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JEOVANE VICENTE DE SOUZA

UMA NOVA IDENTIDADE HOMOSSEXUAL EM FINS DE 1970:


o Lampião da Esquina

2019
AGRADECIMENTOS

Agradeço a minha mãe, Elizabeth, e a meu pai, José, pelo apoio e suporte que me
permitiram caminhar até o final deste curso, a eles meu respeito;
Agradeço a meu orientador, Paulo, por aceitar o convite de orientação, pela paciência,
por sua intelectualidade e por seu acolhimento durante todo o nosso trabalho;
Agradeço a Sabrina Alves e Weiller Almeida pelos longos debates que realizamos
juntos nos últimos meses, que muito me ajudaram no amadurecimento enquanto
pesquisador e professor;
Agradeço a professora Janira, pelos diálogos que me permitiram novas perspectivas
de temáticas;
Agradeço a professora Taise por suas aulas de moderna, cujas discussões ampliaram
os debates realizados em sala;
Agradeço ao professor Rafael, por sua receptividade em Estágio, no qual eu realizei
minhas aulas em sua turma, trabalhando parte da minha temática deste presente
trabalho.
RESUMO

O objetivo deste trabalho é fazer uma análise sobre as pautas que o movimento
homossexual brasileiro debatia no período do regime civil militar brasileiro, e como
estas sensibilizam no meio social a construção de uma nova identidade em torno da
homossexualidade. Os anos de 1970 foram transformadores, novos comportamentos
e questionamentos sobre a ordem surgem, grupos sociais até então pouco ouvidos,
passam a exigir espaço e a lutar por reconhecimento e respeito perante a sociedade.
Com o aprofundamento das repressões e perseguições policiais, os homossexuais
brasileiros partem para um embate direto contra a heteronormatividade, e
perceberemos isto com a criação de grupos de ativismo, protestos de rua e criação de
jornais voltados a este público. Nessa perspectiva, usaremos o periódico alternativo
Lampião da Esquina e sua seção Cartas na Mesa para compreender o novo
posicionamento homossexual.

Palavras-chave: Homossexualidade, Lampião da Esquina, Imprensa Alternativa


SUMÁRIO

INTRODUÇÃO 06

1. O REGIME CIVIL MILITAR E A HOMOSSEXUALIDADE: UMA RELAÇÃO


COMPLEXA 09
1.1 Da Esquerda a Direita: Virilidade e Conservadorismo 13
1.2 Consolidação do Movimento Gay e Repressão do Regime 16
2. Um Contexto Efervescente: Imprensa Alternativa e Novos 22
Questionamentos 22
2.1 Lampião da Esquina 26
2.2 A seção de cartas do Lampião 29
3. Por Uma Nova Identidade Homossexual 38
CONCLUSÃO 50
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS 52
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INTRODUÇÃO

O presente trabalho, de nome “Uma Nova Identidade Homossexual em fins de


1970: o Lampião da Esquina” procurará refletir sobre como as temáticas da
homossexualidade e de alguma forma sobre as identidades de gênero, estavam
inseridas no debate público na sociedade do século XX, especificamente nos anos do
regime civil militar brasileiro. O recorte nos anos de 1978 e 1979 se deve ao fato de
que as fontes analisadas foram especificamente destes anos, final da década de 70
com uma abertura política cada vez mais possível, mas com uma repressão as
diversidades ainda fortemente presente. Abordaremos também sobre o papel da
imprensa no processo de fortalecimento do movimento homossexual, usando como
exemplo e fonte o próprio Lampião da Esquina, jornal de vertente alternativa.

Que identidade estará sendo construída pelos homossexuais sobre eles próprios
neste contexto? Esta é a problemática desta pesquisa, procuraremos entender do
ponto de vista histórico, como o período dos anos do regime mobilizaram a
população gay, e em que medida, através de seu ativismo, foi possível construir uma
nova identidade de si, e que mensagem este grupo social desejou transparecer para a
sociedade. Nosso objetivo aqui é entender como o movimento gay – em face da
marginalização que enfrentava – e em contato com o discurso militante da imprensa
alternativa, especialmente o Lampião da Esquina, ressignificava sua própria
identidade coletiva. Esse processo, levado a cabo durante o período da ditadura civil
militar, resultou em uma efervescência cultural ligada à militância e ao engajamento
com a causa homossexual.

Apesar de já existirem estudos preocupados em voltar seus olhares para essa


questão, justificamos esta pesquisa pelo fato destes estudos serem recentes, o que
abre espaços para problematizações a serem feitas em relação a população gay, tanto
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sobre suas diversidades e divergências políticas quanto pelo tratamento dado pelo
regime aos gays. Pelo ponto de vista social, estamos vivendo um momento ímpar,
onde as discussões sobre sexualidade e gênero estão postas de forma mais aberta, o
movimento LGBT conquistou maior espaço e mais direitos. Por outro lado uma onda
conservadora que vem crescendo no país, se movimenta em uma tentativa de barrar
as conquistas sociais deste grupo. Para isto, o trabalho será dividido em três capítulos.

O primeiro capítulo, intitulado “Regime Civil Militar e Homossexualidade:


Uma Relação Complexa”, procurará compreender como a homossexualidade estava
inserida no âmbito social daquele período. O objetivo será observar de que maneira a
sociedade e os grupos políticos, tanto das esquerdas como das direitas lhe davam com
a diversidade sexual e como a heteronormatividade estava circunscrita naquele
contexto histórico.

Para isto, uma autora que será importante para a pesquisa, é a historiadora
Jacqueline Ribeiro Cabral, que realiza uma reflexão sobre as censuras sofridas por
LGBT’s - sigla usada pela própria autora - pelos governos militares. Desde as
perseguições policias realizadas em bares, desde a construção de um discurso que
enquadra a homossexualidade a subversão comunista. James Green será outro autor
que nos auxiliará neste primeiro capítulo, principalmente por expor em suas reflexões
que os ideais de virilidade e o conservadorismo de uma sociedade heterossexual, fez
com que tanto as esquerdas como as direitas foram discriminatórias para com gays,
lésbicas, travestis, bissexuais e pessoas trans. Mas também para compreendermos a
consolidação de um movimento gay.

No segundo capítulo, de nome “Um Contexto Efervescente: Imprensa


Alternativa e Novos Questionamentos”, focaremos nossa pesquisa em dois
momentos. No primeiro iremos discutir o que vem a ser essa imprensa alternativa,
suas variadas formas de atuação e suas diversas vertentes. Iremos nos basear em
autoras como Patrícia Marcondes de Barros, que nos traz para o debate a imprensa
alternativa como um meio de caráter questionador, e também Bruno Brasil que nos
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apresenta duas importantes e diferentes imprensas alternativas, como a de política de


esquerda e a existencialista.

No segundo momento deste mesmo capítulo, evidenciaremos nossa escolha


metodológica, que será realizar as análises das fontes, que para a presente pesquisa,
foram algumas missivas enviadas ao Lampião da Esquina entre os anos de 1978 e
1979. Adotamos esta metodologia por compreender que as missivas trazem em suas
palavras, importantes contribuições para pensar as questões de identidade, as
intenções de quem as escreve e a imagem que estes deseja revelar de si. Para isto,
teremos como fundamentação teórica Michel Foucault e Ângela de Castro Gomes.

O terceiro capítulo de título, “Por Uma Nova Identidade Homossexual”, será


central para refletirmos sobre a construção desta nova identidade acerca da
homossexualidade. Primeiro realizaremos as discussões sobre o próprio conceito de
identidade, sob a luz de Manuel Castells, que problematiza o conceito e faz
argumentações sobre como um grupo social ou um indivíduo criaria sua identidade, e
a do outro. Também usaremos Tomaz Tadeu da Silva, que pensa a relação entre
identidades e diferenças. Erving Goffman e Edward MacRae também são importantes
autores para o capítulo, por refletirem sobre estigma e identidade política e sexual,
respectivamente.

No que diz respeito a questões teóricas, o presente trabalho procurará


compreender as questões de identidade, homossexualidade e imprensa alternativa, por
um viés cultural e político, para assim possibilitar uma compreensão sobre como a
heteronormatividade enquanto ideal, estava disseminada socialmente nos mais
variados grupos sociais. E como já foi dito, metodologicamente optamos pelos
trabalhos com as missivas e também com as respostas dadas pelos editores - em nome
do jornal - a cada uma delas. Assim, estabelecendo uma relação entre quem envia
cartas ao Lampião e as respostas que o jornal lhes dá. A partir dessa conexão
buscaremos entender como o posicionamento do Lampião interfere, ou bsca
interferir, na vida e ideias dos leitores, a fim de transformá-los.
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1. O Regime Civil Militar e a Homossexualidade: Uma Relação


Complexa

Quando voltamos nossos olhares para o Regime Civil-Militar Brasileiro,


realizando na discussão um recorte para as questões de sexualidade e tratando aqui
especificamente a homossexualidade, percebemos uma diversidade de trabalhos que
se propõem a problematizar em que ponto esse debate estava posto nos anos de
ditadura. Dentro dos anos de 1964 a 1985, muitas mudanças começaram a surgir
dentro do país, tanto em questões econômicas, político e culturais, muitas inclusive
ganharam força graças a influências em grupos e movimentos que estavam se
posicionando em países como os Estados Unidos. Para além disto, muito se aborda
sobre homossexualidade, pensando como o Movimento Gay brasileiro inicia
“tardiamente” a se posicionar, a reivindicar direitos, relacionando essa movimentação
a aquilo que chamamos de Revolução dos Costumes1.

Observando este quadro apresentado, muitos trabalhos possuem a preocupação


de compreender qual a relação do Estado naquele período com os homossexuais, e
como o próprio Movimento Gay se articulou nos anos de repressão a liberdades
individuais, para reivindicar um novo olhar da sociedade para o Movimento. Muito se
aponta para uma existência de uma repressão estatal destinada a população
homossexual2, da existência de uma política do governo militar para reprimir toda e
qualquer liberdade de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, como bem
aponta a historiadora Jacqueline Ribeiro Cabral:
Os conjuntos documentais aos quais a Comissão Nacional da Verdade teve
acesso registram a prática sistemática de rondas policiais para ameaçar e
prender gays, lésbicas e travestis, sobretudo estas últimas, alvo preferencial
de torturas, espancamentos e extorsões. Só na cidade de São Paulo, o
Relatório da CNV estima que este tipo específico de “higienização” tenha

1 Durante os anos de 1960 e 1970, nos Estados Unidos se inicia um movimento de questionamento cultural,
visando romper com padrões de consumo e com as regras de gênero e sexualidade. O movimento ficou
conhecido como Reolução dos Costumes.
2
No contexto em questão, a expressão homossexual era em grande medida usada para designar a todos os
que hoje conhecemos por LGBT’s, ou seja, lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transgêneros.
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levado pelo menos 1.500 pessoas às cadeias e porões da ditadura


(CABRAL, 2015, p. 141).

Sendo assim, compreendemos que a sociedade brasileira neste contexto


histórico – de base conservadora com cunho religioso – terá estes valores sendo
refletidos na forma de ação do Estado para com a população homossexual e não
invenções da própria ditadura militar. (CABRAL, 2015, p.136) A censura à
homossexualidade se faz presente há muito mais tempo, porém, estas ações de
repressão são intensificadas nos anos do regime, que se colocou muito fortemente
contrário às alteridades normativas ou ao que considerasse oposição. Porém, é
importante destacar que a autora também nos lembra da perseguição cometida pelo
regime aos chamados comunistas, e todos aqueles que fossem adeptos a este
pensamento ou o governo considerasse como comunistas ou aliados a estes, teria que
prestar contas junto ao regime. (CABRAL, 2015, p.141) Estabelecido isso, muitas
dúvidas são colocadas sobre uma perseguição a sexualidade de pessoas não
heterossexuais, se havia uma política do regime militar para censurar estas pessoas,
com foco apenas em sua sexualidade. Também se questiona se os fatores que levaram
o regime a uma preocupação com esta parcela da população não estariam articulados
com a ideia de ligar a população homossexual a subversão comunista, um reflexo do
conservadorismo social, que denunciava a todo momento com apoio da Igreja, todo e
qualquer movimento homossexual de posicionamento político, de questionamento da
ordem. (CABRAL, 2015, p.140)

Pensar as condições de vida da população não heterossexual, o próprio


movimento homossexual e sua relação com o contexto de ditadura, envolve uma
abordagem que tenha como horizonte de problematização não apenas a relação desta
população com a o governo enquanto instituição. É necessário questionar o contexto
do regime civil militar como um todo, os valores sociais presentes no contexto e que
estão interiorizados nos indivíduos da sociedade, nas instituições. Pensar
historicamente, como todo aquele contexto se relacionou com a diversidade sexual
emergente no debate político. Isto se faz importante para não cairmos em dicotomias,
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como idealizar as esquerdas políticas deste período histórico como abertas a toda e
qualquer diversidade, e demonizar as direitas como únicas responsáveis pela
disseminação de estereótipos e preconceitos.

