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Trabalho preparado para o I Congresso de Estudos de Interseccionalidades das Ciências Soci-

ais da USP

17, 18 e 19 de junho no Prédio de Ciências Sociais e Filosofia da Faculdade de Filosofia, Le-


tras e Ciências Humanas (FFLCH-USP)

RAÇA, CLASSE, GÊNERO E SIGNOS DO ZODÍACO

Guilherme Lavinas Jardim Falleiros


Centro de Estudos Ameríndios (USP)
Casa da Lagartixa Preta “Malagueña Salerosa”

(Versão posterior e revisada)


Resumo
Movimentos políticos atuais têm levantado questões sobre a diversidade problemática das
formas de dominação e opressão, bem como sobre as lutas contra elas, este é o caso do femi-
nismo negro com sua ênfase na importância da interseccionalidade. Essa demanda também
alcançou o anarquismo, especialmente no combate às desigualdades dentro da própria organi-
zação do movimento. Esse combate pode aumentar a intensidade dos conflitos internos, quan-
do elementos como raça, classe, gênero, orientação sexual e outros marcadores de diferença
são colocados em causa. Em situações de apoio mútuo entre as diferentes perspectivas inter-
seccionais, então, mecanismos de atenuação do conflito podem surgir: este foi o (“estranho”)
caso da Astrologia, aplicada informalmente por indomáveis anarquistas locais para dirimir as
tensões da força coletiva, uma pequena revolução astro-política.
Palavras-chave: anarquismo, interseccionalidade, astrologia, cosmopolítica, organização.

*1

Ao reconhecer atravessamentos transversais de desigualdade hierárquica, o coletivo anarquis-


ta Ativismo ABC, do qual participo, tem revisto suas agendas e práticas organizacionais, no
processo de tornar-se mais inclusivo para não-“homens brancos cis-hétero de classe média”:
mulheres e homens negros cisgêneros, pessoas trans, pessoas de classe baixa, moradoras da
periferia etc.. Essas mudanças coincidiram com um processo de crise interna envolvendo dis-
putas consideradas por algumas pessoas como ligadas a racismo e sexismo - enquanto vistas
por outras pessoas como motivadas pela falta de interesse e dedicação daquelas, tidas como
indispostas a arcar com uma divisão de tarefas formalmente “igualitária”, tarefas relacionadas
à gestão do nosso centro social onde pagamos aluguel: a Casa da Lagartixa Preta “Mala-
gueña Salerosa” (Santo André, SP). O coletivo sobreviveu à crise inicial após uma debandada
de membros, graças ao grande envolvimento de pessoas mais jovens que frequentavam o lo-
cal, altamente afetadas por opressões de raça, classe e gênero. A partir deste momento, a vari-
ação na distribuição e participação de tarefas passou a ser aceita como resultado de limitações

1 Este texto é uma versão em português de artigo publicado em inglês (FALLEIROS, 2018), com
acréscimos, dedicado originalmente à memória do astrônomo e astrólogo Ademar Eugênio de Mello
(1947-2005).
pessoais influenciadas (também) por desigualdades interseccionais. Mesmo assim, tais desi-
gualdades e atitudes de racismo, sexismo etc. (ocasionalmente não percebidas por quem as
perpetua), não desapareceram simplesmente, e conflitos podem permanecer latentes. A partir
daquele momento, quando novos membros do coletivo reforçaram sua cooperação e ajuda
mútua conforme sua diversidade de desejos passou a ser valorizada, o que favoreceu a parti-
cipação de pessoas marcadas por necessidades diversas, notáveis referências aos signos zodi-
acais das pessoas começaram a ser feitas. Isto pareceu ser um modo de aliviar a tensão ao en-
tender os comportamentos alheios através de uma perspectiva diferente de suas condições de
raça, classe, gênero etc.. Assim a Astrologia parece ter sido usada como um “contrapoder es-
pectral” (GRAEBER, 2004), cujas forças não estão voltadas simplesmente para o combate de
contradições internas, senão um balanceamento entre as diferentes perspectivas, de forma a
atenuar o conflito deslocando seus eixos: de uma classificação hierarquizante das diferenças -
próxima de uma perspectiva concêntrica (DUMONT, 1966)2 - em direção a um circuito zodi-
acal de perspectivas periféricas, onde nenhuma delas representa uma visão global. Este é o
argumento central aqui apresentado.

Antecedentes interseccionais e astrológicos no Brasil

Paralela ou transversalmente, no Brasil, concomitante ao forte apelo à raça, classe, gênero e


outros marcadores de desigualdade no debate político popular, parece ter havido também um
crescente interesse pela Astrologia por pessoas no espectro político de esquerda. Pessoas ain-
da falam sobre seus signos solares como faziam quando aprendi sobre isso lá pela década de
oitenta - época em que não costumava ser um tópico muito “viril” de conversa, delegado às
“revistas femininas” e mídias semelhantes - todavia, há hoje uma quantidade crescente de

