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Lógica

Componente curricular na modalidade de educação a distância

Luciano Jaeger
Possui graduação em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (1993) e
mestrado em Filosofia pela Universidade Federal de Santa Maria (1995). É professor
da Universidade Comunitária da Região de Chapecó- Unochapecó e coordenador do
curso de Filosofia da Unochapecó.

Chapecó, 2013
Reitor
Odilon Luiz Poli

Vice-Reitora de Pesquisa, Extensão e Pós-Graduação


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Vice-Reitor de Planejamento e Desenvolvimento


Claudio Alcides Jacoski

Vice-Reitor de Administração
Antonio Zanin

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Carla Rosane Paz Arruda Teo (vice-presidente),
César da Silva Camargo, Dirceu Luiz Hermes, Elison Antonio Capa: Marcela do Prado, Juliane Fernanda Kuhn de Castro
Paim, Érico Gonçalves de Assis, Maria Aparecida Lucca
Diagramação: Marcela do Prado, Roberta Rodrigues Kunst
Caovilla, Maria Assunta Busato, Murilo Cesar Costelli, Tania
Mara Zancanaro Pieczkowski

_____________________________________________________________________
160 Jaeger, Luciano
J22L Lógica / Luciano Jaeger - Chapecó : Argos, 2013.
80 p. : il. ; 28 cm. - (EaD ; 15)

Inclui bibliografias
ISBN 978-85-7897-109-0

1. Lógica I. Título.

CDD 160
___________________________________________________________________
Catalogação elaborada por Caroline Miotto CRB 14/1178
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CARTA AO ESTUDANTE

Seja bem-vindo!
Você está recebendo o livro do componente curricular de Lógica.

No atual cenário educacional, em que, cada vez mais, as pessoas buscam por
uma formação complementar e há a inserção massiva das tecnologias de informação
e comunicação, a modalidade de educação a distância é vislumbrada como uma
importante contribuição à expansão do ensino superior no país, que permite formas
alternativas de geração e disseminação do conhecimento.
A educação a distância tem sido importante para atingir um grande contingente
de estudantes de vários locais, com disponibilidade de tempo para o estudo diversa,
além daqueles que não têm a possibilidade de deslocamento até uma instituição de
ensino superior todos os dias. Desta forma, a Unochapecó, comprometida com o
desenvolvimento do ensino superior, vê a educação a distância como um aporte para
a transformação dos métodos de ensino em uma proposta inovadora.
Levando em consideração o pressuposto da necessidade de autodesenvolvimento
do estudante da modalidade de educação a distância, este material foi elaborado de
forma dialógica, baseada em uma linguagem clara e pertinente aos estudos, além de
permitir vários momentos de aprofundamento do conteúdo ao estudante, através da
mobilidade do para outros meios (como filmes, livros, sites).
Temos como princípio a responsabilidade e o desafio de oferecer uma formação
de qualidade, para tanto, a cada novo material, você está convidado a encaminhar
sugestões de melhoria para nossa equipe, sempre que julgar relevante.
Lembre-se: a equipe da UnochapecóVirtual estará à disposição sempre que
necessitar de um auxílio, pois assumimos um compromisso com você e com o
conhecimento.

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Coordenação de Educação a Distância


UnochapecóVirtual

Lógica
SUMÁRIO

APRESENTAÇÃO...............................................................................7

UNIDADE 1 INTRODUÇÃO À LÓGICA, CONCEITOS E HISTÓRIA DA


LÓGICA............................................................................................9
INTRODUÇÃO....................................................................................11
1 CONCEITOS DE LÓGICA .................................................................14
2 VISÃO HISTÓRICA DA LÓGICA........................................................17
2.1 Período Clássico (século IV a.C. até ao século XIX).................18
2.2 Período moderno (século XIX e começo do século XX) ..........22
2.3 Período contemporâneo (séculos XX e XXI) ...........................22
3 A LINGUAGEM SINTÁTICA, SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA................23
3.1 A linguagem e a semiótica......................................................24
3.2 Teoria dos Signos.....................................................................25
3.3 Os três campos da Semiose.....................................................26
3.3.1 Sintaxe...........................................................................26
3.3.2 Semântica......................................................................27
3.3.3 Pragmática.....................................................................28
REFERÊNCIAS.....................................................................................30

UNIDADE 2 OBJETO, DIVISÃO E PRINCÍPIOS DA LÓGICA...............33


1 INTRODUÇÃO.................................................................................35
REFERÊNCIAS.....................................................................................47

UNIDADE 3 ANALÍTICA FORMAL DO JUÍZO E DO RACIOCÍNIO.......51


1 INTRODUÇÃO.................................................................................53
2 JUÍZO E FORMA..............................................................................54
3 JUÍZOS SINTÉTICO E ANALÍTICO.....................................................56
REFERÊNCIAS.....................................................................................60

UNIDADE 4 CONJUNTO E ÁLGEBRA BOOLEANA............................63


INTRODUÇÃO....................................................................................65
1 OPERAÇÕES BÁSICAS.....................................................................66
2 POSTULADOS E ALGUMAS IDENTIDADES.......................................72
4 ALGUMAS PROPRIEDADES E TEOREMAS........................................74
5 FUNÇÃO BOOLEANA E TABELA DE VERDADE.................................75
REFERÊNCIAS ....................................................................................77

Lógica
APRESENTAÇÃO

Prezados alunos e alunas, bem-vindos ao componente curricular de Lógica!


Aqui faremos a análise dos diversos campos de domínio da linguagem.
Analisaremos, em especial, o domínio da lógica nas suas modalidades tradicionais e
propedêuticas.
Esperamos no decorrer do trabalho que todos possam reconhecer como a
lógica é constituinte da condição humana e como ela possibilita a cada pessoa um
conjunto de alternativas para que se alcance o nível de conhecimento superior, crítico
e de discernimento no uso do raciocínio.
A ementa do componente traz os seguintes temas: visão histórica da lógica;
lógica: introdução; objeto, definição e divisão da lógica; os princípios lógicos; analítica
formal do juízo; analítica do raciocínio; conjunto e álgebra booleana.
Como podemos observar na ementa, este componente curricular implica numa
apresentação das diferentes conceituações e funções da lógica, desde a fase clássica até
a perspectiva contemporânea. Nesse sentido, o componente curricular foi organizado
em quatro unidades.
Na primeira unidade, apresentamos os principais conceitos utilizados sobre
lógica, tendo por referência inaugural e nodal o período clássico, no qual está a
gênese da civilização, bem como da lógica. Nesta unidade destacamos as três fases
históricas da lógica e, no final, apresentamos um problema de linguagem que se tornou
emergente na contemporaneidade, a saber, a aplicabilidade da lógica na dimensão
semântica e pragmática.
Na segunda unidade, discutimos aquilo que se torna o ponto central de todos
os saberes denominados científicos, o objeto de estudo da lógica. Qual é o objeto da
lógica? Há apenas um objeto ou existem vários e quais são os princípios lógicos, são
os pontos de análise desta unidade. Nela, ainda apresentamos as divisões lógicas que
se realizaram no decorrer da civilização ocidental.
Na terceira unidade, apresentamos uma abordagem que se realiza na esfera da
concepção do juízo. A analítica do juízo e do raciocínio são exercícios que realizamos
cotidianamente, uma vez que flexionam para o alcance dos conceitos que elaboramos
sobre a realidade. Nesse sentido, apresentamos as características centrais da elaboração
de um juízo e, em seguida, damos ênfase ao filósofo Immanuel Kant, um pensador
contemporâneo que se ocupou intensamente com as questões que a filosofia deveria
responder: O que eu sei? O que devo fazer? O que devo esperar?
Na última unidade deste material, estudaremos a parte da lógica mais aguda,
do ponto de vista simbólico, nela, serão apresentados os aspectos norteadores do
conjunto e álgebra Booleana e, mesmo numa pretensão primária e introdutória,
percebemos como essa fase da lógica é exigente naquilo que se afirma como função
da linguagem. Serão objetos de análise os operadores binários e as propriedades da
álgebra.

Lógica
Acompanhe a seguir o cronograma do componente curricular:
Carga horária Unidade
15 h Unidade 1. Introdução à Lógica, Conceitos e História da Lógica
10 h Unidade 2. Objeto, Divisão e Princípios da Lógica
5h Unidade 3. Analítica Formal do Juízo e do Raciocínio
15 h Unidade 4. Conjunto e Álgebra Booleana

Esperamos que o conjunto de análises sobre a lógica a ser apresentado neste


texto proporcione a você, estudante, a clareza sobre os diversos usos da linguagem.
E que o uso da lógica seja também indispensável para a vossa formação acadêmica,
bem como contribua para a produção de conhecimentos válidos, coerentes e legítimos.

Bom estudo!
Luciano Jaeger

8 Lógica
Unidade 1
Introdução à Lógica, Conceitos e História da Lógica

Objetivo:
• Introduzir o estudante ao estudo propedêutico da lógica a partir de definições
e conceitos, considerando as diferentes fases da história da humanidade;
• Apresentar ao estudante um panorama da linguagem e sua relação com a lógica.

Conteúdo programático:
• Definições de lógica;
• A lógica e a sua relação com os contextos históricos clássico, moderno e
contemporâneo;
• Linguagem sintática, semântica e pragmática.
Faça aqui seu planejamento de estudos

10 Lógica
INTRODUÇÃO

O estudo sobre a lógica inicia com a época denominada gênese da civilização


ocidental, na qual objetivou-se estabelecer uma nova concepção de apreensão do
conhecimento e do mundo, que procurou se diferenciar dos métodos e saberes místicos
a que vinham se apegando as civilizações anteriores. Esse fenômeno que se inaugura
aproximadamente cinco séculos antes do nascimento de Cristo demarca o contexto
denominado clássico e ali está aquilo que denominamos a gênese, o começo, o berço
do pensamento e conhecimentos ocidentais.
Neste início de pensamento ocidental identificamos um conjunto de postulados
atribuídos, em especial, ao exercício que os filósofos realizavam. Isso evidencia que
era função da filosofia promover o conhecimento daquilo que se apresentava na
dimensão mundana, denominado de “cosmos”, através de métodos e teorias que
se distanciassem daqueles praticados pela tradição mitológica. Ora, nesse sentido,
a mitologia não era desprovida de uma forma, modo ou método de apreensão e
promoção do conhecimento. O que se efetivava era, sobretudo, uma desconfiança
daqueles saberes enquanto verdades. A verdade deveria passar pela rigorosidade
metódica, o que não era vigente até aquele momento, considerando, ainda, que ela
não era considerada causal. Desta forma, a origem de tudo, segundo os filósofos, não
incide naquilo que a narrativa mística propunha, dado que ela não sustentava atenção
especial àquilo que se apresentava para além da natureza, ou seja, não ostentava
uma perspectiva metafísica enquanto possibilidade do conhecimento e jamais se
apresentava tendo como pretensão alcançar a alethéia (verdade) pela causa do ser.
Assim, podemos observar que se os filósofos divergem da tradição mística pela
busca de um caminho alternativo, é necessário dizer que esse caminho somente se
efetiva a partir da atenção para o uso da linguagem. Nesse sentido, percebemos, aos
poucos, que, para validar o conhecimento superior, filosófico e metafísico é necessário
se referir à linguagem com muito mais atenção do que aquela utilizada pela tradição
mística. Como se supõe, é a linguagem o principal instrumento para que se exercite
o saber filosófico e através dela é que se alcança aquilo que passaremos a denominar
ciência.
Alguns pensadores da denominada modernidade afirmam que o homem se
constitui através da linguagem, a saber, aquilo que infere a linguagem, manifesta-se
enquanto humano. Um dos autores é Ludwig Joseph Johann Wittgenstein (1889-
1951), que desconsidera as teorias tradicionais na afiguração linguagem e mundo
e especula o conceito de “jogo de linguagem” ou os modos de vida a partir de um
conjunto de regras que se distanciam do positivismo lógico. Para ele, o significado de
algo não está apenas no objeto, numa coisa, mas, sim, naquilo que o circunscreve.
Assim, o que interessa saber ao se ouvir ou ter algo é o que o falante ou ouvinte faz
com essa expressão.
A lógica ocupa um lugar nobre nesse espaço inaugural de pensamento ocidental
e de conotação científica, pois é ponto nodal para que se efetivem consistentemente
os novos caminhos do saber, em especial aqueles que se apresentam como ciência. É

Lógica 11
ela, como veremos a seguir em seus atributos de objeto, definição e divisão, que eleva
as explicações primárias acerca do mundo, bem como do conhecimento causal do
mesmo. Evidentemente, a lógica não consegue almejar tais resultados enquanto um
exercício racional independente, visto que a complexidade da natureza científica ou da
relação linguagem e mundo é demasiadamente presente. Contudo, é possível assegurar
que o estudo da lógica proporciona o raciocínio correto, ou seja, as pessoas que se
exercitam através do uso lógico têm alta probabilidade de raciocinar corretamente.
Desse modo, toda vez que alguém utiliza-se da lógica, o propósito central é
alcançar resultados seguros acerca de algo, em que não pode prevalecer espaço à
contingência, à subjetividade efêmera e ao erro. Assim, a lógica tem a função primária
de distinguir o raciocínio correto do incorreto e, para tal, ela propõe métodos e
princípios que devem auxiliar para que este êxito seja alcançado por todos aqueles
que se propõe elevar a sua condição de sabedoria.
Se a função primária da lógica é distinguir os raciocínios corretos dos incorretos,
vale lembrar que cada período histórico se apresentou, na civilização, enquanto
idealizador. Deste modo, a tradição clássica, por exemplo, postulava um uso de
racionalidade capaz de tornar o conhecimento sistematizado, isto é, a ciência, a filosofia
e a metafísica se efetivam através da lógica. A lógica deverá ser o agente móbil não
tão somente de sistematização do pensamento, mas, também, de promoção dos ideais
da cultura clássica. Esses ideais têm por remetimento, por exemplo, a formação de
um homem educado, político, racional e, sobretudo, reflexivo.
No período clássico, esse embate sobre o modo correto de pensar implicou
no desdobramento de inúmeras controvérsias que podem ser acompanhadas,
facilmente, através da leitura dos diferentes autores daquele contexto. A ruptura, por
exemplo, inaugurada pelos pré-socráticos aos poetas e místicos demarcou apenas
um começo. Um começo de inúmeras variabilidades teóricas que se apresentam, às
vezes, originárias, outras, complementares, percebidas desde a maiêutica socrática,
um método que se propõe elevar o conhecimento através de um conjunto de boas
perguntas ao interlocutor, até à lógica formal aristotélica.
Desse modo, a lógica tem íntima relação com o desenvolvimento do pensamento
e cultura humana. Essa relação se aproxima de tal forma que poderemos diferenciar
os diversos contextos históricos a partir das diversas formas de usos de linguagens
e isto implica, por extensão, em admitir que os tempos históricos obedecessem,
relativamente, às variáveis lógico-linguísticas. Em outras palavras, mudamos o cenário
histórico da civilização na medida em que os limites se apresentam à racionalidade,
à cultura, à ideologia, à religião, à economia e também à linguagem.
Se, por um lado, ao lógico só interessa a correção do processo do pensamento,
de outro, há de se admitir que este processo seja alterado também pela exigência lógica.
Ela se presentifica e é perceptível quando analisamos, por exemplo, as características
de um determinado período histórico. O contexto medieval, por exemplo, teve um
importante momento acerca de uso da linguagem onde o raciocínio depende do apelo
à autoridade e à tradição consagrada. Naquele contexto histórico, inexiste a condição
plena do exercício do raciocínio crítico e o campo da lógica estava vinculado no
conjunto do saber, conhecida como dialética. A dialética era estudada nas Faculdades

12 Lógica
das Artes que tinha enquanto programa o denominado Trivium (gramática, retórica e
arte). A dialética tinha como função preparar o acesso para as faculdades denominadas
superiores, em que se ensinavam as doutrinas medievais. Desta forma, qual é, então,
a função da lógica?
Primeiro, é importante lembrar que este contexto de mais de mil anos
apresentou pelo menos, dois momentos distintos, a saber, a patrística e a escolástica.
Em cada um deles houve um remetimento mais específico da linguagem. Entretanto,
tanto na fase de medievalização dos clássicos quanto na fase doutrinária, a função da
lógica no contexto medieval sempre foi de assegurar a verdade contida nas Sagradas
Escrituras, sendo, deste modo, promovedora de ensino escolástico. Um ensino em que
se procura demonstrar a verdade teológica para efeitos de admoestação e persuasão
aos discípulos.
Nesse sentido, diz Blanché (1996, p.136-37),

‘É incontestável que a grande questão intelectual do tempo é a renovação


do ensino da teologia pelo emprego da dialéctica; é a volta deste problema
que têm lugar todas as discussões e todos os conflitos’. A Lógica é então
considerada menos como uma ciência especulativa que como um arsenal que
contém os meios para argumentar.

