Você está na página 1de 61

EM MINHA CASA

Nem tudo
está azul
no país
azul
Gabriela Rabelo
Volume 5 – Teatro

São Paulo
2001
Copyright do texto © Gabriela Rabelo
Todos os direitos de edição reservados à Editora Mercuryo Ltda.

Alameda dos Guaramomis, 1267 Moema São Paulo SP


CEP 04076-012
Tel (11) 5531-8222
Fax (11) 5093-3265
www.mercuryojovem.com.br
email ionmercuryojovem@mercuryojovem.com.br

Editora
Ione Meloni Nassar
Revisão
Equipe editorial e Gabriela Rabelo
Edição de arte
César Landucci
Projeto gráfico e diagramação
Estúdio Graal
Ilustração de capa
Luiz Maia

Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP)


(Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil)

Amadeu, Gabriela Coelho Rabelo


Nem tudo está azul no país azul : teatro / Gabriela
Rabelo . — São Paulo : Mercuryo, 2001. — (Coleção
literatura em minha casa ; v. 5)

ISBN 85-7272-156-8

1. Teatro brasileiro – Literatura infanto-juvenil


I. Título. II. Série.

01-5171 CDD-028.5

Índices para catálogo sistemático:


1. Teatro : Literatura infantil 028.5
2. Teatro : Literatura infanto-juvenil 028.5
A todos os alunos que tive,
tenho e terei, que me
reensinam o ofício teatral.
Prefácio

Há muitos anos, eu dava aulas de teatro para crianças e


adolescentes numa escola estadual, em São Paulo. Os
alunos chegavam cheios de idéias e faziam peças encan-
tadoras, a partir de improvisações livres ou de um tema.
Para que pudessem elaborar melhor as suas peças, co-
mecei a escrevê-las, o que lhes permitia perceber mais
claramente alguns resultados de seus impulsos: era como
se eu tirasse os entulhos da casa que eles estavam cons-
truindo, para que enxergassem melhor os seus cômodos.
Uma vez, um grupo de alunos veio com a idéia de
escrever uma história de amor. “Como a do Romeu e Ju-
lieta”, disseram.
Conversa vai, conversa vem, improvisação vai, avalia-
ção vem, surgiu a idéia de contar a história de Romeu e
Julieta com as cores. E foi criada uma pequena peça que
agradou a todos.
Anos depois, o grupo Teatro da Cidade, de Santo An-
dré, SP, do qual eu fazia parte, teve um texto proibido pela
censura (estávamos na triste época dos governos milita-
res). E esse texto nos consumira alguns meses de pesqui-
sa e trabalho. Desorientados, procuramos alguma coisa que
impedisse o grupo de se dissolver. Lembrei-me da história
das cores, criada com os alunos. Propus a idéia da peça,
que foi imediatamente aceita. E nasceu Nem tudo está
azul no país azul. A peça foi montada como um musical,
com músicas muito lindas do Amilson Godoy.
O cenário e os figurinos foram concebidos pelo gran-
de dramaturgo e diretor Naum Alves de Souza. Ele e o
diretor Antônio Petrin tiveram a bela idéia de usar bone-
cos para as cores derivadas. Funcionava muito bem a mis-
tura de atores de carne e osso com bonecos.
Desde então, tive oportunidade de assistir a outras
montagens desta peça, nos mais diferentes lugares, e com
as mais diversas concepções: com e sem músicas, ence-
nada por adultos, encenada por crianças, com figurinos
simples, com figurinos rebuscados, em espaços abertos,
em palcos tradicionais...
Houve uma que foi especialmente comovente: acon-
teceu em Paris, com um grupo de teatro amador forma-
do por ingleses e irlandeses. Na época, a questão entre
a Irlanda do Norte e a Inglaterra estava pegando fogo e,
infelizmente, de tempos em tempos, ela volta a entrar
em ebulição. O grupo de teatro escolheu o texto, por con-
siderar que ele permitiria mostrar para as crianças a im-
portância que cada um de nós tem na construção do mun-
do e na conquista da paz, de como é absurdo dividir os
homens em raças, credos e nacionalidades que tenham
que se odiar em nome de não sei qual poder... Pude as-
sistir a um ensaio e fiquei encantada e comovida. Infeliz-
mente não assisti ao espetáculo pronto.
É gratificante saber que ajudei a colocar um grãozinho
de areia na massa da construção de um futuro melhor.

Gabriela Rabelo
Nem tudo está azul no país azul foi apresentado, pela
primeira vez, em março de 1974, no Teatro Municipal de
Santo André, SP, com os seguintes intérpretes:

Zé Preto Gésio Amadeu

Amarelos
Lina Cecília Maciel
Amiga Bri Fiocca
Mãe Luzia Carmela
Guarda amarelo Celso Gil

Vermelhos
Leo Amaury Alvarez
Amigo Alexandre Dressler
Médico Sérgio de Oliveira

Azuis
Rei Henrique Lisboa
Guarda 1 Sérgio de Oliveira
Guarda 2 Luiz Antônio Broch

Cores derivadas
Alaranjado Bri Fiocca
Verde Aziz Bajur
Roxinho Alexandre Dressler
Marrom Celso Gil

Direção: Antônio Petrin


Cenários, figurinos e bonecos: Naum Alves de Souza
Músicas: Amilson Godoy
Coreografia: Edwin Luisi
Coordenação de produção: Sônia Guedes
Personagens

Zé Preto

Amarelos Lina
Amiga
Mãe
Garçom
Convidado 1
Convidado 2
Guarda

Azuis Rei
Guarda1
Guarda 2

Vermelhos Leo
Amigo
Médico

Cores derivadas Alaranjado


Verde
Roxinho
Marrom

Cenário

No palco nu, há apenas uma rotunda branca, no fundo,


que mudará de cor, conforme a iluminação recebida. Mó-
veis e painéis serão trazidos para o palco e dele retirados,
de acordo com a necessidade da cena.
10
APRESENTAÇÃO

Entram todos os atores, já caracterizados com seus


personagens.

TODOS
Bom-dia, boa-tarde, boa-noite, senhoras, senhoritas
e senhores.

ZÉ PRETO
Gente alegre,

TODOS
gente triste,

ZÉ PRETO
gente feia,

TODOS
gente bonita.

