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Manual do Sevite

Ninho da Serpente
Houngan Alexandhros

PARTE I

CENTRALIZANDO O SÈVITÈ

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Índice
Apresentação – 3 Os Nomes das Iniciações – 50

O Ninho da Serpente – 4 Requerendo uma Iniciação? – 52

A Problemática Cristã, O Vodu e Eu – 6 Brainstorm Resumido em 10 Passos – 53

Politeísmo x Henoteísmo x Monoteísmo – O Sèvitè – 55


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Sociedade Ninho da Serpente – 15 A Prática – 56

Um Vodu Pagão Merece um Símbolo Distribuição de Culto Pessoal e Altares –


Pagão – 16 60

Vodu Humanizado – 21 Sobre Utensílios e Consumíveis – 62

A Ética do Sacerdócio – 23 O Armário do Voduísta – 64

Diferentes Fanmis, Diferentes Regras – 26 O Calendário – 66

A energia das Loas – 28 Dias da Semana – 71

Vodu Deka, Ason e Dominicano – 31 As Cores das Loas – 71

Las 21 Divisiones – 37 Os Imprevistos – 73

Os Sete Chefes Espirituais – 42 Sobre as Divindades e as Wangas – 74

As Sete Potências Africanas – 43 Quando Fazer uma Wanga – 75

Banho das Sete Potências Africanas – 44 Qual Tipo de Wanga Escolher – 76

Sanse – 45 Dicas Gerais a se Considerar – 77

Las Madamas – 46 Vodu Não é Ortodoxo – 85

Os Congós – 48 Você é Responsável por você Mesmo – 86

Egrégora de Escravos – 49

Divisão Cigana – 49

Divisão Egípcia – 49

Divisão Náuatl - 49

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Apresentação
Vodu é muito mais do que simplesmente espetar bonecos e fazer zumbis. Sempre digo
isso por causa da crença popular sobre nossa religião. Mas o Vodu vai muito além
disso, como eu imagino que você já perceberam. O Vodu é um estilo de vida, quando
temos contato com ele e ele nos aceita da mesma forma que nós o aceitamos, nada
mais será o mesmo. Você pode até passar pelo Vodu como um mero curioso, como
alguns o fizeram, mas não se pode dizer que passaram por ele sem percebê-lo. Os
filhos do Vodu nasceram por todo o globo, claro, na (minha) opinião de um crente na
possibilidade da reencarnação.

O Vodu é uma religião muito exigente, e para sentir seus efeitos na vida, devemos nos
entregar totalmente a ele, devemos praticá-lo de fato. De tantos alunos nessas três
temporadas de curso, infelizmente alguns ficaram pelo caminho, não por serem menos
que qualquer outro, mas por não terem encontrado Papa Legba. Essa Loa é um filtro,
quando nós o aceitamos, quando o abraçamos em nossa vida, sabemos que entramos
para o Vodu. Este manual é para todos os alunos, embora as palavras aqui contidas
não vão ser compreendidas por todos.

Ainda que exista ordem pré-estabelecida na prática, a maioria das coisas deve ser feita
conforme o tempo e necessidade do Sèvitè. Por isso, tenho que dizer para que não se
prendam a este manual, não sejam robóticos. Usem este manual como um guia, uma
bússola, mas adaptem de acordo com a realidade pessoal. Não há nada de errado,
claro, seguir o manual, mas se o fizer com muita frequência, vai ficar muito automático
e frio. Nos meus primeiros meses de Vodu eu criei meu manual também, para me
ajudar como uma guia, e em uma religião tão complexa, achei de extremo valor. Por
isso decidi criar para vocês algo semelhante, para dar um norte na prática de cada um.

ATENÇÃO!!!
A IDEIA DESTE MANUAL É SER O MAIS SIMPLES POSSÍVEL, UMA FORMA DE
CONSULTA RÁPIDA PARA O MEMBRO DO NINHO DA SERPENTE. ISSO QUER DIZER
QUE OS VIÉS SACERDOTAIS NÃO SERÃO ABORDADOS. ESTA APOSTILA NÃO É UMA
AULA, MAS UM GUIA, UM MAPA!

Houngan Alexandhros

Ninho da Serpente

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O Ninho da Serpente
Mambo Bruja (Marie Touffin) era neta de Dominicanos que encontraram uma vida
melhor nos EUA na década de 50. Embora seus avós maternos praticassem o Vodu
Deka em sua versão Dominicana (Las 21 Divisiones) tal como era praticada em Santa
Cruz de Barahona, República Dominicana, seus pais eram cristãos apostólicos radicais.
Para o desespero deles, Mambo Bruja seguiu os passos de seus avós e se tornou
iniciada por seu Avô materno, Louis San José (Papa San José). Em 2 de Novembro de
1988, Mambo Bruja deu nome ao seu pequeno templo, Ninho da Serpente, que foi
criado na parte de baixo de sua casa, nos fundos de uma garagem sem uso. Mambo
Bruja era diabética e obesa, morreu em 1994 de complicações causadas por seu estado
de saúde.

Com a morte de Mambo Bruja, Mambo Wakenaton (Elizabeth Touffin) – minha


iniciadora –, sua filha mais velha, iniciada pela Mambo Bruja e por Papa Pierre, tomou
a frente do culto no mesmo local, na Rua Dumaine, 2545, em Nova Orleans. Muito
mais aberta e solícita, Mambo Wakenaton trouxe mais brilho para o Ninho da
Serpente do que sua mãe, Mambo Bruja, conhecida por sua tolerância zero em relação
aos brancos. Mambo Wakenaton era muito sábia, conhecia de tudo um pouco, era
amante da cabala, da bruxaria europeia e do espiritualismo norte americano. Era filha
de Papa Legba, o deus Sol, e Yemaya (Yemojá), uma deusa do Mar muito importante
no Vodu Dominicano. Além do espanhol e inglês, Mambo Wakenaton falava
fluentemente o francês, o alemão e o crioulo.

Mambo Wakenaton amava pessoas inteligentes, ela realmente podia passar horas
conversando com pessoas assim, enquanto bebia seu tão amado suco de limão e
comia muitos pretzels. Ela era apaixonada pelo Egito, era seu sonho conhecer esse
país, e por isso seu Nom Vaillant era Wakenaton. Wa significa Rei ou Rainha em
algumas línguas africanas, principalmente o Wolof; Akenaton vem do Faraó da XVIII
dinastia, Akhenáton (Aquele que louva Aton, o deus Sol). Assim, Wakenaton pode ser
traduzido de várias formas, entre elas, a Rainha, aquela que louva Aton, sendo aqui um
trocadilho, Aton, sendo o deus sol, está aqui sendo reinterpretado como Legba,
também uma divindade solar. No dia 5 de Março de 2005 Mambo Wakenaton morreu.
Talvez sua paixão pelo Egito tenha sido tamanha que ela foi para o Duat, não para o
Ginen (força de expressão!).

A Partir desse momento, Nazrat Bahrein Barak Touffin, ou simplesmente Mambo


Aveline, tomou a frente do Ninho da Serpente. Mambo Aveline era muito radical, não
concordava com o jeito solícito (para não dizer “humano”) de sua mãe, Mambo
Wakenaton. As mudanças que ocorreram no Ninho da Serpente com a chegada da
Mambo Aveline desagradou a muitos que simplesmente abandonaram o local, não
ficando mais que sete pessoas ali, inclusive eu – um pouco contra a vontade de
Aveline. O local que já era pequeno, ficou ainda menor, ao Aveline abrir uma pequena

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loja na outra metade do templo. O sincretismo que já existia desde sempre, embora
não tão explícito, passou a ser regra básica dentro do culto, com longas rezas católicas
antes, durante e depois dos rituais (ai de quem fosse contra!). Mambo Aveline era
implacável com seus filhos espirituais, não media palavras para nos xingar e nem
media esforços para nos castrar dentro da prática. Mas no fundo, não era uma má
pessoa, era seu jeito rústico de quem fora criada a ferro e fogo, era o jeito defensivo
de quem viu incontáveis vezes a mãe ser enganada por pessoas ruins, simplesmente
por causa de seu jeito solícito. Mambo Aveline, de fato, era a primeira a nos xingar,
humilhar e punir, mas era também a primeira a nos socorrer ou a nos proteger de
qualquer mal. Apesar de envolvida com o Vodu, Mambo Aveline nunca deixou de ir a
suas missas de domingo, mesmo estando doente. Filha de Agwe e Lasirèn, sua postura
nobre e sua arrogância são visíveis, e por isso mesmo a convivência com ela é bem
turbulenta. Mambo Pitit (Marie Louise Barak Touffin), sua filha mais nova, será quem
vai tomar a frente do Ninho da Serpente quando Mambo Aveline falecer.

Mambo Pitit é também uma boa pessoa, mas ela segue os mesmos passos da mãe,
colocando o catolicismo acima de tudo e de todos. É na verdade a forma Vodu comum,
nossas Loas acabam não tendo um rosto, pois ficam escondidas atrás dos santos
católicos. Nossas Loas ficam sem uma data comemorativa, pois acabam dividindo esse
calendário com os dias católicos, e muitas vezes as Loas sequer são mencionadas com
seu próprio nome. É a forma comum de se praticar Vodu... MAS NÃO É A MINHA
FORMA DE PRATICAR VODU.

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A Problemática Cristã, O Vodu e Eu
Para chegar aonde cheguei, quantas rezas católicas eu fingi rezar, quantos juramentos
em nome de um “deus todo poderoso” eu tive que fingir, enquanto mentalmente eu
jurava em nome do grande deus Solar e da grande deusa Lunar, sejam eles quais
forem. Não tenho dedos em minhas mãos e pés para contar quantas velas tive que
acender aos pés de santos católicos, enquanto pedia perdão aos verdadeiros deuses
por tamanha ofensa. Para Mambo Aveline, não importavam meus motivos, tudo se
resumia na frase “hace lo tradicional”.

Sou pagão de nascimento, sou pagão de alma, de origem. Não sou um neo pagão,
embora eu só tenha elogios aos neo pagãos sérios. Se isso não bastasse, tive as piores
experiências nas mãos dos monoteístas. No mínimo, metade do Vodu vai contra minha
natureza, se choca com minha essência. Mas fui me deixando envolver, fui
encontrando coisas dentro do Vodu que eu estava me apaixonando. Houve momentos
em que eu bati de frente com meus superiores no Vodu, e houve momentos em que
eu cedi, fingi aceitar a fé moderna e cristã, tudo porque ou eu precisava ganhar tempo,
ou não estava a fim de brigar, pois brigar cansa também.

Quando finalmente eu pude fazer valer minha liberdade de expressão, eu ousei. Era
tantos detalhes cristãos no Vodu que eu precisei anotar cuidadosamente em um
caderno tudo o que eu precisava “destruir” na minha prática. Também anotei o que
era necessário permanecer intacto ou com mais destaque, pois muita coisa importante
estava apagada diante do “poder cristão”. O que eu não imaginava era o arrombo
meteórico que eu causaria na minha religião. Me vi diante de um grande dilema, pois
eu acabei desestruturando tudo! Em meio a esse problema, Papa Legba queria falar
comigo, uma bronca, por óbvio. Discutimos bastante, e eu fui muito pontual em dizer
que eu preferiria abandonar o Vodu a ter que me submeter aos grilhões do
cristianismo, e eu encararia todas as punições com muita alegria, se fosse o caso.

Expliquei todos os detalhes para Legba, me fiz entender nos mínimos detalhes em uma
conversa de mais de 3 horas. Após muitas broncas e ameaças, eu consegui fazer Legba
compreender e respeitar meu ponto de vista, embora ele não tenha aceitado. Legba só
foi muito categórico em me dizer que, embora a Fanmi não fosse virar as costas para
mim, qualquer problema que eu tivesse ao abrir minha guarda para os espíritos
estrangeiros, eu não teria a ajuda da Fanmi. Aceitei! Depois tive que me pronunciar
com toda a Fanmi, explicar meu ponto de vista e etc... Não preciso dizer que levei
sermão de todos, ninguém aceitou minhas ideias, quase fui expulso da Fanmi. Mambo
Aveline, depois de muita briga comigo, deixou claro que não permitiria que eu levasse
essas minhas ideias “progressistas” para dentro do templo dela. Se por uma única vez
ela ouvisse algo desse tipo saindo da minha boca ali no templo, eu seria
imediatamente banido do Vodu. Concordei feliz!

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Mas eu estava ainda metido em um grande problema. O que fazer com o meu Vodu
depois do arrombo que eu causei ao abolir o cristianismo. A maioria de nossas Loas
não tinha sequer uma face que não fosse do catolicismo! Nunca pensei que fosse ser
fácil, mas não podia imaginar o quão difícil seria minha tarefa. Como tampar essa
cratera deixada pelo cristianismo então abolido do Vodu, mas sem permitir que a
religião deixasse de ser Vodu? Comprei um grande caderno, coloquei essa pergunta na
capa, e a partir daí foram exatos 22 meses dedicados todos os dias, pelo menos cinco
horas por dia, em meio a incontáveis anotações e muitos brainstorms.

Não fiz tudo sozinho, claro. Tive ajuda de grandes amigos dedicados aos estudos
pagãos. Não estou falando de meros curiosos, mas sim de pessoas de grande peso e
seriedade, que entendiam sobre o Vodu e também entendiam sobre o dilema que eu
estava enfrentando. A grandiosa Olivia Robertson, da Fellowship of Isis, foi muito
gentil em trocar e-mails e mensagens comigo, me ajudando muito com o sagrado
feminino dentro do Vodu, bem como dentro de todo o paganismo. Nada foi simples e
automático, tudo precisava fazer sentido e ser funcional. Eu tinha em mãos o Vodu
Dominicano com base Deka, com um arrombo catastrófico ao ser tirado dele todo o
cristianismo. Eu tinha pistas de por onde seguir, apenas precisava de um norte e de
pessoas que pudessem me sanar as dúvidas. Minhas pistas eram: Vodu Dominicano
tinha muito das crenças e práticas dos indígenas caribenhos, havia algumas coisas
meio ofuscadas da bruxaria europeia, algumas influências do Palo Mayombe (que é
de origem congolesa e muito cristianizado) e, por causa das influências da Mambo
Wakenaton, tinha vestígios da Cabala, do Hoodoo e de crenças ameríndias (dos
EUA). Parece muita coisa, eu sei, mas estavam tão discretos e apagados dentro de um
culto fortemente sincretizado que não representavam nem 10% do que eu precisava
para tampar o buraco.

E eu pensei por inúmeras vezes sobre o Vodu de Nova Orleans. Na verdade, em Nova
Orleans, atualmente, o Vodu deles é uma coisa quase dentro e misturada com o
Hoodoo. É um pouco difícil de separar o Hoodoo do Vodu dos EUA. Como o Hoodoo
propriamente nunca me atraiu e eu tinha o conhecimento de que houve uma prática
Vodu forte no século XVIII e início do XIX, eu fui atrás. Alguns pouquíssimos grupos
poderia me ajudar, mas para fazer parte deles ia ser bem complexo. Tinhas os
documentos da FWP (Federal Writer’s Project), que eu comi cada página. Eu fui
anotando cada detalhe, cruzando informações, adicionando nos brainstorms, e fui –
com muita ajuda de outros – conseguindo dar corpo a minha ideia. EU NÃO PODIA
DESCARACTERIZAR O VODU, A IDEIA ERA APENAS LIMPAR E DAR ESTRUTURA
FUNCIONAL. Reconstruir uma prática Vodu quase esquecida e substituída pelo Hoodoo
não seria fácil. Era ainda mais difícil fazer ligações desta prática antiga do século XVIII
com as práticas de magia dos Bakongo e Senegambianos, dois principais grupos que
formaram a religiosidade do Vodu dos EUA. Muita coisa praticada dentro do Hoodoo
vinha diretamente da sabedoria desses povos, mas eu queria trazer a tona a coisa

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como era feita no século XVIII. Nada que um amigo historiador e que trabalhava como
guia não pudesse me ajudar e facilitar o acesso a isso, que pode ser um monte de
papel cheio de ácaros para muitos, mas para mim eram verdadeiras joias.

22 meses depois, o resultado não poderia ser melhor. Eu tinha em mãos exatamente o
que eu precisava, muito melhor do que eu imaginei. Finalmente eu podia fazer uma
prática sólida, séria, sem o cristianismo e reconstruído do século XVIII. Lembrando que
religião reconstruída não é 100% idêntica à sua prática original, mas é o mais perto
daquilo que podemos chegar de acordo com documentos históricos. Claro que
historicamente a prática dos EUA era também cheia de sincretismo. A própria Laveau
não perdia uma missa, tinha contatos e interesses tanto com o clero cristão quanto
com os negros da antiga Nova Orleans. Considerei tudo isso, eliminei as questões
sincréticas documentadas e filtrei somente o que era da sabedoria pura pagã da época
e anterior. Eu não criei um Vodu novo (não sou o primeiro e nem o último Voduísta a
se revoltar contra o sistema), eu apenas limpei a sujeira que estava na casa e
organizei as coisas. Além da ajuda de muitas pessoas, como já citei, tive também a
ajuda dos estudos de Carl Jung, que esteve especialmente interessado em estudar a fé,
e tive a ajuda dos escritos de Joseph Campbell, Zahi Hawass (que respondeu
gentilmente aos meus e-mails) e devorei cada volume (com não menos de 400 páginas
cada um) dos escritos do mitologista escocês John Gray, para citar apenas alguns.

Assim, o Vodu não cristianizado não nasceu após um sonho profético e tudo se
resolveu. Ele foi cuidadosamente gestado por LONGOS 22 meses, eu briguei – e ainda
brigo se for preciso – pelo direito de praticar um Vodu limpo das influências cristãs. O
Vodu não cristianizado não nasceu – somente – para mim, mas ele veio para todos
aqueles que têm a ciência do quanto o cristianismo é sujo, prejudicial e que vai contra
a natureza humana. 95% das pessoas me consideram um louco, um herege, um
oportunista ou qualquer outra bobagem que eu ouço com alguma frequência. Mas
esse Vodu não nasceu para esses 95% de pessoas, que rezam e praguejam ao mesmo
tempo (o verdadeiro amor cristão, sabe?!), este Vodu nasceu para os 5% restante,
selecionado, singular tipo de pessoa que ainda mantém sua verdadeira centelha
divina, que não abandonou suas origens ligadas à “Eva Mitocondríaca”. Eu não
dependO da aprovação de 95% de monoteístas incapazes de entender a própria fé, eu
quero a aprovação e união dos 5% restantes, esses sim, verdadeiros irmãos, não
apóstatas de ocasião ou falta de informação. Claro que eu não tenho o direito de
“forçar” esse Vodu não sincrético aos filhos da minha Fanmi. Dentro da minha prática,
sou totalmente livre do sincretismo cristão, mas se o Hounsi desejar praticar da forma
mais comum, com o sincretismo, será respeitado e orientado por mim. Os membros
da Fanmi que seguem o sincretismo compreenderão minha posição e eles têm motivos
plausíveis para seguir o sincretismo, [com as devidas orientações] não estarão cegos
diante disso, sendo uma exceção dentro dos 95% citados.

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Politeísmo x Henoteísmo x Monoteísmo
Entre os Sacerdotes existe um erro grosseiro e frequente quando as pessoas afirmam
que as religiões africanas são todas monoteístas. No Brasil, isso é uma constante,
sempre vejo as pessoas falando que o Candomblé, por exemplo, é monoteísta, não
politeísta. Mas, terminologicamente falando, as religiões africanas não são nem
monoteísticas e nem politeístas, elas são na verdade HENOTEÍSTAS. Não é um termo
novo, mas é muito desconhecido da maioria dos religiosos. Mas eu não quero ainda
explicar sobre o Henoteísmo, acho que vai ficar mais didático se eu separar os termos
e falar um pouquinho de cada um deles, trazendo uma “evolução” (o mais correto
seria dizer retrocesso!) histórica dos termos e práticas.

Politeísmo

O termo Politeísmo vem do grego Πολύ Poly (Muitos) e Θεοί Theoi (Deuses) e era a
prática comum e aceita desde os primórdios da humanidade, em todas as etnias do
mundo. O Politeísmo tem como regra a crença em vários deuses, todos são mais ou
menos equivalentes em poder, cada um cuida de uma área específica, podem guerrear
entre si e são divididos em antropomórficos e naturais. Os Antropomórficos são
aqueles que são parecidos com os seres humanos em forma física e qualidades e
defeitos, embora sejam imortais e com poderes sobre humanos. Os Antropomórficos
podem se dividir entre os puramente de aparência humana (Zeus, Hera, Hades, etc) ou
os híbridos, uma mistura de humano e animal (Centauros, Minotauro, Medusa, etc).
Os ditos naturais costumam ser seres sem definição física, mas representados por uma
força da natureza ou condição de destino, que pode ou não estar ligada a outras
divindades, como por exemplo as Moiras, Hypnos, Nyx e etc. Outra característica do
politeísmo é o reconhecimento de que cada divindade funciona individualmente, ou
seja, não precisam estar ligadas umas as outras por obrigação. Um politeísta pode
cultuar todo um panteão, apenas um grupo distinto ou ser devoto a apenas um deles,
sem negar a existência e importância dos outros.

Henoteísmo

A palavra Henoteísmo vem do grego `έν θέος [hén théos] “um deus”. O termo
antecede o Monoteísmo, é uma ponte que liga – e ao mesmo tempo separa – o
Politeísmo e o Monoteísmo. O Henoteísmo em si existiu na prática a partir da XVIII
dinastia Egípcia, no reinado de Akhenáton. Mas o termo [henoteísmo] foi cunhado
pelo filósofo alemão Friedrich Schelling no início do século XIX. De uma forma muito
simples, o Henoteísmo é a prática na qual se cultua um único deus, somente ele, mas
sem negar a existência dos outros deuses. Ou seja, é sabida e aceita a existência dos
inúmeros deuses, mas somente um é adorado sobre todos os outros, que passam a
não mais receber oferendas e cultos ou que passam a ser “subalternos ou criações ou
ajudantes desse deus único”. A complexidade do Henoteísmo está exatamente aí,

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nessa transição do Politeísmo e seus muitos deuses e o Monoteísmo e seu único deus.
O Henoteísmo fica exatamente no meio disso. Em algumas importantes religiões
tradicionais africanas, encontramos exatamente o Henoteísmo, onde uma divindade
suprema (Nzambi, Olorum, Mawu-Lisa) é criadora do universo e as outras divindades,
aceitas como muitas, estão subalternas a esse “deus todo poderoso”. Não se nega os
deuses “menores”, são cultuados no caso das religiões africanas, os deuses ditos
supremos normalmente não são cultuados, pois não podemos ofendê-los com nossa
inferioridade, não podemos fazer-lhe oferendas porque tudo o que há nesse mundo já
pertence a ele. Por essa razão não existe um altar para Nzambi, Olorum, Mawu-Lisa,
Bondye e etc.

Não temos certeza de quando foi a primeira prática Henoteísta do mundo. Mas os
registros mais antigos que temos dela aconteceu na XVIII dinastia Egípcia, sob o
domínio do Faraó Akhenáton, 1351 a 1334 a.E.C. Ele subiu ao trono com seu nome de
nascimento, Amon-hotep (Amon está satisfeito), mostrando sua ligaão familiar com o
deus Amon, senhor dos ventos. Menos de uma década depois, ele decidiu trocar seu
nome para Akhenáton (Aquele que louva Áton, o deus Sol). Akhenáton, para o susto de
todo o Egito, declarou publicamente estar contra o deus Amon e todas as outras
divindades do panteão, ele disse ser um profeta do deus único e todo poderoso, Áton,
o Sol (qualquer semelhança com Jesus é mera coincidência?). Isso causou revoltas e
tentativas de protestos (sim, os egípcios já faziam protestos!), mas tudo em vão, afinal
de contas, o Faraó era o próprio deus, no caso de Akhenáton, ele era o próprio Áton
encarnado. Áton, no entanto, era um deus com alguma importância no panteão
egípcio, extremamente antigo e cultuado por todos, mas na condição de politeísmo,
onde Áton era mais um entre os mais de cem deuses. Áton era também chamado de
Rá-Harakhty, como mencionado em vários cartuchos inscritos na grande pirâmide. Ao
colocar Áton como o único deus e fazendo desaparecer o culto aos outros deuses ou
deixando eles subalternos e passivos diante de Áton foi o que gerou muitos problemas.
Para alguns, Akhenáton era apenas um doido, era ridicularizado nos bate papo do dia a
dia. Para outros, principalmente sacerdotes, ele se tornou um grande inimigo da fé e
dos deuses, amaldiçoado por isso. Com a nova lei, o culto de Áton, Akhenáton ordenou
que templos de outros deuses [que não fossem Áton] fossem saqueados e fechados,
Sacerdotes e Sacerdotizas eram presos, torturados e mortos, estátuas das divindades
eram destruídas, documentos que falavam sobre elas eram queimados, sequer era
permitido pronunciar o nome de qualquer divindade que não fosse Áton. Akhenáton
chegou a criar uma força militar muito agressiva que foram para todos os cantos do
Egito a fim de destruir tudo o que fosse de outros deuses. Embora não tenhamos
certeza dos motivos que levaram Akhenáton a fazer uma mudança tão radical na fé
egípcia, a teoria mais aceita é por motivações políticas. Com essa atitude, Akhenáton
tentava enfraquecer a capital Tebas e todos os envolvidos com o culto à Amon, que se
estendiam até a Ásia próxima, com muitas terras, minas, tesouros e etc. Uma vez que

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Amon deixava de ser considerado um deus, Áton era quem mandava, era quem tudo
controlava, assim, as ordem de Akhenáton, a encarnação de Áton, não precisaria
passar pelo julgamento do clero dos discípulos de Amon, centralizando assim toda a
política e riqueza nas mãos de Akhenáton. Com a prática do Henoteísmo, é
considerado que Akhenáton seja também e indiretamente o criador do Monoteísmo.
Não temos certeza sobre a morte de Akhenáton, embora seja suspeito que ela tenha
sido assassinado pelos sacerdotes de Amon e sua múmia queimada, para que seu ka
não entrasse no Duat. Assim, por cerca de 12 anos, o Egito foi Henoteísta (beirando o
Monoteísta). Com a morte de Akhenáton, o Henoteísmo/Monoteísmo foi considerado
um sistema herege e foi banido. Oficialmente e documentalmente, o politeísmo só
voltou ao Egito com o Faraó Tutancamon, após alguns poucos anos.

Monoteísmo

A palavra mais uma vez vem do grego μόνος θέος [mónos théos] “um só, único deus’.
A principal característica do Monoteísmo é a crença em um deus único e a negação da
existência de outros deuses, a completa oposição a outros deuses ou a destruição de
outros deuses e seus cultos, para que o deus único continue ÚNICO. O Monoteísmo
cristão é também Apostólico, ou seja, tem como objetivo “conquistar” o maior número
de seguidores possível à moda dos Apóstolos de Cristo. Mas ser Apostólico não é
necessariamente uma regra dentro do Monoteísmo, ainda que seja visto com
frequência. 1200 anos após a morte de Akhenáton, o Monoteísmo só voltaria a dar as
caras na fé chamada Zoroatrismo, no atual Irã, religião viva e forte até hoje. No
Zoroatrismo, Ahura Mazda é o deus supremo e único e a religião é dualista, baseando-
se no bem e mal. O Zoroatrismo, que nasceu no ano 1100 a.E.C. seria mais tarde usado
como alicerce para a criação do cristianismo, entre outras. O Monoteísmo teria
chegado ao ocidente (depois que Akhenáton morreu e suas ideias desapareceram, o
Monoteísmo existia no oriente, na fé do Zoroatrismo) junto com as ideias e crenças em
Ahura Mazda (uma versão tardia de Marduk), trazida pela religião Abraâmica, do
personagem – provavelmente fictício, pois Abraão certamente seria mais uma tribo,
não uma pessoa – Abraão.