Não podemos perder de vista que a temática da homossexualidade de alguma


maneira já está posta em debate muito antes da década de 1960. No final do século
XIX, quando o conceito de homossexual3 foi criado, muito se discutia se os
homossexuais seriam apenas doentes e pecadores. Mas pouco podemos falar sobre
um posicionamento político organizado dos homossexuais, por se tratar de algo muito
novo para a sociedade, não falando aqui apenas de relações sexuais entre pessoas do
mesmo sexo, mas para além disto, de um novo sentido para estas relações, pensando
o afetivo, o sexual, uma nova identidade e um novo significado que surge junto com
o conceito de homossexualidade. Tudo isto para pensar que os debates sobre o tema
não se inauguram nos anos de 1960, porém é neste período que eles se intensificam, e
aqui se faz necessário a contextualização de como este ganha força e do próprio
surgimento de um movimento homossexual organizado, de luta por direitos e
igualdade dentro do contexto do regime civil militar brasileiro.

Primeiramente, é nítida uma movimentação fora do Brasil, especificamente nos


Estados Unidos, principalmente a partir da década de 1960, de grupos sociais que
estão se posicionando pelas liberdades e pelas diversidades de vivências, exigindo
respeito aos seus corpos, aos seus gêneros e suas formas de viver o sexo. O
movimento feminista ganha muita força neste período, e junto às suas reivindicações
há também o surgimento do movimento gay, pautando o fim da violência aos
homossexuais, a garantia de direitos de viver livremente sem a repressão social, seja
através da religião, do Estado com o uso do aparato policial, e também pelo fim de
uma visão patológica para aqueles que estão fora da lógica heterossexual. Esse novo
contexto de surgimento de reivindicações que pautam não apenas discussões de
classe, mas uma revolução nos costumes, traz junto consigo uma reação social

3O conceito homossexual foi criado pelo advogado e também ativista, Karl Maria Kertbeny, como parte de
um sistema de classificação de tipos sexuais, para dar lugar ao termo pederasta, ao se referir a homens que
sentem atrações por outros homens. Ele usou publicamente o termo pela primeira vez em 1869.
12

tamanha, e de todos as partes possíveis. De um lado uma direita que acusava esses
movimentos como “vagabundos”, ou de uma esquerda que os aponta como “vícios
burgueses”, logo não mereciam destaque, muito menos espaço nos debates
considerados revolucionários (GREEN, 2015, p. 70).

Perante todo este quadro apresentado até aqui, temos então, principalmente no
final dos anos de 1970 no Brasil, o início de uma organização política por parte dos
homossexuais, em grande medida influenciados por esta experiência vivenciada nos
Estados Unidos. Essa experiência ganha tamanha visibilidade, que até mesmo parte
da mídia brasileira passa a noticiar, mas muito pontualmente, os acontecimentos
envolvendo os homossexuais estadunidenses, como nos mostra o autor James N.
Green. Em uma de suas obras, ele apresenta que os acontecimentos de Stonewall4 e
marchas dos homossexuais pela cidade de Nova Iorque, que acabou em confronto
com a polícia, foram noticiados em terras brasileiras.

Veículos como O Jornal da Tarde, em São Paulo, O Globo e o Jornal do


Brasil, deram devidas atenções aos protestos no país norte-americano. Anos mais
tarde, em 1977, a revista Veja também publicou uma longa reportagem sobre como o
movimento homossexual estava crescendo, mas em nenhum momento abordou a
situação do mesmo movimento nas terras brasileiras. Apesar disso, algumas coisas
estavam acontecendo no Brasil antes mesmo de Stonewall. Para os homossexuais
brasileiros algumas mudanças já estavam em movimento, como podemos ver com
James Green.

Em 1963, Agildo Guimarães editou uma das primeiras publicações para


homossexuais masculinos no Brasil: O Snob. A expressão foi escolhida
porque, segundo ele, ‘era muito usada pelas bichas naquela época’. Para a
realidade brasileira, pode-se dizer que o jornal teve vida longa: com 99
números regulares e uma edição “retrospectiva”, foi publicado de julho de

4 A Revolta de Stonewall ocorreu em Manhattan, em New York. Na qual gays, lésbicas, travestis e
bissexuais se revoltaram e protestaram contra a frequente e invasiva ação policial que ocorria no bar de
mesmo nome.
13

1963 a junho de 1969, ano em que o endurecimento do regime militar levou


a sua extinção (GREEN, 2004, p. 155)

Um ano antes de sua extinção, havia sido decretado pelo regime o Ato
Institucional Número 5, que restringiu direito civis e políticos, endurecendo a atuação
do regime e de maior perseguição as oposições, e ao que fosse considerado um
atentado a moral e aos bons costumes. Isso nos ajuda a entender a própria extinção do
jornal, e as dificuldades que lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais vão
encontrar a partir de 1968 nas suas relações com o regime militar.

1.1 Da Esquerda a Direita: Virilidade e Conservadorismo


Uma sociedade de valores patriarcais, machistas e de pouca abertura para a
diversidade sexual, de valores baseados na heteronormatividade5, de grande
influência da religião, que não necessariamente possui apenas fiéis conservadores de
direita, mas também muitos da luta armada ou de outros grupos da esquerda
carregavam consigo valores religiosos e patriarcais. Estes ideais, muito mais do que
hoje, eram não só vigentes como amplamente aceitos, se misturavam com muita
facilidade e eram reproduzidos nas relações pessoais, nas instituições. Todos esses
elementos tornaram o processo de aceitação e assunção pública da homossexualidade,
um caminho de difícil escolha para os gays, que na certa seriam rechaçados
publicamente, com risco de perseguição e morte, ou de serem expulsos dos grupos de
luta da esquerda.
Direcionando o nosso olhar para os grupos de esquerda no contexto de regime
militar, o ideal defendido por muitos era o de combate direto contra o sistema, até
mesmo de desobediência civil, de pegar em armas e fazer a sonhada revolução. E
como James Green aponta, a revolução seria feita por homens fortes e viris, sem

5Heteronormatividade, do grego hetero, “diferente”, e norma, “esquadro” no latim, é um conceito com base
nos estudos sobre teoria Queer, que reflete sobre como orientações sexuais diferentes da considerada padrão,
a heterossexual, são colocadas a margem, vistas como anormais perante a sociedade. Os primeiros usos do
conceito podem ser encontrados no ano de 1991, com o crítico literário Michael Warner
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medo, que vão à guerra defender seu ideal, este homem não pode ser fraco e não
desviar de seu caminho, e este homem é heterossexual. Sendo assim, mulheres não
fazem a revolução, eleas podem apoiá-la, e os gays não só não podem fazer a
revolução como são considerados antirevolucionários, pois se desvia do caminho
natural, é menos homem, é menos macho.

Um caso que explicita muito bem isto, apresentado também por James Green, é
o de Carlos e Mário, dois membros de um grupo armado revolucionário, que no ano
de 1972 foram presos por estarem cometendo “atividades subversivas”. Porém,
boatos começaram a aparecer de que ambos estavam mantendo relações sexuais
dentro da prisão, e membros do mesmo grupo revolucionário os isolaram e chegaram
a cogitar um “justiçamento”6 para ambos. Porém, Ivan Seixas, outro guerrilheiro que
também estava preso, presenciou Carlos enfrentar dentro da cadeia os parceiros
prisioneiros do mesmo grupo de luta, e segundo Seixas, Carlos teria dito:
Quem é o machão que vai me matar? Eu quero saber, porque eu conheço a
vida de todos vocês. Você abriu isso, isso e isso. Você falou isso. Você
entregou fulano. Tá aqui o meu depoimento... Vê se vocês encontram alguém
que caiu por minha causa. Vê se eu traí! Vê se eu sou traidor. A minha opção
sexual não me impediu de ter um comportamento revolucionário. E vocês
machões, foram os que entregaram (GREEN, 2012, p. 60).

O que Carlos conseguiu aqui, foi romper em certa medida, com o estereótipo
colocado sobre seus desejos sexuais por seus colegas de luta, que o encararam como
doente e traidor da causa. Vejamos bem, como poderia um gay ser revolucionário, se
ele está totalmente fora da norma viril e máscula, tão necessária para a revolução a
ser alcançada. Mas é importante compreender que o fato ocorreu em 1972, o mundo
estava vivendo o “boom” de uma mudança nos comportamentos sexuais, de procura
por uma liberdade tanto por partes das mulheres, como por parte dos homossexuais,
além de toda a força do Rock, da explosão da Tropicália no Brasil, e todo o
engajamento da contracultura. O que isso quer dizer? Havia uma certa divisão entre
os revolucionários de grupos armados, também considerados como pertencentes a

6 Julgamento acompanhado de execução.


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esquerda radical e entre os envolvidos com discussões sobre liberdade sexual e de


costumes, pautas do que consideramos como Contracultura. James Green aponta que:
Rodeados por uma crescente repressão do Estado, os defensores da esquerda
revolucionária geralmente viam aqueles que não se juntavam a eles nas ações
armadas como uma juventude alienada. E aqueles que decidiam deixar suas
organizações como traidores da causa (GREEN, 2012, p. 70).

Essa esquerda se encontrava em uma situação de vigilância e repressão


constante por parte do Estado, entendemos que se enxergava como prioridade a
derrubada do considerado inimigo, ou seja, a própria ditadura, que queria que todo
militante armado fosse entregue. Para essa militância, era necessária uma força
coletiva cada vez maior para a tomada do poder, logo, aqueles que não se
prontificaram a estar nos grupos revolucionários, ou saíssem deles, eram
considerados alienados pelo sistema, que estariam perdendo o foco de mudança e
abraçando causas menores, ou chamadas de antirrevolucionárias. Percebemos que
além de todos os valores sociais que em certa medida se interiorizaram nos
indivíduos, independentemente de suas visões políticas, havia ainda uma questão
prática para os grupos radicais: a de autodefesa e de enfrentamento direto e violento
com os governos militares. O enfrentamento dos outros sujeitos em grande medida,
não era corpo a corpo, mas uma disputa de ideias, uma competição pela opinião do
povo, ou de pelo menos uma mudança nos valores, de rompimento com o excesso de
conservadorismo presente.
Destacamos aqui que o conservadorismo presente na sociedade, será também
reproduzido pelos grupos dominantes e que detém o poder da estrutura vigente. E não
seria diferente em relação a sexualidade. É necessário visualizar essas relações de
poder, para também não cairmos em reflexões que localizem os problemas apenas nos
indivíduos que defendem perspectivas políticas diferentes. E observamos que os
militares não chegaram no poder e se mantiveram nele apenas por iniciativa própria,
mas sim apoiada por uma elite, aparada pela mídia e por parte da Igreja, que ajudaram
a legitimar esse poder, tornando parte da população favorável ao poder militar.
Dessa forma, se por um lado temos um conjunto de ideias construídas
historicamente e carregadas de geração em geração até os anos de ditadura e que se
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encontram presentes em diversos âmbitos da sociedade, temos por outro lado uma
intensificação de determinadas ideias que são disseminadas com objetivo de garantir
a manutenção da ordem. Apesar de as esquerdas terem diferentes projetos políticos e
divergências entre si, algo em comum perpassou por todas, no caso, o inimigo em
comum que era o próprio regime. Enquanto do outro lado, os dos militares, também
construíram um discurso e a imagem do que seria o inimigo da nação, ou seja, o
comunismo.
Com isso, podemos partir para uma análise dos motivos que levaram a
população homossexual a ser frequentemente estigmatizada e colocada a margem da
sociedade, com seus direitos civis, políticos e também sociais negados, e suas vozes
censuradas.

