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LITERATURA - Profª.

ISABEL VEGA - AULA 17

3º Fase do Modernismo – Prosa – Clarice Lispector


Texto 1
Revelando-se uma “sentidora”, uma “intuitiva”, ressaltou em alguns depoimentos que seus livros, mais
do que histórias, continham “impressões”, pois “não se preocupam com os fatos em si, porque o importante é
a repercussão do fato no indivíduo”.

a) Personagens tensas e inadaptadas ao mundo: Suas personagens, representativas da situação


alienada dos indivíduos das grandes cidades, geralmente são tensas e inadaptadas a um mundo
repetitivo e inautêntico, que as despersonaliza.
b) Quebra da fronteira entre a voz do narrador e a das personagens: Clarice afasta-se das técnicas
tradicionais do romance, caracterizado como um espelho de época. Sua literatura é um ambíguo
espelho da mente, registrado através do fluxo de consciência, que indefine as fronteiras entre a voz do
narrador e a das personagens.
c) Narrativa interiorizada: Rompe-se a narrativa referencial, ligada a acontecimentos. Em lugar dela,
emerge uma narrativa interiorizada, centrada num momento de vivência interior da personagem (ou do
narrador). É possível, até mesmo, que um acontecimento exterior provoque o desencadear do fluxo de
consciência: um acontecimento pode liberar ideias que vão até o inconsciente da personagem.
d) Epifania ou momento de revelação: A abertura da consciência para momentos “luminosos”, “de
revelação”, é o que mais marca as personagens de Clarice.

Segundo Affonso Romano de Sant’Anna, os romances e contos da escritora percorrem geralmente quatro
passos:

1. a personagem é disposta numa determinada situação cotidiana;


2. prepara-se um evento, que é pressentido discretamente;
3. ocorre o evento, que lhe “ilumina” a vida;
4. ocorre o desfecho, que aponta uma personagem mudada, “reformada” interiormente.
(Campedelli, Samira Youssef. Literatura: história e texto.6ed. São Paulo: Saraiva, 1999.)

Texto 2 – CACD 2009

Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que
sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa
e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa,
sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama?
Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e é este o nome.

Texto 3 – CACD 2012


As críticas, de um modo geral, não me fazem bem. A do Álvaro Lins (...) me abateu e isso foi bom de
certo modo. Escrevi para ele dizendo que não conhecia Joyce nem Virginia Woolf nem Proust quando fiz o livro,
porque o diabo do homem só faltou me chamar de representante comercial deles. Não gosto quando dizem
que tenho afinidades com Virginia Woolf (só li, aliás, depois de escrever o meu primeiro livro): é que não quero
perdoar o fato de ela se ter suicidado. O horrível dever é ir até o fim.

Texto 4 – CACD 2012


Estou tão perdida. Mas é assim mesmo que se vive: perdida no tempo e no espaço.
Morro de medo de comparecer diante de um Juiz. Emeretíssimo, dá licença de eu fumar? Dou, sim
senhora, eu mesmo fumo cachimbo. Obrigada, Vossa Eminência. Trato bem o Juiz, Juiz é Brasília. Mas não
vou abrir processo contra Brasília. Ela não me ofendeu. (...)
Eu sei morrer. Morri desde pequena. E dói, mas a gente finge que não dói. Estou com tanta saudade
de Deus.
E agora vou morrer um pouquinho. Estou tão precisada.
Sim. Aceito, my Lord. Sob protesto.
Mas Brasília é esplendor.
Estou assustadíssima.

Texto 5 – CACD 2014


Quanto a mim mesma, sem mentir nem ser verdadeira — como naquele momento em que ontem de
manhã estava sentada à mesa do café — quanto a mim mesma, sempre conservei uma aspa à esquerda e
outra à direita de mim. De algum modo “como se não fosse eu” era mais amplo do que se fosse — uma vida
inexistente me possuía toda e me ocupava como uma invenção. (...)
Enquanto eu mesma era, mais do que limpa e correta, era uma réplica bonita. Pois tudo isso é o que
provavelmente me torna generosa e bonita. Basta o olhar de um homem experimentado para que ele avalie
que eis uma mulher de generosidade e graça, e que não dá trabalho, e que não rói um homem: mulher que
sorri e ri.
Essa imagem de mim entre aspas me satisfazia, e não apenas superficialmente. Eu era a imagem do
que não era, e essa imagem do não ser me cumulava toda: um dos modos mais fortes é ser negativamente.
Como eu não sabia o que era, então “não ser” era a minha maior aproximação da verdade: pelo menos eu tinha
o lado avesso: eu pelo menos tinha o “não”, tinha o meu oposto. O meu bem eu não sabia qual era, então vivia
com algum pré-fervor, o que era o meu “mal”.

