes (econômico‑sociais, políticos e ideoculturais) e interventivos. Em relação a esse tema, Guerra
(1998) esclarece:

O que chamamos de dicotomia teoria/prática, em muitos casos, tem sido


resultado do desprezo pela teoria, por parte dos praticistas, e do descaso pela
intervenção sobre variáveis empíricas que produz uma alteração no contexto
social, por parte dos teoricistas, o que conduz à ruptura da unidade (que não
significa identidade) teoria/prática que se materializa na práxis, enquanto
ação consciente, transformadora e autotransformadora. O menosprezo
por um dos polos da relação leva, de um lado, à aceitação, em última
instância, do papel determinante da teoria em detrimento das atividades
prático‑materiais, ou o seu inverso: a prévia determinação de instrumentos
e técnicas a serem utilizados na intervenção e, consequentemente, a pauta
do “como fazer” (GUERRA, 1998, p. 6).

Lembrete

Dicotomia mostra uma situação com dois pontos de vista alternativos,


que nem sempre são excludentes, podendo ser complementares.

Assim, estabelece‑se o compromisso com o Projeto Ético‑Político (PEP) do Serviço Social. Conforme
afirma Guerra (1998), é necessário haver

[...] reflexão sobre a existência ou não de novos processos de produção do


conhecimento. Como afirmamos, a produção do conhecimento está assentada

16
em pressupostos teórico‑metodológicos, na base dos quais localizam‑se princípios
e fundamentos filosóficos e ético‑políticos. Em outras palavras, em determinadas
concepções de Razão e de História. Esta relação entre teorias sociais e referências
filosóficas é uma relação necessária e se expressa em várias dimensões, sendo o
método a dimensão mais determinante desta relação (GUERRA, 1998 p. 9).

Entretanto, considerando que para sistematizar conhecimento é necessário método, o qual


estabelece organicidade entre os fundamentos filosóficos e os pressupostos ético‑políticos para a
análise dos objetos sociais, ao olharmos para métodos ou matrizes clássicos, não conseguimos enxergar
possibilidade de diálogo, tendo em vista que:

[...] o método estabelece uma determinada relação, necessária e constituinte,


entre sujeito e objeto do conhecimento, podemos considerar que há entre
eles três tipos de relação: a que atribui a prioridade do objeto sobre o
sujeito (positivismo), a que prioriza o sujeito sobre o objeto (historicismo ou
método compreensivo) e a que propõe a necessária autoimplicação entre
sujeito e objeto (marxismo). Ainda que os objetos sociais, os fenômenos,
processos e práticas sociais se modifiquem, os métodos de conhecimento
sobre o social permanecem vinculados a uma das três formas de relação
sujeito‑objeto mencionadas. Estas três grandes matrizes metodológicas
do nosso tempo possuem seus matizes (pense‑se nas diferenças entre o
estrutural‑funcionalismo de Parsons e o historicismo‑relativismo de Karl
Manheimm, em que pese ambas permanecerem no nível da imediaticidade
dos fenômenos sociais) e desdobram‑se em teorias setoriais (recorde‑se das
teorias da ação social) (GUERRA, 2010 p. 11).

Pesquisa científica é a concretização de uma investigação planejada, desenvolvida a partir de normas


consagradas pela metodologia científica.

Metodologia científica é entendida como conjunto de etapas ordenadamente dispostas que você,
pesquisador, precisa vencer na investigação de um fenômeno. Compreende a escolha do tema, o
planejamento da investigação, o desenvolvimento metodológico, a coleta e a tabulação de dados, a
análise dos resultados, a elaboração das conclusões e a divulgação de resultados.

Os tipos de pesquisa apresentados nas diversas classificações não são estanques. Uma mesma
pesquisa pode estar, ao mesmo tempo, enquadrada em várias classificações, desde que obedeça aos
requisitos inerentes a cada tipo.

Realizar uma pesquisa com rigor científico pressupõe que você escolha um tema e defina um
problema para ser investigado, elabore um plano de trabalho e, após a execução operacional desse plano,
escreva um relatório final e este seja apresentado de forma planejada, ordenada, lógica e conclusiva.

Assim, a partir de agora, vamos esquematizar um tema, para juntos trabalharmos nas etapas
metodológicas da pesquisa social, concretizando‑a com a elaboração do projeto de pesquisa.
17
Unidade I

Vamos contar com o seu comprometimento ético‑político, teórico‑metodológico e técnico‑operativo,


que vem permeando sua formação acadêmica, acrescido de muita criatividade em todas as etapas,
desde a elaboração do projeto de pesquisa, passando pela construção teórica do tema, pela pesquisa de
campo e pela análise dos dados, até chegar ao relatório.

18
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Unidade I
Construção do pré‑projeto de pesquisa em Serviço Social

1 LEVANTAMENTO DOS TEMAS E DA LITERATURA QUE CIRCUNSCREVE O


ASSUNTO DA PESQUISA

Precisamos deixar claro que o ato de pesquisar não se limita a este momento da graduação em Serviço
Social ou de qualquer outra graduação. Pesquisar é investigar, inquirir, buscar, reconhecer, olhar, escutar,
aprofundar a realidade social e, consequentemente, as relações entre os sujeitos, reconhecendo a singularidade
dos indivíduos no tecido social e suas relações interpessoais e sociais, no momento atual e na sua história de
vida permeada e inserida em sua referência histórica, cultural, econômica e política, individual e coletivamente.

Com esse olhar singular, devemos estar inseridos no campo profissional. Nesse momento, você
vivencia o estágio curricular, deparando‑se com a realidade social, mas, muitas vezes, sente dificuldade
de identificar em que aspectos a ética, a política, a teoria e a metodologia podem ser inseridas.

Essa dúvida não é apenas sua, mas também da maioria dos graduandos e – podemos dizer – de
alguns profissionais. Tal sensação é o que Guerra (2010) conceitua como dicotomia teoria/prática e
não pode ser desconsiderada; pelo contrário, precisamos enfrentá‑la para consolidarmos efetivamente
nossa profissão e o compromisso com o Projeto Ético‑Político de Serviço Social.

Assim, retomamos a demanda pelo reconhecimento da realidade social, que se dá, pedagogicamente,
em quatro momentos:

• experimentar o espaço profissional, ou seja, entrar e atuar no campo profissional com todo o
referencial técnico‑operativo;

• identificar as relações de força entre os sujeitos sociais e as instituições de poder (Estado e demais
instituições), com seu referencial ético‑político, procurando ler e refletir sobre essas relações;

• investigar as formas de exclusão geradas nos chamados processos de inclusão, escutando o que
reverbera dessa relação de forças nos sujeitos sociais e em sua relação social, política, cultural e
econômica, balizando‑se por seu referencial teórico‑metodológico;

• a partir da investigação e de sua análise, percorrer as novas possibilidades de conhecimento,


intervindo na realidade e oferecendo espaço de empoderamento dos sujeitos sociais para traçarem
novos caminhos, sendo esse o momento de deparar‑se com sua práxis profissional, que, conforme
indica o Projeto Ético‑Político, utilizará instrumentos e técnicas para desvelar e transformar o
projeto societário vigente.
19
Unidade I

Usando técnicas de articulação e mediação, nasce o Projeto de Intervenção Profissional,


não voltado para um fazer por si só, como profissionais fazedores e cumpridores de demandas
burocráticas e mantenedoras do projeto societário de poder, mas para a busca incessante de desafios,
na lógica da hegemonia de um projeto profissional que possibilite a libertação dos indivíduos e da
coletividade.

Escrever ou ler isso parece muito fácil, mas sabemos que não é, pois nessa perspectiva encaramos
os conflitos e as contradições de nossa atuação. Contudo, temos de ser honestos e reconhecer que
a simples e complexa ação de viver nos remete ao contraditório, e a vivência profissional nos
instiga a romper com a hegemonia do poder institucional, articulando e potencializando novas
formas de relação.

Para tal, não podemos nos tornar simples executores de projetos político‑partidários, apresentados
como políticas públicas, mas estabelecidos por um Estado que os utiliza como questionadores e
investigadores destas.

Assim, diante dos instrumentos, das técnicas e das estratégias do Serviço Social, precisamos manter
uma postura crítica, ética e política, não aceitando a manipulação que nos é imposta a todo tempo. A
respeito disso, Guerra (2010) aponta:

[...] implica na aceitação passiva de informações que nos chegam pelo cotidiano,
pela necessidade de sobrevivência, de reprodução da existência. A este nível do
conhecimento chamaremos de entendimento. O entendimento se localiza ao
nível dos fenômenos, da epiderme do real. É um processo de reconhecimento
que se traduz em imagens que são representações mais ou menos vividas da
aparência do real, que nos permite identificarmos as coisas pela sua aparência,
de modo imediato. Ele possibilita distinguir as coisas, determiná‑las, compará‑las,
classificá‑las a partir da sua imagem, da aparência, da forma. Para tanto, os sujeitos
acionam o nível do intelecto. Assim, “o entendimento é posto como um modo
operativo da razão, que não critica os conteúdos dos materiais sobre que incide”
(NETTO, 1994, p. 29). Nesse nível predomina a racionalidade formal‑abstrata. Esta,
porque realiza suas operações de análise e síntese sobre as bases da positividade do
mundo, “esgota‑se e reduz a racionalidade aos comportamentos manipuladores
do sujeito em face do mundo objetivo” (NETTO, idem, ibidem) (GUERRA, 2010, p. 2).

Diante das demandas impostas pelo social, na qualidade de profissionais, urge avançarmos em nossos
conhecimentos, encarando as contradições e buscando soluções, como nos inspira Guerra (2010):

O conhecimento resultante dos procedimentos da razão dialética vai além


da apreensão da imediaticidade da vida cotidiana. Ele busca captar a
processualidade contraditória de seus objetos e visa à refiguração, ao nível
do pensamento, do seu movimento. O conhecimento se organiza mediante
conceitos. Estes são sínteses mentais dos nossos esforços em compreender
o real e de nos comportarmos adequadamente frente a ele. Os conceitos
20
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

nos permitem compreender a lógica de constituição dos processos sociais.


Daí que o conhecimento não é apenas um dado imediato da sociedade, já
que nela imperam modos de pensar próprios à manutenção e reprodução
ideológica dessa ordem social (GUERRA, 2010, p. 3).

Lembrete

O que é imediaticidade na prática profissional do assistente social?

Buscar a resolução de uma situação‑problema sem uma prévia análise


crítica, identificando que o fazer profissional só é competente quando
busca a resolutividade prontamente.

Cabe, portanto, ao profissional estar atento ao movimento societário imposto e desvelá‑lo, fazendo
o mesmo com seu papel como profissional e sujeito desse tecido social, pois exercemos dupla função:
somos trabalhadores e profissionais, inseridos na mesma textura manipulada historicamente pela classe
dominante, conforme nos apontam Marx e Engels (1989 apud GUERRA, 2010, p. 4):

[...] diferentemente do conhecimento sobre a natureza, o conhecimento do


social encontra‑se intrinsecamente relacionado com o para que, com as
finalidades, com a postura teleológica do sujeito, com valores e pressupostos
ético‑políticos e ideoculturais, donde a verdade é auferida não em termos
de experimentação e controle, ou mesmo de adequação do objeto ao
pensamento e vice‑versa, mas pela prática sócio‑histórica de homens reais
e concretos.

Diante disso, como agir?

Verifica‑se que a atuação profissional demanda não só reconhecimento do compromisso ético‑político


e ideocultural, mas também a imersão de cada pessoa e, consequentemente, de cada profissional nesse
compromisso, o que fará toda a diferença no enfrentamento ou na manutenção do projeto societário vigente.

Saiba mais

Para uma maior compreensão do termo ideocultural, leia:

ALECRIM, L. Expressão ideocultural de uma independência manipulada:


Abraham Lincoln, o caçador de vampiros. Correio da cidadania, São Paulo,
set. 2012. Disponível em: <http://www.correiocidadania.com.br/index.
php?option=com_content&view=article&id=7650:cultura210912&catid
=29:cultura&Itemid=61>. Acesso em: 10 fev. 2013.

21
Unidade I

Antes de iniciar sua pesquisa, sugerimos também assistir ao filme que


segue, com esse mesmo olhar crítico do assistente social autor da matéria
indicada:

ABRAHAM Lincoln: caçador de vampiros. Direção: Timur Bekmambetov.


EUA, 2012. 105 minutos.

Caso seja necessário, quando em campo profissional, recomenda‑se ter na pesquisa social um
instrumento permanente, que inclua, em seu rol de instrumentos, técnicas e estratégias, a serem inseridas
no cotidiano, não como manutenção da hegemonia do poder, mas como instrumento de libertação do
ranço da culpabilização do sujeito pela sua realidade social.

Trata‑se de um novo caminho, que desmistifica a culpabilização, aberto pelo da responsabilização,


não do sujeito, mas do Estado, como instituição de poder e mediador da corrupção e da desvalorização
do povo. Encontramos, historicamente, um Estado que valoriza a economia e o capital, fortalecendo a
hegemonia dominante, em detrimento da equidade dos cidadãos.

Utilizamos, assim, a pesquisa social como:

Investigação e interpretação da realidade, é um trabalho de desvendamento


do real que exige, fundamentalmente, a intervenção da Razão na organização
dos princípios explicativos, na articulação dos conceitos.

Daí que, à existência de diversos princípios teóricos explicativos, nem todos


operam com uma razão inclusiva, crítica e dialética capaz de captar a
estrutura, a forma de ser da realidade social. Aqueles que não apreendem a
realidade social como uma totalidade social em movimento não dão conta
da articulação e complementaridade entre subjetividade e objetividade,
entre ser e consciência, entre teoria e prática.

Mas a necessidade de os homens deterem o conhecimento, o mais


correto possível, sobre a realidade na qual irão atuar coexiste com
a necessidade do mundo burguês de revestir os processos sociais
de uma falsa objetividade, coisificar as relações sociais, regular
juridicamente os conflitos sociais, justificar a práxis, tornando‑a
natural, aceitável, desejável.