1.2 Consolidação do Movimento Gay e Repressão do Regime

Dentro de uma sociedade com contradições gigantes, onde mesmo grupos


distintos se assemelham no momento de rejeitar a presença e a imagem dos
homossexuais, e de um Estado que nega os direitos a esta população, surge um novo
posicionamento deste grupo. Como já foi dito, em 1963 surgia o Snob, e outras tantas
publicações influenciadas por esse periódico também surgiram, como O Centro,
Darling, Gay Society, Baby, Le Sophistique e Entender, logo o próprio Snob deixou
grande contribuição para encorajar outras iniciativas de publicações para o público
gay.
A censura e repressão do regime militar se intensificou a partir de 1968, se
endurecendo e dificultando que iniciativas como as de Agildo Guimarães também se
tornassem realidade. Os anos de 1968 a 1977 foram de muita perseguição a direitos
políticos e a qualquer manifestação de rua de caráter político, de questionamento da
ordem. James Green nos apresenta um exemplo disto, quando ele aponta que “em
1976, foi marcada uma comemoração do Dia do Homossexual nos jardins do Museu
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de Arte Moderna (RJ), mas o evento não pôde realizar-se em decorrência da


repressão policial” (GREEN, 2004, p. 170). Para termos ideia, no local se
encontravam exatamente 20 carros de polícia e 70 policiais, não para vigiar a
manifestação, mas para inibir a presença de qualquer grupo que se destinasse ao local
para participar da comemoração.
Mas o AI-5, decretado para garantir que o Presidente da República pudesse
caçar os direitos políticos de qualquer cidadão brasileiro, entre outros decretos, foi
extinto no ano de 1978, e já identificamos aqui uma caminhada para a abertura do
regime, que apesar de não ser completa, já era possível enxergar. Isso fica claro no
trecho a seguir, onde James Green discorre sobre as mudanças que ocorreram no
referido

O ano de 1978 foi um ano mágico para o Brasil. Após mais de uma década
do regime militar, a queda dos generais parecia iminente. Centenas de
milhares de metalúrgicos, após anos de silêncio, cruzaram os braços para
protestar contra a política salarial do governo. Estudantes encheram as ruas
das maiores cidades brasileiras com gritos de “Abaixo a Ditadura!”.
Estações de rádio começaram a tocar músicas censuradas, e estas se
tornaram as canções mais populares no país. Negros, mulheres e até mesmo
homossexuais começaram a se organizar, exigindo ser ouvidos. (GREEN,
2000, p.273)

Um dos fatores que nos ajuda a pensar essa abertura, é a própria consolidação
do Movimento Gay no Brasil. É a partir de 1978 é que efetivamente grupos do
orgulho homossexual começam a surgir e se manter na luta, e também voltam a
ganhar força publicações destinadas a este público. Publicações do tipo não haviam
deixado de existir, mas eram rapidamente censuradas pelo governo, porém em 1978
temos o surgimento do jornal Lampião da Esquina, que é o primeiro jornal gay de
circulação nacional e que perdura até 1981. Já em 1979, de um debate realizado no
Departamento de Ciências da Universidade de São, surge o Grupo Somos, de
afirmação homossexual, onde no debate em questão se pautou a organização das
“minorias brasileiras”, e onde a juventude gay denunciou a homofobia presente
também na esquerda. Também houve quem argumentasse que pautas como sexismo,
homofobia, racismo e machismo iriam dividir a esquerda, porém a partir desse debate
o movimento de gays e lésbicas “se assume” de uma vez para a sociedade brasileira.
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Mas falar em abertura do regime civil militar, não significa falar ausência de
repressão, e o emergente Movimento Gay teve que lidar com a fúria da sociedade e
da censura do regime. O Lampião da Esquina, relatou na edição do mês de setembro
de 1980 que teve que enfrentar o Estado, que a partir de agosto de 1978 começou a
investigar as ações do jornal, e foi acusado em 1979 de ofender “a moral e os bons
costumes”, porém houve grande mobilização de intelectuais, pessoas da classe
artística, que resultou na retirada da acusação por parte dos militares. O próprio
periódico denunciou a tentativa de censura por parte do governo, e mais, apontou a
perseguição a ambientes gays, como bares e boates, a truculência com as travestis que
se prostituíam, denunciando a repressão nos âmbitos federal, estadual e municipal
(GREEN, 2004, p.181).
Como em vários momentos foram relatados pelo jornal, policiais paravam com
suas viaturas na frente de boates e bares gays e diziam que “quem é viado entra”, e
automaticamente eram levados para a prisão, geralmente eram liberados, mas passava
algumas noites nas celas das delegacias, por estarem como sempre alegou a justiça,
atentando a moral e os bons costumes. Além disto, as travestis costumavam apanhar
dos policiais, e eram os alvos preferidos da violência destes, e também sofriam
abusos sexuais, várias edições do jornal relataram tais perseguições. Todo um cerco
era montado para reprimir a vida homossexual noturna, muito por denúncia da
comunidade do entorno dos estabelecimentos, e também daquilo que podemos
apontar como higienização (CABRAL, 2015, p.141), de garantir a segurança das
pessoas dos ataques dos chamados subversivos.
O regime interligou a imagem dos homossexuais e travestis a dos comunistas,
logo, para a sociedade, além de pecadores, essa população procurava inverter “a
ordem natural das coisas”, romper com o estabelecido por Deus, e estariam desejando
acabar com a família brasileira, que para o discurso hegemônico, era cristã. Todo esse
ar nocivo para a população gay, toda essa opressão, marginalização e violência,
resultou em uma reação por parte destes indivíduos, que não desejavam ser vistos
como doentes, pecadores e criminosos. Desejavam se mostrar como seres humanos,
que contribuíam para o Estado com impostos, com trabalho e que igualmente
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mereciam direitos como o restante da sociedade, que apesar de possuírem poucos


acessos, estavam em situação de subprivilégio em relação aos gays.
O Lampião da Esquina teve papel importante na vida de gays, lésbicas,
bissexuais e travestis de outras localidades do país, e que tinham condições de
comprar o periódico. Dentro de todo esse bolo da repressão, aqueles indivíduos
silenciados e que não enxergam nenhuma representatividade positiva de
homossexualidade e gênero agora se enxergavam representados pelo periódico. O
jornal recebeu muitas cartas de agradecimento, por trazerem à tona uma nova imagem
para a população do que é ser um gay, e mais, de dar voz para os próprios sujeitos em
questão, onde estes puderam depois de muito tempo falar com mais liberdade.
Podemos observar isto em uma das cartas enviadas para o periódico, para a sessão
“Cartas na Mesa”, escrita pelo pseudônimo A.D.F:
Continuem com estas entrevistas, igual a esta que veio no nº. 2,
principalmente com artista, mesmo que não seja gay [...] Agora, lendo este
jornal, não me sinto como carta fora do baralho, antes eu me sentia
complexado perante todos, agora é diferente. Viva o LAMPIÃO da Esquina.
Desculpem-me os erros, não sou muito de escrever cartas e nunca escrevi
para jornais ou revistas. Bola pra frente, gente.
A.D.F (n.3. p.15. julho/agosto 1978)

Estavam ocorrendo mudanças significativas na sociedade, as condições de


existência e resistência dos homossexuais não foram exatamente as mesmas durante
os 21 anos de regime civil militar, pois o próprio regime começa a perder força no
final dos anos de 1970, sinalizando o seu fim. Assim, podemos voltar a análise da
autora Jacqueline Ribeiro Cabral sobre a censura aos LGBT’s7 nos anos de ditadura e
entender melhor essa relação entre regime e homossexuais. Apesar da autora
compreender e expor que havia uma política de repressão de foco estritamente na
sexualidade dos indivíduos, não podemos perder de vista alguns pontos.
Para o regime, assim como para qualquer outro grupo que esteja no poder,
manter-se nele e proteger seus privilégios é uma preocupação, e para isso é necessário
dialogar de alguma maneira, por mínima que seja, com os anseios da sociedade, com
a maior parte dela. Essa mesma sociedade, pautada na heterossexualidade e no

7
O uso da sigla LGBT’s se deve ao fato da autora a usar em seu texto, não por esta expressão ser recorrente
nos anos do regime civil-militar.
20

machismo e na crença cristã, não poderia e não aceitaria que indivíduos com práticas
tão diferentes se posicionassem em pé de igualdade, e o regime precisava barrar esses
movimentos emergentes para ter alguma legitimidade para com a população.
José Murilo de Carvalho nos diz que para garantir a continuidade no poder, os
militares por mais ditadores que fossem, precisavam do diálogo com a sociedade,
uma das formas de demonstrar esse diálogo como instrumento de garantir uma
legitimidade, eram garantidos alguns direitos sociais para a população (CARVALHO,
2001, p.70). Setores como educação, saúde e saneamento receberam investimentos,
muito limitados e problemáticos, mas receberam, pois, o regime como Carvalho nos
apresenta, por um lado cerceou direitos civis e políticos, porém não poderia cercear
também os sociais, isso poderia gerar reações contrárias por parte da sociedade. Mas
compreendemos que esse diálogo está para além dessa relação entre três direitos
citados, o regime precisa se articular com os valores postos e aceitos pela sociedade
que é conservadora. Atacar todos os direitos dos homossexuais, inclusive os sociais,
censurar suas mídias, impedir suas passeatas, e mesmo no final dos anos de 1970,
ainda que em menor grau, prender gays e vigiar estabelecimentos destinados a este
público, é uma maneira de demonstrar a sociedade que seus valores estão sendo
protegidos, e que mesmo com os limites visíveis, os governos militares estariam
assim atentos as preocupações religiosas e éticas vigentes do povo.
Pensar a relação Movimento Gay e Ditadura Militar, é compreender a
intensificação de uma repressão ao primeiro, de um sufocamento que se tornou um
dos fatores, entre tantos, de reação em peso contra o sistema e contra todas as ideias
sociais pregadas pela ampla sociedade. É pensar também que não se trata apenas de
uma repressão a sexualidade, mas de um Estado que reproduz aquilo que os
indivíduos no poder tiveram de formação enquanto indivíduos, mas também de
contexto histórico muito sensível para o mundo como um todo, que para defesa do
sistema, encontra inimigos em tudo aquilo que questiona uma ordem, uma regra, seja
ela capaz de mudar a estrutura ou não. Reprimir e censurar a população homossexual,
é atacar a diversidade sexual, mas também por questões para além disto, o que está
21

em jogo é a própria legitimidade dos governos frente a população, pautada em uma


estrutura heteronormativa.
No presente capítulo, nos propusemos a pensar esta relação complexa entre as
questões sobre diversidade sexual, dialogando como estava circunscrita no âmbito da
sociedade daquele momento histórico, que foi o regime civil militar, e como as
instituições lhe davam com a temática. A partir de agora, o trabalho abordará as
especificidades da imprensa alternativa, seu comportamento e suas diferentes
vertentes, e já no segundo capítulo também será realizada a análise das missivas,
enviadas ao Lampião da Esquina e publicadas na seção “Cartas Na Mesa”.
Posteriormente, no terceiro capítulo, o objetivo será de compreender o conceito de
identidade e como o movimento homossexual, organizado, irá criar uma nova
identidade em torno das sexualidades não normativas.
22

2. Um Contexto Efervescente: Imprensa Alternativa e


Novos Questionamentos

Neste capítulo, iremos analisar as fontes eleitas, que foram algumas das
missivas enviadas ao Lampião da Esquina, analisando-as juntamente com as
respostas dadas pelo corpo editorial do jornal a elas. Porém, antes de adentrarmos
neste momento importante, precisamos discutir um pouco sobre a imprensa
alternativa, o que vem a ser e qual seu comportamento, principalmente no contexto
do regime civil militar. Esse apontamento se faz importante pois as fontes eleitas
fazem parte de um jornal que se coloca como uma mídia alternativa naquele contexto,
e compreendê-la enquanto tal é importante para as devidas problematizações a serem
realizadas no momento de crítica e análise das cartas.
No que diz respeito à própria forma como podemos compreender o que vem a
ser a imprensa alternativa, recorreremos a autora Patrícia Marcondes de Barros, em
cujo texto A Imprensa Alternativa da Contracultura no Brasil (1968-1974), diz que:

A palavra “alternativa” vem de alter, que sugere alterações, mudanças.