Texto 6 – Perto do coração selvagem (fragmento)

“A minha única verdade é que vivo. Sinceramente, vivo. Quem eu sou? Bem, isso já é demais. [...] É
curioso como não sei dizer quem sou. Quer dizer, sei-o bem, mas não posso dizer. Sobretudo tenho medo de
dizer porque no momento em que tento falar não só não exprimo o que sinto como o que sinto se transforma
lentamente no que eu digo.”

Texto 7 – A hora da estrela (fragmento)

Tudo no mundo começou com um sim. Uma molécula disse sim a outra molécula e nasceu a vida. Mas
antes da pré-história havia a pré-história da pré-história e havia o nunca e havia o sim. Sempre houve. Não sei
o quê, mas sei... que o universo jamais começou.
Que ninguém se engane, só consigo a simplicidade através de muito trabalho.
Enquanto eu tiver perguntas e não houver resposta continuarei a escrever. Como começar pelo início,
se as coisas acontecem antes de acontecer? Se antes da pré-pré-história já havia os monstros apocalípticos?
Se esta história não existe, passará a existir. Pensar é um ato. Sentir é um fato. Os dois juntos — sou eu que
escrevo o que estou escrevendo. Deus é o mundo. A verdade é sempre um contato interior e inexplicável. A
minha vida a mais verdadeira é irreconhecível, extremamente interior e não tem uma só palavra que a signifique.
Meu coração se esvaziou de todo desejo e reduz-se ao próprio último ou primeiro pulsar. A dor de dentes que
perpassa esta história deu uma fisgada funda em plena boca nossa. Então eu canto alto agudo uma melodia
sincopada e estridente — é a minha própria dor, eu que carrego o mundo e há falta de felicidade. Felicidade?
Nunca vi palavra mais doida, inventada pelas nordestinas que andam por aí aos montes.
Como eu irei dizer agora, esta história será o resultado de uma visão gradual — há dois anos e meio
venho aos poucos descobrindo os porquês. É visão da iminência de. De quê? Quem sabe se mais tarde saberei.
Como que estou escrevendo na hora mesma em que sou lido. Só não início pelo fim que justificaria o começo
— como a morte parece dizer sobre a vida — porque preciso registrar os fatos antecedentes.
Escrevo neste instante com algum prévio pudor por vos estar invadindo com tal narrativa tão exterior e
explícita. De onde no entanto até sangue arfante de tão vivo de vida poderá quem sabe escorrer e logo se
coagular em cubos de geleia trêmula. Será essa história um dia o meu coágulo? Que sei eu. Se há veracidade
nela — e é claro que a história é verdadeira embora inventada — que cada um a reconheça em si mesmo
porque todos nós somos um e quem não tem pobreza de dinheiro tem pobreza de espírito ou saudade por lhe
faltar coisa mais preciosa que ouro — existe a quem falte o delicado essencial.
Como é que sei tudo o que vai se seguir e que ainda o desconheço, já que nunca o vivi? É que numa
rua do Rio de Janeiro peguei no ar de relance o sentimento de perdição no rosto de uma moça nordestina. Sem
falar que eu em menino me criei no Nordeste. Também sei das coisas por estar vivendo. Quem vive sabe,
mesmo sem saber que sabe. Assim é que os senhores sabem mais do que imaginam e estão fingindo de
sonsos.

