Você está na página 1de 83

SINAPSES ELÉTRI NEURÔNIOS PARA CURAR

Como milhões de inform ~lrnoc- ~eurogênese pode ser


transitam a cada instante importante aliada na luta
em nossa cabeça contra depressão e Alzheimer
NEUROCIÊNCIA PRÁTICA MAPEAMENTO CEREBRAL
Usar bem os recursos Controvérsias sobre a precisão
neurológicos mantém memória e a utilidade dos exames de
e raciocínio ágeis por mais tempo ressonância magnética funcional Lc....-..~;...c;;;<t=--~~~-~~
EDITORIAL

UNIVERSO PARTICULAR
N ão se ri a exagero di zer que cada um de nós
c arrega d e ntro da cabeç a um peque no uni-
verso , o nde trilhões de cé lulas se dese nvolvem
tecnologia (e nfocando surpreendentes avanços da
c iê nc ia , com o a utilização d e n europró teses, com
o obje tivo de restituir habilidades neurológicas); e
e se c o municam com uma velocidade de frações falsas c re nças (apresentando mitos cienti ficame nte ·
de se gundos, reve lando de m ane ira concreta e in fundad os sobre o func io name nto cerebral, que
profund ame n te so fi s ticada um á p ice da evolu- durante décadas pe rdu ra ram - que m não ouv iu
ç ão. Afin al, o cé re bro é, de lo nge, o ó rgão mais falar, em algum mo me nto, que só usam os I 0 % de
c omplexo , fa scinante -- e ainda mi sterioso - d o nossa capac idade me ntal?).
corpo humano. Numa é poca e m que a expec - Os 14 artigos a prese ntam um pano ram a do
tativ a d e v ida aum e ntou se nsive lme nte e o fan - q ue se sabe h oje a respe ito desse peque no ó rgão
tasm a da senilidade ro nda h omens e mulhe res, - e paradoxalme nte ime nso . Po rém, ab ordar um
parece prem e nte e reconheci dame nte útil fazer assun to tão ampl o, c o m tantos desd o brame ntos,
as pazes com nossos neurô nios e sin apses, usu- nos ob rig a a to m ar decisões editoriai s impo rta n -
fruindo d e les d a fo rma mai s saudáve l e prazerosa tes, como , por exempl o , abrir mão (pelo me nos
possível. N ão po r ac aso , com ta nta fre qüê nc ia nes te momento) d e aprese ntar textos sobre pa-
nossos le ito res nos solic itam in fo rm ações ace rca tologias d o cérebro - assunto, aliás, já abo rdado
das nov ida d es ne uroc ientíficas - e da me lh o r no Es peci al n.0 5, mas sobre o qual certame nte
mane ira de a fa star d oenças com o Al z h e ime r e teríamos mais a falar. Enfim , quando nos voltamos
seqüel as de acide ntes cere bra is. para um universo in teiro , é inevitável que haj a
Para es te número espec ial reunim os arti g os um recor te, um a esco lha. A boa notíc ia é que
publicados e m Mente&Cérebro e os organizamos esse paine l o fe rece uma visão ampla para outros
seguindo c inco g ra ndes temas gerai s: neurogênese e nfoques que serão traz idos em breve.
" (sobre a pla s ti c idade cere b ra l); mai s e me lhor Bo a le itura .
g (aborda d escobertas das neurociê nc ias que apo n-
~~ tam posturas e com portame ntos que nos ajudam
~ a ter um a v ida me n ta l ma is saudável e produtiva
~ po r mai s tem po) ; a natomia e func io name nto (a G láucia Leal, editora
o res pe ito d e m eca ni s mos e fun ções c erebrai s); g laucialeal@ duettoed itoria l.com. br

www.mentecerebro.com.br 3
SUMÁRIO
CAPA: O ANDRZEJ DUDZINSKVSPL/lATINSTOCK
Com colorizaç3o de Simone O. Vieira

ANATOMIA/ FUNCIONAMENTO ...........................................


6 A nova era
das neurociências
LUCIANA CHRJSTANTE
36 O manto da consciência
HE1Jv1LIT WICHT
Durante mais de um O córtex ocupa cerca de metade do volume cerebral;
século acreditou-se dele dependem nossas funções mais elaboradas, como a
que a estrutura cerebral capacidade de ler e compreender um texto
do adulto era praticamente
imutável; só recentemente
estudos comprovaram
sua capacidade de renovação
42 O papel do cerebelo
) AMES M. BowER E lAWRENCE M. PARSONS
Durante muito tempo considerado apenas o coordenador
NEUROGÊNESE .................................................................... encefálico dos movimentos corporais, sabe-se hoje que
o cerebelo participa ativamente de várias atividades
1O Para crescer e multiplicar cognitivas e perceptivas
JOSÉ MARIA FRADE L6PEZ
A descoberta dos fatores de crescimento neuronal,
ou neurotrofinas, foi um marco na história recente
das neurociências; nesse percurso, o brasileiro
48 Células esquecidas
CLAUDIA K REBS, K ERSllN
Carlos Chagas Filho deixou sua contribuição H üTIMANN E CHRISllAN
STEINHÃUSER

16 Em construção
Depois de décadas de "desprezo"
pelas células gliais, neurocientistas
MARCUS DO Rio TEIXEIRA
agora dizem que elas podem ser
Os bebê tem cerca de I00 bilhões de neurônios; durante seu
quase tão importantes para o
desenvolvimento, esse número praticamente não se altera,
pensamento quanto os neurônios
mas novas sinapses se formam. Nessa fase, dormir, acordar,
chorar e mamar acarretam intensa atividade cerebral
52 O brilho das sinapses
20 Como nascem os neurônios RoLF D ERMIETZE
Nem todos os contatos entre células neurais repassam
PAOLA EMIUA ÜCERONE
informações através de transmissores químicos. Em alguns
Entender como se dá e para que serve a
casos, a comunicação ocorre por meio de estímulos de
neurogênese permitirá compreender melhor
eletricidade
mecanismos da memória e de doenças como
depressão e Alzheimer, além de abrir caminho
para novos medicamentos e terapias 56 O local do crime
DANIEL STRüBER, MONIKA
MAIS E MELHOR .................................................................... LücK ECERHARD RoTH
Lesões cerebrais graves
26 Novepassos para ocorridas na infância podem
um cerebro mais inteligente provocar comportamento
SUZANA H ERCULANO-HOUZEL agressivo; mas é a
Neurociência oferece informações preciosas sobre nove combinação de fatores
atitudes fundamentais para melhorar- e, sobretudo, neurológicos e psicossociais
manter - a qualidade de vida que costuma ser perigosa

4 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


www.m entecere bro.com.br
DIRETOR GERAL. Edimilson Cardial
DIRETORA DO GRUPO CONHECIMENTO:
Ana Claudia Ferrari

ESPECIAL DESVENDANDO O CÉREBRO

REDAÇÃO MENTE&CÉREBRO
(redacaomec@duettoeditorial.com.br)
TECNOLOGIA ............................... . EDITORA: Gláucia Leal
EDITORA-ASSISTENTE: Flávia Ferreira

64 limites da imagem
EDITORA DE ARTE: Simone Oliveira Vieira
ASSISTENTE DE ARTE: Bruno Carli
PESQUISA ICONOGRÁFICA: Silvia Nastari (coordenação),
M ariana Carneiro e M aria Carolina Ribeiro
DAVID D O IJBS
REVISÃO: Laura Rocha e Luiz Roberto Malta
A cont rovérsia sobre a ASSISTENTE DE REDAÇÃO: Elena Regina Pucinelli
ASSISTENTE DE PRODUÇÃO GRÁFICA: M oysés de Jesus
precisão e a utilidade dos TRATAMENTO DE IMAGEM: Carina Vieira e Cintia Zardo
resultados da ressonância
magnética funcional (fMRI)
Spektrum d er Wissen schafl
questiona a equivalência Verlag sgesellschaf t, Slevogtstr. 3-5
69126 Heidelberg, Alemanha
entre mente e cérebro EDITOR: Carsten Konneker
DIRETORES-GERENTES: Markus Bossle e Thomas Bleck

Mente&Cérebro é uma publ icação da Ediouro,


Segmento-Duetto Edi torial lida., com conteúdo
internacional fornecido pela G&G, sob licen ça d e

72 Soluções hightech
Sclentific American, Inc.
Rua Cunha Gago, 412 - cj. 33 - Pinheiros - São Pau lo, SP
CEP: 05421 -001 - Tel.: ( 11) ) 2713-8150
FRANK W. 0 HL Fax: (11) 27 13-8197
Usadas atualmente em algumas
condições clínicas, no futuro as
neuropróteses devem recuperar COM ITÊ EXECUTIVO
funções cerebrais mais complexas; Jorge Carneiro, Luiz Fernando Pedroso,
Lula Vieira e Edim ilson Cardial
a possibilidade, porém, ai nda causa
PUBLICIDADE EPROJETOS ESPECIAIS
estranhamente em muita gente (publicidadeconhecimento@duettoed itori al.com.br)
GERENTE: Rob erta Palm a
EXECUTIVOS DE CONTAS: M auricio Luciano e
Walter Pinheiro
(publicidademec@duettoeditorial.com.br)

76 Pensamento eletrônico
MARKETING
DIRETOR: Lula Vieira
GERENTE: Rita Teixeira
YVONNE RAUEY ASSISTENTE: Juliana Mendes

Novos programas de inteligência OPERAÇÕES


DIRETORA : Ana Carolina Trannln
artiRcial se inspiram em redes
neurais humanas. Algum dia as CIRCULAÇÃO E MARKETING
A ssinaturas e Novos Canais
máquinas realmente serão capazes GERENTE:jary Camargo
SUPERVISÃO: A nton •o Carlos de Abreu (vendas pessoais)
de pensar? e Viviane Tocegui (cen tral de relacionamento)
ASSISTENTE: Fernanda Ciccarelll
Bancas e Vendas Avulsas
G ERENTE: Carla Lem es
FALSAS CRENÇAS ........................................................................................ NÚCLEO M ULTIMÍDIA
GERENTE: Mariana M onné
REDATO RA: Sabrina Wenzei
WEB DESIGN ER: Rafael Gushiken

80 A queda dos mitos CONTROLA DORIA E FINANÇAS


GERENTE FINANCEIRA: Miriam Cord eiro
Scorr O. LIUENFELD E H AL ARKOWITZ
CENTRAL DE ATENDIMENTO AO ASSINANTE
O psicólogo Barry L. Beyerstein, BRASIL: (11) 2713-8100
(atendimento@duettoeditorial.com .br)
morto em 2007, ajudou a derrubar NOVAS ASSINATURAS
(a~endim ento@duettoeditorial.ç_om . br)
fa lsas crenças - como a de que a NU MEROS ATRASADOS E EDIÇOES ESPECIAIS:
(ww w .lojaduetto.com.br)
maioria das pessoas usa ape nas um
décimo de sua capacidade mental Edição Especial n° 19, ISSN 1B0 7-1562. Dist r ibuição com
exclusividade para todo o BRASIL: DINAP 5.A. Rua Dr.
Kenkiti 5himomo to, 1678. Núm eros avul sos podem
ser solicitados ao jornaleiro, à central d e atendimento
ao l eitor pelo t el. (11) 2713-8100, o u no slte www.
iojaduetto.com.br, ao preço d a última edição acrescido
do cu sto d e post ag em .
IMPRESSÃO: Edio uro Gráfica

DIRETOR RESPONSÁVEL: Edimilson Cardial


A idéia de os tempos de Cajal, mas não ul tra- parte dos pesquisadores em relação a ciência demorou tanto tempo
passou o limiar do século XXI. A à neurogênese em mamíferos. E os para se dar conta.
que nascemos idéia de que nascemos com uma estudos com animais de parentes- Como será visto nas próximas
com uma quantidade fi nita dessas células, co mais próximo permaneceram páginas, a base da neurogênese
portanto, é coisa do passado . controversos, di luindo-se em está na existência de células-
quantidade Novos neurônios são produzidos debates metodológicos que, em tronco neurais. Isto por si só já
finita de células ao longo da vida. parte, ocultavam a resistência dos aguça a curiosidade de qualquer
Impossível apontar a data cientistas em contrariar um con- um sobre a possibilidade de tra-
neurats e cotsa
o " o

exata dessa descoberta, porque o ceito tão arTaigado na sua form a- tame ntos para doenças neuro-
dogma foi ruindo aos poucos. Re- ção cientíAca. A sombra de Cajal degenerativas, como Alzheimer
do passado; latos ocasionais de neurogênese pesava sobre todos eles. e Parkinson; psiquiátricas, como
hoje cientistas em mamíferos foram ft:itus ainda depressão e esquizoh·enia; e lesões
na primeira metade do século XX, Promessas e dúvidas resultantes de acidente vascular
sabem que mas as técnicas rudime ntares da Já com rachaduras expostas, o cerebral e rompimento da medula
elas surgem época não perm itiam conclu ir dogma central das neurociências espinhal, por exemplo.
se se tratava mesmo de novos sofreu novos abalos ao longo De fat o, a pe rspectiva é
durante toda neurônios ou de novas células da dos anos 90, com uma grande muito promissora, mas é preci-
a vida glia (que dão suporte e fornecem qua ntidade de estudos que de- pitado, para não dizer ingênuo,
nutrição aos primeiros, mas não monstraram neurogênese em esperar que esse tipo de terapia
transmitem informação neural). áreas específicas do cérebro de esteja disponível a curto prazo.
Evidências mais só lidas, roedores e primatas. O golpe de Será possível estimular as célu-
obtidas por meio de procedi - misericórdia veio em 1998 com las-tronco neurais de um pacien-
mentos mais avançados, surgiram a publicação de um experimento te para que migrem para outra
entre as décadas de 60 c 80, prin- coordenado por Fred H. Cage, do região do cérebro e substituam
cipalmente em aves, demonstran- Insti tuto Salk de Estudos Biológi- neurô nios perdidos ou afetados
do que a neurogênese é essencial cos em La Jolla, Califórnia, que por alg uma doença;> O u será
para o aprend izado musical de encontrou novos neurônios no mais viável cu ltivá- las iu vitro ,
alguns pássaros. Na estação re- hipocampo do cérebro de seres transformá-las em neurônios e
produtiva, milhões de neurônios humanos adultos. É o pró prio depo is transplantá- las para o
são adicionados ao cérebro des- Cage quem explica, no artigo da cérebro lesio nado ou doente?
ses animais, particularmente no página 24, como e onde surgem Q uem garante que essas células
hipocampo, onde se processam essas células, sua função dentro transplantadas vão se comportar
FALTAM memória e aprendizagem. da maquinaria neural, seu papel na da forma espe rada, que não
CROMOSSOMOS em
alguns neurônios,
Embora os resultados fossem memória e no aprendizado, entre vão morrer assi m que entrarem
como mostra este irrefutáveis, a distância filogenética outros detalhes fasci nantes per- em contato com o novo meio?
cariótipo espectra l alimentou a incredulidade de boa petrados pela evolução, dos quais Essa é uma amostra ínfima das
perguntas que prec isa m se r
respo ndidas por meio de expe-
rimentos in vitro e em animais. E
é isso que está sendo feito inces-
santemente po r c ientistas nos
quatro ca ntos do mundo.

Alteração genômica
O Brasil é pródigo em estudos
tanto de neurociências como de
células-tronco. Stcvens Kastrup
Rehen, apesar do nome, é um
carioca cujas linhas de pesqui-
sa integram essas duas áreas.
Coordenador do Laboratório de
PRIMEIRAS evidências
convincentes de
neurogênese foram
obtidas em aves

Neurogênese e Oi ferenciação
Celular da Universidade Federal
do Rio de Janeiro (UFRJ ), ele
trabalha para descobrir como precisamente 46 cromossomos,
transformar células-tronco em- e qualquer alteração neste nú-
brionárias em populações homo- mero sempre esteve associada
gêneas de neurônios. Preocupado a patologias. Um exemplo é a
com a ex pectativa c ri ada na síndrome de Down, em que o
op ini ão públi ca sobre a ap li- cromosso mo 2 1 se aprese nta
cação desses co nhecime ntos com três cópias, em vez de duas. lha com entusiasmo. E felizmente
na mediei na regenerativa , es- Células de tu mores ta mbém não está sozinho. Além do Rio
creveu o Iivro Célulns-tronco - costumam ter cópias extras de de Janeiro, estudos importantes
Oquesiio? Pnm l(ueseroem?, publicado determinados cromossomos. nessa área também são desenvol-
pela Vieira&Lent. Em 2005, quatro anos depois vidos em diversos outros pontos
Entre 2000 e 2005 , Rehen da publicação do primeiro arti- do país, como São Paulo, Minas
trocou o Brasil pela Califórn ia, di - go que provava a ancu ploidia Gerais, Paraná, Rio Grande do
vidindo seu pós-doutorado entre no cérebro de camundongos, Sul e Bahia, ai nda que as con-
o Instituto Scripps em La Jolla e Rehen demo nstrou que o fe- di ções de financiamento aqui
a Universidade da Califórnia em nômeno ocorre em um número não sejam exatamente douradas
San Diego. De início ele estava significa tivo dos neurônios de como as da Califórnia.
interessado em algumas altera- pessoas saudáve is, indicando
ções genômicas que pareciam que perder ou ga nhar cromos- Planeta distante
ocorrer du rante a diferenciação somos {mas sobretudo perder) Com um telescópio casei ro ,
de células-tronco em neurônios. deve fazer parte do processo de Gali leu repensou o céu e fez
Seus experimentos, no entanto, dife renciação neuronal. uma revolução, apesar de ter sido
não estavam saindo conforme o De volta ao Rio de Janeiro necessário esperar instrumentos
previsto porque algumas células há três anos, o objetivo do pes- mais potentes para redesenhar
resul ta ntes eram aneuplóides, quisador carioca é controlar a o mapa celeste. Talvez nossos
isto é, ti nham mais ou menos do aneuploidia em células-tronco telescópios ainda sejam precá-
que 46 cromossomos, o número embrio nárias huma nas, tanto rios para compreender toda a
esperado para qualquer célula do para induzir a diferenciação neu- complexidade da neurogênese,
organismo. Repetiu os testes, fez ronal como para evitar a gênese mas nin guém mais duvida de
alterações para tentar descobrir de tumores. Além disso, dentre que ela existe de ntro da cabeça
onde es tava errando , até que todos os cromossomos, ele está de cada um. Usá- la para aliviar
começou a desconfiar que a aneu- de olho principalmente no 2 1, o sofrimento das pessoas ainda
ploidia poderia ser um fenômeno não apenas por causa da síndro- é como a im age m desfocada
normal da diferenciação neuro- me de Down, mas porque ele está de um planeta cuja distância é
nal. Não é raro um cientista mirar relacionado também à doença de incerta, mas não intransponível.
o que vê e acertar no que não vê. Alzheimer. É ali que se localiza Com o que já foi fei to no últi -
No entanto, derrubar um dogma o gene do precursor da proteína mo século, a perseverança dos
da biologia, como nesse caso, não betaami lóide, razão pela qual to- cientistas, o contínuo aprimo-
é algo que ocorre todo dia. das as pessoas com síndrome de ramento dos métodos e, claro,
A descoberta surpreendeu a Down desenvolvem Alzheimer investimentos permanentes em
~ comunidade científica porque, quando ficam mais velhas. ciência, há muitas razões para
! até então, se acreditava que todas Rehen parece ter a sorte que crer que chegaremos lá. Ésó uma
~ as células do organismo tinham costuma acompanhar quem traba- questão de tempo. ~

www.mentecerebro.com.br 9
A pesquisadora Dura nte os primeiros anos revolucionou a neurobiologia Para identificar o NGF, Levi-
no laboratório de Hamburger, nas décadas seguintes. Montalcini precisava de um
italiana Levi-Montalcini se dedicou ao método adequado para estudar
mostrou pela estudo dos gânglios espinhais, Guirlanda de fibras o efeito neurotrófico de diferen-
nódulos próximos à coluna es- Mas que substâncias são essas? tes extratos de células tumorais.
pnmetra vez pi nha l onde ficam os corpos O neurobiólogo Elmer Bueker, A tarefa não era simples, pois no
que, durante celulares de neurô nios sensoriais, discípulo de Hamburger, ajudou iníci o dos anos 50 as técnicas
que distribuem suas termi nações os pesquisadores a se aproximar para cultivar cél ulas in vitro
a formação na pele e nos músculos (ver qua- da resposta. Em 1948, implantou ainda eram mui to rudimentares.
dro abaixo). Em seus prim eiros células tumorais em embriões de Resolveu pedir aj uda à amiga e
embrionária, ex perim e ntos com embri ões ga linha. Como esperado, um conte rrânea Hertha Meyer, que
surgem mats de galinha, e la observou que excesso de fibras neurais cresceu trabalhava no Rio de Ja neiro
" . os gânglios por onde passavam a partir dos gânglios espinhais, com o médico e pesquisador
neurontos que os neurônios que inervavam as o que os tornou notavelmente brasilei ro Carlos C hagas Filho.
o necessário extremidades do corpo se torna- grandes. Levi -Monta lcin i re- H ertha já havia fixado raízes
vam maiores que seus congêneres petiu o experimento e chegou no Brasil e criado um Depar-
relacionados ao tronco e a zonas à conclusão de que as células tame nto de Cultura Celular na
intermediárias. Além disso, al- malig nas deviam liberar alguma Universidade do Rio Janeiro,
guns neurônios sempre morriam substância semelhante à codifi- atual UFRJ. Levi-Mo ntalcini
durante o desenvolvimento do cada pelos genes responsáveis chegou ao Rio em 195 3 e, com
sistema nervoso, principalmente pelas asas, o que impedia a o auxílio de Hertha, conseguiu
quando os genes da formação das mo rte dos neurônios. Mesmo cultivar gânglios esp inhais de
asas eram bloqueados. se m ter sua es trutura quím i- emb ri ões de gal in ha ao lado
Diferindo do raciocício de ca co nhecida , essa misteriosa de frag mentos de tumores. O
Ham burger, Lev i-Mo ntalci ni substâ ncia passou a se r cha- resultado foi uma guirlanda
percebeu que, dado um certo mada NGF (da sigla em inglês, de fibras neurais em torno do
núm ero de novos neurônios, llertrtd growth Jactar) . tecido cancerígeno.
algu ns estão sem pre fadados a
desaparecer precocemente, fe-
nômeno hoje conhecido como
morte celular programada ou
apoptose. Assim, a pesquisa-
dora ital iana demo nstrou pela
primeira vez que, durante o
desenvo lvimento embrioná-
ri o dos vertebrados , surgem
inicialmente mai s neurô ni os
que necessá rio . Ela imag inou
ainda que essas células deveriam
competir pelo que chamou de
"fatores de crescimento neu-
ra l", sub stâ ncias produzidas
em qua ntidade limi tada pelo
tecido fi nal, o que acabou sendo
confirmado experimentalmente.
De fato , sobrevivem apenas os
neurônios que se ligam a essas
moléculas, os demais fenecem.
A descoberta dos fa tores de
GÂNGLIOS ESPINHAIS d e embriões de gali nha: dese nhos de Rita
crescimento neural, mai s co- Levi-Montalcini mostra m pro liferação ne urona l e m respost a a
nhecidos como neurotrofinas, fato res d e crescimento

12 MENTE&dREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


O ENIGMA DOS NEURÔNIOS-ESPELHO

Levi-Montalcini ainda es- que a molécula isolada da glân- neural em cérebro de suínos: o
tava no Rio de Ja neiro quando dula salivar do rato tinha efeito BDNF (do ing lês, brain derived
o jovem bioquímica Stanley neurotrónco. O papel do NCF IIWrotrophic Jactar ). Sua estrutura
Cohen se juntou ao grupo de estava expl icado: ele mantém vi- molecu lar, bem como a do
Hamburger, em St. Louis. Co- vos principalmente os neurônios NCF, já era conhecida, o que
hen conseguiu isolar proteínas do sistema nervoso periférico e tornou ma is fácil iden tificar
de tumo res que func ionavam estimula o crescimento de axô- outros parentes dessa família
exatamente como os fatores de nios. O impacto e a repercussão de proteínas conhecida como
crescimento neural em culturas desse trabalho na pesquisa bio- neurotrofin as ( NT): a NT 3,
de células. Mais alguns meses de médica foram enom1es. Vinte e presente em todos os vertebrados;
trabalho e empenho resultaram cinco anos depois os dois pesqui- a NT4/5 , enco nt rada numa
na obtenção de uma substância, sadores foram laureados com o espécie de rã af ricana e em
na forma pura, a partir do veneno prêmio máximo da ciência. mamíferos; a NT6 e a NT7 ,
de cobra e das glândulas subman- Nem todos os neurô ni os, isolada de peixes, aparentemente
dibulares de ratos. Em pouco porém, são responsivos ao NCF, sem equivalente em mamíferos.
tempo os cien tistas começaram ai nda que possam morrer por Todas essas neuro t rof inas
a produz ir anticorpos contra apo ptose a qualquer momen- prolongaram a vida de diversos
esse fator de crescimento. to. Essa consta tação levou os tipos de neu rô nios in vitro.
Anticorpos são usados com cientistas a cogitar a existência Mas foram experimentos com
freqüência em pesquisas por cau- de outras substâncias neurotró- ratos geneticamente modincados
sa de sua annidade especínca, que ficas com ação específica em para não expressar neurotronnas
pode "desligar" a molécula que determinadas células. que finalmente demonstraram
está sendo investigada. Q uando o papel exato dessas proteínas
aplicados em an imais, os anti - Em busca de receptores no organismo. O número de
corpos especíncos para o fator Em 1989, o nsiologista suíço Yves neurônios sensoriais ligados ao
de crescimento promoveram Alai n Barde, da Universidade da tato, à dor e à temperatura sofreu
grande redução na quantidade de Basiléia, conseguiu isolar, depois dim inuição de até 80% nesses
neurônios. Rita Levi -Montalcini de dez anos de trabalho, um an imai s. No sistema nervoso
e Stanley Cohen comprovaram segundo fator de cresci mento simpático a redução chegou a

www.mentecerebro.com.br 13
CRESCIMENTO DE AXÔNIOS
Há dois receptores para o NGF, ambos incrustados na
membrana neuronal. Os segmentos externos da tirosina
quinase (TrkA) (esquerda) são abundantes nos aminoácidos l_.[ NGF
cisteína (azul) e leucina (laranja). Entre eles está o sítio de
ligação com o NGF. Assim que esse fator de crescimento se
fixa ali, duas moléculas TrkA formam um par e se ativam
mutuamente. Então essa dupla molécula deflagra três tipos
de sinalização intracelular:
) Membrana
celular
1) Mobiliza a enzima fosfatidilinositol 3-quinase (PI3-K), que
desempenha papel importante no metabolismo neuronal;

2) Aciona a proteína Ras, presente nas membranas, que


inicia processos metabólicos responsáveis pela diferencia- as
ção celular; ~
Sobrevivência Diferenciação
3) O receptor TrkA ativado libera, por meio da enzima fos- PLC"y
folipase C_ (PLC_), os mensageiros inositol-trifosfato (IP3) Citoplasma
e diacilglicerol (DAG), que aumentam os níveis de cálcio
dentro da célula e guiam o crescimento dos axônios. Crescimento dos axônios

