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A lei antidrogas no Brasil

Renan Kramer Boeira


Publicado em 07/2014. Elaborado em 03/2014.

A evolução do combate às drogas e a perspectiva da legislação nacional frente as


politicas antidrogas já utilizadas no país e no exterior.

INTRODUÇÃO:
A guerra contra as drogas foi declarada pelo presidente Richard Nixon no ano de
1962, após a convenção da ONU, tomou proporções globais e é um problema do qual
nação alguma consegue se livrar.
Passaram-se mais de 40 anos desde a declaração de Nixon e ainda assim o
problema dos entorpecentes é uma realidade cada vez mais avançada e cada dia mais
natural no dia a dia de todos os cidadãos do mundo.
Em junho de 2011 a Comissão Global de Politica de Drogas declarou: "A guerra
global contra as drogas falhou, com consequências devastantes para indivíduos
e sociedades pelo mundo. Cinquenta anos após o início da Convenção de Narcóticos da
ONU, e anos depois do presidente Nixon ter lançado a guerra contra as drogas, reformas
fundamentais em controle global de drogas nacional e internacionalmente são
urgentemente necessárias"1{C}[1]{C}
Desde a época colonial até a vigente lei 11343/06, a discussão sobre a eficácia
das leis antidrogas no país é assunto recorrente.
Enquanto alguns países buscam uma nova perspectiva para o problema das
drogas tais como Portugal e Suíça, as reformas propostas, tais como o PL 7663/10
buscam ainda o modo bélico.
Mas será este um problema a ser resolvido pelo judiciário, pelo legislativo, pelo
executivo? É um problema de saúde? De polícia? De educação?
Muitas respostas para muitas perguntas, mas uma é certa a legislação de drogas
no Brasil afeta direta ou indiretamente a cada cidadão do país, seja ao preocupar um pai
que cria seu filho, seja ao atingir os milhões de vitimas que a dita “guerra” acaba
causando todos os anos.
O objetivo do trabalho é esclarecer, trazer a tona, discutir, avaliar e buscar
soluções para um problema que diariamente afeta milhões de brasileiros, a falta de
efetividade das medidas antidrogas.
Através da utilização da criminologia crítica, busca a utilização de dados
empíricos, de estatísticas, demonstrar que o crime do tráfico de drogas foi criado por um
controle social eis que o comportamento sempre existiu e vamos questionar se tal
criação trouxe ou traz benefícios à sociedade ou apenas cria mais problemas à mesma.

CAPÍTULO I
A LEI ANTIDROGAS NO BRASIL AO LONGO DA HISTÓRIA
Tão certo quanto à história da humanidade existe o fato de que o ser humano
sempre fez uso de substâncias que alterassem seu estado de humor, seja o álcool, o
ópio, etc...
As razões que levaram a humanidade ao uso de entorpecentes variam desde
mágicas, religiosas, medicinais, afrodisíacas ou unicamente como alucinógenas.
Junto com a revolução industrial e o modo de produção capitalista, as drogas
passaram de sua utilização para o bem estar para um produto, uma mercadoria a ser
vendida e comprada.
Neste breve inicio já se nota que a aplicação da criminologia critica no sentido de
que a criminalização da venda de determinadas drogas por determinado grupo da
sociedade vem ao encontro da Teoria da Rotulação formulada por Howard Becker, onde
este elabora uma concepção de mundo, ancorada nas perspectivas das pessoas
definidas como desviantes e das pessoas que as definem assim.
O traficante é definido pelo controle social como desviante, na mesma maneira
que as pessoas que exercem este controle também consideram o tráfico como ato
criminoso e em outro diapasão legalizam e autorizam determinadas pessoas a venda e
utilização de produtos que também poderiam ser considerados entorpecentes, tais como
o álcool ou diversas espécies de medicamentos.
A preocupação com o uso venda e distribuição de tóxicos no Brasil remete ainda
aos tempos de colônia.
Segundo a ilustre Roberta Duboc Pedrinha [2]As Ordenações Filipinas, de 1603,
no V Livro, faziam menção, no título LXXXIX, a incriminação do uso, porte e venda de
algumas substâncias tidas como tóxicas, como: rosalgar, solimão, escamonéa e ópio.
