Você está na página 1de 4

CIPEIRO: ADVERSÁRIO OU PARCEIRO NA PREVENÇÃO ?

Neste momento em que vemos chegar a Presidência da República um operário muito


mais do que mantermos os olhos presos a análise da questão política pura e
simplesmente devemos aproveitar a oportunidade para reveremos a questão das relações
no ambiente de trabalho. Na minha forma de ver um grande equivoco ainda reinante em
nosso país diz respeito a forma com que é visto o trabalhador, em especial no que diz
respeito a sua postura e responsabilidade no tocante a prevenção de acidentes. Em
muitas empresas onde a cultura e as relações são mantidas a partir de óticas bastante
arcaicas – a alta direção e seus prepostos parecem que ainda enxergam o operário como
uma figura a ser tutelada em muitos aspectos e ao mesmo tempo – rigorosamente
cobrada e exigida em outros. Interessante notar que, por exemplo, que daquilo que diz
respeito à qualidade e produtividade – por exemplo – esperam-se do trabalhador uma
postura ativa e certo grau de decisão, no entanto, já no que se refere a sal segurança e
saúde a expectativa é bastante diferente. Sinceramente não sei como avaliar o quanto
esta “dualidade” tem alguma forma de validade, mas a experiência prática mostra que
não agrega qualquer tipo de valor.

Nesta mesma linha de raciocínio seguem as relações entre as empresas e as


representações dos empregados. Muitas vezes dissimulada em discursos de parceria
estão ocultas relações totalmente inconsistentes e via de regra desprovidas de qualquer
planejamento mais objetivo que tenha alguma tendência evolutiva. Sutilmente nada
mais ocorre do que um grande conflito – que nem mesmo pode ser chamado de
interesses – visto que a cada dia que passa fica mais comprovado o quanto os acidentes
e doenças ocupacionais são danosos aos objetivos do negocio em si. Certamente, muitos
dos dirigentes de empresas ainda não atentaram para tal situação, visto que o assunto via
de regra é tratado por especialistas que se encontram graus abaixo da alta direção: é
importante que este assunto mereça e receba uma análise bastante detalhada e que assim
com certeza seja tirado do meio das velhas tratativas feitas por profissionais que se
esqueceram de evoluir e enxergam as representações dos empregados como nichos de
oposição aos interesses do negócio. É preciso que as empresas passem a ter
interlocutores, verdadeiros homens de Recursos Humanos no lugar de velhos
domadores de departamentos de pessoal.

O QUE MUITA GENTE AINDA NÃO SE DEU CONTA

Mesmo que o mundo mude a cada segundo para algumas pessoas as mudanças e
necessidades demoram um pouco mais a chegar. Interessante dizer que isso não ocorre
apenas por falta de informação ou falta de condições de interpretar uma informação ou
tendência. Há muita gente no mercado com formação bastante interessante, mas que
infelizmente entende muito de toda teoria, mas jamais conseguiu ter humildade bastante
para aprender algo sobre prática. Por toda parte e por onde andamos temos notado que
há pouca diferença entre o velho profissional desatualizado e algumas brilhantes mentes
sem conhecimento prático das relações capital x trabalho – na minha forma de ver –
ambos tem quase o mesmo valor e utilidade.

É importante saber que as informações sobre globalização e concorrência mais do que


servirem para gerar noticias aterrorizadoras em quadros de avisos de empresas deveriam
também levar ao questionamento real sobre redução de custos e por conseqüência
aumento de competitividade. Todos os dias em todas as partes Diretores de companhias
tem chamado seus diretos para que em conjunto possam discutir formas e ações para
reduzir custos, obviamente muito destas exigências acabam recaindo sobre as chamadas
áreas improdutivas ou indiretas – onde geralmente estão locados os SESMT. Poucas
noticias se tem de propostas de redução de riscos e acidentes como forma de otimizar o
negocio – ficando o assunto restrito a redução de papeis, cópias, cortes na aquisição de
equipamentos, etc. Não sei se isso ocorre por falta de coragem ou conhecimento quanto
as grandes possibilidades de uma prevenção bem desenhada e trabalhada para contribuir
na redução dos custos – como também não sei – quantas folhas de sulfito são
necessárias economizar para fazer frente a um único acidente do trabalho.

