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Sumário

TÉCNICAS DE NECROPSIA .................................................................................................... 2

TEMPOS DA NECROPSIA ....................................................................................................... 8

INSTRUMENTOS DE MEDIDAS............................................................................................. 18

TÉCNICAS ............................................................................................................................... 19

RECONSTITUIÇÃO ................................................................................................................. 37

NECROPSIA EM FETOS, RECÉM-NASCIDOS E LACTENTES ........................................... 40

MANUAL DE BIOSSEGURANÇA ........................................................................................... 44

EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL. .................................................................. 50

MEDIDAS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E SEGURANÇA .................................................... 53

HIGIENIZAÇÃO DE SUPERFÍCIE .......................................................................................... 56

PREVENÇÃO DE ACIDENTES............................................................................................... 60

FOTOGRAFIA NA SALA DE NECROPSIA ............................................................................. 67

CLASSIFICAÇÃO .................................................................................................................... 70

CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................................... 73

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TÉCNICAS DE NECROPSIA

ASPECTOS LEGAIS DA NECROPSIA

CONCEITO
A necropsia, entre outras perícias médico-legais, é definida como ato médico, que, como tal,
envolve um conjunto de procedimentos técnico-científicos e tem como finalidade o
esclarecimento de um fato de interesse da Justiça. Isto porque o estudo da causa da morte
se justifica não somente pela necessidade médica - no intuito de poder declará-la com
máxima precisão, para o preenchimento e expedição da declaração de óbito -, como também
pela necessidade jurídica, no intuito de dirimir dúvidas, quando se trata de morte suspeita ou
violenta. É importante salientar que a explanação de aspectos legais é feita atavés das
necropsias médico-legais, as quais se diferenciam das necropsias anatomopatológicas ou
clínicas. As necropsias clínicas devem ser realizadas no Serviço de Verificação de Óbitos
dos hospitais e prefeituras ou serviços de anatomia patológica, e destinam-se à investigação
da causa médica da morte natural. As necropsias médico-legais outrora realizadas por dois
médicos-legistas têm atualmente - diante das mudanças do Código de Processo Penal -, a
exigência de pelo menos um médico-legista para subscrever o laudo. Devem ser sempre
requisitadas pela autoridade competente, ou seja, o juiz de direito, o delegado de Polícia (que
preside o inquérito policial), o oficial da organização militar que preside inquérito policial-
militar etc. Ainda que as diferenças entre ambas as modalidades sejam nítidas, alguns casos
podem, à luz da necropsia clínica, apresentar vestígios de ação suspeita ou violenta,
devendo mediante requisição de autoridade competente, ser encaminhados para a necropsia
forense.

DISPOSITIVOS LEGAIS DA NECROPSIA MÉDICO-LEGAL


As necropsias médico-legais estão disciplinadas especificamente no artigo 162 do capítulo 2
(Do Exame de Corpo de Delito e das Perícias em Geral) do Código de Processo Penal
(Decreto-Lei 3.689, de 3 de outubro de 1941), embora outros artigos desse mesmo capítulo
também disciplinem a respeito dos exames de corpo de delito em geral.A finalidade da
necropsia médico-legal, assim como de qualquer outra perícia, é produzir a prova, e esta não
é outra coisa senão o elemento demonstrativo do delito que auxilia na convicção do juiz sobre
os elementos necessários para a decisão da causa. 0 artigo 162 do Código de Processo
Penal estabelece que, respeitado o tempo mínimo de 6 horas a partir do momento do óbito,
o corpo a ser necropsiado permanecerá á inteira disposição do estudo médico-legal,
ressalvando que poderá ser realizado antes daquele tempo a critério dos peritos, em face
dos sinais evidentes de morte, o que deverão obrigatoriamente declarar no laudo. É
interessante reafirmar que a necropsia médico-legal se dá por determinação da autoridade,

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e não necessita, uma vez ordenada a sua realização, da anuência, da autorização ou da
recusa de algum familiar ou de qualquer outra pessoa relacionada com o morto. A
disponibilidade jurídica do corpo determina que, nos casos de morte violenta ou suspeita, os
despojos mortais, temporariamente, não pertençam à família, mas ao Estado, pelo menos
até que a autoridade requisitante veja satisfeitas todas as indagações sobre a causa da
morte. Aos familiares ou a quem couber tal responsabilidade será permitido o velório e/ou a
inumação somente após a liberação oficial do corpo necropsiado. A necropsia se materializa
através de laudo, conforme definido no artigo 160 do Código de Processo Penal.

FINALIDADES DA NECROPSIA MÉDICO-LEGAL


As necropsias médico-legais devem atender basicamente a quatro objetivos:
 Identificação do cadáver: na prática, esta função não é exercida diretamente pelo perito-
legista, mas por outros profissionais especializados, tais como papiloscopistas ou
odonto-legista.
 Determinação da causa médica da morte: verificar a existência de outros estados
patológicos preexistentes no momento da morte e estabelecer, ou não, nexo de
causalidade com o óbito.
 Dar subsídios para a determinação da causa jurídica da morte: em tese, não é
responsabilidade do perito-legista tipificar a causa mortis jurídica. Entretanto, ele tem o
dever de reunir e oferecer todos os elementos técnicos sugestivos que possibilitem a
reconstituição da dinâmica dos fatos, seja como acidente, seja como suicídio ou
homicídio.
 Determinação da data provável da morte: embora não seja o objetivo principal da
necropsia e, em muitas circunstâncias, tecnicamente difícil, a cronotanatognose poderá
ser aplicada em alguns casos cujos vestígios possibilitem a estimativa da data provável
da morte.

TÉCNICA GERAL DA NECROPSIA


A necropsia médico-legal deve ser sempre completa, isto é, compreende a abertura da caixa
craniana, caixa torácica, cavidade abdominal, por vezes a abertura do ráquis e a exploração
de qualquer outro segmento corporal desde que isso possa contribuir para o completo
esclarecimento dos objetivos da necropsia. As incisões das partes moles e as aberturas das
estruturas ósseas destinam-se a permitir a observação “in loco” dos diferentes órgãos e
sistemas, registrar as suas alterações morfológicas, patológicas ou traumáticas, permitir
também a sua retirada e posterior observação e corte de forma individualizada com registro
dos achados relevantes. Caso seja justificado, proceder-se-á à colheita de fluídos corporais
e/ou vísceras e seus conteúdos para a realização de exames complementares. Por fim, as
vísceras serão introduzidas novamente no interior das cavidades torácicas e abdominal e
encerradas todas as incisões que foram necessárias realizar. Procurar-se-á entregar à
família o cadáver nas melhores condições possíveis, devendo o médico que realiza a

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necropsia não proceder a qualquer exploração para além das previstas pela técnica da
necropsia que não seja justificada e que de algum modo possa desfigurar o cadáver.

MEIOS COMPLEMENTARES DE DIAGNÓSTICO


No decorrer da necropsia, e dependendo do caso em análise, o médico pode solicitar exames
complementares, como:
 Exames toxicológicos (alcoolemia, drogas de abuso,
medicamentos,inseticidas,monóxido de carbono, drogas minerais, etc);
 Exame histológico;
 Exame bioquímico (humor vítreo);
 Exame bacteriológico (sangue, urina, LCR, outro);
 Exame virulógico;
 DNA;
 Pesquisa de esperma (cavidade oral, vaginal, anal, outra);
 Pesquisa de diatomáceas;
 Pesquisa de resíduos de disparo de arma de fogo;
 Exame de projéteis;
 Exame de armas e ou instrumentos;
 Exame de peças de vestuário;
 Estudos metabólicos (morte súbita infantil);
 Raios X.

RELATÓRIO DA NECROPSIA MÉDICO LEGAL


A necropsia médico-legal implica sempre a elaboração do respectivo relatório que deverá ser
enviado no mais curto espaço de tempo à autoridade judicial que solicitou a sua realização.
Um relatório de necropsia médico-legal, independentemente do caso em apreço deve
compreender sempre os seguintes capítulos: Informação (Tipos de informação: social,
clínica, policial, da imprensa escrita, outro) Sinais relativos á identificação (sexo, idade, peso,
altura, cor dos cabelos, cor da íris,fórmula dentária, tatuagens, sinais particulares, anomalias)
Exame do hábito externo (cabeça, pescoço, tórax, abdômen. Região dorso-lombar, região
perineal, membros); Exame do hábito interno (cabeça, pescoço, tórax, abdômen. Região
dorso-lombar, região perineal, membros); Meios auxiliares de diagnóstico; Discussão;
Conclusões.
Coleta de material para exames:
 Citológicos
 Histopatológicos
 Virológicos
 Bacteriológicos
 Parasitológicos
 Toxicológicos

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Relacionando os achados macro e microscópicos com os dados da história do paciente,
pode-se então estabelecer a causa da morte, a doença de base e outras patologias
existentes. Essa tríade (macroscopia, microscopia e história clínica) é imprescindível para o
esclarecimento do caso. Exame necroscópico, termo usado para definir o exame externo e
interno do cadáver realizado com o objetivo de definir a causa da morte do indivíduo, tanto
do ponto de vista médico quanto do ponto de vista jurídico. O médico legista, o patologista e
o técnico em necropsia não podem deixar de considerar o trauma que representa a necropsia
para os familiares do morto, e a eles toda atenção e respeito devem ser dados, incluindo a
preocupação de não mutilar o cadáver. A necropsia não serve apenas para identificar a causa
do óbito, ou apenas para finalidade médico-legal como muitos pensam.

ELA TEM DIVERSAS OUTRAS FUNÇÕES:


 Controle de qualidade do diagnóstico e do tratamento, através do conhecimento, por
parte da equipe que atendeu o paciente, dos achados da necropsia, visando identificar
possíveis erros e suas causas, buscando sua correção, para que não se repitam em
outro paciente.
 Fonte de informação para a Secretaria de Saúde, permitindo a feitura de estatísticas
precisas sobre as doenças mais freqüentes, o que influi na política de saúde do Estado
e do Município.
 Material para pesquisa.
 Reconhecimento de novas doenças e de novos padrões de lesão.
 Reconhecimento do efeito do tratamento na evolução da doença.
 Esclarecimento de casos sem diagnóstico clínico firmado ou naqueles em que a morte
do paciente foi inesperada.
 Casos suspeitos de doença ambiental ou ocupacional.

ASPECTOS LEGAIS
Convém fazer referência ao envolvimento legal quanto aos crimes contra o respeito aos
mortos, Artigos 211 e 212 do Código Penal Brasileiro:
Art. 211 Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele:
Pena - reclusão de um a três anos e multa.
Art. 212 Vilipendiar cadáver ou suas cinzas:
Pena - detenção de um a três anos e multa.
Por fim, é preciso não esquecer que na necropsia, assim como em qualquer outro ato médico,
deve ser mantida a inviolabilidade do sigilo profissional (Artigo 154 do Código Penal),
passível de punição penal de todos os participantes que revelarem o segredo e punição ético-
profissional somente ao perito médico (Artigo 102 do Código de Ética Médica).
Segundo o Código de Ética Médica, é vedado ao médico:
Art. 102 Revelar fato de que tenha conhecimento em virtude do exercício de sua profissão,
salvo por justa causa, dever legal ou autorização expressa do paciente.

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Parágrafo único: Permanece essa proibição:
a) Mesmo que o fato seja de conhecimento público ou que o paciente tenha falecido,
b) Quando do depoimento como testemunha. Nessa hipótese, o médico comparecerá
perante a autoridade e declarará seu impedimento.
Art. 114 Atestar óbito quando não o tenha verificado pessoalmente, ou quando não tenha
prestado assistência ao paciente, salvo, no último caso, se o fizer como plantonista ou
médico substituto, ou em caso de necropsia e verificação médico-legal.
Art. 115 Deixar de atestar óbito de paciente ao qual vinha prestando assistência, exceto
quando houver indícios de morte violenta.

INSTRUMENTAL UTILIZADO EM NECROPSIA


Grande parte do instrumental utilizado em necropsia é de aplicação cirúrgica. No Brasil, há
pequenas variações com relação ã utilização de equipamentos e manobras realizadas em
necropsias policiais, porém, o que se observa é que essa variação decorre mais da
preferência dos profissionais envolvidos do que necessariamente de alteração da técnica.
A seguir, apresentamos uma lista do instrumental cirúrgico utilizado em necropsia forense na
maioria dos Institutos Médico-Legais do Brasil.
 Agulha para sutura, triangular, reta, com cerca de 10cm de comprimento.
 Agulha para sutura, triangular, semi-reta, com cerca de 10cm de comprimento.
 Balança para pesar o corpo.
 Balança para pesar órgãos grandes.
 Balança para pesar órgãos pequenos.
 Balança de análise para pesar órgãos muito pequenos, tais como as glândulas
paratireóides.
 Bandagem ou tecido de algodão.
 Bisturi abotoado.
 Bisturi descartável.
 Bisturi escalpelo pequeno/grande.
 Bisturi Esmarch.
 Cepo.
 Chaira.
 Cinzel de Hibbs.
 Cisalha de Liston articulada.
 Concha em aço inoxidável com cuba e cabo em peça única, tendo o cabo cerca de 20cm
de comprimento e a concha 100mL de volume.
 Costótomo.
 Enterótomo.
 Escopro.
 Estilete em aço inoxidável.
 Faca de amputação de Collin.

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 Faca de Virchow.
 Formão com lâmina em aço inoxidável de 3cm x 10cm.
 Linha crua.
 Machadinha.
 Martelo Hajek.
 Mayon.
 Osteótomo.
 Paquímetro em aço inoxidável para medidas de até 150mm.
 Pedra para afiar lâminas, de dupla face, com no mínimo 20cm de comprimento e
 no máximo 4cm de largura.
 Pinça de Backhaus, Lorna e Benhard.
 Pinça de Collin para extração de projetis.
 Pinça de dissecção anatômica, em aço inoxidável, com 25cm de comprimento,
 com bordas rombas e parte interna serrilhada.
 Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 20cm de comprimento.
 Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 25cm de comprimento,
 com bordas rombas e parte interna serrilhada.
 Pinça hemostática de Crile, Kocher e Kelly.
 Pinça para osso.
 Pino de Steinmann.
 Raquítomo.
 Rugina de Farabeuf reta e curva.
 Rugina de Putti.
 Rugina de Robert Jones.
 Serra Mathieu com três lâminas.
 Serras de Weiss, de Collin, de Charriere, de Saterrice ou serra de arco utilizada em
construção civil.
 Serra vibratória.
 Sonda de 1 mm de diâmetro.
 Tentacânula em aço inoxidável, com cerca de 18cm de comprimento.
 Tesoura abotoada.
 Tesoura Mayo curva, em aço inoxidável, com 22cm de comprimento, pontas romba-
romba.
 Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finas.
 Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finaromba.
 Tesouras Reyman, Smith, Lister, Esmarch, Seutin, Metzenbaum, (ris e Mayo).
 Trena em aço inoxidável, com 2m de comprimento.
Por motivos didáticos, dividiremos o instrumental em dois grupos e a necropsia em quatro
tempos. No primeiro grupo do instrumental encontram-se os instrumentos utilizados
diretamente na necropsia e, no segundo grupo, os instrumentos de medidas.

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A necropsia, por sua vez, foi dividida em quatro tempos principais:
1. Incisões.
2. Craniotomia.
3. Inspeção da cavidade toracoabdominal.
4. Reconstituição.

TEMPOS DA NECROPSIA
Incisões
As principais incisões são a incisão bimastóidea, que possibilita o afastamento dos retalhos
anterior e posterior do couro cabeludo, expondo o crânio, e as que se destinam a expor as
cavidades torácica e abdominal. Na maioria dos IML’S, utilizam-se rotineiramente as incisões
bimastóideas e Submentoxifopubiana.
Os instrumentais utilizados nas incisões são:
 Cepo.
 Chaira.
 Pedra para afiar lâminas, de dupla face, com no mínimo 20cm de comprimento e
 no máximo 4cm de largura.
 Bisturi descartável.
 Bisturi do tipo escalpelo pequeno/grande.
 Faca de amputação de Collin.
 Tesoura de Smith.
 Faca de Virchow.

CEPO
Compõe-se de um bloco maciço em forma de paralelepípedo, de material sintético liso, com
uma concavidade em um dos lados maiores, em que se observam elevações transversais ao
fundo. É utilizado para apoiar a cabeça ou o tronco do cadáver, com isso melhorando o
ângulo de trabalho (Figura 3.1).

Figura 3.1 Cepo

CHAIRA E PEDRA DE AFIAR

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São instrumentos utilizados para manter afiado o gume das lâminas (Figuras 3.2 e 3.3),
exigindo-se do operador destreza para o procedimento de afiar. Nos casos de material
cirúrgico de aço é preferível que o mesmo seja tratado por pessoal especializado.
A chaira não gera o fio, apenas o mantém. É composta de uma peça de plástico resistente,
com duas abas laterais. Nesse cabo plástico encontra-se encravada uma peça de aço com
ranhuras longitudinais. A chaira é usada corretamente da seguinte maneira:
 O operador volta o cabo para si e encaixa o polegar sob uma das abas.
 Ergue a chaira à sua frente na altura do peito, confortavelmente afastada do corpo.
 Em seguida, desliza a faca formando um ângulo de cerca de 30°, com o corpo da
 chaira na direção do seu corpo, ou seja, para baixo, conduzindo a ponta da faca
 para a região inferior da chaira.
 Repete o mesmo com a outra face da faca, um movimento para cada lado.
 Para testar o grau do corte, é utilizado o próprio tecido do cadáver.

Figura 3.2 Tipos de pedra de afiar

Figura 3.3 Chaira

Esses procedimentos garantem mais segurança, menos esforço e preservação do material.

BISTURI E FACAS DE COLLIN E DE VIRCHOW


São instrumentos destinados a incisão da pele e para a abertura do tecido subcutâneo e dos
tecidos adjacentes (Figuras 3.4 a 3.6). A faca de amputação também podê ser utilizada para
cortar órgãos quando se deseja apurar lesões intraparenquimatosas ou objetivando enviar
amostras para exames histopatológico e toxicológico.
É importante que a faca tenha um corte bem afiado, pois a precisão do corte. Garante fatias
mais uniformes, melhorando a ação do formol e facilitando a tarefa de criar lâminas de boa
qualidade.
Para o bom desempenho funcional e com todo o rigor de segurança, o profissional deve
abster-se de utilizar material inadequado ao que se propõe.

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Figura 3.4 Facas de Virchow

Figura 3.6 Alguns tipos de lâminas e bisturis descartáveis

É oportuno lembrar a frase sempre dita pelo saudoso anatomista Celestino Pedro
Rezende Neto: "Por motivos de segurança, as facas e os bisturis, quando não estiverem
sendo utilizados, deverão estar sempre sobre a mesa, da mesa para o cadáver e
do cadáver para mesa."