2 Não se trata aqui de negar a afirmação de Audre Lorde de que “não existe hierarquia de
opressão” (2016) - no sentido de definir um tipo de opressão pior do que o outro - mas sim de conce-
ber um arranjo variadamente desigual e entrecruzado que, contudo, é condicionado pela perspectiva
central e englobante do patriarcado branco. Além disso, não se deve também ignorar alguns usos equi-
vocados da noção de lugar de fala - como lembrou Gleicy Mailly da Silva durante os debates da sessão
5 do grupo de trabalho sobre Epistemologias do presente congresso - presentes na pragmática política,
que podem passar pela tentativa de reclamar maior empoderamento de uma perspectiva em relação a
outras.
pessoas (incluindo homens heterossexuais cisgêneros) sabendo mais detalhes do que nunca
sobre seus mapas astrais, ascendentes, signos lunares e planetários. Muita gente de esquerda
têm falado sobre isso cotidianamente ou na Internet (especialmente nas “redes sociais”) quase
tanto quanto têm falado sobre opressões de gênero e racismo nos últimos anos.
Como uma etiqueta para relações mais estreitas e informais, naqueles momentos nos quais as
pessoas estão “se conhecendo melhor” - ao menos da parte de quem não refuta a Astrologia
completamente (no geral, pessoas do signo solar de Áries…) - não só se perguntam recipro-
camente sobre seus signos solares (como de costume há um par de décadas atrás), mas tam-
bém trocam-se informações sobre ascendentes e signos lunares, num ar de mistura entre seri-
edade e brincadeira. Esta mistura de seriedade e brincadeira é o que caracteriza o jogo (pre-
sente em diversos aspectos da “Cultura”) segundo o Homo ludens de Johan Huizinga.
Por outro lado, as questões de raça, classe e gênero não se encaixam nessa dualidade “serie-
dade”/“brincadeira”: há uma ausência de brincadeira recíproca nesse tipo de disputa, o que
evoca a visão de Huizinga sobre o tipo de conflito que acontece “fora da esfera dos iguais,
contra grupos não reconhecidos como humanos” (HUIZINGA, 1949, p. 90). Isso quer dizer
que pessoas que sofrem opressões de raça, classe e gênero são submetidas a desigualdades
que privilegiam o patriarcado branco como protótipo da humanidade através de muita violên-
cia, o que toma a a forma do genocídio contra pessoas negras, LGBTQI e outras (ver CAR-
NEIRO, 2003; BAROQUE; EANELLI, 2011). De um lado, enquanto signos astrológicos são
algo que as pessoas voluntariamente revelam umas às outras em momentos de partilha, do
outro, marcadores de desigualdade como raça e gênero são estigmas que, na maioria das ve-
zes, não podem ser ocultados. Ambas são formas de classificação, mas somente a posterior
cria estratificações, naquele sentido hierárquico pelo qual as classes sociais são reconhecidas -
estratificações sobrepostas, que não simplesmente fazem multiplicar o grau das opressões mas
também constituem diferentes perspectivas sobre a opressão (BAIRROS, 1995).
Sobre hierarquia, vale notar que a Astrologia Cristã a considerou como constituinte da relação
entre seu Deus e as estrelas (WILLIS; CURRY, 2004) e, na Idade Média, alguns sugeriam hie-
rarquias entre os elementos do zodíaco, como na associação entre o signo de Leão e a realeza
(ALMEIDA, 2015). Isso posto, hoje o zodíaco não parece mais ser tratado de modo hierár-
quico, tendo seu caráter cíclico favorecido. Cada signo tem suas forças e falhas. A noção de
sinastria (a comparação entre diferentes horóscopos para descobrir como se relacionam) signi-
fica que qualidades melhores ou piores não são absolutas mas relativas à relação específica de
um signo com outro, conforme suas posições no circuito zodiacal.
A Astrologia tem sido bastante difundida na cultura pop contemporânea (considere-se a fama
internacional dos desenhos animados dos Cavaleiros do Zodíaco, por exemplo), fazendo parte
de um movimento geral de diálogo com um cosmos reanimado (WILLIS; CURRY, 2004).
Além disso, a forma como a Astrologia é tratada no Brasil pode encontrar pistas em como foi
tratada pela tradição colonizadora portuguesa: não apenas sob a influência árabe na Península
Ibérica (ALMEIDA, 2015), mas também da doutrina molinista, durante a Inquisição portu-
guesa, baseada nas visões positivas de Luis de Molina sobre a “graça” dos povos indígenas
brasileiros: esta graça foi tomada como exemplo de que a influência dos céus nas ações hu-
manas não se opõe ao livre arbítrio, mas se faz em harmonia com ele (PASTORE, 2014). De
todo modo, não lidarei com os usos gerais da Astrologia no Brasil mas apenas com um uso
particular (com algumas referências a acontecimentos fora deste círculo - o que pode sugerir
uma prática mais ampla): como um pequeno coletivo de pessoas no espectro esquerdista/
anarquista passou a aplicar conhecimentos populares sobre Astrologia no processo de concep-
ção e transformação de sua vida coletiva. Enfim, esta hipótese se aproxima de uma crítica
anti-autoritária à secularização da política.