Significa algo que se contrapõe a interesses ou tendências dominantes.
Corresponde também a algo que não está ligado à política dominante, a uma
opção entre duas coisas reciprocamente excludentes, à única saída para uma
situação difícil e, finalmente, ao desejo das gerações dos anos 60 e 70 de
protagonizarem as transformações sociais que pregavam. (BARROS, 2005,
p.78,)

A partir disto, entendemos que a imprensa alternativa possui um caráter


questionador, de contestar de alguma forma a ordem vigente; seja no âmbito político,
econômico, cultural, religioso, entre outros. Sua atuação tem como objetivos causar
reflexões sociais e alcançar as sonhadas transformações na sociedade. Esse
movimento foi muito forte nos anos do regime militar, principalmente a partir da
década de 1970. Conseguimos enxergar essa grande movimentação da mídia
alternativa no regime, pois como Patrícia Marcondes de Barros nos apresenta, entre
23

1964 e 1980, surgiram aproximadamente 150 periódicos de posicionamentos mais


alternativos. (BARROS, 2005, p. 79)
Por conta da grande repressão dos governos militares, o boom deste formato de
imprensa se deve, entre vários fatos, à união de jornalistas e intelectuais de outros
campos do conhecimento que faziam oposição ao totalitarismo do regime. Esta
recebeu grandes influências do Novo Jornalismo8 criado nos Estados Unidos nos anos
1960, movimento que propunha um formato de noticiários não apenas presos na
objetividade nas informações, mas que a subjetividade dos sujeitos que escrevem,
estivesse presente de maneira explícita nas páginas dos noticiários. (PENA, 2006,
p.8) Além disso, outra diferença se dava no campo da apuração, diferentemente do
jornalismo tradicional, o Novo Jornalismo se preocuparia mais em recolher dados,
provas, entrevistas e documentos, para abordar de forma mais profunda o que estaria
sendo posteriormente repassado para os seus leitores.
Porém, ser alternativa não significa necessariamente que esta imprensa terá um
caráter revolucionário, em muitos casos são apenas de apontamentos críticos em
relação aos militares no poder, seus abusos e repressão aos direitos e liberdades dos
indivíduos. O autor Diógenes Arruda Ferreira trata dessa consideração, em seu texto
sobre o humor como ferramenta de resistência a um controle social, traduz isto nos
apontando que o humor tende a relaxar seu telespectador, leitor e/ou ouvinte ao
mesmo passo em que realiza a crítica política. O uso da caricatura, mais facilmente
aceita pelo regime, que muitas vezes não as censurava, era um instrumento inteligente
e criativo da imprensa. Ferreira utiliza o periódico O Pasquim como exemplo.

Era, portanto, um jornal humorístico voltado para a intelectualidade boêmia


de Ipanema, que procurava criar um espaço suprimido dentro da grande
imprensa para o desenvolvimento de um humorismo crítico. A elaboração
do jornal sob esses parâmetros levou-o a um alcance não esperado pelos
seus criadores. A tiragem de 14 mil exemplares da primeira edição esgotou-
se em dois dias. Mais 14 mil foram impressos e também se esgotaram. Entre
a primeira e a sétima edição o crescimento se manteve e se estabilizou
alcançando uma tiragem média de 200 mil exemplares, superando qualquer
expectativa do projeto inicial e para um jornal de “imprensa alternativa”.
(FERREIRA, 2009, p.10,)

8Criado pelo escritor e jornalista norte-americano Truman Capote no ano de 1956, com objetivo de dar um
enfoque mais imaginativo e lírico a reportagem, permitindo ao jornalista inserir-se na narrativa
24

Esse trecho nos demonstra como o aspecto cômico conquistou o público do


jornal, tornando-o um grande meio desta vertente alternativa da imprensa, vendendo
milhares de exemplares no país, mas com enfoque no Rio de Janeiro. Se faz
importante ressaltar este elemento geográfico, pois a maioria destes periódicos,
independente de seus tamanhos e influências, se concentravam na região sudeste do
país, principalmente em São Paulo e Rio de Janeiro, os grandes centros políticos e
econômicos do Brasil nesse período.
Até aqui, compreendemos alguns aspectos importantes sobre essa imprensa
não tradicional, o seu caráter questionador, suas influências estrangeiras e alguns
elementos utilizados por ela para driblar o sistema e alcançar um possível público
maior que o esperado. Isto já nos faz perceber que não existia uma homogeneidade
em relação a ela, e não podemos ser ingênuos em acreditar que assim seriam, as
contradições e as diversidades já nos alertam para isso. Logo, como Bruno Brasil
expõe no trecho abaixo, este tipo de imprensa se dividia naquele contexto do regime
civil militar dos anos 1960-70 em duas principais vertentes, sendo elas a “política de
esquerda” que:

(...) tem raízes no ufanismo dos anos 50, no caráter popular e no marxismo
utópico estudantil dos anos 60. Os alternativos políticos de esquerda foram
os únicos na imprensa brasileira a perceber e alertar a população contra os
perigos da dívida externa e da concentração de renda na época. Revelaram
ao público os movimentos sociais populares e suas figuras, nunca antes
vistas na mídia. A maior parte dos jornais alternativos políticos de esquerda
possuía filiações partidárias e/ou sindicais. (BRASIL, 2007, p.14)

Nesta vertente, as grandes preocupações eram com as questões econômicas e


com as discussões sobre revolução, capitalismo, socialismo e comunismo. Muito
inspirada pelas discussões de Karl Marx, essa vertente não abria muitos espaços para
temáticas relacionadas a comportamentos e questões culturais. Feminismo,
sexualidade, drogas, não eram pautas na maioria desses periódicos, por motivos
ideológicos, inclusive muitos repudiaram esses assuntos por considerarem como
questões pequeno burguesas, vícios antirrevolucionários.
25

Já do outro lado, temos aquilo que Bruno Brasil nos apresenta como imprensa
“existencialista”, também alternativa, mas com pautas bastante diferentes da chamada
“política de esquerda”. Nesse sentido, entende-se que:

(...) era mais baseada na contracultura americana, no anarquismo e no


existencialismo de Jean Paul Sartre. Recusavam ideologias. Voltavam-se
mais para a crítica de costumes e para a ruptura cultural, contra o falso
moralismo e a hipocrisia da classe média. O uso de drogas, o amor livre e
outras experiências que visavam “expandir” o intelecto constantemente
eram tema de suas reportagens e por vezes estavam presentes na vida
pessoal dos jornalistas. (BRASIL, 2007, p.15)

Dissidentes da esquerda, assim podemos definir muitos dos membros da


vertente existencialista, e isto ocorria por justamente não existir espaço na mídia
chamada “marxista” para as questões ditas culturais, de comportamento e
questionamentos da ordem moral, religiosa, entre outros pontos. Isso nos permite
enxergar uma esquerda muito mais diversa do que muitas vezes imaginamos para
aquele período, e de uma diversidade que não estava sendo ponto de partida para as
discussões, mas sim de distanciamentos e muitas divergências. Destas grandes
diferenças, a existencialista se coloca como crítica tanto do autoritarismo militar, dos
valores conservadores pregados pela religião, e também da pouca abertura de parte
desta esquerda, mais voltada para a luta armada e revolução.
Porém, não podemos perder de vista que, “para esta imprensa de contracultura,
o capitalismo também era uma forma de controle e dominação da sociedade, logo,
precisava ser combatido”. (BRASIL, 2007, p.15) Mas esta luta precisava de uma
renovação, novas pautas e abandonos de práticas que até aquele contexto, não tinham
obtido sucesso, ou seja, de uma autocrítica, para assim ganhar novo fôlego contra a
repressão. Obviamente, não podemos perder de vista que ambas eram entendidas
como problema para os governos militares, que censuravam constantemente jornais
tanto da imprensa existencialista, como da política de esquerda, já que os
ameaçavam, colocando em pauta seus discursos e ações, e problematizando o regime.
26

2.1 Lampião da Esquina

Após essa explanação, se faz necessário ainda antes da análise das cartas, um
breve espaço para explicar o que foi o Lampião da Esquina e seu espaço dentro dessa
imprensa alternativa. Ele foi um importante veículo para o movimento gay9 no final
dos anos de 1970, trazendo grande visibilidade para a temática da homossexualidade,
bisexualidade, para as travestis e transexuais, até então marginalizados pelo regime
civil militar. Sem amparo do Estado, sem leis que promovessem uma maior igualdade
e com uma polícia que constantemente os prendia, o jornal foi uma voz extremamente
importante de resistência. Mas antes de qualquer coisa, é importante entender que
Lampião da Esquina não inaugura a temática gay enquanto imprensa, nos anos 60 já
temos no Brasil, como exemplo O Snob, jornal voltado para o público gay mas que
com o endurecimento do regime, acabou fechando as portas, já que a censura não o
perdoou. (GREEN, 2004, p. 155) Esse comportamento do regime para com a
imprensa gay foi não só constante como também violento, pois como dito no primeiro
capítulo deste trabalho, os valores anti-homossexuais eram bastante disseminados na
sociedade, o que fortalecia uma ação de repressão contra lésbicas, gays, bissexuais,
travestis e pessoas trans. Algo bastante curioso que o autor Marcos Antônio Assis
Lima aponta e que deve ser destacado aqui, é que:

Entre 1962 e 1964 houve, inclusive, o funcionamento de uma


Associação Brasileira de Imprensa Gay, dirigida por Agildo
Guimarães e Anuar Farah, no Rio de Janeiro, que foi fechada pelo
regime militar. (LIMA, 2001, p.3,)

Ou seja, a relação do regime para com a população gay já era problemática


desde seu início, já que no próprio ano em que o golpe acontece, uma associação é
fechada pelo regime, já indicando como seria o comportamento dos militares a partir

9 O termo LGBT ainda não existia, e o movimento como um todo era chamado de movimento gay ou
homossexual, englobando lésbicas, bissexuais, travestis e transsexuais. LGBT se torna recorrente a partir dos
anos de 1990.
27

daquele momento Mas a resistência a ele não seria inexistente, muito menos pequena
e se persiste durante todos os 21 anos do regime.
Sobre esta imprensa homossexual, não podemos compreender seu boom no
Brasil como algo separado e exclusivo do nosso país e dos conflitos sociais presentes
aqui, precisamos voltar nossos olhos para os Estados Unidos. E por qual motivo?
Simplesmente porque naquele país norte americano, os movimentos de Contracultura
estavam muito consolidados, impondo grandes questionamentos ao modo de vida
americano, com críticas ao consumo, defesa do amor livre e críticas às religiões
hegemônicas. Todo esse processo no exterior, chegou ao Brasil nos anos de 1960,
ganhando força nos anos de 1970, e justamente essa influência estadunidense foi o
que gerou certa repulsa da imprensa com viés marxista, que se questionava se esse
movimento não seria apenas reflexo de um imperialismo, de comportamentos
burgueses. Compreendemos assim que gays estavam de alguma maneira organizados
para pautar sua luta, seus interesses e uma ação para maior respeito e visibilidade
perante a sociedade. Porém o golpe não poupou nenhum desses veículos, sendo bem
duro e fechando cada uma daqueles que surgisse no decorrer do tempo, afinal, ser
alternativo já era um incômodo, mais ainda seria com temática socialmente
considerada pecaminosa, doentia e criminosa, já que essa tríada compunha o
imaginário da sociedade no que diz respeito aos gays.
Com todo esse contexto, podemos voltar ao Lampião da Esquina, falar sobre
ele e já partir para a análise das fontes. Lampião surge em abril de 1978, sendo sua
sede a cidade do Rio de Janeiro, posteriormente os editores dividiram a administração
do jornal em São Paulo também. Os próprios editores e apoiadores bancavam o jornal
que inicialmente contava com 10 a 15 mil exemplares colocados à venda em todo o
território nacional, com foco obviamente no sudeste do país. Foram 37 edições, que
contabilizadas com 4 especiais, somam 41 números lançados entre os anos de 1978 e
1981, seu período de duração.
Todo o corpo editorial era composto por homens, em sua maioria gays, e
alguns heterossexuais simpatizantes com a causa, a maior parte destes eram jornalista
e outros eram artistas, seja no cinema ou no teatro. Entre eles, para citar alguns
28

nomes, um dos principais eram Aguinaldo Silva (hoje novelista), Peter Fry
(antropólogo), José Silvério Trevisan (escritor, jornalista, dramaturgo, tradutor,
cineasta e ativista), Darcy Penteado (artista plástico), Jean-Claude Bernarde (teórico
de cinema), João Antônio Mascarenhas (ativista), O conselho editorial se compunha
de doze homens, e podemos nos questionar o motivo de nenhuma mulher estar
presente neste, o próprio jornal explica em sua edição número zero, que convites para
mulheres lésbicas foram realizados, porém estas com receio da exposição preferiram
não aceitar os convites. Porém o jornal se mostrou aberto e no decorrer dos meses
mulheres escreveram textos para edições do jornal. Dentro disto, o jornal em sua
primeira edição lançou um texto justificando a motivação que os levaram a inaugurar
o periódico, e para isto se utilizam de tais palavras no texto Saindo do Gueto:

Mas um jornal homossexual, para quê?... Nossa resposta no entanto, é esta.