A prática profissional do assistente social, respeitadas as devidas


singularidades, também exige o conhecimento da situação, do cotidiano
da sua prática, dos meios e condições de realização, das possibilidades que
a realidade contém e das tendências e contratendências que suas ações
poderão desencadear (GUERRA 2010, p. 4).

22
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Temos o compromisso pessoal e profissional de levar, para a nossa prática diária, esse conceito, não
limitando a pesquisa social somente à utilização na academia, ou a uma exigência da graduação. Se
assim a entendermos, estaremos restringindo nosso olhar e nosso saber fazer. Em vez disso, precisamos
ter a pesquisa social como um instrumento cotidiano que nos impulsiona a desmistificar e desvendar a
manipulação do projeto societário hegemônico.

Nesse sentido, ainda temos de avançar nesses nossos questionamentos, pois quando nos deparamos
com o ritual da prática, muitas vezes, tendemos a valorizar a rotina e até a acreditar que estamos
cumprindo com os compromissos, contudo precisamos identificar se essa rotina não nos impele à
manutenção da hipocrisia de um fazer aparente, em detrimento de um fazer que liberta sujeitos e
transforma a realidade social.

Leia a seguir o que Guerra (2010) diz sobre esse assunto.

O Serviço Social, configurado na sociedade burguesa como um trabalho, como um


ramo específico da divisão social e técnica do trabalho, como um tipo de especialização
do trabalho coletivo (cf. IAMAMOTO, 1992), como uma atividade profissional, não se
constitui – sequer pode ter esta pretensão – numa ciência ou num ramo de saber
científico. Se isso é verdade, a profissão tem que se reconhecer numa determinada
realidade sócio‑histórica, construída pela práxis das classes sociais, as quais reformulam
as necessidades sociais e as transformam em demandas para a profissão. Se a sua
legitimidade é produto das formas de objetivação das classes sociais, se a sua lógica de
constituição e seus objetos de intervenção vinculam‑se a uma determinada realidade
histórico‑social, seu substrato material é a realidade social, é a cotidianeidade de
determinados segmentos da população; seus objetos são definidos pelas condições de
vida desses mesmos segmentos, sua instrumentalidade encontra‑se na manipulação
de variáveis que possibilitem a alteração – ainda que temporária – do contexto social
(NETTO, 1989), e por tudo isso tem de se referenciar pela e na realidade social. Partindo
desta configuração sobre a natureza do Serviço Social é que podemos considerar sua
vinculação orgânica com a realidade social, esta composta por elementos materiais
e espirituais. A realidade social, constituída num campo de forças contraditórias que
contempla um conjunto de determinações objetivas, moventes e movidas, só pode ser
apreendida a partir das formas mais complexas e gerais postas no modo de aparecer
dos fatos, fenômenos, processos e práticas sociais, estes, como formas necessárias de
determinados conteúdos. Mas a compreensão da realidade supõe partir da superação
da imediaticidade, da mera aparência, por meio de procedimentos que neguem a mera
objetividade, o dado imediato, a aparência e resgatem os conteúdos concretos que os
fenômenos, processos e práticas sociais portam. Há que se enfatizar que numa sociedade
de classes há o predomínio da racionalidade formal‑abstrata sobre a razão, da imagem
sobre o conceito, do abstrato sobre o concreto, de procedimentos quantificáveis, do
cálculo racional, de ações manipulatórias, da sociabilidade reificada e generalizada,
pela extensão da racionalidade instrumental da relação homem‑natureza para todas
as dimensões da vida social, o que condiciona, em ampla medida, a elaboração
teórico‑filosófica. Com isso pretende‑se afirmar que os procedimentos da intelecção,
23
Unidade I

a racionalidade formal‑abstrata, que exerce hegemonia na ordem burguesa, opera de


maneira a obstaculizar a reflexão da razão.

Fonte: Guerra (2010, p. 5‑6).

Isso nos encaminha para retomar o que foi apresentado anteriormente, no que concerne às
metodologias para a pesquisa científica, e esclarece que, na intervenção do profissional de Serviço
Social, nada pode estar restrito a um único olhar ou conceito, limitando a leitura crítica. Devemos
abrir a metodologia para as “múltiplas determinações” (MARX, 1989 apud GUERRA, 2010), a fim de
entendermos as singularidades num universo totalitário.

No entanto, de qual método estamos falando?

Esse método deve ter subjacente uma racionalidade que permita alcançar
o concreto como síntese de múltiplas determinações (cf. MARX, [1989]),
captar as relações sociais de maneira articulada, seus nexos e mediações,
numa perspectiva de totalidade, para o que tem que ser histórico,
dialético, inclusivo e crítico.

A racionalidade crítico‑dialética recolhe suas categorias analíticas na própria


realidade, percorre‑as, estabelece seus vínculos, sai em busca das mediações,
satura seus objetos de determinações e reproduz, ao nível do pensamento,
as múltiplas e complexas relações que se estabelecem na realidade. Nessa
busca da totalidade, a inter‑relação entre as categorias da realidade
dão lugar a complexos cada vez mais abrangentes. É neste sentido que a
perspectiva da totalidade deve ser compreendida, não como um fato formal
do pensamento, mas como modo de ser do existente (GUERRA, 2010, p. 9).

Estamos caminhando para reconhecer a pesquisa social, não apenas como um instrumento da
pesquisa científica acadêmica, desvinculada da prática, mas como instrumento permanente, que sustenta
uma nova práxis profissional, construída a partir da reflexão sobre as competências ético‑políticas,
teórico‑metodológicas e técnico‑instrumentais ou operativas.

Temos de avaliar como estamos utilizando essa última competência, para que seja efetivado o
compromisso com as classes subalternas e expropriadas de seus direitos humanos, sociais, culturais,
econômicos e políticos.

Se muitas das requisições da profissão são de ordem instrumental (em


nível de responder às demandas – contraditórias – do capital e do trabalho
e em nível de operar modificações imediatas no contexto empírico),
exigindo respostas instrumentais, o exercício profissional não se restringe
a elas. Com isso queremos afirmar que reconhecer e atender as requisições
técnico‑instrumentais da profissão não significa ser funcional à manutenção
da ordem ou ao projeto burguês. Isto pode vir a ocorrer quando se reduz a

24
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

intervenção profissional à sua dimensão instrumental. Esta é necessária para


garantir a eficácia e eficiência operatória da profissão. Porém, reduzir o fazer
profissional à sua dimensão técnico‑instrumental significa tornar o Serviço
Social meio para o alcance de qualquer finalidade. Significa também limitar
as demandas profissionais às exigências do mercado de trabalho. É também
equivocado pensar que para realizá‑las o profissional possa prescindir de
referências teóricas e ético‑políticas.

Se as demandas com as quais trabalhamos são totalidades saturadas de


determinações (econômicas, políticas, culturais, ideológicas), então elas
exigem mais do que ações imediatas, instrumentais, manipulatórias. Elas
implicam intervenções que emanem de escolhas, que passem pelos condutos
da razão crítica e da vontade dos sujeitos, que se inscrevam no campo
dos valores universais (éticos, morais e políticos). Mais ainda, ações que
estejam conectadas a projetos profissionais aos quais subjazem referenciais
teórico‑metodológicos e princípios ético‑políticos (GUERRA, 2010, p. 35).

Existe uma demanda por “novos instrumentos operativos, a profissão carece de uma racionalidade,
como fundamento e expressão das teorias e práticas, capaz de iluminar as finalidades” (GUERRA, 2010
p. 14). Ou seja, a autora nos diz que o que chamamos de instrumentos, técnicas e estratégias não
podem ser considerados ações‑fim da profissão, mas que é necessário compreendê‑los como uma
instrumentalidade com a qual os assistentes sociais, por meio da articulação e da mediação teórica
voltada a fins específicos, atuam e transformam a realidade.

Segundo Iamamoto e Carvalho (2009),

[...] as bases teórico‑metodológicas são recursos essenciais que o assistente


social aciona para exercer o seu trabalho: contribuem para iluminar a leitura
da realidade e imprimir rumos à ação, ao mesmo tempo que a moldam.
Assim, o conhecimento não é só um verniz que sobrepõe superficialmente
a prática profissional, podendo ser dispensado; mas é um meio pelo qual
é possível decifrar a realidade e clarear a condução do trabalho realizado
(IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 62‑3).

Iamamoto e Carvalho (2009) nos convidam a considerar uma razão: o referencial teórico permeia
nossa prática com intensidade e intencionalidade para que não nos tornemos mecânicos e superficiais,
mas estejamos abertos para identificar nosso objeto de trabalho. “O assistente social lida, no seu trabalho
cotidiano, com situações [...] vividas por indivíduos e suas famílias, grupos e segmentos populacionais,
que são atravessadas por determinações de classe” (IAMAMOTO; CARVALHO, 2009, p. 33).

Diante desse importante instrumento que é a pesquisa social, vamos a partir daqui sugerir uma
metodologia para a elaboração do pré‑projeto de pesquisa, nesse momento, vinculada à sua prática no
estágio e ao referencial teórico estudado durante a graduação. Teremos como base a crítica na atuação
profissional, na lógica do respeito ao sujeito social, inserido numa realidade histórica e atual.
25
Unidade I

Reconhecendo que a produção do conhecimento retroalimenta a atuação prática e também insere


novas perspectivas nos referenciais teóricos, temos duas possibilidades eminentes no resultado do
relatório da pesquisa:

• uma nova concepção de atuação profissional, a partir de um posicionamento que vence a hegemonia
do poder e fortalece a credibilidade no potencial humano de transformar a realidade social.

• Acrescenta um novo capítulo à relação entre teoria e prática, por meio da práxis profissional,
numa inserção dialética da leitura de realidade que redimensiona e amplia a teoria.

Assim, acreditamos que estejamos prontos para entrar no universo da pesquisa, pois revisitamos
conceitos importantes no âmbito da metodologia científica e transcendemos a práxis profissional do
Serviço Social. É chegado o momento de decolarmos nessa viagem… Mãos na massa… Afinal, temos uma
descoberta a ser realizada, então precisamos fazer algumas perguntas e buscar as respostas, segundo
Gomes (2011, p. 38-39):

• O que é pesquisa? (definição do problema, hipóteses, base teórica e conceitual);

• Para que pesquisar? (propósitos do estudo, seus objetivos);

• Por que pesquisar? (justificativa da escolha do problema);

• Como pesquisar? (metodologia);

• Por quanto tempo pesquisar? (cronograma de execução);

• Com que recursos? (orçamento);

• A partir de quais fontes? (referências).

O que?

Quais? Como?

Quantos? Pesquisar Por quê?

Quando? Para quê?

Onde?

Figura 1 – Pesquisa: questões essenciais

26
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

1.1 Levantamento dos temas de interesse dos alunos

Você já teve contato com fundamentos históricos, técnicos e metodológicos, políticas públicas,
Ética, Sociologia, Antropologia, Psicologia, Direito etc. Já tem uma base sólida de conhecimento
generalista e iniciou seu contato com a prática profissional no estágio. Isso lhe garante uma vivência
em relação ao objeto do Serviço Social, que o embasa e habilita para fazer a escolha de um tema.

Retomemos alguns dos assuntos que permeiam essa jornada.

A ciência do Serviço Social pesquisa e atua em áreas que perpassam pelas questões sociais, que
são consequência das desigualdades provocadas pela hegemonia do sistema capitalista, excluindo do
mercado profissional os sujeitos que não tiveram acesso às condições de qualificação, muitas vezes, pela
ausência de políticas públicas sociais. São temas de pesquisa relacionados a essa área, entre outros:

• inclusão e exclusão social;

• trabalho;

• geração de renda;

• direitos sociais;

• direitos humanos;

• trabalho coletivo;

• políticas públicas sociais;

• expropriação do trabalho profissional;

• competências do profissional de Serviço Social;

• ética profissional.

São temas fundantes que compõem o universo teórico/prático do Serviço Social. Cada um destes
pode constituir ou gerar o tema do pré‑projeto de pesquisa social.

Podemos ainda pensar nos segmentos sociais, tais como os apontados a seguir.

1.1.1 Crianças

Segundo a Convenção dos Direitos Humanos (ONU, 1989, p. 6) “A criança é definida como todo ser
humano com menos de dezoito anos”.

27
Unidade I

Figura 2 – Criança

1.1.2 Adolescentes

Eisenstein (2005, p. 6) propõe a seguinte definição de adolescência:

É o período de transição entre a infância e a vida adulta, caracterizado


pelos impulsos do desenvolvimento físico, mental, emocional, sexual e
social e pelos esforços do indivíduo em alcançar os objetivos relacionados
às expectativas culturais da sociedade em que vive. A adolescência se
inicia com as mudanças corporais da puberdade e termina quando o
indivíduo consolida seu crescimento e sua personalidade, obtendo
progressivamente sua independência econômica, além da integração em
seu grupo social.

Figura 3 – Adolescentes

28
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

1.1.3 Pessoas idosas

Segundo o artigo 1º do Estatuto do Idoso (2003), são “pessoas com idade igual ou superior a 60
(sessenta) anos”.

Figura 4 – Idosos

1.1.4 Pessoas com deficiência

São aquelas que têm impedimentos de longo prazo de natureza física,


mental, intelectual ou sensorial, os quais, em interação com diversas
barreiras, podem obstruir sua participação plena e efetiva na sociedade em
igualdades de condições com as demais pessoas (BRASIL, 2009).

1.1.5 Família

Consideramos família um grupo de pessoas que se encontram unidas, por um determinado período
de tempo, com laços, consanguíneos ou não, de afeto, cuidado e proteção.

A família, conforme estabelece a Constituição Federal de 1988, é merecedora de proteção social e


garantia de direitos, na lógica da seguridade social, portanto deve receber atenção das políticas públicas
sociais e do profissional de Serviço Social, dentre outros. Isso evidencia que a pesquisa social com o
tema Família é atual e necessária para o desenvolvimento e o aprimoramento da ciência que busca
conhecimento para alcançar a equidade social.