De revolucionibus orbium celestial publicae

A Astrologia foi usada na corte européia, prevendo a sorte dos príncipes no jogo do poder. In-
clusive Maquiavel pôde supor a influência astrológica nos humores que influenciam no con-
flito entre os grandes (que desejam dominar) e o povo (que só quer ser deixado em paz e nem
sempre obedece) (PAREL 1992). Por outro lado, Copérnico - autor do clássico De revolutio-
nibus orbium coelestium (Das revoluções das esferas celestes) - que teve experiência política
no mesmo contexto diplomático conturbado de Maquiavel (cf. WESTMAN, 2013; BLU-
MENTHAL, 2014; BIGNOTTO, 2014) - tendo convivido com perseguições políticas e peri-
gos enfrentados por astrólogos ao fazerem previsões erradas - pode ter considerado o uso polí-
tico da Astrologia como um problema a ser evitado, concentrando-se na astronomia matemá-
tica (BLUMENTHAL, 2014). Ainda assim, na época, qualquer aconselhamento político,
mesmo sem nenhuma referência direta aos céus, poderia ser perigoso para quem o fizesse:
Maquiavel, por ter servido à república florentina, foi torturado e exilado, como é amplamente
conhecido. No entanto, a partir daquele momento de crise cosmopolítica, o estudo do cosmos
e o estudo da política tenderiam a se separar.
Maquiavel, dentre outros, trouxe a humanidade de volta ao centro da análise política - mesmo
que não descartasse totalmente a influência dos céus, mantendo uma visão ambígua sobre o
controle racional do mundo pelos humanos (POCOCK, 1975). Ja a astrologia ainda fazia sen-
tido, mesmo que sob suspeita, para os seguidores de Copérnico: Kepler considerou os efeitos
cosmológicos sobre o clima e a população, especialmente em se tratando de guerras e pragas
(FEYERABEND, 1978), eventos relacionados ao interesse por Astrologia na época renascen-
tista (WESTMAN, 2013). De todo modo, a revolução copernicana na cosmologia descentrali-
zou a humanidade do cosmos, tratando a Terra como apenas um planeta, entre outros, ao redor
do Sol. Considerando que não tenham abominado plenamente a influência das estrelas sobre
os terráqueos, os trabalhos de ambos os autores marcam o ponto de virada para uma era de
secularismo na qual humanos não teriam suficiente certeza sobre os efeitos do cosmos sobre
suas relações políticas, relegados a seus próprios cuidados, suas próprias causas e efeitos.
Referir-se a esses tempos e autores não é um argumento de autoridade classicista, mas a lem-
brança de um “momento maquiaveliano” cósmico, não sendo apenas simplesmente o momen-
to em que uma república encara o problema da sua instabilidade (POCOCK, 1975), mas tam-
bém um momento em que toda a cosmologia entra em convulsão, o momento copernicano-
maquiaveliano da “Constituição Moderna” (LATOUR, 1991) que divide a ciência das coisas
da política humana. A referência a Maquiavel também é importante para o debate aqui pro-
posto já que ele é, muito antes dos teóricos socialistas, um atualizador crítico de noções aris-
totélicas sobre a história ser movida pela luta de classes - fator de instabilidade das formas
puras de governo, a ser contida por formas de governo misto (MULGAN, 1981, 2000; CAR-
DOSO, 2016).
Agora, com o envelhecimento crítico do humanismo, em plena vigência do Antropoceno,
momento de aparente colapso da grande divisão da “Constituição Moderna” (LATOUR,
2013), o mundo aproxima-se do início de um novo ciclo sinódico de Saturno-Plutão, associa-
do por astrólogos (FIORENZA, 2009; SOUZA, 2017) a choques geopolíticos radicais. Esta-
ríamos vivendo uma revolução do momento copernicano-maquiaveliano, fazendo a política se
emaranhar novamente às estrelas e planetas 3? Depois de abandonada pela ciência européia no
século XVII (THOMAS, 1971; WILLIS; CURRY, 2004), a Astrologia reapareceu na cultura
popular euro-americana durante o século XX, assim como em estudos de Ciências Humanas,
mas não se reuniu à Astronomia - embora pudesse, desde que a Astrologia elaborasse algo
mais do que as “caricaturas” que produziu, assumindo programas de pesquisa revitalizados,
como afirma Feyerabend sobre “o estranho caso da astrologia” (1978). Assim, a divisão do
conhecimento cosmológico persiste. Não obstante, uma turma de anarquistas pôde se importar
menos que os cientistas a respeito desta grande divisão, numa pequena revolução cósmica.
No Brasil, talvez estejamos cada vez mais longe da sugestão de Feyerabend, uma vez que o
financiamento público para a pesquisa tem sido cortado pela raiz e a ciência achincalhada - ao
ponto de vermos membros do governo federal eleito alegando publicamente que o mal da ci-
ência é o fato de ser feita por cientistas - culminância de um golpe (patriarcal) branco que
aponta para um novo ciclo (cosmo)político (FALLEIROS, 2019). Ao mesmo tempo, anarquis-
tas locais acabaram lidando com as desigualdades e conflitos de “humor” nelas envolvidos
através de um ensaio de contra-governo misto no qual os astros desempenharam um papel es-
pecial. Sugiro aí a ocorrência de um duplo “giro copernicano”: semelhante à reviravolta de
Pierre Clastres na antropologia política (CARDOSO, 1995), referindo-se à manobra heliocên-
trica copernicana de maneira figurativa (se o Estado é a Terra, o contra-Estado é o Sol); mas
dando-lhe mais uma torção, prefigurativa, que dispersa a política em direção a agências cos-
mológicas, uma virada cosmopolítica (STENGERS, 1996; SZTUTMAN, 2013).