Previam a aplicação de penas como: confisco de bens e degredo[3]para a África.
Segundo Nilo Batista [4]em sua pesquisa, houve a proibição do pito de pango
(denominação para a maconha) nas esparsas Posturas da Câmara Municipal do Rio de
Janeiro, no § 7º da postura, em 04 de outubro de 1930. In verbis:
“É proibida a venda e o uso do pito do pango, bem como a conservação dele em
casas públicas. Os contraventores serão multados, a saber: o vendedor em 20$000, e os
escravos e mais pessoas, que dele usarem, em três dias de cadeia.” (Mott in Henman e
Pessoa Jr., 1986).
O Código Penal Republicano, de 1890, no artigo 159, dispôs sobre a proibição a
algumas substâncias tidas como venenosas, que não eram determinadas, careciam de
norma complementar, sendo este o primeiro diploma incriminador do país.
O Brasil aderiu a através do Decreto no. 2.861 de 1914, a norma criada na
Conferência Internacional do ópio que havia ocorrido em Haia no ano de 1912.
Tal decreto foi seguido do Decreto 11.481 de 1915, que abarcava a incriminação
do ópio, morfina e cocaína.
Em 1921 foi promulgado o Decreto 4.294 que revogou o artigo 159 do Código
Penal de 1890. Este novo dispositivo legal especificou o termo entorpecente, como uma
qualidade designativa às substâncias mencionadas como venenosas.
O mais interessante sobre o decreto que surgiu em 1921 é a vanguarda da lei
brasileira na época, este decreto foi regulamentado pelo Decreto 14.969 de 1921, que
determinava a criação dos sanatórios para toxicônomos. Mas, enquanto não fossem
implantados, cabia à interdição na Colônia de Alienados.
Nos anos 30 as sucessivas Convenções Internacionais, como a de Haia (1912) e
as de Genebra (1925, 1931 e 1936), exerceram grande influência no Brasil e
demonstravam desde já a preocupação internacional do combate às drogas.
Nesta época foi confeccionado o Decreto 20.930 de 1932, alterado pelo Decreto
24.505 de 1934, revogado pelo Decreto-Lei 891 de 1938, que conduziria ao artigo 281
do Código Penal de 1940 que só foi revogado em 1976.
Nesse sentido era o código de 1940:
Art. 281. Importar ou exportar, produzir, vender, expor à venda ou oferecer, fornecer,
ainda que gratuitamente, ter em depósito, transportar, trazer consigo, ministrar ou
entregar de qualquer forma, a consumo substância entorpecente, ou que determine
dependência física ou psíquica, sem autorização ou em desacordo com determinação
legal ou regulamentar. Pena - reclusão, de 1 (um) a 6 (seis) anos e multa de 50
(cinquenta) a 100 (cem) vezes o maior Salário-mínimo vigente no País.
No código de 1940, o consumo de drogas não era considerado crime, o que
demonstrava a característica da prevenção sanitária da drogo dependência.
Vale a pena mencionar que nesta época, este caráter de saúde pública criou nos
termos da supracitada Roberta Duboc Pedrinha[5]uma espécie de sistema médico-
policial, pois embora os usuários de drogas não fossem considerados criminosos, o
tratamento para com os mesmos não pode ser considerado um mar de rosas.
Os usuários reconhecidos eram obrigados a serem internados obrigatoriamente
mediante representação da autoridade policial ou do Ministério Público, os tratamentos
nos sanatórios eram de privação gradual da droga com fornecimento aos poucos da
mesma ou então total dependendo do caso e o usuário só poderia ser libertado da
instituição mediante um atestado de alta definitivo do médico relatando estar curado do
vício.
Esta visão do combate às drogas perdurou até1964, junto com o golpe militar.
Para Nilo Batista, este ano significou a baliza divisória da ruptura do modelo de
política criminal, que se transloucou do sanitário para o bélico.
De acordo com Salo de Carvalho[6], após a aprovação da Convenção Única
sobre Entorpecentes, pelo Decreto 54.216 de 1964, a adesão belicista passou a ser
plena, com a expansão da repressão.