TESOURA DE SMITH
É uma tesoura robusta utilizada para cortes grosseiros que não requerem regularidade
ou precisão, como cortar vestes e bandagens presentes no cadáver (Figura 3.7).

CRANIOTOMIA
A craniotomia é um procedimento que se segue à incisão bimastóidea e ao afastamento dos
retalhos anterior e posterior do couro cabeludo. 0 tipo de craniotomia depende da faixa etária
do cadáver. Na abertura do crânio de adulto, utiliza-se a serra elétrica. Na criança pequena,
principalmente naquelas com idade inferior a 1 ano,utiliza-se a tesoura como preconiza a
técnica de Benecke. O instrumental utilizado na craniotomia compõe-se de:
 Rugina Lambotte.
 Ruginas de Farabeuf, reta e curva.
 Rugina de Putti.

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 Rugina de Robert Jones.
 Serra Mathieu (também conhecida como serra de Farabeuf).
 Serra vibratória.
 Serras de Weiss, de Collin, de Charriere, de Saterrice ou serra de arco utilizada em
construção civil.
 Cinzel e escopro.
 Martelo de Hajek.

RUGINAS
As ruginas são instrumentos utilizados para desgastar o periósteo craniano por atrito ou por
pequenos golpes, deixando os ossos desnudos, permitindo apurar detalhes, bem como
facilitar a ação da serra (Figura 3.8).

Figura 3.8 Rugina Lambotte

SERRAS
As serras podem ser manuais, elétricas circulares e vibratórias. As primeiras são as mais
utilizadas no trabalho diário e têm a preferência da maioria das técnicas. A serra elétrica
circular apresenta o inconveniente de possibilitar, mais facilmente, a dispersão de aerossóis
e de partículas de osso, comprometendo os níveis de biossegurança. As serras vibratórias
são de alto custo e não são utilizadas em nosso meio.
É preciso cuidado durante a aplicação da serra para não atingir estruturas internas como
meninges e encéfalo. O técnico procura criar uma fissura de fragilidade, que permite a ação
de uma ferramenta para dar apoio à abertura do crânio.
Os modelos de serras preferencialmente usados são: serra Mathieu, serra Charriere e serra
de arco comum de uso na construção civil (Figura 3.9).

Figura 3.9 (A) Serra manual (arco de serra). (B) Serra Charriere

ESCOPRO, CINZEL E MARTELOS

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São instrumentos utilizados para romper a tábua interna da caixa craniana e remover a calota
após a demarcação da linha de menor resistência pela serra.
O escopro e o cinzel (osteótomo) são compostos de barras estreitas e finas, de aço
inoxidável, e que terminam em cunha (Figura 3.10). A diferença consiste no fato de o cinzel
apresentar cabo, geralmente formando peça única com a barra, enquanto o escopro é o
próprio corpo da barra.
Para remover a calota craniana, introduz-se o escopro ou o cinzel no sulco feito pela serra,
bate-se com o martelo e gira-se o instrumento sobre seu próprio eixo.
Ouve-se um ruído característico do rompimento da tábua interna do crânio.
Feito isso em três ou quatro pontos, coloca-se o gancho do martelo na fenda e traciona-se
contra si, forçando assim a saída da calota craniana.

Figura 3.10 (A) Escopro de Virchow. (B) Osteótomo Stille reto


A Figura 3.11 apresenta os martelos de Hajek e Neufield usados na craniotomia e,na Figura 3.12,
encontram-se outros tipos de martelo.

Figura 3.11 (A) Martelo de Hajek. (B) Martelo de Neufield


com 1 ponta de náilon

Figura 3.12 Diferentes modelos de martelo

INSPEÇÃO DAS CAVIDADES DO TRONCO

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Para a inspeção das cavidades torácica e abdominal são utilizados os seguintes
instrumentos:
 Bisturi descartável.
 Faca de amputação de Collin.
 Costótomo.
 Cisalha de Liston articulada.
 Concha em aço inoxidável com cuba e cabo em peça única, tendo o cabo cerca de 20cm
de comprimento e a concha 100mL de volume.
 Enterótomo.
 Pinça de dissecção anatômica, em aço inoxidável, de 25cm de comprimento, com bordas
rombas e a parte interna serrilhada.
 Pinça de dissecção do tipo dente de rato, em aço inoxidável, com 25cm de comprimento,
com bordas rombas e a parte interna serrilhadas.
 Pinça hemostática de Crile, Kocher e Kelly.
 Tentacânula em aço inoxidável com cerca de 18cm de comprimento.
 Pinça de Collin para extração de projetis.
 Sonda de 1 mm de diâmetro.
 Raquítomo.
 Tesoura Mayo curva, em aço inoxidável, com 22cm de comprimento, pontas romba-
romba.
 Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finas.
 Tesoura Mayo reta, em aço inoxidável, com 17cm de comprimento, pontas finaromba.

BISTURI E FACAS DE AMPUTAÇÃO


São utilizados nos cortes de estruturas, aderências e amostra de materiais para exames
complementares.

COSTÓTOMO E CISALHA
São instrumentos destinados à retirada do plastrão esternal através de corte na cartilagem
costosternal ou diretamente sobre o osso da costela (Figura 3.13).
O costótomo é um potente alicate de corte formado por uma ponta cega e romba e a outra
pontiaguda e afiada, ambas em arco. Os braços são unidos por uma mola laminar espiral. A
ponta cega é introduzida nos espaços intercostais sob a cartilagem costosternal, a qual é
cortada.
A cisalha também é um alicate de corte, porém com três pontos de apoio na alavanca para
otimizar a força, duas lâminas cortantes e uma haste flexível entre os braços. A cisalha corta
diretamente o osso da costela. Vale a pena ressaltar que essa manobra deixa uma borda
cortante, que deve ser forrada com tecido ou atadura para evitar acidentes ao operador.
Existe uma variante denominada costótomo Semb, que apresenta os braços com a
arquitetura da cisalha, mas cuja utilização é semelhante à do costótomo.

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Figura 3.13 (A) Costótomo de Collin. (B) Cisalha

CONCHA EM AÇO INOXIDÁVEL


A concha em aço inoxidável é semelhante a uma concha doméstica, porém com cuba e cabo
em peça única, sendo o cabo com cerca de 20cm de comprimento e a concha com 100mL
de volume. É utilizada para retirar conteúdo líquido das cavidades e do estômago (Figura
3.14).

Figura 3.14 Concha em aço inoxidável

ENTERÓTOMO
É uma tesoura formada por uma ponta protegida por uma espécie de capuz moldado a partir
da própria lâmina e outra ponta romba. A ponta protegida é inserida na luz de órgãos como
intestino, estômago e coração, orientando o corte sem danificar a estrutura interna (Figura
3.15).

Figura 3.15 Tesoura enterótomo de 21 cm

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PINÇAS DE DISSECÇÃO
São pinças interpotentes utilizadas para firmar o material para exposição, corte ou sutura. A
pinça anatômica é utilizada quando da manipulação de tecidos friáveis, para evitar danificá-
los. Já a pinça do tipo dente de rato é aplicada quando se objetiva tracionar tecidos
resistentes (Figura 3.16).

Figura 3.16 Pinças de dissecção: (A) pinça tipo dente de rato e (B) pinça anatômica

PINÇA HEMOSTÁTICA
Trata-se de um tipo de pinça interfixa com dentes fixadores na extremidade. Os modelos
mais utilizados em necropsia são as pinças de Crile, de Kocher e de Kelly. São utilizadas
para fechar possíveis lesões em vísceras, evitando extravasamentos, ou para promover
oclusão de órgãos .

TENTACÂNULA
É uma lâmina sulcada com uma extremidade dilatada (Figura 3.18). O sulco é usado para
orientar profundamente cortes feitos com bisturi ou tesoura.

Figura 3.18 Tentacânula

PINÇA DE COLLIN PARA EXTRAÇÃO DE PROJETIS


É uma pinça interfixa longa utilizada para remover projetis, de modo que os preserve com
segurança. Deve ser constituída de material sintético ou plástico para não produzir
deformidade ou abrasões nos projetis, quando utilizadas. A remoção de projetis de cadáveres
deve ser feita com muito cuidado para não alterar a forma e disposição das microestrias,
possibilitando correta microcomparação balística.

SONDA METÁLICA DE 1MM DE DIÂMETRO


Sonda utilizada para a exploração de artérias coronárias, condutos biliares e pancreáticos,
ureteres, uretra e tubas uterinas.

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RAQUÍTOMO OU RAQUIÓTOMO
É composto de uma cunha que forma com o cabo uma peça única em semi-arco. O cabo
apresenta uma concavidade, que melhora o apoio.
O raquítomo é utilizado como uma machadinha, para cortar o corpo das vértebras e para se
obter a medula espinal completa (Figura 3.19).

Figura 3.19 Raquítomo

TESOURA MAYO, TESOURA METZENBAUM E TESOURA IRIS


A tesoura Mayo longa é comumente utilizada para corte de fios ou linhas cruas de
fechamento. A tesoura Metzenbaum, muito útil em cirurgias, deve ser utilizada para cortar
tecidos mais delicados, e sua curvatura permite cortes curvilíneos. As tesouras Iris, por seu
tamanho menor e ponta fina, devem ser usadas para corte de pequenas estruturas ou
abertura de estruturas como artérias coronárias, vias biliares, pancreáticas
e pequenas artérias. As tesouras com as duas pontas rombas são empregadas para extração
das artérias do pescoço e para dissecações rombas (Figuras 3.20 e 3.21).

Figura 3.20 (A) Tesoura Mayo longa de 20cm. (B) Tesoura Metzenbaum de 18cm. (C)
Tesoura Mayo curta de 15cm

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Figura 3.21 (A) Tesoura abotoada de 15cm. (B) Tesoura Iris curva. (C) Tesoura Iris reta

RECONSTITUIÇÃO
Compreende uma técnica de fechamento que visa deixar o cadáver no melhor estado de
apresentação possível. O corpo deve ser reconstituído de modo que, depois de vestido, não
haja evidências da necropsia.
O material utilizado na reconstituição compõe-se de:
 Pinças anatômicas do tipo dente de rato.
 Agulha para sutura, triangular, reta, de cerca de 10cm de comprimento.
 Agulha para sutura, triangular, semi-reta, de cerca de 10cm de comprimento.
 Linha crua.
 Tesoura de Mayo.
 Bandagem ou tecido de algodão.

PINÇAS ANATÔMICA E DO TIPO DENTE DE RATO


Servem para fixar melhor os tecidos a serem suturados. A pinça do tipo dente de rato é de
melhor utilização para a pele (ver Figura 3.16).
AGULHAS
As agulhas utilizadas na recomposição do cadáver apresentam as seguintes características:
corpo robusto com aproximadamente 10cm, fundo rombo, corpo reto ou semi-reto e ponta
de reverso cortante. São muito comuns agulhas longas com pontas cortantes, utilizadas para
costurar tecidos ou couro.

LINHA CRUA
Preferencialmente, a linha utilizada na sutura de cadáveres é de fibra de cânhamo devido às
vantagens apresentadas, tais como resistência, durabilidade, aderência, disponibilidade no
mercado e preço (Figura 3.23).
As suturas mais freqüentes são uma variante da sutura de Schmieden (Figura 3.24) e da
sutura de Cushing.

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Figura 3.23 Linha de cânhamo crua e agulha longa com ponta cortante para fechamento

TESOURA MAYO
Usada para cortar a linha de sutura.

BANDAGEM OU TECIDO DE ALGODÃO


Usada para envolver o encéfalo, dando-lhe resistência, antes de reintroduzi-lo no crânio.
Outra utilização da bandagem é envolver a cabeça dos cadáveres com faces traumatizadas,
cobrindo as lesões apresentadas.

INSTRUMENTOS DE MEDIDAS
 Balança para pesar o corpo.
 Balança para pesar órgãos grandes.
 Balança para pesar órgãos pequenos.
 Balança de análise para pesar órgãos muito pequenos, tais como as glândulas
 paratireóides.
 Estilete em aço inoxidável (pino de Steinmann).
 Paquímetro em aço inoxidável para medidas de até 150mm.
 Trena em aço inoxidável com 2m de comprimento.

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 Régua antropométrica (Figura 3.25A).
 Régua milimetrada para fotografia (Figura 3.25B).

Figura 3.25 (A) Régua milimetrada para fotografia. (B) Régua antropométrica

BALANÇAS
O uso de cada tipo de balança foi descrito anteriormente.

ESTILETE DE AÇO INOXIDÁVEL


Usado para determinar o trajeto de projetis e relacionar os orifícios de entrada com os orifícios
de saída. Esse estilete geralmente é um pino de Steinmann liso.

PAQUÍMETRO EM AÇO INOXIDÁVEL PARA MEDIDAS DE ATÉ 150MM


Utilizado para medir projetis, bem como a extensão de lesões de órgãos, tumores, entre
outros (Figura 3.26).

Figura 3.26 Paquímetro em aço inoxidável para medidas

Trena de aço com 2m de comprimento


Usada para aferir a estatura do indivíduo.

TÉCNICAS

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A necropsia consiste no estudo das características externas do corpo e das mudanças
ocorridas em todos os órgãos depois da morte, a partir do exame macroscópico, que fornece
material para o exame microscópico, no qual serão vistas as alterações tissulares e celulares.
O médico deve estabelecer relação entre os achados macroscópicos e microscópicos com
as informações da história do paciente, podendo então diagnosticar a causa da morte, a
doença de base e outras patologias concomitantes.

Existem quatro técnicas básicas de necropsia (The University of Texas, 2004):


 Técnica de Rokitansky (1842): os órgãos são abertos e examinados no próprio sítio
anatômico, sendo posteriormente retirados de maneira isolada.
 Técnica de Ghon (1890): a evisceração se dá através de monoblocos de órgãos
relacionados anatomicamente e/ou funcionalmente.
 Técnica de Virchow (1893): os órgãos são removidos um a um e, em seguida,
examinados fora do seu local anatômico.
 Técnica de Letulle (1900): faz-se uma grande incisão nas cavidades torácica e
abdominal, a fim de se ter uma ampla visão do conjunto de suas vísceras; o conteúdo
das cavidades torácica e abdominal é retirado em um só bloco.
Alguns autores modificaram ou aperfeiçoaram essas técnicas, com a finalidade de adequar
a tarefa com o tipo específico de necropsia. Cada serviço de patologia e de necropsia forense
tem sua própria técnica, que na verdade é uma variante ou um misto de uma ou mais das
quatro técnicas básicas de necropsia.

TÉCNICA DE ROKITANSKY
Introdução
A primeira técnica completa de necropsia a ser descrita, ou seja, realizada de maneira
sistemática e ordenada, foi a técnica de Rokitansky (1842). Nela eram efetuados o exame de
ectoscópico, a dissecção in situ das vísceras e, em seguida, a remoção independente de
cada órgão. Carl Rokitansky, objetivando descobrir as alterações sistêmicas que conduziram
ao óbito, desenvolveu uma metodologia de avaliação do cadáver através de uma criteriosa
inspeção do corpo, que consistia em examinar in locu todas as estruturas anatômicas,
independentemente de sua improvável participação no processo mórbido. Rokitansky foi
hábil em associar os sintomas das doenças às lesões observadas nos cadáveres que
apresentavam a enfermidade tendo como base a anatomia e a fisiologia, duas ciências
complementares que se baseiam no princípio de que a forma existe em razão da função
fisiológica e vice-versa. Apoiado nesse axioma, ele constatou que alterações morfológicas
levavam a mudanças fisiológicas que, por sua vez, comprometiam todo o sistema, sendo o

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oposto também verdadeiro. Por tudo isso, Rokitansky é considerado um dos fundadores da
anatomia patológica.

TÉCNICA
Na sua técnica de necropsia, Rokitansky buscava desvendar se os elementos físicos
representavam o padrão de referência quanto ao aspecto e à topografia usuais; após essa
etapa, seguia-se o exame peculiar de cada órgão, considerados como um único bloco - um
monobloco. Os órgãos eram incisados em sua posição anatômica, analisados no próprio
local e só depois se realizava a exérese de cada órgão individualmente, a despeito de sua
associação funcional com os demais. Essa investigação difere grandemente de outras
técnicas que aplicam a anatomia sistêmica para a retirada dos órgãos, porque fundamenta-
se na anatomia organológica. O procedimento da retirada dos órgãos segue tradicionalmente
o sentido cefalocaudal. Entretanto, essa seqüência de trabalho pode ser alterada em função
de diversas variantes, tais como o estado de conservação do cadáver, o interesse clínico por
uma determinada região anatômica ou simplesmente por deliberação do legista responsável.
Pode-se afirmar que a técnica de Rokitansky apóia-se em três pilares: ectoscopia, avaliação
in locu de todos os órgãos e inspeção do monobloco.

TÉCNICA DE GHON
Introdução
Essa técnica de autopsia foi criada pelo patologista austríaco Anton Ghon (1866- 1936), que
trabalhou em vários países da Europa e nos EUA, reconhecido mundialmente pela realização
de importantes descobertas científicas, principalmente na área da patologia pulmonar. Ghon
modificou a técnica original de Rokitanski, introduzindo métodos de evisceração em
monoblocos vinculados anatomicamente e/ou funcionalmente, razão pela qual seu nome foi
dado a essa técnica.
Durante o exame interno de um cadáver, a técnica de Ghon modificada é realizada na
seguinte ordem:
 Abertura do crânio.
 Abertura da cavidade toracoabdominal.
 12 monobloco.
 22 monobloco.
 32 monobloco.
 42 monobloco.

ABERTURA DA CAVIDADE CRANIANA


Remoção do cérebro
Inicialmente, a incisão no couro cabeludo, chamada de bimastóide, deve ser feita cerca de 1
a 2cm atrás da borda inferior do pavilhão auricular direito, estendendo-se pela convexidade
do crânio até alcançar o ponto correspondente contralateral. As duas partes devem ser

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descoladas da calota craniana e rebatidas: a anterior até próximo das órbitas e a posterior
até a protuberância occipital externa. Caso os cabelos sejam longos, há necessidade de
enrolá-los e protegê-los.

Figura 5.1 Tipos de incisão no couro cabeludo. A mais utilizada é aquela que compreende
as linhas a-d (direita) e a-d (esquerda).

A calota craniana de cadáveres adultos pode ser aberta de três maneiras: 1. Realizar uma
única incisão circular 5cm acima das órbitas e 2cm acima dos ouvidos. Essa abertura é
prática, mas tem a desvantagem de permitir o deslocamento da calota após o fechamento
do couro cabeludo, desfigurando o corpo. 2. Fazer três incisões retilíneas - a primeira, de
disposição oblíqua e ascendente, desde o ponto retroauricular até a região occipital, acima
da sutura lambdóide; a segunda, do outro lado, idêntica à anterior; e a terceira, ligando os
dois pontos retroauriculares, passando pela região frontal. Esta é um pouco mais trabalhosa,
mas dá melhor resultado estético e não permite o desencaixe da calota após o fechamento
do couro cabeludo. 3. Efetuar uma incisão circular, tal como no primeiro tipo descrito, exceto
em três segmentos dos ossos frontal e temporais, onde serão cortados três entalhes de 3cm,
em forma de V invertido, que auxiliam na retenção da calota quando da reconstituição do
corpo (Figura 5.2).