ZÉ PRETO
Vou chegando e me apresento:
sou Zé Preto, o cantador.
Quem não entrou que entre logo,
se abanquete, tome assento.
Se ajeite, por favor,
gosto de contar histórias,
faça sol ou faça vento.

TODOS
Bom-dia, boa-tarde, boa-noite, senhoras, senhoritas
e senhores.
11
ZÉ PRETO
Quero ver quem é sabido.
Quem aqui conhece cor?
Se você conhece cor,
levante o seu braço, amigo.
Como é que é? Alguém aqui conhece cor? Então, de
que cor é minha roupa? Preta? Ah, ah, ah, seu bobo.
Preto não é cor, preto é ausência de cor. Quer ver só
uma coisa? Feche os olhos assim, ó, bem apertado.
O que você está vendo? Nada, não é? Fica tudo es-
curo, preto. De noite também, quando todas as lu-
zes estão apagadas, não fica tudo preto? Pois en-
tão, preto é o vazio que fica quando não existe cor
nenhuma. Mas, olha, nós vamos contar pra vocês
uma história que se passou...

TODOS
Num país chamado Aquarela.
Três raças lá existiam:
azul, vermelha e amarela.
Misturar-se elas não podiam
— coitadas delas —
pois o rei Azul, o azul-rei
tinha feito um decreto-lei.

Luz geral se apaga. Foco azul num guarda azul que


lê o decreto, muito solene.

GUARDA AZUL 1
Por ordem real, de ontem em diante, o povo deste
país está terminantemente proibido de se misturar.
Ou seja: o azul casa-se com a azul, o vermelho com
a vermelha, o amarelo com a amarela. Só assim con-
12
seguiremos manter nossas raças puras, nosso go-
verno bem forte, nada, nada de misturas!

Apaga-se o foco sobre o guarda azul 1. Volta luz ge-


ral.

ZÉ PRETO
Vocês entenderam direitinho o decreto-lei? Pergun-
to isso porque decreto-lei é sempre meio fogo de se
entender. Trocando em miúdos: o azul-rei não que-
ria que as cores se misturassem porque podia nas-
cer cor de tudo quanto é jeito. E, se isso aconteces-
se, como é que o rei ia fazer para continuar a ser rei?
Sim, porque ele só era rei porque falava pra todo
mundo, o tempo todo, que o azul era o mais forte, o
mais bonito, o melhor, etc., etc., etc. E falava tanto
que as pessoas acabavam acreditando. E ele não
queria correr o risco de aparecer uma nova cor que
todo mundo achasse mais bonita que o azul. Já pen-
sou? Ele perderia todo o poder... Pois então, é nesse
reino que a história se passa.

13
CENA I

Zé Preto sai. Vermelhos, amarelos e azuis entram


em cena com painéis sobre rodas onde há dese-
nhos de frutas, pássaros, flores... À direita do palco
ficam os vermelhos, à esquerda, os amarelos. En-
tre eles desfila o rei Azul, cheio de pompa, seguido
de seus guardas.

GUARDAS 1 E 2
Do rei Azul nós somos guardas.
Nosso trabalho é pintar,
dando força a este céu,
colorindo o azul do mar.

TODOS
Um dia lindo começa.
O céu está todo azul.

GUARDA 1
De dia, o céu é azul-claro.

GUARDA 2
De noite, é azul-fechado.

GUARDAS 1 E 2
Dia e noite, azul-celeste,
dia e noite, azul-azul.

TODOS
O azul nos cobre e agasalha.

14
REI
Nenhuma cor é tão linda,
nenhuma se lhe compara.

TODOS
Sua força nunca falha.
O rei Azul nos ampara.

Sempre cantando e trabalhando, os amarelos e os


vermelhos vão saindo de cena, até ficarem só os azuis.

REI
Ah, nada como um belo passeio pela manhã, nada
como ver que está tudo em ordem no meu reino.

O guarda 1 toca uma sineta.

REI
O que é agora? É hora de quê?

GUARDA 1
(Tratando o rei como se fosse uma criançona) Hora
de...? Hora de...?

REI
Fale logo. Hora de quê?

GUARDA 1
Hora de... brincar!!!

REI
Oba! Está na hora do recreio?

15
GUARDA 1
Exatamente, Majestade.

REI
Esta é a hora do dia que mais gosto. (O rei volta-se
para o guarda 2) Hoje é dia de brincar de quê?

GUARDA 2
(Consultando um cardápio) Hoje é dia... é dia de...
de brincar de amarelinha.

REI
Ah, que delícia. Gosto demais desse jogo. E vocês?

GUARDAS 1 E 2
(No maior desânimo) Ôooo...

REI
Pois então, vamos lá. Brincar de amarelinha! (Para o
guarda 2) Vá buscar o campo marcado. (O guarda 2
sai. O rei se dirige para o guarda 1) Você vai ser o
juiz, está bem?

GUARDA 1
Está bem, Majestade. (Em tom bajulador) Muito
bem...

O guarda 2 volta, trazendo, enrolado debaixo do bra-


ço, um campo de amarelinha que ele estende no chão.

REI
(Para o guarda 2) Vamos tirar par ou ímpar... Eu peço
par.
16
GUARDA 2
Eu peço ímpar.

REI
Um, dois e...

GUARDA 2
Já!

O guarda 2 põe dois dedos, o rei, um.

REI
Ganhei!

GUARDA 2
Não, Majestade, o senhor perdeu. O senhor não pe-
diu par?

REI
Pois então! Eu pedi par, dois mais um, três; três é
par. Ganhei!... Ganhei!...

GUARDA 2
Só se me ensinaram errado.

REI
Pois é, te ensinaram errado. (Para o guarda 1) Seu
juiz, ganhei ou não ganhei? Três é par ou ímpar?

GUARDA 1
(Conta nos dedos) Ímpar... par.... ímpar... um... dois...
três... Três é ímpar, Majestade.

17
REI
O quê?!

GUARDA 1
Bem, Majestade, três é ímpar, mas se Vossa Majes-
tade decretar o contrário... (Vira-se para o guarda 2)
Três é par!

REI
Viu só como eu é que tinha razão? Agora vamos co-
meçar o jogo. Eu primeiro!

O rei começa a jogar. No meio do jogo, ele cai.

GUARDA 2
Errou, errou, errou...