Em 1968, logo após o Ato Institucional no. 5, o Decreto 385 modificou o artigo
281 do Código Penal, acrescentou outros verbos criminalizares. O Decreto-lei no. 753 de
1969 reforçou a fiscalização.
Em 1971 a Lei 5.726 trazia a ideia de que o problema das drogas era de todo0s
e trazia dentre outros a premiação para as delações. Esta mesma lei estabeleceu a
equiparação entre usuário e traficante, com até 6 anos de pena privativa de liberdade e
trouxe a tipificação da quadrilha composta por dois membros.
A nova Lei 6.368 de 1976 possibilitou um elevado aumento nas tipificações de
tráfico de drogas. Este diploma retirou o termo combate do primeiro dispositivo legal e o
substituiu por prevenção e repressão. Distinguiu as figuras penais do tráfico e do
usuário, especialmente no tocante à duração das penas. Nesse sentido, as penas
podiam variar de 3 a 15 anos de reclusão e multa para o tráfico e de detenção de 6
meses a 2 anos e multa para o uso.
Também inovou no fato de que as penas para os usuários eram passíveis de
sursis e penas alternativas.
Com a confecção da Constituição Federal de 1988, foi estabelecido que o tráfico
de drogas fosse crime inafiançável e sem anistia.
Na década de 90 a lei dos Crimes Hediondos [7]assegurou que o tráfico de
drogas fosse tratado de forma mais rígida, proibindo a liberdade provisória aos acusados
bem como indulto e dobrou os prazos processuais de maneira a perdurar mais a
segregação provisória.
Até que finalmente em 2006 entrou em vigor a lei 11.343 qual vigora até os
presentes dias.
A lei definiu os crimes relacionados às drogas em seu capítulo II e eliminou o
termo entorpecente que perdurava desde 1921, tratando diretamente no artigo 33 que
define o tráfico com a expressão droga.
Na lei 11343, a principal mudança foi a eliminação da pena de prisão para o
usuário ou aquele que detém a droga para consumo pessoal.
Ademais aumentou a pena mínima de 03 para 05 anos e manteve a máxima em
15 anos.
Outra mudança importante veio com a redação do § 4º do artigo 33 que
distinguiu o traficante profissional do traficante ocasional.
Nestes termos a lei: § 4º Nos delitos definidos no caput e no § 1o deste artigo, as
penas poderão ser reduzidas de um sexto a dois terços, vedada a conversão em penas
restritivas de direitos, desde que o agente seja primário, de bons antecedentes, não se
dedique às atividades criminosas nem integre organização criminosa.
Como se lê da transcrição acima, a lei beneficiou os traficantes ocasionais com
redução de pena, desde que estes não possuíssem antecedentes, ou seja, fossem
primários e demonstrassem não se dedicar às atividades criminosas ou integrar
organizações criminosas;
A maneira mais simples de comprovar que a atividade criminosa não era a
principal ocupação do acusado ocorre com a comprovação de ocupação licita como
trabalho com carteira assinada, demonstrando que o tráfico não era o agente gerador do
sustento do réu.
O parágrafo 4º da lei 11343 também foi alterado em 2012 quando a Resolução
5, do Senado, publicada em 16 de fevereiro de 2012, suspendeu a execução da
expressão "vedada a conversão em penas restritivas de direitos", contida no parágrafo 4º
do artigo 33 da Lei 11.343/06.
Nestes termos: Art. 1º É suspensa a execução da expressão "vedada à
conversão em penas restritivas de direitos" do § 4º do art. 33 da Lei nº 11.343, de 23 de
agosto de 2006, declarada inconstitucional por decisão definitiva do Supremo Tribunal
Federal nos autos doHabeas Corpus nº 97.256/RS.
Art. 2º Esta Resolução entra em vigor na data de sua publicação
A mesma expressão já tinha sido declarada inconstitucional em decisão definitiva
do Supremo Tribunal Federal no julgamento do Habeas Corpus 97.256/RS, em 1 de
setembro de 2010.