Uma última consideração para esse início de diálogo: diversas ciências se


apresentaram enquanto objeto de estudo as leis do pensamento. Isto quer dizer
que não apenas a lógica se ocupa com a dimensão das regras, normas ou leis do
pensamento ou o que quer dizer o mesmo, o raciocínio. A psicologia, a matemática,
a física e a filosofia são também ciências que se utilizam ideais que visam contemplar,
resignificar e quantificar aquilo que se mensura enquanto raciocínio.
Todas estas demais áreas são muito relevantes para a compreensão do ser
humano, bem como à elaboração da ciência e da estrutura fenomênica. Naturalmente,
cada uma dessas ciências possui seus métodos apropriados para a elaboração do
conhecimento e também cada uma delas compõe a sua interface com aquilo que
denominamos civilização. Ao que tudo indica, estamos numa época de inovações, de
transformações temporais e existenciais que afetam diretamente o campo do raciocínio
humano. Vivemos, sobretudo, numa época de paradoxos agudos em que, a qualquer
instante, sem logicidade mínima, alguém é capaz de dar um beijo numa pessoa e,
segundos após, um tiro. A época da ausência de sentidos e de distanciamento ao que
se apresenta enquanto lógico, parece ser o cenário predominante.
A lógica, entretanto, não se assemelha aquilo que é da natureza psicológica,
física ou matemática dado que é uma ciência distinta e do estudo de qualquer processo
mental. É uma ciência rigorosa que surge na sua expressão primeira com Aristóteles
(IV a.C.) e que tem, como já observado, as suas raízes na linguagem, quer do ponto
de vista de sua forma rigorosa, quer no campo do pensamento e da verdade. Se
ela eficazmente conduz à dimensão de fomentar a distinção do raciocínio correto
do incorreto, de fato, apresenta-se, ao que tudo indica, de modo atravessado na
contemporaneidade. Mas isso já é outra história! Vejamos, então, quais foram os
postulados da lógica em seus conceitos e aspectos históricos.

Lógica 13
1 CONCEITOS DE LÓGICA

Um primeiro ponto a ser sublinhado é de que não existe consenso entre os


especialistas em lógica enquanto uma definição. Para alguns, ela deve estudar as
inferências que se realizam na linguagem, em especial no argumento, e verificar se
estes processos são ou não válidos para alcançar a verdade. Já outros autores afirmam
que ela é uma ciência das leis do pensamento, desde que seja uma ciência muito
rigorosa e analítica. Essa pluralidade de definições ocorre naturalmente, dado que já
percebemos que a linguagem é demasiadamente complexa. Contudo, alguns autores
nos advertem da diversidade de estudos que são abrangidos pela lógica.
O primeiro entendimento que devemos levar em consideração é de que não
podemos entender a lógica no mesmo plano de definições do senso comum. Isso, aliás,
já ocorre com outros termos que são definidos com quaisquer significados, como por
exemplo, filosofia. A filosofia se tornou, às vezes, vulgar por causa do remetimento
dado, que não assegurou a ela o seu significado apropriado. Filosofia é “viajar” no
pensamento rumo “ao mundo da lua”! Ou ainda: a filosofia é só para loucos! E ainda
aquela mais decisiva: “filosofia é muito complicado!” Tudo se disse, menos que ela é
uma forma de saber (sofia) enquanto amizade, paixão (filo). Filosofia é uma paixão
pelo saber criterioso e reflexivo, é algo simples, sem se reduzir ao simples. A lógica,
metaforicamente, assume uma mesma dimensão de significado.

Reflita

Não raras vezes, ouvimos alguém dizer: “tudo é lógico!” “Logicamente que
o nosso time será campeão catarinense”, quando, em verdade, se quis dizer:
“é provável, é possível que...”. Então, um primeiro aspecto: não se pode
confundir e reduzir a lógica com aquilo que é óbvio. O óbvio nem
sempre é lógico!

Então, no que consiste lógica? Vejamos alguns conceitos:


Diz Irving Copi (1978, p. 21), “ao lógico só interessa a correção do processo, uma
vez completado. Sua interrogação é sempre esta: a conclusão a que se chegou deriva
das premissas usadas ou pressupostas?” Nessa definição, identificamos claramente
a perspectiva da lógica formal que se realiza a partir da elaboração lógica de um
argumento. Um argumento deve, necessariamente, ser constituído de duas partes, a
saber, premissa e conclusão. Aquilo que se apresenta enquanto justificado na conclusão
deve derivar corretamente daquilo que se apresenta enquanto justificativa, contida
nas premissas, afirmações ou teses. Adequar corretamente um argumento deve ser
interesse da lógica e essa atividade valida o bom uso do raciocínio. Por isso, quando
inferimos enquanto justificativas:

14 Lógica
Todos os homens são mortais e
José é homem

Concluímos, corretamente, que José é mortal. No exemplo, observamos algo


básico que consiste em verificar se aquilo que se infere na premissa, no caso duas
premissas, é suficiente para essa conclusão. Parece ser simples essa atividade, porém,
nem sempre ela ocorre dessa forma considerada padrão. Costumeiramente, a nossa
linguagem constitui-se de diversas proposições e nem todas elas assumem função
lógica, dado que estão ali contidas apenas para ilustrar o plano explicativo ou narrativo.
Imagine um texto escrito num jornal, uma crônica ou o edital do dia. Pode ser
que o conjunto de proposições formule uma análise interessante sobre um determinado
assunto e que o cronista, em sua análise, tenha escrito sobre um tema muito relevante
e adequado. Entretanto, se não identificarmos as duas estruturas básicas para a
elaboração de um argumento, a saber, a premissa e a conclusão, temos que dizer que ali
há uma boa análise, interpretação e coerência, mas não há argumento. Ou seja, apenas
existe um conjunto de proposições que não formulam sequer argumento, assim como
uma única frase também não produz argumento. Verificamos essa condição também
em intermináveis pronunciamentos, em que as pessoas se empolgam ao dizer algo
e depois de muito tempo de elaboração proposicional ignoram concluir ou justificar
algo. O lógico irá dizer: bonito, mas não formula argumento. Com isso, podemos
observar que nem sempre a identificação de um argumento e a sua elaboração lógica
são simples, pois, na linguagem ordinária, temos costumeiramente um conjunto muito
complexo de proposições e compete ao lógico realizar esse exercício de “dissecar” a
linguagem, o que é o mesmo realizar a analítica da linguagem.

Saiba mais

É possível que você encontre esses temas e acompanhe as principais análises


de modo cativante em duas fontes sugestivas: num livro denominado
“Convite à Filosofia”, da professora Marilena Chauí, editado pela Ática,
ano 2000. Neste livro há, na Unidade 5, interessantes explicações sobre os
elementos da lógica e conceitos básicos do argumento lógico. Interessante é
acompanhar o tema que se apresenta na Unidade 4, item “A linguagem”, e
realizar uma análise das duas unidades. Já a segunda fonte pertence à revista
Crítica, uma revista de filosofia que apresenta conceitos básicos de lógica no
endereço: <http://criticanarede.com/fil_conceitosbasicos.html>.

Lógica 15
Assim, dizer para alguém “te amo” pode ser algo importante, intenso, subjetivo
e relevante, mas, sob o olhar lógico, com o risco, provável, de sofrer represálias,
diríamos: isso não é argumento, dado que não conduz premissa e conclusão. Afirmar,
desse modo, “eu sou inteligente”, “Maria é uma pessoa honesta”, enquanto uma
mera proposição, não formula argumento. Logo, percebemos por esse conceito que
o ponto nodal se concentra na dimensão formal do argumento, ou seja, é relevante
o processo de se chegar a alguma prova a partir dos enunciados. A isso se denomina
inferência. Inferir algo, na lógica, somente é possível na medida em que se articulam
necessariamente as duas estruturas básicas de um argumento: premissa e conclusão.
Através dessa análise podemos observar que a lógica mantém em seu significado
etimológico o estudo da palavra, proposição, oração. O modo como são utilizadas
essas palavras, a inferência que se realiza entre as proposições e os juízos de valores
atribuídos às proposições são aspectos que caracterizam o plano de consistência da
lógica.
Outra definição de lógica remete ao significado simbólico, ou seja, a lógica
se apresenta agora sob a perspectiva de signos. Essa característica da lógica é
completamente distinta daquela utilizada pela fase inaugural e clássica, na qual o que
interessava eram as inferências proposicionais. A lógica simbólica é utilizada enquanto
ícone matemático e foi criada entre o fim do século XIX e início do século XX por G.
Frege e B. Russel. Nessa perspectiva de cálculo proposicional, ao invés de remeter-se
aos conjuntos de enunciados proposicionais, há origem de uma lógica mais rigorosa
e formalizada através de símbolos que lhe conferem valores de verdade.

Exemplo

O exemplo a seguir ilustra a nossa análise.


Se Paulo for artista, então ele é criativo.

Simbolizamos:
→ como termo condicionante
P como o antecedente: Paulo é artista
Q como o consequente: ele é criativo
Temos, então, a expressão simbólica:
P→Q
Onde se lê: “se p, então q”. Se quiséssemos constituir argumento, então, construímos
a figura:
P→Q
P
Q

Essa figura simbólica expressa:


Se Paulo é artista, então ele é criativo
Paulo é artista
Ele é criativo

16 Lógica
A lógica simbólica tinha como objetivo constituir a matemática como disciplina
fundamental de todas as demais matemáticas e ainda desenvolver métodos de
formação rigorosa e de controle lógico das disciplinas matemáticas propriamente
ditas. Este projeto da lógica simbólica possui desdobramentos que são possíveis de
serem verificados até os dias de hoje em diversas áreas do conhecimento simbólico.

2 VISÃO HISTÓRICA DA LÓGICA

A história da lógica pode ser contada a partir das etapas evolutivas da civilização
que se traduzem na civilização ocidental em aproxidamente 2500 anos. Em nossa
história da civilização ocidental é comum nos referirmos a fases, etapas ou contextos
históricos que demarcam os diferentes modos de se perceber e compreender o mundo,
ou ainda, do homem estabelecer uma forma de compreensão da realidade que se
apresenta enquanto fenomênica.
Certamente as etapas que são tradicionalmente utilizadas enquanto referências
da civilização não são consensuais. É o caso da classificação da história da lógica.
Existem grupos que divergem dessas fases, outros que convergem ao entendimento
comum, há, ainda, aqueles que desconsideram qualquer etapa enquanto singular,
própria, porque são todas, dizem os dialéticos, complementares umas das outras.
No entanto, as fases da história da civilização ocidental se apresentam,
costumeiramente, a partir das seguintes estruturas:
a. Fase Clássica, denominada de período grego: ela contempla aproximadamente o
período de 700 anos a.C. até 300 a.C.
b. Fase Greco-Romana: contempla aproximadamente o período de 300 a.C. até 300 d.C.
c. Fase Medieval: para alguns têm o tempo de 1.500 anos, mas a maioria dos
comentadores declara que o período medieval propriamente existiu entre o período
patrístico (iniciado com Santo Agostinho, século III) e o escolástico (tem como
expoente Tomás de Aquino, século XVIII).
d. Fase Moderna: período que tem o renascimento primário no século XIV com
os primeiros hereges, como Guilherme de Ockham e Tomas Morus, mas que se
configura, especialmente, a partir do século XV e perdura até metade do XIX.
e. Fase Contemporânea e também denominada por vários outros nomes como
era hiper-industrial, era pós-moderna, do cyberespaço e também da revolução
informacional.

Lógica 17
Saiba mais

Para saber mais sobre a denominada fase contemporânea da história


ocidental, você pode ler Bernard Stiegler, em seu texto
“Reflexões (não) contemporâneas”.

Neste momento, caro estudante, o que nos importa saber é que a lógica teve a
sua dimensão histórica pautada justamente por essas etapas da civilização. É possível,
assim, dizer que a lógica, em sua dimensão histórica, teve variabilidades enquanto uso
e função. A lógica clássica não é a mesma que a moderna que, por sua vez, não é a
mesma que a contemporânea. Deste modo, nessas diversas fases, sempre se postulou
elaborar conhecimentos científicos, a verdade, a política, a ética, o bem-estar, entre
tantos outros ideais da civilização. E a lógica se apresentou como suporte para essa
condição.
Um ponto importante a salientar: mesmo em suas variabilidades históricas,
algo sempre perdurou à lógica: o estudo das formas, dos modos de linguagens.
Isso quer dizer que, ao estudo lógico, o que é pertinente sempre são os aspectos
modais da linguagem.
Entretanto, como vimos anteriormente, a história da lógica não segue
exatamente essas variáveis apresentadas. Ela é dividida em três fases, a saber, período
clássico, moderno e contemporâneo. A seguir veremos uma esquematização das
etapas históricas da lógica.

2.1 Período Clássico (século IV a.C. até ao século XIX)

Nesta fase predomina o estudo da lógica formulado por Aristóteles no século


IV a.C. O autor de Estagira, sua cidade natal, procurou eliminar em especial dois tipos
de inimigos da linguagem, os sofistas e os dialéticos. Esses dois inimigos conduziam
a linguagem e, por sua vez, o conhecimento, ao erro, ao engano e à falsidade. Os
sofistas, exímios retóricos e eloquentes oradores, não poderiam chegar ao nível da
sabedoria verdadeira, uma vez que sua capacidade argumentativa se pautava pela
aparência das coisas. Os sofistas são oradores que convencem a multidão de que
conhecem a verdade, mas, de fato, utilizam apenas técnicas de retóricas desprovidas
da essencialidade das coisas. Para Aristóteles, a lógica, através de seu rigor formal,
irá inibir o pseudoconhecimento científico e se tornar uma ciência autônoma que
se dedica aos conceitos, juízos, raciocínios e demonstração do pensamento, sem ter
em conta qualquer conteúdo material. É por essa razão que a lógica aristotélica se
designa também por lógica formal.
Já na outra direção, ao complementar o seu mestre Platão, Aristóteles procura
eliminar as contingências que o filósofo de Abdera sustentava filosoficamente.

18 Lógica
Aristóteles não se conforma, em especial, com as inconclusões dos argumentos e
da imprecisão de seu mestre, bem como não admitia o exercício de proposições
contraditórias. Por isso, como veremos a seguir, na analítica formal do juízo, Aristóteles
elabora os quatro modos para estruturar as proposições e auxiliar na elaboração de
um argumento lógico. Os modos das proposições categóricas são constituídos a partir
das letras e respectivos enunciados:
A- Universal Afirmativo
E- Universal Negativo
I- Particular Afirmativo
O- Particular Negativo

Exemplos de proposição e seus modos:


A- Todo homem é mortal
E- Todo homem não é mortal
I- Algum homem é mortal
O- Algum homem não é mortal

O que o autor de Estagira possuía em mente era a ideia de que a linguagem
deveria obter mais rigor em sua inferência, uma analítica muito distinta daquilo que
se realizava pela atividade dos sofistas e dos dialéticos. Esse rigor é realizado através
da aplicabilidade de regras e normas que conduzem à distinção dos argumentos
válidos dos inválidos, dos legítimos dos ilegítimos e à condução da verdade e
falsidade das proposições. O argumento silogístico, por exemplo, é estruturado a
partir da observação ao uso de, aproximadamente, 13 regras que explicitam quando
o argumento é lógico ou não. No silogismo categórico identificamos a pretensão de
se alcançar precisamente uma correta argumentação através de atenção do uso dos
termos, das palavras e do contexto e significado dessas palavras. Nesse sentido, um
termo médio não pode, por exemplo, assumir duplo significado entre as premissas,
dado que irá concluir algo confuso e ambíguo. Vejamos:
Todo frango é uma ave
Paulo levou um frango
Paulo é uma ave

A conclusão “Paulo é uma ave” deriva corretamente das duas premissas


afirmadas. Entretanto, ela formula um argumento ilógico não porque é falsa, mas
pelo fato de o termo médio ave, nas premissas, possuir duplo significado. Assim, a
figura:
Todo A é B
Algum B é C
Algum A é C

Lógica 19
Pode formular argumento lógico e válido, desde que atenda adequadamente
ao uso de todas as 13 regras do argumento silogístico. Não compete aqui realizar
um exame rigoroso do silogismo, uma vez que veremos isso um pouco mais adiante
na passagem sobre os princípios da lógica. É relevante, contudo, assimilar a ideia,
que este é o modo de linguagem que utilizamos com relativa frequência em nosso
cotidiano e que, por isso, é necessário ter atenção no uso.
Uma explicação que requer um cuidado na análise e que costumeiramente
confundimos no nosso cotidiano é referente ao remetimento ao argumento e a uma
proposição. Muitas pessoas dizem ao ouvir uma fala: “que argumento bonito!” “Nossa
como aquela pessoa elabora um verdadeiro argumento!” Ainda: “nossa, mas que
frase lógica!” Ou “que proposição válida!”
Embora esses usos possam ser compreendidos e ter significado, diríamos
na lógica que esse procedimento está incorreto. Existem algumas falhas que
necessariamente devem ser corrigidas.
Então, no que consiste um argumento? O que é uma proposição?
Um argumento jamais poderá ser chamado de verdadeiro ou falso. Os
valores de verdade e falsidade somente pertencem às proposições declarativas. As
proposições declarativas são aquelas que podemos atribuir um juízo valorativo de
verdade ou falsidade através da racionalidade, ou seja, apenas interessam à lógica
as proposições denominadas de natureza científica. A rigor, as demais proposições
contingentes são analisadas e distintas das declarativas. Assim, exclusivamente as
proposições declarativas interessam ao lógico e não as contingentes. As contingentes
são proposições que dependem de contextos e são distanciadas de uma analítica de
juízo valorativo declarativo, como por exemplo: “Deus é pai!” Essa proposição não
pode ser considerada declarativa, dado que seu significado expresso é impossível de
ser comprovado enquanto reconhecimento da racionalidade.
A rigor, na lógica, não são todas as sentenças que expressam proposições. As
sentenças declarativas, interrogativas e contraditórias são impossibilitadas de serem
reconhecidas enquanto declarativas. A sentença “hoje estou apaixonado!” ou a
pergunta “que horas são?” expressam algo, exceto a condição de serem verdadeiras
ou falsas. No caso, “José é brasileiro e José não é brasileiro”, eis uma proposição
contraditória, também impossível de ser plenamente verdadeira, dado que ela pode
ser considerada verdadeira apenas enquanto circunstancial, ou seja, contingentemente.
Há circunstâncias em que ela será verdadeira e outras falsa.
Um argumento, por sua vez, nunca poderá ser chamado de verdadeiro ou falso.
Ao argumento compete denominá-lo como válido ou inválido, legítimo ou ilegítimo,
lógico ou ilógico. Um argumento, como sabemos, é aquilo que se expressa enquanto
conjunto de proposições declarativas. Esse conjunto de proposições enquanto processo
chamamos de inferência e esta analítica é o que interessa ao lógico. Isso quer dizer
que iremos validar o argumento à medida que estudarmos o conjunto das proposições
em seus significados. E já sabemos que um argumento não se expressa através de
apenas uma proposição e nem por um conjunto qualquer de proposições.
Somente há argumento se, e unicamente se, houver as duas estruturas básicas
que são as premissas e conclusão. Um argumento pode ser simples, uma premissa

20 Lógica
e uma conclusão, ou complexo, com várias premissas e uma ou mais conclusões.
Vejamos, a seguir, alguns exemplos de argumentos simples e complexos. O que
distingue um argumento simples de um complexo é apenas o número de conclusões
que cada um conduz. Vejamos, a seguir, o seguinte exemplo:
(01) Todos os que nascem em Tóquio são japoneses e quem nasce no Japão é japonês.
Xuy nasceu em Tóquio. Logo, Xuy é japonês.
(02) Contudo, Xuy é filho de um diplomata estrangeiro e todos os filhos de diplomatas
têm a nacionalidade do país de origem de seus pais. Logo, Xuy não é japonês.

