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APOSTILA DE CONHECIMENTOS GERAIS E ATUALIDADES

POLÍCIA RODOVIÁRIA FEDERAL - 2007

CARACTERÍSTICAS DO RELEVO E DA VEGETAÇÃO Isso se deve à inexistência no Brasil dos dobramentos


BRASILIEIRA modernos. O território que atualmente configura o país não
foi, durante o período Terciário, atingido pelos dobramentos
RELEVO que se verificaram na costa oeste da América do Sul, onde
Relevo são as formas do terreno sua modelagem, as originaram a cordilheira dos Andes.
unidades ou compartimentos que um território apresenta: os
vales, as montanhas e as serras, as depressões, os planaltos Entretanto, esse predomínio de baixas altitudes não significa
e as planícies, etc. O relevo se origina e se transforma pela que o relevo seja basicamente de planícies, como se pensou
ação de dois tipos de agente: no passado. Na realidade, o relevo brasileiro é basicamente
− os internos ou endógenos, que resultam da energia do de planaltos com alguns chapadões e serras, além de
interior do planeta e se manifestam pela dinâmica ou depressões, sendo que as planícies típicas ocupam menos
tectônica das placas, que formam os continentes e o de um quinto do território nacional.
assoalho dos oceanos, o que origina as grandes
estruturas do relevo terrestre: cadeias de montanhas; É importante lembrar que a diferença entre planaltos e
bacias sedimentares; planaltos ou depressões de áreas planícies não está apenas nas altitudes que apresentam,
cristalinas; etc.; mas principalmente nos processos que os constituíram.
− os externos ou exógenos, em geral, associados ao clima
da área (chuvas, rios, ventos, geleiras, etc.), que criam As planícies são áreas mais ou menos planas, em geral —
ou dão as formas esculturais ao relevo mediante um mas nem sempre — de baixa altitude e onde predomina a
processo erosivo, que pode ser resumido em três fases: sedimentação.
erosão (desgaste das rochas superficiais do local
realizado pelos rios, pelas chuvas, pelas geleiras, pelo Os planaltos são áreas mais acidentadas que as planícies,
vento, etc.); transporte (dos detritos ou sedimentos embora bem menos que as montanhas; além disso, salvo
resultantes da erosão até outros locais); sedimentação raras exceções, são de altitude mais elevada que as
ou acumulação (deposição dos detritos, construção de planícies e neles predomina a erosão.
novas camadas rochosas (sedimentares) sobre
camadas anteriores). Em resumo: as planícies são relevos em construção e os
planaltos são relevos em destruição.
No Brasil, como o território é predominantemente tropical,
com elevadas temperaturas, chuvas em geral abundantes e Assim, muitas áreas outrora consideradas planícies são, de
reduzida atividade geológica interna (vulcanismo, terremotos, fato, depressões ou planaltos de baixas altitudes (os
dobramentos), os agentes que provocam maiores planaltos sedimentares ou típicos). O maior exemplo é a
modificações no relevo, com exceção do ser humano, são o planície Amazônica. Há alguns anos costumava-se
clima (chuvas, temperatura) e a hidrografia (rios). considerar planície toda a imensa área (mais de 1 600 000
km2) que margeia o rio Amazonas e seus afluentes, cuja
As altitudes do relevo são, em geral, modestas. Apenas um altitude fica entre 0m e 200m. Mas apenas cerca de 1%
ponto do país ultrapassa os 3 mil metros: o pico da Neblina dessa área é planície; os 99% restantes são depressões ou
(3 014 m), perto da fronteira do Amazonas com a Venezuela. baixos platôs (áreas bastante aplainadas pela erosão, com
Cerca de 41% do território nacional tem, no máximo, 200 m inúmeras colinas).
de altitude; 78% tem até 500 m; e 92,7% até 900 m.
Existem inúmeras classificações do relevo brasileiro, feitas a
partir de diversos critérios.

Vamos apresentar aqui uma classificação recente feita pelo


Departamento de Geografia da Universidade de São Paulo e
divide o território brasileiro em três principais tipos de relevo:
os planaltos, as planícies e as depressões.

Os planaltos, que são circundados ou cercados por


depressões, podem ser de duas principais modalidades, de
acordo com o terreno (a estrutura geológica) sobre o qual se
encontram: os de bacias sedimentares, que são os planaltos
sedimentares típicos; e os que se encontram em intrusões e
coberturas residuais de plataforma (isto é, coberturas
sedimentares de diversos ciclos de erosão, pontilhados de
serras e morros isolados associados a intrusões graníticas
ou derrames vulcânicos antigos, juntamente com os de
cinturões orogênicos (ou seja, os planaltos e serras situados
em terrenos de rochas metamórficas associadas a ígneas) e
os planaltos de núcleos cristalinos, que estão em áreas de
dobramentos antigos soerguidos em forma de abóbodas.

As planícies constituem terrenos de deposição


(sedimentação) recente, de origem fluvial, marinha ou
lacustre. Como se observa no mapa da página seguinte,
existem algumas áreas principais de planícies no país, todas
associadas a áreas de sedimentação de rios (Amazonas,
1
Paraguai e afluentes, Madeira), lagoas (dos Patos e Mirim) e porte, são higrófilas (adaptadas à umidade), possuindo
do mar (planícies litorâneas). como espécies comuns a vitória-régia, as orquídeas, as
bromélias e outras;
As depressões existem em grande quantidade no país, − mata de várzea, sujeita às inundações periódicas ao
sendo todas, com exceção da Amazônia ocidental, resultado longo dos rios; destacam-se a seringueira, a sumaúma e
de intensos processos erosivos nas bordas das bacias outras;
sedimentares. A depressão da Amazônia ocidental é uma − mata de terra firme ou caaetê , que recobre os baixos
área de baixas altitudes (ao redor dos 200 m) que margeia a planaltos sedimentares, áreas não afetadas pelas
planície amazônica e, no passado, era identificada com ela. inundações fluviais. Esse tipo de mata abrange a maior
Mas essa depressão não é uma área de planícies e sim de parte da floresta Amazônica e possui plantas de maior
uma forma de relevo aplainada onde predominam as baixas porte em relação aos dois anteriores, como a
colinas. castanheira, o caucho, a quaruba (que chega a atingir 60
m de altura), o guaraná e outras espécies.
2. Mata Atlântica ou floresta latifoliada tropical:
correspondia, mais ou menos, ao domínio do clima
tropical úmido. Na atualidade, esse tipo de vegetação,
onde aparecia o pau-brasil e plantas de madeira nobre
(cedro, peroba e jacarandá), quase não existe; restam
apenas alguns trechos esparsos em encostas
montanhosas (como na serra do Mar).
3. Caatinga: típica do clima semi-árido do sertão
nordestino, constitui um tipo de vegetação pobre, com
plantas xerófilas (adaptadas à aridez), principalmente
cactáceas (xiquexique, mandacaru, faveiro). Aparecem
também arbustos e pequenas árvores, como o juazeiro,
a aroeira e a braúna.

VEGETAÇÃO
Vários fatores como luz, calor e tipo de solo contribuem para
o desenvolvimento da vegetação de um dado local. A
vegetação natural ou original de uma área constitui,
geralmente, o primeiro elemento da paisagem que o ser
humano modifica. Assim, um estudo (e um mapa) sobre a
vegetação original do Brasil será sempre relativo a algo que 4. Mata de araucária ou floresta aciculifoliada (refere-se ao
quase não existe mais ou que está em franco processo de formato das folhas, finas e pontiagudas): corresponderia,
transformação. Dessa forma, podemos reconhecer oito tipos mais ou menos, às áreas de clima subtropical.
principais de vegetação natural no território brasileiro: Predominam aí os pinheiros, embora apareçam também
a erva-mate, a imbuia, diversos tipos de canela, cedros e
1. Floresta Amazônica ou floresta latifoliada (refere-se ao ipês. Foi, até há alguns anos, a vegetação brasileira
formato das folhas, muito largas, que predominam nessa mais aproveitada para a fabricação de móveis
vegetação) equatorial: abrange (ou abrangia) cerca de (especialmente no Paraná) e encontra-se quase
45% da área total do país, pois vem sendo intensamente totalmente desmatada.
derrubada nos últimos anos. É uma mata heterogênea, 5. Cerrados: próprios do clima tropical típico ou semi-
com milhares de espécimes vegetais (muitos ainda sem úmido, são uma vegetação arbustiva e herbácea.
classificação científica), e perene, ou seja, sempre verde Normalmente, o cerrado típico apresenta dois estratos
— não perde as folhas no outono/inverno, como as de plantas: um arbóreo, com árvores de pequeno porte
árvores de climas temperados e frios. É uma floresta (a lixeira, o pau-santo, o pequi), e outro herbáceo, de
densa e intrincada, as plantas crescem muito próximas gramíneas ou vegetação rasteira.
umas das outras (além da ocorrência comum de plantas 6. Complexo do Pantanal: vegetação extremamente
parasitas). Costuma ser dividida em três tipos de matas, heterogênea, que abrange a planície ou depressão do
de acordo com sua proximidade em relação aos rios: Pantanal Mato-Grossense, onde se encontram desde
− mata de igapó, ao longo dos rios e permanente- mente plantas higróflias (nas áreas alagadas pelo rio) até as
inundada pelas cheias fluviais. Suas plantas, de menor xerófilas (nas áreas altas e secas), além de diversos

2
tipos de palmeiras (buriti, carandá), gramíneas (como o rios que não pertencem a nenhuma dessas cinco costumam
capim-mimoso) e trechos de bosques dominados pelo ser agrupados em outras três secundárias: as bacias
quebracho, árvore da qual se extrai o tanino, utilizado na isoladas do Norte-Nordeste, as do Leste e as do Sudeste-
indústria do couro. Sul.
7. Campos: vegetação rasteira (herbácea) localizada
principalmente no sul do Brasil, onde predominam
diversos tipos de capins: barba-de-bode, gordura,
mimoso, jaraguá, etc.
8. Vegetação litorânea: característica das terras baixas e
planícies do litoral, constitui, na realidade, vários tipos de
vegetação diferentes, englobadas como vegetação
litorânea pela proximidade do litoral. Aí aparecem os
mangues ou manguezais (áreas de solos pantanosos), a
vegetação de praias, a das dunas e a das restingas.

HIDROGRAFIA
A rede hidrográfica brasileira reflete as elevadas condições
de umidade da maior parte do território nacional, podendo
ser considerada a mais densa do globo.

Suas principais características podem ser resumidas assim:

− É rica em rios, mas pobre em lagos. Por causa da sua


estrutura geológica e do seu relevo, o território brasileiro
não possui grandes lagos, que, normalmente, são de
origem tectônica ou glaciária, mas apenas lagos de
barragem marinha, como a lagoa dos Fatos e a Mirim,
originados pelo acúmulo de sedimentos pelo mar (as
restingas) em áreas litorâneas. Há ainda alguns lagos ou
lagoas de barragem fluvial e de erosão pluvial, mas sem
grande importância no conjunto da hidrografia brasileira.
No tocante aos cursos de água, porém, a situação é
inversa: por causa dos elevados índices pluviométricos
na maior parte do país, há uma densa e importante rede
fluvial, com rios volumosos em grande quantidade,
formando a mais rica bacia hidrográfica do globo, a
amazônica, tanto pela área total que ocupa como,
principalmente, pela quantidade de água que para ela
converge.
− O regime de alimentação dos rios brasileiros é
basicamente pluvial (dependente de chuvas), não se BIOMAS
registrando a ocorrência de regimes nival (neves) ou No Brasil, com a disseminação do conceito da biodiversidade
glacial (de geleiras). Apenas o rio Amazonas depende, e visando ressaltar a riqueza biológica e genética, o bioma
em parte, do derretimento da neve na cordilheira dos tem estado sempre associado ao conceito de conservação e
Andes, onde nasce, mas o grosso de sua alimentação sua visualização vem sendo buscada através da agregação
provém mesmo das chuvas, O período de maiores dos ecossistemas por proximidade e regionalização.
cheias dos rios brasileiros é sempre o verão, com raras
exceções de alguns rios do litoral do Nordeste. Bioma, ou formação planta - animal, deve ser entendido
− A maioria dos rios é perene, ou seja, nunca seca como a unidade biótica de maior extensão geográfica,
totalmente. Apenas alguns que nascem no sertão compreendendo varias comunidades em diferentes estágios
nordestino são intermitentes, secam totalmente em de evolução, porém denominada de acordo com o tipo de
alguns meses durante o ano. vegetação dominante.
− Com relação ao destino das águas fluviais, o padrão de
drenagem dos rios brasileiros é exorréico, ou seja, eles A Mata Atlântica é o mais importante dos 6 biomas
deságuam no mar. Não há aqui drenagem endorréica brasileiros e um dos hotspots mais valiosos da Terra. Devido
(rios que deságuam em depressões no interior do à riqueza excepcional da biodiversidade dos seus
continente), nem drenagem arréica (rios que se infiltram ecossistemas, sua beleza natural e seu valor universal para a
no subsolo e aí terminam). Por causa das elevadas humanidade, as áreas remanescentes foram declaradas
altitudes na porção ocidental da América do Sul (a Reserva da Biosfera pela Unesco em 1992 e inscritas como
cordilheira dos Andes), os rios brasileiros deságuam no Patrimônio Mundial da Humanidade em 1999.
oceano Atlântico. Mesmo aqueles que correm para
oeste, acabam fazendo uma curva ou então deságuam Cerrado é o nome regional dado à savana brasileira e se
em outro rio que, inevitavelmente, vai para o Atlântico. localiza no grande platô que ocupa o planalto central
brasileiro. Por fazer fronteira com os biomas Mata Atlântica,
Bacias Hidrográficas Caatinga, Amazônia e Pantanal, a fauna e flora do cerrado
Denomina-se bacia hidrográfica a área abrangida por um rio são extremamente ricas. O clima do cerrado é quente, semi-
principal e sua rede de afluentes (e subafluentes). úmido, com verão chuvoso e inverno seco. O cerrado é o
Existem cinco bacias hidrográficas principais no Brasil: segundo maior bioma. Os Parques Nacionais Chapada dos
amazônica, do Tocantins, do São Francisco, do Paraná (ou Veadeiros e Emas foram declarados Patrimônio Mundial pela
Platina) e do Uruguai. Alguns autores incluem a do rio UNESCO em 2001.
Tocantins na amazônica e a do Uruguai na do Paraná. Os
3
O bioma Amazônia (Amazonas) abrange 5% da superfície
terrestre do planeta e 40% da América do Sul, sendo 61%
em território brasileiro. A região do Amazonas possui a maior
rede hidrográfica do mundo, fornecendo 20% do volume
mundial da água doce. É considerada a maior reserva de
biodiversidade da Terra O Complexo da Amazônia Central
incluindo o Parque Nacional Jaú foi declarado Patrimônio
Mundial pela UNESCO em 2000.

O bioma Pantanal com seus 250.000 km2 é considerado a


maior superfície inundável do mundo, dividido entre o Brasil
(60%), o Paraguai e a Bolívia. A parte brasileira se localiza
na Bacia do Alto Rio Paraguai, na Região Centro - Oeste.
Por sua proximidade ao bioma Amazônia, a biodiversidade
do Pantanal é espetacular. O Complexo de Conservação do
Pantanal, incluindo o Parque Nacional do Pantanal
Matogrossense, foi declarado patrimônio Mundial pela
UNESCO em 1981.

O Pampa é a única grande área natural restrita a um único


estado brasileiro,o Rio Grande do Sul. O bioma avança para
o Uruguai e a Argentina. É exclusivo do sul da América do
Sul. O Pampa ocupa pouco mais de dois por cento do
território nacional, de acordo com o Mapa de Biomas do
Brasil, do IBGE. O Pampa inclui outros ecossistemas, além
do campo propriamente dito. Os Banhados, áreas alagadas, Hotspots
protegidas por lei porque são fundamentais para a O conceito Hotspot foi criado em 1988 pelo ecólogo
reprodução da vida e para a regulagem dos ciclos da água. inglês Norman Myers para resolver um dos maiores
As Matas Ciliares ou de Galeria, que acompanham o curso
dilemas dos ecologistas: “Quais as áreas mais
dos rios e servem de refúgio para a fauna.
importantes para preservar a biodiversidade na Terra?”

O SISTEMA URBANO BRASILEIRO: bom exemplo é Cingapura, Estado-nação com uma única
A REDE URBANA, CIDADES MÉDIAS E PEQUENAS cidade e sem meio rural. Logo, sua população urbana é de
100%; existe crescimento urbano, crescimento da população
A Urbanização brasileira da cidade e também renovação urbana (com construção de
É um equívoco comum, em livros, revistas e outras obras), mas não existe urbanização, na medida em que não
publicações, confundir urbanização com crescimento urbano, há migrações do campo para a cidade.
na realidade dois processos interligados, mas distintos.
O crescimento urbano consiste na expansão das cidades e Dessa forma, é errado falar em urbanização no Brasil
pode existir sem que, necessariamente, haja urbanização. durante a época colonial, quando ocorreu na verdade um
Esta só ocorre quando o crescimento urbano é superior ao crescimento de cidades, pois a população rural cresceu tanto
rural, ou seja, quando há migrações rural-urbanas e a quanto a urbana, e às vezes até mais. A urbanização só
população das cidades aumenta proporcionalmente em começou a existir de fato quando a indústria se tornou o
relação à do campo. setor mais dinâmico da economia, o que só aconteceu no
século XX.
Em alguns países desenvolvidos, como o Reino Unido, a
urbanização já cessou, passando a haver apenas um Quando a economia nacional foi dominada pelas atividades
limitado crescimento urbano, que decorre em parte do primárias de exportação, como o açúcar (séculos XVI e XVII),
crescimento natural da população das cidades e, de outra, da a mineração (século XVIII), o café (meados do século XIX até
imigração. Nesse pais, a população urbana já chegou aos inicio do século XX) e outras, a população urbana
92% do total e prevalece uma situação estável entre a cidade permaneceu mais ou menos estável, representando 6% a 8%
e o campo, com visível diminuição da migração rural-urbana, do total. Isso é facilmente explicado pela predominância da
que, por vezes, chega até a ser inferior à migração urbano- força de trabalho no setor primário, pela quase inexistência
rural. do setor secundário (indústrias) e pela pequena necessidade
de mão-de-obra no setor terciário (principalmente comércio e
A urbanização, portanto, tem limite, ao passo que o administração). Com a industrialização, verificou-se uma
crescimento das cidades pode continuar indefinidamente. Um
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urbanização intensa, ocorrendo aumento proporcional dos excesso de oferta de força de trabalho. Dessa forma, a
empregos no setor secundário e no terciário. urbanização brasileira decorre, de fato, do tipo de
industrialização que aqui existe — tardia, típica do
Afirma-se comumente que a urbanização brasileira não é capitalismo dependente ou “selvagem”. Logo, também é uma
decorrência direta da industrialização, pois esta não gera urbanização “selvagem”, com setor terciário hipertrofiado,
empregos em número suficiente para atender ao grande muito desemprego e subemprego.
êxodo rural e provoca, assim, desemprego e subemprego em
grande escala nas cidades. De fato, quando comparamos a Regiões metropolitanas
urbanização do Brasil com a que ocorreu nos países A intensa urbanização que vem ocorrendo no Brasil,
capitalistas desenvolvidos na época da Revolução Industrial, especialmente a partir de 1950, tem sido acompanhada por
verificamos que aqui o setor secundário absorveu menos um processo de metropolização, isto é, concentração
mão-de-obra. E também que o setor terciário se tornou demográfica nas metrópoles (cidades com mais de 1 milhão
hipertrofiado, pouco capitalizado e com atividades de de habitantes) e formação de áreas ou regiões
pequeno porte que podem ser classificadas como metropolitanas.
subemprego. Isso se aplica ao grande número de
vendedores ambulantes, empregadas domésticas, Isso significa que as grandes cidades, principalmente as
guardadores e lavadores de carros nas ruas, etc. metrópoles, normalmente têm crescido a um ritmo superior o
das pequenas e médias cidades. Assim, quando somamos a
Em parte isso se explica porque a industrialização brasileira população das nove principais metrópoles do país — São
é do tipo “tardia”, tendo se iniciado apenas no final do século Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Salvador, Fortaleza,
XIX e mediante importação de tecnologia e máquinas dos Recife, Porto Alegre, Curitiba e Belém — com a das cidades
países desenvolvidos. que pertencem às suas respectivas áreas metropolitanas,
verificamos que, em 1950, elas reuniam por volta de 18% da
Essa tecnologia, normalmente poupadora de mão- população nacional; em 1970, esse número subiu para 25%
de-obra, foi desenvolvida em países em que o crescimento e, em 2000, para cerca de 30% da população total do Brasil.
demográfico há muito tempo declinou, paralelamente à E, se incluirmos as outras cidades ou aglomerados urbanos
urbanização que ocorreu no século XIX (no caso da que já ultrapassaram um milhão de habitantes em 2000 —
Inglaterra, desde meados do século XVIII). No Brasil, assim Brasília, Manaus, Goiânia, Baixada Santista, Grande Vitória e
como em outros países de industrialização tardia, essa região metropolitana de Campinas — veremos que a
tecnologia importada agravou o problema do desemprego e porcentagem da população brasileira vivendo em metrópoles
do subemprego, já que o declínio das taxas de natalidade é já supera os 35% do total.
bem mais recente e menos acentuado que nos países em
que ela foi elaborada. Com o crescimento acelerado das grandes cidades e com os
processos de “conurbação” (nome que se dá ao crescimento
Mas, se no setor industrial ocorre essa modernização rápida de duas ou mais cidades vizinhas, que acabam por formar
mediante tecnologia importada, no setor terciário verifica-se o um único aglomerado urbano), certos problemas urbanos —
contrário: como grande parte dos capitais concentra-se na como os transportes, água, esgotos, uso do solo — não
indústria, as atividades terciárias funcionam com pouco devem mais ser tratados isoladamente em cada cidade
capital e muita mão-de-obra. Isso explica o número vizinha, mas em conjunto. Daí surgiu a definição de áreas ou
excessivamente grande (quando comparado aos países regiões metropolitanas: “Conjunto de municípios contíguos
desenvolvidos) de pequenos estabelecimentos comerciais, (vizinhos ou espacialmente interligados) e integrados sócio e
de ambulantes e autônomos, de pequenas oficinas, de economicamente a uma cidade central, com serviços
guardadores ou lavadores de carros nas ruas, etc. Ou seja, públicos e infra-estrutura comuns”.
nos países líderes da Revolução Industrial, essas atividades
são normalmente exercidas por grandes empresas Em 2000 já existiam 24 regiões metropolitanas e esse
capitalistas, ao passo que no Brasil, por causa da carência número tende a aumentar cada vez mais, pois existe ainda
de capitais, muitas vezes são realizadas por pequenas firmas um processo de urbanização e um crescimento horizontal
ou por trabalhadores autônomos, que utilizam muito trabalho das cidades, o que, com freqüência, origina conurbações.
e poucas máquinas.

É evidente que também existem grandes empresas


capitalistas no setor terciário brasileiro — como os bancos,
empresas de seguros, firmas de publicidade, cadeias de
supermercados, etc., cujo número vem mesmo crescendo
nos últimos anos —, mas a proporção de pequenas
empresas e de trabalhadores autônomos ainda é enorme.

Esse setor terciário hipertrofiado e normalmente


descapitalizado ajusta-se muito bem às necessidades do
setor industrial. As pequenas empresas comerciais e os
vendedores ambulantes comercializam produtos fabricados Rede urbana
por firmas modernas (roupas, calçados, perfumes, canetas, A urbanização brasileira só começou no momento em que a
eletrodomésticos e até automóveis). As pequenas oficinas e indústria se tornou o setor mais importante da economia
os lavadores de carros fazem um serviço de conservação nacional. Assim, representa um dos aspectos da passagem
que, nos paises desenvolvidos, é realizado por grandes de uma economia agrário-exportadora para uma economia
empresas. O elevado número de empregadas domésticas urbano-industrial, o que só ocorreu no século XX e se
compensa a baixa mecanização das atividades nas intensificou a partir de 1950.
residências. Além disso, o grande número de
subempregados e desempregados constitui um volumoso Essa transformação do Brasil, que deixou de ser um país
exército de reserva para as empresas capitalistas, podendo agrário e rural para tornar-se um país urbano e industrial,
ser aproveitado nos períodos de expansão econômica e embora ainda subdesenvolvido, apresenta outros aspectos.
contribuindo para manter baixos os níveis salariais, pelo
5
Por exemplo: as camadas sociais dos fazendeiros e grandes Elas estão, assim, subordinadas tanto às metrópoles
comerciantes exportadores deixaram de ser dominantes nacionais quanto a uma metrópole regional (dependendo de
politicamente, perderam parte da sua influência sobre o onde se localizam) e exercem influência sobre uma área
governo em favor dos industriais, banqueiros, empresários extensa, com inúmeras cidades pequenas e médias, além
das comunicações (televisão, jornais, rádios, revistas) e até das áreas rurais ao seu redor. Exemplos: Manaus (AM),
mesmo, pelo menos antes das privatizações, diretores de polarizada pela metrópole regional da Amazônia brasileira —
grandes empresas estatais. Belém — e influenciando uma vasta área (a porção ocidental
da Amazônia) — para muitos, Manaus já é uma metrópole
Cessou também o predomínio do campo sobre a cidade, no regional, não mais polarizada por Belém e polarizando a
sentido de que os principais interesses econômicos e a maior chamada Amazônia ocidental; Londrina (PR), subordinada a
parte da força de trabalho do país estão localizados no meio Curitiba e exercendo ação polarizadora sobre grande parte
urbano, de cuja atividade industrial e bancária o meio rural se do norte do Paraná; Ribeirão Preto (SP); Cuiabá (MT);
tornou subordinado. Essa subordinação se manifesta de Florianópolis (SC); Caxias do Sul (RS); Goiânia (CO);
várias maneiras: Blumenau (SC); Campinas (SP); Campo Grande (MS).
− O campo fornece mão-de-obra e gêneros alimentícios
para o meio urbano. Agora não mais se comercializa A seguir, temos os centros regionais, cidades médias
apenas os excedentes nas cidades, como ocorria no polarizadas pelas capitais regionais e que, por sua vez,
período colonial, mas se produz essencialmente para o polarizam grande quantidade de pequenas cidades. As
comércio urbano; cidades médias existem em número bem maior que daquelas
− O setor agrário de exportação continua a ser importante a que estão subordinadas (as capitais regionais),
para a economia nacional, mas agora sua renda é constituindo várias centenas em todo o território nacional.
utilizada principalmente para pagar as importações de Alguns exemplos: Juiz de Fora (MG), Jales (SP), Vacaria
maquinaria para o setor industrial e não mais para se (RS), Andradina (SP), Anápolis (CO), São João da Barra (RI),
importar bens manufaturados de consumo, que já são Formiga (MC) e Cascavel (PR).
fabricados aqui.
− Certos insumos procedentes do meio urbano, como As cidades pequenas ou locais, aos milhares no país, são as
fertilizantes e adubos, além de crédito bancário e que ocupam a posição hierárquica mais baixa nesse sistema
máquinas agrícolas, assumem importância cada vez urbano. Elas são polarizadas por centros regionais e
maior. polarizam as vilas e áreas rurais vizinhas.

Além de passar a comandar o meio rural que lhe é vizinho Esse sistema integrado de cidades, com uma hierarquia que
(ou às vezes até aqueles bem distantes, como é o caso das vai das metrópoles nacionais (apenas duas) até as cidades
metrópoles), as cidades também estabelecem entre si uma locais (milhares), está se formando e ainda não configura
rede hierarquizada, um sistema de relações econômicas e uma realidade completa.
sociais em que umas se subordinam a outras:
1. As cidades pequenas (em grande número) O sistema urbano articulado é fruto da divisão territorial do
dependem das médias (em número menor); trabalho entre o campo e a cidade e entre cidades com
2. Estas, por sua vez, subordinam-se às grandes recursos (população, equipamentos urbanos) diferentes. E
cidades ou metrópoles (poucas). ele só se completará quando todo o território estiver
ocupado, se tornar economicamente produtivo e a indústria
Em outras palavras, a modernização do país, resultante do se tornar o setor dominante. Assim, só existe de forma
crescimento da economia urbano-industrial, produziu uma completa nas áreas de maior desenvolvimento industrial; nas
divisão territorial do trabalho que subordina o campo à áreas de baixa industrialização ou naquelas ainda pouco
cidade, bem como as cidades menores às maiores. ocupadas, a rede urbana é pobre e desarticulada.

No topo desse sistema integrado de cidades, situam-se as Para entender essa rede urbana, é importante lembrar que
duas metrópoles nacionais: São Paulo e Rio de Janeiro. Elas os critérios para classificar uma cidade não são rígidos,
polarizam todo o território brasileiro, comandando dependem da região em que ela se localiza. Assim, nas
praticamente a vida econômica e social da nação com suas áreas de maior industrialização e maior densidade urbana —
indústrias, universidades, bancos, bolsas de valores, sobretudo com cidades mais bem equipadas —, as
imprensa, grandes estabelecimentos comerciais, etc. exigências para considerar um centro urbano metrópole são
maiores que em áreas pouco povoadas. Por exemplo,
E, como se localizam relativamente próximas (em relação às Campinas é uma cidade bem mais industrializada que Belém
dimensões do território brasileiro), existindo em torno da via e possui equipamento urbano (sistema médico-hospitalar,
Dutra uma área intensamente urbanizada, convencionou-se aeroporto, movimento bancário, universidade, comércio, etc.)
nos últimos anos que ali se formou uma megalópole ou uma superior ao da capital paraense. No entanto, essa cidade
região urbana global. De fato, essa área superurbanizada, paulista não é uma metrópole regional, e isso se deve à sua
que vai de São Paulo até o Rio de Janeiro e que abrange localização, próxima de São Paulo. Da mesma forma,
cerca de 46 000 km2 (0,5% do território nacional), abriga algumas cidades consideradas apenas centros regionais em
cerca de 22% da população total do país, mais de 50% dos São Paulo poderiam ser capitais regionais se estivessem
automóveis e da produção industrial do Brasil. localizadas na Amazônia. E, inversamente, algumas cidades
da Amazônia sedes de municípios enormes, se estivessem
Logo abaixo das metrópoles nacionais e acima de todas as no Centro-Sul do país, provavelmente seriam simples
outras cidades, surgem as sete metrópoles regionais — povoados ou vilas.
grandes cidades que polarizam extensas regiões: Porto
Alegre, Curitiba, Belo Horizonte, Salvador, Recife, Fortaleza Problemas sociais urbanos
e Belém. O processo de urbanização do Brasil, fruto de uma
industrialização tardia, realizada em um país de capitalismo
Nessa escala hierárquica da rede urbana brasileira aparecem dependente, trouxe uma série de problemas urbanos que
em seguida as capitais regionais, cidades que polarizam uma não surgiram (ou existiram com intensidade bem menor) nas
parcela da região comandada pelas metrópoles regionais. cidades dos países desenvolvidos.

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Esses problemas normalmente estão relacionados com o tipo que o local seja provido de infra-estrutura. Quando isso
de desenvolvimento que vem ocorrendo no país há várias ocorrer, tais serviços terão de passar por aquele espaço
décadas: por um lado, aumenta a riqueza de uma minoria; ocioso, que, então, será vendido ou loteado com um lucro
por outro, agrava a pobreza da maioria dos habitantes. bem maior. Isso se chama especulação imobiliária e ela
Um deles é a moradia. Enquanto em algumas áreas das beneficia um grupo reduzido de pessoas e prejudica a
grandes cidades surgem ou crescem bairros ricos, com maioria da população, pois agrava a carência de infra-
residências moderníssimas, em outras, às vezes até nas estrutura, além de levar a população trabalhadora da
vizinhanças, multiplicam-se as favelas e os cortiços. Nas periferia para locais cada vez mais distantes do centro da
últimas décadas, a população favelada aumentou em São cidade.
Paulo, no Rio de Janeiro e em outras cidades.