As decisões dos tribunais todas seguiam na mesma direção, após a decisão do
Supremo, como se vê das decisões abaixo transcritas:
HABEAS CORPUS. CONSTITUCIONAL E PENAL. TRÁFICO DE
ENTORPECENTES. SUBSTITUIÇÃO DA PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE POR
OUTRA RESTRITIVA DE DIREITOS. POSSIBILIDADE. A jurisprudência desta Corte
está alinhada no sentido do cabimento da substituição da pena privativa de liberdade por
outra, restritiva de direitos, nos crimes de tráfico de entorpecentes. Nesse sentido, o HC
n. 93.857, Cezar Peluso, DJ de 16.10.09 e o HC n. 99.888, de que fui relator, DJ de
12.12.10. Ordem concedida. (HC 102678, Relator (a): Min. EROS GRAU, Segunda
Turma, julgado em 09/03/2010, DJe-071 DIVULG 22-04-2010 PUBLIC 23-04-2010
EMENT VOL-02398-03 PP-00607)
Transcrevo algumas decisões proferidas pelo Tribunal de Justiça do Rio Grande do
Sul: Ementa: APELAÇÃO CRIME. TRÁFICO DE DROGAS. MANUTENÇÃO DA
CONDENAÇÃO E DO APENAMENTO. ALTERAÇÃO DO REGIME DE CUMPRIMENTO
E DA PENA PECUNIÁRIA. POSSIBILIDADE DE SUBSTITUIÇÃO DA PENA DE
RECLUSÃO. AUTORIA E MATERIALIDADE. (...........). SUBSTITUIÇÃO DA PENA.
Quanto à possibilidade de substituição da pena de reclusão, ressalto que a vedação da
conversão em penas restritivas de direitos (art. 33, § 4.º, da Lei n.º 11.343/06) já era
considerada inconstitucional. A eficácia do dispositivo legal foi expressamente afastada
com a Resolução n.º 05, de 2012, do Senado Federal. O réu é primário, os requisitos do
artigo 44 do Código Penal estão preenchidos e, observadas as circunstâncias do artigo
59 do CP, adequada e suficiente a substituição da pena de reclusão por duas restritivas
de direito, sendo uma de prestação de serviço à comunidade e outra de limitação de fim
de semana. PENA DE MULTA. Mantida a condenação ao pagamento de prestação
pecuniária, alterado, entretanto, o índice imposto ao réu na mesma proporção da
privilegiadora (1/2), fixada em 250 dias-multa, à razão de 1/30 do salário mínimo vigente
na data do fato. RECURSO PARCIALMENTE PROVIDO. (Apelação Crime Nº
70051246841, Terceira Câmara Criminal, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Jayme
Weingartner Neto, Julgado em 13/12/2012).
Em 28/05/2013 foi aprovada pela Câmara de Deputados a proposta de lei n.º
7.663/2010[8]que altera os dispositivos da lei 11343 06 e atualmente se encontra em
trâmite junto ao Senado Federal.
O projeto traz dentre várias modificações, as mais significativas são a alteração
da pena mínima para os crimes de tráfico que passa de 05 para 08 anos, a internação
involuntária de viciados em drogas e autoriza o repasse financeiro a unidades de
tratamento a usuários.
Segundo o site Congresso em foco[9]“Familiares ou responsáveis legais poderão
requerer a internação de um dependente de drogas mesmo sem o seu consentimento.
Para isso, um médico ou um servidor público da área da saúde ou da assistência social
deverá autorizar o tratamento para desintoxicação em uma unidade de saúde pública,
por no máximo 90 dias. As polícias não poderão agir nestes casos, ou seja, elas não
poderão recolher usuários das ruas e encaminhar para a internação. Para a deputada
Érika Kokay (PT-DF) a medida configura a restrição dos direitos da pessoa internada,
pois ela não poderá deixar o tratamento sem prévia autorização. “Na medida em que se
coloca um dependente em um local em que a segurança deve ser aumentada para
garantir que ele não fuja isso é cárcere”, afirmou.”.
Em contraponto, o site do renomado jornal Gazeta do Povo[10]alertou para o fato
de que a aprovação deste novo projeto de lei só irá causar aumento na já insustentável
lotação do sistema carcerário.
