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Nessa Aula Tem Merenda

Passados alguns meses das manifestações estudantis contra o remanejamento de alunos na rede pública de
ensino do Estado de São Paulo, um (não) tão novo problema afeta os alunos e começa a gerar
manifestações na cidade. Trata-se de problemas ligados a distribuição da merenda para os alunos,
principalmente aqueles do período noturno. Para além de problemas políticos ligados a desvio de merenda,
vemos mais uma questão estrutural não resolvida. Como é possível que o estado mais rico da federação
ainda enfrente problemas tão básicos?

Algumas explicações são possíveis. Em primeiro lugar, gestionar um sistema que envolve milhões de
alunos, uma centena de milhares de professores, milhares de escolas, etc, requer uma administração
extremamente profissional e competente. Minha experiência com as manifestações de Novembro e
Dezembro de 2015 mostrou que isso hoje em dia, pelo menos na região onde me envolvi, não é
inteiramente verdadeiro. Tive a oportunidade de participar de reuniões com Diretores e Supervisores de
Ensino em alguns colégios e, para mim que sempre trabalhei com gestão de processos, foi um choque. A
grande maioria dos profissionais que ascendem a esses cargos é apadrinhada de políticos, vereadores,
deputados estaduais e federais, muitos com pouca ou nenhuma experiência em gestão. Alguns deles são
responsáveis por 20, 30, até 50 colégios, com dezenas de milhares de alunos. Muitos até são da área de
educação, professores e diretores de colégios, mas não tenho lembrança de ter ouvido nada próximo a
algum conceito básico de gestão.

Por outro lado, temos as escolas judaicas de São Paulo, todas particulares e que estão passando nos últimos
anos por mudanças bastante drásticas, decorrentes da redução do número de alunos e de questões
financeiras. Nessas, ao contrário, foram contratados profissionais com ampla experiência em gestão de
negócios e finanças, mas muitos, com pouco conhecimento pedagógico. O resultado parece que não tem
sido dos mais animadores também.

Em ambos os casos, não existe uma solução mágica, estamos falando de dois casos completamente
distintos, tanto em termos de magnitude como em termos de público.

Há, entretanto, algo de similar entre os casos. É a pouca ou nenhuma influencia do corpo discente, dos pais,
no debate buscando sanar os problemas. No caso das escolas estaduais, talvez por uma tradição politica
frankfurteana, que entende que o indivíduo comum não tem respostas para os problemas e que a solução
está na classe intelectual. Em São Paulo, isso funcionou de uma maneira até que adequada até alguns anos
atrás, quando os secretários e principais lideres da Secretaria de Educação eram oriundos de quadros
universitários da área, como a professora Rose Neubauer. Entretanto, da mesma maneira que os níveis
gerenciais foram ocupados por apadrinhados, hoje essa é a situação dos primeiros escalões. Isso pode ser
sentido perfeitamente em Novembro e Dezembro, quando áudios vazados de reuniões da secretaria,
mostraram os responsáveis tratando o caso como uma luta de inimigos. A ligação do chefe de gabinete da
Secretaria com a Educação? Ele era o maior fornecedor de transporte escolar na região de Guarulhos

Depois de muita luta, de demissões, etc, o governador aceitou que as mudanças não poderiam ser feitas da
maneira que desejava e adiou o processo. O resultado desse adiamento? Por enquanto quase nenhum. Um
novo secretário que não é da área, que entende que as mães de alunos devem ajudar a fazer a merenda nas
escolas para os filhos, enfim, ainda parece não existir um entendimento que se não for adotada uma solução
transparente, que envolva todas as partes interessadas, etc, dificilmente veremos uma melhoria no quadro
da educação pública em São Paulo.
No caso da educação judaica, aparentemente o problema é o inverso. Um número significativos de pais
parecem querer transferir o máximo de responsabilidade para as escolas. Não se trata de um problema
restrito a educação judaica, mas, ao contrário, algo ligado à educação particular brasileira, principalmente
nos colégios mais caros e “elitizados”. Alguns entendem a educação como um mero serviço, se estão
pagando, esperam resultados positivos. Já não é exemplo isolado o caso de pais que ao verem seus filhos
reprovados, vão se queixar (e muitas vezes até ameaçar) professores e diretores, esquecendo que uma
fração significativa do processo educativo se dá fora dos muros da escola, que se trata de um processo que
é e até tem que ser difícil (Azanha,1987). Sem o acompanhamento constante de pais e responsáveis,
dificilmente se formam alunos completos.

Nesse sentido, será que escolas publicas não tem a ensinar para escolas privadas e vice-versa. Com certeza
existe uma miríade de ideias que poderiam ser trocadas pelos dois grupos. Talvez o maior problema é que a
sociedade brasileira separou de maneira tal os mesmos que um desconhece o outro. As manifestações de
Novembro e Dezembro mostraram isso claramente. Uma das atividades que fiz durante esse período foi um
“boca-a-boca” com os moradores das adjacências das escolas publicas ocupadas. O resultado foi
desanimador, com