Ao mesmo tempo parece-me estranho demais que ninguém ou quase ninguém tenha de
fato ainda atentado para as razões reais que levam as matrizes de suas empresas –
estabelecidas em países do primeiro mundo – a dedicarem séria atenção a questão
prevencionista. Certamente não seremos inocentes o bastante para estarmos apegados
apenas as questões sócio-humanitárias.

Crucial mesmo, no entanto talvez seja a visão paternalista-tutelar surgida da necessidade


de tentar ocultar problemas e desvios no cumprimento da lei – traduzindo – a postura
que a maioria das empresas adotou de tratar o assunto e segurança dos seus empregados
sem dar a esta voz ativa no processo. Com certeza muito desta postura veio da
necessidade de manter os trabalhadores distantes do conhecimento da lei - o que hoje –
em pleno século XII com um Sindicato em cada esquina e o direito trabalhista
amplamente divulgado não mais se justifica. É preciso que se entenda que o direito de
saber/dever de informar muito mais do que trazer problemas – como pensam ainda
alguns – leva quando bem conduzido a transferência de parte da responsabilidade ao
trabalhador. Não bastasse isso, a mesma postura contribui para o desenvolvimento de
consciência coletiva sobre o assunto – o que sem duvida alguma talvez seja um dos
grandes pilares para a melhoria da prevenção dentro das grandes empresas. Podem
alguns pensar que tais melhorias são meras conquistas sindicais – o que acha também
um equivoco apesar de reconhecer que a postura sindical foi um catalisador para tanto.
No entanto, o que diminui os riscos e melhora o ambiente é a consciência coletiva –
pois são os trabalhadores que estão ao pé das máquinas.

Por fim, com certeza deve ficar claro de que não há evolução real nas empresas que
tentam desenvolver sua mão de obra fragmentando o ser humano em partes.

O PAPEL DA CIPA

Pobre do administrador que não sabe lidar e aperfeiçoar suas lideranças. Transformam
aliados em inimigos.

Penso que poucos profissionais até hoje tiveram a paciência ou esperteza de analisar o
papel e potencial das CIPA dentro das empresas. Talvez se tivessem descido dos altares
dos antigos paradigmas... Interessante que muitos destes profissionais dedicam parte de
suas vidas a tentativa de estabelecer elos de comunicação e relação com o chão de
fábrica – mas erram de novo – quando o tentam desprezando as lideranças naturais. A
figura do cipeiro é bastante interessante, primeiro por ser fruto de um processo eleitoral
que de alguma forma gera compromisso dos empregados com seu eleito. Segundo,
porque via de regra na CIPA encontramos pessoas com algum grau de compromisso
com questões bastante valiosas aos operários. Muitos dizem que a CIPA nas grandes
empresas nada mais é do que um trampolim para a vida sindical – e em parte tem razão,
mas parecem – por outra parte – querer desconhecer que a grande maioria dos cipeiros
jamais deixa o universo da prevenção.

Interessante ouvir em mesas de reunião que fazer prevenção geralmente custa muito
caro – e saber que ao mesmo tempo naquela empresa onde estamos ouvindo este mesmo
comentário existem algumas pessoas eleitas e cujos salários são pagos pela mesma
empresa que houvesse por parte da direção uma definição clara e moderna poderia fazer
prevenção. Estranho ouvir de algumas pessoas a afirmação de que 90 % dos acidentes
ocorrem pelos famigerados atos inseguros e que estas mesmas pessoas não tenham
consciência que um grande remédio para tal diagnostica seria a atuação do trabalhador
conscientizando o trabalhador. Será que elas acreditam no que dizem ou ao menos
sabem algo de fato sobre o assunto?

