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Comunicação apresentada no evento Negacionismos e Revisionismos: o


conhecimento histórico sob ameaça. (São Paulo, 8/5/2019)

Marina de Mello e Souza. Departamento de História - FFLCH - USP.

Em julho de 2018, numa entrevista à TV Cultura, o então candidato à presidência


Jair Bolsonaro disse: "Se você for ver a história realmente, o português não pisava
na África, era [sic] os próprios negros que entregavam os escravos". (DW Made for
minds, O negacionismo histórico como arma política, 3/4/2019, Clarissa Neher)

Essa declaração motivou a organização desta mesa - Negacionismos nos


campos da Escravidão e da História Africana.

É interessante o artigo dessa agência de notícias alemã. A autora entende
que a negação e manipulação dos fatos que virou rotina no atual discurso oficial
do Brasil faz parte de uma estratégia de legitimação da extrema direita e de seus
projetos políticos, a partir da disseminação de uma visão distorcida da realidade,
que contesta a história acadêmica. Esta, é bom lembrar, é constituída a partir de
metodologias rigorosas e constante diálogo com os pares. A afirmação
totalmente desprovida de fundamento feita pelo então candidato à presidência
da república tinha a intenção de atribuir inteiramente aos africanos a
responsabilidade pelo tráfico de pessoas escravizadas. Mas é interessante notar
como a evocação à história ("se você for ver a história realmente") é peça chave
na sua frase telegráfica, ou tweetgráfica. A história é a comprovação da
veracidade da afirmação, que entretanto é falsa. Pois foram justamente os
portugueses que, tirando os árabes, pisaram mais fundo na África, impenetrável
ao estrangeiro até os novecentos, e se estabeleceram a partir do século XV em
algumas regiões do continente e das ilhas, como a Guiné e Cabo Verde, Angola e
São Tomé, Moçambique e a Zambézia.
Mais do que botar o pé, e com muita firmeza, tecendo laços com alguns
poderes locais e submetendo pela guerra outros, como na região que no século
XVII chamavam de "conquista de Angola", os representantes da Coroa
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portuguesa fizeram coisa única na história do comércio de gente (e era a isso que
a afirmação do então candidato à presidência se referia): capturaram pessoas em
guerras de conquista, em ataques a aldeias, e venderam-nas como escravos aos
comerciantes ávidos, que seguiam os exércitos para estarem mais perto da
valiosa mercadoria que seria embarcada para as Américas, preferencialmente
para o Brasil. É fato que essa situação, na qual os estrangeiros brancos se
envolveram na captura direta, atuando como fornecedores de escravizados para
o comércio atlântico, não perdurou por muito tempo nem mesmo em Angola ou
na Zambézia, áreas nas quais houve envolvimento direto dos portugueses na
escravização de africanos e africanas. Conforme a norma que vigorou por todo
tempo do comércio de gente, ou trato dos viventes, eram agentes africanos que
realizavam a captura (por meio de guerras, sequestros, condenações ou outros
mecanismos), e o transporte dos escravizados até os portos, nos quais os
comerciantes europeus e seus agentes adquiriam a força de trabalho que ia
mover os empreendimentos coloniais americanos. Ou seja, não houvesse a
demanda euro-americana não haveria tráfico de escravizados na dimensão em
que ele ocorreu. Mas me parece que esse raciocínio, além de não servir aos
intentos políticos dos que usam a deformação da realidade como estratégia de
imposição do seu poder, tem uma complexidade, que nem é tanta, mas está
acima da capacidade de compreensão da gente que ora proclama e aplaude
afirmações despropositadas a título de verdades.
As complexidades da história, da vida humana e das sociedades,
transpassadas pelas transformações inerente à passagem do tempo, à ação dos
homens e mulheres, permite a manipulação dos fatos por intenções ideológicas,
que podem ser desvendadas pelas pesquisas criteriosas. A narrativa histórica,
mesmo almejando a maior objetividade possível, veicula interesses específicos,
pertinentes ao lugar ocupado pela pessoa que emite o discurso. Exemplo disso é
o lugar que Luisa Mahin passou a ocupar na história da resistência dos africanos
e afro-descendentes à violência inerente a uma sociedade que os escravizava e
reduzia a propriedades destituídas de qualquer direito. No samba da Mangueira
deste ano, que aqueceu muitos corações brasileiros nos tempos tenebrosos que
adentramos um pouco antes do carnaval, ela aparece como heroína da rebelião
dos Malês, propagando uma construção romântica e destituída de
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fundamentação documental, mas que é aceita como história real na matéria do