REI
Então, agora é você.

O guarda 2 começa a jogar direitinho.

REI
Errou, errou, pisou na linha.

GUARDA 2
Não errei!

REI
Errou sim. Olha a marca do pé dele ali, seu juiz.

GUARDA 1
Não estou vendo marca nenhuma, Majestade.
18
REI
(Ameaçando) Olhe direito!

GUARDA 1
É mesmo! A marca está ali há mais de três dias e eu
ainda não tinha visto!...

REI
(Para o guarda 2) Está vendo? Você errou ou não
errou?

GUARDA 2
(Resignado) Então pode continuar, Majestade.

O guarda 1 toca a sineta

REI
Mas o que foi dessa vez? Já acabou o recreio?

GUARDA 1
Já, Majestade. Já é hora de trabalhar novamente. Te-
mos que fiscalizar o trabalho das pessoas do reino.

REI
Ah, que chatura! Mas tudo bem. (Para o guarda 2)
Semana que vem nós jogaremos de novo e eu tor-
narei a ganhar de você.

GUARDA 2
Tenho certeza que sim, Majestade.

REI
(Para o guarda 1, num tom oficial) Então, alguma no-
19
vidade para o dia de hoje?

GUARDA 1
Hoje à noite, Majestade, haverá um baile à fantasia
na casa de uma família amarela, aquela que cuida
dos girassóis do reino. A amarelinha Lina vai com-
pletar quinze anos.

REI
(Feroz) E entre os convidados há algum vermelho
ou azul?

GUARDA 1
(Escandalizado) Não, Majestade. É claro que não.
Os convites passaram pelas mãos do nosso secretá-
rio de Diversões, como é necessário.

REI
Ótimo, muito ótimo. Sendo assim, que eles se divir-
tam. Vamos agora dar uma volta para ver se o reino
está bem colorido, para ver se o nosso povo está
trabalhando bem.

O rei sai, seguido pelos soldados. Entram os verme-


lhos e amarelos cantando e dançando, preparando o
palco para a próxima cena. Zé Preto está no meio
deles, trazendo também acessórios para o palco.

20
CENA II

AMARELOS E VERMELHOS
Somos os pintores do reino.
Cantando, dançando e brincando,
trabalhamos o dia inteiro,
colorindo o mundo em que vivemos.
Somos os pintores do reino.

AMARELOS
Em noite de lua cheia,
ficamos bem acordados.
A lua de tão amarela
parece um sol atrasado.

UM AMARELO E UM VERMELHO
E ainda bem cedinho,
quando a lua vai-se embora,
de amarelo e vermelho
pintamos o sol.

AMARELOS E VERMELHOS
E quando o sol aparece
dando força a todo mundo
pouco a pouco amadurecem
as frutas que nós pintamos.
Somos os pintores do reino,
cantando, dançando e brincando,
trabalhamos o dia inteiro,
colorindo o mundo em que vivemos,
somos os pintores do reino.

O rei, montado num cavalo de pau, surge acompa-


nhado pelos guardas.

21
AMARELOS E VERMELHOS
Lá vem o nosso rei
com os guardas a seu lado.
Vem aqui fiscalizar
o trabalho executado.

GUARDAS 1 E 2
Do rei Azul nós somos guardas.
Nosso trabalho é pintar,
dando força a este céu,
colorindo o azul do mar.

REI
No meu reino colorido,
tudo lindo sempre está,
cada um na sua cor,
e só eu para governar.

Pomposo e risonho, o rei caminha entre os verme-


lhos e amarelos, examinando seu trabalho, sempre
acompanhado por seus guardas. Depois de um tem-
po saem de cena.
Lentamente, a luz cai em resistência, indicando o fi-
nal do dia.
Num canto do palco, uma luz amarela mais forte des-
taca a amarelinha Lina e sua amiga, que estão pin-
tando girassóis.

22
CENA III

LINA
Puxa vida, como o dia hoje está demorando para pas-
sar!...

AMIGA
É mesmo. Só porque a gente quer que ele passe
logo...

LINA
Nunca vi um girassol tão demorado para pintar.

AMIGA
Pois é. Parece que nunca vão chegar a noite e a
hora do baile. (Entusiasmada) Arranjei uma fantasia
maravilhosa. Você nem vai me reconhecer...

LINA
A minha também está lindíssima.

AMIGA
É mesmo? Como ela é?

LINA
Ah, não posso contar, senão perde a graça.

AMIGA
(Suspirando) Ufa! Pronto! Acabei meu girassol.

LINA
Eu também estou quase acabando o meu.

AMIGA
Mas eu não vou poder esperar você terminar, Lina.
23
Tenho que dar os últimos retoques na minha fanta-
sia. A gente se vê à noite, está bem?

LINA
Está b... Ai! (Dá um grito e coloca a mão sobre o
peito)

AMIGA
O que foi?

LINA
Não sei. Está acontecendo uma coisa esquisita com
o meu coração. Parece que hoje ele está maluco.
Tem hora que dispara tanto que até dói. E tem hora
que bate tão devagarinho que parece que vai parar.
(Suspira) Tenho a impressão de que hoje vai aconte-
cer alguma coisa... Pronto. Já passou...

AMIGA
Você quer que eu te acompanhe até sua casa?

LINA
Não, não precisa. Já estou bem. Pode ir. Eu vou ter-
minar este girassol e já vou para casa.

AMIGA
Então, até a noite.

LINA
Até a noite, amiga.

A amiga sai. Lina fica sonhando acordada.


24
LINA
Meu coração sente um não-sei-quê
como se quisesse me avisar
de que alguma coisa está para acontecer.
Eu sinto, eu sei, então ao coração pergunto:
O que será? O que será?
Venha, ó noite, traga-me de volta a lua.
Leve este sol embora, é quase hora.
Está na hora, eu vou-me embora,
é quase hora...

Ela sai e o foco amarelo também vai saindo com ela.


O dia vai chegando ao fim e os outros atores reco-
lhem os seus pincéis e saem de cena.

25
CENA IV

A cena toma um tom avermelhado. Num canto do


palco, o vermelho Leo está sentado. Ele está segu-
rando o queixo, danado da vida.