Raça, classe, gênero e anarquismo

A classe foi a pedra angular do movimento socialista do século XIX e da Primeira Internacio-
nal, formalmente chamada de “Associação Internacional dos Trabalhadores” - no masculino
(em inglês: “Workingmen”) -, dissolvida com a cisão dos socialistas entre anarquistas e mar-
xistas. O gênero masculino dos trabalhadores a quem o nome da organização se refere pode
ser relacionado ao fato de que apenas uma mulher, Harriet Law, tenha sido admitida em seu
Conselho Geral (FAURÉ, 2003). Associações de apoio mútuo e federações parecidas com A

3Senão às religiões cristãs, numa possível mudança de paradigma na relação entre religião e política
(DULLO, 2015).
Internacional foram vistos por seguidores de Pierre-Joseph Proudhon como um escape ou rup-
tura dos ciclos políticos de dominação, a prefiguração de um modo de vida socialista anárqui-
co: o federalismo agro-industral, organizando a força coletiva para encarar o agonismo que
move a história. No entanto, Proudhon prefigurou abertamente um papel submisso às mulhe-
res, sendo criticado a partir de seu próprio pensamento por Jenny D 'Héricourt (1860), femi-
nista da época.
Mas classe e gênero não bastariam, já que desde o fim do século XX e início do século XXI,
movimentos políticos tem levantado questões sobre a diversidade de formas de dominação e
opressão - como o racismo -, bem como as lutas contra elas, com as feministas negras norte-
americanas apontando para a importância da interseccionalidade (cf. LORDE, 1984;
CRENSHAW, 1989) . Em seu sentido básico, a interseccionalidade significa que uma pessoa
é atravessada por diferentes desigualdades sociais impostas pelo patriarcado branco, o que
pode afetar sua vida de uma maneira mais leve ou mais pesada, não apenas quantitativamente,
mas qualitativamente, não sendo apenas uma multiplicação de opressões mas também a cons-
tituição de perspectivas - pontos de vista, lugares de fala - específicas e epistemologicamente
privilegiadas (apesar de politicamente desprivilegiadas) em termos de conhecimento a respei-
to da dominação, opressão e seus combates, como a da mulher negra (COLLINS 1990;
BAIRROS, 1995). Por exemplo, ser uma mulher negra lésbica cisgênera como Audre Lorde
não é apenas uma soma de racismo e sexismo, pois a pessoa sofre um tipo específico de
opressão, misturada a outras (como idade, local de origem, tipo de corpo e assim por diante),
que constituem desigualdades difíceis de quantificar. Adicione a isso o fato de que, se as clas-
sificações sociais e marcadores de diferença não são estáveis, desigualdades tornam-se conhe-
cidas à medida que se manifestam novas formas de liberdade - como as múltiplas formas de
sexualidade e identidades transgêneras, cada uma enfrentando opressão de maneiras específi-
cas -, de modo que a atenção às suas experiências sociais daria uma boa pesquisa sobre tais
diferenças (RODÓ-DE-ZÁRATE; JORBA, 2012).
A abordagem interseccional tem sido considerada como mantendo afinidades com preocupa-
ções de primeiros anarquistas, o que incluiria em seus atravessamentos as relações entre espé-
cies (WHITE, 2015; FERRETTI, 2017), por exemplo. Todavia, ao longo da história do mo-
vimento, muitos anarquistas rejeitaram o feminismo, focando principalmente na luta de clas-
ses, uma ausência de questões interseccionais muito suspeita (Shannon & Rogue, 2009) para
um movimento que, como o anarquismo, fia-se em dizeres com este: “só serei verdadeiramen-
te livre quando todos os seres humanos que me cercam, homens e mulheres, forem igualmente
livres” (BAKUNIN, 1975, p. 22). Assim, apesar de algumas visões de que a interseccionali-
dade é interessante apenas para quem luta por direitos “identitários” concedidos pelo Estado
(cf. PINK AND BLACK ATTACK in BAROQUE; EANELLI, 2011), anarquistas podem ofe-
recer não apenas uma visão crítica do Estado e de outros sistemas de dominação instituciona-
lizados mas também a proposição de formas políticas não-hierárquicas ao levar a sério a inter-
seccionalidade (SHANNON; ROGUE, 2009). Com base nisso, um relato etnográfico sobre a
organização da Marcha das Vadias em Florianópolis (REIS, 2014), sugere que a experiência
anarquista e feminista das pessoas envolvidas, bem como suas práticas de autogestão e auto-
representação, abriu a marcha para uma pluralidade de agendas de modo não-hierárquico,
ainda que ressentido a menor presença de pessoas negras como a própria autora. Em outros
lugares, na América do Norte, a interseccionalidade, tratada como um quadro para a criação
de ferramentas organizacionais prefigurativas e anárquicas, tem sido estudada como presente
em tendências políticas anti-opressão, envolvendo abordagens críticas a privilégios e ao poder
dentro do próprio movimento. Isso vai contra práticas organizacionais rígidas, enaltecendo a
possibilidade de aprender com as muitas perspectivas em jogo e potencializando a capacidade
de lutar contra múltiplas opressões (LUCHIES, 2014).