Eventualmente, desocupa-se uma favela para construir


algum edifício no terreno; parte da população favelada
consegue, então, mudar-se para conjuntos habitacionais
construídos com recursos públicos, mas o aparecimento de
novas favelas e o crescimento das existentes sempre
ocorrem em ritmo mais acelerado.

O mesmo acontece com os cortiços, moradias pobres em


que se amontoam várias pessoas em um espaço reduzido e
que também tiveram seu número multiplicado nas últimas
décadas. Além disso, a maioria da população transferida
para grandes conjuntos habitacionais acaba retornando às
favelas e cortiços (ou casas precárias na periferia), pois o
desemprego e o subemprego inviabilizam o pagamento das
prestações da moradia. Assim, nas últimas décadas, os
conjuntos habitacionais construídos para abrigar populações
de baixa renda acabaram servindo à classe média
empobrecida.

Outro tipo de habitação popular que se multiplicou muito nas


últimas décadas nos grandes centros urbanos do país,
especialmente na Grande São Paulo, é a casa própria da
periferia. Trata-se de uma casinha que o trabalhador constrói
com a ajuda de familiares e amigos, geralmente nos fins de
semana e feriados, em um lote de terra que adquire na Outro problema comum nas grandes cidades brasileiras é a
periferia da cidade. A construção demora vários anos e o violência. Os acidentes de trânsito, com milhares de feridos e
material (tijolos, cimento, encanamento, tinta, etc.) vai sendo mortos a cada ano, têm índices bem altos no Brasil. Esse
adquirido aos poucos, com base na pequena poupança a número se deve ao descaso das autoridades, a abusos e
que a família se obriga — muitas vezes até deixando de se impunidade dos motoristas e desrespeito do/ao pedestre. A
alimentar adequadamente. violência policial, especialmente sobre a população mais
pobre, também é freqüente no Brasil. Ao mesmo tempo,
Ocorre, porém, que, por residirem na periferia da grande cresce cada vez mais o número de assaltos e assassinatos,
cidade, o trabalhador e sua família têm de gastar mais em frutos do crescimento do desemprego e da falta de
transporte, além de perder várias horas por dia dentro de assistência às famílias pobres e às vítimas da violência.
ônibus ou trens. Aliás, a carência e a precariedade do
transporte coletivo — ônibus, trens ou metrô — são mais um Planejamento urbano, autogestão dos moradores ou
dos grandes problemas das metrópoles brasileiras. ambos?
Há algumas décadas era comum apresentar-se o
Outro problema importante nas grandes cidades brasileiras é planejamento como o remédio para todos os males de uma
o da infra-estrutura urbana: água encanada, pavimentação cidade. Muitos livros chegavam até a apresentar uma lista de
de ruas, iluminação e eletricidade, rede de esgotos e de problemas urbanos — como as favelas, a falta de infra-
telefonia. Embora a cada ano aumente a área abrangida por estrutura, a poluição — afirmando que eram ocasionados
esses serviços, o rápido crescimento da mancha urbana, ou pela ausência de planejamento.
área construída, torna-os sempre insuficientes. Assim, na
Grande São Paulo, por exemplo, em 1999 só 55% dos Mas a idolatria do planejamento foi levada às últimas
domicílios eram servidos por rede de esgotos, e apenas 68% conseqüências, com muitas pessoas fazendo esboços de
por água encanada. Em quase todas as grandes cidades do “cidades do futuro”, que seriam totalmente artificiais; os
Brasil, a carência é semelhante ou pior. moradores não teriam de opinar sobre nada, devendo
apenas ajustar-se ao planejamento. Era como se ele fosse
Essa insuficiência dos recursos aplicados na infra-estrutura algo meramente técnico e “neutro”, como pilotar um avião ou
decorre não apenas da rápida expansão das cidades, mas resolver uma equação matemática, por exemplo, em que
também da existência de terrenos baldios ou espaços existe uma maneira correta que nada tem a ver com a
ociosos em seu interior. Como a terra, especialmente no opinião (ou com as aspirações) das pessoas.
meio urbano, constitui um bem imóvel que costuma se O uso cada vez mais freqüente do planejamento urbano em
valorizar com o tempo, muitos proprietários deixam áreas quase todo o mundo e a criação de cidades planejadas
enormes sem uso, à espera de um bom negócio. É comum (como Brasília e Belo Horizonte), seguindo os esquemas
as empresas imobiliárias, ao realizarem um loteamento na rígidos preconizados para as “cidades do futuro”, acabaram
periferia, onde ainda não existem serviços de infra-estrutura, mostrando a fragilidade desse ponto de vista. Na maioria dos
deixarem um espaço de terra sem lotear entre a área que casos, os resultados foram decepcionantes.
estão vendendo e o bairro mais próximo. Após a fixação da
população na área loteada, ocorrerão reivindicações para Percebeu-se, então, que o planejamento não é neutro, muito
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menos infalível, que ele não atende aos interesses de todos conflitos com fiscais da prefeitura, com “seguranças”
os habitantes, mas aos de uma minoria poderosa que pode contratados pelos proprietários dos terrenos, etc.
influir politicamente nos órgãos planejadores. Mesmo as
cidades em que o planejamento urbano foi rígido e não Mas, muitas vezes, pela resistência, esses ocupantes saem
sofreu desvios acabaram por apresentar os problemas vitoriosos, com um local para construir suas casas.
típicos do país onde se localizam. Outro movimento popular que ocorre de vez em quando nas
metrópoles do país, só que nesse caso de forma
A partir dos anos 1990, entretanto, surgiu a idéia de um espontânea, sem a organização que existe entre os sem-
planejamento participativo ou democrático, que procura terra, são as depredações de ônibus e trens. Isso costuma
conciliar as duas vertentes: o planejamento —os aspectos ser uma decorrência das péssimas condições desses
técnicos do crescimento urbano, as pesquisas e transportes coletivos, como irregularidade nos horários,
recomendações das equipes governamentais — e a atrasos constantes, filas e superlotações, além de aumentos
participação dos moradores. abusivos das tarifas.

Durante os anos 1970 e 1980 predominou uma oposição Já foram registradas dezenas de ações desse tipo. Em 1987,
entre essas duas vertentes: se era a favor ou da participação por exemplo, houve um movimento generalizado de
popular ou do planejamento. Mas com o advento de depredações a ônibus urbanos no Rio de Janeiro, em um
inúmeros governos municipais democráticos, normalmente encadeamento de ações relâmpago que duravam minutos ou
eleitos com amplo apoio dos movimentos populares, isso horas. Com a chegada da polícia, extinguiam-se e
começou a mudar. Por um lado, não existe uma cidade, ou recomeçavam em outro lugar. Esse movimento durou alguns
uma sociedade, democrática sem a participação dos dias e, no final, anulou um abusivo aumento nas tarifas.
cidadãos nas decisões importantes; por outro, os Protestos semelhantes também ocorreram em São Paulo e
movimentos sociais perceberam que não podem fazer tudo em outras grandes cidades brasileiras. Muitas vezes, além
sozinho, sem apoio dos órgãos técnicos e administrativos, da depredação de ônibus ou trens, há também saques a
que afinal vivem à custa dos impostos pagos pela população. supermercados, como já ocorreram inúmeras vezes em
algumas cidades nordestinas, o que evidencia a situação de
Dessa forma, a idéia de um planejamento democrático extrema penúria da população de baixa renda. Assim, na
pressupõe um plano, que logicamente estabelece certas ausência de meios que garantam um real diálogo com as
normas ou diretrizes (para construções em tal ou qual área, autoridades, a própria população cria, às vezes pela força,
para o uso do solo urbano, enfim), mas feito com base nas sua forma de ser ouvida.
sugestões dos moradores e aprovado por eles antes de sua
execução, que deve ser transparente ou pública. Como expressão de conflitos urbanos no Brasil, pode-se
ainda citar as ruas e loteamentos clandestinos, a ocupação
As contradições e os conflitos urbanos de edifícios abandonados, etc. São formas de conflitos
A urbanização do Brasil está ligada de modo inseparável à oriundas da urbanização problemática do país, realizada a
industrialização. O desenvolvimento do capitalismo sempre partir do desenvolvimento de um capitalismo “selvagem”, que
gera industrialização e urbanização, mesmo que elas sejam multiplica as desigualdades e marginaliza uma grande
diferenciadas conforme a sociedade em que ocorrem. No parcela da população.
Brasil, um elemento essencial na forma de desenvolvimento
capitalista é o volume excessivamente grande do exército de
reserva de trabalhadores, o que resulta em salários baixos e ESPAÇOS RURAIS:
pouca preocupação com a reprodução dessa força de ATIVIDADES E POPULAÇÃO
trabalho.
Rural e agrário
A cidade, hoje o local de moradia da maioria dos brasileiros,
O meio rural se opõe ao urbano. Este se refere ao espaço
reflete muito bem essa característica do capitalismo
das cidades ou vilas, enquanto aquele diz respeito ao campo,
“selvagem”: os investimentos estatais voltam-se para obras e
a todas as áreas onde não há cidades nem vilas. O espaço
serviços que beneficiarão as grandes empresas ou os bairros
urbano, normalmente mais artificial que o rural, é marcado
mais ricos; as camadas populacionais de baixa renda são
pelo grande número de construções: casas, lojas, fábricas,
entregues à própria sorte.
avenidas, escritórios, escolas, hospitais, etc.
Além disso, as organizações populares são frágeis, por
O espaço rural geralmente tem presença maior da natureza
causa da competição pelos escassos boa empregos e,
(matas ou campos, plantações) e também possui alguns
principalmente, do autoritarismo político: o direito de greve ou
aglomerados de residências e pequenas vendas (ou às
de reivindicar melhorias, na prática, ainda é reprimido no
vezes até fábricas e hotéis isolados), mas que não são
país, as decisões geralmente ainda são tomadas de cima
considerados cidades nem vilas.
para baixo, sem considerar os interesses populares. A
cidade, portanto, não é construída para o cidadão, para o
Não se deve confundir rural com agrário, apesar de
morador, o habitante; é permanentemente reconstruída para normalmente eles estarem associados. O rural diz respeito
o capital, para a lógica do lucro. ao campo, ao espaço não urbano, ao passo que agrário se
Como não possuem apoio do Estado, dos poderes públicos, refere às atividades primárias: agricultura, pecuária e
os moradores de baixa renda têm de buscar suas próprias
extrativismo. Essas atividades são realizadas em geral no
soluções. Surgem os cortiços, as favelas, os barracos de
meio rural, embora possam eventualmente ser encontradas
periferia construídos em mutirão. E surgem também os
nas cidades (em chácaras dentro do perímetro urbano, em
conflitos, os momentos de revolta e de depredações.
quintais, em algumas áreas urbanas periféricas). São
atividades voltadas para a produção de alimentos para a
Um movimento popular que vem se multiplicando nas
população (ou para o gado) e de matérias-primas a serem
grandes cidades brasileiras é o dos sem-terra urbanos,
transformadas pela atividade secundária (a indústria). Mas o
centenas de famílias que, da noite para o dia, ocupam um
espaço rural não sedia apenas atividades agrárias. Nele
dos muitos terrenos ociosos que existem nessas cidades e aí
também se localizam outras atividades, que vêm se
procuram fixar moradia. Isso resulta em repressão policial,
multiplicando nas últimas décadas: hotéis-fazendas, turismo
rural e ecológico, clínicas de repouso (spas), colônias de
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férias, condomínios ou fábricas isolados, pequeno comércio, Calcula-se que existam mais de 170 milhões de hectares
etc. nessas condições, o que corresponde a um território maior
que os estados de Minas Gerais, Bahia, São Paulo e Rio
As atividades primárias foram as primeiras que a Grande do Sul somados.
humanidade praticou na busca de sua sobrevivência,
principalmente a coleta florestal, a pesca e a caça. Mas o Agricultura
desenvolvimento econômico e a industrialização provocaram A partir do momento em que a indústria se tomou o setor-
mudanças nessas atividades, com a mecanização e a chave da economia nacional, desde pelo menos os anos
produção em grande escala. E a atividade extrativa 1950, a cidade passou a dominar o campo e a agropecuária
tradicional tende a desaparecer, substituída pela indústria começou a desempenhar um triplo papel: primeiro, deve
extrativa ou pela agricultura e pecuária. A mineração passou continuar a gerar divisas por meio das exportações, divisas
a constituir um ramo industrial, criado com grandes que servirão para ajudar a pagar a dívida externa e a
investimentos de capitais em maquinarias, e a forma importar maquinarias indispensáveis ao processo de
tradicional de garimpo tornou-se pouco importante. Em vez industrialização; segundo, deve fornecer as matérias-primas
de caçar passou-se a criar animais, que foram domesticados ou os combustíveis necessários para os bens fabricados pela
para se conseguir melhor produtividade. E deixou-se de indústria (algodão, fumo, álcool, por exemplo); por fim, deve
extrair vegetais do interior de florestas para cultivá-los, o que alimentar os grandes contingentes humanos que se
tornou mais racional a sua exploração. A atividade primária concentram nas cidades e servem de força de trabalho nas
fundamental, portanto, é a agropecuária. indústrias ou no setor terciário da economia. Este último
papel é o que ela desempenha mais precariamente, já que
Mesmo no Brasil, país enorme e que ainda possui vastas os outros dois são bem mais lucrativos.
reservas florestais, o extrativismo perde cada vez mais a sua
importância. Plantações de seringueiras crescem em São Dessa forma, os cultivos da cana-de-açúcar, da soja, da
Paulo e outras áreas do Centro-Sul, substituindo o já laranja e do café passaram nos últimos anos por grande
decadente extrativismo da borracha na Amazônia. Um modernização: multiplicaram-se os tratores e demais
processo desse tipo já ocorreu há muito tempo com o cacau, máquinas, usam-se cada vez mais fertilizantes e herbicidas.
originário da floresta Amazônica, mas cultivado no sul da E produtos voltados para o mercado interno de alimentos,
Bahia. Já se pensa em fazer o mesmo com o babaçu e a como feijão, arroz, mandioca, milho e batata, continuam a ser
castanha-do-pará. A atividade extrativa tradicional, portanto, cultivados com métodos tradicionais, sem conhecerem esse
possui uma importância pequena na economia brasileira e processo de modernização agrícola. O único produto voltado
tende a decrescer a cada dia. Mas a importância ecológica para a alimentação que passou por modernização e
— de preservação das florestas — do extrativismo vegetal é crescimento da área cultivada foi o trigo. Mas isso só ocorreu
enorme, pois é uma atividade econômica que não necessita porque houve subsídios governamentais para a sua
destruir a mata e, pelo contrário, procura mantê-la. produção, que aumentava muito as importações do país. A
partir de, mais ou menos, 1991, contudo, com a criação do
Expansão da agropecuária Mercosul, a produção nacional de trigo ficou praticamente
A agropecuária constitui a atividade primária fundamental da estagnada por causa da concorrência do produto argentino.
economia brasileira; praticamente detém o monopólio da
produção nacional de alimentos e emprega a maior parte da Costuma-se dividir os produtos agrícolas brasileiros em duas
mão-de-obra rural. No entanto, ocupa apenas cerca de 30% categorias: as “culturas de pobre”, nas quais se incluem o
do território do Brasil. Dos 8,5 milhões de quilômetros feijão, o milho, a mandioca e boa parte da produção do arroz;
quadrados que formam o espaço brasileiro, cerca de 71% e as “culturas de rico”, como são conhecidas as plantações
são constituídos por terras não aproveitadas de cana-de-açúcar café, soja, algodão, trigo, etc.
economicamente, ou seja, onde não há lavouras nem criação
de gado. E apenas 7,5% desse total é formado por terras As primeiras — destinadas principalmente à produção de
onde se pratica a agricultura (permanente ou temporária). As alimentos para a população — desde a época colonial são
áreas de pastagens para a criação perfazem cerca de 21% relegadas a segundo plano, cultivadas nas piores terras e em
do total. Portanto, há uma subutilização do espaço pequenas propriedades. As “culturas de rico”, ao contrário,
geográfico brasileiro. destinam-se principalmente à exportação ou à transformação
industrial, como ocorre com parte da produção da cana, do
fumo, do algodão, etc. Desde o período colonial, ocupam os
melhores solos e são cultivadas principalmente nas médias
ou grandes propriedades rurais.

Essas diferenças são relativas, pois muitos produtos


destinados ao consumo interno podem eventualmente ser
exportados se apresentarem forte valorização, como ocorreu
nas últimas décadas com a laranja. Da mesma forma, os
produtos destinados à exportação também são consumidos
dentro do país, mas normalmente se exporta o melhor e
deixa-se o pior para o consumo interno. Assim, toma-se um
É lógico que não se pode pensar em 100% do território cafezinho melhor em Nova York ou em Londres que em São
nacional ocupado por cidades, vilas, estradas ou por campos Paulo ou no Rio de Janeiro.
de cultivo e de criação. Sempre há necessidade de amplas
reservas florestais, em especial nas poucas áreas de matas Relações de trabalho
originais que ainda restam (trechos da floresta Amazônica, As relações de trabalho no meio rural brasileiro podem ser
da mata Atlântica e do Pantanal). E é preciso lembrar classificadas, de forma resumida, em:
também as reservas indígenas e extrativas, que devem ser
preservadas. No entanto, mesmo descontando essa − Pequenos proprietários: lavradores que trabalham em
necessidade de manter enormes áreas em condições base familiar. Em 1996 representavam cerca de 11
naturais pouco alteradas, sobram ainda grandes trechos de milhões de pessoas ativas (que trabalham), o que
terras já desmatadas e não aproveitadas economicamente. equivalia a cerca de 61 % da força de trabalho
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permanente da agropecuária brasileira, que era de 18 urbanos onde residem, por motoristas de caminhão que
milhões de pessoas naquele ano. Uma parte desses servem de intermediários. Eles sobem na carroceria do
pequenos proprietários é constituída por posseiros. A caminhão entre 4 e 5 horas da manhã, depois de entrarem
organização do trabalho baseia-se fundamentalmente na em acordo com o agente (o motorista) sobre o preço da
família, incluindo o proprietário e seus dependentes, que arroba ou da área colhida — já que o pagamento é diário —
prestam serviços sem remuneração. Essas pequenas e sobre a produção de cada indivíduo, levando uma pequena
propriedades cultivam gêneros agrícolas e criam marmita ou caldeirão com a refeição do dia.
pequenas quantidades de suínos, aves e, às vezes,
bovinos, conservando o essencial para seu consumo e A jornada de trabalho é, normalmente, de dez ou doze horas
vendendo o excedente para adquirir roupas, remédios, diárias, com meia hora para almoço. Como não existem
bens industrializados, etc. Muitos minifundiários instalações para aquecer a marmita, a comida é ingerida fria:
trabalham em épocas de colheita nas grandes daí a designação bóia-fria. No fim da tarde, são levados de
propriedades, já que o rendimento que obtêm em seus volta para a cidade e, na manhã seguinte, repete-se o
minifúndios nem sempre é suficiente para o sustento da processo, até que termine a colheita do produto. Eles
família. passam alguns meses desempregados, quando não há
− Parceiros: aqueles que trabalham em uma parte das colheitas nem necessidade de mão-de-obra, migrando de
terras de um proprietário, ficando com a metade (os uma área para outra em busca de serviço. São muito
meeiros) ou com a terça parte (os terceiros) do que é utilizados em São Paulo, Paraná, Minas Gerais e outros
produzido. Há, ainda, nesse sistema de parceria, o estados do Centro-Sul, para a colheita de cana-de-açúcar,
exemplo do vaqueiro do sertão nordestino, que cuida do algodão, café e laranja.
gado do fazendeiro e recebe um bezerro para quatro
nascidos vivos (é o chamado quarteiro). Os parceiros Outro tipo de trabalhador assalariado temporário é o peão na
não são empregados do proprietário de terras, pois não Amazônia, mais recente que o bóia- fria, tendo surgido a
possuem carteira de trabalho assinada e ele não tem partir de 1970 como avanço da “fronteira agrícola” em
nenhuma obrigação trabalhista. São em geral direção a essa região e a conseqüente ocupação de
trabalhadores pobres, que produzem com a ajuda da enormes áreas por grandes empresas.
família.
− Arrendatários: aqueles que arrendam ou “alugam” a terra Os peões são contratados fora da Amazônia, em geral no
e pagam ao proprietário em dinheiro. Quando são Nordeste, pelos intermediários denominados gatos.
pequenos arrendatários — a maioria Normalmente são iludidos com promessas de
—, pouco diferem dos parceiros: recebem baixa enriquecimento rápido, deixam suas famílias e vão trabalhar
remuneração e trabalham com a família. Quando são na derrubada da floresta, nas plantações de pastagens e em
grandes arrendatários, muitas vezes possuem outras atividades agrárias.
empregados e um padrão de vida mais elevado.
− Assalariados permanentes: empregados que recebem Suas remunerações, porém, são baixíssimas, deixando-os
salários e normalmente trabalham para grandes endividados com o gato ou com a empresa. São comuns as
proprietários de terras. Em 1996 representavam cerca mortes por malária e outras doenças. E o contrato de
de 2 milhões de pessoas, o que equivalia a cerca de trabalho, que sempre beneficia o empregador, impede-os de
11% da mão-de-obra agrária do país. deixar o serviço sem antes liquidar a dívida do transporte
− Assalariados temporários: empregados pelas grandes e da alimentação. Quando tentam fugir, são caçados como
fazendas apenas em épocas de maior necessidade de animais e, às vezes, castigados para servir de exemplo aos
mão-de-obra, principalmente na colheita. Somavam demais. É quase um trabalho compulsório, uma forma
pouco menos de 2 milhões de pessoas em 1996 — o “moderna” de escravidão.
equivalente a cerca de 11% da mão-de-obra empregada
na agropecuária. Podem ser divididos em: pequenos Exportações do agronegócio quase dobram em 4 anos
proprietários, posseiros ou parceiros, que se empregam 14 de janeiro de 2007
fora de suas terras em alguns meses por não
As exportações do agronegócio brasileiro registraram, no período de
conseguirem garantir seu sustento. 2002 a 2006, crescimento de 99%, apesar da crise nas últimas duas
− Volantes ou bóias-frias, trabalhadores rurais que vivem safras. De acordo com dados da Secretaria de Relações
migrando de uma região para outra em busca de Internacionais do Agronegócio (SRI) do Ministério da Agricultura, as
serviço. Estes últimos adquiriram nas últimas décadas vendas externas do setor aumentaram de 24,8 bilhões de dólares
maior importância na força de trabalho agrária do país. para 49,4 bilhões nestes quatro anos.

Portanto, a relação de trabalho considerada essencialmente Segundo o secretário de Relações Internacionais do Ministério da
Agricultura, Célio Porto, os principais fatores que explicam o
capitalista — assalariada, na qual o trabalhador possui um crescimento são o aumento das exportações de carnes e do setor
contrato com a empresa e é remunerado sob a forma de sucroalcooleiro (açúcar e álcool) e a recuperação dos preços do
salário — é significativa no Brasil, embora não seja a única café. "Há também um crescimento expressivo de frutas. Temos uma
nem mesmo a principal no meio rural. Aliás, pode-se dizer competitividade muito grande em frutas tropicais", acrescentou Porto.
que essa é uma regra geral, pois também nos Estados
Unidos, no Japão e em outros países desenvolvidos, De acordo com os números da SRI, açúcar e álcool tiveram
normalmente os assalariados são extrema minoria entre os crescimento de 243%; de carnes, de 170%; e café, de 143%. As
trabalhadores agrários, sendo a maior parte dessa mão-de- vendas externas de frutas passaram de 400 milhões de dólares em
2002 para 702 milhões em 2006. Porto explicou que algumas
obra formada pelos proprietários e seus familiares. Ao dificuldades enfrentadas por outros países também contribuíram
contrário do que se apregoa, os peões ou assalariados para o crescimento das exportações do agronegócio Brasileiro.
(permanentes ou temporários) no Brasil, quando
comparamos com Estados Unidos, Japão ou as nações "Em 2005, o fator mais estimulante foi o câmbio. Depois houve a
européias, existem em demasia. quebra de safra e a valorização do real frente ao dólar, mas o Brasil
já tinha conquistado vários mercados. No caso das carnes, essa
Bóias-frias e peões conquista foi favorecida pelo aparecimento da gripe aviária em
O nome bóia-fria popularizou-se no Centro-Sul do país, onde países da Ásia e também pelo surgimento do mal da vaca louca.
os trabalhadores temporários, empregados principalmente na
época da colheita, são recrutados, na periferia dos centros
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O secretário disse que, para os próximos anos, a expectativa é de BALANÇA COMERCIAL
que as exportações continuem crescendo, impulsionadas, Déficit e Superávit - O superávit comercial ocorre quando o
especialmente, pelo bom momento do açúcar e do álcool. "As valor das exportações é superior ao das importações. O
perspectivas são muito boas, primeiro porque os preços contrário é chamado déficit comercial.
internacionais das commodities estão melhorando. Há uma
expectativa muito grande para o biocombustível no mundo, a safra
deste ano está boa, devido às chuvas e à vitória que o Brasil teve na
Taxa de Câmbio - O valor do real em relação ao dólar
Organização Mundial do Comércio (OMC) contra a União Européia, determina o preço das mercadorias brasileiras no mercado
que abriu perspectivas muito boas para o açúcar". mundial e quanto devemos pagar por produtos importados. O
real desvalorizado diminui o preço dos produtos brasileiros
AGRONEGÓCIO em dólar, mas encarece a importação, que também é paga
Definições - O termo agropecuária refere-se à agricultura e em dólar. Já com o real valorizado, os produtos brasileiros
à criação de gado. Já agronegócio é o conjunto das ficam mais caros no exterior, enquanto as importações se
atividades econômicas envolvidas com a agropecuária, que tornam mais baratas.
inclui fornecedores de equipamentos e serviços para a zona
rural e também a industrialização dos produtos. a Causas do Superávit - Desde 2001, o Brasil apresenta
agronegócio é responsável por cerca de 30% do Produto superávit em sua balança comercial. O resultado é fruto da
Interno Bruto (PIB) brasileiro, 37% das exportações e 35% combinação de três aspectos: a desvalorização do real, a
dos empregos. queda no nível de atividade econômica, que freia o aumento
das importações, e a adoção de uma política mais agressiva
Produtos - O Brasil é o maior produtor e exportador mundial para abrir mercados para os produtos brasileiros.
de café, açúcar, álcool e sucos de frutas. Também lidera o
ranking das exportações de soja, carne bovina e de frango, Entraves à Exportação - Com a economia mundial vivendo
tabaco, couro e calçados de couro. Em 2005, o país produziu excelente fase, era de esperar uma participação mais ativa
quase 2,2 milhões de toneladas de café - 28% do total do Brasil no mercado global. Isso não ocorre por três
mundial. No mesmo ano, foi responsável por 24% da motivos: as políticas protecionistas dos países desenvolvidos
produção mundial de soja, ficando atrás apenas dos EUA. criam barreiras para a entrada de produtos agrícolas
brasileiros; a recente valorização do real tornou o valor dos
Expansão - O agronegócio está crescendo e busca novas itens exportados mais alto nos últimos anos; o atraso
áreas. As principais são a franja sul da Amazônia, o sul do tecnológico brasileiro leva o país a exportar produtos com
Maranhão e do Piauí e o oeste da Bahia. baixo valor agregado e a importar bens de alta tecnologia e
preço elevado.
Comércio mundial - Os conflitos comerciais globais são
debatidos na Organização Mundial do Comércio (OMC). A Parceiros Comerciais - Os principais parceiros comerciais
instituição quer reduzir os subsídios, que são a liberação de do Brasil são os Estados Unidos e a União Européia.
dinheiro público a produtores via financiamentos a juro baixo Contudo, para reduzir a dependência desses parceiros
ou incentivos fiscais, visando a ampliar a produção e reduzir tradicionais, o Brasil vem adotando uma política mais
os preços. Com taxas e impostos de importação, as nações agressiva para conquistar os mercados emergentes. As
tornam mais caro os produtos vindos de fora, levando o relações comerciais com China, Rússia, Índia, além de
consumidor a preferir o nacional. países africanos e árabes e da Europa Oriental, são cada
vez mais intensas.
Biocombustíveis – O país tem investido na criação de
combustíveis produzidos a partir de material orgânico, como
soja, mamona, girassol, rícino, algodão e até gordura animal.
A Petrobras já vende nos postos uma mistura de diesel com
óleo vegetal, o biodiesel. A larga experiência brasileira faz da
cana-de-açúcar a principal matéria-prima. a Brasil produz
álcool para carros desde os anos 1970.

5.

11
A FRENTE DE POVOAMENTO E AS
CARACTERÍSTICAS DA POPULAÇÃO:

Frentes de Povoamento no Brasil


Era muito comum a idéia de descobrimento do Brasil. Seria
como se ele já estivesse pronto” e faltasse somente alguém,
um navegador português, encontrá-lo. Mas se o Brasil somos
nós — o povo, a sociedade brasileira, com a sua cultura, o
seu território e as suas instituições —, então ele ainda não
existia em 1500. O que havia era um espaço físico habitado
por inúmeras sociedades indígenas, cada uma com um
território diferente.

O Brasil foi assim uma construção, na qual os colonizadores


portugueses se apropriaram de certas áreas, geralmente
expulsando, às vezes escravizando, ou exterminando os
índios que as ocupavam, e com o tempo expandiram o seu
território e criaram neste novo mundo uma sociedade
diferente, que um dia se tornou um Estado-nação
independente. Essa construção do Brasil durou vários
séculos e teve dois aspectos principais: a criação de uma
sociedade com a sua cultura (valores e hábitos) e instituições
próprias (em especial o Estado ou poder público em todos os
níveis e esferas); e a formação territorial, isto é, a forma de
ocupação da terra e a sua delimitação por meio de fronteiras.

O povoamento atual do território brasileiro resultou de um


processo histórico em que o elemento fundamental foi o fato
de o Brasil ter sido colônia de Portugal até início da terceira
década do século XIX.

A concentração populacional na área litorânea vem desde a


época colonial e liga-se à dependência econômica em
relação aos centros mundiais do capitalismo. Também a
extensão territorial de hoje é fruto de expansões sucessivas
das áreas coloniais portuguesas na América e, depois, do
país independente, com destaque para a ação de parcelas
da população que migraram para oeste em busca de
melhores condições de sobrevivência.

Comparando o território atual com a área de colonização


portuguesa no século XVI, delimitada pelo “Tratado de
Tordesilhas”, assinado em 1494 por Portugal e Espanha,
percebe-se que aquela área praticamente triplicou, pois mal
chegava a um terço dos atuais 8,5 milhões de quilômetros
quadrados. Essa expansão do território da colônia e do país
independente, em detrimento das áreas de colonização
espanhola ou de países sul-americanos (Paraguai, Peru,
Bolívia, etc.), ocorreu por causa dos deslocamentos de
portugueses ou brasileiros para essas áreas, da implantação
de habitações e atividades econômicas e da anexação
dessas terras pelo princípio do uti possidetis.