É preciso dizer não ao gueto e, em consciência, sair dele. O que nos
interessa é destruir a imagem padrão que se faz do homossexual, segundo a
qual ele é um ser que vive nas sombras, que encara sua preferência sexual
como uma espécie de maldição… o que Lampião reivindica em nome dessa
minoria não é apenas se assumir e ser aceita, o que nós queremos é resgatar
essa condição que em todas as sociedades construídas em bases machistas
lhe negou: o fato que os homossexuais são seres humanos e que, portanto,
tem o direito de lutar pela sua plena realização, enquanto tal. (LAMPIÃO,
1978, p.2,)

Sendo assim, o periódico quer se colocar como uma voz para essa parcela da
população, com uma proposta bastante política e questionadora de romper com um
discurso estereotipado que existe no âmbito social, que consequentemente
marginaliza e reprime homo/bissexuais, travestis e pessoas trans. O nome do jornal já
é bastante sugestivo, Lampião remete à luz, Aguinaldo Silva justifica que esse nome
condiz com os objetivos do jornal, de levar luz às questões sobre sexualidade, retirar
do gueto as pautas dessa população, tirar da margem.
No que diz respeito a parte técnica do jornal, Lampião da Esquina não trouxe
inovações no sentido de organização das colunas, nos editoriais, das divisões
temáticas, o próprio papel utilizado pelo jornal era o mesmo utilizado por outros
29

veículos midiáticos. Quanto ao conteúdo, era dividido em seções, como apresenta


Mariusso:

Sua estrutura apareceria dividida em sete seções: “Opinião” (o equivalente


ao editorial), “Ensaio”, “Esquina” (seção com artigos e notas variadas),
“Reportagem”; “Literatura”, “Tendência” (seção cultural que se dividia em
“Livro”, “Exposição”, “Peça” etc.), e “Cartas na mesa”. A partir do número
cinco é publicada uma nova seção, “Bixórdia”, de fofocas em geral.
(MARIUSSO, 2013, p.225).

Se não houve inovação na parte técnica, houve na forma de abordar as


temáticas – de forma muito aberta e significativamente democrática – sobre
sexualidade, racismo, feminismo, a vivência indígena, dos presidiários e também do
meio ambiente. Todas essas eram questões abordadas pelo jornal, que abria espaço
para outras minorias sociais. Porém nem tudo ocorreu de forma positiva para o
Lampião, várias bancas de jornal do território nacional boicotaram fortemente o
periódico, para que realmente este não tivesse possibilidade de ser vendido. O mesmo
foi alvo de vários processos do Estado, e como não havia grandes patrocinadores,
toda a parte financeira era subsidiada pelos editores e apoiadores do jornal, dessa
forma, dificuldades financeiras foi um dos motivos pelo fechamento do jornal em
1981. Outra dificuldade identificada no último ano da publicação era que os
interesses dos membros do conselho editorial eram muito diferentes, nesse sentido, o
jornal adotou uma postura mais voltada para ensaios sensuais, artísticos, de nudez.

2.2 A seção de cartas do Lampião

De tudo que o jornal oferece e dele próprio ser uma fonte muito rica,
realizamos um recorte necessário para este trabalho, e elegemos algumas missivas da
seção Cartas Na Mesa como fontes. Porém, as que escolhemos são do ano de 1978 e
1979, período de maior produtividade do periódico, em que receberam dezenas de
cartas. E decidimos as escolher como fontes nesse trabalho, tendo como base o que
Michel Foucault aponta, o autor entende que:
30

Escrever é pois “mostrar-se”, dar-se a ver, fazer aparecer o rosto próximo junto ao
outro. E deve-se entender por tal que a carta é simultaneamente um olhar que se
volve para o destinatário (por meio da missiva que recebe, ele sente-se olhado) e
uma maneira de o remetente se oferecer ao seu olhar pelo que de si mesmo lhe diz.
De certo modo, a carta proporciona um face-a-face. (FOUCAULT, p.150, 2009).

Escrever é então, mostrar parte do que nós somos e do que desejamos revelar
de nós, sendo também o que queremos construir em torno de nossa imagem. Escrever
para alguém é se fazer presente para este, através das mensagens postas na
correspondência que ao serem lidas, concretizam uma comunicação entre destinatário
e remetente. Muitas vezes na escrita conseguimos expressar aquilo que pessoalmente
não falaríamos integralmente. A escrita apresenta uma das várias identidades que o
sujeito tenha, além da possibilidade de entender como a escrita de um indivíduo diz
sobre o contexto social.
Uma missiva muito interessante, enviada ao Lampião da Esquina da edição do
mês de Agosto de 1978, traz alguns elementos que nos ajudam a compreender isto.
Escrita pelo leitor Alfredo Rangel, ele diz:

Fui um dos que, após a edição do nº.2 de Lampião da Esquina, escreveram a


vocês com o intuito de chamar a atenção para o crescente uso, em seu já conceituado
mensário, de termos comumente empregados pejorativa e discriminadamente por
pessoas preconceituosas em relação ao homossexualismo.
Quanto ao termo guei, achei inteligente a ideia, mas enquanto a outros
(bicha, boneca, etc.), continuo achando inoportuno e inconveniente o uso dos
mesmos pelo jornal. Mais explicitamente, a palavra, isto é, o significante, traz
consigo algo bem mais amplo que é o seu significado, isto é, o conceito pela maioria
das pessoas, no caso em foco. A meu ver, usar os mesmos termos que a sociedade
machista usa para marginalizar a classe homossexual contribui para que os mesmos
continuem arraigados na mente de nosso povo. Acho que algo quando se encontra já
consagrado pelo uso, ainda mais de maneira deletéria, como no caso em foco,
devemos usar nossa imaginação e capacidade criadora para substituí-lo por algo
novo… Não adianta vocês usarem determinadas palavras com um propósito, se
aqueles que a recebem, os leitores em sua maioria, já estão habituados a vê-las de
outra forma. (Lampião da Esquina, n. 4. p 18, agosto 1978)

O ato de escrever uma carta “exige tempo, disciplina, reflexão e confiança”.


(GOMES, 2004, p. 19) Além disto, o que leva uma pessoa a escrevê-la pode ser
desde compartilhar uma informação, ou realizar um pedido, agradecimento, um
desabafo, estimular a pessoa que irá ler a carta. Logo, escrevê-la seria movimentar
um conjunto de sensações e sentimentos que de alguma forma precisam ser
31

representados em forma de palavras, pois naquele momento seu autor está se


desvelando para seu destinatário.
Sobre esta carta, percebemos que seu autor respeita e reconhece o Lampião da
Esquina como um importante veículo, pois ele deixa isso explícito em sua escrita ao
se utilizar da expressão conceituado mensário e por se permitir tempo para escrever a
ele. Mas não apenas por isto, mas pela influência que o periódico pode ter na vida de
várias pessoas, inclusive heterossexuais. Em suas palavras, Alfredo explícita de
alguma forma sua compreensão sensível do contexto em que está vivendo que é de
muitos preconceitos, sua preocupação com uso de determinadas palavras, as que ele
apresenta, nos revela uma inquietação com possíveis violências que possam ser
legitimadas com seus usos. Entendendo que apesar da tentativa de ressignificação dos
termos, não significa que essa modificará o entendimento da sociedade sobre eles.
Rangel enxerga Lampião como uma possibilidade de mudanças no olhar social sobre
os homossexuais, porém em uma perspectiva em que a linguagem deva ser repensada.
E a carta não fica sem resposta e o conselho editorial então responde com as
seguintes palavras:

Olha Alfredo, a gente continua mantendo a nossa posição sobre o assunto.


Não é por falta de uso que as palavras morrem, não, elas só morrem e, portanto,
deixam de ser usadas quando perdem o sentido. Para isso é preciso ir até o fundo das
possibilidades de cada uma, esmiúça-las, esgotá-las… Vamos passar um dever de
casa para você: medite sobre os vários significados que nos últimos anos teve a
palavra democracia entre nós, e depois nos escreva sobre isso. (Lampião da Esquina,
n. 4. p 18, agosto 1978)

Um aspecto importante a se analisar é que as respostas dadas pelo Jornal nunca


são assinadas por algum autor, cada uma delas é assinada em nome de todo o jornal,
ou seja, é um posicionamento de corpo editorial como um todo. Ao responder as
correspondências de tal maneira, mesmo que intencionalmente ou não, acaba-se
criando uma identidade em torno do Lampião da Esquina, no que diz respeito a seus
posicionamentos políticos, visões sobre a temática como um todo. E ao responder
Alfredo percebemos que as palavras escritas a ele, nos apresenta uma estratégia mais
combativa por parte do jornal – no sentido de que manter as palavras ditas pejorativas
32

– que tende a confundir a quem está lendo, uma confusão que pode acabar resultando
em uma ressignificação dos termos.
Poderiam não ter publicado a carta e não respondê-la, abrindo o espaço da
seção Cartas Na Mesa para outro leitor, mas a atitude de não só publicá-la mas como
responder seu autor, nos apresenta um corpo de editores que estão preocupados em
manter uma postura política e que essa imagem é a que desejam transparecer para o
público, mas não só, se tornou um momento de tornar público as justificativas que os
levam a usar termos considerados pejorativos.
Na devolutiva, argumentam que “palavras só morrem e, portanto, deixam de
ser usadas, quando perdem o sentido”. Sendo assim, talvez entendam que palavras
como bicha, boneca, podem não morrer absolutamente, ou seja, não serem mais
usadas por ninguém, mas quando ressignificadas pelo periódico e usadas em um
sentido afirmativo e de orgulho, matam seu sentido pejorativo original. Neste caso,
talvez deixem de ser usadas por vários sujeitos como forma de crítica, e aqueles,
alvos do preconceito as usem em um embate ao discurso discriminador. Morre-se o
sentido do xingamento e nasce o de autoafirmação, não sem intenção que pedem ao
autor da carta que reflita sobre o conceito de democracia, tão moldável naquele
contexto.
Sendo assim, percebemos que nesta comunicação entre quem manda a carta e a
respostas do jornal, não se dá apenas como troca de elogios, é mais profundo e
instigante. Ao responder seus leitores, Lampião os instiga a refletir sobre aquilo que
os próprios escrevem, tornando a comunicação entre ambos algo construtivo,
problematizador. Se faz presente no diálogo, se mostra e se desmascara perante o
leitor, estreitando as relações com este. Infelizmente, não conseguimos identificar o
método de seleção das cartas que seriam publicadas na seção Cartas Na Mesa, mas
esta preocupação de preservar o registo de alguns dos que os escreviam, também se
articula com o interesse da identidade que os editores querem construir, afinal, não
seria qualquer carta eleita para ser publicada em suas páginas.
33

Outra missiva interessante para essa análise foi publicada na primeira edição
do jornal, de edição número zero, escrita por uma pessoa a assina com o nome de
Infante.

(…) Há dias que tenho vontade de me matar. Meus irmãos debocham de


mim, meu pai me detesta, minha mãe vive chorando pelos cantos, lamentando a
minha doença. No colégio todos caçoam de mim, na rua assobiam quando eu passo.
Estou ficando cada vez mais conhecido na minha cidade. Tenho vontade de fugir,
mas não tenho meios. Além disso sou menor, tenho 17 anos. Sinto-me a última das
pessoas. Peguei um panfleto anunciando o jornal de vocês numa livraria daqui,
decorei o endereço e joguei o panfleto no lixo, para que ninguém o descobrisse
comigo. Agora, estou escrevendo, mas nem sei para que. Será que vocês podem me
ajudar? (Lampião da Esquina, n. 0. p. 14, abril. 1978).

Primeiramente enxergamos a entrega de quem escreve, de um sentimento de


confiança que o levou a escrever para o jornal, em uma esperança de ajuda, na carta
há lamento, desabafo e um pedido de resposta para o que ele tem passado. Vivendo
em uma região bem distante da sede do Lampião, nas suas palavras aparenta uma
condição social não muito favorável, uma condição marginalizada dentro da própria
casa, e mais ainda nas ruas. Ao descrever-se, utiliza-se de palavras como doença,
revelando que o ambiente hostil em que vive tem o tornado triste e bastante
preocupado. Nas suas palavras é perceptível que talvez esteja ainda no processo de
descobrir sua sexualidade, seus interesses, e ainda não tem certeza de nenhuma delas,
talvez por medo de aceitá-las ou também por falta de mais informações
Escrever ao jornal se tornou para este um grito de alguém que mesmo distante,
soube da existência de Lampião, que pelo visto ganhou algum destaque nacional. Mas
existe algo interessante nesta carta e que Foucault nos ajuda a entender, ao escrever
de tal maneira, o Infante se abre, se desnuda para seu destinatário, permitindo que
este adentre (assim como diz Foucault) em sua alma, em uma entrega de confiança
que somente em um espaço mais libertário poderia ser possível (FOUCAULT, 2009,
p. 151), naquele contexto de grande repressão às liberdades, inclusive sexuais. Isto
nos mostra para além do que o autor tem enfrentado, mas também como ele enxerga o
Lampião da Esquina, como um possível suporte para suas dores.
34

Mas quando Infante se revela em sua carta, ele não apresenta tudo de si, ele
apresenta aquilo que lhe é importante, partindo disso, uma determinada imagem será
criada de si para o jornal, para quem o irá ler e também para o próprio garoto de
Recife. Uma determinada imagem estará sendo construída, pois a escrita da missiva é
um recorte e não representa em absoluto as identidades e características de um
indivíduo.
Mas no momento de responder o garoto de 17 anos, Lampião se utiliza deste
discurso:

LAMPIÃO, meu caro Infante, se recusa a servir de muro das lamentações.