Piores, no entanto do que os administradores de pessoal sem visão sobre o sobre o


assunto – são nossos colegas de SESMT que enxergam na CIPA uma oposição, um
estorvo ou algo assim. Interessante que muitos destes colegas saem repetindo pelo
mundo afora que o problema de segurança e saúde é dos trabalhadores e que estes
deveriam ser responsáveis – mas ao mesmo tempo insistem em desconhecer a
legitimidade destes como atores no debate sobre o assunto. De fato o problema de
segurança e saúde no trabalho é do trabalhador – o papel do SESMT é ser consultor. No
entanto as relações não amadurecem quando o SESMT tenta fazer da CIPA um “setor
auxiliar” e vê no Cipeiro – um estafeta.

Minha experiência profissional permite-me dizer com certeza que quando a empresa
tem uma política clara e decente em relação a CIPA esta corresponde de forma bastante
interessante e os conflitos – que obviamente não deixam de existir – passam a integrar
um grande processo evolutivo – seja de entendimento sobre os problemas, seja de
soluções práticas quase sempre contando com o apoio e mesmo idéias oriundos do chão
de fábrica. Quando deixamos de discursar ou jogar em quadros de propaganda a noção
de que a empresa pertence ao empregado, que o mais importante deste local é a sua
gente – é transformamos isso em prática de administração com certeza colhemos
resultados bastante interessantes. E interessantemente não estamos fazendo mais do que
legitimar uma situação. Talvez doa a alguns ter que deixar de lado a arte de ludibriar
para ter de fato que negociar – mas é importante que entendam que quando falamos de
segurança e saúde mais cedo – na prevenção – ou mais tarde – na correção – teremos
que fazer isso. Poucos notam que a cada dia o que não se paga para prevenir tem sido
gasto para corrigir – e às vezes sem que seja possível a correção plena.

Achar que o trabalhador ou suas representações não tem condições de administrar seus
interesses talvez seja uma das maiores tolices que se possa ter com conceito. Bem
provável que isso ocorra dentro de administrações distorcidas – mas se a administração
é ruim com certeza segurança e saúde não é o único problema na relação. O bem da
sobrevivência do profissional e mesmo em outra escala – do próprio negocio – é bom
entender que a dissociação cidadão-trabalhador que durante muitos anos reinou a cada
dia que passa tem sua distancia diminuída. Vale entender que muitas das exigências que
o mercado criou – algumas delas de fato sem qualquer justificativa prática como, por
exemplo, um grau maior de escolaridade para operar máquinas sem qualquer
complexidade, trouxe junto mais conhecimento, mais discernimento e politização. Não
olhar este quadro holisticamente e andar na contramão das relações.

Administrar a relação com a CIPA jamais foi tolher ou tomar conta da CIPA – este
modelo doentio só leva a problemas. Dentro do tempo de tantos comitês e similares
talvez seja interessante repensar o que pode ser proveitoso em relação ao comitê da
segurança e saúde – talvez assim deixando de ver a CIPA como apenas algo obrigatório
por lei e assumindo-a como parte do negócio encontre-se o caminho das pedras.

Propiciar a CIPA o pior dos treinamentos é deixar um barco solto numa noite escura de
tempestade. Penso que talvez seja melhor ter um barco com rumo, com conhecimento e
direção, pois é claro que a maior parte dos conflitos atuais e problemas surgem da falta
de informação.

Ignorar a CIPA é fazer com que esta ganhe força diante dos trabalhadores – e nem
sempre o tipo de força que tenha algum ganho em termos de prevenção. A grande
maioria dos cipeiros são lideres natos e assim tudo farão para ocupar e chegar ao lugar
de respeito que lhes é negado.

Por fim, conclui que há necessidade de uma avaliação bastante imparcial quanto a forma
atual de que nos relacionamos com a CIPA. Após esta avaliação buscar um
planejamento realista e adequado e daí em diante colher o bons frutos da famosa
parceria – real – pois só está conduz a alguma tipo de resultado duradouro.

Cosmo Palasio de Moraes