95%. A falta de NT3 resultou o seu peso molecular é 75 mi l, quinase (TrkA), se comporta
em animais com a metade dos ela foi c hamada p75NCFR. como um receptor: é capaz de
neurônios se nsoriais, e a de Logo depois, descobriu-se que se ligar ao NCF e ativa r uma
BDNF el iminou 35% deles. essa nomenc la tu ra não era cascata de sinalização intracelular
Para que as neu rotrofinas muito adequada porque todas que exp l ica sua atuação
exerçam seu efeito, precisam se as neurotrofinas se ligam a essa neurotrófica . Hoje se sabe que
ligara certos receptores localizados glicoproteína, que passou a se os efeitos do NCF são mediados
nos neurônios. Receptores chamar, desde então, p75NTR. pela TrkA; o p75NTR atua
são proteínas incrustadas na Na verdade , o entusiasmo como co-receptor.
membrana celular que, quando inicial foi abandonado quando Atualmente já se conhece
reagem com seu li gante (no se mostrou que, embora essa uma série de outras proteínas
caso, uma neurotrofina), sofrem g licoprotcína se li gue aos com parentesco com a TrkA.
modificações estruturais que fa tores de crescimento neural, D ifere ntemente do p75NTR,
deAagram um sinal bioquímica ela não desencadeia sinal algum os membros dessa família não
no in terior da cé lu la. É por dentro da célu la. Qual seria, reconhecem todos os fatores
isso que, logo depois da e ntão, sua função? de crescimento. Assi m, a TrkB
identificação do NCF, todas as se liga ao BDNF e ao NT4/5, e
atenções se voltaram para seus Como uma cascata a TrkC, ao NT 3. Experimentos
possíveis receptores. Em 199 1, os neurologistas Rüdigcr com roedores já demonstraram
Em 1986, os neurobiólogos Klein, do Instituto de Pesquisas a importância desses receptores
Moses Chao, da Universidade Farmacêuticas Bristo l- Myers para o dese nvo lvim e nto do
C ornell , e Eric S hoot er, Squibb em Princeton, e David sistema nervoso: animais que não
da Univers idade Sta nford , Kaplan, do Instituto Nacional de produzem TrkA, por exemplo,
identificaram um ca ndidato Câncer em Bethesda, divulgaram têm de 70% a 80 % menos
bastante promissor. A partir de pesquisas independentes que neurônios sensoriais e 95% menos
células do tecido conjuntivo, levavam praticamente à mesma neurônios no sistema simpático-
e les conseguiram isolar uma conclusão. Eles descobrira m semelhante ao que ocorre com os
g l icoproteína que se Iiga que uma enzima importante no animais que não produzem NCF
especificamente ao NCF. Como metabolismo celular, a tirosina Sem TrkB ou TrkC, por outro

14 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


lado, pe rde- se um te rço mu itos neurônios durante o tem um precursor, o chamado pró- O receptor
do s ne urôn ios sensoria is. desenvo lvim ento. Em 1996, NC E Ao contrário da molécula
Diferentemente dos receptores descobrimos que anticorpos contra fin al, que se li ga a ambos os p75NTR
Trk, cujo funcionamento já foi oNCFeop75NTRpodemimpedir receptores, esse precursor tem pode estar
exaustivamente de monstrado a morte neuronal. O resultado foi pouca aAnidadc com o TrkA, mas
( ver quadro ua pág.12 ) o co- conAm1ado, mais tarde, em ratos costuma se ligar ao p75NTR, relacionado
receptor p75NTR teve de se que não produz iam nenhuma deflagrando a apoptose. Assim, ao surgimento
conformar durante algum tempo dessas neurotroAnas devido a uma Acou provado que o pró-NCF é
com o papel de coadjuvante. A modiAcação genética. Foi assim o principal culpado pelo suicídio da calviície,
história tomou outro rumo em que, dez anos depois do Nobel celular. De fato, essa molécula é
meados dos anos 90, quando de Rita Levi-Montalcini e Stanley encontrada em alta concentração
pois estimula
se descobriu que um extenso Cohen, Acou claro que o p75NTR no cére bro de pacientes a degeneração
prolongamento dessa molécula, tinha efeito exatamente inverso com doença de Alzheimer.
com cerca de 80 aminoácidos, ao da família de Trk: uma vez
dos folículos
se estende para dentTo da célula ativado, o "domínio da morte" leva Pontos de contato capilares
e fo i chamado pelos cientistas as células à apoptose. Portanto, o Ma is de me io século depois
de "domínio da morte". NCF pode tanto impedir quanto de Rita Lev i-Mo ntalci ni ter
Nessa época eu trabalhava induzir a morte celular. iniciado seu trabalho com Viktor
com retina de embriões de galinha Mas essa não é toda a verdade: Hamburger, o campo de pesquisa
no laboratório de Yves Barde, na como descobriu a neurobióloga aberto por eles continua gerando
Suíça, e sabia que nesse tecido Barbara Hempstea d , d a novos e exci tantes frutos. As
também costum avam morrer Universidade Cornell, o NCF neurotrofinas e seus receptores
ainda escondem vários mistérios.
COM RATINHOS NO BOLSO Além de fator de crescimento,
o BDNF também participa da
comunicação neuronal, sendo
capaz de modificar os pontos de
contato entre neurônios. Essa
plasticidade sináptica tem papel
decisivo no aprend izado e na
memória. A NT3, por sua vez,
influencia a neurogênese.
Em alguns casos, o NCF
funciona como hormônio e pode
também participar dos processos
de dor. Alguns médicos já tentaram
utilizá-lo como medicamento,
SAIBA MAIS .,
mas os resultados ainda são
pouco satisfatórios. O efeito do Physiology of the
receptor p75NTR parece bem neurotrophins. G. R.
Lewin e Y. A. Barde,
mais amplo do que se pensava em Annual Review of
inicialmente. É possíve l, por Neurosciences, no 19,
exemplo, que ele esteja implicado págs. 289-317, 1996.
no surgimento da calvície, porque Elogio da imperfeição.
es timu la a dege neração dos Rita Levi-M ontalcini.
folículos cap ilares. Pesq uisas Studio Nobel, 1991.
recentes indicam ain da que o The nerve growth
factor - Thirty-five
p75NTR pode in terromper a
years later. Rita Levi-
multiplicação de células tumorais, Mont alcini. Fundação
p r in cipa lme nte nos casos Nobel, 1986. Disponível
de câncer de próstata. nec em nobelprize.org .

www.mentecerebro.com .br 15
NEUROGÊNESE

Em ,._,
const uçao
Ao nascer, o bebê tem cerca de 100 bilhões de
neurônios; durante seu desenvolvimento esse
número praticamente não se altera, mas novas
sinapses se formam. Nessa fase, atividades
rotineiras como dormir, acordar, chorar e
mamar acarretam intensa atividade cerebral

POR ANDRÉ TRINDADE


Psicólogo, especialista em psicomotricidade. É autor de Gestos
de cuidado, gestos de amor (Sum mus Editorial, 2007). Este
artigo foi adaptado do livro com autorização da edito ra.

E
ntre as descobertas científicas mais surpre- cérebro será tão forte qua nto nesse. Observando a
endentes está o mapeamento da atividade rotina de urna criança em seus primeiros anos de
cerebral do bebê. O avanço de tecnologias vida, pode até parecer estranho que atividades tão
e exames sofisticados nos permitiram acompanhar corriqueiras de seu cotidiano - dormir, acordar,
o intenso desenvolvimento neural , por trás da chorar, mamar/ movimentar-se/ reconhecer sons,
aparente calma. Nos três primeiros anos de vida, distinguir vozes/ cheiros e imagens- possam acar-
a atividade cerebral humana é tão vigorosa que retar tanta atividade cerebral.
supera a também enorme atividade do cérebro de )á nos primeiros meses de vida o bebê percebe seu
um adolescente em fase de prestar o vestibular. Aos corpo no espaço: no colo, durante o banho ou na troca
2 anos, a criança dispõe de um sistema neurológico de fraldas. Aprende a rolar, torcer-se, sentar/ engati-
tão ativo quanto o de um adulto. nhar e andar. Alcança objetos/ observa-os e lança-os
Ao nascer, o bebê tem cerca de 100 bil hões de longe; reconhece os sons de seu corpo: da respiração e
neurônios- a maioria dos quais ele vai utilizar por dos batimentos cardíacos, que variam de acordo com
toda a vida. Portanto, o aumento de peso e volume, o estado emocional/ possibilitando que aos poucos
ou seja, o crescim ento do cérebro nesses primeiros ele possa criar/ de acordo com os diferentes ritmoS 1

anos não ocorrerá em decorrência da aquisição de nuances entre um sentimento e outro. Escuta os sons
células neurais, mas pela formação de sinapses -co- do próprio tubo digestivo/ percebe o prazer de ter seu
nexões entre os neurônios, que formam circuitos estômago distendido ao ser preenchido pelo alimento,
responsáveis por "ligar" áreas cerebrais. Mas, em reconhece as sensações inerentes à entrada e à saída
nenhum outro momento da vida essa expansão do ·do ar nos pulmões/ à pressão do sangue nas cavidades

16 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


do coração, nas veias e artérias. Brinca, reconhece que peças. E não por acaso: é função do próprio cérebro
está vivo e que pulsa, desenvolve noção do tempo. encontrar sentidos e organizar impressões captadas
Sente a falta da mãe e também sua presença. Desfruta do mundo e de si, compondo uma unidade integra-
o prazer do toque afetuoso, do carinho. Desenvolve da. Há prazer em construir-se e tomar consciência
a afetividade. O bebê seduz e encanta. Com essa da individualidade. Esse processo não se restringe
sedução, envolve o adulto cuidador até que suas ne- à infância: de uma fo rma ou de outra, ao longo de
cessidades sejam atendidas. Demonstra fragilidade e nossa vida, nos empenhamos em saber quem somos .
desamparo, sabe reclamar chorando, enrubescendo, São as experiências iniciais, contudo, que marcarão
esperneando. É capaz de fantasiar e memorizar e, profundamente o indivíduo.
enquanto dorme, sonha. Nascemos com características determinadas por
As experiências vividas por esse pequeno ser nossa herança genética: cor de cabelos, de olhos,
humano imprimirão em seu cérebro caminhos, traços de rosto, compleição física, estrutura óssea,
atalhos e trilhas que ele utilizará pelo resto da vida muscular etc.; nascemos também com motivações
para estabelecer relacionamentos futuros, fantasiar, e temperamento próprios. Alguns aspectos fís icos
construir hi póteses, filosofias, matemáticas, ciências, são evidentes: "Puxou os olhos do pai, a altura da z~
artes -"amar, desamar, amar'', como escreveu Carlos mãe, o cabelo do avô", costumamos ouvir. Para as
Drummond de Andrade. características psíquicas, a ciência busca determinar 4il
Q uando tentamos descrever a complexidade da até que ponto os genes são responsáveis pelos mais ~
atividade cerebral do bebê, temos a sensação de es- diversos comportamentos. Trata-se de um rico campo ,
tar lidando com um quebra-cabeças de milhares de de pesquisa, com estudos e discussões em andamento ~

www.mentecerebro.com.br 17
vorável pode imprimir marcas
de desconfiança, insegurança,
dificuldade de aprender e, ao mes-
mo tempo, enfraquecer a con-
fiança e o desenvolvimento das
habilidades cognitivas.
Embora o papel do adulto
seja muito importante nessa
dinâmica, não podemos nos res-
ponsabilizar exclusivamente pela
evolução desse processo, já que
a criança participa ativameryte
de sua construção por meio de
escolhas, da qualidade de suas
motivações e da forma como
percebe cada situação. Sabemos
que crianças criadas em uma
mesma família, em condições
similares, viverão os eventos de
entre as diferentes correntes do pectiva, o adulto deve oferecer forma própria. De uma mesma
pensamento científico. Certa- ao bebê uma gama de situações situação, um irmão pode tirar
mente surgirão nos próximos e estímulos ricos em escolhas, uma experiê ncia positiva en-
anos informações importantes a de acordo com sua maturidade quanto outro ficará com uma
esse respeito. neurológica e, ao mesmo tempo, marca negativa. Esse parece ser
Atualmente, podemos afirmar manter-se atento para decifrar as um dos mistérios da vida.
que o desenvolvimento humano motivações da criança.
depende da interação entre a he- Trata-se de uma atitude de Muito cedo?
rança genética que recebemos de escuta e observação. Em vez Nos últimos anos, tem sido ine-
nossos pais- e remonta a nossos de nos atirarmos desesperados vitável questionar eventuais be-
antepassados- e o acolhimento na tentativa de decifrar o bebê, nefícios e possíveis prejuízos na
que o ambiente (família, educa- devemos deixar que ele possa se questão da estimulação precoce
ção e cultura) proporcionam a mostrar aos poucos. No início, infantil. Durante muitos anos,
esses potenciais. Isso significa traduzi mos seus gestos e, sem as correntes de pensamento que
que o cérebro, bem como o cor- pressa, ensinamos a ele formas acreditavam que o desenvolvi-
po, desenvolve-se à medida que e palavras para descrever o que mento humano estava comple-
é utilizado. Um ambiente capaz sente e o que deseja. "Conversar tamente apoiado na genética e
de acolher o potencial genético com o bebê?" "Sempre!" Assim, que, a seu tempo, todo gene teria
pode levar uma característica a por intermédio da experiência chance de expressão, indepen-
expandir-se, tornar-se plena. já vivida com o adulto, a criança dentemente do ambiente, apoia-
um meio hostil pode fazer uma constrói em seu cérebro alguns ram práticas educativas pouco
potencialidade genética se per- cam inhos que serão reforçados inter"'ssadas em estimular os be-
der ou não se desenvolver. -i pela repetição de determinadas bês. Essa corrente foi chamada de
Entre aquilo que herdamos situações e escolhas, e também maturacionismo e teve seu ponto
geneticamente e o que aprende- 1
pelo prazer que elas podem de vista defendido pelo psicólo-
mos de nossa cul tura, existe um proporcionar, enquanto outros go Arnold Cesell ( 1880- 1961),
terceiro elemento representado comportamentos, pouco refor- que influenciou a ciência até
pelas motivações pessoais e pelo çados, ficarão enfraquecidos e meados do século XX.
temperamento de cada um. A tenderão a ser eliminados. O que Outra linha de pensamento,
motivação infantil é um requisito é vivido e reforçado, porém, nem chamada abordagem da apren-
absoluto para o desenvolvimento sempre diz respeito às qualidades dizagem, atribui ao ambiente
de habilidades. Diante dessa pers- positivas . Um ambiente desfa- papel fundamental na formação

18 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


GRITOS, CARETAS E CONTORÇÕES: com tre inam entos e p ráticas
O cérebro
SINAIS DE DESCONFORTO educativas. Atualmente, o grande
engano me parece ser a excessiva tem prazer
importância dada à idéia de esti-
mulação- e, o que é pio r, desde
em descobrir
muito cedo. Ao escutar a palavra sentidos para
estimulação fora do contexto de
crianças q ue apresentam algum
informações que,
déficit (motor, neurológico, vi- aparentemente,
sual etc.), devemos ficar atentos
ao que rea lmente está se ndo são desconexas;
feito. H oje em dia há um número por isso, é
imenso de serviços oferecidos aos
pequenos. H á, por exemplo, aulas divertido montar
de ginástica, computação, língua quebra-cabeças
es trangeira e matemática para
bebês, além de uma infi nidade de e encontrar
OVOs educativos vol tados para soluções para
esse público. Enfim, uma série de
serviços de esti mulação que pro- entgmas
metem contribuir para a formação
de adultos mais inteligentes e
competitivos para o mercado
de trabal ho. Mas só poderemos
comprovar a eficiência de todo
esse proced imento daqui a 20
anos o u mais . Será que vale a
pe na arTiscar?
Essa "armadi lha" pode atrai r
pais, mães, educadores e psicó lo-
gos - e faze r com que bebês re-
cebam uma série de info rmações
"goela aba ixo" sem que saibamos
se essas experi ências serão regis-
tradas como positivas ou negati-
vas pela criança. Com isso, nossos
bebês, desde muito pequenos,
têm sido convidados a deixar o
"ninho"- a presença da mãe, do
pai, o meio fam iliar - e partir
para um novo ambiente. Alguns
do indiv íduo nessa perspectiva, pelo suíço Jean Piage t ( 1896- se adapta m com surpreendente
apesar de não ne ga r qu e o s 1980), na tureza e educação são faci lidade, enquanto ou tros en-
fatores biológicos sejam a base igualmente necessárias ao desen- contram dificuldades e precisam
do desenvolvime nto. Segundo a volvimento, e a criança participa de ajuda nessa fase de transição.
teoria defendida por). B. Watson ativamente desse processo. O que todos vão precisar é re-
( 1878-1 958) e reforçada po r B. O fato é que, historicamente, encontrar fora de casa - seja em SAIBA MAIS
F Ski nner ( 1904- 1990 ), tudo se muitos já erraram por estimular os creches ou esco las - um ambiente
Gestos de cuidado,
aprende, tudo pode ser treinad o. bebês menos que o necessário, e de proteção e afeto. E só a partir gestos de amor.
Para uma terceira abo rdagem , outros tantos se equivocaram ao daí eles estarão suficientemen te André Trindade.
do construtivismo, desenvolvida sobrecarregar crianças pequenas prontos para aprender. ne: Summus Editorial, 2007.

www.mentecerebro.com.br 19
Como nascem
. os -"..

neuron1os
Entender como se dá a multiplicação permitirá compreender
melhor mecanismos da memória e de doenças como a
depressão e o Alzheimer, além de abrir caminho para novos
medicamentos e terapias

POR PAOLA EMILIA CICERONE


jornalista.

D
urante a maior parte de seus I 00 anos de perspectivas de ampliação da capacidade de pensar
história, as neurociências adotaram um e senti r de um cérebro saudável.
dogma central: o cérebro de um adulto ma- Há décadas os neurocientistas tentam descobrir
duro é uma máquina semel hante a um computador, curas para lesões ou dist(trbios cerebrais. A maior
que permanece estável e imutável , com memória parte dessas estratégias de tratamento tem envolvi-
e capacidade de processamento fixas . É possível do a compensação da perda de neurotransmissores
perder neurô nios, afi rmava-se, mas é certamente - substâncias químicas que conduzem mensagens
impossível ganhar outros, novos. Como poderia entre os neurônios. Na doença de Parkinson, por
ser diferente? Se o cérebro passasse por alterações exemplo, o cérebro do paciente perde a capacidade
estruturais, como lembraríamos do que quer que de produzir o neurotransmissor dopamina, porque
fosse? Na verdade, como poderíamos manter uma as células que o produzem morrem. Uma substância
identidade constante? química da fam ~ia da dopam ina, a L-Dopa, pode ali-
Embora a pele, o fígado, o coração, os rins e viar temporariamente os sintomas do distúrbio, mas
os pulmões sejam capazes de gerar novas células não eliminá-lo. Neurocientistas também já tentaram
para substituir, até certo ponto, as danificadas, até implantar tecido cerebral de fetos abortados para
recentemente os cientistas acredi tavam que essa substituir os neurônios que perecem em decorrência
capacidade regeneradora não se estendia ao sistema da doença - e de outros distúrbios neurológicos,
nervoso central, fonnado pelo cérebro e pela medula. como Huntington e lesões na medula-, com êxito
Assim, os neurocientistas tinham apenas um conselho lim itado. Recentemente, alguns neurocientistas
para seus pacientes: 'Tente não dani ficar seu cérebro, passaram a utilizar neurônios originários de células-
porque não há como consertá-lo". tronco de embriões humanos que, em condições
Mas, nos últimos dez anos, descobriu-se que o adequadas, podem produzir todas as células exis-
cérebro realmente muda no decorrer da vida- e que tentes no organismo.
essa mudança é positiva. As novas células que docu- Embora as células-tronco apresentem muitas van-
mentamos podem fornecer a capacidade extra que o tagens, ativar a capacidade inata do sistema nervoso
sistema nervoso precisa para lidar com a variedade adulto de se regenerar seria um método muito mais
de desafios que enfTentamos ao longo da existência. direto. A perspectiva mais avançada é que os médicos
Essa plasticidade oferece um mecanismo pelo qual poderiam receitar medicamentos para estimular o
o cérebro pode ser induzido a se auto-reparar após cérebro a substituir suas próprias células - e assim
sofrer lesões ou contrair doenças. Isso pode abri r reconstntir seus circuitos danificados.

www.m entecerebro.com.br 21
É preciso A esperança de que o reparo
talvez seja possível vem de uma
cerca de um série de descobertas realizadas
A

mes para que nos últimos 40 anos. Nas déca-


das de 60 e 70, demonstrou-se
uma estrutura pela primeira vez que o cérebro
de mamíferos contém algumas
neural nasça, propriedades regenerativas inatas,
amadureça quando diversos grupos compro-
varam que os axônios dos neurô-
e se torne nios no cérebro e na medula de
plenamente adultos podem crescer, até certo
ponto, após sofrerem lesões. Ou-
funcional tros (incluindo meus colegas e eu)
e capaz de logo revelaram o nascimento de
neurônios, um fenômeno deno-
processar e minado neurogênese, no cérebro
transmitir de pássaros adultos, primatas não-
humanos e humanos.
informações a Logo depois, cientistas co-
outras células meçaram a indagar por que,
embora capaz de produzir novos
neurônios, o siste ma nervoso
CHRISTOPHER REEVE (1952-20 04): depois do aci d ente q ue o d eixou
central não consegue se reparar de tetrap légico, passou a contribuir pa ra a a rrecad ação de fun dos pa ra as
f01ma mais conRável e completa pesq uisas com cé lulas-t ron co
após sofrer doenças ou lesões.
A res posta está em entender ocorre antes do nascimento e du- a fund o. Demonstrou-se que
como- e talvez para que Rm - a rante a primeira infância, quando um fator denominado souic
neurogênese adulta acontece, e surgem mais células que as neces- hedgehog (SHH ), por exemplo,
de que maneira a tendência na- sárias para a formação cerebral. originalmente descoberto em
tural do cérebro a se regenerar Durante esse período, somente os insetos, reg ula a capac idade
pode ser ampliRcada. neurônios que formam conexões de prolifc ração dos neurônios
ativas sobrevivem. imaturos. Outro fator, chamado
Fim da viagem As novas células que persistem uotch, c uma c lasse de molé-
Agora sabemos que a formação se transformarão em neurônios ou culas denominadas proteínas
de novas células cerebrais não é células gliais, dependendo da re- rnorfogené ticas ósseas parecem
um processo que ocorre em uma gião do cérebro onde terminarem ajudar a determ inar se as célu-
só etapa. As chamadas células- seu percurso e do tipo de atividade las cerebrais recém -formadas
tronco multipotentes dividem-se que estiver ocorrendo naq uela irão transfo rmar-se em células
periodicamente no cérebro, da n- área no momento. Decorre mais gli ais ou em neurônios. Uma
do origem a outras células-tronco de um mês desde a formação de vez que as célu las jovens estão
e a uma prole que, ao crescer, um neurônio até que ele se torne destinadas a se tornar neurônios
pode se transfom1ar em neurônios funcional e capaz de processar ou células gliais, outros fatores
ou em células gliais. Mas, para infonnações. A neurogênese é um de cresci mento - como o fator
amadurecer, essas células recém- processo, não um evento rigoro- ncu rotróRco derivado do cére-
fo rm adas devem mig rar pa ra samente controlado. bro, as neurotroR nas e o fator
longe da inAuência das células- A neurogê nese é regulada de crescimento insulina-símile
tronco multi potentes. Em média, por uma variedade de molé- - desempenham papéis impor-
somente metade delas chega ao cul as prese ntes no cé re bro , ta ntes para manter as células vi-
Rm da viagem; o restante morre. chamadas fa tores de c resc i- vas e incentivá-l as a amadurecer
Esse processo espelha aquilo que mento, atualmente investigadas e se torn ar funcionais .

22 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


Novos neu rô nios não surgem e os diferentes ambientes celulares crorreparo não seja suficiente para
espontaneamente em toda parte que controlam a neurogênese no reverter o dano causado por um
do cérebro de mamíferos adul tos, cérebro normal, esperamos desen- den-ame mais sério, provavelmente
mas, ao que parece, formam-se volver terapias capazes de levar um ajudará o cérebro a recuperar-se de
somente em cavidades preen- cérebro doente ou danificado a se den-ames pequenos, muitas vezes
chidas por fluidos, chamadas regenerar. não identificados. O fa tor de cres-
ventrículos- situadas no cérebro Mui tas doenças neurológicas cimento epidém1ico (ECF, na sigla
anterior-, e em uma estrutura de podem ser atenuadas pela esti- em inglês) e o fator de crescimento
fo rmato semelhante ao de um mu lação da neurogênese. Um de fibroblasto (FCF) vêm sendo
cava lo-marinho, o hipocampo. derram e, po r exemplo, ocorre usados para melhorar esse proces-
Pesquisadores demonstraram que qua ndo um coágulo sangüíneo so intrínseco de "conserto", com
as células destinadas a se tornar rest1i nge o fluxo de sangue para resultados promissores.
neurônios viajam dos ventrículos uma determinada região cere- Infelizmente, os ECFs e FC Fs
para o bulbo olfatório, que recebe bral, cortando o fornecimento de são moléculas grandes, que encon-
informações de células sensíveis oxigênio e matando neurônios. tram dificuldades para atravessar
ao odor existentes no nariz. Após um den-ame, a neurogênese a barreira hematoencefálica, uma
inicia-se no hi pocampo, num a rede de células fortemente inter-
Enganar o corpo aparente tentativa de produzir no- ligadas que circunda os vasos san-
Embora ninguém saiba ao certo vos neurônios para curar o tecido güíneos cerebrais. A Wyeth-Ayerst
por que o bulbo olfatório neces- cerebral danificado. A maioria das Laboratories e a Seios, empresas
sita de tantos novos neurônios, é células recém-fom1adas morre, mas americanas do setor de biotec-
mais fácil especular a razão pela algumas conseguem migrar para a nologia, interromperam ensaios
qual o hipocampo precisa deles: região danificada e, segundo alguns clínicos com FCFs para tratamento
essa estrutura é crucial para a relatos, transformam-se em neu- de derrames, em 1999, porque a
assimilação de novas info rma - rônios adultos. Embora esse mi- molécula não atingia o cérebro.
ções, portanto, presume-se que
o aumento na quantidade de MUITO ALÉM
neurô nios nessa área incentive DA TRISTEZA:
a depressão está
a formação de co nexões en - associada à diminuição
tre os novos e os preexistentes, de novos neurônios
melhorarando a capacidade ce- no hipocampo
rebral de processar e armazenar
novas infom1ações.
Muitos estudos relatam encon-
tro de novos neurônios em regiões
fora do hipocampo e do bulbo
olfatório, mas esses achados ai nda
não foram definitivamente com-
provados. Uma das razões para
isso é que os métodos utilizados
para comprovar a existência da
neurogênese são complexos e de
execução difícil. À medida que
descobrimos em maior detalhe os
mecanismos moleculares que con-
trolam a neurogênese e os estímu-
los ambientais que a regulam, pre-
vemos que será possível comandar
a neurogênese em qualquer região
do cérebro. Ao compreendermos
a forma, os fatores de crescimento

