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Santos, Boaventura de Sousa, Para uma revolução democrática da justiça

Article  in  Revista Critica de Ciencias Sociais · January 2008

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Fabio De Sa e Silva
University of Oklahoma
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Revista Crítica de Ciências
Sociais
78  (2007)
Número não temático

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Fábio de Sá e Silva
Santos, Boaventura de Sousa, Para
uma revolução democrática da justiça
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Referência eletrônica
Fábio de Sá e Silva, « Santos, Boaventura de Sousa, Para uma revolução democrática da justiça », Revista Crítica
de Ciências Sociais [Online], 78 | 2007, posto online no dia 01 Outubro 2012, consultado o 30 Janeiro 2013. URL :
http://rccs.revues.org/765

Editor: Centro de Estudos Sociais


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Documento acessível online em: http://rccs.revues.org/765


Este documento é o fac-símile da edição em papel.
© CES
Revista Crítica de Ciências Sociais, 78, Outubro 2007: 173-176

Recensões

Santos, Boaventura de Sousa, Para uma revolução democrática da Justiça.


São Paulo: Cortez, 2007, 120 p.

Dentre os maiores benefícios que nós bra‑ que o Judiciário está situado no meio de
sileiros podemos auferir da conhecida em‑ uma forte contradição entre o surgimento
patia que Boaventura de Sousa Santos do neoliberalismo, o crescimento das de‑
nutre pelo país está a sua permanente dis‑ sigualdades sociais e o aumento da cons­
posição não só para analisar alguns dos ciência entre os cidadãos e cidadãs do
problemas que afligem a nossa sociedade, mundo em relação à injustiça que subjaz a
mas também para tomar partido de lutas esta condição. Noutras palavras, ele indica
importantes ao fortalecimento da nossa que vivemos num tempo no qual o incon‑
democracia. Um exemplo notável disso formismo ainda persiste e, o que é mais
ocorreu há bem pouco, quando ele esteve curioso, volta e meia se traduz na luta por
em Belo Horizonte para proferir uma pa‑ direitos, sobretudo quando a revolução e
lestra a uma platéia que não era composta o socialismo parecem ter sido postos para
por grandes nomes da ciência, mas sim fora da agenda política. Basta ver, por
pelos participantes do 6º Festival do Lixo exemplo, o caso do Movimento dos Tra‑
e da Cidadania, organizado pelo Movi‑ balhadores Rurais Sem-Terra (MST), que
mento Nacional de Catadores de Materiais ele oportunamente examina. Numa fase
Recicláveis (MNCR). inicial, o movimento era reticente quanto
Mas se o leitor quiser se restringir à fortuna a perseguir seus objetivos no âmbito do
analítica que resulta desse caloroso senti‑ sistema jurídico, até porque o direito pa‑
mento, uma boa recomendação é o seu recia servir apenas para oprimi-lo. Mas
mais recente livro, publicado pela Editora com o passar do tempo, ele começa a ven‑
Cortez. Baseado numa conferência que ele cer algumas lutas nos tribunais, tendo ad‑
proferiu em Brasília no dia 6 de Junho de mitido o direito de fazer ocupações de terra
2007 a convite do ministro da Justiça, a para pressionar por avanços na reforma
publicação engloba uma ampla análise do agrária. Essas circunstâncias ajudam a de‑
nosso Judiciário junto com diversas pro‑ senvolver, entre os Sem-Terras, a idéia de
posições para uma Revolução Democrática que afinal, “o direito é contraditório e pode
da Justiça, como o título bem sugere. ser utilizado pelas classes populares” (p. 30).
Existem três questões principais que aju‑ A outra conexão que ele deduz está rela‑
dam o sociólogo português a conduzir sua cionada com a corrupção. Em todo o
análise. A primeira pode ser colocada mundo, os Tribunais têm enfrentado maus
como: O que fez com que o Judiciário, que momentos ao lidar com a corrupção, seja
Alexander Bickel designou tempos atrás quando auxiliam no combate à corrupção,
como o menos perigoso dos poderes, se tor- seja quando são eles próprios focos de
nasse um ponto tão crítico no entendimento ­corrupção. Mas para manter a atenção
das democracias contemporâneas? Enfren‑ apenas no primeiro caso, o problema está
tando esse problema, o autor identifica em que “os tribunais não foram feitos para
duas importantes conexões entre direito, julgar para cima, isto é, para julgar os pode­
política e sociedade. Primeiro, ele sustenta rosos. Eles foram feitos para julgar os de
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baixo. As classes populares, durante muito ao fazê-lo, eles demandam um judiciário