Texto 8 – Um aprendizagem ou o livro dos prazeres (fragmento)


Quanto a ela, lutara toda a sua vida contra a tendência ao devaneio, nunca deixando que ela a levasse
até as últimas águas. Mas o esforço de nadar contra a corrente doce havia tirado parte de sua força vital. Agora,
no silêncio em que ambos estavam, ela abriu suas portas, relaxou a alma e o corpo, e não soube quanto tempo
se passara pois tinha-se entregue a um profundo e cego devaneio que o relógio da Glória não interrompia.
Ele se mexeu na cama. Então ela falou:
— Você tinha me dito que, quando me perguntassem meu nome eu não dissesse Lóri, mas “Eu”. Pois
só agora eu me chamo “Eu”. E digo: eu está apaixonada pelo teu eu. Então nós é. Ulisses, nós é original.
[...]
Foi nesse estado sonho-vislumbre que ela sonhou vendo que a fruta do mundo era dela. Ou se não
era, que acabara de tocá-la. Era uma fruta enorme, escarlate e pesada que ficava suspensa no espaço escuro,
brilhando de uma quase luz de ouro. E que no ar mesmo ela encostava a boca na fruta e conseguia mordê-la,
deixando-a no entanto inteira, tremeluzindo no espaço. Pois assim era com Ulisses: eles se haviam possuído
além do que parecia ser possível e permitido, e no entanto ele e ela estavam inteiros. A fruta estava inteira,
sim, embora dentro da boca sentisse como coisa viva a comida da terra. Era terra santa porque era a única em
que um ser humano podia ao amar dizer: eu sou tua e tu és meu, e nós é um.

Texto 9 – “Por não estarem distraídos”

Havia a levíssima embriaguez de andarem juntos, a alegria como quando se sente a garganta um
pouco seca e se vê que por admiração se estava de boca entreaberta: eles respiravam de antemão o ar que
estava à frente, e ter esta sede era a própria água deles. Andavam por ruas e ruas falando e rindo, falavam e
riam para dar matéria e peso à levíssima embriaguez que era a alegria da sede deles. Por causa de carros e
pessoas, às vezes eles se tocavam, e ao toque – a sede é a graça, mas as águas são uma beleza de escuras
– e ao toque brilhava o brilho da água deles, a boca ficando um pouco mais seca de admiração. Como eles
admiravam estarem juntos!
Até que tudo se transformou em não. Tudo se transformou em não quando eles quiseram essa mesma
alegria deles. Então a grande dança dos erros. O cerimonial das palavras desacertadas. Ele procurava e não
via, ela não via que ele não vira, ela que estava ali, no entanto. No entanto ele que estava ali. Tudo errou, e
havia a grande poeira das ruas, e quanto mais erravam, mais com aspereza queriam, sem um sorriso. Tudo só
porque tinham prestado atenção, só porque não estavam bastante distraídos. Só porque, de súbito exigentes
e duros, quiseram ter o que já tinham. Tudo porque quiseram dar um nome; porque quiseram ser, eles que
eram. Foram então aprender que, não se estando distraído, o telefone não toca, e é preciso sair de casa para
que a carta chegue, e quando o telefone finalmente toca, o deserto da espera já cortou os fios. Tudo, tudo por
não estarem mais distraídos.
Texto 10 – “Medo da eternidade”

Jamais esquecerei o meu aflitivo e dramático contato com a eternidade.