Tudo o que você tem que fazer é se livrar de toda essa auto-piedade, dessa
autoflagelação. Ninguém pode ser tão execrado quanto você pensa que é. Em
nenhum momento da sua carta você diz o que você realmente é, ou seja, que é
homossexual. Ao nosso ver, o problema está em você mesmo, que não se aceita. De
qualquer modo, você frequenta livrarias, pelo menos isso. Pois leia, que isso em
muito o ajudará. Se quiser, nós lhe mandamos uma lista de livros através dos quais
você poderá descobrir o que realmente está acontecendo em torno de você
(Deboche? Ódio? E por que não fascínio?). Informe-se, ache uma maneira de atuar
no mundo em que vive, e deixe de ter pena de si mesmo. Há tanta coisa para ser feita
no mundo, e você fica nessa de “ah, como eu sou infeliz?”. Não, não, não. (Lampião
da Esquina, n. 0. p. 14, abril. 1978).

É uma resposta que abre espaço para diversas problematizações, primeiro que
como claramente expõe, enxergaram a carta de Infante como pura lamentação, mas
pensemos. O período é de regime civil militar, que apesar de em momento de
abertura, ainda persegue, censura, violenta e priva sujeitos de direitos, esse
comportamento exige do periódico uma postura combativa, que deixou claro que
assim seria em seu texto Saindo do Gueto. Pela resposta, compreendemos que o
desejo é de tirar a imagem do homossexual das sombras, porém problematizando os
discursos vigentes e normativos, através da linguagem que este ressignificou, ou seja,
dando novos sentidos para adjetivos pejorativos. Sua postura estava longe de ser de
autoajuda, e quando escrevem “há tanta coisa para ser feita no mundo”, conseguimos
visualizar que outras questões foram centrais para Lampião, ou seja, o regime, o
discurso social sobre homossexuais, a repressão, e tudo que assola a estes.
Mas nesta preocupação, não se atentaram para as dificuldades enfrentadas pelo
garoto, que sem condições, não teria possibilidade de viver longe dali, e que a
35

questão central a ele naquele momento era justamente se libertar. Não levando em
conta as condições de vida do Infante e sem conhecê-las a fundo, Lampião adota um
comportamento classista e nada solidário para com as particularidades apresentadas
pelo garoto. Como ele iria se preocupar com outras coisas no mundo, se dentro de sua
própria casa a situação era difícil? Seria então o Lampião contraditório? Em dada
medida não, a identidade que almejava constituir, não seria no sentido de “Pai dos
Gays”, mas sim de uma voz para estes contra o regime e contra o conservadorismo, e
para isso, seria necessário já estar livre de prisões e amarras. Mas se por outro lado,
um dos objetivos era fortalecer homossexuais, bissexuais, travestis e pessoas trans,
esse comportamento estaria um pouco longe de atingir tal horizonte, pelo menos com
o Infante.
Mas Angela de Castro Gomes diz algo importante, as cartas constituem “um
espaço de sociabilidade privilegiado para o estreitamento (ou o rompimento) de
vínculos entre indivíduos e grupos”. Isto normalmente ocorre pois quem escreve
“confia ao outro uma série de informações e sentimentos íntimos”, (GOMES, 2004,
p.19) e por não saberem da total realidade do Infante e o responderem de tal maneira,
podem ter agravado os sentimentos, ou impedido uma possível admiração deste pelo
jornal. Mas dentro das escolhas e estratégias de luta adotadas pelo jornal, uma
resposta diferente não seria possível, já que suas preocupações eram outras, já que o
regime político os perseguia constantemente.
Esta seção das Cartas, se constituiu também como momento para sugestões dos
leitores, reivindicações, geralmente lésbicas cobravam muito uma maior visibilidade,
e foram atendidas no decorrer das edições. Além de pedidos de matérias, entrevistas,
contatos de outros grupos do movimento gay, uma troca de informações entre o jornal
e seus leitores, e também de recepção de como parte do público estava apreendendo o
periódico. Dentro destas cartas, podemos perceber que os editores/autores não estão
também, longe de reproduzirem valores vigentes de seu tempo, Por exemplo quando
recebem uma carta de Jairo Ramos do Rio de Janeiro, sobre as travestis, na qual ele
diz:
36

(…) Apesar de não conhecer nenhuma de vocês pessoalmente, mas sim, por
fotos, ai vai um pequeno protesto: não concordo com a discriminação que vocês
fazem contra os travestis… Sempre o Lampião escreve mal sobre os travestis, que
tem plásticas ou são cheios de silicones… Agorinha eu pergunto: travesti não é
homossexual? Ou não é guei? E desculpa se não fui muito claro, como sou leitor
assíduo deste jornal, achei justo pedir uma informação, para que meus amigos não
ficassem confusos. Como trabalho num grande hotel do Rio há quase três anos,
estou sempre recebendo gueis de toda a parte do mundo, e indico a eles o nosso
jornal. Um cordial abraço para todos vocês. (Lampião da Esquina, n.14. p. 19, julho
1979)

Jairo demonstra uma provocação perante a forma como ele interpretou a


postura do periódico questionando-o sobre este posicionamento em relação às
travestis, porém se mostra em dúvida, já que não sabe se pode enxergar travestis
como gays ou não. Se trata de uma dúvida pois ele próprio faz questão de explicar
sua falta de conhecimento sobre esse assunto em questão, que pode ser sanado pelo
jornal, no qual ele enxerga como fonte de conhecimento e ao final ainda argumenta
que tem divulgado o Lampião, uma forma de demonstrar respeito a este mas também
de agradar aos editores que responderam:

Quando a gente diz que alguns travestis brasileiros se submeteram a


plásticas ou a implantes de silicone, estamos fazendo uma constatação, e não uma
crítica, Jairo. Não sei de onde saiu essa história de que nós somos contra os travestis:
o problema é que existem homossexuais para todos os gostos, e o jornal procura
mostrar isso… (Lampião da Esquina, n.14. p. 19, julho 1979)

Assim como dito neste capítulo, era muito comum a sociedade da época
englobar lésbicas, travestis, transexuais e bissexuais sob o termo gay, como se este
servisse para todos.
Com isso, percebemos que o próprio periódico também ainda não tinha muito claro
como se referir a esta diversidade, usando-se do termo homossexual para se referir às
travestis, que neste contexto são tratadas com pronome masculino. Não se trata aqui
de cobrar um outro tratamento do Lampião para com as travestis, mas de entender
que como inseridos no contexto, também irão reproduzir algumas normas vigentes. O
interessante desta carta, é que existe uma preocupação com a diversidade, desejam
representar e apresentar em suas páginas todos os tipos de pessoas não
heterossexuais, como quando escrevem existem gueis para todos os gostos e o jornal
37

procura mostrar isso. Talvez consequência de um cuidado com esta visibilidade mas
também com um cunho mercadológico cercando esse interesse.
As cartas enviadas ao jornal, e que efetivam o círculo comunicativo ao serem
respondidas, também tinham cunho educativo e de formação, de criação de uma
consciência da população gay. Esse espaço dedicado as correspondências foi
importante por permitir uma proximidade entre público e jornal, humanizando os
editores, criando empatia, o que de alguma forma poderia facilitar a criação de um
sentimento de coletividade. Se a intenção era romper tabus e desconstruir
paradigmas, a seção Cartas na Mesa construiu uma identidade do jornal perante ao
seu público, que na luta contra o preconceito, tinha um espaço para ter sua voz lida
por várias outras pessoas, neste momento, homossexuais de todo o país se sentiam
importantes, por estarem sendo lidos. E o próprio Lampião ganhava mais visibilidade
e respeito com o público que mais desejava atingir, os próprios homossexuais, pois
como bem já foi dito, a escrita da carta envolve sentimento e emoções, e ao respondê-
las, o corpo editorial firma um laço poderoso com seus leitores.
O próximo capítulo, pensará como toda essa identidade então é construída,
problematizando o conceito de identidade, como é construído e como historicamente
o movimento homossexual irá criar uma identidade diferente da visão geral sobre
seus corpos e ações. Para assim, refletirmos em que medida o contexto do regime
civil militar, sensibiliza politicamente a população não heterossexual, que passa então
a se posicionar como nunca antes visto na história do país.
38

3. Por Uma Nova Identidade Homossexual

Como já foi exposto no primeiro capítulo deste trabalho, a homossexualidade e


as expressões de gênero que fugissem da normatividade no contexto do regime civil
militar, foram amplamente perseguidas e marginalizadas. Todo o olhar social era
complexo, repleto de preconceitos e constituía uma identidade negativa para esse
grupo. A partir de um entendimento de superioridade, a sociedade da época, bastante
heteronormativa, compreendia os gays10 como anormais e que fugiam às regras
responsáveis pelo bom andamento da sociedade. Assim, compreendemos que ser gay
no contexto, era ocupar uma posição totalmente marginal, e ser enxergado como um
risco à sociedade, já que o comportamento homossexual era desviante, pecaminoso,
doentio e até mesmo criminoso.
Antes de pensarmos em como os próprios homossexuais construíram uma
nova identidade sobre seus corpos e ações, precisamos entender o próprio conceito de
identidade, que se relaciona à questão das diferenças. Depois, abordaremos a
identidade social dos homossexuais enquanto grupo e entenderemos – tendo em face
a constante discriminação – como estes criaram uma identidade própria e de
resistência. Essa discussão se fará cotejando elementos oriundos dos campos da
sociologia, psicologia, letras e da história.
Um ponto importante para entendermos identidade, é que ela não pode ser
vista de forma naturalizada, como algo inerente a sujeitos, ou a um grupo, antes de
mais nada ela é construída historicamente. O sociólogo espanhol Manuel Castells
aponta:

No que diz respeito a atores sociais, entendo por identidade o processo de


construção de significado com base em um atributo cultural, ou ainda um
conjunto de atributos culturais inter-relacionados. Para um determinado
indivíduo ou ainda um ator coletivo, pode haver identidades múltiplas.
(CASTELLS, 1999, p.23)

10 A sociedade da época englobava dentro da expressão “gay”, toda a população de lésbicas, bissexuais,
travestis e até mesmo pessoas trans.
39

Sendo assim, a identidade é um significado criado em uma sociedade que


através da cultura vigente e dominante, faz com que um grupo social crie um signo de
sua própria existência e a do “outro”, daquele que se difere dele. (CASTELLS, 1999,
p. 22) Ou seja, nas relações sociais entre grupos distintos que são constituídos por
elementos culturais diversos e diferentes entre eles, é que podemos entender o
surgimento das identidades. Ao enxergar o outro, você cria uma imagem desse outro
a partir daquelas diferenças. E quando um indivíduo ao se sentir semelhante aos seus
próximos, também constitui uma identidade, pois vivencia situações parecidas.
Podemos usar como exemplo, o cristianismo, enquanto símbolo forte de uma
cultura como a nossa, ele de algum modo influenciará a forma como serão
construídas as identidades dos grupos não cristãos. Sendo assim, a sociedade
brasileira será muito influenciada por este atributo cultural que é o próprio
cristianismo no momento em que ela for criar uma imagem de algo ou alguém, pois é
ele que serve de base para os valores e crenças de nossa cultura, não de forma
absoluta, mas como parte significativa da estrutura do nosso país. Porém, isto não
quer dizer que essa identidade será aceita por todos que vivem em uma mesma
sociedade, como dito, o grupo dominante pode criar uma visão sobre os outros grupos
e estes grupos talvez internalizam essa identidade, contudo, de forma ressignificada.
E neste jogo social, a cultura vigente tende a ser base para aquilo que Castells chama
de identidade legitimadora, (CASTELLS, 1999, p 24) criada e disseminada por
instituições dominantes, entendidas aqui como o Estado, a Igreja, e entre outras. O
autor a define como “introduzida pelas instituições dominantes da sociedade no
intuito de expandir e racionalizar sua dominação em relação aos atores sociais.
(CASTELLS, 1999, p.24).
Devemos entender que atores individuais e coletivos estigmatizados também
são criadores de uma identidade, não sendo apenas reféns das instituições dominantes
e os rótulos que estas impregnam na mentalidade social. Castells explica que estes
constroem uma identidade de resistência, que seria “criada por atores que se
encontram em posições desvalorizadas/estigmatizadas pela lógica da dominação,
construindo, assim, trincheiras de resistência e sobrevivência”. (CASTELLS, 1999,
40

p.24) Agindo como frente de combate as instituições que os discriminam e também


como forma de sobrevivência. E muito próxima a esta, temos a identidade de projeto,
que seria:

Quando os atores sociais, utilizando-se de qualquer tipo de material cultural


ao seu alcance, constroem uma nova identidade capaz de redefinir sua
posição na sociedade e, ao fazê-lo, de buscar a transformação de toda a
estrutura social (CASTELLS, 1999, p. 24)

Cabe aqui ressaltar que essas identidades não assumem posturas


necessariamente progressistas ou retrógradas, isto depende do contexto histórico que
venha a ser analisado. Entretanto, dentro dessas dimensões apresentadas pelo autor, a
identidade de resistência pode ser vista como aquela que formará grupos em torno de
um mesmo objetivo. Assim, esta categoria uniria pessoas em pró de uma ação de
resistência a alguma opressão estrutural, causada por uma desigualdade que se
justifica utilizando as diferenças comportamentais e de crenças, como legitimadoras
para a opressão.