1.1.6 Políticas públicas sociais

As políticas públicas sociais são ações da gestão pública, desenvolvidas pelo Estado ou em parceria
com a sociedade civil, por meio de serviços, programas, projetos e transferência de renda que visam
proporcionar aos sujeitos sociais (cidadãos) a proteção social e a garantia de direitos, para uma vida
digna, com equidade e justiça.

29
Unidade I

São consideradas políticas públicas sociais aquelas que asseguram à população o exercício de seus
direitos individuais e sociais: educação, saúde, trabalho, assistência social, previdência social, justiça,
agricultura, saneamento, habitação popular e meio ambiente.

1.1.7 Programas de governo

Um exemplo é o Programa Bolsa Família (PBF), por meio do qual se realiza

[...] transferência direta de renda que beneficia famílias em situação de


pobreza e de extrema pobreza em todo o País. O Bolsa Família integra o Plano
Brasil Sem Miséria (BSM), que tem como foco de atuação os 16 milhões de
brasileiros com renda familiar per capita inferior a R$ 70,00 mensais, e está
baseado na garantia de renda, inclusão produtiva e no acesso aos serviços
públicos (BRASIL, 2013b).

Figura 5 – o Programa Bolsa Família faz parte do Plano Brasil sem Miséria

1.1.8 Políticas públicas de educação

Segundo a Constituição Federal de 1988, a política pública de educação é um direito universal, ou


seja, de todos e para todos, sem critérios de inclusão, sendo o Estado o responsável por sua implantação
e implementação.

É por meio da educação que os sujeitos sociais garantem sua autonomia e sua independência, pois
ela os qualifica para assumirem seu papel social com dignidade. Considerando que a leitura, a escrita
e a interpretação dos fatos são ferramentas fundamentais para a verdadeira inclusão, essa política é
essencial à proteção social e à garantia de direitos.

30
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Figura 6 – A educação é fundamental para a garantia de direitos

1.1.9 Políticas públicas de saúde

Correspondem a:

Políticas e ações do ministério para promover a saúde dos diversos segmentos


da população brasileira. As políticas são baseadas no princípio do Sistema
Único de Saúde de oferecer acesso integral, universal e gratuito ao sistema
de saúde pública a todos os brasileiros, seja uma criança, uma pessoa com
deficiência ou um trabalhador, entre outros perfis (BRASIL, 2013a).

Figura 7 – Anúncio da campanha de vacinação contra a gripe (2013)

1.1.10 Políticas públicas de assistência social

Constituem o público usuário da Política de Assistência Social


cidadãos e grupos que se encontram em situações de vulnerabilidade
e riscos, tais como: famílias e indivíduos com perda ou fragilidade
de vínculos de afetividade, pertencimento e sociabilidade; ciclos
de vida; identidades estigmatizadas em termos étnico, cultural e
sexual; desvantagem pessoal resultante de deficiências; exclusão
pela pobreza e/ou no acesso às demais políticas públicas; uso de

31
Unidade I

substâncias psicoativas; diferentes formas de violência advinda


do núcleo familiar, grupos e indivíduos; inserção precária ou não
inserção no mercado de trabalho formal e informal; estratégias e
alternativas diferenciadas de sobrevivência que podem representar
risco pessoal e social (BRASIL, 2013c).

1.1.11 Políticas públicas de habitação

No que se refere às condições de urbanização nas cidades brasileiras, encontramos um grande


déficit tanto de infraestrutura quanto de moradias. Isso se deve ao fato de que o processo
de urbanização ocorre em um ritmo acelerado e desorganizado, e existe concentração de
pessoas em regiões periféricas dos municípios, especialmente nos de médio e grande porte,
ocasionando bolsões de miséria, frutos do êxodo rural, que se iniciou com a industrialização
e a não ocorrência de uma reforma agrária efetiva. Além disso, temos a questão do sistema
econômico, que impulsiona o trabalhador a assumir subempregos que nem sempre lhe garantem
estabilidade, gerando a descontinuidade de salário. Isso sem mencionar as leis trabalhistas que
não são cumpridas.

A situação do trabalhador assalariado com instabilidade esbarra nas condições de moradia e


habitação, pois este não consegue se inserir na política habitacional vigente, servindo‑se de espaços
comunitários que formam aglomerados de pessoas em situações desumanas, sem o devido investimento
estatal para garantir a proteção social desses indivíduos.

A ausência ou ineficiência da política pública de habitação constitui, portanto, um importante


campo de pesquisa para o Serviço Social.

Figura 8 – O Programa Minha Casa, Minha Vida é um exemplo de política pública de habitação

32
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

1.1.12 Temas estruturantes

Existem vários temas desse tipo que podem ser trabalhados, dentre os quais destacamos:

• Violência

Para discutirmos a violência, recorremos a Chauí (1984), que define esse conceito, de forma
ampliada:

Uma realização determinada das relações de força tanto em termos


de classes sociais quanto em termos interpessoais. Consideramos
haver diferença entre a relação de força e a de violência (ainda que
esta seja uma realização particular daquela). A pura relação de força
visa, em última instância, a aniquilar‑se como relação pela destruição
de uma das partes. A violência, pelo contrário, visa manter a relação
mantendo as partes presentes uma para a outra, porém uma delas
anulada em sua diferença e submetida à vontade e à ação da outra.
A força deseja a morte ou supressão imediata do outro. A violência
deseja a sujeição consentida ou a supressão mediatizada pela vontade
do outro que consente em ser suprimido pela desigualdade. Assim, a
violência perfeita é aquela que obtém a interiorização da vontade e
da ação alheias pela vontade e pela ação dominada, de modo a fazer
com que a perda da autonomia não seja percebida nem reconhecida,
mas submersa numa heteronímia que não se percebe como tal. Em
outros termos, a violência perfeita é aquela que resulta em alienação,
identificação da vontade e da ação de alguém com a vontade e a ação
contrária que a dominam (CHAUÍ, 1984, p. 35).

Temos vários tipos de violência. Todos são demandas do Serviço Social, considerando a violação
de direitos que tanto vitima quanto violenta os que estão expostos a essas situações.

Apresentamos alguns dos tipos de violência que emergem das ações profissionais do assistente
social, sejam de articulação, mediação ou intervenção:

— Violência doméstica e sexual contra crianças e adolescentes

Abrange todo e qualquer ato que leve à omissão ou à prática de violência por pais
e/ou responsáveis por criança e adolescente, que cause dano físico, sexual e/ou
psicológico. Reverbera na transgressão do dever de afeto, cuidado e proteção que o
adulto tem para com o outro. Muitas vezes, essa prática submete a pessoa em situação
de fragilidade ao poder do adulto, que coisifica a criança e o jovem, negando o direito
desses cidadãos de serem tratados como sujeitos sociais em condição peculiar de
desenvolvimento.

33
Unidade I

— Violência de gênero

Ação que provoca um comportamento deliberado e consciente que submete o outro à situação
de domínio físico, psicológico e/ou sexual exercido de um sexo para outro, em que um se torna
ativo, e o outro, passivo.

— Exploração sexual

A exploração e o abuso sexual contra crianças e adolescentes vêm sendo estudados no Brasil
desde 1990. Embora ainda com ações incipientes, todos os anos, em 18 de maio, militantes
mobilizam‑se para sensibilizar a população quanto a essa situação, que perdura em nossa
sociedade. Conceituamos o abuso e a exploração sexual contra criança e adolescente como
uma forma hedionda de influência do poder de um dominador, que submete a criança e/ou o
adolescente à exploração sexual para aferir recursos financeiros.

— Trabalho infantojuvenil

Conforme estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), é vedado o trabalho para


crianças e adolescentes com até 14 anos. A partir dessa idade, somente é permitido que ocorra
o trabalho na condição de aprendiz.

Parte das pessoas imagina que essa legislação seja a causadora de situações de violência, em
razão do tempo que as crianças e, especialmente, os adolescentes passam sem ter afazeres.
Contudo, isso esbarra na contradição de que esse tempo deve ser empregado para frequentar
a escola e desenvolver aspectos emocionais e relacionais, favorecidos pelo brincar.

Entretanto, ocorre que, mesmo existindo a legislação, e com toda a luta travada pelo direito
ao desenvolvimento pleno da criança e do adolescente, estes ainda são expostos à situação de
trabalho infantojuvenil.

Esses trabalhos, muitas vezes, são insalubres e comprometem a qualidade de vida, especialmente
pelo esforço físico. Além do trabalho externo, temos ainda as atividades domésticas, de que
crianças e adolescentes são incumbidos, sem que os responsáveis por eles percebam a violação
de direitos que ocorre nesses casos, existindo sempre uma explicação, como de que os mais
velhos podem cuidar dos irmãos mais novos, bem como de que limpar, lavar e cozinhar não é
trabalho, e sim dever, entre outras justificativas.

O tema Trabalho Infantojuvenil apresenta‑se como um grande desafio para o Serviço Social,
pois há poucas pesquisas. Existe uma possibilidade de enfrentamento da situação quando esta
é revelada, deixando de ser considerada natural.

— Drogas

Quando falamos em drogas, devemos entender que esse conceito engloba toda e qualquer
substância psicoativa que, quimicamente, tenha influência sobre o ser humano. Outro aspecto é

34
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

a questão do que é lícito/legal e do que é ilícito/ilegal. Independentemente dessa diferenciação,


contudo, ambos os tipos causam dependência orgânica e psíquica.

Existem dois nichos para a pesquisa:

– o uso e a dependência;

– o tráfico,

Ambos implicam violação de direitos e suscitam esforços para a prevenção e o tratamento,


constituindo um tema bastante atual, que mobiliza as massas. Por esse motivo, a mídia
passa a exercer influência sobre os pareceres a respeito da situação.

Todas as políticas públicas sociais trabalham de modo intersetorial, e as equipes agem


de forma interdisciplinar, na busca pela proteção social dos sujeitos sociais afetos a essa
questão. Contudo, os esforços ainda são insuficientes para atender à demanda que se
apresenta.

As respostas não são fechadas: pelo contrário, há muito a ser pesquisado e analisado,
portanto esse é um tema importantíssimo para o Serviço Social.

— Medidas socioeducativas

Previstas pelo Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) – Lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990,
artigo 112. Para dar suporte a essa lei, temos o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo
(Sinase), instituído e regularizado pela Lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012. As medidas
socioeducativas previstas podem ser aplicadas de duas maneiras:

— meio fechado: privação de liberdade;

— meio aberto: Liberdade Assistida (LA) ou Prestação de Serviços à Comunidade (PSC).

1.1.13 Sistema de garantia de direitos

Veja, a seguir, duas vertentes deste tópico que podem ser trabalhadas em sua pesquisa.

1.1.13.1 Intersetorialidade das políticas públicas

Na lógica da Proteção Social proposta pela Constituição Federal de 1988, e pela participação popular
garantida pela efetivação dos Conselhos de Direitos:

• Conselho da Pessoa com Deficiência;

• Conselho da Mulher;
35
Unidade I

• Conselho da Criança e do Adolescente;

• Conselho do Idoso;

• Conselho da Saúde;

• Conselho da Assistência Social;

• Conselho da Educação.

Esses são espaços legítimos de participação e controle social, em que os recursos, especialmente
nos conselhos deliberativos, são acompanhados pelos conselheiros. Constituem importantes espaços de
defesa de direitos, na luta pela qualidade das políticas públicas sociais, em que o assistente social tem
duplo compromisso: fazer parte como conselheiro e oferecer subsídios para a participação dos usuários
das políticas públicas.

1.1.13.2 Legislação

Compõe a base dos Direitos Humanos e Sociais.

Eis alguns assuntos que apresentamos a você. Claro que existem muitos outros. Você pode escolher
aquele que, enquanto vive, tem um grande desejo de desvendar. O que lhe chamar mais a atenção
deverá ser o seu tema de pesquisa.

Ao longo de seus dias, você com certeza viveu possibilidades e desafios no que tange aos direitos,
sejam os seus, os de pessoas próximas ou de sua convivência, ou ainda os daqueles com quem você
pode ter uma relação profissional. Não importa a distância entre você e a situação que o estimula
a investigar, o importante mesmo é que exista um interesse vibrante e intenso, conforme registram
Barreto e Honorato (1998):

A escolha de um tema representa uma delimitação de um campo de


estudo no interior de uma grande área de conhecimento, sobre o qual
se pretende debruçar. É necessário construir um objeto de pesquisa,
ou seja, selecionar uma fração da realidade a partir do referencial
teórico‑metodológico escolhido. É fundamental que o tema esteja
vinculado a uma área de conhecimento com a qual a pessoa já
tenha alguma intimidade intelectual, sobre a qual já tenha alguma
leitura específica e que, de alguma forma, esteja vinculada à carreira
profissional que esteja planejando para um futuro próximo (BARRETO;
HONORATO, 1998, p. 62).

Esse interesse pode perpassar pelo desafio de questionar na lógica da crítica, pela suscetibilidade
que provoca a outrem, ou pode ser desvelador de uma intervenção técnica: o importante é sentir
desejo de investigar.
36
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Estamos aqui contrapondo Durkheim, o qual afirma que a primeira e mais fundamental regra para
o cientista social é tratar os fatos sociais como coisa, e valorizando Gil, quando afirma que “os fatos
sociais dificilmente podem ser tratados como coisas, pois são produzidos por seres que sentem, pensam,
agem e reagem, sendo capazes, portanto, de orientar a situação de diferentes maneiras” (GIL, 2008, p.
5), e avança dizendo que “o objetivo fundamental da pesquisa é descobrir respostas para problemas
mediante o emprego de procedimentos científicos” (GIL, 2008, p. 26).