O uti possidetis foi uma solução diplomática que conferia a


um Estado o direito de apropriar-se de um novo território com
base na ocupação, na posse efetiva da área, e não em títulos
anteriores de propriedade. É evidente que esse princípio foi
utilizado apenas entre Portugal e Espanha ou entre o Brasil e
países da América do Sul, sem nunca levar em conta a
posse das diversas tribos indígenas. Isso porque o indígena
nunca foi considerado pelos colonizadores um ser humano
de pleno direito, mas apenas um empecilho a ser removido
ou a ser domesticado e disciplinado para o trabalho. Só nas
últimas décadas é que as sociedades indígenas passaram a
ter o seu direito sobre terras reconhecido, embora de forma
ainda parcial e problemática.

O povoamento no século XVI


Durante todo o século XVI, a ocupação portuguesa no Brasil
colônia teve um caráter periférico, litorâneo. As poucas
cidades e vilas do período, assim como todas as áreas
agrícolas, estão nas proximidades do oceano Atlântico, a via
12
de comunicação com a metrópole. A extensão territorial da desaparecimento forçado de parte de seus hábitos, religiões,
colônia era delimitada pelo Tratado de Tordesilhas, que tecnologia, línguas, etc.
acabou ficando apenas no papel, pois nos séculos XVII e
XVIII os portugueses aventuraram-se além de seus limites e Bandeirantismo, mineração e conquista do sertão
foram necessários novos acordos e tratados, como o Tratado nordestino e do Vale do São Francisco
de Madri (1750) e o Tratado de Santo Ildefonso (1777), além Durante os séculos XVII e XVIII, ocorreu um maior
de outros, que expandiram os domínios portugueses em povoamento do interior, com as bandeiras, a mineração, a
detrimento dos espanhóis. penetração pelo vale do rio Amazonas e a expansão da
pecuária no Vale do São Francisco e no sertão do Nordeste.
Durante a “União Ibérica” (1580-1640), período em que Mas a maioria da população continuou próxima ao litoral,
Portugal ficou sob o domínio da Espanha, as áreas coloniais ocorrendo de fato a formação de “ilhas” de povoamento no
pertencentes a esses dois Estados acabaram-se interior. Algumas dessas “ilhas” duraram pouco tempo,
confundindo. Além disso, enquanto os espanhóis tiveram esvaziando-se depois — como ocorreu na região das minas
mais sorte, pois desde logo descobriram metais preciosos, após o esgotamento das jazidas de ouro e diamantes.
como ouro e prata, os portugueses começaram com a
plantação de cana-de-açúcar após um curto período de A expansão territorial nesse período foi notável: no início do
exploração do pau-brasil, embora sempre acalentassem a século XIX, na época da Independência (1822), a área do
idéia de também encontrarem os cobiçados metais, o que os território brasileiro já se aproximava do tamanho atual,
levou a se aventurarem além dos limites do Tratado de faltando apenas alguns acertos que ocorreram, no século
Tordesilhas. XIX e início do século XX, no sul, com o Uruguai e o
Paraguai, e ao norte e oeste, com a Bolívia, o Peru e a
Quanto à presença de obstáculos montanhosos entre o litoral Guiana Francesa.
e o interior do país, eles são de modestas altitudes nem
constituem de fato montanhas típicas ou jovens, que são os O bandeirismo ou bandeirantismo foi um movimento de
dobramentos modernos ou terciários como os Alpes, o penetração para o interior com origem, principalmente, em
Himalaia e os Andes. Mesmo o argumento da precariedade São Paulo e contribuiu para a expansão dos domínios
técnica dos europeus do século XVI, verdadeira se territoriais portugueses no continente. Ocorreu basicamente
comparada com a tecnologia de hoje, não chega a ser no século XVIII foi motivado pela busca de metais preciosos
relevante se nos lembrarmos de que os indígenas, com e, especialmente, pela caça de indígenas para serem
recursos técnicos ainda mais rudimentares, criaram inúmeros aprisionados e vendidos como escravos. Os bandeirantes
caminhos e trilhas entre o litoral e o interior e nunca se penetraram sertão adentro, atacaram aldeias, aprisionaram e
fixaram na periferia atlântica do território. Além disso, sempre escravizaram indígenas e exterminaram enorme número
que corriam boatos sobre a existência de ouro no interior ou deles: entre 400 mil e 500 mil indivíduos.
quando havia a necessidade de escravizar indígenas, esses
obstáculos não impediam que grandes contingentes de Do ponto de vista do povoamento, esse fenômeno foi
colonizadores se dirigissem para o ocidente, para o chamado despovoador e não povoador, pois provocou uma
“sertão”. desertificação humana em áreas onde havia inúmeras
aldeias indígenas, sem substituí-las por povoações brancas.
Quanto à tropicalidade do território brasileiro, esse foi, de Em todo caso, as bandeiras serviram para que o europeu
fato, um problema para os europeus, mas também costuma conhecesse melhor o território, já que cada expedição
ser exagerado. Em primeiro lugar a chamada “zona tropical” representou uma soma de novos conhecimentos sobre a
não é tão homogênea quanto se imagina, pois apresenta terra, que foram importantes para a penetração posterior
grande variedade de climas, solos, vegetação, relevo, etc. E rumo ao oeste.
o território brasileiro possui desde áreas tropicais úmidas até
semi-áridas e subtropicais (que estudaremos com mais Nos séculos XVII e XVIII, deu-se a ocupação do sertão
detalhes no capítulo 13), algumas até semelhantes a partes nordestino e do vale do rio São Francisco, por meio da
da Europa meridional (como é o caso do sul do Brasil). criação de gado. A pecuária desenvolveu-se no sertão semi-
árido e vale superior e médio do São Francisco por causa da
Além disso, as dificuldades de explorar uma terra necessidade de abastecer a Zona da Mata nordestina, área
desconhecida não existiram apenas aqui, mas também em próxima ao litoral, onde se cultivava cana-de-açúcar desde o
áreas temperadas da América, como na Argentina ou nos século XVI. O tipo de povoamento foi, e em parte continua
Estados Unidos. É verdade que as áreas tropicais sendo ralo, com baixas densidades demográficas, já que a
apresentam dificuldades maiores que as temperadas para pecuária praticada é extensiva e usa pouca mão-de-obra.
povos acostumados com estas últimas, pois nos trópicos
existem muito mais espécimes vegetais, hidrografia mais No século XVIII, ocorreu a mineração — busca aos metais e
rica, maior insolação e calor, maior quantidade de pedras preciosas — na porção central do país, que
microrganismos que podem provocar doenças e solos mais corresponde hoje aos estados de Minas Gerais, Mato Grosso
frágeis, que podem empobrecer rapidamente se não forem e Goiás. Muitos indivíduos se deslocaram para essa área e,
tomadas medidas para evitar a erosão provocada por chuvas de um momento para outro, surgiram ou cresceram várias
fortes e freqüentes. Mas, se, por um lado, isso representou cidades ou vilas: Vila Rica (atual Ouro Preto), São João dei
obstáculos, por outro foi benéfico para a colonização Rei, Sabará, Nossa Senhora do Carmo (atual Mariana),
européia, pois, nesse meio natural, eles puderam plantar Barbacena, Vila Boa (atual Goiás, ex-capital do estado de
gêneros que não se davam bem nas áreas temperadas, Goiás), Cuiabá, Cáceres e muitas outras. Com o
como cana-de-açúcar, fumo, algodão e café. esgotamento dos veios auríferos, já no final do século,
Quanto ao último argumento que explicaria a maior fixação ocorreu um refluxo de boa parte dessa população, que se
populacional no litoral — a pretensa belicosidade dos dirigiu para outras partes de Minas Gerais, São Paulo e Rio
indígenas —, sabe-se hoje que o inverso era mais de Janeiro.
verdadeiro. Na realidade, os indígenas foram, nesses
séculos de colonização, e, infelizmente, em parte ainda são A colonização do sul do país, as frentes pioneiras e a
até hoje, submetidos a um verdadeiro extermínio tanto físico “marcha para o Oeste”
(genocídio) quanto cultural (etnocídio), ou seja, o As áreas localizadas ao sul do trópico de Capricórnio
tornaram-se efetivamente povoadas a partir do século XIX,
13
com a chamada colonização moderna, feita por imigrantes, globo, com excelentes condições naturais de navegabilidade,
em especial colonos alemães, italianos e eslavos. a maioria das cidades localizou-se à beira dos rios.

No final do século XIX e início do século XX, ocorreram as De 1870 a 1910, ocorreu a fase da borracha na Amazônia,
frentes pioneiras, movimentos de desbravamento e que deu novo impulso à ocupação da região. Algumas
povoamento de áreas novas, começando por São Paulo. A cidades, como Manaus, cresceram rapidamente e o Acre
atividade econômica principal que serviu de base a esse acabou sendo incorporado ao território brasileiro. Mas com o
pioneirismo foi a cultura do café. Por causa do aumento das declínio das exportações desse produto, por causa das
exportações, do crédito bancário facilitado para novas plantações de seringueiras na Ásia e, depois, da fabricação
plantações e do esgotamento dos solos de algumas áreas, o da borracha sintética (do petróleo), a prosperidade dessas
café originou uma verdadeira marcha do Vale do Paraíba até cidades declinou; em certas áreas chegou a haver refluxo.
a região de Campinas; daí se estendeu para oeste, até
Ribeirão Preto e São José do Rio Preto, e, depois, para o Nas últimas décadas, especialmente a partir de 1970, vem
norte do Paraná. Esse percurso ficou conhecido como a ocorrendo um aumento na ocupação da Amazônia brasileira,
“marcha do café” e criou uma série de novas cidades em agora por causa da presença de minérios (ouro, ferro) e da
áreas até então pouco povoadas. derrubada da floresta Amazônica para o estabelecimento da
agricultura (principalmente cultivo da soja) ou da pecuária
A expansão ferroviária na mesma época também foi extensiva de corte (para exportação de carne). Foi um
importante para esse pioneirismo, já que as principais prolongamento da ocupação do Brasil central (as áreas de
cidades acabaram sendo fundadas ao longo dos trilhos das cerrados), que, como mencionamos, também ganhou novo
ferrovias. impulso com o cultivo da soja e a pecuária bovina a partir de
1970. A partir daí, o crescimento populacional no norte e no
Outro aspecto das frentes pioneiras do século XX, além do centro do país tem sido muito grande, bem superior à média
impulso cafeeiro, foi a colonização por imigrantes nos três nacional.
estados sulinos, da qual resultou um fato singular: essa
colonização teve por base a pequena propriedade. Como as
famílias eram muito numerosas, a parte que cabia a cada um
na divisão da herança não compensava a exploração. Assim,
a solução foi a procura de novas áreas por grande número
de descendentes, para evitar a divisão das propriedades.

A partir de 1940 ocorreu o que se chamou marcha para o


Oeste, um movimento de ocupação do Brasil central, do
chamado Centro-Oeste, no início favorecido pela Estrada de
Ferro Noroeste do Brasil, que chegou até Corumbá, e pela
compra de grandes lotes de terras por particulares, que
ficavam à espera da valorização pela ação do Estado
(construção de estradas, cidades, etc.).

Depois, com a construção de Brasília (1957-1960) e de


estradas ligando essa cidade ao Acre, a Fortaleza, a Belém,
a São Paulo, ao Rio de Janeiro e a Belo Horizonte, o
crescimento populacional tornou-se mais intenso nessa
região. Mais recentemente, a partir dos anos 1970, houve
novo impulso na ocupação do Brasil central por causa do
aproveitamento agrícola das áreas de cerrados com o cultivo
da soja e a criação de gado.

A conquista da Amazônia
A ocupação efetiva da Amazônia, imensa área florestal que Densidade populacional do Brasil – 2000
ocupa o norte do país e abrange cerca de 50% do território
brasileiro (além de se estender por países vizinhos),
começou no século XVII e prossegue até hoje. BRASIL – SOCIEDADE

Foram as missões religiosas dos séculos XVII e XVIII que O Brasil possui vários momentos históricos em relação a
iniciaram esse processo. A ação catequizadora dos produção comercial e industrial e as mudanças provocadas
missionários era acompanhada de tropas de resgate pelos mesmos no espaço geográfico, mas a desigualdade
portuguesas, que visavam caçar indígenas para escravizálos. entre suas regiões é muito grande.
Os cativos eram arrebanhados para as lavouras ao redor das
cidades e vilas, como Belém, Bragança e Santarém. Até 1950, o país era de predominância rural e o trabalhador
O cruzamento do português com o indígena na Amazônia foi do campo era mais valorizado e nossa economia vivia da
mais intenso que em outras regiões do país, e esse fato é produção dessas áreas rurais. Nessa década, houve um
notado até hoje pela forte presença do “caboclo” amazônico. investimento muito forte na expansão industrial do país, mas
O elemento negro teve pouca importância nessa área, pois ela foi feita de maneira a tornar o país dependente das
na época do tráfico de escravos, as atividades econômicas indústrias multinacionais, além de transformar o país em
não compensavam a compra de grandes contingentes de urbano e causando um aumento na diferença entre o
africanos, bem mais caros que os indígenas. desenvolvimento entre as regiões, aumentando as diferenças
regionais, desenvolvendo muito o Centro-Sul do país e pouco
A penetração européia na Amazônia deu-se basicamente a Amazônia e o Nordeste.
através dos rios. Sendo uma região de floresta densa e, ao
mesmo tempo, drenada pela maior rede hidrográfica do As mudanças históricas, a concentração fundiária e a
transformação do país em urbanizado fez com que
14
aumentassem os problemas sociais e a mecanização cenário mundial e provoca uma pressão constante pela
industrial gerou uma diminuição nos postos de trabalho, redução dos gastos com a força de trabalho. Pode ser
levando ao desemprego ou subemprego grande parte da entendido como a supressão de postos de trabalho, que, a
PEA brasileira. (110 milhões de pessoas). princípio, não voltarão a existir. No fim de 2004, a falta de
ocupação atingia 185 milhões de pessoas no mundo, mais
Crianças trabalhando de 6,5% da população economicamente ativa.
Segundo o IBGE, o Brasil tinha 3 milhões de crianças e 4,6
milhões de adolescentes no mercado de trabalho em 1990. Desemprego e Juventude
Em 1995, 3,3 milhões de pessoas faziam parte da PEA, O desemprego é mais grave entre os jovens até 24 anos:
números que contrariam a OIT (Organização Internacional do nessa faixa etária, o índice supera os 14%. Não há emprego
Trabalho), que luta contra o trabalho infantil no mundo. A para todos os jovens que ingressam anualmente no mercado
legislação brasileira proíbe o trabalho para menores de 14 de trabalho. Persiste, porém, o trabalho infantil, que atinge
anos, mas a necessidade de complementação de renda das 180 milhões de crianças entre 5 e 14 anos no mundo, e
famílias mais pobres leva os jovens ao mercado de trabalho. chega a 246 milhões se forem incluídos os jovens até 17
Nas regiões mais pobres do país as crianças são exploradas, anos.
pois trabalham sem registro nas carteiras profissionais e não
têm limite na jornada de trabalho, que não pode ultrapassar 8 Estudo de Caso – Educação (2004)
horas diárias. No Nordeste do Brasil, 55% das crianças e Ensino Médio - 8,9% dos adolescentes no Brasil fora da
adolescentes trabalham em atividades domésticas e leva os Escola
mesmos a abandonarem o estudo e não permite uma Região Sudeste 6,7%
qualificação profissional e impede seu crescimento. Região Norte – 12,9%

A mulher no mercado de trabalho Ensino Fundamental - 2,9% Brasil das crianças no Brasil fora
Em 1973, apenas 30,9% da População Economicamente da Escola
Ativa (PEA) do Brasil era do sexo feminino. Segundo os Região Sudeste - 1,9%
dados da Pesquisa Nacional de Amostra por Domicílio Região Sul - 2,2%
(PNAD), em 1999, elas já representavam 41,4% do total da Região Norte - 5,1%
força de trabalho. As mulheres ganham cerca de 30% a Região Nordeste - 3,9%.
menos que os homens exercendo a mesma função. Região Centro-Oeste - 2,8%.
Conforme o salário cresce, cai a participação feminina. Entre
aqueles que recebem mais de vinte salários, apenas 19,3% As taxas de analfabetismo do contingente de 10 a 14 anos
são mulheres. de idade das Regiões Sudeste, Sul e Centro-Oeste ficaram
As mulheres representam 51,26% do total de 184,4 milhões abaixo de 1,5%, enquanto as das Regiões Norte e Nordeste
de brasileiros, de acordo com o IBGE. Elas reduzem o alcançaram, respectivamente, 5,9% e 8,0%.
número de filhos, passam cada vez mais tempo na escola e
aumentam sua participação no mercado de trabalho. Ainda No contingente de 10 anos ou mais de idade, as diferenças
assim, os salários das mulheres são menores e elas ocupam regionais foram mais acentuadas, refletindo a evolução
postos ainda associados às tarefas domésticas. Na política, diferenciada dos níveis de escolarização regionais. Esse
elas ainda são minoria. O perfil da família brasileira também indicador variou de 5,7%, na Região Sul, a 20,6%, na Região
está mudando: 28,5% delas são chefiadas por mulheres - Nordeste.
34% a mais do que em 1995. Além disso, 15,2% das famílias
são compostas de casais sem filhos e 18,3%, de mulheres (IN)JUSTIÇA SOCIAL NO BRASIL
solteiras com filhos. O maior acesso à informação e a Contrastes - No Brasil, o 1% mais rico da população
métodos contraceptivos reduz o tamanho das famílias: de 3,6 controla uma renda equivalente à dos 50% mais pobres.
membros em 1995 para 3,2 em 2005. Considerando o patrimônio, vê-se que 10% da população
detém 75,4% de toda a riqueza nacional. As raízes do
Transição Demográfica problema são históricas e remontam ao período colonial e à
Modelo teórico que explica o ritmo de envelhecimento da escravidão. A concentração de renda é agravada pelo
população de cada nação, conforme seu desenvolvimento sistema tributário injusto, pelo desemprego e pela falta de
socioeconômico. Há quatro fases clássicas de transição. Na investimento no serviço público (educação, saúde).
primeira, as taxas de natalidade e de mortalidade são muito
altas. A população cresce lentamente. Na segunda fase, na Pobreza - Em 2003, 53,9 milhões de brasileiros viviam com
qual se enquadram os países menos desenvolvidos, a taxa menos de meio salário mínimo por mês. Desses, 21,9
de mortalidade cai em razão de avanços da medicina e da milhões são considerados “indigentes” e 1 sobrevivem com
tecnologia. Crescem a população em geral e a proporção de menos de 60 reais mensais. Um estudo do Ipea de 2001
idosos. Na terceira fase ocorre uma queda na taxa de mostrou que a camada do 1% mais rico está acima de uma
natalidade, que leva à redução do ritmo de crescimento renda per capita mensal de 2.130 reais.
populacional. Mas o número de idosos ainda é alto. É o caso
da maioria dos países da América Latina, inclusive do Brasil. Desconcentração - Distribuir melhor a renda significa
Na quarta fase, as taxas de natalidade e mortalidade voltam aumentar o ganho dos pobres e aproxima-los da parcela
ao equilíbrio, muito baixas. A proporção de idosos é muito mais rica, O investimento público maciço em educação é
alta. As nações desenvolvidas da União Européia e da fundamental. É preciso investir em programas sociais, de
América do Norte encaixam-se aí. Os especialistas transferência e de geração de renda, na ampliação do
identificam uma quinta fase, na qual a taxa de natalidade é acesso aos serviços públicos e promover uma estrutura
inferior à de mortalidade, provocando um crescimento tributária que cobre menos de quem ganha pouco.
negativo da população. Países como Alemanha, Áustria e
Itália já estão nesse patamar. RACISMO NO BRASIL
Discriminação - Os negros (pretos e pardos) representam
Desemprego estrutural 47,3% da população brasileira. Na camada mais pobre da
É um fenômeno mundial. Decorre principalmente da população, eles são 66%. No topo da pirâmide social, há
automação — que substitui a mão-de-obra humana — e da apenas um negro para cada nove brancos.
globalização, que acirra a competição entre as empresas no
15
Raiz histórica - A discriminação racial vem da época da aceitáveis índices inferiores a 20. O problema preocupa
escravidão. Sua abolição, porém, não foi acompanhada de principalmente o Nordeste.
políticas para melhorar a condição de vida dos ex-escravos.
Como resultado, perpetuou-se a pobreza dos negros. AIDS - Com mais de 600 mil infectados, o Brasil abriga a
maior população de soropositivos da América Latina. Porém,
Condições de vida - O analfabetismo atinge 12,9% dos a mortalidade causada pela doença tem caído: de 9,7 mortos
negros. Em média, eles têm dois anos de estudos a menos a cada mil habitantes em 1995 para 6,3 em 2000. Uma das
que os brancos. Apenas 16% chegam à faculdade, e só 2% razões para a diminuição de óbitos é o elogiado programa
se formam. Na média nacional, a renda dos negros equivale oficial de fornecimento gratuito de coquetéis anti-aids.
à metade da renda dos brancos. A discriminação fica patente
quando, mesmo com formação idêntica e ocupando cargos EDUCAÇÃO NO BRASIL
equivalentes ao dos brancos, os negros recebem salários Quantidade e qualidade
menores. Nunca houve tantas pessoas estudando como bole no Brasil.
As vagas se multiplicaram em todos os níveis de ensino. O
Ações afirmativas - O Brasil hoje discute o uso de cotas e analfabetismo caiu de 17,2% para 11,6% em dez anos.
políticas afirmativas para ampliar as oportunidades aos Cerca de 97% das crianças entre 7 e 14 anos estão na
negros. Entre as medidas, está a reserva de cotas nas escola. As matrículas no ensino superior mais do que
universidades. As medidas são polêmicas: não é possível dobraram. No entanto, o país sofre com baixo nível de
definir com exatidão quem é negro; além disso, essas ensino, evasão e atraso escolar.
medidas podem provocar mais discriminação. A unanimidade
entre os especialistas é a necessidade de investimento Ensino fundamental
maciço para ampliar o acesso à educação, desde o ensino A maioria das crianças até 14 anos freqüenta a escola. No
básico. entanto, 40% estão atrasadas uma série ou mais. Apenas
56% dos matriculados conseguem concluir a 8 série. Dados
do MEC indicam que 55% das crianças da 4 série estão em
um estágio crítico de leitura e compreensão de texto e 51%
não dominam as operações matemáticas básicas.

Ensino médio
Cerca de 81% dos jovens de 15 a 17 anos freqüentam esse
nível de ensino, mas só sete em cada dez alunos conseguem
série do ensino fundamental não possuem formação
adequada para ensinar, o que exige recursos para a
formação e melhores salários. O Brasil tem um dos maiores
números de alunos em sala de aula por professor, o que
prejudica o aproveitamento das aulas. Se dentro da escola
os estudantes acabam mal assistidos, fora o problema é
ainda pior. Segundo um estudo mundial a OCDE, as famílias
brasileiras, em todas as camadas sociais, estão entre as que
menos se envolvem na educação dos filhos — seja por
dificuldades da vida cotidiana, seja por falta de formação,
seja por outros problemas. Dados do Ministério da Educação
mostram que alunos acompanhados de perto pelos pais têm
notas até 500o maiores que os demais.
concluir o 3 ano. Cerca de 38% dos formandos do ensino
médio têm dificuldade para compreender textos e 69% saem
da escola sem as habilidades matemáticas esperadas.
Comparados a estudantes de 40 países em um estudo da
OCDE, os brasileiros ficam na lanterna.

Ensino superior
As faculdades privadas se multiplicaram nos últimos cinco
anos. Hoje oferecem 66% dos cursos superiores no país e
contam com 70% dos alunos de graduação. As
universidades públicas, por seu lado, estão mais concorridas.
Cerca de 10% dos jovens estão matriculados no ensino
superior, mas apenas um em cada oito conquista o diploma.

DOENÇAS NO BRASIL Perspectivas


O Brasil vive um processo típico dos países em O Brasil investe 5,2% de seu PIB em educação, valor
desenvolvimento. Por um lado, cresce a mortalidade por comparável ao de países desenvolvidos. O ensino
doenças crônico-degenerativas, como males do coração e fundamental recebe pouco diante das carências, pois é a
câncer, principalmente nas grandes cidades. Por outro, educação básica de qualidade que começará a modificar o
diminui, de modo geral, o número de mortes causadas por panorama brasileiro.
doenças infecto-parasitárias como malária e tuberculose.
Porém, essas últimas, tipicamente identificadas com a Plano de Desenvolvimento da Educação
miséria, ainda são grandes flagelos nas regiões mais pobres Brasília, 27/4/2007
do país.
Lançado na terça-feira, 24, pelo presidente da República, Luiz Inácio
Lula da Silva, e pelo ministro da Educação, Fernando Haddad, o
Mortalidade Infantil - O Brasil ocupa o 99º lugar no ranking Plano de Desenvolvimento da Educação (PDE) abrange medidas
da ONU de mortalidade infantil, com 26,6 mortes a cada mil para todas as etapas da educação. A prioridade é a educação
crianças nascidas vivas. A organização só considera básica, que vai do ensino infantil ao médio. Segundo o presidente e
16
o ministro, a mobilização da sociedade é fundamental para o chegando a US$ 140 bilhões em 2006.
sucesso do plano.
Para Marc Giget, que apresentou esses números em palestra
Para o ensino básico, foi criado o Índice de Desenvolvimento da durante o II Congresso Brasileiro de Inovação da Indústria, o Brasil
Educação Básica (Ideb), que levará em conta o rendimento dos não vai mal no que diz respeito à inovação, mas o desafio-chave
alunos, a taxa de repetência e a evasão escolar. Por meio da análise para avançar ainda mais é a educação. Segundo ele, é preciso
do Ideb, o Ministério da Educação vai dar apoio às prefeituras que formar profissionais pós-graduados em áreas técnicas que trabalhem
têm os indicadores educacionais mais baixos. Serão investidos R$ 1 com inovação e agreguem valor à produção local. "Na China,
bilhão nos próximos 12 meses, com recursos adicionais ao Fundo da existem 13 milhões de estudantes nas Universidades", lembra Giget,
Educação Básica (Fundeb), para atender os mil municípios com os membro do Centro Nacional e Artes e Ofícios da França.
piores índices. Se fosse avaliada hoje, a educação básica brasileira
teria uma média aproximada de quatro pontos numa escala que vai E acrescenta que nem sempre P&D precisam levar à criação de
de zero a dez. Nos próximos 15 anos, o Brasil terá de alcançar nota novo material ou de novo processo, mas podem, sim, levar a novo
seis no Ideb, a mesma média dos países da Organização para a jeito de usar certo material ou de realizar determinado processo.
Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE). Ainda assim, o Japão, que investe cerca de US$ 120 bilhões por ano
Na educação infantil, será implantada a Provinha Brasil, destinada a em pesquisa, é o líder em criação de novos produtos e registro de
avaliar a alfabetização de crianças de seis a oito anos. Para o patentes. O Brasil ficou em 11º, com 4.280 patentes requeridas, bem
transporte de alunos do ensino fundamental, foi criado um crédito de atrás da China (48 mil), de Taiwan (9 mil) e da Itália, com 4,4 mil
R$ 600 milhões, do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico patentes.
e Social (BNDES), para a compra de ônibus e até de barcos.
Ainda no ensino básico, o plano prevê a informatização das escolas. Para Armando Monteiro Neto, presidente da Confederação Nacional
Serão instalados laboratórios de informática em todas as 130 mil da Indústria (CNI), entidade que organizou o congresso, a ampliação
instituições de ensino públicas até 2010, com um investimento de R$ dos investimentos em inovação é essencial para que as empresas
650 milhões. Por meio do Programa Luz para Todos, o MEC e o brasileiras se tornem mais competitivas. Hoje, segundo dados
Ministério de Minas e Energia vão levar iluminação pública a 18 mil apresentados por Marc Giget, o Brasil investe 1,6% de seu Produto
escolas que ainda não têm energia elétrica e que atendem 700 mil Interno Bruto (PIB) em P&D e está na lista dos grandes países
alunos (1,5% do total de estudantes do ensino básico). investidores em inovação junto com EUA, China e Índia.