As primeiras ideias de Jeová começaram a surgir na idade do ferro, mais ou menos no


ano 1000 a.E.C. (a.E.C. antes da Era Comum = a.C. antes de Cristo). Mas ainda era uma
ideia em desenvolvimento, que seria estruturada com a “chegada” de Cristo
(Yehoshua), que até então a ideia de um Deus único existia, mas havia muitos deuses
únicos, cada um em sua etnia. Voltando ao ano 1000 a.E.C. os reinos de Judá e Israel já
consideravam um deus único, que aqui podemos chamar de Javé, ou melhor, o grande
Tetragramaton (O ser de quatro letras, Javé, Yaou, ‫)יהוה‬, mas não descartavam os
outros deuses, como Baal, Asserá, Astarte, Nur e tantos outros. Eles eram Henoteístas!
Mas o vizinho reino da Assíria também tinha um protótipo de deus único
(Henoteísmo), o grande Ashur. Mas, no ano 800 a.E.C., os Assírios decidiram colocar

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Ashur como o único deus, destruindo qualquer outra divindade que ousasse entrar no
caminho dele, inclusive Javé. Em resposta politica e bélica, os Reinos de Israel e Judá
diminuíram – ainda mais – a importância dos outros deuses do sistema henoteísta e
colocaram Javé como o deus absoluto, aquele que destruiria qualquer outro deus
Assírio. 80 anos depois, com muitas provocações, a Assíria partiu para a guerra contra
o Reino de Israel, vencendo a guerra. Aqueles que conseguiram escapar da guerra, se
refugiaram na tribo de Judá, levando com eles as ideologias de Javé, que já existia na
tribo de Judá, mas não com tanta força. A tribo de Judá era também mais ou menos
Politeísta e Henoteísta, mas com a chegada desses refugiados, eles tornaram Javé
como a bandeira de sua próxima vitória, quase acabando com o culto dos outros
deuses. Judá venceu várias guerras, sempre levando o nome de Javé adiante. Mas no
século V a.E.C., Judá foi derrotada pela Babilônia, e os vivos levados como escravos.
Sabe aquela expressão de que uma maçã podre pode estragar toda uma cesta? Eis
aqui um bom exemplo. Os escravos pegos na tribo de Judá e levados para a Babilônia,
levaram também suas ideias Henoteísticas, já quase totalmente Monoteística. Escribas
israelitas (Judá) trocaram muitas informações com Escribas Babilônicos. E a Babilônia
nunca proibiu a prática “monoteísta” dos israelitas, permitindo que eles continuassem
com sua cultura, mesmo sendo cativos. Assim, muito do que ainda estava em processo
de escrita, e que futuramente se tornaria o velho testamento (Torá), sofreu
absurdamente a influência da cultura babilônica, a qual herdou as principais crenças e
ideias da antiga Suméria. Foi assim que surgiu ideias sumérias na bíblia de homens
sendo feitos com argila, de um jardim chamado éden, de um nome Adão, de um
dilúvio, e tantas outras questões que, na verdade, são de origem sumeriana, nada a
ver com o monoteísmo bíblico. A Babilônia que sempre fora Politeísta, estava já fraca e
em direção aos seus últimos séculos de vida, cheia de escândalos políticos e muitos
gastos com guerras, não foi muito difícil colocar uma ideia de um deus único e
guerreiro chamado Javé, cheio de milagres. A ideia de Javé, embora como deus único e
supremo, praticamente uma fé monoteísta, era levemente diferente da ideia que
temos dele hoje. Javé era como um Ogou, um Ares, Montu, Marte ou qualquer outra
divindade da guerra, mas colocada numa posição jamais aceita na crença politeísta.
Estamos falando da Era do Ferro, Era das grandes Guerras, Javé (ou Jeová) não poderia
ser outro senão um deus da Guerra, pois as divindades e sua importância precisavam
acompanhar o momento atual.

No ano 538 a.E.C., a Babilônia foi derrotada (mas não dizimada) pelos Persas. A ideia
de Javé e de uma prática Monoteísta já estava a todo vapor na Babilônia, embora
dividisse opiniões. Nesse momento da história, os Persas já tinha sua ideia de
Monoteísmo, a religião Zoroástrica e o grande deus do Fogo, Ahura Mazda. O encontro
da crença em Javé com Ahura Mazda, após a vitória Persa sobre os Babilônicos, foi o
estopim para acelerar o nascimento do Monoteísmo. A ideia do Monoteísmo e
Henoteísmo, a partir desse ponto, já estava surgindo em todo o oriente médio (no

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Norte da África, o Egito e o Sudão ainda eram Politeístas). Mas a Europa como um todo
era Politeísta.

Em 331 a.E.C., o Grego Alexandre o Grande (claro que eu ia colocar a etnia dele!)
venceu Dario e se apoderou da Babilônia, que ainda existia, apesar de sua derrota em
538 a.E.C. Alexandre o Grande encontrou ali uma crença misturada, onde a maior
parte era Henoteísta, uma parcela forte e poderosa Monoteísta e quase nenhum
Politeísta, com exceção de camponeses. Ele, Alexandre, e toda a sua comitiva, eram
Politeístas, seguiram sendo, mas evitaram impor sua condição religiosa, para evitar
problemas e se manter no poder. Alexandre avançou e atacou a vizinha Pérsia, onde
encontrou uma divisão muito clara entre Politeístas e Monoteístas Zoroástricos.
Alexandre absorveu um pouco do Politeísmo Persa e Babilônico, mas não chegou a
impor sua própria fé, pelo menos não como regra absoluta. Muitas guerras se
seguiram, não somente as que envolviam Alexandre o Grande, mas muitas eram as
guerras entre as etnias, reinos e tribos. Do ano 1000 a.E.C. até o suposto nascimento
de Cristo, o Henoteísmo foi dando lugar ao Monoteísmo, e em meio a alguns ainda
praticantes do Politeísmo, principalmente o tribal e familiar, o Oriente Médio era de
opiniões divididas. Quando supostamente Yaohu (Jesus) nasceu, o Judaísmo e as ideias
Monoteísticas – ou talvez Henoteísticas – já estavam fortes, embora não muito bem
estruturadas como são hoje. A Torá, que deu origem ao velho testamento, era um
compilado de crenças Sumérias, que passaram para os Babilônicos e que mais tarde foi
para os Persas. Abraão, seja ele como personagem ou como uma tribo, provavelmente
migrou da cidade Suméria de Ur em direção ao Oeste, onde teria as muitas tribos e
reinos, entre elas Assíria e Fenícia e, mais tarde um pouco, Juda e Israel, sob a
influência Abraâmica. O deus de Abraão era um pré-protótipo de Aúra Mazda, talvez
tenha sido o deus Sumério Marduk, mas em uma crença Henoteísta.

O cristianismo teve como base o judaísmo, o qual foi ligeiramente mudado por ele. O
judaísmo tinha uma ideia da vinda de um salvador, muito antes de um salvador surgir
na história. Quando um tal Jesus teria vindo, ele separou o velho testamento e trouxe
uma nova visão de mundo e fé. O velho testamento é muito radical, pois ele engloba
uma crença muito antiga, que foi reformulada de acordo com as crenças naquele
período da era do Ferro e de acordo com a visão de um pequeno povo. A partir do
suposto Jesus, o novo testamento foi escrito, uma nova era estava por vir. Seus
Apóstolos tinham como missão “resgatar” almas, trazendo-as para a crença
Monoteísta. Por isso chamamos de Apostólicas as religiões que buscam adeptos, e tal
como acontecia nos primeiros séculos Cristãos, usa-se de todos os meios para
conquistar esses seguidores, seja com a tortura física ou emocional ou até a morte.
Mas, ao contrário do que se pensa, por pelo menos uns dois séculos após a morte do
suposto Jesus, o cristianismo permaneceu muito mais como uma pequena seita, isso
se comparado aos grandes reinos Politeístas de todo o mundo, do que o “Big Bang”
que os próprios cristãos gostam de mostrar.

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O cristianismo se tornou muito forte por causa da febre de líderes de nações se
converterem a ele, não por fé ou milagres, mas por estratégia política. É difícil separar
política e religião, e antigamente ambas andavam muito juntas. O cristianismo é muito
cômodo, se comparado ao politeísmo. No cristianismo, meu deus, que é igual ao teu
deus, são o mesmo, me coloca numa posição de poder absoluta, e você não vai me
questionar, pois seria o mesmo que questionar o seu deus (é o mesmo deus!!!!!). O
Monoteísmo não aceita antagonia, a palavra absoluta do seu líder é a palavra de toda
a nação. No politeísmo a antagonia é um fato, nem sempre o meu deus pessoal estará
de acordo com o seu deus pessoal. Nem sempre meu grupo de deuses apoiam as
estratégias do seu grupo de deuses. Por isso, o monoteísmo segrega enquanto o
politeísmo cria pessoas livres e pensantes.

Nota: Em resumo e grosso modo, podemos dizer que Israel era politeísta, e entre esses
deuses, havia um que em algum momento foi nomeado de Yaweh (Javé, Jeová,
Yaohu). Era um deus de guerra, tal como Ogou. Nesta época, questões religiosas e
políticas andavam lado a lado, eram inseparáveis. Como Yaweh era uma divindade de
pouca importância, ele precisou absorver outras deidades de forma a se fortalecer
politicamente e se destacar. Desa forma, o deus cristão nada mais é do que uma
amálgama dos deuses Yaweh, Ellah, Baal e, principalmente, Marduk (mais tarde
conhecido como Ahura-mazda). Assim, o deus cristão é na verdade uma criação
humana usando a junção de vários outros deuses, não sendo criado da noite para o
dia, mas em muitas décadas. O nome Yaweh deu origem à Jeová, enquanto o nome
fenício-assírio Ellah deu origem ao Allah. Baal, que tem como traduz mais correta
Senhor, também foi usado nos primórdios para se referir ao deus que um dia seria o
deus monoteísta Jeová/Allah.

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SOCIEDADE NINHO DA SERPENTE
Desde o início eu abracei a ideia pagã dentro do Vodu, e isso causou muito mal estar
entre os que estavam a minha volta. Eu não enfiei nenhuma loucura no meio do meu
culto, eu apenas apaguei os rastros cristãos e expus minha visão pagã da religião.
Como já leram anteriormente, não fiz isso da noite para o dia, foi na verdade um
trabalho cansativo e que basicamente me custou quase dois anos de dedicação
completa, parando apenas para dormir. Se eu não agisse dessa forma (retirar o
cristianismo foi por pura sobrevivência), eu não ficaria no Vodu, onde eu já estava mais
que envolvido.

Quando isso não era mais que uma ideia que timidamente eu expunha, vez ou outra,
claro, não me causava tantos problemas. Muitos achavam que era só uma brincadeira
da minha parte ou que eu estava divagando sobre isso. Mas, quando eu “fiz
acontecer”, causou um boom na cabeça das pessoas à minha volta, todas baseadas
naquele velho e bem quisto “Vodu-cristão”. Das incontáveis pessoas ligadas ao Vodu e
que viviam a minha volta, simplesmente deixaram de falar comigo. Não rezar um pai
nosso e nem ir às missas aos domingos era um crime muito mais grave do que o de um
sacerdote com uma mão boba. Minha fidelidade a mim mesmo foi o que me sustentou
em meio aos muitos ataques. Alguns chegavam a temer meus espíritos por acharem
que eram “demônios” disfarçados de divindades, enquanto outros queriam apenas me
internar.

Atualmente, Maio de 2019, não tenho certeza se pretendo reabrir fisicamente o Ninho
da Serpente, estou realmente dividido em 50%. Existe essa possibilidade, e
naturalmente os Sèvitès serão os primeiros a saberem. Mesmo que o meu Templo seja
da prática de um Vodu sem os grilhões do cristianismo, mesmo que em meus rituais e
em minha prática de iniciação não use quaisquer elementos cristãos, eu não obrigo os
que se aliam a minha visão a evitarem o cristianismo. Não posso pregar as palavras
“humanizado” e nem “liberdade” se eu não for o primeiro a praticar e defender isso.

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UM VODU PAGÃO MERECE UM SÍMBOLO PAGÃO

Pesquisei muito antes de criar esse símbolo e, depois de feito, ele ficou guardado à
espera da aprovação da Mambo Aveline, minha superiora. Mais de um ano guardado,
e eu procurando dar à minha superiora todas as explicações e apresentando todos os
motivos para tal, foi finalmente permitido que eu o use como o símbolo oficial da
minha prática Vodu. Embora seja, de fato, somente um desenho, o simbolismo que ele
carrega fala muito para mim e de mim.

Ouroboros: A palavra vem do grego οὐρά (cauda) e βόρος (aquele que devora),
significando “Aquele que devora a [própria] cauda”. Este símbolo, por si mesmo, já fala
tudo sobre minha visão de vida e sobre minha visão religiosa. O ouroboros simboliza a
evolução, e todas as coisas precisam evoluir, senão morrem no tempo. As religiões
precisam evoluir, ainda que discretamente e sem radicalismos, mas é necessário para a
vida delas. Ele nos dá uma ideia de movimento, o que nos leva para a 3ª lei hermética,
a Lei da Vibração, "Nada está parado, tudo se move, tudo vibra". Cada átomo que
constitui seu corpo, cada átomo no universo à sua volta, tudo está em constante
movimento. Até na morte há movimento. Como tudo vibra, tudo tem movimento e
continuidade, o ouroboros representa também a reencarnação, seja nessa terra ou em
outras realidades, ele mostra que tudo é eterno, apenas se transforma. Ao morder a
própria cauda, o ouroboros nos ensina que nada é linear, ele quebra essa ideia,
mostrando que as coisas podem tomar infinitos rumos. Nos antigos ensinamentos, o
ouroboros é por excelência um símbolo Solar, e ele também está representando Papa
Legba. Como Damballah, o ouroboros mostra o próprio deus serpente girando pelo
universo, no sentido anti-horário, o mesmo da rotação da terra e a mesma direção da
roda das danças sagradas.

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A serpente branca e a serpente negra: Estes dois símbolos foram inspirados no arcano
X do Tarot, a Roda da Fortuna e também foram inspirados nas Leis Herméticas:

4ª: “Lei da Polaridade” (Tudo é duplo, tudo tem dois pólos, tudo tem o seu oposto. O igual
e o desigual são a mesma coisa. Os extremos se tocam. Todas as verdades são meias-
verdades. Todos os paradoxos podem ser reconciliados ).

5ª: “Lei do Ritmo” (Tudo tem fluxo e refluxo, tudo tem suas marés, tudo sobe e desce, o
ritmo é a compensação)

6ª: “Lei do Gênero” (O Gênero está em tudo: tudo tem seus princípios Masculino e
Feminino, o gênero se manifesta em todos os planos da criação ).

Sobre o arcano X do Tarot, a Roda da Fortuna, ela representa também a Lei do Ritmo.
Quando ela sai em uma leitura, ela fala da Lei do Destino, a vida gira, a sorte muda o
tempo todo. Em um momento podemos estar bem e completos, no outro estamos
tristes e cheios de queixas, mas assim é a evolução de todas as coisas. Estar feliz ou
triste é um estado emocional momentâneo, e podemos variar nele no mesmo dia, ou
em tempos e ocasiões alternadas. A Roda da fortuna nos ensina a equilibrar nossa
vida, no mostra que, tal como as estações do ano, devemos ter um ritmo para cultivar
a terra, plantar, colher e consumir, cada coisa no seu tempo. Para mim, essas duas
serpentes também falam de Simbi, pois Dlo é o mais calmo e Rada, enquanto Makaya
é Petwo e agressivo. Entre eles, temos Andezo, que intermedia ambas as energias,
fazendo parte dos dois lados, mas sem necessariamente se contaminar por um ou por
outro. Esse é o balance (equilíbrio) que falamos dentro do Vodu, e sob a égide do qual
todos estamos.

O Sol Pagão e as Luas Pagãs: O Sol pagão é estranhamente menos conhecido se


comparado às Luas (Crescente e Minguante). O Sol e a Lua são os símbolos máximos
do paganismo, representando muita coisa, dentre elas, a mais importante; o Sagrado
Masculino e o sagrado Feminino. O Sol está levemente acima das Luas, não por uma
visão se superioridade masculina, o que seria incoerente. Essa posição do Sol foi
proposital para formar um claro triângulo, símbolo do ternário sagrado e para evitar
que o Sol entre as Luas se pareça com o símbolo da Wicca, das três fases lunares da
Deusa. O Sol e a Lua personificam, desde há muito tempo, a base religiosa pagã, o
Deus e a Deusa, não como seres absolutos e únicos, mas como fontes que emanam e
alimentam as outras divindades, tornando-as uma parte importante, mas não única. O
sagrado masculino (Sol) e o sagrado feminino (Lua) tem um rico e extenso simbolismo
religioso. Nada é mais simbólico da prática pagã do que o Sol e a Lua, e por isso eu os
coloquei no topo do Potomitan.

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O Potomitan: Está exatamente no meio do símbolo, significando também o Sol e o
sagrado masculino, mas não no sentido de supremacia em relação ao sagrado
feminino, mas como o elemento que representa o princípio de todas as coisas. Esse
princípio não pode existir sem o poder incubador e nutridor da fêmea, da Lua. Neste
símbolo, o Potomitan é o falus sagrado, é a espada do juramento, da verdade e, da
mesma forma, é a espada que mutila, que dá o fim a uma existência. O Potomitan é
também a bengala de Legba, o deus sol, aquele que intermedia nosso contato com as
divindades. Tudo o que o Falus Sagrado representa, está aqui mostrado pelo
Potomitan. Ele está dividindo o círculo ao meio, mostrando que o positivo e masculino
e o negativo e feminino estão presentes em toda a criação, em todas as coisas. Mas é
importante compreender que o Positivo/Ativo/Masculino e o
Negativo/Passivo/Feminino são termos totalmente simbólicos, significando a
qualidade de energia, que juntas são capazes de criar. Em magia, nunca associe esses
termos ao ruim, ao sexismo.

As 12 Pequenas Serpentes: De cada lado do Potomitan, temos seis pequenas


serpentes penduradas. Representam os doze signos do zodíaco e, da mesma forma, as
estações do ano. Outra forte característica das crenças pagãs e ter como base ritual as
estações do ano e a consulta das estrelas. Como existem raízes Deka (Vodu Rural) no
Ninho da Serpente, esse símbolo é de suma importância.

Os seis pontos: Dentro do Potomitan temos seis pontos pequenos. Eles representam
os antigos planetas conhecidos, antes da descoberta de Netuno, Urano e Plutão. Dessa
forma, os pontos representa, de cima para baixo, Mercúrio (Simbis), Vênus (Ezilis),
Marte (Petwos, Congos e Nagos), Júpiter (Radas) e Saturno (Ghedes). Estão nessa
ordem por proximidade ao Sol, que está no topo do Potomitan.

As Três Estrelas: Abaixo do Potomitan temos três estrelas, que refletem, não de forma
perfeita, os três elementos sagrados no topo do Potomitan. Formam também dois
triângulos, não opostos entre si, mas equivalentes. Cada estrela possui oito pontas
(uma está escondida na linha) e elas representam com isso os pontos cardeais e
colaterais, bem como a encruzilhada sagrada de Legba sobre a encruzilhada sombria
de Kalfou (diagonais). Nós, humanos, somos essas encruzilhadas, nós carregamos o
bem e o mal, não como opostos, mas sim complementares. Assim como há em nós,
Legba e Kalfou são energias complementares, Legba é o senhor dos caminhos do dia e
Kalfou o senhor dos caminhos da noite, mas não necessariamente nessa ordem fixa. Os
três pontos estão também simbolizando os humanos, isto é, como a criação divina, o
ternário sagrado. Eles representam, como reflexo não absoluto do sol e as duas luas no
topo do Potomitan, a 2ª Lei Hermética, a Lei da Correspondência, "O que está em cima
é como o que está embaixo. O que está dentro é como o que está fora”.

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A Láurea: A Láurea ou Coroa de Louros, símbolo grego e romano da vitória, está
colocado logo abaixo de todo o simbolismo. Ele era também o símbolo dos grandes
imperadores, um sinal de poder humano. Eu o usei no símbolo do Ninho da Serpente
por razões muito óbvias, ligadas às minhas origens. Mas é principalmente um símbolo
que quer dizer que, seja quem for, imperador, rei, Houngan ou Mambo, estamos todos
abaixo da vontade das divindades, somos ferramentas nas mãos delas. Não falamos
em nome das divindades, não somos donos das vontades delas. Colocar a Láurea neste
ponto, abaixo de todos os outros símbolos, é minha forma de dizer que somos todos
iguais neste mundo, ninguém tem o direito de abusar de seu suposto poder sobre
ninguém. Há uma hierarquia a ser respeitada, lógico. Mas quem quer respeito precisa
aprender a respeitar. É uma máxima a ser seguida dentro da minha Fanmi.

Chifres de Carneiro: Eles estão posicionados entre as duas partes da Láurea (Coroa de
Louros), acima da estrela do meio, que fica no meio da Láurea. Os chifres de carneiro,
desde a antiguidade, representa a realeza. Estes chifres de carneiro é uma
representação do deus egípcio Khnum (Quenúbis), o deus criador de todas as coisas,
inclusive do Ka (espírito) dos humanos. Este deus tinha a cabeça de carneiro e estava
entre as mais importantes divindades do panteão. Ele estava intimamente ligado ao
Faraó, mas ele fiscalizava também para que o Faraó não abusasse de seu limite
humano, lembrando-o de que, embora seja o Faraó uma encarnação divina, ele ainda
deve obedecer às limitações humanas. Da mesma forma, o Sacerdote Vodu, embora
seja visto por muitos como sendo alguém especial, devemos sempre nos lembrar de
que ele é humano e segue as mesmas regras, possui os mesmos defeitos e fraquezas
que qualquer outro humano. Os quatro chifres de carneiro representam o 4º arcano
do Tarot, O Imperador. Este arcano representa a solidez, os pés no chão, o raciocínio
lógico, a frieza na hora de lidar com assuntos mais delicados, a realidade nua e crua,
sem as armadilhas da imaginação. Acho que são todas qualidades muito importantes
dentro de qualquer fé, ou seja, o questionamento racional. Claro que nem todas as
coisas podem ser racionalizadas dentro das religiões, mas levar o básico de forma clara
e com os pés no chão é importante. Sabe aquele coisa onde tudo é produto de magia
ou uma condição espiritual? Onde nada é considerado como culpa ou má escolha do
consulente? É exatamente isso, devemos ser honestos e apontar o que é culpa e
loucura do que é de fato espiritual.

Encruzilhada: As duas partes da Láurea, no começo, se juntam e formam um X


estilizado, pequeno e bem discreto. Este sinal representa uma encruzilhada, um ponto
de encontro entre o espiritual e o físico. As encruzilhadas eram sagradas desde a
antiga religião da mesopotâmia. Acreditava-se que eram nas encruzilhadas onde
espíritos e divindades eram capazes de vir ao nosso mundo e voltar ao mundo deles,
como um portal. Na Grécia, as encruzilhadas eram – e ainda são – dedicadas à Hermes,
o deus da comunicação e intermediário entre os humanos e os deuses olímpicos. No
Egito, quem morava nas encruzilhadas era o deus Shu, com a mesma função de

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Hermes. Eu busquei usar o X ao invés da +, para evitar a comparação cristã, embora o
X seja um símbolo que o cristianismo já usou, mas poucos sabem disso. Com esse
pequeno X estilizado, eu ligo meu símbolo à todos os deuses da encruzilhada, inclusive
e principalmente Legba e Kalfou.

As Duas Serpentes Maiores: Elas representam a dualidade divina. A dualidade é muito


importante, representa o equilíbrio sagrado de todas as coisas. Dualidade nunca é
oposição, a dualidade se completa, mas sem precisar estar dependente uma da outra.
É necessário ter uma capacidade de pensamento muito abstrato para entender a ideia
mística da dualidade divina, não dá para explicar tudo o que envolve isso em um
simples texto. Essas duas serpentes representam também a grande divindade dupla
Danballah e Ayida Wèdo. De um lado temos Danballah, a grande serpente branca,
criadora de todos os seres vivos, uma extensão curiosa, sem ser a mesma coisa, da
divindade Khnum. A outra é Ayida Wèdo, sua parcela feminina, a serpente do arco-íris,
da chuva, da fertilidade (em todos os sentidos), do frescor e mãe de todas as
serpentes. Para mim, Ayida vai além e eu a vejo como a mãe de todas as Sacerdotisas,
como uma extensão simbólica da “Deusa das Serpentes Minóicas”, que seria uma
sacerdotisa grega (ilha de Creta) dançando com duas serpentes e com seus seios
expostos, simbolizando a fertilidade e capacidade de nutrir. Essas duas serpentes
representam tudo o que Danballah e Ayida Wèdo podem representar na religião, toda
a sua importância no Vodu e se estendendo a tudo o que a mitologia comparada pode
oferecer (traçando à Dan, Dangbe, Tiamat, Quetzacoatl, Apófis, Mehen, Ureus,
Meretseguer, Jormungandr, Píton e tantos outros). Além disso tudo, as serpentes
representam os quatro elementos, Água (serpentes marinhas ou anfíbias), Terra
(serpente da terra ou que vivem em tocas ou anfíbias), Fogo (serpentes agressivas,
peçonhentas ou o ardor do seu veneno) e Ar (serpentes constritoras, que vivem em
árvores, que saltam, com ou sem peçonha). Serpentes também representam a
encarnação, por causa de sua troca de pele.

A Lemniscata: Ambas as cobras fazem em seu meio corpo a forma da Lemniscata, o 8


deitado, símbolo do infinito na geometria sagrada. Este símbolo fala da infinidade das
coisas espirituais, fala da nossa imortalidade espiritual. Representa evolução do ciclo
da vida, onde nascemos (Rada), vivemos (Petwo) e morremos (Ghede) e depois
voltamos e refazemos o ciclo sagrado, podendo ser na mesma realidade (Terra) ou em
outras realidades superiores ou não (crença hinduísta).

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Vodu Humanizado
“Dê poder ao homem e o conhecerá!”

Religiões possuem hierarquia e esta precisa ser respeitada. Por estarem mais
familiarizados com o Candomblé, vou usá-lo como exemplo, que poderá ser aplicado
em todas as outras fés. O terreiro de Candomblé é a releitura de uma tribo africana, na
qual o Sacerdote ou a Sacerdotisa são os chefes (rei, rainha ou presidentes) que são
ajudados por uma equipe de pessoas devidamente preparadas para tal (Egbomi,
Ekedje, Ogan, Iya Kekere, Bàbá Kekere e etc), e todos os maiores na tribo trabalham
juntos para o bem estar de toda a comunidade, que seria os visitantes e membros do
terreiro em um nível inferior aos demais. Essa é uma explicação infinitamente simples
de como funciona o corpo religioso, seja no Vodu, na Bruxaria ou em qualquer outra
vertente, até mesmo as cristãs. As pessoas confundem muito o “ter respeito um pelo
outro, de acordo com a hierarquia” com “o abuso de poder”. Da mesma forma, as
pessoas confundem “regras importantes para o bom funcionamento do clã” com
“obrigações mediante ameaças e que vão contra a natureza da pessoa”.

Mas, onde é que acaba o respeito hierárquico e começa os abusos de poder? Muito
difícil de responder e normalmente quando conseguimos perceber que a coisa passou
dos limites, algum estrago já está feito. Muitos estragos espirituais não têm volta e as
sequelas são para toda a vida. O abuso de poder é um problema crônico em todas as
religiões e quando surge um Sacerdote ou Sacerdotisa denunciando esse lado sujo da
fé, vira alvo de perseguições. É muito difícil definir/perceber onde começa o abuso de
poder e o respeito começa a faltar, por isso devemos ser muito delicados no
julgamento. O ditado “dê poder ao homem e o conhecerá” é uma grande verdade.
Esse poder pode vir de várias formas, como por exemplo a riqueza, a posição social,
um cargo de importância, um doutorado ou qualquer coisa que dê a sensação de
poder sobre os outros. Religião, de uma forma geral, trás muito poder, principalmente
o poder da sugestão que controla o fraco e desesperado. Em uma religião como o
Vodu, Candomblé, Umbanda, Bruxaria e tantas outras animistas, o poder da sugestão
muitas vezes vem unido ao poder espiritual real, o que pode causar uma destruição a
nível mental e físico irreparável.

Eu poderia ficar durante dias falando dos usos e abusos que eu já vi nas religiões. Aliás,
acho que eu poderia ficar meses e meses sem esgotar o assunto e sem ser repetitivo. E
uma coisa que eu acho muito bizarra é ver amigos que antes de ganharem poder
religioso eram pessoas extremamente honestas e comprometidas com o bem estar do
grupo, mas quando ganharam o poder, venderam suas almas, cometeram os mais
diversos abusos e, o mais estranho, angariam fama e fortuna. Talvez você esteja
pensando: “Ah, com toda essa fama, eles não eram tão ruins assim...”. Realmente, ser
ruim ou bom é muito relativo. Talvez para algumas pessoas, o abuso sexual
desenfreado, a tortura física através de surras reais, a tortura psicoemocional para

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arrancar cada centavo da pessoa, perseguir, controlar a vida dos outros, e muitas
outras coisas ainda mais pesadas podem não ser um sinal de que algo está ruim
naquele templo.