Observamos que no trecho (01) há um argumento simples, com uma conclusão


e duas premissas. Já na passagem para (02) percebemos que o argumento tornou-se
complexo, pois, somando- se ao (01) teremos:

Todos os que nascem em Tóquio são japoneses e quem nasce no Japão é japonês
Xuy nasceu em Tóquio
Xuy é japonês.
Xuy é filho de um diplomata estrangeiro.
Todos os filhos de diplomatas têm a nacionalidade do país de origem de seus pais.
Logo, Xuy não é japonês.

Fácil de verificar no trecho que tivemos a terceira proposição “Xuy é japonês”


com dupla função, funcionando inicialmente como conclusão do primeiro argumento
simples e depois como premissa do outro trecho proposicional. Essa mudança não tão
somente modificou a verdade da conclusão como também observamos nesse trecho
as duas conclusões, o que caracteriza a existência do argumento complexo.
Enfim, pelo anteriormente exposto verificamos que esta é a primeira fase da
lógica considerada pela maioria dos estudiosos como aquela que mantiver como
referência para as demais. Nela predomina o estudo dos raciocínios dedutivos que
são caracterizados em conduzir à verdade da conclusão com um grau de certeza
absoluto, dadas as premissas verdadeiras. O caminho do geral para o particular é o
que deve conduzir o lógico, o bom raciocínio, bem como a perspectiva da ciência.
Isso quer dizer que o principal instrumento do conhecimento científico se pautava
pela dedução lógica.
Outra característica dominante nesta fase da lógica é o remetimento de
princípios, segundo os quais norteavam não apenas a linguagem, mas também a
própria ciência. Assim, os princípios que são utilizados nesta fase eram considerados
verdadeiros, visto que se identificam com a própria função da ciência, a saber, ser
verdadeira. A fase histórica da lógica aristotélica, também utilizada na época medieval,
conduz uma noção metafísica, ou seja, que ultrapassa e está além da física (physis).
Na época clássica esses princípios são encontrados inicialmente na própria natureza
fenomênica para, num segundo momento, transitar para a condição do logos humano.
Já na fase medieval esse princípio é atribuído ao ente divino, capaz de conduzir não

Lógica 21
tão somente à causa de tudo, mas também, aquilo que é verdadeiro. Ora, o que é
verdadeiro é alcançado através de um conjunto de princípios dedutivos que explica
tudo o que existe. Mesmo percebendo diversas variabilidades do uso dedutivo
entre esses períodos é perceptível notar que compete à lógica definir essas leis do
pensamento para se alcançar a alétheia, ou seja, a verdade e a causa de tudo.

2.2 Período moderno (século XIX e começo do século XX)

Esta fase é considerada de uma primeira “viragem” da lógica, pois, nela, há


duas disciplinas consideradas especiais: o cálculo proposicional, segundo as operações
principais de negação, disjunção ou afirmação alternativa, conjunção ou afirmação
simultânea, implicação material e o cálculo das funções proposicionais.
Os autores centrais desta fase são George Boole (1815-1864), Frege (1848-
1925) e Bertrand Russell (1872-1970), que têm em comum a afirmação de que a lógica
matemática tinha por objetivo constituir a disciplina matemática fundamental, de
modo a assegurar que todas as demais matemáticas seriam extensões, ramificações
da própria lógica simbólica. Ainda: esta lógica deveria ser rigorosa a tal ponto de ter
o controle lógico das disciplinas matemáticas.
Visualizaremos parte do cálculo de predicados de primeira ordem de Frege,
sobre o alfabeto:

O alfabeto de 1ª ordem, ∑, tem a seguinte constituição:


∑ = X ∪ ∑C ∪ ∑F ∪ ∑R ∪ ∑F ∪ ∑L ∪ ∑P onde:

1. X = {x, y, z, x1, x2,..., y1, y2,..., z1, z2,...} é um conjunto enumerável de variáveis;
2. ∑C = {a, b, c, a1, a2,..., b1, b2,..., c1, c2,...} é um conjunto de símbolos chamados de
constantes;
3. ∑F = {F1, F2,...} é um conjunto de símbolos ditos sinais funcionais;
4. ∑R = {R1, R2,...} é um conjunto de símbolos ditos sinais relacionais ou predicativos;
5. ∑L = {¬, ∧, ∨, →, ↔, ∀, ∃ } é o conjunto de símbolos ditos sinais lógicos;
6. ∑P = {(,),,} é o conjunto de símbolos de pontuação.

As constantes, sinais funcionais e sinais predicativos constituem a coleção de


sinais ditos símbolos não-lógicos.

2.3 Período contemporâneo (séculos XX e XXI)

Nesta recente fase, a lógica assume um período de diversificação e expansão


da lógica simbólica. Como se poderia prever, a metamatemática assume o interesse
lógico, a saber, a lógica se efetiva e dá cisão a uma série de disciplinas cada vez mais
formalizadas e matematizadas.

22 Lógica
Entre os campos vigentes encontramos a lógica combinatória, uma notação
introduzida por Moisés Schönfinkel (1889-1942) e Haskell Curry (1900-1982) para
eliminar a necessidade de variáveis em lógica matemática. Essa lógica vem sendo mais
usada recentemente na Ciência da Computação como um modelo de computação e
como base para o desenvolvimento de linguagens de programação funcionais. Ela é
baseada em combinadores, funções de ordem superior somente usam aplicações de
funções e outros combinadores para definir um resultado a partir de seus parâmetros.
Outro segmento da lógica contemporânea denomina-se modal, a lógica modal
se refere a qualquer sistema de lógica formal que procure lidar com modalidades
(tratar de modos quanto a tempo, possibilidade, probabilidade etc.). Tradicionalmente,
as modalidades mais comuns são possibilidade e necessidade. Lógicas para lidar
com outros termos relacionados, como probabilidade, eventualidade, padronização,
poder, são, por extensão, também chamadas de lógicas modais, já que elas podem
ser tratadas de maneira similar.
Uma lógica modal formal representa modalidades usando operadores modais.
Por exemplo, “Era possível o assassinato de Arnaldo” e “Arnaldo foi possivelmente
assassinado” são exemplos que contêm a noção de possibilidade. Formalmente, essa
noção é tratada como o operador modal Possível, aplicado à sentença “Arnaldo foi
assassinado”. Normalmente os operadores modais básicos unários são escritos como
 (ou L) para Necessário e ◊ (ou M) para Possível. Nas lógicas modais clássicas, cada
um pode ser expresso em função do outro e da negação:
◊A ≡ ¬  ¬ A
A≡¬◊¬A

Enfim, a lógica matemática da contemporaneidade é encontrada em vários


campos emergentes como na cibernética, informática, neurofisiologia, linguística,
inteligência artificial. Ocupam, desta forma, os considerados campos mais
expressivos e relevantes daquilo que denominamos de revolução informacional da
contemporaneidade.

3 A LINGUAGEM SINTÁTICA, SEMÂNTICA E PRAGMÁTICA

Uma importante mudança que ocorreu recentemente na linguagem e que


interferiu na noção lógica se refere à perspectiva de seu uso sintático, semântico e
pragmático. Esse é um tema que se expressa intensamente na contemporaneidade,
dado que ressignifica a linguagem para novos horizontes de uso.
Assim, em nossa análise observamos que hoje existem estruturas significativas
do funcionamento da linguagem através do uso de signos. Nesse sentido, serão
abordados três componentes normativos específicos que fundamentam e definem
o uso de signos na linguagem, a saber, o sintático, o semântico e o pragmático. A
fim de viabilizar e fomentar a compreensão desse tema será abordado no texto, num

Lógica 23
primeiro momento, o processo da linguagem e a semiótica. Num segundo, a teoria
dos signos e, finalmente, os três campos da semiose.

3.1 A linguagem e a semiótica

Verifica-se que a linguagem é desenvolvida pelo ser humano através do uso


de signos e, além de muitas outras dimensões, é esta uma das condições que o torna
distinto dos demais seres animais em geral. É conveniente, desde já, definir aqui a
linguagem como um conjunto de palavras que se articulam entre si e este conjunto de
palavras é denominado sistema de signos. Esse sistema de signos, ou ainda, conjunto
de signos interligados numa linguagem, é objeto de estudo daquilo que se define por
semiótica.
A semiótica, por um lado, pode ser compreendida como uma linguagem geral
capaz de instrumentalizar as ciências, dado que “oferece uma linguagem geral aplicável
a qualquer linguagem ou signo especial, e por isso mesmo, aplicável à linguagem da
ciência e aos signos específicos que são usados na ciência”. Por outro lado, a semiótica
faz uso de signos especiais, para evidenciar o processo segundo o qual algo funciona
como signo. Estes signos especiais, subordinados à semiótica, são os ramos da sintaxe,
semântica e pragmática e esta subordinação denomina-se semiose. A semiose é, pois,
a articulação mediata que ocorre entre as palavras através das relações dos signos
nas dimensões sintática, semântica e pragmática.

Saiba mais

Verifique o livro “Fundamentos da Teoria dos Signos”,


de Charles W. Moris (1976).

O uso de signos, porém, não é um atributo que pertença exclusivamente


ao homem, visto que os animais em geral podem reagir a determinados estímulos
mediante o uso de signos. Entretanto, tais signos não possuem complexidade e
articulação específica como a existente na estrutura linguística humana.
Para ilustrar a afirmação de que a linguagem, enquanto um conjunto de signos
compõe-se de uma complexidade de usos, observe a seguir o seguinte exemplo: utiliza-
se a palavra “carro”. A palavra “carro” assume pelo menos um duplo significado como
uso e menção. Mas, afinal, quando uma palavra é usada ou mencionada?
Por um lado, usa-se a palavra quando se aplica um nome àquilo que é
apresentado enquanto um objeto, produto ou coisa exterior como, por exemplo,
“carro”. O uso da palavra ou nome “carro” facilita o caminho para que se possa
referir a um objeto e, nesse caso, a palavra “carro” é um nome que serve de referência
para que este objeto (ou produto) assuma uma dimensão de compreensibilidade

24 Lógica
humana. De acordo com isso, usa-se um nome (ou palavra) na medida em que ele se
insere dentro dos princípios da entidade linguística, ou seja, “carro” é uma palavra
que gramaticalmente é um substantivo masculino, possui cinco letras e duas sílabas.
Observa-se, aqui, que, enquanto uso, a palavra “carro” é norteadora para que se possa
referir o objeto (produto, no caso, o “carro”).
Por outro lado, se menciona o objeto referido na medida em que se utiliza um
conjunto de palavras diferentes da restrita denominação gramatical. Neste sentido,
quando algo é mencionado se promove uma alusão, ou seja, uma referência indireta
se comparada ao uso de uma palavra. Deste modo, obtém-se a constatação de que
sempre que uma palavra é mencionada aludindo a algo, considera-se o seu significado
na dimensão não-linguística. A rigor, a menção é um conjunto de predicações (que
envolvem indubitavelmente também o manuseio de nomes, palavras) que são sempre
dadas quando se deseja dizer algo a propósito daquilo a que se está referindo.
Nesse sentido, não podem ocorrer confusões entre o uso (significado da palavra em
sua dimensão gramatical) e a menção (conjunto de nomes que são diferentes, se
comparados ao uso, do objeto que se menciona).
Já no que diz respeito à prática de distinção entre o uso e menção constata-se
que, quando um nome é usado, ele é colocado sempre entre aspas e, ao contrário,
retiramo-las quando ele é mencionado.
A partir dessa constatação, vejamos os seguintes enunciados:
a) O carro tem quatro pneus e é um veículo confortável de locomoção.
b) “Carro” tem cinco letras, duas sílabas e é um substantivo masculino.

Ambos os enunciados estão corretos, entretanto,


c) O “carro” tem quatro pneus e é um veículo confortável de locomoção, é um
enunciado incorreto, visto que confunde o âmbito linguístico com o não-linguístico,
confunde o uso com menção.

3.2 Teoria dos Signos

O estudo acerca dos signos ocorreu, inicialmente, na tradição clássica através


de Aristóteles. Segundo ele, o homem somente conhece algo na medida em que
compreende causalmente um objeto. Essa compreensão é articulada na linguagem
mediante um conceito e o conceito é uma abstração do conhecimento sensitivo
elevado à mente do homem. Verifica-se, assim, que as palavras são utilizadas como
sinais convencionais do pensamento e diz-se que o intérprete do signo é a mente,
sendo o interpretante o pensamento ou o conceito. Deste modo, o signo linguístico
esteve vinculado na tradição clássica a uma teoria particular do pensamento e da
mente, ou seja, o pensamento era tido como extensão das propriedades dos objetos
e a língua expressava essas relações que se efetivavam a nível mental, de pensamento
ou de conceitos.

Lógica 25
Todavia, o estudo dos signos tornou-se muito relevante a partir de Charles
Sardes Peirce (1839-1924), não ignorando a contribuição de G. Frege (1848-1925)
que desenvolveu a lógica na dimensão da semiótica ou na doutrina dos signos. Peirce
diz que um signo, ou representamen, é algo que, sob certo aspecto, de algum modo
representa alguma coisa para alguém, dirige-se a alguém, isto é, cria-se na mente
dessa pessoa um signo equivalente ou talvez um signo melhor desenvolvido. Não cabe
aqui deliberar sobre a tricotomia dos signos Ícone, Indicador e Símbolo, nem as suas
divisões Quali-signo, Sin-signo e Legi-signo. Basta lembrar, conforme afirma G. Reali
(1991, p.683),

Para Peirce todo o pensamento é sinal e participa essencialmente da natureza


da linguagem [...] e um sinal é algo que está para alguém no lugar de alguma
outra coisa sob algum aspecto ou capacidade [...] tal concepção evidencia
plenamente o aspecto pragmático (relação de sinais com o intérprete) de
toda a situação ou ocorrência significativa.

Notamos, assim, que a linguagem, enquanto uso de signos, deixou de ocupar


campos restritos da mente ou pensamento para ser investigada na relação de sinais
com o intérprete. Ou seja, a linguagem é um instrumento que denota veículos do
signo a partir de regras que mantém a relação dos signos com os intérpretes e a isso
se denomina dimensão pragmática da semiose. Ou ainda, mantém a relação dos
signos com os objetos aos quais eles são aplicáveis e a isso se denomina dimensão
semântica da semiose.
E mais: a linguagem assume uma relação dos signos com os outros signos e
a isso chamamos de dimensão sintática da semiose. Em suma, a compreensibilidade
da linguagem entre os sujeitos de uma comunicação requer o uso de regras que se
estrutura de três modos distintos: a sintaxe, semântica e pragmática. Estes modos
dizem respeito, à luz da semiose ao processo daquilo que funciona como um signo,
àquilo a que o signo se refere e às condições do veículo signo sobre os intérpretes.

3.3 Os três campos da Semiose

3.3.1 Sintaxe

Pode-se dizer que a sintaxe é um estudo da relação dos signos com os próprios
signos, isto é, consiste num estudo de análise da associação em que ocorre entre os
termos da linguagem. Assim, uma análise de regras sintáticas diz respeito a um estudo
da composição das palavras. Essa composição das palavras é encontrada usualmente
na dimensão gramatical, ou seja, na estrutura gramatical da língua identifica-se o
estudo dos signos e as relações entre os mesmos.
Verifica-se na estrutura gramatical da língua a existência de duas classes que
são chamadas regras de formação e regras de transformação. As regras de formação
têm a função de agrupar os diversos termos da proposição. Essa ordenação dos termos

26 Lógica
que ocorre mediante o exame de sujeito, predicado, verbo, adjetivo, pronome, pontos,
parênteses etc. chama-se frase. Com isso, as regras de formação objetivam constituir
ordenadamente um conjunto de termos a fim de estruturar uma frase. Já as regras
de transformação dizem respeito ao vínculo possível de uma frase com outras, ou
seja, visam estabelecer o relacionamento possível entre as frases. Pode-se dizer que
as duas classes de regras remetem à análise de como os signos são combinados entre
si na língua e ambas podem ser agrupadas numa única, a saber, a classe das regras
sintáticas.
Nesse sentido, admite-se que a abstração sintática prescreve a necessidade
de referir-se à linguagem como se ela fosse um cálculo matemático, visto que os
significados dos termos mantém uma relação efetivamente exata e precisa com os
demais termos. Identifica-se, por exemplo, esta composição sintática dos termos nos
textos de linguagem científica. Nele, os termos são dinamizados numa composição
formal cuidadosa e ganham significados à medida que se fixam no estudo gramatical
ou técnico da linguagem.
Portanto, a sintaxe está interessada exclusivamente na relação dos signos e
esta relação dos signos implica na observação de regras sintáticas. Ou seja, a sintaxe
implica na análise da relação existente entre os próprios signos da língua mediante
normas que garantem a disposição formal da língua. Esta disposição formal depende
das regras sintáticas que estabelecem as relações entre os signos.