www.me ntecerebro.com.br 23
A plasticidade Inúmeros grupos de pesquisa tenta- -o mesmo tempo necessário para para os locais COITetos e a sua trans-
ram superar esse obstáculo unindo a ocorrência da neurogênese. Essa formação em neurônios - assim
cerebral, por FGFa outra molécula, enganando descoberta gerou a hipótese de que como sobre os fatores que inibem
si só, não as células e fazendo-as absorver e o distúrbio é, em parte, causada cada etapa. Em doenças como a
transferir o FCFpara o tecido cere- por uma redução da neurogênese depressão, que faz a divisão celular
costuma ser bral, ou criando células produtoras no hipocampo. Estudos com diminuir, resultando em perda de
de FCFpor engenharia genética, e imageamento cerebral confinna- células, o objetivo é descobrir me-
suficiente em seguida, transplantando-as para ram que o hipocampo aparece dicamentos ou terapias específicos
para reparar o cérebro. Até agora, no entanto, encolhido em pacientes com de- que aumentem a proliferação das
essas técnicas só foram testadas em pressão crônica. Já a admi nistração células. No glioma maligno (um
lesões; por estudos com animais. prolongada de an tidepressivos tipo de tumor cerebral), as células
isso, cientistas O estímulo à neurogê nese parece estimular a neurogênese. gliais proliferam e fonnam tumores
também pode originar um novo Roedores que receberam esses letais de crescimento rápido. Em-
buscam formas ti po de tratamento para depressão. medicamentos durante meses apre- bora a origem dos gliomas ainda
de ampliar essa Acredita-se que o stress crônico sentaram novos neurônios nessa não esteja clara, alguns especulam
seja o fator causal mais importante região do cérebro. que eles surgem nas células-tronco
capacidade desse transtorno, excetuando uma Outro distúrbio contra o qual neurais. As substâncias naturais que
predisposição genética à disfun- talvez seja van tajoso estimular a regulam a divisão dessas células-
ção, e sabe-se que o stress reduz neurogênese é a doença de Alzhei- tronco podem ser promissoras no
a quantidade de novos neurônios mer. Inúmeros estudos demons- tratamento dos gliomas.
gerados no hipocampo. Muitos traram que ratos geneticamente
medicamentos para tratar depres- modificados para conter genes Produção perigosa
são, como o Prozac, aumentaram humanos que causam predispo- Em derrames, quando as células
a neurogênese em cobaias. Interes- sição ao Alzheimer aprese ntam morrem ou não amadurecem,
EXERCITAR O CORPO
pode diminuir o risco de sante é que a maior parte deles leva diversas anormali dades em sua será importa nte identificar os
doenças neurológicas até um mês para melhorar o humor neurogênese. Esses animais são fatores de crescimento que fa-
preparados para produzi r em vorecem a sobrevivência dessas
excesso uma forma mutante do células e ensinar as imaturas a se
precursor da proteína amil óide tornar neurônios saudáveis, bem
humana, por exemplo, têm menos conectados. Distúrbios como a
neurônios que o normal no hipo- doença de Huntington, a escle-
campo. E o hipocampo de outros rose late ral amiotrófica (ELA)
ratos portadores do gene mutante e a doença de Parkinson talvez
humano da proteína presenil ina sejam os alvos iniciais mais fáceis,
tem um número reduzido de cé- porque as células responsáveis pelo
lulas que se dividem, resultando transtorno se localizam em áreas
em menor número de neurônios cerebrais distintas que podem ser
sobreviventes. O tratamento des- identificadas precisamente.
ses animais administrando FCF Uma preocupação importante
d iretamente no cérebro pode será como controlar a quantidade
reduzir parcialmente a tendência, o de neurogênese que um deter-
que sugere que os fatores de cresci- minado tratamento proporciona,
mento poderão um dia dar origem porque a produção excessiva de
a terapias eficazes contra essa novos neurônios também pode
doença devastadora. ser perigosa. Em alguns tipos de
O desafio, agora, é aprender epilepsia, por exemplo, as célu-
mais sobre os fatores de cresci- las-tronco continuam a se dividir
mento específicos que governam além do ponto onde os neurônios
as várias etapas da neurogênese - a podem formar conexões úteis.
formação de novas células, a mi- Neurocie ntistas especulam que
gração das células recém- fonnadas essas células aberrantes não só
depressão em seres humanos, por
ativarem a plasticidade cerebral.
Relações entre neurogênese, maior
atividade menta l e exercícios
também sugerem que as pessoas
talvez possam reduzir o risco de
doenças neurológicas e melhorar
os processos de regeneração na-
tural do cérebro, escolhendo uma
vida mentalmente desafiadora
e fisicamente ativa.
Q uando a neurogênese pu-
der ser induzida no momento
desejado e de fonna controlada,
poderá modificar nosso próprio
conceito de doenças e lesões
cerebrais. Imagino um tempo
FATORES DE CRESCIMENTO estimula m o desenvo lvimento d e nova s em que have rá medicamentos
estruturas ce re b ra is (amarelo) em ca mu ndongo que sofre u AVC seleti vos disponíveis para esti-
mular esse processo. As terapias
acabam no lugar errado, mas são comprovadamente capazes farmaco lógicas serão aliadas
também permanecem imaturas, de produzir oligodendrócitos em das terapias físicas.
contribuindo para a "Ração" incor- baixa freqüência. Eu c meus cole- Igualm ente empolgante é
reta do cérebro que é responsável gas empregamos fatores de cresci- a possibilidade de indivíduos
pelas convulsões. É possível que mento para induzir a proliferação saudáveis ficarem ainda melhor
tratamentos baseados em fatores de oligodendrócitos em animais estimulando o cérebro a desen-
de crescimento, em casos de derra- com lesão na medula, e obtivemos volver novos neurônios. C ientis-
me, Parkinson e outros distúrbios, resul tados positivos. tas já buscam moléculas pequenas
levem as células-tronco neurais a Um dos aspectos mais notáveis que possam ser ministradas em
se dividir de forma inadequada c da neurogênese no hipocampo é p~ulas, que acionariam os genes
causar sintomas semelhantes. Por que experiências vividas podem dos fatores de crescimento no
isso, os pesquisadores precisam, regular o ritmo da divisão celular, cérebro de uma pessoa para que
primeiro, entender melhor como a sobrevivência de neurônios re- os neurô nios produzam mais
usar os fato res de crescime nto cém-fonnados e a capacidade de fatores que o nonnal.
para disparar sua proliferação, a se integrarem ao circuito neural Outra estratégia para me-
migração de novas células para existente. Camundongos adultos lhorar o desempenho cerebral Neurogenesis in
locais específicos ou sua maturação transferidos de uma gaiola despo- envolve geneterapia e transplante adult subventricular
zone. Arturo Alvarez-
em células adultas. jada e simples para outra maior, celular. As melho res maneiras Buylla e Jose M. Garcia-
No tratamento de lesões na com rodas de corrida e brinquedos, de melhorar a fu nção cerebral, Verdugo, em journal of
medula, de ELA. ou de esclerose apresentarão aumento significati- porém, talvez não envolvam Neuroscience, vol. 22, no
múlti pla, a estratégia pode estar vo em sua neurogênese. Em meu medi ca mentos o u impl antes 3, págs. 629-634, 2002.
em induz ir as células-tronco a laboratório, Henriette van Praag celulares, mas mudanças no es- Why are some neu-
gerar um subgrupo de células gliais descobriu que basta que camun- tilo de vida. Assim como muitos rons replaced in adult
bralns? Fernando Not-
de nominadas oligodendrócitos. dongos se exercitem em uma roda outros órgãos, o cérebro reage
tebohm, em j ournal of
Essas células são essenciais para que de corTida para quase duplicar o positivamente a exercícios, boa Neuroscience, vol. 22, no
os neurônios se comuniquem entre número de células que se dividem alimentação e sono adequado, 3, págs. 624-628, 2002.
si, porque isolam os longos axônios no hipocampo, resultando em au- que sabidamente melhoram o Antldepressants and
existentes entre os neurô nios, mento significativo no número de funcionamento cerebral normal neuroplastlcity. Carrol
impedindo a dissipação do sinal novos neurônios. Curiosamente, com menos efeitos colaterais e D'Sa e Ronald S. Du-
problemas potenciais que a maio- man, em Bipolar Disor-
elétrico tra nsportado pelos axô- atividades físicas regulares, como
ders, vol. 4, no 3, págs.
nios. As células-tronco da medula correr, também podem aliviar a ria das demais estratégias. nec 183-194, 2002.

www.mentecerebro.com.br 25
- MAIS E MELHOR

Neurociência oferece informações preciosas sobre nove


atitudes fundamentais para melhorar- e, sobretudo,
manter o raciocínio e a memória ágeis por mais tempo

POR SUZANA HERCULANO-HOUZEL


É ne urocientista e professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

é recentemente, os estudos nizá-las ou retardar seu aparecimento.


eurocientíficos se concentraram Se por um lado é verdade que o
rincipalmente em doenças e bem-estar depende do cérebro, po r
causas variadas de infelicidade e mal- outro só nos sentimos bem quando esse
estar. Nos úl timos anos, no entanto, uma órgão recebe informações do corpo de
bem-vinda extensão do enfoque levou que também este está em boas condi-
pesquisadores a se interessar também ções. O sistema interoceptivo- que leva
pelo que é saudável: as maneiras de man- informações à ínsula, região do córtex
ter o cérebro funcionando com saúde, que monitora o estado fisiológico do
da melhor forma possível; a satisfação e corpo e suas expressões emocionais de
as formas de alcançá-la; os mecanismos prazer, surpresa, medo, alegria- dedica-
do prazer, da felicidade e seus efeitos se exatamente a essa tarefa. Embora o
benéficos sobre o sistema nervoso. Mais cérebro represente apenas 2% da massa
do que a ausência de mal-estar, o bem- corporal, ele consome 20% da energia
estar envolve um conjunto de sensações necessária ao longo do dia, trazida pelo
de satisfação, prazer, motivação, auto- sangue. O Auxo sangüíneo intenso e
estima, força física, relacionamentos constante é crítico: uma redução de
sociais benéficos, alguma independência apenas I % é suficiente para provocar
e autonomia sobre a própria vida. mal-estar e até desmaio. Alguns dos
Ao começar a compreender esses principais fatores de risco de acidentes
processos, a neurociência hoje oferece vasculares são evitáveis, como o fumo,
informações preciosas sobre fa tores a hipertensão, o sedentarismo e o con-
mais importantes para encontrarmos sumo excessivo de álcool. Nunca a frase
paz e felicidade com o cérebro que "corpo são, mente sã" pareceu tão em-
temos-e, sobretudo, para mantê-las. O basada cientificamente: cuidar da sa(ide
desafio mental constante, por exemplo, física, de fato, faz bem à cabeça- e em
ajuda a desenvolver novas conexões médio e longo prazo significa investir
neuronais e a reforçar as que estão fracas, na futura saúde mental. A seguir, oito
diminuindo o risco de surgirem doenças atitudes que, comprovadamente, fazem
neurológicas degenerativas ou, pelo me- bem à saúde mental e neurológica. Seu
nos, aumentar nossas chances de ame- cérebro agradece a leitura.

26 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


...
1
situações anteriores similares,
uma resposta emocional pode

Ouvindo emoções ser oferecida em cada caso bem


antes que elaborações racionais
tenham tempo de acontecer.

O que sentimos é resultado da


capacidade do cérebro de
alterar a si mesmo e ao corpo em
Uma das descobertas sur-
preendentes d a neurociência
é que as emoções são funda-
Rápidas e perso nalizadas, as
emoções representam a primeira
"opinião" do cérebro sobre qual-
resposta às mais variadas situações mentais para toma rm os boas quer assunto e, desde o começo,
ou, às vezes, à simples visão ou decisões. Ao con trário do que direcionam comportamentos, fa-
memória de uma pessoa, animal diz o senso comum, emoções ze ndo- nos preferir um ou outro
ou objeto. A primeira conseqü- não são ilógicas, o oposto da curso de ação, mesmo que ainda
ência dessa transformação (de ex- racionalidade, e sim a demons- não saibamos explica r por q uê.
pressão, comportamento, tempe- tração mais rápida da lógica Essa rapidez, sempre baseada
ratura, funcionamento de órgãos fundamental do cérebro de cada no "banco de dados" disponível
etc.) é que ficamos mais aptos a um , provocadas no corpo com na memória, torna possível re-
lidar com as variadas situações . base nas expe riências anteri o- solver em tempo hábil questões
Outra conseqüên c ia é que as res daquela pessoa. Com o as simples que seriam proibitiva-
mudanças corporais nos pem1i- estrutu ras cerebrais envolvidas, men te demoradas caso tod as
tem reconhecer emoções, como no sistema límbico, têm aces- as variáveis envolvidas fossem
se fossem assinaturas. so privileg iado à memória de processadas pela razão.

SENTIMENTOS positivos exercem influência benéfica sobre o sistema cardiovascular e estimulam o


pensamento mais abra ngente, indicam pesquisas. Numa delas, conduzida por psicólogos da Uni-
versidade de Kentucky, foram avaliados 178 relatos autobiográficos escritos por freiras de vários
conventos dos EUA durante a sua juventude, e depois comparados com a situação de vida em 2001.
As religiosas alegres viviam 1 O anos a mais que as que enxergavam apenas o lado ruim das coisas.

28 MENTEórCÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


UMA FO NTE de bem-estar é, sem dúvida, escutar música. Pesquisa conduzida com estudantes na
Universidade do Mediterrâneo, em Marselha, na França, deu pistas sobre um hipotético "circuito de
apaziguamento" desencadeado pela sonoridade harmoniosa. A hipótese dos pesquisadores é de que
o córtex auditivo interage com o complexo amigdalóide especializado nas reações de medo e este
deixa de estimular o hipotálamo, que por sua vez interrompe a secreção do hormônio ACTH pela
hipófise. Sem o ACTH, as glândulas supra-renais interrompem a liberação de cortisol, o hormônio do
stress. O efeito calmante, no entanto, depende do tipo de som. Estudos com música tecno indicam
que mesmo os que gostam do estilo têm aumentada a concentração de cortisol ao ouvi-la.

2 Prazer faz bem


pelo accumhe11 s e es trutu ras
assoc iad as a ele q ue formam o
sistema de reco mpensa d o cé-
re b ro- é a base neurológica da

T emos no cérebro uma es-


t ru tu ra de cerca de I cen-
tímetro d e d iâmetro , chamada
pessoas ama d as, comer algo
d e q ue gos tamos ou ouvir uma
boa mús ica . Ao reco nhecer que
satisfação e da auto-esti ma.
É a mo ti vação q ue nos im-
pulsiona às mais di ve rsas rea-
núc leo accumbws, com pod e res fomos bem-sucedi dos em algo, li zações, q uando o sistema d e
parti cu larme nte in te ressa ntes: q ue atendemos às expectativas reco mpe nsa é precoceme nte
e la nos permi te sentir p raze r. o u admi tirmos que somos in- ativad o - e anteve mos um re -
Q uan to mais intensa for sua teressantes po r algu ma razão , sultad o positivo. O otimism o
ativação, ma io r é a sensação o córtex cerebral p rovid encia func iona de ma neira seme lhan-
alca nçada, q ue vai da leve sa- um a dose de d o pamina para o te: ter ati tud e e expectativas
tisfação à fra nca eufo ri a. Ativar núcleo accumbens. Quanto ma is po sitivas e m re laç ão à vi d a
esse p rocesso é algo si mples e o núcleo recebe esse ne u ro - favorece a ativação antecipada
ao nosso alcance, que podemos transmissor, mais ativo ele Aca do sistema d e recom pensa , au-
fazer vári as vezes por dia. Basta e mais praze r nos proporciona. menta a satisfação com os fe itos
faze r algo que o céreb ro con - Os mecanismos q ue promovem alcançados, suas c hances d e
sidere que deu certo: resolver essa se nsação, porém, ai nda faze r algo realm en te dar certo,
me n ta lm ente um problema , são um mistério para a c iência. faz você lidar melhor com situa-
co nc lu ir um traba lh o , passa r Esse prazer com o que fazemos ções negativas e até me lhora a
d e fase no vid eogame , be ijar corretame nte- proporc ionad o res istência a d oe nças.

www.mentecerebro.com.br 29
do corpo, como o bem-estar
Hora de rir, associado ao sorriso.
Apesar dos benefícios cere-
hora de chorar brais da alegria, ela deve ter hora
- da mesma forma que a tristeza,
uma emoção também importante

E m linhas gerais, podemos


dizer que felicidade é o es-
tado do cérebro q ue vê tudo
lhas em situações de medo ou
espanto), relaxa. Além disso, é
acionado o córtex órbita-frontal,
e útil. Em algumas situações ex-
tremas, como a perda de pessoas
queridas, a tristeza profunda é a
dando certo : emoções positivas que registra quando algo de bom única resposta razoável de um
inibem o córtex cingulado ante- acontece- como, por exemplo, cérebro saudável. A depressão,
rior (uma espécie de centro de a causa do sorriso. O gesto ge- ao co ntrário, é um estado de
alarme cerebral), e provocam nuíno de sorrir coincide com o tristeza não justificada. Como
maior atividade elétrica no lado aumento da atividade da região ela, também existe o estado de
esquerdo do córtex frontal. O fro ntal esquerda, assoc iada à fel ic idade e motivação desmedi-
sorriso, expressão mais evidente felicidade. das, exageradas, que não refletem
do bem-estar, aparece quando O sorriso ainda tem a van ta- a realidade da vida: é a euforia (ou
as regiões do córtex que cuid am gem de ser contagioso. Ver al- man ia), condição que à primeira
de programas motores fazem o guém sorrir ativa as mesmas áreas vista parece bênção, mas rapida-
músculo z igomático e levar os do cérebro acionadas quando mente se torna mald ição- e que
cantos da boca, e o o rbi cular nós mesmos sorrimos, incluindo a neurociência começa a entender
dos o lhos apertar levemente as as regiões corticais motoras e o como um estado de ativação exa-
pálpebras; o músculo corrugador córtex da ínsula anterior, respon - gerada do sistema de recompensa,
da testa (que eleva as sobrance- sáveis pelas sensações subjetivas típico de transtorno bipolar.

O desafio de
lidar com o stress
M uitos dos transtornos que
afligem o cérebro, como a
depressão e a mania, podem ser
situações ameaçadoras e reagir a
elas de forma condizente. O stress
agudo tem efeitos benéficos sobre
disparados em períodos de stress a memória e a resposta imuno-
intenso. Isso não significa, no lógica. A resposta imediata a ele
en tanto, que o stress, por si só, é altamente desejável, pois nos
seja sempre um vilão. É fu nda- pennite resolver as mais diferentes
mental que possamos identificar situações. O cérebro, porém, não

NÍVEIS muito baixos de stress afetam de forma negativa a produtivi-


dade. O melhor desempenho ocorre quando o stress está presente
de forma moderada. Sua manifestação crônica, provocada pelo
medo da violência ou pelo desgaste de enfrentar congestionamentos
diários, é responsabilizado por problemas que vão de fadiga crônica
à dificuldade de concentração, em muitas pessoas. l evantamento de
2004 feito pelo Centro de Pesquisas em Psicoterapia de Stuttgart e
pela Faculdade de Medicina de Ulm, na Alemanha, com 407 pessoas
revelou que o grupo que percorria longas distâncias para trabalhar
reclamava duas vezes mais de dores, tontura, fadiga e privação de
sono do que os que moravam perto do emprego - e, portanto,
estavam livres desse tipo de stress crônico.

30 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


apenas respo nde, mas também UMA DAS funções importantes do sono é a consolidação de
antecipa possíveis situações estres- memórias. As atividades cerebrais e nvolvidas nesse processo
santes. Algumas preocupações são foram pesquisadas e descritas pelo neurocientista brasileiro
saudáveis, embora deflagrem uma Sidarta Ribeiro, diretor de pesquisas do Instituto Internacional
espécie de stress antecipado, cha- de Neurociências de Natal Edmond e Lily Safra (IINN-ELS).
Segundo ele, quando uma pessoa dorme, modulam-se desde
mada de ansiedade, que pode ser
processos moleculares dentro dos neurônios até modificações
percebido como indesejável. Em eletrofisiológicas em múltiplos circuitos neurais. Além disso,
doses saudáveis, no entanto, essa durante a fase do sono com intensa atividade onírica (co-
habilidade de "pré-ocupar-se" evita nhecido como sono REM), ocorre a expressão dos genes que
que nos coloquemos em situações ajudam a perenizar conexões sinápticas recém-utilizadas.
problemáticas, o que é favorável
- desde que nas horas certas.
A ansiedade crô nica, porém,
diminui a qualidade de vida ao
fazer com que o cérebro "crie" seu
próprio stress crônico, apontado
pela neurociência hoje como o
vilão da história. Por meio da pro -
dução sustentada de doses maciças
de hormônios g licocorticó ides no
sangue, que agem diretamente
sobre neurônios do cérebro, levan-
do-os à morte, a resposta de stress
prolongada e exagerada acaba por
tornar ruim para corpo e cérebro
tudo o que inicialmente era bom.

neurônios novos no hipocampo


têm ação inibitória, funcionam
A força dos exercícios como um freio que mantém sob
controle a percepção do stress e
a resposta a ele. Disfu nções nesse

B oa parte dos problemas de


saúde me ntal d os idosos é
causada ou ag ravada pela má
No fina l dos anos 90, a neuro-
ciência desco briu q ue a ação
antidepressiva e estabilizadora
sistema, como a perda do controle
inibitório interno do hipocampo,
causam ansiedade e aumentam a
saúde física. A troca de massa do humor do exercício físico está resposta ao stress.
muscular por gordura, a tendência relacionada a uma ação surpreen- Aqui está a importância dos
ao sedentarismo e à hipertensão dente do corpo sobre o cérebro: ansiolíticos, substâncias capazes
comprometem o desempe nho a capacidade d e fazer com que de aumentar diretamente a ini-
cardiovascular, o que aumenta aum ente a produção de neurô- bição dentro do hipocampo e,
a possibil idades de ocorrência nios novos no hipocampo e no portanto, co nter a respos ta ao
d e microde rrames e acide n- sistema de recompensa. stress. E aqui está, também, o lo -
tes vasculares - sobretudo por H oje se sabe que o hipocam- cal de ação de todos os tratamen-
causa do acúmulo de pl acas po, conhecido por seu papel na tos com efeitos antidepressivos
ateroscleróticas nas artérias, com formação de novas memórias, - incluindo o exercício físico. Os
o passar do tempo. também atua como a origem de efeitos se dão através da produ-
O exercíc io físico in tenso um sistema de ala rme que nos ção de um fator de crescimen to,
também é um dos me lhores lembra de tarefas a cumprir e chamado BDNF, em resposta a
estabilizadores de humor q ue a gera a ansiedade que nos chama a antidepressivos, lítio, eletrocho-
neurociência moderna conhece. atenção para os deveres. Como os que - c exercício físico.

www.mentecerebro.com.br 31
Contar com maior quantida-
de de neurônios no hipocampo
n11tes de ocorrerem situações es-
tressantes também confere uma
gra nde vantagem ao cérebro: ele
responderá de forma mais ade-
quada (e saudável) em situações
de strcss crôni co. O aumento de
células neurais a cada dia pode
até dobrar se acrescen tamos o
exercício fís ico à roti na.

O SEDENTARISMO é o gran-
de vilão no desencadea-
mento de a lgumas formas
de dem ê ncia, indicam as
pesquisas. Um trabalho de-
senvolvido pela Universi-
dade Harvard e outras três
instituições com mais de 18
mil mulheres entre 70 e 81
anos apontou que, quanto
maior o tempo dedicado às
atividades físicas, em especial
as caminhadas, mais lento é
o declínio cognitivo. Esse foi
um dos primeiros trabalhos a
explo rar a relação específica
entre caminhada e função
cognitiva, e os resultados
foram publicados em 2004
no journal of the American
Medica/ Association.

possibilitados de dormir mostram,

6 Dormir bem
e bastante
por exemplo, que os animais se
tornam mais agressivos. Longos
períodos de vigOia prejudicam a
memória e a cognição.
Além disso, a re lação e ntre

O sono é fundamental para o


bem-estar: é nesse momento
que, sem parar de funcionar, o
energia para a ação, é totalmente
desligado. Em seu lugar, o sistema
parassimpático reina sozinho so-
o sono e a regulação da resposta
ao stress faz com que a falta de
sono leve a problemas de saúde
cérebro descansa, reorganiza as bre o corpo, permitindo que ele associados ao stress crônico. Um
memórias do dia - e se prepara reduza o metabolismo e reponha estudo recente mostrou que, entre
para lidar de maneira saudável com suas reservas energéticas. pessoas que dom1em seis horas e
o stress do dia seguinte. Durante )á falta de sono é por si só meia por noite, aquelas com o sono
a fase sem sonhos de cada noite um stress: a insônia leva à libe- fragmentado, que acordam várias
ocorre o único período do dia ração de altos níveis de cortisol vezes duran te a noite, têm níveis
em que o sistema nervoso sim- no sa ngue, o que desencadeia mais altos de gordura e cortisol no
pático, responsável pela resposta alterações no comportamento. sangue, e pressão arterial elevada.
ao stress de disponibilização de Pesquisas realizadas com ratos im- O problema se agrava porque a

32 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


ansiedade associada ao pró prio
stress crônico pode levar a insônia
e fragmentação do sono - o que
agrava a resposta crônica de stress,
e torna o adormecimento ainda
mais difícil. Outro estudo mostrou
que a falta de sono é duplamente
maléfica à capacidade do cérebro
de regular a resposta ao stress,
pois não só reduz a produção de
neurônios novos no hipocampo
como ainda aumenta a morte dos
neurônios que já estão lá.