Ativismo ABC e Casa da Lagartixa Preta “ Malagueña Salerosa”

A região do Grande ABC (parte da Grande São Paulo) é o berço de movimentos de esquerda
dos quais, durante os anos oitenta, despontou a figura de Luís Inácio Lula da Silva, presidente
eleito do Brasil duas décadas depois (2002). Alguns anos antes da primeira eleição presiden-
cial de Lula, a esquerda radical se reagrupava na região ligada a lutas “anti-globalização” - ou
pela alter-globalização - conectando punks, estudantes universitários, professores, socialistas
não-partidários, movimento dos meninos e meninas de rua e movimento negro. Um dos gru-
pos originado neste momento foi o Ativismo ABC, formado principalmente por pessoas bran-
cas de classe média e baixa, congregando anarquistas e outros socialistas cuja pluralidade de
tendências foi baseada nos princípios da Ação Global dos Povos. Mantivemos uma posição
crítica ao governo após a eleição de Lula, momento em que os protestos de rua se dissipavam,
levando-nos das manifestações de rua à busca de outras práticas locais, daí a criação de um
centro social, a Casa da Lagartixa Preta "Malagueña Salerosa”, que veio a se identificar en-
quanto “anarquista” algum tempo depois.
A casa acaba de completar 15 anos (Março, 2019), numa história de mudanças mas sempre de
autogestão colectiva, ajuda mútua, solidariedade, educação gratuita, permacultura e agroeco-
logia, anti-capitalismo, contra a opressão e a dominação, em busca de uma participação equi-
tativa e valorização das diferenças. A casa promove o apoio mútuo, estando aberta a outras
pessoas e grupos afins. Nós participamos de redes anarquistas e populares, localmente e mun-
dialmente. Na casa temos uma biblioteca comunitária, uma horta comunitária (nossa “micro-
agrofloresta”), estante de dádivas (onde se doa e/ou se retiram objetos gratuitamente), banco
de sementes orgânicas livre, aproveitamento de água da chuva, feiras de produções autogeri-
das, sessões de cinema, debates, concertos de bicicleta e outras atividades. Em 2017 oferece-
mos um curso experimental gratuito mensal sobre anarquismo e interseccionalidade, abordan-
do temas gerais (Organização, Corpo, Ajuda Mútua, Ecologia, Colonização, Autodefesa, Eco-
nomia Alternativa), atravessados por eixos de raça, classe, gênero, sexualidade e até mesmo o
eixo do zodíaco.
O imóvel da casa é alugado, por isso mantemos um rodízio de pizza vegana mensal ( “o rodí-
zio de pizza vegana mais barato do Brasil”) para pagar o aluguel e outras despesas - além de
vendermos livros doados por camaradas e organizações anarquistas (Editora Subta, Editora
Deriva, Centro de Cultura Social de São Paulo, Biblioteca Terra Livre, Biblioteca Carlo Al-
degheri etc.), fanzines e camisetas. Temos tido dificuldades financeiras, pois nosso público
tem sido cada vez mais composto por pessoas jovens mais afetadas pela crise econômica, de
modo que temos feito campanhas de levantamento de fundos pela Internet. Enfrentamos tam-
bém um novo perigo (especialmente para o nossa micro-agro floresta): gentrificação e especu-
lação imobiliária no bairro, com casas antigas como a “nossa” sendo derrubadas para cons-
truir concessionárias de veículos e prédios de apartamentos.
O número de pessoas membros do coletivo, ao longo de toda sua história, tem flutuando em
torno de uma dúzia de pessoas - o maior número de membros foi trinta, principalmente punks,
reunido na assembléia na qual decidimos alugar a casa, em 2003. Nosso menor número de
membros foi no início de 2016 - durante o auge da crise política brasileira e da nossa.
Tal crise pode ter se iniciado em 2013, quando grandes manifestações tomaram as ruas contra
o aumento de preços no transporte público. Devido a nossa visão crítica sobre o refluxo das
manifestações de rua em 2002, capturadas pelos humores daquela eleição presidencial, o Ati-
vismo ABC manteve uma atitude cautelosa em relação a esses novos protestos em massa, es-
pecialmente em face dos humores nacionalistas que já despontavam. Naquele momento, ía-
mos às manifestações de rua para distribuir panfletos contra a agenda política reacionária que
tomava corpo (na forma do “gigante” que “acordou”), convidando as pessoas para a organiza-
ção local e a autogestão.
Mas a crise político-econômica atingiria também nossa organização anarquista, de modo que
as pessoas membros passaram a ter dificuldade em lidar com a participação no coletivo, com
menos tempo livre e menos dinheiro, além de assustadas com o crescimento de movimentos
conservadores. Em 2015, o conflito interno atingiu o seu clímax e, em 2016, apenas três de
nós haviam permanecido. Temendo o fim do nosso projeto coletivo, chamamos a comunidade
de pessoas que compareciam aos eventos da casa e, com sua ajuda, conseguimos resistir.
Hoje, é menor a participação de homens brancos heterossexuais cis-gêneros de classe média
como eu e, juntamente com pessoas negras, mulheres cis-gêneras, pessoas trans etc., compo-
mos um número bastante flutuante de uma dezena de pessoas.