Entramos então em um aspecto bastante importante, que é a conexão entre


identidade e alteridade, já que existe uma relação intrínseca entre ambas, sendo muito
pertinente pensálas aqui. Para abordar como estas são dependentes uma da outra,
podemos recorrer ao educador Tomaz Tadeu da Silva, no seu trabalho sobre as
identidades e diferenças, nos diz que:

É fácil compreender entretanto, que identidade e diferença estão em uma


relação de estreita dependência. A forma afirmativa como expressamos a
identidade tende a esconder essa relação. Quando digo "sou brasileiro"
parece que estou fazendo referência a uma identidade que se esgota em si
mesma. "Sou brasileiro" - ponto. Entretanto, eu só preciso fazer essa
afirmação porque existem outros seres humanos que não são brasileiros. Em
um mundo imaginário totalmente homogêneo, no qual todas as pessoas
partilhassem a mesma identidade, as afirmações de identidade não fariam
sentido. De certa forma, é exatamente isto que ocorre com nossa identidade
de "humanos". É apenas em circunstâncias muito raras e especiais que
precisamos afirmar que "somos humanos". (SILVA, 2003, p.74-75)

É a partir das diferenças que construímos nossa identidade, seja enquanto


indivíduo ou como ator coletivo, quando olhamos para uma outra cultura, ou uma
outra pessoa, definimos aquilo que somos. Quando nos afirmamos como algo,
41

automaticamente estamos negando outras possibilidades do ser e automaticamente


nos diferenciando dos outros sujeitos. Ao se afirmar, por exemplo, como um sujeito
homossexual, este se posiciona de uma forma que só foi possível por que outras
pessoas não o são, em grande maioria estes outros se enquadram como
heterossexuais. Mas a identidade também surge pela semelhança, quando olha-se para
o outro que vivencia uma realidade parecida, a identificação cria no indivíduo um
olhar sobre si.
Então, juntamente com o autor, podemos entender a identidade como um
processo resultado de uma produção que é simbólica e também discursiva, pois
obviamente, é no campo da linguagem que ela acontece. Logo, identidades e
diferenças não são determinações naturais e como parte de uma suposta essência
humana, são construções sociais, criadas a partir da relação de uns com os outros.
Porém não podemos ser ingênuos e acreditar que se fecham em si mesmas,
precisamos estar atentos para as relações de poder que surgem decorrentes dessa
relação. Quando um grupo se afirma e concomitantemente se diferencia de outros,
temos aqui uma potencialização de sentimentos que podem gerar conflitos, pois a
diferença do outro poderá ser utilizada como argumento para subordina-lo e
inferioriza-lo, colocando-se como norma, e o diferente como margem. Mas o que
define se um grupo social, comunidade ou instituição configurar-se-á como
dominante são os atributos culturais da ordem vigente. Por exemplo, o que legitima
uma superioridade do homem hétero cisgênero é a estrutura patriarcal na qual nossa
sociedade está organizada. Dito isso, Tomaz Tadeu da Silva procurou entender as
repercussões das definições de identidades para as relações de poder estabelecidas
entre os grupos:

Não se trata, entretanto, apenas do fato de que a definição da identidade e da


diferença seja objeto de disputa entre grupos sociais assimetricamente
situados relativamente ao poder. Na disputa pela identidade está envolvida
uma disputa mais ampla por outros recursos simbólicos e materiais da
sociedade. A afirmação da identidade e a enunciação da diferença traduzem
o desejo dos diferentes grupos sociais, assimetricamente situados, de
garantir o acesso privilegiado aos bens sociais. A identidade e a diferença
estão, pois, em estreita conexão com relações de poder. O poder de definir a
identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais
42

amplas de poder. A identidade e a diferença não são, nunca, inocentes.


(SILVA, 2003, p. 81,)

Seja para manutenção dos privilégios ou conquistas deles, ou mesmo na luta


por direitos e igualdade, usar-se das diferenças e de como estas constituem as
identidades, acaba sendo uma importante ferramenta, pois a partir delas é que os
argumentos necessários serão criados para dar legitimidade aos grupos distintos na
disputa por poder. A identidade ajuda então a classificar alguém ou um grupo. A
partir disso: “Dividir e classificar significa, neste caso, também hierarquizar. Deter o
privilégio de classificar significa também deter o privilégio de atribuir diferentes
valores aos grupos assim classificados”. (SILVA, 2003, p.82) Com todos estes
apontamentos realizados até o momento, já é possível partir para outro ponto
importante deste capítulo, que é pensar os estigmas sociais e como estes perpassam
também a construção das identidades. Como vimos, as identidades e as diferenças
tem uma conexão intensa com as relações de poder, nas disputas pelos bens sociais,
ou por direitos e etc. Porém nesta disputa constante – e a partir do momento em que
um grupo, indivíduo ou comunidade tem vantagens sociais na disputa – ele enquanto
dominante na sociedade, criará ideias, valores e estereótipos sobre os outros grupos,
para garantir firmemente seu poder e privilégios. Assim, será necessário estigmatizar
o outro, para ser visto como o centro, a norma, o modelo correto a ser seguido.
O canadense Erving Goffman, que foi cientista social, antropólogo, sociólogo
e escritor, ao falar sobre o conceito de estigma, retornou à Grécia Antiga e faz
algumas ponderações sobre o tema:

Os gregos, que tinham bastante conhecimento de recursos visuais, criaram o termo


estigma para se referirem a sinais corporais com os quais se procurava evidenciar
alguma coisa de extraordinário ou mau sobre o status moral de quem os apresentava.
Os sinais eram feitos com cortes ou fogo no corpo e avisavam que o portador era um
escravo, um criminoso ou traidor uma pessoa marcada, ritualmente poluída, que
devia ser evitada; especialmente em lugares públicos (GOFFMAN, 2004, p. 5)

Goffman retorna a este período para entender o uso da palavra no contexto e


para encontrar algumas rupturas em seu uso e por outro lado, as continuidades do
43

mesmo. E o que mudou? Goffman ressalta que atualmente o estigma não possui mais
um caráter físico, ou seja, o da marcação corporal, de um signo presente no corpo. O
estigma ou uma pessoa estigmatizada hoje seria aquela que foge da normatividade,
assim sendo vista como anormal, o que fará com que ela cada vez mais fique na
margem social. Porém como podemos perceber, ainda permanece um ideal de algo
não desejável, visto com muito desconforto pelo social.
O estigma aparece quando alguém que não conhecemos - para ficar no campo
do individual - nos é apresentado, e começamos a criar perspectivas sobre quem esta
pessoa possa ser, o que faz e como faz. Quando este sujeito que é novo a nossa vista
transparece atributos e características diferentes das que possuímos e que sejam
totalmente fora do esperado, o estigma surge, pois aquela pessoa estaria então se
tornando indigna de pertencer aos nossos grupos e ocupar os mesmos lugares que
ocupamos. Mas precisamos ter muito cuidado, pois como Goffman explica:

O termo estigma, portanto, será usado em referência a um atributo profundamente


depreciativo, mas o que é preciso, na realidade, é uma linguagem de relações e não
de atributos. Um atributo que estigmatiza alguém pode confirmar a normalidade de
outrem, portanto ele não é, em si mesmo, nem horroroso nem desonroso
(GOFFMAN, 2004, p. 6)

Ou seja, o estigma é muito usado pela sociedade como maneira de legitimar um


grupo como centro, exemplificar a norma, e inferiorizar características que um grupo
distinto do dominante carregam. Obviamente não são ruins ou negativas, são as
relações sociais baseadas em disputa de poder que criarão um discurso sobre essas
diferenças. Isto é bastante perceptível no campo moral e religioso, basta observarmos
como a homossexualidade é vista neste campo e qual o tratamento dado a ela pelas
igrejas cristãs mais tradicionais.
Voltemos ao contexto a qual este trabalho se refere, que é o regime civil
militar brasileiro, instaurado no ano de 1964. São muitas questões, e entre uma delas,
temos o fato de que o estigma sobre os homossexuais já era algo evidente muito antes
do início do período, então como pensar identidade, estigmas e diferenças em um
contexto que apenas estaria dando continuidade a um movimento muito anterior?
44

A homossexualidade não se torna marginalizada no regime, ela assim já se


apresentou no período por conta do contexto histórico de uma sociedade repressora
de sexualidades. O que temos a partir de 1964, é uma potencialização repressora
sobre gays, lésbicas, bis, travestis e pessoas trans, dentro de um período em que
novos elementos serão adicionados a essa identidade legitimadora, ou seja, aquela
criada pela estrutura dominante e disseminada pela sociedade, como vimos com
Castells. Mundialmente, o momento é de guerra fria, com ideias capitalistas e
socialistas em disputa e um discurso anticomunista cada vez mais forte nas Américas,
e no Brasil isso é bastante nítido, na imprensa, nos militares no poder, etc.
Nos anos de regime, o que teremos é uma construção de uma identidade
homossexual (por parte das estruturas e ideias dominantes) totalmente ligada a
desordem, ao socialismo e consequentemente a criminalidade. Ser homossexual neste
período da nossa história, era possivelmente ser enxergado como uma ameaça a
ordem e ao progresso da nação que precisava, segundo os discursos militares, se
libertar da ameaça comunista. (CABRAL, 2016, p. 134) Se essa existia, não é a
questão, o que nos importa aqui é que a partir das diferenças já existentes, a
sociedade brasileira pós-1964 legitima ainda mais a marginalização da população
gay, pois se antes eram doentes e/ou pecadores, passariam então a ser também
criminosos.
Criar essa visão sobre os homossexuais, partiria então da premissa que já
compreendemos aqui, que independente de um jovem gay se identificar com o
socialismo ou não, o fato de sua sexualidade ser vista como desviante, ou seja, um
estigma, abriria espaço para que aqueles que detinham o poder na sociedade
construírem uma identidade sobre estes ao seu bem entender. E não seria estranho,
por exemplo, pensar reflexos deste movimento no nosso presente, já que sempre nos
deparamos com indivíduos que acreditam que as discussões sobre sexualidade e
gênero seriam uma armadilha comunista, pois como sabemos, estruturas, governos,
ditaduras, mudam ou acabam mais rapidamente que mentalidades e discursos. Apesar
disso, ações geram reações, e um indivíduo vítima de uma opressão em algum
momento pode reagir a situação a qual está submetido, pois o estigma que se criou
45

em torno deste poderá elaborar um sentimento de coletividade para com aqueles que
vivenciam o mesmo, ou situação parecida. Voltando à Goffman, “As pessoas que têm
um estigma particular tendem a ter experiências semelhantes de aprendizagem
relativa à sua condição e a sofrer mudanças semelhantes na concepção do eu.”
(GOFFMAN, 2004, p. 30) Logo, compreendemos que um homossexual vivendo uma
situação de repressão de sua sexualidade, moldará aquela identidade criada pela
sociedade sobre si, refletirá sobre ela e constituirá novas percepções de si próprio,
podendo se unir a outras e outros que compartilhem da mesma situação marginalizada
em que se encontra
Ao mesmo tempo que o estigma segrega, ele então potencializaria uma
resistência contra aqueles que se privilegiam disso e seria o estopim para a criação de
identidades e comportamentos que se colocariam contra as normas vigentes. Podemos
pensar a construção desta nova identidade homossexual a partir dos anos de 1970,
fortalecida por um sentimento de revolta e necessidade de mudanças. Partindo disto, a
nova identidade a ser criada não diz respeito a entender homossexuais como um
bloco homogêneo e que todos os indivíduos tenham características próximas ou
idênticas. Essa identidade, principalmente a partir do final dos anos de 1970 é
política, com forte teor de resistência. O ambiente vivenciado pelos homossexuais,
pelas travestis e pessoas trans foi bastante hostil, e toda essa hostilidade gerou um
movimento de contracultura, de questionamentos de toda a heteronormatividade
vigente na sociedade da época e de exigência de direitos.
Quando Lampião da Esquina se propõe a “tirar o homossexual do gueto”, e
mostrar “para as bichas” que exigir direitos era não só necessário como também uma
questão de sobrevivência, ele se coloca nesse jogo. Essa nova identidade
homossexual é muito mais sobre como toda a população gay deveria se comportar
perante as discriminações e preconceitos, do que sobre como se envolver
afetivamente, sexualmente e como se comportar no cotidiano. Essa identidade que
estava sendo pensada, exigia um posicionamento, exigia que os homossexuais
encarassem o ato de “se assumir” como orgulho, e quando alguém assumisse sua
sexualidade, mais um ato de resistência estava sendo feito.
46