SALADAS SÃO FUNDAMEN-

7 Alimento P.ara TAIS, já que o cérebro produz


grande quantidade de energia

pensar melhor -e também muitos radicais li-


vres. Por serem antioxidantes,
as vitaminas C e Eatuam como
neuroprotetores. A vitamina
que com~mos pode influir B12 e o ácido fólico melhoram
O na mane1ra como raciO-
cinamos? Pesq ui sas mostram
a pontuação das crianças numa
varie d ade de testes cogni ti-
vos, mas q uan do os exercícios
a memória. A ingestão de ver-
duras e legumes crus, ricos em
vitaminas e betacarotenos,
que sim, já que o cérebro é o ficaram mai s compl exos , os
ajuda a manter os neurônios
ó rgão mais exige nte do corpo voluntários que toma ram, no em bom estado. Recentemen-
- e tem algum as necessidades café matinal , cereais com alto te, o biólogo Dwight Tapp e
dietéticas específicas. N ão é de te or d e prote ínas obtiveram colegas da Universidade da
estranhar, portanto, que mantê- melhores resultados. Califórnia, em lrvine, com-
lo adequadamente alimentado A despeito da pol ê mi ca provaram que uma dieta rica
favoreça mecanismos cogniti- que o co nsum o de ovos te m em antioxidantes melhorava
as aptidões cognitivas de 39
vos e mne mô nicos. Uma pro- despertado, es tudos recentes
beagles adultos - provando
vidência que pode contribuir, indicam que o omelete é um a que é possível ensinar novos
logo cedo, para a acuidade das esco lh a inte li gente para o truques a um cão velho. Tudo
funções cognitivas é tomar café almoço se fe ito praticamente leva a crer que humanos
da manhã. Estudos revelam que sem gordu ra , acom panhado também se beneficiem de
deixar de lado a primeira refei - de sa lada. O ovo é rico em regimes alimentares que com-
ção do dia reduz o desempenho col ina, substânc ia usada pelo bate m o "enferrujamento"
intelectual. organ is mo para produ z ir o cerebral.
Para completar o almoço,
Pesquisa dese nvolvida pela neuro transmissor acetilcolina.
um iogurte é boa opção. O
nutricionista Barbara Stewart- Pesquisadores da Uni ve rsidade alimento contém o aminoáci-
Knox, professora da Universi- de Bosto n, Estados Unido s, do tirosina, necessário para a
dade de Ulster, Reino Unido, consta taram q ue, quando ad- produção dos neurotransmis-
e publicada em 2003, mostrou ministrado em adultos jovens, sores dopamina e noradre-
que crianças que tom a m o o fármaco escopolamina, que nalina, entre outros. Estudos
café da m anh ã co m be bidas bloqueia os receptores de ace- realizados pelas Forças Arma-
tilcol ina no c é rebro , reduz das Americanas revelam que
gasosas e petiscos açucarados
há redução dos estoques de
tiveram de se mpe nh o s imilar significativamente a capacidade
tirosina quando estamos sob
ao de pessoas com 70 anos em de memorização de pares de tensão e que a suplementa-
testes de memó ria e ate nção. palavras. Baixos níveis do neu- ção pode melhorar o estado
Segundo a pe sq ui sadora, a rotra nsmissor tam bém estão de alerta e a cognição.
ingestão de torradas aume ntou associados à doença de Alzhe i-

www.mentecerebro.com.br 33
PESQUISAS COM ratos conduzi-
das pelo neurocientista Michael
Meaney, da Universidade Me-
Gil!, no Canadá, apontam como
o carinho recebido na infância
pode afetar o comportamento
na idade adulta. Comparando
roedores que haviam sido bas-
tante cuidados e muito lambi-
dos pelas mães quando peque-
nos aos que não haviam sido, o
pesquisador verificou, em 1997,
que os primeiros apresentavam
menos ansiedade e stress em
uma situação difícil. Em 2004,
a equipe de Meaney verificou
que a expressão do gene para o
receptor do hormônio do stress
muda conforme os tipos de
cuidados que os ratos recebem
quando filhotes.

mer; algu ns estudos sugerem


q ue o aum e n to dessa su bs-
tância na d ieta pode diminuir
o ri tmo da perda de memória
relacio nada à idade.
Para manter os níveis de
8 Receber e oferecer carinho
cari nho tem um enonne im- Do ponto de vista evolutivo, a
glicose em alta, convém fazer
um lanche no meio da tarde. Só
O pacto sobre o cérebro. Esse
tipo particular de toque, com pres-
expressão física do afeto aproxima
as pessoas e leva à formação de
tenha o cuidado de evitar as co- são moderada e movimento lento vínculos sociais e afetivos. Um
midas calóricas com baixo valor sobre a pele, é detectado por Abras simples abraço pode ser suficiente,
nutritivo e, part icu larmen te, nervosas especiais, que levam a por exemplo, para fazer o cérebro
guloseimas altamente processa- informação à ínsula. A partir daí, aumentar a liberação de ocitoci na,
das, como bolos, massas doces os efeitos são distribuídos pelo hormônio que facilita a aproxi-
e salgadas e biscoitos, que con- cérebro: o hipotálamo dim inui mação entre pessoas. Além de
têm ácidos graxos tra ns. Elas os níveis corporais de hormônios ter efeito tranqüi lizante sobre o
não provoca m ape nas acúmulo do stress, o locus coemleus reduz cérebro, reduzi ndo o nível de aler-
de quilos. H á três anos, durante sua atividade e a quantidade de ta e ansiedade, a ocitoci na reduz
o congresso anual da Sociedade noradrenalina- neurotransmissor medos e fobias, nos torna mais
de Neurociência em San Diego, que ativa os sistemas de alerta e confiantes, e ainda oferece uma
Cali fó rnia, foi relatado que ra- vigília - que ele libera sobre o sensação de bem-estar ao estimu-
tos e camundongos cri ados com cérebro. Os músculos relaxam e, lar o sistema de recompensa.
jtwk food para roedores tiveram ao sentir o corpo menos tenso, o Ao ser acariciado o bebê reco-
difi culdade de encontrar saída cérebro também "relaxa". Com nhece a presença de um outro que
em labirin tos e levaram mais menos stress para corpo e cérebro, o aquece, protege e alimenta. Nes-
tempo para lembrar soluções aumenta a sensação de bem-estar. sa fase, o afeto "ensi na" o cérebro
de problemas que já tinham re - Com o tempo, os neurônios do a fom1ar uma resposta saudável ao
solvido. Q uando esses animais hi pocampo são mantidos mais stress. Também na vida adulta, o
receberam uma droga para re - saudáveis, já que sua atrofia ao toque delicado é uma maneira
duzir os níveis de triglicérides, longo dos anos adul tos é di re- poderosa de regular ansiedade e
seu desempen ho nas ta refas de tamente relac ionada ao stress respostas exageradas ao stress de
memo ri zação melh orou. - incluindo a solidão. maneira geral. Mais curioso, con-

34 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


9
tudo, é que o carinho se "propaga"
d e uma geração para a outra. Se
a criança é tratada com carinho
desde o nascimento, seu cérebro Solid-o que faz adoecer
alcançará uma melhor "regulagem"
do sistema de resposta ao stress, o
que lhe dará mais chances de se
tomar mais resistente a situações
que causam medo e ansiedade. E
P ara seres sociais, como nós,
ter compan hia é mais do
que um desejo: é uma neces-
sobre o bem-estar pode estar
na regu lação da resposta ao
stress c rôn ico. Se considerar-
tam bém mais possibilidades de sidade, fundamental pa ra o mos que o próprio isola mento
dese nvol ver relac ionamentos bem-estar. Curi osamente, essa é para o cé reb ro uma fonte de
amorosos no futuro. necessidade não se dá tanto stress, flca fácil entender por
pela possibi lidade de receber- que as pessoas soc ialmente
mos afeto efetivamente, e s im isoladas têm o sistema nervoso
ESTUDOS RECENTES mos- por sabermos que os outros simpático- aque le que dispara
tram que relações estáveis estão lá, dispo níveis e ao nosso a res posta ao stress - cron i-
estimulam a saúde mental e alcance, mesmo q ue seja ape- camen te hi perativo. Como a
física e até prolongam a vida.
nas para nos ouvi r c oferecer resposta crô nica e inte nsa a
Segundo psicólogos, os ami-
gos íntimos são mais decisivos um o mbro amigo em tempos vivê ncias estressantes provoca
p a ra nosso bem-estar psí- difíceis. Por isso, o isolamento hipertensão e leva à formação
quico. Pesquisa da Escola de prolongado costuma provocar de placas nas artérias, essas pes-
Saúde Pública de Harvard, em so frimento psíquico - e faz o soas têm de duas a c inco vezes
Boston (EUA), mostrou que corpo adoecer. mais riscos de sofrer de doenças
home ns idosos com muitos Estudos revelam que pessoas cardíacas. No que talvez seja
amigos têm no sangue uma a d esco berta da neurociê ncia
que culti vam relacio namentos
concentração muito menor
co nj ugais h armoni osos e/ ou de maior impa cto social da
da substância interleucina-6
(que causa inflamação e é con- têm amigos íntimos adoecem dé cada, hoje sabemos como
siderada fator de risco para me nos e vivem mais do que as o contato social , na forma de
doenças cardiovasculares), na q ue têm poucos re lacionamen- abraços, beijos e carinhos , ga-
co mparação com os homens tos afetivos. O impacto positi - ran te ao cérebro que você não
mais solitários. vo d ireto dos relacio namentos está sozinh o no mu ndo. me<

Cérebro em forma.
Camila Ferreira-Vorkapic,
em Mente&Cérebro 170,
págs. 74-81,
março de 2007.
Mentes brilhantes.
Philip E. Ross, em
Scientific American Brasil
52, págs. 60-67,
setembro de 2006.
Reflexo revelador.
David Dobbs, em
Mente&Cérebro 161,
págs 46-51 , junho
de 2006.
Melodia para os
ânimos. Stéphanie
Khalfa, em
Mente&Cérebro 149,
págs. 70-73,
junho de 2005.

www.mentecerebro.com.br 35
Muitos O córtex rec obre quase Cada uma dessas dobras é esquerda do córtex. O giro do
todo o cérebro na forma de um chamada giro ou circunvolução. cíngulo envolve o corpo caloso
filósofos manto cinzento de células ner- O s espaços entre elas, sulcos o u que integra o sistema límbico.
vosas, com espessura de quase Rssuras. Também têm nomes um Se, para variar, observarmos
defendem
meio centímetro, o que não pa- pouco estranhos. Em que o utro o córtex por baixo (ver ilustração
que a tmagem rece muito. No entanto, é muito lugar seria possível encontrar na pág.J9 ), podemos constatar
mais extenso do que se acredita um "giro reto"? Ou coisas esqui- que na base do lobo frontal
que temos do à primeira vista, já que cor- sitas como um "córtex insular" estende-se um pequeno feixe
mundo não responde a aproximadamente e um "lobo semilunar", por de fibras que enco ntra sa ída
metade do ta manho total do exemplo. através de uma estrutura do
é real, mas nosso cérebro. Podemos pensar na hgura tamanho de um grão de arroz.
se trata de Na verdade, o órgão nem de um cérebro cortado ao me io Depois de bifurcar, ele desa pa-
sequer cabe dentro do crânio. longitud inalmente. O cérebro rece sob o lobo temporal no
um produto Tem- se a impressão de que é composto de duas metades, fundo da Rssura sagital. Esse é
criado pela foi enfiado todo amassado, lá chamadas hemisférios, divididas o trato o lfatório que transporta
dentro, por falta de espaço. por um sulco profundo, a Rssura informações o lfativas direta-
nossa mente Em outras palavras: suas pregas sagital. Para q ue as partes não me nte para o córtex. A borda
estreitas, uma ao lado da outra, se se parem de fato, esse corpo do lobo temporal mais próxima
apresentam mais ou menos o caloso - um enorme feixe de do centro é formada por duas
mesmo padrão em todas as nervos- no fundo do sulco li ga c ircu nvoluções: o g iro para-
pessoas (ver ilustração abaixo). justamente as metades direita e hipocampal e o giro den teado.
Eles também têm ligação com
A DIVISÃO EM QUATRO LOBOS o sistema límbico.
Mas vamos considerar tam-
Fissura bém a visão lateral do cérebro: a
central Rssura central atravessa o hemis-
fério cerebral de ponta a ponta.
Tudo o que está diante dela faz
parte do lobo frontal. Atrás dela
Lobo Rcam o lobo pari etal e , bem
frontal no Anal , o occipital. A parte
inferior do córtex que parece
brotar dos lobos parietal e oc-
c ipital -- limitada pela profunda
fenda lateral na parte superior-
Lobo é o lobo tempo ral.
occipital
As áreas que se ocupam
das funções básicas sensório-
motoras são chamadas córtices
"primários". O da visão, por
exemp lo, fica no lobo occi-
pital. Em to rno dessas áreas
estão as regiões dos córtices
"secundários" e "terciários" que
Lobo temporal
também prestam serviços às suas
respectivas áreas, mas lidam
As áreas sensório-motoras do isocórtex foram mai s com aspectos parciais
Fissura lateral destacadas por cores nesta visão lateral:
tonalidades fortes marcam os córtices "primários",
específicos: a área da visão, por
cores mais pálidas, indicam os campos corticais exemplo, compreende o reco-
"secundários" e "terciários". As extensas regiões nhecimento de movim entos,
(bege) são chamadas "córtices de associação".
cores ou objetos.

38 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


VISTO POR BAIXO: perna é que não. Fenômenos
áreas corticais como esse ofe recem suficien-
sensoriais estão
marcadas em
tes exercícios mentais para
Fissura sagital filósofos e fisiól ogos: onde fica
cores. As regiões
Lobo frontal
tracejadas indicam no córtex a instância que se au-
os alocórtices
todenomina "eu"? Ela pode ser
localizada e afe tada?
Trato Além disso, podemos nos
olfatório perguntar como as diferentes
áreas cerebrais podem ter fun-
ções tão distintas- pois o cór-
tex parece ser todo ig ual. Pelo
menos à primeira vista. Sob
Lobo as lentes de um microscópio
temporal surgem diferenças na estrutura
do tecido. Podem ser deli mita-
das 47 áreas corticais - e elas
muitas vezes são idênticas às
regiões funcionai s separadas
por sulcos. Diante dessa quanti -
Lobo occipital dade, nem mesmo aos criativos
anatomistas ocorreram ta ntos
nomes, portanto , e les sim-
plesmente as numeraram. Pelo
Por fim, existem a in da Normalmente, vivencia- menos a maioria delas.
regiões corticais para as quais mos o mundo, assim como a Dentre essas 47 áreas cor-
fluem informações vindas de to- nós mesmos, não como um ticais, cerca de 40 delas (ana-
dos os sistemas sensório-moto- mosaico de eventos isolados, tomistas discordam quanto ao
res. Nesses "córtices de associa- mas como algo único, como número exato) fazem parte do
ção", as condições internas do um todo. As pesquisas sobre o chamado isocórtex (do grego
sistema humano - seus pensa- cérebro, porém, nos ensinam iso, igual), que forma a principal
mentos e intenções- são com- justamente o oposto: que essas parte do córtex. Tudo o que se
paradas com as informações do "totalidades" são divisíveis em vê na imagem lateral do cérebro
meio amb iente e com as expe- unidades que podem perecer (ver quadro na pág. 4 1) recebeu
riências acumuladas. Em suma, individualmente. esse nome porque te m uma
aqui surge o mundo da forma estrutura basta nte uniforme. O
como o vivenciamos. Arquitetura de fios isocórtex compõe-se de cinco
No entanto, determinadas Sendo assim, as funções cog- camadas de células nervosas e
funções cognitivas ou, se pre- nitivas podem ser "desligadas" de uma fina camada de subs-
ferirem, determinados aspectos seletivamente quando uma tância branca na parte externa.
parciais do mundo, t ambém área cortical é lesio nada; isso Diferenças sutis na espessura do
podem ser localizados no cór- acontece às vezes quando há invólucro e no número de neu-
tex de associação. Alguns estu- tumores cerebrais. Certa ma- rônios de um determinado tipo
di osos do cérebro acreditam, nhã, o pobre paciente acorda permitem, porém, que ele seja
até mesmo, que é possível e n- na cama do hospital e acha que dividido nas 40 sub-regiões .
contrar algumas células neurais sua perna esquerda pertence a Mas como é exatamente a es-
responsáveis por uma função outra pessoa e lhe foi implan - trutura celular do isocórtex? Em
cognitiva altamente específica. tada por algum cirurgião. Ele todo lugar as células nervosas e
Por exemp lo , a preferência quer sua perna de volta! Fora gliais são acopladas, formando
por sorvete de choco l ate isso, cogn it ivame nte todo o "colunas" de aproximadamente
em vez do de coco . resto está perfeito, só a maldi ta 0,25 milímetro de espessura

www.mentecerebro.com.br 39
O DESENVOLVIMENTO EMBRIONÁRIO

FETO de rato:
espe cialização
e ncefá lica se
de u ao longo
da evolu ção
das espécies

40 MENTE&:CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


OS PILARES DA
EM FORMA SABEDORIA
DE TRIÂNGULO No interior do isocórtex
encontram-se estruturas
As células piramidais estão semelhantes a pilares:
presentes por todo o isocórtex. as colunas corticais
O nome vem de seu formato que se dirigem
verticalmente para a
triangular. Elas funcionam superfície do córtex,
como "elementos de output" dentro das quais
das colunas: todos os resulta- as células nervosas
dos dos cálculos corticais che- (laranja, vermelho)
gam através de suas extensões estão conectadas
predominantemente
(axônios) a outras regiões não entre si. As informações
corticais do cérebro e da me- processadas saem
dula . Essas conexões, chama- das colunas através
das "fibras de projeção" (e as das células piramidais
(vermelho)
respectivas células piramidais),
compõem apenas uma fração
mínima da fiação do córtex,
pois ele se ocupa principalmen-
te consigo mesmo: a massa de
Células piramidais
células piramidais nas colunas
envia seus axônios para outras
áreas corticais. As "fibras da
comissura" ou "de associação"
enviam informações através
do corpo caloso para o hemis-
fério oposto.
Com isso, o córtex per-
manece, digamos, imerso no
de fo rma analógica
caldo das informações pro-
e não di g ital , e as
duzidas por ele mesmo. Esse
carac t e rísticas d e
é o motivo pelo qual alguns
filósofos acreditam que o resul- transmissão da "na-
tado da imagem que temos do ção" no interi o r de
mundo não é o reflexo de uma uma dessas colunas
realidade externa, mas mero podem se mo dificar
produto de nossa cabeça. em minutos - depe n-
Há ainda outras poucas dendo do fenômeno elé -
áreas corticais, caracterizadas (ver imagem ua pág. 3 9 Jque a tra- trico q ue ocorre dentro de la
por outra estratificação não vessam todas as camadas. De n- a cad a mome nto . A pró pria
menos complexa, que não tro de cada uma dessas colunas, arquitetura dos nos pode mudar
fazem parte do isocórtex.
os neurô nios são ligados muito rap idamente, de ntro de ho ras
Elas se localizam nas bordas
ma is es tre ita me nte e ntre si ou di as: sinapses simplesmen -
do cérebro, "dobradas" para
do que com aqueles das colu- te desa parecem da "tela". Em
dentro. A maioria dessas
conformações são chamadas nas vizinhas. O s anatomistas com pensação, surgem novos
alocórtices e fazem parte consideram esses arranj os os po ntos de contato em al gum
do sistema límbico - um ou verdade iros "módul os", os "pro- outro lugar. É ass im que nós
dois deles estão a serviço do cessadores" do córtex. aprendemos - e esquecemos. Doen~as do cérebro.
olfato. Aliás, "alo" significa D e fa t o, a an a lo g ia do Q u a nd o p e nsa m os qu e h á Especial Mente&Cérebro
simplesmente " diferente"; n95,2006.
c ére b ro com o com puta d o r milhões de colunas no córtex,
assim, o alocórtex é o córtex é b as ta nte fre qüe nte. C omo não nos admiram os mais pelo Cérebro- A
diferente porque sua estrutu- maravilhosa máquina
todas as metáforas, e la é de - fato de os pesquisado res ainda de viver. Alessandro
ra diverge da regra estrita de monstrativa, mas também e n- não terem uma noção exata de Grecco. Editora Terceiro
cinco-mais-um do isocórtex.
ganosa, pois o córtex trabalha como tudo isso fu ncio na. ~ Nome,2006.

www.mentecerebro.com.br 41
POR )AMES M. BOWER E LAWRENCE M. PARSONS
Trabalham no Research lmaging Center da University of Texas Health
Science Center, em San Antonio, onde Bower é professor de neurobiologia
computacional e Parsons, professor de neurociências cognitivas.

P
or vários anos cientistas não tiveram dúvidas de que signiflcativa, aumentando pelo menos três vezes ao longo
o cerebelo fosse o ponto de controle da organização do último milhão de anos da história humana, conforme
dos movimentos no cérebro. Recentemente, porém, registros fósseis. Mas, talvez, sua característica mais
sua função voltou a ser objeto de debate. Usando novas notável seja o fato de conter mais neurônios que o resto
técnicas de imagcamento encefálico, os neurocientistas do encéfalo. Além disso, a forma como as células neurais
cognitivos descobriram que o cerebelo humano está estão interconectadas permaneceu essencialmente cons-
ativo durante uma grande variedade de atividades não tante por mais de 400 milhões de anos de evolução dos
diretamente relacionadas ao movimento. Soflsticados vertebrados (ver quadro ua pág. 15). Desse modo, o cerebelo
estudos cognitivos também revelaram que lesões em de um tubarão possui neurônios organizados em redes
áreas específlcas do cerebelo podem causar impedimentos quase idênticas às encontradas em humanos.
inesperados em processos não·motores, afetando, em es- A hipótese de que o cerebelo controle movimentos
pecial, a rapidez c precisão com que as pessoas percebem foi proposta pela primeira vez na metade do século XIX.
sensoriais. Fisiologistas notaram que a remoção do órgão poderia
descobertas indicam que o órgão tem papel resultarem dinculdades na coordenação dos movimentos.
importante na memória de curta duração, na atenção, no Durante a Primeira Guerra Mundial, o neurologista inglês
controle de atos impulsivos, nas emoções, nas funções Cordon Holmes (1876-1966) ampliou essas descobertas
cognitivas superiores, na habilidade de planejar tarefas e, percorrendo a linha de batalha e documentando problemas
possivelmente, até mesmo em quadros como a esquizo- de coordenação motora em feridos no cerebelo.
frenia e o Outros experimentos neurobiológicos Nos últimos 20 anos, investigações mais detalhadas
padrão de entradas sensoriais e a maneira de tornaram a história mais complexa. Em 1989, Richard
processar informação do cerebelo -sugerem a necessidade B. lvry e Steven W. Keele, da Universidade de Oregon,
de revisarmos o que se pensa atualmente-sua função tor- observaram que pacientes com lesões no cerebelo eram
nou-se, novamente, uma área de "provocante mistério". incapazes de avaliar com precisão a duração de um som
tão surpreendente que o cerebelo específlco ou o intervalo de tempo entre dois sons. No
rr.,nh."l"' do movimento. A área que início dos anos 90 pesquisadores liderados por Julie A.
ocupa e sua intrincada estrutura sugerem ~·m papel mais Fiez, da Universidade de Washington, veriflcaram que
amplo e complexo. Trata-se de uma estrutura menor pacientes com cerebelo lesionado eram mais propensos
que o córtex cerebral, a superfície enrugada formada a cometer erros em tarefas verbais.
pelos dois grandes hemisférios que são lugar de muitas Em estudos mais recentes, demonstramos que pes-
~fuft~eSJ~~ica.s. Assim como o córtex cerebral humano, soas com doenças neurodegenerativas, que causavam
o cerebelo abriga uma extraordinária quantidade de especincamente o encolhimento do cerebelo, exibiam
circuitos em um pequeno espaço, dobrando·se muitas menor acuidade na avaliação de pequenas diferenças na
vezes sobre si mesmo. Na verdade, o cerebelo humano tonalidade de dois sons. Do mesmo modo, Peter Thier c
é muito mais dobrado que o córtex cerebral e, em vários seus colegas da Universidade de Tübingen, Alemanha,
mamíferos, é a única estrutura encefálica que forma con- descobriram que pessoas com lesões ou encolhimento
voluções. Se o cerebelo humano fosse estendido, flcaria parcial e total do cerebelo eram mais suscetíveis a cometer
do tamanho de uma folha com área média de 1.128 cm2 . erros em testes em que deveriam detectar a presença,
Isso é mais que a metade dos 1.900 cm 2 correspondentes velocidade e direção de padrões móveis. Além disso,
à superfície dos dois hemisférios cerebrais combinados. Hermann Ackermann c seus colaboradores, também em
Apesar de biólogos considerarem o crescimento do Tübingen, observaram que pacientes com degeneração no
córtex uma característica dennidora do grau de evolução cerebelo tinham dinculdade para distinguir sons similares
do cérebro humano, o cerebelo também cresceu de forma em palavras como, por exemplo, "aberta" e l/aperta".

www.mentecerebro.com.br 43
exageradas. Outros pesquisadores lembrassem de uma lista de letras li-
demonstraram que adul tos com das momentos antes. Ou quando era
lesão do cerebelo exibiam respostas pedido que procurassem um padrão
atrasadas e tendiam a cometer erros em uma determinada imagem. Em
em testes de raciocínio espacial, 2002, em seu estudo de imageamen-
como determinar se as formas de to encefálico, Xavier Castellanos,
objetos vistos sob diferentes ângulos Judith L. Rapoport e seus colegas do
combinavam. Alguns relacionaram National lnstitute o f Mental Health
o cerebelo com a dislexia. Rod I. (N IMH) descobriram que crianças
Nicolson e seus colegas da Univer- portadoras de transtorno do déficit
sidade de Sheffield, na Inglaterra, de atenção/hiperatividade (T DAH)
descobriram que disléxicos e por- - caracterizado pela incapacidade
tadores de lesão no cerebelo têm de controlar atos impulsivos- apre-
déficits semelhantes na capacidade sentaram cerebelo de dimensões
de aprendizado e que, além disso, os reduz idas. Por fi m, estudos com
primeiros têm a atividade cerebelar pessoas e animais saudáveis indi-
RUDOLF VAN'T HOFF de A incapacidade enfrentada por reduzida durante certas tarefas. caram que o cerebelo está sempre
Howard, Maryland, sofre pessoas com lesão no cerebelo pode Outros estudos recentes su- ativo durante processos sensoriais
de uma lesão cerebelar
causada por atrofia ir além de aspectos lingüísticos, gerem que o cerebelo pode estar como audição, olfação, sede, fome,
espinocerebelar do visuais e auditivos. Jeremy D. Sch- envolvido na memória de trabalho, consciência dos movimentos corpo-
tipo 1, doença genética mahmann, do Massachusetts Ge- na atenção, em funções mentais rais e percepção de dor.
rara que se manifesta
geralmente na meia-
neral Hospital, relatou que pacientes como planejamento e organização
idade. O distúrbio afeta com danos no cerebelo, adultos ou temporal, além do controle de atos Tocar e sentir
seu equilíbrio, fala e crianças, apresentavam di ficuldade impulsivos. Dois estudos indepen- Estamos conve ncidos de que a
coordenação, além de
em modular emoções. Estímulos dentes de imageamento neural tradicional teoria da função cerebelar
prejudicar a capacidade
de discriminar certos que, na maioria das pessoas, provoca- realizados em 1997 mostraram que o do controle motor não dá conta dos
sons. Ele usa uma corda riam respostas moderadas causavam, cerebelo de voluntários saudáveis era novos dados. Chegamos a essa con-
elástica para estabilizar nesses pacientes, reações falhas ou ativado quando se pedia que eles se clusão quando estudávamos regiões
o corpo quando está
sentado em seu trator cerebelares ativadas por estímulos
táteis. Um de nós (Bower) iniciou
MAIOR QUE SE IMAGINAVA esses estudos há mais de 20 anos,
Estendendo a camada externa, ou córtex, dos dois hemisférios no laboratório de Wallace I. Welker,
cerebrais e do cerebelo humano, podemos perceber que este da Universidade de Wisconsin, Ma-
possui aproximadamente a mesma área que um único hemisfério dison. Empregávamos a técnica do
cerebral, apesar de ocupar muito menos volume quando "dobrado"
"micromapeamento" para registrar
(convolucionado). Seu tamanho e a complexidade sugerem uma
função crucial. a atividade elétrica de pequenos
Hemisférios cerebrais conjuntos de neurônios no cérebro
de ratos enquanto tocávamos suave-
mente várias partes de seu corpo.
Esses estímulos evocavam ati-
Córtex cerebral Córtex cerebral vidade numa extensa área do ce-
esquerdo estendido direito estendido
rebelo (ver ilustração ao lado). Além
disso, o mapa parecia fragmentado,
com áreas vi zinhas no cerebelo
freqüentemente recebendo sinais
de entrada de áreas não contíguas
do corpo, e áreas corporais distan-
tes entre si. Esse mapeame nto é
diferente do que ocorre no córtex
cerebral, onde as relações espaciais
entre partes da superfície do corpo

44 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


CÉLULAS NEURAIS EM CONEXÃO
r------------------------------------------------------------------------------------------------
As características básicas do circuito cerebelar são co- o tipo de neurônio mais numeroso no encéfalo. O axônio
nhecidas desde o fim do século XIX, a partir do trabalho (a principal linha de saída para o sinal neuronal) de cada
do neuroanatomista espanhol Santiago Ramón y Cajal célula granular ascende verticalmente, saindo da camada
(1852-1934). O neurônio central é a célula Purkinje, em de células granulares e fazendo múltiplos contatos com
homenagem ao fisiologista tcheco johannes E. Purkinje a célula Purkinje imediatamente acima. Esse axônio, en-
(1787-1869), que a identificou em 1837. Trata-se do tão, se divide em dois segmentos que se estendem em
único provedor de sinais de saída do córtex cerebelar e direções opostas. Eles se alinham em feixes paralelos que
um dos maiores neurônios do sistema nervoso, poden- atravessam pelos braços, ou dendritos, das células Purkinje
do receber entre 150.000 e 200.000 entradas (sinapses) como fios elétricos passando por postes, provendo um
- o que representa uma ordem de magnitude a mais do único sinal de entrada para muitas centenas de células
que podemos encontrar em qualquer outro neurônio de Purkinje. As células granulares também se comunicam
do córtex cerebral. Esses sinais de entrada emergem com outros três tipos de neurônios - as células estelares,
principalmente das células granulares cerebelares, alguns as em cesta e as de Golgi - que ajudam a modular os si-
dos menores neurônios encontrados nos vertebrados. As nais emitidos tanto pelas células granulares quanto pelas
células granulares estão juntas, acondicionadas em uma Purkinje. Esse padrão básico é encontrado em qualquer
densidade de 6 milhões por milímetro quadrado, sendo cerebelo, indicando ser essencial para sua função.