Contra-governo interseccional

Considerando o referencial analítico exposto, o Ativismo ABC viveu uma espécie de momento
maquiaveliano, diante da instabilidade e da possibilidade de extinção, rearranjando sua consti-
tuição de modo anti-institucional. Nossos princípios de autogestão, ajuda mútua, ecologia,
educação anarquista e anticapitalismo não eram mais suficientes, pois a agenda transfeminista
e negra trouxe novas questões, transformando nossas relações de força. Foi um processo de
percepção das relações de poder dentro do próprio coletivo, criticando a igualdade formal an-
terior (baseada no que chamávamos de “acordos mínimos” necessários para ser membro), de-
satenta às desigualdades interseccionais.
Mas a semelhança com a ideia de “momento maquiaveliano” acaba onde a teoria de classe de
Maquiavel não se encaixa muito bem. Para o autor florentino, a elite tem seus próprios humo-
res, o desejo de dominar, enquanto os humores populares desejariam ser livres ou deixados
em paz. Os pontos de vista do povo e da elite não podem ser medidos por um equivalente ge-
ral, pois o povo supostamente evitaria disputar poder, favorecendo a liberdade. Apesar de
muitos comentaristas de Maquiavel argumentarem que é possível que ambos os desejos se
tornem os mesmos, eles não concordam sobre como isso seria possível (FERREIRA, 2016).
Maquiavel propõe duas perspectivas diferentes sobre a mesma relação política, o que apresen-
ta similitudes em relação ao perspectivismo presente em cosmopolíticas ameríndias, conside-
radas através de leituras clastrianas e lévi-straussianas, especialmente através dos dialética de
Proudhon (FALLEIROS, 2016), embora disparidades importantes devam ser assinaladas.
Enquanto deseja a liberdade, o povo republicano de Maquiavel acaba aceitando o governo dos
grandes. A chave para essa aceitação, encontrada na República Romana, teria sido a conces-
são, da parte dos grandes, de certos poderes a povo: o poder das armas, misturando os humo-
res populares ao desejo de conquista elitista (FERREIRA, 2016), permitindo assim períodos
de estabilização de conflitos. Longe dos romanos, Pierre Clastres também destaca a necessi-
dade do povo em armas na América indígena, mas “contra o Estado” (CLASTRES, 2003;
2004), de forma semelhante à dialética política de Proudhon: a liberdade se destaca sobre a
autoridade, embora a autoridade jamais seja destruída (FALLEIROS, 2016). É o contrário do
que acontece na república de Maquiavel, onde a autoridade dos grandes suplanta a liberdade
do povo, sem destruí-la plenamente. Na América indígena, a guerra é internalizada e a sedição
é garantia de liberdade, levando a uma historicidade pendular “contra o estável” (MACEDO,
2011), num balanço entre grandes confederações e sua fragmentação em pequenos grupos
(PERRONE-MOISÉS; SZTUTMAN, 2010). Outra característica das relações de poder ame-
ríndias conforme leituras clastrianas e lévi-straussianas é a reversão da autoridade dos líderes,
que não são soberanos, mas necessariamente figuras generosas recusando acumular poder e
posses. Líderes são aqueles que vão primeiro ao trabalho, à festa e à guerra (SZTUMAN,
2012), atuando como anfitriões (PERRONE-MOISÉS, 2015) que geralmente não recebem
nada além de prestígio por sua capacidade de congregar pessoas - o que pode ser perdido para
a sedição se as diferenças coletivas não falarem através suas bocas4 (ver FALLEIROS, 2010,
2013, 2016).

4 Para o povo A’uwe-Xavante, com quem fiz pesquisa etnográfica, as lideranças devem ser mediado -
ras, como diplomatas internos. Como boas ouvintes, devem perguntar aos outros o que fazer, tentando
conciliar diferentes opiniões em seus discursos.
Algo semelhante acontece no contra-governo interseccional do Ativismo ABC: uma inversão
hierárquica em que privilegiados devem reduzir sua autoridade, em favor da liberdade e da
diferença. Aqui os humores são transversais, dependendo da variedade de diferenças e desi-
gualdades relacionadas. Não há somente duas perspectivas em relação ao poder, uma vez que
existem formas de dominação que atravessam a organização popular de maneiras intricadas.
Por exemplo, não apenas um homem branco cisgênero como eu poderia reproduzir humores
elitistas: também uma mulher branca cisgênero e um homem negro cisgênero poderiam gerar
tensões interseccionais recíprocas. É possível que um conflito entre membros do coletivo
aproxime-se de uma disputa de poder, especialmente quando a agenda coletiva está em jogo:
por exemplo, lidar com denúncias de racismo e sexismo entre anarquistas ou se concentrar em
uma visão global calcada em tarefas equalizadas para a expansão de autogestão? Nestas rela-
ções, muitas perspectivas atravessam hierarquias alternadas, enquanto a visão global do patri-
arcado branco colonizador tem a sua autoridade questionada em nome da liberdade, em uma
organização instável de poderes: um balanço entre o multipolar (a diversidade de perspecti-
vas) e o contra-polar (contra o patriarcado branco). Ainda assim, além desses pólos, há pontos
de vista afetados por humores para além do Globo.