LEO
Puxa vida, todo mundo tem alguma coisa para fazer.
Só eu é que não tenho. E, ainda por cima, este bobão
do meu coração fica batendo diferente, como se hoje
não fosse um dia igualzinho aos outros. (Ele fala para
o coração) Bobo, pateta...

AMIGO
(Na coxia) Leo! Leo! (O amigo entra em cena)

LEO
O que foi?

AMIGO
Puxa, estou te procurando há um tempão!...

LEO
O que houve? Viu disco voador?

AMIGO
Melhor que isso. Imagine só onde nós dois vamos
hoje à noite.

LEO
Ficar em casa, vendo aqueles programas chatos de
televisão.

26
AMIGO
Não, senhor, errou... Te dou mais uma chance.

LEO
Fazer visitas pra vizinhos e ficar sentado direitinho
na sala, enquanto nossos pais tomam café.

AMIGO
Errou de novo. Pois saiba, meu amigo, que hoje nós
vamos a um baile.

LEO
Mentira sua. Não há nenhum baile hoje, na zona dos
vermelhos.

AMIGO
Na zona dos vermelhos, não. Mas na dos amarelos,
há...

LEO
Na dos amarelos? Bela novidade. A gente não pode
ir lá...

AMIGO
Acontece que é um baile à fantasia, seu bobo.
A gente pode fazer de conta que está fantasiado de
vermelho.

LEO
Cê tá é louco. Se os azuis descobrem, a gente está
perdido...

AMIGO
Tá legal. Se você não quer ir, eu vou. E você fica aí se
27
lamentando, enquanto eu me divirto. (Vai saindo)

LEO
Ei, espere aí. Quem foi que disse que eu não vou?
Eu disse que é perigoso. Mas quem não arrisca não
petisca...

AMIGO
Eu sabia que você ia topar.

LEO
Pois então...

LEO E O AMIGO
Baile das amarelinhas, aqui vamos nós! (Os dois ini-
ciam uma coreografia no proscênio, enquanto, no
resto do palco, se prepara o cenário para o baile)
Vamos correndo pra festa.
Vamos correndo, vamos correndo,
vamos correndo logo pra festa
que eu vou correndo,
vamos correndo pra festa.

O final da coreografia de Leo e do amigo se funde


com uma música lenta, tipo minueto. Os dois saem
de cena. No baile, algumas pessoas dançam. Entre
elas, a mãe de Lina, que termina de dançar com o
convidado 1. Ela é uma mulher muito afetada, exa-
gerada nos gestos e que pisa nos pés dos parceiros
quando dança.

28
CENA V

CONVIDADO 1
(Dando mostra de que seu pé foi bastante pisado)
Estou muito contente por poder estar aqui, partici-
pando de uma festa tão brilhante...

MÃE
O prazer é todo nosso.

CONVIDADO 2
Espero ter oportunidade de uma contradança com
Lina...

MÃE
Meu amigo, não se preocupe. Se Lina não puder,
terei imenso prazer em fazer-lhe a honra...

O convidado 2 olha para o convidado 1 como quem


diz: “E agora, como é que eu saio desta?” Entram
Lina e a amiga. A mãe se aproxima da filha.

MÃE
Ai, como está linda a minha filha! (Para a amiga) Não
é mesmo?

AMIGA
Hum, hum...

LINA
Ih, mãe, que bobeira. Deixe de ser coruja!
29
MÃE
Mas é verdade mesmo...

Entra um garçom.

GARÇOM
Dona Amarela, estão chamando a senhora lá den-
tro.

MÃE
(Para o garçom) Já vou, já, já. (Para os convidados)
Queiram me desculpar. Preciso me ausentar um pou-
co, mas voltarei logo, logo. Vocês fiquem à vontade.
Vou aproveitar para passar na cozinha e ver como
estão os docinhos, os salgados... Quero que tudo
saia às mil maravilhas esta noite. (Sai)

CONVIDADO 1
(Para Lina) Um encanto, a sua mãe.

LINA
(Sorrindo) Também acho. (Dá um gritinho) Ai! (Leva
a mão ao peito)

CONVIDADO 2
O que foi? Está sentindo alguma coisa?

LINA
Não foi nada, não. Não foi nada. (Para os convida-
dos) Com licença, um instantinho. (Puxa a amiga pela
mão e a afasta um pouco dos convidados) Olha, meu
coração está batendo mais forte agora. Tenho certe-
za de que vai acontecer alguma coisa hoje.
30
AMIGA
Não fica impressionada não, Lina. É por causa da
festa que você está assim.

LINA
Não é, não.

O convidado 1 se aproxima das duas. O convidado 2


sai de cena.

CONVIDADO 1
(Para a amiga) Vamos dançar?

A amiga olha para Lina. Esta faz sinal para a amiga


de que está tudo bem. A amiga se afasta com o con-
vidado 1. Num canto do palco aparecem Leo e o ami-
go, de máscaras, olhando cautelosamente o ambiente.

AMIGO
Puxa, como está cheio de gente!

LEO
E como está bonito!

AMIGO
É mesmo. Escute, Leo, vamos dar uma volta para
ver se tem muito guarda azul por aí? (Olha para Leo
e percebe que o amigo está estranho) Que que foi?
Você está sentindo alguma coisa?

LEO
Sabe, hoje eu fiquei o dia inteirinho achando que ia

31
acontecer alguma coisa diferente. Agora, tenho cer-
teza de que vai mesmo acontecer.

AMIGO
Ora, seu bobo. Já está acontecendo. Nós somos dois
vermelhos que vieram se divertir num baile dos ama-
relos.

LEO
Não, não é só por causa da festa que estou assim,
não... Hoje, o dia inteiro, meu coração estava esqui-
sito, batendo de um jeito diferente...

AMIGO
Ah, Leo, não inventa moda de coração assim, cora-
ção assado, tá? E vamos dar um giro por aí.

LEO
Não, eu vou ficar por aqui.

AMIGO
Tudo bem, se você prefere!... Daqui a pouco a gente
se vê. (O amigo sai)

LEO
(Sozinho, para o coração) E aí, seu pateta? Por que
é que você está batendo tanto assim?

Luz geral cai em resistência, deixando apenas Leo e


Lina mais iluminados, cada um numa extremidade
do palco. Os dois se olham, fascinados.

32
CENA VI

LEO E LINA
Quem é você
que faz bater assim meu coração?
Quem é você?

LINA
Sou o mar sem fim.