Célula - --t--7--t-·
em cesta

Célula de
axônlo granular.
ascendente

Células
granulares

www.mentecerebro.com .br 45
NATUREZA FRAGMENTADA Outros pesquisadores têm pro-
posto que o órgão não apenas
Área representativa do Uma área em particular facilita os movimentos Anos, mas
córtex cerebelar da face de um rato também "suaviza" o processamento
não é representad a de informação relacionada com o
como uma área única
no cerebelo. Quando humor c o pensamento. Schmah-
os cientistas tocam no mann expressou esse ponto de
lábio inferior de um rato vista em 199 1, e, em 1996, Nancy
com uma sonda, por C. Andreason, da Universidade de
exemplo, eles podem
registrar a atividade lowa, adaptou essa hipótese para a
elétrica em vários pontos esquizofrenia. Ela supõe que déncits
não adjacentes e até cercbelares esta riam por trás da
distantes sobre o córtex
cerebelar do animal. desorganização das funções men-
Tal fragmentação pode tais que caracterizam o transtorno.
permitir que o cerebelo Outros cientistas propuseram que
integre uma variedade
Bigodes frontais de info rmações as regiões do cerebelo que se expan-
l ábio superior L Cérebro sensoriais que entram, diram dramaticamente ao longo da
- Interior da boca ~ do rato obtidas por diferentes evolução humana provêem suporte
- l ábio inferior 'J. partes d o corpo durante computacional para tarefas psicoló-
Dente superior l ... t> a sessão de exploração. 8
- Dente infe rior r - Cerebelo ~
----------------------------~----------------------------------------------__J~
gicas que poderiam ser deslocadas
do córtex, no caso de sobrecarga.
são mantidas nas regiões corticais, de que o cerebelo do roedor, de al- Mas cientistas ainda têm de que
que respondem a essas áreas e guma maneira, estava "comparando" explicar como é possível uma única
para onde emitem sinais. a informação sensorial oriunda de estrutura encefálica - cujo circuito
Considerando as difere nças diferentes partes da face recebeu sus- neural é organizado em um padrão
entre as regiões corporais repre- tentação de modelos e experimentos unifom1e e repetitivo-desempenhar
sentadas no cerebelo de diferentes que examinavam como o cerebelo esse papel integral e tantas funções e
animais, nossa pergunta básica foi respondia aos estímulos. Daí emer- comportamentos díspares.
modincada: o que há em comum giu uma nova hipótese sobre a função Mais confuso ainda é o fato de
entre a boca de um rato, a pata de cerebelar, sugerindo o envolvimento que as pessoas podem se recuperar
Há indícios um gato e os dedos de um macaco? dessa estrutura especificamente de lesões cerebelares. Embora a
A conclusão dos estudos realizados na coordenação da aquisição de remoção total do cerebelo inicial-
de que o em Wisconsin parecia indicar que informação sensorial pelo encéfalo. mente desordene a coordenação dos
cerebelo cada animal utiliza a estrutura para Para nos certincar de que está- movimentos, indivíduos (especial-
tenha o papel aprender sobre seu ambiente em- vamos observando apenas efeitos de mente os mais jovens) podem, com
11 pregando o tato. Qualquer pessoa atividade sensorial, e não motora, era tempo suAciente, recuperar um grau
de Suavizar'' o que tenha um gato sabe quantos necessário estudar pessoas capazes considerável de sua função normal.
processamento problemas suas patas podem causar, de seguir instruções explícitas sobre Essa capacidade é uma característica
e qualquer um que esteja familiari- quando mover-se, e quando não. geral do cérebro, mas lesões similares
de info1111ações zado com crianças reconhece como Foi nesse ponto que a parceria entre em regiões sensoriais ou moto-
relacionadas os dedinhos são utilizados para obter nós (os dois autores) se iniciou. Em ras primárias do córtex podem
informação sobre o mundo. Mas os colaboração com Peter T. Fox, da prejudicar funções específicas
ao humor e ao ratos tendem a ter problemas usando University ofTexas Health Scicnce em animais e humanos de forma
pensamento a boca como recurso de orientação. Center, em San Antonio, planejamos severa e permanente. Poucas teo-
A estrutura fragmentada dos mapas um estudo de imageamento neural rias do cerebelo podem explicar seu
táteis no cerebelo sustentava a idéia que comparasse a quantidade de potencial de recuperação funcional.
de que essa região de alguma forma atividade cerebelar induzida em Acreditamos que a capacidade do
estava comparando a informação voluntários instruídos a utilizar seus encéfalo de compensar a ausência do
sensorial proven iente das várias dedos para uma tarefa de discrimina- cerebelo implica uma função geral
partes do corpo do animal utilizadas ção tátil, ou a simplesmente pegar e e sutil de suporte. Segundo nossa
para exploração do ambiente. A idéia largar pequenos objetos. hipótese da coordenação sensorial,

46 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


MOVIMENTOS ESENSORIAUDADE o cerebelo não seria responsável
por comportamentos ou processos
Para distinguir a possível função do cerebelo na coordenação dos mo-
vimentos da integração de sinais de entrada sensoriais, planejamos um psicológicos específicos. Ele funcio-
experimento de quatro partes. Empregamos a técnica de imageamento naria como estrutura de apoio para
por ressonância magnética funcional para revelar a atividade neural no o resto do encéfalo, envolvendo o
cerebelo de seis pessoas saudáveis enquanto recebiam um estímulo em
seus dedos sem movê-los, ou pegando e largando pequenos objetos. monitoramento da entrada de dados
No primeiro cenário, imobilizamos as mãos das pessoas e esfregamos sensoriais e a capacidade de efetuar
pedaços de lixa suavemente sobre seus dedos (a). Algumas vezes se pequenos ajustes na maneira como a
pedia que comparassem a textura de dois tipos diferentes de lixa (b). informação é adquirida.
Ambas as tarefas eram puramente sensoriais, mas a segunda requeria
que cada pessoa discriminasse o que sentia em cada mão.O segundo Pressupomos que tais ajustes
cenário envolvia tanto aspectos sensoriais quanto motores. Um voluntá- assu mam a forma de mudanças
rio colocava suas mãos dentro de sacos diferentes contendo pequenas extremamente sutis na posição de
bolas de madeira com formas e texturas diferentes. Na primeira tarefa
(c), o participante foi instruído a pegar e largar as bolas sem prestar dedos humanos perscrutadores,
atenção às formas. Na segunda tarefa (d), foi orientado a comparar a ou de bigodes na face de ratos, na
forma e a textura de duas bolas cada vez que pegasse uma em cada retina ou no ouvido interno. Como
uma das mãos. O cerebelo mostrou pouca atividade durante as tare-
fas que apenas requeriam pegar e largar bolas (c). Em geral, porém,
estrutura de apoio, seria de esperar
exibia mais atividade quando avaliavam o que sentiam, tanto quando que o cerebelo tivesse certo nível de
estavam se movendo (d) ou não (b). Essas descobertas e outras apóiam atividade em um grande número de
nossa hipótese de que o principal papel do cerebelo é o de processar condições, especialmente aquelas
informação sensorial e não controlar os movimentos.
que requerem um controle cuida-
Estímulo passivo Comparação sen sorial ativa doso da entrada de novos dados
Ausência de movimento Ausência de movimento
sensoriais e, talvez, da evocação
(da memória) de dados adquiridos
anteriormente. O utros sistemas do
encéfalo são capazes de compensar
a falta de coordenação de dados
sensoriais mediante estratégias alter-
nativas de processamento, no caso
de lesão ou remoção do cerebelo.
De fato, estudos de coordenação
motora sugerem que pessoas com
lesão cerebelar se tornam mais len-
tas e simplificam seus movimentos
-uma estratégia razoável para com-
pensar a falta de dados sensoriais
de alta qualidade. Se o cerebelo
é antes de tudo uma estrutura de
The cerebellum:
apoio, então não colabora com a rec:ent developments
coordenação motora, a memória, a in cerebellar research.
~ Movimento Movimento percepção, a atenção, o raciocínio Organizado por
~ c espacial, ou qualquer das outras Stephen M. Highstein
funções recentemente propostas. e W. Thomas Thatch.
New York Academy of
Embora essa teoria seja apenas uma Sciences, 2002.
das várias para explicar os novos Cerebellar
e surpreendentes dados sobre o contributlons to
cerebelo, fica cada vez mais claro cognition and
que a forma como pensamos essa imagery. Richard B. lvry
estrutura encefálica- na verdade, e julie A. Fiez, em New
Cognitive Neurosciences.
a forma como concebemos o Organizado por Michael
encéfalo como um todo - está S. Gazzaniga. MIT
ponto de mudar. mec Press, 2000.

www.mentecerebro.com.br 47
Depois de décadas de "desprezo" pelas estruturas gliais,
neurocientistas agora dizem que elas podem ser quase tão
importantes para o pensamento quanto os neurônios

POR CLAUDIA KREBS, KERSTIN H0rrMANN ECHRISTIAN STEINHAUSER


Krebs e Hüttmann são pesquisadoras do De partamento de
Neurobiologia Experimental da Clínica de Neurocirurgia da
Universidade de Bonn. Steinhãuser é professor de neurobiologia
da mesma universidade.

O
cérebro é constituído pri nc ipalmente por Entre o utros serviços de apoio, eles fornecem
neurônios, certo? Errado. Há nove vezes nutrientes retirados dos vasos sangüíneos aos neurô-
mais células gliais que neurô nios na massa nios, absorvem neurotransmissores quando necessá-
cinzenta. Por 50 anos, os cientistas afirmaram que rio, para ajudar a paralisar os neurônios que os estão
a glia só rea liza serviços de apoio aos neurô nios: enviando, e garantem que as concentrações de íons
afasta ndo patógenos, mantendo saudável equilíbrio permaneçam co nstantes nos espaços intracelulares
iônico em volta dos neurônios e, isolando-os d e do cérebro. E fica cada vez ma is evidente que o s as-
in terferência elétrica . trócitos estão também si nton izados nos sinais trans-
Mas traba lhos rece ntes indicam que a g lia mitidos, além de se comunicarem com essas células.
está intimame nte envolvida em todos os aspectos Os astrócitos "conversam" entre si, utilizando os
do processamento da informação no cérebro. mesmos neurotransmissores que os neurônios. A
As células g liais não apenas conversam com os g lia claramente influencia o modo como os neu-
neu rôn ios como também se comunicam entre rôn ios se comunicam - em outras palavras, como
s i, coopera ndo nos atos cerebra is de reagir, pe nsamos e como o cé rebro trabal ha.
aprender e le m brar. Maio r comp ree nsão d e Só q ue neurônios e neuroglias diferem na ma-
com o a g lia t raba lha pode alte rar profund a- neira como conduzem info rmação. Células neurais
me n te o atual mo d elo de fu nc io namento d o e nvia m im pulsos e létricos rápidos, co nhecidos
cérebro e da mente. como potenciais de ação. Astrócitos usam men-
sagens químicas, controladas pelo aumento e pela
Sempre falando dimi nu ição no acúmulo de íons de cálcio. Uma
As células g lia is se dividem em três tipos. As mi - co ncentração elevada se espalha pela célula como
croglias cerebrais agem como as células do sistema uma "ola" num estádio de futebol - e muitas vezes
imuno lógico em outras partes do corpo, protegen- transborda para os astrócitos vizinhos. Embora não
do os neurô nios de intrusos. Os o ligodendrócitos sejam semelhantes, os dois tipos celulares às vezes
formam bainhas de mielina isolantes em torno dos usam as mesmas e moléculas mensageiras. Recen-
axônios estendidos que carregam os sinais de um temen te, nosso grupo de neurobiologia em Bonn,
neurôn io a outros. Os astrócitos cercam os neurô- traba lhando com Andrea Volterra, da Universidade
nios, p rincipalme nte nas fe ndas sinápticas, o nde de Lausanne, Suíça, demo nstrou q ue os astróc itos,
moléculas sinali zadoras cruzam o pequeno espaço quando ativados pelo mensageiro químico glu tama-
en tre a extremi dade do axônio de um neurônio e o to, liberam os mesmos neurotransmissores que os
d endrito do próximo neurônio. As pesquisas mais neurônios, uti lizando mecanismo similar.
recentes demo nstram q ue os astróci tos - as mais Por afetar o modo como os neurotransmissores
n umerosas dentre todas as células gliais - realizam carregam sinais pelas fendas sinápticas, e por liberar
várias funções diferentes. os mesmos neurotransmissores para os neurônios

www.mentecerebro.com.br 49
o fluxo de íons através das mem-
branas celu lares de astrócitos
individuais, medindo a atividade
de canais iô nicos e receptores de
neurotransmissores isolados.
No cérebro há, normalmen-
te, dois tipos de astrócitos: as
células g luT ( trans portadoras
de glutamato) e gluR (receptoras
de glutamato). Mas descobrimos
que em uma forma comum de
epilepsia do lobo temporal, cha-
mada esclerose do hipocampo,
as células g luT estão totalmente
ausentes. Em cérebros saudáveis,
esses astrócitos absorvem o glu-
tamato liberado pelos neurônios
e, po rtan to, inibem a estimulação
prolongada desses neurô n ios.
As células gluT també m têm
canais de potássio em sua mem-
brana, os quais são capazes de
ASTRÓCITOS (A) E NEURÔNIOS foram misturados a íons de cálcio. Depois
que um neurônio foi estimulado a disparar (8, linhas iluminadas), os astrócitos re mover íons de potássio do
começaram a acender, indicando que estavam percebendo a mensagem espaço intrace lular, m ais uma
através da absorção de cálcio. Depois de 1O e de 12,5 segundos (C e D), ondas vez interro mpendo a atividade
de íons de cálcio carregavam sinais entre vários astrócitos
dos neurô ni os para que eles não
trabalhem loucamente.
e de uma para outra, as célul as episódios, os neurônios de uma Acontece q ue os astrócitos
g liais influenciam d iretamente região cerebral disparam de re- g luT estão conectados entre si
a transferência de informação pente, e em to tal sincro nia. Em por longas redes, consti tuídas
cerebral. O s astrócitos afetam a al guns casos, ape nas algum as de cente nas de "junções gap"
sinalização numa cadeia e, usan- células faze m isso. Em outros, a - um tipo es pecífico de c anal
do sua própria rede, também afe- descarga se espalha para gran- entre as células . Agindo cole-
tam a ativação de neurô nios em des áreas do có rtex cerebra l. t iva me nte como um a grande
áreas distantes do cérebro. Hoje Os disparos podem ser mui to red e, as células gl uT podem
os pesquisadores acham que os inten sos. Essas tempestades re mover mo léculas e íon s de
astrócitos coordenam a atividade e létricas para lisam te mp o ra - muitos ne urô ni os ao mesmo
das células neurais em várias regi- ri ame nte a região do cérebro tempo, desvia ndo-os para os
ões do cérebro ao mesmo tempo, afetada. Mas como? vasos sa n güíne os, onde e les
através da propagação de o ndas Para procurar a resposta , são e liminados. Isso acaba com
de íons de cálcio. estudamos o tecido do hipocam- o excesso de transmissão numa
po de pacientes epilépticos. O região do cérebro. A perda de
Pistas da epilepsia hipocampo está profundamente célul as gl uT no h ipocampo,
Uma maneira de o bservar como envolvido no surgi me nto e na p o r ém , imp e d e a remoção
a g lia se comunica é ana lisar o disseminação das convulsões, e ráp ida d e m o léculas m e nsa-
que acontece durante ataques nos pacientes com epilepsia se- gei ras e ío ns. As subs tâncias
epilé pticos. A epilepsia se mani- vera pode até ser cirurgicamente se concentram em vo lta d os
festa com perturbações súbitas removido como última opção de neurônios, superes timul ando-
e ocasionais da consciência ou tratame nto. Fazendo experiên- os por m uito tem po e ele-
com convulsões o u espasm os cias com seções de hipocampo vando a poss ibilidade d os
incontroláve is. Durante esses removidas, conseguimos rastrear disparos exacerbados.

50 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


A B D

CLASSIFICAÇÃO BÁSICA DAS CÉLULAS GLIAIS NO CÉREBRO: astrócitos


UM MAR DE EINSTEINS protoplas máticos (A), astrócitos fibrosos (8), células microgliais (C) e
oligodendrócitos (O); tipologia foi desenvolvida pelo especialista em anatomia
Em 1955, o patologista Tho- Pío del Río Hortega, que fez os desenhos acima em 1920, com a ajuda da câmara
mas Harvey (1912-2007) rea- luminosa de um microscópio
lizou uma autópsia em Albert
Einstein (1879-1955) e depois
levou o cérebro do Prêmio Ou tra conseqüê ncia da pe rda disso, os recepto res de g lutamato 2i
Nobel para casa, onde o man- de células g lu T é que os neurô- d essas células funcionam mais ~
teve por 40 anos, cedendo
n ios Acam privados de ene rgia. le ntame nte. O fa to talve z pe r- .~
ocasionalmente seções mi-
No tecido saudável, os astrócitos mita que os neurô ni os di spare m .~
núsculas para estudo. Marian
C. Diamond, da Universidade absorve m a g licose do sangue e com mai s facilid ad e, aum e n- .s
da Califórnia em Berkeley, foi a transformam em ácid o lác tico , tando ainda mais o ri sco de um ~~
uma das sortudas a receber a usado pelos neurô nios para ge rar a taq ue epiléptico . .~
amostra. Em meados dos anos ene rgia. A falta de astrócitos g luT Apesar de ainda precisarmos "
i2
80, ela descobriu que Einstein em pacientes com esclerose do co nfirmar outros detalhes, nosso ~
tinha um número incomum
de células gliais nas regiões
hipocampo parece afe tar consi- trabalho com as convulsões indi- j
deravelme nte o fo rnecimento de ca clara relação e ntre a de nsidade ~
cerebrais responsáve is pelo 3
nut rientes aos neurônios daquela incomum de astrócitos e as tem -
pensamento mais profundo. ~
Desde então, os pesquisa- região. Portanto, pode ocorrer de pes tades e lé tri cas no cére bro. ·t::
3
dores descobriram que o cór- extensos complexos de neurônios O que ainda não sabe mos é se a ~
tex cerebral humano tem em serem superes timulados qua ndo de Aciência ou as alterações nas o

média duas células gliais para há convul são e de pois pararem células gliais realme nte causam i~
cada neurônio (outras regiões em massa, exaustos. essa fo rm a d e e p ilepsia o u se g'"
do cérebro têm até dez vezes são co nseqüê ncia dela. De um ~
mais). Isso representa um índice
Nova patologia modo ou d e o u t ro , p o d e m os ·~
de glia de 2,0. Em regiões com-
paráveis de roedores, o índice Os astrócitos gluR, por sua vez, concluir que gli as e neurô nios
é de 0,4, e nas dos vermes, de têm recep tores especíAcos para cooperam intimame nte.
O, 17. O trabalho apóia a teoria várias substâ ncias me nsageiras, Pesqui sas futuras sobre pro-
de que uma alta concentração incluin do o glutamato. O fu n- blemas pato lóg icos no cére bro
de neuroglias pode aumentar cionamento exato dessas células, te rão d e levar e m conta n ão
a capacidade de pensamento. SAIBA MAIS
no enta nto, ainda é e m grande so me nte a atividade neuronal,
Então, vai aí algo para pensar: o
p art e d esco nh ecido. Emb o ra co mo te m sido prá ti ca a té o A outra metade do
índice de glia no córtex cerebral cérebro. R. Douglas
elas, assim como o s astrócitos mome n to , mas també m a ati-
dos golfinhos é de 3,0. Fields, em Scientific
gluT, te nh am ca nais de potássio v ida d e g lia l. Pa ra co n seguir
American Brasil, nº 24,
em suas me mbra nas, não estão de te rmina r os mecanismos por págs. 46-53, maio de
conectadas e m rede e, portanto , trás de determinad as doenças e 2004.
n ão p o d e m remove r aqu e les proble mas cerebrais, os cie ntistas Glial-neuronal
íons. Pacie ntes com esclerose d o precisam dese nvolver uma nova signaling. G. I. Hatton
hi pocam po aprese ntam células co mpree nsão d e c o mo a g lia e V. Parpura (orgs.).
gluR, mas a densidade d os ca nais - principalme nte os astrócitos Kluwer Academic
Publishers, 2004.
de po tássio d e suas mem branas - con tribui para o processamen to
Neuroglia. Helmut
é signi Acativame nte menor que da info rmação. Só e ntão surg irão
Kettenmann. Oxford
a de um cérebro saudável. Além tra tame ntos e Acazes . me<= University Press, 2004.

www.mentecerebro.com.br 51
• ANATOMIA/ FUNCIONAMENTO

O brilho das

s1napses
Nem toda com unicação entre células neurais ocorre através de
transmissores químicos; em alguns casos, a comunicação se da
por meio de estímulos elétricos

POR ROLF DERMIETZEL


Médico e coorde nador da área de neuroanatomia e de estudos
cerebrais moleculares da Unive rsidade de Bochum, Ale manha.

s receptores térmicos na ponta dos dedos as conseqüências podem ser distúrbios neurológicos

O disparam o alarme: "Quente!". Com uma


velocidade de 300 km/h, a mensagem
corre pelos nervos até o cérebro. E o ó rgão da
como a epilepsia ou a doença de Parkinson. Da mes-
ma forma, a diminuição de nossa capacidade percep-
tiva, como acontece em casos de depressão ou esqui-
consciência entra em ação, enviando uma ordem à zofrenia, deve-se fTeqüentemente a turbulências no
musculatura: '11re o dedo!". Mensagens desse tipo equi líbrio dos neurotra nsmissores.
- codificadas como potencia is de ação elétricos Sendo assim a maioria dos calmantes ou an -
- percorrem nosso corpo permanentemente. Elas tidepressivos, age também sobre o metabol ismo
não só nos protegem de quei mar os dedos em su- dos neurotransm issores a Am de reforçar ou enfra-
perfícies quentes demais, mas também possibilitam quecer o seu efeito. Assim, não é de admirar que
a nossa sobrevivência. os contatos ne rvosos designados como "sinapses
Se, há I 00 anos, vári os neuroRsiolog istas ainda químicas" tenham se tra nsformado em ponto central
ac reditavam que a transm issão dessas mensagens das pesquisas neurocientíAcas. No en tanto, desde
se dava por meio de co ndutores contínuos que a metade do século XX, descobriu-se a alterna tiva
atravessam o corpo como Aos elétricos ou o enca- ao modo de transmissão química: em 1959, os
namento de uma casa, hoje sabemos que a realidade neuroAsiologistas Edwin Fursphan e David Potter
é bem mais complexa : cada célula neural é uma locali zaram a ex istência de uma transm issão elétrica
unidade fechada em si. Por isso, as mensagens direta em neurô ni os motores camarões. No mesmo
devem ser transmitidas de um neurô nio a outro ano, Michael Bennett, que hoje trabalha na Facul-
através de áreas de contato. dade Al bert Einstein, em Nova York, descreveu o
Na maioria dessas áreas, as sinapses, os neu rônios mesmo fe nômeno no baiacu, peixe conhecido da
são separados por uma pequena fenda, de fom1a que culinária japonesa devido ao seu veneno mortal.
os impulsos elétricos não conseguem passar direta- Durante muito tempo, porém, a pesquisa sobre
mente para o outro lado - eles quase sempre são as "sinapses elétricas" foi considerada tão exótica
transportados por substâncias químicas sinalizado- quanto o próprio baiacu. Somente nos úl timos dez
ras. Assim, os "neurotransmissores" têm importante anos, quando foi possível esclarecer a estru tura
papel no sistema nervoso. Se ele não funcio na bem, molecular da sinapse elétrica, pesquisadores da área

52 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


neurológica começaram a se interessar pelo assunto. Como funcionam as sinapses elétricas? Trata-se
As vantagens dessa sinapse em relação ao seu de proteínas da membrana, conectadas umas às
correspondente químico são óbvias: sem a parti- outras, que formam um canal que conecta duas
cipação de neurotra nsm issores, ela transmite os células neurais. No centro desse canal, há um poro
impulsos nervosos com alta velocidade. As sinapses pelo qual os íons conseguem passar de uma célula a
químicas precisam liberar substâncias transmissoras outra. Ali eles desencadeiam , por meio de "curtos-
que atravessam o espaço livre entre as duas células circui tos controlados", potenciais de ação que são,
neurais - a fenda sináptica - para completar o seu então, passados adiante. Porém , não são apenas
trabalho. O processo dura aproximadamente meio íons que passam pelos canais, que são grandes
milisscgundo. Éo tempo de um piscar de olhos, mas o suficiente para permiti r a passagem de outras
para certos processos fi siológicos - como o reAexo moléculas - até mesmo de neurotra nsmissorcs.
de f1.rga do baiacu (que escapa com um rápido im - É provável que as sinapses elétricas exerçam
pulso de sua cauda) - dura uma eternidade. Em oca- importante papel na esti mulação si mu ltâ nea de
siões como essa, as sinapscs elétricas transmitem os grupos inteiros de neurônios, como descobriram
impulsos instantaneamente. em 200 I os gnrpos de trabalho de H anna Mo nyer,
O corpo humano dispõe dos contatos denomi - em Heidelberg, Aleman ha, e Barry Connors, da
nados junções comunicantes (gnp jwrctiom) devido Universidade Brown, em Rhode lsland, Estados
à sua aparência quando vistas no microscópio Unidos, em estudos indepe ndentes. Em ratos,
eletrônico. Tai s junções regulam, por exemplo, quando um gene necessário para a formação das
a excitação elétrica de nossa~ células musculares sinapses elétricas está ausente, fa ltam também
cardíacas, possibilitando, assim, a contração coor- determi nadas variações de vol tagem entre 30 e
denada do coração como um todo. A transmissão 60 hertz. Conforme descobriram os pesquisa-
do estímul o das regiões de marca-passos para a dores, surgem preferencialmente em pequenos
musculatura cardíaca não seria possível sem essas "neurônios intermediários" do córtex cerebral c do
junções. Por isso, grande parte das pesquisas sobre hipocampo. Essas células, por sua vez, inibem redes
esse tipo de contato celular se concentra em distúr- neurais superiores que processam as percepções
bios patológicos do coração. sensoriais c controlam os movimentos musculares.

www.mentecerebro.com.br 53
Em ataques Aparentemente, os neurô- responsáveis pela sincronização o tecido a partir do qual as ca-
nios conectados através das da atividade elétrica, pois essas madas cerebrais se desenvolvem
epiléticos sinapses elétricas filtram o fluxo células precursoras ainda não posteriormente. Se as células
grandes de informações ao transformar "trabalham". As junções comuni- embrionárias não se conectam
os estímulos em descargas re- cantes, portanto, controlam a di- umas às outras, surgem sérios
populações gulares e transmiti-los a longas visão celular, como demonstrado defeitos de formação no cérebro
distâncias. Essas sinapses pos- em 2004 por Arnold Kriegstein em desenvolvimento.
de células sibilitam , assi m, uma ráp ida e seus colegas da Universidade Mesmo após o nascimento,
neurais são expansão de estímulos que ati- Columbia, Nova York: quando as sinapses elétricas conti nuam a
va m , quase simultan eamente, os pesquisadores impedi am a desempenhar papel importante.
estimuladas ao diversas regiões cerebrais. conexão das células embri oná- Co mo descreveram em 1998
n1esmo tcn1po Além disso, as sinapses elétri- rias por meio dessas junções, a Ka rl Ka ndler e Larry Katz, da
; . ; cas exercem funções importantes divisão celular ficava totalmente Universidade Duke, Carolina do
em vanas areas já durante o desenvolvimento fora de controle. A multiplicação Norte, Estados Unidos, essas co-
cerebrais embri onário. Em roedores, as das células precursoras de forma nexões celulares são encontradas
células-tronco da região cerebral organizada é essencial para o em quase todas as células neurais
ainda em evolução estão conec- amadurecimento do cérebro, durante as duas primeiras sema-
tadas umas às outras por meio já que elas sempre parte m da nas de vida da ratazana. Somente
de junções comunicantes. No zo na embrionária da vesícula após essa fase em que os circuitos
entanto, as junções ainda não são cerebral e penetram, em grupos, ne uro nais amad urecem e as

TEORIA RETICULAR VERSUS DOUTRINA NEURONAL


Com a descoberta das sinapses elétricas, renova- 1934), também contemplado com o Nobel, com-
se uma disputa de mais de 100 anos entre teorias provou a doutrina neuronal por meio de engenho-
científicas: no final do século XIX, quando tiveram sas técnicas que permitiram corar os neurônios
início os estudos científicos do cérebro, surgiu um (ver imagem ao lado). Desde o desenvolvimento da
forte conflito entre os adeptos da teoria reticular microscopia eletrônica, nos anos 40, com a qual
(de reticulum, "rede" em latim), que viam o tecido as sinapses puderam ser visualizadas, a teoria é
nervoso como uma estrutura contínua de células considerada um dogma irrefutável.
nervosas, e os repre- Será que os adeptos da teoria reticular encontra-
sentantes da doutri- ram agora, com as sinapses elétricas, uma portinha
na neuronal, da qual dos fundos que lhes permite o retorno à neurologia
foi pioneiro o neuro- mais conceituada? Inicialmente, parece que sim.
fisiologista britâni- Pois, se não são apenas íons que fluem através
co e Prêmio Nobel, desses canais, mas também neurotransmissores e
Charles Sherrington outras importantes moléculas sinalizadoras através
(1897-1952). Ele via das quais a célula transmite informações, então
cada célula nervosa poderíamos falar, com razão, em uma estrutura
como uma unidade funcional contínua.
fechada em si mes- Porém, nem todas as células do cérebro maduro
ma e espacialmente estão conectadas por sinapses elétricas. Os contatos
separada dos neurô- rápidos concentram-se muito mais em determina-
nios vizinhos. Ele de- das regiões onde a sincronização exata de grandes
nominou "sinapses" grupos celulares é necessária. Eles são encontrados,
(do grego synapsis, por exemplo, na região das células piramidais do
I "conexão"), as áreas hipocampo que têm um importante papel em de-

,, !
.....<="--"--'=--;- _ de contato pelas quais terminadas formas de memorização. As sinapses
8
~- as células nervosas se elétricas surgem em grande quantidade no apare-
z comunicam. lho olfativo, no tronco cerebral e principalmente na
IMAGEM DE PESQUISA de No início do sécu- retina. A doutrina neuronal, portanto, permanece
Santiago Ramón y Cajal, lo XX, o histologista correta em sua base: não há uma rede contínua. As
que desenvolveu técnica espanhol Santiago sinapses elétricas assumem funções importantes
para corar neurônios Ramón y Cajal (1852- apenas em certas regiões cerebrais.