Exemplo de aplicação

Adolescentes que cumprem medida socioeducativa produzem cartilha sobre direitos humanos
para escolas

Em São Bernardo do Campo, no ABC Paulista, o Dia Internacional dos Direitos Humanos, celebrado
no dia 10 de dezembro, ganhou um sentido prático para sessenta adolescentes que cumprem medidas
socioeducativas no município. Mais do que ouvir adultos falarem sobre seus direitos, eles colocaram a mão
na massa e produziram uma revista em quadrinhos para dialogar diretamente com crianças e adolescentes
sobre o tema. O resultado do trabalho foi lançado hoje pela Fundação Criança, órgão municipal responsável
pela política da infância, e será distribuída em todas as escolas públicas do município.

Pedro Silva*, de 16 anos, participou, junto com os colegas, de oficinas sobre desenho e direitos
humanos durante seis meses. “Já sabia desenhar e agora aprendi mais ainda”, disse. Ele está feliz pela
publicação e espera que a cartilha possa ajudar outros adolescentes a conhecerem seus direitos. “Muita
coisa eu só fiquei sabendo na fundação. A gente passa por tanta coisa na rua, porque não sabe o
direito que tem”, declarou. Dentre os assuntos que mais interessaram Pedro na construção da cartilha,
ele cita o direito de ir e vir e o de não ser agredido.

O promotor de Justiça da Infância, Wilson Tafner, aponta, ao analisar o perfil dos adolescentes
em conflito com a lei, que a ausência de políticas públicas para a infância tem relação direta com a
incidência das infrações. “Cerca de 15 bairros de São Paulo, dos mais de cem que o município tem,
concentram a maior parte desses adolescentes. No geral, são regiões bem afastadas do centro e com
baixo IDH [Índice de Desenvolvimento Humano]. Extremo sul, leste e parte da zona norte”, disse.

Tafner destaca que muitas vezes o Estado só chega a essas famílias quando as infrações são cometidas
pelos jovens. O promotor atuou no início dos anos 2000 no enfrentamento a violações sofridas na antiga
Fundação do Bem‑Estar do Menor (Febem). Na época, até mesmo casos de tortura foram identificados.

Para o presidente da Fundação Criança, Ariel de Castro Alves, o trabalho por meio da arte ajuda a
envolver os adolescentes em atividades positivas. “O nosso trabalho é criar um novo projeto de vida para
esses jovens, no qual eles possam estar engajados na cidadania”, explicou. Ele acredita que a produção
da cartilha, por exemplo, potencializa talentos e torna os adolescentes protagonistas de um trabalho do
qual eles se orgulham. “Se o Estado excluir, o crime vai incluir”, declarou.

A coordenadora do Centro de Atendimento de Medidas Socioeducativas da fundação, Maria Lúcia de


Lucena, acredita que essas ações ajudam a diminuir o estigma ao qual os adolescentes estão submetidos,
37
Unidade I

tendo em vista que colocam em diálogo jovens de universos diferentes. “Quem receber o material vai
saber que ele teve a participação de jovens que cumprem medida de liberdade assistida e de
prestação de serviços comunitários. Isso faz com que eles estejam no mesmo patamar”, avaliou.

O estigma é uma das principais preocupações do adolescente de 14 anos Rodrigo Santos.*


Ele construía a passos largos o sonho de ser jogador de futebol, quando o desejo de consumo
o levou ao tráfico de drogas. “Jogava na seleção de base. Fui vender drogas para comprar uma
corrente de prata que minha mãe não podia dar”, relembra. Ele tem receio de não poder voltar
ao time. Após cumprir a medida, além de jogar futebol, ele quer voltar a dar orgulho a sua
mãe. “Ela ainda vai se orgulhar muito de mim. Se não for como jogador de futebol, vai ser
como engenheiro”, disse.

A revista em quadrinhos, que também ganhou uma versão em audiobook para pessoas com
deficiência visual, aborda temas como o contexto histórico do surgimento da Declaração Universal dos
Direitos Fundamentais do Homem, lançada no Pós‑Guerra em 1948, e a formulação do Estatuto da
Criança e do Adolescente (ECA), em 1990, após a promulgação da Constituição.

*Os nomes verdadeiros dos adolescentes foram preservados em atendimento ao Estatuto da Criança
e do Adolescente. Por Agência Brasil.

Fonte: Maciel (2012).

Esse artigo suscita alguns temas, por exemplo: Adolescência; Políticas Públicas para o
Adolescente; O Sistema Nacional de Medidas Socioeducativas e sua Execução – Meio Aberto e
Meio Fechado; Violência na Adolescência; Adolescentes em Conflito com a Lei; Adolescentes em
Medidas Socioeducativas.

Imagine que um deles fosse o seu tema. Que considerações você poderia fazer?

Saiba mais

Pesquise a referência a seguir para conhecer a Lei nº 12.594/2012, que


institui o Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo (Sinase) e
regulamenta a execução das medidas:

BRASIL. Lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012. Brasília, 2012. Disponível


em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011‑2014/2012/lei/
l12594.htm>. Acesso em: 16 abr. 2013.

O assunto é bem mais abrangente, permite diversas possibilidades de recortes. Nesse sentido, o
recorte abrangerá aquilo que o pesquisador anseia abordar com parâmetros concisos em sua pesquisa.

38
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Muitos alunos ou pesquisadores podem abordar um mesmo assunto, mas isso não significa que
todos tratarão do mesmo tema. Vejamos o exemplo que estamos utilizando:

• Assunto: Adolescente.

• Tema: Medidas Socioeducativas.

Podemos dizer que o tema é o assunto delimitado.

Primeiro deve ser escolhido o assunto de pesquisa, e em seguida é preciso ainda afunilá‑lo,
restringi‑lo, circunscrevê‑lo. Para ajudar nessa etapa da elaboração do projeto de pesquisa, podemos
pensar em alguns critérios, que, segundo Gil (2008), podem ser:

Espacial: por ser a pesquisa social eminentemente empírica, é preciso


delimitar o locus da observação, ou seja, o local onde o fenômeno em
estudo ocorre. Um estudo que trate da violência urbana, por exemplo,
pode comportar diversos recortes espaciais (um município, uma área
metropolitana, uma região etc.). Certo é que o parâmetro espacial
escolhido implicará no resultado dos dados obtidos e nas conclusões
do estudo.

Temporal: isto é, o período em que o fenômeno a ser estudado será


circunscrito. Podemos definir a realização da pesquisa situando nosso
objeto no tempo presente, ou recuar no tempo, procurando evidenciar
a série histórica de um determinado fenômeno. Uma investigação sobre
microempresas, por exemplo, pode situar‑se no momento corrente,
durante um período abrangido por um determinado plano econômico
(Real ou Cruzado, por exemplo), ou ainda nos últimos 10 ou 15 anos
(GIL, 2008, p. 162).

Sempre depende do objetivo do pesquisador elaborar o dado recorte, pois devemos considerar a
delimitação usando a terminologia da Victor Franz Rudio, quando utiliza a definição do “campo de
observação” (RUDIO, 1985, p. 72‑5). Esse campo comporta, além do lugar (recorte espacial) e das
circunstâncias (recorte temporal), a população a ser estudada.

Essa população consiste em quem será o objeto da pesquisa, considerando que pode referir‑se a um
conjunto de políticas públicas, aos usuários de algum serviço de uma determinada política pública, ou
ainda a sujeitos que serão questionados acerca de seus comportamentos ou sua visão de mundo (por
exemplo, adolescentes em medida socioeducativa de meio aberto atendidos num determinado Creas).
Em outras palavras, nesse ponto, já estamos nos aproximando do objeto de pesquisa e da problemática
que buscamos pesquisar.

39
Unidade I

1.2 Levantamento de literatura que circunscreve o assunto de cada pesquisa

Nessa etapa do processo de elaboração do projeto de pesquisa, você precisa se perguntar:

• Quem já escreveu sobre o assunto que você está escolhendo?

• Quais as publicações disponíveis sobre o assunto? Realizar busca em sites de faculdades e da


Capes para verificar se há publicação de trabalhos de conclusão de curso, dissertações, teses e
artigos, em bibliotecas etc.

• Caso haja publicações sobre o tema a ser abordado, existem lacunas na literatura? Quais?

Em pesquisa, chamamos de estado da arte o que já existe em pesquisas sobre o assunto, conceitos,
achados, análises de dados que estão na literatura para serem pesquisados.

Trata‑se de uma revisão histórica de tudo o que já foi escrito, obviamente, com um recorte de autores
escolhidos (que será abordado logo a seguir), pois algumas pesquisas de literatura são infindáveis,
considerando o enorme número de publicações existentes.

É por meio da revisão de literatura que você descobre se a sua pesquisa será inovadora ou não. Todo
esse investimento requer cuidado para garantir inovação, até porque será necessário evitar duplicação
de informações e – sabemos – seu tempo é precioso, e o dos demais pesquisadores também.

Assim, rememorando o exemplo Política Pública para Adolescentes, temos de fazer o contorno em
Adolescentes em Medida Socioeducativa e definir se será em meio aberto ou fechado, para concretizar
e sistematizar a pesquisa bibliográfica.

Essa sistematização de estudo para a revisão de literatura ou pesquisa bibliográfica contribuirá para:

• encontrar informações acerca da situação atual do tema escolhido para pesquisar;

• reconhecer as publicações disponíveis sobre o tema e as abordagens realizadas por outros


pesquisadores;

• conhecer opiniões divergentes e convergentes sobre o tema e mais aspectos pesquisados que
podem não ter sido identificados por você.

Todas as etapas da pesquisa são importantes, entretanto a revisão de literatura/bibliográfica refere‑se


à fundamentação teórica sobre o tema e norteará você quanto aos problemas que envolvem esse tema.
É nessa fase que você elaborará um traçado teórico, inclusive, para orientar a análise dos dados de sua
pesquisa. Aqui, você terá de buscar a base para o desenvolvimento da pesquisa.

Considerando que nessa fase sua pesquisa é de graduação, você não terá descobertas autônomas,
pois deve sempre se apoiar no que já foi registrado na bibliografia sobre o tema.
40
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Num trabalho de conclusão de curso de graduação, sua pesquisa parte daquilo que já foi descoberto
e registrado.

Numa iniciação científica, você fará experimentos, a partir do estudo iniciado por um orientador,
sobre o tema abordado.

Na dissertação de mestrado, você segue uma linha de pesquisa dentro da proposta curricular do
curso e também realiza a revisão bibliográfica do tema.

Nesses casos, seus achados de pesquisa apresentam as considerações finais sobre o tema, diante dos
novos resultados.

Diferentemente, na tese de doutorado, há um referencial teórico, mas o propósito é ter achados que
ampliem consideravelmente os registros anteriores.

A revisão da literatura vai subsidiar o processo de levantamento das informações já publicadas sobre o
tema, e isso norteará o mapeamento do que já foi pesquisado e analisado e daquilo que oferece possibilidade
de resultar em novos achados de pesquisa. Estes surgem quando você problematiza o assunto.

Para Luna (1997 apud SILVA e MENEZES, 2001), a revisão da literatura em um trabalho de pesquisa
passa pelas seguintes etapas:

determinação do “estado da arte”: o pesquisador procura mostrar


através da literatura já publicada o que já sabe sobre o tema, quais as
lacunas existentes e onde se encontram os principais entraves teóricos ou
metodológicos;

revisão teórica: você insere o problema de pesquisa dentro de um quadro de


referência teórica para explicá‑lo. Geralmente acontece quando o problema
em estudo é gerado por uma teoria, ou quando não é gerado ou explicado
por uma teoria particular, mas por várias;

revisão empírica: você procura explicar como o problema vem sendo


pesquisado do ponto de vista metodológico, procurando responder: quais
os procedimentos normalmente empregados no estudo desse problema?
Que fatores vêm afetando os resultados? Que propostas têm sido feitas para
explicá‑los ou controlá‑los? Que procedimentos vêm sendo empregados
para analisar os resultados? Há relatos de manutenção e generalização dos
resultados obtidos? Do que elas dependem?

revisão histórica: você busca recuperar a evolução de um conceito, tema,


abordagem ou outros aspectos, fazendo a inserção dessa evolução dentro de
um quadro teórico de referência que explique os fatores determinantes e as
implicações das mudanças (LUNA, 1997 apud SILVA; MENEZES, 2001, p. 28).
41
Unidade I

Para realizar a revisão bibliográfica, você terá de desenvolver um planejamento, definir como será
feita, ou seja, precisará ter uma metodologia.

São muitos textos, TCCs, dissertações, teses, artigos científicos, livros, páginas na internet etc. Como
vai sistematizar o registro e a organização das informações com as quais está tomando contato? Por isso
existe a metodologia para a revisão bibliográfica.

Assim, para tornar o processo de revisão de literatura mais produtivo, você poderá seguir alguns
passos básicos para sistematizar seu trabalho e canalizar seus esforços. Os passos sugeridos por Lakatos
e Marconi (2010, p. 23) são:

• Escolha do tema

• Elaboração do Plano de Trabalho

• Tema

• Estrutura do Trabalho

• Identificação

• Localização e compilação

• Fichamento

• Análise e interpretação

• Redação

• Fontes de Informações.

A partir daqui, vamos tentar construir juntos, à luz de Lakatos e Marconi (2010), a metodologia da
revisão bibliográfica:

1.2.1 Escolha do tema

Já temos nosso tema, que é o exemplo: Adolescentes em Medida Socioeducativa. Vamos fazer a
revisão da literatura no que tange a políticas públicas de atenção ao adolescente incluído em medida
socioeducativa, analisando aspectos legislativos e operacionais, bem como identificando que se trata de
uma ação interdisciplinar.

Assim, vamos buscar o que já foi publicado sobre o tema. Como há temas sobre os quais
há muita publicação (caso desse nosso exemplo), é necessário organizar o tempo, para não
desperdiçá‑lo.
42
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Você deve se lembrar de que falamos sobre a importância de o tema ser conhecido por nós; assim, já
estão estabelecidas nossa relação com o que vamos pesquisar, as linhas filosóficas que desejamos revisar
e as opiniões que queremos agregar ao trabalho.