Figura 5.2 Tipos de corte da calota craniana. O plano de Griesinger compreende o corte a-b
O corte mais utilizado compreende o plano a-e

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Não se deve cortar completamente o osso com a serra - a porção interna da tábua óssea
deve ser quebrada com raquítomo e martelo. Deve-se proceder desse modo para evitar
lesões do cérebro e também porque as bordas irregulares, assim formadas, poderão fornecer
pontos de fixação para a calota após o fechamento do couro cabeludo. Não é necessário
quebrar toda a circunferência da calota com o martelo e o raquítomo; basta quebrar três a
quatro pontos e inserir o raquítomo fazendo pressão para baixo e para os lados,
simultaneamente, que o restante do osso vai se soltar. Feito isso, utiliza-se a extremidade
em gancho do martelo e puxa-se a calota. Deve-se então examiná-la em busca de áreas de
fratura, infiltrações hemorrágicas e lesões líticas (aparecem como áreas mais transparentes
quando a calota é colocada contra a luz, geralmente causadas por destruição óssea
provocada por tumores, tais como mieloma múltiplo e metástases). O passo seguinte é a
inspeção da dura-máter, membrana que reveste o cérebro, e a abertura do seio sagital.

Retira-se a dura-máter cortando-a com a tesoura, acompanhando as linhas de incisão da


calota e, em seguida, secciona-se a foice do cérebro, sem, no entanto, soltá-la totalmente
em sua porção posterior. Ocorre, então, a exposição da convexidade cerebral. Para liberar o
cérebro, é necessário introduzir os dedos indicador e médio esquerdos entre os lobos frontais
e a dura-máter, tracionando-o delicadamente para trás, até a visualização dos nervos ópticos,
para que sejam cortados rentes. Continua-se tracionando o cérebro posteriormente, com a
secção gradativa dos nervos cranianos e das artérias carótidas internas; depois, devem-se
afastar os lobos temporais da base do crânio para cortar a tenda do cerebelo, próximo à sua
inserção óssea. A última etapa consiste em incisar os nervos cranianos restantes e a medula
espinal o mais profundo possível. O cérebro está solto, e deve ser retirado com a mão
esquerda apoiada na convexidade, com os dedos médio e indicador da mão direita colocados
em torno do tronco cerebral, puxando-o para fora. Após a retirada do encéfalo, deve-se
examinar a base do crânio com a abertura dos seios venosos e, posteriormente, proceder à
remoção da hipófise. A dura-máter basal deve ser retirada, principalmente se houver suspeita
de fratura de ossos da base do crânio. A seguir sequência de fotos, descrevendo a técnica
de abertura de crânio:

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REMOÇÃO DA HIPÓFISE
Para ter acesso à glândula hipófise, secciona-se o diafragma da sela túrcica em toda a sua
extensão. A ponta do raquítomo é colocada na borda posterior da sela, e martela-se com o
instrumento orientado para trás. Há também uma técnica mais simples, feita com a tesoura
de Mayo, que possibilita quebrar os processos clinóides do osso esfenóide. Uma vez
identificada, a glândula deve ser dissectada e retirada. A hipófise também pode ser removida

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juntamente com o arcabouço ósseo que a envolve (em casos de tumores hipofisários, por
exemplo), bastando serrar os ossos da base do crânio em torno da mesma, de maneira a
formar um pentágono, com o ápice voltado para a frente.

ABERTURA DA CAVIDADE TORACOABDOMINAL


Primeiramente deve-se idealizar uma incisão adequada para que a cavidade possa ser bem
visualizada, o que facilita o trabalho do técnico de necropsia e do médico. Realiza-se uma
incisão descendente, em forma de Y, que se inicia no ombro esquerdo, passando
internamente aos mamilos até atingir o terço inferior da região esternal e, em seguida,
ascende ao ombro direito. Aprofunda-se a incisão até encontrar o gradil costal, começando
a dissecção por baixo dos planos musculares, em direção ao pescoço. O retalho cutâneo
deve ser tracionado para cima e para trás. Ao abordar as clavículas, a dissecação passa a
ser subcutânea, devendo-se alcançar a mandíbula e os acrômios. Deve-se ter cuidado para
não lesionar a pele, mantendo o bisturi o mais vertical possível.

Exposto o gradil costal, faz-se uma incisão mediana desde a margem inferior do corte
anteriormente referido até o púbis, desviando da cicatriz umbilical, que tem de ser profunda
o bastante para atingir a aponeurose e o peritônio, mas sem lesionar os órgãos subjacentes.
Disseca-se a pele e seccionam-se os músculos da parede abdominal rente ao rebordo
inferior do gradil costal de ambos os lados, exibindo-se toda a cavidade abdominal. Os
órgãos precisam ser examinados antes de eviscerados para que sejam observadas possíveis
mudanças na sua posição e relação, presença de aderências, fístulas, deiscência de suturas,
abscessos, peritonite etc. Depois de retirados, não há mais como avaliar a maioria dessas
alterações, ou ter certeza de que já existiam antes e não foram provocadas pela própria
evisceração (no caso de rupturas, por exemplo). Essa incisão descrita é chamada de
biacromioxifopubiana. Outro tipo de incisão utilizado na prática é a incisão
submentoxifopubiana que, embora mais prática, apresenta pior resultado estético após o
fechamento da pele.

A fase seguinte consiste na remoção do gradil costal. Inicialmente, movem-se os ombros do


cadáver para discriminar as articulações esternoclavículares, nas quais deve ser aplicado um
bisturi abotoado no sentido vertical, seccionando-as em toda a sua extensão e também os
músculos que se encontram inseridos na porção medial das clavículas, de modo a
desarticulá-las do osso esterno. Depois, com o auxílio de um costótomo, cortam-se todas as
costelas na direção longitudinal de uma linha imaginária que passa pelo meio das clavículas,
assim como a musculatura intercostal. Por fim, para liberar o gradil e expor as vísceras
intratorácicas, secciona-se a borda anterior do músculo diafragma, ligada ao gradil, e os
músculos que se inserem no manúbrio esternal, tendo o cuidado de não lesionar o saco
pericárdico que reveste o coração. Para a proteção das pessoas que manuseiam o cadáver,
as extremidades das costelas seccionadas devem ser recobertas com gazes, compressas

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ou com o próprio retalho cutâneo obtido pela incisão externa. Ao examinar as cavidades,
deve-se atentar para a existência de aderências entre as vísceras e observar se há presença
de líquidos anormais em seu interior. Caso sejam encontrados derrames, estes devem ser
analisados quanto às suas características, esvaziados e medidos, com precaução em
relação à contaminação por sangue proveniente da técnica de necropsia (Figuras 5.6 e 5.7).

Figura 5.6 Incisão submentoxifopubiana pela técnica de Virchow

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Figura 5.7 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de abertura da cavidade
toracoabdominal

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PRIMEIRO MONOBLOCO
0 primeiro monobloco é formado pelas estruturas anatômicas que se encontram no
mediastino, estendendo-se até os pulmões e os órgãos da boca e do pescoço. Essa
composição abrange resumidamente todos os seus constituintes, pois o mediastino é o
intervalo entre as duas pleuras, que compreende um mediastino superior, acima do nível do
pericárdio, e três divisões inferiores, denominadas anterior, média e posterior - ou seja, ele
contém o coração e o pericárdio, os grandes vasos relacionados com o coração, o esôfago,
a artéria aorta torácica, o timo, a traquéia, além dos brônquios principais e outras estruturas
dos hilos pulmonares. A técnica se inicia com a secção dos músculos ântero-laterais
cervicais, aprofundando-se o corte até o arco da mandíbula, de cada lado da laringe, sem
lesionar a pele do pescoço, até alcançar as glândulas submandibulares, que servirão de base
para a secção seguinte, visto que estarão dentro do material retirado no início desse primeiro
monobloco. Logo, o corte deverá ser feito bem adjacente a elas, seccionando-se, sob a
mandíbula, todo o assoalho da boca juntamente com a língua e a extremidade inferior da
orofaringe. A partir daí, traciona-se com as mãos todo o conteúdo cervical, inclusive o
esôfago, pertencente ao segundo monobloco, que sairá junto com o material do primeiro.
Nessa fase, as pleuras parietais são liberadas do gradil costolateral com as mãos, para assim

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soltar os pulmões e, com a mesma técnica, liberar o esôfago da coluna vertebral. Após esse
último procedimento, o esôfago deverá ser desprendido da traquéia por meio de dissecção
com uma tesoura do tipo Metzenbaum. É feita uma ligadura na extremidade inferior do
esôfago com o propósito de que não ocorra extravasamento do conteúdo gástrico, com
posterior secção acima desse nível. A porção superior do esôfago seguirá em definitivo com
o primeiro monobloco, tendo em vista que não foi dissecada da traquéia. Já as suas porções
média e inferior seguirão com o segundo monobloco. O coração é a última parte a ser solta,
devendo ser circundado com a mão do operador colocada por detrás dele, estando a aorta
descendente e a veia cava inferior pinçadas entre os seus dedos polegar e indicador,
utilizando-se de uma faca ou tesoura para cortar abaixo da preensão e liberar de vez o
monobloco.

SEGUNDO MONOBLOCO
O segundo monobloco é constituído pelo sistema digestivo, representado por segmento do
esôfago (terço inferior) e do duodeno, estômago, pâncreas, fígado, sistema biliar e baço. Em
primeiro lugar, com o objetivo de facilitar as etapas subseqüentes, seccionase a porção
central das cúpulas diafragmáticas com uma faca, no sentido ântero-posterior, possibilitando
que o fígado seja rebatido. Na seqüência, deverão ser liberados o baço, o pâncreas e o
segmento do duodeno que atinge a coluna vertebral, cortando-se a artéria celíaca e a veia
cava, tomando-se cuidado para que a artéria aorta permaneça intacta. Depois, dissecam-se
as aderências e os ligamentos falciforme e redondo do fígado, utilizando os dedos ou o
bisturi, para que ele seja solto do diafragma.

TERCEIRO MONOBLOCO
O terceiro monobloco compõe-se das glândulas supra-renais, rins, ureteres, bexiga, reto,
próstata e vesículas seminais (sistema urogenital masculino), útero, tubas uterinas e ovários
(sistema urogenital feminino). A retirada desse monobloco não pode ser feita com os
intestinos ainda no local. Inicia-se com a liberação do rim e da suprarenal esquerdos,
incisando-se o peritônio de revestimento e separando-os da musculatura subjacente. Feito
isso, prossegue-se a dissecação em direção à pelve, por baixo da artéria aorta, até chegar à
coluna vertebral lombar. Durante esse procedimento, deve-se ter extremo cuidado para não
lesionar o ureter. Em seguida, realiza-se o mesmo trabalho no lado direito. Adiante, a
dissecação passa a ser realizada com os dedos, sem que se consiga visualizar os planos de
corte, com o objetivo de liberar os órgãos pélvicos: bexiga, reto e órgãos genitais internos.
Em seguida, cortam-se os vasos ilíacos e as ligações restantes no assoalho pélvico. Caso a
necropsia esteja sendo realizada em um homem, os testículos também deverão ser retirados.

QUARTO MONOBLOCO
O quarto monobloco é formado pelo segmento terminal do duodeno, jejuno, íleo e cólon.
Embora seja o último, esse monobloco deverá ser o primeiro a ser examinado logo após a

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abertura das cavidades abdominal e torácica, devido á rápida autólise que ocorre no trato
gastrintestinal. Em primeiro lugar, rebate-se para a direita todo o intestino delgado,
identificando-se a área de passagem do duodeno, a partir do retroperitônio, para o interior da
cavidade peritoneal (ou seja, a alça fixa do duodeno). Em seguida, depois de incisar o
mesentério, fazem-se duas ligaduras no jejuno com 10cm de intervalo entre si e o segmento
interposto é seccionado. Prossegue-se identificando o cólon sigmóide e realizando o mesmo
procedimento citado anteriormente, com secção na altura do reto. Desse modo, o intestino
grosso é solto e retirado juntamente com o mesocólon, tendo-se cuidado para não lesionar
as estruturas situadas inferiormente. Por fim, secciona-se a raiz do mesentério, o mais
próximo possível da artéria aorta, para que todo o intestino delgado seja removido. Finalizada
a técnica, procede-se a reconstituição do corpo.

TÉCNICA DE VIRCHOW
Introdução
A técnica de Virchow foi desenvolvida por Rudolf Virchow em 1893 e ainda hoje é bastante
utilizada. Consiste na retirada de órgão a órgão como uma forma de estudo particularizada,
sendo de grande valia na patologia forense. Rudolf Virchow, um dos mais proeminentes
médicos do século XIX, cientista e político alemão, foi pioneiro no conceito moderno do
processo patológico da doença. Ele enfatizou que as doenças se iniciam não nos órgãos ou
tecidos em geral, mas primeiramente nas células individuais. Virchow também contribuiu para
o desenvolvimento da Antropologia como uma ciência moderna. Por seu trabalho voltado
para a área de anatomia patológica, mais especificamente para o estudo de doenças,
Virchow desenvolveu uma técnica de necropsia de análise individual, que requer um sólido
conhecimento do corpo humano. Pelo método de Virchow, os órgãos são retirados
separadamente e, uma vez extraídos do corpo, procede-se a um exame técnico e minucioso
de cada um.

TÉCNICA
A principal característica da técnica de Virchow consiste no reconhecimento global das
vísceras no seu local anatômico e na análise posterior de cada órgão separadamente. Essa
técnica costuma ser empregada pelos mais experientes patologistas forenses. Consiste em
uma incisão única, medial, que se inicia na margem inferior do mento, seguindo a linha média,
pela face anterior do pescoço, tórax e abdome, contornando neste último o umbigo, pelo lado
esquerdo, até atingir o púbis. Em seguida, descolam-se com a faca todas as partes moles
que recobrem o plastrão costocondroesternal, rebatendo para ambos os lados a pele, o
tecido celular subcutâneo e os músculos. Em seguida, de posse do costótomo, procede-se
ao corte das costelas, partindo da última para a primeira, ou seja, de baixo para cima,
percorrendo a linha axilar anterior ou a linha axilar média, de modo a ter uma boa exposição
da cavidade torácica. Completa-se com a desarticulação de ambas as clavículas do manúbrio
esternal. Desse modo, ficando livre o plastrão, este é então retirado, desinserindo-se o

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músculo diafragma através de um corte rente às costelas, seccionando-se os planos
celulares do mediastino anterior à medida que este é levantado. Uma vez que as costelas
seccionadas apresentam irregularidades em suas extremidades, passíveis de causar lesão
no operador, é recomendável que os retalhos superficiais que ficaram em ambos os lados do
corte longitudinal sejam voltados para dentro, de maneira a cobrir as margens ósseas costais,
com isso aumentando-se a segurança individual. Posteriormente, efetua-se a retirada órgão
a órgão, a fim de analisar separadamente cada estrutura, para determinar em qual deles
encontrava-se a patologia ou traumatismo que levou à morte do indivíduo necropsiado.

TÉCNICA DE LETULLE
EXAME EXTERNO
O exame externo do cadáver, ou ectoscopia, é de grande valor no esclarecimento e no
diagnóstico de muitos processos patológicos, assim como na descoberta de lesões
traumáticas. Basicamente, certos caracteres devem ser pesquisados e minuciosamente
relatados:
 O desenvolvimento do esqueleto, fazendo-se referência a deformidades existentes.
 O estado de nutrição, avaliado pela quantidade de tecido adiposo subcutâneo e de
massa muscular.
 Os fenômenos cadavéricos tardios, que constituem alterações passivas decorrentes de
mecanismos de ordem física: desidratação tegumentar, resfriamento corporal e livores
de hipóstase; e de ordem química: autólise, rigidez muscular e putrefação, sendo
utilizados em conjunto para a determinação da hora da morte.
 O aspecto da pele, observando-se a presença de lesões cutâneas, cicatrizes, incisões,
tatuagens ou alterações de coloração (que podem ser patológicas, traumáticas ou
decorrentes dos sinais tardios de morte).
 Secreções provenientes do nariz, da boca, dos ouvidos, da uretra, da vagina e do ânus.

CRÂNIO E MEDULA ESPINAL


Para facilitar a incisão do couro cabeludo, coloca-se um cepo debaixo do pescoço do
cadáver, em posição de decúbito dorsal, a fim de levantar a cabeça. Separa-se o cabelo em
dois grupos, anterior e posterior, para que fique livre a linha de incisão dos tecidos moles;
essa linha de incisão começa e termina na altura do vértice das apófises mastóides e passa
pelo ápice da cabeça, de modo a se obterem dois retalhos: um anterior e outro posterior.
Caso se torne necessário, é possível prolongar a incisão para as regiões parotidianas a fim
de examinar as glândulas ali situadas. Outra vantagem da incisão bimastóidea é que, quanto
mais extenso for o corte dos tecidos moles, mais fácil será o exame dos ossos por eles
cobertos e as manobras subseqüentes. O couro cabeludo é liberado dos ossos do crânio
com o auxílio do bisturi; desprende-se o retalho anterior até as arcadas supra-orbitárias e o
retalho posterior deve ser destacado até a altura da protuberância occipital externa. É
importante rebater os músculos temporais para diante e para baixo e, em seguida, ruginar

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todos os ossos expostos do crânio, a fim de proceder a um minucioso exame da tábua
externa, observando as suas particularidades e as lesões anatômicas de que porventura seja
sede. No corte dos ossos do crânio será adotada a linha circular. Marcam-se dois pontos
com um lápis ou com um ligeiro traço de serra, um anterior e outro posterior, que devem ficar
situados, o primeiro, dois dedos acima da raiz do nariz e, o segundo, dois dedos acima da
protuberância occipital superior. Reúnem-se os pontos por um traço, assinalando o plano
gerido por eles. Coloca-se a serra na linha de corte e cava-se o sulco que deverá ser
percorrido pelo instrumento; o operador deve aplicar a mão sobre a abóbada craniana,
firmando-a durante o procedimento, mas de modo que possa mover a cabeça para um ou
outro lado, no intuito de exibir novas regiões aos dentes do instrumento. Começa-se serrando
vagarosamente e, depois, de maneira mais vigorosa e rápida, para que no final da operação
volte-se a trabalhar devagar e sem exercer pressão forte. O corte interessa à totalidade do
osso e deve-se ter cautela para não lesionar a dura-máter e o encéfalo. A linha acima
indicada tem a vantagem de passar por pontos em que o osso tem espessura menor e mais
uniforme. Alguns autores atentam para o fato de se fazerem chanfros na incisão do crânio
ou, ainda, um corte angular, para impedir que a abóbada craniana não saia do lugar ao se
reintegrar o corpo. Para retirar a abóbada é conveniente o emprego do martelo e do escopro.
Pode-se executar essa manobra com os ossos bem serrados; basta introduzir o escopro
adentro para alargar a fenda e possibilitar a introdução do gancho, situado na extremidade
do cabo do martelo, com a ponta voltada para cima e para trás, exercendo tração na altura
da linha média; deve-se amparar a abóbada com a mão.