Quando eu era muito pequena ainda não tinha provado chicles e mesmo em Recife falava-se pouco
deles. Eu nem sabia bem de que espécie de bala ou bombom se tratava. Mesmo o dinheiro que eu tinha não
dava para comprar: com o mesmo dinheiro eu lucraria não sei quantas balas.
Afinal minha irmã juntou dinheiro, comprou e ao sairmos de casa para a escola me explicou:
— Como não acaba? — Parei um instante na rua, perplexa.
— Não acaba nunca, e pronto.
Eu estava boba: parecia-me ter sido transportada para o reino de histórias de príncipes e fadas. Peguei
a pequena pastilha cor-de-rosa que representava o elixir do longo prazer. Examinei-a, quase não podia acreditar
no milagre. Eu que, como outras crianças, às vezes tirava da boca uma bala ainda inteira, para chupar depois,
só para fazê-la durar mais. E eis-me com aquela coisa cor-de-rosa, de aparência tão inocente, tornando
possível o mundo impossível do qual já começara a me dar conta.
— Com delicadeza, terminei afinal pondo o chicle na boca.
— E agora que é que eu faço? — Perguntei para não errar no ritual que certamente deveria haver.
— Agora chupe o chicle para ir gostando do docinho dele, e só depois que passar o gosto você começa
a mastigar. E aí mastiga a vida inteira. A menos que você perca, eu já perdi vários.
— Perder a eternidade? Nunca.
O adocicado do chicle era bonzinho, não podia dizer que era ótimo. E, ainda perplexa, encaminhávamo-
nos para a escola.
— Acabou-se o docinho. E agora?
— Agora mastigue para sempre.
Assustei-me, não saberia dizer por quê. Comecei a mastigar e em breve tinha na boca aquele puxa-
puxa cinzento de borracha que não tinha gosto de nada. Mastigava, mastigava. Mas me sentia contrafeita. Na
verdade eu não estava gostando do gosto. E a vantagem de ser bala eterna me enchia de uma espécie de
medo, como se tem diante da ideia de eternidade ou de infinito.
Eu não quis confessar que não estava à altura da eternidade. Que só me dava aflição. Enquanto isso,
eu mastigava obedientemente, sem parar.
Até que não suportei mais, e, atravessando o portão da escola, dei um jeito de o chicle mastigado cair
no chão de areia.
— Olha só o que me aconteceu! — Disse eu em fingidos espanto e tristeza. — Agora não posso
mastigar mais! A bala acabou!
— Já lhe disse — repetiu minha irmã — que ela não acaba nunca. Mas a gente às vezes perde. Até de
noite a gente pode ir mastigando, mas para não engolir no sono a gente prega o chicle na cama. Não fique
triste, um dia lhe dou outro, e esse você não perderá.
Eu estava envergonhada diante da bondade de minha irmã, envergonhada da mentira que pregara
dizendo que o chicle caíra na boca por acaso.
Mas aliviada. Sem o peso da eternidade sobre mim.

Texto 11 – “As três experiências”

Há três coisas para as quais eu nasci e para as quais eu dou a minha vida. Nasci para amar os outros,
nasci para escrever, e nasci para criar meus filhos. "O amar os outros" é tão vasto que inclui até o perdão para
mim mesma com o que sobra. As três coisas são tão importantes que minha vida é curta para tanto. Tenho que
me apressar, o tempo urge. Não posso perder um minuto do tempo que faz minha vida. Amar os outros é a
única salvação individual que conheço: ninguém estará perdido se der amor e às vezes receber amor em troca.
E nasci para escrever. A palavra é meu domínio sobre o mundo. Eu tive desde a infância várias
vocações que me chamavam ardentemente. Uma das vocações era escrever. E não sei por que, foi esta que
eu segui. Talvez porque para outras vocações eu precisaria de um longo aprendizado, enquanto que para
escrever o aprendizado é a própria vida se vivendo em nós e ao redor de nós. É que não sei estudar. E, para
escrever, o único estudo é mesmo escrever. Adestrei-me desde os sete anos de idade para que um dia eu
tivesse a língua em meu poder. E no entanto cada vez que eu vou escrever, é como se fosse a primeira vez.
Cada livro meu é uma estreia penosa e feliz. Essa capacidade de me renovar toda à medida que o tempo passa
é o que eu chamo de viver e escrever.
Quanto aos meus filhos, o nascimento deles não foi casual. Eu quis ser mãe. Meus dois filhos foram
gerados voluntariamente. Os dois meninos estão aqui, ao meu lado. Eu me orgulho deles, eu me renovo neles,
eu acompanho seus sofrimentos e angústias, eu lhes dou o que é possível dar. Se eu não fosse mãe, seria
sozinha no mundo. Mas tenho uma descendência, e para eles no futuro eu preparo meu nome dia a dia. Sei
que um dia abrirão as asas para o voo necessário, e eu ficarei sozinha: É fatal, porque a gente não cria os filhos
para a gente, nós os criamos para eles mesmos. Quando eu ficar sozinha, estarei seguindo o destino de todas
as mulheres.
Sempre me restará amar. Escrever é alguma coisa extremamente forte mas que pode me trair e me
abandonar: posso um dia sentir que já escrevi o que é meu lote neste mundo e que eu devo aprender também
a parar. Em escrever eu não tenho nenhuma garantia. Ao passo que amar eu posso até a hora de morrer. Amar
não acaba. É como se o mundo estivesse a minha espera. E eu vou ao encontro do que me espera.