1.2.2 Elaboração do plano de trabalho

Não podemos perder tempo. Precisamos organizar nossa rotina de trabalho, afinal, estamos numa
fase em que, além de termos nossas responsabilidades no nosso dia a dia, como trabalho, família e nós
mesmos, ainda precisamos ter tempo para as disciplinas regulares, o estágio, os relatórios de estágio e
o TCC.

Portanto, identifique quais aspectos quer abordar em seu tema. Vamos seguir o exemplo, para
facilitar – Adolescente em Medida Socioeducativa:

• Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) (BRASIL, 1990).

• Lei nº 12.594, que trata da organização das execuções das medidas socioeducativas e legitima o
Sistema Nacional de Medidas Socioeducativas (Sinase) (BRASIL, 2012).

• Adolescência – obras dos autores Maria de Lourdes Trassi Teixeira e Paulo Artur Malvasi.

• Medidas socioeducativas – Livro As histórias de Ana e Ivan: boas experiências em liberdade


assistida, de Maria de Lourdes Trassi Teixeira (2003).

Assim, você já terá um caminho estabelecido. Isso quer dizer que terá um plano de trabalho de
pesquisa bibliográfica. Observe que, inclusive, identificamos materiais legislativos e outros, alguns
disponíveis on‑line gratuitamente. Isso economizará muito tempo e facilitará a própria orientação
quanto a novos materiais, já com um foco.

1.2.3 Estrutura

Bem, já estamos construindo uma estrutura para o trabalho de revisão bibliográfica.

• Adolescência.

• Política Pública para o Adolescente na Lógica da Proteção Integral e na Garantia de Direitos

• A Legislação sobre as Medidas Socioeducativas: Pertinências Positivas e Pertinências Negativas.

• As Medidas Socioeducativas em meio aberto e sua Execução, Modelos e Práticas.

Você já estará em busca de conceitos sobre esses subtemas e encaminhará sua leitura para possíveis
proposições, de acordo com sua experiência, seja das aulas, seja do estágio. O exemplo que estamos
utilizando é o de Medidas Socioeducativas. Caso você realize estágio no Creas, está bastante familiarizado.
43
Unidade I

Obviamente existem vários recortes a serem feitos, mas vamos tratar desse assunto no item que
discute a problematização.

1.2.3.1 Identificação

Nesse ponto, você já deverá ter um esquema, que não é concluso, nem fechado, mas aberto para os
desafios da pesquisa.

Essa é uma fase da revisão bibliográfica que dará acesso às informações e ampliará o universo da
pesquisa, pois você poderá encontrar aspectos a serem abordados. Para isso, precisa estar disposto até
mesmo a mudar de rumo.

Implica abrir o leque da pesquisa, para ampliar seu levantamento bibliográfico, mas de forma
organizada, por meio de índices, sumários, resumos.

É o momento de voltar a fazer buscas ativas em bibliotecas presenciais e virtuais, pois pode haver
caminhos novos a serem percorridos.

Saiba mais

Para saber mais sobre levantamento bibliográfico, leia:

SILVA, E. L.; MENEZES, E. M. Metodologia da pesquisa e elaboração de


dissertação. 3. ed. rev. e atual. Florianópolis: UFSC, 2001. p. 30.

1.2.3.2 Localização e compilação

Agora que você já identificou, a princípio, o material bibliográfico que pretende usar, ou seja, fez o
levantamento bibliográfico, nessa etapa deverá entrar em contato com o material efetivamente, ou seja,
deverá ler.

Esse material deverá ser localizado fisicamente. É interessante ir até as bibliotecas de faculdades, do
polo, e/ou da sua cidade, pois você deverá ter o livro em mãos para começar a ler.

Os materiais que estão on‑line precisam ser organizados numa pasta em um pen drive. Cada assunto
poderá ter uma pasta com título de fácil identificação. Sempre que salvar um documento, deverá ter
registrado o endereço eletrônico no material, para reconhecer com facilidade a localização.

Estabeleça dia e horário para suas leituras. Se estiverem organizados em um grupo de alunos,
definam se estudarão juntos ou se farão leituras em separado. É importante todos terem uma mesma
rotina, salvaguardando as individualidades, mas tendo o compromisso de localizar as obras e estudar,
com o objetivo de compilar o material a ser trabalhado diretamente no referencial teórico da pesquisa.

44
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Lembrete

Se o trabalho for em grupo, organizem de modo equilibrado o material


de cada um. Isso gerará transparência, compromisso e responsabilidade
individual e coletiva.

A partir do momento em que estivermos em contato com o material, teremos de compilá‑lo,


organizando‑o numa linha lógica de pensamento e conforme delimitamos nos estudos. O conjunto de
obras e o encontro das subjetividades e objetividades de cada assunto lhe propiciará problematizar o tema,
e isso vai ajudar a ter foco; mas como compilar todo o material de forma sistemática, e de fácil manuseio?

1.2.3.3 Fichamento

Os materiais selecionados para leitura serão analisados e fichados.

O fichamento permite que você reúna as informações necessárias e úteis à elaboração do texto da
revisão. Podem ser elaborados diversos tipos de fichas, como:

• bibliográfica: com dados gerais sobre a obra lida;

• citações: com a reprodução literal entre aspas e a indicação da página da parte dos textos lidos de
interesse específico para a redação dos tópicos e itens da revisão (IAMAMOTO; CARVALHO 2010);

• resumo: com um resumo indicativo do conteúdo do texto; com suas palavras, conforme seu
entendimento, mas, ainda assim, se for usar alguma palavra, indique (idem, 2010);

• esboço: apresentando as principais ideias do autor lido de forma esquematizada, com a indicação da
página do documento lido; pode ser um esquema, sem uma linguagem corrida, apenas por tópicos.

• comentário ou analítico: é o entendimento do pesquisador; elaborado a partir do texto lido.

Nessa etapa do fichamento, você deverá identificar todas as obras lidas e respectivas citações,
sistematizar as análises e os comentários de cada obra ou artigo e tecer críticas ao material lido.

Sugerimos que tenha um texto para cada autor, fichando de acordo com a sequência das páginas,
separando as citações e registrando‑as. Em seguida, faça um resumo das principais informações; isso o ajudará
quando tiver lido mais de um artigo e/ou livro, além de fazê‑lo ganhar tempo e qualidade na produção.

1.2.3.4 Análise e interpretação

Quando terminar o fichamento do primeiro grupo de materiais elencados para pesquisar, faça uma nova
leitura e identifique aquilo que for adequado para usar, especialmente considerando o tema do seu trabalho.

45
Unidade I

Muitas coisas que fichamos nem sempre vamos utilizar, mas não dispense nada, pois poderá usar
posteriormente, ou mesmo em outras oportunidades de pesquisa.

Essa leitura deve ser crítica e apurada, para fazer um recorte do que for mais próximo do tema, e será
também um encaminhamento para a problematização e o foco do trabalho.

1.2.3.5 Redação

Agora que você já tem todo o material, deve preparar a primeira redação, observando alguns critérios:

• objetividade;

• clareza;

• precisão;

• consistência;

• linguagem impessoal;

• uso do vocabulário técnico.

Cuide para que:

• o texto tenha começo, meio e fim; opte por parágrafos curtos de, no máximo, cinco linhas, pois
isso facilita a leitura e a escrita.

• faça um texto introdutório explicando o objetivo da revisão de literatura; capriche, pois isso
poderá ser utilizado na íntegra quando da finalização do trabalho;

• a revisão de literatura não seja restrita à colagem de citações; sempre que for utilizar a citação de
um autor, deverá escrever uma introdução e, posteriormente, um fechamento.

Observação

Citação, segundo a Associação Brasileira de Normas Técnicas (2001, p. 1),


é a “Menção, no texto, de uma informação extraída de outra fonte”. Os tipos
de citações que podem ser utilizadas no texto, segundo a NBR 10520:2001,
são: citação direta – transcrição textual dos conceitos do autor consultado;
citação indireta – transcrição livre do texto do autor consultado; citação
de citação – transcrição direta ou indireta de um texto em que não se teve
acesso ao original (SILVA; MENEZES, 2001, p. 43).

46
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Saiba mais

Endereços das principais fontes de informação para pesquisa on‑line:

Ferramentas nacionais:

<http://www.achei.com.br>.

<http://www.cade.com.br>.

<http://www.radaruol.com.br>.

<http://www.surf.com.br>.

<http://www.zeek.com.br>.

<http://bookmarks.com.br>.

Ferramentas internacionais:

<http://www.altavista.digital.com>.

<http://infoseek.go.com>.

<http://www.excite.com>.

<http://www.hotbot.com>.

<http://www.webcrawler.com>.

<http://www.yahoo.com>.

2 DELIMITAÇÃO DO PROBLEMA E DO OBJETO DA PESQUISA

2.1 Delimitação do problema da pesquisa

Agora você já sabe o que quer pesquisar, já tem um tema e levantou várias referências sobre ele, que, no
nosso exemplo, é Adolescente em Situação de Medida Socioeducativa. Pois bem, esse é um tema que abrange
inúmeras possibilidades, que com certeza não precisam nem devem ser apresentadas num único trabalho.

Aqui estamos tratando de um projeto de pesquisa, ou seja, você terá de realizar um recorte, encontrar
um assunto específico diante de tudo o que encontrou para, de fato, pesquisar.
47
Unidade I

Um equívoco que muitos alunos cometem em suas pesquisas é revisitar uma vasta bibliografia
e apresentar uma pequeníssima síntese, muitas vezes, deslocada do foco da pesquisa. Por vezes,
quando vamos ler um trabalho de conclusão de curso ou mesmo uma monografia, nós nos
deparamos com um resumo da bibliografia sobre o tema, completamente desvinculado da
pesquisa de campo.

Considerando o universo do campo prático com o qual o aluno se depara quando em campo de
estágio, poderá realizar uma pesquisa científica significativa que subsidiará novos conhecimentos
teóricos e metodológicos, vislumbrando novas formas de intervenção profissional.

Obviamente, muitas vezes, a pesquisa usa o método bibliográfico, mas, ainda assim, deverá ter um
recorte do tema, pois o trabalho de conclusão de curso não deve ser apresentado como um resumo do
tema, absolutamente.

Pelo contrário, mesmo que a pesquisa caminhe no método bibliográfico, será necessário apontar
autores que convergem para o mesmo conteúdo e autores que divergem deste, para que tenhamos uma
pesquisa bibliográfica. Apontar apenas o que se fala sem fazer essa análise não é pesquisar.

Retomando nossas considerações sobre a importância da pesquisa para o Serviço Social, ressaltamos
que esta possibilita novas descobertas ou consolida o conhecimento desenvolvido, numa proposta
sempre dialética, em que, a partir do apreendido, na relação com a prática, surgem novos achados
teóricos, metodológicos e técnicos, possibilitando o reescrever de nossa atuação.

Com isso, não podemos desconsiderar nem menosprezar a pesquisa no campo da atuação prática,
para que essa retroalimente a nossa intervenção profissional.

Portanto, se temos um tema e um universo prático, pensando na elaboração do projeto de pesquisa,


teremos de delimitar o tema, fazendo um recorte no foco do assunto a ser pesquisado.

Para entender melhor o que é delimitar, citamos Minayo (2000):

Quando alguém diz que deseja estudar a questão da violência conjugal ou


a prostituição masculina, está se referindo ao assunto de seu interesse.
Contudo, é necessário, para a realização de uma pesquisa um recorte mais
concreto, mais preciso do assunto (MINAYO, 2000, p. 37).

A delimitação do problema é também conhecida como problematização: esta é a etapa do


planejamento da pesquisa científica que, muitas vezes, exige‑lhe um tempo especial, como
pesquisador, pois é o momento de refletir, a partir de sua vivência em campo profissional e de
estudo, bem como de seu conhecimento teórico, pois você deverá se questionar sobre o que
pretende resolver com a pesquisa.

Muitas vezes, a dificuldade de se escolher um tema também gera a dificuldade de delimitar o


problema da pesquisa, pois se objetivar apenas preencher uma demanda de curso, sem o verdadeiro
48
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

compromisso com a investigação, passará por uma fase de constantes buscas, sem ter, de fato, um
interesse, com foco num assunto e num tema.

Contudo, se o assunto e o tema já fizerem parte de sua vivência, já terá questionamentos, pois
tem olhado para a questão‑problema, bem como apresenta dúvidas sobre o que vem presenciando e
estudando, e isso o instigará à investigação. Para que esta se efetive, deverá ter pontos de partida, que
são as perguntas que você pretende realizar para a busca das respostas científicas.

A sensação ou mesmo a concretização da dificuldade de problematizar pode ter como causa a


ausência de maturidade sobre o tema, portanto a revisão da bibliografia sobre o assunto favorece o
olhar com foco, que possibilita a definição do tema.

Dessa construção que cuida de cada etapa, sem negligenciar sua sequência, estabelece‑se a
sustentação da pesquisa, que se concretiza com o amadurecimento, para o êxito da formulação de um
problema de pesquisa.

Para Gil (2008), o problema de pesquisa deve satisfazer alguns requisitos metodológicos, tais
como ser:

a) claro e preciso;

b) empírico;

c) delimitado;

d) passível de solução (GIL, 2008, p. 162).

Ao problematizar o tema, os conceitos e os termos usados na enunciação não devem dar margem a
dúvidas e ambiguidades, o que resultará em uma apresentação clara e precisa.

O questionamento da situação‑problema precisa ser passível de observação na realidade, que pode


ser captada por meio de técnicas, métodos, estratégias e instrumentos próprios.

Cuide para que o problema, por meio do questionamento, esteja delimitado, isto é, tenha um foco,
com objetividade, assertividade e diretividade.

Por fim, será necessário buscar resolver os questionamentos a partir de critérios metodológicos e
científicos, de forma que seja passível de solução.