Mas, vamos nos ater a alguns crimes bem comuns e que são praticados sem cerimônia,
à vista de qualquer pessoa. Sacerdotes xingando sem nenhuma razão seus seguidores
é um clássico, e muitas vezes esse clássico vem acompanhado de tapas e empurrões.
Outro clássico é o Sacerdote que só te atende ou dá uma verdadeira atenção se você
tiver dinheiro para pagar o tempo dele. Outro tipo muito comum é aquele que te
ameaça e te persegue caso você saia do clã dele, pois ele quer ter absoluto poder
sobre você. E o Sacerdote que lhe dá conhecimento à conta gotas, só para aumentar
sua expectativa de vida dentro daquele templo. E estou falando de conhecimentos
básicos, de acordo com o nível de cada pessoa. Manter a pessoa dependente deles é
um dos objetivos. Enjoei de ver Sacerdotes arrancando o último centavo da pessoa,
literalmente, e ver a pessoa toda esperançosa voltar para casa à pé (porque era de fato
o último centavo dela!). Quantas dessas pessoas eu já dei carona ou dei pelo menos o
dinheiro para o transporte público... e quantas vezes fui criticado por isso! Ah, outro
clássico é o do Sacerdote ou Sacerdotisa que te ajuda na intenção de levar o seu
parceiro/parceira para a cama, essa eu já vi muito. Também tem a dos seguidores, que
quando estão participando financeiramente da vida do Sacerdote, são tratados como
VIPs, mas se por acaso perdem o emprego ou acontece algo que os obriga a diminuir a
contribuição ou até a cessar totalmente, são colocados no esquecimento, nem mesmo
uma vela e uma reza eles recebem de seus sacerdotes. A lista é grande mesmo, não dá
para colocar tudo, mas creio que você já tenha vivido ou ouvido falar de abusos em
religiões.

Termos como Polícia Humanizada, Medicina Humanizada, Psicologia Humanizada,


Atendimento Humanizado e tantos outros são comuns na Europa e EUA. Eles
significam que, seja qual for a área de atuação da pessoa em destaque, ela precisa
humanizar seu contato com o outro, que nada mais é do que ter empatia, oferecer ao
outro o mesmo respeito que gostaria de ter, é se preocupar com a situação do
próximo de uma forma verdadeira, é ouvir o que o outro tem a dizer. Claro, se a
pessoa te respeita, é uma pessoa do bem ou realmente precisa de um apoio, ela
merece ter um atendimento humanizado. Pois, se do contrário, a pessoa chega
agressiva, é mentirosa, te prejudica de alguma forma, nada mais correto do que trata-
la à altura, se é que me entende.

Vendo tantos abusos dentro da religião, comecei a brincar com o termo “Vodu
Humanizado” e a coisa acabou tomando forma. No Vodu Humanizado, o Sacerdote vai
te falar “não” se for necessário, independente de quanto financeiramente esteja em
jogo, ele vai te criticar ou dar bronca, com a intenção de corrigir seus atos falhos. Mas
ele vai te respeitar como ser humano, ele vai sempre se colocar no teu lugar, vai tentar

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sentir suas dores, e vai te guiar para o melhor caminho. O Sacerdote Humanizado vai
respeitar os seus limites, não vai te expor em uma situação constrangedora. Ele
também terá a obrigatoriedade de ser imparcial nos seus julgamentos e punições, sem
dar preferência a ninguém. Perante esse tipo de Sacerdote, as pessoas são iguais,
merecem o mesmo tratamento, independente de qualquer coisa. As pessoas não ficam
acorrentadas no Vodu Humanizado, elas podem seguir seu caminho sem nenhum
problema com o sacerdote. Em outras palavras, é um Vodu preocupado muito mais na
evolução da pessoa como um ser humano, é tornar a pessoa melhor para si mesma.

A ÉTICA DO SACERDÓCIO (Deve ser a mesma ética do Sevite)

Ética é uma daquelas palavras que sabemos exatamente o significado, mas não
conseguimos explicar ela de forma muito clara. Grosso modo, a palavra Ética, que vem
do grego Ethos (Έθος), tem o sentido de “educar nossa vontade”, a fim de sermos
“racionais entre o certo e o errado”. Ser ético é “ter respeito pelos valores do outro,
sem prejudicar os próprios valores”, sem nos fazer cair em uma vida social caótica. A
palavra “ética” pode se estender por muitos significados, mas todos com o sentido de
ser verdadeiro consigo mesmo e com os outros, sem abusos e nem meias palavras.
Mas, não sei mais onde está a ética hoje em dia, não só entre os religiosos mas
também entre outras profissões. Percebo que a “Ética profissional/religiosa” tornou-se
uma palavra bonita para vender a própria imagem, mas que pouco tem sido aplicado
na propriedade de seu significado. Guerra de egos inflados é o que vemos atualmente,
não há mais respeito, as pessoas, sejam elas sacerdotes ou não, já não se importam
com os valores de seus seguidores, não se incomodam se as pessoas sofrem, se elas
têm uma depressão, um transtorno de ansiedade ou qualquer coisa, apenas querem
seu dinheiro e que se foda com seus problemas, longe dali.

“O sofredor não fala, paga!”

Parece bizarro, mas eu já ouvi essa frase da boca de mais de um sacerdote. Já ouvi
variantes dessa frase também, como “se está mesmo sofrendo, já vem com o dinheiro
e resolve”. Pensar no dinheiro ates de tudo, sem nem ouvir o que a pessoa tem a
dizer/desabafar é uma grande falta de ética, não priorizar os valores do outro, que é
um ser pensante e pode estar precisando muito de um apoio emocional naquele
momento. Por que os sacerdotes não podem sentar, tomar alguma coisa, ouvir a
pessoa e tentar como conselheiros a encontrar soluções reais, nem sempre o
problema é espiritual? Sim, eu sei, o dinheiro acima de tudo. Mas por que não deixar a
pessoa falar, expor o problema, antes de passar as longas listas de rituais caros?
FIQUEM LONGE DE RITUAIS MILIONÁRIOS E SACERDOTES QUE COBRAM ATÉ PARA TE
CUMPRIMENTAR!

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“Briga de gigantes!”

Pessoas comuns são números e sacerdotes se estapeiam para conseguir o maior


número de seguidores, que significa mais fama, mais dinheiro. Realmente não há
qualquer respeito um pelo outro. Aos montes, sacerdotes travam grandes batalhas,
baixarias, ataques vis, gastam seu tempo e influenciam seus seguidores para agirem
como uma horda de zumbis contra o outro. Sacerdotes representam as divindades,
não falam por elas, mas representam o que elas são. Se você aprecia esse tipo de
exposição, tudo bem. Mas não pode dizer que é uma atitude ética e bonita.
SACERDOTES FRACOS E INSEGUROS PRECISAM ATACAR PARA SE MANTER DE PÉ E SE
AFIRMAREM DIANTE DOS SACERDOTES QUE LEVAM A SÉRIO SUA FUNÇÃO.

“O Sacerdote de circo.”

Também cai na categoria anterior, pois é o Sacerdote sedento pelo palco e aplausos,
gostam de ser ovacionados por seus zumbis sem opinião própria, acreditam que isso é
ser Sacerdote. Estes seres acéfalos expõem desde grandes milagres à tretas cósmicas,
com guerras de magia para deixar qualquer Harry Potter com inveja. Normalmente,
esse tipo tem uma base cristianizada muito forte, pois o cristianismo é o estilo circense
de ser Sacerdote.

“Seres humanos fazem sexo!”

A menos que a pessoa seja assexuada ou tenha algum trauma ou bloqueio, sexo é uma
realidade e a maioria de nós faz. No sexo vale tudo, desde que esteja dentro da lei,
todos os envolvidos estejam de comum acordo e a prática religiosa permita (como a
bruxaria tradicional, por exemplo). O VODU NÃO PERMITE SEXO MAGIA, não tenho
como ser mais claro que isso. O Houngan é um Pai, uma Mambo é uma Mãe, os
membros da Fanmi, aqueles que aprendem, que se preparam para uma iniciação, são
como Filhos desse Pai ou Mãe. Pais e Mães não devem fazer sexo com seus filhos, não
é algo natural ou um comportamento esperado. Sabemos que isso acontece em todas
as sociedades, desde que o ser humano existe. Mas é algo estranho até para se
pronunciar. Mas, infelizmente, há Hougans e Mambos que transam com seus iniciados,
mantém um caso amoroso sempre muito duvidoso e, se você acha que não dá para ser
pior, há aqueles sacerdotes que trocam seu trabalho religioso por sexo, ou até aqueles
que mantêm um verdadeiro harém em suas Fanmi. É ridículo eu ter que dizer, mas se
o seu Sacerdote tiver um comportamento sexual em relação à você ou outra pessoa
iniciada por ele, então está tudo errado! O comportamento sexualizado dos Ghedes, as
piadas e canções de duplo sentido, o culto fálico são sempre simbólicos e verbais. A
dança sexual dos Ghedes é totalmente simbólica. Você não vai ver Ghedes fazendo
sexo! Nem deve cair na besteira de Sacerdotes usando os Ghedes como pretexto para
tal. SEU CORPO É SEU TEMPLO, NINGUÉM DEVE ADENTRÁ-LO SEM O SEU
CONSENTIMENTO.

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“Só sei que nada sei”

Ser perfeito é imperfeito, esta é uma grande verdade. Realmente é bom que o
Sacerdote saiba o máximo possível, ele realmente precisa ter muitas respostas para as
muitas perguntas. Tudo o que um religioso puder saber, só vai acrescentar em seu
caminho. Conhecimento (Konesan) é de fato uma exigência para o Sacerdócio, e somos
incentivados a isso, pois você precisa saber o máximo possível sobre a crença que está
praticando. Mas reconhecer os pontos fracos, reconhecer que não é bom suficiente ou
nem sequer domina certas coisas, pode ser uma virtude. É muito melhor ser sincero
com suas fraquezas do que oferecer um serviço de merda, sem qualidade e nem
conhecimentos. Eu não consigo fazer nada que envolva scrying, sou incapaz de tocar
instrumentos, não tenho o mínimo jeito com dança e definitivamente não gosto, não
consigo e não tenho o dom para cantar. Além dessas falhas humanas, eu tenho meus
limites, e um deles é a incorporação. Para quem está do lado de fora, é o encontro do
divino com o físico, é um momento sagrado e esperado, desejado pelo Voduísta. Para
mim, é uma merda, dói, incomoda, dá medo, prejudica o corpo, a saúde, não há nada
de bom. Interessante talvez, mas bom não é. Eu reconheço minhas falhas e meus
limites, isso me faz bem e não me torna menos que ninguém.

“O Sacerdote é uma pessoa.”

Eis algo que as pessoas se esquecem com alguma facilidade. O Sacerdote é um


intermediário entre as pessoas e as Divindades. Ele pode conseguir favores divinos
com alguma facilidade, ele pode ter acesso à segredos e meios únicos, que nenhuma
outra pessoa poderia. Mas um Sacerdote ainda é um ser humano, passível de sentir
dores físicas e emocionais, alguém que tem todas as mesmas necessidades que
qualquer outro ser da mesma espécie tem. Mas não é só os rituais que o tornam
assim, um pouco diferente (especial?) em relação aos deuses. O que faz um sacerdote
saltar aos olhos do divino é a disciplina a qual ele é condicionado. Para as Divindades,
um Sacerdote criminoso e oportunista será menos ouvido do que um Servo
disciplinado, tenha absoluta certeza disso. O rituais de iniciação facilitam nosso
contato, nos transforma, abrem nossos canais para o divino, mas caráter não se
consegue dentro do Djevo. Você entra no djevo com seu caráter desenvolvido ao longo
de séculos de encarnações, o caráter é um bem unicamente teu, ninguém vai tirar ele
de você. Um bom caráter e muita disciplina é farão um Sacerdote ter bom uso de suas
iniciações. O mal caráter vai ser sempre um mal caráter, mesmo que tenha passado
por mil iniciações.

“Sacerdotes apostólicos.”

O termo apostólico pode ter muitos significados, mas o que eu quero dizer com
apostólico aqui é o ato de pescar seguidores custe o que custar. Sacerdotes apostólicos
se firmam pela quantidade de seguidores, nunca pela qualidade deles. Isso cai na

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falácia do “mais seguidor, mais dinheiro”. Não estou criticando o ganho financeiro pela
religiosidade, mas estou criticando o “tudo a mim, nada para eles”. Religiões pagãs
nunca são apostólicas, não buscam seguidores e muitas vezes dificultam a entrada de
novos servos. O Vodu também não é apostólico, ele não garimpa seguidores, o Vodu
não oferece iniciações como se fosse uma banca de feira. Vir com amor ao Vodu ou vir
com uma pequena fortuna não são garantias de iniciação, pois há muitos outros
fatores que podem influenciar nesta escolha. O VODU NÃO É UMA FÁBRICA DE
HOUNGANS E MAMBOS, embora isso signifique a perpetuação da religião, nós
queremos qualidade real nos sacerdotes que saem de nosso Djevo. Se um Houngan ou
Mambo disser para você ser iniciado no Vodu, mesmo sem você ter muito contato com
o Vodu, então será um comportamento realmente estranho da parte desse Sacerdote.
VODU NÃO GARIMPA SEGUIDORES E MUITO MENOS INICIADOS!

O bom sacerdote possui CONHECIMENTO, DISCIPLINA E HUMILDADE. Respeitar os


valores do outro, o limite do outro, compartilhar somente o que tem conhecimento,
enfim, se colocar no lugar do outro (empatia) é um processo muito mais divino do que
se imagina. Ter ética é tratar o outro com a mesma importância que gostaria de ser
tratado. Todas as pessoas de bem possuem o mesmo valor, todas devem ser iguais
perante as Divindades.

DIFERENTES FANMIS, DIFERENTES REGRAS

O Vodu é uma religião muito ampla, com diferentes expressões, que vão variar
bastante de acordo com a região onde é praticado, as influencias externas do
Sacerdote da Fanmi e até a época em que é praticado. Não fazemos Vodu como ele era
no século XVIII, que também não é exatamente igual ao praticado em 1940, que é
diferente daquele de 1990 e por aí vai. 70% da prática Vodu, no entanto, e a mesma
desde sempre. Mas os 30% restante sofre muitas influências que vão dar um colorido
todo especial ao Vodu. Religiões são células vivas, não estáticas ou mortas. Encontro
com diferentes culturas vão fatalmente mexer nesses 30%, queira os sacerdotes ou
não.

Mas o comportamento dito mais tradicionalista e esperado como bom


comportamento está inserido nos 70%, e é de consenso entre todas as Fanmi. Casais
não ficam se beijando e se amassando durante rituais; pessoas bêbadas, drogadas ou
alteradas não devem ir a um ritual; não saímos do motel e vamos direto para o ritual
sagrado, nem saímos dos rituais e vamos direto para o motel; podemos ver pessoas
bonitas e nos atrairmos por elas nos rituais, mas não é legal ficarmos imaginando
cenas sexuais com essa pessoa enquanto estamos louvando as Loas; mulheres não
devem usar mini-saias ou decotes absurdamente reveladores, assim como homens não
usam shorts curtos (nos EUA é uma moda comum), camisetas cavadas ou estar sem a
camisa; não se fica contando piadas e rindo em rituais, a menos que a ocasião permita
(Azaka e Ghedes costumam ser engraçados!); Houngans, Mambos e Hounsis podem

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não dar a devida atenção para os visitantes antes e durante os rituais, pois estão
sacralizados com banhos e não podem sair abraçando e beijando seus convidados, por
isso podem parecer frios e cumprimentarem de longe; brigas também não são bem
vindas entre as pessoas no ritual; crianças mal educadas ou imperativas, embora sejam
toleradas sem problemas nos rituais Vodu, ficariam melhor em casa; mulheres
menstruadas podem participar do ritual e se consultar, mas não podem entrar no
círculo de dança e nem manifestar os espíritos. Esses bons modos devem ser seguidos
também para o praticante solitário, quando ele está disposto a cultuar as Loas em sua
casa. É um momento sagrado, e se queremos receber o sagrado dentro de nós,
devemos estar limpos de energia e de corpo físico. O Voduísta Representa O Vodu.

Quando você tem uma religião, independente se é ou não iniciado, você vai
representar essa religião. Naturalmente que somos uma pessoa específica dentro dos
rituais, temos um Nom Vaillant e um Masque (nomes cerimoniais), e somos pessoas
comuns no dia a dia. Eu sempre digo que, dentro dos rituais eu sou o Houngan
Alexandhros, e fora dos rituais eu sou somente o Alexandhros. Você também são uma
pessoa nos rituais e outra no dia a dia. Mas o bom comportamento e disciplina são
essenciais para qualquer pessoa, até mesmo para um ateu. Somos todos seres
humanos comuns, e como tal temos nossas falhas, perdemos a cabeça vez ou outra,
criticamos, tecemos comentários que nem sempre caem bem, temos pessoas que
amamos e outras que odiamos, às vezes acordamos com o pé esquerdo, muitas vezes
queremos ficar sozinhos ou em outras estamos carentes e nos sentindo feios. Somos
seres humanos e nos comportamos como tal. Mas devemos ser DONOS DE NÓS
MESMOS, somos nós que estamos no controle e temos o poder de pensar antes de
agir ou, na pior das hipóteses, se desculpar caso tenhamos nos excedido. Tudo isso é
bem normal e ocorre com todos...

...O agravante é quando não somos disciplinados, não somos senhores de nós mesmos
e acabamos enveredando por intermináveis brigas, xingamentos, ameaças vazias,
chiliques, perdemos totalmente a compostura e o senso crítico. O Houngan
Alexandhros não joga vídeo game enquanto espera o ritual começar, mas joga nas
horas vagas em casa, no descanso de fim de semana; o Houngan Alexandhros não
discute em público e fora da Fanmi com pessoas as quais ele não deve explicações. Se
expor carregando a bandeira da sua religião é a pior coisa do mundo, não há
necessidade. Quando temos uma religião diferente ou pouco comum, vamos atrair
muitos admiradores sinceros, mas também alguns haters que vão atacar sem piedade.
O bom debate vai até a réplica, pois se chegar à tréplica, vai virar uma grande
confusão. Mas com haters não há sequer o direito à réplica, o melhor é apenas ignorar.
Bom senso sempre! Se estiver realmente interessado em ser Voduísta, vai ter que
aprender a filtrar o que vem até você. Só apelamos para algo mais agressivo,
principalmente com wangas, quando é o único e melhor jeito, quando estamos
realmente em perigo.

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A ENERGIA DAS LOAS

As Loas são energias, assim como nós. A diferença é que as Loas são energias puras
que podem se manifestar onde quiserem enquanto nós somos energias aprisionadas
em um corpo físico. O canal de comunicação entre nós, energias aprisionadas e o
mundo físico se dá, principalmente através da glândula pineal, considerada
misticamente como o terceiro olho, o Chakra Ajna. É através da pineal que acontece o
fenômeno da incorporação e do transe. Por isso sentimos dores de cabeça, arrepios
capilares e tontura, pois as energias puras das Loas mexem com nossa pineal. Outros
Chakras são também usados, mas nenhum possui a mesma importância que a pineal e
o Chakra Ajna. O Ajna fica situado exatamente entre as sobrancelhas, na mesma reta
que a pineal.

Quando lavamos a cabeça com um banho de ervas, ou quando passamos por rituais
focados na cabeça, como o Lave Tèt, a ideia é limpar energeticamente a cabeça,
protegendo essa de influências negativas e filtrando as energias positivas. Com toda
essa importância do cérebro e, por extensão, toda a nossa cabeça, é o motivo de não
deixarmos que pessoas toquem em nossa cabeça caso não sejam de nossa confiança
(na verdade, evitamos que qualquer pessoa toque nossa cabeça sem um bom motivo).
Remédios psicotrópicos, em sua maioria, podem atrapalhar a concentração, os
contatos mediúnicos e a incorporação. Da mesma forma, qualquer tipo de enteógeno,
como por exemplo o daime, jurema, bebidas alcóolicas, maconha, crack, cocaína, etc,
possuem um efeito nocivo na prática Vodu. A Moushwa serve como um filtro que
deixa passar as energias que queremos ter contato e bloquear as que não nos são
interessantes. Neste ponto, devemos observar que há a influência da cromologia, pois
as cores podem ser usadas para influenciar o tipo de energia que buscamos. Todo
Voduísta precisa ter pelo menos uma Moushwa branca, para trabalhar com segurança
e foco com a Loa desejada, e assim obtermos o melhor resultado possível.

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Como exemplo, podemos ver como as energias negativas e indesejadas, em vermelho,
atingem a glândula pineal (estrela) da mesma forma que a energia evocada, em verde,
causando uma confusão de energias, prejudicando o trabalho. Com a Moushwa na
cabeça, apenas a energia evocada/desejada se comunica com nossa pineal,
bloqueando a entrada de energias invasoras. O mesmo efeito se pode esperar com os
banhos de cabeça e fica tudo muito melhor quando podemos unir a lavagem de
cabeça e a Moushwa. A Moushwa branca é universal, podendo ser usada para todas as
Loas Rada ou Ghede, enquanto a Moushwa vermelha é a mais indicada para os
trabalhos Petwo, pois é a cor que chama a atenção dessas Loas. Outra opção, muito
comum nos templos, é usarmos Moushwas nas cores da entidade a ser trabalhada,
portanto, usamos azul claro ou branco para Lasirèn, esmeralda para Agwe, vermelho,
verde ou azul marinho para Danto, dourado ou amarelo para Legba ou Jean Petwo,
vermelho para todos os Petwo ou para Bossou, Kalfou e Simbi Makaya, verde ou
vermelho para Gran Bwa, verde escuro ou roxo escuro para Lubana, Roxo para os
Ghedes, preto para Simalo e assim por diante.

Quando sentimos a energia das Loas, durante um ritual qualquer, é através de nossa
pineal que a sentimos por perto. A pineal é como se fosse uma antena, que capta as
energias a nossa volta. Muitas vezes não estamos bem o suficiente para nos conectar
com as energias das Loas, em outros momentos a Loa não quer fazer essa conexão ou
a energia dessa Loa é tão sutil e familiar com a nossa, que não sentimos nenhuma
diferença quando ela está conectada ou não. Por outro lado, algumas Loas são tão
densas que sua energia é imediatamente perceptível, mudando o clima de todo o local
e nos causando dor de cabeça, tontura, enjoo, entre outras possíveis sensações.
Nossas Loas Mèt Tèt costumam ser menos perceptíveis, pois sua energia é presente
em nós desde sempre, já vibramos na mesma escala e qualquer mudança no ambiente

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ou qualquer conexão com essa Loa pode ser muito discreta. Isso, no entanto, não é
uma regra, vai depender da qualidade da Loa, assim como do nosso estado mental no
momento. Uma Loa calma como Damballah pode ser imperceptível quando estamos
igualmente calmos e tranquilos, mas poderá se apresentar claramente quando
estamos nervosos e tensos, pois estaremos vibrando em uma energia diferente
daquela Loa. Da mesma forma, caso estejamos muito raivosos, dificilmente sentiremos
a energia de uma Loa como Kalfou, Bossou ou Danto, que se estivéssemos calmos,
seria mais que óbvia a percepção. Em meio a tudo isso há muitas variantes de energia,
e tudo depende de inúmeros fatores. Sentir ou não a energia de uma Loa não é a
garantia de que ela vai nos atender. Lidar com a questão energética é um desafio para
todos, pois alguns de nós somos mais sensíveis a essas energias enquanto outros têm
maior dificuldade. Além do mais, não estamos falando de uma simples energia a ser
manipulada, mas sim de uma energia viva, pensante, capaz de tomar decisões como
nós, com a diferença que nosso invólucro físico nos limita a conexão, enquanto as Loas
podem se conectar como e quando quiserem, embora tenham alguma dificuldade por
causa de nossa proteção física. Facilitamos essa conexão através dos banhos, rituais,
rezas e etc.

Quando ritualizamos, seja um agrado ou uma Wanga, a energia daquela Loa se faz
presente no ambiente. É através da água que as Loas ou espíritos viajam rapidamente
de um ponto ao outro. Por isso devemos ter cuidado ao se manipular a água durante
um ritual, e águas “sem um dono espiritual” deverá ser retirada do ambiente ou
tampada. O vèvè, devidamente ritualizado, é o nosso portal entre o nosso mundo e o
dos espíritos, e por isso a libação é feita com água, de forma a facilitar a chegada das
Loas através do portal. A queima de incensos e resinas, entre outros perfumes como a
florida water, pompéia, kananga ou perfume comum ajudam a manter a energia da
Loa no ambiente, pois são energias que exigem muita limpeza no local. A vela é como
um farol, que ilumina o caminho para que as Loas e os espíritos venham até você e
usem o fogo como oferenda e ponto focal de sua presença. A vela é constituída de
cera (corpo físico), pavio (potomitan sagrado) e a chama (o espírito), sendo um
“repozwa” temporário para aquela Loa. Diante de tudo o que foi explicado, fica clara a
complexidade de se lidar com as energias, e ser voduísta é saber manipular de forma
sábia e natural essas energias. Por essa razão, manter a calma e o foco durante seus
trabalhos Vodu é imprescindível para o sucesso de seus propósitos. Se você estiver
muito tenso e irritado ou ansioso, as energias poderão invadir sua cabeça, virar uma
grande mistura e as coisas funcionarem ou não. Respirar, acalmar a mente e manter o
foco é a melhor saída.

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Vodu Deka, Ason e Vodu Dominicano
Historicamente, na ilha que se dividiria entre Haiti e República Dominicana havia
apenas o Vodu Deka e, não muito longe dali, nos EUA, havia uma prática religiosa
africanizada que viria a se chamar Vodu. Nos primórdios do Vodu, aquele praticado na
ilha de São Domingos, era um Vodu simples, ligado à natureza, passado de geração em
geração, com uma estrutura igualmente simples, apenas uma iniciação, cheio de
árvores sagradas e com o simples e único Tcha Tcha, ou também chamado de Kwa Kwa
ou Kwe Kwe, o chocalho feito de cabaça. Este era o Vodu Deka.

No Haiti, o Vodu Deka é encontrado principalmente nos Templos em Souvenance,


Soukri, Badjo, Lavil Okan, Dereal, Nan Kanpech entre outros. O Vodu Deka foi o
alicerce para o Vodu haitiano da linhagem do Ason. O Vodu Deka dividi seu panteão
em deuses ligados às Águas (Radas) e os ligados ao Fogo (Petwo), deixando os
elementos Ar e Terra como secundários, podendo estar ligados tanto aos Rada quanto
aos Petwo. É dito no meio Deka que o primeiro ser humano a implantar o Vodu Deka
na ilha de São Domingos não era um escravo, mas alguém enviado pelos deuses.

Como ainda funciona atualmente, o Vodu Deka reconhecia apenas uma iniciação,
chamada de Sèvis Tèt. Trata-se de um ritual longo, mas muito simples, e a partir dele a
pessoa recebe os ensinamentos para que num futuro próximo ela se torne um
sacerdote (Houngan Makout ou Mambo Makout). O Sacerdócio é também marcado
por um ritual, muito simples também, mas com forte simbolismo e para o
reconhecimento daquela nova autoridade na Fanmi. Ao longo da prática do servo,
dentro do Vodu Deka, há rituais pontuais e batismos, mas nenhum chega perto da
importância do Sèvis Tèt.

Vodu haitiano, como já sabem, é uma religião crioula que foi o resultado dos
multiculturais, linguisticamente misturados africanos que compunham as populações
escravas durante os séculos XVIII e XIX na ilha de Hispaniola. Trazidos da África
Ocidental e Central pelos portugueses, os africanos eram uma mistura de daomeanos
e congoleses com uma variedade de outras etnias, incluindo o Igbo, o Senegal, o
Iorubá e a Djouba. Cada grupo emprestou elementos críticos para a mistura que
floresceria na fé do Vodu haitiano. O primeiro grupo é o Fon do Daomé, atual Benin.
Sua influência no vodu haitiano foi devido à sua importação de massa crítica para a
colônia francesa de São Domingos, juntamente com sua sofisticação teológica
encontrada por toda a região entre os iorubás, dogon, dagara e outros povos. Os
nomes de espíritos, danças e práticas litúrgicas, como ritos iniciáticos, podem ser
rastreados até o povo daomeano. O Fon também contribuiu com palavras, como ounfò
(casa dos espíritos), ounsi (esposa espiritual) e oungan (sacerdote espiritual).