Para cada traficante preso surgiam mais 05 em seu lugar, de criminosos bem
armados e com poder patrimonial os traficantes começaram a se apresentar também
como cidadãos de baixo potencial econômico.
A superlotação das casas prisionais somada ao aumento da violência gerada
pelo tráfico de drogas, o aumento do número de usuários e os protestos populares pela
liberação de drogas como a maconha e pelo fim da guerra gerada entre policiais e
traficantes começaram a gerar dúvidas sobre a aplicação e a efetividade da norma
antidrogas.

CAPÍTULO II
O COMBATE ÀS DROGAS FORA DO BRASIL
Neste capítulo traçaremos uma linha sobre o que aconteceu em alguns países
citando o modelo utilizado em Portugal, Holanda e Suíça e as consequências da
mudança das leis de drogas nestes países, além da influência que causam a outras
nações.
O primeiro modelo a ser analisado é o modelo dos nossos colonizadores.
O modelo Português tem se firmado como um dos mais ousados no mundo e já
foi replicado por países como Argentina, México e República Tcheca.
Desde 2001 o uso de drogas no país foi descriminalizado, sendo que os usuários
passaram a ser considerados como doentes, recebendo assistência médica e social.
A venda e produção das drogas continuam proibidas no país, havendo penas e
sanções criminais aos produtores e traficantes de drogas.
A legislação portuguesa definiu uma quantidade de drogas máxima como sendo
a necessária para até 10 (dez) dias de uso, quando um cidadão é encontrado com tal
quantia de entorpecentes, seu caso é avaliado por uma comissão composta de
psiquiatra, assistente social e advogado que avalia o caso e define se o mesmo é
usuário ou não.
Caso seja considerado traficante, este é processado criminalmente. No caso de
ser considerado usuário, o mesmo será condenado a prestar serviços à comunidade,
pagar multa ou será encaminhado para tratamento.
A prevenção e o tratamento às drogas são coordenados pelo Ministério da
Saúde em cooperação com diversas áreas públicas e tem como meta oferecer inclusive
leitos para todos os usuários de drogas que estejam precisando de tratamento.
Outra inovação apresentada pela lei é a chamada redução de danos como, por
exemplo, o fornecimento de agulhas descartáveis aos usuários de drogas, o que reduziu
em 71% a contaminação do vírus HIV entre os usuários de drogas.
Dados de 2006 mostram que a prevalência do consumo de drogas desceu de
14,1% para 10,6% face a 2001 nas idades entre os 13 e os 15 anos, e de 27,6% para
21,6% na faixa etária entre os 16 e os 18 anos.
Os números em Portugal são animadores principalmente pela redução geral do
consumo de drogas no país e pelo aumento dos usuários e dependentes em
reabilitação.
A tática de Portugal se baseou em descriminalizar o usuário e passou a lhe
oferecer tratamento, apoio e reinserção social.
Segundo João Goulão, presidente do Instituto Português da Droga e
Toxicodependência (IDT) definiu a estratégia como “O Estado passou a perseguir a
doença e não o doente.”.
Muitas das criticas lançadas quando da aprovação da lei no país diziam respeito
ao fato do temor de Portugal se tornar um modelo como a Holanda, onde muitos turistas
passam a procurar o país com o intuito principal de fazer uso dos entorpecentes.
A politica holandesa com as drogas é fonte de curiosidade, criticas, elogios e
especulações há quase 30 anos.
A lei na Holanda entrou em vigor em 1976 e sua principal inovação é o fato de
que a norma buscou diferenciar os tipos de droga pelo mal que causam a saúde do
usuário.
Segundo a lei as drogas de risco aceitável, a maconha e o haxixe, são
permitidas enquanto as drogas de risco inaceitável, consideradas a cocaína, LSD,
Heroína e Anfetaminas) são proibidas.
Um fato curioso é o de que o álcool, droga permitida em suma maioria dos
países ao redor do mundo é considerada droga de alto potencial de risco à saúde na
Holanda e é controlado pelo governo por tal razão.
Outras peculiaridades da lei Holandesa são os fatos de que a quantidade
permitida para cada usuário é a de 05 gramas de maconha ou haxixe, acima desta
quantidade os usuários são presos.
