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Resenha do texto Professores: Entre saberes e práticas

(MONTEIRO, Ana Maria Ferreira da Costa)

Em artigo publicado em 2001 a Doutora em Educação, Ana Monteiro,


propõe articular dois conceitos teóricos, saber docente e conhecimento escolar
para compreender a relação que os professores mantêm com o conhecimento
que ensinam. Ela começa dizendo que tal objeto recebeu pouca atenção dos
pesquisadores e dos próprios professores em conversas com seus pares.

Há dois paradigmas que se propõem a dar conta dessa relação professor-


saberes: O primeiro é o da racionalidade técnica, que compreende o professor
como transmissor de conhecimento na sala de aula. Assim ele é um
profissional que possui uma formação que lhe dá as técnicas necessárias para
a apreensão e transmissão desse saber, que possui caráter de verdade.

Em direção oposta temos as pedagogias não-diretivas, “libertadoras”. Que


questionam os saberes dominantes, e se propoem a valorizar saberes
populares de forma que assim estes grupos se libertem das opressões
sofridas. Para a autora essa pedagogia muitas vezes levaram a um
esvaziamento da dimensão cognitiva do ensino que, em alguns casos, se
restringiu a reproduzir o senso comum, com consequências perversas para os
grupos subalternos que pretendiam libertar.

O conceito de saber docente surge num esforço de melhor compreender


essa relação professor-saber que é complexa demais para os paradigmas
vigentes e também no sentido de criticar a ideia desqualificadora que inferioriza
àqueles professores que se voltam para a prática docente, ao invés da teórica/
acadêmica. Ainda há, no entanto, uma ausência de trabalhos que tratem
especificamente sobre a relação professor-saber.

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O saber docente não é sistematizado, não se encontra em livros e nem
em manuais. É um saber que nasce da prática e serve a ela própria. Esse
saber é reflexo direto de suas condições materiais de atuação, bem como de
seu lugar na sociedade. Por vir diretamente da prática, muitas vezes os
professores não tem consciência dele e nem de que o produzem, é portanto,
um saber implícito.

O conceito de saber escolar ou conhecimento escolar surge nos esforços


de compreensão da escola como integrante da cultura da sociedade e como
produtora de identidade e como espaço refletor das relações de poder e
contradições de uma sociedade. Desde a década de 80 a autora enxerga
quatro tendências quanto ao campo da sociologia do currículo: Uma estuda o
currículo real, a outra o currículo oculto; a terceira se volta para o estudo das
disciplinas escolares, como é o caso de André Chervel. E uma quarta vertente
estuda a chamada transposição didática,ou seja, a passagem do saber sábio,
de referência ou científico, ao saber ensinado. De certa forma, esta ultima
vertente se desenvolve com as contribuições de Chervel sobre as disciplinas
escolares, mas também, principalmente sobre as considerações/ reflexões de
Forquin sobre os imperativos didáticos.

O saber escolar então, possui, como uma lógica própria, e faz parte de
um sistema – o sistema didático que bebe das fontes do saber acadêmico. É
interessante em pensar esses saberes como objetos-instrumentos de
interesses sociais, bem como também reflexos tanto da sociedade como dos
grupos que o selecionam e os transpoem didaticamente.

Esses dois conceitos suscita o debate sobre o valor do professor escolar


o do saber que ele ensina. Forquin aponta para um dado interessante quando
diz existir uma hierquização dos saberes. E o debate acerca do conceito de
saber docente levanta a questão do valor do professor escolar face ao
universitário. Estas duas questões estão relacionadas e se fundem em uma: A
disciplina que o professor ensina o define. O recorte do conhecimento em
fronteiras cria laços de afinidade e de pertencimento àqueles que estudam
determinados campos. Ou seja, nas palavras de Marx e Engels o trabalho nas
sociedades capitalistas definem a pessoa. Essa constatação nos leva a ver a

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perversidade das relações de poder que se manifestam na educação seja na
escola – com a desvalorização do próprio corpo docente e pedagógico, ou com
a própria atitude dos alunos – seja na universidade – com um desdém, seja dos
próprios professores como dos estudantes das matérias de licenciatura e da
docência.

Essas relações de poder ficam mais explícitas quando o próprio governo


do país corta disciplinas “menores” do currículo escolar. Para superar essa
desvalorização e esse preconceito será necessário que a sociedade mude sua
visão sobre a educação: que ela pare de enxergá-la como gasto e despesa que
tem que obedecer a um teto, que ela não queira amordaçá-la com um projeto
que mostra claramente que seus defensores não têm ideia nenhuma do que
acontece dentro de uma sala de aula e do que acontece no processo de
formação de professores, e que principalmente, ela apoie professores e alunos
na luta por uma educação melhor.

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