O segundo grupo mais influente foi o congolês, que trouxe suas ideologias mágicas,
filosofia religiosa e identidade cultural para o cadinho no qual o Vodu foi misturado. O

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Kongo lakous de Soukri, Badjo e Souvenance ainda mantém as práticas mais puras do
ritual africano. Os congoleses também foram amplamente distribuídos no sul do Haiti,
de Les Cayes até Jacmel. A linguagem, as práticas rituais e a estrutura organizacional
de cada prática reflete claramente essa herança

Finalmente, outros grupos acrescentaram em vários artigos de fé e práticas que ainda


fazem parte das áreas onde seus ancestrais se estabeleceram. Os igbo, por exemplo,
emprestaram a idéia de jarros como canaris e govis para a habitação de espíritos, e o
Ewe contribuiu com práticas ancestrais, como oferendas de comida para propiciar os
mortos. Essa inclusão de estilos de serviço religioso, tradições ancestrais e idiomas é
como os africanos foram capazes de sobreviver durante a era das plantações. A voz do
que viria a se tornar o Vodu haitiano tornou-se uma bricolagem de ideias quando essas
formações étnicas africanas se encontraram. Os africanos falavam uma grande
variedade de idiomas e dialetos. Mas, eles adotaram o francês com sintaxe africana
como sua língua de escolha. Diferentemente do iorubá, que se tornou a língua litúrgica
tanto na Santería cubana quanto no candomblé brasileiro, o Kreyòl era a língua franca
falada por todos na época da Independência em 1804. Isso porque dois terços dos
escravos da época nasceram na África e reteve o conhecimento de sua língua e suas
práticas espirituais, que misturados ao Francês, tinham como resultado o Kreyòl. Como
Rachel Beauvoir-Dominique colocou em um ensaio que apareceu em Sacred Arts of
Haitian Vodou de Donald Cosention (1995):

O Vodu surgiu [da escravidão e da revolução] com uma visão fundamental em que a
religião e a magia, embora autônomas, constituem um corpo único. . . Cada templo,
mesmo o mais "religioso" em perspectiva, está sob o patrocínio de uma ou vários [. .
.] divindades destinadas a trabalhar, prestar serviço e até mesmo acumular
pequenas fortunas para seus possuidores.

O Vodu que se desenvolveu depois da Independência (antes da independência, o


Vodu era a forma mais pura e única linhagem Deka) foi em parte o resultado da
negligência da Igreja Católica em ajudar seus membros mais pobres e os africanos que
precisavam estabelecer uma vida na ilha. Essas duas correntes se fundiram no
ressurgimento do lakou, um sistema africano de compostos familiares com terra
compartilhada (como se fosse uma tribo). O sistema lakou também ajudou a impedir
que o estado restabelecesse a cultura das plantações e promoveu a implementação de
práticas ancestrais africanas. As pessoas, tanto relacionadas ao sangue como não
relacionadas, criaram compostos familiares que ainda existem até hoje. Dentro desses
compostos, as práticas africanas de agricultura, família e religião tornaram-se o modo
de vida da maioria dos haitianos, até o presente.

O Haiti é uma sociedade rural, onde o culto dos ancestrais serve para guardar os
valores tradicionais dos camponeses. Em meio aos camponeses haitianos, os espíritos
[ancestrais e Loas] são servidos diariamente e se reúnem com suas famílias extensas

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para ocasiões especiais, como aniversários, biológicos e espirituais. As pessoas
costumam caminhar quilômetros ou até mesmo dias para participar de uma
celebração ou participar de cerimônias realizadas mensalmente e, às vezes,
anualmente. As celebrações não são a única razão para participar de cerimônias em
complexos familiares. Os lakous rurais também são onde se encontra um fey medsin,
ou doutor das folhas, indivíduos que são conhecidos tanto por seus conhecimentos
(konesans) espirituais quanto por seus talentos de cura. Com um sistema médico
situado mais nas cidades, as pessoas do meio rural depositam sua confiança no
curandeiro local, que trata tanto da doença física quanto de suas causas espirituais.
Medsin feys plantam suas ervas medicinais no perímetro das lakous onde vivem ou
sabem onde as plantas crescem localmente e võ ritualisticamente em busca delas.
Muitas vezes herdando conjuntos de espíritos e seus conhecimentos médicos de um
pai ou parente, um medsin fey local é comumente um Sacerdote Vodu, e normalmente
sem as firulas de iniciação da linhagem Ason. Vodu é a religião para a maioria da
população no Haiti hoje. Embora a associação ao Vodu não seja contada pelo senso, há
um ditado comum que diz que o Haiti é 70% cristão e 100% voduísta, uma alusão à
natureza oculta da última. Isto é especialmente verdadeiro para os ricos e os
ascendentes, que rejeitam a associação aberta com sua herança africana. Os
praticantes de vodu geralmente se percebem como bons cristãos e não veem nenhum
conflito com a prática do catolicismo, bem como servir os espíritos. De fato, muitos
Sacerdotes marcam os dias de festa da Loa seguindo o calendário católico de
observâncias.

Com grande parte do Haiti ainda sendo uma sociedade rural, o Vodu está fortemente
ligado à veneração dos ancestrais, da vida familiar e da terra. Na ausência de locais
formais de adoração, o Vodu pode ser praticado em todos os lugares. Encruzilhadas,
cemitérios, árvores, cavernas, cachoeiras e outras formações naturais tornam-se os
templos Vodu (A linhagem Deka, embora tenha templos comuns, costuma preferir o
culto direto na natureza). Cada lugar tem importância dentro da liturgia, seja um
simples repozwa natural (árvores sagradas que abrigam espíritos Vodu) crescendo ao
lado de um complexo familiar ou uma majestosa cachoeira que desce do lado de uma
montanha. Este reconhecimento do mundo espiritual como manifesto no físico é uma
possível razão pela qual o Vodu foi mal interpretado. As pessoas que olham para o
Vodu do lado de fora confundiram o ato de adoração ao pé de um mapou sagrado
(Sumaúma) como adorando a árvore, em vez do reconhecimento do espírito que se
acredita ser simbolizado pela própria árvore.

Segundo disse o pesquisador de Vodu haitiano, Wade Davis, em 1986: “Religiões


monoteístas, como o cristianismo, são prescritivas e usam um texto sagrado, como a
Bíblia, da qual os seguidores derivam as doutrinas e as leis básicas da fé. O vodu
haitiano oferece poucos absolutos e não possui um código de ética prescritivo. Os
seguidores definem princípios morais para si mesmos e são guiados por lições de

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vida, pela sabedoria dos ancestrais e pela comunicação com os espíritos. O vodu é
fundamental para a cultura haitiana e baseia-se em uma concepção de realidade que
inclui objetivos da vida, forças que determinam o destino dos seres vivos,
organização social adequada, relações interpessoais equilibradas e práticas que
promovam o bem-estar da comunidade. O Vodu leva em conta as necessidades do
povo”. Sosyetes Vodou (como são chamados os membros de um Hounfò) irá receber
doações, com as quais poderão ajudar os membros mais necessitados da própria
fanmi, fornecendo dinheiro para aluguel, roupas para crianças ou materiais para a
escola. A hierarquia de uma Sosyete Vodou ajuda a manter a ordem e permite que
cada pessoa seja respeitada de acordo com o nível em que participa. A Mambo ou o
Houngan é, em si mesmo, o juiz presidente, o júri e, quando necessário, o executor.
Ela ou ele media os argumentos, fornece orientação no discurso conjugal, conforta as
pessoas após desastres naturais, encoraja os jovens a aprender, oferece esperança por
meio de doenças debilitantes e gerencia as expectativas de toda a Sosyete. O lado
público dos líderes Vodu é exibido ao hospedar um fet (Loa) para sua sosyete. Comida,
bebida, bons cantores (Houngenikons) e poderosos bateristas (Tamboyes) são
fornecidos para garantir que a fet seja um sucesso para a sosyete, assim como para sua
comunidade em geral. O prestígio de Mambos e de Houngans como líderes rituais e
sua reputação como Franco Ginen Mambo/Houngan (um membro moral e honesto da
comunidade) estão intimamente ligados ao seu trabalho como sacerdotes, guias e
curadores.

O que foi dito anteriormente está intimamente ligado ao Vodu Deka, o Vodu rural, o
mais antigo praticado no Haiti. Mas, o Vodu urbano, por sua vez, difere – ou pelo
menos deveria diferir – de seu primo do interior (Deka) apenas em ser chamado de
"templo" Vodu. Os conceitos de vida comunitária ainda giram em torno do Hounfò da
cidade, da Mambo e do Houngan, mas os devotos devem recriar a família deixada para
trás pela migração para os centros urbanos e continuar sua busca por valores religiosos
e morais. Os templos urbanos podem estar localizados em casas, porões ou perto de
igrejas. Não é incomum que os participantes de um templo urbano de Vodu saiam da
cerimônia pela manhã e vão diretamente assistir à missa na igreja depois. Onde o
vodu urbano se diferencia é na estrutura litúrgica encontrada no templo Vodu.

O Vodu rural, das lakous de Souvenance, Soukri e Badjo, na área de Gonaïves, no


Haiti, permanece fiel às suas ideias e práticas africanas, sem grandes modernismos.
Sua liturgia é cantada, e o estilo de adoração é conhecido como Deka, uma palavra
do Congo que significa “das estrelas”. Os serviços Deka são celebrações anuais ligadas
ao calendário astrológico e celebradas como em algumas regiões da África. O Templo
Vodu urbano, por outro lado, segue o calendário católico de observâncias para os seus
dias sagrados e tem elementos da maçonaria, do catolicismo e da teologia do antigo
reino do Daomé e Congo na sua estrutura litúrgica. O pesquisador Claudine Michel
escreveu uma vez:

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“Embora as variações rituais sejam verdadeiras em todo o Haiti devido à nação
dominante de africanos trazida para cada área do país através da escravidão, cada
templo é um universo próprio. Mitos e cerimônias podem diferir de um templo para
outro, assim como de uma família a outra, dependendo da região, tipos de espíritos
servidos e invocados/evocados, estilos de adoração e questões específicas de uma
determinada comunidade, mas eles ainda têm muito em comum.”

Hoje, o Vodu haitiano se desenvolveu em múltiplos fluxos que se inspiram nas mesmas
fontes da África Ocidental. Há Vodu rural que é orientado para a família, relacionada
com o sangue, e encontrada no campo desde o Plateau Central até Cap-Haïtien.
Dentro deste estilo encontram-se líderes chamados Sèvitè (servos), que são
escolhidos da família para servir um espírito ou uma nanchon de espíritos no
complexo familiar. Depois, há o vodu urbano ou templo, que é centrado em Port-au-
Prince e se estende para o sul de Jeremie a Jacmel. Dentro deste estilo está a
linhagem Ason, onde membros não-familiares são iniciados na sosyete e servem no
templo. Esses templos servem muitas vezes a uma variedade de espíritos e são
liderados por uma Mambo ou Houngan Asogwe, o mais alto nível em linhagens
iniciadoras no Vodu Ason. Na região ocidental pode ser encontrado o Vodu Deka,
muito forte no trio de lakous fora de Gonaïves. Retornando às suas raízes africanas,
esse estilo de serviço também é conhecido como a linhagem tcha-tcha ou makout.
Makout refere-se ao saco de palha carregado por esses Sacerdotes em rituais, dentro
do qual contém seus itens sagrados, um dos quais é o tcha-tcha, um chocalho
redondo frequentemente pintado em cores vivas e usado em serviço como um ason.

Além disso, existem muitas sociedades secretas que podem ou não fazer parte do
Vodu. Com nomes como Bizango, Chanpwel e Sect Wouje, elas funcionam fora das
normas do templo ou Vodu rural. Elas descendem dos grupos de “marons” e
revolucionários do Haiti do século XVIII e tendem a praticar formas mercenárias,
moralmente ambíguas de magia e religião. Muitos vodouístas hoje os consideram
como estranhos à fé. Sejam elas ou não, a maioria as considera como pa Ginen, que
significa “não Ginen”. Como o Hongan Simon Herard uma vez observou: “Não se pode
ser Bizango e Ginen. Eles são mutuamente exclusivos”. Existem também muitas
organizações maçônicas e pseudo-maçônicas no Haiti que se encontram e operam
dentro dos paradigmas definidos pelo Vodu, mas que não são religiosos na prática ou
nos ideais. Assim, podemos claramente perceber que, com a chegada da linhagem do
Ason, no início do século XX, o Vodu Deka foi sendo cada vez mais esquecido ou
colocado de lado. Os primeiros estrangeiros a desembarcar no Haiti não iam muito
além da capital, onde se encontrava a maioria dos templos urbanos, ou seja, o Vodu
Ason. Tendo apenas esse contato direto, passou a se criar a crença de que o único – e
verdadeiro – Vodu da ilha era o Vodu “Urbano” Ason. Embora ainda muito forte, até
hoje, o Vodu Deka foi ficando cada vez mais escondido nas regiões rurais. Esse mesmo
Vodu Deka, familiar e rural, bastante africanizado, serviu como alicerce para o Vodu

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Dominicano, sobretudo na região oeste da República Dominicana, divisa com o Haiti.
Enquanto a região onde se tornaria Haiti permaneceu sob o domínio francês, uma
região ainda maior, a qual viria a se chamar República Dominicana, ficou sob o poder
espanhol. Quando o Vodu começou a se transformar (um protótipo do que seria o
Deka), era uma só ilha, com escravos (sobre)vivendo a mesma e cruel realidade. Por
isso é comum alguns afirmarem que o Vodu Deka serviu de alicerce para o Vodu
Dominicano, apesar das atuais diferenças. A receita, grosso modo, é muito simples:
peque o Vodu Deka, adicione bastante Espiritismo de Kardec, Catolicismo, crenças
indígenas e, mais tarde, pega mais um pouquinho de outras ramificações afro-
americanas, como o Palo e a Santeria, e então você terá o vodu Dominicano. Com
muita migração de haitianos para a República Dominicana, muitos detalhes do Vodu
como praticado no Haiti influenciou ainda mais algumas casas de Vodu Dominicano.

Referência: Davis, Wade. 1986. The Serpent and the Rainbow: A Harvard Scientist’s
Astonishing Journey into the Secret Societies of Haitian Voodoo, Zombis, and Magic.
New York: Simon and Schuster.

Resumo de Brainstorm

01 – Inúmeras etnias juntas na ilha de Hispaniola, trocavam suas crenças e, para


sobreviverem, buscavam se comunicar de uma forma comum entre eles.

02 – Uma religião rural, baseada no que restava das memórias de suas crenças
africanas, se desenvolvia e n futuro daria como resultado o Vodu Deka.

03 – O Vodu Deka só iniciava pessoas consanguíneas.

04 – A ilha de Hispaniola se dividiu em Haiti e República Dominicana, tendo o Vodu


Deka, ou Vodu rural como base religiosa de muitos negros.

05 – Para aceitar iniciações de pessoas sem ligação consanguínea, o Vodu Ason, um


Vodu Urbano, surgiu no início do século XX. Assim, o Ason passou a ser um Vodu mais
estilizado e organizado, e foi caindo no gosto das pessoas, principalmente
estrangeiros.

06 – O Vodu Deka continuava firme e forte, principalmente ao norte do Haiti, nas


regiões mais rurais, e também na fronteira e norte da República Dominicana.

07 – Tendo o Vodu rural como base já bem estruturada, misturando nele crenças
como o Catolicismo, Kardecismo, Xamanismo dos antigos índios da ilha, Palo e
Santeria, futuramente daria como resultado o Vodu Dominicano, Las 21 Divisiones.

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LAS 21 DIVISIONES

O Vodu Deka, como já mencionado na apostila 1 do curso básico, é um Vodu rural,


originalmente passado através de laços consanguíneos, um Vodu extremamente oral
e com uma só iniciação, o Sevis Tèt (servir à cabeça) e com o uso do Tcha Tcha (Kwa
Kwa ou Kwe Kwe), um chocalho simples e colorido, feito com uma cabaça e um cabo
de madeira. Esse Vodu Deka foi a primeira forma de Vodu a se instalar na ilha que
mais tarde viria a se dividir entre Haiti ao Oeste, sob o domínio francês e Republica
Dominica ao Leste, sob o domínio espanhol. A República Dominicana ficou com o
maior pedaço da ilha. Os Vodus mais atuais, como o da linhagem do Ason, eclodiram a
partir do Vodu Deka, com a intenção de possibilitar que pessoas sem laços
consanguíneos pudessem ser iniciadas no Vodu e dar continuidade à religião. Na
República Dominicana, entretanto, o Vodu Ason apenas surgiu com a ida de imigrantes
haitianos, e não é tão popular quanto no Haiti. Os escravos estavam por toda a ilha
antes da divisão entre Haiti e República Dominicana, sofreram as mesmas coisas, suas
religiões evoluíram exatamente iguais, embora mais tarde cada uma tomasse formas
diferentes por causa de influências e pontos de vista diferentes. Assim, enquanto o
Vodu Deka caminhava para ser a base do Vodu Ason, por razões nobres, o Vodu Deka,
em terras Dominicanas, logo na fronteira com o Haiti, caminhava para ser a base do
Vodu das 21 Divisões. Tanto o Vodu Haitiano quanto o Vodu Dominicano estão
intimamente ligados, são primos de primeiro grau e com convivência de irmãos.

As 21 Divisões são, grosso modo, 21 reinos, cada um com sua hierarquia própria e
seus fundamentos particulares. Por exemplo, os Ghedes estão na posição 3 das 221
Divisões, eles possuem uma hierarquia própria, com seu rei, rainha e súditos, sendo
um reino próprio. Na posição 2 temos a divisão dos Ogous, onde há somente espíritos
guerreiros, com uma hierarquia normalmente encabeçada por Ogou Feray (depende
da casa Vodu). Essas 21 divisões podem ser resumidas dentro de 5 categorias, Rada,
Petwo, Ghede, Congo e Nago. Da mesma forma, também podemos organizar as 21
divisões dentro de três categorias: a divisão branca, a divisão indígena e a divisão
negra. Essas divisões, por mais complexas que possam parecer, ajudam aos sacerdotes
a organizarem a ordem ritualística e a disposição de altares e cultos dentro do templo.
Normalmente são informações de pouca importância prática ao servo não iniciado.

ATENÇÃO!!!

Não se assuste com as informações a seguir. Tirando alguns nomes novos, o que
você vai ler é uma forma organizada e complexa de se colocar as divindades dentro
de seus respectivos reinos. O que o aluno aprende no curso, desde o básico, está
livre dessas complexidades que são mais úteis para o sacerdote. Assim, fique
tranquilo que nada muda no que já foi aprendido.

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O Vodu Dominicano (as 21 divisões) possui:

Mistura de Cardecismo, bruxaria, santeria, palo mayombe (monte), catolicismo, Vodu


Haitiano e religião indígena taína.

Panteão 21 divisões

Há cinco categorias principais, dentro das quais as divindades são organizadas (vocês já
as conhecem muito bem):

1 – Rada

2 – Petwo

3 – Ghede

4 – Congo

5 – Nago

As 21 divisões são:

1 – Os Legbas (divisão dos anciãos sábios, onde o chefe é Papa Legba)

2 – Os Oguns (também divisão de fogo, dos guerreiros, o chefe é Ogou Balendjo)

3 – Os Ghedes (divisão da terra, dos mortos, o chefe é Samedi)

4 – Os Radas (divisão do ar, dos espíritos Rada, o chefe é Pié Pier Basicó, ou Legba)

5 – Os Lokos (divisão de terra, dos espíritos que vivem nas árvores, o chefe é Loko)

6 – Os lokomis (também Locami, é ligada à espíritos dessa tribo, chefe Leon Nicomé)

7 – Os Petwo (divisão de fogo, o chefe é Gran Buá Yilet, um espírito muito agressivo)

8 – Os Simbis (divisão da magia, o chefe é Simbi Andezo)

9 – Os Petifones (divisão indígena, o chefe é Sigó)

10 – Os Marasa (representa todas as divindades gêmeas, o chefe é Radisa Lamé)

11 – Os Zombis (espíritos vitimas de feitiçarias, o chefe é Baron del Cementerio)

12 – Os Indios (espíritos e divindades indígenas, o chefe é Gamao)

13 – Os Nagos (espíritos ioruba, o chefe é Ogou Feray ou Olisa Bayi)

14 – Os Congos (espíritos do Congo, o chefe é Gamodi)

15 – As Guineas (tribal africana, o chefe é Aguiné Pye)

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16 – Os Niñillos (tribal africana, o chefe é Ramón Sandó)

17 – Os Caes (tribal, o chefe é Caé Samá)

18 – Os Dangueles (tribal africana, o chefe é Quinamá ou Kinamá)

19 – Os Shuques (tribal africana, o chefe é Alangué)

20 – Os Piues (tribal, o chefe é Lambá)

21 – Os Difemayos (espíritos tribais dos Difemayo, o chefe é Gamó)

As Divindades das 21 Divisões, além de serem organizadas dentro das cinco categorias
citadas, podem também ser divididas em três importantes grupos étnicos:

Divisão Branca

Divisão Indígena

Divisão Negra

A Divisão Branca (Elemento AR): Divisão branca se caracteriza por todas as divindades
que são e podem ser cultuadas sobre altares e dentro de casa. A grande maioria das
Loas que os alunos conheceram está nesta categoria, tanto Rada quanto Petwo. Outras
divindades que entram neste grupo são Anaisa Pye, Candelo Cedife, La Gunguna, La
Señorita, La Candelina e alguns outros. É chamada de divisão branca por, além de
serem espíritos considerados bem evoluídos, eles se comportam com padrões de culto
europeus, tanto do catolicismo quanto da bruxaria tradicional. Muitos nesta divisão
são também de forte influência do kardecismo. No Vodu tradicional (Sincrético), essas
divindades são cultuadas exclusivamente por imagens católicas.

A Divisão Indígena (Elemento ÁGUA): Este grupo, também chamado de Divisão das
Índias, consiste em algumas Loas e outros espíritos ligados às águas, como Agwe,
Lasirèn e Balendjo, que também fazem parte do grupo anterior (Divisão Branca). Neste
grupo estão igualmente os espíritos indígenas de uma forma geral, incluindo deuses
desses povos, comos os deuses Cemis (Zemis) dos Taínos. Os espíritos da divisão
indígena, com exceção das com caráter de Loa, são sempre cultuadas em contato com
a terra e normalmente ficam afastados das Loas comuns, as da divisão branca.
Também, com exceção das Loas que podem surgir tanto na divisão branca quanto na
divisão indígena, os espíritos unicamente desta divisão não podem receber oferendas
com sangue. Alguns poucos Ghedes podem cair neste grupo. Reconhecemos a
manifestação de um espírito comum nesta categoria quando ele vem sedento por
água.

A Divisão Negra (Elemento FOGO): Este grupo é também servido na terra, na natureza
ou em locais fora de casa, como no quintal, por exemplo. Podem ser mais agressivos

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ou terem gostos e prazeres bem humanos. Alguns Petwo caem nesta categoria, assim
como muitos Ghedes e Congos. Todos os Bawons, Brigittes e Lubana, assim como
Marinette, Brisé, Dinclinsin e outros caem nesta categoria. Esses espíritos amam muito
se alimentar de sangue, exigem sacrifícios frequentes de pessoas iniciadas e podem se
tornar perigosos se não forem abordados devidamente. Cabe, claro, exceções aqui,
pois alguns vão ter altares dentro de casa, dependendo do Esko de cada pessoa. Mas
jamais podemos misturar altares das três divisões. O elemento TERRA fica a cargo dos
espíritos mais próximos de nós, incluindo os Ghedes. Um espírito do elemento TERRA é
Chamado de Sentinela e ele pode estar em qualquer uma das divisões citadas.

Simplificando

Os espíritos e divindades do PANTEÃO VODU se divide em RADAS, PETWO, GHEDES,


NAGO E CONGO. Estes podem ser organizados dentro das DIVISÕES BRANCA,
INDÍGENA E NEGRA, e cada uma dessas três se divide em sete reinos, resultando 21
DIVISÕES.

O PANTEÃO VODU é imenso, e as categorias e subcategorias ajudam aos sacerdotes


a compreender e organizar os espíritos.

RADAS, PETWO, GHEDES, NAGO E CONGO são grupos simplificados para organizar
espíritos e divindades vindas de diferentes regiões africanas e dentro dessas
categorias encontramos tribos menores.

DIVISÕES BRANCA, INDÍGENA E NEGRA ajudam ao sacerdote a organizar o método


de culto dos envolvidos dentro de cada categoria. Por exemplo, todos os que caem
na DIVISÃO INDÍGENA não vão receber sangue, enquanto os da DIVISÃO NEGRA
amam sangue e os da DIVISÃO BRANCA PODEM OU NÃO RECEBER.

LEGBA, por exemplo, é da DIVISÃO BRANCA, RADA ou da DIVISÃO NEGRA, PETWO


(Ele pode participar de ambas). OGOU FERAY é da DIVISÃO NEGRA, mas é RADA-
NAGO, enquanto OGOU BADAGRI pertence à DIVISÃO INDÍGENA, RADA-CONGO.
FREDA é da DIVISÃO BRANCA, RADA. DANTO é da DIVISÃO BRANCA, mas PETWO.
MARINETTE (Furibunda no Vodu Dominicano) é da DIVISÃO NEGRA, PETWO-CONGO.

Sei que você compreendeu, mas é confuso. Mas não se preocupe, são informações
mais importantes para o Sacerdote do que para o Servo, que em 99% das vezes não vai
fazer uso dessas hierarquias. O que foi explicado está no máximo de simplicidade, pois
são muito mais complexas do que o exposto. Dependendo de cada templo, há algumas
variações. Por exemplo, na maioria dos Vodus Dominicanos, Barón del Cementerio é
mais importante que Legba, sendo Barón o responsável por abrir os portões e trazer as
outras divindades. O Ninho da Serpente optou por manter Legba neste posto,
deixando Barón del Cementerio em sua função de Barão.

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Em alguns rituais, queremos agradar todo o panteão de espíritos. Por ser um panteão
muito vasto, seria humanamente impossível agradar a todos em uma vida inteira,
imagine em um único ritual. Assim, podemos agradar a todos através de um meio
muito simples e facilitado graças às organizações mencionadas. Sobre uma mesa,
colocamos uma toalha branca. À esquerda colocamos uma vela preta, no meio uma
vela verde e à direita uma vela branca. No meio da mesa, um copo com água. Quando
as velas terminarem, descarte a água na entrada de casa.

Divisão Branca – Vela branca ou amarela.

Divisão Indígena – Vela azul ou verde.

Divisão Negra – Vela preta ou vermelha.

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OS SETE CHEFES ESPIRITUAIS ou SANSES

Entre todas as divindades, organizadas em categoria e etnia tal como estudado


anteriormente, temos também os sete chefes espirituais, que podem mudar dentro de
cada Fanmi:

Comumente encontrado Dentro do Ninho da Serpente

1 – Anaisa la Chiquita 1 – Ezili Freda


2 – Lubana (Santa Marta Dominadora) 2 – Lubana
3 – Danto Pye 3 – Ezili Danto
4 – Belie Belcan (S. Miguel) 4 – Ogou Feray
5 – Candelo 5 – Candelo
6 – Ogou Belando (Balendjo) 6 – Agwe
7 – Barón del Cementerio 7 – Gran Solier (o grande sol) (Legba)

Os sete chefes mencionados acima podem variar entre as casas Vodu, substituindo
nomes por:

Pití Solier

Luis el Guedesito

Viejo Pa

Tumbo Cachita

Belcan Amalia

Balendo Ofelia

Agua Dulce

Tempestuoso Rio

Os Sete Chefes acima são chefes de Falange e são comuns na prática Sanse. Cada um
deles representa uma infinidade de outros espíritos. Embora eu não faça culto a eles,
originalmente no Ninho da Serpente, Freda seria a chefe de todos os espíritos
femininos ligados às águas doces, incluindo até mesmos espíritos menos evoluídos.
Lubana representa todos os espíritos de cemitério; Danto é a chefe de todos os
espíritos de fogo, todos os Petwo; Ogou Feray é o chefe dos Nagos; Candelo é o
espírito chefe de todos os espíritos da rua, aqueles com uma energia mais malandra,
jogadora; Agwe é o chefe de todos os espíritos do mar e Gran Soler rege todos os
espíritos mensageiros e os responsáveis pelos portais. São organizações apenas
simbólicas e a importância disso está apenas em rituais internos da religião.

