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Polinização da manga

A agricultura vem passando nas últimas décadas por uma revolução tecnológica intensa
visando aumento na produtividade das culturas. Os avanços abrangem várias áreas tais
como: melhoramento genético com obtenção de novos híbridos resistentes às pragas e a
condições climáticas diversas, melhores conhecimentos sobre adubação, irrigação e
produção de máquinas e implementos de melhor desempenho. Porém, um dos fatores
determinantes na produção de muitas espécies vegetais é a polinização, principalmente a
entomológica, isto é, realizada pelos insetos. Essa polinização é, muitas vezes, renegada
a um plano secundário.

Antigamente havia um número satisfatório de agentes polinizadores na natureza.


Entretanto, devido ao crescimento da população mundial e conseqüente aumento da
demanda por alimentos, imensas áreas ocupadas por florestas foram desmatadas, dando
lugar às plantações. Com a destruição das florestas, local de nidificação de vários agentes
polinizadores, muitos deles sofreram uma drástica redução no tamanho de suas
populações e, outros foram até extintos. Sendo assim, algumas culturas tiveram menores
produções devido a esta queda no número de insetos.

Nos EUA, um terço das culturas agrícolas comerciais, além de espécies silvestres
dependentes da polinização para a sua perpetuação, tem sido prejudicada devido à
redução de insetos polinizadores. Muitos agricultores, conscientes dos benefícios
causados pela polinização, têm adotado o uso de colméias de abelhas Apis mellifera nas
floradas de suas plantações. Em torno de 60% da renda obtida pelos apicultores do
noroeste americano é obtida com o aluguel de colméias.

No Brasil, produtores de maçãs de Santa Catarina pagam entre R$ 20,00 e 50,00 aos
apicultores, por colméia padrão instalada, nos pomares, durante o período de floração das
macieiras.

Entretanto, é importante identificar os agentes polinizadores efetivos das diferentes


culturas. Com relação às frutíferas, pouco conhecimento se tem sobre os agentes
polinizadores na cultura da manga (Mangifera indica L.). A mangueira produz belos e
saborosos frutos, as popularíssimas mangas, que são consumidas em estado natural e
também aproveitadas pela indústria de doces para a fabricação de compotas, geléias e
sorvetes. Além disso, a cultura popular cita a mangueira como uma planta de importância
medicinal.

A manga é uma planta originária da Ásia que foi introduzida em quase todas as regiões
tropicais e subtropicais da África e da América, aportando no Brasil no começo do século
XVIII trazida pelos colonos portugueses. A mangueira se aclimatou de maneira admirável
no Brasil, tanto que hoje encontramos mais de 600 variedades. Sua família compreende
cerca de 79 gêneros, distribuídos pelo mundo. No Brasil, são produzidos 2,5 bilhões de
frutos/ano, em 68 mil hectares plantados.

A mangueira tem se destacado entre as fruteiras mais exportadas no mundo, estando o


Brasil entre os maiores exportadores juntamente com o México, Filipinas, Paquistão e
Índia. Esta é uma espécie frutífera, da família Anacardiaceae e originária da Índia, de onde
se difundiu para muitas regiões com clima tropical. Os principais produtores da fruta no
país são os estados de São Paulo e Minas Gerais, que, juntos, alcançam cerca de 50% da
área plantada e 25% do total da produção. Esta frutífera tem se destacado no setor
agrícola brasileiro, sendo o país o 8º produtor mundial e 3º exportador dessa fruta.

Sua árvore alcança até 12 metros de altura. Apresenta inflorescências em panículas com
flores pequeninas, hermafroditas ou de sexo separado, dispostas em cachos, com cores
variando do alvacento ao amarelo-esverdeado, apresentando seis pétalas lanceoladas, um
estame fértil e cinco estames rudimentares.
As flores da mangueira são androginodioicas, ou seja, suas flores podem ser
hermafroditas ou masculinas. As hermafroditas apresentam um ovário com uma câmara
que contém um óvulo, com o estilete disposto lateralmente, terminando em um único
estigma. Também em posição lateral ao ovário está o único estame fértil, sendo que
raramente observa-se 2 ou 3 deles. Além disso, pode-se notar a presença de estaminódios
menores, não sofrem deiscência (estéreis), sendo facilmente observáveis (5 destes).
Quanto à altura dos órgãos reprodutivos, o estigma e o estame fértil, geralmente,
encontram-se na mesma altura, o que pode permitir a autopolinização.

Quanto ao número de pétalas, assim como o de sépalas, foram encontradas flores com 4,
5, 6 ou 7 independente de serem masculinas ou hermafroditas. Sendo que o display floral
mais comum foi o de flores com 5 pétalas. As pétalas apresentam coloração vermelha,
rosada ou amarela dependendo de sua fenofase, sendo indicativo da idade da flor. As
pétalas apresentam-se ovais lanceoladas.