Por essa razão os famosos cafés ou coffee shops que vendem esta quantidade
da droga são encontrados por toda parte e o consumo destas substâncias é tolerado no
interior destes locais.
Os cafés são regulados por leis rígidas, que controlam a quantidade permitida de
drogas leves e as condições nas quais podem ser vendidas e usadas. Os cafés não
podem fazer publicidade das drogas. Pessoas com menos de 18 anos não podem
comprar drogas e não podem entrar em cafés
Além, o consumo das drogas é proibido em locais públicos e a venda de drogas
na rua é proibida.
Segundo o site oficial holandês no Brasil (www.holland.com/br) Os holandeses
reconhecem que é impossível proibir as pessoas de usarem drogas totalmente. Por isso,
os cafés têm autorização para vender pequenas quantidades de drogas leves. Essa
abordagem pragmática faz com que as autoridades possam se concentrar nos grandes
criminosos, que lucram com o fornecimento de drogas pesadas.
A lei na Holanda reconhece o problema das drogas como uma constante e busca
a redução da demanda pelas drogas, reconhecendo que tal problema não possui uma
solução e, portanto tenta então controla-lo ao invés de combatê-lo.
Na Suíça a politica se iniciou como combate ao uso da heroína, maior droga
utilizada no país e a partir de 1994 passou a utilizar uma politica de prevenção de danos
criando programas de administração da heroína e salas especiais para aplicação das
injeções. Cerca de 3 mil usuários problemáticos dessa droga (entre 10% e 15% dos
dependentes e entre 30% e 60% dos consumidores) passaram a recebê-la gratuitamente
O número de novos usuários caiu de 850 em 1990 para 150 em 2005. E cerca
de 1/3 dessas pessoas deixaram a droga espontaneamente sem nem mesmo um
tratamento associado. A política fez com que o mercado ilegal de heroína se
inviabilizasse e levou a uma queda de 90% nos crimes contra a propriedade cometidos
por participantes do programa do governo.

CAPITULO III
O USO DE DROGAS NO BRASIL
Mesmo com o aumento do rigor, o uso de drogas apenas aumentou em nosso
país.
Segundo os dados levantados pelo I Levantamento Domiciliar Sobre o Uso de
Drogas Psicotrópicas no Brasil [11], realizou serviço relevante ao levantar dados
empíricos sobre a utilização de entorpecentes no Brasil.
A pesquisa apontou que cerca de 19, 4% da população brasileira faz uso de
alguma espécie de droga com exceção do tabaco e álcool
Segundo o levantamento este é o percentual da população em relação à espécie
de entorpecente: ÁLCOOL 68,7 %, TABACO 41,1 % MACONHA 6,9 % SOLVENTES 5,8
%, OREXÍGENOS 4,3 %, BENZODIAZEPÍNICOS 3,3 % COCAÍNA 2,3%, XAROPES
(codeína) 2,0 % ESTIMULANTES 1,5%.
Cabe aqui transcrever os oito achados considerados importantes pela
pesquisa:[12]1. 19,4% da população pesquisada já fizeram uso na vida de drogas,
exceto tabaco e álcool, o que corresponde a uma população de 9.109.000 pessoas. Em
pesquisa idêntica realizada nos EUA, essa porcentagem atingiu 38,9% e, no Chile,
17,1%.
2. A estimativa de dependentes de álcool foi de 11,2% e de tabaco 9,0%,
correspondem a populações de 5.283.000 e 4.214.000 pessoas, respectivamente.
3. O uso na vida de maconha aparece em primeiro lugar entre as drogas ilícitas,
com 6,9% dos entrevistados. Comparando-se esse resultado a outros estudos, pode-se
verificar que ele é bem menor do que em países como: EUA (34,2%), Reino Unido
(25,0%), Dinamarca (24,3%), Espanha (22,2%) e Chile (16,6%). Porém, superior à
Bélgica (5,8%) e à Colômbia (5,4%).
4. A segunda droga com maior uso na vida (exceto tabaco e álcool) foram os
solventes (5,8%), porcentagem bastante próxima à encontrada nos EUA (7,5%) e
superior à encontrada em países como: Espanha (4,0%), Bélgica (3,0%) e Colômbia
(1,4%).