LEO
Flor em botão.

LEO E LINA
Quem é você?

LINA
Quem sou não sei, pois já não me conheço.

LEO
Eu sou assim,
como sempre sonhei ser,
mesmo sem saber.

LEO E LINA
Quem é você?

LINA
Te esperei a noite toda,
sem saber quem é você.

LEO
Te esperei a vida inteira
33
e agora que te vi
já sei quem é você...

LEO E LINA
É o amor que eu esperava sem saber
que viria esta noite com você.

LEO
(Meio sem jeito) Boa-noite. Eu vim... É... quer dizer...
Parabéns.

LINA
(Rindo) Muito obrigada.

34
CENA VII

Entra o garçom, trazendo suco de laranja. Quando


vê Leo, leva um susto e deixa cair a bandeja no chão.

GARÇOM
Meu Deus do céu! Um vermelho neste baile!

LEO
(Apressado) Eu não sou vermelho não, é fantasia.

GARÇOM
Ô susto! (Leo ajuda o garçom a se levantar e a pegar
a bandeja e os copos que caíram no chão)

LEO
Desculpe.

GARÇOM
(Bravo) Mas que idéia, se fantasiar de vermelho...

LINA
(Rindo) Pois eu acho gozada essa fantasia. Vai fazer
muita gente levar um susto danado.

LEO
(Aproveitando a deixa) Foi isso mesmo que eu pen-
sei quando escolhi fantasiar-me de vermelho. Foi só
para assustar os outros. (Para o garçom) Mas não
tinha intenção de fazer ninguém jogar bandeja no
chão. (Um pouco triste) Não pensei que vermelho
fosse tão feio.

35
LINA
Mas não é porque é feio, não. Ele se assustou por-
que é proibido a qualquer vermelho ir em festa de
qualquer amarelo.

LEO
(Para o garçom) Me desculpe mesmo, viu?!

GARÇOM
Olha, meu rapaz, eu sei aceitar uma brincadeira. Mes-
mo que eu não goste dela. E para provar isso, não
vou contar a ninguém que aqui no terraço tem uma
pessoa fantasiada de vermelho.

LEO
Isso mesmo. Não conte não.

GARÇOM
Vou continuar a servir lá dentro. Com licença.

O garçom sai. Leo e Lina começam a rir. Depois fi-


cam se olhando, meio sem saber como começar a
conversa.

LEO
Você vai achar que é mentira, porque nunca a tinha
visto antes. Mas agora que estou aqui, sei que hoje
esperei o dia inteiro o momento de te encontrar.

LINA
Sei que não é mentira não. Eu também te esperei.

36
Soam doze badaladas de relógio, indicando meia-
noite.

MÃE
(Na coxia) Lina, Lina. (Entrando afobadíssima) Ah,
minha filha, há uma hora que a procuro. O que você
está fazendo aí? (Vê Leo) Céus, um vermelho! (Dá
sinais de que vai desmaiar)

LINA
(Apressada) É fantasia, mãe, ele não é vermelho não.

MÃE
(Recompondo-se) Saiba, jovem senhor, que é de mui-
to mau gosto vir fantasiado de vermelho. Quase des-
maiei de susto.

LEO
(Sem graça) Desculpe, minha senhora. Queria as-
sustar só um pouquinho.

MÃE
Tudo bem. Já passou. (Novamente agitadinha) Ago-
ra, vamos lá para dentro. Já é meia-noite e está na
hora de todo mundo tirar a máscara. Vamos entrar.
Vamos, vamos...

A mãe sai, apressada. Leo e Lina permanecem em


cena. Tiram a máscara.

LINA
Xii, você é vermelho mesmo?

37
LEO
(Meio sem graça) É. Sou assim desde que nasci. E
você é amarelinha, né?

LINA
Sou, de nascença também.

Entra o amigo afobado.

AMIGO
Leo, vamos embora que está na hora de tirar as más-
caras E tem muitos guardas azuis por aí.

Só então o amigo repara que Leo está sem máscara


e, além disso, na presença de Lina. Olha os dois,
admirado.

LEO
Eu já vou. Se os outros me descobrirem, vai haver
problema.

LINA
Não, não vá ainda... Quer dizer, vá sim, é melhor.

Leo sai, todo triste.

LEO
(Voltando-se para Lina) Eu volto.

LINA
Vou esperar por você.

38
CENA VIII

Cai luz geral. Apenas um foco em Zé Preto. À medi-


da que ele fala, a luz geral vai voltando, iluminando
cenas em mímica de diversos encontros de Leo e
Lina, ao mesmo tempo em que os outros atores des-
montam a cena do baile.

ZÉ PRETO
Bom, acho que já está dando para vocês percebe-
rem a confusão toda que saiu daí. Pois não é que os
nossos dois amigos continuaram a se encontrar às
escondidas? (Cenas do encontro em mímica) E cada
dia ficaram gostando mais um do outro, cada dia mais,
e de um jeito tão bonito e tão grande que resolveram
se casar. (Cena do casamento em mímica) E se ca-
saram, sem que os guardas do rei ficassem saben-
do, sem que os amigos soubessem... E, passado al-
gum tempo, eles tiveram um filho. E foi aquele corre-
corre no país: um nenê com uma cor toda esquisita,
cor de laranja. O rei Azul ficou furioso.

39
CENA IX

O rei Azul invade o palco, seguido pelos guardas.

REI
Como? Nasceu um menino cor de laranja? Cor de
laranja? Oh, acho que vou ter um troço. (Vai des-
maiar. Os guardas também. Refaz-se. Os guardas
também se refazem) Não. Não. Não fica nada bem
um rei ter um troço. Vou apenas ficar com enxaque-
ca. Ui, que dor de enxaqueca, quer dizer, de cabe-
ça. (Põe as mãos na cabeça, os guardas o imitam).
Tragam imediatamente os culpados à minha pre-
sença.

Os guardas saem. Voltam com Leo e Lina. Colocam-


nos frente ao rei. Entram também a mãe de Lina,
que contém a custo a explosão de choro, e é ampa-
rada pelo garçom; o amigo de Leo e a amiga de Lina,
que assistem a tudo, assustados.