Os nectários se apresentam em discos, ou gomos, posicionados na base das pétalas, nas


flores masculinas, e entre as pétalas e o ovário nas hermafroditas, contendo uma fina
camada de néctar que formam uma película sobre os mesmos. O que sugere que os
visitantes para ter acesso ao recurso devem possuir aparelho bucal lambedor, como os
Diptera (moscas).

Algumas flores iniciam a abertura durante a noite e na manha seguinte encontram-se


totalmente abertas. Quanto à longevidade, notou-se que as flores apresentam-se aos
visitantes durante 3 dias. Alguns estudos apontam longevidade de até 5 dias.

O estigma permanece receptivo durante toda a vida da flor, desde sua abertura até a
fenofase 7, quando as pétalas iniciam o murchamento. Sabendo que a deiscência da
antera ocorre apenas aptos 48h da antese, o fato do estigma se apresentar
constantemente receptivo, provavelmente favorece a polinização cruzada nas fenofases
iniciais. Os grãos de pólen permanecem viáveis em todas as fases da flor.

A mangueira apresenta inflorescências cimosas de tamanhos variados com comprimento e


largura aproximados de 24,7cm e 22,7cm, respectivamente.

O número de flores nas inflorescências varia entre 280 a 1550 e a porcentagem de flores
masculinas nas inflorescências é em média, 17,0%, mostrando que na maioria das
inflorescências o número de flores masculinas é inferior ao número de flores
hermafroditas.

O período de floração é estendido de 18 a 28 dias, embora a iniciação floral dure de 2 a 3


meses. O desenvolvimento da panícula dura de 35 a 42 dias, sendo que as primeiras
flores só se abrem após se completarem os 21 dias.

Na mangueira observa-se autocompatibilidade com os grãos de pólen provenientes da


mesma flor, não havendo barreiras fisiológicas para a autopolinização, no entanto, a
mesma é dificultada pela separação temporal da funcionalidade dos órgãos reprodutivos:
estigmas receptivos ao longo de toda a vida da flor, enquanto as anteras sofrem
deiscência apenas 24h após a antese.

A polinização da mangueira é considerada um dos principais fatores que limitam sua


produtividade. Isto pode ser facilmente compreendido, pois nota-se um grande número de
flores produzidas pelas panículas e um reduzido número de frutos colhidos.

Os estudos indicam que a necessidade de polinização cruzada nas flores da mangueira


não é crítica, ao menos para a maioria dos cultivares. Entretanto, para se obter uma
produção considerável de frutos, há necessidade de insetos polinizadores para transferir o
pólen das anteras para o estigma dentro do cultivar.
Vários agentes têm sido descritos como polinizadores da mangueira. Além da auto-
polinização e da ação do vento, vários insetos (abelhas, formigas e moscas) tem uma
importante participação neste processo.

Vários autores apontam que as flores não apresentam características próprias de flores
anemófilas (polinizadas pelo vento) e considerou as flores da manga como entomófilas
(polinizadas por insetos).

O problema é definir qual inseto é um efetivo polinizador. Muitas espécies de insetos foram
observadas visitando as flores da mangueira, entretanto, sua importância como
polinizadores não ficou evidente. Singh (1954) citou que as abelhas A. mellifera não
visitaram as flores da mangueira, entretanto, esse mesmo autor, alguns anos mais tarde
(SINGH, 1960), listou esta planta com uma importante fonte de pólen e néctar para as
abelhas. Popenoe (1917) observou que a abelha A. mellifera foi o inseto himenóptero mais
importante para as flores, mas sua presença foi variável, possivelmente, por causa da
localização dos apiários ou por haver uma flora mais atrativa. Simão e Maranhão (1959)
também observaram uma baixa população de abelhas A. mellifera nas flores da
mangueira.

Em um estudo feito na Índia, observou-se que os principais visitantes pertenciam à ordem


Diptera, além de Coleoptera, Lepidoptera e Hymenoptera. Na Austrália, a maioria dos
visitantes observados pertencia às ordens Hymenoptera, Diptera e Lepidoptera e, no
Quênia, as flores foram visitadas por formigas (Decophylla longinoda) que nidificavam nas
árvores. Jirón e Hedström (1985) observaram que entre as espécies da ordem Diptera,
representantes das famílias Syrphidae, Calliphoridae e Tachinidae carregavam muitos
grãos de pólen nas pernas e superfícies ventrais da cabeça, tórax e abdômen, atuando
como potenciais polinizadores.

Carvalho et al. (2006) estudando a var.”Tommy Atkins” no Vale do São Francisco, BA,
observaram várias ordens de insetos: Diptera (67,4%), Hemiptera (14,0%), Coleoptera
(3,1%), Lepidoptera (1,9%), Neuroptera (0,8%) e Orthoptera (0,2%). Os insetos visitaram
as flores durante todo o período, alterando na composição entre o dia e a noite, mas com
maior abundância durante o dia. Esses autores consideraram a mangueira uma planta
cujas flores apresentam síndrome de miofilia, isto é, polinizada por moscas.