O patologista dedica agora sua atenção ao exame da dura-máter, verificando se está


simetricamente disposta e uniforme, com a mesma tensão de cada lado da linha média, e se
consegue levantá-la em pregas na parte anterior com facilidade. Analisa os vasos
meníngeos, notando se estão igualmente distendidos; a riqueza de granulações, a coloração,
a espessura e a transparência da meninge. Abre-se então o seio sagital superior, usando
uma tesoura de ponta romba. No caso da dura-máter, levanta-se uma prega no seu pólo
frontal e, com a mesma tesoura, inicia-se a incisão no sentido ântero-posterior em direção
ao occipital. Os retalhos obtidos são rebatidos lateralmente para fora e cada um deles é
dividido ao meio, totalizando quatro retalhos. Com tesoura ou bisturi, desprende-se a foice
do cérebro da apófise crista galli, inclinando-o para trás até a parte posterior do corte do osso.
Com os quatro últimos dedos da mão esquerda, afastam-se os lobos frontais da base do
crânio, possibilitando a visualização dos pares de nervos óptico e olfatório; cortam-se os
nervos ópticos e, cuidadosamente, levantam-se os bulbos olfatórios. Em seguida,
seccionam-se as arté- rias carótidas internas, o pedúnculo da hipófise e os nervos
oculomotores. É realizada a incisão da tenda do cerebelo e a secção dos outros nove pares
de nervos cranianos (troclear, trigêmeo, abducente, facial, vestibulococlear, glossofaríngeo,
vago, acessório e hipoglosso) e, por fim, incisa-se a medula espinal com as artérias
vertebrais; esse corte deve ser feito o mais distante possível do encéfalo. Uma vez retirado

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o encéfalo, tem-se acesso às meninges aderidas à base do crânio, sendo muito importante
a inspeção dos ossos da base do crânio após a extração das mesmas.

Método de Maurice Letulle: coloca-se o encéfalo sobre a mesa, assentando-o pela


convexidade; cortam-se os pedúnculos cerebrais perpendicularmente ao seu eixo e
imediatamente acima da protuberância. Procede-se ao exame do cerebelo, da protuberância
e do bulbo, começando pelo cerebelo. O bulbo raquidiano fica com a face anterior voltada
para a mesa e a superfície de secção voltada para o lado do operador. Divide-se o hemisfério
cerebelar direito em quatro fatias por meio de quatro golpes verticais, paralelos ao eixo do
vérmix e incompletos, visto que se deixa uma porção por cortar, que funciona como
charneira. Faz-se uma incisão vertical indo do vérmix superior ao inferior, abrindo o quarto
ventrículo. Voltam-se depois as vísceras, de modo a ficar a protuberância do lado do
operador, para que se cortem os hemisférios cerebelares de maneira idêntica. Em seguida,
coloca-se o bulbo e a protuberância com a face posterior sobre a mão esquerda, a superfície
de secção do bulbo virada para o punho, e executa-se uma série de cortes paralelos entre si
e distanciados em 0,5cm, perpendiculares ao eixo bulboprotuberancial. Terminado o exame,
procede-se à pesagem das estruturas. Depois, o operador prossegue na necropsia do
cérebro, conservando-o na posição em que tinha sido anteriormente deixado, ou seja,
apoiado pela convexidade e com os lobos frontais voltados para si. Separando com os dedos
os tubérculos quadrigêmeos, incisa a glândula pineal, a qual é examinada através de secção
transversal mediana. Levanta os hemisférios cerebrais, assenta-os na mesa com a base
voltada para baixo e separa um do outro, dividindo o corpo caloso na direção da frente para
trás. A essa altura, efetua a decorticação de cada um dos hemisférios, mas nâo o faz
completamente. Deita sobre a mesa o hemisfério, pela face externa, introduz o dedo
indicador esquerdo no corno occipital do ventrículo lateral e põe-no a descoberto. Em
seqüência, abre o corno esfenoidal e o frontal. Termina a necropsia realizando cortes
histológicos apropriados, e só por último é que se pesa o cérebro.

• Extração da medula espinal: o cadáver deve ser posicionado em decúbito ventral, pois a
via de acesso adotada será posterior; é aconselhável realizar essa técnica antes da abertura
do tórax e do abdome, já que os órgãos dessas cavidades, quando em suas posições
anatômicas, conferem maior suporte ao corpo. A cabeça tem de ficar para fora da mesa, ou
ainda sobre esta, mas com o rosto amparado por uma toalha. A incisão da pele começa na
base do crânio (acima da nuca) e em formato de Y, descendo linearmente sobre a região da
coluna vertebral até o sacro. Os músculos paravertebrais e as aponeuroses de ambos os
lados do processo espinhoso vertebral, que recobrem o par de lâminas vertebrais, são
retirados com escopro ou bisturi. Efetua-se uma laminectomia com a serra vibratória ou com
outro instrumento. Para completar a separação, utilizam-se escopro e martelo. As apófises
espinais que se encontram unidas às lâminas sâo extraídas inteiras. As lâminas da primeira
vértebra cervical nâo devem ser cortadas, porque a cabeça do cadáver ficaria instável, com

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movimento rotatório exacerbado sobre a coluna. Após a secção de todos os nervos espinais
na área compreendida entre as raízes nervosas e seu gânglio espinal, consegue-se extrair a
medula espinal junto com a dura-máter. Depois, corta-se o tecido epidural com o bisturi e
abre-se a duramáter com uma tesoura de ponta romba, seguindo a linha média. O processo
de extração da medula deve ser feito com todo o cuidado para que esta não sofra lesão.

PESCOÇO, TÓRAX E ABDOME


A incisão do pescoço, que é feita com uma faca, tem início logo abaixo do mento e se
prolonga até o manúbrio esternal. Já a abertura do tórax e do abdome, segundo a técnica de
Letulle, é feita simultaneamente por meio de uma única incisão elipsóide e oval, que abrange
a parede anterior de ambas as cavidades. O corte começa na articulação acromioclavicular
direita, contorna lateralmente o mamilo e desce pela linha axilar anterior até alcançar a fossa
ilíaca homolateral, pouco acima da espinha ilíaca ântero-superior; nesse nível, a incisão
curvilínea é desviada medialmente na direção do púbis, atingindo a fossa ilíaca contralateral
e, a partir daí, ascende de forma simétrica à inicial. Este é considerado o procedimento de
escolha nos casos de embalsamamento. Desarticula-se a extremidade interna das clavículas
com um bisturi fino, para, em seguida, cortar todas as costelas com o costótomo. Seccionam-
se o diafragma e o ligamento redondo do fígado. Levanta-se a tampa constituída pela parede
toracoabdominal, recostando-a sobre as coxas do cadáver, o que permite uma ampla
abertura das duas cavidades. As margens costais devem ser cobertas com gaze para evitar
a exposição de áreas cortantes. Na técnica de Maurice Letulle, extraem-se todos os órgãos
do tórax e do abdome em um só bloco. Para extrair a língua, as amígdalas e o palato mole,
o acesso à cavidade bucal é realizado através do assoalho da boca. Secciona-se o palato
mole na sua área de união com a porção óssea e se aprofunda a incisão, cortando a parede
posterior da faringe. Para separar os outros órgãos cervicais da coluna vertebral continua-se
dissecando o espaço pré-vertebral. No tórax, prossegue-se destacando os órgãos da coluna
dorsal. Na pelve, com os dedos encaixados nos tecidos extraperitoneais, por trás da sínfise
púbica, descolam-se da parede pélvica a bexiga e a próstata ou o útero e a vagina.

Depois de comprimir para cima o conteúdo retal e fazer as ligaduras, corta-se e efetua-se a
dissecação atrás do reto. A uretra é seccionada próximo à sua saída da pelve. Os órgãos
pélvicos são dobrados para cima e para fora. Removem-se os tecidos resistentes, incluindo
o diafragma e, em seguida, se extrai a massa completa de órgãos, colocando-a sobre a mesa
de dissecção com a superfície posterior voltada para cima. Uma vez extraído o monobloco,
passa-se ao exame das cavidades; será verificado se existem fraturas costais, lesões
vertebrais ou qualquer outra alteração. No monobloco consegue-se identificar o conduto
torácico. As veias ilíacas e a veia cava são abertas com tesouras, cortando-se suas principais
tributárias. Devem-se examinar os gânglios linfáticos retroperitoneais. As artérias ilíacas e a
aorta são abertas em toda a sua extensão, até a altura do arco aórtico. Observam-se a
espessura das paredes, o tamanho e as características dos orifícios dos ramos principais da

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aorta, especialmente os das artérias renais e carótidas primitivas. As glândulas supra-renais
são extraídas e posteriormente dissecadas, depois de retirada a gordura adjacente. Os rins
e os ureteres são liberados dos tecidos circundantes e a artéria aorta é separada da inserção
do mesentério. A artéria aorta, as artérias renais e os rins são afastados para baixo e os
ureteres também seguem até a bexiga. O corte e o exame das vísceras devem ser realizados,
bem como a pesagem de todas elas. Havendo necessidade de exames complementares,
coleta-se material para toxicologia e/ou histopatologia. A necropsia termina com a devolução
das vísceras ao corpo, restauração e limpeza do cadáver (Figuras 5.8 e 5.9).

RECONSTITUIÇÃO
O corpo deve ser reconstituido de forma que não haja evidências da necropsia depois de
vestido. Todo líquido deve ser drenado das cavidades. As aberturas retal e vaginal, devem
ser ocluídas com material absorvente (estopa, gaze, algodão). Os órgãos devem ser
recolocados no corpo. O gradil costal deve ser reposicionado e, em casos de retirada da
coluna vertebral coloca-se uma vara de madeira ou metal no local para evital deformidades
corporais. A pele deve ser suturada por pontos oblíqüos, de baixo para cima, distando 1 cm
entre si. O corpo deve ser lavado cuidadosamente com água sanitária diluída (1:10 em água),
retirando-se todas as manchas de sangue ou secreções existentes.

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Figura 5.8 (A a G) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento do couro cabeludo

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Figura 5.9 (A a E) Seqüência demonstrando a técnica de fechamento das cavidades torácica
e abdominal

NECROPSIA EM FETOS, RECÉM-NASCIDOS E LACTENTES


Geralmente, a técnica de necropsia utilizada em fetos, recém-nascidos e lactentes é similar
à que se emprega em indivíduos adultos, com algumas variações que serão discutidas
adiante. Há de se considerar que a maior dificuldade nesse tipo de exame encontra-se na
grande diferença de tamanho, pois seus órgãos são comparativamente menores, algumas
vezes minúsculos, na dependência da idade gestacional, o que requer, obrigatoriamente,
análise mais atenta e meticulosa, com demanda de uma gama diferente de instrumentos
apropriados, muitas vezes indisponíveis nos serviços de medicina forense. Outro entrave na
execução dessas perícias é a necessidade de conhecimento especializado em patologia
pediátrica, uma vez que o aspecto macroscópico normal de alguns órgãos e estruturas

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anatômicas pode confundir-se com distúrbios ou lesões, se comparado ao observado em
crianças maiores ou mesmo adultos (Figura 5.10). Uma série de mensurações essenciais
devem ser incluídas no exame externo, como peso corporal, comprimentos cabeça-calcãneo
e cabeça-nádega, bem como a aferição do diâmetro biparietal e das circunferências da
cabeça, do tórax e do abdome. O peso dos órgãos internos maiores, sobretudo cérebro,
coração, pulmões, timo, fígado, baço, rins e adrenais, também deve ser medido. O
comprimento do fémur é de importante valia no cálculo da idade gestacional. Em fetos com
menos de 12 semanas de gestação ou comprimento inferior a 70mm, como são muito
pequenos, o método recomendado e acessível consiste corte global do embrião em fatias de
aproximadamente 1 cm, para exame em microscópio de dissecção. A partir do segundo
trimestre de gestação, pode-se proceder à necropsia convencional, com remoção dos órgãos
em bloco para inspeção, deixando os rins, os ureteres e a bexiga in situ para exame posterior.

A retirada em bloco é a mais adequada por preservar a relação habitual entre os órgãos,
permitir a avaliação da microanatomia de uma área particular de um órgão em comparação
com as demais regiões do mesmo e possibilitar a visualização mais fácil de anomalias ou
más-formações. Com relação ao exame da cabeça, utiliza-se a incisão bimastóidea, assim
como no adulto. O uso corrente de abrir o crânio com serra é eficiente para crianças maiores,
ainda que não seja aconselhável em fetos e recém-nascidos, nos quais está indicado o
emprego de tesouras fortes para efetuar um corte em forma de cruz, no sentido das
fontanelas e linhas de sutura, separando-se os ossos como se fossem pétalas de uma flor.
Aplica-se a tesoura na porção central da fontanela anterior ou bregmática, direcionando-se
o corte inicialmente para frente, ao longo da sutura metópica e, em seguida, para trás, em
sentido longitudinal, até atingir a fontanela posterior ou lambdóide, no nível do osso occipital.
Depois, partindo do mesmo ponto inicial, realiza-se a incisão na sutura coronal, entre o osso
frontal e os parietais, bilateralmente, com afastamento manual dos retalhos ósseos assim
obtidos e subseqüente exposição do encéfalo envolto nas leptomeninges, uma vez que a
dura-máter costuma estar muito aderida aos ossos nessa fase da vida e sai presa a eles,
quando abertos e afastados pela técnica descrita.

Deve-se ter muita cautela na retirada do encéfalo porque sua consistência é bastante
amolecida em fetos e lactentes, podendo-se desfazer durante a extirpação. Alguns serviços
recomendam a fixação prévia do encéfalo em solução de formol, após a coleta de material
para exames microbiológico e toxicológico, quando necessários, antes de ser removido por
técnica idêntica à usada em indivíduos adultos. Em algumas circunstâncias, impõe-se a
abertura do ouvido, que deve ser examinado em suas três porções: conduto externo, ouvidos
médio e interno, de ambos os lados, sendo requerida técnica especial e complexa, que
envolve a remoção de segmentos de ossos da base do crânio (temporais). O exame da
coluna vertebral para a extração da medula espinal segue o mesmo método indicado para
adultos, com o emprego de tesouras que permitem liberar e seccionar as lâminas vertebrais

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com facilidade, uma vez que estas ainda não se encontram ossificadas. A incisão externa do
pescoço e do tronco pode ter início na região submentoniana ou biacromial, seguindo a linha
média nas regiões esternal e epigástrica, onde deverá cercar o umbigo de ambos os lados,
com desvio oblíquo para baixo e para fora, em forma de "V" invertido, até atingir as fossas
ilíacas, no nível das eminências pectíneas, para garantir a integridade dos vasos sanguíneos
umbilicais durante a sua apreciação. Esses vasos e o úraco são examinados desde o
exterior, com secção da veia umbilical um pouco abaixo do fígado, reclinando-se para cima
do púbis o triângulo de partes moles obtido com os cortes divergentes aqui descritos, para
sua abertura longitudinal ou por meio de pequenos cortes transversais e paralelos. Em
seqüência, aberta a cavidade torácica, examinam-se os órgãos em sua posição anatômica,
de modo que estes, em seguida, deverão ser liberados em bloco, juntamente às estruturas
cervicais. Se há suspeita ou conhecimento de qualquer anormalidade geniturinária ou anal,
a incisão poderá estender-se em volta do períneo para incluir o exame da genitália externa
e do ânus, com prévia disjunção da sínfise pubiana e afastamento ósseo por abertura dos
membros inferiores.

Após a secção dos ligamentos e das inserções musculares com bisturi ou tesoura delicada,
admite-se usar dissecção manual para a completa exposição dos órgãos cervicais, com
retirada da língua e da laringe inteiras, compreendendo a epiglote e a faringe, na busca da
eventual presença de obstruções, de ocorrência freqüente nessa faixa etária. Por ocasião do
criterioso exame do coração, com vista à detecção de anomalias sutis ou más-formações
evidentes, convém pesquisar o forame interauricular e o conduto arterioso, que costumam
obliterar-se alguns dias depois do nascimento, com transformação deste último em um
cordão fibroso situado entre as artérias aorta e pulmonar. Em Medicina Legal, é
extremamente importante determinar se o feto apresentou respiração espontânea ou não.
Para estabelecer com segurança tal acontecimento, não é suficiente a análise visual
macroscópica dos pulmões, sendo proposta a execução de várias provas, denominadas
docimásias pulmonares.

O pulmão que não respirou apresenta coloração vinhosa, consistência carnosa similar ao
fígado, não cobre a área cardíaca, achando-se encostado ao canal vertebral, não crepita ao
corte e não flutua na água; ao contrário, aquele que respirou tem tonalidade rosada,
consistência macia ou elástica, mostra-se expandido, com cobertura parcial anterior do saco
pericárdico pelo esquerdo, crepita ao corte e quando espremido sob a água, além de flutuar
nela. Todavia, uma vez que esses testes podem exibir resultados falso-positivos, como na
reanimação cardiopulmonar, e falso-negativos, como na síndrome da membrana hialina, é
conveniente confirmar se houve respiração de fato por meio da docimásia histológica dos
pulmões. O exame da placenta, quando disponível, é parte integrante da necropsia fetal e
perinatal, que demanda a inspeção das membranas fetais, de suas superfícies do lado fetal
e materno e do cordão umbilical, com descrição de sua forma, aferição de peso e tamanho,

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para constatar anomalias e possíveis áreas de hemorragia com descolamento, infartos,
trombos, infecção etc., que podem ter causado diretamente ou contribuído para a morte. A
análise microscópica de cortes seriados da placenta em intervalos de 1cm também merece
distinção.