tempo, só tiveram contacto com o sistema capaz de ouvi-los e entender as suas neces‑
judicial pela via repressiva, como seus uti‑ sidades como questões de direito e não de
lizadores forçados. Raramente o utilizaram filantropia ou caridade. Em outras pala‑
como mobilizadores activos”. Portanto, vras, demandam autoridades judiciárias
“no momento em que os tribunais come‑ que não os esmaguem “pela sua linguagem
çam a julgar para cima, em que começam esotérica, pela sua presença arrogante, pela
a incriminar e a julgar grandes empresários sua maneira cerimonial de vestir, pelos seus
ou membros da classe política, a situação edifícios esmagadores, pelas suas labirínti‑
muda”. Acontece o que o autor designa cas secretarias” (p. 31). É o caso dos “de‑
por uma “politização do judiciário, tor‑ sempregados e dos trabalhadores pre­
nando-o mais controverso, mais visível e cários, dos camponeses sem-terra, dos
vulnerável politicamente” (p. 22). indígenas espoliados, das vítimas de des‑
Nesse quadro, o autor enfrenta uma se‑ pejos, das mulheres violentadas, das crian‑
gunda questão: Por que existem tantas pres- ças e adolescentes abandonadas, dos pen‑
sões pela reforma da justiça, especialmente sionistas pobres” (p. 35). Se o ponto de
em países em desenvolvimento? Nova‑ vista dessas pessoas for considerado na
mente, ele argumenta que as causas cen‑ concepção das reformas da justiça, diz Boa­
trais encontram-se na contradição estrutu‑ ventura, então o resultado será uma dupla
ral enfrentada por essas sociedades. De um transformação: haverá maior acesso à jus‑
lado, existem as pressões econômicas tra‑ tiça, mas o maior acesso à justiça mudará
zidas pelo Banco Mundial, o Fundo Mo‑ a justiça a que se tem acesso.
netário Internacional e as agências mul­ Isso leva a uma terceira questão: Quais se-
tilaterais de apoio ao desenvolvimento. riam as características de uma reforma judi-
O ponto aqui é prover a circulação de ca‑ cial que adotasse como um princípio de
pital com rapidez e previsibilidade, garan‑ orientação o ponto de vista desses grupos
tindo-se o cumprimento dos contratos e marginalizados? Embora o autor transite
delineando-se um marco regulatório con‑ por vários assuntos ao responder esta per‑
sistente para os grandes negócios. Para um gunta, existem ao menos três grandes li‑
exemplo de como essa racionalidade pode nhas que embasam o seu argumento e que
vitimar a oferta de serviços judiciais, San- merecem ser enfatizadas.
tos menciona um estudo concluindo que A primeira linha passa por uma noção de
não menos que 81% dos casos de litigação direito que é plural, tanto em termos quan‑
civil em Lisboa tinham como objetivo a titativos quanto em termos qualitativos.
cobrança de pequenas dívidas e eram pro‑ Essa idéia surge com clareza, por exemplo,
postas por companhias de gás, eletricidade quando Boaventura discute como expandir
e telefone. Como conseqüência, o sistema o acesso à justiça. Ao invés de voltar os
como um todo acabava bloqueado para olhos apenas aos operadores formais, ele
diversas outras demandas relevantes para também inclui experiências populares de
os cidadãos, em casos como os de família, busca por direitos, como as “Promotoras
responsabilidade civil, etc. (p. 28). Legais Populares” e as “Assessorias Jurídi­
Todavia, as pressões para reformas tam‑ cas Universitárias”, dentre outros. A pri‑
bém vêm de baixo. Cidadãos organizados meira iniciativa é composta por mulheres
dispostos a lutar por uma vida melhor vão que recebem educação jurídica informal e
ao judiciário para reclamar por direitos, já trabalham nas comunidades em defesa de
se disse anteriormente. Mas acontece que outras mulheres. A última é integrada por
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estudantes de direito provendo assessoria de Santos é de que isso demandará novas