54 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


sinapses qu ím icas se formam, as
junções comunicantes começam
a desapa recer pau latinamente,
permanecendo apenas em certas
regiões, como no hipocampo e
nos neurô nios intermediários
ini bitórios do córtex cerebral.

Passando o bastão
O boom das sinapses elétricas,
logo após o nascimento, reAete
o fato de as junções comuni-
cantes representarem um antigo
princípio da comunicação celular
do qual já dispõem seres plu-
ricelulares menos elabo rados,
como espo njas ou tu nicados.
Assi m, e las surgem no sistema
nervoso de mamíferos ainda em
estado embrionário, enquanto
os contatos químicos aparecem em cortes cerebrai s isolados, A chave para essa estratégia AS INFORMAÇÕES SÃO
somente após sua origem- quan- descargas epiléticas de grupos terapêutica está no estudo dos as- transmitidas de uma
célula para a outra e m
do o amadurecimento cerebral de células neurais conectadas trócitos- células gliais cujo nome frações de segundos
ati nge o seu ponto alto c se eletricamente entre si. Por volta se deve ao seu fom1ato estelar. Elas
formam os circuitos específicos de 2004, pesquisadores europeus cuidam para que os neurônios se
para as diferentes funções. Os coordenados por Christophe sintam bem em seu ambiente, ao
contatos elétricos parecem ter Mas, da Universidade de Ge- garantir a mistura correta de íons
a função de garantir a comuni- nebra, descobriram que , em liberados, neurotransmissores e
cação entre as células neurais uma das variantes da epilepsia fatores de crescimento.
até que as conexões defi nitivas, congênita, o gene da principal Os astrócitos estão conec-
Gap junctlon
mediadas a través de si napses proteína das sinapses elétricas tados entre si por milhares de
expresslon In braln
quím icas, ten ham se estabilizado está alterado. A descoberta per- junções comunicantes, através tlssues wlth focus
completamente. Ao passar o bas- mite supor que algumas formas das quais ocorre uma intensa on development. R.
tão para as conexões químicas, de epilepsia possam ser tratadas troca de moléculas. Dessa forma, Dermietzel e C. Meyer
as si napses elétricas deixam o no futuro com med ica men- todos os produtos metabólicos em Gap jundions
in Development and
caminho livre para a construção tos que inibam a estimulação nocivos acumulados, devido à
Disease. E. Winterhager
do sistema nervoso. das sinapses elétricas. morte massiva de determinada (org.). Springer, págs.
Essa é, justamente, a partici- Supõe-se que as ju nções região cerebral, também podem, 83-11 o, 2005.
pação das junções comunicantes comunicantes estejam tam bém ser transportados, atualizando Assoclatlon of the
em alguns distúrbios neurológi- relacio nadas com as seqüelas e prejudicando grupos celulares connexln36 gene with
cos. Em ataques epiléticos, por de um ataque cardíaco. Neu- que não haviam sido inicialmente juvenlle myoclonlc
epllepsy. C. Mas et a/.,
exemplo, grandes populações de rologistas questionam por que, afetados pelo infarto.
em journal of Medica/
células neurais são estimuladas horas após o ataque, a área do Ainda não se sabe se os es- Genetics 41: e93, 2004.
ao mesmo tempo em várias áreas tecido cerebral afetado continua tudos do contato direto entre Calclum waves
cerebrais. O principal indicador au mentando , ultrapassando as células neurais vão resultar propagate through
da participação das si napses em muito a área in ic ialmente em novos conceitos terapêu- radial gllal cells
elétricas é sua presença em uma atingida. Se essa "penumbra", ticos com resulta dos efetivos. and modulate
rede neuronal que normalmente que circunda o local o riginário Decisivo é o fato de que as prollferatlon In the
developlng neocortex.
inibe as células neu rais onde do tecido atingido, pudesse ser s inapses elétricas conquista- T. A. Weissman et a/.,
os ataques se originam . Além contida, isso seria um avanço no ram seu lugar como fascinantes em Neuron 43(5), págs.
disso, podem ser observadas , tratamento de infartos. objetos de pesquisa. mZ<= 647-661, 2004.

www.mentecerebro.com.br 55
De fato, as pesquisas revelam
que o sexo masculino é o mais
importante "fator de risco" para a
violência. Como comprovam esta-
tísticas crimi nais no mundo inteiro,
adolescentes e adultos jovens do
sexo masculino são responsáveis
pela maioria dos assassinatos,
lesões corporais graves ou casos
de violência sexual.
Esse dado, en treta nto, não
significa que as mulheres sejam
menos agressivas. H omens ten-
dem à violência física di reta, en-
quanto elas recorrem à agressão
dissimulada, superando de longe
os garotos ao engendrar intrigas
e realizar pressões psicológicas.
GAROTAS SÃO ma is
há b eis para dissi mular,
No caso das meninas, os distúr-
enge nd ra r intrigas bios de comportamento social
e ma nipula r: sua surgem principalmente na pu-
inte ligência social se berdade. Aos 17 ou 18 anos, em
d esenvo lve a ntes d a
d os me n inos geral eles desaparecem, prova·
velmentc em razão das alterações
de se defender. Posteriormen- ri tmo acelerado quando os jovens hom1onais típicas dessa fase.
te, muitas vezes se arrependem. têm entre 13 e 15 anos. Nos ado- As causas das diferenças entre
Esses delinqüentes crônicos costu- lescentes em geral essas tendências homens c mulheres são variadas.
mam assumir posição de liderança regridcm. Uma pequena parte Papéis sociais aprendidos por cada
em seu grupo-e sentem-se valori- dos voluntários, porém, logo na sexo têm sua importância. Ainda é
zados com isso, o que alimenta um infância - às vezes já por volta comum ouvir, por exemplo: "Me-
círculo vicioso. dos 5 anos- apresenta comporta- ninas não batem!", mas: "Meninos
Segundo as observações, dois mento anti-social que penmanece têm de saber se defender!". Além
grupos podem ser diferenciados: até a idade adulta. Esse gn.1po é disso, estratégias de agressão in-
no maior deles, a incidência de form ado quase exclusivamente direta exigem "inteligência social"
atitudes agressivas aumenta em por meninos. relativamente alta, que se desen-
volve antes e mais rapidamente nas
meninas. Diferenças neuropsicoló·
IMPULSO ASSASSINO gicas também exercem influência
nas manifestações de agressividade
O Brasil ocupa lugar de destaque entre os países mais violentos do de ambos os sexos.
mundo, considerando também aqueles com histórico recente de guer- Criminosos com diversas pas-
ras (como Eslovênia, Croácia, Irlanda do Norte e Israel). As estatísticas
sagens pela polícia em, geral são
confirmam que, em cada 100 assassinatos cometidos em territó rio
brasileiro, somente duas pessoas são presas. Nos Estados Unidos a pessoas com dificuldades para
média chega a 90%. Grande parte dos assassinos age por impulso. controlar impulsos agressivos. A
A maioria dessas pessoas é considerada "normal" até que cometa análise de questionários preparados
algum crime, num ato impulsivo. "A pessoa tem razões subjetivas por uma equipe coordenada pelo
que, num dado momento, lhe parecem justificadas. Muitos tomam psicólogo c neurologista Ernest S.
consciência da gravidade e da irreversibilidade do ato só depois de Barrat, respondidos em 1999 por
cometê-lo", observa o psiquiatra Elias Abdalla Filho, membro da dire-
presidiários no estado americano
toria do Departamento de Psiquiatria Forense da Associação Brasileira
de Psiquiatria. do Texas, mostrou que os deten-
tos freqüentemente, provocavam

58 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


DESDE A ADOLESCÊNCIA
briga com outros presos - apesar os homens tendem à
de terem de pagar por isso com violência física direta: em
condições de prisão muito mais todo o mundo, a maioria
dos criminosos é do
severas. Quando os pesquisadores
sexo masculino
lhes perguntavam por que manti-
nham comportamentos que os pre-
judicavam, eles não encontravam
explicação. Muitos reconheciam as
desvantagens e já tinham tomado a
decisão de agir com maior controle
em situações semelhantes, mas
nem eles mesmos acreditavam que
conseguiriam se controlar.

Como um defeito
A impulsividade de criminosos
violentos crônicos parece ter como
base uma predisposição cerebral.
Neurologistas compararam a ana-
tomia do cérebro desses homens
à de cidadãos comuns e desco-
briram nos primeiros alterações
fisiológicas na região frontal, mais
exatamente no córtex pré-fTOntal
e no sistema límbico.
Essas áreas estão ligadas ao sur-
gimento, decodificação e controle
das emoções. Efeitos inibidores
sobre partes do sistema límbico, situações traumáticas durante o cérebro frontal direito de um bebê
principalmente o hipotálamo e confli to, o que provavelmente de aproximadamente 3 meses.
a amígdala, de onde vêm os im- também inAui no funcionamento Quando o menino tinha 9 anos
pulsos agressivos, são atribuídos psíquico. No entanto, pacientes começaram a surgir problemas: era
a áreas do córtex pré-frontal. Esse adultos com lesões frontais que muito difícil motivá-lo na escola;
pressuposto é base da "hipótese não viveram experiências espe- ele petmanecia isolado e passava
do cérebro frontal", segundo a cialmente perturb:tdoras também o seu tempo livre exclusivamente
qual as raízes psicobiológicas do costumam se comportar de fom1a diante da televisão ou ouvi ndo
comportamento anti-social podem inadequada e impul siva, apre- música. Em algumas ocasiões,
ser compreendidas como um "de- sentando si ntomas de distúrbio ficava inexplicavelmente furioso,
feito" na regulação do córtex e do de personalidade anti -social. Em ameaçava e chegava a agred ir Alterações
sistema límbico. ambos os casos, porém, não houve fisicamente as pessoas. Interessante
Vários estudos apóiam essa in- nenhum indício direto de violência notar que ele cresceu em ambiente
fisiológicas no
terpretação. O pesquisadorJordan física fora do comum acolhedor, com pais amorosos e sistema límbico
Grafman e seus colegas do Institu- A situação é diferente quando i1111ãos cujo desenvolvimento foi
to Nacional de Saúde em Bethesda, o cérebro frontal já é afetado na considerado no1111al.
e no córtex
Estados Un idos, examin aram infância. Pesquisadores coorde- Não se sabe se a hipótese sobre pré-frontal
veteranos da guerra do Vietnã que nados pelo neurologista António a anatomia cerebral também vale
sofreram ferimentos na região do Damásio, do Centro Médico da para o sexo feminino. Mulheres
podem estar
córtex pré-frontal: os ex-soldados Universidade de lowa, observa- violentas são mais raras e, portanto, associadas ao
tinham clara tendência à agressivi- ram conseqüências dramáticas menos estudadas. De maneira ge-
dade. É preciso considerar, porém, nesse tipo de caso. Num deles, ral, entre elas parece não haver co- comportamento
que esses ex-combatentes viveram cirurgiões retiraram um tumor do nexão entre um volume reduzido impulsivo
www.mentecerebro.com.br 59
da área pré-frontal e tendências pa- Recorrendo a procedimentos de é uma nova e polêmica área de
tológicas, como comprovadamen- imageamento como a tomografia pesquisa - e não ape nas pela
te existe na população masculina. por emissão de pósitrons (PET), dificuldade metodológica de en-
Ao que tudo indica, as mu- os pesquisadores constataram em contrar psicopatas em liberdade.
lheres possuem , por natureza, muitos voluntários uma atividade Para obter informações confiáveis
controle mais efetivo dos impulsos, metabólica nas regiões frontais sobre seus delitos, os pesquisadores
que falha apenas quando a função do cérebro mais baixa do que tiveram de lhes assegurar sigilo
cortical é lesio nada de forma a encontrada na população em absoluto. Sendo assim, depois de
prematura e maciça. Damásio geral. A segunda etapa da análise, passarem pelos exames tomográ-
descreve o caso de uma menina porém, demonstrou que isso só ficos, os homicidas voltaram para
atropelada aos 15 meses que sofreu era válido para criminosos que casa, em liberdade.
grave traumatismo neurológico. haviam matado por afeto, ou
Até os 3 anos ela se desenvolveu seja, por impulso e com forte Psicopatas mal sucedidos
normalmente. Nessa fase surgiram motivação emocional. Em de- Há pouco tempo, Adrian Rainer
as primeiras demonstrações de tentos que haviam planejado o comparou dois grupos de pessoas
comportamento anômalo. Os pais assassinato longamente, a sangue com distúrbio de personalidade
perceberam que a fi lha não tinha frio, o cérebro frontal parecia anti-social que haviam cometido
reação alguma a eventuais repre- funcionar normalmente. crimes graves. Integrantes de
ensões e até a punições. Mais Esse resultado é plausível: por ape nas um dos grupos tinham
tarde, ela passou a não respeitar conseqüência de déficits no con- sido condenados. O pesquisador
nenhuma regra, na escola brigava trole das emoções, criminosos im- denominou os que não haviam
freqüentemente com professores pulsivos agem sem premeditação, sido descobertos como "psicopatas
e colegas, mentia e cometia deli- ignorando até mesmo os riscos de bem-sucedidos", os condenados,
tos como roubo. A jovem cha- serem descobertos.Já o homicida "psicopatas malsucedidos".
mava a atenção principalmente detalhista e frio precisa de um Os estudos de Rainer leva-
por atacar os outros. Nenhum céreb ro fronta l intacto , po is ram a resultados interessantes: ao
de seus irmãos apresentava arquitetar o crime a longo prazo comparar a anatomia cerebral de
problemas de comportamento. demanda complexos processos ambos os grupos, apenas nos "mal-
Outras observações que de decisão. Criminosos que agem sucedidos" foi encontrada, de fato,
corroboram a hipótese do sem piedade raramente demons- redução significativa do volume
cérebro frontal foram feitas tra m arrependimento . Para o da substância cinzenta no córtex
pelo neurologista Ad1ian Rai- criminoso que planeja o ato, a pré-frontal. Entre os criminosos
ner, da Universidade do Sul prioridade é não ser apanhado- o em liberdade, ela estava dentro dos
da Califórnia em Los Angeles. sujeito impulsivo nem pensa nisso. padrões de normalidade.
Ele coordenou um estudo O estudo neurológico de crimi- A agressividade crônica grave,
com assassinos condenados. nosos violentos não descobertos portanto, não está automaticamen-
te relacionada a defeito no córtex
pré-frontal. Parece haver pessoas
TESTOSTERONA ACUMULADA que cometem atos de grande
viol ência regularmente, apesar
O hormônio sexual ultrapassa a barreira hemato-
de seu cérebro frontal estar com-
encefálica e se conecta a receptores no hipotálamo
e na amígdala. Nos homens, a testosterona aumenta pletamente intacto. Sendo assim,
no início de competições esportivas. No vencedor, distúrbios no córtex pré-frontal
ela continua alta por algum tempo após o final; já no estão mais relacionados ao risco de
perdedor, sua concentração cal rapidamente. Assim, o indivíduo ser preso do que pro-
é possível considerar que a concorrência e conflitos priamente à violência potencial.
constantes podem alterar o nível de testosterona O córtex pré-frontal é apenas
permanentemente.
um dos vários centros neurológicos
que compõem uma complexa rede
MICHAEL DOUGLAS, protagonista de Um dia de fúria: genética,
ambiente e déficit neuroquímico podem deflagrar crise inesperada ~ de regulação do equilíbrio das
~ emoções, incluindo os impulsos

60 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


NO BANCO DOS RÉUS
A tendência à violência impulsiva, aparentemente,
se deve muitas vezes, pelo menos nos homens, a
alterações no córtex pré-frontal. Este, normalmente
inibe os impulsos agressivos que surgem nos centros
das emoções do sistema límbico (seta azul). Por isso,
segundo a "hipótese do cérebro frontal", na região
orbitofrontal do córtex está uma das principais Cortex
causas da predisposição à violência. lesões no hi- orbitofrontal
pocampo também podem afetar o processamento Sistema[Amigd
limbico Hipotálam
e o julgamento de informações emocionais. Alguns Hipocampo
pesquisadores, por sua vez, supõem que as causas
da violência estão relacionadas a um mau funcio-
namento da amígdala. Isso explicaria o destemor, a
falta de empatia e a ausência de sentimento de culpa
característicos de criminosos violentos. Alterações na
)
quantidade de neurotransmissores já bastam para
tirar dos eixos o controle dos impulsos e das emo-
ções. Um papel importante é exercido, por exemplo,
pela serotonina: ela é sintetizada nos núcleos dorsais
da rafe. Partindo de lá, ela chega a inúmeras estru-
turas cerebrais (setas vermelhas), onde participa da
transmissão de estímulos às sinapses.
A quantidade de serotonina no cérebro pode pessoa que, devido à falta do neurotransmissor,
ser medida, por exemplo, pela concentração de um sofre de ansiedade e se sente ameaçada, provavel-
dos produto de sua composição, o ácido hidroxiin- mente tende à "agressão reativa". Como se sente
doleacético (5-HIM), no líquido cefalorraquidiano. atacada, agride para se defender. Uma variante
Baixo nível da substãncia está relacionado a com- do gene triptofano hidroxilase, necessário para a
portamentos anti-sociais. No entanto, ainda não síntese de serotonina, também pode estar ligada à
está claro se o efeito não é apenas indireto: uma agressividade exagerada.

agressivos. Outros estudos feitos físicos inadequados. do Instituto Nacional de ·Sat.'idc


por Rainer com o mesmo gntpo No caso dos "psicopatas bem- Mental em Bethcsda.
de criminosos indicam a parti· sucedidos" há fundamentos com- As alterações no cétebro de
c ipação de estruturas límbicas, pletamente diferentes envolvidos cri mi nosos podem oconc1 em
como o hipocampo, na conduta nas ações violentas, pois as pessoas nível neuroquímico. Antalmente,
psicótica: nos "criminosos malsu- que têm o controle de impulsos diversos estudos comprovam que
cedidos", o hipocampo de ambos intacto cometem delitos conscien- um baixo nível de scro toni na,
os hem isférios cerebrais tinha temente, de mnneira calculada. Isso que funcio na como calmante c
tamanho diferente-assimetria que não comprova que esses crimino- redutor do medo, está vinculado
os pesquisadores associam a dis- sos não sofram de outras alterações a compo rtamen tos anti -sociais
túrbios surgidos no estágio inicial cerebrais. Para tanto seria necessá- e impulsivos. Tal associação não
do desenvolvimento. rio examinar, por exemplo, o papel ocorre apenas em crim inosos,
Possivelmente, essas alterações da amígdala, assim como da parte mas na população de manei -
enfraqueceram a interação entre o do sistema límbico que funciona ra geral. Porém, mais uma vez,
hipocampo e a amígdala, de fom1a como "sistema de recompensa". apenas nos homens.
que infolmações relativas à emoção As falhas no funcionamento dessas O hormônio sexual masculino
são processadas de maneira iregu- estruturas podem ser responsáveis também tem sua importância: di-
lar. Se o córtex pré-frontal também pelo comportamento psicopata versos estudos do psicólogo )ames
falha como instância controladora, (isento de culpa e compaixão pelo Dabb~, da Universidade do Estado
parece compreensível que sur- sofrimento alheio), segundo outros da Geórgia, indicam a presença de
jam comportamentos verbais e pesquisadores, como Richard Blair, níveis bastante altos de testostcro-

www.mentecerebro.com.br 61
PREVENÇÃO POSSÍVEL
Poucos podem afirmar, com sinceridade, que jamais tiveram
impulso de matar outra pessoa. Felizmente, a maioria não passa
ao ato. A prevenção pode ter início na infância, com precauções
aparentemente simples: cuidado, atenção e ajuda profissional.
Esses são os ingredientes usados para acalmar crianças entre 9
e 11 anos com características violentas, segundo a professora
do Instituto de Psicologia da Universidade de São Paulo (USP),
Maria Abigail de Souza, coordenadora da pesquisa "Intervenção
psicoterapêutica em crianças agressivas no ambiente escolar". O
estudo, iniciado em 1998 e publicado no ano seguinte, mostra
que, uma vez recebida a atenção desejada, os meninos tendem a
se acalmar, deixando de oferecer perigo.
Ela entrevistou dezenas de dependentes químicos de 18 a 30
anos e constatou que, quando eram crianças, sofreram abusos ver-
bais e fisicos até dos próprios pais. "A criminalidade está intimamente
ligada ao ambiente social, não é apenas resultado de possível carga
genética", acredita a psicóloga. Desde 1991, a pesquisadora utiliza
técnicas de psicodiagnóstico - teste de Rorschach e entrevistas - no
acompanhamento de crianças de comunidades carentes de São Pau-
lo, com o objetivo de identificar os riscos aos quais estão submetidas
e contorná-los por meio de atendimento psicológico.
"O trabalho é de prevenção e assistência a crianças agressivas
de 8 a 12 anos, com boa capacidade intelectual e cognitiva, ma-
triculadas em escolas públicas." A escolha desse perfil é resultado em diversos estudos. Entre esses
de conclusões do estudo com dependentes químicos. Muitos deles
fatores incluem-se a qualidade
apresentavam, na infância, as características das crianças atendi-
das atualmente. Pobreza, entretanto, não é fator determinante do relacionamento inicial entre
para deflagrar a violência. Segundo estimativa de pedagogos mãe e bebê, eventuais maus-tra-
e professores, 5% dos alunos de escolas particulares do Rio de tos e abusos sofridos na infância,
Janeiro e São Paulo têm comportamento agressivo com colegas negl igência dos pais, rupturas e
e funcionários. confl itos constantes na famíl ia,
"Classe social e ambiente não são fatores determinantes para crimina lidade de adultos pró-
o crime. Rica ou pobre, a criança que não sente o afeto dos pais, ximos e pobreza extrema. O
em geral tem mais propensão à agressividade", diz Maria Abigail.
Dados de 2004 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
estudo de todos esses fatores é
(IBGE) mostram ser pequena a participação de menores de 18 complexo, pois a maioria deles
anos em crimes graves em São Paulo. Esses jovens respondem por não pode ser considerada inde-
apenas 1% dos homicídios dolosos (com intenção). pendentemente das alterações
anátomo-fisiológicas.
Exames Logo após o nascimento, já
na em criminosos impulsivos. Tais Pelo menos entre os homens, ocorre comun icação emocional
do sistema desvios do nível de hormônios fatores biológicos, como disposi - íntima entre o bebê e a pessoa
nervoso de ou das substâncias transmissoras ção genética e déficits orgânicos que desempenha a função ma-
podem ser heredi tários ou surgir e neuroqu ímicos, aumentam te rn a (não necessa riamente a
condenados por influência do ambiente. Há, comprovadamente o risco de mãe), conforme demonstraram
que mataram por exe mplo, indícios de que co mportamento violento. No vários es pecia li stas , como o
experiências de negligência e entanto- com exceção de lesões psicanalista inglês Donald Win-
friamente maus-tratos na infância reduzem graves ocorridas na infância - , nicott. Dificuldades no processo
permanentemente os níveis de eles não levam obrigatoriame nte de interação, principalmente
mostraram serotonina. Pesqu isadores que nos do is primeiros anos de
a tal atitude. A combinação entre
funcionamento estudam a plasticidade do cérebro, fato res de risco psicossociais vida, podem contribuir para a
entretanto, cogitam a possibili- de gravidade semelhante é que configuração de distúrbios de
aparentemente dade de reparações, ainda que costuma ser perigosa . Isso pôde dese nvolvimen to - inclui ndo
normal parciais, desse comprometimento. ser percebido por pesquisadores dificu ldade de controlar os pró-

62 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


HÁ PESSOAS que,
apesar dos sofrimentos
vividos na infância,
interrompe m o ciclo de
violência oferecendo
acolhimento amoroso
aos próprios filhos

prios impulsos, fa lta de empa- Essa situação leva a reAexões, pois e de seu funcionamento cerebral,
ti a c capacidade reduz ida de até que ponto se pode respon- correremos o risco de adotar uma
solução de conO itos. sabilizar um ser humano por sua postura penmissiva diante da vio-
Além disso, experiências vi- constituição genética, seu desen- lência. Talvez, para protegenmos
vidas pelos pai s em sua infân- volvimento cerebral, sua infância o coletivo, seja necessário per-
cia exercem inAuência sobre sua traumática ou seu ambiente social severarmos na prevenção - que
competência educativa. Enquanto com poucas oportunidades? Não consiste em dissuasão, acompa-
alguns se apegam às próprias dores teríamos de pensar assim também nhamento psicoterapêutico e, em
e reproduzem os modelos de aban- em relação à tendência à violência muitos casos, em reclusão.
dono e agressividadc que viveram resultante de tais fatores? Eticamente não se pode apoiar
quando crianças, outros se penmi- Com isso, surge a pergunta: a a idéia de simplesmente afastar do
tem reelaborar as próprias carên- responsabilidade sobre os próprios convívio social as pessoas com
cias com generosidade, oferecendo atos pode ser totalmente imputada comportamento anonnal - pois, --SAIBA MAIS
aos fi lhos acolhimento amoroso e a uma pessoa? Faz sentido conjec- estatisticamente, a maioria delas Reflexões sobre a
continente -assim, interrompem turar que um criminoso poderia não se toma delinqüente. Adotan- violência urbana.
o ciclo vicioso de violência física c ter optado co ntra a violênci a do essa postura, corre-se ainda o jandira Feghali,
psicológica. Por outro lado, parece se de fato quisesse ou se tivesse risco de disseminar a intolerância Cândido Mendes e
outros. Maud, 2006.
que, se a criança tem uma constitui- tido oportunidades diferentes? A diante da diversidade. Há, porém,
Violência. Coleção
ção cognitiva e emocional sólida, suposição de que ele seria capaz a possibilidade de investigação
clínica psicanalítica.
as influências negativas do am- de tal escolha, apesar de todos os precoce dos fatores de risco- psí- Maria Laurinda R.
biente em que ela vive podem ser condicionamentos psicobiológicos quicos, físicos e sociais. Nesse ter- de Souza. Casa do
parcialmente compensadas. c sociais, causa grande polêm ica reno ainda há muito a fazer nos Psicólogo, 2005.
Atualmente, não se sabe por entre psicanalistas, psicólogos, próxi mos anos, pois hoje, com Gênero e violência.
que muitos conseguem compensar médicos, criminalistas e filósofos. todo o conhecimento e tecnologia Maria de Fátima Araújo
e Olga C. Mattioli. Arte
até mesmo as piores experiências Ao mesmo tempo, não é to- disponíveis, nem sempre é possível
e Ciência, 2004.
da infância ou lesões cerebrais, lerável assistir a atos criminosos diferenciar com precisão as brigas
Violência e
como se "consertassem" a si mes- impassivelmente. Afinal, se tomar- comuns de crianças pequenas de psicanálise. jurandir
mos, enquanto tantos outros sim- mos o homem como refém de sua comportamentos que prenunciam Freire Costa. Graal,
plesmente não conseguem fazê-lo. própria história, de sua anatomia tendência à violência. nec 2003.