Professor — Em relação à valorização dos professores, foi enviado


ao Congresso Nacional projeto de lei que cria o piso salarial de R$ Número de estudantes no nível superior cresce 13,2%, diz IBGE
850. A implantação do piso será gradual até 2010, de forma a não A Pnad mostra que em 2006 5,874 milhões de brasileiros
comprometer o orçamento de estados e prefeituras. Para a freqüentavam o ensino superior, cursos de mestrado e doutorado. O
capacitação dos professores, foi estabelecida uma parceria das número representa um acréscimo de 13,2% em relação ao ano
universidades públicas com as prefeituras para implantar mil pólos anterior.
de formação no País até 2010, principalmente nas pequenas e
médias cidades do interior. É o programa Universidade Aberta do Segundo o IBGE, o forte crescimento pode ser explicado pelo
Brasil, que mescla o ensino presencial com a modalidade a envelhecimento da população brasileira e por uma procura mais
distância. intensa por um curso universitário nesse ano. Apesar do
crescimento de estudantes com maior nível de escolaridade, eles
Alfabetização — O PDE vai redesenhar o programa Brasil ainda representam apenas 10,7% do total de estudantes brasileiros.
Alfabetizado. Pelo menos 75% dos alfabetizadores serão A pesquisa mostra que a grande maioria dos estudantes de 3º grau
professores da rede pública municipal e estadual. Cerca de cem mil estava na rede particular de ensino (75,5%).
profissionais vão receber, além do salário, uma bolsa de R$ 200 por
mês para alfabetizar adultos no turno em que não estejam A maior presença de estudantes na escola se dá na faixa etária entre
lecionando para as crianças. O Brasil Alfabetizado terá dois focos — 7 e 14 anos (97,6%). Santa Catarina tem quase toda a população na
o Nordeste, que concentra 90% dos municípios com altos índices de escola (99%). Já Acre e Alagoas são Estados com menor taxa de
analfabetismo, e os jovens de 15 a 29 anos. freqüência nessa faixa etária. Entre 2005 e 2006 o percentual de
crianças de 5 e 6 anos na escola aumentou três pontos percentuais.
Para a educação profissional, o PDE prevê a instalação de 150 Este aumento, diz o IBGE, pode ser reflexo de mudança na
escolas técnicas nas cidades-pólo. Também serão criados os legislação, que prevê matrícula obrigatória a partir dos seis anos até
institutos federais de educação tecnológica (Ifets), com a missão de 2010.
ofertar educação pública para fortalecer a produção local.
A taxa de fecundidade do Brasil é a mais baixa já registrada no
Na educação superior, a principal medida é a ampliação do acesso. país
As universidades federais que abrirem ou ampliarem cursos noturnos
e reduzirem o custo por aluno vão ganhar mais verbas. A meta é A taxa de fecundidade do Brasil é a mais baixa já registrada no país,
dobrar o número de vagas. Hoje, são 580 mil. segundo IBGE. Os resultados da Pesquisa Nacional por Amostra
de Domicílios (Pnad) mostra que o país está envelhecendo, o que é
Também há mudanças no Fundo de Financiamento ao Estudante do muito triste e perigoso. A taxa de fecundidade da população em
Ensino Superior (Fies), de forma a ampliar os prazos de quitação do 2006, de dois nascimentos por mulher, é a menor já registrada pelo
empréstimo após a conclusão do curso. O mesmo projeto que prevê IBGE, caindo abaixo do limite da reposição. Assim como o número
alterações no Fies trata do parcelamento da dívida fiscal e de filhos e a parcela mais jovem da população apresentaram queda,
previdenciária das instituições de ensino superior privadas que a faixa de pessoas com 60 anos ou mais cresceu em todas as
aderirem ao Programa Universidade para Todos (ProUni). Um regiões. O índice mínimo para que um país mantenha a sua
programa para valorizar os novos doutores brasileiros também faz população estável, é de 2, 1 filhos/ mulher. Isto não acontece mais
parte das medidas do PDE. em nenhum país da Europa e agora também no Brasil e outros
paises da América do Sul.
Brasil liderou alta do investimento mundial em P&D entre 2004 e
2006 Analfabetismo
A Pnad aponta ainda que a taxa de analfabetismo recuou de 10,2%
Entre 2004 e 2006 o Brasil foi o país onde houve o maior em 2005 para 9,6% em 2006. No ano passado, 14,9 milhões de
crescimento do investimento em pesquisa e desenvolvimento. Os pessoas não sabiam ler e escrever. Segundo a consultora do IBGE
valores gastos chegaram a US$ 32,62 bilhões no ano passado, uma Vandeli Guerra, a queda na taxa tem influência direta do aumento da
expansão de 36,6% em relação a 2004. Na comparação com o ano taxa de escolarização. "A taxa de analfabetismo caiu em todas as
imediatamente anterior (2005), o aumento foi de 15,6% e o país ficou regiões, sobretudo, o Nordeste", disse.
atrás somente do Japão, que investiu 25% a mais.
Já ao considerar as pessoas com 10 anos ou mais e com menos de
No entanto, em termos absolutos, os gastos brasileiros com quatro anos de estudo, os chamados analfabetos funcionais, esse
inovação ainda são muito tímidos. Enquanto o país passou de um percentual sobe para 23,6%. O número médio de anos de estudo do
patamar de US$ 24 bilhões em 2004 para US$ 32,6 bilhões no ano brasileiro é de 6,8 anos. As mulheres em geral estudam mais.
passado, a China investiu mais de quatro vezes esse valor,
17
Enquanto as mulheres têm em média 7,0 anos de estudo os homens IBGE: programas sociais contribuíram na renda
têm 6,6 anos.
O presidente do IBGE, Eduardo Pereira Nunes, atribuiu o
Desemprego tem maior queda em 10 anos e renda sobe, diz crescimento do rendimento médio mensal do brasileiro a pelo menos
IBGE dois fatores: o ganho real do salário mínimo de 13,3% em 2006,
A Pnad 2006 (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios), comparado a 2005, e a aplicação de programas sociais do governo
pesquisa mais abrangente feita pelo IBGE (Instituto Brasileiro de federal, entre eles o Bolsa Família. Segundo a Pesquisa Nacional
Geografia e Estatística) para tratar de mercado de trabalho, aponta por Amostra de Domicílios (Pnad), a renda do brasileiro aumentou
que a taxa de desemprego no Brasil registrou em 2006 a maior 6,2% em 2006, em comparação com o ano anterior.
queda em dez anos. Já a renda dos trabalhadores atingiu o mesmo
patamar de 1999. Temos que levar em conta todos aqueles que recebem ajuda de
programas de transferência de renda, porque sem eles (os
O presidente do IBGE, Eduardo Nunes, afirmou que apesar das programas) a renda seria nula. Então, a massa de renda é maior",
melhorias nos indicadores, acelerar a distribuição de renda ainda destacou Nunes.
constitui o maior desafio do país. Ele também citou a ampliação de
acesso à rede de água e esgoto e a maior ampliação da De acordo com a Pnad, o rendimento médio mensal por pessoa,
formalização no mercado para aumentar a parcela de trabalhadores incluindo todas as fontes, subiu de R$ 822 para R$ 873, de 2005
que contribuem para a Previdência. para 2006. Comparando o mesmo período, a renda dos domicílios
subiu 7,6%, passando de R$ 1.568 para R$ 1.687.
Segundo a Pnad, a taxa de desemprego no país ficou em 8,5% em
2006 após atingir 9,4% no ano anterior. No entanto, ela ainda é A pesquisa do IBGE revela ainda que 12,7% dos domicílios tem
superior à marca de 1997, quando atingiu 7,8%. A renda dos rendimentos até um salário mínimo em todo o País e 3% tem ganhos
trabalhadores aumentou 7,2% em 2006 frente a 2005 --trata-se do acima de 20 salários.
maior crescimento desde 1995. Entre 2004 e 2005, ela já tinha
subido 4,6%.

O IBGE cita o aumento do salário-mínimo de 13,3% frente a 2005


como um dos principais fatores para o aumento do poder de compra
dos trabalhadores.

O Nordeste foi a região em que todas as classes de rendimento


tiveram aumento do poder de compra, diz a pesquisa. Nas demais
regiões houve aumento da renda, mas em extratos de menor poder
aquisitivo. Segundo a pesquisadora Marcia Quintslr, o efeito mais
forte no Nordeste pode ser resultado indireto de programas de
transferência de renda, como o Bolsa Família, que movimentam a
economia, embora não influam diretamente nos rendimentos.

Na comparação com 2005, a taxa de desemprego caiu em quase


todas as regiões. Uma das exceções ficou com o Maranhão em que
subiu de 6,2% para 7,0%. De acordo com Cimar Azeredo, gerente
da Pnad e da PME, a queda do desemprego era esperada. "Em
2005 houve uma recuperação e, em 2006, uma solidificação do
mercado de trabalho, que está absorvendo mais e mostrando maior
qualidade do emprego", disse.

Desconcentração de renda
IBGE: formalização no mercado de trabalho é destaque
A Pnad mostra ainda que o Brasil obteve uma ligeira melhora na
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) considera que
distribuição de renda. O Índice de Gini, indicador de desigualdade de
o avanço da formalização no mercado de trabalho é destaque entre
renda (quanto mais perto de 1, mais desigual o país) em relação à
os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad)
renda domiciliar per capita mostrou uma suave redução na
2006, divulgada hoje.
desconcentração de 0,532, em 2005, para 0,528, em 2006. Em
2004, o índice era de 0,535.
"Você tem mais pessoas trabalhando com carteira de trabalho,
conseqüentemente você tem mais pessoas contribuindo com a
As diferenças regionais permaneceram marcantes. Em 2006, 12,7%
Previdência, mais pessoas sindicalizadas, esse é o grande destaque
do total de domicílios do país tinham rendimentos até um salário-
da Pnad 2006 no que tange ao mercado de trabalho", afirma Cimar
mínimo. No Nordeste essa parcela correspondia a 25,3%, a maior do
Azeredo, coordenador da Pesquisa Mensal de Emprego do IBGE.
país. Por outro lado, 3,0% do total de domicílios tinham rendimentos
acima de 20 salários-mínimos.
A Pnad 2006 mostrou que a participação de contribuintes para a
Previdência entre a população ocupada, 49,2%, foi a maior desde o
Trabalho e Escolaridade
início dos anos 90.
A pesquisa aponta também que os brasileiros com maior
escolaridade têm mais dificuldade em encontrar trabalho do que
Segundo ele, o aumento da formalidade acaba se refletindo também
aqueles com menor instrução. A taxa de desocupação entre as
no aumento dos rendimentos. "Se você tem um mercado mais
pessoas com 11 anos de escola ou mais ficou em 8,3%, enquanto foi
formal, a população ocupada passa a ter um poder de compra
de 4,1% entre aqueles com menos de um ano instrução.
maior", diz ele. A Pnad apontou que o rendimento médio mensal dos
trabalhadores aumentou 7,2% entre 2005 e 2006.
Trabalho infantil recua em 2006, diz IBGE
Azeredo também considera que a queda na taxa de desocupação
O trabalho infantil de 5 a 17 anos recuou de 12,2%, em 2005, para
está ligada a essa ampliação da renda. "Com o aumento do
11,5% em 2006, aponta a Pnad 2006.
rendimento, uma parcela da população que estava forçando o
mercado de trabalho (procurando emprego) para compor o
O Nordeste foi a região que apresentou a maior participação de
rendimento familiar tende a se dissipar", explica ele. "A pressão do
trabalhadores "mirins", mas também foi a que apresentou a maior
mercado de trabalho é menor em função de a população ter um
redução entre 2005 e 2006 (de 9,4% para 8,4%).
maior poder de compra."
O perfil do trabalhador infantil é predominantemente homem, negro
ou pardo, alfabetizado, sendo que 19% não freqüentam escola.

18
Aumentam trabalhadores com mais de 40 anos no mercado proprietários de minifúndios no sertão: na época das
A participação de pessoas com 40 anos ou mais na população secas vão até a Zona da Mata trabalhar nas grandes
ocupada aumentou 1,1 ponto percentual na comparação com 2005, propriedades canavieiras; na época das chuvas
e alcançou mais de dois quintos da população ocupada total retornam para cultivar suas terras);
(40,1%). O grupo na faixa de 50 a 59 anos foi o que apresentou
maior elevação de participação entre os ocupados, passando de
− Migrações internas ou inter-regionais;
12,2% para 12,7%. − Migrações rural-urbanas ou êxodo rural;
− Migrações pendulares ou diárias das populações nos
De acordo com Cimar Azeredo, um dos gerentes da Pnad, as grandes centros urbanos.
pessoas escolhem ficar no mercado de trabalho em razão da
elevação dos rendimentos, de novas regras da Previdência, além de Elas podem ter como origem causas religiosas, psicológicas,
dificuldades econômicas o que faz com que engrossem a renda sociais, econômicas, políticas e até naturais (secas e
familiar. Além disso, a população brasileira está envelhecendo, o que
terremotos, por exemplo). Mas, embora ocorram todos esses
contribui para essa alta.
motivos, existe uma razão principal: a econômica, entendida
como deslocamento de contingentes humanos para áreas
Miseráveis são menos de 20% da população pela 1ª vez, diz FGV
em que o sistema produtivo concentra maiores
O número de miseráveis no Brasil diminuiu em aproximadamente oportunidades de emprego.
seis milhões de pessoas no ano passado, uma queda de 15,2% em
relação a 2005, de acordo com dados divulgados nesta quarta-feira Os deslocamentos de populações devem ser vistos como
pela Fundação Getúlio Vargas (FGV). uma redistribuição de mão-de-obra, deslocamentos de força
de trabalho de áreas economicamente estagnadas ou
Esta foi a primeira vez que o número de miseráveis ficou abaixo de decadentes — ou onde as mudanças no sistema produtivo
20% da população brasileira, desde que a FGV começou a realizar a estão liberando mão-de-obra — para áreas onde a oferta de
medição, em 1992. Naquele ano, o percentual de miseráveis atingiu
oportunidades de trabalho é maior.
35,16%.

A desigualdade no país também caiu. A renda dos 10% mais pobres No caso das migrações internas de um país, porém, o
subiu 57,4% e a dos 10% mais ricos aumentou quase 10 vezes elemento decisivo costuma ser a economia e suas
menos, 6,8%. modificações, ou seja, a distribuição espacial dos recursos e
das ofertas de emprego. As demais causas, como as
O estudo "Miséria, Desigualdade e Políticas de Renda" mostrou que naturais, as sociais e as psicológicas, só têm importância
em 2006 a quantidade de miseráveis atingiu 36,1 milhões de quando associadas à economia. Mesmo acontecimentos
pessoas, o equivalente a 19,3% da população brasileira, contra 42
naturais desastrosos, como terremotos ou secas
milhões no ano anterior (22,7%).
prolongadas, não constituirão, necessariamente, uma causa
"Acho que essa queda em 2006 vai se repetir em 2007, uma vez que de saída de grandes contingentes populacionais de uma área
o crescimento da economia é bom, há uma perspectiva boa para o para se fixarem em outra. Isso só ocorrerá se a economia da
aumento do emprego e há também uma continuidade dos programas região atingida pela catástrofe for pouco dinâmica e não se
sociais do governo", disse o economista responsável pela pesquisa, reconstituir rapidamente, se tiver uma economia estagnada e
Marcelo Neri, do Centro de Políticas Sociais da FGV. estruturas sociais muito rígidas. Caso contrário, se a região
tiver uma economia dinâmica, esse acontecimento natural
Pelos critérios do levantamento da FGV, considera-se miserável uma
inesperado pode até constituir um incentivo para a geração
pessoa que tem renda per capita domiciliar inferior a R$ 125 por
mês. de novos setores produtivos.

O levantamento revela que o Estado de Alagoas tem o maior As migrações no Brasil


percentual de miseráveis no Brasil (44,4%), enquanto Santa Catarina No Brasil, são 4 os principais tipos de migração:
tem o mais baixo (4,6%). São Paulo apresenta o terceiro menor e o − A imigração no período de 1850 a 1934;
Rio de Janeiro, o sexto. − As migrações internas ou inter-regionais, que ocorreram
durante toda a nossa história, mas assumiram maior
A miséria de 2005 para 2006 manteve a trajetória de queda nas
áreas rurais, e caiu ao nível mais baixo da série nas grandes regiões importância após 1934, com o declínio da imigração e
metropolitanas. Segundo a FGV, 14% da população nas grandes uma maior integração entre as diversas regiões do país;
cidades é de miseráveis, contra 16,2% em 2005. − A migração rural-urbana ou êxodo rural, que se acelerou
após 1950;
"Como somos um País metropolitano, essa redução da miséria nas − As migrações pendulares nas grandes cidades, que
grandes cidades é muito relevante. As políticas dos anos 1990 foram também vêm aumentando desde a década de 1950,
pautadas para a pobreza no meio rural. Nos últimos anos, com o
acompanhando o aumento da urbanização.
crescimento do emprego, a miséria metropolitana diminuiu", disse
Neri.
A migração urbano-urbana (de uma cidade para outra) é
De acordo com números do Instituto Brasileiro de Geografia e bastante intensa no Brasil, pois envolve o deslocamento de
Estatística, foram abertos entre 2003 e 2006 8,7 milhões de postos milhões de pessoas todo ano. Trata-se, na prática, de
de trabalho. Neri acredita que neste ano o número passará de 10 migrações inter-regionais ou, então, de uma continuação do
milhões. êxodo rural, já que a pessoa do campo muitas vezes vai
primeiro para uma cidade pequena ou média e só depois
migra para uma metrópole. O sentido principal, mas não
exclusivo, nesse tipo de migração é, portanto, das cidades
OS MOVIMENTOS MIGRATÓRIOS pequenas e médias para as grandes.
As migrações ou deslocamentos da população no espaço
podem ser de vários tipos: A migração rural-rural (de uma área agrícola para outra)
− Migrações internacionais (imigração e emigração); também é muito freqüente no país. Pode-se incluir nela tanto
− Nomadismo (característica própria dos povos nômades, a transumância quanto os deslocamentos dos trabalhadores
isto é, que não possuem local fixo de residência e se rurais que vivem se deslocando em busca de serviço: uma
deslocam constantemente); parte dos peões e dos bóias-frias (aqueles que vivem no
− Transumância (tipo de migração em que as pessoas que campo), os trabalhadores rurais itinerantes, etc.
o praticam passam parte do ano em uma área e parte
em outra. É comum no Nordeste brasileiro, com os
19
A migração urbano-rural, em que as pessoas deixam a escravatura (1888), que compeliu o governo a buscar nova
cidade para viver no campo, tem importância numérica força de trabalho na Europa e no Japão. O período áureo da
pequena. Ocorre principalmente com a volta de filhos para imigração para o Brasil deu-se de 1850 a 1934, quando
tomarem conta da terra de pais falecidos ou, então, com a diminuiu muito por causa, principalmente, da Constituição
volta ao campo de migrantes que não se adaptaram nas daquele ano, que estabeleceu certas medidas restritivas à
cidades — embora isso seja raro porque é difícil, para quem vinda de estrangeiros.
volta, conseguir o trabalho anterior. Outro exemplo desse tipo
de migração é a saída de pessoas das cidades Após a guerra, com o avanço da indústria paulista, que já se
congestionadas para morarem em condomínios rurais, o que tornava a mais importante do país e expandia seu mercado
vem até se intensificando ultimamente, embora ainda tenha consumidor até outras partes, do Nordeste ao Sul, o
pequena importância numérica na medida em que envolve deslocamento de migrantes nordestinos para a cidade de
mais uma parte da classe média e alta. São Paulo e para as áreas cafeeiras começou a tornar-se
mais importante que a entrada de imigrantes. Isso porque a
A emigração (saída de pessoas do Brasil para residirem no expansão da indústria paulista provocou, algumas vezes,
estrangeiro), apesar de pouco estudada, é atualmente tão pela competição, a falência de empresas têxteis nordestinas.
importante quanto a imigração, talvez até mais. Do final dos A par disso, ocorreu nessa época o declínio de atividades
anos 1960 até 2000, inclusive, o número de emigrantes foi tradicionais do Nordeste (como o açúcar e o algodão) que
superior ao de imigrantes. É muito difícil obter dados dependiam do mercado externo, o que agravou o problema
estatísticos seguros sobre o total de emigrantes porque do desemprego e, conseqüentemente, a saída de pessoas
muitos ingressaram clandestinamente nos países de destino; dessa região.
não é muito fácil obter visto de entrada como imigrante nos
Estados Unidos ou nos países da Europa ocidental. Não As maiores entradas anuais de imigrantes ocorreram de
obstante, sabe-se que muitos brasileiros deixaram o país 1888 a 1914-1918 (anos da Primeira Guerra Mundial). Em
nestas últimas décadas, calculando-se que mais de 1 milhão 1934, quando o sistema de cotas restringiu drasticamente a
estejam residindo nos Estados Unidos, cerca de 500 mil no imigração para o Brasil, esta já não era tão importante para
Paraguai, por volta de 200 mil no Japão e um número um suprir as necessidades de mão-de-obra da lavoura cafeeira,
pouco menor em outros países, como França, Itália, pois o deslocamento de migrantes nordestinos a
Inglaterra, Canadá e Austrália. ultrapassava numericamente.

Dessa forma, desde o final do século XIX até princípios do


século XX, o Brasil foi um país de imigração bastante
intensa, embora sem nunca se comparar a países como os
Estados Unidos, Canadá, Austrália e mesmo Argentina. E o
período de maior imigração coincidiu com o final da
escravidão e o esforço do governo e de particulares em
trazer força de trabalho para ocupar o lugar do escravo.
Portanto, essa imigração não foi espontânea, mas fruto da
propaganda brasileira no exterior, muitas vezes ilusória,
oferecendo vantagens fictícias.

A viagem para o Brasil normalmente era paga pelo governo


ou pelos proprietários de terras. O imigrante e a família
assinavam em seu país de origem um contrato de trabalho,
Imigração no Brasil feito em proveito exclusivo do empregador, nunca dos
A imigração para o Brasil intensificou-se a partir de 1850, empregados, mas os imigrantes assinavam iludidos pela
quando cessou o tráfico de escravos. A principal razão para propaganda e sem conhecer o lugar onde iriam trabalhar.
incentivar essa vinda de imigrantes, iniciativa do Estado e de Isso deu origem a conflitos, fugas de famílias das fazendas
particulares (notadamente fazendeiros) foi a necessidade de (pois não podiam sair antes do término do contrato) e à
conseguir mão-de-obra para a lavoura cafeeira. emigração daqueles que tinham recursos para custear a
viagem de volta ou para outro país da América.
Antes de 1850 já ocorrera em pequeno número a vinda de
imigrantes para o Brasil. Pode-se afirmar que a imigração O total de imigrantes que entrou no Brasil de 1850 a 2000 foi
começou em 1808, com a vinda da família real, fugindo do de cerca de 5,6 milhões; aproximadamente 3 milhões se
exército de Napoleão, e a abertura dos portos às nações fixaram aqui e 2 milhões acabaram deixando o país.
amigas. O Brasil tornou-se então a sede do reino e, aqui
instalado, algo passou a preocupar D. João VI: a numerosa e
ostensiva população negra. Achando que isso não ficava
bem para uma área que, na época, era sede da monarquia,
D. João VI tratou de incentivar a vinda de colonos açorianos
em 1808. Em 1824, 1827, 1829 e 1830, vieram alemães, em
um movimento promovido por D. Pedro I. Mas o volume total
dessa imigração até 1850 foi insignificante e
consideravelmente inferior à vinda de africanos como
escravos. Com a intensificação das pressões inglesas para o
fim do tráfico negreiro e com a Lei Eusébio de Queirós, de
1850, os proprietários de terras, especialmente de fazendas
de café (atividade predominante no país na segunda metade
do século XIX e primeira metade do século XX), começaram
a promover a vinda de imigrantes como substitutos para a
mão-de-obra escrava.

O maior incentivo à vinda de imigrantes foi a abolição da


20
“ciclos”, nos quais determinado produto despontava como o
Imigrante Áreas de fixação mais importante.
Praticamente em todo o país, em especial
Portugueses no Rio de Janeiro, com preferência pelas Assim, tivemos a fase da cana-de-açúcar nos séculos XVI e
cidades em relação ao campo. XVII, a mineração no século XVIII, o café no final do século
Sírio- Quase todo o país, em especial nos centros XIX e início do século XX, e o surto da borracha de 1870 a
libaneses urbanos. Destaque para São Paulo (capital 1910. O período áureo de cada produto, determinado pela
e interior). sua valorização no mercado internacional, sempre
São Paulo (capital e interior), Rio Grande do necessitou de mão-de-obra, atraindo para a região que o
Sul (Bento Gonçalves, Garibaldi, Caxias do produzia grandes contingentes humanos, oriundos de outras
Italianos regiões do país. Mas essas migrações inter-regionais eram
Sul) e Santa Catarina (Nova Trento,
Uruçanga e Nova Veneza), principalmente. relativamente fracas e só se intensificaram na segunda
Principalmente São Paulo (capital e interior), década do século XX.
Espanhóis Rio de Janeiro, Minas Gerais e Rio Grande
do Sul. Com a abolição da escravatura, a mobilidade espacial da
São Paulo (capital e áreas do interior: Tupã, população aumentou, uma vez que o trabalhador livre ou
assalariado podia deslocar-se à vontade pelo território, ao
Presidente Prudente, Vale do Ribeira), Pará
Japoneses contrário do escravo, que era objeto de compra e venda. E a
(região Bragantina), Paraná (Londrina,
Maringá) e Mato Grosso do Sul. precariedade das estradas que ligavam as diversas partes do
país era tão grande que muitas vezes saía mais barato
Santa Catarina (Vale do ltajaí), Rio Grande
comprar escravos na África que em outra região do Brasil em
do Sul (Novo Hamburgo, Estrela, Lajeado,
Alemães que existissem em disponibilidade. Só na fase do café,
Vale dos Sinos), Paraná, São Paulo e
especialmente a partir do final do século XIX, é que se inicia
Espírito Santo.
a construção de uma rede de transportes mais extensa — no
Paraná (Curitiba, Ponta Grossa, Castro e começo as ferrovias e, no século XX, as rodovias. Essas
Eslavos
Lapa), em especial. novas estradas facilitaram bastante as migrações inter-
regionais do Brasil.
O sistema de cotas imposto pela Constituição de 1934 e
reafirmado pela de 1937 restringiu bastante a imigração, pois As mais numerosas migrações inter-regionais de nossa
estabeleceu que, a cada ano, não poderiam ingressar no história foram as de populações nordestina e mineira para as
país mais de 2% do total de entradas de cada nacionalidade grandes cidades do Centro-Sul. Essas migrações
nos últimos cinqüenta anos. Além disso, adotaram-se outras começaram já no final do século XIX, aceleraram-se no início
medidas restritivas, como a seleção doutrinária (idéias do século XX e prosseguem até nossos dias, embora menos
políticas) e a exigência de 80% de agricultores para cada intensamente que há algumas décadas. Esse movimento
nacionalidade. populacional deveu-se ao crescimento econômico do Centro-
Sul — no início, com o café, depois com a indústria — e
Os motivos que levaram o governo brasileiro a estabelecer também ao declínio econômico do Nordeste em face da
esse conjunto de restrições à imigração foram os seguintes: menor procura internacional de seus produtos agrícolas
Provavelmente desde o início do século XX, já havia tradicionais de exportação, bem como da estagnação de seu
excedente de mão-de-obra no Nordeste por causa do setor industrial.
declínio de atividades agrícolas tradicionais que dependiam
do mercado internacional e também da incipiente indústria Nas últimas décadas, entretanto, especialmente a partir de
regional. Com a construção de estradas e a integração do 1980, algumas regiões do Nordeste começaram a receber
Nordeste ao Centro-Sul, a indústria paulista encontrou migrantes, e no total da região (que possui áreas de saída e
facilidades para abastecer o mercado nordestino e acabou algumas de entrada de novos contingentes migratórios)
provocando a falência de empresas industriais dessa região, começa a haver um pequeno ganho.
cujos produtos não conseguiram competir com os do Centro-
Sul. Dessa forma, agravou-se no Nordeste o problema da De 1970 a 2000, ocorreu diminuição da população rural tanto
falta de empregos e a solução foram as migrações para o relativa (44% para 18,8% do total), como absoluta (de 41,1
Centro-Sul, especialmente para São Paulo. milhões para 31,8 milhões) Nas décadas anteriores já vinha
ocorrendo declínio da proporção dos habitantes do campo
Os imigrantes, que tanto trabalharam nas fazendas de café em relação aos das cidades. No entanto, esse declínio, que
como se integraram em grande parte ao operariado da se acentuou a partir de 1950, era relativo e não absoluto. O
indústria paulista, tinham um nível de consciência política êxodo rural foi mais acentuado nas décadas posteriores a
mais elevado que os ex-escravos ou que os migrantes 1970.
nordestinos, pois na Europa ocidental já eram comuns as
greves por reivindicações salariais e melhoria das condições As causas dessa saída de grandes contingentes humanos do
de trabalho. Assim, eles lideraram boa parte das greves que meio rural em direção às cidades podem ser classificadas
ocorreram no início do século XX no Centro-Sul, em: fatores de mudança, que constituem as transformações
especialmente em São Paulo e Rio de Janeiro, influindo na sofridas no meio rural pela modernização e mecanização da
formação de sindicatos, de associações de moradores, etc. agricultura. Essa modernização dispensa mão-de-obra, já
Para os empregadores, e também para o governo, era mais que eleva a produtividade do trabalho pela introdução de
interessante, então, conter a imigração e incentivar as máquinas ou técnicas modernas de cultivo. Esses fatores
migrações do Nordeste para o Centro-Sul, já que o prevalecem nos países desenvolvidos e foram a principal
trabalhador nordestino, afeito a precárias condições de causa das migrações rural-urbanas, juntamente com a
trabalho, possuía pouca tradição de luta econômico-social. Revolução Industrial. No caso do Brasil, esses fatores se
manifestam em algumas áreas, principalmente no Centro-
Migrações internas Sul, mas não são os mais importantes para explicar o êxodo
As migrações internas ou inter-regionais vêm ocorrendo rural. Fatores de estagnação, que não estão ligados à
desde a época colonial. Durante toda a sua história, a industrialização, como os fatores de mudança, mas a um
economia brasileira caracterizou-se pela existência de crescimento populacional que não é absorvido no local
porque a oferta de trabalho é inferior à procura. E o principal
21
motivo de a terra não sustentar o grande número de novos Migrações pendulares
trabalhadores que surge a cada ano prende-se à estrutura As migrações pendulares ou diárias nos grandes centros
social, ao monopólio de extensas áreas por latifundiários. urbanos constituem um movimento de ida e volta dos
trabalhadores de sua residência até o serviço, normalmente
Esses fatores prevalecem nos países subdesenvolvidos e localizado longe da moradia. Esse tipo de migração aumenta
manifestam-se no Brasil em grande escala, principalmente com o crescimento da cidade, que desloca as camadas
no Nordeste e também em algumas partes do Centro-Sul — trabalhadoras mais pobres para as zonas periféricas ou,
Paraná, Rio Grande do Sul —, onde muitas vezes o tamanho então, para as “cidades-dormitórios” ou “cidades-satélites”
da terra não é suficiente para todos os filhos do pequeno Em alguns centros, especialmente em São Paulo e no Rio de
proprietário. Muitos, ao se casarem, têm de migrar em busca Janeiro, é comum gastar três ou quatro horas por dia nesse
de novas terras ou dos centros urbanos. movimento de vaivém.