Halak (2008) observou que, em Ribeirão Preto, SP, em 2007, os insetos que visitaram as
inflorescências da mangueira foram: dípteros (47,1%) (Figura 1), seguidos
por Tetragonisca angustula (jataí) (26,1%), Diabrotica speciosa (15,6%), formicídeos
(6,8%) e a abelha africanizada A. mellifera (4,4%). Em 2008, foram observados dípteros
(62,2%), T. angustula (16,1%), coleópteros (10,3%), formicídeos (7,8%)
e A.mellifera(3,6%).

Figura 1. Díptero na inflorescência da mangueira.


Gerardi (2009) observou, em Ribeirão Preto, SP, que os insetos observados visitando as
inflorescências da mangueira foram dípteros (75,0%), seguidos por lepidópteros (5,77%),
coleópteros (3,5%), abelha africanizada A. mellifera (3,0%) (Figura 2), formigas (2,49%),
vespas (2,49%), abelha T. angustula (jataí) (2,49%) (Figura 3), abelha Trigona
spinipes (irapuã) (1,96%), crisopídeos (1,70%), percevejos (0,8%) e outros insetos (0,8%).
Os dípteros visitaram as inflorescências da mangueira das 9h00 às 18h00, apresentando
dois picos de freqüência: entre 10h00 e 11h00 e entre 16h00 e 17h00. Pela freqüência e
pelo comportamento de forrageamento, os dípteros foram considerados polinizadores da
cultura da mangueira. Os lepidópteros visitaram as flores da mangueira das 8h00 às
18h00, com um pico de freqüência às 9h00, para se alimentar de néctar.

Figura 2. Abelha Apis mellifera africanizada visitando a inflorescência da mangueira.

Figura 3. Abelha Tetragonisca angustula (jataí) visitando a inflorescência da mangueira.


O estigma permanece receptivo ao longo de todo o período em que as flores ficam
disponíveis aos visitantes, cerca de três dias, demonstrando que o horário da atividade do
visitante não foi determinante para definir sua função como potencial polinizador.

Uma planta deve se especializar no polinizador mais abundante e/ou efetivo quando a
disponibilidade do polinizador é confiável. A generalização deve ser favorecida quando a
disponibilidade do polinizador mais efetivo é imprevisível de ano para ano.

A mangueira pode ser considerada uma planta generalista quanto à polinização, se for
efetivamente polinizada por diversas ordens de insetos. Nesse caso, sua história evolutiva
pode ter passado por grandes variações, na composição de polinizadores, o que teria
provocado alterações nas pressões seletivas, impedindo a sua morfologia de se
especializar em um determinado grupo de insetos. Uma planta deve se especializar no
polinizador mais abundante e/ou efetivo quando a disponibilidade do polinizador é
confiável. A generalização deve ser favorecida quando a disponibilidade do polinizador
mais efetivo é imprevisível de ano para ano.
O fato de suas flores serem visitadas por várias ordens de insetos não significa que todas
elas possam atuar como polinizadores. Há a possibilidade dos insetos da ordem Diptera
serem polinizadores muito mais efetivos que os indivíduos das outras ordens. Isto pode ser
conseqüência de uma restrição que não permite que seja atrativa e acessível apenas aos
dípteros, mas também a outras ordens.

Normalmente, flores visitadas por moscas têm anteras e estigmas expostos, pétalas e
sépalas com cores claras e odores perceptíveis. Nessas flores, o néctar e o pólen são em
geral facilmente acessíveis, mesmo para espécies com aparelho bucal curto. Borboletas,
besouros, abelhas e vespas também costumam visitar essas flores.

Diversas espécies de moscas são atraídas pelo cheiro e pela cor das flores,
principalmente brancas, cor-de-rosa, amarelas e verdes. Podendo chegar a mais de 60 cm
de comprimento, as inflorescências da manga podem ter até 6000 flores, com ramos
verdes e avermelhados. As flores são pequenas, quando jovens são brancas com detalhes
amarelos e a medida que a flor envelhece, adquire uma tonalidade próxima à cor-de-rosa.
Estas características parecem ter evoluído no sentido de tornar a inflorescência ou as
flores mais atrativas às moscas.

Glândulas localizadas no interior das pétalas têm a função de secretar o néctar. Embora
esteja também disponível para insetos com aparelho bucal mastigador (ordem Coleoptera)
ou lambedor (como o das abelhas), as moscas aptas à absorção de líquidos, com seus
aparelhos bucais sugadores, parecem ser mais eficientes em se alimentar do néctar da
mangueira.

Não foi observado comportamento agressivo entre os insetos visitantes das inflorescências
da mangueira.

Pode-se concluir que as inflorescências da mangueira são visitadas por inúmeras espécies
de insetos, porém os que mais se destacam são os dípteros. A presença dos insetos
normalmente aumenta a porcentagem de frutificação das flores da mangueira

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