REI
(Para os guardas) Coloquem os dois mais longe,
por favor. (O guarda 1 afasta Leo. O guarda 2 afas-
ta Lina, em movimentos simétricos, fazendo um tri-
ângulo, do qual o rei é o vértice) Mais longe ainda.
(Leo e Lina são novamente afastados) Mais longe
ainda. (Leo e Lina são afastados mais ainda) Mais
longe ainda!!!

GUARDA 1
Se afastar mais, eles caem do palco, Majestade.

40
REI
Mas ainda estão muito perto e eu tenho medo de
que eles contaminem a pureza e a realeza do meu
sangue azul.

GUARDA 2
Tenho uma idéia. (Pega um binóculo e entrega ao
rei) Pronto, use isto.

REI
(Olhando pelo binóculo na posição em que as ima-
gens parecem muito próximas) Aiiiii!... Eles estão
mais perto de mim!

GUARDA 2
Não, Majestade. Vire o binóculo ao contrário.

REI
(Virando o binóculo) Ah, esta distância está ótima, per-
feita. (Para Leo e Lina) Então, senhores, muito bonito!
Desobedecendo às ordens reais. (Furioso) E posso
saber a razão, o motivo dessa desobediência?

LEO
Senhor...

REI
(Interrompendo Leo) O quê? Ousa me contestar? Va-
mos, digam, por que desacataram minhas ordens?

LEO
Senhor, é que...

REI
(Interrompendo novamente) É o cúmulo, um absur-
41
do. (Olha para Leo) Malcriado. (Para a platéia, so-
frido) Vocês são testemunhas do doloroso desaca-
to à autoridade por que acabo de passar. (Para os
dois) Pois fiquem sabendo que vocês serão sepa-
rados para sempre. Assim é que serão tratados to-
dos aqueles que desobedecerem às ordens reais.
E o filho de vocês será condenado à masmorra, onde
viverá para o resto da vida. (Para a platéia) Estou
agindo certo, não estou? (Para os dois) Viram? Eles
também concordam comigo. (Para os guardas) Le-
vem esses dois.

Os guardas seguram Leo e Lina e os levam para fora


de cena. A mãe quer ir atrás, mas é contida pelo gar-
çom. Os dois, mais os dois amigos, ficam arrasados.
Entra uma marcha pesada. Os guardas voltam, mar-
chando compassadamente. Executam uma coreogra-
fia que lembra a brincadeira de boca-de-forno.

GUARDAS
Somos amigos do rei,
fiéis seguidores da lei.
Seu rei mandou, nós fazemos.

MÃE E AMIGA
E se não fizerem?

GUARDAS
Apanharemos todos.
Nosso rei é o mais sabido
dos homens que há aqui.
Tem seu povo dividido
E a nós para o servir.
42
MÃE, AMIGA E AMIGO
E se não fizerem?

GUARDAS
Apanharemos todos.
E quem desobedece
às ordens do nosso rei,
a masmorra ele merece.
Isso sim, isso sim é que é lei.

MÃE, AMIGA, AMIGO, GARÇOM


E se essa lei acabar?

GUARDAS
Apanharemos todos.

A marcha dos guardas vai crescendo até ser cortada


bruscamente. Blecaute. Todos saem de cena. Faz-
se total silêncio. Sob um foco de luz, entra Zé Preto,
meio desenxabido...

43
CENA X

ZÉ PRETO
O tempo passa e conserta
muito do que está errado.
Mas às vezes arrebenta
o que estava consertado.
No caso de Leo e Lina,
o tempo também passou.
Cada um seguiu sua sina.
O filho, o Alaranjado,
foi viver lá na masmorra.
Mas ele não estava só,
estava bem acompanhado.
Vejam só.
(Olhando para a platéia) Mas antes que eu mostre
para vocês com quem vivia o Alaranjado, queria per-
guntar uma coisa: vocês sabem o que é masmorra?
Puxa, é um lugar feio, triste, onde as pessoas ficam
trancadas... Não é nem bom pensar!... Mas como eu
dizia, o Alaranjado não vivia só. Outras pessoas es-
tavam lá na...... brrrrr..... masmorra.

44
CENA XI

ALARANJADO
Puxa, hoje foi um dia duro. Tive de pintar uma por-
ção de laranjas, abóboras, tangerinas... E você, Ro-
xinho, como foi seu dia?

Roxinho é um cara triste, meio revoltado.

ROXINHO
Como sempre. A única coisa que me deixam pintar é
caixão e flor de defunto. E marca de beliscão. Não
agüento mais essa vida...

VERDE
Eu fico louco para chegar o outono e o inverno. Por-
que, nessas épocas, o meu trabalho diminui muito,
tenho muito menos folhas para colorir.

ALARANJADO
Sabe uma coisa que não entendo? Por que é que a
gente que pinta quase tudo que tem no nosso reino é
obrigado a viver fechado aqui dentro? Por que nós não
podemos brincar com as coisas que a gente pinta? Por
que não podemos correr na grama tão gostosa que
você, Verdinho, coloriu? Acho que isso não está certo.

ROXINHO
Eu também acho. Aliás, um dia, quando estava pen-
sando nisso, chamei o guarda e perguntei pra ele.
Sabe o que ele respondeu?

ALARANJADO E VERDE
Conte, conte logo...
45
ROXINHO
Ah, tentem adivinhar...

VERDE
Não enrole, Roxinho, fale logo.

ROXINHO
(Contente porque se tornou o centro das atenções)
Mas tentem adivinhar, pelo menos.

ALARANJADO
Ande, Roxinho, fale de uma vez.

ROXINHO
(Sem graça) Tá bom, eu falo. Mas que vocês podiam
tentar adivinhar, isso podiam. (O Verde faz menção
de avançar nele e aí o Roxinho se apressa em con-
tar) Ele disse que não sabia. Disse que estava aqui
apenas para guardar a gente e não para responder
pergunta boboca de Roxinho. (Alaranjado e Verde
começam a rir). Sem educação ele, né?

ALARANJADO
Ah, primo, você é uma bola.

VERDE
Primo, por que primo?

ALARANJADO
Então você não sabe que ele é filho de um vermelho
com uma azul?

ROXINHO
É.
46
VERDE
Puxa, então nós somos parentes também, porque
eu sou filho de um azul com uma amarela.

ALARANJADO
Verdade? Então você também é meu parente, por-
que eu sou filho de uma amarela com um vermelho.