3.3.2 Semântica

A semântica consiste no uso de regras que apresentam a relação entre um


signo e o seu objeto. De outro modo, pode-se dizer que a semântica investiga quais
são as condições em que um signo pode ser aplicado a um objeto. Para caracterizar
essas condições em que um signo pode ser aplicado a um objeto, a semântica recorre
a regras que determinam se o signo designa ou denota algo.
O signo designa algo na medida em que o intérprete explica algo, um objeto,
por exemplo, a partir da presença de signos. A rigor, nesta situação há a necessidade
da presença do signo para explicar a propriedade do objeto. De acordo com isso,
quando se aplica designata nada mais se realiza do que a explicação, dada por um
intérprete, de algo que não existe realmente, ou seja, a explicação pela presença do
signo independe da existência real do objeto, ou ainda, da existência real de uma
dada situação.
O signo denota um objeto ou uma situação no momento em que se refere
a este objeto como realmente existente. Assim, a denotação pressupõe o existir do
objeto e o signo quando aplicado pelo intérprete, portanto, expressa algo real. Deste
modo, um signo pode ter um “designatum”, embora não possua um “denotatum”,
visto que é possível, por exemplo, preparar-se para morar num local maravilhoso,
sendo que este local jamais tenha existido.

Lógica 27
As regras semânticas possuem a dependência das regras sintáticas, na medida
em que dependem do estudo formal da linguagem. Por isso, quando se realiza o
estudo da relação entre os signos e seus objetos, pressupõe-se que a sintaxe esteja,
rigorosamente, desenvolvida, uma vez que não haveria como se referir tanto a signos
quanto a objetos se a sintaxe estivesse desprovida de uma articulação eficiente.
Porém, a semântica se diferencia da sintaxe no momento em que, além de realizar
o estudo das relações entre os signos, investiga a projeção e a relação ao mundo
exterior. Se, todavia, formula-se este princípio de vinculação ao mundo exterior como
verdadeiro, então se deve consentir que essas regras informem a respeito de algo
que não as próprias palavras (signos) e, desse modo, a semântica é erigida no plano
extralinguístico, uma vez que ela não é utilizada meramente no plano da estrutura
gramatical da língua.
De acordo com isso, parece oportuno admitir que as regras semânticas sejam
aplicadas no momento em que se procura informar alguma circunstância que
contenha, no enunciado, designação (vinculação) ao mundo exterior. Obviamente,
para elaborar esse enunciado ocupam-se certos termos (signo) linguísticos e esses
informam a respeito de algo extralinguístico. Observe o seguinte exemplo:
“Esta loja só fecha aos domingos.”
Esse enunciado informa algo, a saber, que uma determinada loja fica aberta
todos os dias da semana, exceto aos domingos. Os signos (palavras) utilizados no
enunciado expressam uma informação a respeito de algo, este algo evoca a existência
de uma realidade exterior àquela que incide, unicamente, na linguagem estritamente
sintática.
Por conseguinte, as palavras no uso semântico não se restringem a uma
abordagem sintática, gramatical ou de conotação formal técnica, mas, sim, presta-se
para designar algo que incorpore uma informação acerca do mundo exterior. O termo
“Aristóteles”, por exemplo, designa a existência passada de um sujeito (filósofo que
nasceu em Estagira, em 384 a.C.) inserido na história da filosofia grega. Jamais, no
caso, pode-se denotar o termo “Aristóteles”, visto que o signo realmente não existe,
porém, semanticamente aplica-se esse signo à condição de designata, dado que é
possível explicá-lo através das propriedades (características mediatas) conduzidas
pelos signos. Deste modo, o termo “Aristóteles” semanticamente não se limita, por
exemplo, a confirmá-lo sintaticamente como um termo singular, um nome próprio
masculino.

3.3.3 Pragmática

No campo das regras pragmáticas os signos são estudados a partir de uma


relação com os intérpretes, ou seja, “as regras pragmáticas estabelecem nos intérpretes
condições sob as quais um veículo de um signo é um signo”. Nessas regras, os
signos vinculam-se diretamente com os sujeitos usuários da linguagem, os quais
se norteiam pelo hábito e, nesse sentido, a linguagem é também compreendida

28 Lógica
enquanto sinônimo de um processo de comportamento. Nesse aspecto, a semântica
assemelha-se à pragmática, visto que, em ambas as regras, o hábito estabelece relações
com os intérpretes. Os intérpretes, ao utilizarem signos, o fazem a partir de certas
circunstâncias, a partir daquilo que, através do hábito, definem ser verdadeiro. Em
síntese, os signos são verdadeiros ao se vincular com os interesses e expectativas de
seus intérpretes que, por sua vez, são regulados pelo hábito.
Com efeito, se a semântica pressupõe a sintaxe, deve-se afirmar que a
pragmática pressupõe tanto a sintaxe quanto a semântica. Seria inconcebível analisar
a relação dos signos com seus intérpretes se antes não houvesse o estudo da relação
dos signos entre si, bem como as condições de aplicabilidade dos signos a um objeto
ou a uma situação. É fundamental, sobretudo, sublinhar que tanto a sintaxe quanto
a semântica, quando utilizam as suas regras, registram um tipo de comportamento e,
de acordo com isso, é inevitável admitir que em todas as regras haja a determinação
pragmática. Vejamos, por exemplo, esta frase:
“Aquele cavalo branco corre lentamente.”

Se o objetivo da frase fosse descobrir qual é o signo dominante e quais são os
signos indicadores e caracterizadores, poderia ser escolhido o termo “corre” como
dominante; “cavalo” como remetimento a casos singulares de “corre lentamente”;
“branco” como a sua qualidade e “aquele” seria o signo indicador para aplicar o signo
dominante. Contudo, vale salientar nesse exemplo que o signo dominante poderia ser
“cavalo”. Essa outra opção seria garantida mediante uma nova relação (determinada
por uma nova acepção comportamentalista) dos signos com o intérprete, isto é, a
relação pragmática poderia modificar a estrutura sintática. A informação contida nesta
frase poderia, por exemplo, ter um vínculo modificado de aplicabilidade aos sujeitos,
já que essas informações podem provocar interesses diferenciados daqueles que irão
agir em conformidade com a informação.
Desse modo, admite-se que a própria estrutura sintática de uma linguagem
é examinada mediante as considerações pragmáticas adjacentes, ou seja, a função
pragmática dos signos evoca alternância na própria estrutura sintática da linguagem.
Constata-se, assim, que os dois conjuntos de regras, a saber, sintático e semântico,
são sempre constituídos posteriormente a uma experimentação com os usuários.
Ou seja, mesmo que ambas as regras se sustentem formalmente, elas derivam, num
primeiro momento, do plano pragmático.
Assim sendo, quando essas regras são agrupadas num primeiro momento, antes
de passar ao exame sintático e semântico, elas passam pelo crivo do experimento de
algum usuário, e isso implica admitir que o primeiro exame das regras pertencesse
ao plano pragmático.
O estudo desse campo é pertinente para que possamos perceber que a
linguagem não pode ser expressa meramente no âmbito da sintaxe, o que muitos
lógicos admitem como correto. A linguagem quando ultrapassa essa dimensão de
signo-signo, ou de uma composição rigorosamente formal e declina para o âmbito
signo-pessoa, signo-contexto e signo-realidades se torna muito mais complexa, rica
e envolvente.

Lógica 29
Síntese

Nesta unidade percebemos que a lógica possui diversos conceitos, mas


se efetiva somente através da elaboração de um argumento. Um argumento
deve conter pelo menos duas proposições, uma premissa e outra conclusão.
Observamos que a lógica realiza a inferência, a investigação da conexão
que ocorre entre as proposições declarativas com a finalidade de aclarar os
argumentos lógicos dos ilógicos.
Ainda nesta unidade, estudamos o argumento silogístico para, a seguir,
representar as fases da história da lógica. Nela enfocamos, em especial na
contemporaneidade o atributo aos signos, na perspectiva da linguagem
sintática, semântica e pragmática, que se denomina também de semiose da
linguagem.

REFERÊNCIAS

BLANCHÈ, Robert. História da Lógica. São Paulo: Ed. 70, 1996.

COPI, I. M. Introdução à lógica. São Paulo: Mestre Jou, 1981.

REALI, G. História da Filosofia. São Paulo: Paulus, 1991.

30 Lógica
Anotações

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Lógica 31
Anotações

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32 Lógica
Unidade 2
Objeto, Divisão e Princípios da Lógica

Objetivo:
• Inserir o estudante no campo da abstração da linguagem, bem como apresentar
os principais princípios lógicos.

Conteúdo programático:
• Noções sobre a lógica formal e material;
• Estudo sobre o argumento;
• Princípios de identidade, não-contradição e terceiro excluído.
Faça aqui seu planejamento de estudos

34 Lógica
1 INTRODUÇÃO

Nesta unidade realizaremos um estudo sobre aquilo que se apresenta enquanto


indagação: o que estuda mesmo a lógica? Quais são os seus objetos? Como ela se divide
e quais são os seus princípios centrais? Aliás, esses pontos são considerados centrais
para algumas áreas, visto que, se não houver um objeto de estudo se descaracteriza
sua natureza científica. Polêmicas à parte, se a ciência deve sempre ter um objeto de
estudo para ser reconhecida enquanto tal ou não, a lógica possui, sim, seu objeto de
estudo. Aliás, não é um, singularmente, como veremos, mas alguns.
Já sabemos que, por definição, a lógica se ocupa do pensamento, raciocínio
humano através de uma analítica do ponto de vista meramente formal. É notório
que o objeto central da lógica diz da inferência que se realiza nos argumentos e
nos raciocínios, o que equivale dizer que é relevante à lógica estudar a linguagem,
especificamente, o argumento, quanto ao seu proferimento e formalização. Nesse
sentido, os conceitos, as provas, as demonstrações e os raciocínios são os “objetos”
centrais de estudo da lógica e ela visa dissecá-los em sua dimensão formal. O que se
torna o ponto de referência inicial do lógico é a forma do objeto que irá se manter
até a finalização do processo de inferência.
Se o objeto de pesquisa e estudo do lógico é o pensamento humano, a sua
proposta é cuidar bem desse pensamento. E como já observamos, este cuidar viabiliza
o alcance de certezas que não são encontradas através de suposições, contradições
e arguições quaisquer. Notamos, no decorrer da história da humanidade, o quanto
a linguagem foi, e continua sendo, descuidada em seus diversos usos e, talvez, esse
fato ocorra justamente pela razão de que é ela um dos principais instrumentos que
define e estrutura a condição humana.
Podemos afirmar que o objeto de estudo da lógica então é o exercício do
pensar a partir da sua constituição normativa, ou seja, interessa determinar aquilo
que acontece no processo do pensar a partir das regras, normas e condições de
operacionalizar o que ali se estabelece. Isso acontece no campo teórico e científico da
filosofia, o que equivale dizer que o objeto de estudo do lógico é, por adequação, a
filosofia. Noutras palavras, a lógica é um segmento, uma parte daquilo que pertence
à natureza filosófica.
O aprofundamento da definição de uma ciência importa em uma terminologia
adequada, em que o jogo das palavras importa em alguma sutileza.
Os objetos de estudo que se encontram nas demais ciências são bem variáveis,
conforme é fácil verificar. No entanto, nem sempre eles são simples e consensuais, visto
que existem muitas variabilidades epistemológicas sobre uma única área científica.
Como exemplo, podemos ilustrar com a pergunta: qual é o objeto de estudo da
antropologia? Diríamos que é o estudo que se realiza do Homem. Porém, o termo
Homem evoca inúmeras interpretações e áreas distintas de compreensão e, por isso,
se tem a antropologia biológica, antropologia cultural e antropologia filosófica. Já
aquilo que permanece em comum é a predicação “homem” em todas as diversas
concepções antropológicas.

Lógica 35
A mesma dimensão se apresenta na lógica, dado que existem diferentes
concepções que estudam diferentes objetos. O ponto de vista que estuda a lógica
clássica tem a pretensão de alcançar a essência da natureza, da physis, e, nesse
sentido, chama-se objeto formal a lógica aristotélica, ela estuda no mesmo campo
da ciência, da metafísica ou da filosofia, o que equivale dizer que a ciência clássica se
caracteriza enquanto formal, o que é possível de se encontrar naquilo que Platão tenha
como alusão à ciência, ou seja, prevalecia na filosofia de Platão o distanciamento ao
conhecimento falso que os sentidos poderiam conduzir e se postulava o mundo das
ideias.
Podemos observar que o mundo das ideias é erigido através da racionalidade e
se apresenta enquanto forma. A ideia é aquilo que “é” (o estudo do Ser) como forma,
modelo, paradigma. E a ciência, assim como a lógica, terá como objeto de estudo a
pretensão de alcançar o conhecimento do mundo, denominado de cosmos na Grécia,
pelo estudo causal do ser, através de suas formas.
Como já dissemos, caro estudante, os objetos podem ser alterados e, nesse
ponto, a lógica também tem por remetimento o objeto material. Se, por um lado,
ocupamo-nos de um estudo predominantemente simbólico e formal, de outro, há de
se convir que o objeto material também seja exercitado. Na lógica, o objeto material
que se tem por remetimento é o pensamento.
A materialidade do lógico é o “todo” que se expressa, a saber, o pensamento.
Isso pode ocasionar um pequeno ofuscamento no nosso estudo, afinal como pode o
pensamento ser objeto material? Ora, é conveniente lembrar que nem toda a ciência
tem por objeto de estudo aquilo que se demonstra enquanto verdade empiricamente.
A empiria é uma das correntes da ciência que tem por objetivo demonstrar e provar o
conhecimento através daquilo que se passa e é capturado pelas sensações e sentidos
externos. Entretanto, existem outras correntes que não se ocupam apenas da empiria,
mas daquilo que é meramente abstrato. Este campo, por exemplo, é o da filosofia,
que tem por objeto nodal o pensar crítico. E a lógica também é regida pela mesma
dimensão e como se percebe a palavra lógica nos remete a, pelo menos, dois campos
de objeto de estudo: o formal e o material.
Observamos, desta forma, que o formal apresenta pelo menos dois sentidos,
uma vez formal significa aquilo que se apresenta enquanto mera operacionalidade
do pensamento, outra vez significa o ponto de vista abordado.
Em suma, na definição da lógica, o objeto material posto para estudar é o
pensamento. O objeto formal, ou ponto de vista, é o aspecto meramente formal da
operacionalidade, ou seja, ao pensamento, sem julgar o conteúdo pensado. E toda a
vez que tivermos mudança no objeto formal, teremos uma nova concepção de ciência.
Especificamente na ciência a função da lógica é aplicar os objetos coerentemente de
tal modo que resultem em um sistema, órganum ou teoria científica. Acrescenta-
se a esta expectativa que aquilo que se realiza no pensamento denominamos de
conexões lógicas. Percebemos que o pensamento se dá por intermédio de conexões
que os objetos apresentam entre si e chamamos de conexões lógicas e igualmente
de inferência.

36 Lógica
Como descrito anteriormente, o estudo da lógica visa identificar e discernir os
diversos tipos de raciocínios que são realizados na ciência, bem como no arguir do
cotidiano. Essas operações distintas declinam para o reconhecimento de um conceito
científico e de sua forma de variabilidade significativa. Num permanente progresso
esta atividade consegue então determinar como opera um conceito, como se estrutura
um juízo ou ainda um raciocínio.
Efetivamente, a ciência da lógica consegue por isso afirmar que todo o
conhecimento que é erigido enquanto ciência, desde que formal, abstrato e modal,
oferece apenas uma imagem do objeto. A imagem do objeto é, por exemplo, aquilo
que elaboramos através de um conceito a uma determinada palavra. Justiça, no caso,
nos remete a uma imagem de justiça que reconhecemos se, e somente se, houver
uma flexão lógica.
De fato, a forma conduzirá aquilo que significa o objeto que no nosso exemplo
é extremamente complexo e abstrato. À medida que alcançarmos o conceito de justiça
temos que lembrar que este juízo somente foi alcançado através de um conjunto
de outros conceitos e juízos, isto é, unir os conceitos e juízos sobre determinado
significado analisando como ele se compõe entre si, eis também o propósito objetal
da lógica.
Vamos, caro estudante, observar este exemplo de justiça retirado do blog
conceito.justiça,

O conceito de justiça tem a sua origem no termo latino iustit-a e refere-se a


uma das quatro virtudes cardinais (ou cardeais), aquela que é uma constante
e firme vontade de dar aos outros o que lhes é devido. A justiça é aquilo que
deve fazer de acordo com o direito, a razão e a equidade.

É notório que esse conceito se elabora a partir não apenas de um conjunto de


juízos e, finalmente, que o raciocínio logra fazer um antecedente de vários juízos e
também pelo fato do seu significado estar estruturado formalmente, a saber, através
de uma conexão lógica. Por isso, quando elaboramos um conjunto de proposições
dispersas e sem conexões, estamos apenas apresentando um distúrbio da linguagem
que pode ocasionar algo muito desviante. Thomas Hobbes (1588-1679) afirmaria que
o desvio da linguagem ocasionaria, consequentemente, o desvio na observação da
lei.
Recomenda-se, por último, uma vez realizado o estudo da forma do raciocínio
e suas conexões lógicas, que todas essas etapas possam causar uma conclusão. Isso
quer dizer que, sem a conclusão no conjunto das proposições, conforme já observamos,
não há argumento nem estrutura lógica. Assim, toda vez que alguém emitir um juízo
sobre algo, elaborar um conceito ou ainda formular uma conexão de raciocínio deve,
necessariamente, concluir algo. A partir disso, podemos perceber a dificuldade de
assegurar um argumento no uso dos conceitos e definições à luz da lógica, dado
que, na maioria das vezes, não existe uma das duas partes constituintes básicas da
estrutura do argumento, assim como, às vezes, não existe a conexão lógica.