Essas quatro dimensões devem ser utilizadas por você, para que examine se há ou não consistência
no problema delimitado. Para isso, deve olhar, escrever, reescrever e perguntar‑se: os termos utilizados
estão corretos e claros? Os questionamentos levantados são passíveis de solução com os instrumentos,
as estratégias e as técnicas adotadas? A situação‑problema está delimitada num determinado foco? A
demanda levantada para a pesquisa é empírica?
49
Unidade I

Você deve estar se perguntando como fazer isso. Para formular um problema, você terá de transformar
o tema em uma pergunta. Com esse objetivo, vamos buscar nosso assunto (Adolescente em Conflito
com a Lei), o tema (Adolescente em Medida Socioeducativa), a delimitação do tema (Adolescente em
Cumprimento de Medida em Meio Aberto) e elaborar uma frase interrogativa:

— Quanto tempo os adolescentes atendidos pelo Creas de Pirapuã levam para cumprir a medida
socioeducativa em meio aberto de liberdade assistida?

Observe que não perguntamos o tempo estabelecido por lei para a medida socioeducativa de
liberdade assistida, que é de 6 a 36 meses; nem estamos pesquisando mais de uma medida, pois
isso seria mais um fator significativo que poderia influenciar os resultados. Perguntamos, a partir
da análise de dados reais, em um determinado serviço, de um município específico, tomando
por base o prazo estabelecido para a medida, quanto tempo o adolescente leva para cumpri‑la
efetivamente.

Essa problematização deve vir ao encontro da sua observação, a qual leva você a analisar os fatores
que envolvem a situação. Isso porque, como pesquisador da área de Ciências Sociais, suas perguntas
acabam por ser direcionadas para uma relação causal, ou que busca conceituar ou descrever a
ocorrência de um determinado fenômeno social, fazendo surgir novas perguntas para esse momento
de aprendizagem.

Retomando nosso exemplo, as questões serão:

• Por que os adolescentes em medida socioeducativa de liberdade assistida no Creas não a cumprem
no tempo deliberado em audiência? (Considere que o fenômeno é o descumprimento da medida
socioeducativa.)

• Quais as razões que levam o adolescente em medida socioeducativa a não respeitar o prazo
estabelecido?

• O que acontece com o adolescente em medida socioeducativa de liberdade assistida, atendido


pelo Creas de Pirapuã, quando não cumpre o prazo estabelecido na medida de execução?

Assim, você precisa saber se investiga a causa do fenômeno, originando uma pesquisa explicativa, ou
se pretende estudar a ocorrência do fenômeno, gerando uma pesquisa descritiva.

Muitos pesquisadores em fase de elaboração de projeto de pesquisa acadêmica de graduação se


descuidam da delimitação do problema, não elaboram os questionamentos com precisão, não fazem o
devido recorte e acabam realizando uma leitura superficial das referências teóricas e apresentando o
projeto em forma de síntese sobre o tema.

Esperamos ter conseguido transmitir a beleza de uma delimitação do problema, em que o foco de
seu trabalho se estabelece, explicando o que vai buscar em sua pesquisa.

50
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Retornemos ao exemplo. Caso você esteja realizado estágio num Creas, no Serviço de Medidas
Socioeducativas e perceba que muitos adolescentes demoram para cumprir a medida socioeducativa,
questione‑se:

• Por que eles não cumprem?

• Qual a postura do orientador de medida, dos executores do Sistema de Justiça e dos representantes
do Sistema de Garantia de Direitos diante desse fenômeno?

Perceba que esses questionamentos direcionam sua pesquisa, dando centralidade ao fenômeno
cumprimento versus descumprimento da medida socioeducativa, possibilitando abertura para a análise
dos resultados, tendo em vista as legislação que sustenta a proteção social e a corresponsabilidade dos
atores da sociedade civil e da gestão pública diante desse fenômeno.

Em metodologia, damos o nome de problema ao conjunto de perguntas que o pesquisador se


propõe a responder a partir de sua observação, que, pela experimentação ou pelo empirismo, pode
tornar‑se ciência.

Lembrete

O problema, geralmente, é feito sob a forma de pergunta(s). Assim,


torna‑se fator primordial que haja possibilidade de responder as perguntas
ao longo da pesquisa. Da mesma forma, aconselha‑se a não fazer muitas
perguntas, para não incorrer no erro de não serem apresentadas as
devidas respostas.

2.2 Delimitação do objeto de pesquisa

Quando você consegue delimitar o problema a ser pesquisado, já está caminhando para a delimitação
do objeto de pesquisa. Essas etapas são integradas e dialogam entre si, não sendo estanques ou separadas.
Aqui estamos construindo um passo a passo didático, na lógica de uma compreensão maior do porquê
do projeto de pesquisa, a partir de um fenômeno de interesse pessoal, podendo estar ou não inserido
em sua realidade prática.

Nessa etapa, vamos construir mais um recorte, que é o campo de observação, a partir de uma
determinada área do conhecimento e de critérios consistentes.

A delimitação do objeto de pesquisa é muitíssimo importante na elaboração do pré‑projeto de


pesquisa. Trata do eixo central do foco direcionado. Podemos compará‑la a um funil.

51
Unidade I

Figura 9 – A delimitação do tema é o primeiro passo para uma boa pesquisa

Temos o assunto e todo o referencial que podemos pesquisar – Adolescente.

Em seguida nos deparamos com um tema – Adolescentes em Conflito com a Lei.

Isso nos faz chegar ao problema – Adolescente em Medida Socioeducativa.

Finalmente, temos o objetivo – Identificar o índice de descumprimento da medida socioeducativa no


Creas Felicidade, no município de Piedade.

3 RELEVÂNCIA DA PESQUISA: SOCIAL, TÉCNICA E CIENTÍFICA

Reconhecemos que vivemos em “tempos de crise”, diante da expansão desenfreada do capital,


em que a humanidade busca alcançar uma fase ou um estágio de sociabilidade ainda impossível de
presenciar ao longo da história.

Esse é o momento de estabelecer contato com a realidade concreta, com reflexão, despido
de preconceitos, prejulgamentos e pré‑saberes, desvelando o cotidiano e as relações sociais a ele
pertencentes.

Contudo, existe a capacidade de ver e entender a dinâmica de sociabilidade humana, em sua


organização social. Essa compreensão se dá a partir de um movimento dialético do ser, enriquecido
de saber, que o impulsiona para a transformação do mundo. Sendo assim, o campo do desconhecido
vai ficando para trás, deixando a obscuridade, e é a partir disso que a sociedade de classes se organiza,
muitas vezes condicionada pela lógica da propriedade privada.

52
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Esse caminho ora trilhado serve para identificar a demanda pela produção de conhecimento e
pela reafirmação da interiorização de um Projeto Ético‑Político, instituído a partir da década de 1980,
comprometido com o projeto societário. É a busca do conhecimento, concretizada pela investigação a
partir de um vínculo teórico, em que o Serviço Social reflete teórica e criticamente sobre as necessidades
humanas, fundamentado na lógica da intervenção profissional, que permite o empoderamento da
realidade pelos sujeitos sociais.

É por meio da investigação com embasamento teórico e com análise social crítica que os assistentes
sociais desenvolvem sua ação, imanados nos movimentos da categoria profissional e do contexto
histórico.

Essa leitura sociocrítica se estabelece a priori e, em muitas situações, mistificada com a realidade,
conduzindo práticas de controle social que provocam uma imersão nas demandas institucionais, que
muitas vezes se desvinculam das demandas dos sujeitos sociais.

Isso provoca uma desvalorização da profissão, mas temos de refletir que somente com a
imersão nas realidades sociais e profissionais teremos condições de aprimorar o conhecimento,
por meio da análise crítica da prática profissional, sustentando‑se teórica e metodologicamente
em bases para uma nova ação. Esta se fortalece a partir de uma postura ideopolítica e ética
diante dos sujeitos sociais.

Estamos aqui falando do reconhecimento do profissional também como sujeito social imerso nas
questões sociais, que se pretende realizando um contínuo esforço investigativo de sua prática profissional,
para estabelecer, por meio da pesquisa social, numa perspectiva dialética, a efetiva ampliação do
conhecimento, expandindo a teoria e a metodologia da ação profissional.

A partir desse refletir contínuo e de sua concretização por meio da pesquisa social, que estabelece
indicadores de avaliação para as ações e articulações do profissional, diminuímos os riscos de
institucionalizar a prática profissional conservadora e expandimos as possibilidades de avanço, na
lógica da garantia de direitos dos sujeitos sociais, inclusive do profissional de Serviço Social. O contexto
histórico permeia a emersão da área e sua institucionalização, mas, processualmente, a apreensão das
suas formas de ser e existir no mundo social permite seu autorreconhecimento como profissão inserida
em um movimento maior.

Isso é o que conhecemos por adotar uma postura, escolher um caminho ético e político, em que
a teoria se renova diante de cada análise crítica das relações societárias, na busca da sociabilidade
humana, em que a opressão do homem pelo próprio homem seja criticamente avaliada e deixe de
ser reproduzida, fazendo‑se cumprir a premissa de liberdade estabelecida na Declaração Universal dos
Direitos Humanos (1949). Para ser alcançada, essa liberdade precisa de pressupostos anteriores.

Realmente isso nos parece, a priori, utópico. Sem dúvida, concordamos, mas, se nos permitirmos
optar pela naturalização e pela banalização, desconstruiremos nossa humanidade e sociabilidade. Esses
conceitos são fundamentais para o profissional de nossa área, que prima pela pesquisa social, para
construir um novo projeto societário, em que o sujeito social seja, de fato, sujeito de sua história.
53
Unidade I

Quando pretendemos realizar ações resolutivas, muitas delas podem ser pontuais e imediatistas; ao
contrário de negar a demanda, necessitamos enfrentar de forma política esse “jeitinho brasileiro”, ou “é
urgente”, ou “só para não morrer”, ou “enquanto não tem coisa melhor” e assim por diante.

Realmente temos de ser propositivos, utilizar criatividade e espontaneidade profissionais e até


mesmo pessoais para enfrentar esses desafios, e não permitir a “morte” de ideias, pensamentos e
pessoas, contudo esse não pode ser o nosso foco; pelo contrário, devemos ter nessas ações pontuais e
imediatistas a nossa chama condutora para efetivamente criarmos estratégias de enfrentamento das
violações de direitos, bem como de repugnância a elas.

Isso se estabelece por meio de uma prática inovadora e desafiadora, em que a análise crítica deixa de
culpabilizar os sujeitos sociais pelas suas desventuras, iniquidades, desigualdades e estabelece padrões
de conduta diante dessas violações de direitos que serão devidamente controladas.

Observação

Aqui, o termo controle é correto: revisita causas das violações de


direitos, não apenas consequências (como julgar que os violados têm culpa,
pessoal e socialmente, da ausência do Estado e das políticas públicas).

Estamos falando de uma ação transformadora que não se submete e não permite que o outro
se submeta aos desmandos dos que detêm o poder, mas que sustenta a democratização do poder
de escolha, a partir do suporte para se estabelecer, efetivamente, autonomia e independência de
pensar e agir.

Para se sustentar o Projeto Ético‑Político (PEP), os assistentes sociais não podem e não devem
limitar‑se às ações individuais e locais, mas precisam pensar no coletivo, donde se concretiza a efetividade
da pesquisa social científica, que avalia as ações e propõe – ética, política, teórica e metodologicamente
– novas intervenções técnico‑operativas. Saem, assim, das ações individuais para as ações coletivas
de uma categoria profissional, que se fundamenta e se expande com os demais saberes em ações
interdisciplinares e transdisciplinares, não permitindo a ausência, mas, sim, a capacidade investigativa e
interventiva transformadora.

Essa ação é madura e comprometida com o humano, suas relações sociais e, a partir daí, com
uma nova lógica societária, em que o profissional não se limita às ações imediatistas e às práticas
burocráticas, mas, verdadeiramente, torna‑se responsável, com base em sua ética profissional e humana.

Guerra (1993) reflete, a partir de Marx (2006):

Marx (2006, p. 31) já afirmara que “não há estrada real para a ciência, e
só têm probabilidade de chegar a seus cimos luminosos aqueles que
enfrentarem a canseira para galgá‑los por veredas abruptas”. Portanto, a
pesquisa imanente faz‑se necessária para aqueles que estão determinados
54
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

a destruir a perfídia construída pelo capital, que aumenta e complexifica


cotidianamente o estranhamento humano sobre sua humanidade.

Portanto, a partir do momento em que temos como direcionamento um


Projeto Ético‑Político que deixa clara uma opção tanto teórico‑metodológica
quanto política, diretrizes curriculares que preveem uma formação
profissional atrelada a escolhas políticas específicas e um Código de
Ética que fundamenta uma ação que tencione, ainda que minimamente,
transformações sociais, somos, e não podemos fugir da objetivação deste
compromisso, partes especializadas da grande mola propulsora movida e
movente das mudanças societárias em construção permanente (MARX,
2006 apud GUERRA, 1993, p. 87).

Somos chamados à responsabilidade profissional. Não é apenas uma questão de legado: no momento
em que nos apropriamos do conhecimento, estamos instrumentalizados para desenvolver a crítica, com
capacidade de questionamento e de investigação. A partir desse contato com a realidade, elaboramos
um novo saber, que não mais se esconde na “mundaneidade fetichizada” (GUERRA, 1993), mas que nos
conclama a aprofundarmos a pesquisa científica, a mudarmos o rumo da história e a redescobrirmos
novas formas de intervenção.

Daí a importância, para o assistente social, de pesquisar a partir de sua prática profissional, com rigor
científico, para estabelecer novas teorias que subsidiem um prática inovadora e transformadora.

4 ÚLTIMAS CONSIDERAÇÕES PARA O PRÉ‑PROJETO

4.1 Definição dos objetivos da pesquisa

Relaciona‑se com a visão global do tema e com os procedimentos práticos.

Objetivos indicam o que se pretende conhecer, medir ou provar no decorrer da pesquisa, ou seja, as
metas que desejamos alcançar. Podem ser gerais ou específicos. No primeiro caso, indicam uma ação
muito ampla; no segundo, procuram descrever ações pormenorizadas ou aspectos detalhados.