PROVA DA VIDA EXTRAUTERINA


Em situações especiais como casos de suspeita de infanticídio, torna-se necessário verificar,
preliminarmente se estamos em presença de uma figura delituosa possível ou simplesmente
de um crime impossível. Com efeito, se faz necessário saber se a vítima do suposto
infanticídio teria vivido antes do cometimento do ilícito fato ou se tratava de um natimorto,
cuja condição não chegou a ser constatada pela mãe antes da prática de seu ato. As provas
destinadas à verificação da vida fetal “intraútero” – designadas como docimasias – podem
ser divididas em três modalidades, a saber:
a) respiratórias diretas e indiretas;
b) não respiratórias; e
c) ocasionais.
Docimais Respiratórias Diretas
Todas as provas respiratórias da vida “intrauterina” se apóiam, basicamente, em um princípio
estatuído por Galeno há quase 2.000 anos:
Prova hidrostática de Galeno: é realizada em quatro tempos, iniciando-se pela ligadura da
traqueia logo após a abertura do corpo e preparando-se um recipiente grande contendo água
abundante:
1º tempo – Mergulha-se o bloco das vísceras torácicas na água: havendo flutuação houve
respiração. Logo, houve ainda, por quanto o próprio Galeno já afirmava: “respirare vivere est”
2º tempo – Sem retirar o bloco da água, separam-se os pulmões e após seccionar os hilos
dos órgãos, observa-se se a flutuação é a mesma do primeiro tempo.
3º tempo – Ainda sob a água, separam-se os lobos pulmonares e cortam-se em pequenos
fragmentos para verificar o comportamento de cada um deles, se afundam o pulmão não
respirou e caso flutuem houve respiração.
4º tempo – Os fragmentos seccionados no tempo anterior são espremidos sempre sob a
água e contra a parede do recipiente, observando-se a saída de pequenas bolhas de ar junto
com o sangue; abandonados os fragmentos, estes também vêm à superfície quando, então,
a prova se considera positiva.

Podem existir causas de erro na realização desta prova, como: putrefação, insulflação,
respiração “intraútero”, congelação, cocção, hepatização, atelectasia secundária, asfixias
mecânicas internas etc. Nestes casos o exame histológico do órgão pode esclarecer
eventuais dúvidas, ao verificar o aspecto do pulmão cujo epitélio de monoestratificado cúbico,
quando o órgão não respirou, passará a monoestratificado plano após as primeiras

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inspirações (PAULETE VANRELL, 1975). Tátil de Rojas - Quando da palpação interdigital, o
parênquima pulmonar dá a sensação de fofura e crepitação, caso tenha havido respiração.
Óptica de Bouchut e Casper - Consiste na observação da superfície do pulmão que, de um
aspecto parenquimatoso, quando há respiração, assume um aspecto de mosaico, em face
de ocorrerem mudanças circulatórias que circunscrevem os lóbulos pulmonares. Numerosas
outras provas têm sido descritas para estabelecer a ocorrência de vida extrauterina com base
na respiração fetal. Todavia, a maioria delas pela sua complexidade ou pelo seu primitivismo,
tornaram-se obsoletas e não têm um valor meramente histórico.

DOCIMASIAS RESPIRATÓRIAS INDIRETAS


Denomina-se assim o conjunto de provas que visa verificar se o recém-nascido respirou,
utilizando para tantos outros órgãos que não os pulmões. As mais utilizadas são:
1. Docimásia gastrointestinal de Breslau – Baseia-se na existência de ar no tubo digestivo,
ingressado por deglutição toda vez que o feto tenha respirado. Após forte ligadura acima da
cárdia e na ampola íleo-cecal, secciona-se o tubo digestivo que é, então, retirado e colocado
em um recipiente com água. Se houver flutuação é porque o feto respirou; se afundarem é
porque não houve vida extrauterina. Nos casos em que durante as manobras de
ressuscitação houve insuflação de ar no estômago do feto, apenas este órgão flutuará,
enquanto que o resto do tubo digestivo afundará na água.
2. Docimásia auricular de Wreden-Wendt-Gelé - Baseia-se na ocorrência de ar na cavidade
do ouvido médio que lá ingressa, através da tuba timpânica (trompa de Eustáquio) desde
que o recém-nascido tenha respirado. Consiste na função da membrana timpânica, com a
cabeça do feto mergulhada na água, caso tenha respirado, surgirá uma bolha de ar que
subirá até a superfície do recipiente.

DOCIMASIAS NÃO- RESPIRATÓRIAS


Trata-se de provas que não se baseiam na respiração fetal, mas em outras atividades vitais
desenvolvidas pelo recém-nascido, com a deglutição. Existem várias, mas as mais utilizáveis
são:
1. Corpos estranhos - A presença de corpos estranhos nas vias respiratórias do cadáver
implica, necessariamente, que o feto tenha feito sua inspiração, onde tenha respirado.
2. Sinais de sobrevivência - Como descamação cutânea; orla de eliminação peri-umbilical;
dessecamento e mumificação do cordão umbilical etc.
3. Lesões traumáticas - Quando o feto apresenta lesões traumáticas com características
inequívocas de terem sido produzidas “intra vitam”, é impossível ter havido vida extrauterina.

MANUAL DE BIOSSEGURANÇA

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INTRODUÇÃO
A biossegurança é um conjunto de ações educativas de fundamental importância em
qualquer atividade profissional, especialmente em serviços de saúde. Isto não só porque
aborda medidas de controle de infecções, mas também porque tem um papel fundamental
na promoção da consciência sanitária na comunidade em que atua, da preocupação com a
preservação do meio ambiente, na manipulação e no descarte de resíduos químicos, tóxicos
e infectantes e da redução geral de riscos à saúde e acidentes ocupacionais. Durante o
procedimento necroscópico, diferentemente do procedimento médico-cirúrgico hospitalar, o
fator segurança está todo voltado para os profissionais que atuam neste procedimento,
peritos e auxiliares, uma vez que esta preocupação passa a ser irrelevante em relação ao
cadáver. Enquanto que no ato cirúrgico terapêutico a preocupação relativa a riscos de
infecção é tanto para a equipe cirúrgica, como também para o paciente, já no caso da
necropsia o cuidado de prevenção contra infecção está todo direcionado para os peritos e
auxiliares. O termo “Segurança Profissional Durante Procedimento de Necropsia” traduz
para os peritos e auxiliares que a prática deste ato técnico deve estar revestida de toda
garantia de segurança. Uma vez que durante a necropsia os profissionais se expõem às
áreas com solução de continuidade na pele ou nas mucosas do cadáver, a fluídos, secreções
orgânicas e dejetos humanos. Qualquer pessoa em vida pode ser portadora de
microorganismos altamente patogênicos, o que, mesmo após a morte, põe em risco a saúde
de quem entra em contato com eles, principalmente, os profissionais de necropsia. Agentes
infecciosos como vírus, bactérias, fungos, parasitas e prions podem infectar esses
profissionais, em especial quando as barreiras usuais do corpo são ultrapassadas ou não
estão íntegras. Em geral, os organismos penetram no corpo através de feridas feitas
acidentalmente por agulhas ou pontas afiadas, gotículas em membranas mucosas, inalação
ou passagem de microrganismos por feridas preexistentes. Portanto, peritos médicos-
legistas e auxiliares técnicos que realizam necropsias, estão expostos a risco de
contaminação caso medidas adequadas de proteção não sejam rigorosamente observadas.

A fim de minimizar o risco de se infectar, barreiras adequadas devem ser acionadas. É


bastante difícil determinar quais casos de necropsias envolvem agentes infecciosos e quais
não. Portanto, é prudente considerar que todas as necropsias são potenciais fontes de
agentes infecciosos. O plano central de todo programa de bio-segurança em necropsia é a
utilização de precauções-padrão de controle de infecções. Assim, toda necropsia e seus
objetos devem ser tratados como se portassem algum agente infeccioso. Toda a área do
procedimento e seus conteúdos são designados como áreas de ameaça biológica e,
portanto, devem ter placas informativas. A sala de necropsia ideal deve ser bem ventilada,
com sistema exaustor negativo.

É muito útil ter um segundo auxiliar de necropsia que se mantenha limpo, a fim de registrar
pesos, medidas e outras observações quanto aos órgãos, e também para circular quando for

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necessário qualquer auxílio. Todos os procedimentos devem visar diminuir o risco de
derramamentos, respingos ou aerossóis. Equipamentos contaminados, instrumentos, bacias
e demais objetos devem ser confinados a áreas designadas até sua desinfecção (mesa de
necropsia, mesa de instrumentos, mesa de dissecção, pia e etc.).

TERMINOLOGIA
ANTI-SEPSIA – uso em tecido vivo de uma substância bactericida ou bacteriostática capaz
de impedir a proliferação de microorganismos (é a eliminação das formas vegetativas de
bactérias patogênicas de um tecido vivo).

ASSEPSIA - é o método empregado para impedir que determinado meio seja contaminado
(conjunto de meios utilizados para impedir a entrada de microorganismos onde não existam).
ARTIGO - compreendem instrumentos de naturezas diversas: utensílios, instrumental,
vasilhames.

ARTIGO DESCARTÁVEL – é o produto que, após o uso, perde suas características originais
não deve ser reutilizado e nem reprocessado.

ÁREA CRÍTICA - áreas de procedimentos onde o risco de contato com sangue ou secreções
humanas seja concreto (sala de exame ginecológico do IML; sala de radiologia do IML;
câmara fria do IML e sala de necropsia do IML).

ÁREA SEMI-CRÍTICA - áreas onde transitam pacientes e materiais sem o risco iminente de
contato com secreções e sangue humano (salas de consultório de perícia no IML).

CONTAMINAÇÃO - ato de sujar objetos inanimados ou matéria viva com material danoso,
potencialmente infeccioso ou indesejável.

DESCONTAMINAÇÃO - é o processo de desinfecção ou esterilização terminal de objetos e


superfícies contaminados com microorganismos patogênicos, de forma a torná-los seguros
para manipulação.

DESINFECÇÃO - é a eliminação de microorganismos, por meio físico ou químico, que destrói


microorganismos presentes em objetos inanimados, mas não necessariamente os esporos
bacterianos.

DESINFETANTE DE ALTO NÍVEL - produto químico capaz de eliminar vida microbiana,


apresentando capacidade tuberculicida.

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EPI – Equipamento de Proteção Individual: máscaras, gorros, visor facial ou óculos, avental
com mangas sanfonadas, jaleco, luvas de borracha, luvas de látex, botas, avental
impermeabilizado.

FONTE DE INFECÇÃO - onde os microorganismos patogênicos estão em crescimento ou já


cresceram e de onde são transmitidos aos pacientes.

HAMPER – saco ou vasilhame onde se deposita roupa utilizada na Tanatologia.

INFECÇÃO - é o resultado da penetração, aderência e multiplicação de um agente infeccioso


específico no organismo humano ou animal onde possam causar efeitos adversos. A
transmissão pode ocorrer por contato direto dos tecidos com líquidos biológicos infectados,
inalação de partículas aerossóis e inoculadas através de bordas cortantes e instrumentos
contaminados.

JANELA IMUNOLÓGICA - é o intervalo entre a infecção e a possibilidade de detecção de


anticorpos anti-HIV por técnicas laboratoriais.

LIMPEZA - procedimento de higiene utilizando água, sabão e ação mecânica (escovação e


fricção) com a finalidade de eliminar toda a sujeira e reduzir o número de microorganismos
presentes.

MATERIAL PÉRFURO-CORTANTE – materiais pontiagudos, fios ortodônticos, agulhas,


lâminas de bisturis, fragmentos de vidro, ampolas, limas, matriz e outros que apresentem as
mesmas características.

PERÍODO DE INCUBAÇÃO - período em que o indivíduo se encontra contaminado, mas


não apresenta sinais clínicos da doença, varia de uma patologia para outra.

PREVENÇÃO E CONTROLE DE INFECÇÃO - ações desenvolvidas visando à prevenção e


controle de infecção.

RESERVATÓRIO - local onde os patógenos conseguem sobreviver fora do organismo e de


onde podem ser transferidos, direta ou indiretamente a pacientes.

RESÍDUOS - todo material gerado, resultante do processo de trabalho, pode ser biológico ou
não, sendo classificado em potencialmente infectante ou doméstico respectivamente.

SEGREGAÇÃO – operação de separação dos resíduos no momento e local de geração.

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SEPSE - presença de inflamação, formação de pus e outros sinais, em lesões colonizadas
por microorganismos.

PRINCÍPIOS DE BIOSSEGURANÇA
O principal objetivo da biossegurança é criar um ambiente de trabalho no qual se promova a
contenção do risco de exposição a agentes potencialmente prejudiciais ao trabalhador e ao
meio ambiente, de modo que esse risco seja minimizado.

SEGURANÇA PROFISSIONAL E AMBIENTAL


PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE SEGURANÇA EM NECRÓPSIA
Uma série de cuidados deve ser empreendida para se evitar a exposição a riscos físicos,
químicos e biológicos durante a realização de trabalho na área da Tanatologia Forense do
IML.

RISCOS OCUPACIONAIS

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CUIDADOS DE SEGURANÇA
Dentre os cuidados de segurança preconizados, para o IML os mais importantes são:
A - Cuidados Gerais:
A.1 equipamentos de Proteção Individual (EPI)
A.2 lavagens das Mãos

B - Cuidados Específicos:
B.1 limpeza e desinfecção de material e higienização de ambiente
B.2 profilaxias para acidentes
B.3 procedimentos em caso de acidente
B.4 saúdes do funcionário
TÉCNICAS SEGURAS
A prática correta das técnicas é o objetivo da biossegurança. O cumprimento à risca das
regras deve ser estimulado pelas chefias competentes, visando à sua incorporação às rotinas
de cada setor.

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 O símbolo internacional de biossegurança deve estar afixado na entrada dos locais em
que se manipulam microrganismos de risco 2 ou maior.
 Os funcionários devem lavar as mãos após manipularem material infectante e antes de
saírem do necrotério.
 Não se deve fumar, comer, beber, mascar chicletes, guardar alimentos ou aplicar
cosméticos dentro do necrotério.
 Não se deve lamber etiquetas ou colocar qualquer material na boca (p. ex., caneta).
 Manter o local limpo, organizado e livre de materiais não pertinentes ao trabalho ali
desempenhado.
 Todos os procedimentos técnicos devem ser realizados para minimizar a formação de
aerossol e gotículas.
 Aventais devem ter seu uso restrito à sala de necropsia. Não devem ser usados em áreas
externas, tais como áreas administrativas, a biblioteca ou a cantina.
 Deve-se ter extrema precaução ao manusear objetos cortantes.
 Não usar sandálias.
 Não guardar aventais em armários nos quais são guardadas roupas que são usadas fora
do local de trabalho.
 Não permitir a entrada de pessoas que desconheçam os riscos potenciais de exposição,
crianças e animais. Manter as portas da sala de necropsia fechadas durante o trabalho.
 Usar luvas em todos os procedimentos que impliquem risco de exposição a material
infectante. Não descartar luvas e outros equipamentos de proteção em lixeiras de áreas
administrativas ou banheiros e sim em lugares apropriados.

EQUIPAMENTOS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL.


Os Equipamentos de Proteção Individual - EPI são dispositivos usados individualmente, para
proteger a integridade física do trabalhador e incluem: luvas, protetores oculares ou faciais,
protetores respiratórios, aventais e proteção para os membros inferiores. São equipamentos
de uso obrigatório no ambiente da sala de necropsia e nas salas de radiologia pericial. A
utilização de equipamentos como barreira contra as infecções externas passa por constantes
modificações, sobretudo, na busca de novos materiais que sejam impermeáveis a
microorganismos sob pressão, flexíveis, distensíveis e confortáveis, além de permitir a boa
prática nos procedimentos.

AS PRINCIPAIS FUNÇÕES DOS EPI SÃO:


I - Redução da exposição humana aos agentes infecciosos;
II- Redução de riscos e danos ao corpo provocados por agentes físicos ou mecânicos;
III - redução da exposição a produtos químicos tóxicos;
IV- Redução da contaminação de ambientes.

TIPOS DE EPI

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Os equipamentos mais usados em área de necrotério conferem proteção à cabeça,
Aos membros superiores, ao tronco e aos membros inferiores.
São eles:

GORRO: serve de proteção do couro cabeludo contra partículas biológicas e/ou químicas.

MÁSCARA: serve de prevenção a passagem de bactérias para as vias respiratórias (orifícios


nasais e orais).

ÓCULOS DE SEGURANÇA: propicia proteção para os olhos.

PROTETOR FACIAL DE ACRÍLICO: propicia proteção para toda a face.

AVENTAL: deve proteger o corpo do profissional e cobrir do pescoço até abaixo dos joelhos.
Além de permitir ajuste confortável, já existe o tipo impermeável adequado principalmente
para extensas exposições e manipulação de grandes quantidades de fluidos orgânicos.

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LUVA: normalmente são de borracha natural (látex) ou borracha sintética. Deve ser sempre
observado se não estão com furos ou rasgadas, o que pode ocorrer em 50 a 70% dos
procedimentos necroscópicos. Um defeito puntiforme, em 20 minutos, pode deixar passar
40.000 microorganismos. Deve-se evitar lesionar as mãos. Caso as luvas sejam rasgadas
ou puncionadas durante qualquer procedimento, elas devem ser removidas imediatamente,
e as mãos devem ser lavadas cuidadosamente. É recomendável o uso de duas luvas de látex
sobrepostas.
Proteção para os membros superiores:
 Luvas, mangas de proteção ou cremes protetores: são usados como barreiras de
Proteção em trabalhos em que haja perigo de lesão provocada por:
 Materiais ou objetos escoriantes, abrasivos, cortantes ou perfurantes e contaminados;
 Produtos químicos corrosivos, cáusticos, tóxicos, alergênicos, oleosos, graxos,
 Solventes orgânicos e derivados de petróleo;
 Risco de contaminação por material biológico.

PRÓ-PÉS (SAPATILHA): pode ser reutilizável após higienização ou de preferência


descartáveis. A utilização deste tem por objetivo a prevenção de contato dos calçados com
agentes infectantes.

BOTA DE BORRACHA: é o mais recomendável, principalmente nestes procedimentos, pois


os pés têm maiores risco de exposição a sangue e fluidos.

Após o procedimento a máscara cirúrgica será descartada, os óculos de segurança ou o


protetor facial de acrílico será limpo com água e sabão, e higienizado com o uso de álcool
comercial a 70% antes da próxima reutilização.

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MEDIDAS DE PROTEÇÃO INDIVIDUAL E SEGURANÇA

LAVAGEM DAS MÃOS


A ação de lavar as mãos utilizando água, sabão ou detergente é considerado o mais
importante modo de atuar na prevenção e controle de infecções. O objetivo da lavagem das
mãos é impedir que microorganismos mantenham-se nas mãos do profissional de necropsia,
e que este carreie os mesmos para outras áreas ou demais pessoas. Portanto, a lavagem
das mãos é, sem dúvida, a rotina mais simples, mais eficaz, e de maior importância na
prevenção e controle da disseminação de infecções, devendo ser praticada por toda equipe,
sempre ao iniciar e ao término de uma tarefa.