ORGANIZAÇÃO DO ESPAÇO ECONÔMICO cultura algodoeira outro importante recurso do Nordeste. Foi
REGIONAL: no final dos anos 1950, portanto, que o debate sobre a
ATIVIDADES PRODUTIVAS E DINÂMICA questão regional do Brasil, em especial o atraso do Nordeste
em relação ao Centro-Sul, se tornou mais agudo, gerando os
REGIONAL
planejamentos regionais pelo Estado.
As enormes diferenças naturais existentes no território
A primeira ação permanente de planejamento regional no
brasileiro juntaram-se as disparidades humanas: a riqueza de
Brasil iniciou-se em 1959 com a criação da Sudene. A partir
alguns ao lado da pobreza de muitos; a cultura popular
dos anos 1960, o planejamento regional começou a difundir-
tradicional praticada em algumas áreas diante da cultura
se: em 1966 foi criada a Sudan, em 1967 a Superintendência
massificante divulgada pela televisão e demais meios de
para o Desenvolvimento do Centro-Oeste (Sudeco) e a
comunicação; as áreas industrializadas e urbanizadas em
Superintendência para o Desenvolvimento do Sul (Sudesul).
contraste com regiões agrícolas e pouco urbanizadas.
Essas disparidades sociais e regionais em geral agravaram-
A multiplicação desses órgãos de planejamento regional foi
se com o tipo de modernização ocorrido no país desde
um dos aspectos do fortalecimento do Estado nacional (o
meados do século XX, com crescimento industrial paralelo à
governo federal) e do capitalismo monopolista, baseado nas
maior concentração das riquezas e à integração nacional e a
grandes empresas. A ação do planejamento em uma
formação de um espaço geográfico unificado.
economia capitalista, em especial quando há muita
centralização e pouca participação popular nas decisões, em
A industrialização do Brasil e sua concentração geográfica no
regra favorece alguns poucos grupos e as grandes empresas
Centro-Sul, especialmente em São Paulo, criaram um
— particulares ou públicas — em detrimento das pequenas e
modelo de organização espacial do tipo centro-periferias, que
médias.
se liga a uma divisão inter-regional do trabalho: o Centro-Sul
do país especializou-se em produção industrial e as demais
Outro elemento importante para entender o crescimento
regiões lhe fornecem matérias-primas, gêneros agrícolas e
desses órgãos é o enfraquecimento dos estados e
até mão-de-obra. Além disso, a indústria paulista, ao
municípios, com o fortalecimento da União. Desde os anos
expandir-se e penetrar nas demais regiões do pais, provocou
1930 e mais ainda nos anos 1950, o governo federal passou
a falência de muitos estabelecimentos industriais que ai
a dispor de recursos cada vez mais volumosos, em
existiam, notadamente no Nordeste, pois era mais
comparação aos dos estados e municípios, e interveio mais
competitiva, produzia com custos menores que a indústria
intensamente em todas as partes do território brasileiro.
nordestina e pôde dominar o mercado.
Todos aqueles órgãos estavam subordinados ao governo
federal e a maioria menos dispunha, até a Constituição de
Na década de 1950, o problema nordestino surgiu com
1988, que concedeu um pouco mais de recursos para os
intensidade, não apenas pelo declínio de sua incipiente
poderes estadual e local, de recursos financeiros maiores
atividade industrial, mas principalmente pela retração da
que os dos governos municipais e até estaduais da área em
cultura canavieira, principal produto agrícola da região, e da
que atuam.
22
industrialização. Alguns políticos e intelectuais nordestinos
Quanto aos resultados desses órgãos, eles variaram muito, divulgam esse ponto de vista, que conta com o apoio de uma
mas em geral não corrigiram as desigualdades espaciais do parte (provavelmente pequena) da população. Existe mesmo
país e produziram maior concentração do capital (isto é, uma canção, Nordeste independente, censurada na época
predomínio das grandes empresas urbanas ou rurais) nas da ditadura militar e depois liberada, cuja letra é bem
áreas ou ramos da economia onde atuam; representativa dessa visão de que o Nordeste é
algum crescimento econômico localizado, com o aumento da potencialmente rico e que por si só iria melhor que com o
industrialização, em especial em algumas áreas do Nordeste restante do país.
e na Zona Franca de Manaus. Mas em grande parte esse
crescimento industrial ocorreu apenas por causa dos No caso do Sul, do Paraná ao Rio Grande do Sul, algumas
incentivos fiscais, como no Nordeste principalmente, e vezes incluindo São Paulo, tornam-se cada vez mais
também das facilidades dadas ao capital estrangeiro, como freqüentes os argumentos de que esses três ou quatro
na Zona Franca de Manaus, onde as empresas “montam” estados formariam um país desenvolvido, que teria um
bens de consumo com peças trazidas do exterior sem pagar padrão de vida comparável ao de muitas nações da Europa
impostos alfandegários. ocidental. É muito comum a alegação, apoiada por ampla
parcela da população, de que a maior parte dos recursos do
O problema das disparidades regionais governo federal são extraídos do Sul do país e, em vez de
A industrialização não se espalha por igual em um país. serem investidos nessa área, quase sempre são aplicados
Normalmente se concentra em certas áreas em que haja no Nordeste. Existe até um movimento separatista, de
condições favoráveis: matérias-primas ou mão-de-obra atuação extremamente limitada, que propôs estabelecer um
especializada, mercado consumidor, infra-estrutura, etc. novo Estado nacional, formado por esses estados sulinos.
Seria mesmo uma irracionalidade pretender distribuir por Apesar de existirem alguns elementos verdadeiros em todos
igual a atividade industrial — ou qualquer outra: cultivo do esses argumentos, na realidade eles são falsos nas suas
trigo, da uva, pecuária leiteira, etc. — em um imenso espaço conclusões.
geográfico, pois cada região ou área específica sempre tem
características naturais e humanas e potencialidades Algumas áreas do Nordeste são, de fato, grandes
diferenciadas. fornecedoras de mão-de-obra barata e matérias-primas para
o Centro-Sul, em especial para suas áreas mais
Pode-se mesmo citar como exemplo desse contra-senso a industrializadas, que, por sua vez, fornecem bens
industrialização de Manaus por meio de incentivos fiscais e manufaturados àquelas regiões. Mas não apenas elas
isenção de impostos para importações de peças que lá são desempenham esse papel; também inúmeras áreas do
montadas. Houve certo crescimento industrial dessa cidade Centro-Sul baseiam-se na agropecuária ou na mineração,
com a implantação da Zona Franca, mas isso se deu à custa fornecendo força de trabalho para as partes mais
do não desenvolvimento dessas indústrias eletrônicas em industrializadas dessa região do país.
outras partes do país — São Paulo, Minas Gerais, Rio
Grande do Sul, etc. Aí essa produção poderia ser totalmente Mesmo no Nordeste há áreas industrializadas que recebem
nacionalizada (sem meramente montar peças que vêm do migrantes. Basta ver que em duas décadas, de 1980 a 2000,
exterior) e, além disso, empregar maior quantidade de mão- a Bahia — e em particular o Recôncavo — foi uma das áreas
de-obra, além de estar mais próxima do mercado consumidor que conheceram maior crescimento industrial no Brasil.
o que baratearia os custos de transporte. Também outros estados nordestinos como Ceará e
Maranhão, conheceram nesse período crescimento
Em outras palavras, toda a sociedade brasileira paga certo econômico superior à média do país e até do Centro-Sul.
preço ou cota de sacrifício em prol dessa industrialização de
Manaus, que no fim beneficia apenas um pequeno grupo de
empresários e políticos locais. Ademais, esse tipo de
indústria eletrônica em Manaus é algo completamente
marginal em relação às características da região amazônica,
cuja vocação exige um modelo de crescimento baseado na
biotecnologia, na navegação fluvial e no extrativismo vegetal
— por exemplo, indústrias químicas ou farmacêuticas que
aproveitassem as potencialidades da biodiversidade local.
Mas a Zona Franca de Manaus foi pensada exatamente
dentro dessa idéia de “espalhar a indústria pelo território” ou
“desenvolver” a Amazônia, sem considerar o fato de que
desenvolvimento não significa necessariamente
industrialização e que na floresta Amazônica existem outras
formas de riqueza a serem exploradas (plantas medicinais, Além do mais, baixos salários não constituem uma
banco de dados genéticos, etc.), que poderiam gerar mais característica do Nordeste, mas do Brasil em geral. Não são
empregos e bem-estar social que esse parque industrial apenas os operários nordestinos que recebem baixos
eletrônico. salários no parque industrial de São Paulo ou de Belo
Horizonte, mas a maioria dos trabalhadores de forma geral.
As desigualdades regionais no Brasil têm suscitado até Também cabem algumas ressalvas quanto à idéia de que o
mesmo propostas separatistas, isto é, de pessoas ou Nordeste recebe a maior parte dos recursos públicos e de
políticos que apregoam a autonomia ou separação de sua que o Sul do Brasil seria desenvolvido e o restante
região — principalmente o Nordeste e o Sul do país — como subdesenvolvido.
forma de superar o subdesenvolvimento. A partir dos anos
1980, com a crise econômica e social do país, essas idéias
tiveram maior difusão.

No caso do Nordeste, argumenta-se que essa região é


sacrificada pela prioridade dada ao Centro-Sul; funcionando
como unidade política autônoma, seria maior a
23
• Secundário: Corresponde ao trabalho junto ao setor
industrial, da construção civil e extrativismo mineral,
ocupando o segundo lugar em número de pessoas.
• Terciário: é também conhecido como setor de serviços e
ocupa a maior parte das pessoas do país, o que
representa um problema sério para o Brasil, pois é o setor
mais burocrático e que mais despesas proporciona ao país
e o que menos traz divisas para a nação.

GRUPOS ÉTNICOS FORMADORES DO BRASIL

População brasileira sobe 1,42% e atinge 187,2 milhões


A população brasileira somou 187,2 milhões de pessoas em 2006,
revela a Pnad (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios),
realizada pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística).
O número representa um acréscimo de 1,42% frente a 2005.

Com a queda nas taxas de mortalidade e de fecundidade, o retrato


da população brasileira é de maior envelhecimento. A taxa de
fecundidade passou de 2,1 nascimentos por mulher, em 2005, para
2,0, em 2006, de acordo com a pesquisa. O percentual de crianças
caiu em todas as regiões.
Em primeiro lugar, o Nordeste recebe sim um pouco mais em Maria Lucia Vieira, gerente da Pnad, afirmou que a tendência de
relação ao que contribui: segundo dados de 2000, essa redução da taxa de fecundidade vem ocorrendo desde a década de
região contribuiu com cerca de 13% dos impostos nacionais 60. "A nossa evolução foi muito mais rápida do que aconteceu na
e recebeu cerca de 15% dos investimentos do governo Europa, mas vai continuar crescendo", afirmou. O Acre é o Estado
federal. Essa diferença é relativamente pequena e justificável com estrutura mais jovem, enquanto Rio de Janeiro e Rio Grande do
na medida em que é comum, em inúmeros países (Estados Sul apresentam população mais envelhecida.
Unidos, Itália, Alemanha, etc.), o governo investir mais em
regiões mais pobres como forma de tentar diminuir as Aumenta parcela de brasileiros que se declaram negros, diz
desigualdades espaciais. IBGE

O aumento do percentual da população negra ocorreu nas regiões


Em segundo, é preciso lembrar que, mesmo os estados
Norte (3,8% para 6,2%), Nordeste (7,0% para 7,8%) e Sudeste
sulinos tendo indicadores de padrão de vida um pouco (7,2% para 7,7%). Nessas regiões, o crescimento do número de
superiores à média nacional, as metrópoles dessa parte do negros foi acompanhado pela redução da população de pardos. No
país também conhecem os enormes problemas das Norte ela passou de 71,5%, em 2005, para 69,2%, em 2006; no
submoradias, do subemprego, dos salários baixíssimos para Nordeste, de 63,1% para 62,5% e no Sudeste foi para 32,5% após
a maioria da população, da significativa carência de corresponder a 33,4% em 2005. As demais regiões não
atendimento médico-hospitalar e de transportes coletivos, apresentaram alterações em relação à cor ou raça.
etc., e que tanto a concentração fundiária no campo quanto a
Os brasileiros que se declararam negros eram 6,3% em 2005, e hoje
concentração na distribuição dos rendimentos são quase as
representam 6,9% da população. Por outro lado, os pardos atingem
mesmas das demais regiões. 42,6%. As pessoas que se declaram brancas ainda são maioria e
representam 49,7% da população brasileira. Na região Sul, cerca de
Há, na realidade, uma série de problemas ou distorções 80% da população é composta por brancos.
comuns em todo o país, apesar das particularidades
regionais e locais, e que devem ser enfrentados em conjunto: Esses dados estatísticos — os únicos que existem com
excessiva concentração na distribuição social da renda e das relação ao país inteiro — não refletem muito bem a realidade
terras, corrupção em larga escala e mau uso dos recursos porque exageram o número de brancos e diminuem o de
públicos, escolarização deficiente, péssimo sistema afro-brasileiros e o de descendentes de indígenas.
previdenciário e de saúde pública, enorme insuficiência de
moradia popular, etc. De nada adiantaria a autonomia de O número de indígenas existentes no atual território brasileiro
qualquer região sem modificar esse conjunto de problemas. em 1500 é difícil de calcular — especula-se que eram 5
milhões, 2 milhões e até 10 milhões —; o número de negros
As idéias de separatismo como solução para os problemas trazidos da África como escravos de 1500 a 1850 (quando
locais, na realidade, constituem uma forma de desviar a cessou o tráfico negreiro) foi de cerca de 6 milhões; e o
atenção, de esquecer as origens sociais e políticas desses número de brancos europeus que aqui permaneceram de
males e colocar em seu lugar uma diferenciação espacial ou 1500 até o presente foi de, no máximo, 4 milhões.
territorial. É mais uma tentativa de mistificar a realidade,
encontrando um bode expiatório — seja o Centro-Sul, seja o Na época colonial, entraram cerca de 500 mil portugueses e,
Nordeste — para as verdadeiras causas do após a Independência, mais de 5 milhões de imigrantes, mas
subdesenvolvimento nacional. quase metade desse total retornou para a Europa ou foi para
os Estados Unidos ou para a Argentina.
População economicamente ativa (PEA):
O conjunto de pessoas que exercem funções remuneradas é Assim, a influência africana e a indígena na composição
chamado de PEA e mostra a força de trabalho de um país e étnica da população brasileira provavelmente são maiores
sua força produtiva. Essa população está dividida em três que as registradas nesses dados estatísticos. E a presença
setores: branca, não como cor da pele, mas exclusivamente como
• Primário: Corresponde ao grupo de trabalhadores que origem européia, não deve, portanto, ser majoritária. Mas
exercem suas funções nas áreas agropecuárias e no isso varia de região para região: no Sul do país, de São
extrativismo vegetal, hoje em minoria no país e com um Paulo ao Rio Grande do Sul, a população branca de origem
número maior de pessoas nas regiões mais pobres. européia é, de fato, predominante; na Amazônia, já se
observa uma maioria de descendentes de indígenas, embora
24
resultantes de cruzamentos com brancos ou negros; no brasileira. A maior parte está concentrada na Amazônia —
Nordeste, especialmente nos centros urbanos próximos ao especialmente no estado do Amazonas (95 mil) —, embora
litoral (com destaque para Bahia e Zona da Mata), e em existam inúmeros grupos no Nordeste (55 mil) e no Centro-
partes do Sudeste (como Rio de Janeiro e Minas Gerais), a Sul (120 mil, dos quais 55 mil apenas no Mato Grosso do
presença de afro-brasileiros é marcante. Sul).

Essa distribuição dos principais grupos étnicos pelo território Existem vários tipos de sociedades indígenas, com culturas
nacional deve-se às características da formação histórica e (idiomas, valores, mitos, regras para os casamentos,
do povoamento de cada região. No Nordeste e partes do arquitetura das residências, etc.) muito diferentes.
Sudeste — Minas Gerais e Rio de Janeiro —, por causa do Reconhecem-se 215 grupos indígenas diferentes no país,
intenso povoamento já no período colonial, quando com 170 línguas distintas. Há certa variedade também no
predominava a população escrava de origem africana, que se refere ao grau de contato com a sociedade nacional,
registra-se hoje forte presença da etnia negra. No Sul, que vai dos grupos indígenas isolados (contatos raros e
incluindo parcialmente São Paulo, a presença do negro é acidentais com os “civilizados”) aos integrados (que já se
relativamente menor e há forte influência de imigrantes exprimem em português e até trabalham em cidades),
(italianos, espanhóis, japoneses, alemães, etc.), o que se passando por estágios intermediários como os de contato
deve ao fato de essa região ter sido efetivamente ocupada e intermitente e os de contato permanente com os brancos.
povoada a partir da cultura cafeeira e da imigração no final
do século XIX, quando o tráfico negreiro já havia sido O importante, contudo, é a preservação da cultura indígena e
abolido. do sentimento de pertencer — e pretender continuar
pertencendo — a uma sociedade especifica, com tradições e
Por ter sido a última grande região a ser ocupada e povoada costumes próprios.
— processo que continua em nossos dias —, a Amazônia
permaneceu como reduto das nações indígenas, grupo Comparando o número de indígenas no território brasileiro à
étnico que registra, direta ou indiretamente (pela época do “descobrimento” com o de hoje, observa-se enorme
miscigenação), grande presença na população regional. diminuição populacional, um verdadeiro extermínio. A
ocupação da terra foi feita à custa das sociedades indígenas
Diversas pesquisas recentes que colheram amostras de DNA que nela habitavam que foram expulsas nos últimos séculos.
de milhares de brasileiros que se consideram brancos com
ancestrais europeus mostraram que a presença de genes Os principais fatores da extinção dos grupos indígenas são a
indígenas e africanos é muito mais freqüente do que se perda das suas terras (que lhes garantia a sobrevivência), as
imaginava. Participaram dessas pesquisas grupos de mortes em conflito com os “civilizados” e, sobretudo, os
estudantes de Belo Horizonte, Rio de Janeiro e São Paulo e óbitos provocados por gripe, sarampo, coqueluche e outras
grupos de trabalhadores rurais, todos considerados brancos enfermidades até então desconhecidas por eles, trazidas
nas estatísticas oficiais. Constatou-se que, em média, cerca pelos brancos e contra as quais eles não possuíam
de 33% desses grupos possuem linhagens de DNA oriundas resistência natural no organismo. A varíola, a sífilis, a
de populações indígenas, e cerca de 28% possuem tuberculose, a pneumonia e mesmo a gripe ocasionaram
linhagens africanas. epidemias devastadoras. Entre 1980 e 1990, entretanto,
deixou de haver diminuição constante de indígenas e essa
Na maioria dos casos são matralinhagens (heranças população vem crescendo a uma taxa que chega a ser 10%
genéticas provenientes do sexo feminino), o que significa que superior à média da população nacional.
a miscigenação predominante no Brasil foi do homem branco
europeu (especialmente o português) com mulheres O significado de etnocídio
indígenas e/ou africanas. Isso pode ser explicado As nações indígenas vêm sendo exterminadas desde a
principalmente pela carência de mulheres européias durante colonização do continente americano pelos europeus.
a maior parte do período colonial, que durou mais de três Inúmeras sociedades pré-colombianas desapareceram
séculos. Em regra, os colonizadores europeus eram do sexo completamente.
masculino e raramente traziam para a colônia as suas
mulheres e filhas. Mas talvez a cultura com forte teor Na América do Norte esse processo de ocupação da terra
machista também tenha contribuído para esse fato, pois nela pela chamada civilização ocidental, e o conseqüente
é admissível que um homem branco tenha relações sexuais extermínio dos ameríndios, já chegou ao fim: praticamente
com mulheres não-brancas, ao passo que para a mulher não existem mais áreas “virgens” ou ainda não ocupadas, e a
branca isso costuma (ou costumava) ser muito malvisto. população indígena que ainda resta está integrada ou
confinada em reservas, áreas delimitadas pelo governo, onde
A POPULAÇÃO INDÍGENA vivem.
Os termos índio e indígena são muito questionáveis, pois
essas populações aborígines sempre se identificaram como Na América do Sul, é provável que ainda existam alguns
Karajá, Suyá, Kamayurá, Xavante, etc., e nunca como índios. grupos indígenas isolados, que não foram nem parcialmente
A classificação como indígenas foi imposta pelos integrados. Mas talvez o grande problema do indígena na
colonizadores, no processo de conquista da terra e Amazônia não seja mais o extermínio físico — as matanças
extermínio dessas populações. — e sim o cultural, com o desaparecimento de suas línguas,
costumes, crenças e hábitos.
Embora as várias nações indígenas falem línguas diferentes
e cultivem hábitos diversos, hoje não lhes resta alternativa As terras indígenas
senão se identificarem como indígenas, firmar características Há algumas décadas, criou-se o termo etnocídio para
comuns e as diferenças que os separam dos “civilizados” designar esse processo de extermínio cultural que ocorre
Esse reconhecimento mútuo é a única forma de se unirem e com os indígenas na América do Sul.
agirem como uma “minoria étnica” no conjunto do país,
reivindicando certos direitos”. A noção jurídica do genocídio foi criada em 1946, no
processo de Nuremberg, em que foram julgados criminosos
O número atual de indígenas no Brasil situa-se de guerra alemães, e designa o extermínio sistemático dos
por volta de 350 mil, cerca de 0,2% da população judeus pelos nazistas. Logo se estendeu também ao
25
extermínio dos índios do continente americano. Mas Como se vê, são muitas as ameaças às terras dos indígenas,
genocídio remete à idéia de “raça” e ao desejo de exterminar que reagem e tentam expulsar os invasores, ocorrendo
um grupo étnico mediante sua destruição física. algumas vezes matanças de ambos os lados.

Etnocídio refere-se não apenas à destruição física, mas, Situação Atual


principalmente, à destruição da cultura de um povo, do seu No final da década de 1970, a questão indígena passou a ser
modo de vida, dos seus hábitos, das suas crenças, da sua tema de relevância no âmbito da sociedade civil.
língua, da sua tecnologia, dos seus costumes. Isso se Paralelamente os índios iniciaram os primeiros movimentos
manifesta principalmente no fato de não se aceitar o índio de organização própria, em busca da defesa de seus
como tal, constrangendo-o a transformar-se em brasileiro, interesses e direitos.
venezuelano, colombiano ou boliviano.
Diversas organizações indígenas e entidades de defesa de
Pretende-se que ele abandone suas crenças, vistas como direitos promoveram amplo debate, visando a assegurar a
“bárbaras e pagãs”, e adote as “verdadeiras religiões” do demarcação das terras dos índios e a realizar reflexão crítica
Ocidente cristão; que deixe de usar seus remédios de ervas sobre a política de integração. Ao mesmo tempo em que
medicinais e feiticeiros para adotar nossos medicamentos e estes se organizavam politicamente, no sentido de defender
os direitos à posse das terras indígenas, passou-se a debater
as bases de uma nova política indigenista, fundamentada no
SITUAÇÃO DAS TERRAS INDÍGENAS (Resumo Geral) respeito às formas próprias de organização sociocultural dos
povos indígenas.
Nº de T.I's % em revisão
A superfície das 488 terras indígenas, cujos processos de
Em Estudo 123 ---- 0 demarcação estão minimamente na fase "DELIMITADA", é
Delimitada 33 1,66 1.751.576 de 105.673.003 hectares, perfazendo 12,41% do total do
território brasileiro. Outras 123 terras ainda estão por serem
Declarada 30 7,67 8.101.306 identificadas, não sendo suas possíveis superfícies somadas
Homologada 27 3,40 3.599.921 ao total indicado. Registra-se, ainda, que há várias
referências a terras presumivelmente ocupadas por índios e
Regularizada 398 87,27 92.219.200 que estão por serem pesquisadas, no sentido de se definir se
TOTAL 611 100 105.672.003 são ou não indígenas. O quadro a seguir aponta com
drogas; que aprenda uma língua “civilizada” e vá trabalhar detalhes a situação das 611 terras indígenas do País quanto
em uma fazenda como peão ou bóia-fria. ao seu procedimento administrativo de regularização.

O resultado dessa integração forçada do índio é o


extermínio, o desaparecimento físico e cultural. Para os ONU aprova Declaração dos Direitos dos Povos Indígenas
indígenas que ainda restam no país, o ideal não é garantir-
Medida deve proteger mais de 370 milhões de pessoas destas
lhes o título de “cidadãos brasileiros”, mas a posse de um comunidades.
território, de áreas em que as condições naturais não foram Negociação levou duas décadas até aprovar a declaração.
muito alteradas e nas quais eles possam viver em paz como
índios com sua cultura inalterada ou pouco modificada. A Assembléia Geral da ONU aprovou no dia 13 de outubro de 2007,
após duas décadas de negociações, a Declaração de Direitos dos
O grande problema dos indígenas no Brasil é a terra. Tendo Povos Indígenas, que deve proteger os mais de 370 milhões de
ocupado todo o atual território brasileiro até a vinda dos pessoas que integram estas comunidades no mundo todo.
colonizadores portugueses, eles perderam suas terras ao
O texto, ratificado por 143 votos a favor, 4 contra e 11 abstenções,
longo do tempo. Isso ocorre ainda hoje, embora de forma constitui um marco histórico para o movimento indígena que, durante
bem menos intensa. anos, viu suas tentativas para conseguir que seus direitos fossem
respeitados se desfazendo nos corredores das Nações Unidas.
Os indígenas enfrentam vários invasores de suas terras:
− As madeireiras, firmas que extraem a madeira das Os quatro votos contrários foram dos Estados Unidos, Canadá,
florestas e desrespeitam suas terras; Austrália e Nova Zelândia, todos ex-colônias britânicas. Nesses
países, as populações nativas como os inuit (esquimós), maoris e
− Os fazendeiros e grandes empresas, que vêem essas
aborígenes têm movimentos organizados de resistência política e
terras como mais um recurso a ser apropriado cultural.
(contratam jagunços ou pistoleiros para invadir e ocupar
as terras indígenas e também as áreas ocupadas por A declaração, de 46 artigos, estabelece os padrões básicos de
posseiros ou pequenos proprietários); respeito aos direitos dos povos indígenas do mundo, que incluem a
− Os camponeses ou posseiros expulsos de suas terras propriedade de suas terras, acesso aos recursos naturais de seus
que, às vezes, invadem áreas indígenas na busca de territórios, preservação de seus conhecimentos tradicionais e
novos solos para plantar e sustentar suas famílias; autodeterminação.
− Os garimpeiros, em geral camponeses desempregados O embaixador adjunto do Peru na ONU, Luis Enrique Chávez, que
e posseiros expulsos de suas terras, atraídos pelo apresentou o documento ao plenário da Assembléia Geral, disse que
(ilusório) lucro fácil do garimpo de ouro, pedras tinha a oportunidade e a responsabilidade de "preencher um vazio na
preciosas, cassiterita e outros minérios (que, às vezes, proteção de um grupo de seres humanos que, segundo os diferentes
existem nas terras indígenas). Eles provocam grandes mecanismos de proteção dos direitos humanos testemunham, está
estragos no ecossistema onde garimpam, pois entre os mais vulneráveis".
desmatam e poluem os rios com detritos e com mercúrio
Voto contra
(usado para separar o ouro de outros minerais,
No entanto, o embaixador da Austrália, Robert Hill, disse em sua
extremamente nocivo para os peixes e para as intervenção que seu país votou contra porque outorgava direitos às
populações que usam as águas fluviais). populações indígenas que entram em conflito com os do resto da
população e com o marco constitucional dos países democráticos.
"A Austrália expressou sua oposição ao uso do termo
'autodeterminação', que está mais relacionado com situações de

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descolonização. Não podemos respaldar um texto que põe em projetos de hidrelétrica e bases espaciais. São constantes
perigo a integridade territorial de um país democrático", alegou. também, os conflitos entre quilombolas e grileiros que
querem expulsar de seus territórios os verdadeiros donos.
O Canadá, da mesma maneira, argumentou que o documento não é
adequado à sua legislação em temas como a propriedade de terras e
sua exploração. "É preciso conseguir um equilíbrio entre estes Os Quilombos de hoje correspondem às chamadas terras de
direitos dos povos indígenas, o Estado e terceiros", disse o preto, ou Comunidades Negras Rurais, que se originaram, de
embaixador canadense na ONU, John McNee. fazendas falidas, das “doações” de terras para ex-escravos,
das compras de terras pelos escravos alforriados, da
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, comemorou a adoção da
Declaração e pediu os Estados-membros que "assegurem que sua
prestação de serviços de escravos em guerras (Balaiada,
visão seja posta em prática", comentou sua porta-voz, Michèle Paraguai) e das terras de Ordens Religiosas deixadas à ex-
Montas. escravos no início da segunda metade do século XVIII.

Existem comunidades quilombolas vivendo em 24 Estados


do Brasil: Amazonas, Alagoas, Amapá, Bahia, Ceará,
Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Mato Grosso, Mato Grosso
do Sul, Minas Gerais, Pará, Paraíba, Pernambuco, Paraná,
Piauí, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do
Sul, Rondônia, Santa Catarina, São Paulo, Sergipe e
Tocantins.

OS MOVIMENTOS SOCIAIS, OS CONFLITOS DE


TERRA

Estrutura fundiária no Brasil


Denomina-se estrutura fundiária a forma como as
propriedades agrárias de uma área ou país estão
organizadas, isto é, seu número, tamanho e distribuição
social.

O Estatuto da Terra dividiu os imóveis rurais do Brasil em


quatro categorias:
− Minifúndio: Os minifúndios possuem quase sempre
menos de 50 hectares de extensão, embora sua média
seja de 20. Eles correspondem atualmente a pouco mais
de 70% do total dos imóveis rurais do país, embora
ocupem apenas cerca de 11% da área total desses
imóveis.
− Latifúndio por dimensão: Os latifúndios por dimensão
correspondem, nas estatísticas oficiais, a menos de
0,1% do número total de imóveis rurais, abrangendo
uma área equivalente a cerca de 5% da superfície total
As Comunidades Quilombolas ocupada pelas propriedades fundiárias. Sua área média
As comunidades Quilombolas são populações negras que situa-se um pouco acima de 100 mil hectares. Esses
vivem no meio rural e se auto-identificam como dados estatísticos, porém, talvez não sejam exatamente
Comunidades Negras rurais, Terras de Preto, Quilombos, corretos, já que um proprietário pode dividir sua terra
Mocambos e outras designações correlatas, são um demasiadamente grande em vários imóveis, deixando,
segmento de população negra brasileira marcada pela assim, de ser classificado como latifúndio por dimensão.
resistência, organização e, principalmente, pela luta em − Latifúndio por exploração: a terra é mantida inexplorada,
defesa de direitos sagrados: Terra, Liberdade, Cidadania e com fins especulativos, ou então é explorada de forma
Igualdade. deficiente e inadequada. Sua área média é de 350
hectares, abrange cerca de 23% do número total de
imóveis e equivale a aproximadamente 73% da área
Ao longo da sua trajetória neste país, esse segmento resistiu
total das propriedades agrárias do país.
de várias formas a um processo constante de tentativa de
retirar seus direitos enquanto cidadãos. A principal é a − Empresa rural: imóvel explorado de forma econômica e
tentativa de negar o direito aos territórios em que racional. Essas empresas abrangem cerca de 5% do
efetivamente moram e trabalham. Nessas terras ocupadas número total de imóveis e uma área equivalente a quase
centenariamente resistem a tentativas de desapossamento 10% da superfície total ocupada pelas propriedades
perpetrado por pretensos proprietários que, através de agrárias no Brasil. A área média dessas empresas rurais
injustiças e da manipulação, concentram grandes extensões é de 221 hectares.
de terras, concorrendo para limitá-las a uma elite racista,
relegando às favelas e palafitas os deserdados da nação. Assim, um dos grandes problemas agrários do Brasil é a sua
Nesse processo centenas de povos negros assim como estrutura fundiária e a extrema concentração da propriedade.
indígenas foram dizimados a ferro e fogo. Contudo, apesar A maior parte das terras ocupadas e os melhores solos
de negados pela história oficial, os quilombos existem em encontram-se nas mãos de pequeno número de proprietários
todo o país, construindo assim um marco de resistência da — os latifundiários —, muitas vezes com enormes áreas
população negra contra a opressão. ociosas, não utilizadas para a agropecuária, apenas à espera
de valorização, ao passo que um imenso número de
pequenos proprietários possui áreas ínfimas — os
As terras quilombolas são disputadas acirradamente por minifúndios —, insuficientes para garantir-lhes, e a suas
grandes fazendeiros, madeireiros, mineradoras e grandes famílias, um nível de vida decente e com boa alimentação.
27
propriedades registradas em cartório, normalmente
A partir de 1970, começou uma expansão das “fronteiras enfrentam a pressão — econômica e até violência física, em
agrícolas” (faixa de terras cultivadas ou aproveitadas pela alguns casos — dos grandes proprietários que querem
pecuária) do país em direção à Amazônia, com a ocupação expandir seus domínios ou ampliar suas posses.
de terras devolutas, a derrubada da mata e o
estabelecimento da lavoura ou da pecuária. Em boa parte, Esses problemas que envolvem a estrutura fundiária do
essa ocupação da terra é apenas formal, com a empresa (às Brasil evidenciam a necessidade de reformas, de mudanças
vezes, uma multinacional) conseguindo o título de no campo visando corrigir as principais distorções: a
propriedade da área e deixando-a ociosa à espera de concentração da propriedade; a precária situação dos
valorização. Mas essa expansão das áreas ocupadas pela posseiros e grileiros; a prevalência da produção de gêneros
agropecuária acabou agravando ainda mais o problema da para exportação ou para transformação industrial sobre os
estrutura fundiária, já que o tamanho médio das propriedades alimentos básicos de que a população necessita.
que ocupam a maior parte das novas terras é enorme, No meio rural brasileiro, poucos proprietários dispõem de
constituindo, de fato, autênticos latifúndios. muita terra para cultivar. É uma estrutura fundiária muito
concentrada nas mãos de poucos, uma gritante injustiça que
Esse agravamento — crescimento das grandes propriedades repete a da distribuição social da renda no Brasil.
em detrimento dos minifúndios — também prejudica a
produção de alimentos, porque as grandes propriedades, em Descaminhos da reforma agrária
geral, se voltam mais para os gêneros agrícolas de Desde os anos 1950 se discute a reforma agrária, que
exportação. consiste em uma redistribuição das propriedades do meio
rural em uma melhor distribuição da terra. De forma genérica,
Vários estudos calcularam que 60% a 70% dos gêneros a reforma agrária é uma mudança na estrutura fundiária do
alimentícios destinados ao abastecimento do país procedem país efetuada pelo Estado, que desapropria grandes
da produção de pequenos lavradores, que trabalham em fazendeiros e distribui lotes de terras a famílias camponesas.
base familiar. Portanto, a concentração ainda maior da
estrutura fundiária explica a queda da produção de alguns Apesar de ser intensamente discutida e de terem sido
gêneros alimentícios básicos e o crescimento de produtos criados órgãos governamentais que deveriam implementá-la
agrícolas de exportação. — o último foi o Instituto Nacional de Colonização e Reforma
Agrária (Incra) —, a reforma agrária nunca foi seriamente
Conflitos pela posse de terras executada, a não ser em áreas restritas e de forma
Apesar de existir ainda no Brasil enorme extensão de áreas superficial. Acabam predominando os fortes interesses dos
devolutas e de a maior parte do território não ser realmente grandes proprietários, que pressionam os políticos e abortam
cultivada nem utilizada para a criação de gado, são muito as iniciativas que ameaçam seus privilégios.
freqüentes os conflitos pela posse de terras.
Alguns especialistas argumentam que esse processo lento
Esses conflitos envolvem principalmente posseiros — de assentamentos não constitui uma verdadeira reforma
lavradores que, com suas famílias, ocupam um pequeno agrária na medida em que não altera, apenas ameniza muito
pedaço de terra sem o título de propriedade — e grileiros — pouco, a extrema concentração da propriedade fundiária.
em geral, grandes empresas ou fazendeiros que contratam Outros argumentam que essa é a única reforma agrária
jagunços (capangas ou “seguranças”) para invadirem terras possível no Brasil atual, por causa da carência de recursos
devolutas ou terras já ocupadas pelos posseiros, que (para pagar as terras desapropriadas e fornecer crédito para
acabam sendo expulsos brutalmente. os assentados) e do elevado valor das terras, cujos
proprietários com freqüência conseguem na justiça
Cerca de 4,8 milhões de imóveis no país, 14,4% (cerca de indenizações milionárias.
720 mil) eram ocupados por famílias de posseiros,
equivalendo a cerca de 4 milhões de pessoas. Eles detêm Polêmicas à parte, o fato é que a reforma agrária é uma
boa parte do total das pequenas propriedades rurais no necessidade imperiosa para a sociedade brasileira. A atual
Brasil e representam uma força de trabalho de grande situação, com grandes propriedades improdutivas e conflitos
importância para a produção de gêneros alimentícios. entre posseiros e grileiros, é desastrosa para a maioria da
Uma das conseqüências da expulsão dos posseiros de população. Ao mesmo tempo, existem enormes extensões
certas áreas é a diminuição da oferta de alimentos nas de terras férteis que têm dono e não são utilizadas
cidades vizinhas. Embora ocupem normalmente os piores produtivamente. O desperdício e a subutilização convivem
solos e áreas remotas, os posseiros vão sendo expulsos lado a lado com a miséria dos pequenos agricultores e dos
para regiões cada vez mais distantes pelos grileiros e até trabalhadores agrícolas. Para agravar ainda mais esse
pelo Estado, às vezes interessado em dar outro uso para quadro, há enorme intermediação entre o produtor (a pessoa
aquelas terras. E os conflitos culminam, às vezes, em luta do campo) e o consumidor (a população em geral). O
armada e chegam a assumir proporções trágicas, com número de intermediários ou atravessadores — negociantes
inúmeras mortes todos os anos, das quais a imprensa que compram e transportam os produtos, que os estocam e
freqüentemente dá notícias. vendem, etc. — e a sua influência sobre os preços é tão
grande que em muitos casos os preços finais pagos pelos
Além dos posseiros, outros personagens envolvidos com consumidores são cinco vezes maiores que os que foram
freqüência nos conflitos fundiários são os indígenas, os pagos aos produtores (aumento de 500%).
seringueiros e mesmo os pequenos proprietários com títulos
legalizados. A ganância dos grandes proprietários por A falta de uma solução para o problema da terra tem
quaisquer terras inclui as reservas dos indígenas, que lutam contribuído para multiplicar os conflitos. Os camponeses sem
para manter seus territórios. Os seringueiros e demais terra para cultivar migram em busca de novas áreas, indo
trabalhadores que exercem atividades extrativas (coleta da nas últimas décadas para a Amazônia. Esse movimento
castanha, do guaraná e outros produtos comuns da expande as “fronteiras agrícolas”. Na história do Brasil,
Amazônia) muitas vezes acabam sendo expulsos ou sempre houve essa expansão, primeiro para o oeste e mais
perdendo seu modo de vida pelo avanço das grandes recentemente para o norte. Atualmente, no entanto, esse
propriedades agropecuárias, que derrubam a floresta. E os processo está se esgotando por causa das dificuldades
pequenos proprietários em geral, mesmo tendo suas encontradas na Amazônia (solos pobres, defesa da floresta
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por grupos ecológicos, indígenas, populações ribeirinhas e sem redistribuição das riquezas e, conseqüentemente,
seringueiros, intensos conflitos armados pela posse da terra) desconcentração das terras rurais.
e dos próprios limites do território nacional, que é gigantesco,
mas não infinito. Daí o fato de centenas de milhares de
brasileiros já terem ocupado terras em países vizinhos,
especialmente no Paraguai — onde são denominados
ubrasiguaios) e reprimidos pelas autoridades locais — e,
mais recentemente, na Venezuela e Bolívia.