Uma ação individual ou coletiva materializa‑se por meio de um verbo. “Por isso é importante uma
grande precisão na escolha do verbo, escolhendo aquele que rigorosamente exprime a ação que o
pesquisador pretende executar” (BARRETO; HONORATO, 1998, p. 75).

Outro critério fundamental na delimitação dos objetivos da pesquisa é a disponibilidade de recursos


financeiros, humanos e de tempo para a execução da pesquisa, de tal modo que não se corra o risco de
torná‑la inviável. É preferível diminuir o recorte da realidade a perder‑se em um mundo de informações
impossíveis de serem tratadas (BARRETO; HONORATO, 1998).

• Objetivo(s) geral(is): indicação do resultado pretendido. Por exemplo: identificar, levantar,


descobrir, caracterizar, descrever, traçar, analisar, explicar etc.
55
Unidade I

• Objetivo(s) específico(s): indicação das metas das etapas que levarão à realização dos objetivos
gerais. Por exemplo: classificar, aplicar, distinguir, enumerar, exemplificar, selecionar etc.

Nessa etapa, você pensará a respeito de sua intenção ao propor a pesquisa. Deverá sintetizar o que
pretende alcançar com ela. Os objetivos devem ser coerentes com a justificativa e o problema proposto.
O objetivo geral será a síntese do que você pretende alcançar, e os objetivos específicos explicitarão os
detalhes e serão desdobramentos do objetivo geral.

Os objetivos informarão para que você está propondo a pesquisa, isto é, quais os resultados que
pretende alcançar ou qual a contribuição que sua pesquisa efetivamente proporcionará.

Os enunciados dos objetivos devem começar com um verbo no infinitivo, e este deve indicar uma
ação passível de mensuração.

4.2 O marco teórico conceitual da pesquisa

É de suma importância que o autor de um trabalho acadêmico científico seja honesto consigo mesmo
e com os autores pesquisados. Dizemos isso porque é muito comum fazermos recortes, especialmente
da internet, e colocarmos no trabalho como se a autoria fosse nossa.

Em primeiro lugar, precisamos entender que copiar um texto de outro autor sem sua autorização e
sem indicar as referências bibliográficas é considerado plágio. Vejamos claramente o que isso significa:

No Código Penal Brasileiro, em vigor, no Título que trata dos Crimes Contra a Propriedade
Intelectual, nós nos deparamos com a previsão de crime de violação de direito autoral – artigo
184 – que traz o seguinte teor: “Violar direito autoral: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1
(um) ano, ou multa”[BRASIL, 1940]. E os seus parágrafos 1º e 2º, consignam, respectivamente:

§ 1º Se a violação consistir em reprodução, por qualquer meio, com intuito


de lucro, de obra intelectual, no todo ou em parte, sem autorização expressa
do autor ou de quem o represente, [...]: Pena – reclusão, de 1 (um) a 4
(quatro) anos, e multa [...].

§ 2º Na mesma pena do parágrafo anterior incorre quem vende, expõe à


venda, aluga, introduz no País, adquire, oculta, empresta, troca ou tem em
depósito, com intuito de lucro, original ou cópia de obra intelectual [...],
produzidos ou reproduzidos com violação de direito autoral [BRASIL, 1940].

Discorrendo sobre essa espécie de crime, afirma Mirabete [2001]:

A conduta típica do crime de violação de direito autoral é ofender, infringir,


transgredir o direito do autor. O artigo 184 é norma penal em branco,
devendo verificar‑se em que se constituem os direitos autorais que, para
a lei, são bens móveis (art. 3º da Lei nº 9.610/98) [MIRABETE 2001, p. 371].
56
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Aquele que se propõe a produzir conhecimento sério, renovador do Direito, quer seja ele
professor, pesquisador ou aluno, se obriga a respeitar os direitos autorais alheios. Vejamos
o que diz a Constituição Federal vigente [BRASIL, 1988], em seu artigo 5º, XVII: “aos autores
pertence o direito exclusivo de utilização, publicação ou reprodução de suas obras [...]”. E a
devida proteção legal em legislação ordinária nós a encontramos na Lei nº 9.610/98, mais
precisamente nos seus artigos 7º, 22, 24, I, II e III, e 29, I.

Mas, se a própria Lei [...] citada nos informa, no seu artigo 46, [inciso] III, que não se
constitui ofensa aos mencionados direitos a citação, em livros, jornais, revistas ou em
qualquer outro meio de comunicação, de trechos de qualquer obra, desde que sejam
indicados o nome do autor e a proveniência da obra, onde constataremos a incidência
dessa contrafação (reprodução não autorizada) tão grave, especificamente entendida na
sua forma conhecida como plágio? Exatamente no modo como o plagiário se apossa do
trabalho intelectual produzido por outrem.

O plagiário recorre dolosamente aos expedientes mais sutis, porém não menos
recrimináveis, e não reluta em fazer inserções, alterações, enxertos nas ideias e nos
pensamentos alheios, muitas vezes apenas modificando algumas palavras, a construção das
frases, a fim de ludibriar intencionalmente e assim prejudicar, de forma covarde, o trabalho
original de alguém e ofendendo os direitos morais do seu verdadeiro autor.

Agindo desse modo, o plagiário tenta iludir a um só tempo tanto ao verdadeiro autor da obra
fraudada, como também a quem é dirigido o seu “trabalho”, inclusive a coletividade como um
todo, que irá absorvê‑lo. Ensina‑nos Costa Netto [1998], discorrendo sobre o delito de plágio:

Assim, certamente, o crime de plágio representa o tipo de usurpação


intelectual mais repudiado por todos: por sua malícia, sua dissimulação,
por sua consciente e intencional má‑fé em se apropriar – como se de
sua autoria fosse – de obra intelectual (normalmente já consagrada)
que sabe não ser sua (do plagiário) [COSTA NETTO, 1998, p. 189].

Concluindo, asseveramos que [...] um trabalho de pesquisa levado a efeito nos ditames
das normas metodológicas cabíveis, fincado num rigor científico necessário e inafastável,
deve ainda ser [...] revestido de uma indefectível postura ética por parte do seu autor, quer
seja ele mero estudioso, professor ou aluno de graduação ou pós‑graduação.

Agir com respeito perante não somente aquilo que se propõe a produzir com seriedade,
mas igualmente em relação às fontes pesquisadas, às ideias consultadas, aos pensamentos,
reflexões, pontos de vista, propostos em estudos e pesquisas já feitas, [...] para melhor ilustrar,
fundamentar ou enriquecer o seu trabalho científico, é o mínimo que podemos esperar de
alguém voltado para o conhecimento.

A atitude ética, acompanhada da boa‑fé que tanto esperamos de qualquer estudioso,


aluno, professor, pesquisador, passa, necessariamente, pelo respeito ao trabalho alheio.
57
Unidade I

Produzir conhecimento, sim, mas calcado na lisura e na decência, sem usurpação ou violação
do produto intelectual de quem quer que seja, eis uma obrigação, um dever imposto a
todo aquele que se propõe criar ou trilhar novos caminhos no mundo jurídico, através da
investigação e da pesquisa científicas.

A consciência a perdurar no pesquisador sério deve advir da certeza de que o verdadeiro


conhecimento precisa firmar‑se – sempre – em bases éticas. E essa consciência ética lhe
impõe que seja buscada e desenvolvida já nos primeiros passos da vida acadêmica. Que o
aluno se habitue com a pesquisa, aprendendo a desenvolvê‑la, mas sempre consciente de
que não poderá se descuidar da ética. E que os professores, como estudiosos por excelência,
como orientadores de pesquisas e responsáveis, direta ou indiretamente, pela iniciação
científicas de seus alunos, deem o exemplo e venham a lembrá‑los, a todo instante, do valor
da ética para a produção do conhecimento.

Com os inúmeros benefícios tecnológicos do mundo moderno, sobretudo com a


inserção do computador e da internet em nossas vidas, surgiram facilidades até há pouco
tempo impensáveis. O pesquisador sério – aluno, estudioso ou professor – pela facilidade
que tem de obter e trabalhar uma infinidade de informações disponíveis, sem sequer
precisar sair de seu local de estudo, vem se beneficiado com esses avanços tecnológicos.
Infelizmente, precisamos fazer uma constatação lamentável: se nos vemos beneficiados
por essas comodidades, passamos, em contrapartida, a viver sob a banalização do plágio.
Lamentavelmente, observamos o quanto é costumeiro se “produzir conhecimento” violando
os direitos autorais de alguém. Vemos, pois, verdadeiros furtos intelectuais serem praticados,
quase sempre de modo que gera impunidade, haja vista as dificuldades que surgem em bem
caracterizarmos esses delitos.

Muitos são aqueles que não têm qualquer escrúpulo em selecionar e copiar trabalhos
inteiros, trechos ou pequenos textos que pertencem a outrem, diretamente em proveito
próprio, ou mesmo para comercializá‑los junto a terceiros, auferindo lucros à custa
alheia. Assinam‑nos como se fossem os verdadeiros autores e pouco se importam com as
consequências de seus atos criminosos.

Com o advento da internet, como já dissemos antes, e as extraordinárias facilidades que


ela nos legou hodiernamente, essa situação se agravou, disseminando a ocorrência desses
furtos virtuais. Deparamos‑nos, então, com aquele plagiador que pratica a violação em
proveito de si mesmo ou de outrem, sob encomenda, comercializando trabalhos acadêmicos
prontos, maquiados pela leviandade de quem assim age. Mais do que um ilícito civil, uma vez
que afronta direito de personalidade do autor, constitucionalmente garantido, atingindo a
sua criação intelectual, nos deparamos também com um ilícito criminal gravíssimo, coberto
ainda pela inteira reprovação moral a que se sujeita aquele que pratica o plágio.

Fonte: Instituto Brasileiro de Hipnologia (2010).

58
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Estamos plenamente esclarecidos sobre essa situação de plágio. Portanto, certamente, não vamos
incorrer nesse ato, especialmente porque dedicamos três longos anos de nossas vidas para nos
qualificarmos e nos tornarmos profissionais que trabalham com as desigualdades sociais, sendo uma
destas a própria desigualdade intelectual e educacional.

Nessa reta final, todo o esforço dedicado é para que a conduta ética e política seja concretizada
tanto na nossa atuação profissional quanto na elaboração de planos, programas, projetos e relatórios de
prática profissional e de pesquisa social, com segurança na qualidade da apresentação, da justificativa
e do referencial teórico.

Esse é o marco: sempre que identificamos um assunto, colocamos foco num tema, e pesquisamos
criticamente os fatores que o envolvem, delimitamos problemas e hipóteses em torno do tema ou até
mesmo de uma situação‑problema, que suscite nossa análise aprofundada. Surge daí o interesse pela
pesquisa científica.

Contudo, é vital que, ao olharmos para nossas hipóteses diante do problema, não nos limitemos ao
nosso “achismo” – “teorização fundada no subjetivismo do ‘eu acho que’ (aplicável a qualquer campo
teórico)” (HOUAISS, 2009), mas que nossa consciência esteja desperta para investigarmos o que já foi
escrito e pensado sobre o mesmo tema ou problema.

Assim, diante de uma teoria já elaborada, vamos encontrar a sustentação daquilo que buscamos
compreender cientificamente, mas com honestidade intelectual e com a devida abrangência, pois um
mesmo tema possui teorias convergentes e divergentes, que devem ser mencionadas antes de se partir
para a busca de afirmações e confirmações desta ou daquela linha teórica.

No momento da revisão teórica, temos de considerar as diferentes preferências políticas e filosóficas,


para sustentar a análise dos dados que serão coletados em nossa pesquisa, posto que, em Ciências
Humanas ou Sociais, existe um movimento contínuo e inacabado que merece sempre ser inovado e
acrescido de novos olhares e saberes interdisciplinares.

Caso tenhamos clareza da postura ética diante dos autores e em respeito às diversidades e
pluralidades das teorias na área das Ciências Humanas ou Sociais, cabe‑nos entender o que é
marco teórico, pressuposto teórico e qual a diferença entre esses conceitos. É o que vamos buscar
esclarecer aqui.

Definimos como marco teórico a afirmação específica de um autor elaborada para definir uma
situação‑problema. Vejamos, por exemplo, como Adailza Sposati define proteção social:

Proteção social: o sentido de proteção (protectione, do latim) supõe, antes


de tudo, tomar a defesa de algo, impedir sua destruição, sua alteração. A
ideia de proteção contém um caráter preservacionista – não da precariedade,
mas da vida –, supõe apoio, guarda, socorro e amparo. Esse sentido
preservacionista é que exige tanto a noção de segurança social como a de
direitos sociais (SPOSATI, 2009, p. 21).
59
Unidade I

Assim, se o TCC tiver como objetivo identificar o modelo de proteção social no Brasil, o marco teórico
poderá ser de Sposati (2009, p. 21), na lógica da proteção social como “proteção à Vida – supõe apoio,
guarda, socorro e amparo”. Assim, seu trabalho versará sobre esse referencial teórico.

Todo o contexto de proteção social estará em vinculado à sua escolha, pois você deverá selecionar
o marco referencial para seu trabalho, baseado nas investigações, reflexões, explicações e conclusões
de um determinado autor. É uma escolha de perspectiva de abordagem que vai acompanhá‑lo nos
capítulos de referencial teórico, metodologia, análise da pesquisa e considerações finais.

Se o marco teórico for alterado, você terá de rever o problema, os objetivos e as hipóteses. Modificar
o marco teórico significa mudar o rumo da pesquisa, ou seja, recomeçar.

Já pressupostos teóricos, são os diferentes autores que tratam do tema Proteção Social, com suas
peculiaridades, bem como conceitos que deverão ser questionados pela pesquisa, podendo ou não ser
sustentados pelo marco teórico.

Por isso, anteriormente, explicamos que pesquisa bibliográfica é muito detalhista, pois requer uma
busca conceitual e esmiuçada sobre o tema e os conceitos, podendo, a partir do marco teórico, ser aceita
ou rejeitada cientificamente.