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AS SETE POTÊNCIAS AFRICANAS

As 7 Potências Africanas são consideradas sete grandes forças do panteão ioruba que
são consideradas uma só energia e evocadas no Vodu Dominicano para ajudar uma
pessoa em uma situação muito grave ou desesperadora. Há wangas e rituais
específicos nessa linha, mas que só devem ser usados com muita seriedade e
responsabilidade. Esses Òrìsà são ocasionalmente cultuados separadamente, embora
raramente isso aconteça com Orunmilá. A ideia de sete potências africanas é muito
relativa e vai depender muito de casa para casa, embora a ordem dada a seguir seja a
mais comum e conhecida.

1 - Orunmila (Orula) – Trás sabedoria.

2 - Yemoja (Yemayá) – Ajuda no casamento, fertilidade e família.

3 – Elegba “Èsù” (Eleggua) – Quebra todos os obstáculos.

4 - Sòngó (Chango) – Domina e destrói todos os inimigos.

5 - Ògún (Ogun) – Trás emprego, trabalho, força e proteção.

6 - Òsún (Oshun) – Trás beleza, amor e riquezas.

7 - Obatala (Obatalá) – Trás harmonia e paz.

A ordem acima é a seguida pelo Ninho da Serpente, mas algumas casas Vodu podem
substituir alguns nomes acima por estes outros:

Obaluaye (Babalú Aye) – Trás saúde.

Ossossi (Ochosi) – Trás fartura e clientes.

Oyá (Oya) – Transformações, vitórias e força.

Òsùmàrè – Riquezas

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BANHO DAS 7 POTÊNCIAS AFRICANAS

Um banho muito bom para situações de emergências ou quando precisamos encontrar


uma paz interior antes que as coisas realmente piorem. Este banho serve também para
nos ajudar nas áreas financeiras, amorosas, guerras, trabalho e contra magia. Não
deve ser feito com muita frequência, pois seu efeito dura por 60 dias.

Faça em uma segunda-feira, em qualquer horário.

Em uma bacia, coloque 2 litros de água de rio ou água mineral. Acenda uma vela
branca ao lado e macere (ato de esmagar ervas) na água as seguintes ervas frescas,
nesta ordem:

Folhas de Pitanga.

Alface d'água.

Hortelã.

Manjerona.

Arruda.

Manjericão.

Boldo.

A medida de ervas deve ser mais ou menos a medida das mãos posicionadas em
concha. Este banho não deve ser coado. Após macerar todas as ervas, cubra a bacia
com um bano branco e deixe ali até a vela branca comum terminar. Antes do banho,
acenda uma vela branca no banheiro e defume o local com mirra. Então tome um
banho de higiene e logo após jogue esse banho mágico, da cabeça aos pés, fazendo
seus pedidos. Enxugue somente as axilas e virilhas. Vista-se de branco, recolha todos
os restos do banho que ficaram no chão do banheiro e os guarde em uma sacolinha.
No dia seguinte, descarte os restos de ervas do banho em uma encruzilhada ou água
corrente. Mantenha 2 dias de resguardo absoluto, evitando inclusive carnes vermelha
e pimentas. Este banho pode ser feito para outra pessoa que precise de ajuda.

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SANSE
Sanse é muito parecido com o Vodu Dominicano, foi influenciado por este e mantem o
Vodu Deka (rural) em suas raízes. Mas o Sanse não o Vodu Dominicano. Muitos
Sansistas afirmam que o Sanse é uma religião, enquanto outros dizem que é apenas
uma prática. O Sanse é uma expressão Vodu praticada em Porto Rico, na qual há uma
iniciação não obrigatória e normalmente não possuem templos, embora não seja uma
regra. O Sanse talvez seja a forma mais aberta de Vodu que existe, pois não seguem
regras estritas e confusas, nem há uma verdade absoluta por trás do Sanse. Mas muito
se engana quem estiver pensando se tratar de uma prática bagunçada.

Na prática do Sanse se mistura uma infinidade de outras práticas, e para citar só


algumas podemos encontrar a religião grega, a religião egípcia, o Vodu, o catolicismo,
o cardecismo, bruxaria europeia, neo paganismo, religião taína, cabala, astrologia,
tarot e uma infinidade de outras práticas. Às vezes está tudo misturado, às vezes são
selecionados algumas práticas enquanto outras não se envolvem. Tudo depende do
estilo de trabalho do Sansista. No Sanse há também rituais, wangas e altares. Alguns
Sansistas não vão praticar sacrifício animal, outros vão; alguns só vão fazer o bem,
outros vão trabalhar com os dois lados e outros poderão praticar somente o mal. Eu li
em um blog que “o Sanse é o Hoodoo do Vodu”, mas não vou dar minha opinião a fim
de evitar ser injusto ou simplório demais. Independente de qualquer coisa, o Sanse é
uma prática bonita. À primeira vista é quase impossível ver a diferença entre o Sanse e
o Vodu Dominicano, mas quando estamos na prática Vodu, percebemos que são bem
diferentes.

Todos os Sansistas possuem uma religião base, oficial. A maioria deles é católica e o
Sanse funciona como uma seita, uma prática “informal”.

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LAS MADAMAS

São cultuadas dentro do Ninho da Serpente, mas em uma posição secundária. Trata-se
de um grupo de vários espíritos muito respeitados e adorados em todas as expressões
Vodu de língua espanhola. Este grupo espiritual representa o sagrado feminino, a força
da mulher e toda a sabedoria feminina de séculos atrás unida em uma só energia. Las
Madamas eram as escravas cuidadoras de seus amos, sempre responsáveis pelo bem
estar da família branca e a que era uma espécie de “chefe” dos outros escravos. Mas
não era qualquer escrava negra que alcançava tal posição, as escolhidas eram
verdadeiras matriarcas de seu grupo, eram mulheres vividas e muito sábias. Elas
conheciam de tudo, desde uma erva para curar (ou matar) até realizar um parto ou
pequenas “cirurgias”. Os senhores de escravo tinham certa admiração e medo por
essas escravas cuidadoras, pois consideravam-nas bruxas perigosas. De fato, elas
traziam em seu interior todo o conhecimento africano em magia e mancias, elas
estavam muito mais próximas de suas crenças africanas do que o catolicismo imposto
pelo branco. Embora essas escravas cuidadoras fossem de diversas origens, a grande
maioria era proveniente do reino do Congo.

Nos altares de Las Madamas encontramos muitos símbolos curiosos. Elas são
representadas com uma estátua de uma mulher negra, de meia idade e com as mãos
na cintura (símbolo de segurança e poder). Bonecas vivas são elementos comuns no
altar delas, bem como uma vassoura de bruxa, caldeirão, baralho, uma colher de pau,
um prato esmaltado branco ou de barro, um pote de barro com ervas, um pilão e um
rosário (se for uma prática sincrética). A categoria das Madamas é na de ancestrais
divinizados.

Entre as muitas Madamas, uma muito famosa é a Negra Francisca, uma dominicana
(alguns dizem que era venezuelana), muito poderosa, conhecedora dos segredos da
magia. A Negra Francisca se casou com Dom Francisco (na Venezuela, ela se casou com
Negro Felipe). Segundo os mitos, ela teria vivido no ano 1800 e, por causa de sua vida,
ela seguiu sendo cultuada como um espírito de muita luz e sabedoria. Ela mesma conta
que era filha de um pai espanhol e uma mãe escrava livre. Um pouco diferente das
outras Madamas, a Negra Francisca é vista como sendo relativamente jovem, bonita,
sensual, mas também carinhosa e muito inteligente, uma mulher de negócios. Ela era
vista como bruxa entre as pessoas do vilarejo, mas era também uma cuidadora na casa
de seus patrões, provavelmente teria seguido os passos de sua mãe. Em uma das
versões, se conta que seu marido era muito mulherengo, ele teria muitas mulheres e
todas envolvidas com a bruxaria. Por causa da inveja que elas sentiam da beleza de
Negra Francisca, as outras amantes do marido dela lançaram um feitiço para deixa-la
estéril. Negra Francisca, como conhecedora de magia, reverteu o feitiço, devolvendo-o
sobre suas inimigas. Ela conseguiu assim ficar grávida, mas teve um aborto. Depois, em
uma segunda tentativa, teve outro aborto. Seu marido acabou falecendo e ela, muito

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apaixonada, se entristeceu com a morte dele, se fechando para o mundo e morrendo
de solidão. Atualmente, o túmulo dessa Madama fica no povoado de Ocumare de la
Costa, Venezuela, e sua tumba tem sido visitada por fieis em busca de sua sabedoria.
Em negrito estão as Madamas comuns no Ninho da Serpente.

Madamas famosas:

Negra Francisca

Negra Tomasa

Negra Amparo

Doña Elena

Tia Maria da Calunga

Doña Josefina

Maria da Luz

Maria Conga

Ma Anabel

Ma Cesilia

Doña Ofelia Negra

Ma Juana

Mama Negra

Doña Almira

Doña de las Gracias

Doña Flores

La Bella Negrita

La Bruja Celina

Negra Hierba Santa

Negra Maria

Negra Caridad

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OS CONGÓS

Os Congós, uma variante do termo Congo, é um grupo de espíritos ancestrais e


divinizados de bruxos, bruxas, médicos e paleros (integrantes da religião do Palo
Mayombe e também músicos do Vodu Dominicano). São extremamente fortes,
exigentes, agressivos e sem paciência. Amam tomar bebidas fortes, oferendas
apimentadas, sacrifícios de sangue e fumar fumo forte. São evocados para se fazer
magia negra ou desfazer magias negras. Muito parecidos com os Petwo, são espíritos
ligados ao fogo e à terra. Em negrito estão os Congós cultuados no Ninho da Serpente.

Alguns Congós:

Ta José

Negro Juaquín

Papa Rojo

Negro Juan

Negro Francisco

Negro Felipe

Candelo el Negrito

Pai Tomás

Pai José

El Prieto Cándido

Tata Joaquín

Hermano Juan

José el Gran Canibal

Hermoso Francisco

Aquino José

Señor Antônio Brujo

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A EGRÉGORA DE ESCRAVOS

Como o próprio aluno pode supor, a egrégora de escravos é um gigantesco grupo de


espíritos de escravos que trabalham junto com o Voduísta para trazer cura, conselhos,
quebrar feitiços e ajudar em qualquer outra área que o servo necessitar. São
extremamente calmos, falam bem baixinho quando se manifestam e gostam de café
doce e cachimbo. São de ambos os gêneros. A maioria desses espíritos são os de
escravos que fugiam dos espanhóis e se escondiam nas montanhas, vivendo entre os
Taínos, somando seu conhecimento africano com o dos indígenas. São incontáveis, e
por isso é impossível listar seus nomes. A egrégora de escravos, portanto, não encerra
grandes segredos.

A DIVISÃO CIGANA

Comum no Vodu Dominicano e no Sanse, a Divisão Cigana é dos espíritos ancestrais


desse povo, um grupo de “divindades” que nos ajudam em todas as áreas,
principalmente em desfazer magias. Não faz parte da cultura do Ninho da Serpente,
pois nunca esteve ligado ao culto de Mambo Wakenaton e anteriores a ela, mas é
certamente uma egrégora muito bonita.

A DIVISÃO EGÍPCIA

A Divisão Egípcia é comum no Sanse, embora eu tenha visto – pouquíssimas vezes –


ser cultuada dentro das 21 Divisões (Vodu Dominicano). Seria o culto dos espíritos de
antigos egípcios e até de divindades keméticas. A teoria por trás disso é que, durante e
logo após a invasão árabe em território Egípcio, no ano 400 e.C., muitos egípcios,
inclusive sacerdotes, se viram obrigados à fugir de seu país e buscaram refúgio entre
outros povos da África subsaariana, principalmente entre os povos Wolof. Daí que vem
a teoria de que muitas palavras do egípcio antigo ainda são usadas na língua Wolof,
bem como fragmentos de culto egípcio entre eles. Originalmente, o Ninho da Serpente
não cultua a Divisão Egípcia, mas por livre vontade eu faço cultos esporádicos a eles.

DIVISÃO NÁUATL

Desconheço esse culto dentro do Vodu Dominicano (caso exista, não é algo comum ou
tradicional), mas já vi entre alguns Sanses e achei uma das coisas mais bonitas de se
ver. O culto Náuatl está ligado à religiosidade do povo Náuatl, com todo o seu colorido
e rezas na língua de mesmo nome. Dizem que espíritos Náuatl se manifestam nesses
cultos, algo que eu gostaria muito de presenciar, já que sou um apaixonado por esta
cultura. No culto Náuatl, consideram Quetzalcotl como equivalente à Danballah, o que
é muito intrigante do ponto de vista da mitologia comparada. Gosto tanto desta
divisão que eu tomei a liberdade em estudar ela e até me arrisco em suas práticas e
oferendas.

49
OS NOMES DAS INICIAÇÕES

Vodu Ason Vodu Deka Vodu Dominicano Ninho da Serpente

1ª Kanzo Semp Sevis Tèt Refrescamiento de Cabeza Sevis Tèt


2ª Si Pwen Aplazamiento Kanzo
3ª Kanzo (asogwe) Bautizo Kanzo (makout)

ORDEM DOS RITUAIS PRÉ E PÓS INICIAÇÕES

ATENÇÃO!!!
INICIAÇÕES VODU, INDEPENDENTE DA EXPRESSÃO, TEM COMO FINALIDADE
TORNAR A PESSOA UM SACERDOTE OU, NOS CASOS MAIS BRANDOS, LIGAR UMA
PESSOA A SUA ESCOLTA, POR RAZÕES SEMPRE PLAUSÍVEIS. A MAIORIA DOS
VODUÍSTAS NÃO CHEGA A PASSAR NEM PELO LAVE TÈT. INICIAÇÃO É PARA QUEM
VAI SEGUIR O SACERDÓCIO. SE NÃO TEM TAL VOCAÇÃO/NECESSIDADE, ENTÃO NÃO
PRECISA IR TÃO LONGE. AS LOAS VÃO OUVIR QUEM SE APROXIMAR DELAS COM
SINCERIDADE E CULTO. SOMOS TODOS FILHOS DAS LOAS! A AFIRMAÇÃO DA NÃO
NECESSIDADE DA INICIAÇÃO NÃO É UMA IDEIA SAÍDA DE MIM, MAS DA GRANDE
MAIORIA DOS SACERDOTES SÉRIOS.

ASON: Na linhagem Ason, a ordem mais comum de pré e pós iniciação é: Lave Tèt, um
batismo para aproximar o Esko do servo e equilibrar sua mente. Logo após, um Gad é
realizado para trazer uma proteção através de um guarda pessoal, Kalfou. A pessoa
pode muito bem ficar no Lave Tèt e Gad e seguir sua vida dentro da Fanmi. Caso deseje
seguir além, realizará o Kanzo Semp, a primeira iniciação, e se tornará um Hounsi e
fará parte do círculo iniciático interno, com deveres dentro da Fanmi. A segunda
iniciação é o Si Pwen, onde a pessoa se tornará um Houngan/Mambo Si Pwen (No
Ponto). Com esta segunda iniciação, vem ainda mais responsabilidades. Uma delas é se
tornar um Laplas (homens) ou Rèn Dwapo (mulheres). São os Laplas que carregam a
espada junto das Rèn Dwapo, que levam a bandeira da Fanmi, abrem o ritual Vodu e
durante sua apresentação, o Laplas desafia simbolicamente o Houngan/Mambo para
uma “luta”, mas o sacerdote vence a espada do Laplas com o uso do Ason, o chocalho
sagrado. O Houngan/Mambo Si Pwen é o braço direito do sacerdote, ajudando em
várias tarefas e aprendendo na prática como se comportar como um sacerdote. O Si
Pwen recebe um Ason simbólico, emprestado, para aprender a manipular o chocalho
sagrado. É uma preparação para o próximo passo. A última iniciação formal é o Kanzo,
que tornará o adepto em Houngan/Mambo Asogwe, receberá o Ason oficial das mãos
de Papa Loko e aprenderá a ser um sacerdote.

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DEKA: Originalmente, o Vodu Deka possui apenas uma iniciação, chamada de Sevis
Tèt, ou Servir à Cabeça. Isso era simples porque o Vodu Deka passava o conhecimento
de sua prática apenas aos servos de linhagem consanguínea, não aceitando no clero
pessoas de fora. Desta forma, a pessoa “destinada” a seguir os passos do sacerdócio,
desde muito pequena, já é criada dentro dos padrões e com os conhecimentos, e o
Sevis Tèt serve mais como um ritual de passagem do que uma graduação. Tenha
sempre em mente duas coisas: O Vodu Deka é rural e a base de todas as outras
formas, fora o do vale do Mississipi.

VODU DOMINICANO: O Vodu Dominicano é muito menos exigente em relação ao seu


primo Ason, Haitiano. Embora seja menos exigente, pode apresentar algumas
complexidades ritualísticas. Antes da primeira iniciação Dominicana, a pessoa é
ritualisticamente apresentada ao mar, às montanhas e ao cemitério. Após essas
apresentações, é feito o ritual da consagração da matéria, onde preparamos o corpo
físico para receber o sagrado. Depois vem a coroação da matéria, que é unir o
espiritual com a cabeça do servo. Após a coroação, é feito o primeiro batismo. Só
então é que é feita a iniciação, que embora seja uma só, é dividida em três partes
importantes. Primeiro vem o ritual de Refrescamento da Cabeça, para centralizar as
energias espirituais, acalmando as Loas e facilitando o transe. Após o Refrescamento, é
realizado o ritual de Aplazamiento (Adiantamento), que é uma preparação para o ritual
maior. Então, finalmente, vem o Bautizo (Batismo), o ritual maior e mais complexo.
Após essa série de rituais, a pessoa passa a ser um Papa Loa ou uma Mama Loa, ou, em
algumas casas, um Papa Boko ou uma Mama Mambo. Mas o correto é que o servo
tenha uma longa vivencia dentro do Vodu Dominicano, ele não deve chegar hoje na
religião e passar pelo rito. Esses ritos também não são feitos um após o outro, levam
algum tempo. Em todos eles serão sacrificados animais, desde pombos e frangos à
caprinos, dependendo das Loas envolvidas.

NINHO DA SERPENTE: A raiz e alicerce do Ninho da Serpente é o Vodu Deka não


tradicionalista, que para receber pessoas fora dos laços consanguíneos, era praticado à
luz dominicana. Eu recebi os mesmos ritos de Mama Wakenaton, que recebera de sua
Mama Bruja, que recebeu de Papa Pierre, ou seja, passei pelo Lave Tèt, Gad, Sevis Tèt,
Kanzo e Kanzo Makout, que originalmente eram usados os termos Kanzwe ao invés de
Kanzo (significam a mesma coisa, só não quero complicar demais). Mama Wakenaton,
para manter respeito às origens, não abria mão de realizar o refrescamento,
adiantamento e batismo dominicanos, e por serem rituais mais abertos e sem as
oficialidades religiosas, ela achou – com muita propriedade – que podem andar lado a
lado com os rituais mais internos. Eu sigo a mesma ideia, e deixo o refrescamento,
adiantamento e batismo como uma opção que pode ser escolhida pelo servo, caso
esteja de acordo com o desejo de sua escolta. Assim, o Ninho da Serpente adota a
seguinte estrutura:

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Ritos Opcionais 1 Requeridos por qualquer pessoa, mas passa pelo crivo das Loas.

Beginning Especialização profunda em uma divindade específica.


Opening O Opening te conecta com a divindade abordada no Beginning.
Closing Fecha o ciclo de rituais anteriores, Beginning e Opening.
Mastering Só pode ser requerido após segunda iniciação.
Ritual Fogo/Terra Ritual de iniciação Vodu nos mistérios da divisão Indígena.
Ritual Ar/Água Ritual de iniciação Vodu nos mistérios dadivisão Branca.
Black Cat Opening Ritual de iniciação Vodu nos mistérios da divisão Negra.

Ritos Opcionais 2 Requeridos por qualquer pessoa, mas passa pelo crivo das Loas.

Refrescamiento Limita-se somente ao culto dominicano.


Aplazamiento Limita-se somente ao culto dominicano.
Bautizo Limita-se somente ao culto dominicano.

Ritos Iniciáticos A permissão depende unicamente das Loas.

Lave Tèt Limpando e preparando o corpo para o divino.


Gad Uma proteção, feita logo após o Lave Tèt ou algum tempo após.
Sevis Tèt 1ª iniciação, tornando-se Hounsi.
Kanzo 2ª iniciação, conferindo o cargo de Laplas ou Rèn Dwapo.
Kanzo Makout 3ª iniciação, conferindo o cargo de Houngan/Mambo Makout.
Kanzo e Kanzo Makout podem conferir outros cargos, de acordo
com a escolta e decisão da Loa Mèt Tèt.

REQUERENDO UMA INICIAÇÃO?

Hounsi Bossal, ou, em outras palavras, um aspirante selvagem a iniciação, é uma


pessoa que está mais ou menos dentro do Vodu, mas não está pronta para um
comprometimento maior. Selvagem, aqui, tem o sentido de não estar lapidado,
pronto. O Sèvitè já foi um Hounsi Bossal, mas ele está em processo de lapidação. Se o
Sèvitè não tem vocação real para o sacerdócio, não há motivos para ser iniciado.
Entretanto, ele pode requerer uma iniciação que será julgada pelos espíritos se esta
pessoa será aceita naquele momento. Há, entretanto, outros caminhos. A iniciação
pode ser requerida pelos espíritos da pessoa, que através de presságios, sonhos
ESPECÍFICOS e situações diversas deixarão muito claro o “convite sem muita chance de
recusa”. A pessoa será iniciada quando estiver realmente pronta, não precisará se
preocupar com isso. Iniciar pessoas por ordem de chegada é um grande erro dentro
das religiões, pois colocará em xeque a qualidade do templo. Todos dentro do Vodu
possuem sua importância, todos estão devidamente inseridos dentro de seu lugar
conforme os desejos de sua Loa Mèt Tèt, por isso, um passo de cada vez. Iniciar-se no
Vodu não depende de você e nem do seu Sacerdote, depende somente dos espíritos.

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BRAINSTORM RESUMIDO EM 10 PASSOS

01 – Vodu Deka é o Vodu Rural, que deu origem tanto ao Ason quanto ao Vodu
Dominicano.

02 – Vodu Haitiano e Vodu Dominicano não são iguais, mas por dividirem uma mesma
ilha, é comum o cruzamento das práticas. Muitos dominicanos ainda se iniciam no
Haiti e misturam o que aprendem à sua prática Dominicana. Isso explica o uso do
panteão haitiano e dos vèvès.

03 – Muitos Voduístas Dominicanos imigram aos EUA e levam consigo sua prática
religiosa, fortemente sincretizada com o catolicismo. Dessa forma, as bases do Ninho
da Serpente chegaram aos EUA.

04 – O Vodu Deka/Dominicano não me satisfazia, uma vez que seu sincretismo era
absurdamente forte. Entretanto, Mambo Wakenaton era aberta a outras fés, como a
Cabala e Paganismo.

05 – A Prática Hoodoo, muito forte nos EUA, escondia práticas de um Voodoo que se
desenvolveu sozinho nos EUA, com um panteão próprio e uma forte base Congolesa.

06 – Juntei informações desse Voodoo “extinto” de Nova Orleans, através dos


materiais da FWP (Federal Writer’s Project), de almanaques de magia da década de 20,
pesquisa de “supostos” nomes de divindades ali cultuadas e de frequentes idas à
biblioteca. Resultou em muito material interessante simplesmente ignorado por quem
desconhece as artes mágicas e que não praticam corretamente a religiosidade.

07 – Tendo em mãos o Vodu Deka/Dominicano no qual fui iniciado, sendo um


estudioso da antiga arte e conhecendo um Voodoo esquecido dos EUA, parti para uma
organização do Vodu ideal para mim.

08 – Uma vez retirado, cirurgicamente, o catolicismo do Vodu praticado por mim, me


vi diante de um arrombo catastrófico, mas eu tinha muitos amigos conhecedores das
artes, eu tinha um vasto material sobre as práticas do esquecido Voodoo americano,
apenas precisei de tempo para organizar tudo de forma efetiva e coerente.

09 – Minha forma de raciocinar era a mais objetiva e socrática possível. Por exemplo,
Damballah era um deus serpente, se eu pesquisasse de forma retrógrada a evolução
dele, onde isso me levaria?

Danballah (Vodu Haitiano e Dominicano)

Blanc Dani (Voodoo dos EUA)

Quetzalcoatl (Asteca)

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Dangbe (Fon)

Dan (Daomé)

Da (Assíria)

Ta (Babilônia)

Tam (Acádia)

Tan (Suméria)

Pulei alguns deuses na lista acima, pois a ideia é dar um exemplo. Todos da lista acima
são deuses serpente, todos são brancos, todos participaram da criação, todos exigem
um culto imaculado e todos representam a sabedoria. Daí me surgiu a grande questão;
por que limitar o sincretismo à São Patrício e fim? Outras divindades, além de fazer
mais sentido, são historicamente mais sólidas do que um tal de São Patrício ou um
Moisés. Mas a questão não é tão simples, pois eu precisava entender como reinos tão
distantes, como o sumério e o asteca, poderiam compartilhar de um deus tão
semelhante. Aí já entra os estudos da migração humana, desde a era do gelo, como
aconteceu a povoação do planeta, como foram da suméria ao extremo oriente,
voltando em direção à Europa e se distribuindo de forma a um certo grupo chegar às
Américas através do estreito de Bering, levando com eles suas crenças já muito bem
estabelecidas. TODAS ESSAS QUESTÕES FORAM CONSIDERADAS E CUIDADOSAMENTE
ESTUDADAS, A FIM DE DAR FORMA CONSISTENTE À MINHA PRÁTICA VODU. E o
mesmo raciocínio foi feito para cada Loa, cada data, cada ritual, cada símbolo, enfim,
cada detalhe do Vodu foi passado pelo raciocínio lógico e histórico, de forma a ter
solidez. Inclusive, fiz intenso uso dos meus conhecimentos linguísticos e do meio pagão
para traçar um dna espiritual do Vodu aos primórdios da humanidade. Nada foi
aleatório.

10 – Assim nasceu um Vodu sob a ótica pagã. Se ele pode funcionar sob o frágil
sincretismo católico, por que não funcionaria sob o mais sólido sincretismo pagão?
Quem é São Patrício ou Moisés entre as mais de 27 divindades serpentes cultuadas por
antigos e importantes reinos inteiros? Se um Jesus realmente existiu no ano 0 (Zero),
quem é ele diante dos incontáveis deuses solares que foram cultuados – pelo menos –
durante dez mil anos antes dele? Por que Freda pode ser Nossa Senhora das Dores e
não pode ser Inanna ou Ishtar? Aliás, quem é Nossa Senhora das Dores diante de uma
divindade como Inanna? Eu poderia ficar por mais umas mil páginas fazendo esses
questionamentos, mas vou poupá-los, acho que me fiz entender. No entanto, é
importante dizer que não se cultua Danballah nos mesmos moldes em que essas
outras divindades eram ou são cultuadas. A forma de culto às Loas foi mantida intacta,
apenas com a remoção do cristianismo.

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O Sevitè
O servo no Vodu é um termo que tem sido modificado e até escondido nos dias de
hoje. Conheço muitos sacerdotes que só consideram do Vodu quem é iniciado, o resto
são apenas curiosos ou visitantes. Mais uma vez, o que conta aqui é o dinheiro da
pessoa. Mas, honestamente falando, o Servo Vodu é todo aquele que está envolvido
com o Vodu, seja ele iniciado ou não, somos todos servos. Mas, como vivemos em uma
sociedade muito mais preocupada com rótulos do que com a espiritualidade real, o
termo Sèvitè ou Sevityè tem sido usado para definir a pessoa que frequenta a Fanmi
Vodu, sem ser iniciada, sem estar presa por rituais complexos, mas que é uma
Voduísta autêntica. O Voduísta é muito orgulhoso de sua religião, independente da
expressão Vodu que siga, e ter a chance de ser chamado pelas Loas para ser um Servo
é visto como uma grande honra.