Outros, todavia, em vez de ocuparem terras devolutas — de


onde mais tarde sofrerão pressões para sair — ou até áreas
fronteiriças em países vizinhos, preferem ocupar fazendas
improdutivas, para pressionar o governo a desapropriá-las e
distribuí-las aos sem-terra.

Os fazendeiros e parte da imprensa chamam isso “invasão”


de terras e os simpatizantes desse movimento, “ocupação”,
argumentando que a Constituição brasileira determina que a
terra rural deve ser socialmente produtiva, economicamente
utilizada. Em alguns casos, esses movimentos dos
acampados sem-terra foram vitoriosos, tendo conseguido a
desapropriação e a redistribuição de algumas fazendas. Mas
também houve inúmeras repressões — de policiais e até de
jagunços — com dezenas de mortes em alguns casos.
Provavelmente, por causa do recrudescimento dessas
ocupações e também da ampla repercussão que obtiveram
nos meios de comunicação, o governo passou a acelerar os
assentamentos a partir de 1995.

A reforma agrária, portanto, deve visar resolver esse


problema dos sem-terra e da pobreza no campo, assim como
o abastecimento alimentar para a maioria da população. Ela
deve, então, promover justiça social, pois em qualquer parte O MEIO AMBIENTE E OS PROBLEMAS
do mundo é intolerável a concentração das riquezas ou das AMBIENTAIS
terras em poucas mãos. Mas não pode consistir somente na
desapropriação de certas áreas para redistribuição, pois, GEOPOLÍTICA E QUESTÃO AMBIENTAL
sem outras condições complementares — crédito bancário A economia mundial continua sendo uma das forças motrizes
facilitado, preços mínimos para certos produtos agrícolas, da degradação ambiental, tanto quando se trata da perda da
garantia de transporte, incentivos à modernização das floresta tropical, como pelo aquecimento da Terra por
técnicas, etc. Em muitos exemplos de distribuição de lotes de milhões de toneladas de gases que são despejados na
terras a famílias camponesas, especialmente na Amazônia, atmosfera por veículos e fábricas. Os pobres são os mais
após alguns anos o pequeno proprietário vendeu sua terra prejudicados, simplesmente porque têm menos recursos
para grandes empresas ou fazendeiros, partindo em busca para sobreviver. Essa disparidade manifesta-se de modo
de novas terras, ainda mais longe, ou trabalhando como mais evidente na expectativa de vida: 73 anos nos países
assalariado. Sem credito bancário, sem sementes, sem desenvolvidos e 60 anos nos países pobres.
compradores com preços razoáveis e até sem transporte,
somado a isso tudo o fato de que na Amazônia os solos são Em geral, o crescimento econômico nos anos 80 foi mais
pobres e podem se esgotar em poucos anos, o pequeno lento que nos anos 70. Para muitos países pobres os anos
proprietário teve de vender sua terra para sustentar a família. 80 foram uma década perdida, em vários sentidos. A dívida
externa disparou, os preços das suas matérias-primas
Uma reforma agrária deve, assim, ter em coma todos esses baixaram, as políticas de ajuste não funcionaram e 1/3 de
aspectos: não se trata apenas de redistribuição da terra rural, sua população - 1 bilhão e 200 milhões de habitantes - vive
mas também de uma reforma da política agrícola. Ao abaixo do limite da pobreza, estimado em 370 dólares anuais
contrário do que apregoavam os grandes fazendeiros e os per capita. As reformas econômicas impostas pelos governos
políticos conservadores, a reforma agrária não é uma política não trouxeram benefícios para essa população pobre e, em
“comunista” ou socialista, mas capitalista, já implementada muitos casos, pioraram a situação.
em grande parte dos atuais países desenvolvidos. O próprio
desenvolvimento do capitalismo, baseado na propriedade Muitos governos de países pobres se preocuparam
privada e na economia de mercado, exige a redistribuição unicamente com a crise econômica e política a curto prazo. A
das terras e a modernização do campo, pois a maioria da administração e conservação dos recursos ambientais
população acaba concentrada nos grandes centros urbanos ocuparam um lugar de pouco destaque nas listas de
e é preciso alimentá-la e produzir matérias-primas para a prioridades.
indústria.
A oposição Norte-Sul
Um bom exemplo disso ocorreu no Japão após a Segunda Segundo o Banco Mundial, dos 49 países que tiveram
Guerra Mundial, quando uma ampla reforma agrária foi uma redução no seu Produto Interno Bruto (PIB) nos anos 80,
das condições favoráveis para o notável desenvolvimento quase todos têm economias predominantemente agrárias,
capitalista desse país asiático nas últimas décadas. baixa renda, rápido crescimento populacional e passam por
A continuidade da concentração da propriedade fundiária no um processo acelerado de degradação ambiental. O desnível
Brasil e todos os demais problemas do campo representam de renda entre o Norte e o Sul se traduz no acesso desigual
um grande entrave ao desenvolvimento do país. Não é aos produtos do progresso material. Atualmente, os países
possível um desenvolvimento econômico e social contínuo desenvolvidos, que concentram menos de um quinto da
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população mundial, consomem 80%, dos recursos naturais
(alimentos e matérias-primas) produzidos no planeta. Os O “Protocolo de Montreal” foi o tratado internacional em que
20% restantes são disputados por mais de 4 bilhões de os países signatários se comprometem a diminuir a emissão
pessoas, das quais mais de um bilhão situam-se abaixo dos de CFC. O tratado esteve aberto para adesões em 1987 e
níveis de miséria absoluta. A maioria, cerca de 60%, vive no entrou em vigor em de 1989.
chamado “cinturão tropical”, justamente onde se localizam
58% das terras cultiváveis do planeta. Efeito estufa
Consiste no aquecimento da Terra em virtude da presença,
A diferença entre o Norte e o Sul tende a aumentar devido ao em excesso, de certos gases, tais como: gás carbônico,
tipo de trocas internacionais. Os produtos oferecidos pelos metano, entre outros. Esses gases funcionam como vidro
países pobres no mercado mundial - matérias-primas e das estufas agrícolas. Deixam penetrar a luz e não deixam
produtos semi-elaborados – vêm perdendo valor frente à sair o calor, provocando o aquecimento da atmosfera.
produção dos países ricos, centrada na inovação Estudos revelam uma elevação progressiva na temperatura
tecnológica. Para compensar essa tendência, os países do nosso planeta. Nos últimos 100 anos, a Terra sofreu uma
pobres tentam aumentar a produção dirigida para a elevação de 0,5°C. Se a emissão de gases-estufa continuar
exportação. Para isso, passam a incorporar novas áreas já em ritmos crescentes, as conseqüências poderão
ocupadas e vêm substituindo a produção voltada para o comprometer seriamente a vida na Terra. Nesse caso, as
mercado interno por artigos de grande demanda principais conseqüências seriam as mudanças climáticas
internacional. Isso resulta em aumento do preço dos capazes de:
alimentos em seus mercados internos e aumento da fome, • modificar a distribuição da flora e da fauna na superfície
além ele uma ocupação desordenada das áreas de florestas terrestre;
e uma superexploração dos solos, o que demonstra a intensa • alterar o perfil dos continentes por elevação do nível dos
deteriorização do meio ambiente. oceanos;
• destruir, por alagamento, centros urbanos localizados à
PROBLEMAS AMBIENTAIS MAIS COMUNS beira-mar, etc.

Poluição atmosférica A chuva ácida


A poluição associa-se à idéia de modificação, tanto na A presença de componentes estranhos na atmosfera
estrutura quanto na composição dos ecossistemas, (principalmente óxido de nitrogênio e de enxofre) tem sido
causando prejuízo aos seres vivos. Neste contexto está a responsável pela ocorrência das chuvas ácidas. Na
atmosfera, que mais e mais sofre alterações devido à atmosfera, essas substâncias reagem quimicamente e
emissão de resíduos sólidos e gasosos em quantidade produzem os ácidos sulfúrico e nítrico. Esses gases, ao
superior à sua capacidade ele absorção. Essa poluição atingirem a Terra sob a forma de precipitações, alteram
deriva de várias fontes: também a composição química do solo e das águas
• dos meios de transporte, que nas cidades são prejudicando as formações florestais e as lavouras. Além
responsáveis pela maior parte da poluição atmosférica, disso, a ação corrosiva dos ácidos sulfúrico e nítrico atingem
pois fortemente as estruturas metálicas, as edificações, além de
• emitem gases como o monóxido e o dióxido de carbono, provocar sérios problemas à saúde da população.
óxido de nitrogênio, dióxido de enxofre, derivados de
hidrocarbonetos e chumbo; A Questão da Água
• das indústrias que, além do gás carbônico, também
emitem enxofre, chumbo e outros metais pesados e Escassez
diversos resíduos sólidos; Cerca de 1 bilhão de pessoas não têm acesso à água limpa.
• das queimadas das matas e capoeiras, que também geram O problema que atingi quase a metade da população mundial
altos índices de gás carbônico; em 2050. Para reverter o quadro, a ONU estabelece a meta
• da incineração de resíduos sólidos; de reduzir pela metade o número de desassistidos até 2015.
• da poluição natural provocada pelas erupções vulcânicas. Agricultura
Os cultivos agrícolas consomem a maior parte da água
A alta concentração desses poluentes eleva na atmosfera a disponível no mundo, e a tendência é essa demanda cresce
quantidade de microorganismos que provocam doenças pois a produção de alimentos deve aumentar para sustentar
como: distúrbios respiratórios, alergias, lesões degenerativas o crescimento populacional.
no sistema nervoso, câncer e outras. A poluição atmosférica
tende, portanto, a modificar profundamente as funções da Desperdício
atmosfera gerando conseqüências inesperadas, tais como Cerca de 40% da água que circula pelas redes de
destruição da camada de ozônio, o efeito estufa, as chuvas abastecimento perde no trajeto.
ácidas, os desequilíbrios climáticos, etc.
No Brasil
Destruição da camada de ozônio Apesar de ser o país com maior abundância de água,
O ozônio é um gás encontrado na estratosfera, entre 20 e 35 apresenta outra desigualdade em sua distribuição. Cerca de
km de altitude, formando uma camada de 15 km 80% dos recursos hídricos estão na Amazônia, região onde
aproximadamente. Essa camada funciona como um filtro que vivem menos de 5% dos brasileiros. Enquanto nas cidades
protege a Terra da radiação ultravioleta emitida pelo Sol. 89,1% da população tem acesso a redes de distribuição, no
Esse tipo de radiação é nocivo à saúde e provoca campo esse índice é de apenas 17,8%.
principalmente câncer de pele e doenças oculares. Em
decorrência da ação de poluentes no planeta, cientistas vêm DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E AÇÕES
alertando sobre a redução da camada de ozônio, decorrente, GOVERNAMENTAIS
sobretudo, do uso do CFC, ou seja, compostos gasosos de A partir do momento em que o ser Humano foi forçado, pela
carbono contendo cloro e flúor, também chamados de carência de recursos naturais, a se fixar num determinado
clorofluorcarbonetos. Esses gases são utilizados espaço físico, teve início o desenvolvimento das primeiras
principalmente como substâncias refrigerantes em atividades econômicas, como a agricultura, a pecuária e a
geladeiras, condicionadores de ar e como propelente em criação de animais domésticos. Sua relação com a natureza
frascos de aerosois. se tornou predatória, afetando a biodiversidade e
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degradando cada vez mais as três camadas globais, levando Vinte anos após Estocolmo, acontece na cidade do Rio de
a uma possível destruição total do planeta. A física nuclear, a Janeiro a segunda conferência mundial para o meio
bioquímica, a ciência espacial, a petroquímica, etc. ambiente, a Rio ou Eco 92. Marcada pelas divergências entre
estabelecem o "equilíbrio do terror", racionalizando a teoria os interesses do "norte" em relação aos países do "sul", esta
da “destruição mútua assegurada". E a fase das guerras conferência teve como base o "relatório Brundtland”, que
localizadas rio Terceiro Mundo, como as guerras das defendia alterações no modelo consumista tual propondo a
Coréias, Vietnã, Cuba, Nicarágua, etc. Essa situação sua troca por um modelo mais sustentável ecologicamente.
perdurou até a década ele 70, onde os gastos com a corrida
armamentista atingem um nível insuportável, inclusive e ECO RIO – 92 – A CONFERÊNCIA DO RIO
principalmente para os países do 3° Mundo. A Conferência das Nações Unidas para o Meio Ambiente e o
Desenvolvimento, mais comumente chamada de "Fórum
Em 1972, ocorre a Primeira Conferência Internacional Global", realizou-se no Rio de Janeiro, de 3 a 14 de junho de
Sobre Meio Ambiente em Estocolmo que, em resumo, 1992. O seu desafio principal era o de "estabelecer a
procura alertar o mundo, principalmente as superpotências fundação de uma associação global entre os países em vias
da época, quanto à forma de desenvolvimento econômico e de desenvolvimento e os países mais industrializados, tendo
tecnológico que estava sendo implantado nas últimas como base as suas necessidades mútuas e os seus
décadas e seus resultados devastadores em relação às interesses comuns, com o intuito de assegurar o futuro do
condições naturais do planeta. A fase da "neurose nuclear" e planeta" e de se encontrar um "equilíbrio justo e viável entre
das armas químicas e biológicas começa a despertar uma o meio ambiente e o desenvolvimento". Delegações de 179
consciência ambiental. Pela primeira vez, de forma mais Estados participaram desse encontro. Diversas
organizada, o ser humano torna conhecimento sobre manifestações se realizaram à margem da reunião política,
assuntos e palavras como ecologia, biodiversidade, congregando representantes de organizações não
consciência ecológica ou ambiental e surgem as primeiras governamentais (ONGs), cientistas e industriais.
Organizações Não-Governamentais (ONGs). Os próximos
anos seriam de um avanço nos estudos sobre as AGENDA 21
degradações ambientais inimagináveis nas décadas A Agenda 21 é um plano de ação para ser adotado global,
anteriores; o efeito estufa, a ruptura na camada de ozônio, as nacional e localmente, por organizações do sistema das
chuvas ácidas, o envenenamento dos solos e das águas, a Nações Unidas, governos e pela sociedade civil, em todas as
maré vermelha, a maré negra, as ilhas de calor, a inversão áreas em que a ação humana impacta o meio ambiente.
térmica alcançam destaque na imprensa mundial e passam a Constitui-se na mais abrangente tentativa já realizada de
ser assuntos obrigatórios nos currículos escolares. Na orientar para um novo padrão de desenvolvimento para o
conferência da Suécia ficou bem claro o antagonismo de século XXI, cujo alicerce é a sinergia da sustentabilidade
idéias entre aqueles que defendiam o "desenvolvimento zero" ambiental, social e econômica, perpassando em todas as
e aqueles que defendiam o “desenvolvimento a qualquer suas ações propostas.
custo". O tempo veio mostrar que os extremismos não
correspondiam à realidade mundial. Contendo 40 capítulos, a Agenda 21 Global foi construída de
forma consensuada, com a contribuição de governos e
As principais resoluções de Estocolmo foram: instituições da sociedade civil de 179 países, em um
• o direito a um ambiente sadio e equilibrado e à justiça processo que durou dois anos e culminou com a realização
social; da Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente
• o planejamento ambiental; e Desenvolvimento (CNUMAD), no Rio de Janeiro, em
• o alerta aos riscos da urbanização descontrolada; 1992, também conhecida por Rio 92.
• a busca de fontes alternativas de energia;
• a ciência deve estar aliada à preservação do meio Além da Agenda 21, resultaram desse mesmo processo
ambiente; e quatro outros acordos: a Declaração do Rio, a Declaração de
• a importância da educação ambiental. Princípios sobre o Uso das Florestas, a Convenção sobre a
Diversidade Biológica e a Convenção sobre Mudanças
Em 1980, como resultado da 1ª Conferência Mundial Sobre Climáticas. O programa de implementação da Agenda 21 e
Meio Ambiente, surge a "estratégia mundial para a os compromissos para com a carta de princípios do Rio
conservação", onde se destacam os seguintes tópicos: foram fortemente reafirmados durante a Cúpula de
• Desenvolvimento Sustentável – significa continuar Joanesburgo, ou Rio + 10, em 2002.
produzindo, porém com o uso racional e controlado dos
A Agenda 21 traduz em ações o conceito de
recursos naturais, isto é, um sistema de exploração mais
desenvolvimento sustentável
racional dos recursos naturais, que preserve o equilíbrio
ecológico, reduzindo os danos ao meio ambiente. A comunidade internacional concebeu e aprovou a Agenda
21 durante a Rio 92, assumindo, assim, compromissos com a
• Nosso Futuro Comum - pela primeira vez, há um estudo
mudança da matriz de desenvolvimento no século XXI. O
que demonstra as desigualdades na distribuição da renda
termo "Agenda" foi concebido no sentido de intenções,
e a pobreza em relação à destruição do meio ambiente. E
desígnio, desejo de mudanças para um modelo de civilização
através desta idéia que surgem os "ecomalthusianos"
em que predominasse o equilíbrio ambiental e a justiça social
como dissidência dos "neomalthusianos" do período da
entre as nações.
Guerra Fria. Os ecomalthusianos alegam que o
crescimento demográfico das populações nos países
Além do documento em si, a Agenda 21 é um processo de
pobres poderá tornar irreversível a recuperação do meio
planejamento participativo que resulta na análise da situação
ambiente degradado.
atual de um país, estado, município, região, setor e planeja o
futuro de forma sustentável. E esse processo deve envolver
Os países pobres passam a ser pressionados pelo grande
toda a sociedade na discussão dos principais problemas e na
capital e pelos países-potências. numa forma de
formação de parcerias e compromissos para a sua solução a
transferência de responsabilidade, esquecendo que esses
curto, médio e longo prazos. A análise do cenário atual e o
países ricos foram os que mais degradaram o meio ambiente
encaminhamento das propostas para o futuro devem ser
para se desenvolverem, se tornaram os maiores
realizados dentro de uma abordagem integrada e sistêmica
devastadores da natureza, sendo responsáveis pela maior
das dimensões econômica, social, ambiental e político-
parte dos desequilíbrios ambientais até agora existentes.
31
institucional da localidade. Em outras palavras, o esforço de Estradas e Destruição - O êxodo da floresta para as
planejar o futuro, com base nos princípios da Agenda 21, cidades foi impulsionado pela abertura de estradas, que
gera inserção social e oportunidades para que as sociedades também levaram para a Amazônia grandes levas de colonos
e os governos possam definir prioridades nas políticas provenientes de outras regiões. As rodovias abrem caminho
públicas. para a ação dos grileiros, que tomam posse de terras
públicas para desmatar. Atrás deles chegam os madeireiros
É importante destacar que a Rio 92 foi orientada para o e depois os agricultores e pecuaristas, que derrubam a
desenvolvimento, e que a Agenda 21 é uma Agenda de floresta. A mata cobre uma área, hoje, 17% menor do que a
Desenvolvimento Sustentável, onde, evidentemente, o meio original - o equivalente a mais de três vezes o tamanho do
ambiente é uma consideração de primeira ordem. O enfoque estado de São Paulo. Somente entre 2004 e 2006, o
desse processo de planejamento apresentado com o nome desmatamento atingiu uma área equivalente à da Jamaica.
de Agenda 21 não é restrito às questões ligadas à
preservação e conservação da natureza, mas sim a uma Desafio Atual - É aumentar o valor econômico da floresta
proposta que rompe com o desenvolvimento dominante, mantida de pé, aproveitando o grande potencial da bio-
onde predomina o econômico, dando lugar à sustentabilidade diversidade. A exploração sustentável de madeira, que segue
ampliada, que une a Agenda ambiental e a Agenda social, ao critérios ambientais, começa a crescer. A Amazônia poderá
enunciar a indissociabilidade entre os fatores sociais e ser compensada economicamente pelos benefícios
ambientais e a necessidade de que a degradação do meio ambientais que fornece ao planeta. Ao abrigar um terço das
ambiente seja enfrentada juntamente com o problema florestas tropicais do mundo, a região é chave para o
mundial da pobreza. Enfim, a Agenda 21 considera, dentre equilíbrio do clima global. O desmatamento promove a
outras, questões estratégicas ligadas à geração de emprego emissão de gases do efeito estufa, aumentando a
e renda; à diminuição das disparidades regionais e inter- temperatura da Terra.
pessoais de renda; às mudanças nos padrões de produção e
consumo; à construção de cidades sustentáveis e à adoção O Plano Amazônia Sustentável - PAS
de novos modelos e instrumentos de gestão. É uma iniciativa do Governo Federal em parceria com os
estados da região amazônica. Propõe estratégias e linhas de
Em termos das iniciativas, a Agenda 21 não deixa dúvida. Os ação, aliando a busca do desenvolvimento econômico e
Governos têm o compromisso e a responsabilidade de social com o respeito ao meio ambiente.
deslanchar e facilitar o processo de implementação em todas
as escalas. Além dos Governos, a convocação da Agenda 21 O Plano tem como objetivo geral implementar um novo
visa mobilizar todos os segmentos da sociedade, chamando- modelo de desenvolvimento na Amazônia brasileira, pautado
os de "atores relevantes" e "parceiros do desenvolvimento na valorização da potencialidade de seu enorme patrimônio
sustentável". natural e sócio-cultural. Suas estratégias estão voltadas para
a geração de emprego e renda, a redução das desigualdades
Essa concepção processual e gradativa da validação do sociais, a viabilização das atividades econômicas dinâmicas
conceito implica assumir que os princípios e as premissas e inovadoras, com inserção em mercados regionais,
que devem orientar a implementação da Agenda 21 não nacionais e internacionais, bem como para o uso sustentável
constituem um rol completo e acabado: torná-la realidade é dos recursos naturais com manutenção do equilíbrio
antes de tudo um processo social no qual todos os ecológico. O PAS se organiza em torno de cinco grandes
envolvidos vão pactuando paulatinamente novos consensos eixos temáticos:
e montando uma Agenda possível rumo ao futuro que se • produção sustentável com inovação e competitividade
deseja sustentável. • gestão ambiental e ordenamento territorial
• inclusão social e cidadania
Carta da Terra (Código de ética planetário) – Carta da • infra-estrutura para o desenvolvimento
Terra é uma declaração de princípios fundamentais para a • novo padrão de financiamento
construção de uma sociedade global no século XXI, que seja
justa, sustentável e pacífica. O documento procura inspirar Desmatamento na Amazônia registra redução de 31%
em todos os povos um novo sentido de interdependência 5 de Setembro de 2006
global e de responsabilidade compartilhada pelo bem-estar
da família humana e do mundo em geral. A versão final da O desmatamento na Amazônia sofreu redução de 31% de 2004 para
Carta foi aprovada pela Comissão na reunião celebrada na 2005, segundo dados divulgados hoje pela ministra do Meio
sede da UNESCO, em Paris, em março de 2000. Ambiente, Marina Silva. A ministra destacou que essa é a primeira
grande queda em nove anos.

Segundo ela, os números refletem o esforço conjunto dos últimos


AMAZÔNIA anos em ações de fiscalização, de ordenamento territorial e fundiário
Recursos Naturais - A região amazônica já era cobiçada na região. “Nós vamos continuar perseguindo, sem baixar a guarda
pelo potencial de suas riquezas desde a chegada dos um minuto, para que de fato a Amazônia consiga debelar todas as
primeiros colonizadores, nos séculos XVII e XVIII. práticas ilegais em relação à floresta”, disse.
Inicialmente, os habitantes tiravam o sustento da pequena
agricultura e do extrativismo vegetal. Os ciclos econômicos Os índices divulgados são do Programa de Monitoramento do
da borracha deram impulso ao crescimento econômico da Desmatamento na Amazônia Legal (Prodes), realizado pelo Instituto
Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O desmatamento total
região.
chega a quase 700 mil quilômetros quadrados, o equivalente a
17,49% da floresta amazônica.
Zona Franca - Manaus, a antiga capital da borracha, voltou a
florescer na economia após a criação da Zona Franca, há 40 O estado do Mato Grosso, responsável por metade do
anos, atraindo indústrias por meio de incentivos fiscais e desmatamento na região, foi o que registrou a maior redução no
redução de taxas alfandegárias. O projeto se enquadrou na período (34%), seguido de Rondônia, com 13%. Apenas Maranhão e
estratégia do governo militar de levar desenvolvimento para a Tocantins, segundo o Prodes, apresentaram aumento no
região de fronteira, com o objetivo de garantir a ocupação desmatamento de 22% e 72%, respectivamente.
territorial e a soberania nacional.
Para 2006, a expectativa é que a redução seja de 11% na Floresta
Amazônica. A estimativa é feita com base em outro sistema de
avaliação, o Detecção em Tempo Real (Deter), levantamento mais
32
simples feito por imagens de satélite. O percentual é calculado em emissões, fora de seus territórios. Dois desses mecanismos
relação à estimativa que havia sido feita para 2005 e não em relação correspondem somente a países desenvolvidos: a
aos dados consolidados apresentados hoje. Implementação Conjunta (Joint Implemention) e o Comércio
de Emissões (Emission Trading); o terceiro, o Mecanismo de
Desenvolvimento Limpo – MDL (Clean Development
Mechanism), que trata de projetos que reduzam ou absorvam
as emissões de GHG. É o único dos mecanismos que torna
possível a participação, no Protocolo, de um país em vias de
desenvolvimento, como o Brasil, mediante a obtenção de
créditos de carbono (Certified Emission Reduction units,
CERs). Espera-se que os distintos “créditos de carbono”,
destinados a obter reduções dentro de cada item, serão
comercializados entre países de um mesmo mercado de
carbono. As negociações acerca d,os detalhes, incluindo a
forma em que se distribuirão os benefícios, estão em
andamento.