Lógica 37
Saiba mais

É importante o estudante complementar esta leitura realizando o


acompanhamento de um texto muito lido atualmente sobre a lógica
denominado Raciocínio Lógico - você consegue aprender. Nele, o autor
Enrique Rocha realiza vários tipos de problemas em raciocínio lógico que
orientam o estudante para o aprimoramento dessa atividade.

Dois aspectos breves ainda: primeiramente há de se convir que o mesmo objeto


possa ser investigado por várias ciências. O homem, como mencionado anteriormente,
é estudado na acepção da antropologia, da biologia, da filosofia, da psicologia e demais
ciências, mas cada uma delas sob diferentes perspectivas. A lógica, certamente, deve
realizar essas flexões para que seja producente. A propósito, ela reconhece a certeza e
a verdade no conhecimento científico através do plano de retificar aquilo que não está
correto e adequado. Entretanto, enquanto função retificadora das ciências, reparadora
das verdades e certezas, a lógica apenas se insere do ponto de vista formal, o que
equivale dizer que ela não pode corrigir ou alterar o conteúdo dessas ciências. Apenas
intervém naquilo que não se encontra adequado enquanto forma dos conteúdos.
Desta maneira, e eis o segundo aspecto, a lógica jamais corrige aquilo que se
menciona enquanto recorte epistemológico das ciências. A teoria do conhecimento
faz o mesmo exame da verdade e da certeza, visando ao valor do conteúdo, de
realidade ou idealidade dos objetos expressos. A teoria do conhecimento que se
aplica à Biblioteconomia, por exemplo, compete enquanto valor teórico aqueles que
se exercitam profissionalmente nesse campo epistêmico. Portanto, não se preocupa
a lógica com o conhecimento na qualidade de Biblioteconomia ao modo desses
profissionais. Ela examina e retifica apenas os objetos do ponto de vista formal, isto
é, pergunta à lógica: como se deu o começo dessa análise, qual é a sua duração,
intensidade e finalidade? Isto implica reconhecer e reafirmar que não podemos adentrar
naquilo que é objeto epistêmico das áreas científicas, embora a correção formal das
mesmas pode, inclusive, alterar o resultado já apresentado enquanto ciência.
Resumindo, fica evidente que a lógica se ocupa da forma simplesmente com
que as representações mentais apresentam os objetos expressos, não se preocupando
prioritariamente com o conhecimento enquanto conteúdo. Desta forma, ela ocupa-
se das representações mentais que apresentam os objetos como numa gramática
mental que classifica as palavras em substantivos, advérbios, verbos ou pronomes,
entre outras, e define-se nos pensamentos através das ideias, juízos e raciocínios sem
ultrapassar o âmbito da dimensão puramente formal.
Por isso, o exemplo a seguir, formal, se constitui numa figura que possui
rigorosidade lógica, sem que tenhamos o âmbito pragmático.

38 Lógica
Todo X é P
Algum P é R
Logo, algum X é R

Se adotarmos significados a cada uma das letras poderemos obter um argumento


lógico ou não. Por exemplo, vamos dar à letra X, o equivalente a estudante, à letra P,
curioso e, finalmente, letra à R, filósofo, teríamos:
Todo estudante é curioso
Algum curioso é filósofo
Logo, algum estudante é filósofo

Nesse exemplo verificamos um argumento com duas premissas e uma conclusão


e a composição é lógica. Mas observemos o exemplo a seguir, agora com a letra X
com o significado Homem, P padrão e R com o significado de religioso, teríamos:
Todo Homem é padrão
Algum padrão é religioso
Logo, algum homem é religioso

Apesar de constituir adequadamente um argumento, com duas premissas e uma


conclusão, diríamos, nesse exemplo, que o argumento não é lógico, pois, apesar de
estar correto do seu ponto de vista formal, visto que as letras seguem os significados
adequadamente, ele não é lógico. Não é lógico porque o termo médio P, padrão,
possui duplo significado. No caso, na primeira premissa com a função de estabelecer
o significado de massificação, generalização, e na segunda com outro significado, a
saber, padre grande.
Então, nesse exemplo de silogismo categórico, não podemos concluir algo a
partir dos significados ambíguos contidos nos termos e se a conclusão é correta do
ponto de vista formal, é incorreta naquilo que se apresenta como significado.
Existem várias palavras no nosso vocabulário que temos que tomar muita
atenção em seus usos para acertar tanto a forma quanto os seus significados. Vejamos,
por exemplo, as palavras banco, manga e macaco. Todas elas podem assumir um
significado distinto, dependendo do seu contexto enquanto uso.
Todavia, nos argumentos denominados silogismos categóricos, há diversas
intervenções que o lógico deve realizar para analisar a sua estrutura lógica ou ilógica. O
uso do termo médio com duplo significado é uma das 13 infrações que comprometem
a validade e logicidade do argumento. O contexto das palavras, a extensão de seu
significado, a afirmação das premissas e das conclusões também auxiliam na análise
formal dos argumentos e no bom uso da linguagem. Isso evita equivocar-se na intenção
de uso da própria linguagem e, consequentemente, na intenção humana.
É bom lembrar que nem sempre o argumento é diretamente analisado na sua
composição “morfológica”, isto é, na composição das palavras e termos a partir de
uma condição rigorosa. Geralmente ocorrem algumas distorções no pensamento e
raciocínio humano que são oriundos da composição da tradição de cada cultura,
bem como de algumas distorções que têm sua natureza no misticismo e religiões

Lógica 39
tradicionais. A isso denominamos de estudo pré-lógico, no qual procura-se verificar
quais são as deficiências primárias no uso de uma determinada linguagem ou de
que forma o seu significado se distancia do rigor científico, bem como da sabedoria
filosófica.

Exemplo

Um exemplo para você refletir: Uma pessoa, por exemplo, pode afirmar a seguinte
proposição: “A vida é como uma espiral e não como uma linha reta. Passado e futuro
se encontram em um infinito presente”. O que ela afirma com essa proposição em seu
significado? O que significa a palavra espiral e qual é o significado que atribuímos a
esse termo?

No que se refere à divisão, a lógica se divide conforme os contextos históricos


mencionados anteriormente e que obedecem àquilo que lhe é mais característico, a
saber, a dimensão do conhecimento. Isso quer dizer que a divisão da lógica segue
os mesmos modelos de divisões do conhecimento em suas fases clássica, medieval,
moderna e contemporânea e já sabemos que ela quer estabelecer uma inferência
adequada e correta para as operações intelectuais.
Observamos que, costumeiramente, a divisão da lógica se restringe a uma
síntese das grandes composições teóricas do conhecimento e da ciência e, nesse
sentido, podem ser agrupadas em duas grandes categorias.
Podemos, a seguir, observar claramente uma a ilustração muito oportuna sobre
as grandes categorias da lógica:

Existem, de início, as condições que asseguram o acordo do pensamento


consigo mesmo, abstração feita de todo dado particular, de tal sorte que elas
sejam válidas universalmente. Existem a seguir as condições que decorrem
das relações do pensamento com os objetos diversos a que se pode aplicar.
(PORTAL DE FILOSOFIA, 2011).

Diz a nossa fonte que as grandes divisões da lógica se apresentam em duas


etapas. Na primeira,

A lógica formal ou menor. — É a parte da Lógica que estabelece a forma correta


das operações intelectuais, ou melhor, que assegura o acordo do pensamento
consigo mesmo, de tal maneira que os princípios que descobre e as regras que
formula se aplicam a todos os objetos do pensamento, quaisquer que sejam.

Nesse ponto percebemos que aquilo que se infere no raciocínio humano


enquanto operações são três tópicos: a apreensão, o juízo e o próprio raciocínio. Ora,
a lógica formal compreende exatamente essas três partes que objetivam a apreensão,
da ideia, do juízo e da proposição, e, ainda, do raciocínio e da argumentação.

40 Lógica
Na segunda,

A lógica material ou maior. É a parte da Lógica que determina as leis


particulares e as regras especiais que decorrem da natureza dos objetos a
conhecer. Ela define os métodos das matemáticas, da física, da química,
das ciências naturais, das ciências morais etc., que são outras tantas lógicas
especiais.

Notoriamente, a lógica maior implica no estudo das condições da certeza, da


persuasão, tão eloquente nos discursos, argumentos dos sofistas pelos quais o falso se
apresenta sob a aparência de verdadeiro. Mesmo que a lógica maior procure discernir
aquilo que é saber sofístico do saber científico, ela não realiza propriamente a crítica
do conhecimento, isto é, não realiza a reflexão ao saber até porque não se constitui
enquanto conhecimento. Assim, a verdade interessa ao âmbito lógico desde que seja
investigada a partir de seus aspectos formais e não do ponto de vista teórico, dado
que a mesma não se aplica enquanto teoria do conhecimento.
Todavia, a lógica material examina as particularizações que o conhecimento
assume em função da influência do objeto na formação do conhecimento e é diferente
o percurso que se realiza na teoria do conhecimento se comparado com o plano da
lógica. Na teoria do conhecimento se procura alcançar a matéria do conhecimento,
não o campo lógico. Já a verdadeira lógica material aborda o pensamento formal,
todavia, determinado pela matéria expressa. Isso é possível de ser encontrado nas
mais diversas áreas do conhecimento que se ocupam da matéria expressa como, por
exemplo, nas artes. Nela, a matéria expressa influencia na expressão, ocasionando
aquilo que denominamos os chamados gêneros artísticos. A categorização de cada
gênero artístico, entretanto, somente é realizada pelos conhecedores das artes, em
especial, na filosofia da arte. No entanto, mesmo que a lógica ocupe eminentemente
as formas do conhecimento, não deve, enquanto função, atribuir juízos valorativos
aos denominados gêneros artísticos.
Concluindo, percebemos, ao analisar esses dois campos da lógica, o formal e
o material, que ambos não estão separados, isolados entre si, podendo combinar-se
de diferentes maneiras. O que vale lembrar: a forma está diretamente vinculada ao
conteúdo, embora as duas dimensões sejam distintas. Por isso que se pode afirmar
que depois de uma inferência do ponto de vista formal, ela paralelamente atua no
âmbito material, o que equivale afirmar que cada raciocínio admite ser estruturado
primeiramente do ponto de vista meramente formal e depois material. Já no que
se refere às disciplinas didáticas que se efetivaram separadamente, com mais
complexidade e rigor, são a metodologia científica e a filosofia da ciência.
A metodologia científica estuda os modos de progressão do conhecimento, os
diversos tipos de saberes e apresenta técnicas que agilizam o pensamento e o conduz
a resultados mais seguros. Já a filosofia da ciência ordena e classifica o conhecimento
científico a partir dos diferentes objetos de estudo. A fragmentação das ciências, caro
estudante, justamente deriva das várias espécies de ciências originadas pela filosofia
da ciência. Entretanto, ambas as disciplinas didáticas têm suas raízes atribuídas ao
campo da linguagem.

Lógica 41
Já no quesito de princípios observamos que costumeiramente são utilizados
três, conforme a classificação a seguir. A origem do debate sobre os princípios da
lógica ocorreu na Grécia, conforme pesquisa realizada no blog Lógicanet:

Foi Aristóteles que forneceu os princípios básicos da lógica, que são percebidos
intuitivamente. Esses princípios são formais, pois não se referem aos objetos e
nem aos conteúdos pensados, mas apenas dizem como devemos pensar. São
as formas necessárias e universais do pensamento. Todos os seres humanos
quando pensam seguem esses princípios. Eles são anteriores a qualquer
raciocínio. (LÓGICANET, 2011)

Ou seja, esses princípios alertam para a maneira correta de pensar e erigir


formas necessárias e universais do pensamento, estão intimamente vinculados ao
critério de validade, isto é, além da validade como critério fundamental da lógica, se
apresentam outros três princípios que elevam a condição e o rigor do pensamento e
do discurso humano.
Os três princípios são Identidade, Não-Contradição e Terceiro Excluído.
1. Identidade determina que todo o ser é igual a si próprio: (X = X); (A = A); “um
carro é um carro” ou um carro é igual a si mesmo.
Mesmo sendo atribuído à lógica tradicional clássica, não há referência ao princípio
de identidade até o século XIII. Ele se insere no próximo princípio, a saber, de não-
contradição e, por isso, o princípio de identidade é a expressão do princípio de
não-contradição. Diz Leibniz, em “Novos Ensaios Sobre o Entendimento Humano”
(1998, p.42) “cada coisa é aquilo que é”.

2. Princípio de não-contradição determina que proposições contraditórias não


possam ser verdadeiras ao mesmo tempo: se X é Verdadeiro, ~ X é Falso e vice-
versa. “Uma garrafa não é uma não garrafa e uma não garrafa não é uma garrafa”.
Este princípio é importante para evitar as formas contraditórias de discurso, em que
algo se apresenta numa primeira impressão enquanto verdade e, numa segunda,
do mesmo modo e conteúdo, como falsa. Assim, diz Aristóteles que “efetivamente,
é impossível a quem quer que seja acreditar que uma mesma coisa seja e não seja”
(METAFÍSICA, ┌3, 1005 b 22-44).

3. Princípio do terceiro excluído determina que uma proposição ou é verdadeira ou


é falsa, não havendo terceira possibilidade ou meio termo: se X é Verdadeiro, não
pode ser simultaneamente falso e vice-versa.

Desta maneira, entre um ser que é uma garrafa e um ser que não é uma garrafa,
não existe terceira possibilidade ou meio termo: não existe “mediogarrafa” → esta 3ª
hipótese está excluída.
Aristóteles, ocupado com o emprego fragilizado do discurso sofístico conforme
já observamos, lembra: “Quem diz de uma coisa que é ou que não é, ou dirá o
verdadeiro ou dirá o falso. Mas se existisse um termo médio entre os dois contraditórios

42 Lógica
nem do ser nem do não ser poder-se-ia dizer que é ou que não é” (METAFÍSICA, ┌7,
1011 b 28-30).
Como descrito anteriormente, poderíamos esgotar a nossa análise nesses
três princípios mais usuais da lógica. Vamos, entretanto, seguir com uma exposição
de outro princípio denominado de proposições categóricas. Em verdade, não é um
princípio propriamente dito, mas são as proposições categóricas que permitem validar
o anteriormente exposto. Então, vamos estudar de que modo elas se apresentam
enquanto função desses três princípios.
As proposições categóricas são aquelas que interessam exclusivamente a um
tipo de argumento, a saber, argumento silogístico. O argumento silogístico sempre
possui apenas três proposições categóricas, sendo duas funcionando como premissas
e uma como conclusão. Toda a proposição categórica é elaborada apenas com dois
termos, denominados maior e menor, e um termo médio que tem a função de unir
as duas premissas. Vejamos,
Todo homem é mortal
Certo mortal é valente
Certo homem é valente

Temos aí três proposições categóricas do modo A. No argumento, um termo


médio (mortal) e dois termos, um menor (homem) e um maior (valente). O termo
menor é o primeiro que aparece na conclusão como sujeito e o termo maior, o segundo
da conclusão.
Esse argumento tem a seguinte figura:
tAM
MAT
tAT

O silogismo categórico é sempre elaborado a partir de três proposições


categóricas e todas elas são declarativas, isto é, devem ter atribuição de valor de
verdade ou falsidade. Se houver quatro ou mais proposições ou menos de três, invalida
imediatamente o argumento.
Já no que se refere às proposições, elas se caracterizam em quatro modos, são
simbolizadas através das quatro letras A, E, I e O. O significado consta:
A - Universal Afirmativa: “Todo X é B” ou “Qualquer X é B”.
E - Universal Negativa: “Todo X não é B” ou “Nenhum X é B”.
I - Particular Afirmativa: “Algum X é B” ou “Alguns Xs são Bs” (admite-se o
plural).
O - Particular Negativa: “Algum X não é B” ou “Alguns Xs não são Bs” (admite-
se o plural).

Conforme percebemos, cada proposição tem seu modo e em cada modo
numa proposição categórica existem termos identificadores de quantificação e de
qualificação.

Lógica 43
Os termos quantificadores informam a quantidade a que se refere a proposição,
a saber, se ela será universal ou particular. Costumeiramente encontra-se no início
da proposição, antes do sujeito. Os termos todos, qualquer e nenhum implicam em
universalização, enquanto alguns, certos ou um nome próprio em singularidades,
particularidades.
Os termos qualificadores informam se a proposição categórica é afirmativa ou
negativa e costumeiramente se encontra enquanto cópula, verbo de ligação entre o
sujeito e o predicado da proposição. Assim, quando o termo quantificador afirma
algo sobre o predicado, ela se inscreve enquanto categórica afirmativa (universal ou
particular) e quando nega o predicado, será universal ou particular negativa. Os termos
quantificados e qualificadores são importantes na análise da forma do silogismo,
dado que é através deles que imediatamente estabelecemos a leitura figurativa. E
nem sempre as proposições aparecem explicitamente com os termos quantificadores
e qualificadores, como: “[todos] peixes são animais pecilotérmicos” (Pecilotérmico
significa que a temperatura do seu corpo varia de acordo com o ambiente).
Vamos a alguns exemplos:

Proposição Universal Afirmativa, modo A. “Todos os alunos são inteligentes.”


Proposição Universal Negativa, modo E. “Nenhum aluno é inteligente” ou “Todo aluno
não é inteligente.”
Proposição particular afirmativa, modo I. “Algum aluno é inteligente.”
Proposição particular negativa, modo O. “Algum aluno não é inteligente.”