TÉCNICA DA LAVAGEM
É o simples ato de lavar as mãos com água e sabão, visando à remoção de bactérias
transitórias. A lavagem das mãos deve ser feita em uma pia distinta daquela usada para a
lavagem do instrumental, vidrarias ou materiais de uso na sala de necropsia. A técnica de
lavagem das mãos consiste em uma rotina padronizada como descrito abaixo:
 Retirar anéis, pulseiras e relógio.
 Abrir a torneira e molhar as mãos sem encostar-se a pia.
 Colocar nas mãos aproximadamente 3 a 5 ml de sabão. O sabão deve ser de preferência,
líquido e hipoalergênico.
 Ensaboar as mãos friccionando-as por aproximadamente 15 segundos.
 Friccionar a palma, o dorso das mãos com movimentos circulares, espaços interdigitais,
articulações, polegar e extremidades dos dedos.
 Os antebraços devem ser lavados cuidadosamente, também por 15 segundos.
 Enxaguar as mãos e antebraços em água corrente abundante, retirando totalmente o
resíduo do sabão.
 Enxugar as mãos com papel toalha.
 Fechar a torneira utilizando o papel toalha.

A lavagem das mãos deve ser realizada:


 Após o atendimento de cada periciando nas perícias em pessoas vivas;
 Sempre antes de se retirar os EPI;
 Após procedimentos, mesmo que tenham sido efetuados com as mãos enluvadas*;
 Quando tocar superfícies e objetos nos ambientes de risco (sala de necropsia e de
radiologia);
 Após manusear materiais e equipamentos na sala de necropsia e radiologia.
* O uso de luvas não dispensa a lavagem das mãos.

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LIMPEZA E DESINFECÇÃO DE AMBIENTE E MATERIAL
LIMPEZA MECÂNICA DO AMBIENTE E SUPERFÍCIES
Há necessidade de limpeza e proteção do ambiente e também do indivíduo para evitar
possíveis contaminações. Alguns princípios são:
 A sala deve ser ampla.
 Paredes, tetos e chão devem ser fáceis de limpar, impermeáveis a líquidos e resistentes
aos agentes químicos propostos para sua limpeza e desinfecção. O chão não deve ser
escorregadio.
 Tubulação exposta deve estar afastada das paredes.
 A iluminação deve ser adequada para todas as atividades.
 As bancadas devem ser fixas às paredes, impermeáveis à água e resistentes aos
desinfetantes, ácidos, solventes orgânicos e calor.
 O mobiliário deve ser de fácil limpeza. O espaço entre os equipamentos deve permitir a
limpeza de toda a área.
 Os materiais de uso diário podem ficar em estoque pequeno dentro da sala, porém nunca
sobre as bancadas.
 A autoclave deve estar disponível próximo às salas de necropsia.
 As portas devem ser mantidas fechadas.
 A área destinada à guarda de objetos pessoais e ao armazenamento de alimentos para
consumo diário deve estar fora da sala.
 Em caso de falta de energia elétrica, setores que dispõem de freezer e câmaras frias e
que necessitam ficar continuamente ligados devem dispor de geradores que se ligam
automaticamente.
 Deve ser providenciado um programa rotineiro de controle de roedores e insetos.
 Qualquer janela que precise permanecer aberta durante os procedimentos deve ser
protegida por tela, para evitar insetos e, em consequência, possível fonte de
contaminação cruzada.

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 O ambiente deve dispor de uma pia com torneira de fácil acionamento, para lavagem
Das mãos.

Os equipamentos de proteção coletiva (EPC) são todos os dispositivos instalados com o


objetivo de proteger a integridade física e a saúde dos funcionários e são utilizados para
minimizar, isolar ou eliminar a exposição dos trabalhadores aos riscos e,em caso de
acidentes, reduzir suas conseqüências. "Lava-olhos" são equipamentos utilizados em caso
de acidente com a mucosa ocular. O jato de água deve ser forte e dirigido aos olhos, para
possibilitar a remoção imediata da substância, reduzindo os danos para o indivíduo. Os
chuveiros de emergência são essenciais em casos de acidentes que envolvam mais de uma
área do corpo contaminada, e devem ser instalados, preferencialmente, junto ao lava-olhos.
Outro material importante para a segurança coletiva é o extintor de incêndios, que deve estar
em local de fácil visualização e acesso.

Para que a desinfecção se processe de forma eficaz é necessário que, inicialmente, seja
realizada a limpeza (a remoção física dos detritos ou fluídos orgânicos coagulados - carga
orgânica), das superfícies da sala de necropsia e sala de radiologia forense. Esta remoção
reduz, em muito, a quantidade de microorganismos, pois eles ficam aderidos à matéria
orgânica removida do cadáver através de fragmento de tecidos, sangue e outros fluídos ou
pela mão dos profissionais. As bancadas, macas, mesa de radiologia, mesa de necropsia e
demais móveis devem ser limpos com água e sabão (detergente) através de fricção em
movimento único, de cima para baixo, utilizando pano diferenciado (parede, porta, armário,
pia, mesas e maca). Deve-se evitar espirrar água sobre as superfícies. A limpeza deve ser
iniciada pelo local de menor probabilidade de contaminação para o de maior probabilidade
de contaminação, e deve ocorrer após cada procedimento necroscópico e/ou radiológico. A
limpeza do piso é feita com água e sabão (detergente), com uso de vassoura (esfregão),
pano diferenciado, através da técnica do duplo balde (2 baldes para enxágüe do pano e a
água deve ser renovada constantemente). A limpeza deve ocorrer após cada procedimento
necroscópico e/ou radiológico. O funcionário da limpeza deverá estar paramentado com
máscara, capote, luvas de procedimentos e luvas de borracha de cano longo por cima, óculos
de acrílico, gorro e botas de borracha. Os utensílios de limpeza, exclusivos para a
higienização destes ambientes, serão guardados em área própria (depósito de material de
limpeza) após a desinfecção dos mesmos. Após a limpeza dos ambientes (sala de necropsia
e radiologia) procede-se a desinfecção de pisos, paredes e janelas com hipoclorito a 1%;
desinfecção das outras superfícies com álcool a 70%, após cada atendimento necroscópico.
A limpeza e desinfecção do banheiro deverão ser realizadas com luvas e panos
diferentes. Após a limpeza, as luvas de borracha deverão ser higienizadas com hipoclorito
a 1% para serem secas e armazenadas. Descartar o gorro e a máscara na lixeira própria, e
o capote no coletor de vestimentas usadas. Desinfetar os óculos e as botas com álcool a
70%, descartar as luvas de procedimento e lavar as mãos ainda na sala. Calçar nova luva

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de borracha para transporte do material de limpeza para área própria. Evitar que líquidos se
espalhem cobrindo com material absorvente seco para em seguida colocar o desinfetante e
depois descontaminar o material absorvente. Evitar que materiais sejam carregados nas
solas de sapato ou roupas.

HIGIENIZAÇÃO DE SUPERFÍCIE
LIMPEZA MECÂNICA DO INSTRUMENTAL CIRÚRGICO.
Na limpeza de rotina, do instrumental cirúrgico, todos os instrumentos devem ser lavados
usando-se água, sabão (detergente) e escova de náilon. Utilizar uma cuba plástica para
colocar a solução de limpeza (água e sabão). A escovação do material, deve ser criteriosa
pois é esse processo mecânico que irá promover a remoção física dos detritos ou fluídos
orgânicos coagulados (carga orgânica). Essa remoção mecânica reduz em muito a
quantidade de microorganismos, preparando, adequadamente, o instrumental para a etapa
seguinte de desinfecção. Durante a escovação do material deve-se evitar a aspersão de
aerossóis. Utilizar falso tecido descartável ou tecido (deve ser lavado após o uso, e ser
exclusivo) para enxugar os artigos. A limpeza e secagem do artigo são obrigatórias antes da
desinfecção. Após o procedimento os utensílios devem ser limpos (cuba, escovas, etc.), pode
fazer a desinfecção com Hipoclorito de sódio 0,5 – 1%.

DESINFECÇÃO DO EQUIPAMENTO E MATERIAL


Para a desinfecção deve-se usar solução apropriada, ou seja, germicida para agentes
suspeitos ou conhecidos. Na desinfecção de rotina todos os instrumentos e aparelhos, após
a limpeza mecânica e enxágüe, devem ser desinfetados por imersão em glutaraldeído
aquoso a 2% por 30 minutos. Após esse período os instrumentos devem ser enxaguados em
água corrente, secos e guardados (para os procedimentos necroscópicos não há
preocupação em se esterilizar o instrumental utilizado). O importante é a limpeza mecânica
e a desinfecção química após cada procedimento, como prevenção de contágio para os
profissionais. Deve-se enxaguar a superfície de trabalho com água e, em seguida, com
solução de álcool a 70%. Deve-se evitar espirrar água.

CUIDADOS COM O CADÁVER


Após a necropsia, deve-se lavar o corpo com solução de detergente seguida da aplicação
de hipoclorito a 1%. O corpo deve ser enxaguado. Em casos de constatação de doenças
infecciosas no corpo examinado, a vigilância sanitária deve ser notificada. Contudo, não se
podem tratar corpos "não infecciosos" com menos cuidado. É importante inspecionar os
corpos que estão guardados em refrigeradores diariamente, para ver se há algum respingo
de fluido de qualquer natureza. Obviamente, os acúmulos de fluido que se formem devem
ser corretamente retirados ou aspirados, seguido de desinfecção do local com solução de

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hipoclorito a 1% por 30 minutos. Se necessário, recomenda-se colocar um aviso
externamente no saco plástico em casos nos quais há possibilidade de saída de líquidos.

CUIDADOS COM A VESTIMENTA


Todas as roupas devem ser consideradas contaminadas e desinfetadas rotineiramente.
Qualquer pano úmido, capote ou outro material deve ser colocado em sacos apropriados
antes do transporte. No IML as vestimentas reutilizáveis são higienizadas e esterilizadas.
Como o fluxo de roupa do IML pode ser agente de transmissão de infecção, as mesmas após
uso devem ser acondicionadas em sacos plásticos comuns e posteriormente acondicionadas
em saco plástico especifico padronizado, devidamente fechados antes de seu transporte.
Durante este procedimento o funcionário deverá fazer uso de EPI. Antes do encaminhamento
da rouparia deve-se elaborar um rol de controle do material encaminhado para a devida
conferencia no seu retorno conforme normatização especifica da direção do IML.

PRODUTOS PARA LIMPEZA E DESINFECÇÃO

AGENTES QUÍMICOS EM USO NO IML


Os desinfetantes químicos ou germicidas de alto nível são antimicrobianos e atuam sobre a
célula do organismo infectante. Sua ação letal decorre da alquilação de hidrogênio do grupo.
A utilização de produtos químicos para a desinfecção de materiais é indicada para artigos
sensíveis ao calor e quando não se dispõe de Autoclave à Gás de Óxido de Etileno. Esses
produtos são também utilizados para desinfetar objetos contaminados antes de serem
preparados para esterilização. O período para ocorrer a desinfecção é variado entre 10 a 30
minutos. Os artigos devem ser previamente limpos e os elementos químicos, em
concentrações adequadas. O material deve, previamente, passar pelo processo de limpeza
manualmente com escova de cerdas macias com detergente. Passar pelo enxágüe com
água. Colocar os instrumentos abertos, submersos no líquido desinfetante escolhido, pelo
tempo determinado pelo fabricante. O enxágüe deve ser feito com água e a secagem com
compressas. No caso específico do material para procedimento necroscópico não é
necessário que o enxágüe seja com água estéril.

DESINFETANTES QUÍMICOS
ÁLCOOL (ETÍLICO E ISOPROPÍLICO)
ESPECTRO DE AÇÃO: são bactericidas, tuberculocidas, fungicidas e virulicidas; mas não
são esporicidas.

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CONCENTRAÇÃO DE USO: álcool etílico a 70% em peso, 30 segundos de aplicação e
evaporação natural.

INDICAÇÃO DE USO: desinfecção de nível intermediário de artigos e superfícies com tempo


de exposição de 10 minutos na concentração indicada. Ex.: ampolas de vidros, termômetros,
estetoscópios, superfícies externas de equipamentos metálicos, macas, bancadas etc.

CUIDADOS GERAIS: Resseca a pele. Produto volátil e inflamável na forma líquida. É inativo
na presença de resíduo orgânico. Fixa matéria orgânica quando esta não foi devidamente
removida no processo de limpeza.

HIPOCLORITO DE SÓDIO
ESPECTRO DE AÇÃO: é de largo espectro e de ação rápida, tuberculocida. Não é
esporicida.
CONCENTRAÇÃO DE USO: A concentração mais comum para desinfecção é a de 1% por
um tempo de 30 minutos.

INDICAÇÃO DE USO: é apropriado para a desinfecção de superfícies e ambientes.


Apresenta ação residual.

CUIDADOS GERAIS: altamente corrosivo. Baixo nível de toxidade e irritabilidade. É


inativado por matéria orgânica. Produto de baixo custo. São fatores que levam à sua
decomposição, interferindo em suas propriedades, temperatura, concentração, presença de
luz e pH. Habitualmente a apresentação comercial do hipoclorito de sódio é a água sanitária
em solução que contém 2.5% de cloro ativo em água. Para se obter a solução de hipoclorito
de sódio a 1%, deve-se diluir 1.000 ml de água sanitária 2.5% em 1.500 ml de água, obtendo-
se, assim, 2.500 ml de solução de hipoclorito de sódio a 1%.

ALDEIDOS: GLUTACID, CIDEX, GLUTA-LABOR e OUTROS.


ESPECTRO DE AÇÃO: é bactericida, tuberculocida, fungicida, virucida e esporicida.

CONCENTRAÇÃO DE USO: Glutaraldeído a 2%

INDICAÇÃO DE USO: Indicado para materiais corrosivos. Desinfecção de alto nível do


instrumental cirúrgico utilizado na necropsia. Para efeito Bactericida, fungicida e viruscida
tempo de ação de 10 minutos, para efeito tuberculicida tempo de ação de 20 a 30 minutos e
efeito esporicida tempo de ação de 05 a 18 horas. Cuidados aos instrumentos a serem
desinfectados: 1- O recipiente que receberá a solução ativada deve possuir tampa e ser
mantido fechado todo o tempo de utilização do produto. Pode ser aberto pelo tempo

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suficiente para inserir os instrumentais. 2- Após rigorosa limpeza, enxágüe e secagem, o
instrumental deve ser completamente submerso no produto e, com todos os lumes
preenchidos pela solução de glutaraldeído, pelo tempo necessário ao tipo de processamento
desejado.

CUIDADOS GERAIS: produto instável com tempo de validade variando entre 2 semanas e
30 dias (checar o prazo especificado pelo fabricante na embalagem). Tóxico para pele e
mucosa (utilizar máscara e luva na manipulação). O enxágüe com água deve ser rigoroso e
abundante. Não é para ser usado na desinfecção ambiental. Fixa matéria orgânica quando
esta não foi devidamente removida no processo de limpeza mecânica. Normalmente, a
apresentação comercial da solução é a 2%, requerendo bicarbonato sódio (acompanha a
embalagem) para ativar solução por meio de alcalinização a pH 7,5 a 8,5 (após a ativação
do produto, o mesmo deve ser mantido na embalagem original, sem contato direto com o ar
atmosférico ou luz, deve-se especificar o tempo de validade do produto, e quem realizou a
ativação).

FORMALDEIDO (FORMOL)

ESPECTRO DE AÇÃO: uso como conservante (fixador), desinfetante e antisséptico.


Também é usado para embalsamar peças de cadáveres.

CONCENTRAÇÃO DE USO: a concentração mais comum para uso como fixador de peças
anatômicas é a solução de formaldeído a 10%.

INDICAÇÃO DE USO: a ser usado como fixador de tecido celular.

CUIDADOS GERAIS: O formol é um líquido incolor, com cheiro sufocante, miscível em água,
acetona, benzeno, clorofórmio, álcool e éter etílico. O formol é tóxico quando ingerido, inalado
ou quando entra em contato com a pele, por via intravenosa, intraperitoneal ou subcutânea.
Em concentrações de 20 ppm (partes por milhão) no ar causa rapidamente irritação nos
olhos. Sob a forma de gás é mais perigoso do que em estado de vapor. É obrigatório o uso
de luvas e máscaras durante a manipulação do produto. A máscara deve ter filtro especial
para vapores orgânicos. Deve ser estocado em temperatura ambiente, mas não inferior a 15
C°, ambiente seco e ventilado e longe de risco de fogo. Deve ser protegido da luz e
hermeticamente fechado para evitar contato com a atmosfera, os vasilhames vazios deste
material são tóxicos e retêm resíduos, devem-se observar todos os avisos e precauções com
relação ao produto. É comercializado em solução aquosa, geralmente na proporção de 37%,
para se obter a solução de formol a 10%, deve-se diluir 1.000 ml de formol a 37% em 3.700
ml de água, obtendo-se, assim, 4.700 ml de formol a 10%. Em caso de derramamento deve-
se usar papel absorvente para retirada do líquido. Deve-se retirar toda a roupa contaminada

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e colocá-la em recipiente adequado para ser higienizada. Caso tenha havido contato com a
pele, deve-se lavar a superfície com sabão e água.

PREVENÇÃO DE ACIDENTES
De acordo com a Lei 8.080/90, especialmente, em relação à saúde do trabalhador, temos no
§ 3, do Art. 6º, o seguinte conceito: § 3º - Entende-se por saúde do trabalhador, para fins
desta lei, um conjunto de atividades que se destina, através das ações de vigilância
epidemiológica e vigilância sanitária, à promoção e proteção da saúde dos trabalhadores,
assim como visa à recuperação e a reabilitação da saúde dos trabalhadores submetidos aos
riscos e agravos advindos das condições de trabalho, (...). A Vigilância em Saúde do
Trabalhador tem como objetivo detectar, conhecer, pesquisar e analisar os fatores
determinantes e condicionantes dos agravos à saúde relacionados aos processos e
ambientes de trabalho, em seus aspectos epidemiológico, tecnológico, organizacional e
social, com a finalidade de planejar, executar e avaliar intervenções sobre esses aspectos
de forma a eliminá-los ou controlá-los por meio de uma atuação planejada contínua e
sistemática.

Os servidores do Núcleo de Tanatologia do IML e dos Núcleos Regionais de Medicina Legal


deverão estar vacinados contra hepatite B e manter imunidade contra tétano e difteria. Outra
imunização como rubéola para os funcionários do sexo feminino também deve estar
regular. O reconhecimento de acidentes com produtos químicos no ambiente ou patógenos
que podem ser transmitidos por cadáveres deve criar uma mentalidade preventiva contra
lesões que presumivelmente podem ser evitadas. Atualmente os microorganismos mais
temidos são: Vírus HIV e HTLV, da hepatite C e D. Pessoas com feridas abertas ou
dermatites, ao auxiliar uma necropsia, a pele deve ser completamente coberta com
vestimenta impermeável ou outra barreira aceitável.