Especifica que as atividades compreendidas nos


mecanismos mencionados devem ser desenvolvidas
adicionalmente às ações realizadas pelos países
industrializados dentro de seus próprios territórios.
Entretanto, os Estados Unidos, como outros países, tentam a
O PROTOCOLO DE KYOTO todo custo, evitar limites sobre o uso que podem fazer
1988: A primeira reunião entre os governantes e cientistas desses mecanismos. Permite aos países ricos medir o valor
sobre as mudanças climáticas, realizado em Toronto, líquido de suas emissões, ou seja, contabilizar as reduções
Canadá, descreveu seu impacto potencial inferior apenas ao de carbono vinculadas às atividades de desmatamento e
de uma guerra nuclear. Desde então, uma sucessão de anos reflorestamento. Atualmente existe um grande debate em
com altas temperaturas têm batido os recordes mundiais de relação à essas definições. Há outra cláusula que permitiria
calor, fazendo da década de 1990 a mais quente desde que incluir “outras atividades” entre os sorvedouros de carbono,
existem registros. algumas delas, como a fixação de carbono no solo, são
1990: O primeiro informe com base na colaboração científica motivos de preocupação especial. Determina-se que é
de nível internacional foi o IPCC (Painel Intergovernamental essencial criar um mecanismo que garanta o cumprimento do
Sobre Mudança Climática, em inglês), onde os cientistas Protocolo de Kyoto.
advertem que para estabilizar os crescentes níveis de dióxido
de carbono (CO2) (o principal gás-estufa) na atmosfera, seria A fim de entrar em vigência, o Protocolo de Kyoto deve ser
necessário reduzir as emissões de 1990 em 60%. ratificado por, no mínimo 55 governos, que contabilizem 55%
1992: Mais de 160 governos assinam a Convenção Marco das emissões de CO2 produzidas pelos países
sobre Mudança Climática na ECO-92. O objetivo era “evitar industrializados. Essa fórmula implica que os Estados Unidos
interferências antropogênicas perigosas no sistema não podem bloquear o Protocolo sem o respaldo de outros
climático”. Isso deveria ser feito rapidamente para poder países. Até o momento, 23 países, incluindo Bolívia,
proteger as fontes alimentares, os ecossistemas e o Equador, El Salvador e Nicarágua, já o ratificaram e outros
desenvolvimento social. Também foi incluída uma meta para 84 países, entre eles os Estados Unidos, somente o
que os países industrializados mantivessem suas emissões assinaram. O Protocolo de Kyoto não prevê compromissos
de gases estufa, em 2000, nos níveis de 1990. Também de redução de emissões de gases para países em
contém o “princípio de responsabilidade comum e desenvolvimento, como o Brasil.
diferenciada”, que significa que todos os países têm a
responsabilidade de proteger o clima, mas o Norte deve ser o Mercado de Crédito de Carbonos
primeiro a atuar. Projetos MDL - Mecanismo de Desenvolvimento Limpo Com
1995: O segundo informe de cientistas do IPCC chega a a ratificação do Protocolo de Kyoto, criou-se uma nova
conclusão de que os primeiros sinais de mudança climáticas commodity, o Crédito Carbono, capaz de impulsionar em
são evidentes: “a análise das evidências sugere um impacto escala mundial os projetos certificados conhecidos como
significativo de origem humana sobre o clima global. Um ambientalmente limpos. Esta commodity é um produto que
evidente desafio para os poderosos grupos de pressão em está alinhado com uma política mundial de priorizar a
favor dos combustíveis fósseis, que constantemente responsabilidade social, a excelência ambiental e o
legitimavam grupos de cientistas céticos quanto a essa compromisso dos países com o Protocolo de Kyoto.
questão, para sustentar que não haviam motivos reais de
preocupação. Começou, assim, a corrida dos países desenvolvidos,
1997: Em Kyoto, Japão, é assinado o Protocolo de Kyoto, um grandes poluidores, por meios que minimizem a emissão de
novo componente da Convenção, que contém, pela primeira gases causadores do efeito estufa. Nesse campo, o Brasil
vez, um acordo que compromete os países do Norte a hoje é um player importante, que ganha com a venda dos
reduzir suas emissões. chamados Créditos Carbono no mercado internacional.

Do que trata o Protocolo de Kyoto? As empresas poderão capitalizar seus projetos, vendendo o
Compromete a uma série de nações industrializadas a crédito associado às suas reduções para outros países -
reduzir suas emissões em 5,2%, em relação aos níveis de governos, empresas ou fundos internacionais - que precisem
1990 para o período de 2008 – 2012. Esses países devem atender as cotas fixadas no Protocolo. Com essa
mostrar “um progresso visível” no ano de 2005, ainda que negociação, além de reduzir as emissões globais dos gases
não se tenha chegado à um acordo sobre o significado desse que causam o efeito estufa, acredita que abrirá uma
item. alternativa rentável para atingir o desenvolvimento
sustentável.
Estabelece 3 “mecanismos de flexibilidade” que permitem à
esses países cumprir com as exigências de redução de

33
Relatório do Painel Intergovernamental de Mudanças construção de dois canais que totalizam 700 quilômetros de
Climáticas da ONU sobre o aquecimento global - extensão. Tal projeto, teoricamente, irrigará a região
Concentrações de dióxido de carbono (CO2), metano e óxido nordeste e semi-árida do Brasil. O projeto prevê a construção
nitroso aumentaram notavelmente como resultado das de dois canais, sendo que um deles, o leste, terá cerca de
atividades humanas desde 1750. As conclusões estão 220 km, e trará água ao estado de Pernambuco e levará
descritas no "Resumo para os Formuladores de Políticas", água também para a Paraíba. O canal norte, por sua vez,
que integra a primeira parte do relatório "Mudanças terá 402 km, e também beneficiará Pernambuco e Paraíba,
Climáticas 2007". mais o Ceará e o Rio Grande do Norte. Com previsão de
O documento diz que, até o fim deste século, a temperatura beneficiar 12 milhões de pessoas, o projeto prevê a captação
da Terra pode subir de 1,8ºC até 4ºC. O derretimento das de 1,4% da vazão de 1.850 metros cúbicos por segundo
camadas polares deve fazer com que os oceanos se elevem (m³/s).segundo
entre 18 cm e 58 cm até 2100, dizem os cientistas. Além
disso, tufões e secas devem ser mais intensos.

A polêmica transposição das águas do Rio São Francisco

No Brasil Império, durante o reinado de Dom Pedro II, foi concebido


o primeiro projeto de transposição do Rio São Francisco, visando a
minimizar os efeitos do clima semi-árido no Sertão Nordestino. De lá
para cá, outros projetos se sucederam, mas nunca foram
implementados. Contudo, agora, parece que esse objetivo está
sendo levado a sério, e o governo federal se mobiliza para iniciar o
que seria, juntamente com a Itaipu e a Transamazônica, uma das
maiores obras de engenharia de que nosso país já teve notícia.

Fontes energéticas não poluidoras As sociedades nordestina e mineira se dividem da seguinte forma:
a) A energia nuclear, apesar de ser considerada a de de um lado, estão aqueles que argumentam que a transposição das
maiores riscos, parece ser uma das preferidas, não polui, águas seria a salvação para as populações que vivem na região do
não produz os chamados gases do efeito estufa; Sertão Nordestino; do outro, ambientalistas e técnicos que advertem
b) A energia solar, energia primária, fonte de todas as outras que a transposição será um verdadeiro “tiro no pé”, pois o Velho
Chico (há muito tempo castigado por causa do uso indiscriminado de
energias existentes sobre a terra;
suas águas e pelo crescente desmatamento de suas matas ciliares,
c) A energia marinha, produzida pelo efeito das ondas e o que gera assoreamento — diminuição da profundidade média do
marés, infelizmente, até a presente data, não chamou a rio em função do acúmulo de sedimentos em seu leito) não
atenção de nossos políticos e cientistas; suportaria ceder parte do volume de suas águas. Existe ainda quem
d) A energia eólica, produzida pelo vento, afirma-se ser de afirma que a obra seria duplamente desastrosa, pois não
alto custo, por isso está sendo, de certa forma, pouco possibilitaria a melhora nas condições de vida no Sertão e poderia
explorada; causar sérios problemas ao regime hídrico do Rio São Francisco.
e) A energia proveniente do aproveitamento do gás metano
A quantidade de água desviada do rio seria de cerca de 1,4% da
gerado nos aterros sanitários. Trata-se de uma providência
vazão total no baixo São Francisco. Boa parte desse volume serviria
de suma importância, pois o gás metano ou gás natural é a projetos de agricultura irrigada (principalmente para a produção de
vinte e uma vezes mais poluente que o gás carbônico. Uma frutas para a exportação) e a produção de camarão em açudes.
tonelada de gás metano faz o estrago de vinte e uma Outra parte seria utilizada para abastecer centros urbanos que hoje
toneladas de gás carbônico se atirado na atmosfera. Essa consomem boa parte da água disponível na região.
iniciativa deveria ser subsidiada e incentivada pelos governos
tal sua importância, urgência e necessidade; Entre as alternativas apontadas para a transposição, estão o melhor
f) A hidráulica, decantada em prosa e verso, como ideal e gerenciamento dos recursos hídricos do semi-árido, o investimento
em obras não acabadas, a construção de uma cultura de
não poluente, tem-se chegado a conclusão que não é bem
convivência com a problemática da seca e a busca de alternativas
assim. Destrói e inutiliza grandes áreas, sua flora e fauna, e simples e viáveis.
libera para atmosfera grandes massas de metano, produto
da decomposição anaeróbia da biomassa alagada e Essa temática está em discussão no governo federal, e a obra deve
asfixiada pelas águas das represas; ser iniciada o mais breve possível. Esperamos ao menos que
g)Energia geotérmica que consiste no aproveitamento da criteriosos estudos sobre os impactos ambientais sejam realizados e
energia existente no interior do globo terrestre. que as resoluções retiradas deles sejam respeitadas, pensando-se
no melhor para essa população, que é castigada pelos longos
períodos de seca, e na manutenção do São Francisco.
A Transposição do Rio São Francisco
A transposição do Rio São Francisco se refere ao polêmico e
antigo projeto de transposição de parte das águas do rio São
Francisco, orçado atualmente em R$ 6,5 bilhões, que prevê a
34
LEI DE BIOSSEGURANÇA componentes. Constitui, portanto, um termo abrangente para
A Lei de Biossegurança, aprovada em março de 2005, o grau de variedade da natureza, considerando três distintos
estabelece normas de segurança para as pesquisas níveis para expressar a biodiversidade: variabilidade
científicas, para o uso das técnicas de engenharia genética e genética, diversidade de espécies e de ecossistemas.
para a produção de produtos transgênicos.
O Brasil é um dos poucos países, além da Colômbia,
Polêmica — Os pontos mais polêmicos do projeto de lei Indonésia, China e México, considerado de megadiversidade,
foram a autorização para o uso de células-tronco de o que significa que em nosso território existem centenas de
embriões em pesquisas e a aprovação do plantio de plantas milhares de espécies vegetais e animais, além de uma
transgênicas. grande sóciodiversidade, ou seja, diferentes culturas,
especialmente as indígenas.
Células-tronco — A lei autoriza o uso de embriões humanos
congelados há mais de três anos em clínicas de fertilização De 1,4 milhão de organismos já catalogados pela ciência,
para a pesquisa de células-tronco. Os cientistas buscam cerca de 10% do total vive no Brasil, e existem milhares de
descobrir formas de usar esse tipo de célula na cura de outros seres vivos ainda não catalogados ou estudados.
doenças, pois ela tem capacidade de se transformar nos Essa enorme biodiversidade, a maior do globo, existe
vários tecidos do corpo humano. principalmente nas matas tropicais, e o país possui a maior
parte das que existem no planeta: floresta Amazônica, mata
Transgênicos — Os transgênicos são organismos Atlântica e Pantanal se destacam nesse aspecto.
geneticamente modificados, ou seja, que receberam genes O problema é a progressiva perda da biodiversidade (e da
de uma espécie diferente, mas continuam dotados de sóciodiversidade) com os desmatamentos, a extinção de
capacidade reprodutora e de transferência de material inúmeras espécies de animais, o extermínio dos indígenas.
genético. Há oposição a seu uso, pois falta certeza de que Isso é gravíssimo, pois a diversidade, seja biológica seja
não causem danos ao meio ambiente nem à saúde humana. cultural, é básica para a sobrevivência e o aperfeiçoamento
da humanidade. A Carta Mundial para a Natureza, da ONU,
ÁREAS DE PRESERVAÇÃO AMBIENTAL por exemplo, reconhece que o ser humano é parte da
A questão da preservação e da conservação ambiental natureza e que toda forma de vida merece respeito,
ganha destaque no Brasil a partir da década de 1970, com o independentemente de sua utilidade para ele.
surgimento de pequenos grupos que apontam a necessidade
de incluir o tema do meio ambiente nas discussões da Outro fator importante para se considerar a necessidade de
sociedade. Na década seguinte, com a redemocratização do preservação da biodiversidade relaciona-se à evolução das
Brasil, cresce o número de organizações não espécies para se adaptarem às mudanças ambientais,
governamentais ambientalistas e surgem novas propostas de especialmente as climáticas. A extinção de espécies causada
preservação do meio ambiente. Algumas se transformam em por fatores naturais sempre ocorreu desde os primórdios da
políticas públicas, dando contornos mais definidos à existência da vida na Terra. Entretanto, graças à
legislação ambiental brasileira. variabilidade genética, os organismos foram capazes de se
adaptar a essas mudanças com o surgimento de novas
Na Constituição – Antes de 1988, o país já possuía leis que espécies. Com o acelerado processo de destruição em
tratavam da questão ambiental. O Código Florestal, por marcha, ocasionado pela ação humana, limita-se o processo
exemplo, é de 1965 e previa diversas sanções penais para evolutivo para adaptação às mudanças climáticas em curso.
os crimes contra o meio ambiente, embora elas não fossem
detalhadas. A Constituição de 1988 consolida o processo A biodiversidade torna-se mais importante ainda com o
legal e institucional. O capítulo que trata do meio ambiente avançar da Terceira Revolução Industrial, pois esta baseia-
enfatiza a necessidade de sua defesa e preservação e se, entre outros setores de ponta, na crescente importância
procura estabelecer mecanismos para que isso ocorra. Para da biotecnologia. A cada dia descobrem-se novos usos para
os especialistas, o grande problema é conseguir que essa os produtos da natureza, especialmente com a engenharia
legislação saia do papel e seja efetivamente aplicada, já que genética. Nos Estados Unidos, por exemplo, 25% dos
muitas leis não foram sequer regulamentadas, como a que medicamentos contêm produtos ou princípios ativos de
protegeria nossa biodiversidade, a mais rica do mundo. Outro origem vegetal. Além disso, surgem novas culturas
destaque na defesa do meio ambiente é a criação, em 1989, alimentícias e industriais pelo melhoramento genético de
do Instituto Brasileiro do Meio Ambiente (Ibama). Entretanto, espécies e a extração de princípios ativos de utilização na
o avanço da legislação e a possibilidade de uma fiscalização medicina e no controle natural de pragas e doenças na
mais rígida esbarram no ainda escasso volume de recursos agropecuária.
destinados às questões ambientais e na falta de articulação
entre os governos federal, estaduais e municipais, sociedade Aliás, é na biotecnologia que a humanidade deposita suas
civil, e mesmo entre os vários órgãos federais, que esperanças para resolver o problema da produção de
freqüentemente se opõem a questões como o uso da terra alimentos. E a biotecnologia necessita da biodiversidade,
ou dos recursos hídricos. pois novos princípios ativos e novos genes costumam ser
descobertos com o estudo de seres vivos. Quanto maior a
Lei de Crimes Ambientais – A lei nº 9.605, sancionada em variedade de seres vivos, maior a riqueza genética e maiores
fevereiro de 1998 e regulamentada em setembro de 1999, as chances de descobrir novas substâncias úteis para a
estabelece as penas para as infrações e agressões humanidade.
cometidas contra o meio ambiente no Brasil. Prevê multas
que chegam a 50 milhões de reais para uma variedade de A Amazônia desperta particular interesse nesse aspecto,
infrações: pesca em locais proibidos, crimes contra o pois 51% das espécies de plantas tropicais estão situadas
patrimônio, soltura de balões, pichações, caça ilegal, obras nessa região, que vai da América Central até o norte da
poluidoras, queimadas e desmatamento. América do Sul. A dificuldade está no atual pouco
conhecimento sobre o número de espécies existentes ou
A questão da biodiversidade sobre a grande complexidade da ecologia e distribuição
Biodiversidade é um conceito que engloba todas as espécies geográfica de espécies tão distintas como mamíferos,
de plantas, animais e microrganismos, assim como os árvores, insetos ou fungos. Os desmatamentos contínuos na
ecossistemas e processos ecológicos dos quais são Amazônia brasileira vêm exterminando um razoável número
35
de espécies, constituindo assim uma degradação de
importante patrimônio genético da humanidade.

Essa questão da biodiversidade e da biotecnologia — em


particular quanto a quem deve lucrar com ela, se os países
detentores desse recurso natural, normalmente do Sul, ou os
países detentores da tecnologia para descobrir e patentear
novos princípios, em geral os do Norte — tem ocasionado
um acirrado debate entre os países ricos, liderados pelos
Estados Unidos, e os países subdesenvolvidos. Os primeiros
querem minimizar a importância da natureza em si e valorizar
a tecnologia. Assim, o importante não seria onde existe tal
planta ou animal, mas quem primeiro os estudou e
patenteou. Os países do Sul pensam que também é
importante, e muito, quem tem a biodiversidade, quem tem a
riqueza natural, que deve ser valorizada.

12/10/2007 - Al Gore e IPCC ganham o Prêmio Nobel da Paz

O ex-vice-presidente dos EUA Al Gore, 59, e o IPCC (Painel


Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas, na sigla em inglês)
são os vencedores do Prêmio Nobel da Paz 2007.
A sociedade vem se organizando para combater este
Gore foi vice-presidente durante as gestões de Bill Clinton. Ele se problema através de ONG's, das comunidades, de
candidatou à Casa Branca pelo partido democrata em 2000, numa particulares ou dos governos compromissados com esta
eleição que tornou George W. Bush presidente. No ano passado, um
causa. Muito do que há em nossos lixos pode e deve ser
longa-metragem estrelado pelo ex-presidente ("Uma Verdade
Inconveniente") levou o Oscar de melhor documentário. reaproveitado.

Os ganhadores foram anunciados nesta manhã, em Oslo, na Devemos primeiro reduzir a produção de lixo (evitando o
Noruega, pelo Comitê do Nobel da Paz. Com a premiação, o comitê desperdício); depois reaproveitar o máximo e finalmente
disse querer chamar a atenção do mundo para a ameaça reciclar.
representada pelo aquecimento global. 3Rs: reduzir – reaproveitar – reciclar
O comitê destacou os esforços de ambos para "construir e divulgar
um maior conhecimento sobre a mudança climática causada pelo
homem e por fixar a base das medidas que são necessárias para
resistir a essa crise".

O IPCC, um painel da ONU que reúne cerca de 3 mil cientistas e


especialistas de várias áreas, é tido como a principal autoridade
científica sobre aquecimento global.

No ano passado, o Nobel destacou também o trabalho de uma


pessoa e de um organismo: o bengalês Mohammad Yunus,
conhecido como o "banqueiro dos pobres", e seu banco, o Grameen
Bank.

Segundo o Comitê Nobel, a mudança climática é um dos fatores que


podem ameaçar "as condições de vida de grande parte da
humanidade".

Com os relatórios emitidos durante as últimas duas décadas o IPCC


criou um "consenso amplo sobre a conexão entre a ação do homem
e o aquecimento global". Al Gore foi, segundo a premiação, um dos
principais políticos ambientalistas.

"Seu grande compromisso, refletido em sua atividade política, suas


conferências, seus filmes e seus livros reforçaram a luta contra a
mudança climática. É provavelmente a pessoa que fez mais para
criar uma consciência mundial sobre as medidas que devem ser
adotadas", ressaltou o a organização, em comunicado.

O problema do LIXO URBANO


Um dos maiores problemas da sociedade moderna é a
produção exacerbada de lixo, seja ele doméstico, urbano,
industrial ou hospitalar devido ao aumento populacional, à
corrida desenfreada do consumo de produtos, à ausência de
políticas públicas preventivas e a escassez de recursos não
renováveis.

36
APÊNDICE comando da América), para a "Doutrina Truman", assumindo
o comando mundial.
HISTÓRIA ECONÔMICA Para isso ocorreu a Conferência de Bretton Woods nas
proximidades da cidade de Washington. Pode-se dizer que
GLOBALIZAÇÃO, NEOLIBERALISMO E esta conferência foi o "pontapé inicial" para que, nas
BLOCOS ECONÔMICOS próximas décadas, fossem surgindo novas organizações
mundiais para atenderem aos interesses da superpotência
O que é Globalização – Definição norte-americana.
Podemos dizer que é um processo econômico e social que
estabelece uma integração entre os países e as pessoas do Conferência de Bretton Woods (1944)
mundo todo. Através deste processo, as pessoas, os Reunião cujo objetivo principal era restabelecer uma ordem
governos e as empresas trocam idéias, realizam transações monetária internacional, de acordo com a nova realidade nas
financeiras e comerciais e espalham aspectos culturais pelos relações de poder do pós-Segunda Guerra Mundial. Havia a
quatro cantos do planeta. O conceito de Aldeia Global se necessidade de se definir as novas regras para regular as
encaixa neste contexto, pois está relacionado com a criação relações econômicas e comerciais entre os países.
de uma rede de conexões, que deixam as distâncias cada
vez mais curtas, facilitando as relações culturais e Banco Mundial
econômicas de forma rápida e eficiente. O Banco Mundial é dividido em quatro organizações para
atuação de acordo com objetivos específicos, mas que no
É fenômeno que engloba tanto a internacionalização como a fundo se complementam. Dentre elas, o BIRD - Banco
transnacionalização, mas que avança, atingindo outros Internacional para Reconstrução e Desenvolvimento é o
valores numa sociedade, como a uniformização mais ligado ao Brasil pois diretamente com os governos dos
comportamental devido à massificação dos sistemas de países subdesenvolvidos, facilitando para que adquiram
informação, uma sociedade se globaliza na proporção direta credibilidade no Mercado Internacional e fazendo a
de sua capacidade de consumo, principalmente através de intermediação entre o Mercado Financeiro Internacional e as
imagens e informações transmitidas pelos meios de necessidades de recursos destes países. Oferece assessoria
comunicação, como a televisão. O que a globalização técnica e econômica através de suas equipes ou missões,
apresenta para uma sociedade não são somente produtos, como são chamadas.
mas sim idéias quanto ao mercado, à democracia, à
educação, à família, à sexualidade, ao trabalho, lazer, etc. Portanto, o BIRD recorre ao Mercado Financeiro
Internacional, fazendo empréstimos a juros de mercado e
Origens da Globalização e suas características repassa estes empréstimos a juros mais altos para os países
A segunda metade do século XIX e a primeira metade do do Terceiro Mundo. Quando o BIRD toma esta atitude, o país
século XX podem ser consideradas de várias formas, entre favorecido passa a ter maior credibilidade no Mercado
elas, como uma etapa da história da humanidade de uma Financeiro Internacional e, além dos empréstimos diretos do
dinâmica de transformações significativas: o término das BIRD, pode recorrer aos bancos e financeiras privadas para
revoluções burguesas, início das revoluções socialistas conseguir mais dinheiro.
(Rússia em 1917); o surgimento das potências emergentes,
como os EUA, o Japão e a Rússia, em concorrência com os O Fundo Monetário Internacional (FMI) assume a
impérios europeus, principalmente com o Império britânico; responsabilidade de acompanhar, fiscalizar e exigir o
os avanços tecnológicos que aumentam a produção, a cumprimento das medidas impostas pelo BIRD. Para isto
produtividade e a diversidade industrial, acelerando o elabora o plano econômico neoliberal, que respeitando a
consumismo com um aumento na exploração dos recursos realidade política, econômica, cultural e social de cada país,
naturais seguido de uma degradação ambiental superior à seu objetivo principal não modifica, que é abrir ou
homeostase, isto é, superior à capacidade de recuperação internacionalizar a economia dos países do Terceiro Mundo,
natural, com a formação de mercados consumidores no como o Plano Real, no Brasil, e o Plano Cavallo, na
Terceiro Mundo; expansão e posterior esgotamento da fase Argentina.
neocolonial, modificando de forma drástica a forma de
produção e, por conseqüência, a realidade sociocultural dos A Organização Mundial do Comércio (OMC)
povos africanos, americanos e da Ásia Tropical. Após a depressão de 1930, muitos países recorreram a
diversos tipos de barreiras comerciais que protegiam as
A disputa pela hegemonia mundial provoca a Primeira atividades econômicas locais da concorrência estrangeira:
Guerra, a primeira revolução socialista vitoriosa na Rússia, tarifas elevadas, restrições quantitativas, controle do câmbio,
seguida da crise de superprodução do sistema capitalista em restrições sanitárias, etc.
1929 e chega ao auge com a Segunda Guerra Mundial
terminando, assim, com a fase do capitalismo industrial e A Organização Mundial do Comércio é uma entidade
iniciando o que hoje classificamos de capitalismo financeiro. internacional, formada em 1995 hoje formada por 148 países.
Sua missão é criar regras para o comércio entre seus
Estas mudanças alteram as relações internacionais de forma aderentes, segundo o princípio da liberalização, no qual não
radical quanto ao seu eixo de comando, onde a "Nova Roma" devem existir barreiras (como impostos de importação) para
(EUA) substitui os impérios europeus. Em resumo, para a compra e a venda de produtos, não importa qual seja sua
substituir os antigos mandatários internacionais, a origem.
superpotência capitalista precisa criar novas estruturas
econômicas, políticas, financeiras e militares que atendam A fim de evitar a continuidade dessas restrições ao comércio,
aos seus interesses e esvaziem os poderes dos antigos que segundo a teoria econômica diminui o nível de bem-estar
"donos" do planeta. das nações envolvidas, foi previsto, após a Segunda Guerra
Mundial, criar-se uma organização que teria como finalidade
Para que isto ocorresse, os EUA precisavam de novas a redução dos obstáculos ao intercâmbio comercial, a
formas de parceria como também de novas entidades elaboração de um código de normas comerciais, bem como
internacionais que através de suas ingerências, atuar como um instrumento de ação internacional no campo
transformassem os princípios da "Doutrina Monroe" (o do desenvolvimento do comércio internacional.
37
acompanhamento mais próximo das atividades do Estado, ao
Regras - As leis da OMC são negociadas entre seus mesmo tempo em que este próprio Estado está diminuindo
membros. Todos têm poder de voto igual. Os acordos são seu poder de dominação com as medidas neoliberais.
feitos nas rodadas de negociação. Atualmente, a OMC está Portanto, não podemos dizer que houve um aumento no
na rodada de Doba, de 2001 a 2007. O principal objetivo da índice de corrupção, incompetência administrativa, enfim, de
rodada é derrubar os subsídios agrícolas. prepotência das autoridades e mau uso dos recursos
públicos, o que aumentou foi a transparência das
Protecionismo - Os países ricos gastam 300 bilhões de informações e a capacidade de cobrança da sociedade.
dólares por ano em subsídios. Impõem ainda taxas de
importação, cotas e restrições. As demais nações também Consenso de Washington e o Neoliberalismo
buscam proteger ramos de sua economia sensíveis à Conjunto de medidas formulado em novembro de 1989 por
competição externa. As negociações na OMC visam a economistas de instituições financeiras baseadas em
reduzir as barreiras. Disputas Enquanto não se chega a um Washington, como o FMI, o Banco Mundial e o
acordo sobre os subsídios, os membros da OMC podem usar Departamento do Tesouro dos Estados Unidos,
as regras já acordadas para se proteger, caso se sintam fundamentadas num texto do economista John Williamson, e
lesados pela política de um país. Se não houver um acordo, que se tornou a política oficial do FMI em 1990, quando
pode-se iniciar um processo. Caso perca, o réu deve acatar a passou a ser "receitado" para promover o "ajustamento
sentença da OMC, ou sujeita-se a retaliações econômicas no macroeconômico" dos países em desenvolvimento que
mesmo valor do prejuízo causado. passavam por dificuldades.