Ainda, é bom saber que as proposições em que o sujeito consiste em um nome
próprio, como “Mariana é mortal”, são chamadas de proposições singulares.
Muito importante é saber como devemos usar as frases, as proposições na
elaboração dos argumentos para que tenhamos o raciocínio correto. Nesse sentido,
um ponto a ser investigado é as relações que assumem as proposições categóricas
entre si. São essas relações que poderão auxiliar na identificação das correções ou
incorreções argumentativas. Muitas vezes afirmamos que uma pessoa é contraditória,
mas, afinal, no que consiste a contradição? Quando é possível afirmar que uma pessoa
está em contrariedade a algo? Nesse sentido, o estudo das relações que se apresentam
entre as proposições categóricas nos auxiliam, e muito! Elas se estruturam a partir
das seguintes variáveis: oposições, contradições, contrariedades, subalternidade e
subcontrariedade.
As proposições de oposições se estabelecem entre proposições de modos
distintos, mas com os mesmos termos nas mesmas posições de sujeito e predicado.
Nesse sentido, alteram-se apenas os termos quantificadores de cada proposição e ela é
caracterizada como a afirmação e a negação da identidade do predicado e do sujeito,
também chamada afirmação e negação do mesmo predicado relativamente ao mesmo
sujeito. Exemplo: Dadas as proposições “Todo homem é mortal” (A), “Nenhum homem
é mortal” (E), “Algum(ns) homems(ns) é(são) mortais(s)” (I), “Algum(ns) homem(ns)

44 Lógica
não é(são) mortal(s)” (O), o valor (verdadeiro ou falso) de qualquer uma determina o
valor das demais dentro do mesmo contexto.
Ora, se a oposição nas proposições categóricas define-se como a afirmação
e a negação da identidade do predicado e do sujeito, também chamada afirmação
e negação do mesmo predicado relativamente ao mesmo sujeito, então é possível
identificar várias classes de oposição lógica entre as proposições. Assim, exemplo de
oposição de proposições é a que existe entre a proposição “algum homem é mortal”
e “não é verdade que algum homem seja mortal”.
Porventura, duas proposições são contrárias quando ambas não podem ser
verdadeiras, mas ambas podem ser falsas. No caso, sempre afirmando: temos que
ter o mesmo sujeito e o mesmo predicado nas duas proposições e é bem fácil de
memorizar quais são as relações contrárias:
Universais Afirmativas (A) e Universais Negativas (E) são contrárias.

Exemplos:

“Todos os homens são mortais” e “Nenhum homem é mortal” não podem ser ambas
verdadeiras. Entretanto, “Todos os homens são brancos” e “Nenhum homem é branco”
podem ser ambas falsas.

As proposições subcontrárias são aquelas que não podem ambas ser falsas,
mas podem ser verdadeiras. São as consideradas duas proposições inferiores da forma
silogística, como veremos logo a seguir, pois estão na parte inferior da representação
e significam as proposições particulares (não-universais). Portanto, são proposições
subcontrárias às Particulares Afirmativas (I) e Particulares Negativas (O).

Exemplos:

“Alguns homens são asiáticos” (I) e “alguns homens não são asiáticos” (O) podem ser
ambas verdadeiras, mas não podem ser ambas falsas.
No nosso exemplo padrão “alguns homens são mortais”(I) e “certos homens não são
mortais”(O) ocasiona a mesma declaração valorativa.

As duas proposições são contraditórias quando elas nunca podem ser ambas
verdadeiras ou ambas falsas. Esse é um dos erros mais comuns que verificamos em
diversos argumentos do nosso cotidiano, em especial, quando escutamos o discurso
de um político, de um demagogo ou de um sofista.
Essas proposições quase não são perceptíveis, pois em geral se apresentam
distanciadas uma das outras. Alguém afirma, por exemplo: “Todos os alunos da
escola serão beneficiados com bolsa” e depois de algum hiato retoma: “mas, somente
aqueles que estiverem habilitados em todos os critérios de carência”. Ora, como

Lógica 45
pode ser verdadeira a primeira proposição e a segunda? A resposta é: não pode, pois
são contraditórias! Assim, as proposições denominadas Universais Afirmativas (A) e
Particulares Negativas (O) são contraditórias. Universais Negativas (E) e Particulares
Afirmativas (I) são contraditórias.

Exemplos:

Se “alguns mamíferos são ovíparos” (I) é verdadeira, então, “nenhum mamífero é


ovíparo” (E) é falsa.
Se “alguns mamíferos são insetos” (I) é falsa, então, “nenhum mamífero é inseto” (E)
é verdadeira.
Se “todos os homens são mortais” (A) é verdadeira, então, “alguns homens não são
mortais” (O) é falsa.
Se “alguns homens não são brancos” (O) é verdadeira, então, “todos os homens são
brancos” (A) é falsa.

Por último, a proposição é de subalternidade quando o modo universal da


relação é verdadeiro, então, a Particular também é verdadeira. Contudo, o contrário
não é logicamente necessário, dado que, quando a Particular da relação é falsa, a
Universal também é falsa. Contudo, o contrário não é logicamente necessário.
São proposições subalternas as Universais Afirmativas (A) e Particulares Afirmativas (I),
assim como as Universais Negativas (E) e Particulares Negativas (O) são subalternas.

Exemplos:

Se “todos os homens são mortais” (A) é verdadeira, então, “alguns homens são mortais”
(I) é verdadeira. Ou:
Se “nenhum mamífero é invertebrado” (E) é verdadeira, então, “alguns mamíferos não
são invertebrados” é verdadeira.
Se “alguns triângulos são círculos” é falsa, então, “todos os triângulos são círculos” é
falsa.
Se “alguns insetos não são artrópodes” (O) é falsa, então, “nenhum inseto é artrópode”
(E) é falsa.

Vejamos como se apresenta, então, a figura denominada quadrado das


oposições, também conhecido como quadrado lógico:

46 Lógica
Figura 1 - Quadrado lógico (Estas são as principais regras que figuram as relações das
proposições categóricas e foram originadas através da lógica de Aristóteles)
contrárias
A E

subalternas

subalternas
I subcontrárias O
Fonte: LógicaNet (2007).

Síntese

Nesta unidade apresentamos as quatro proposições categóricas em seus


modos: A, E, I e O. Essas proposições em suas relações podem ser contrárias,
subcontrárias, contraditórias e opostas entre si, desde que tenham o mesmo
sujeito e predicado. Os princípios de identidade, não-contradição e terceiro
excluído favorecem para que não elaboremos raciocínios distorcidos e
enganosos.
Assim, discutimos aquilo que se torna o ponto central de todos os saberes
denominados científicos, o objeto de estudo da lógica que é, em especial, o
modo de uso do raciocínio.

REFERÊNCIAS

LÓGICANET. 2007. Disponível em: <http://logicanet.wordpress.com/2007/11/26/


verdade-e-validade/>. Acesso em: nov. 2011.

PORTAL DA FILOSOFIA. Disponível em: <http://www.portalser.net/>. Acesso em: 11


nov. 2011.

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Anotações

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50 Lógica
Unidade 3
Analítica Formal do Juízo e do Raciocínio

Objetivo:
• Instruir o aluno ao saber transcedental, levando em consideração os pressupostos
da filosofia kantiana;
• Esclarecer como se elaboram os modos de juízos e quais são as suas
aproximações com os conceitos.

Conteúdo programático:
• Estrutura de um juízo;
• Juízo, ideia e conceito;
• Juízo sintético e analítico em Kant.
Faça aqui seu planejamento de estudos

52 Lógica
1 INTRODUÇÃO

Nesta unidade analisaremos do ponto de vista propedêutico aquilo que


se efetivou na linguagem na passagem do século XIX para o século XX. Alguns
comentadores denominam essa fase de “revolução” da linguagem, outros a chamam
de “reviravolta” ou virada linguística, uma vez que a capacidade reflexiva, a atividade
mental crítica, a filosofia passou a ser considerada como um método lógico. Esse
método lógico implicava em analisar o pensamento, isto é, a análise do pensamento
passou a ser o objeto central da linguagem. Deste modo, realizar uma reflexão analítica
é um postulado contemporâneo, reivindicado por filósofos desencantados com os
limites dos ideais da modernidade, ou ainda, eclipsados com a função vigente da
própria filosofia, cujo ponto comum seria, enfim, assumir a ideia de que a filosofia é
análise, a análise do significado dos enunciados.

Reflita

Como realizar a analítica formal de um juízo? No que consiste um juízo


analítico? É possível conhecer juízo? De que modo o raciocínio será
elaborado, a partir de uma analítica formal? Estas e outras questões foram
norteadoras desse momento da lógica.

Essa “revolução” teve influência de vários autores, como Frege Bertrand Russell e
Wittgenstein, bem como ao idealismo alemão, do positivismo lógico e do denominado
Círculo de Viena, todos ocupados em erigir um método de análise do significado das
proposições da ciência, ou ainda de autores como Peter Frederick Strawson (23 de
novembro de 1919 - 13 de fevereiro de 2006), um filósofo associado com movimento
da filosofia da linguagem, dentro da filosofia analítica se tornou conhecido com
o seu artigo “On Referring” (1950), uma crítica a Bertrand Russell e sua teoria das
descrições definidas. É também conhecido pela reconstrução analítica dos argumentos
de Immanuel Kant na “Crítica da Razão Pura”, e pela defesa de uma reabilitação da
metafísica como disciplina filosófica.
Já partir de meados do século XX, mais uma vez sob a forte influência de
estudos advindos do campo da Lógica, dessa vez especificamente da lógica modal,
houve uma retomada, por parte dos filósofos analíticos, de questões metafísicas e
epistemológicas, tal como tradicionalmente concebidas. Assim, a partir de alguns
escritos seminais de autores como Saul Kripke, Hilary Putnam e Tyler Burge, passou-se
mais uma vez a tematizar assuntos, tais como o da relação entre o sujeito e o mundo
ou, mais especificamente, entre o sujeito e seu ambiente físico e social, condições de
identidade de objetos através de mundos possíveis. Nascia, assim, a chamada filosofia
analítica.

Lógica 53
Essa declinação da lógica para a analítica formal do juízo contemporânea, não
está cindida da lógica geral ou então da lógica formal incitada até este período de
eclipse da razão. Podemos dizer que aquilo que cuidou a lógica geral passa agora a ser
examinado com vistas a um conhecimento mais específico deste operar do raciocício
que dialoga entre objeto, sujeito e predicado.
Isso produz um novo momento do conhecimento e também das faculdades
do juízo humano. Observaremos a seguir, introdutoriamente, duas direções de uma
analítica formal do juízo. Na primeira, reportamos à área meramente formal. Na
segunda, a um gigante da filosofia contemporânea, Immanuel Kant.

2 JUÍZO E FORMA

O que caracteriza na lógica um juízo? Ora, diz Sérgio Biagi Gregório:

[…] entende-se por juízo qualquer tipo de afirmação ou negação entre duas
ideias ou dois conceitos. Ao afirmarmos, por exemplo, que ‘este livro é de
filosofia’, acabamos de formular um juízo (2011, p.25).

Imediatamente percebemos que o juízo está intimamente vinculado ao conceito


que é elaborado, constituído acerca de um determinado objeto ou valor. O conceito,
entretanto, é examinado na lógica como extensão e compreensão. O termo estudante,
por exemplo, enquanto extensão implica em referir-se a todos os indivíduos os quais se
possa aplicar a qualidade de estudante, eis sua extensão. Isso nos remete ao conceito
de estudante. Já um juízo sobre estudante, diz do conceito, mas agora o afirmando
ou negando-o enquanto extensão e compreensão.
Deste modo, ao avaliarmos uma linguagem do ponto de vista analítico formal
do juízo, nos remetemos ao campo dos valores. A frase “todos os humanos são
inteligentes” pode ter expressão formal do juízo, valorativa, desde que antes atenda o
exame da operação feito primeiramente pelo seu aspecto meramente formal, porque
importa saber como é em si mesmo, para somente depois atender às influências
materiais do objeto e seus juízos.
É comum na lógica formal do juízo estudar as proposições a partir das seguintes
estruturas:
1. Da forma do juízo, ou seja, de sua cópula verbal;
2. Do predicado do juízo;
3. Do sujeito do juízo;
4. Análise e síntese dos juízos;
5. E as propriedades dos juízos.

Segundo a Enciclopédia Simpózio, da Universidade Federal de Santa Catarina,

A forma do juízo é determinada especificamente pela cópula verbal.


Efetivamente, a cópula verbal é específica de todo o juízo (ou proposição), no
sentido de que a afirmação (contida na cópula verbal) está como diferença

54 Lógica
desta segunda operação mental, frente à primeira operação mental (o
conceito) e frente à terceira operação mental (o raciocínio). Já os extremos
(sujeito e predicado), ainda que também se estabeleçam como elementos
essenciais do juízo, comparecem apenas como matéria determinada pela
referida afirmação. Por isso não se começa o estudo da natureza da proposição
pelo predicado e pelo sujeito, mas pelo exame da cópula verbal, à qual
pertence fundamentalmente definir o juízo, como a forma que dá a espécie
ao gênero. (ENCICLOPÉDIA SIMPOZIO, 1997).

As demais análises poderão ser conferidas no site da Enciclopédia no site da


UFSC, em que se efetiva uma análise complexa e relevante sobre as diversas outras
dimensões da formulação do juízo, a saber, do sentido do verbo ser, da afirmação da
identidade entre predicado e sujeito ao qual se predica, das equivalências, extensão
e os contextos em que se inserem os termos.
Deste modo, é muito relevante ter atenção na formulação de juízos, pois, em
tese, desde o início, pensar é fazer juízos. Isso implica afirmar que o pensar e as ideias
não estão desprovidos de juízos, dado que elas não se apresentam isoladamente. Como
já observamos, o pensar é erigido através de conceitos que sempre são conectados
na forma de um juízo e, assim, pensar consiste principalmente em julgar.
Numa primeira acepção, um juízo é facilmente entendido pelas pessoas. Ao
afirmar, por exemplo, “o Brasil é grande”, todos entendem intuitivamente o que esse
juízo significa. As pessoas possuem o juízo como a mais espontânea forma de pensar,
elaborar as ideias e conceitos, justamente porque é aquilo que aparece primariamente
enquanto visibilidade ou demarcação cultural. Emitimos juízos sobre tudo, ou quase
tudo, e eis grandes possibilidades de termos grandes problemas! Nesse sentido,
conforme se verifica na Enciclopédia Simpozio (1997),

Julgar é um dote tão próprio do homem, como o latir e o acuar são uma
prerrogativa de todo cão, seu melhor amigo. Assim sendo, importa aprender
a lógica do juízo, para exercer com elegante segurança o que é tão próprio
do ser humano.

Na lógica, porém, se postula analisar o juízo mais profundamente, não apenas


conforme ele aparece no âmbito intuitivo. Se ele aparece como uma operação mental,
na qual uma representação é afirmada de outra, é imprescendível ter atenção aos
três termos nodais do juízo: o sujeito, o predicado e a afirmação (a cópula). Ora, o
essencial no juízo é a afirmação, que une ou separa o elemento julgado e apenas se
faz a afirmação a propósito de algo havido em um dos conceitos (colocado como
predicado), em relação a algo havido no outro (colocado como sujeito). Resulta, pois,
haver distinção entre a forma do juízo (a afirmação) e a matéria do juízo (os conceitos).
O significado etimológico da palavra juízo também é interessante para estudo
no nosso contexto. Veremos a seguir que o termo juízo expressa aquilo que disse,
aquele que diz a lei, já o nome juiz, judex, deriva de dizer (dicere) a lei (jus), ou seja,
jus dicere, por sua vez, judex ou juiz assume a forma genetiva judicis, que quer dizer
do juiz. Finalmente, a partir dali se chega a judicium que significa juízo, que é o que o
juiz declara. Portanto, juízo, como operação mental, lembra uma declaração decisória

Lógica 55
final. Essa acepção ainda pode ser atribuída à dimensão religiosa que implica na
significação de jurar, invocando algo maior enquanto divindade como pessoa superior
ou coisa sagrada, Deus.
Portanto, quando elaboramos um juízo, isso implica em seguir um caminho que
se eleva ao campo da validade dos conteúdos afirmados nas diversas áreas científicas.
Na forma mais direta, os juízos imprimem a força da discussão das diferentes validades
de saberes científicos, visto que ele aprecia o vasto campo epistemológico do saber.
Se a evidência, a verdade e a certeza dos juízos são constituintes dos conceitos, das
ideias e do pensar, então é possível afirmar que as propriedades do juízo, enquanto
elaboração de linguagem, podem atender à sua diversificação e classificação no
conhecimento científico.

3 JUÍZOS SINTÉTICO E ANALÍTICO

Veremos a seguir, propedeuticamente, a perspectiva do pensador “gigante


da contemporaneidade”, Immanuel Kant (1724-1804), acerca dos juízos. O contexto
filosófico do autor é muito expressivo, pois novas leituras e proposições são
apresentadas à metafísica moderna e clássica, em especial.
O conhecimento elaborado passa pelo crivo do criticismo, a saber, de seus limites
enquanto operante e retoma o velho problema fundamental de toda a metafísica cuja
questão “o que é que existe?” é reafirmado através das correntes filosóficas do século
XVII. Kant se propõe a conciliar o realismo, o seu oposto, o idealismo, o racionalismo
e seu oposto o empirismo.
Diz Rubem Queiroz Cobra (S.d),

Kant achou que o velho racionalismo dogmático havia dado muita ênfase
aos elementos a priori do conhecimento e que, por outro lado, a filosofia
empírica de Hume tinha ido muito longe quando reduziu todo conhecimento
a elementos empíricos ou a posteriori. Portanto, ele se propõe passar o
conhecimento em revista em ordem a determinar quanto dele deve ser
consignado aos fatores a priori ou estritamente racionais, e quanto aos fatores
a posteri resultantes da experiência. Ele mesmo afirmava que o negócio da
filosofia é responder a três questões: O que eu sei? O que devo fazer? O que
devo esperar? No entanto, as respostas para a segunda e terceira perguntas
dependem da resposta para a primeira: nosso dever e nosso destino podem
ser determinados somente depois de um profundo estudo do conhecimento
humano.