Etnografando a astrologia para além da estranheza

O breve relato acima, sobre as transformações temporais do Ativismo ABC, está aqui sendo
feito por mim como o único membro remanescente da sua primeira geração. Eu também sou o
mais antigo dos membros atuais e, como mencionado, um dos mais próximos do protótipo do
homem cisgênero branco de classe média. Outras pessoas membros lidam com o tipo de auto-
ridade que eu figuro em relação a elas questionando meus privilégios 5, exigindo uma inversão
hierárquica de alguma forma semelhante ao que aconteceu comigo junto ao povo A'uwe-Xa-
vante com quem fiz pesquisa etnográfica: preciso aprender a ser gente do povo, redistribuindo
meu poder (FALLEIROS, 2013), o que significa distribuir recursos como o uso do meu carro

5 Ainda que, todavia, é preciso realçar que poucas pessoas membros, em momentos variados, ainda
têm me tratado como uma espécie de líder - no geral, homens cisgênero e brancos. Estas pessoas, por
motivos diversos, ainda que associados, costumam ter seus privilégios questionados pelas demais em
diversos momentos. Todavia, não costuma ser explicitamente questionada esta problemática relação
delas comigo - o que expresso aqui como impressão pessoal, a qual já dividi com o coletivo.
ou da minha casa, mas também a minha força de ação, trabalho, especialmente na limpeza e
na cozinha, cooperando como qualquer outro que seja capaz disso, atento para não reproduzir
racismo, sexismo e classismo em minhas ações.
Mas algumas demandas anarquistas interseccionais vão além daquelas ameríndias: não só
preciso saber ouvir como também é demandado meu silêncio. Como a minha figura pessoal
aponta para uma dominância duradoura do discurso político do homem branco, eu tenho que
aprender a ficar em silêncio, de modo a ser um ouvinte melhor, enquanto outras questões são
levantadas e colocadas em prática. Foi ouvindo meus companheires, enquanto notava o modo
como agiam em relação a mim, que percebi como a Astrologia estava sendo usada para atenu-
ar conflitos.
Algumas pessoas que, naquele momento, tornaram-se próximas de mim, uma mulher negra
trans e uma pessoa trans não-binária, falavam muito sobre signos do zodíaco, com variado
conhecimento sobre astrologia, principalmente autodidático. A primeira delas leu meu mapa
astral e me deu dicas sobre o significado dos meus signos planetários. Essas são duas pessoas
bastante aguerridas, propensas a comunicar publicamente suas críticas e desacordos, o que
faziam com frequência para apontar a falta de consciência de privilégios - inclusive os meus.
Todavia, a referida garota trans, segundo ela mesma, até que era bem amistosa na hora dos
conflitos - especialmente ao mediá-los - porque seu Marte é em Libra, disse-me.
Já uma outra companheira, uma jovem mulher periférica, sempre “bota o dedo na ferida”,
provavelmente devido ao seu Sol em Escorpião, disse-me meu amigo6 não-binário.
Ele chegou a reconhecer carinhosamente que sua comunicação zangada e irritada comigo po-
deria estar sob a influência de seu Mercúrio em Leão, dado que meu Mercúrio é em Virgem, o
que tornaria minha comunicação detalhada e meu discurso complexo, segundo ele. Como
meus privilégios estão sempre em jogo nestas situações, dada a importância das questões
transfeministas na convivência cotidiana, interpretei que, ao dizer isso, ele estaria me indican-
do que reconhecia que eu não estaria fazendo um “mansplaining” ou “homexplicando” - pelo
menos não o tempo todo, pois outras influências afetariam meu discurso para além dos meus
privilégios.
Sobre a participação no trabalho coletivo, a pessoa transgênero negra mencionada acima, em-
bora tenha trazido bastante bravura ao Ativismo ABC, talvez às vezes precisasse de estímulos

6 Não havendo a opção de pronome neutro, ele prefere ser chamado no masculino.
para a ação por ser taurina, dizia nosso camarada não binário. Por sua vez, outras pessoas
membros do coletivo diziam que aquelas cujo signo solar é em Peixes poderiam facilmente
perder a concentração em tarefas, como um de nossos companheiros, um jovem branco punk
da periferia. Nesse sentido, as coisas poderiam ficar um pouco bagunçadas, especialmente
para minha própria parceira, também membro do coletivo, uma mulher negra pisciana que,
dada a uma consciência zodiacal recém-adquirida, passou a tentar ser mais organizada. Ainda,
o que era considerado o típico “atraso brasileiro” para compromissos, que costumava ser mo-
tivo de olhares repressores no passado (conforme minha interpretação nativa), e até manifes-
tações verbais, passou a ser menos comentado, especialmente levando-se em conta outros
compromissos e longas distâncias atravessadas pelas pessoas, apesar da exaltada pontualidade
daquelas cujos signos solares são em Sagitário - que eram, naquela época, um rapaz cisgênero
negro e uma jovem lésbica branca, que vinham do lado pobre de outra cidade.
Outras questões interseccionais, como a opressão aos animais, podem ser contrapostas a con-
dicionamentos zodiacais: uma vez, em viagem coletiva para uma reunião em outra cidade,
outra compa branca lésbica e não-vegana sentiu fome e fez comentários sobre uma propagan-
da de fast-food na beira da estrada, o que perturbou nosso amigo vegano trans não-binário,
que reclamou e argumentou. Nisso, outra pessoa, mulher negra, saiu em defesa da primeira
dizendo que ele deveria considerar o Sol em Touro da companheira, caso quisesse convencê-
la num argumento sobre comida.
Por outro lado, às vezes, raça, classe e gênero também podem afetar os signos do zodíaco. Por
exemplo, chegamos a conversar sobre o comportamento dinâmico das pessoas nascidas sob o
signo de Áries, sendo que havia um grande número delas no coletivo antes de sua crise, o que
pode ter tido um peso excessivo sobre nossos humores, considerando seu comportamento
tendencialmente autoritário, especialmente por terem sido majoritariamente pessoas brancas
ou de classe média. Como sou libriano, considerado de caráter conciliatório, levei muito tem-
po para ser perturbado por antigas e antigos camaradas de Sol em Áries, signo complementar
ao meu por serem pólos opostos no zodíaco. No entanto, uma das poucas pessoas com Sol em
Áries a ter participado do Ativismo ABC depois daquela crise foi uma garota lésbica negra
cujo espírito motivado e motivacional provavelmente já tinha enfrentado muitas opressões
antes que ela pudesse se tornar autoritária diante do coletivo. Ainda assim, ela dizia ser muito
auto-consciente a respeito de dinâmicas de grupo e que, uma vez, enquanto tomava parte de
um certo debate, desculpou-se ao perceber que estava falando demais, o que justificou por seu
ascendente em Aquário (o qual, apesar da positividade a respeito de uma visão em prol do co-
letivo, a tornaria propensa a divagar).