5. Surpreendeu o uso na vida de orexígenos (medicamentos utilizados para
estimular o apetite), com 4,3%. Vale lembrar que não há controle para a venda desse
tipo de medicamento.
6. Entre os medicamentos usados sem receita médica, os benzodiazepínicos
(ansiolíticos) tiveram uso na vida de 3,3%, porcentagem inferior à verificada nos EUA
(5,8%). Quanto aos estimulantes (medicamentos anorexígenos), o uso na vida foi de
1,5%, porcentagem próxima a de vários países, como: Holanda, Espanha, Alemanha e
Suécia (ao redor dos 2%), mas muito inferior aos EUA (6,6%).
7. A dependência para os benzodiazepínicos (medicamentos para tirar a
ansiedade) atingiu 1,1% dos moradores das 107 cidades pesquisadas, seguida pela
dependência de maconha (1,0%), de solventes (0,8%) e de anfetamínicos (substâncias
anorexígenas que tiram o apetite, com 0,4%de dependentes).
8. O uso na vida de heroína, no Brasil, foi de 0,1%, cerca de dez vezes menos
que nos EUA (1,2%). Vale lembrar que a precisão da prevalência do uso na vida para
heroína foi muito baixa (vide Metodologia).

CONCLUSÃO:
A análise da lei de drogas no Brasil ao longo do tempo mostrou que nosso país
sempre se preocupou com o problema sanitário do uso das drogas.
A comparação da lei brasileira com as normas consideradas de vanguarda
apresentou que o caminho que estamos seguindo já não é o mais viável eis que os
projetos atuais de mudança da lei buscam apenas aumentar as penas e não atacam a
verdadeira falha, a falta de prevenção.
Segundo o Departamento Estadual de Narcóticos do Estado do
Paraná[13]existem 03 espécies de prevenção, a primária, secundária e terciária.
A prevenção primária trata-se daquela realizada em um primeiro momento em
escolas e na própria casa, é aquela realizada pelos pais através do diálogo franco e
principalmente pelos exemplos e pelos professores através da inclusão do tema em sala
de aula, como forma de impedir os jovens a vontade de experimentar os ilícitos.
O objetivo da prevenção primária é evitar a ocorrência da experimentação, do
uso, do consumo de drogas e do problema que isto envolve, isto é, diminuir a incidência.
É prevenir o uso da droga antes que ele comece (antes do primeiro contato com o
produto)
Segundo a mesma fonte, a prevenção secundária trata-se de “Certificado que
indivíduos ou grupos têm feito uso habitual de drogas, faz-se uma abordagem distinta a
fim de buscar a interrupção, a suspensão deste uso. Este conceito é aplicado para
medidas que visem interromper o consumo quando este surge. A família ou instituição
deve se abrir para o diálogo e esperar o momento certo para intervir.”.
E no mesmo tom define a Prevenção Terciária: “Caracteriza-se por ações que
busquem contrapor-se ao consumo de drogas que caracteriza dependência. Busca
motivar os dependentes a buscar as medidas necessárias para o engajamento em um
processo motivador de recuperação, a buscar tratamento. Busca-se nesta o incentivo do
indivíduo e da família a acreditarem no processo de recuperação a colaborarem na
reintegração social.”.
A repressão se inicia com a penalização do ato de vender ou distribuir
substâncias que são consideradas ilegais e é aplicada pelo controle social através dos
agentes, em suma as forças policiais.
Sua característica principal é levar a prisão dos traficantes, diminuindo
consequentemente a oferta de drogas para os usuários.
Segundo Ana Lúcia Pottes[14]o modelo do medo representado pela repressão
acarreta: a) Preocupação em controlar a oferta de drogas ilícitas, com pretensão de
acabar com as drogas. (controle da oferta) b) Criminalização do usuário de drogas, com
abordagem policial centrada nas drogas ilícitas. (controle externo); c) Ênfase no medo e
nas ameaças, promovendo impotência e a inércia. (amplificação da violência que gera
insegurança e paralisia); d) Prevenção centrada na fuga do problema, usando um
discurso estereotipado e amedrontador, impondo posturas e decisões autoritárias.