Estamos fazendo, com este livro‑texto, um caminho para sistematizar a elaboração do seu trabalho
de conclusão de curso. Por isso, acompanhamos as etapas, para que o processo de concepção, execução
e análise da pesquisa não seja traumático, mas, sim, gratificante.

4.3 Formulação de hipóteses

Se quisermos estabelecer um caminho para o trabalho de conclusão de curso, será importante


elaborarmos desde o projeto de pesquisa as hipóteses ou suposições que temos sobre o tema ou
problema a ser pesquisado.

Como em muitos casos sua pesquisa será de campo, pode ser que você tenha suposições que o
intriguem e o mobilizem a buscar esclarecimentos sobre o real funcionamento de um serviço de sujeitos
sociais. Por isso, em Ciências Humanas ou Sociais, podemos chamar de hipóteses ou suposições,
contudo o termo coloquialmente utilizado é hipóteses.

Outra preocupação que não deve existir é se sua hipótese será sustentada ou não, pois a pesquisa
servirá exatamente para isso. Seu achado de pesquisa poderá mudar totalmente sua hipótese; isso é
plenamente aceitável e sustentado teoricamente.

Assim, as hipóteses marcam o caminho da pesquisa, indicam a metodologia a ser utilizada e


definem o marco e os pressupostos teóricos. Lembramos que é muito producente já ter isso claro no
projeto de pesquisa, mesmo que durante a pesquisa as hipóteses sejam verificáveis, comprováveis
ou negáveis.

60
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

A redação das hipóteses, a princípio, pode causar insegurança, mas esse aprendizado, que nesse
momento pode estar no começo, quando de sua vida acadêmica e profissional, será um facilitador para
projetos de mobilização de recursos, planejamentos estratégicos, planos de trabalho (longo, médio e
curto prazo), artigos e novos trabalhos acadêmicos.

Muitas vezes, no pré‑projeto, indicamos hipóteses e, quando iniciamos a revisão de literatura


e identificamos o marco teórico, ou até mesmo quando nos deparamos com o campo de pesquisa,
precisamos fazer alterações, o que poderá causar frustração.

Não há como garantir que isso não acontecerá; contudo, se durante o estágio tivermos feito bons
relatórios, com crítica teórica sobre as violações de direitos, teremos um caminho percorrido que poderá
diminuir muito esse sentimento de frustração, pois não partiremos do nada; ao contrário, teremos uma
base prática e teórica.

Muitas vezes, o aluno busca um novo tema, desconsiderando o que presenciou e estudou no decorrer
do curso, justamente o que pode lhe dar sustentação e um marco inicial para a indicação de suas
hipóteses. Assim, que tal rever suas anotações de estágio e de aula? Pode lhe ajudar muito.

Para a monografia de graduação, não há exigência de novos achados de pesquisa; estes podem ser
de confirmação do que já existe. Isso pode facilitar, você não acha? Mas, se quiser e tiver empenho desde
sua monografia de graduação, já poderá indicar um novo aspecto, ainda pouco pesquisado e analisado.
Isso será muito estimulante, não é?

Vamos conceituar hipóteses segundo dois autores:

Hipótese é uma expectativa de resultado a ser encontrada ao longo da


pesquisa, categorias ainda não completamente comprovadas empiricamente,
ou opiniões vagas oriundas do senso comum que ainda não passaram pelo
crivo do exercício científico. Sob o ponto de vista operacional, a hipótese
deve servir como uma das bases para a definição da metodologia de pesquisa,
visto que, ao longo de toda a pesquisa, o pesquisador deverá confirmá‑la ou
rejeitá‑la no todo ou em parte (BARRETO; HONORATO, 1998, p. 78).

Vamos buscar o exemplo de proteção social que apresentamos no marco teórico referente a esse
tema. Se nossa pesquisa tiver como objetivo geral “analisar o grau de proteção social oferecido às
famílias inseridas no programa de transferência de renda do Benefício de Prestação Continuada – pessoa
idosa – BPC‑Id referenciadas no Cras I de Amanacá”, teremos de elaborar hipóteses que analisem esse
nível de proteção social.

Logo, podem‑se estabelecer uma hipótese de aspecto teórico e duas de aspecto prático:

• Hipótese 1 – O programa do BPC oferece o mais alto nível de proteção social aos seus beneficiários,
pois lhes garante vida digna após os 65 anos.

61
Unidade I

• Hipótese 2 – Os beneficiários do BPC do município de Amanacá são atendidos sistematicamente


com qualidade pelas políticas públicas municipais.

• Hipótese 3 – A inclusão da pessoa idosa do município de Amanacá no programa de BPC abrange


todos os que se preenchem os critérios.

Nesse caso, partimos de hipóteses com caráter de valoração do programa, sem crítica, identificando
apenas pontos positivos e tendo como marco teórico que a proteção social no Brasil realmente trabalha
com a preservação da vida.

Contudo, podemos, ao contrário, buscar com o mesmo objetivo e com o mesmo marco teórico
hipóteses que também analisem as vulnerabilidades do programa:

• Hipótese 1 – O programa do BPC não efetiva a proteção social aos seus beneficiários, pois não
existe suporte integral das políticas públicas que garantam vida digna após os 65 anos.

• Hipótese 2 – Os beneficiários do BPC do município de Amanacá não são atendidos sistematicamente


com qualidade pelas políticas públicas municipais, especialmente pelas de Assistência Social,
considerando que estas executam a inclusão, mas não o acompanhamento.

• Hipótese 3 – A inclusão da pessoa idosa do município de Amanacá no programa de BPC não


abrange todas as famílias que preenchem os critérios, pois não existe divulgação sobre tal
programa.

Aqui temos um caminho já definido para a metodologia, que deverá buscar uma revisão bibliográfica
sobre proteção social e sobre o Beneficio de Prestação Continuada, com foco na pessoa idosa. Depois temos
uma pesquisa quantitativa, por meio de procedimentos de consulta a bancos de dados do ministério de
Assistência Social e do Cras I; e uma pesquisa qualitativa, com procedimentos de aplicação de questionário
aos beneficiários do programa ou mesmo com depoimentos ou histórias de vida. Assim, a partir de suas
hipóteses, será identificada sua metodologia, que apresentaremos na unidade II deste livro‑texto.

Estamos chegando ao final desta primeira unidade, em que nos propusemos a apresentar a
construção do pré‑projeto de pesquisa em Serviço Social. Esperamos que tenha esclarecido suas
dúvidas e que este material facilite a construção de sua pesquisa e do respectivo relato.

Resumo

Neste livro‑texto, estamos considerando que seu pré‑projeto já tenha


sido elaborado; contudo, retomamos, nesta unidade, pontos pertinentes e
de sustentação de sua pesquisa e respectiva análise.

Nesta unidade, relembramos pontos fundamentais para realizar uma


pesquisa: o que pesquisar? (definição do problema, hipóteses, base teórica
62
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

e conceitual); para que pesquisar? (propósitos do estudo e seus objetivos);


por que pesquisar? (justificativa da escolha do problema); como pesquisar?
(metodologia); por quanto tempo pesquisar? (cronograma de execução);
com que recursos? (orçamento); e a partir de quais fontes? (referências).

Partimos do princípio de que você já teve contato com fundamentos


históricos, técnicos e metodológicos, políticas públicas, Ética, Sociologia,
Antropologia, Psicologia, Direito etc., já tem uma base sólida de
conhecimento generalista e iniciou seu contato com a prática profissional
no campo de estágio. Isso lhe garante uma vivência diante do objeto
do Serviço Social, dando‑lhe embasamento e habilitando‑o para fazer a
escolha de um tema.

Lembramos que deve ser escolhido o assunto de pesquisa e que, em


seguida, é preciso ainda afunilá‑lo, restringi‑lo, circunscrevê‑lo.

Aprendemos que, em pesquisa, chamamos de “estado da arte” o que já


existe pesquisado sobre o assunto, conceitos, achados de pesquisa, análises
de dados, entre outros, que estão na literatura para ser objeto de pesquisa.
Vimos também que é a partir dessas pesquisas já realizadas que construímos
o referencial teórico.

Abordamos como fazer a revisão histórica de tudo que já foi escrito


sobre o tema que escolhemos, obviamente com um recorte de autores
selecionados, já que algumas revisões de literatura são muito extensas,
considerando o enorme número de publicações existentes. Vimos essas
informações aplicadas a uma pesquisa, ou seja, aprendemos a realizar
um recorte, encontrar um assunto específico diante de tudo o que foi
encontrado para pesquisar.

Aprendemos também que o questionamento da situação‑problema


precisa ser observável na realidade, e que a observação pode ser realizada
com o uso de técnicas, métodos, estratégias e instrumentos próprios.

Destacamos que o problema, deve ser delimitado por meio do


questionamento. Deve ter um foco, com objetividade, assertividade e
diretividade. Além disso, vimos que a delimitação do objeto de pesquisa é
muitíssimo importante na elaboração do projeto.

Enfatizamos também que, para sustentar o Projeto Ético‑Político (PEP),


os assistentes sociais não podem nem devem se limitar a ações individuais
e locais. Ao contrário, precisam pensar no coletivo, donde se concretiza a
efetividade da pesquisa social científica.

63
Unidade I

Vimos que os objetivos informarão por que você está propondo


a pesquisa, isto é, quais os resultados que pretende alcançar ou qual a
contribuição que sua pesquisa proporcionará efetivamente. Com esses
objetivos, passamos a definir qual será o marco teórico (afirmação
específica que um autor elabora para definir uma situação‑problema e que
condiz com nossos pressupostos ético, político, teórico e metodológico
desenvolvidos ao longo de nossa formação).

Aprendemos ainda que, a fim de estabelecer um caminho para o


trabalho de conclusão de curso, é importante elaborar, dede o projeto de
pesquisa, as hipóteses ou suposições que temos sobre o tema, bem como o
problema a ser pesquisado.

Assim, estamos preparados para definirmos os caminhos metodológicos


da pesquisa.

Exercícios

Questão 1. Ao redigir os objetivos da pesquisa, enunciamos o que pretendemos conhecer, medir


ou provar. Ou seja, enunciamos as metas a serem alcançadas. Alguns objetivos são gerais e outros são
específicos. Para enunciá-los iniciamos as orações com um verbo no tempo infinitivo e esse verbo deve
indicar o mais precisamente possível a ação a ser desenvolvida.

Com base nessas informações, considere as alternativas apresentadas a seguir e assinale a correta.

A) Os verbos utilizados para enunciar objetivos específicos devem indicar uma ação de amplo
espectro, enquanto os verbos utilizados para enunciar objetivos gerais devem descrever ações
pormenorizadas ou aspectos detalhados.

B) Na etapa de delimitação dos objetivos da pesquisa ainda não se faz necessário o levantamento de
dados sobre a disponibilidade de recursos financeiros, humanos e de tempo para a execução da
pesquisa. Tal procedimento deverá ser adotado em uma etapa posterior.

C) Ao enunciar os objetivos específicos de sua investigação, o pesquisador não deve preocupar-se


com o fato de esses objetivos serem coerentes com a justificativa e o problema proposto. Tal
preocupação é justificável somente na etapa de formulação de objetivos gerais.

D) Enquanto o objetivo geral representa a síntese daquilo que se pretende alcançar, os objetivos
específicos explicitam detalhes e constituem desdobramentos do objetivo geral.

E) Na prática não há diferenças significativas entre o objeto da pesquisa e o objetivo da pesquisa.


Esses termos são equivalentes.

Resposta correta: alternativa D.


64
PROJETOS DE PESQUISA EM CONTEXTOS ESPECÍFICOS

Análise das alternativas

A) Alternativa incorreta.

Justificativa: de fato, os verbos utilizados para enunciar os objetivos gerais é que devem indicar uma
ação de amplo espectro. Os verbos utilizados para enunciar os objetivos específicos farão a previsão das
ações pormenorizadas ou de aspectos detalhados da pesquisa.

B) Alternativa incorreta.

Justificativa: é indispensável saber com que recursos se poderão contar para tornar viável
a pesquisa pretendida. A própria delimitação dos objetivos depende de conhecimento sobre a
disponibilidade de recursos de todo tipo para a sua realização, como os financeiros, os humanos
e os de tempo.

C) Alternativa incorreta.

Justificativa: tanto os objetivos gerais quanto os específicos devem ser coerentes com a justificativa
e com o problema proposto. Por isso, a justificativa e o problema também servem de parâmetro para a
definição de todos os objetivos.

D) Alternativa correta.

Justificativa: os objetivos específicos explicitam detalhes dos objetivos gerais. O enunciado dos
objetivos gerais deve ser realizado de modo a indicar a síntese da conclusão pretendida.

E) Alternativa incorreta.

Justificativa: o significado de “objeto da pesquisa” é distinto do significado de “objetivo da pesquisa”.


Esses termos não se equivalem. O objeto de pesquisa é normalmente delimitado com base no interesse
do pesquisador e constitui aquilo que ele pretende conhecer. Os objetivos, por sua vez, sejam eles gerais
ou específicos, referem-se ao tipo de conhecimento sobre um objeto particular que se pretende obter
por meio da pesquisa.

Questão 2. No âmbito dos estudos e das pesquisas acadêmicas, a denominação “estado da arte” se
refere a um universo que inclui uma série de informações. Leia atentamente as alternativas apresentadas
a seguir e assinale aquela que contém uma afirmativa incorreta. A expressão “estado da arte” designa
um universo que não inclui:

A) O conjunto de informações relativas ao conhecimento já construído sobre o assunto que se


pretende investigar.

B) A revisão histórica de tudo o que já foi escrito sobre o assunto que se pretende investigar.

65
Unidade I

C) O conjunto de autores que desenvolveram estudos e/ou pesquisas sobre o assunto que se pretende
investigar.

D) A identificação e a localização de publicações disponíveis sobre o assunto que se pretende


investigar.

E) O conjunto de artistas eméritos que ofereceram suporte visual a textos relativos ao assunto que
se pretende investigar, aí privilegiados os artistas da atualidade.

Resolução desta questão na plataforma.

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