Considerações finais

Teorizar sobre o poder dentro da organização anarquista tem sido uma questão já há algum
tempo, debate que foi trazido para as reuniões do Ativismo ABC bem no meio da mencionada
crise, quando lemos coletivamente o livro Anarquia Viva! (GORDON, 2015) - juntamente
com um companheiro (de fora do coletivo) que o traduziu, meses antes da última retirada de
pessoas consideradas membros mais antigos.
A abordagem feita por Uri Gordon sobre o poder na organização anarquista critica as estrutu-
ras de distribuição de tarefas como a que tínhamos antes de 2016 e que estiveram em voga em
movimentos feministas e anarquistas por um par de décadas - especialmente a partir do argu-
mento de Jo Freeman sobre a “tirania das organizações sem estrutura” (1972) -, denunciando
sua incapacidade de enfrentar certas hierarquias não-conscientes. Ele reconhece as necessárias
diferenças no envolvimento pessoal e na participação, bem como a necessidade de criar mo-
dos de redistribuição de recursos pessoais, ciente da crítica interseccional sobre a organização
anarquista. Como resposta, ele propõe, com razão, uma cultura de solidariedade. O argumento
que apresento aqui contribui para isso, mas prestando atenção especial em como essas inter-
secções afetam a participação das pessoas, influenciando a agenda coletiva contra uma varie-
dade de opressões, relacionado perspectivas conflitantes. Deste modo, já que há perspectivas
conflitantes, o conflito é tão importante e necessário quanto uma cultura de generosidade e
solidariedade - que acabou sendo expressa aqui em termos zodiacais. A intenção não seria evi-
tar a luta e a guerra, mas enfrentá-la, jogando seriamente com outras perspectivas cósmicas. O
ativismo ABC tentou oferecer, com isso, uma cultura de alegria bélica, transformando cosmo-
logias antigas - como a Astrologia - em uma arma para novas amizades.
Todavia, considerando que o apelo à Astrologia serviu para dirimir conflitos - mais do que
resolvê-los - muitos outros conflitos vieram a atravessar o coletivo desde então, sem que ja-
mais tentássemos evitá-los. Incluindo aí conflitos nos quais questões interseccionais podem
ter sido usadas mais como bandeiras atrás das quais pessoas escondiam seus interesses. Con-
tra esses conflitos e as possibilidades de captura de humores populares pelo desejo de poder,
buscamos os fundamentos confederalistas do anarquismo e o valor da separação na constitui-
ção da liberdade, criando nos últimos dois anos certos fracionamentos internos, como o Nú-
cleo Negro, de afirmação da negritude, ou os grupos de discussão crítica de branquitude e
masculinidade (de participação compulsória para membros que, como eu, enquadrem-se nes-
sas classificações, incluindo o convite para pessoas que frequentam a casa ou são parceiras do
coletivo), visando aumentar as forças da liberdade contra a autoridade.
Há uma banda de música local, Ba-Boom, da qual alguns fundadores também participaram da
fundação da Casa da Lagartixa Preta. Conforme o título de uma de suas mais famosas músi-
cas, “no ABC a amizade prevalece”, este foi um lema que chegou a caracterizar nosso coleti-
vo. O Ativismo ABC até participou da gravação do videoclipe desta canção em 2011. Mas há
outra música da mesma banda que passou a ser cantada em voz alta por algumas pessoas de
nós naqueles momentos de superação crítica em 2016:“Batalha”. Em suma, a canção reme-
mora os dias em que negros escravizados foram obrigados a servir ao exército brasileiro du-
rante a guerra imperialista contra o Paraguai, tendo como contra-partida a própria liberdade. A
letra da música nos lembra que aquela história não acabou, já que as condições de desigualda-
de presentes não teriam mudado tanto. Assim, a luta continua e, até onde eu sei, não terminará
até atingirmos as estrelas.

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