jurídica a movimentos populares, com atitudes por parte de quem atua na área.
atenção a conflitos estruturais e uso de es‑ Isso conduz à última linha de sua argumen‑
tratégias extremamente politizadas, no que tação, que se refere à cultura jurídica e à
vai muito além do serviço de varejo ofere‑ formação de operadores do direito. Neste
cido pelas clínicas jurídicas dos EUA ou ponto, ele defende profundas mudanças
os antigos escritórios-modelo nas faculda‑ no ensino jurídico, tanto ao nível das Fa‑
des brasileiras. Mas o fato é que ambas culdades quanto ao nível das Escolas de
encontram-se na fronteira entre o oficial e Formação Continuada vinculadas às pro‑
o não-oficial, como indicativo de que o fissões jurídicas. Mas que espécies de mu‑
direito é criado e distribuído na sociedade dança viriam a satisfazê-lo? Certamente,
não apenas em diferentes espaços e tempos, mudanças que ajudassem a dissolver as
mas também de diferentes maneiras, como crenças dominantes sobre o direito nas
já afirmei em outro lugar (Silva, 2007). quais ele aparece como algo autônomo,
A segunda linha refere-se a inovações ins‑ que só é excepcionalmente mobilizado
titucionais. A expressão se tornou lugar na dinâmica da vida em sociedade e que
comum nos debates sobre reformas judi‑ se realiza plenamente no âmbito do pro‑
ciais, mas o autor soube desde logo atri‑ cesso judicial.
buir-lhe um sentido particularmente enga‑ Exemplos concretos de como esse imagi‑
jado, como um meio para a construção de nário opera são dramáticos, e os seus efei‑
uma “justiça democrática de proximidade” tos já suficientemente negativos podem ser
(p. 59). Assim, ele parece compartilhar das potencializados ainda mais pela exposição
conclusões a que Maureen Cain e Christine dos Tribunais à grande mídia. A maioria
Harrington chegaram há cerca de dez dos juízes assume o mito da democracia
anos, ao perceberem que as demandas dos racial, criando uma grande barreira ao
espoliados não raro exigem novas for- avanço dos direitos civis no país (p. 67).
mas para serem veiculadas e processadas. Em outro plano, juízes criminais com uma
“A luta por regras (discursos) e a luta por mentalidade na qual a prisão é a melhor
instituições”, diziam as autoras, “mostram- resposta ao crime raramente condenam
-se interconectadas e intimamente conec‑ réus a qualquer das chamadas penas alter‑
tadas com o que parecia ser o limite do nativas, apesar da terrível realidade das
direito” (1994: 02). prisões brasileiras. Não parece por acaso
Com relação ao caso brasileiro, Santos que, recentemente, os Ministérios da Edu‑
­advoga por algumas alternativas que já são cação e da Justiça decidiram apoiar expe‑
bem conhecidas nos países do Norte, tais riências inovadoras nas Faculdades de Di­
como a conciliação, a mediação e a justiça reito, no âmbito do projeto “Reconhecer”.
restaurativa. Mas também põe holofotes Neste ponto, a constituição de uma zona
em dados bem particulares de nossa expe‑ de pesquisa-ação que à falta de melhor al‑
riência societária, como é típico de sua ternativa tenho designado por uma “Me‑
“sociologia das emergências” (2004). São todologia do Ensino do Direito” (Silva,
os exemplos da justiça comunitária, da 2007) pode ter muito a contribuir. Novas
justiça itinerante e dos juizados especiais. Diretrizes Curriculares para os Cursos
Como aproveitar essa diversidade para ­Jurídicos foram lançadas a partir de um
forjar um modelo de justiça e segurança amplo movimento de reforma desenca­
mais integrado à produção da cidadania deado nos anos 90 e há ricas iniciativas que
parece ser o grande desafio, mas a sugestão se constituem ou se fortalecem com base
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nas possibilidades aí inauguradas, como é nunca poderá ocorrer sem a revolução