Kant é um pensador que defende o conhecimento transcedental, o idealismo


transcedental, um tipo de conhecimento desenvolvido na sua obra “Crítica da Razão
Pura”, em que é possível realizar juízos distintos da velha metafísica. Ele denominou
de transcendental o enfoque que procura determinar e analisar as condições a priori
de qualquer experiência. Diz o próprio Kant,

56 Lógica
Denomino transcendental todo o conhecimento que em geral se ocupa não
tanto com os objetos, mas com nosso modo de conhecimento de objetos na
medida em que este deve ser possível a priori. Um sistema de tais conceitos
denominar-se-ia filosofia transcendental. (COBRA, S.d).

Nele é possível fazer juízos sintéticos a priori e, para isso, ele introduz um
conceito novo na metafísica: o de intuição sensível.
Afirma, ainda, Rubem Queiroz Cobra (S.d):

A intuição sensível é a condição para que o ato do conhecimento se faça


segundo juízos sintéticos que são também a priori, apesar de obtidos fora
da análise conceitual própria da razão pura, uma vez que resultam da
intuição exercida sobre a observação e a experiência, e somente poderiam ser
particulares e momentâneos. Mas, abrindo na razão esse comportamento da
intuição sensível, Kant podia agora fazer importantes correções. O que era
preciso corrigir na metafísica: A metafísica vinha considerando intuição de
racionalidade apenas a intuição de causa e efeito, de causa suficiente, para
validar as verdades de razão, quando existiam outras formas de intuição que
podiam garantir também verdades de razão. A correção indispensável é que
era preciso admitir todas as formas de intuição racionais, não apenas a de
relação de causa e efeito, mas também a de quantidade, a de qualidade, e a
de modalidade, e por meio de todas elas, é claro, o espírito intuía verdades
de razão.

Kant apresenta uma condição distinta para que o conhecimento se efetive,


dado que o saber ocupa dois campos distintos, isto é, o fenômeno e o númeno. Ao
afirmar que o conhecimento científico tem limites, ele distingue aquele conhecimento
intuitivo sensível do qual se ocupam as ciências fenomênicas do justo oposto, ou
seja, daquele que se ocupa com as coisas em “si mesmas”. Este plano denomina-se
númeno, um saber que não é conhecido enquanto apreensão da realidade através
daquilo que a sensibilidade capta e conhece, mas pelo que o intelecto intui enquanto
pensável, sem possibilidade de determiná-lo como intuição sensível.
Ora, a filosofia kantiana admite que existam três ideias que não constituem
objetos, mas são possíveis de serem pensadas. A ideia da alma, do mundo como
totalidade e a teológica pertencem ao plano numênico. Na sua obra já mencionada
“Crítica da Razão Pura” se analisam e apresentam os três tipos de juízos que têm a
função de realizar a conexão de dois conceitos, dos quais um sempre cumpre função
de sujeito e o outro a de predicado. Os juízos são apresentados como analíticos e
sintéticos e os juízos sintéticos a priori.
Os juízos analíticos são juízos comuns em que o predicado (B) pode estar contido
no sujeito (A) e, por isso, ser extraído por pura análise. Desta maneira, a função do
predicado nada mais é do que explicar ou explicitar o sujeito. O exemplo que Kant
indica é: “todo triângulo tem três lados” ou ainda, “todo corpo tem extensão”. Deste
modo, os juízos analíticos, nos quais o predicado exprime uma noção já contida no
sujeito são de pouca utilidade para o progresso da ciência, por não serem extensivos,
mas apenas explicativos do saber. Por último, os juízos analíticos são a priori, ou
seja, independem da experiência sensível e, desta maneira, a relação entre sujeito e
predicado é pensada por identidade e não-contradição.

Lógica 57
Já os juízos sintéticos são a posteriori, ocorrem depois da experiência sensível
do objeto. Neste tipo de juízo o predicado não está contido no sujeito, mas relaciona-
se a ele por uma síntese. Esta, porém, é sempre particular ou empírica, não sendo
universal e necessária, portanto, não servem para a ciência. Exemplo: “Aquela casa é
verde”.
Por último, existem os juízos sintéticos a priori. Este é o enigma e o ponto de
partida de toda a filosofia transcedental de Kant. Esses são juízos em que também o
predicado não é extraído do sujeito, mas que pela experiência forma-se como algo
novo, construído. No entanto, essa construção deve permitir ou antever a possibilidade
da repetição da experiência, isto é, a aprioridade, entendida como a possibilidade
formal de construção fenomênica, que permite a universalidade e a necessidade dos
juízos.
A experiência aqui não é a mera deposição de fenômenos na mente em razão
da sequência das percepções, mas sim a organização da mente numa unidade sintética
daquilo que é recebido pela intuição. Isso efetiva-se porque as dimensões de espaço
e tempo não são mais aquisições da experiência, eles são quadros a priori do espírito,
da razão, nos quais a experiência se apresenta. É nesse quadro a priori da experiência,
antes da experiência concreta que se efetiva o entendimento universal e necessário.
Assim, o conhecimento, diz Kant, não é o reflexo do objeto exterior, dado que é o
próprio espírito humano que o constrói, com os dados do conhecimento sensível, o
objeto do seu saber.
Naturalmente que estamos apresentando aqui um esboço da filosofia
transcedental de Immanuel Kant. A análise meticulosa sobre os juízos kantianos exige
uma profunda dedicação e o acompanhamento dos diversos embates que ocorreram na
filosofia moderna e contemporânea, realizar isso neste texto não é o nosso propósito.
O que desejamos apresentar é apenas uma das variáveis da analítica formal do juízo,
no momento, os juízos analíticos e sintéticos.
Às vezes, o campo biográfico de um autor é também relevante para a
compreensão da teoria propriamente dita. Nessa situação, o nosso “gigante da filosofia
contemporânea” apresentou novas formas de conhecimento e entendimento (um
pensar sobre o fenômeno) que são estudadas exaustivamente nas teses de doutorado
e dissertações de mestrado. Entretanto, Kant possuía hábitos incomuns e curiosos,
ele nasceu, estudou, lecionou e morreu em Koenigsberg, sua cidade natal, e nunca
deixou essa grande cidade da Prússia Oriental, cidade universitária e também centro
comercial muito ativo para onde afluíam homens de nacionalidade diversa: poloneses,
ingleses, holandeses. Sua vida foi austera e regular como um relógio, pois se levantava
às cinco horas da manhã, fosse inverno ou verão, deitava-se todas as noites às dez
horas e seguia o mesmo itinerário para ir de sua casa à Universidade, parece que
Kant contraria a sua rotina bucólica: ele segue sendo o filósofo mais lido e conhecido
universalmente da atualidade!
Assim, prezado estudante, vamos agora para a última parte da nossa análise
sobre a lógica, que consiste no estudo do conjunto e álgebra booleana. Resumidamente,
convém recapitular os nossos passos já realizados, até então. Primeiramente realizamos
uma apresentação da lógica do ponto de vista conceitual e histórico e vimos que a

58 Lógica
lógica se apresenta enquanto divisão aproximadamente, tal como ocorre com a história
da civilização ocidental. Os objetos e os princípios da lógica em seus remetimentos
formais e materiais, sintático, semântico e pragmático foram apresentados, assim como
a lógica simbólica. Depois, realizamos uma apresentação sobre a composição formal
dos juízos através de duas dimensões, uma formal e a outra na perspectiva kantiana.
O que é relevante disso tudo é reafirmar que a lógica é uma forma de condução do
raciocínio que procura corrigir aquilo que se apresenta equivocadamente, seja no
âmbito formal, seja no material, distinguindo o raciocínio correto do incorreto, válido
do inválido.
Uma última observação: a análise dos termos, das palavras e dos nomes, visando
uma boa formulação de raciocínios, já foi cenário de diversos palcos, inclusive no
período medieval. Na transição da época medieval para a moderna, o fundamento do
discurso e do raciocínio ocorre mediante o uso adequado dos nomes. Os nominalistas,
por exemplo, se ocupam com um novo modo de expressão do conhecimento que
se caracteriza pela lógica, denominada por William de Ockham (1290-1349) de
“proposicionalismo realista”. Nela, o conhecimento se infere pelo princípio de intuição
sensível das coisas, já os termos de conotação universal carecem de uma realidade
particular, constituindo-se como uma intenção da alma.

Reflita

Os comentadores do filósofo Kant são quase todos de uma densidade


incomensurável e os textos complementares sobre o autor são infinitos. Entre
bons comentadores destacam-se o filósofo norte-americano Henry Allison,
professor da Universidade de Boston e ex-professor da Universidade de San
Diego, California. Ou ainda, o prof. Dr. Zeljko Loparic, natural da República
da Croácia, brasileiro naturalizado. Já em São Paulo há a Sociedade Kant
Brasileira, seção de Campinas que estuda rigorosamente o autor.

Lógica 59
Síntese

Nesta unidade acabamos de examinar o modo como se elaboram os juízos


sobre a realidade e percebemos que realizamos cotidianamente juízos. Afirmar
que o “Brasil é um país grande” implica em emitir juízo e compete a cada um
contextualizá-lo e intensificá-lo como significado. Se um juízo for analítico, ele
nos interessa para a adequação daquilo que se pretende confirmar no predicado,
a partir do que foi inferido no sujeito. Mas, se for um juízo sintético a posteriori,
então terá aquele conhecimento que se desenvolve nas ciências fenomênicas,
ou seja, naquele saber que se efetiva nas ciências práticas. Porém, se o juízo
for sintético a priori, então, chegamos ao ponto central daquilo que é função
da filosofia kantiana, ou seja, evocamos o pensar sobre o fenômeno, isto é,
adentramos ao plano da especulação crítica sobre aquilo que se apresenta na
realidade. E, com isso, poderemos responder pelo menos a pergunta: O que
eu sei?

REFERÊNCIAS

GREGÓRIO, S. Biági. Noções de Lógica. São Paulo: Clube dos Autores, 2011.

COBRA, Rubem Queiroz. Filosofia Moderna. [S.d]. Disponível em: <http://www.cobra.


pages.nom.br>. Acesso em: 19 out. 2011.

ENCICLOPÉDIA SIMPOZIO, Versão em Português do original em Esperanto. Universidade


Federal de Santa Catarina, 1997. Disponível em: <http://www.cfh.ufsc.br/~simpozio/
portugue.html>. Acesso em: 19 out. 2011.

60 Lógica
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Lógica 61
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62 Lógica
Unidade 4
Conjunto e Álgebra Booleana

Objetivo:
• Inserir o estudante à linguagem simbólica utilizada especialmente em programas
eletrônicos e virtuais.

Conteúdo programático:
• Álgebra booleana e o contexto histórico;
• Operadores, postulados, propriedades e funções binárias da álgebra.
Faça aqui seu planejamento de estudos

64 Lógica
INTRODUÇÃO

Nesta unidade analisaremos a parte da lógica que se desenvolve a partir dos


postulados e das operações lógicas com variáveis binárias elaboradas pelo matemático
e filosófo inglês, George Boole (1815-1864). A lógica booleana não é costumeiramente
utilizada na academia como estudo, visto que as suas estruturas são demasiadamente
rigorosas e complexas. A lógica booleana é utilizada para busca de informações em
bases de dados digitais e empregada também em operações básicas dos circuitos
digitais que fundamentam as operações em seus circuitos lógicos.
Existem aluguns campos em especial nos quais se utiliza a álgebra booleana,
a saber, na matemática, que por sua vez embasam as ciências da computação e da
informação. Nelas, as álgebras booleanas denominadas também de “Álgebra de Boole”
são estruturas algébricas que se remetem à essencialidade das operações lógicas E, OU e
NÃO, bem como das operações da teoria de conjuntos soma, produto e complemento.
Deste modo, ela também é o fundamento da matemática computacional, baseada
em números binários.
Conforme verificamos em passagens anteriores deste material, existem vários
e distintos momentos da lógica e a álgebra booleana foi aplicada pela primeira vez
a interruptores por Claude Shannon, no século XX. Entretanto, essa fase da lógica
com a álgebra inaugura, certamente, aquilo que há de mais denso e complexo nessas
estruturas. Hoje, ela é utilizada em muitas aplicações na electrônica, micro-chip e
outros produtos da revolução informacional.
Este conjunto de signos é constituído a partir dos denominados operadores.
Os operadores da álgebra booleana podem ser representados de várias formas. É
frequente serem simplesmente escritos como E, OU ou NÃO (são mais comuns os seus
equivalentes em inglês: AND, OR e NOT). Na descrição de circuitos também podem
ser utilizados NAND (NOT AND), NOR (NOT OR) e XOR (OR exclusivo). Os matemáticos
usam com frequência “+” para OU e “.” (ponto) para E (visto que sob alguns aspectos
estas operações são análogas à adição e multiplicação noutras estruturas algébricas)
e representam NÃO com uma linha traçada sobre a expressão que é negada.
Acompanharemos, a seguir, o longo trecho abstraído de Sistemas Digitais -
Variáveis e operadores básicos.

Uma variável booleana representa um dígito binário, ou seja, só pode ter os valores
0 ou 1. No conceito matemático, o domínio dessa variável pode ser definido como o
conjunto:

B = {0, 1}.

Portanto, se X é uma variável Booleana, X Elemento de B. Assim, X pode assumir


os valores 0 ou 1.

Lógica 65
São comuns, para os valores 0 e 1, as designações falso e verdadeiro, respectivamente.
Nos circuitos digitais, o “zero” representa uma correnta aberta, isto é, não energizada
e o “um” representa uma corrente fechada, isto energizada.
Na representação de um caracter, letra, número, operador matemático ou acentos
nas ciências da informação ou computação, as variáveis booleanas são usadas para
manipulação destes sinais. Por exemplo, nos computadores baseados em oito bits,
são usadas combinações de oito variáveis de zeros e uns para esta representação. Para
representarmos o valor “0” são usados oito bits zero. Observe alguns exemplos de
representação de caracteres em código binário.
0 = 00000000 a = 01000001
1 = 00000001 b = 01000010
2 = 00000010 c = 01000011
3 = 00000011 d = 01000100

A representação destes símbolos é feita com base no sistema binário, como já visto
em disciplinas anteriores.

1 OPERAÇÕES BÁSICAS

As operações fundamentais da álgebra de Boole têm semelhança com


operações aritméticas comuns, inclusive alguns símbolos são idênticos, mas não são
necessariamente coincidentes:

1) Operação OU
É similar à adição comum, mas a correspondência não é plena. Símbolo usual é o
mesmo da adição. Exemplo (lê-se X igual a A ou B):
X=A+B

Outro símbolo, comum em linguagem de programação, é a barra vertical:


X = A | B ou ainda X = A v B.

Os operadores lógicos, ou conectivos lógicos ou ainda, termos lógicos são


usados para a composição de sentenças complexas, que articulam sentenças simples
em um contexto específico. Como vimos, a operação OU, também chamada de
disjunção, toma como resultado verdadeiro qualquer uma das possibilidades que se
apresente. Neste caso, onde X = A + B, significa que havendo a presença de A, B
a sentença é verdadeira. Assim, a disjunção é chamada de exclusiva, onde somente
uma das alternativas é possível. No caso em que ambas as alternativas são possíveis,
tornando a sentença verdadeira, a disjunção é chamada de não-exclusiva.
Imagine que desejemos recuperar todos os títulos de livros sobre os assuntos
“Algoritmos” e “Programação”.

66 Lógica
Assim uma busca poderia ser feita como:
ASSUNTO = “ALGORITMOS” OU “PROGRAMAÇÃO”.

Nesse caso, pode haver livros somente para o assunto de “Algoritmos”,


ou somente para o assunto de “Programação” ou para ambos os assuntos, livros
que tratem de “Algoritmos” e “Programação”. Assim, trata-se de uma disjunção
não-exclusiva, de forma que possa acontecer o somatório das alternativas.

Quadro 1 - Operação OU
ALGORITMOS PROGRAMAÇÃO ALGORITMOS
OU
PROGRAMAÇÃO
NÃO ENCONTRADO VERDADEIRO

NÃO ENCONTRADO VERDADEIRO

VERDADEIRO

FALSO
NÃO ENCONTRADO NÃO ENCONTRADO

Fonte: elaborado pelo autor.

Considere outra busca que se deseja realizar no banco de dados de uma


biblioteca. Pretende-se encontrar os títulos editados nos anos de 2000 e de 2005.
Desta forma, teríamos a sentença ANO DE EDIÇÃO = 2000 OU 2005.
Substituindo-se 2000 por P e 2005 por Q temos uma tabela verdade para
representar as possibilidades da disjunção não-exclusiva.

Quadro 2 - Tabela verdade disjunção não-exclusiva


F Q F OU Q
V V V
V F V
F V V
F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

A situação está representada da seguinte forma:


• Títulos editados nos anos de 2000 e também em 2005.

Lógica 67
• Títulos editados no ano de 2000.
• Títulos editados no ano de 2005.
• Não encontrados títulos para os anos de 2000 ou 2005.

A disjunção, no caso de ser exclusiva, restringe assim o número de possibilidades


para que a sentença seja considerada verdadeira.
Em outro caso, em que é preciso encontrar os usuários de uma biblioteca que
residem nas cidades de Chapecó e Florianópolis, por exemplo. Nesse caso, deveríamos
escrever a sentença assim:

CIDADE = “CHAPECÓ” OU “FLORIANÓPOLIS”.