O Servo tem limites dentro da religião, mas isso não o torna inferior a ninguém. Pelo
contrário, o Servo Vodu é a base, o alicerce da religião, a menos que os Houngans e
Mambos queiram “pregar” sua fé para as paredes. São os Servos que um dia podem vir
a ser um Houngan ou Mambo, ninguém chega ao topo do Vodu sem passar pela
condição de Servo. Tudo começa por aí! Mas, nas Sosyetes por aí não tenho visto isso
acontecer. Os sacerdotes só têm considerado de sua Fanmi aquele que pode pagar
mais, seja um iniciado ou um curioso qualquer. “Simples servos”, como costumar falar,
não aprendem sequer a acender uma vela e rezar para a Loa, são marginalizados.
Ainda bem que muitos Sacerdotes, mas não tantos quanto eu gostaria, possuem uma
visão muito mais sólida e respeitosa sobre os Servos. Mambo Chita Tann, Mambo
Sallie, Houngan Chris, Houngan Hector, Mambo Vye Zo, Spell Bind Sisters e muitos
outros reconhecem e valorizam o Servo, sabem que ele é a base da fé. Iniciados e
sacerdotes não passam de 10% do todo que é o Vodu representado e mantido pelo
Servo.

Um Sacerdote sem Servo (da Loa, não dele!) não é ninguém. Se só iniciados pudessem
cultuar as Loas, então seria centenas de iniciados auto suficientes, e o Houngan ou
Mambo cairia em desuso. Quem está batendo palmas, cantando, levando oferendas à
Loas, quem lota as Fèt anuais são os Servos. Muitas vezes em uma Fèt Ghede podemos
ver 15 iniciados em meio a 400 ou mais Servos fieis. Para muitos sacerdotes pode
parecer loucura as minhas palavras, eles querem ser os reis do mundo. Mas se assim
fosse, eu ia falar de Vodu pra quem? As Loas iam depender somente das oferendas de
iniciados? Iam morrer de fome, oras. Em todas as religiões do mundo, o “Servo” é o
alicerce, é a base. Você precisa ser padre para ter uma santa em casa e rezar? Você
precisa ser Bàbálòòrìsà para acender uma vela e um cigarro para seus espíritos? Claro
que não! Naturalmente que coisas mais complexas e pesadas, cabe ao sacerdote
cumprir em nome do Servo, mas as coisas básicas, a estrutura do culto dentro de casa,
é comum e muito bem aceito. Só Sacerdotes ávidos por poder não aceitam!

55
PARTE II

MAPA DO SÈVITÈ

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A prática
Vodu é muito extenso não é?! É muito fácil se perder na prática ou sem querer pular
alguma etapa e se colocar em risco deixando brechas para ataques indesejados. Não
dá para dar um “guia definitivo” de como praticar o Vodu, pois isso vai depender muito
da necessidade e tempo que cada um tem disponível. O que dá para fazer é apresentar
orientações gerais, de passo a passo do que não pode faltar e também comentar como
um culto de um Servo costuma ser feito.

Guia do que não pode faltar em uma ritualística completa.

Passo a passo do que precisa acontecer para que tudo corra bem, já que o vodu é
cerimonial.

01 – Ambiente limpo (sala, altar, perímetro onde vai acontecer, chão, etc). Nem que
seja apenas um metro quadrado, um pedacinho onde o ritual vai acontecer. Varrer,
organizar a bagunça e passar um pano úmido é bom. Se o altar for móvel, este é o
momento de montá-lo.

02 – Ambiente limpo energeticamente. Após limpar fisicamente o local, é sempre


importante defumar ou, pelo menos, acender um incenso ou borrifar perfume ou
Florida Water.

03 – Oferendas que foram escolhidas devem estar prontas, apenas esperando ser
oferecidas. (a cozinha deve estar limpa fisicamente e energeticamente, bem como a
pessoa deve estar limpa).

04 – Tudo montado, limpo e preparado? A primeira coisa é fazer as devidas libações


para Legba, de acordo com a tabela já ensinada na apostila 4 do curso básico. As
libações servem como cumprimento, demonstração de respeito e purificação do solo.
Algumas Loas, no fim da lista, não precisam de Legba para abrir as portas, e as libações
serão direto para louvar elas. No entanto, não há nada de errado em saudar Legba
antes de qualquer outro espírito.

Marassa Água com açúcar.


Loko e Ayizan Água.
Damballah e Ayida Orgeat, vinho branco ou água com açúcar.
Agwe e Lasirèn Água do Mar ou água salgada com sal marinho (não é o comum)
Freda Chamapanhe, água com açúcar ou água.
Zaka Rum, vodca, uma bebida alcóolica e amarga ou só água.
Ogou Feray Rum, vodca, uísque ou água.
Ogou Badagris Rum, vodca, vinho tinto, uísque ou água.
Ogou Balendjo Rum, vodca, vinho tinto, uísque, água do mar, água com sal
marinho ou somente água.

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Kalfou Rum, vodca, uísque ou água.
Danto Rum, vodca ou água.
Bossou Rum, vodca, vinho tinto ou água.
Simbis (todos) Rum, água de rio, água de chuva, água, água com limão ou água
salgada misturada com água de rio.
Gran Bwa Rum, vodca, água de chuva ou água.
Igbo Água
Marie Laveau Água ou Florida Water (libação para ela, sem oferecer a Legba)
Dr. John Água ou Florida Water (libação para ele, sem oferecer a Legba)
Simalo Leite, rum, vinho tinto ou água (direto para Simalo)
Lubana Vinho tinto, Rum, Vodca ou água (direto para ela)

Nota 1: Qualquer libação pode ser substituída por água, para qualquer espírito.

Nota 2: Libação é o ato de se jogar um pouquinho de líquido no chão, em oferenda aos


deuses. No Vodu, o mais comum é a Libação de três pouquinhos de líquido lançado no
chão. A Libação é chamada no Vodu de Jete-dlo, podendo variar sua forma de ser feito
de acordo com cada templo Vodu. No Ninho da Serpente adotamos o padrão de três,
já mencionado. Jogamos na ordem direita, esquerda e centro, formando um triângulo,
símbolo ternário.

05 – Terminada a libação, é hora de acender a(s) vela(s) da Loa evocada.

06 – Após as velas, pegue as oferendas, mostre-as para os quatro cantos cardinais e as


coloque no altar ou onde está sendo feito o ritual.

07 – Tudo arrumado? Faça os devidos cumprimentos, de acordo com as nações Rada,


Petwo ou família Ghede.

08 – Ao terminar sua saudação, é o momento de sentar e conversar com as Loas, seja


verbalmente ou mentalmente, é sempre bom parar pelo menos uns 5 minutos em
meditação. É o teu momento, não deve ser negligenciado.

09 – Ao terminar sua conversa ou meditação. Pode se retirar sem maiores


cumprimentos.

10 – Ao terminar as velas, o ritual estará concluído.

Nota 1: Sempre mantenha pelo menos 1 hora de resguardo antes e depois do ritual.

Nota 2: O tempo que as oferendas ficam no altar dependem da validade natural delas
ou da sua condição de mantê-las ali. Se for necessário descartar antes, tudo bem,
mesmo que a vela ainda não tenha se consumido. Use o bom senso.

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Nota 3: Oferendas sólidas podem ser descartadas no reino de cada Loa quando
possível, ou podem ser descartadas na encruzilhada, para que Legba as leve ao destino
certo. As oferendas sólidas podem, em última instância, ser descartadas em lixo
comum, mas em uma sacolinha limpa, para não ter contato direto com o lixo comum.
Exceção à regra quando a wanga é específica em apontar o descarte. Oferendas
líquidas devem ser descartadas na terra, nem que seja em um vaso de plantas. Caso
isso seja muito complicado, poderá descartar na pia da cozinha.

Guia do que não pode faltar em uma ritualística ocasional.

Às vezes, só queremos oferecer algo rápido, fazer uma simples devoção antes de
sairmos de casa ou em um momento no qual só podemos fazer um pequeno ritual.
Esses casos envolvem somente um charuto, cigarro ou cachimbo, uma vela e uma
bebida. E algumas Loas nem aceitam o fumo, ficando somente a vela e a bebida. Há
casos que até colocamos uma pequena oferenda sólida, como um doce ou uma fruta,
nada extravagante.

01 – Local de culto limpo energeticamente e fisicamente, pelo menos o metro


quadrado onde vai acontecer.

02 – Libação para Legba antes de qualquer coisa.

03 – Acender vela, fumo e colocar a oferenda.

04 – Converse ou reze para o espírito e poderá se retirar. Os descartes seguem sempre


as mesmas regras, neste caso, restos de cigarro, bebidas ou fumo queimado de
cachimbo. Mas podem ser descartados em um prazo maior, dentro de pelo menos
sete dias.

Nota 01: Loas Rada são mais tranquilas em se trabalhar, oferecendo menos risco ao
praticante, embora se algo sair do controle, terão grandes problemas. Mas costumam
ser mais tolerantes aos nossos erros e podemos esperar sempre uma segunda chance.

Nota 02: Loas Petwo são intolerantes aos nossos erros e abusos, não vão deixar passar
um desaforo e não podemos fazer nada para evitar as consequências, embora uma
conversa franca com Legba possa suavizar a sentença. Dessa forma, se não houver
nada de realmente importante e sério para se tratar com essas Loas, deixe-as em paz.

Nota 03: Ghedes e a Divisão Indígena se dividem em espíritos muito perigosos e


espíritos muito bons e evoluídos. Só sabemos quando estamos lidando com um tipo ou
com outro tipo quando as coisas saem do controle. Se for um problema com Ghedes,
Bawon Samedi pode apaziguar. Se o problema com a divisão Indígena, Ogou Badagris
pode ser útil. Pode-se também agradar o espírito Gamao, chefe da divisão Indígena,
oferecendo-lhe no chão de terra uma vela verde e outra vermelha e um cesto com 7

59
espigas de milho desembrulhadas e cobertas com mel, fazendo seus pedidos de
desculpas.

DISTRIBUIÇÃO DE CULTO PESSOAL E ALTARES

Por ser um culto muito complexo e cheio de alternativas, é uma dúvida frequente
saber como organizar o culto pessoal. Não siga o que está escrito aqui, siga uma
agenda própria, de acordo com seu tempo e necessidade. Estrutura básica para um
Sèvitè pode ser:

Papa Legba: Culto mínimo de uma vez ao mês. Culto médio é de duas vezes ao
mês e o mais comum é o culto semanal.

Loa Mèt Tèt: Mesma regra aplicada à Legba.

Esko: O culto pode ser ocasional, conforme a necessidade pessoal.

Loa de Loas à parte do esko e de nossa devoção pessoal são cultuadas


devoção: quando necessário ou sentir o chamado/vontade.

Como regra geral a ser seguida, no dia de se cultuar Rada, somente Rada. No dia de
Petwo, somente Petwo. O ideal é manter o culto Ghede da mesma forma, somente
Ghede, mas há quem cultue Ghede no mesmo dia em que cultuou outras divindades,
sendo então uma opção.

Mantenha Legba sempre sozinho, em seu próprio altar, seja este fixo ou móvel.
Entretanto, em último caso o altar de Legba pode ficar ao lado dos outros Radas,
desde que respeitado o espaço de Legba.

Qualquer Loa Rada vai se comportar bem no mesmo altar. Da mesma forma, Loas
Petwo ficam bem no mesmo altar. Papa Legba é uma exceção, já que ele vai preferir
estar no próprio altar, mesmo que seja do lado de outro altar Rada, mas nunca
misturado. Os Ghedes ficam em um só altar, normalmente abaixo de todos, não raro,
feito no chão mesmo. Muitas casas optam por esconder o altar Ghede debaixo dos
outros altares, como se fosse uma tumba. No entanto, não está errado fazer um altar
Ghede sobre uma mesa ou semelhante.

O que não pode é misturar Rada, Ghede e Petwo, tudo em uma só mesa.

Se o espaço é pequeno, e quer manter mais de um altar, para mais de uma nação,
então escolha a ordem seguinte. Rada acima de todos; Petwo abaixo dos Rada e
Ghedes abaixo dos Petwo, ou seja, abaixo de todos. Neste caso, escolha um canto ou
um espaço entre os Rada para ficar destacado Legba.

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Outra opção é na mesma sala ter os diferentes altares para as diferentes nações.
Assim, quando uma nação estiver sendo cultuada, cobrir as outras com um pano
limpo.

Damballah, Freda e Agwe não gostam do cheiro de fumo, então você não os cultuará
num ambiente com esse odor. Quando for cultuar outro espírito que fuma, cobrir
essas Loas.

O espaço quadrado do altar de cada Loa representa o universo daquele espírito.


Dentro do citado espaço terá apenas itens relativos à Loa em questão, nenhuma outra.
Mesmo sendo Loas pares, como Damballah e Ayida, Freda e Agwe, Freda e Damballah,
Agwe e Lasiren, Bawon e Brigitte e etc, que podem ficar lado a lado, cada lado será um
pedaço somente daquela Loa. Dessa forma, um mesmo cômodo pode suportar as três
nações, desde que cada nação respeite no mínimo uns 30cm de outra, ou cada uma
em sua parede.

No altar da Loa só pode ficar o que pertence àquela Loa. Nada de colocar chaves,
carteira, coisas pessoais. É um espaço sagrado e deve ser tratado como tal. TUDO O
QUE ESTÁ NO ESPAÇO QUADRADO DO ALTAR DA LOA, PERTENCE À LOA.

Você pode cultuar um Rada em qualquer dia da Semana, embora fiquem mais à
vontade nas quintas. Você pode cultuar um Petwo em qualquer dia da Semana,
embora fiquem mais à vontade nas terças. O mesmo vale para os Ghedes, que
preferem a sexta, sábado ou segunda e os Nagos que preferem as quartas. O dia em
que se vai cultuar vai depender da sua necessidade, tempo, agenda. Apenas há uma
regra: NUNCA CULTUE DANTO ÀS QUINTAS E NUNCA CULTUE FREDA ÀS TERÇAS. O
Ninho da Serpente Cultua Legba Rada às Segunda e Petwo às Terças, mas todo dia é
dia de Legba, até o domingo.

Um Esboço de altares lado a lado: A e B mostram altares de Loas duplas, lado a lado,
mas sem se misturar; C mostra um altar de Mèt Tèt e Èsko; D mostra altares de
diferentes nações, mas cada um em seu altar.

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SOBRE UTENSÍLIOS e CONSUMÍVEIS

Pratos, copos, taças, bacias, tigelas, facas, colheres, garfos, castiçais, bebidas, cigarros,
charutos, cachimbos, fumo, perfumes, SE VOCÊ COMPROU E DEU VERBALMENTE PARA
UMA LOA, ENTÃO PERTENCE SOMENTE ÀQUELA LOA. SE EU DIGO: AQUI ESTÁ O
PRATO DE FREDA, A GARRAFA DE BEBIDA DE FREDA, ENTÃO É DE FREDA E PONTO.
JAMAIS TIRAR UM UTENSÍLIO OU CONSUMÍVEL DE UMA DIVINDADE E OFERECER À
OUTRA, TRARÁ GRANDES PROBLEMAS.

Mas, você pode comprar pratos, copos, taças, bacias, tigelas, facas, colheres, garfos,
castiçais, bebidas, cigarros, charutos, cachimbos, fumo, perfumes e definir que são
itens gerais para seu culto, que serão divididos entre outros espíritos. Assim, uma
garrafa de Rum para os espíritos, será servido em doses para diferentes espíritos. Uma
caixa de charuto pode ser dividida entre várias Loas. Compreende a necessidade de ser
claro com isso? Se eu pego uma garrafa de bebida e a ofereço inteira à Loa, então ela
terá um dono. Se eu ofereço doses, defino que a garrafa é para todas, então está
perfeito. Eu tenho altares com garrafas de bebida que pertencem somente à dona
daquele altar. Mas tenho garrafas de bebida no meu barzinho na cozinha que é servido
para todas as divindades. O QUE ESTÁ SOBRE O METRO QUADRADO DO ALTAR,
PERTENCE À DONA DO ALTAR, QUANDO ESSE ITEM FOI FORMALMENTE DADO À LOA!

Você pode beber ou fumar o que pertence à Loa, se antes pedir permissão e licença.
Eu não gosto de fazer isso, mas é algo mais pessoal. Entretanto, você pode compartilha
uma dose da sua bebida ou comida com as Loas.

O altar é um espaço sagrado, é um ponto de encontro com seres muito superiores à


nós. Eles estão no altar, de onde nos olham. Que tipo de coisas não faríamos jamais na
frente de uma outra pessoa de autoridade e superioridade? Siga esse raciocínio e tudo
correrá muito bem. Loas que consomem álcool não se importarão se você beber na
frente delas, desde que não beba até cair. Loas que fumam não se importarão com seu
cigarro (desde que seja fumo comum, não maconha). Bom senso para não errar. Se
você for fazer algo desrespeitoso ou algo que você não faria na frente de um rei ou
rainha, cubra seus altares.

Altares de diferentes nações devem ficar pelo menos 30cm de distância (uma nação da
outra). O culto de uma Loa contem elementos que outra Loa não gosta? Cubra o altar
da outra Loa. Por exemplo, se temos Legba e Damballah no mesmo espaço, devemos
cobrir Damballah antes de dar cachimbo para Legba.

Freda e Marassa são Radas, mas não os mantenha lado a lado. Freda não tem muito
jeito com crianças. Entre eles, pode ter um espaço de pelo menos 30cm. Aliás, se você
tiver qualquer dúvida sobre um espaço do outro, aplique sempre a regra dos 30cm
mínimos (regra baseada na bruxaria tradicional).

62
Independente se o altar é fixo ou móvel, se você quiser trocar qualquer item, caso
tenha enjoado e quer mudar o visual do altar, ou tenha tido alguma avaria no item e
deseja trocar por um novo ou mesmo quer dar um upgrade no altar, o item anterior
deve ser deixado em uma encruzilhada ou jogado no lixo comum, mas em uma
sacolinha limpa só para ele(s). Eu gosto de colocar três moendas junto com o item a
ser descartado, mas é um costume meu, comum entre os gregos.

Algumas pessoas fazem seus altares em uma só mesa grande. Mas obedecem as regras
de não misturar Radas e Petwo e Ghedes. No caso de se usar uma mesa só para toda
uma nação, a toalha pode ser branca (Rada), vermelha (Petwo) ou roxa (Ghedes) e
possuir lenços nas cores das Loas pendurados nas laterais da mesa, sobre a toalha.

Alguns preferem ter um altar para Legba e outro para a Mèt Tèt, quando ela é
conhecida.

Limpe seus altares sempre que necessário, não deixe acumular poeira e sujeiras. Os
meus eu limpo a cada 15 dias.

O Altar Ghede pode conter um pouco de poeira e teias de aranha, bem como toalhas
velhas ou corroídas por traças. Esse aspecto de velho remete ao túmulo.

Sobre Altares Móveis

Altar móvel é aquele que você monta durante sua prática e o desmonta quando a vela
termina. Os utensílios podem ser guardados em qualquer lugar limpo e protegido,
como gavetas, caixas, armários ou baús.

Utensílios Rada com Rada; Petwo com Petwo; Nago com Nago e Ghede com Ghede.

Se o teu espaço for o mínimo do mínimo, e precisar manter altares de diferentes


nações em uma mesma gaveta e etc, coloque cada nação dentro de uma caixa de
sapatos ou dentro de sacolas. Então poderão ser guardadas dentro de uma mesma
gaveta, sem se tocar.

Todas as regras dos altares fixos se aplicam aos móveis, mas com uma exceção, você
poderá ter somente uma mesa e usar ela para qualquer nação, apenas limpando e
arrumando seu altar móvel sobre ela.

Além do já explicado sobre itens das Loas, alguns deles são somente da Loa. Esses itens
são símbolos da Loa em questão e não tem como confundir. Você vai pegar o chapéu
de Legba e emprestar para Azaka? Espero que não. Seria possível você pegar um dos
punhais de Danto para cortar umas flores para outra Loa, ou para abrir um pacote de
alguma coisa? Não. Itens que simbolizam as Loas não devem ser usados com outras
Loas ou para outros fins. Bom senso!

63
O ARMÁRIO DO VODUÍSTA

Para o Sèvitè com prática muito frequente e que tem o costume de ajudar terceiros,
todos os itens que couber no armário, serão uteis. Esses “todos os itens” é tudo o que
foi abordado nas quase 2 mil páginas do curso. Mas dá para organizar o essencial, o
que não pode ficar sem.

ESSENCIAL

Velas comuns brancas.

Cachimbo.

Fumo.

Uma garrafa de Rum ou Vodca.

Sal marinho.

Arruda desidratada.

Farinha de Milho.

Uma resina de olíbano ou mirra ou incenso de vareta, nesse mesmo aroma.

Um oráculo, caso faça uso. (cartas ou ossos)

Uma troca de roupa branca ou de cor bem clara.

Uma Moushwa branca.

Uma toalha branca.

Uma caneca e um prato, esmaltados, brancos.

Uma faca só para uso religioso, como cortar alguma erva ou alimento para as Loas.

ITENS QUE PODEM SER ÚTEIS, MAS NÃO EXATAMENTE ESSENCIAIS:

Pilão.

Velas de cores diversas.

Velas de sete dias.

Várias ervas desidratadas de acordo com a utilidade pessoal.

Especiarias como pimentas, canela, cravo e etc.

Alfinetes.

64
Bonecos já prontos.

Algodão.

Azeite de Oliva.

Óleo de Rícino.

Bebidas diversas.

Pratos, copos, canecas diversos.

Moushwas de diferentes cores, conforme a necessidade.

Uma panela somente para fazer a comida da Loa.

Uma colher de pau.

Tigelas diversas.

Um chocalho.

Cascarilla.

Incensos diversos.

Resinas para incensos.

Carvão vegetal.

Um perfume floral, somente para o uso das Loas (Florida Water de preferência).

Mesmo se tratando de itens gerais, muitos vão preferir separar os itens gerais dos
Radas e os itens gerais dos Petwo.

O armário do Voduísta deve conter tudo aquilo que é do uso comum dele, somado,
claro, à lista essencial citada na página 64. Cada um vai adicionar o que lhe é útil. Se a
pessoa não trabalha com Freda, itens ligados a ela podem ser inúteis. Uma pessoa que
trabalha muito com Bossou, por exemplo, vai ter muitas coisas vermelhas para Bossou.
Então o armário do Sevitè é muito pessoal e vai variar bastante. Um armário de um
Sacerdote é absurdamente cheio, pois ele vai lidar com boa parte do panteão.
Costumo ter três armários, eu os divido pelas divisões Branca, Negra e Indígena, já que
é uma forma simples de distribuir o imenso panteão. Escolha o que lhe cabe melhor,
sem exageros e nem desperdícios.

65
O Calendário
O Calendário Vodu pode ser um grande problema para quem, como eu, não aceita a
influência Cristã. Os dois principais Calendários Vodu, o haitiano e o dominicano, estão
totalmente ligados ao Calendário das festividades católicas, coincidindo suas Fèt com
os dias sagrados dos Santos. Isso [também] ainda acontece nos Candomblés e é de fato
muito complexo reestruturar um Calendário para quem não quer seguir os padrões
cristãos. É uma das partes que eu levei mais tempo para estruturar, pois não pode ser
algo aleatório, que simplesmente eu crio e passo a usar como verdadeiro, eu tive que
escavar muito para poder cruzar as informações e ter um Calendário eficaz, funcional.
Como não sou um ditador, vou deixar livre a escolha de Calendário. Vou apresentar os
mais comuns, até mesmo os ligados ao catolicismo, e cada um faz a escolha que
melhor convir, meu respeito estará acima de qualquer opinião minha e mesmo
seguindo o Calendário cristão, a pessoa ainda é parte da minha Fanmi.

No Haiti, embora os Vodus tenham um mesmo alicerce, cada casa vai definir seu
calendário, pois cada Fanmi pratica um Vodu levemente diferente um do outro. O
calendário abaixo é uma visão geral de datas encontradas na prática haitiana, o que
significa que ele não é seguido dessa forma por inteiro, mas as casas vão definir quais
dessas datas se encaixam melhor com eles. São muitas datas, sendo impossível
mencionar todas, pois as variantes são imensas. Em termos gerais nós temos:

Vodu Haitiano Data

Alimentar Loas 02/01 Alimentar Loas Rada com bolos, dura do dia 2 ao dia 4
Marasa 06/01 Dias de reis (Fèt Mange Marasa) (também Marasa Twa)
Gran Bwa 20/01 Dia de São Sebastião
Manje Tèt Dlo 25/02 Alimentar os Espíritos de Água Doce
Danballah 17/03 Dia de São Patrício
Loko 19/03 Dia de São José
Legba Zaou 20/03 Alimentar Legba com uma cabra preta.
Nação Rada -------- Sexta-feira santa é dia dos Radas em muitas Fanmi.
Azaka 04/04 Dia de São Isidoro de Servilha
Samedi 19/04 Dia de Santo Expedito
Ogou Badagris 23/04 Dia de São Jorge (alguns comemoram Ogou Feray)
Quebrar os Jarros 29/04 Ritual para libertar almas do purgatório
Manje Mò 31/04 Ritual para alimentar os mortos do purgatório
Alimentar as Loas 12/05 Vai depender de cada Fanmi e das Loas envolvidas
Azaka 15/05 Dia de São Isidoro Lavrador
Gran Aloumandia 18/05 Ritual ao espírito Aloumandia
Simbi Blan 21/05 Ritual de Simbi Bran ou Simbi Dlo
Brigitte 22/05 Dia de Santa Rita
Legba 13/06 Dia de Santo Antônio
Simbi Dlo 24/06 Dia de São João Batista

66
Simbi Andezo 24/06 Dia de São João Batista
Ritual variado 24/06 No dia de São João Batista, os ritos variam entre Fanmis.
Ti Jean Petwo 24/06 Dia de São João Batista
Danto 27/06 Dia de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro
Mesa Maîtresse 28/06 Uma mesa de oferendas à algumas Maîtresse
Legba Petwo 29/06 Dia de São Pedro
Agwe 04/07 Dia de Santo Ulrico
Freda e Danballah 16/07 Dia de Freda e Danballah
Ogou Feray 25/07 Dia de Santiago Matamoros (James the Greater)
Gran Aloumandia 26/07 Mesa de oferendas à Gran Aloumandia
Ayizan 11/08 Dia de Santa Clara
Nação Congo 14/08 Festival da Nação Congo
Brigitte 18/08 Dia de Santa Helena
Dan Wèdo 25/08 Mesa de oferendas à Dan Wèdo
Odan 29/08 Ritual à uma importante divindade
Agaou 30/08 Ritual de Agaou
Brigitte 04/09 Dia de Santa Rosalia
Lasirèn 08/09 Dia de Nossa Senhora da Caridade
Freda 15/09 Dia de Nossa Senhora das Dores
Wangol 25/09 Ritual aos espíritos Wangol (Angola, Bantu)
Marasa 26/09 Dia de Cosme e Damião
Agaou 29/09 Dia de São Miguel Arcanjo
Aloumandia 29/09 Ritual à Aloumandia
Maîtresse Delai 30/09 Ritual a um dos espíritos dos tambores
Brav Nibo 16/10 Dia de Gerard Majella
Ritual Católico 31/10 Dia de rituais católicos, com os templos bem coloridos
Ghedes 02/11 Finados (Fèt Ghede ou Fètdemò)
Manje Yanm 25/11 Festa do Inhame Sagrado
Simbi Andezo 30/11 Dia de Santo André
Ogou Balendjo 04/12 Dia de Charles Barromeo
Ganga Bwa 10/12 Ritual à Ganga Bwa
Agwe 12/12 Ritual ao mar, Bak Agwe, dias 12, 13 e 14 de Dezembro
Legba 17/12 Dia de São Lázaro
Força Espiritual 25/12 Banhos e fogueiras para fortalecer os espíritos Petwo.

67
O Vodu Dominicano pega algumas datas haitianas, por causa da troca cultural
frequente. Muitos dominicanos vão ao Haiti, são iniciados e quando voltam para a R.
Dominicana, eles juntam o Vodu do Haiti com o Dominicano, misturando também os
calendários. Tal como o haitiano, Vodu Dominicano obedece 95% das festividades
católicas. Os espíritos que não aparecem na lista possuem datas de acordo com o
servo, não oficiais.