o caso de “O Direito Achado na Rua” na ­democrática do Estado e da Sociedade”,
Universidade de Brasília ou do “Grupo mas cumpre a importante tarefa de nos
Interdisciplinar de Trabalho e Estudos recordar que “esta tão pouco será possível
Criminais-Penitenciários” na Universidade sem a revolução democrática da justiça”.
Católica de Pelotas. Mas apesar do bom Por isso, conclui: “É pertinente pergun-
trabalho que fazem ao relacionar o ensino tar pela contribuição do sistema judicial
jurídico com os desafios contemporâneos para uma tal revolução democrática mais
para a reinvenção da emancipação social, ampla. A contribuição é possível mas
muitas destas práticas permanecem caren‑ sob condição de o sistema judicial passar
tes de maior sistematização. a ser outro, muito diferente daquele que
Em suma, este livro oferece uma provoca‑ conhecemos”.
tiva contribuição para o campo e pode ser
proveitoso para mais de um público. Bra‑ Referências bibliográficas
sileiros e brasileiras que lidam com o sis‑ Cain, Maureen; Harrington, Christine (1994),
tema, como atores ou usuários, encontra‑ “Introduction”, in M. Cain; C. Harington
rão na publicação uma bela e progressista (orgs.), Lawyers in a postmodern world: trans-
agenda. Em que medida ela pode ser ou lation and transgression. New York: NYU
será implementada, isso é algo que depen‑ Press.
derá da maturidade da nossa democracia. Cummings, Scott; Eagly, Ingrid (2006), “After
Ao mesmo tempo, o livro ainda pode ilu‑ Public Interest Law”, Northwestern Univer-
minar alguns debates em andamento no sity Law Review, 100(3), 1251-95.
Norte. Pode-se achar curioso, por exem‑ Santos, Boaventura de Sousa (2004), “Para uma
plo, que uma revolução democrática da jus- sociologia das ausências e uma sociologia das
tiça esteja a ser concebida em algum lugar emergências”, in B. S. Santos (org.), Conhe-
enquanto nos Estados Unidos há muito cimento prudente para uma vida decente: ‘um
ceticismo sobre a busca por direitos nos discurso sobre as Ciências’ revisitado. São
Tribunais. Frente a conservadorismos polí­ Paulo: Cortez, 777‑821.
ticos e judiciários e ao fortalecimento do Silva, Fabio Costa Morais Sá e (2007), Ensino
capitalismo corporativo, até mesmo a jurídico. A descoberta de novos saberes para a
bem-estabelecida tradição do “public democratização do direito e da sociedade. Porto
interest law” enfrenta um destino incerto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor.
(ver, por exemplo, Cummings e Eagly Trubek, Louise (2005), “Crossing Boundaries:
2006; Trubek 2005). Nesse sentido, não Legal Education and the Challenge of the
seriam os Tribunais a coisa errada para se ‘New Public Interest Law’”, Wisconsin Law
pensar a respeito? Review, 2.
De certo, Santos não é ingênuo. Ele sabe
que “a revolução democrática da Justiça Fabio de Sá e Silva

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