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TECNICAS DE REGENCIA: Aspectos práticos do gestual

09. CONHECENDO AS FÓRMULAS DE COMPASSO


Para entendermos os diagramas das fórmulas de compasso, o regente precisa
em primeiro lugar entender como funcionam as fórmulas de compassos e suas
composições.
O que vem a ser um compasso? A história da música é marcada por várias
etapas: a que vem antes das inovações da escrita musical e a fase posterior a
esta revolução teórica. A origem da fórmula de compasso não está muito bem
clara, mas ela se tornou uma necessidade logo após a implantação deste novo
sistema musical adotado e criado por Guido Aretinus (995 – 1050), um monge
beneditino ligado à ordem religiosa de Saint Maur des Fosses, (perto de Paris).
Na época exercia o cargo de regente do coro da Catedral de Arezzo na
Toscana - Itália, e se cognominou de Guido d’Arezzo. Guido foi o responsável
pela implantação de inovações no sistema musical, como a pauta de 4 e 5
linhas e a nomeação das alturas 1 como hoje conhecemos e utilizamos.
A divisão métrica de uma frase musical em compassos já era uma prática
adotada nos cantos gregorianos da igreja, mas não da forma que hoje
conhecemos, os cantos possuíam uma barra móvel que era associada às
frases e palavras do texto litúrgico, mas graças à revolução apresentada por
Guido, outras idéias começam a aflorar, entre elas a formula de compasso,
determinando uma divisão métrica igualitária e simétrica para todo o texto
musical, métrica que também recebeu feições diferentes ao longo dos séculos,
atendendo às necessidades estéticas de cada compositor e evolução da escrita
musical em cada período histórico.
O que é um compasso? Podemos definir de várias maneiras, dependendo do
contexto histórico que nos encontramos. Após a utilização sistemática da
formula de compasso até ao final do romantismo, era uma divisão simétrica das
frases musicais por toda a partitura. O que significava, que uma vez ¾ seria
toda a idéia musical estabelecida em ¾, do início ao fim do movimento. Por um
lado a implantação deste sistema estabeleceu uma uniformidade nas
interpretações, mas por outro lado tolheu a liberdade de expressão e
interpretação da música, deixando a música muito mais matemática e exata
que antes, que na minha frágil visão era uma música mais livre, e expressiva.
Mas graças a cabeças pensantes, estas formulas sofreram alterações e foram
evoluindo buscando meios mais autênticos associando-se estas barras às
necessidades musicais e não mais a regras teóricas.
A divisão métrica de um compasso serve apenas para ajudar a leitura, a
fundamentação do sentido musical.
O que temos então em um compasso?
1. A indicação de uma fórmula de compasso é feita pela sobreposição de dois
números (vide exemplo abaixo), ou de um número e uma figura (semibreve,
mínima, semínima, e assim por diante) – vide exemplo na página 31, que tem a
função de indicar a formação do compasso. No exemplo abaixo temos a
indicação de uma fórmula que indica que o compasso será formado por quatro

1
Assunto que não será abordado neste texto, por não ter de relevância aos objetivos estabelecidos nesta
redação.
2 - EMANUEL MARTINEZ

figuras (ou suas subdivisões) de semínima ou com uma figura única que
representa a somatória de todas:

2. A utilização física de um compasso esta demarcada por duas barras verticais


que estabelecem o início e o fim deste compasso – vide exemplo abaixo:

3. A indicação do compasso pressupõe uma formação derivada da indicação


inicial, estabelecendo uma unidade de tempo e uma unidade de compasso. A
unidade de tempo é o número ou a figura (ou subdivisão dela) indicada na
parte inferior da fórmula, que tem por função preencher o valor de um tempo. A
unidade de compasso é a figura ou a somatória de figuras (quando mais de
uma figura estiverem unidas por uma ligadura) que representam a somatória de
todas as figuras do compasso.
4. A regra geral clássica de pulsações de uma fórmula de compasso determina
que as figuras que se encontram no início do compasso possuem maior ênfase
que as demais figuras do compasso, numa queda progressiva de importância,
mas esta regra hoje em dia é muito mais ampla porque não podemos fixar mais
isso como regra geral, visto que a linguagem musical evoluiu muito, levando
tempos fortes para outros tempos, e também modificando as estruturas
internas dos compassos em busca de uma melhor flexibilidade melódica,
harmônica e estrutural.
Basicamente temos três tipos de compasso: binários, ternários e quaternários.
Estes compassos são classificados de acordo com sua formação e
composição, como compassos simples compostos e irregulares (ou mistos
como alguns o chamam). A diferença entre eles pode ser explicada de uma
forma primária da seguinte forma: os compassos simples (unidades de tempo
simples, portanto de subdivisão binária) e compostos (unidades de tempo
compostas, portanto de subdivisão ternária) estas formas caracterizam-se por
sua simetria ao longo do desenvolvimento do compasso, ao contrário dos
compassos irregulares (formados pela somatória de figuras simples e
compostos) que se caracterizam por sua assimetria, visto que uma unidade de
tempo é maior que a outra.
Mostrando de outra forma: a fórmula de compasso é composta por um número
na parte superior e um número ou figura na parte inferior. Não é uma fração
matemática, como erroneamente alguns professores ensinam, e sim uma
fórmula, a indicação da composição de um espaço rítmico ou sonoro.
O número superior indica a quantidade de unidades de tempo (U. T.) que
possui o compasso:
TÉCNICAS DE REGÊNCIA - 3

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O número inferior ou a figura, que pode ser qualquer uma das figuras musicais,
indica o tipo de figura que deve preencher a unidade de cada tempo:

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I. Compassos Simples
Os compassos simples possuem unidades de tempo (U. T.) cuja figura possui
uma subdivisão binária, ou seja duas figuras para cada tempo. Veja:

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Unidade Tempo Subdivisão da U. T.
A representação dos compassos simples pode ser a seguinte:
Binário simples

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Fórmula Representação Subdivisão da U. T.

Ternário simples

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Fórmula Representação Subdivisão da U. T.
4 - EMANUEL MARTINEZ

Quaternário simples

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Fórmula Representação Subdivisão da U. T.

II. Compassos Compostos


Os compassos compostos possuem como U. T. figuras com subdivisão
ternária. Basicamente as U.T. são figuras pontuadas. Veja:

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Unidade tempo Subdivisão da U. T.
A representação dos compassos compostos é feita a partir da subdivisão das
U. T. Algumas composições mais modernas possuem indicações semelhantes
à dos compassos simples, ou a indicação com uma figura composta localizada
abaixo do número superior. Veja:

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Subdivisão da U.T. U. T. com figura composta

Os compassos compostos são os seguintes:


Binário composto

representação do compasso
TÉCNICAS DE REGÊNCIA - 5

Ternário composto

representação do compasso

Quaternário composto

representação do compasso

III. Compassos Irregulares


A representação dos compassos irregulares é feita a partir da subdivisão das
U. T. Os compassos irregulares possuem duas unidades de tempo distintas, ou
subdivisões. Nos compassos irregulares pelo menos uma U. T. é de
preenchida por uma figura simples ou pelo menos uma U. T. de figura
composta.
Nos compassos irregulares não há uma formação fixa dos valores. Os valores
irregulares podem estar localizados em qualquer tempo do compasso. As
representações abaixo são apenas exemplos e a figura utilizada como
referencia pode ser substituída por qualquer figura do nosso sistema musical.
Os compassos irregulares mais usuais são os seguintes:
Binário irregular

representação do compasso
Ternário irregular

representação do compasso
6 - EMANUEL MARTINEZ

Ternário irregular

representação do compasso

Quaternário irregular

representação do compasso

Quaternário irregular

representação do compasso
Quaternário irregular

representação do compasso

O gráfico a seguir mostra as principais indicações de compasso:


TÉCNICAS DE REGÊNCIA - 7

REPRESENTAÇÃO DOS BINÁRIOS TERNÁRIOS QUATERNÁRIOS


COMPASSOS

SIMPLES 2 3 4
(Unidades de tempo de
subdivisão binária)

COMPOSTO 6 9 12
(Unidades de tempo de
subdivisão ternária)

IRREGULAR 5 7-8 9 - 10 - 11
(Unidades de tempo de
subdivisões binárias e ternárias
no mesmo compasso)