site alemão, ao tomar o samba como depoimento histórico e afirmar que ela
"articulou levantes e revoltas escravas na região da Bahia no início do século 19".
Mas talvez esse exemplo, que eu dou para lembrar que o uso ideológico da
história é um recurso que em si mesmo não tem ideologia e serve a qualquer
partido, possa ser chamado de "afirmacionismo", na medida que recorre a
estratégias discursivas para afirmar a positividade de agentes históricos, ou
grupos sociais, marginalizados, destituídos de direitos, cujas razões não são
consideradas pelas elites governantes.
E aqui chegamos ao cerne da discussão. Aqueles que querem manter
privilégios ligados às estruturas de exploração estabelecidas constroem a sua
versão da história (apesar de estar sempre desqualificando-a), e os que querem
dar voz aos emudecidos pelos mecanismos de exploração e clamam por
sociedades mais igualitárias, mesmo estando bem mais comprometidos com os
parâmetros aceitos pelas comunidades acadêmicas produtoras de conhecimento,
constroem a sua versão da história. E se a maioria das pessoas que compõem as
comunidades produtoras de conhecimento, não só histórico, mas é dele que aqui
estamos tratando, contesta as versões construídas pelas facções que no
momento dominam os instrumentos de poder, elas se tornam inimigas a serem
exterminadas, com base em acusações sem fundamento real, com a retirada da
infraestrutura necessária para que continue a haver produção de conhecimento.
Mas voltando ao nosso ponto de partida, não há como sustentar a
afirmação de que os portugueses não pisavam na África, mesmo que em um
inédito momento de sutileza o autor da frase tenha recorrido a uma imagem,
estando de fato se referindo a que os portugueses não capturavam diretamente
os africanos escravizados, pois justamente eles, capturaram sim. Não vem ao
caso aqui enumerar a vastíssima historiografia sobre o tráfico de escravizados e
sobre a história da África que se debruçou sobre o envolvimento dos africanos
com o comércio de gente, e principalmente sobre as razões que levaram a esse
comércio, que mesmo durante os séculos nos quais ocorreu nunca foi
unanimidade, provocando entre os eruditos e os legisladores discussões acerca
de sua legitimidade.
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Mas cabe lembrar que a reconstrução dos fatos só pode ser feita a partir
da análise de documentos, seja de que natureza forem, e a partir de uma
perspectiva que considere tanto as determinações do tempo presente que
orientam as análises quanto as determinações dos tempos nos quais os
documentos foram produzidos e que orientaram a sua elaboração. O
conhecimento histórico, ou qualquer outro conhecimento, não é construído a
partir da imposição de uma vontade, que cria uma interpretação baseada apenas
no desejo de que ela vigore. Os tempos atuais de espetacularização de todos os
aspectos da vida também tornam a verdade um espetáculo, cujo tamanho é
medido pela capacidade de penetração do discurso de quem a profere e da
aceitação desse discurso, que por sua vez instaura a veracidade da verdade
transmitida de forma espetacular e não fundamentada em um compromisso com
a realidade e sim com dado desejo. Vemos assim o que parece ser um retrocesso
do comportamento humano a uma etapa regida mais pelo instinto do que pela
razão e pelos constrangimentos do social. (E essa ideia do império do instinto
tiro de conversas tidas com amigos, não é de minha autoria.) O resultado
imediato dessa situação me parece ser a vitória da lógica do mais forte, do
caçador, que despreza sua caça e nela não vê nada a ser valorizado, além de sua
qualidade de caça. Vivemos um tempo no qual predomina a irracionalidade.
Talvez a mais grave de todas seja a que levará ao colapso do meio ambiente e
com ele da humanidade: os animais e vegetais estão desaparecendo com uma
rapidez assustadora e a cadeia da vida sendo cada vez mais afetada. Estamos
assistindo ao colapso das normas de convivência humana, com a justificativa da
eliminação pura e simples do opositor. Estamos assistindo ao colapso dos ideais
humanistas, para os quais toda humanidade deveria gozar dos mesmos direitos e
que uma perspectiva evolucionista entendeu ser uma forma superior de
existência. Mas como a realidade tem vários lados, hoje também são indicados
caminhos, por homens e mulheres de talentos excepcionais, para resolver os
problemas postos pela poluição, pela explosão demográfica, pelo esgotamento
dos recursos naturais. Ou seja, os instrumentos de dominação não são
absolutamente eficazes, havendo espaços para a contestação e a criação de
alternativas à lógica da exploração absoluta do trabalho pelo capital.
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Parece que fico me afastando do tema inicial, mas a escamoteação da