Texto 12 – Mineirinho

É, suponho que é em mim, como um dos representantes do nós, que devo procurar por que está doendo
a morte de um facínora. E por que é que mais me adianta contar os treze tiros que mataram Mineirinho do que
os seus crimes. Perguntei a minha cozinheira o que pensava sobre o assunto. Vi no seu rosto a pequena
convulsão de um conflito, o mal-estar de não entender o que se sente, o de precisar trair sensações
contraditórias por não saber como harmonizá-las. Fatos irredutíveis, mas revolta irredutível também, a violenta
compaixão da revolta. Sentir-se dividido na própria perplexidade diante de não poder esquecer que Mineirinho
era perigoso e já matara demais; e no entanto nós o queríamos vivo. A cozinheira se fechou um pouco, vendo-
me talvez como a justiça que se vinga. Com alguma raiva de mim, que estava mexendo na sua alma, respondeu
fria: “O que eu sinto não serve para se dizer. Quem não sabe que Mineirinho era criminoso? Mas tenho certeza
de que ele se salvou e já entrou no céu”. Respondi-lhe que “mais do que muita gente que não matou”. Por quê?
No entanto a primeira lei, a que protege corpo e vida insubstituíveis, é a de que não matarás. Ela é a minha
maior garantia: assim não me matam, porque eu não quero morrer, e assim não me deixam matar, porque ter
matado será a escuridão para mim.
Esta é a lei. Mas há alguma coisa que, se me faz ouvir o primeiro e o segundo tiro com um alívio de
segurança, no terceiro me deixa alerta, no quarto desassossegada, o quinto e o sexto me cobrem de vergonha,
o sétimo e o oitavo eu ouço com o coração batendo de horror, no nono e no décimo minha boca está trêmula,
no décimo primeiro digo em espanto o nome de Deus, no décimo segundo chamo meu irmão. O décimo terceiro
tiro me assassina — porque eu sou o outro. Porque eu quero ser o outro.
Essa justiça que vela meu sono, eu a repudio, humilhada por precisar dela. Enquanto isso durmo e
falsamente me salvo. Nós, os sonsos essenciais.
Para que minha casa funcione, exijo de mim como primeiro dever que eu seja sonsa, que eu não exerça
a minha revolta e o meu amor, guardados. Se eu não for sonsa, minha casa estremece. Eu devo ter esquecido
que embaixo da casa está o terreno, o chão onde nova casa poderia ser erguida. Enquanto isso dormimos e
falsamente nos salvamos.
Até que treze tiros nos acordam, e com horror digo tarde demais — vinte e oito anos depois que
Mineirinho nasceu – que ao homem acuado, que a esse não nos matem. Porque sei que ele é o meu erro. E
de uma vida inteira, por Deus, o que se salva às vezes é apenas o erro, e eu sei que não nos salvaremos
enquanto nosso erro não nos for precioso. Meu erro é o meu espelho, onde vejo o que em silêncio eu fiz de um
homem. Meu erro é o modo como vi a vida se abrir na sua carne e me espantei, e vi a matéria de vida, placenta
e sangue, a lama viva.
Em Mineirinho se rebentou o meu modo de viver. Como não amá-lo, se ele viveu até o décimo-terceiro
tiro o que eu dormia? Sua assustada violência. Sua violência inocente — não nas consequências, mas em si
inocente como a de um filho de quem o pai não tomou conta.
Tudo o que nele foi violência é em nós furtivo, e um evita o olhar do outro para não corrermos o risco
de nos entendermos. Para que a casa não estremeça.
A violência rebentada em Mineirinho que só outra mão de homem, a mão da esperança, pousando
sobre sua cabeça aturdida e doente, poderia aplacar e fazer com que seus olhos surpreendidos se erguessem
e enfim se enchessem de lágrimas. Só depois que um homem é encontrado inerte no chão, sem o gorro e sem
os sapatos, vejo que esqueci de lhe ter dito: também eu.
Eu não quero esta casa. Quero uma justiça que tivesse dado chance a uma coisa pura e cheia de
desamparo em Mineirinho — essa coisa que move montanhas e é a mesma que o fez gostar “feito doido” de
uma mulher, e a mesma que o levou a passar por porta tão estreita que dilacera a nudez; é uma coisa que em