Percebemos isto quando lemos uma das cartas no segundo capítulo deste
trabalho. Quando um leitor de pseudônimo Infante – aparentemente um jovem gay
não assumido – escreve para o jornal narrando sua situação, narrada de maneira triste.
Porém os editores ao responderem, não pensam duas vezes em dizer que não “iriam
servir de muro das lamentações”, pois entre tantas coisas acontecendo no país, o
jovem não deveria se dar ao luxo de se fechar em seus problemas. Ora, dentro de um
regime militar, mesmo que em período de abertura, o momento era de combate, e
analisando o posicionamento do jornal perante esta carta, qualquer sujeito não
heterossexual deveria não só estar assumido, mas como pronto para protestar contra o
regime sobre o orgulho de si e dos seus semelhantes, e resistir aos problemas
causados pelo preconceito vigente. O posicionamento de Lampião, junto a todas estas
mudanças sociais que aconteciam concomitantemente, nos mostram que esta nova
identidade é combativa e contrária a aceitar passivamente as perseguições policiais,
os discursos religiosos e médicos. Os anos de 1970 nos apresentam sujeitos
homossexuais que teriam que ser mais políticos do que antes, pois a situação não
abriria margem para outros comportamentos, a conquista dos direitos estava em jogo,
e pensar isto era também refletir sobre o fim do regime que para tal ainda exigia uma
luta constante.

Temos aqui toda uma ressignificação de uma característica que antes era
estigma, inclusive internalizado por grande parte dos homossexuais e travestis, e que
então se torna motivo para uma mudança. Aquela diferença social, usada para
marginalizar, foi uma força motora para uma reação questionadora das estruturas
dominantes. Se no aspecto econômico essa nova identidade não rompesse, por
exemplo, com o capitalismo, por outro lado, no âmbito cultural, as estruturas da
heteronormatividade começavam a ser abaladas, estruturas que inclusive foram base
para o comportamento das esquerdas e das direitas políticas.
Pensar esta nova imagem homossexual, é pensar uma participação mais ativa
na vida política, nas decisões acerca dos rumos que o país deveria seguir, de um
grupo que então passa a exigir respeito e direitos. As ideias dominantes penetraram
todos os grupos, independente de suas perspectivas políticas, e como a visão religiosa
47

até então era bastante influente, homossexuais foram vítimas de agressões de grupos
mais revolucionários de esquerda, como de conservadores da direita. Os anos 1970
então, marcam um protagonismo dos homossexuais onde suas vozes são as que
também vão construir discursos sobre o que os próprios são, o que querem e por que
meios irão tentar conquistar.
Não podemos entretanto encerrar esse texto sem problematizar a ideia de
identidade homossexual. Pensando os limites que esta traz consigo além de entendê-
la historicamente, como fruto de um momento que em grande medida, tornou
necessária a sua construção. E para a construção desta identidade, o próprio rótulo de
homossexual passaria então a ser importante, pois o uso contínuo deste na vida social
pelo movimento gay indicaria um grande incentivo a que pessoas não assumidas
saíssem do armário. Porém, o antropólogo Edward MacRae nos diz que:

Alega-se que essas posturas acabavam por validar o uso do rótulo


“homossexual”, concebido por alguns como sendo uma patente forma de
controle social, seja ele imposto a um indivíduo por forças sociais externas
ou voluntariamente adotado. A prática de “se assumir”, encorajada pelos
grupos, correria o risco de não ser nada revolucionária, transformando-se,
talvez, somente numa acomodação de comportamentos e sentimentos, até
então em desarmonia com as normas gerais, integrando-se de uma maneira
mais funcional à estrutura vigente. (MACRAE, 1990, p.56)

Esta problemática nos traz alguns importantes elementos para pensarmos sobre
o próprio comportamento do Lampião da Esquina. Pois vejamos, como já dito acima,
o periódico tinha como objetivos o surgimento de uma nova identidade homossexual,
pautada em um comportamento amplamente político e de incentivo a que gays,
lésbicas, bissexuais, travestis e trans se assumissem e consequentemente, lutassem
contra as formas de opressão.
Porém, assim como podemos enxergar pela perspectiva de MacRae, o ato em si
de se assumir tiraria o indivíduo de um rótulo, colocando-o em outro, que mesmo
sendo este estigmatizado, ainda se encontra dentro da estrutura social vigente. Não
seria revolucionário, pois o rótulo também seria uma forma de limitação, sendo que
indivíduos podem ter as suas identidades moldáveis ao longo do tempo, talvez não
toda ela, mas em grande medida um indivíduo não seria estático durante toda sua
48

vida, e isto inclui o campo da sexualidade. Partindo destes pressupostos, pensar uma
identidade homossexual seria problemático pois pode deixar brechas para que se crie
uma imagem em que a homossexualidade é o fator mais importante da vida de um
sujeito, resumindo-o a sua sexualidade. Como podemos observar em Trevisan:

esse será um adjetivo a mais num conjunto inevitável de qualificativos, que


definirá alguém como homossexual além de brasileiro ou inglês, nordestino
ou gaúcho, jovem ou velho, alto ou baixo, etc. (TREVISAN apud SILVA,
2007, p. 34)

Logo, a sexualidade e o fato de alguém, por exemplo, ser gay, é mais um


elemento da personalidade e identidade de uma pessoa. Assim, pensar uma identidade
homossexual requer bastante cuidado e sensibilidade, para não cairmos em
generalizações e também não pensar identidade de maneira superficial e solta no
tempo. (MACRAE, 1990, p.49) Entendê-la historicamente se faz não só importante
como necessário exatamente por isto.
Pontuadas todas estas problemáticas, voltemos ao momento do regime civil
militar, que é conhecido como o período onde o engajamento político ganhou seu
ápice na história do Brasil. Diversas camadas da sociedade se movimentaram contra
as políticas adotadas pelos governos militares, a resistência a este ocorreu no teatro,
na música, na luta armada, em partidos clandestinos, na imprensa alternativa e nos
diversos movimentos sociais emergentes no período, como o feminista e
homossexual, e com o movimento negro que já forte antes mesmo do período. Se a
repressão era parte da cultura daquela sociedade, inclusive de forma
institucionalizada, a resistência se tornou parte daquela cultura. Isso não envolve
dizer que toda a sociedade estava caminhando em um sentindo ou no outro, mas que
estes dois elementos como parte da cultura foram muito marcantes entre 1964 e 1985.
É neste rico contexto histórico que se circunscreve a nova identidade homossexual,
mais do que sobre personalidade e características individuais, é uma identidade que
perpassa o engajamento político e a resistência ao extremo conservadorismo vigente.
É uma identidade que pensa o coletivo e o comportamento em grupo para
autoproteção e para conquista de espaços. As cartas analisadas no capítulo anterior e
49

a forma como o Lampião da Esquina responde a cada uma delas, nos apresenta essas
preocupações, desde de trazer uma maior visibilidade para esse determinado grupo
social, como também demonstrar seu engajamento político. Seus editores não
perdiam de vista a necessidade de embate ao conservadorismo e de encorajar, de
alguma forma, o seu público não heterossexual.
Quando escolhemos as cartas como fontes a serem analisadas, partimos da fala
de Almerindo Cardoso Simões Júnior, mestre em Memória Social: “o discurso
jornalístico é tradicionalmente formador de sentidos, criador de memórias, ato
inaugural – já que apresenta a possibilidade de romper com discursos anteriores e
apontar outros”. (SIMÕES JR, 2016, p. 9) No momento em que Lampião responde as
missivas, ele se aproxima de seus leitores, cria um sentimento de pertencimento
nestes, que reconhecem então o periódico como algo que os representa. Mesmo com
contradições – em diversos momentos o jornal apresenta posicionamentos classistas –
a aproximação acontecia. A visão questionadora de Lampião encorajava seus leitores,
permitia que enxergassem a si próprios de uma maneira diferente da que a estava
posta na sociedade, o discurso de Lampião favoreceu a construção de uma nova
identidade. Responder as missivas e dar a devida atenção a elas contribuiu em certa
medida, nesta mudança de paradigmas.
Lampião é fruto desse caldeirão cultural de novos questionamentos, muito
influenciados pelo movimento de contracultura, e que no Brasil ganha dimensões
novas. Para pensar uma luta por direitos e em uma resistência frente a
heteronormatividade homofóbica, não cabe uma identidade flexível e fluida, o embate
exige uma identidade política fixa, romper discursos e estruturas exige uma
coletividade pautada em elementos comuns que atingem a todos, no caso, os padrões
normativos de gênero e de sexualidade. É esta identidade emergente a partir dos anos
do regime que ganha espaço e mudará de alguma forma a vida de lésbicas, gays,
bissexuais, travestis e pessoas trans na forma de se enxergar e de observar a
sociedade ao seu redor.
Neste capítulo procuramos compreender como que um momento histórico
como o regime civil militar no Brasil, em meio a tantos conflitos, com repressão,
50

direitos cerceados e muito conservadorismo, limitando as discussões sobre a


diversidade, conseguiu sensibilizar diversos grupos sociais. O movimento
homossexual consegue sentir neste contexto, uma necessidade cada vez maior de
construir sua própria narrativa sobre a vida, suas concepções de mundo em um
protesto a ordem heteronormativa, fortemente presente nos anos do regime. Toda essa
movimentação constitui na criação de uma nova identidade, na qual homossexuais,
bis, travestis e pessoas trans fossem as protagonistas de suas histórias. Sendo assim,
esta nova identidade mencionada em tantos momentos aqui, é essencialmente,
política.

CONCLUSÃO

Os anos de repressão, conservadorismo, perseguições e extrema


marginalização social de determinados grupos sociais, fomentou uma cultura de
engajamento jamais vista antes no Brasil e novos discursos de combate a ordem. É
neste período que lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis se sensibilizam e
percebem a importância de se posicionarem perante tamanha situação. Tomar tal
atitude era não só questão de sobrevivência, mas de lutar por uma mudança social que
garantisse seus direitos.
Neste trabalho procuramos compreender, primeiramente, a maneira com a qual
o contexto do regime civil militar e a sociedade deste período se posicionavam sobre
as temáticas acerca da sexualidade e diversidade. Articulando a ação governamental e
de parte da população sobre estes corpos não heterossexuais, visualizando de que
forma o conservadorismo censurou a população gay, e como grupos sociais das mais
distintas vertentes políticas compactuaram com a marginalização dos homossexuais.
Porém, tendo em vista o avanço de uma movimentação por parte dos gays, que já
demonstravam uma grande insatisfação para a condição social a que estavam
relegados.
No segundo momento, trabalhamos na perspectiva de compreender a imprensa
alternativa em sua diversidade, seu comportamento perante o regime e como estes
51

temas relativos à sexualidade e a diversidade estavam sendo pautados por estas


vertentes. Também realizamos a descrição do jornal Lampião da Esquina, e as
análises das fontes escolhidas para este presente trabalho, no caso, as missivas e as
respostas dadas pelo conselho editorial a estas. Por fim, realizamos a discussão a
nova identidade homossexual criada, passando pelas discussões de estigma,
identidades e diferenças em diálogo com este novo posicionamento político
homossexual e com o discurso apresentado pelo Lampião da Esquina.
A nova identidade homossexual está ligada ao contexto histórico no qual
abordamos neste trabalho, é uma identidade política e de resistência, que moldou o
comportamento de boa parte da população gay que teve acesso a esse debate. Um
fortalecimento coletivo, pautado na reconstrução da própria imagem, na
desconstrução de estereótipos sociais e transpassando para o social, uma nova
identidade. Questionando valores, ocupando espaços e alcançando novos públicos,
esse contexto de alguma forma influenciou os anos seguintes, demonstrando que de
forma organizada, o grupo que hoje chamamos de LGBT*, pode alcançar outros
horizontes.
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FONTE

Lampião da Esquina

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