PRECAUÇÕES PADRÕES OU BÁSICAS


Os princípios da proteção universal que o profissional da Tanatologia do IML deve ter em
mente são:
 Uso obrigatório do Equipamento de Proteção Individual – EPI seja na manutenção do
ambiente e equipamento, ou no manuseio do cadáver;
 Conhecer e cumprir rigorosamente as normas estabelecidas oficialmente pela
Instituição;
 Ter sempre claro que qualquer cadáver pode ser portador de infecção e, por isso, o
cuidado rigoroso é para com todos, e não somente com aqueles sabidamente portadores
de doenças, passiveis de transmitir patógenos através do sangue ou líquidos orgânicos;
 Estar ciente que a falha nas precauções estabelecidas pode tornar o profissional da
Tanatologia vetor de doenças para fora do setor ou mesmo do IML.

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ACIDENTE DE TRABALHO
Acidente de trabalho é aquele que acontece no exercício do trabalho a serviço da empresa,
provocando lesão corporal ou perturbação funcional. Podendo causar morte, perda ou
redução permanente ou temporária, da capacidade para o trabalho.

CONSIDERA-SE TAMBÉM COMO ACIDENTE DE TRABALHO:


I- Aquele que acontece quando você está prestando serviços por ordem da empresa fora do
local de trabalho.
II- Aquele que acontece quando você estiver em viagem a serviço da empresa.
III- Aquele que ocorre no trajeto entre a casa e o trabalho ou do trabalho para casa.
IV- Doenças profissionais, doenças provocadas pelo tipo de trabalho. Ex.: problemas de
coluna.
V- Doença do trabalho, doenças causadas pelas condições do trabalho. Ex.: dermatoses
causadas por químicos.
Na ocorrência de um acidente com trauma e/ou lesão aguda do servidor, também, quando
constatada a ocorrência ou agravamento de doenças profissionais, através de exames, ou
sendo verificadas alterações que revelem qualquer tipo de disfunção de órgão ou sistema
biológico que possa estar relacionado com o trabalho, mesmo sem sintomatologia, deve-se
emitir a Comunicação de Acidente de Trabalho.

ACIDENTES NO LOCAL DE TRABALHO


Os treinamentos para a execução das atividades e a prática dos procedimentos e normas de
biossegurança são decisivos para a prevenção de acidentes. Porém, se houver um acidente,
o fato deve ser obrigatoriamente comunicado à chefia imediata. A notificação do acidente é
importante para se comprovar a ocorrência do mesmo e suas conseqüências, possibilitando
que todas as medidas, inclusive legais, sejam adotadas.
Quando ocorre um acidente é fundamental que seja feita uma análise de suas causas e se
adotem medidas corretivas para evitar a sua repetição.

PROCEDIMENTOS EM CASO DE ACIDENTE NO TRABALHO


EXPOSIÇÃO A MATERIAL BIOLÓGICO
Após exposição a material biológico, devem ser imediatamente iniciados cuidados locais com
a área exposta. Recomenda-se lavagem exaustiva da área com água e sabão em caso de
exposição percutânea. Também pode ser recomendado o uso de solução antisséptica
degermante (PVP - iodo ou clorexidina), embora não haja evidência de vantagem em relação
ao uso do sabão. Após exposição de mucosas, é recomendada a lavagem exaustiva com
água ou solução fisiológica.

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Procedimentos que aumentam a área exposta (cortes, injeções locais) e a utilização de
soluções irritantes, tais como éter, hipoclorito ou g lutara ide ido, é contra-indicada.

INSTRUMENTOS PERFURANTES, CORTANTES OU PERFURO-CORTANTES


Deve-se ter máximo cuidado ao manusear instrumentos perfurantes, cortantes ou pérfuro-
cortantes, a fim de minimizar o risco de acidente com os mesmos. Quando possível, o uso
de agulhas deve ser evitado. Atenção meticulosa pode prevenir, quase que totalmente,
ferimentos por agulha durante a realização de necropsias. Para se aspirar fluído, quando
possível, usar sempre seringas sem agulha, uma vez que, vários acidentes com agulhas
acontecem quando se descartam as mesmas, elas não devem ser re-encapadas. Deve-se,
de imediato, descartar as agulhas e outros instrumentos de corte já utilizados. O descarte
será sempre feito, diretamente, no recipiente apropriado. Não se deve deixá-los dispersos na
área de trabalho.

Cortes acidentais dos dedos, principalmente na parte distal do polegar, no indicador e no


dedo médio, são as lesões mais comuns que os profissionais de necropsia causam em si
mesmos. Esse tipo de ferimento costuma ocorrer durante a dissecção do cadáver ou o corte
dos tecidos durante o preparo para microscopia (anatomopatologia). A freqüência de feridas
nas mãos durante a realização de necropsias pode diminuir em decorrência de práticas muito
simples. Um par de tesouras pode, tranqüilamente, substituir o bisturi durante a maioria dos
procedimentos, como a evisceração. O uso de tesoura de ponta romba, em vez de ponta
fina, é adequado em quase todas as dissecções realizadas, pelo perito médico-legista e
auxiliar, na necropsia. Quando se disseca com faca ou tesoura em uma mão, deve-se aplicar
tensão contra-lateral nos tecidos com a outra mão, usando uma compressa sobre o tecido;
não se devem segurar os órgãos com os dedos livres ou a outra mão.

Para casos de alto risco de contaminação, luvas de liga de aço ou outro material resistente
a cortes podem ser utilizados. Luvas de plástico resistente a cortes também fornecem
proteção e, ao mesmo tempo, permitem destreza com as mãos, sendo altamente
recomendáveis. Tesouras ou costótomos são utilizados para cortar a cartilagem costal
próximo à junção costocondral quando o esterno é retirado. Recomenda-se muita atenção à
superfície de corte, com possível fragmento ósseo, para se proteger de acidente com solução
de continuidade da pele. Ao se fazer fatias grossas de órgãos, uma esponja (de aproxi-
madamente 7,5cm) deve ser utilizada para estabilizar o órgão com uma mão, enquanto se
segura a faca com a outra. Quando se sutura as incisões da parede toracoabdominal ao final
da necropsia, devem-se segurar os retalhos de pele e músculo com um fórceps denteado ou
outro instrumento, e não com as mãos.

Regras que reduzem lesões por bisturis ou outros instrumentos afiados


Tente minimizar o uso de bisturis para a dissecção dos tecidos (dar preferência a tesouras).

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Nunca use um bisturi para cortes as cegas (ter sempre visão direta do instrumento).
Prepare um número suficiente de facas ou bisturis antes da necropsia a fim de evitar a
troca da lâmina.
Remova as lâminas somente com um removedor de lâminas seguro (use sempre uma
pinça).
Permita que apenas uma pessoa use o bisturi por vez, em um local isolado.
Lembre onde deixou os bisturis e outros instrumentos afiados; não os ponha
desordenadamente na mesa de necropsia, mas sim na mesa de instrumentos (mesa
auxiliar).
Nunca manuseie as lâminas diretamente com as mãos.
Sempre anuncie os movimentos que pretende fazer com instrumentos afiados.

Todo instrumento perfurante, cortante ou pérfurocortante após seu uso deve ser descartado
em recipiente próprio e padronizado, conforme determinação da Vigilância Sanitária, e seu
preenchimento não devem ultrapassar 2/3 da capacidade do recipiente. Recipiente para
material perfurante, cortante ou pérfuro-cortante. As luvas são excelentes barreiras contra
matéria orgânica, mas frágeis para manipulação de instrumentos cortantes e perfurantes.
Bisturi, facas, agulhas, arcos de serra, costótomos, entre outros, são instrumentos que
podem facilmente destruir essa proteção. Nas incisões, é importante ter em mente o que
realmente deve ser feito antes de usar a faca de amputação ou o bisturi. / No procedimento
de reconstrução do cadáver com linha e agulha, as luvas podemser furadas ao mínimo toque
- portanto, a agulha não deve ser segurada pela ponta. Pode-se utilizar ainda uma pinça,
para auxílio no manuseio e para manter mais afastadas as mãos. Na abertura de crânio por
serra manual, serras novas podem diminuir o risco de escape do arco de serra, preservando
o cadáver e evitando acidentes. Estes são alguns exemplos de como evitar acidentes. Se o
profissional sofrer um corte, recomenda-se lavar o local com água corrente e sabão. Embora
não existam evidências de que o uso de anti-séptico ou a prática de pressionar o local para
saída de fluido/sangue da lesão reduzam o risco de transmissão de patógenos (HIV, vírus
das hepatites B e C), seu uso não está contra-indicado.Assim, a solução aquosa de polivinil
pirrolidona - iodo ou outra que contenha iodo podem ser usadas. Posteriormente, deve-se
comunicar à chefia imediata, fazer o CAT (Comunicação do Acidente de Trabalho) e buscar
a Emergência de um serviço de saúde para receber o protocolo de prevenção das doenças
infecto-contagiosas.

EXPOSIÇÃO DE MUCOSA OCULAR OU OUTRAS MUCOSAS


Ocorrendo exposição da mucosa ocular a qualquer respingo, recomenda-se não friccionar
os olhos e lavá-los imediatamente no lava-olhos, quando disponível, ou com água corrente
por 10 minutos ou até que a substância tenha sido totalmente removida.

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Se o acidentado estiver utilizando lentes de contato, estas só devem ser retiradas depois da
lavagem. Para qualquer outra mucosa, recomenda-se lavar abundantemente com água ou
solução fisiológica.

EXPOSIÇÃO CUTÂNEA
Havendo contato de pele íntegra com sangue, urina, fezes, líquido pleural, liquor ou outras
secreções, recomenda-se lavar o local atingido com água corrente em abundância e sabão,
fazendo-se uso, em seguida, de álcool a 70% para desinfecção da pele. Procedimentos que
aumentam a área exposta (cortes, injeções locais) e a utilização de soluções irritantes, tais
como éter, hipoclorito ou glutaraldeído, é contraindicada.

EXPOSIÇÃO A MATERIAL QUÍMICO


Em caso de vazamento de substâncias, a área deve ser imediatamente isolada e deve-se
eliminar qualquer fonte de ignição. Não se deve tocar no produto sem luvas adequadas, e o
material pode ser absorvido com areia ou com outro material absorvente não-combustível.
Se houver vapores, pode-se utilizar, em muitos casos, neblina de água. Nessas situações o
recomendado é o uso de EPI para o manuseio, incluindo máscara para proteção respiratória.
Em caso de escapamento de gases no laboratório, pode-se controlar o vazamento abrindo
janelas e portas para a eliminação desses gases. Pode ser útil ter a ajuda de alguém que
não esteve no local na identificação dos gases que escapam, pois após 2 minutos de
exposição o olfato humano se acostuma com o cheiro. Alguns produtos altamente tóxicos,
tal como o cianeto, não são percebidos por todas as pessoas. É bom estar atento a qualquer
sinal de odor estranho no local.
No ambiente do necrotério, as substâncias mais comuns e passíveis de causar acidentes
são:
 Álcool: atua como enérgico depressor do sistema nervoso central.
 Cianeto: a não ser em doses muito pequenas, provoca o colapso da vítima. A morte é
rápida em conseqüência de paralisia respiratória. Pode ser ingerido ou absorvido por um
ferimento ou através da pele. É usado em certos formicidas e pode ser encontrado em
conteúdos estomacais.
 Chumbo: a intoxicação aguda por chumbo pode provocar anorexia, vômitos, malestar,
convulsões e lesão permanente no cérebro. Os casos crônicos evidenciam-se por perda
de peso, fraqueza e anemia.
 Álcool metílico: tem um efeito especíifico de degeneração do nervo óptico que pode
provocar lesão permanente e cegueira, mesmo quando a quantidade assimilada tiver
sido pequena.
 Piretrina: encontrada em certos inseticidas. Provoca hiperexcitabilidade,
descoordenação e paralisia dos músculos e das ações respiratórias.
 Nitrato de prata: o contato com a pele ou com as mucosas pode ser cáustico e irritante.
A ingestão pode causar gastrenterite aguda e até a morte.

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Quando se pode determinar o tipo de veneno que foi assimilado, não se deve provocar a
expulsão dessas matérias por vômito: benzeno, hipoclorito de sódio (água sanitária),
carbonato de sódio, creosoto (creolina, fenóis), querosene, desinfetantes fenólicos, soda
(hidróxido de sódio), detergentes, soda para lavagem (barrilha) e removedores de tintas.
Nesses casos, uma nova passagem faria com que o veneno
Corrosivo retornasse mais uma vez através dos delicados tecidos do aparelho digestivo. Para
diluir o material, recomenda-se a administração de líquidos, tais como água ou leite, no
volume de até um litro. É imprescindível o atendimento por profissional competente ou
hospitalização nos casos de intoxicação.

ASPERSÃO DE LÍQUIDOS E AEROSSÓIS (SPRAY)


As pessoas que realizam e assistem à necropsia correm maiores risco de contrair
tuberculose via aerossóis que se soltam durante o procedimento. Outras infecções, como
raiva, praga, legionelose, meningite, riquetsiose, paracoccidiomicose e antrax, podem ser
adquiridas a partir de aerossóis produzidos em necropsias. Portanto, fica claro que é preciso
tomar máximo cuidado para evitar a contaminação por aerossóis e/ou espersão de fluídos.
Para a proteção contra doenças transmissíveis por aspersão de fluídos como, por exemplo,
a tuberculose, usa-se protetores faciais sobre a máscara. A aspersão de partículas de
material advindo dos tecidos moles e da poeira do osso durante a remoção de corpos
vertebrais ou do crânio pode ser reduzida com a colocação de uma capa de plástico. A
superfície óssea deve ser umedecida antes da serragem, a fim de diminuir a dispersão da
poeira do osso. Para limitar o aerossol, devem-se usar recipientes com tampas bem
fechadas, ao invés de recipientes com tampões de borracha ou rolhas, por exemplo. Ao abrir
esse tipo de recipiente, deve-se cobrir o topo com um saco plástico para contenção de poeira
ou derramamentos. Deve-se também evitar preencher demais um tubo de vácuo contendo
amostra de sangue, através de pressão na seringa. A superfície do órgão deve ser irrigada
e, posteriormente, realiza-se a incisão, podendo uma amostra ser coletada.

RADIOATIVIDADE
Em casos raríssimos o perito médico-legal pode examinar o corpo de um paciente que
morreu logo após receber substâncias radioativas para diagnóstico ou terapia, ou após
contaminação radioativa acidental. Nessas circunstâncias, o corpo pode conter nível de
radiação que resulte em risco para a equipe de necropsia. O manuseio do cadáver requer
cuidado especial e deve ser feito com ajuda de pessoal treinado em segurança radioativa. Na
maioria dos casos, os radioisótopos usados para diagnóstico são dados em pequenas doses
(menos de 1mCi) ou tem meia-vida curta. Pacientes que morrem após exames de medicina
nuclear não constituem ameaça radioativa. Os pacientes que morrem após terem recebido
doses terapêuticas de radioisótopos ou que possuem fontes radioativas implantadas podem
necessitar de manuseio especial, dependendo do nível de radioatividade restante.

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A Comissão Americana de Energia Atômica recomenda que os pacientes que receberam
radioisótopos continuem no hospital até que o nível de radioatividade caia para menos de
30mCi. Um formulário identificando o isótopo, a quantidade dada e o tempo de administração
devem ser anexados ao atestado de óbito, à solicitação da necropsia. Se uma fonte
radioativa implantada não puder ser removida do paciente antes da necropsia, se houver
fluido radioativo depois da administração do isótopo ou se altos níveis de radioatividade
puderem estar presentes em um órgão específico, pessoal especializado deve ser
consultado para ajudar na remoção adequada e no descarte da fonte radioativa. A
quantidade de atividade que permanece no corpo deve ser estimada em relação à meia-vida
do isótopo. Se a quantidade restante for menor que 5mCi, não haverá necessidade de
maiores precauções além do uso de luvas, exceto em casos nos quais houver terapia com
iodo-131 ou outros radioisótopos insolúveis que impregnam tecidos específicos (como, por
exemplo, a tireóide) ou cavidades corporais. Quando o componente residual excede 5mCi,
uma pesquisa do corpo inteiro antes de abri-lo ajuda a estabelecer o tempo máximo de
exposição. Pode ser necessária mais de uma equipe de profissionais de necropsia, cada um
realizando uma parte do procedimento, para evitar a exposição prolongada. A exposição
deve também ser monitorada. O perito médico-legista deve drenar cuidadosamente os fluidos
radioativos e guardá-los para análise. Por exemplo, em casos de terapia com iodo-131, o
sangue, a urina e a tireóide são radioativos. Os fluidos altamente radioativos devem ser guar-
dados atrás de escudos de proteção apropriados antes que possam ser removidos da sala
de autópsia. Após a abertura do corpo, deve-se realizar nova pesquisa para estimar o nível
de betadose para P32 ou outro radionucleotídeo betaemissor. Em casos de administração de
iodo-131, a glândula tireóide pode emitir gamadose suficiente para que não seja tocada pela
mão diretamente, mas sim retirada com auxílio de algum instrumento de cabo longo.

CARDIOVERSOR - DESFIBRILADOR IMPLANTÁVEL


Um cardioversor-desfibrilador implantável (CDI), também conhecido como CDI automático,
consiste em um gerador de pulso, um ou dois eletrodos sensores e um conjunto de anodos
e catodos para contrachoque. Como em marca-passos, que se assemelham aos CDI, os
geradores costumam ser colocados na região subcutânea da parede torácica anterior
esquerda. Dependendo do modelo e da marca, os eletrodos chegam ao coração através de
uma rota transtorácica ou transvenosa. Há pequeno risco de choque elétrico quando o cabo
de um CDI é cortado ou quebrado, resultando em descarga de 25 a 40J. Embora choques
dessa magnitude não levem à morte, os fabricantes recomendam que os CDI sejam
desativados antes da manipulação e que luvas de látex de alta qualidade sejam usadas.
Normalmente o perito médico-legista nem sempre tem a informação da presença deste
dispositivo. Caso o CDI seja encontrado durante a necropsia, o perito deve ter certeza de
que se trata de um CDI e não de um marca-passo antes de prosseguir com o procedimento.
Se o CDI está presente, o perito médico-legista deve interromper o exame pós-morte e o

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aparelho deve ser desativado de forma adequada. Como eles podem explodir se incinerados,
nunca devem ser descartados sem a devida atenção. A maioria dos fabricantes solicita a
devolução do aparelho, e então um representante do fabricante auxilia em sua remoção.