verdade histórica tem uma intenção que é mais ampla do que a relacionada a
este ou aquele tema específico, às relações inter-étnicas, às opções de gênero, à
liberdade de opinião, pois está a serviço de um projeto de poder de um
determinado grupo, cujo ideal é a transformação de todos na imagem de si
próprio e a concentração máxima de toda riqueza, econômica, social e cultural,
em suas mãos. Impedir a livre circulação das ideias e criar condições para que o
pensamento único prevaleça é objetivo a ser alcançado com a eliminação de uma
formação que permita o desenvolvimento do espírito crítico e questionador,
próprio de disciplinas como a filosofia, a sociologia e a história. O fato do então
candidato evocar o exame real da história para legitimar a afirmação polêmica,
usando-a como fundamento de sua veracidade, mostra que o seu entendimento
de história é muito diferente do corrente, pois para ele é uma construção que
deve servir a uma dada maneira de pensar, no caso a sua.
História é reconstrução de eventos e processos já ocorridos, feita a partir
de informações, fontes, que descrevem e interpretam os fatos, a realidade dos
acontecimentos. A história é feita a partir do presente e de suas determinações,
que dizem respeito tanto a métodos, possibilidades práticas de pesquisa - dadas
por técnicas específicas e fontes disponíveis -, quanto a formas de pensamento,
interesses, que orientarão as interpretações construídas pelo historiador. Os
limites da interpretação são dados pela disponibilidade de fontes e pelas
construções mentais que as norteiam. Dentro do espectro relativamente amplo
de interpretações, o historiador deve se guiar pelas evidências registradas por
textos, artefatos, imagens, ou outras formas de registro das situações ocorridas.
Como dizer que os portugueses não pisavam na África diante do monumental
conjunto de fontes históricas e estudos feitos sobre a presença portuguesa,
anterior a qualquer outra presença europeia no continente, se espalhando do
século XV ao XX, do norte da África ao Índico, passando pela Etiópia e
principalmente pela África Ocidental e Central? É uma afirmação bombástica de
efeito e destituída de verdade. Uma tentativa de esvaziar a história e reter
apenas um discurso construído com a intenção clara de eximir os portugueses da
responsabilidade do tráfico de escravizados e atribuir aos africanos a
responsabilidade de sua situação de marginalização e pobreza.
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É necessário, entretanto, ressaltar a diferença entre rever posições que


passam a ser contestadas com o surgimento de novas pesquisas e análises e fazer
afirmações baseadas exclusivamente na vontade, visando a disseminação de
ideias construídas a partir de pressupostos geralmente carregados de
preconceitos.
O papel do conhecimento e da pesquisa que o produz não é defender
pontos de vista construídos na esfera da emoção e do instinto e sim da razão. No
caso do comércio de gente, o conhecimento mais atualizado tem desvendado os
mecanismos de fornecimento de escravizados internos ao continente. O que não
diminui o papel da demanda externa por mão de obra escravizada na
implantação de um comércio que arrancou de suas casas, de suas aldeias, de suas
sociedades, milhões de pessoas: mais de 12 milhões foram os que chegaram
vivos às Américas.
Muitos intelectuais africanos hoje contestam o lugar de vítimas
geralmente assumido pelos africanos, e também assim considerados por muitos
não africanos, e entendem que é necessário admitir o papel desempenhado por
elites de algumas de suas sociedades, tanto no tráfico de escravizados,
transaariano e atlântico, como nos regimes coloniais, implantados em outro
momento das relações entre o continente e alguns países europeus. Entendem
que é necessário atribuir as responsabilidades devidas aos próprios africanos
uma vez que querem afirmar sua capacidade de agência histórica, no passado e
no presente, com vistas a consolidar sua autonomia e especificidade diante do
resto do mundo, das sociedades não africanas, uma vez que as suas sociedades, a
despeito da enorme diversidade, têm identidades históricas e culturais a uni-las.
Isso é construir uma reflexão crítica, fundamentada na análise de dados
da realidade, considerados em seus contextos de produção, e que tem
consciência de estar adotando posições definidas a partir de uma determinada
inserção no tempo presente. Afirmações bombásticas e espetaculosas, que
confirmam vontades particulares, fazem parte de outra esfera da atividade
mental humana, ligada à elaboração e difusão de ideologias, no mais cru sentido
da palavra, ou seja, de proposições que visam unicamente a defesa dos pontos de
vista de grupos que buscam legitimar sua dominação sobre o conjunto da
sociedade por meio do discurso.
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Desde a mencionada entrevista do então candidato a presidente da


república muita água rolou sob a ponte e hoje a segurança com que a família
Bolsonaro, seus seguidores e seu guru afirmam os maiores absurdos, e por isso
são aplaudidos por cerca de 30% do eleitorado, é um jogo de cena muito bem
orquestrado que tem deixado o resto da plateia que os assistem bestializada,
para recorrer a uma ideia firmada pela melhor historiografia brasileira. Mas não
a nós historiadores, que por isso mesmo estamos na linha do tiro. Vamos
continuar refletindo, analisando, interpretando e ensinando nosso ofício, e
agindo dentro das possibilidades de cada um de nós em prol da construção do
conhecimento, que além de saciar a curiosidade nos dá instrumentos para atuar
de forma transformadora na sociedade da qual fazemos parte.