Eles se abraçam bem contentes. Entra correndo o


marrom.

MARROM
Pessoal, acabo de saber de uma coisa incrível. O rei
Azul está doente, muito doente e está precisando re-
ceber sangue. Acontece que os azuis foram viajar para
pintar o céu da primavera. Não ficou nenhum azul por
aqui. O rei até mandou chamar um médico vermelho.

ALARANJADO
Ah, então é por isso que os guardas amarelos é que
estão guardando a gente?!

MARROM
É. E o rei resolveu lá com o médico que vai chamar o
Verde para doar sangue para ele.

VERDE
Eu? Por que eu?

MARROM
Ora, porque de todos nós, você é quem tem mais
sangue azul.

47
ROXINHO
Por isso não, que eu também tenho.

MARROM
Pois é, o médico vermelho até lembrou isso ao rei.
Mas o rei respondeu que você só serve para pintar
caixão.

O Roxinho se entristece.

VERDE
Não tem essa de só pintar caixão, Roxinho! Eu já sei
o que vou fazer. O rei está doente, não está?

TODOS
Está.

VERDE
Precisando de sangue, não é?

TODOS
É.

VERDE
Pois eu não vou doar.

ROXINHO
Como?

VERDE
É isso mesmo. Não vou doar.

MARROM
Mas ele te mata, se você fizer isso.
48
VERDE
Azar o dele. Vai ficar sem folhas nas árvores, sem
grama, sem gafanhoto...

ALARANJADO
Mas ele não pode ficar sem árvores.

ROXINHO
É isso mesmo. Se não tem árvores, não tem ar puro.
Sem não tem ar puro, tem poluição. (Ele fala a pala-
vra poluição como se fosse a pessoa mais bem in-
formada do mundo) E se tem poluição muito poluída,
ele morre do mesmo jeito. E daí, eu vou caprichar no
roxo do caixão dele.

ALARANJADO
Deixe de ser tonto, Roxinho. Se ele morrer de polui-
ção, nós morremos também.

MARROM
É isso mesmo. Todos nós precisamos do Verde.

VERDE
Mas será que vocês não perceberam?

ALARANJADO
O quê?

VERDE
Todos nós precisamos de nós todos. Se o Marrom não
existir, quem é que vai colorir os troncos das árvores?
E se as árvores não tiverem troncos, como é que vão
ter folhas? Se não existir o Alaranjado, como é que o

49
sol vai se pôr? E se o sol não se puser, como virá a
noite?

ALARANJADO
Puxa vida, nunca tinha pensado nisso... Todos nós
precisamos de nós todos.

TODOS
Como é bom saber
que você precisa de mim
como eu preciso de você.
Como é bom saber
que você não existe sem mim
e eu não existo sem você.

VERDE
Eu sou o Verde,
a cor da esperança,
mas não existo sem vocês.

MARROM
Eu pinto a terra,
a cor da madeira,
montanhas, serras,
mas não existo sem vocês.

ROXINHO
Sou todo feio,
desajeitado.
Só pinto a morte,
sou um pobre coitado.

ALARANJADO
Pois de hoje em diante,
50
Roxinho querido,
muita coisa elegante
você vai pintar.
Novas frutas, vamos inventar.
Você vai pintar o recheio do figo,
a uva gostosa,
e mais eu lhe digo:
mil flores bonitas
– violetas, azaléias,
rosas, primaveras...

TODOS
E da nossa união
outras cores virão.
Um mundo bonito
nós vamos pintar,
um mundo que vai
nos agradar.

Eles dançam, com alegria, uma música envolvente.


Ouve-se o barulho dos passos do guarda amarelo.

GUARDA AMARELO
Verde, sua Majestade o chama. Venha depressa.

A entrada do guarda corta a alegria das cores. Todos


ficam meio assustados, como se tudo que tivessem
vivido juntos não passasse de um sonho.

VERDE
(Reanimando-se) Não se preocupem, tudo sairá bem.

51
CENA XII

Luz na boca de cena por onde passam o guarda ama-


relo e o verde. As outras cores vão saindo devagar,
enquanto o guarda e o Verde caminham.

GUARDA
Sabe, Verdinho, eu estava perto da porta ouvindo a
conversa de vocês. Poxa, você teria mesmo cora-
gem de deixar o rei morrer?

VERDE
Fala a verdade, ô guarda. Você não está preocupa-
do com o rei. Está é com medo de morrer também,
sem árvores, sem frutos...

GUARDA
Ô, Verdinho, o que é isso... Eu não tenho nada con-
tra você. Você não vai fazer uma coisa dessas...

VERDE
Ô, se vou. E meus amigos todos lá da masmorra
também.

GUARDA
Que é isso, Verdinho!...

VERDE
Você ajuda o rei a nos manter presos.

GUARDA
Mas são ordens. Não é porque eu quero. Eu sou seu
amigo.
52
VERDE
Pois então faça o que você quer, e não o que o rei
quer, que nós saberemos que você é nosso amigo.

A luz da boca de cena se apaga. O Verde e o guar-


da saem. Num canto do palco, um foco sobre Zé
Preto.

53
CENA XIII

ZÉ PRETO
E lá se foi o Verdinho com o guarda para falar com o
rei. No fundo, ele estava bastante assustado... Mas
não tinha medo, porque sabia que lá na masmorra
todos contavam com ele e todos torciam para que
tudo desse certo. No meio do caminho, o Verde já ia
pensando como é que ele devia falar com o rei.

O foco se apaga sobre Zé Preto. Durante a fala, foi


montado o quarto do rei, no meio do palco. Assim
que Zé Preto termina sua fala e o foco sobre ele se
apaga, acende-se uma geral com predominância de
luzes azuis. O rei está deitado sobre uma cama. Ao
lado dele, o médico vermelho.

54
CENA XIV

REI
Verde, chamei-o aqui porque as árvores do reino es-
tão muito bonitas, muito viçosas, as folhas bem colori-
das... Você tem trabalhado bem. Assim sendo, resolvi
conceder-lhe a grande honra de doar-me um pouco
de seu sangue.

VERDE
Muito obrigado por todos os elogios, Majestade. Agra-
deço muito mas não posso aceitar a homenagem.

REI
Pode sim, eu deixo.

VERDE
Não, não posso não.