www.mentecerebro.com.br 63
I
-4
m
(")
z
o
5
© ROSUI.f tmL NYC/cORBIS/LATINSTOCK ~
"
Limites
da imagem
A controvérsia sobre a precisão e a utilidade dos
resultados da ressonância magnética funcional (fMRI)
questiona a equivalência entre mente e cérebro

POR DAVID DOBBS


jornalista científico.

esde sua introdução, há uma década, as ponderando sobre dilemas éticos. Sem mencionar

D imagens por resso nân cia magnética fun-


cio nal - fMRI, na sigla em inglês - provo-
cam um razoável alarido. Ao operar em dimensões
as razões pelas quais muitos consumidores com-
p ram Coca-Cola mesmo quando p referem o gos to
da Pe psi. Psicólogos elogiam a fMRI por, fina l-
espaciais e temporais bem mais precisas que as men te, tornar a ciência deles mais quantificável.
técnicas anteriores d e mapeamento cerebral , a E os neurocientistas cognitivos citam sem cessar
fMRI despertou gra nde excitação por permitir, esse tipo de imagens na vasta e recente expansão
fi nalmente, observar o cérebro em funcionamento. da compreensão do cérebro.
Mil hares de estudos com fMRI exploraram uma No entanto, jorram argume ntos questio nando
ampla variedade de diferenças na ativação cerebral a credib il idade das descobertas da fMRI. Esse
- ado lescentes versus adultos, esquizofrênicos e debate, ao mesmo tempo técnico e filosófico, diz
mentes normais, altruístas e egoístas- e levaram respe ito tanto à precisão da fMRI - uma vez qu e
pesquisado res a tirar co ncl usões audaciosas sobre ela mede a atividade neuronal, indi reta me nte, ao
reconhecimen to de rostos e palavras, memória d etectar aume ntos no fluxo sangüíneo associados
operacional e fa lsas mem óri as, pessoas antecipan- à atividade - quanto à legitimidade em relacio-
do dor, mães reconh ece ndo seus filhos , cidadãos nar funções mentais complexas a determ inadas

www.mentecerebro.com.br 65
Segundo regiões do cérebro. Os críticos prezadas. É fácil superestimar o procedimento, elementos radio-
acreditam que a fMRI faz vista valor dessa tecnologia." ativos são injetados em um vo-
alguns grossa à natureza interligada Mu itos profiss ion ais que luntário para marcar mo léculas
pesquisadores, e distributiva do funciona- utilizam a fMRI parecem per- como a g licose, levada ao cére-
. . - mento do cérebro, colocando plexos com o fato de que esse bro pelo sangue. Os marcadores
tmpreCisao ênfase na atividade localizada, instrumento poderoso suscite emitem pósitrons e revelam a
e outras quando o mais crucial para a controvérsias. "É uma enorme velocidade re lativa de consumo
função mental é a comunicação surpresa perceber como essa de g licose pelas células, identi-
limitações entre as regiões. se tornou uma gran d e ques- ficando quais delas estão ativas
fazem do "A técnica é mui to grosseira", tão", diz Marcus E. Raichle , durante processos mentais.
diz Steven Faux, que chefia o neurologista da Universidade Apesa r de fascina ntes, os
imageamento Departamento de Psicologia da de Washington que pesquisa o scmrs têm vários inconvenien tes.
11 / •
Universidade Drake. "É como mapeamento cerebral há mais Os pacientes que participam de
uma tecntca
• 11
uma foto desfocada - melho r de duas décadas. pesquisas ficam preocupados
grossetra do que se ela não existisse, mas O imageamento do cérebro com a ingestão de material
ainda assim embaçada, com li- teve início com um método do rad ioativo ; o procedimento
mitações reais muitas vezes des- começo do século XX chamado num sc1111 requ er quase uma
pneumoencefalografia. Nesse hora ; e as imagens fornece m
procedimento perigoso, o fluido uma resolução temporal relati-
cérebro-espinhal era substituído vamente ampla de 60 segundos
por ar a fim de mostrar o cérebro (o que significa que esse é o
mais claramente nos raios X. A tempo necessário para m edir
angiografia, desenvo lvida nos o flu xo sangüíneo para uma
anos 20 , produziu melhores área) e uma re so lução espa-
resultados ao capturar imagens cial de 6 a 9 mm - para uma
de contrastes injetados na cor- co mpree nsão mais detalhada
rente sangüínea. (A angiografia do que ocorre.
ainda é utilizada para ajudar a
diagnosticar e rastrear defeitos Grão de arroz
nos vasos sangüíneos e alguns Entre as vantagens da fMRI,
tumores. ) Esses primeiros mé- está o fa to d e q ue um corte
todos mo str avam apenas a transve rsal cerebral pode ser
estrutura estática em vez da escaneado em menos de dois
função . A tomografia axial segundos, perm iti ndo mapear
computadorizada (TACou TC), a maior parte do cérebro em
desenvolvida na década de 70, um ou dois minutos. A técnica
ex plorou a tecnologia do raios pode fu ncionar em resoluções
X, tirando fotos estáticas mas espaciais tão precisas como de
com mui to mais detalhes. 2 a 3 mm - , embo ra na prática
Os anos 70 trouxeram ainda em geral colete informação em
a tecnologia de imageame nto voxe Is (termo que une ,vo Iume,
funcional - sca11s desenvolvidos e "pixel") de cerca de 2 mm -e
para mostrar não apenas como de 4 a 5 mm de comprimento,
o cérebro é estruturado, mas aproximadamente o taman ho de
como fun ciona. A tomografia um grão de arroz. A fMRI não
por emissão de pósitrons (PET) requer a utilização de contrastes,
RESULTADOS DE EXAMES de mede o aumento no fluxo san- possibilitando u m mapeamento
ressonância magnética funcional gü íneo assoc iado à atividade mais extenso. Em um exame
de seis pessoas que passaram pelo neuronal , dando uma idéia de típico, uma pessoa se deita em
mesmo teste de memória espacial
quais neurô nios podem esta r um aparelho e é primeiramente
mostram como os padrões de
ativação do podem ser variados processando informação. Nesse mapeada em repouso, com os

66 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


o lhos fec hados, para fornecer
uma leitu ra basal. Depo is, e la é

-------
mapead a novamente e nquanto
executa alguma tarefa mental :
id entifica rostos, usa o compu-
í
ta dor, participa de u m jogo. Na
técnica mais comum, chamada
fMR I Bo ld (s ig la e m in g lês
para dependente d os níve is de
o x ige nação do sangue), o apa-
re lho mede o aume n to d o Auxo
sa ngüíneo ao verificar uma mu-
dança no magnetismo ocorrida
quando um volume d e sa ng ue
aume nta a proporção d e hemo-
g lobina fresca e oxigenada em
comparação com a desoxige na-
d a, q ue te m uma carga di fe re nte .
As regi õ es em issoras de ondas
aparecem co m cores mais claras
nas image ns, com o ve rmelho neurônios, pode ser necessária a trair uma imagem p recisa, com- A fMRI É FEITA
pensando no meio do caminho primeiro com a
mudando para amarelo quando ativação de milhares ou mes mo
pessoa em repouso
o flu xo aum en ta. As dúv idas milhões deles para acender uma as va riações na con fi guração do e, depois, enquanto
sobre se esses aumentos co rres- região; é como se a seção inteira crâni o e do céreb ro, o movi- executa tarefas
ponde m à atividade neuro nal de um es tádi o tivesse de g ritar mento dos pacientes dentro do mentais como
identificação
verdadeira foram respondidas para ser ouvida. aparelho, ruído na in fo rmação de rostos
por vári os estudos re lac ionando Ao mesmo tempo, é possível e assim por diante. Essa "cadeia
d iretamente o Auxo sangüíneo que em alguns casos u m peque- de in te rferênc ias", chamada
à sinal ização dos neurô ni os, no grupo de neurônios puxand o assi m e m artigo rece n te da
in c luind o rece ntes m odelos pouco sa ngue, ou um circuito NatureNeuroscieuce, oferece mu ita
anim ais que usaram so ndas para fin o de neurô nios co necta d o oportunidad e para erro.
combinar o disparo de neurô ni os a reg iões mais amplas, possam Por fim , a maior parte dos
indiv iduais ao Auxo aum entado executar fu nções tão cruc iais estudos com fMRI util iza um
visto nos scaus de fMRI. q uanto um g ru po maior em processame nto un iva ri ável que
A pesa r di sso, a conexão o utro lugar, mas tanto passa r modifica a natureza distributiva
ainda é precária. Abigail A. despercebidos quan to aparecer da neu ro din âm ica, segundo
8aird, psicóloga da Faculdade como uma atividade menor. Do aqueles que questionam a técni -
Dartmo u th, que usa a fMRI para mesmo modo, alguns neurô ni os ca. As críti cas aumentam porque
estudar as a lterações cerebrais ta lvez fun c io nem d e m ane i- os algoritm os univariáveis (l ite-
durante a ado lescência, resu- ra mais efici ente que o utros, ralme nte "uma variáve l") co n-
me : "Resposta he modi nâmica cons um i nd o men os sa ng ue . sid eram os dados que en tram
é um a coisa com plicada". Para Todos esses fatores podem de cada voxe l durante um scau
começar, a ação neuronal leva sig nificar que uma imagem de como uma soma, to rnando im-
milionésimos de segundos, en- fM RI representa erro neamente possível saber como a atividade
quanto o aAuxo d e san gue con- a neurodinâmica real. em um voxe l particul ar ocorreu
tinua po r dois a seis segundos; Processa r os g iga by tes d e (de uma vez só, po r exemplo , ou
um aume nto d etectado no Au xo dados brutos do scm1 para que em vári os pulsos) ou como sere-
sangüíneo, portanto, pode es tar eles se torn em im age ns requer lacionou seq üenc ialmente com
"al ime ntando" mais de uma o pe- o ut ros cuidados. Os pesquisa- a atividade em o utros voxe ls.
ração. Além disso, uma vez que dores d evem selecio nar e ajustar O processam ento uni variado
cada voxel encerra milhares d e os diversos algoritmos para ex- vê tod as as partes funciona n-

www.mentecerebro.com.br 67
do - portanto, as múltipl as para o trabalho ambicioso em e republicanos observa ndo víde-
áreas ressaltadas na ma ioria das que vem se ndo usada. "Esses os de John Kerry e George W.
imagens-, mas não de modo a boni tos gráficos produzidos Bush conclui u que a atividade
mostrar como uma região segue pela fMRI sugerem muito mai s aumentada nas am ígda las dos
ou respon de a outra. Essa situ - precisão do que na ve rdade voluntários ao assistirem ao can-
ação faz da observação de uma existe", diz Faux. "É realmente didato oposi to r "sugeria que eles
ima gem de fMR I algo como uma medida fisi ológica mui to tentavam ativamente desgostar
ouvir um quarteto de cordas, grosseira, se não vaga, que as da oposição". Além disso, alguns
escutando (condensado em um pessoas estão usando para tentar estudos têm falh as enormes de
único som depois de a música traçar alguns comportamentos proj eto , como oco rreu com
ter terminado) ape nas a qua n- muito complexos. E em diver- mais de 30 deles, que alegavam
tidade total de som produzido sos estudos os auto res faze m ter encontrado os marcadores
por cada in strumento durante uma interpretação excess iva psicológicos de hiperatividade
a execução, em vez de escutar dos dados. Nada disso faz a em crianças diagnosticadas com
como os músicos tocam juntos e ciência avançar." o tra nstorno - mas não con -
respondem uns aos outros. Mé- seguiram fazer o controle dos
todos estatísticos conhecidos Marcas de pneus efeitos da utilização de ritalina
como análise mul tivariada po- Não é muito difíci l encontrar pelos pesquisados.
dem separar a atividade de cada pesquisas de pouca importância . "Um trabalho como esse não
voxel e anal isar os intercâmbios Cons idere, por exempl o, um indica ne nh uma fa lha fata l na
AB IGAIL A . BAIRD,
entre as regiões do cérebro, mas estudo mostrando que as amíg- fM RI ", diz Baird. Mas ela res-
psicóloga da Faculdade
Dartmouth, utiliza a complexidade de tais análises dalas dos homens (cujo papel é sa lta a importância de usar uma
exames de neuroimagem até agora limitou seu uso. crucial na geração das emoções) técnica cuidadosa, um projeto
para estudar as alterações Para alguns, essas imp reci- acendem quando vêem Ferraris. de estudo sólido e de fazer uma
cerebrais durante a
adolescência sões e limitações fazem da fMRI Outros, como diz Faux, exage- interpretação criteriosa. A psi-
um instrumento muito grosseiro ram: um estudo dos democratas cóloga, que gosta de checar seus
estudos de fMRI com pesquisas
simil ares que utili zam outros
métodos, compara a interpre-
h,_.,. tação da fMRI com a anál ise da
' marca dos pneus no chão no
local de um acidente: "Alguém
que faz isso com freqüência , é
cuidadoso e recolhe outras evi -
dências, provavelmente tirará
conclusões úteis. Uma pessoa
sem experiê nci a ou que não
exam ine a cena toda fará uma
leitura pobre dela".
Mesmo estudos sér io s e
bem e laborados podem ser
prejudicados por falhas sutis no
projeto. Em uma investigação
amplamente citada e divulgada
sobre respos ta emoc ional de
ado lescentes, por exe mpl o,
Deborah Yurge lun-Todd, da
Escola de Medicina de Harvard,
pesquisou jovens enquanto eles
descreviam expressões de rostos
de meia-idade ati ngidos pelo

68 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


medo, em fotos em preto-e-
branco. Comparados a adu ltos,
os ado lesce ntes que viam as
imagens ap rese ntaram menos
ativ idade nos lobos frontais,
onde ocorre boa parte da aná-
lise e do julgamento, e m ais
na amígda la. Os participan-
tes tam bém marcaram poucos
pontos na caracte rização das
expressões. Para Yurge lun -
Todd, os resul ta do s sugerem
que o cérebro do adolescente
pode ter respondido mais com
uma reação impulsiva que com
um tipo de resposta mai s ra-
cional. Para dar seguimento à
pesquisa, no entan to, Baird fez
u m experimento simil ar usando
fotografias coloridas d e rostos
ado lescentes e descob riu que
os jovens pesquisados responde-
ram e fi zeram pontos de modo das com o trabalho de fMRI com fMRI; as regiões envolvidas MUITAS DAS FUNÇÕES
mui to parecido com os adultos. são tão abstratas e vagas que "acendem" co n sta n te m e nte. cognitivas estudadas
pelos neurocientistas
"El es s impl esme nte estavam descrevem pouco ma is q ue um Diversos pesquisadores poderão são abstratas e vagas,
ma is envo lvidos pelas fotos co- sistema nervoso conceitual. No conclui r com muita rapidez que descrevem pouco mais
loridas mais contemporâneas", topo da lista de dúvidas de Faux a função executiva é, portanto, que um sistema nervoso
conceitual
afirma Baird. "Eles se saíam bem está a chamada função executi- responsável, quando na verdade
quando se in teressavam." va do cérebro. "Esse é um d os as regiões podem estar acen-
Esse caso evidencia algumas procedimentos favoritos", d iz dendo simplesmente porque a
d as dificu ldades não-técn icas ele, "medir o 'executivo ce n tral'. função executiva está na base de
m a is ev identes da fMRI: o Mas o que é isso?". tantas atividades cerebrais que
peri go e a facilidade com que pode m uito bem perma necer
uma falha no proj eto pode Luzes acesas sempre "ligada".
d eturpar os resultados; o po d er M uitos psiquiatras e neu rolo- Em parte, críticos como Faux
das imagens d e man ipula r p ro- gistas co ncordam que a função e Uttal protestam contra a na-
fissionais, mídia e público apesar execu tiva seja um a faculdade tureza arbitrária de termos que
dt~s ft~ lh as; e a mane ira com o real, c a produção de imagens e são necessari ame nle abstralos;
os resultad os podem refo rça r os estudos físicos indicam q ue eles quest ionam juízos sob re
idé ias co nve nci o nai s, como ela provém de um circuito de a realidade de uma coisa não
por exemplo as relac ionadas ao regiões no córtex pré-frontal observada. Um mapeamento é
pensamento e comportamento e no córtex cingulado anteri or apenas a representação de uma
ado lescen te. Esse último pro- (uma área pequena entre os dois atividade. Mas os proponentes
blem a a limenta al gu m as das lobos fro ntais). A função execu- da fMRI respondem que todos
crít icas mai s s ignificativas à tiva organiza os pensamentos e parecem aceitar quando físicos e
fMRI. Alguns críticos, incluindo dá às pessoas a ha bil idade de astrônomos descrevem objetos
Faux e o psicólogo Wi ll ia m R. planejar e levar a term o suas cosmológicos d istantes que não
Uttal, professor emérito da Uni- resol uções. Mas espec ialistas são observados de modo algum,
vers idade de Michigan em Ann em cérebro têm suspeitas sobre mas são infe ri dos pelos dados.
Arbor, argumentam que muitas a alta freqüência com que a fun- O mesmo ocorre para o mais
das fu nções cognitivas estuda- ção executiva é citada nos testes recente componente da matéria.

wvvw.mentecerebro.com.br 69
"Você não pode o bse rvar o u vas dos c ientistas de conectar do crânio de uma pessoa como
med ir partículas subatômicas a mente, efêmera, ao cé rebro um mapa da in teligência e do
diretamente" , observa Jo hn corpóreo. Uma preocupação caráter dele ou de la.
Darrell van Horn , que dirige básica é de que a fMRI seja um A acusação pode ser exa-
operações no fMRI Data Center novo capítu lo na ve lh a ten- gerada. A maioria dos pesqui-
em Dartmouth. "Mas elas são tação de relacionar processos sadores de fMRI procura não
modelos úteis e bem fundamen- mentais específicos a regiões locali zar a função cerebral, mas
tados que podemos aperfeiçoar particulares do cérebro. mapear as partes d o s istema
com base em experiê nc ia. Acho Poucos pesquisadores acre- que age m em combinações
que mui tas dessas funções são ditam seriamente que as funções d iferentes para tarefas variadas .
bastante similares." Apesar dis- do cérebro sejam tão comparti- Embora a própria abordagem
so, o co nce ito de executivo mentadas. Como diz Raichle: possa sugerir uma tendência a
central ultrapassa o limite para "Nenhuma pessoa racional su- dar importância à localização,
mui tos profissionais, incluindo geriria que há um único lugar da pode se r simplesmente que a
o próprio Van Horn; ele o con- 'emoção', por exemplo". Mesmo fM RI ainda seja uma técn ica
sidera mais como um a metáfora assim, a maioria dos estudos de recente e esteja sendo usada
que um modelo. É preciso mais fM RI colocou seu foco em como como instrum e n to ini cia l de
dados para resolver essas ques- determinado processo mental mapeamento ma is comp lexo
tões de nomenclatura. ativa certas áreas. Isso provocou que possa vir no futu ro; é na-
Não é por acaso que as a acusação mordaz de que os tural esboçar um mapa simples
con trovérsias sobre a fMRI estudos com fMRI constituem de cidades antes de delinear o
dizem respeito tanto a questões "a nova frenologia", uma versão in trincado sistema de estradas
conceituais como tang íveis. Essa moderna da prática do sécul o que as u ne. Mesmo quando
dua lidade é inerente às te ntati- XIX de interpretar a estrutura comparados com as pesq uisas

70 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


todológicos. E os avanços muito
provavelmente vão se sobrepor às
preocupações técnicas; pesquisa-
dores já trabalham na combina-
ção da acuidade espacial da fMRI
com a resolução temporal mais
precisa da eletroencefalografia
e da magnetoencefalografia, que
medem a atividade neuronal ao
detectar, respectivamente, a ati-
vidade elétrica e a magnética pro-
duzidas pelos neurônios. Algum
dia tais inovações, c outras ainda
fora do horizonte, deverão medir
a ativi dade neura l com maior
precisão espacial e temporal.
Avanços como esses poderão
resolver ou não a ansiedade
filosófica que o imageamento
cerebral provoca. A tentativa de
identificar os correlatos neurais
NO TOM: pesquisadores esperam que exames de neuroimagem da consciênc ia confronta a
possam mostrar o cérebro funcionando como uma orquestra com variados
timbres e possibilidades de combinações antiga posição, articu lada to-
talmente pela primeira vez por
de há apenas três anos, os estudos Massachusetts, Mona Spiridon, René Descartes, de que a mente
de fMRI de hoje identificam com da Universidade de Ge nebra, é mais do que o cérebro. Resis-
mais freqüência e discutem as Suíça, e Christian Habeck, da tim os à noção de "mente como
relações entre as diversas regiões Universidade Columbia, usaram carne", como colocou o escritor
ativas do cérebro. Algum dia a com sucesso p rocessam ento Jonathan Franzen ao acompa-
fMRI poderá ser capaz de mostrar multivariado para revelar intera- nhar a doença de Alzheimer de
a verdadeira natureza do cére- ções entre as regiões do cérebro. seu pai . A maioria das pessoas
bro, que Raichle diz ser "como Cox descobriu que voluntários não fica confortável em ter suas
uma orquestra", com diferentes observando diferentes objetos idéias e sentimentos- que pare-
seções tocando em diversos produzem padrões tão distintos cem ser o caráter e a identidade
momen tos, volumes e timbres, que e le rapidamente poderia delas- reduzidos a imagens em
dependendo do efeito necessá- aprender a examinar uma série pixels de neurônios em ação.
ri o , interagindo e m combina- de imagens de um pesquisado À medida que a tecnologia lnterpreting the
ções infindáveis para criar uma e adivinhar corretamente qua l torna mai s fáci l liga r os dois, BOLO signal. Nikos
variedade infinita de música. objeto a pessoa havia visto. Ex- essa apreensão meta física po- K. Logothetis e Brian
pandir e refinar tais protocolos derá crescer. Ou talvez sejamos A. Wandell, em Annua/
Review of Physiology,
O que vem agora? multivariados deve pem1itir que capazes de dar conta dela. vol. 66, págs. 735-769,
Para ouvir essa música de maneira a fMRI revele muito mais sobre Como argume nta o conheci- março de 2004.
mais completa, a tecnologia de como as regiões do cérebro do neurocientista António R. A measured look at
fMRI atual precisa avançar. Uma trabalham em conjunto. Damásio, da Universidade de neuronal oxygen
saída é me lhorar os algoritm os Tais avanços colocarão fim lowa, que chama essa resistência consumption. John E.
multivariados que podem rastrear às controvérsias sobre a fMRI e de "erro de Descartes", pode- W. Mayhew, em Science,
vol. 299, págs. 1023-
as interações entre as regiões outros tipos de imagcamento do remos até mesmo rela c io nar 1024, 14 de fevereiro
cerebrais. Pesquisadores como cérebro? Em parte, talvez. Pro- as compl ex idades do pensa- de 2003.
)ames V. Haxby, da Universi - tocolos de processamento mais mento e da emoção a nossos The new phrenology.
dade Princeton , David Cox, padronizados e revisão de pares n eu r ôn ios sem n en huma William R. Uttal. MIT
do Instituto de Tecnologia de devem reduzir os equívocos me- sensação de perda . nec Press, 2003.

www.mentecerebro.com.br 71
TECNOLOGIA

Soluções
hiahtech
Usadas atualmente em algumas condições clínicas, no futuro as
neuropróteses devem recuperar funções cerebrais mais complexas; a
possibilidade, porém, ainda causa estranhamente em muita gente

POR FRANK W. OHL


Professor de neuroblologla da Universidade de Magdeburg,
Alemanha, coordena um grupo de estudos sobre desenvolvimento
de neuro róteses Interativas no Instituto Leibnitz de Neuroblologla

comprometida - c é importante frisar aqui o termo

C
orpo c mente sempre foram considerados
dois lados da mesma moeda - cada qual restaurar. É muito comum que habilidades sensoriais
com sua dinâmica. Hoje, porém, muitos perdidas sejam simplesmente compensadas pelo
cientistas questionam a divisão entre físico e desenvolvimento de outras - como no caso dos defi-
psíquico, sugerindo que ambos podem estar amal- cientes visuais que aprendem braile ou dos surdos que
gamados. O desenvolvimento de neuropróteses se comunicam por sinais ou utilizam leitura labial. As
inovadoras está colocando à prova a tradicional neuroprótcses, por sua vez, têm como objetivo uma
divisão entre corpo c intelecto. reconstmção real da função, na medida em que in-
Toda pessoa que perdeu uma parte do corpo já teragem diretamente com partes do sistema nervoso,
pensou na possibilidade do implante de um membro por meio de uma interface neural.
ar1incial. A decisão - contra ou a favor - depende A neurointcrfacc, ou neuroprótese, pode ser implan-
de algumas considerações, por exemplo: quanto a tada tanto no próprio cérebro como nas vias sensoriais
perda dessa parte causa limitações? Em que medida que enviam os sinais visuais ou auditivos, por exemplo,
o recurso pode atenuar minha dificuldade física? É para processamento central. Por meio da manipulação
preciso que fique bem claro que prótese é apenas dessas variáveis, queremos saber onde fica essa fronteira
uma cópia substituta que vai desempenhar algumas invisível. O problema é que quanto mais fundo pene-
funções básicas, mas é incapaz de recuperar todas tramos nos refúgios neurais da consciência, mais com-
as habilidades. A necessidade de considerar essas plexos ficam os processos. O estágio atual da pesquisa
questões é compartilhada pela maioria das pessoas e do desenvolvimento de neuropróteses se encontra na
quando esse exercício de rcllexão é transferido para transição da periferia para o centro do sistema nervoso
outros órgãos, como olhos, ouvidos, fígado, coração (11er quadro 1111 fltÍ!). 71).
ou rins. Somente quando manipulamos o cérebro- ou Independentemente da localização - periférica ou
seja, a base física do nosso intelecto - é que somos central - um aspecto importante desses dispositivos
tomados de assalto pela estranha sensação de que as é a direção do Ouxo da informação. Uma neuropró-
coisas podem ser diferentes. tese '~leitora" detecta estímulos do ambiente e envia
ivlas o que, afinal, diferencia as neuroprótescs de para o cérebro a informação codificada, que então
outros "substitutos" para o corpo? Em princípio, das será transformada em movimento ou audição, por
não passam de equipamentos usados para restaurar exemplo. Uma ncuroprótese "executora", por sua
uma função do sistema netvoso total ou parcialmente vez, deve ser ca az de estimular o sistema nervoso

72 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


central de modo a cria r percepções na ausê ncia da-noite (um cebídeo de hábitos noturnos) chamada
de qualquer informação externa. Belle. Os eletrodos registraram a atividade neural
As neuropróteses periféricas leitoras já são utili- enquanto o animal movimentava uma alavanca. Os
zadas há vários anos. Algumas registram a atividade sinais captados foram transformados em comandos
dos axônios que inervam grandes músculos para de computador e depois enviados, via internet, a um
ajudar a movimentar mãos, braços ou pernas. Esse laboratório a mil quilômetros de distância. Ali, um
tipo de controle, entretanto, já foi conseguido, em segundo computador decodificou os pensamentos
experimentos, por meio de interferência na atividade de Belle e moveu o braço de um robô.
de regiões centrais do sistema nervoso. Em 2000, a Esse tipo de "transmissão de pensamentos" é
equipe coordenada pelo brasileiro Miguel Nicolelis, possível também entre humanos. Em 1999, Niels
então na Universidade Duke, Carol ina do Norte, Birbaumer, da Universidade de
realizou um experimenlo no qual foram implantados Tübi ngen, Alemanha, desen-
eletrodos no córtex cerebral de uma fêmea de macaco- volveu o que ele chamou de
O AUXÍliO ARTIFICIAL
Quatro tipos de neuroprótese