Observe que uma mesma cidade não pode ser igual a Chapecó e Florianópolis
ao mesmo tempo e, desta forma, temos que utilizar a disjunção. Mesmo assim, o
resultado poderá ser verdadeiro quando houver usuários para Chapecó ou usuários
para Florianópolis.
A disjunção exclusiva implica na independência dos termos da sentença. Assim,
substituindo-se Chapecó por P e Florianópolis por Q, teremos a seguinte tabela verdade
para representar a situação anterior.

Quadro 3 - Tabela verdade disjunção exclusiva


F Q F OU Q
V V F
V F V
F V V
F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

Tomemos ainda outro exemplo, como a frase: “Maria cozinha ou Maria toma
banho”. Como podemos observar a presença de uma das alternativas exclui a outra.
Podemos também ver que, a partir da tabela a seguir – “tabela de verdade” ou “tabela
verdade” – as subfórmulas que compõem a sentença (fórmula) “Maria cozinha ou Maria
toma banho” são mutuamente excludentes e podem ser chamadas de complementares,
no sentido de que envolvem todas as possibilidades para a situação em questão.

Quadro 4 - Tabela verdade


Maria cozinha ou
Alternativas Maria Cozinha Maria toma banho
Maria toma banho
Primeira V V F
Segunda V F V
Terceira F V V
Quarta F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

68 Lógica
Sendo assim, a tabela verdade para a sentença em questão, substuindo-se as
alternativas por P e Q e disjunção por OU temos: P = Maria Cozinha Q = Maria toma
banho.
Tabela Verdade:

Quadro 5 - Tabela verdade do quadro 4


P Q P OU Q
V V F
V F V
F V V
F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

Sobre este caso em particular, podemos afirmar que o valor adotado para P
exclui Q e vice-versa, de forma que, ao considerarmos a presença de P, podemos por
regra desconsiderar Q. Assim, podemos escrever:
P=¬QeQ=¬P

2) Operação E
É similar à multiplicação comum e há correspondência, como poderá ser visto adiante.
Símbolo usual é o mesmo da multiplicação. Exemplo (lê-se X igual a A e B):
X=A·B
Muitas vezes, também de forma semelhante à álgebra comum, o sinal de ponto é
suprimido:
X = AB
Outros caracteres que se aplicam a conjunção: “&” ou “^”.
X=A&B
X=A^B

Quando é aplicado o operador E ou conjunção lógica, para que a sentença


seja verdadeira, ambas as fórmulas que a compõem devem ser verdadeiras. Pensando
novamente em uma busca em um banco de dados digital, podemos considerar a busca
de títulos por Geografia e, neste escopo, Brasil. Assim, poderemos montar a seguinte
fórmula: ASSUNTO = “GEOGRAFIA” E “BRASIL”. Subistituiremos GEOGRAFIA por P e
BRASIL por Q.
Montando uma tabela verdade teremos:

Quadro 6 - Tabela verdade operação E


P Q PEQ
V V V
V F F
F V F
F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

Lógica 69
Nesse caso, somente haverá um resultado satisfatório, quando ambos os valores
forem encontrados como resultados de uma busca por títulos com estes conteúdos.
Imagine, ainda, que precisamos encontrar os usuários de uma biblioteca
universitária, que estão matriculados no curso de Matemática e emprestaram livros
com conteúdo de Programação de Computadores. Podemos formar uma fórmula
como:

CURSO = “MATEMÁTICA” E ASSUNTO = “PROGRAMAÇÃO”.

Para este caso, usuários do curso de Matemática que nunca emprestaram livros
com conteúdo relativo à Programação de Computadores não interessam e, tampouco,
aqueles que tenham emprestado títulos com o assunto em questão, mas que sejam
de outros cursos que não o de Matemática. Substituindo novamente as subfórmulas,
temos assim, a tabela verdade que reflete a situação.

CURSO = “MATEMÁTICA” (P)


ASSUNTO = “PROGRAMAÇÃO” (Q)

Quadro 7 - Tabela verdade


P Q PEQ
V V V
V F F
F V F
F F F
Fonte: elaborado pelo autor.

3) Operação NÃO
Também denominada negação ou complemento, pode ser considerada similar ao
negativo da álgebra comum. Entretanto, não há correspondência plena porque a
álgebra de Boole não usa sinal negativo. O símbolo usual é uma barra acima (ou antes)
da variável. Exemplo (lê-se X igual a não A ou negação de A.).
X = ¬A

Alguns outros símbolos são sinal de exclamação e apóstrofo:


X = !A
X = A’
X = ~A

Dada a fórmula: PAÍS = “BRASIL” a sua negação inclui qualquer outro país que
não seja o Brasil. Outros exemplos:
• IDADE <= 16 ANOS. Pode indicar todas as pessoas de um universo específico que
tenham 16 anos ou mais.
• ¬ (IDADE <= 16) ANOS. Pode indicar todas as pessoas de um universo específico
que tenham menos de 16 anos.

70 Lógica
A tabela verdade da Negação é simplificada, visto que não existe uma fórmula
composta, mas simplesmente a sua forma original ou sua forma negada. Se PAÍS =
“BRASIL” é nossa fórmula original e é igual a P, então temos:

Quadro 8 - Tabela verdade operação não


P ¬P
V F
F V
Fonte: elaborado pelo autor.

Se considerarmos a população de um estado da federação, para um


levantamento estatístico, por exemplo, estamos incluindo os cidadãos menores de 16
anos, se adotarmos a negação da sentença original. Podemos observar também que
as sentenças são complementares, de forma que esta complementariedade pode ser
representada da seguinte maneira:

(IDADE <= 16) ^( ¬ (IDADE <= 16))

Assim, estaríamos incluindo todos os cidadãos de um estado, caso sejam


somente estas as duas alternativas a serem consideradas.

Exemplo

Dadas as seguintes fórmulas ou sentenças, construa fórmulas compostas, com os


termos lógicos E, OU e negação.
a) Altura = 1,89 cm f) Filme = Aventura
b) Peso = 68 kg g) Assunto = Informática
c) Idade < 18 anos h) Cidade = ¬ Brasília
d) Idade > 60 anos
i) Profissão = Jornalista
e) Curso = Biblioteconomia
j) País = Portugal

A conjunção, a disjunção – exclusiva ou não, devem fazer sentido, bem como a negação.
Construa as fórmulas e faça a sua tabela verdade. Observe o exemplo: considerando
o contexto de uma biblioteca universitária, qual a possibilidade de encontrarmos um
usuário com Idade < 18 anos E Curso = Biblioteconomia?
Idade < 18 Idade < 18 anos E Curso =
Curso = Biblioteconomia
anos Biblioteconomia
V F F
F V F
V V V
F F F

Lógica 71
4) Operação SE ou condicional
Neste caso, a sentença é estruturada por duas partes, o antecedente e o consequente.
Por exemplo, se considerarmos que “se é inverno, então é frio” ou “é frio porque
é inverno”, temos uma situação de implicação, onde o antecedente determina o
consequente.
Tomando o exemplo citado em Margutti Pinto, podemos compreender melhor a partir
da tabela verdade a operação condicional.

Quadro 9 - Tabela verdade operação SE ou condicional


José tem dor de Se José lê, então José tem
Alternativas José lê
cabeça dor de cabeça
Primeira V V V
Segunda V F F
Terceira F V V
Quarta F F V
Fonte: elaborado pelo autor.

Assim, podemos notar que o condicional somente é falso quando o antecedente


é verdadeiro e o consequente é falso, em qualquer outra situação o condicional ou
condicionante será verdadeiro.

Subistituindo-se “se, então” por “=>”, temos:

Quadro 10 - Tabela verdade operação SE


Alternativas P Q P => Q
Primeira V V V
Segunda V F F
Terceira F V V
Quarta F F V
Fonte: elaborado pelo autor.

Segundo o autor referido anteriormente, “se encararmos essa conectiva com


função de valores de verdade de seus componentes elementares, extrairemos a
seguinte regra operacional: a sentença condicional só é falsa quando o antecedente
é verdadeiro e o consequente falso, nos demais casos ela é verdadeira.”

2 POSTULADOS E ALGUMAS IDENTIDADES

Os postulados da álgebra de Boole definem os resultados das operações básicas


informadas no tópico anterior.

72 Lógica
1) Postulados da operação OU
0+0=0
0+1=1
1+0=1
1+1=1

De acordo com os postulados, temos exatamente a correspondência com as


tabelas verdade, com 0 está representando F e 1 está representando V.

Saiba mais

No entando, algumas referências escrevem postulados da adição. Mas a


adição Booleana não equivale plenamente à adição comum porque, para
esta última, 1 + 1 deve ser 0, referindo-se estritamente à adição de números
binários.
Tomemos como exemplo os números 4 e 5 (decimais) convertidos para
binário.
4 = 0100 e 5 = 0101 considerando-se somente 4 digitos binários.
Assim, a sua soma deve ser realizada da seguinte maneira:
Veja que na soma de 1+1, na terceira casa da direita
0100 para a esquerda somamos 1+1=0 e eleva-se o 1,
somando o com os demais zeros da próxima casa
+ 0101 da operação.
1001

Convertendo o resultado de binário para decimal, temos:


1x23 + 0x22 + 0x21 + 1x20 obtendo o seguinte resultado:
8 + 0 + 0 + 1 = 9.

Esta demonstração foi feita no sentido de esclarecer simplesmente como são


realizadas as operações sobre dígitos binários em computadores.

2) Postulados da operação E
0·0=0
0·1=0
1·0=0
1·1=1

Em algumas referências, são denominados postulados da multiplicação. Há


equivalência plena com a multiplicação comum.

Lógica 73
3) Postulados da operação NÃO
!0 = 1 (negação de 0)
!1 = 0 (negação de 1)

Omitindo as demonstrações, algumas identidades podem ser deduzidas a partir


dos postulados anteriores.

4) Da operação OU
X+0=X
Onde X pode assumir 0 ou 1. Observamos, assim, a sua substituição.
Se X = 0 então temos 0 + 0 = 0 ou se X = 1 temos 1 + 0 = 1.
X+1=1
Se X = 0 então temos 0 + 1 = 1 ou
Se X = 1, então temos 1 +1 = 1. Assim podemos fazer todas as substituições
para os demais casos.
X+X=X
X+X=1

5) Da operação E
X·0=0
X·1=X
X·X=X
X·X=0

6) Da operação NÃO
¬ X = ~X
A relação acima sugere uma semelhança com o negativo da álgebra usual,
onde
¬ (¬ X) = X

4 ALGUMAS PROPRIEDADES E TEOREMAS

1) Propriedade comutativa
A+B=B+A
A·B=B·A

2) Propriedade associativa
A + (B + C) = A + (B + C) = A + B + C
A · (B · C) = A · (B · C) = A · B · C

3) Propriedade distributiva
A · (B + C) = A·B + A·C

74 Lógica
4) Teoremas de Morgan
A+B=A·B
A·B=A+B

5) Outras igualdades
A + A·B = A
A + A·B = A + B
(A + B) · (A + C) = A + B·C

5 FUNÇÃO BOOLEANA E TABELA DE VERDADE

Uma função matemática genérica de um conjunto X para um conjunto


Y, f:X ’‡Y, pode ser entendida como uma regra que define um elemento único y elm
de Y para cada elemento x elm de X. A notação prática mais comum é y = f(x). Pode-
se também dizer que a função faz um mapeamento de x para y.
O conjunto X é denominado domínio da função e o conjunto Y é o seu
codomínio.
Seja agora o conjunto das variáveis booleanas B = {0, 1}. Se existem n
variáveis, o conjunto de todas as combinações possíveis é simbolizado por Bn (produto
cartesiano).

Figura 2 - Tabela verdade


X1 X2 X3 Y1 Y2

0 0 0 0 0
0 0 1 1 0
0 1 0 0 1
0 1 1 1 1
1 0 0 0 0
1 0 1 1 0
1 1 0 0 1
1 1 1 1 1
Fonte: Elaborada pelo autor.

Uma função Booleana é o conjunto de todas as funções que fazem o


mapeamento de m variáveis de entrada para n variáveis de saída:
f: Bm → Bn

Lógica 75
Na prática, pode-se dizer que é uma função que estabelece uma relação entre
um conjunto de m variáveis de entrada com um conjunto de n variáveis de saída.
Desde que os valores das variáveis são discretos (apenas 0 e 1), o mapeamento da
função pode ser apresentado em forma tabular, denominada tabela de verdade da
função. O quadro Tabela 01 dá um exemplo para três entradas e duas saídas.
Bem, a partir deste esquema todo podemos imaginar, enfim, para que serve
a lógica Booleana? Ou, é possível interpretá-la com um pouco de simplificação?
Naturalmente, a resposta não é assim tão facilmente alcançada, mas tentaremos
esboçar algo neste sentido.
Podemos dizer que ela tem um endereço muito pragmático enquanto
operacionalização dado que o sistema binário é um sistema de numeração em que
todas as quantidades se representam utilizando como base o número dois, com o
que se dispõe das cifras: zero e um (0 e 1). Assim, por exemplo, os computadores
digitais trabalham internamente com dois níveis de tensão, pelo que o seu sistema
de numeração natural é o sistema binário, a saber, aceso, apagado.
Com efeito, num sistema simples como este é possível simplificar o cálculo, com
o auxílio da lógica Booleana. Em computação, chama-se um dígito binário (0 ou 1) de
bit, que vem do inglês Binary Digit. Um agrupamento de 8 bits corresponde a um byte
(Binary Term). Um agrupamento de 4 bits é chamado de nibble. Ora, o sistema binário
é base para a Álgebra Booleana que permite fazer operações lógicas e aritméticas
usando-se apenas dois dígitos ou dois estados (sim e não, falso e verdadeiro, tudo
ou nada, 1 ou 0, ligado e desligado).
Dessa maneira, a álgebra booleana de dois elementos é também utilizada no
projeto de circuitos em engenharia elétrica onde 0 e 1 representam os dois diferentes
estados de um bit em um circuito digital, tipicamente alta e baixa voltagem. Assim, os
circuitos são descritos por expressões contendo variáveis, e as tais duas expressões são
iguais para todos os valores das variáveis se e somente se o circuito correspondente
tiver o mesmo comportamento de entrada-saída, conforme vimos na tabela 1.
Concluindo, percebemos o quanto é amplo o campo da lógica e da linguagem.
É pela linguagem que nos constituímos enquanto humanos e também é através dela
que expressamos o justo oposto, a saber, aquilo que é desumano. Não podemos
nos ater à dimensão de que linguagem é uma associação de signos que serve como
forma de entretenimento, comunicação e expressão do homem. Ora, ela pode ser
percebida pelos diversos órgãos dos sentidos e isto implica em admitir que existem,
então, vários modos, formas de linguagem: visual, auditiva, tátil, ou, ainda, outras mais
complexas, constituídas, ao mesmo tempo, de elementos diversos. Estes elementos
mais complexos, rigorosos e matemáticos são áreas de interesse da lógica.
O que queremos afirmar neste instante é a tese de que a linguagem desprovida
de um uso lógico pode ser desviada de suas funções centrais enquanto finalidade.
Não que todo o escopo da lógica garanta absolutamente a condição humana ou o
alcance pleno do entendimento, da liberdade e da reflexão. Entretanto, ela auxilia
na estrutura do pensamento, no fundamento do conhecimento e, sobretudo, nos
garante uma noite de sono mais intenso e profundo se soubermos, a guisa da lógica,
discernir verdades de falsidades, aquilo que se apresenta como correto do incorreto.

76 Lógica
Enfim, aquele que possui o raciocínio lógico pode identificar propagandas enganosas,
jornalismo tendencioso, intenções de alguns políticos consideradas nebulosas e ainda:
permite que possamos elaborar argumentos convincentes e válidos para que a nossa
condição profissional e existencial tenha sentido e objetividade.

Saiba mais

É interessante realizar estudos de leituras complementares de autores que


se ocupam da lógica enquanto uma ciência do raciocícinio. Nesse sentido,
o pesquisador Irwing Copi em seu livro “Introdução à Lógica” tematiza de
que forma o raciocínio se assemelha ao escopo de uma matematização, pois
assume valores tais como em cálculos e operações de álgebra.

Síntese

A álgebra consiste na apresentação de um conjunto de símbolos que


permitem a operacionalidade da engenharia, bem como das evoluções
tecnológicas da atualidade. Este estudo lógico booleano se elabora a partir dos
operadores binários, e de propriedades da álgebra que são estruturas algébricas
que se remetem à essencialidade das operações lógicas E, OU e NÃO, bem como
das operações da teoria de conjuntos soma, produto e complemento.


REFERÊNCIAS

CHALMERS, A. F. O que é a ciência afinal? Trad. de Raul Fiker. São Paulo: Brasiliense,
1993.

FISHER, A. A lógica dos verdadeiros argumentos. Tradução de Rodrigo Castro. São


Paulo: Novo Conceito, 2008.

KNEALE, W.; KNEALE, M. O desenvolvimento da lógica. Lisboa: Fundação Calouste


Gulbenkian, 1991.

KNELLER, G. F. A ciência como atividade humana. São Paulo: EDUSP; Rio de Janeiro:
Zahar, 1980.

MATES, B. Lógica Elementar. São Paulo: Editora Nacional e Editora da USP, 1968.

Lógica 77
Mc INERNY, D.C. Use a lógica: um guia para o pensamento eficaz. Tradução de Fernanda
Pantoja. Rio de Janeiro: BestSeller, 2006.

MORTARI, C. Introdução à lógica. São Paulo: Unesp/Imprensa Oficial do Estado, 2001.

PINTO, Paulo Roberto Margutti. Introdução lógica simbólica. Belo Horizonte: Herder,
2001.

SALMON, W. Lógica. Tradução de Álvaro Cabral. Rio de Janeiro: LTC, 2009.

VELASCO, P. D. N. Educando para a argumentação: contribuições do ensino da lógica.


Belo Horizonte: Autêntica, 2010.

Anotações

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