(repressão); e) Envolvimento com drogas visto como um problema pessoal, tratado como
um processo patológico individual. (questão individual); f) Isolamento dos usuários do
convívio social, transferindo o problema para os especialistas. (soluções hierarquizadas
e parciais); g) Problema reduzido à questão do produto, atribuindo poder a substância,
sem considerar o sujeito e o contexto. (abordagem isolada)
A parte repreensiva da lei brasileira demonstrou-se falha, frente às pesquisas
que só mostram que o número de usuários aumenta acompanhado da violência, do
poder dos traficantes e da superlotação das casas carcerárias.
Traçando esse paralelo, nota-se que a prevenção é fator essencial no combate
ao tráfico de drogas, mas a repressão tem seu papel importante ao tentar diminuir a
prática do delito.
A parte repreensiva já faz sua parte, sendo que a falta principal da lei brasileira é
tratar o problema de drogas como um problema de saúde pública, realizando campanhas
de grande abrangência como as da AIDS, Alcoolismo e tantas outras.
A partir do momento em que o problema das drogas for ensinado aos jovens que
ainda não experimentaram os verdadeiros malefícios dos entorpecentes e as campanhas
conscientizarem os usuários que podem procurar ajuda, a norma de outros países já
demonstrou que os danos causados pelas drogas serão realmente diminuídos.
Portanto buscar a redução de danos causados pelas drogas é a solução mais
abrangente para o problema brasileiro, através da prevenção e do tratamento clinico aos
drogo dependentes se conseguirá a redução da demanda e por sua vez da oferta.
Não obstante isto, um dos maiores problemas da nação criados pela droga, o da
violência, também será drasticamente reduzido, apontando ser esta a solução definitiva
para tais problemas.

BIBLIOGRAFIA:
Artigos:
Júnior, Norberto Coutinho, Controvérsias a Respeito da Eficácia da Lei
Antidrogas, disponível em
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NOTAS
[1]Disponível em http://pt.wikipedia.org/wiki/Guerra_contra_as_drogas, acesso
em 25/10/2013 às 19h00min;
[2]Pedrinha, Roberta Duboc, NOTAS SOBRE A POLÍTICA CRIMINAL DE
DROGAS NO BRASIL: ELEMENTOS PARA UMA REFLEXÃO CRÍTICA, disponível em
http://www.conpedi.org.br/manaus/arquivos/anais/salvador/roberta_duboc_pedrinha.pdf,
acesso em 21/12/2013 às 21h00min.
[3]Degredado é um termo português para um condenado ao exílio, situação
corrente nos séculos XV a XVIII.
[4]BATISTA, Nilo. Politica criminal com derramamento de sangue. In.: Revista
Brasileira de Ciências Criminais. Nº 20. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1997.
[5]Referência Nota de Rodapé 2
[6]CARVALHO, Salo de. A política criminal de drogas no Brasil: do discurso
oficial às razões da descriminalização. 2ª. Edição. Rio de Janeiro: Luam, 1997
[7]Lei 807290
[8]Anexo 01
[9]Pena maior para traficantes vai para o senado, Sitio Congresso em foco,
disponível em http://congressoemfoco.uol.com.br/noticias/pena-maior-para-traficantes-
de-drogas-vai-ao-senado/ acesso em 27 08 2013 às 18h30min;
[10]Nova lei de drogas vai aumentar a lotação do sistema carcerário, Gazeta do
Povo, disponível em
http://www.gazetadopovo.com.br/vidaecidadania/conteudo.phtml?id=1377335, publicado
em 30/05/2013, acesso em 10/01/2014 às 23h25min;
[11]Anexo II
[12]Vide Nota 12
[13]Disponível
em http://www.denarc.pr.gov.br/modules/conteudo/conteudo.php?conteudo=26, acesso
em 11/01/14 às 20h27min;
[14]Pottes, Ana Lúcia, Prevenir é melhor que remediar: ou trabalhando a
prevenção de drogas na escola e na família, disponível
emhttp://www.angelfire.com/psy/gilbertolucio/prevencao.html, acesso em 04012014 às
22h00min horas;