Prótese de mão implantada Chlp de silício im plantado no


no sistema ne rvoso pe riférico sistema nervoso central

Próximo desafio: prótese cortical

Implante coclear

Qualquer "dispositivo para tradução de pen- foi capaz de mover uma prótese cepção dos sentidos relacionados
samentos", um aparelho que mede, de mão com a "força do pensa- estiverem lesionadas. Esse é um
recurso por meio de eletroencefalografia mento". Hoje, Nagle já consegue dos principais motivos pelos quais
interativo tem (EEG), as correntes cerebrais de copiar uma figura geométrica com os cientistas tentam, desde os anos
uma pessoa enquanto ela pensa bastante exatidão. 60, provocar sensações específicas
de ser capaz de em alguma coisa, por exemplo, A maioria das próteses exe- por meio da estimulação elétrica
se comuntcar no movimento do cursor na tela cutoras ainda se limita à região de estruturas centrais. Algumas
do computador. Depois de muito periférica, onde já são utilizadas pesquisas procuram estimular os
fluentemente trei no, os sinais captados podem em diversas aplicações cl ínicas, córtex visual e auditivo para pro-
com todo o ser transformados em ações con- como os implantes cocleares para vocar as respectivas percepções.
troláveis, e representam espe- deficientes auditivos: um chip Até agora, porém, todas as tentati-
sistema nervoso rança para pacientes que sofrem transf01ma o som gravado por um vas fracassaram . Os pacientes cujo
central de paralisia total. microfone em sinais elétricos, c córtex visual recebeeu estímulos
John Donoghue, da Univer- com eles estimula o nervo auditivo elétricos conseguiram ver ape-
sidade Brown , em Providence, por meio de eletrodos implantados nas pequenos pontos luminosos
realizou uma intervenção ainda na cóclea (parte do ouvido interno coloridos. Imagens mais comple-
mais ousada em humanos. Em em fonna de caracol). Atualmente xas, com cantos ou contornos,
meados de 2004, ele e sua equipe estão sendo testados os primeiros ainda lhes são desconhecidas. Da
implantaram um chip no cérebro implantes de retina. mesma forma, a estimulação do
de Matthew Nagle, paraplégico Entretanto, as neuropróteses córtex auditivo provoca somente
depois de ser ferido com uma faca. executoras, como as de cóclea e de 11.1ídos e estalos.
O dispositivo registrou os sinais retina, não funcionam se as regiões A razão dos fracassos não
cerebrais de forma que o paciente cerebrais responsáveis pela per- parece ser ape nas as limitações

74 MENTE&:CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


tecnológicas no desenvolvimento
das neuropróteses. Tais diRculda-
des são reflexo de um problema
básico: diferentemente dos nervos
periféricos, o córtex sensorial
não trabalha como um recep-
tor passivo, que simplesmente
espelha o ambiente à sua volta.
Ao contrário, o processamento
dos sentidos envolve um sistema
ativo e altamente flexível, que
interpreta todas as informações
que chegam sempre de forma
diferente, de acordo com o estado
de outras regiões cerebrais com
as quais se comunica.
Estímulos elétricos simpl es,
que funcionam nos nervos au-
diti vo e visual , não são bem-
sucedidos quando aplicados ao ensinar esses roedores a pular ex tremamente prec isa com a EQUIPE COORDENADA
apenas em resposta a urna série pelo brasileiro Miguel
córtex. Uma prótese sensorial atividade cerebral. A capacidade
Nicolelis implantou
implantada ali teria de trabal har de sons idênticos apresentados a de aprendizado dos gerbos au- eletrodos no cérebro da
de forma flexível, isto é, medindo intervalos cada vez mais curtos. mentava expressivamente quan- fêmea Belle: computador
e interpretando simultaneamente Criamos o protótipo de uma do estimulávamos seus córtices decodificou a atividade
neural da macaquinha e
grandes volumes de informação neuroprótese com dois canais e o em determ inados momentos. usou os sinais para mover
provenientes não apenas do ex- implantamos no córtex dos gerbos. Aparentemente, a neuroprótese o braço de um robô
terior, mas de dentro do próprio Assim, essa área cerebral podia ser depende do intercâ mbi o de
cérebro. Uma neuroprótese inte- estimulada simultaneamente em info rmações e ntre as regiões
rativa deveria, portanto, ser capaz dois locais distintos: onde são pro- que estão sendo estimuladas. Na
de se comunicar fluen temente cessados os sons de alta e de baixa prática, isso significa que próteses
com o sistema nervoso. freqüência. Funcionou. Sem ouvir corticais executoras precisam pri-
um único ruído pelas vias nonnais, meiro "aprender" a se adequar aos
Contornos nítidos os animais passaram bravamente seus interlocutores.
Atualmente, estamos investigando no teste de aprendizado: não só Esses resultados promissores
os princípi os básicos desse conseguiram diferenciar sons de trouxeram à to na questões já
diálogo com a ajuda de médicos alta dos de baixa fTeqüência, como levantadas antes: será que uma
e fi siologistas. Nosso modelo também perceberam alterações prótese cerebral pode transformar
animal é uma espécie de roedor temporais nos estímulos. O s ani- o ser humano em oulra pessoa? A
(Meriones tmguiculatus) conhecida mais com a prótese implantada, princípio, a resposta é aRm1ativa.
como gerbo-da-mongólia. Além em nenhum momento ficaram Afinal, esses dispositivos são capa-
de aprender rapidam ente, sua sobrecarregados, mesmo quando zes de modiRcar os fundamentos Neuroprosthetics: in
search of the sixth
audição abrange um espectro de os estímulos eram complexos. Eles da percepção. O desenvolvimen-
sense. A. Abbott, em
baixa freqüência semelhante ao aprenderam tão bem e tão rápido to de neuropró teses interativas Nature, vol. 442, nº
dos seres humanos. Em pouco quanto os animais sem prótese, que ainda vive sua infância. Já está 7099, págs. 125-127,
tempo os gerbos aprenderam a ouviam normalmente. claro, no entanto, que a pesquisa 2006.
pular uma barreira ao ouvir dois Uma única prótese implanta- básica, a prática clínica e o debate Leamlng-induced
sons de intensidade crescente. da no córtex auditivo, portanto, acerca das questões éticas devem plastlclty in the audi-
tory cortex. E W. Ohl e
Quando ouviam uma seqüência de foi capaz de produzir percepções. caminhar paralelamente. Assim, a
H. Scheich, em Current
sons de intensidade decrescente, Além disso, nossos experimentos idéia aparentemente assustadora, Opinion in Neurobiology,
porém , todos perman ec iam nos ensinaram que a estimulação pouco a pouco ganha contornos vol. 15, n• 4, págs. 470-
sentados. Dessa forma é possível elétrica deve estar em sincronia mais nítidos e verossímeis. nec 477,2005.

www.mentecerebro.com.br 75
• TECNOLOGIA

Pensamento
eletrônico
Novos programas altamente sofisticados se inspiram em redes
neurais humanas; pesquisadores questionam se algum dia as
máquinas realmente serão capazes de raciocinar

POR YVONNE RALLEY


Professora-assistente do departamento de filosofia da
Faculdade Felician, em lodi, Nova jersey.

anto te m po você leva para so ma r capaz de imitar as redes neurais da Na tureza, poderá

Q
c p
3.456.732 mai s 2.245 .678? Dez segun-
dos? Nada mau - para um humano. Um
or médio, hoje, pode realizar o cálculo
em 0,000000018 segundo. E quanto à sua memória?
o frio silício algum dia "pensat de verdade? E como
iremos julgar se ele o faz ou não? Há mais de 50 anos
o matemático e filósofo britânico Alan Turing ( 1912-
1954) inventou uma estratégia engenhosa para lidar
Você consegue lembrar uma lista de compra de sete com essa questão. A busca por essa possibilidade en-
itens? Talvez 20? Isso não se compara aos 125 mil hões sinou bastante à ciência sobre como projetar uma in-
que o computador memoriza. teligência artificial, ao mesmo tempo que tornou mais
Por outro lado, computadores têm problemas clara a cognição humana.
com rostos, que nós, humanos, reconhecemos ime- Então, o que é exatamente essa capacidade elu-
diatamente. As máqui nas não possuem criatividade siva que chamamos de "raciocínio"? As pessoas com
para idéias inovadoras nem sentimentos ou lem- freqüência usam a palavra para descrever processos
branças afetivas da juventude. No entanto, avanços que envolvem consciência, entendimento e criativi-
tecnológicos recentes estão diminui ndo a diferença dade; termos que não se aplicam aos computadores
entre o cérebro humano e os circuitos. Na Universi- - atualmente vistos como meros seguidores de
dade Stanford, bioengen heiros estão reproduzindo o instruções fornecidas por sua programação.
complicado processamento paralelo das redes neurais Em 1950, quando os microchips de silício ainda
em microchips. No Instituto de Neurociências em não existiam,Turing percebeu que, conforme os
La Jolla, Califórnia, pesquisadores construíram um computadores ficassem mais espertos, a questão da
robô, o Darwin VII, com uma câmera e um conjunto inteligência artificial iria acabar surgindo. No artigo
de mandíbulas de metal para poder interagi r com o "Máqui nas computacionais e inteligência", Turing
ambiente e aprender, como fazem os animais jovens. substituiu a pergunta "As máquinas podem pensar?"
O cérebro de ratos e macacos serviu de modelo para por "Pode uma máquina -um computador- passar
fazer o sistema operacional do robô. no jogo da imitação?". Isto é, pode dialogar de forma
Esses projetos levantam uma questão natural: se o tão natural a ponto de fazer com que uma pessoa
processamento de computadores, com o tempo, será pense que seu interlocutor é humano?

76 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


Turing tirou essa idéia de um jogo no qual um pessoas é um obstáculo tão difícil para máquinas?
dos participantes, chamado de entrevistador, precisa Para passar no teste, as máquinas teriam de de-
determinar, faze ndo uma série de perguntas, se uma monstrar tantos tipos de competências quanto um
pessoa em outra sala é ho mem ou mulher. Turing ser humano médio possui. Mas computadores têm
substituiu a pessoa na outra sala por um computador. o que chamamos de design restrito. Sua programa-
Para passar no teste de Turi ng, a máquina precisaria ção permite que reali zem um trabalho específico, e
responder qualquer pergunta do entrevistador com eles têm a base de conhecimento relevante apenas
a competência lingüística e a sofisticação de um ser para aquela tarefa. Para passar no teste de Turing,
humano. Ao final de seu artigo, o matemático previu o computador também precisa ter um excelente
~ que em 50 anos -ou seja, hoje - seríamos capazes domínio da linguagem, com todas as suas peculia-
~ de construi r computadores tão bons na imitação ri dades e estranhezas. Para isso, é crucial levar em
~ q ue um entrevistador médio teri a apenas 70% de conta o contexto no qual as frases são ditas. Mas
§ chances de identi ficar se estava falando com uma os computado res não conseguem reconhecê-lo
lil ' .
~ pessoa ou com uma maqutna. com faci lidade. A palavra "banco", por exemplo,
~

~ Até agora a previsão não se realizou. Nenhum pode significar um "assento" ou uma "instituição
~ computado r pode, na verdade, passar no teste de financeira" dependendo da situação em que é usada.
! Turing. Então, por que algo que é tão fácil para O que torna o co ntexto tão im portante é o fato

www.mentecerebro.com.br 77
de ele fornecer um conhecimento tões como "Onde está o nariz a pergunta "Onde está a mochi la
prévio. C omo, por exemplo, se de Sue quando Sue está na casa de Sue quando Sue está na casa
q uem está faze ndo a pergun ta dela?". É preciso saber que o nariz delai'. A resposta apropriada nes-
é um adulto o u uma criança, um costuma estar g rudado no rosto se caso seria "não sei". A situação
especialista ou um leigo. Isso é do dono. Dizer ao computador fica ria ainda ma is com plicada
úti l porque reduz a quantidade de para responder com "na casa" é se Sue tivesse passado por uma
potência computacional necessá- insuAcicnte para ta l pergu nta. O cin1 rg ia no nariz recentemente.
ria. A lógica não é suAciente para computador pode usar a fó rmula Aqui , a resposta co rreta seria
respo nder de forma correta ques- para responder do mesmo modo outra pergun ta: "De que parte do
nariz de Sue você está falando?"-
Tentar desenvolver um software
O CÉREBRO POR TRÁS DAS MÁQUINAS que considere cada possibilidade
rapidamente leva ao que os cien-
tistas da computação chamam
de "exp losão co mbinatória".
O teste de Turing não deixa
de ter seus críticos, no entanto.
O Alósofo Ned Block, da Uni-
versidade de Nova York, defende
que esse jogo apenas avalia se
um computador se comporta ou
não de maneira idêntica a um
se r humano (estamos fa lando
apenas do comportamento verbal
c cognitivo, claro). Imagine que
seja possível programar um com-
putador com todas as conversas
de certa duração finita . Quando
o entrevistador faz uma pergunta
Q , o computador procura a con-
versa na qual Q ocorreu e então
digita a resposta que se seguiu,
A. Diante da pergunta segui nte,
P, o computador procura então
pela seqüência, Q, A, P e digita a
resposta que se seguiu nessa con-
versa, B. Tal computador, Block
di z , teria a intel igência de uma
torradeira, mas seria capaz de
passar no teste de Turing.
Uma resposta ao desaAo de
Block é que esse problema tam-
bém se aplica aos seres humanos.
Deixando de lado as ca racte-
rísticas físicas, toda a evidência
que temos para dizer se um ser
humano é capaz de pensar é o
comportamento que seu pensa-
mento p ro duz. E isso sig niAca
que nunca sabemos d e fato se o
nosso interlocutor está tendo uma

78 MENTE&CÉREBRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


conversa no real sentido do ter- símbolos signi ficam?
mo. Os filósofos chamam isso de O cientista da compu-
problema das "outras mentes". tação Stevan Harnad,
da Universidade de
Caracteres chineses Southampton, Ingla -
Uma linha semelhante de dis- terra, acredita que sim,
cussão - o "argu mento da sala mas, como as pessoas,
chinesa"- foi desenvolvida pelo as máquinas antes de
filósofojohn Searle, da Universi- mais nada teriam de
dade da Califórnia Berkeley, para captar abstrações e seu
mostrar que um computador pode contexto, aprendendo
passar no teste de Turing sem nem como elas se relacio-
sequer entender o significado de nam com o mundo real
qualquer das palavras que ele externo. Aprendemos o
usa. Para ilustrar, Searle pede significado de palavras
FICÇÃO: no filme /.A.
que imaginemos um programa por meio da ligação (Inteligência artificial)
para simular o entendimento da causal entre nós e o ob- afeto e tecnologia se
língua chinesa. jeto que o símbolo re- confundem

Agora suponha que você é presenta. Entendemos


um processador dentro do com- a palavra "árvore" porque tivemos necessários para passar no teste
putador, trancado em uma sala (o experiências com á1vores. Harnad de Turing. Em vez de exigir
gabinete do computador) cheia acredita que, para um computador que todos os dados relevan -
de cestos que contêm símbolos compreender o significado dos tes sejam inseridos por força
chineses (caracteres que irão símbolos que manipula, ele precisa bru ta, o robô apre nde o que
aparecer na tela). Você não sabe ser equipado com um aparato sen- precisa saber interagindo com
ch inês, mas recebeu um livro sório - uma câmera, por exemplo seu próprio ambiente.
(software) que lhe diz como - de forma que possa realmente A dúvida que fica é se o
manipular os símbolos. As regras ver os objetos representados pelos acesso sensório ao mundo ex-
do livro não dizem o que os símbolos. Um projeto como o te rno irá , por fim , suprir um
símbolos significam, no entanto. pequeno Darwin VIl é um passo computador com entendimen to
Q uando os caracteres chineses nessa direção. verdadeiro. Mas antes que pos-
são enviados para a sala (entrada Nesse espírito, Harnad pro- samos responder essa questão,
de dados), seu trabalho é passar põe uma avaliação revisada, a prec isa mos esperar até que
símbolos de volta para fora da qual chama de teste de Turi ng uma máquina realmente passe
sala (saída de dados). Para essa ta- robótico. Para merecer o rótulo no teste robótico sugerido por SAIBA MAIS
refa, você tem um conjunto extra de "pensa nte", uma máq uina Harnad. Enquan to isso, o mode-
lo de inteligência proposto por The robot that thinks
de regras, que correspondem ao deve passar no tes te de Turing
like you ... Douglas Fox,
programa de simulação projetado e estar ligada ao mundo ex- Turing continua a proporcionar em New Scientist, ed.
para passar no teste de Turing. terno. Esse acréscimo captura uma importan te estratégia de 2524, págs. 28-32, 5 de
Sem que você saiba, os símbolos uma das próprias observações pesquisa para a IA. De acordo novembro de 2005.
que entram na sala são perguntas, do matemático britânico: uma com o fi lósofo James H . Moor, Chlps neuromórflcos.
e aqueles que você envia para fora máqu in a deve pode r "vaga r da Faculdade de Dartmouth, a Kwabena Boahen, em
Scientific American Brasil,
são respostas que perfeitamente pelo interior" de forma a ser principal força do teste é a visão
ed. 37, págs. 72-79,
imitam as que um falante de chi- capaz de "ter a chance de des- que ele oferece- a de "construir junho de 2005.
nês pode dar; então, de fora da cobrir co isas por si mesma". um a intel igê ncia sofisticada Vlews into the
sala vai parecer que você entende O equipamento sensó ri o geral que aprende". Isso estabe- Chlnese room: new
chinês. Tal computador passaria imaginado por H arnad pode lece uma meta valiosa para IAs, essays on Searle and
no teste de Turi ng, mas não iria proporcio nar a um c ientis ta não importando se a máquina artificial intelligence.
pensar de verdade. da computação uma forma de que passa no teste de Turing é Editado por John
Preston e Mark Bishop.
Os computadores poderão fornecer ao computador o con- capaz de pensar como nós, com Oxford University
algum dia entender o que os texto c o conhecimento prévio entendimento e consciência. nec Press, 2002.

www.mentecerebro.com.br 79
POR SCOTT O. LILIENFELD E HAL ARKOWITZ
Scott o. Lilienfe ld é professor d e psicologia
da Universidade Emory. HAL ARKOWITZ
é professor de psicologia da Universidade
do Arizona.

da psicologia nos Estados Unidos. Nos últimos anos

C
om pouco mais de 1 kg e consistência gelati- BARRY L. BEYERSTEIN:
nosa, o cérebro humano parece incrivelmente do século XIX, )ames escreveu que a maioria das uso do termo
"brainscams" foi cunhado
ineflcaz quando observado ao vivo. Apesar dis- pessoas põe em prática apenas uma pequena parte por ele para designar
so, é capaz de alcançar proezas intelectuais. Embora seja de seu potencial intelectual, asserção que pode muito conceitos equivocados no
a base física de quase todos os aspectos do pensamento, bem ter algum mérito. Mas diversos autores conheci- campo das neurociências
da personalidade e da identidade- e nos últimos anos dos - entre os quais Lowell Thomas, que escreveu o
tenham sido feitas inúmeras descobertas sobre seu fun- prefácio do best-seller de auto-ajuda Como fazer amigos
cionamento-, existem ainda muitos conceitos errados e injlueuciar J>essoas (How to wh1 friends and ilif/uence people),
sobre o órgão, não raro, tomados como verdadeiros. de Dale Carnegie - tomaram certas liberdades com
O professor de psicologia Bany L. Beyerstein, da os escritos de )ames ao propor que usamos apenas
Universidade Simon Fraser, no Canadá, que morreu cerca de um décimo das habilidades cerebrais. Estu-
aos 60 anos, em junho de 2007, foi especialista em dos antigos sugerindo que uma parcela substancial
neuromitologia, o estudo dos mitos relacionados à es- do córtex cerebral é "silenciosa" contribuíram para
trutura e às funções cerebrais. Colaborador da Scimtific ratiflcar essa idéia. Graças aos avanços das técnicas
America11 e da Scimtific America11 Mind, Beyerstein cunhou de medição da atividade cerebral, sabemos agora que
o termo braiHScams (algo como "enganos cerebrais") essas regiões estão longe de ser tão discretas assim
em um artigo de 1990 sobre as freqüentes tentativas - elas formam o que os neurocientistas chamam de
de explorar a ignorância das pessoas. Entre os pontos "córtex de associação" e exercem uma função vital na
mais comuns que Beyerstein questionou estão a idéia conexão de percepções, pensamentos e emoções em
de que usamos apenas 10% do cérebro, de que os diversas áreas cerebrais.
hemisférios direito e esquerdo têm funções distintas Supostamente, pessoas que usam o lado esquerdo
e muito específlcas e que a estimulação das ondas alfa do cérebro são analíticas, lógicas e têm facilidade
nos proporciona maior grau de relaxamento. para comunicação oral, enquanto as que utilizam o
Essa concepção errônea está entre as mais enrai- lado direito são mais criativas e têm talento para ati-
zadas em toda a psicologia popular. Seu apelo sedutor vidades artísticas. Alguns livros populares flxaram-se
é compreensível, pois amaríamos acreditar que nosso nessa suposta dicotomia. No best-seller de 1972 TI?e
cérebro abriga um rese1vatório enorme de potencial psychology of consciousness, o psicólogo da Universidade
não usado. O mito dos 10% contribuiu para a produ- Stanford, Robert Ornstein, argumenta que a sociedade
ção e a venda de milhões de livros de auto-ajuda e até ocidental valoriza o pensamento racional, enfatizando
de dispositivos, incluindo aparelhos disponíveis no o desenvolvimento do lado esquerdo do cérebro, e
mercado que supostamente nos permitiriam aproveitar não confere suflciente importância ao pensamento
nossas capacidades não realizadas. intuitivo, mais específlco do lado destro do órgão. Em
Como Beyerstein observou, o mito dos 10% deriva Exercícios para desmhar com o lado direito do cérebro (Drarving
em parte da interpretação errada dos textos de William on the right side of the brain), de 1979, livro ainda muito
)ames ( 1842- 19 10), considerado um dos fundadores popular, principalmente nos Estados Unidos, a artista

www.mentecerebro.com.br 81
UM UNIVERSO A SER DESVENDADO
Sob muitos aspectos, o armazenar e elaborar informações que recebemos
cérebro humano repre- do ambiente. O aumento da expectativa de vida
senta o ápice da evolução elevou a incidência de doenças neurológicas e psi-
biológica, a estrutura mais quiátricas. As síndromes que atingem o cérebro têm
sofisticada e misteriosa do hoje grande impacto social. A doença de Alzheimer
universo, com trilhões de atinge milhões de pessoas no mundo e os casos de
células que se desenvol- Parkinson são cada vez mais freqüentes. A epilepsia
vem, se diferenciam e se afeta cerca de 1% da população de todas as idades e a
comunicam entre si. Cada esclerose múltipla é um dos transtornos neurológicos
neurônio mantém, em mé- mais disseminados entre jovens (um caso por 2 mil
dia, 10 mil contatos com pessoas). Os dados aumentam quando se consideram
outras células, perfazendo os que sofreram algum transtorno psíquico grave
- -- ~ milhões de conexões que ao longo da vida (estados profundos de depressão
~-~
formam a gigantesca rede e stress, transtorno obsessivo-compulsivo ou alguns
DURANTE A por onde são transmitidos os impulsos elétricos. tipos de psicose).
MEDITAÇÃO a Alguns desses sinais percorrem metros até atingir o Na maioria dos países, o elevado custo social
freqüência de ondas alvo, como os prolongamentos dos neurônios do cór- dessas doenças tem estimulado a pesquisa científica,
alfa aumenta, mas tex motor. Eles "viajam" até alcançar as regiões mais tanto pública quanto privada, a fazer um esforço
isso não significa
que elas causam distantes da medula espinhal, onde contatam o neu- sem precedentes para compreender a patogênese, ~
relaxamento rônio motor secundário que, associado diretamente
ao músculo, controla o movimento voluntário.
Características como linguagem, aprendizado e
os mecanismos biológicos e os fatores de risco, de
modo a elaborar novas terapias farmacológicas,
celulares ou genéticas. Ou seja: quando o assunto é
1
~

~
lógica são fruto da alta complexidade cerebral. É nela o cérebro humano, há cada vez menos espaço para
que tomam corpo nossas capacidades de apreender, a perpetuação de mitos. (Da redação)

plástica e psicóloga Betty Edwards caloso (um largo feixe de fib ras de aproximadamen te o ito a 13
expõe os benefícios de exercitar neurais que ligam os dois hem isfé- ciclos por segundo). Entretanto,
práticas criativas c, assim, utilizar rios) na tentativa de interromper pesquisas apontam que a produção
o lado direito do cérebro na ex- a epilepsia intratável. A pesquisa dessas ondas é, em grande parte
pressão artística. mostrou que os dois hemisférios ou inteiramente, desvinculada de
Apesar disso, como Beyerstein são de fato muito di ferentes. Na características de perso nalidade
e o psicólogo Michael Corballis, maioria das pessoas, o esquerdo em lo ngo prazo e estados de con-
p ro fessor da U niversidade de especializa-se nos vários aspectos tentamento imediato.
Auckland, observaram, a dicoto- da li nguagem, enquanto o d ireito Como Beyerstei n observou,
mia do lado esquerdo oersus lado cuida de boa parte das habilidades "o mi to da consciência alfa" reflete
direito tem sido simplificada de visuais e espaciais. Mesmo essas uma confusão entre "correlação"
forma grosseira. Para começar, essa difere nças são apenas relativas: o e "causalidade". É verdade que as
. SAIBA MAIS
distinção implica que pessoas com lado direito, por exemplo, tende a pessoas tendem a exibi r uma pro-
Ciência psicológica facilidade de comun icação oral não ter um papel maior que o esquerdo porção aumentada dessas ondas
- Mente, cérebro tenham talento artístico. na interpretação do tom vocal da e nqua nto meditam ou relaxam
e pensamento. M. Como muitos mitos sobre o linguagem falada. Além do mais, profundam ente. Mas isso não
S. Gazzaniga e T. F.
cérebro, porém, esse também con- como quase todos temos um corpo sig nifica que uma produção au-
Haetherton. Artmed,
2005. tém um fundo de verdade. Desde caloso intacto, nossos hemisféti os mentada dessa freqüência cause
Neuroanatomla a década de 60 , o neurocientista interagcm de forma contínua. maior relaxamento.
funcional. Ângelo B. Roger Speny, do Instituto de Tec- Alguns pesqui sad ores tê m A verdad e é que esses t rês
M. Machado. Atheneu, nologia da Cali fórnia, o psicólogo encorajado pessoas a se subme- mitos mal arranham a superfície do
2005. Michael S. Cazzaniga, pesquisador ter ao biofeedbnck cerebral - em vasto campo da neuromitologia,
A mente certa: da Uni vers idade da Califó rnia certos casos, usando apare lhos mas dão uma idéia do valioso papel
entendendo o em Santa Barbara, e seus colegas dispo níveis no mercad o - para de Bany L. Beyerstein no combate
funcionamento do
estudaram pacientes submetidos aumentar a produção de ond as aos conceitos errô neos do público
cérebro. R. Orstein.
Campus, 1998. a cirurgia para se parar o corpo alfa (q ue ocorrem à freqüênc ia a respeito da função cereb ral. me,.:

82 MENTE&CÉREllRO • DESVENDANDO O CÉREBRO


De Rembrandt a Cézanne. De Picasso a Arthur Ornar.
Exposição Olhar e ser vi.sto, no MASP. A evolução do retrato
e do auto-retrato, do século XVI aos dias de hoje.
De t erça a domingo , das 11 h às 18h . Q uint a, d as 11 h às 20 h.
MASP - Av. Pau li sta, 1578- www.m asp.a rt .br - Te l. 325 1-5644 I.II OR

®
lNQXIl\'0
AOA.l \.la.r\

MINIST1At0
IM.Q.'\._1 \IfiA Mercedes·Benz
IMI
MASP