Vodu Dominicano Data

Gaga ------- Um ritual carnavalesco que dá inicio à quaresma.


Ezili Aila 21/01 Uma divindade das águas doces. (N.S. da Alta Graça)
Candelina 02/02 Dia de Nossa Senhora da Candelária.
Danballah 17/03 Festa em honra à Danballah. (São Patrício)
Linglessou 05/04 Festa para Linglessou. (Coração de Jesus)
Kalfou 14/04 Festa de Kalfou. (São Pedro na igreja Ortodoxa)
Barón Cementerio 17/04 Barão do Cemitério, senhor dos portais. (São Elias)
Ogou Ferray 23/04 Também chamado de Ogun Fegai. (São Jorge)
Simbis 21/05 Festa à todos os Simbis. (Moisés na igreja Anglicana)
Papa Legba 13/06 Festa de Papa Legba. (Santo Antônio)
Ogou Balendjo 25/07 Festa de Ogou Balendjo. (Santiago)
Anaisa Pye 26/07 Deusa do amor, beleza e fortuna. (Santa Ana)
Lubana 29/07 Festa de Lubana. (Santa Marta Dominadora)
Danto Pye 08/08 Festa para Manman Danto Pye.
La Señorita 11/08 Equivale à Ayizan, porém, mais acessível. (Santa Clara)
Juan Kriminelo 13/08 Festa à Kriminelo, o mesmo Kriminèl. (São Pancrácio)
Divisão Congo 14/08 Festa dedicada à nação Congo.
La Gunguna 18/08 Uma Loa Petwo do amor. (Santa Elena)
Manman Brigitte 04/09 Dia de Santa Rosalia (chamada de Ghede Rosalia)
Larisèn 07/09 Também chamada de La sirena. (Estrella Maris Azul)
Cachita Tumbo 08/09 Divindade das curas e dos conhecimentos. (N.S.Caridade)
La Bruja Marta 15/09 Divindade Petwo das magias e ervas. (Santa Marta)
Metresili 15/09 Equivale à Freda. (Nossa Senhora das Dores)
Ofelia Balendjo 24/09 Femea de Ogou Balendjo. (N. Senhora da Misericórdia)
Marasa 26/09 Festa dos Marasa. (Cosme e Damião)
Belie Belcán 29/09 Divindade da justiça e proteção. (São Miguel)
Osanjin 04/10 Divindade ioruba das ervas, folhas. (São Francisco A.)
Barón Sandi 16/10 Bawon Samedi, senhor dos mortos. (São Geraldo)
Gran Bwa 28/10 Festa paa a Loa das matas e florestas. (São Cristovão)
Candelo Cedife 03/11 Divindade dos jogos, dinheiro e cura. (São Carlos)
Ogou Batala 11/11 Em algumas Fanmi, é o mesmo Balendjo. (São Martin T.)
Bakoulou Baka 14/11 Divindade da destruição. (São Felipe)
Macho Changó 04/12 Deus da justiça, dos raios e trovões. (Santa Bárbara)
Ezili Danto Pye 04/12 Festa de Ezili Danto. (Santa Bárbara Africana)
Gran Solier 06/12 Festa para Gran Solier, o Jesus de Nazaré.
Gran Toro 24/12 É o Bossou dominicano. (Jesus da Boa Esperança)

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Candelito 25/12 Equivalente à Jesus.
Luis Ghede 25/12 Um Ghede importante no culto dominicano.

De todos os desafios, o maior foi definir um calendário útil e equilibrado para a prática
Vodu, sem esbarrar no sincretismo cristão. Minha solução, por mais estranho que
possa parecer, foi sincretizar com festas e deidades pagãs, mas eu também não podia
misturar as datas com as festividades que eu já pratico na bruxaria tradicional. A
solução foi ligar o meu calendário Vodu à festividades e simbolismos muito antigos,
aqueles que pouquíssimas comunidades ainda pratiquem, tive que voltar pelo menos 3
mil anos antes. Apenas as Festas de Simbi, Marie Laveau e Fèt Ghede eu mantive com
o sincretismo cristão, pois é uma homenagem minha à Mambo Wakenaton e ao Luis,
as pessoas que me guiaram ao Vodu, e que tanto amavam essas três datas. O
calendário está em sua maioria sincretizado com as festividades dos deuses sumérios,
mas dentro da cultura Babilônica.

Nota 01: Espíritos que não aparecem no calendário podem não ser cultuados, ou são
considerados junto de outros, ou são cultuados em datas arbitrárias.

Nota 02: Todas as datas estão corrigidas de acordo com a precessão terrestre e são
baseadas no antigo calendário religioso seguido pelos Babilônicos e Acadianos. Apenas
Hecate, Lupercália e Junus que são baseados no calendário romano.

Ninho da Serpente Data

Papa Legba Jan. Primeira segunda ou primeira quinta do ano. (Junus)


Lubana Jan. Primeira ou segunda Lua negra do ano. (Nirah/Ishara)
Ezili Mapiang 19/01 Festa de Ezili Mapiang, padroeira dos partos. (Anunito)
Azaka 05/02 Festa da colheita, Azaka. (Ninurta)
Bossou/Marinette 15/02 Festa de Bossou e Marinette. (Lupercalia)
Manje Tèt Dlo 25/02 Alimentar os espíritos da água doce.
Loko e Ayizan 08/03 Festa de Loko e Ayizan. (An e Ki)
Freda/Anaisa Pye 30/03 Festa de Freda e Anaisa Pye. (Nanaya)
Ogou Badagris 23/03 Festa de Ogou Badagris. (Damu)
Ogou Feray 04/04 Festa de Ogou Feray. (Nergal)
Macho Chango 11/04 Festa de Sàngó. (Gilgámesh)
Samedi e Brigitte 20/04 Festa de Samedi e Brigitte. (Ereshkigal e Gugalanna)
Damballah e Ayida 10/05 Festa de Damballah e Ayida. (Ningishzidda)
Balendjo 02/06 Festa de Balendjo. (Zababa/Isimud)
Agwe e Lasirèn* 16/06 Festa aos deuses do Mar. (Ea e Amar-ahus)
Marie Laveau** 23/06 Festa à Marie Laveau, no dia de São João.
Simbis** 23/06 Junto com Marie Laveau, no dia de São João.
Marasa 01/07 Manje Marasa (30/06-01/07). (Lugal-irra e Meslamta-ea)
Papa Legba Petwo 02/07 Festa à Legba Petwo. (Gula)
Krabinay Ago. Primeira Lua Negra de Agosto. (Pazuzu)

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Danto 10/08 Festa à Danto. (Ninhursag)
La Bruja Marta 13/08 Festa de La Bruja Marta. (Hecate)
Agaou 20/08 Festa para Agaou. (Ishkur)
Belie Belcan 09/09 Festa de Belie Belcán. (Hendursag)
Candelo Cedife 23/09 Festa de Candelo Cedife. (Amurru)
Gran Bwa 01/10 Festa de Gran Bwa. (Dumuzid)
La Gunguna 14/10 Festa Petwo para La Gunguna. (Nin-arah)
Fèt Ghede 02/11 Festa para a Divisão Ghede, no dia de finados.
Manje Yanm 25/11 Festa do inhame sagrado.
Kalfou Dez. Primeira segunda ou terça de Dezembro. (Neti)
Bakoulou-Baka 10/12 Festa para Bakoulou-Baka. (Imdugud)
Bak Agwe*** 14/12 Festa para alimentar o Mar. (Barco de Ninlil)
Ti Jean Petwo 21/12 Festa de Ti Jean Petwo. (Gibil)

*Tomei a liberdade em associar Agwe e Lasirèn aos sumérios Ea e Amar-ahus, que


eram festejados por volta de 16 de Dezembro (16 de Junho no hemisfério sul) entre os
Babilônicos e Acadianos. Esta data marca o inverno na antiga Mesopotâmia (o auge do
inverno mesopotâmico era 21 de Dezembro). No inverno, o encontro do ar quente
com as correntes de ar fria e os fortes ventos deixam o mar muito agitado e com
bastante ressaca, e os antigos alimentavam os deuses marinhos nesta época com a
finalidade de “apaziguar a fúria” dessas divindades.

**St. John’s Eve (Véspera de São João), uma data conhecida por aumentar a magia dos
magos, abrir os portais entre nosso mundo e o mundo espiritual. Pertence ao folclore
cristão, mas é uma data comemorada por todos os místicos da terra, em toda a Europa
e América. É uma data conhecida e muito importante no Vodu de Nova Orleans.

***Originalmente, uma festa onde se levava pequenos barcos com lamparinas dentro,
para agradar aos deuses marítimos (Seper.li Ninlil.gal = Barco de Ninlil), acontecia no
dia 09/09 (Setembro, ou mês Pesher) entre os Babilônicos. Mas no dia 15/12
(Dezembro, ou mês As’atir) os Babilônicos faziam rituais em louvor às águas abissais,
onde viva Tiamat. Então escolhi o 14/12 como festa do Bak Agwe, um meio termo que
coincide com o Bak Agwe original, que acontece nos dias 12, 13 e 14 de Dezembro.
Talvez meu raciocínio não faça muito sentido para vocês, mas eu achei que ficou um
meio termo equilibrado.

70
DIAS DA SEMANA

Diferentes expressões Vodu usam diferentes dias da semana para seu culto. Esta é
uma forte influência do catolicismo e também de muitos grimórios.

Semana Vodu Haitiano Vodu Dominicano Ninho da Serpente

Segunda Antepassados Legbas Legba, Ancestral, índios, Ghedes


Terça Petwo Ogunes (Ogous) Petwo e Ogous
Quarta Nago Ghedes Nago
Quinta Rada Belcanes (Loas da justiça) Rada
Sexta Ghede e Djouba Metresas (Loas femininos) Ghede e Djouba
Sábado Ghede Candelos Ghede e Candelos
Domingo ---------- Indios e Solier ------------

LISTA DE CONSULTA RÁPIDA DAS CORES DAS LOAS

As cores valem para velas, utensílios e Moushwas.

Legba – Amarelo/Dourado e Roxo (o amanhecer e o roxo da madrugada que vai


embora, como uma alusão ao nascimento e morte); vermelho e branco (ligando Legba
ao Petwo e Rada); vermelho e preto (sua antiga cor, trazida da África, de sua influência
com Legba do Benin). Em alguns templos usam o Marrom e Dourado.

Marassa – Amarelo e Verde; Rosa e Azul.

Loko e Ayizan – Tudo Branco ou Branco com Dourado, cores que representam a
realeza do antigo Daomé.

Damballah Wèdo – Tudo obrigatoriamente Branco. Representa sua pureza, realeza e é


a cor do sêmen, líquido da criação primordial. Há alguns templos que usam o Branco
com Verde escuro, mas não gosto.

Ayida Wèdo – Branco ou, mais tradicional, nas cores do arco-íris, o que a liga a suas
origens simbólicas tribais. Opte, quando possível, para as cores mais claras, pálidas.

Mèt Agwe – Verde-água, Verde esmeralda e Azul marinho, Verde escuro ou médio
com Azul royal ou marinho, Azul claro e branco ou turquesa. Alguns templos também
usam o Branco, Azul e Dourado.

Lasirèn – Branco e Azul claro, Verde-água e branco, Azul bem claro e Azul Anil. Muitos
também usam uma mistura de Branco, Azul claro, Dourado e Prata.

Freda – Pink com Branco, Rosa com Branco e, antigamente, Rosa e Azul ou Rosa, Azul e
Branco. Ela também gosta do branco, rosa e dourado.

Marie Laveau – Azul claro e Branco

71
Azaka – Azul escuro e Verde escuro ou Azul escuro, Vermelho e Verde escuro. Azul
escuro, Verde escuro, Amarelo e Marrom também são comuns para Azaka.

Ogou Feray – Vermelho e Azul marinho; às vezes, somente o vermelho.

Ogou Badagris – Vermelho, verde escuro e ocre. Algumas casas usam também o Azul
marinho.

Ogou Balendjo – Vermelho e Verde; Vermelho e Verde-azulado; Azul claro e branco.

Agassou – Somente branco (Haiti) ou somente vermelho (EUA).

Simbi Dlo – Branco e Verde escuro.

Simbi Andezo – Turquesa e Vermelho; Verde-azulado e Vermelho.

Simbi Makaya – Vermelho e Preto. Alguns Bòkòrs usam o amarelo para ele.

Mèt Kalfou – Preto e Vermelho.

Danto – Azul marinho e Vermelho ou Vermelho e Verde.

Bossou – tradicionalmente, usamos o vermelho.

Gran Bwa – Vermelho; Vermelho e Verde.

Marinette Bwa Chèche – Vermelho; Vermelho e Preto.

Linglessou – Vermelho bem forte.

Ti Jean Petwo – Vermelho e Amarelo; somente Amarelo.

Lubana (Balian) – Roxo escuro e Verde escuro. Ou Roxo escuro, Verde escuro,
Vermelho e Preto.

Todos os Ghedes – Roxo e Preto; ou Roxo, Preto e Branco.

Simalo – Preto

Divisão Branca – (toda a divisão branca, o que inclui os Rada) Amarelo ou Branco.

Divisão Indígena – (qualquer espírito indígena) Verde escuro, vermelho e branco.

Divisão Negra – (toda a divisão Negra, o que inclui os Petwo) Preto ou vermelho.

Divisão Rada – (qualquer espírito Rada) Branco.

Divisão Petwo – (qualquer espírito Petwo) Vermelho ou Preto.

Divisão Congo (Los Congós) – (qualquer espírito Congo) Vermelho.

72
OS IMPREVISTOS

Imprevistos acontecem com todos nós, e no Vodu isso não deve ser motivo para
preocupação. Às vezes era para descartarmos um trabalho no dia seguinte, mas coisas
podem acontecer, como uma chuva, uma menstruação, uma emergência ou qualquer
outra coisa. Até mesmo quando acordamos decididos a fazer um culto mais tarde, mas
novamente os imprevistos podem acontecer. Uma Loa não é um ser sem inteligência,
ela vai compreender e saber diferenciar um imprevisto de um desleixo. Durante o dia,
muitas coisas podem acontecer, inclusive em nível espiritual/emocional, drenando
nossa energia até nos esgotarmos. É muito melhor esperar um dia a mais para
realizarmos o culto ou um dia a mais para descartarmos o trabalho, do que fazermos
sem energia e com o corpo ruim. Naturalmente que você vai evitar trabalhar com
Freda na terça e com Danto na quinta, sendo necessário pular um dia a mais.

O Servo novato, durante seu culto, vai cometer vários erros, principalmente pelo
esquecimento de um ou outro passo na ritualística. Isso também não deve ser motivo
para preocupações, já que as Loas compreendem que o Servo está no processo de
lapidação. A intenção honesta e focada é muito mais importante. Claro que as
divindades esperam muito mais disciplina e perfeição na ritualística de quem está mais
velho dentro da religião, mas com os novatos elas são mais tolerantes. As Loas,
inclusive as Petwo, não saem punindo seus servos por qualquer bobagem, pelo menos
não quando se tem as melhores intenções. Naturalmente que a pessoa estará metida
numa grande confusão se ela brincar, debochar dos espíritos.

Velas podem se apagar, então podemos simplesmente voltar a acender, sem maiores
complicações. Charutos e cachimbos se apagam bem rápido, mas é normal, não
precisa ficar acendendo eles, somente a primeira vez já conta como oferenda. Animais
de estimação podem mexer no altar ou até causar algum dano, mas isso é
perfeitamente normal, as Loas podem compreender. Pode acontecer de crianças
mexerem no altar, o que não deve ser visto como perigoso, mas precisa corrigir a
situação imediatamente. Qualquer objeto do altar que uma criança colocar na boca, o
objeto deve ser bem lavado antes de devolver no altar. Pessoas adultas e que não tem
ligação alguma com o altar devem ser mantidas longe, pois o adulto sabe que deve
manter-se longe daquele ponto.

Qualquer elemento do altar que se quebrar não pode ser colado e nem reutilizado.
Jogue-o fora, no lixo, água corrente ou encruzilhada e compre outro. Bebidas
alcóolicas e cafés tendem a atrair baratas, fique muito atento a isso. Vèvès podem ser
destruídos com a ação dos ventos ou até ocasionalmente serem prejudicados por
pisadas de pessoas e animais. Independente do momento que isso aconteça, apenas
arrume o defeito assim que visualizar ele. Ao varrer os Vèvès, é comum que um pouco
da farinha fique na vassoura, e nem tudo vai ser possível descartar, também não é
preciso ficar preocupado com isso.

73
SOBRE AS DIVINDADES E AS WANGAS

Embora o Vodu não seja uma religião tão arcaica, ele mantém uma característica
muito antiga e também encontrada nas outras religiões. Estou falando do
antropomorfismo, ou seja, as características humanas que as divindades possuem.
Dessa forma, podemos esperar que as divindades do Vodu tenham qualidades e
defeitos tal como os humanos, e esse antropomorfismo concede uma grande
independência por parte das divindades, tornando-as seres pensantes e com opinião
própria. Por isso, uma Loa pode realmente se negar a trabalhar para você, caso ela
perceba algo errado no teu pedido ou na tua postura diante de uma situação. Somos
julgados o tempo todo pelas Loas, pois é assim que elas checam o nível de nossa
disciplina diante do poder que a religião representa. Por causa disso, usar nossas
divindades como “leão de chácara” é uma péssima ideia. Não são seres domáveis,
muito menos manipuláveis. Aceitar e entender que nossas divindades são seres
realmente vivos é o primeiro passo para começar bem dentro do Vodu.

Quando uma wanga é específica em atingir o alvo de determinada forma, então


devemos esperar este resultado específico. Mas, quando a wanga não é específica,
como aquelas destinadas a perturbar, derrubar, calar, fechar caminhos, abrir
caminhos, trazer sorte e etc, ela dão a permissão para que as divindades ajam
livremente, atacando ou trabalhando sobre os pontos mais fracos de uma pessoa, não
sendo necessário nenhum pedido específico. Assim, podemos concluir que o mesmo
que derruba uma pessoa nem sempre derrubará outra. As Loas, quando agem
livremente, vão atacar o alvo no ponto fraco, naquilo que desestabiliza totalmente a
outra pessoa. Nem sempre o que você acha que vai ser uma maldade cruel, de fato vai
ser. Diferentes pessoas têm diferentes pontos fracos.

Se no processo da wanga, por exemplo, tudo correu bem, se nenhuma falha física
pode ser identificada, então entenda como uma recusa da Loa que não aceitou aquele
trabalho. Se a Loa se recusou, então tem algo muito errado em você, e precisará fazer
uma auto análise para saber onde é que você está errado nessa história. As Loas
normalmente se negam a trabalhar quando julgam seu pedido ser um luxo, produto da
própria arrogância. Isso é ética e disciplina, e se o Servo comum não consegue ser
dono de si mesmo, como ele pode achar que será capaz de aguentar uma função de
sacerdócio. É muito claro que as Loas mais quentes vão trabalhar em qualquer assunto
que forem enfiadas, até naqueles sem qualquer ética e senso crítico. No entanto,
sempre há efeitos colaterais, sempre haverá algum tipo de cobrança, pois fazer
acordos com espíritos mais negativos nem sempre pode ser uma boa ideia. As Loas vão
trabalhar para você em assuntos realmente sério. As Loas não vão perder o tempo em
quem pisou no seu pé no ônibus e nem em quem tem pequenas brigas de família que
sempre termina em pizza. Então, se a wanga falhar, considere algumas horas
meditando sobre o assunto, pois tem algo errado em você.

74
QUANDO FAZER UMA WANGA?

Qualquer ato mágico dentro do Vodu é costumeiramente chamado de Wanga, apenas


com exceção dos rituais básicos e das oferendas para agradar ou agradecer. Assim,
feitiços, pós, banhos, óleos, lamparinas são todas Wangas. A palavra Wanga significa
grosseiramente Feitiço, mas o seu sentido semântico exige uma compreensão mais
profunda da Etimologia da palavra, que não cabe aqui (complicaria mais do que seria
esclarecedor). No sistema mágico como um todo, o feitiço é uma ferramenta, mas não
é algo para ser usado indiscriminadamente. Wangas custam, e algumas custam bem
caro! Quando somos partes de um sistema magístico, o que vai nos definir como
verdadeiros magos é o bom senso de como lidamos com os feitiços. Longe de querer
ditar regras, apenas estou tentando mostrar o caminho mais ético a se percorrer, mas
a decisão é muito particular de cada um. Há muitos Sacerdotes que conhecem as
regras, fingem segui-las mas, fazem tudo errado, focando apenas no financeiro.

Wangas focadas em nós mesmos, para limpeza, sorte, sensualidade, beleza, emprego,
saúde e etc são sempre bem vindas e podem ser feitas sem preocupação. Mas Wangas
com alvo certo, seja para ajudar ou para prejudicar, precisam ser avaliadas friamente e
com muita sinceridade. Nessas ocasiões, devemos nos perguntar se realmente uma
Wanga é nossa melhor saída, pois devemos considerar o valor, o tempo que será gasto
e os motivos pra isso. Acho que a regra mais simples para se escolher realizar uma
Wanga de Ataque é quando consideramos aquilo como sendo algo sério. Mas aqui
entra a relatividade, pois o que é sério para um nem sempre pode ser sério para outra
pessoa. O que seria algo sério para você? Há algum grau de culpa sua no ocorrido?
Quantos por cento do teu desejo de ataque é mero orgulho ferido? O momento é mais
oportuno para Atacar ou se Defender? Praticar a magia é saber ser estrategista!

Precisamos ter o mesmo senso crítico realista quando consideramos a ideia de fazer
uma Wanga focada na ajuda de outras pessoas. Muitas vezes, os problemas
apresentados por outra pessoa pode nos parecer bobagem, mas a gravidade de um
problema pessoal depende muito do ponto de vista do sofredor. Além do mais, por
estarmos fora da situação crítica, nossa tendência é analisar o problema mais
racionalmente, o que acaba tornando o problema algo muito banal. Você precisa
considerar todos os aspectos do reclamante: Quais os motivos que o levou a tal
estado? Quanto de todo o sofrimento é real e quanto é teatro? Você consegue
perceber se há uma depressão ou emotização levando a pessoa a se entregar de tal
forma? A pessoa é de fato uma vítima? São muitas questões a se avaliar, e o nosso tato
é a única coisa em que podemos confiar e perceber as entrelinhas, pois a pessoa tende
a mentir e contar a versão dela dos fatos. Mesmo que a pessoa consiga te enganar
(acontece muito!), depois, os problemas são dela com os espíritos. Agora se você
souber da sujeira por trás de tudo e mesmo assim se unir à pessoa para atacar, então
você será cúmplice.

75
QUAL TIPO DE WANGA ESCOLHER?

Então existe um problema e temos que escolher uma Wanga para resolver aquilo, mas
em meio a tantas opções, como fazemos para escolher? A melhor resposta é tato, bom
senso, ver o que se tem em mãos e observar a gravidade do problema. Pode parecer
complicado no início, mas com o tempo fica intuitivo. Quando estamos bem envolvidos
e equilibrados com o sistema mágico, de uma forma estranha e que não dá para
explicar, sabemos [insight] qual o melhor caminho para resolver o problema
apresentado. Em meio à milhares de centenas de Wangas, sempre acabamos tendo
uma lista não muito grande com nossas Wangas favoritas, que de tanto repetirmos,
acabam memorizadas e nos servem por toda a vida. Eu mesmo tenho um caderno com
102 Wangas que eu amo mesmo, uso sempre que necessário e as conheço de cor, de
tanto repetir ao longo desses quase 20 anos. Claro que em uma consulta com uma
divindade, o espírito vai passar uma Wanga oferecida por ele mesmo, e então temos o
conhecimento de como fazer.

Quando temos que escolher uma Wanga para nós mesmos, para agir sobre nossos
corpos e nossa essência, é mais fácil de escolher, pois sabemos o que estamos
sentindo, onde dói, e podemos escolher de acordo com a gravidade da situação,
segundo nós mesmos, e de acordo com o material exigido. Mas, e quando temos que
escolher a melhor Wanga para outra pessoa, seja esta um inimigo que queremos
atacar ou uma pessoa que nos pede auxílio? Entender o ocorrido ouvindo a história,
analisar o alvo, entender o tipo de vida que o alvo tenha, em que se envolve, quais
links têm, o que a pessoa espera que aconteça, o que ela dispõe de material para fazer
e, o mais [eticamente] importante, quem realmente é o culpado. Nem sempre o
reclamante é uma vítima.

Depende de muitas variantes, e só o tempo e a prática vão de fato fornecer essa


segurança do que escolher em uma situação. Uma dica que podemos usar para nos
ajudar a encontrar a melhor saída é nos colocarmos no lugar da pessoa e se questionar
sobre o que faria se fosse com você mesmo. Nem sempre isso pode nos dar uma
resposta objetiva, mas consegue nos centralizar em algo e facilitar a escolha. Enfim, os
métodos que você pode usar para descobrir qual Wanga escolher, se vai ser oferenda,
boneco, pó, banho, óleo, vela ou qualquer outra coisa, com o tempo, vai ser bem
pessoal e vai seguir sua própria linha de raciocínio. Mas uma dica eu posso dar com
certeza. Se você não for com a cara do solicitante, se por qualquer razão (ou sem
nenhum motivo) “seu santo não bater com o do reclamante”, melhor não pegar o
caso, pois sua antipatia pode estragar o resultado final. Mesmo que você não tenha
paciência com pessoa nenhuma, sempre há as mais fáceis de lidar e as piores.
Considere isso muito seriamente!

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DICAS GERAIS A SE CONSIDERAR

SE A WANGA É ESPECÍFICA, tipo quebrar uma perna, perder cabelo, ganhar num jogo e
etc, então podemos esperar por RESULTADOS ESPECÍFICOS. A forma que isso vai
acontecer não cabe a nós, ou seja, como alguém vai perder cabelo, se é por doença,
surra, acidente ou qualquer outra coisa, não é problema nosso, desde que o resultado
seja o esperado.

SE A WANGA NÃO É ESPECÍFICA, tipo perturbar alguém, desaparecer com alguém,


vingar-se de inimigos, causar doenças e etc, a divindade ou espírito vai agir sobre isso
nos moldes dela e se baseando nos pontos fracos do alvo. Se você quer perturbar
alguém, deve se considerar que o que te perturbaria não necessariamente perturbaria
outra pessoa. Há pessoas que ficam perturbadas em perder um amor, dinheiro, um
bem material, saúde, um filho, um parente, um emprego, um cliente e assim por
diante. Como a Loa vai perturbar o indivíduo depende somente do que é realmente
perturbador para o alvo.

SE A WANGA FOR RADA, tudo correu perfeitamente bem e o operante e reclamante


fizeram tudo certinho e mesmo assim nada aconteceu, então tem algo muito errado
neste pedido. Volte a analisar a questão pois algo não está esclarecido.

SE A WANGA FOR PETWO, tudo correu perfeitamente bem e o operante e reclamante


fizeram tudo certinho e mesmo assim nada aconteceu com o alvo, algo está
muitíssimo errado (os Petwos tem um senso ético menos sistemático), ambos
(operante e reclamante) podem esperar que a Wanga atingirá os dois (voltará contra
eles). Neste caso, pode-se recorrer à Legba para evitar problemas e realizar banhos
brancos (Banho de Damballah).

SE A PESSOA QUER “AMARRAR” A OUTRA PORQUE HÁ DE FATO SENTIMENTOS


ENVOLVIDOS, poderá optar por qualquer Loa, Rada, Petwo ou a família Ghede. Aqui,
os Petwo trarão a pessoa, mas terá que renovar quando estiver enfraquecendo.

SE A PESSOA QUER “AMARRAR” A OUTRA, MAS NÃO HÁ DE FATO SENTIMENTOS


ENVOLVIDOS, melhor usar somente Petwos ou Ghedes, mas tenha em mente que os
resultados serão efêmeros.

WANGA RADA pode demorar um pouquinho para ter efeitos, mas serão efeitos fortes
e muito duradouros, difíceis de quebrar. Eu uso Wanga Rada quando eu quero um
mudança profunda e definitiva.