CIANURETO
A exposição aos vapores de cianureto durante a necropsia é associada a sintomas clínicos
e concentrações tóxicas de cianureto na equipe que está realizando o procedimento. As
necropsias de vítimas de envenenamento por cianureto devem ser realizadas em locais com
pressão de ar negativa. Embora o cianureto vaporize de outros tecidos, conteúdos gástricos
com sais de cianureto ingeridos representam o maior risco nesses casos porque o ácido
gástrico converte os sais em gases voláteis. Portanto, o examinador deve abrir o estômago
do cadáver somente em locais com ventilação apropriada, a fim de reduzir o risco de
exposição ao gás. Da mesma forma, os funcionários do laboratório de toxicologia que lidarem
com amostras contendo cianureto deve usar luvas e máscaras para manipulação, somente
em locais com ventilação apropriada.
FRAGMENTOS DE AGULHA
Embora não encontrados exclusivamente pelos médicos legistas, fragmentos de agulha
constituem ameaça potencial aos mesmos, em especial, nos casos em que realizam
necropsia em periciados que foram potenciais usuários de drogas. Corpos estranhos de
agulhas embolizados foram encontrados em tecidos moles do pescoço e até mesmo em
órgãos viscerais. Recomenda-se manipulação reduzida do tecido durante o exame e cuidado
em autópsias de pacientes portadores de HIV, com as recomendações padrão para proteção
contra instrumentos afiados.

FOTOGRAFIA NA SALA DE NECROPSIA


A fotografia de amostras frescas deve ser feita com cuidado, em especial quando se sabe
que uma infecção está presente. A câmera deve ser manuseada com luvas limpas. Após a
realização da fotografia, se necessário, câmeras, lentes e outros equipamentos de fotografia
podem ser desinfetados com várias substâncias germicidas sem comprometer sua
funcionalidade.

RETIRADA DE PROJÉTEIS DE ARMA DE FOGO (PAF)


Os PAF podem se fragmentar, impactar ou ter as bordas afiadas ao penetrar em seu alvo.
Em qualquer caso, a deformação pode produzir bordas pontiagudas e representar um risco
para quem a remove ou manuseia. Para necropsia de vítimas de armas de fogo, recomenda-
se que radiografias laterais e anteroposteriores sejam realizadas a fim de traçar a localização
de projéteis, fragmentos ou bordas irregulares. Os projéteis só podem ser retirados por
pessoal equipado com luvas duplas de forte revestimento. É também de suma importância
prevenir a deformação do projétil durante a sua retirada, uma vez que o mesmo será
submetido a exame de balística, pode-se adaptar uma ferramenta para extrair projétil, onde

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a mesma é feita a partir de uma Kelly, encapado com 2 cm de cateter de borracha nas pinças.
Após coleta de qualquer prova de entrada do projétil, o mesmo deve ser gentilmente lavado
para retirada de sangue ou fluidos corporais a fim de diminuir o risco de contaminação. Por
fim, o projétil ou seus fragmentos devem ser colocados em sacos impermeáveis, prevenindo-
se qualquer dano ao mesmo pelo manuseio. O plástico deve ter então identificação adequada
e selo de ameaça biológica.

CUIDADOS COM SUBSTÂNCIAS QUÍMICAS


Em casos de contato com substâncias químicas, deve-se proceder às seguintes medidas
iniciais:

INALAÇÃO: Vapores de derramamento são muito irritantes para membranas mucosas,


remover a pessoa para local com ar fresco de imediato. Em caso de dificuldade respiratória
encaminhar a vítima para atendimento médico de urgência.

CONTATO COM A PELE: Irritação avermelhando a pele. Lesão na pele: remover as roupas
contaminadas. Lavar as partes afetadas com grande quantidade de água corrente.

CONTATO COM OS OLHOS: Irritação severa: lavar copiosamente com água, no mínimo
por 15 minutos. A vítima deverá passar por uma consulta com oftalmologista.

INGESTÃO: Causam irritação para membranas da boca, garganta dores no estômago é


possível ulceração. Não tente provocar vômito. A vítima deve ser encaminhada para
atendimento médico. Em casos de perfuração, ruptura das luvas, propiciando o contato da
pele do profissional, com sangue e/ou fluídos do cadáver, ou nos casos de cortes e feridas
por picadas, a mesma deve ser lavada imediatamente com água e sabão, completando-se
com álcool a 70% líquido ou gel. Neste tipo de acidente a direção do IML deve ser informada
e providenciar, além da comunicação do acidente, o encaminhamento da vítima para o
Hospital Dia da Rede Municipal (Coronel Antonino) para os procedimentos pertinentes. Deve-
se coletar material e/ou sangue da fonte suspeita (cadáver) para triagem laboratorial.

GERENCIAMENTO DA COLETA E TRANSPORTE DE RESÍDUOS DO IML


Este capítulo tem por objetivo apresentar informações técnicas sobre o manuseio dos
resíduos sólidos gerados no IML de modo a atender aos requisitos ambientais e de saúde
pública. Os resíduos gerados no IML, apesar de representarem uma pequena parcela do
total dos resíduos gerados em Campo Grande, é motivo de preocupação se não forem
manuseados adequadamente na FONTE GERADORA, pois podem oferecer riscos aos seus
funcionários e à população geral, contribuindo, também, para a degradação do meio
ambiente. Ressalta-se que o manuseio inadequado desses resíduos, sem observar os
aspectos higiênicos básicos, possibilita que os mesmos desencadeiem processos

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infecciosos, transmitindo agentes etiológicos causador de doença, da fonte primária de
infecção-reservatório a um novo hospedeiro. Portanto, é fundamental buscarmos métodos
adequados de gerenciamento desses resíduos, objetivando a redução dos riscos de
contagio, causados pelo manuseio dos mesmos. Esta redução está diretamente associada
com a geração, segregação e o acondicionamento adequado desses resíduos.

RESÍDUOS SÓLIDOS NO IMOL


Os resíduos sólidos do setor de tanatologia do IML podem conter a presença de
microorganismos patogênicos do tipo:
 Bactérias (bacilos gram-negativos entéricos, coliformes, salmonela thyphi, shiguela sp,
bacilos gram-negativos, pseudomonas sp, cocos gram-positivos, estreptococos, e
staphilococus aureus);
 Fungos (cândida albicans);
 Vírus (pólio tipo 1, vírus da hepatite A e B, influenza, vacina, e vírus entéricos).
 Apesar de alguns autores afirmarem que a maioria dos patógenos não sobrevive nos
resíduos, em função das altas temperaturas geradas durante o processo de
fermentação, sabe-se que em alguns microorganismos o tempo médio de sobrevivência,
em dias, varia muito, a exemplo do apresentado no Quadro a seguir, segundo
SuberKeropp, K.F. e Klug, M. J., em Microbial Ecology.

TEMPO MÉDIO DE SOBREVIVÊNCIA DOS MICROORGANISMOS NOS RSS

MICROORGANISMO TEMPO DE SOBREVIVÊNCIA


(Em dias)
Salmonela thyphi 29 – 70
Entamoeba histolyistica 8 – 12
Ascaris lumbricóides 2.000 – 2.500
Leptospira interagens 15 – 43
Pollo Vírus - Tipo 1 20 – 170
Mycobacterium Tuberculosis 150 – 180
Lavras de vermes 25 - 40

DEFINIÇÃO
Resíduos Sólidos são todos os resíduos sólidos produzidos em qualquer tipo de
estabelecimento, relacionado à saúde, de grande, médio e pequeno porte, dentre eles:
hospitais, clínicas médicas, postos de saúde, clínicas odontológicas, clínicas veterinárias,
instituições de ensino e pesquisa, farmácias, laboratórios; além de necrotérios, cemitérios,
portos, aeroportos e terminais rodoviários que possuírem potencial de risco em função da
presença de materiais biológicos, produtos químicos perigosos, objetos perfurocortantes e

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rejeitos radioativos que necessitam de cuidados especiais de acondicionamento, transporte,
armazenamento, coleta interna e externa, tratamento e destinação final – conforme ABNT.

CLASSIFICAÇÃO
A NBR 12.808 da ABNT classifica os resíduos de serviços de saúde quanto aos riscos
potenciais ao meio ambiente e à saúde pública, visando o seu gerenciamento adequado.
Eles estão divididos em três classes:

CLASSE A – RESÍDUO INFECTANTE


Todo resíduo que, por sua característica de virulência, infectividade e concentração de
patogenias, apresentam risco adicional à saúde pública. Biológico (A1): cultura, inoculo,
mistura de microorganismos e meio de cultura inoculado, proveniente de laboratório clínico
ou de pesquisa; vacina vencida ou inutilizada, filtro de gases aspirados de áreas
contaminadas por agentes infectantes e qualquer resíduo contaminado por estes
materiais. Sangue e Hemoderivados (A2): bolsa de sangue após transfusão com prazo de
validade vencido ou sorologia positiva, amostra de sangue para analise, soro, plasma e
outros subprodutos. Cirúrgico, Anatomopatológico e Exsudado (A3): tecido, órgão, feto, peça
anatômica, sangue e outros orgânicos resultantes de cirurgia, necropsia e resíduos
contaminados por estes materiais. Perfurante ou Cortante (A4): agulha, ampola, pipeta,
lâmina de bisturi e vidro. Animal Contaminado (A5): carcaça ou parte de animal inoculado,
exposto aos microorganismos patogênicos ou portador de doença infecto-contagiosa, bem
como resíduos que tenham estado em contato com este. Assistência ao Paciente (A6):
secreções, excreções e demais líquidos orgânicos procedentes de pacientes, bem como os
resíduos contaminados por estes materiais, inclusive restos de refeições.

CLASSE B – RESÍDUO ESPECIAL


Todo resíduo cujo potencial de risco, associado a sua natureza físico-química, requer
cuidados especiais de manuseio e tratamento. Rejeito Radioativo (B1): material radioativo ou
contaminado, com radionucleídeos proveniente de laboratório de análises clínicas, serviços
de medicina nuclear e radioterapia, que contenha radionuclídeos em quantidades superiores
aos limites de isenção especificados na Norma CNEN - 6.05 – Gerência de Rejeitos
Radioativos em Instalações Radioativas, e cuja reutilização seja imprópria ou não prevista.

RESÍDUO FARMACÊUTICO (B2): medicamento vencido, contaminado, interditado ou não


utilizado.
Resíduo Químico Perigoso (B3): resíduo tóxico, corrosivo, inflamável, explosivo, reativo,
genotóxico ou mutagênico conforme NBR 10.004.

CLASSE C – COMUM

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Todo resíduo que não se enquadra nos tipos A e B e que, por sua semelhança com os
resíduos domésticos, não oferecem risco adicional à saúde pública. Exemplo: resíduo da
atividade administrativa, dos serviços de varrição e limpeza de jardins, e restos de alimentos
que não entraram em contato com pacientes.

GERAÇÃO E SEGREGAÇÃO DOS RESÍDUOS SÓLIDOS NA FONTE GERADORA


A segregação bem feita na fonte geradora é de extrema importância para possibilitar a coleta
e o tratamento diferenciados dos resíduos sólidos, bem como todos os procedimentos
decorrentes até a redução, reutilização e/ou reciclagem de resíduos. Recomenda-se que,
todo resíduo, no momento de sua geração, seja acondicionado, adequadamente próximo ao
local onde foi gerado, de acordo com o estabelecido na NBR 12.809. Todas as unidades
geradoras de resíduos sólidos têm de dispor de recipiente em quantidade suficiente para
cada tipo de resíduo gerado. Ressalta-se que todo funcionário dos serviços de saúde deve
ser capacitado para segregar de maneira adequada os resíduos, fazendo a sua identificação
e classificação como estabelece a norma. É imprescindível que o funcionário faça uso de
equipamentos de proteção individual – EPI durante o manuseio dos resíduos sólidos.

EXIGÊNCIAS DA NBR 12.809 RELATIVA À GERAÇÃO E SEGREGAÇÃO DOS


RESÍDUOS SÓLIDOS, DE ACORDO COM O TIPO DE RESÍDUO GERADO
CLASSE A – INFECTANTE
Todo resíduo que por sua característica de virulência, infectividade e concentração de
patogenias apresentam risco adicional à saúde pública. Os resíduos classificados como
infectantes deverão ser acondicionados em saco plástico leitoso, de acordo com a NBR
9.190; sendo que os perfurantes ou cortantes (A4), em recipiente rígido; os biológicos (A1) e
sangue/hemoderivados (A2) têm de ser submetidos à esterilização na unidade geradora; e
os cirúrgicos, anatomopatológicos e exsudados (A3) devem ser acondicionados,
separadamente, em sacos plásticos, de acordo com a NBR 9.190. Todos os resíduos
líquidos infectantes terão de ser submetidos a tratamento na própria unidade antes de serem
lançados na rede pública de esgotamento sanitário, de acordo com as exigências do órgão
de controle ambiental competente.

CLASSE B – ESPECIAL
Todo resíduo cujo potencial de risco, associado a sua natureza físico-química, requeira
cuidados especiais de manuseio e tratamento. Os resíduos farmacêuticos (B2) e químicos
perigosos (B3) têm de ser dispostos em recipientes compatíveis com as suas características
físico-químicas, de maneira a não sofrem alterações que comprometam a segurança durante
o armazenamento e transporte. Os recipientes deverão ser identificados de maneira visível
com o nome da substância ou resíduo, sua concentração e principais características. A
Norma recomenda, também, que o resíduo tipo B3 seja reciclado sempre que possível, ou
que o processo gerador seja substituído por outro que produza resíduo menos perigoso ou

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reciclável. Os resíduos classificados como rejeitos radioativos (B1) deverão ser
acondicionados de acordo com a Resolução da Comissão Nacional de Energia Nuclear –
CNEN – NE- 6.05.

CLASSE C – COMUM
Todo resíduo que não se enquadra nos tipos A e B e que por sua semelhança com os
resíduos domésticos, não oferecem risco adicional à saúde pública. Esses resíduos deverão
ser acondicionados de acordo com as recomendações da NBR 9.190.

MANUSEIO E ACONDICIONAMENTO
MANUSEIO
Para qualquer tipo de manuseio dos resíduos de serviços de saúde, o funcionário deverá
usar equipamentos de proteção individual (EPI): sendo que para os resíduos infectantes
deve-se usar:
GORRO (para proteger os cabelos, de cor branca);

ÓCULOS (lente panorâmica, incolor, de plástico resistente, com armação em plástico


flexível, proteção lateral e válvulas para ventilação);

MÁSCARA (para impedir a inalação de partículas e aerossóis, do tipo semifacial);

UNIFORME (calça comprida e camisa manga longa de material resistente e cor clara);

LUVAS (de material impermeável, resistente, tipo PVC, antiderrapante e de cano longo);

BOTAS (de material impermeável, resistente, tipo PVC, de solado antiderrapante, cor clara,
e de cano longo); Avental (PVC, impermeável e de comprimento médio). No manuseio dos
resíduos de Classe C – comum - pode ser dispensado o uso de gorro, de óculos e de
máscara; e para os de Classe B – especial - deve-se usar EPI de acordo com as Normas de
Segurança.

ACONDICIONAMENTO
Segundo a NBR 12.809, após o acondicionamento nos recipientes os resíduos devem ser
fechados de forma a não haver vazamentos; sendo que os recipientes (saco plástico) devem
ser fechados quando 2/3 de sua capacidade estiverem preenchidos. Todo o excesso de ar
deve ser retirado, e o saco plástico tem de ser bem fechado, torcendo e amarrando sua
abertura com arame, barbante ou nó. Após o fechamento o recipiente deverá ser
imediatamente retirado da unidade geradora e levado até a sala de resíduo, por meio da
coleta interna.

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ARMAZENAMENTO-ABRIGO DE RESÍDUOS
Os resíduos devem ser armazenados de acordo com as normas de segregação e de forma
ordenada. Não se admite a permanência de resíduos que não estejam devidamente
acondicionados de acordo com o estabelecido em norma. Os recipientes contendo resíduos
(lacrados) deverão ser armazenados no abrigo, mesmo quando dispostos em contêineres. O
abrigo de resíduo não deve ser utilizado para a guarda de materiais, equipamentos ou
qualquer outro objeto. Para isto deve haver local próprio, anexo àquele. O acesso ao abrigo
deverá ser restrito aos funcionários do IMOL e aos do serviço de coleta externa (serviço
municipal), que deverão estar devidamente fardados e utilizando os EPI.

De acordo com a NBR 12.809, o abrigo de resíduo deverá ser construído obedecendo as
seguintes especificações:
 Construído em alvenaria, fechado, dotado apenas de aberturas laterais;
 Possuir o piso e paredes revestidos internamente com material liso, resistente, lavável,
impermeável e de cor branca;
 Possuir porta com abertura para fora, com proteção inferior dificultando o acesso de
vetores;
 Possuir ponto de água, ralo sifonado, ponto de esgoto sanitário e iluminação artificial
interna e externa;
 Ter localização que permita facilidade de acesso e operação das coletas externas;
 Possuir símbolo de identificação, em local de fácil visualização, segundo NBR 7.500;
 Ser dimensionado para comportar a quantidade de resíduos equivalente à geração de
três dias;
 Quando houver duas coletas diferenciadas, resíduos infectantes e comuns, os abrigos
deverão ser individualizados com acessos próprios.
 Quando o estabelecimento gerador não exceder a produção semanal de 700l e a
produção diária não exceder 150l, é considerado de pequeno gerador, e pode, portanto,
optar pela instalação de um abrigo reduzido.
 O abrigo deverá ser higienizado após a coleta externa ou sempre que ocorrer
derramamento; e o efluente da lavagem deverá receber tratamento adequado de acordo
com o exigido pelo órgão estadual de controle ambiental.

CONSIDERAÇÕES FINAIS
Um manual de biossegurança em necropsia médico-legal, tem por objetivo o mesmo que
qualquer programa de biossegurança. Ou seja, propiciar à equipe da necropsia e visitantes
o ambiente mais livre possível de ameaças biológicas. Para se atingir esse objetivo, é
necessário um programa de orientação contínua de educação em segurança, mais o
comprometimento dos profissionais do procedimento necroscópico em aderir a métodos
seguros da prática de necropsias médico-legais. Esta é a segunda edição do manual de
biossegurança do IMOL, que foi revisado e adequado às necessidades atuais. É importante

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ficar bem explicito que todo profissional que trabalha na perícia médico-legal, manipulando
substâncias químicas de risco, material biológico, ou que manipule material perfuro-cortante,
entre outros, deve:
I- Estar atento e não fazer uso de drogas que afetem o raciocínio, autocontrole e
comportamento;
II - Ler a recomendação da biossegurança de saúde e procedimentos operacionais padrão
do setor;
III - Agir com tranquilidade e sem pressa;
IV - Prevenir-se de eventuais acidentes utilizando, de acordo a sua necessidade, os
equipamentos de proteção individual (jaleco, avental, óculos, protetor facial, cabelos presos,
luvas, botas, máscara, avental de chumbo).
Assim resumindo, a biossegurança é no seu conceito amplo, “o conjunto de conhecimentos
direcionados para ações de prevenção, minimização ou eliminação de riscos inerentes às
atividades de pesquisa, produção, ensino, desenvolvimento tecnológico e prestação de
serviços, as quais possam comprometer a saúde do homem, dos animais, das plantas e do
meio ambiente ou a qualidade dos trabalhos desenvolvidos”.

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