nós é tão intensa e límpida como uma grama perigosa de radium, essa coisa é um grão de vida que se for
pisado se transforma em algo ameaçador — em amor pisado; essa coisa, que em Mineirinho se tornou punhal,
é a mesma que em mim faz com que eu dê água a outro homem, não porque eu tenha água, mas porque,
também eu, sei o que é sede; e também eu, que não me perdi, experimentei a perdição.
A justiça prévia, essa não me envergonharia. Já era tempo de, com ironia ou não, sermos mais divinos;
se adivinhamos o que seria a bondade de Deus é porque adivinhamos em nós a bondade, aquela que vê o
homem antes de ele ser um doente do crime. Continuo, porém, esperando que Deus seja o pai, quando sei que
um homem pode ser o pai de outro homem.
E continuo a morar na casa fraca. Essa casa, cuja porta protetora eu tranco tão bem, essa casa não
resistirá à primeira ventania que fará voar pelos ares uma porta trancada. Mas ela está de pé, e Mineirinho
viveu por mim a raiva, enquanto eu tive calma.
Foi fuzilado na sua força desorientada, enquanto um deus fabricado no último instante abençoa às
pressas a minha maldade organizada e a minha justiça estupidificada: o que sustenta as paredes de minha
casa é a certeza de que sempre me justificarei, meus amigos não me justificarão, mas meus inimigos que são
os meus cúmplices, esses me cumprimentarão; o que me sustenta é saber que sempre fabricarei um deus à
imagem do que eu precisar para dormir tranquila e que outros furtivamente fingirão que estamos todos certos
e que nada há a fazer.
Tudo isso, sim, pois somos os sonsos essenciais, baluartes de alguma coisa. E sobretudo procurar não
entender.
Porque quem entende desorganiza. Há alguma coisa em nós que desorganizaria tudo — uma coisa
que entende. Essa coisa que fica muda diante do homem sem o gorro e sem os sapatos, e para tê-los ele
roubou e matou; e fica muda diante do São Jorge de ouro e diamantes. Essa alguma coisa muito séria em mim
fica ainda mais séria diante do homem metralhado. Essa alguma coisa é o assassino em mim? Não, é
desespero em nós. Feito doidos, nós o conhecemos, a esse homem morto onde a grama de radium se
incendiara. Mas só feito doidos, e não como sonsos, o conhecemos. É como doido que entro pela vida que
tantas vezes não tem porta, e como doido compreendo o que é perigoso compreender, e só como doido é que
sinto o amor profundo, aquele que se confirma quando vejo que o radium se irradiará de qualquer modo, se
não for pela confiança, pela esperança e pelo amor, então miseravelmente pela doente coragem de destruição.
Se eu não fosse doido, eu seria oitocentos policiais com oitocentas metralhadoras, e esta seria a minha
honorabilidade.
Até que viesse uma justiça um pouco mais doida. Uma que levasse em conta que todos temos que
falar por um homem que se desesperou porque neste a fala humana já falhou, ele já é tão mudo que só o bruto
grito desarticulado serve de sinalização.
Uma justiça prévia que se lembrasse de que nossa grande luta é a do medo, e que um homem que
mata muito é porque teve muito medo. Sobretudo uma justiça que se olhasse a si própria, e que visse que nós
todos, lama viva, somos escuros, e por isso nem mesmo a maldade de um homem pode ser entregue à maldade
de outro homem: para que este não possa cometer livre e aprovadamente um crime de fuzilamento.
Uma justiça que não se esqueça de que nós todos somos perigosos, e que na hora em que o justiceiro
mata, ele não está mais nos protegendo nem querendo eliminar um criminoso, ele está cometendo o seu crime
particular, um longamente guardado. Na hora de matar um criminoso – nesse instante está sendo morto um
inocente. Não, não é que eu queira o sublime, nem as coisas que foram se tornando as palavras que me fazem
dormir tranquila, mistura de perdão, de caridade vaga, nós que nos refugiamos no abstrato.
O que eu quero é muito mais áspero e mais difícil: quero o terreno.