WANGA PETWO tem um efeito bem rápido e visível, mas serão efêmeros e podem ser
desfeitos por qualquer pessoa séria que compreenda a magia envolvida. Eu uso Wanga
Petwo quando quero dar um susto bem dado ou quando eu quero acabar com uma
situação que ocorre naquele momento.

77
USAMOS O LADO PETWO DE UMA LOA RADA apenas quando esta Loa é nossa Mèt
Tèt e é a melhor opção diante da gravidade do problema. Fora deste contexto, não há
necessidade e a própria Loa [Rada] pode se apresentar em uma energia Petwo se ela
considerar isso importante. A Loa Rada agindo no Petwo manterá a durabilidade de
sua eficácia como sendo Rada.

USAMOS O LADO RADA DE UMA LOA PETWO quando essa Loa é nossa Mèt Tèt e ela
vai trabalhar unicamente para o nosso bem próprio. Essa afirmação é um pouco
polêmica e quase nenhuma Fanmi considera isso, até porque é uma afirmação mais
simbólica do que verídica.

AINDA QUE AS LOAS SEJAM REGENTES DE ESFERAS ESPECÍFICAS, como Freda e a


Beleza, Legba e os Caminhos e assim por diante, escolhemos com qual Loa trabalhar
unicamente de acordo com nossa intimidade com ela. Assim, é muito melhor pedir um
amor para Danto se você for um servo dela do que pedir um amor para Freda ou
Lasirèn se você nunca teve ligação com elas. Legba está perto de todos, sempre, e
pode nos ajudar em todas as esferas, mas você pode ser super próximo de Ogou e
considerar pedir um Emprego à Ogou, ou pode se sentir muito próximo de Gran Bwa e
pedir sabedoria a ele. É verdade que o amor que Danto vai trazer é muito mais sólido e
sério do que seria o amor trazido por Freda. Da mesma forma, pedir a sabedoria de
Damballah pode ter a ver com o alto conhecimento, enquanto a sabedoria de Gran
Bwa está mais na esfera da magia e das ervas. Se você leu sobre como são as Loas e
entendeu o contexto, não vai ter problemas em diferenciar como cada uma pode agir.
Se questione como seria tal Loa agindo em tal situação e você terá a resposta. Em todo
o caso, ter intimidade com a divindade a ser escolhida para o trabalho é o princípio
mais importante, considere isso. Imagine uma pessoa filha de Kalfou, um dos mestres
da magia, mas ela está se matando debaixo de um limoeiro implorando ajuda aos
Simbis, que nunca tiveram qualquer contato! Faz sentido?

A REGRA DOS 50% é uma forma simbólica de equilibrar nossas práticas mágicas. Se
fizer uma Wanga para conseguir emprego, ficar em casa pode diminuir suas chances.
Fazer uma Wanga para ter um amor, exige que você se vista melhor, tome banhos
regulares, seja legal, saia para tomar algo. Fez Wanga para uma cura, então repouse e
continue seu tratamento comum. Fez Wanga para conseguir um(a) parceiro(a) sexual,
então não o espere vir em uma reunião com a matriarca da família e outras tias idosas.
Fez Wanga para adquirir sabedoria em algo mas não se interessa por nada, vai ser
complicado. Se dá o trabalho de fazer uma Wanga para ficar mais atraente mas não se
dá o trabalho de dar um tapa no visual, a Loa desiste. Então a pessoa pode dizer que
uma Wanga é perca de tempo, basta ela apenas se arrumar, buscar, agir e tudo vai
acontecer. Mas a Wanga é um facilitador, pode ajuda-lo a conquistar coisas com mais
qualidade, mais rápido e dando uma segurança extra que você não vai ter sozinho.
Aliás, se considerou uma Wanga é porque as atitudes sozinhas não estão funcionando.

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DEIXAR NAS MÃOS DAS LOAS pode ser interessante quando a situação é uma ameaça
velada, que não exige nenhuma atitude radical e imediata. Deixar nas mãos de sua Mèt
Tèt ou de sua Loa de devoção, aquela que você tem muita afinidade, é uma forma de
manter uma defesa em tempo integral, e melhor, uma defesa passível de contra
ataque. Quando eu tenho situações realmente complexas, mas que não chegam a
exigir atitudes imediatas, sempre as deixo nas mãos de Bossou, pois ele vai olhar por
mim e, se necessário, derrubar o inimigo para sempre. Mesmo em situações mais
graves, mas quando a integridade física não está em jogo, deixar nas mãos da Loa pode
ser interessante. Deixar nas mãos da Loa é ritualizar com a Loa, fazer oferendas, expor
a situação, deixar um link do alvo (nome, foto, item, etc) no altar e esperar os
resultados, que costumam surpreender.

AS DIVINDADES FALAM COM O SERVO, principalmente através dos Insights e


presságios. Quando em uma situação qualquer te dá um “clic” e tudo começa a fazer
sentido dentro de você, como se fosse um quebra cabeças que acabou de resolver,
então é um Insight e pode ser um recado das divindades. Situações incomuns que não
ocorreriam ou uma situação que até poderia ser comum, mas que naquele momento
te fez sentido como se fosse uma resposta aos questionamentos internos do
momento, então podemos ter um presságio. As divindades, geralmente, não colocam
um acontecimento bizarro na sua frente para te dar um recado, elas na verdade fazem
você olhar para um ponto que já está ali mesmo, mas que normalmente você jamais
observaria. Presságios e Insights, assim como a fala das divindades de uma forma
geral, não somente no Vodu, se conectam a nós através do sincronismo. De uma forma
bem simples, é quando uma situação acontece independente daquilo fazer sentido
para você ou não, mas quando acontece e estamos justamente conectados com
questionamentos interiores, aquilo aconteceria de qualquer forma, mas por nosso
estado no momento, acaba fazendo sentido e nos trás respostas. Vou tentar mostrar
um exemplo prático de sincronismo junguiano. Você está apaixonado por alguém,
andando pelo shopping center e, de repente, ouve uma música que remete ao casal. A
música iria tocar de qualquer forma, e se não fosse sua paixão, poderia nem perceber
ela ali. Mas, como a situação interna é outra, você vai tomar consciência da música,
uma avalanche de memórias e pensamentos vão cair sobre você, e tudo pode trazer
alento, tristeza, respostas, coragem. Isso é o sincronismo. Não estou tentando
“cientificar” o místico, não é isso. Mas porque o sincronismo não pode ser uma forma
do divino nos ajudar? Carl Jung nunca negou a existência do espiritual, muito pelo
contrário, ele tinha muita paixão por isso. Ele apenas organizou de forma científica,
mesmo sem provar a existência do invisível, mas com termos que podemos usar para
entender o funcionamento da fé. Não tem muitos dias que eu estava indo trabalhar,
mas estava com alguns problemas para resolver, daqueles chatos que nos fazem
perder a concentração em tudo. Vi um carro com a placa LUA, que logo me remeteu à
palavra Luá, que é Loa no Vodu Dominicano. Essa sincronia me fez lembrar de cultuar!

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ALTAR VERSUS VÈVÈ é uma pergunta frequente, já falamos disso em apostilas
anteriores e é sempre difícil de dar uma resposta simples e satisfatória. De forma bem
grosseira, você pode cultuar somente no altar, pode ritualizar somente com o ritual do
vèvè, que é mais elaborado, ou pode fazer os dois. Escolha! Entretanto, quando você
não tem intimidade com uma Loa, realizar o ritual do vèvè é importante a fim de se
apresentar àquele espírito e mostrar disciplina. Considerando que o ritual do vèvè é
uma abertura de portal por onde seu contato com a Loa será bem palpável,
considerando que o vèvè pode proteger toda a sua oferenda e considerando que o
vèvè é uma assinatura mágica capaz de potencializar seu ritual, a maioria de nós
costuma ter altar e ritual de vèvè pelo menos uma vez ao mês ou quando a situação
exigir algo mais elaborado.

ALTAR MÓVEL é perfeitamente funcional, levando em consideração morarmos cada


vez mais em espaços pequenos, com pessoas que não param de se reproduzir, então
os altares móveis são opções perfeitas.

ALTAR FIXO exige um cuidado especial, já que deve ser mantido limpo e ter o cuidado
de ser ético e responsável diante dele. Pessoas que vivem sozinhas podem ter altares
fixos e não terão problemas, desde que o mantenha limpo, bem cuidado. A escolha
entre Altar Móvel ou Fixo é muito pessoal, não há regras.

VÈVÈ COM GIZ só é feito na prática Dominicana ou no Sanse. O mais comum, no


entando é se usar pós especiais em contexto de templo ou usar somente farinha de
milho em todos os contextos, que eu prefiro.

O BRILHO dos itens nas decorações Vodu, como espelhos, lantejoulas, paetês, cetim e
outros, têm como objetivo repelir energias negativas, segundo a crença Vodu. Espíritos
nocivos se manterão longe diante do brilho dos altares. Entretanto, todos esses brilhos
me incomodam e me tiram a concentração. Por este motivo, tento usar o mínimo
possível de itens muito brilhantes.

PODEMOS COMER, BEBER E FUMAR JUNTO COM AS DIVINDADES, mas não


consumimos o que está sobre o altar e que foi oferecido à Loa. Com as Loas Rada é
menos comum consumirmos com ela, mas não é errado. Com Loas Petwo e Ghedes, é
muito comum fumarmos, comermos e bebermos, mas como eu disse, não da oferenda
dela, mas coisas à parte que separamos para nós mesmos neste momento. Então, é
comum oferecermos café para Legba (Rada ou Petwo), oferecermos outra bebida (até
alcóolica), um cachimbo e etc. Se quisermos desfrutar desse momento, podemos ter
um cachimbo só nosso ou um copo de café. Copo de bebida, cachimbo, charuto ou
qualquer outra coisa que é do nosso consumo não deve ficar no altar da Loa. No altar
fica somente o que pertence à Loa. O que é nosso pode ser guardado com nossas
coisas comuns.

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SOBRE VÈVÈS IMPRESSOS, DESENHADOS COM TINTA OU BORDADOS, são elementos
muito vistos. São primeiramente elementos decorativos, que podem substituir a
estátua de uma Loa com muito sucesso. “Onde está a assinatura de um espírito, ele
pousará sua mão”. Assim, entendemos que onde quer que esteja o símbolo da Loa, ela
se reconhecerá ali e manifestará sua energia. Por exemplo, algumas wangas pedem
que se use vèvès desenhados em papeis. Assim, o vèvè sempre terá um caráter
sagrado.

SOBRE TATUAR VÈVÈ NO CORPO, é uma pergunta que recebo com muita frequência.
Acho que a opinião da maioria dos Sacerdotes será a mesma, vai depender de vários
fatores. Quando quiser fazer uma tatuagem de vèvè, considere estar claro os motivos
disso, qual Loa escolheu, porque a escolheu, qual parte do corpo decidiu fazer (muito
cuidado com isso, pois nas partes íntimas não é uma boa ideia). Vèvès possuem chaves
secretas em seus significados, que só é do conhecimento dos iniciados, por isso é
importante questionar a um sacerdote se o vèvè escolhido é seguro de se tatuar.
Quando vamos tatuar mais de um vèvè, é ainda mais importante consultar quem
entende sobre esse simbolismo, pois nem todos os vèvè vão funcionar bem um perto
do outro (Freda e Danto, Freda e Ghedes, Radas e Petwos, Azaka e Freda, Radas e
Ghedes).

NUNCA É DEMAIS REPETIR QUE NA FRENTE DE UM ALTAR não devemos: transar, se


masturbar, usar drogas, se embebedar, brigar, xingar, ver filmes pornôs, ficar pelado,
fumar (os altares Radas) ou fazer festa comum. Mas podemos: ficar junto de quem
amamos, com beijo e trocas de carinho; podemos discutir com alguém de forma
saldável, sem agressões; se o altar fica perto da tv, não problema de acharmos alguém
atraente na tv; pode-se passar rapidamente por ele estando de roupas íntimas ou de
toalha. Altares em quartos não costumam ser uma boa ideia porque é onde a maioria
dessas coisas acontece, é um local muito privativo. Inclusive, Loas Petwo e Ghedes
podem atrapalhar o sono, pois são uma energia muito agitada e quente. Legba pode
também atrapalhar o sono. Quando cobrimos um altar com um pano limpo branco,
estamos então “colocando o altar para dormir”, é uma forma respeitosa de lidar com o
altar no caso de qualquer uma dessas coisas citadas forem acontecer na frente dele.
Ah, sempre tenha extremo cuidado com velas, para evitar incêndios.

A MELHOR DEFESA CONTRA UM ATAQUE ESPIRITUAL QUANDO NÓS PISAMOS NA


BOLA COM UMA LOA é agirmos rapidamente conversando com Legba e depois com a
Loa ofendida. Um ritual do vèvè completo e oferendas sólidas e líquidas é o ideal,
tanto para Legba quanto para a Loa ofendida, isso tudo no mesmo dia. O mesmo se
aplica aos Petwo e Ghedes, que geralmente darão algum tombo no servo mesmo
quando os perdoam, mas com menos agressividade. Se sua falha for realmente grave,
o ideal é realizar uma ação de graças como pedido de perdão.

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CULTUAR A LOA MÈT TÈT É TÃO FÁCIL QUANDO CULTUAR LEGBA OU QUALQUER
OUTRA LOA, SEM GRANDES EXIGÊNCIAS. O que não deve faltar como oferenda é a
vela, que é o ponto focal da ritualística. O que mais vai acompanhar as oferendas é
muito pessoal e vai da disponibilidade do servo. Talvez os cultos mensais, por serem
bem esporádicos, possam ser mais elaborados, com oferendas sólidas e líquidas.
Cultos semanais podem ser menos exigentes, com apenas vela, fumo (se a Loa fuma!)
e bebida, e uma vez ao mês, ou quando sentir necessário, oferendas mais completas. É
muito difícil dizer o que fazer neste sentido, pois depende do gosto pessoal e
condições de cada pessoa.

A FORMA MAIS SIMPLES DE SE CULTUAR OS ANTEPASSADOS é ter um altar móvel


para eles. Este altar móvel deve ter no mínimo uma toalha branca e limpa, uma vela
branca e um copo de água. Fotos, vasos com flores brancas, símbolos e oferendas de
comidas (normalmente sem sal) são itens que podem estar no seu culto aos ancestrais.

AS REVISTAS PORNOGRÁFICAS NO ALTAR GHEDE é muito comum (mas não uma


obrigatoriedade) e não é desrespeitoso aos Ghedes. Mas isso não quer dizer que você
não tenha que manter o mesmo nível de respeito dos outros altares.

AO ENTRARMOS EM UM CEMITÉRIO, pedimos licença para Samedi e nos despedimos


dele na saída. Se quiser apresentar algo mais elaborado, pode deixar na entrada do
cemitério três moedas de igual valor, ou um charuto, ou uma libação de bebida
alcóolica (Piman é ideal) ou qualquer outra oferenda que tenha em mãos.

AO SE ENTRAR NO CEMITÉRIO PARA COLHER OSSOS, TERRA OU QUALQUER ITEM


PARA USO, devemos deixar três moedas de mesmo valor no cemitério, em qualquer
ponto dele. Neste caso, não é necessário deixar moedas na entrada, mas se quiser
pode deixar na entrada um charuto, ou uma libação de bebida alcóolica (Piman é ideal)
ou qualquer outra oferenda que tenha em mãos.

AO ENTRAR EM UMA MATA, pedimos licença para Gran Bwa. Podemos deixar na
entrada apenas três moedas de igual valor. Mas podemos oferecer algo mais
elaborado, como uma folha de bananeira, com farofa de farinha de milho com mel e
um pedaço de fumo de corda ao lado. Também podemos oferecer uma vela vermelha.

É UMA MARCA REGISTRADA DO SACERDOTE MAKOUT carregar itens de uso


magístico em sua bolsa de palha. Makout é, de fato, uma bolsa de palha e é também o
título comum usado no antigo Vodu Deka. Mas, na vida urbana seria meio estranho
andarmos por aí com uma bolsa de palha cheia de coisas estranhas dentro. Assim, em
uma viagem, eu sempre levo na mochila algumas coisas básicas para uma emergência.
Cada um decide o que é importante para si mesmo. No meu caso, eu levo: uma troca
de roupa de cor clara, Tarot (ou Sangoma), um Óleo de Proteção, sal marinho, vela
branca e charuto.

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A ÁGUA é um grande portal por onde as Loas viajam e chegam até você. A água é
também a bebida básica de oferenda à qualquer espírito.

ALGUMAS PROIBIÇÕES PRECISAM SER OBSERVADAS, E NÃO SÃO MUITAS. Jamais


cuide de Lubana somente com velas pretas. Danballah e Ayida Wèdo não suportam
fumo, bebidas alcóolicas e cheiros muito fortes, como incensos de má qualidade. O
Olíbano e o Sangue de Dragão tem cheiro forte e ruim, mas é uma exceção à regra e é
usado universalmente. O Orgeat feito para Danballah e Ayida não é alcóolico, como os
Orgeats industrializados. Radas e Petwos sempre separados. Freda e Danto separadas.
Freda não gosta de pimenta, não tem paciência com Marasa e não gosta de Ghedes.
Freda e Azaka também não costumam ficar lado a lado, por razões óbvias, embora não
sejam inimigos. É também proibido pedir a mesma coisa para duas ou mais divindades,
pois você terá problemas com elas. Quando pedir, opte por uma só e só volte a pedir a
ela mesmo ou espere um tempo mínimo de 90 dias para se aventurar com outra
divindade. O tempo de 90 dias tem muito mais um simbolismo místico do que uma
explicação voduística.

DJABS SÃO RUINS E PERIGOSOS, MAS EM ALGUNS MOMENTOS PODEM SER NOSSA
ÚNICA SAÍDA. Radas são extremamente éticos, Petwos e Ghedes podem ou não ser
éticos, dependendo da situação e da Loa em questão. Então, quando realmente
queremos agir no crime, apelamos para os Djabs. Entretanto, não há qualquer garantia
de que os Djabs vão realizar seus pedidos, e da mesma forma, não se pode garantir se
haverá ou não efeitos colaterais. Assim, antes de apelar aos Djabs, tenha realmente
certeza se valerá a pena.

AS LOAS SÃO OU NÃO SÃO DEUSES? A resposta vai ser muito relativa. A esmagadora
maioria dos Voduístas vai afirmar que as Loas são espíritos e estão sob o comando de
Bondye, e nada nem ninguém pode estar acima de Bondye. Mas, pela ótica pagã
(Ninho da Serpente), não existe um Bondye, não há um criador solitário de todas as
coisas. Assim, entendemos as Loas como divindades e não simples espíritos.

ACIDENTES DURANTE UM RITUAL PODEM ACONTECER, e não devem ser motivo para
preocupações. Desde cortes e queimaduras ao se manipular faca e fogo, até algo se
quebrar ou pessoas surgirem do nada no local, principalmente quando fazemos na
natureza. Velas podem insistir em não ficarem acesas, e isso se pode resolver com uma
garrafa pet grande cortada de modo a proteger a vela. Sempre podemos dar um jeito!
Se pudermos evitar esses incidentes, melhor, mas se não for possível, não é sinal de
que o ritual está perdido. Podemos naturalmente continuar de onde paramos, não
importando qual foi “jeitinho” que você deu para contornar o imprevisto. As Loas
seriam menos tolerantes aos imprevistos de um Houngan ou Mambo do que de um
Sevite, mas ainda assim, todos podem ser devidamente contornados sem prejudicar o
resultado final do trabalho.

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FAZEMOS UMA AÇÃO DE GRAÇAS quando queremos agradecer uma ou mais Loas por
algo alcançado ou quando estamos iniciando uma fase nova em nossa vida e queremos
sorte nos novos caminhos (emprego, casa nova, namoro, saúde, etc).

O ORÁCULO DE OSSOS é extremamente intuitivo e é possível que você acrescente


itens ao oráculo padrão que tenham um significado muito pessoal, que só você saiba.
Isso vai tornar o oráculo de ossos muito particular, e não vai prejudicar a efetividade
dele.

OSSOS DO ORÁCULO OU OSSOS OFERECIDOS PARA LEGBA podem ser ossos de carne
que foram consumidas por você. Basta limpar os ossos e oferecer. Caso não coma
carne, pode usar ossos consumidos por outras pessoas da família, sem problemas. Mas
se quiser, pode fazer a carne com o osso, oferecer somente a carne para uma Loa e
limpar os ossos para uso em oráculo ou para deixar no altar de Legba.

VOCÊ NÃO PRECISA DE UMA COLEÇÃO DE MOUSHWAS COLORIDAS. Ter apenas uma
branca será mais que suficiente para o teu culto geral. Se quiser, poderá até aumentar
para uma vermelha para seus cultos Petwo e uma roxa para cultos Ghede e talvez uma
amarela ou dourada para cultuar Legba. É totalmente opcional e poderá simplificar
para uma Moushwa branca para todos os fins. A Moushwa pode ser lavada com água e
sabão normais.

VOCÊ NÃO PRECISA DE UMA COLEÇÃO DE TOALHAS COLORIDAS. Tenha apenas uma
branca para cultuar qualquer Rada ou Nago em altares móveis, tenha uma vermelha
para cultuar qualquer Petwo ou Nago em altares móveis e tenha uma roxa para cultuar
qualquer Ghede em altares móveis. No entanto, nada impede que tenha toalhas
coloridas de acordo com cada Loa, da mesma forma que nada impede de simplificar
seu culto.

O CAFÉ servido pode ser o mesmo feito para toda a família pela manhã. Mas caso não
beba café, poderá fazer um somente para oferenda. Seja coado tradicionalmente, seja
em cafeteiras, não importa. Café para as Loas é sempre servido quente, independente
de qual seja a Loa. Café para os Ghedes sempre é servido frio, simbolizando o estado
da morte. Cafés doces são bem vindos à todas as Loas e Ghedes. Cafés amargos
normalmente podem ser servidos para Petwo. Legba pode apreciar um copo de café
amargo e outro bem doce, ou somente um dos dois. Agwe gosta do seu café doce e
com creme ou até cappuccino. Ao servir café para os espíritos, você poderá pegar um
copo para você e tomar junto (um café do seu gosto, claro), enquanto faz seus
pedidos.

OS COMPLICADOS CUMPRIMENTOS, com suas piruetas e agachadinhas, precisam ser


decorados. Não há outro jeito! No início erramos, mas fica automático. Rituais
completos exigem cumprimentos completos. Rituais mais simples e rápidos não.

84
VODU NÃO É ORTODOXO

Não existe uma ortodoxia dentro do Vodu, não existe um Vodu “tradicional” e nem um
Vodu “verdadeiro”. No entanto, o Vodu não é uma religião do “faça o que quiser e está
certo”, não é uma bagunça. Existe um padrão de culto, um padrão de comportamento,
de distribuição ritualística. Mesmo que a pessoa não siga o Reglemen ao pé da letra,
que é o conjunto de regras dentro do Vodu, ele ainda precisa seguir um padrão de
regras que é comum em todas as Fanmi Vodu e precisa seguir uma ética que nos é
passada pelas Loas. A maioria dessas regras e padrões de culto foi ensinada no curso e
muito se foi falado aqui no manual, não tem como praticar Vodu sem seguir tais
orientações.

O que não pode é oferecer um “Vodu único e verdadeiro, tradicional da porra, que
fora dele nenhum outro é o Vodu”. É importante que o Sacerdote seja sempre muito
claro sobre sua forma de praticar o Vodu, se houve mudanças, os motivos de suas
mudanças. As mudanças no Vodu são comuns dentro e fora do Haiti, em todas as
expressões de Vodu, até mesmo na linhagem Asson há algumas variantes. Mesmo as
mudanças mais radicais, como uns doidos que resolvem abolir totalmente o
cristianismo do Vodu, essas alterações precisam estar muito claras para todos.

A Mambo Sallie Ann Glassman, uma praticante de magia cerimonial bem


entusiasmada, foi iniciada no Haiti na linhagem Asson. No entanto, mesmo sendo filha
de Ogou, ela aboliu o sacrifício animal, é um Vodu totalmente vegano e todos os seus
iniciados são Sacerdotes sem uso de sacrifício animal. Além disso, Mambo Sallie
adicionou em sua expressão Vodu práticas da yoga, bruxaria, O.T.O e Vodu dos EUA.
Apesar dessas mudanças bem radiais, ela mantém um culto sólido e baseado na
prática padrão, sem outras grandes alterações. O Houngan Ross Heaven e a Mambo
Chita Tann são apoiadores de quem pratica o Vodu solitário, apoiam também a
entrada de brancos e estrangeiros ao culto, e isso é bem moderno para eles,
Sacerdotes haitianos.

Para sobreviverem ao tempo, as religiões precisam acompanhar a evolução. Claro que


podem fazer isso com bom senso e muito cuidado para não descaracterizar a religião.
Retirar o cristianismo, além de ser algo nocivo para mim, é também uma forma de
mostrar que em pleno século 21 é ridículo que uma religião ainda seja escrava de outra
para ser bem aceita. Na minha visão, eu libertei minha prática dos grilhões. Para
Mambo Sallie, uma vegana, a ideia de matar animais é inconcebível, e cada vez mais
pessoas estão aderindo a isso. Assim, pessoas veganas, mas que amam as Loas podem
recorrer a Fanmi dela para alcançarem o autoconhecimento. Foi uma forma
interessante de permitir que mais pessoas conheçam o Vodu e ao mesmo tempo
tenham seus limites respeitados!

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VOCÊ É RESPONSÁVEL POR VOCÊ MESMO

O Houngan ou a Mambo são responsáveis por te ajudar no caminho do


autoconhecimento, são eles que te apresentam às divindades e, por extensão, te
apresentam a si mesmos (isto é, eles te guiam para o encontro do EU). A religião é
como um mapa que pode ser seguido de várias formas para se alcançar a plenitude, e
os espíritos são facilitadores desse caminho todo a ser percorrido. Mas, percorrer o
caminho depende somente de você, o único responsável por suas escolhas pessoais.
Assim, o Houngan, a Mambo e as Loas não escolhem nada por você, apenas vão guiar
e apontar para as melhores escolhas (e nem sempre as melhores escolhas estão de
acordo com nossos desejos).

O Houngan e a Mambo são responsáveis por lhe dar a melhor e mais sincera acolhida e
proteção, precisam agir como verdadeiros pais, guias, mentores, amigos, mas jamais
como donos da verdade absoluta e ditadores. É importante saber que os filhos
precisam se dar mal vez ou outra para aprenderem a viver, pois o aprendizado
depende de erros. Até se a tua escolha for de gosto bem suspeito, cabe somente a
você fazer tal escolha e arcar com as consequências, que normalmente o seu
Sacerdote e suas Loas vão alertar antes que tudo fique ruim. Se os seus pedidos e
intenções forem questionáveis, algumas Loas certamente vão se negar a te levar para
o buraco e não vão te ouvir, outras vão agir sutilmente para te ajudar sem te enfiar em
mais confusão, outras vão se divertir muito e te jogar de cabeça. Esta é uma forma
bem curiosa de as Loas ensinarem seus filhos (ou dizem não, você não vai voar... ou
simplesmente te arremessam do ninho e desejam sorte).

Quando uma pessoa conhece a essência do Vodu, sabe claramente diferenciar o que
há de humano e bom nele do que é abuso de poder em todos os sentidos, mas, se
mesmo assim a pessoa insiste em abraçar o que há de pior na religião, então ela
precisa rever o que há de errado dentro dela. Mesmo não havendo o mínimo
conhecimento de uma religião, seja ela qual for, sabemos que o sacerdote não comete
abuso sexual, não comete abuso financeiro, não denigre nossa imagem publicamente,
não nos ameaça sem boa justificativa e nem nos expõe como seres humanos, usando
nossas fraquezas.

Um Sacerdote que inventa histórias como “sua Loa precisa comer, vou cobrar...” ou
“você precisa fazer tais rituais e iniciações, senão...” já demonstra a má fé do seu guia.
Se mesmo assim a pessoa insiste neste erro, então essa pessoa demonstra ter um
caráter ainda pior do que o do Sacerdote. Só há um sacerdote abusivo porque há
pessoas necessitadas em ser esfoladas vivas. A boa informação está para todos! E tudo
isso não tem a ver com um sacerdote melhor que outro, mas sim um sacerdote mais
ético que outro.

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NINHO DA SERPENTE

VODU SOB A ÓTICA PAGÃ

05/06/2019

HOUNGAN MAKOUT ALEXANDHROS

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