REI
Pode sim, já disse.

VERDE
Acontece que não quero.

REI
Como não quer? Por acaso você, um reles verde,
uma mísera cor derivada, uma mistura, tem querer?

VERDE
Tenho sim. E não só eu, Majestade. Todos os meus
amigos que estão lá na masmorra também têm que-
rer.
55
REI
É o cúmulo. Pois então eu lhe ordeno que me doe
sangue.

VERDE
E eu não obedeço à ordem.

REI
Oh! Acho que estou sonhando... Só pode ser pesa-
delo. (Se belisca)

VERDE
Não, Majestade. Não é sonho. Só concordo em lhe
doar sangue se o senhor aceitar o que vou lhe pro-
por: todas as cores deverão viver em liberdade.

REI
Acho que desta vez eu tenho um troço!

VERDE
E tem mais: todos poderão se casar livremente, in-
dependente das cores que eles tenham.

REI
Isso nunca!

VERDE
E mais ainda: Vossa Majestade precisa tanto do meu
sangue quanto do meu trabalho e do trabalho de to-
dos os meus amigos. Se Vossa Majestade não acei-
tar minhas condições, eu e todos os meus amigos
deixaremos de trabalhar. E sem árvores e sem fru-
tos, Vossa Majestade morrerá de todo jeito.
56
MÉDICO VERMELHO
Majestade, é melhor aceitar, senão, sem sangue, Vos-
sa Majestade vai morrer.

REI
Pois prefiro a morte. Guarda!!! (O guarda não reage,
atarantado com a atitude do Verde) Guarda!!! (O guar-
da acorda) Leve-o para a masmorra!

MÉDICO VERMELHO
Mas, Majestade...

REI
Já disse, (Começa a choramingar) prefiro a mor...
Verdinho!!!!!!!!

O guarda e o Verdinho, que já estavam quase fora


de cena, param.

VERDE
Vossa Majestade me chamou?

REI
Chamei sim. Para lhe dizer que você é um chanta-
gista, um embrulhão, um verde muito sujo e que...
não tendo outro jeito, né?! Sou obrigado a aceitar
suas condições.

VERDE
(Eufórico) Puxa vida, que bacana. Custou, hein, Azul?
Mas você não vai se arrepender. Quando todos nós
estivermos em liberdade, o mundo será lindo. Você
terá netos lilases...
57
REI
(Com horror) Ó, eu com neto lilás. (Pensando me-
lhor) Lilás. (Já enlevado) Lilás...

VERDE
E de muitas outras cores. Tudo será lindo e colorido!
CENA FINAL

À medida que se processa a “transfusão de sangue”,


todas as cores vão entrando em cena. Zé Preto, por
ter contado a história, também participa. Afinal, ele
foi um elemento importante para a união delas. O
tom de luz da cena é branco.

ROXINHO
(Bem atiradão) E de todos nós juntos nascerá o bran-
co que será o símbolo da nossa união.

O casal que fez Lina e Leo entram, vestidos de bran-


co.

TODOS
O nosso reino ficou bonito,
agora é só alegria.
E todos nós trabalhamos juntos,
sorrindo, cheios de alegria.
Pois tudo o que nós fazemos
é nosso, nosso e de ninguém mais.
Nós mesmos nos governamos,
por isso aqui reina muita paz.
E quem quiser vir nos visitar
dê a mão para o seu vizinho.
E que este então vá chamar
bem depressa um outro vizinho.
E todos juntos então veremos
que assim é que é bom viver:
de mão na mão, coração aberto.
Assim é que tem que ser.
Bom-dia, boa-tarde, boa-noite,
senhoras, senhoritas e senhores.
Até logo, voltem sempre,
nós estamos à sua espera,
neste reino alegre que
é nosso e seu também, amigo.

60
A autora
Gabriela Rabelo nasceu em Belo Horizonte, MG. Iniciou
suas atividades artísticas no teatro universitário, da Uni-
versidade Federal de Minas Gerais. Em São Paulo, cida-
de onde mora até hoje, estudou teatro na Escola de Arte
Dramática, e filosofia, na Universidade de São Paulo.
Em 1967, estreou como atriz no Teatro de Arena e, em
1970, tornou-se professora. A atividade didática estimu-
lou-a a escrever, abrindo-se assim uma nova frente de
reflexão e de trabalho: a dramaturgia. Atualmente concilia
as três atividades – atriz, professora e dramaturga.
Em teatro, entre outros trabalhos, atuou em Bella ciao,
Uma lição longe demais, Artaud – o espírito do teatro,
Escola de mulheres, Auto de Natal, Mockinpott, Ana Paz,
Frida e A sopa de pedra. Em televisão, escreveu para o
programa Bambalalão, da TV Cultura, e atuou como atriz
em O julgamento e O profeta, da antiga TV Tupi, em O
jogo do amor, do Sistema Brasileiro de Televisão (SBT),
em O piano e A grande cidade, especiais da TV Cultura, e
em diversos episódios de Retrato falado, da TV Globo.
Publicou Uma história pelo avesso e outras histórias, vo-
lumes 1 e 2, A obra-prima e A flor maior, FTD, SP, e Trono-
docrono, em parceria com José Rubens Siqueira, Compa-
nhia das Letras, SP.
Como atriz de teatro e dramaturga, recebeu diversos prê-
mios importantes e entre eles estão o Molière, Apetesp,
Mambembe e APCA.
Estreou no cinema com Ocorrência no 642/67, filme dirigi-
do por José Rubens Siqueira, em 1967, recebendo, por
sua atuação, o prêmio de melhor atriz no Festival de Cine-
ma JB/Mesbla.
O ilustrador
Luiz Maia nasceu em Sabará, MG, em 1954. Artista plás-
tico e ilustrador, começou sua carreira em Belo Horizonte.
Participando de grupos teatrais, trabalhou como ator, ce-
nógrafo, figurinista... Expôs desenhos, colaborou em jor-
nais e revistas, participou de salões de arte no Brasil e no
exterior. Em 1991 recebeu o Prêmio Jabuti, na categoria
ilustrações. Mora atualmente em São Paulo.
A ilustração de capa deste livro foi criada
especialmente para esta coleção,
em bico-de-pena e guache.
Miolo impresso em papel off-set 75 g/m2
e capa, em papel cartão 250 g/m2.