Vitórias do Brasil na OMC - Dos 22 processos que já Foi usado ao redor do mundo para consolidar o receituário
iniciou, o Brasil teve ganho de causa total ou parcial em de caráter neoliberal - na onda mundial que teve sua origem
todos. As maiores vitórias foram no campo da agricultura. Os no Chile de Pinochet nos anos 70, sob orientação dos
EUA foram condenados a retirar seus subsídios ao algodão. “Chicago Boys” e posteriormente na Inglaterra de Margareth
A União Européia teve de cortar em 39% o preço de seu Thatcher e pelos Estados Unidos de Ronald Reagan nos
açúcar subsidiado. anos 80.
O FMI passou a recomendar a implementação dessas
O Processo de Globalização no Terceiro Mundo medidas nos países emergentes, durante a década de 90,
Como sistema socioeconômico, o capitalismo passa por como sendo uma fórmula infalível, destinada a acelerar seu
ciclos de crescimento, intercalado por fases de estagnação. desenvolvimento econômico.
Esta situação é conseqüência direta dos momentos onde
ocorrem avanços tecnológicos, que vão refletir em novas As dez regras básicas do Neoliberalismo:
formas de produção, com novos fatores que indiquem a 1. Disciplina fiscal
importância de cada país ou bloco de países, na nova 2. Redução dos gastos públicos
realidade de relações de poder, quanto ao comando e o grau 3. Reforma tributária
de dependência. O processo de globalização fortaleceu mais 4. Juros de mercado
ainda os processos anteriores, aumentando a dinâmica de 5. Câmbio de mercado
internacionalização e transnacionalização em níveis jamais 6. Abertura comercial
esperados pelos especialistas. 7. Investimento estrangeiro direto, com eliminação de
restrições
Os países centrais entram na fase pós-urbano/industrial, isto 8. Privatização das estatais
é, detêm o controle sobre a nova tecnologia e o sistema 9. Desregulamentação (afrouxamento das leis econômicas
financeiro, enquanto a maioria das fábricas, principalmente e trabalhistas)
aquelas que exigem elevado uso de matéria-prima, recursos 10. Direito à propriedade
energéticos, que não necessitam de mão-de-obra muito
qualificada, e degradam o meio ambiente são transferidas
para os países periféricos. Quanto menor for a importância BREVE HISTÓRICO DA ECONOMIA BRASILEIRA
da fábrica, maior será sua distância em relação aos países
centrais. A etapa agro-exportadora - 1822-1930
De uma maneira bem sintética podemos dizer que o Brasil
Está caracterizado o modelo atual, onde deve ser desde a Independência até a crise de 1929/30 alinhou-se
desconcentrado, distribuindo a produção para o Terceiro entre os seguidores da doutrina econômica liberal.
Mundo das atividades mais antigas, enquanto fica mantida a Acreditava-se que o país obrigava-se a uma posição fixa no
concentração do high tech e do poder de capital. Os cenário internacional, uma região fornecedora de produtos
laboratórios e centros de pesquisas, com pessoal altamente agrícolas e minerais a serem exportados. No período colonial
qualificado, e os centros financeiros ficam concentrados nos eles foram basicamente a cana-de-açúcar no Nordeste e o
países centrais, enquanto fábricas de automotores, ouro e os diamantes das Minais Gerais. No período da
eletrodomésticos, brinquedos, siderurgia, química pesada, Independência, com o desaparecimento do ouro e dos
etc. são rapidamente transferidas para os países pobres. diamantes, emergira o café como seu principal produto
Está apresentado um dos motivos para a privatização das exportador, seguido do algodão, do cacau e de carnes e
estatais no Terceiro Mundo. couros. Dada sua vastidão territorial e sua tradição, o Brasil
encontrava-se “vocacionado para a agricultura”,
O Brasil, a exemplo dos demais países latino-americanos, abandonando qualquer veleidade de acelerar um processo
está lutando para assumir este novo papel nas relações de industrialização além daquelas consideradas básicas para
internacionais, mas esta nova forma de dependência exige amparar a produção agro-exportadora. Socialmente, em
mudanças internas estruturais, tanto econômicas como apoio aberto a esta doutrina liberal de obediência à “vocação
financeiras que vão refletir na realidade política, social e natural” agrícola, encontravam-se os fazendeiros do café, os
cultural de sua população. senhores de engenhos e usinas e os estancieiros e criadores
de gado em geral.
O Mundo está cada vez menor, o sistema de comunicação
em massa, quantifica, podendo também até qualificar o A presença do estado lhes era útil basicamente para dar
número de informações para a sociedade, permitindo um apoio a uma política de sustentação de preços, para evitar
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que eles se depreciassem com o aumento da concorrência eram favoráveis a que o estado e não mercado determinasse
internacional (como ocorre com o Acordo de Taubaté, em onde seriam feitos os principais investimentos e quais
1906). Mas de resto seus ideólogos manifestam completo setores deveriam ser privilegiados com isenções ou insumos.
repudio a qualquer outro tipo de presença estatal. Assim
quando o governo da Revolução de 30 instituiu a legislação Um de seus economistas, o brasileiro Celso Furtado,
trabalhista, tentando proteger os trabalhadores do coordenou ações da Cepal em conjunto com o Banco
despotismo fabril, os donos das fábricas queixaram-se que Nacional de Desenvolvimento Econômico (BNDE), para
aquilo era uma interferência indevida na propriedade privada. elaboração de um estudo, que ficou conhecido como
"Esboço de um programa de desenvolvimento para a
A etapa da industrialização - 1930-1990 economia brasileira no período de 1955 a 1960". Esse estudo
Durante quase toda a década de 1930 o Brasil se viu as serviu de base para elaboração do Plano de Metas, que,
voltas com os problemas causados pela Grande Depressão entretanto, não considerou como prioridade uma de suas
que atingiram violentamente a valorização do café e demais principais recomendações: a reforma agrária.
preços agrícolas. Num clima internacional crescentemente
belicoso e de insegurança nas relações internacionais, Pode-se dizer que o governo de Jucelino Kubishek (1956-60)
começou a pensar-se com mais insistência na possibilidade foi quem mais próximo chegou da aplicação das teses
do Brasil iniciar um processo de industrialização que o cepalinas. Recorreu largamente a presença estatal
fizesse ficar menos fragilizado pela desordem mundial. A (construção de Brasília e das BRs) e acelerou a política da
idéia era a autonomia nacional a ser alcançada em setores “substituição das exportações” (atraindo as montadoras de
considerados estratégicos (aço, minas e energia e, automóvel), promovendo simultaneamente a presença do
finalmente, petróleo). capital estrangeiro e o crescimento da industria nacional em
seu apoio.
O papel empreendedor foi totalmente assumido pelo estado.
Em parte isto se deveu ao desprestígio em que se O tripé autoritário - 1964-1984
encontrava o liberalismo então que muitos consideravam Com a derrubada do governo Goulart em 1964, inaugura-se
como o maior responsável pela Grande Depressão. A no Brasil um sistema diferente de todos os anteriores. O
instalação da usina siderúrgica de Volta Redonda foi um dos regime militar apoia-se num tripé composto pelas empresas
tripés em que afirmou-se a industrialização brasileira, os dois nacionais privadas, as corporações multinacionais e as
outros foram implantados no segundo governo Vargas (1951- empresas estatais. Conta com forte simpatia do sistema
54). financeiro internacional, mais intensa na Ditadura Médici, que
permite ao regime fazer enormes investimentos em infra-
Terminada a 2ª Guerra Mundial e derrubada a ditadura do estrutura (hidroelétricas, usina atômica de Angra, ponte Rio-
Estado Novo, os doutrinários do liberalismo brasileiro Niterói, Transamazônica). Os liberais, tendo seus direitos à
voltaram a intensificar sua critica à presença estatal. Desta propriedade garantidos, silenciam perante o intervencionismo
vez sua oposição concentrou-se contra a campanha “O e o crescimento das empresas do Estado (durante o governo
Petróleo é nosso” que começou a mobilizar a opinião pública Geisel, entre 1974-79, mais de 400 delas são criadas).
brasileira a partir de 1947. Esta campanha uma das mais Também não levantam criticas a concentração de poder
apaixonantes da historia do Brasil do século 20 dividiu a amealhado pelo Ministério do Planejamento. A articulação e
sociedade brasileira entre “nacionalistas e entreguistas”. coesão empresarial orquestrada pelo regime militar, o apoio
internacional das finanças, somado a “paz social” garantida
Para os chamados “entreguistas” (a grande imprensa, as pelos órgãos de repressão, permitiram um enorme avanço
grandes representações patronais) a exploração do ouro econômico que fez com que o país atingisse a posição da 8ª
negro deveria ser aberta ao capital estrangeiro, porque o economia do mundo capitalista.
Brasil não dispunha de capitais, não conhecia as técnicas da
prospecção e, também, não confiavam na capacidade do A retomada do (neo)liberalismo
estado brasileiro para tal. Para os “nacionalistas” era ponto O fim, em 1985, do regime militar que adotou sistemática
de honra que a exploração do petróleo devesse ser intervenção e controle sobre a economia, somado ao colapso
monopólio estatal, instituindo-se uma empresa do comunismo soviético em 1989, aceleraram a adoção pela
exclusivamente brasileira para tal objetivo, a Petrobrás. Em elite política e empresarial brasileira dos princípios do
outubro de 1953, depois de uma intensa e emocionante neoliberalismo. Com a vitória dos EUA na Guerra Fria e o
polêmica o Congresso aprovou a formação da Petrobrás. desastre econômico da URSS, as políticas de planificação
ficaram desacreditadas, inclusive as apoiadas pela social-
Como efeito do amplo movimento em favor da democracia européia. Além disso, nos anos 80, políticas
autodeterminação no campo da economia, fundou-se em neoliberais de rejeição às regulamentações estatais e aos
1948 a CEPAL (Comissão Econômica para a América tributos, foram adotadas nos EUA e Grã-Bretanha pelos
Latina e o Caribe, criada pelo Conselho Econômico e Social governos de Ronald Reagan e de Margareth Tatcher,
das Nações Unidas), e que fixou-se em Santiago do Chile. estimulando, dado seu impacto, que o mesmo fosse adotado
Sua argumentação era inteiramente pró intervencionistas. pelo resto do mundo.
Segundo os cepalinos a América Latina no transcorrer de
todo o século XIX adotara os princípios liberais e no entanto Seu argumento básico é de que a estatização correspondeu
não conseguira avançar muita além da estagnação e da a um período da história econômica do pais e deve ser
pobreza. Além disto sua política de exportação de produtos superado por uma outra política que implica na privatização
primários tinha a longo prazo provocado a “deteriorização acelerada do setor estatizado. Segundo eles não é possível
dos termos de troca”, fazendo com que suas exportações, evitar-se o enorme déficit orçamentário e,
proporcionalmente, importassem cada vez menos consequentemente, fonte permanente de tensão
manufaturados do estrangeiro. Era preciso socorrer-se do inflacionária, mantendo-se ou sustentando-se um pesado
estado para estimular um surto industrial bem como proteger setor estatizado. Ao privatizar-se as empresas estatais,
seus manufaturados da competição externa. Defendiam permite-se que a sociedade não só se livre de um trambolho
também o que se chamou de “substituição da exportação”, inoperante como também atraia novos investimentos
uma política que visasse o translado de empresas estrangeiros. O sistema financeiro internacional encara com
estrangeiras com modernas tecnologias produtivas para maior simpatia os países que adotam políticas de
serem implantadas nos países latino-americanos. Igualmente desestatização, pois isto amplia seus mercados de
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empréstimos e permite a que controlem ações de empresas
privatizadas mais promissoras. A União Européia é o mais antigo e o melhor estruturado
entre os 3 megablocos existentes na globalização. Sua
A privatização tem, pois, não só a função de aliviar o déficit formação resulta da necessidade dos países da Europa
público, ao diminuir os gastos na manutenção do setor Ocidental, no pós-Segunda Guerra, e às necessidades dos
estatizado, como é um sinal para o mercado internacional do Estados Unidos, que através do Plano Marshall deu início ao
desejo do pais globalizar-se, isto é, retirar os bloqueios que processo de contenção à tendência expansionista soviética
impeçam o livre fluxo dos capitais, sejam os de investimento neste continente. A base de tudo se deu em 1944 quando foi
direto sejam os especulativos. criado o Benelux - União Econômica entre a Bélgica,
Holanda e Luxemburgo. Em 1952, foi criada a CECA -
Abandonou-se também a maioria das políticas de controle Comunidade Européia do Carvão e do Aço, incluindo ao
dos preços (Sunab ou congelamentos), deixando que eles Benelux, a Alemanha Ocidental (RFA), a França e a Itália,
flutuem ao sabor do mercado. A emissão de moeda tem sido surgindo o Grupo dos 6.
evitada pela privatização da economia e pelo constante
afluxo de aportes de capital especulativo vindo do exterior. Esta união fica mais fortalecida com a formação do Grupo de
Roma, em 1956, formando o MCE – Mercado Comum
IBGE: novo cálculo do PIB vê economia 11% maior Europeu ou CEE - Comunidade Econômica Européia.
21 de março de 2007
Em 1959/60 foi criada e implantada a AELC ou EFTA -
O recálculo do PIB, com nova metodologia aplicada pelo IBGE, Associação Européia de Livre Comércio, unindo o Reino
mostra que a economia brasileira é muito maior do que se imaginava
Unido com os países escandinavos, e é óbvio, para competir
- para ser mais exato, R$ 211 bilhões maior. Em 2005, o Produto
Interno Bruto foi de R$ 2,148 trilhões - 10,9% acima do valor com o Mercado Comum Europeu.
estimado pelo cálculo anterior.
Desde a criação do Grupo de Roma, os objetivos deste bloco
Também foi muito maior do que se estimava o avanço da economia eram chegar ao máximo de integração econômica e
no governo Lula. Em 2003, 2004 e 2005, respectivamente, o monetária, defendendo para o futuro o livre trânsito de
crescimento em relação ao ano anterior foi de 1,1%, 5,7% e 2,9% - pessoas, produtos, tecnologia e capital entre os países-
pela metodologia antiga, as taxas eram de 0,5%, 4,9% e 2,3%. O membros, e se possível chegar a um comando central e a
resultado de 2006 será divulgado na próxima semana. O IBGE
uma moeda única, com a visão de criar no futuro uma
mudou a metodologia de cálculo para tentar medir melhor o tamanho
da economia - a base de dados usada agora é muito mais estrutura nos modelos de uma união política e econômica.
abrangente e precisa, segundo especialistas. Com o cálculo anterior, São os princípios quanto à idéia da Casa Comum Européia.
o instituto não conseguiu "enxergar" uma geração de riqueza de R$
211 bilhões em 2005 - valor que supera a soma dos PIBs de Santa Nas décadas de 60 e 70, outros membros são incorporados
Catarina e do Paraná. A renda per capita do brasileiro também ao MCE, mas a geopolítica mundial, com o acirramento da
aumenta 10,9%, de R$ 10.519 para R$ 11.662 (valor anual em Guerra Fria (EUA x URSS), impede um maior avanço em sua
2005). organização.
O PIB é a soma de todas as riquezas geradas em um país. Uma
fábrica de sapatos que vende um lote por R$ 1 milhão após gastar Nas décadas de 80/90, as mudanças internacionais,
R$ 800 mil na produção, por exemplo, contribui para o PIB com R$ principalmente com a redução dos riscos de uma guerra
200 mil. O trabalho do IBGE é coletar e organizar estatísticas dos nuclear entre as superpotências, abrem espaço para que
mais variados setores econômicos para tentar somar todas essas propostas mais ousadas sejam retomadas pelos países
contribuições e, com isso, traçar um quadro o mais fiel possível do europeus.
tamanho da economia do país.
1986 – O Ato Único Europeu.
GLOBALIZAÇÃO E INTEGRAÇÃO ECONÔMICA • Proposta de transformação do MCE ou CEE em UE ou CE
- Comunidade Européia.
Com a economia mundial globalizada, a tendência comercial
é a formação de blocos econômicos. Estes são criados com 1991 – Assinatura do Tratado de Maastrich.
a finalidade de facilitar o comércio entre os países membros. • Os países mais pobres - Portugal, Espanha, Grécia, e
Adotam redução ou isenção de impostos ou de tarifas República da Irlanda (católica) - alegam que ao adotarem a
alfandegárias e buscam soluções em comum para problemas moeda única, o processo de conversão das moedas
comerciais. nacionais para a moeda única iria prejudicá-los. Além do
lado geopolítico como a perda de um símbolo de
O processo de globalização e integração econômica em nacionalidade ou identidade cultural e histórica. A solução
blocos regionais constitui o elemento dinâmico "construtivo" foi tomar medidas corretivas antes da implantação da
do atual movimento de reordenação das relações União Européia, criando em 1992 o Tratado do Porto.
internacionais, rumo a uma Nova Ordem Global. Na falta de
oposição significativa, o capitalismo desenvolve forte 1992 – Assinatura do Tratado do Porto
tendência a radicalizar suas formas, antigamente • Criação do EEE - Espaço Econômico Europeu.
condicionadas externamente pela Guerra Fria e internamente • Os países mais ricos priorizam seus investimentos na
pela social-democracia. Este fenômeno propicia uma recuperação dos países-membros mais pobres, investindo
aceleração do processo de reestruturação econômica e, em larga escala nos países atlânticos ou mediterrâneos,
consequentemente, da concorrência e rivalidade interpólos. como Portugal, Espanha, Grécia, centro-sul da Itália, o
Uma manifestação desta situação foi a rápida formalização famoso Mezzogiorno e na República da Irlanda, a Irlanda
de novos processos de integração, como o Mercosul e o católica no arquipélago das ilhas britânicas.
NAFTA (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), • O Tratado do Porto impõe a todos os países-membros que
bem como o aprofundamento da União Européia e o o déficit público não pode ultrapassar de 3,5% ao ano a
estabelecimento de alianças entre alguns em detrimento de partir de 1997.
outros. • A inflação de todos os países-membros deve ficar no
máximo 1,5% acima dos três países-membros com menor
UNIÃO EUROPÉIA - União ou Comunidade Européia - UE inflação, no ano anterior à avaliação.
ou CE

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• Estava avançando o pensamento neoliberal com a Constituição – O projeto de Constituição da UE prevê a
proposta de reduzir a capacidade de influência do Estado criação dos cargos de presidente e ministro das Relações
na economia, diminuindo o welfare state - isto é, o estado Exteriores — o que simboliza a unificação das políticas
do bem estar social, provocando queda na qualidade de externa e de segurança do bloco — e o fim da exigência de
vida das populações e ressurgindo o etno-xenofobismo, unanimidade entre os países-membros na tomada de
com a criação de grupos radicais na Europa e, com riscos decisões importantes.
da ultradireita reconquistar o poder em alguns países Por que o “não”? - Grande parte dos franceses votou contra
membros Veja os exemplos atuais na Áustria, Alemanha e o projeto de Constituição por dois motivos principais:
França. expressar descontentamento com o governo do presidente
Jacques Chirac, defensor do “sim”, e a aplicação das
1993 - Início de implantação do Tratado de Maastrich diretrizes da UE no país; e o medo de que as políticas
• Livre trânsito de pessoas, mercadorias, capital e tecnologia neoliberais do bloco acabem com o Estado de bem-estar
entre os países-membros. social vigente no país.
• O melhor exemplo desta situação foi o elevado processo Conselho Europeu - A crise na UE foi agravada na reunião
de migração das regiões periféricas em direção aos países entre os governantes dos Estados-membros, realizada em
centrais, gerando uma super oferta de mão-de-obra, junho de 2006. O objetivo era chegar a um acordo sobre o
menos qualificada, ao mesmo tempo em que os países orçamento do bloco para os próximos anos, mas os líderes
centrais estavam entrando para a fase pós- não conseguiram entender-se. As divergências foram
urbano/industrial, onde as novas formas de produção, com polarizadas por França e Reino Unido.
novas máquinas substituindo os trabalhadores, a Futuro - Ainda não se sabe o que será feito do projeto de
transferência da 2ª RTC para as periferias estava Constituição da UE. O texto pode ser abandonado, colocado
percorrendo caminho inverso, este foi um dos principais novamente em votação onde foi rejeitado, reescrito, ou pode-
fatores que acabaram gerando o recrudescimento dos se esperar o fim do processo de ratificação — que continua
grupos radicais na Europa, a violência, com assassinatos, — para somente depois tomar-se urna decisão.
seqüestros, sem esquecer que as máfias da Europa
Oriental aproveitaram para avançar em direção ao mundo A ALCA e o NAFTA
capitalista da Europa Ocidental. Isto acabou forçando Com as mudanças ocorridas na década de 80, o
alguns países como a Alemanha, Bélgica, França, etc. esfacelamento da Guerra Fria, os EUA precisam refazer sua
para que tomassem o caminho contrário ao proposto pelo geoestratégia de dominação mundial, pois o poder bélico não
Tratado de Maastrich, fechando suas fronteiras para o livre se traduz mais no único fator de supremacia, e os
trânsito dos indivíduos da União Européia. megablocos da Europa e da Ásia estão atuando a pleno
vapor na defesa e implantação da nova ordem mundial. É a
1996 - Tratado de Amsterdã etapa capitalista da globalização e da 3ª Revolução
• Os países da União Européia concordam em preparar as Industrial, a famosa Revolução Tecnológica.
condições para a entrada dos países remanescentes do
ex-bloco socialista, de acordo com a superação da fase de No final da década de 80 e início de 90, o Presidente George
transição; eles serão absorvidos pela EU, até 2010. Bush passa a defender "a iniciativa para as Américas", com a
proposta de uma área de livre comércio para todos os países
1998 - A República Checa, a Polônia, a Finlândia e a da América, à exceção de Cuba, que permaneceria sofrendo
Eslovênia, solicitam suas entradas para a União Européia. o boicote americano; é a proposta de criação da ALCA -
Acordo de Livre Comércio para as Américas. A proposta
1999 - Implantação parcial do Euro - moeda única do ALCA é de criar uma área de livre comércio para toda a
• 11 países adotam o Euro, portanto, ainda é uma moeda América, exceto para Cuba, por isso é bom não confundir
provisória. Nem todos os países membros utilizam a com a idéia de mercado comum, pois zona de livre comércio
moeda. não permite o livre trânsito de pessoas, capital, tecnologia e
mercadorias e nem propõe a unificação de tarifas e impostos
2000 - Os 15 países da União Européia discutem a inclusão entre os países membros.
de mais 15 países na organização, são a maioria dos países
remanescentes do ex-bloco socialista do Leste Europeu. Na década de 90, ocorre o declínio como importância na
Esta inclusão deverá ocorrer de acordo com as mudanças produção industrial do Cinturão das Manufaturas, o grande
implantadas pelos países do leste, quanto mais rápido símbolo da Segunda Revolução, de característica Fordista,
eliminarem o alto poder do Estado em suas economias, mais às margens dos grandes lagos e nordeste dos EUA; com
rapidamente eles serão incluídos na UE. A União Européia suas megalópoles, cidades industriais, e a estrutura fordista
pretende concluir este processo até o ano de 2010. de produção passa a ser chamado de cinturão cinzento ou
cinturão das neves. Como características de decadência, o
2002 - Adoção total do Euro declínio da produção nesta área expulsa milhões de
• Conclusão do Tratado de Maastrich, com pleno trabalhadores para novas regiões do território norte-
funcionamento do megabloco europeu na globalização. - O americano. Há um declínio na produção industrial, mas não
Euro passa a circular como dinheiro na forma de notas e podemos esquecer que é nessa área que encontramos a
moedas para todos os países-membros e para os países- maior concentração de escritórios centrais das grandes
satélites como Andorra, Vaticano, San Marino e Mônaco. empresas norte-americanas, bem como a maior
• Se de fato isto ocorrer, teremos uma união econômica e concentração de financeiras e a maior bolsa de valores do
monetária, que é óbvio resultará, também, numa unificação Mundo.
política e econômica para a União Européia.
Enquanto nas atividades industriais mais antigas começa a
A União Européia hoje substituição da forma de produção pelas novas máquinas,
Crise na União Européia passa por uma das maiores crises gerando excedente de mão-de-obra, nas atividades da
de sua história. O projeto de Constituição, que visa a terceira revolução, há carência de trabalhadores qualificados,
consolidar a integração do bloco e deveria ser aprovado por forçando na necessidade de se recrutar mão-de-obra
todos os países-membros para entrar em vigor, foi rejeitado qualificada em todo o mundo, para atender a carência na
em plebiscitos na França e na Holanda. área de pesquisas e desenvolvimento de novas técnicas e

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produtos na área de tecnologia de ponta, nos países provocaram uma desintegração generalizada das sociedades
desenvolvidos. do subcontinente. A criação do Mercosul em 1991, por outro
lado, articulou um pólo relativamente autônomo na América
Na impossibilidade de implantação rápida do ALCA, pois o do Sul, apesar do perfil neoliberal do processo de integração.
congresso norte-americano não autoriza o ajuste rápido (fast No final da década, porém, mesmo este avanço parece
track), os países Latino-Americanos mais importantes, ameaçado, internamente pela recessão vigente nos países-
principalmente o Brasil, contestam o conteúdo da proposta membros e externamente pela possibilidade do
por não incluir questões sociais e somente econômicas; os estabelecimento da Área de Livre Comércio das Américas
EUA elaboram um projeto alternativo, criando o NAFTA - (ALCA), proposta pelos Estados Unidos. Assim, apesar das
Mercado Livre da América do Norte. potencialidades da anunciada modernização, os anos 90
parecem encerrar-se como uma nova "década perdida".
O Tratado Norte-Americano de Livre Comércio (North
American Free Trade Agreement) ou NAFTA é um tratado O Mercado Comum do Sul foi criado em março de 1991
envolvendo Canadá, México e Estados Unidos da América através do Tratado de Assunção, dando início à integração
numa atmosfera de livre comércio, com custo reduzido para entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai. Tratava-se de
troca de mercadorias entre os três países. O NAFTA entrou uma continuidade e aprofundamento do “acercamento Brasil-
em efeito em 1º de janeiro de 1994. Argentina”, iniciado em 1986, pelos presidentes José Sarney
Em 1988, os EUA e o Canadá assinaram um Acordo de e Raul Alfonsin. No decorrer do processo, o objetivo
Liberalização Econômica, formalizando o relacionamento brasileiro tornou-se mais ousado: a criação de uma Área de
comercial entre aqueles dois países. Em 13 de agosto de Livre Comércio Sul Americana (ALCSA), como meio de
1992, o bloco recebeu a adesão dos mexicanos. O atual lograr uma forma mais eficaz de negociar a inserção numa
NAFTA entrou em vigor em 1994, com um prazo de 15 anos ordem mundial dominada pelos mega-blocos do hemisfério
para a total eliminação das barreiras alfandegárias entre os Norte, bem como contrabalançar o efeito de atração exercido
três países, estando aberto a todos os Estados da América pelo NAFTA sobre muitos países da América do Sul, como o
Central e do Sul. Chile e a Venezuela.

As opiniões sobre este acordo dividem-se: enquanto que Quanto mais se deterioravam as condições internacionais,
alguns consideram que consolidou o comércio regional na mais a política externa brasileira tratou de criar uma nova
América do Norte, beneficiou a economia mexicana e ajudou- realidade regional. Através da integração com os países
a a enfrentar a concorrência representada pelo Japão e pela vizinhos, além de benefícios econômicos mais imediatos, se
União Europeia, outros defendem que apenas transformaram reforçaria a base regional como forma de incrementar a
o Canadá e o México em "colônias" dos EUA, piorou a participação do Brasil e de seus parceiros platinos no plano
pobreza no México e aumentou o desemprego nos EUA. mundial. Neste sentido, o Mercosul não constituía um fim em
Diferentemente da União Européia, a NAFTA não cria um si mesmo, nem o aspecto comercial constituía o objetivo
conjunto de corpos governamentais supranacionais, nem cria essencial, apesar do discurso oficial, mas fazia parte de um
um corpo de leis que seja superior à lei nacional. projeto mais abrangente. Quando os EUA anunciaram a
criação do NAFTA, o Brasil reagiu, lançando em 1993, a
APEC iniciativa da ALCSA (Área de Livre Comércio Sul-Americana)
A APEC (traduzido, Cooperação Econômica da Ásia e do e estabelecendo com os países sul-americanos e africanos a
Pacífico) é um bloco que engloba economias asiáticas, Zona de Paz e Cooperação do Atlântico Sul (ZoPaCAS),
americanas e da Oceania. Sua formação deveu-se à numa estratégia de círculos concêntricos a partir do
crescente interdependência das economias da região da Mercosul.
Ásia-Pacífico. Foi criada em 1989, inicialmente apenas como
um fórum de discussão entre países da ASEAN (Association Em dezembro de 1994, na reunião de cúpula de Miami, o
of the SouthEast Asian Nations) e alguns parceiros presidente Clinton retomou a proposta da criação de uma
econômicos da região do Pacífico, se tornando um bloco zona hemisférica de livre comércio, que receberia a
econômico apenas em 1993, na Conferência de Seattle, denominação de Área de Livre Comércio das Américas
quando os países se comprometeram a transformar o (ALCA). Na reunião, o Brasil defendeu a futura convergência
Pacífico numa área de livre comércio. e cooperação entre os diversos projetos de integração
existentes, rechaçando a possibilidade de acordos bilaterais
A APEC tem hoje 21 membros, que são: Austrália; Brunei com os Estados Unidos. Além disso, o Itamaraty tratou de
Darussalam; Canadá; Chile; China; Hong Kong; Indonésia; assegurar que mesmo este acercamento não deveria
Japão; República da Coréia; Malásia; México; Nova Zelândia; implicar a exclusão de contatos e acordos com outras áreas,
Papua New Guinea; Peru; Filipinas; Rússia; Cingapura; como a União Européia. Neste sentido, face ao avanço da
Taipei; Tailândia; Estados Unidos da América; Vietnam. estratégia norte-americana, o Mercosul iniciou negociações
com a União Européia, que culminaram com a assinatura do
primeiro acordo interblocos econômicos, o Acordo Marco
MERCOSUL Inter-regional de Cooperação União Européia-Mercosul,
A América Latina, desde os anos 80, assistiu ao assinado em Madrid em dezembro de 1995.
esgotamento da industrialização por substituição de
importações e à transição dos regimes autoritários à Além dos sólidos avanços, os acordos do Mercosul com
democracia. A abertura das economias nacionais, a outras áreas, por exemplo, com a Europa e a Ásia Oriental,
transformação do aparelho estatal, a consolidação dos inquietam sobremaneira os Estados Unidos. Assim, desde
regimes democráticos e o encerramento da maior parte dos fins de 1996, mas, sobretudo, após o início do segundo
conflitos armados regionais ou internos, contudo, não mandato do presidente Clinton, Washington tem atacado o
bastaram para solucionar os problemas acumulados na Brasil e o Mercosul por suas práticas comerciais e seu
década precedente. Um a um, os países apontados como acercamento a outros processos de integração. Neste debate
modelos político-econômicos, do México ao Chile, também áspero, o Brasil tem argumentado que o Mercosul, que
mergulharam na espiral de crise que afetava os demais. almeja um mercado comum, constitui um projeto mais
profundo de integração do que o NAFTA, que não passa de
Depois da "década perdida" na economia dos anos 80, os uma área de livre comércio, razão pela qual não poderia ser
custos sociais dos ajustes estruturais dos anos 90 abandonado nem absorvido pela América do Norte.
42
Uruguai e Paraguai, aumentando as exportações
O Mercosul constitui o primeiro objetivo da política externa do brasileiras e reduzindo as importações dos países
Brasil; a busca de novos acordos hemisféricos, o segundo, e vizinhos.
os vínculos extracontinentais, o terceiro. Este foi o espaço de
manobra que restou à diplomacia brasileira, que deve resistir O Mercosul hoje
às pressões norte-americanas aprofundando a cooperação
no âmbito do Mercosul e ampliando seus vínculos externos. Venezuela entra hoje para o Mercosul
Assim procedendo, o Mercosul tem passado a influenciar a 04/07/2006
competição internacional, ainda que seu peso relativo seja
modesto, pois trata-se de um elemento heterodoxo no atual O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, recebe hoje em Caracas
cenário mundial. os quatro presidentes do Mercosul para a festa política que marca a
entrada do país no bloco como membro pleno.
Etapas de criação/implantação do Mercosul O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seus três colegas do Cone
Sul assinarão, no final da tarde, o protocolo de adesão que
1986 - Acordo Bilateral Brasil X Argentina estabelece prazo de até quatro anos para que a Venezuela se
• Término da operação Condor; os EUA não apóiam mais os adapte às principais regras aduaneiras do Mercosul, como a adoção
regimes autoritários. da TEC (Tarifa Externa Comum), e todo o acervo normativo do
• Redemocratização na América Latina. bloco.
• Brasil - Plano Cruzado. Primeiro presidente civil, ainda A reunião extraordinária em Caracas é uma resposta política do
eleito pelo colégio eleitoral, José Sarney, substitui o último bloco ao esforço venezuelano de se incorporar o mais rápido
presidente militar, General João Batista de Figueiredo. possível ao Mercosul, o que é criticado pelo setor empresarial que se
• Argentina - Plano Alfonsin ou Austral. O presidente civil opõe ao governo de Hugo Chávez (leia texto nesta página). A rigor, a
eleito substitui o general Galtieri, responsável pela Guerra assinatura do documento poderia ocorrer no dia 22, durante a
das Malvinas. reunião de cúpula semestral de presidentes do Mercosul, que
acontecerá na cidade argentina de Córdoba. Para o encontro em
Caracas, também foi convidado o presidente da Bolívia, Evo
1991 - Tratado de Assunção
Morales, que já anunciou que pretende se reunir com Lula para
• Proposta de criação do Mercosul. discutir o reajuste do preço do gás vendido ao Brasil.
• Proposta de criar urna área de livre trânsito de pessoas,
mercadorias, capital e empresas no estilo europeu. Pelo protocolo de adesão da Venezuela, acordado entre os
Portanto, não é uma área somente de livre comércio, como chanceleres do bloco em 16 de junho em Buenos Aires, em 2010 o
o ALCA ou o NAFTA. Mas também ainda não é um Brasil e a Argentina deixam de cobrar tarifas de importação a
mercado comum, funcionando primeiro como área de livre produtos venezuelanos, à exceção de uma lista de mercadorias
sensíveis. Em 2012, exportações brasileiras e argentinas, também
comércio.
exceto produtos sensíveis, entram com tarifa zero na Venezuela.
• Países-membros: Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai. Paraguai e Uruguai terão facilidades: as tarifas serão zeradas a partir
já da assinatura.
1995 - Reunião de Ouro Preto (MG)
• O Mercosul passa a funcionar como União Aduaneira.
• Adota a TEC -Tarifa Externa Comum para as importações. 04/07/2006 - Paraguai ameaça deixar Mercosul; Venezuela
• Brasil = Plano Real. Onde um real é igual ou oficializa entrada
aproximadamente igual a um dólar, adotando o sistema de
banda cambial ou câmbio fixo-flutuante. O Paraguai irá deixar o Mercosul se Brasil e Argentina não
interromperem suas práticas protecionistas ou não permitirem a
• Argentina = Plano Cavallo (dolarização ou paridade das
negociação de acordos bilaterais com países de fora do bloco, disse
moedas, um peso = um dólar) ou política de câmbio fixo; o presidente paraguaio, Nicanor Duarte. Sem reformas significativas
somente a Argentina e Hong-Kong funcionam desta forma no bloco, o Paraguai poderá aplicar o "princípio da eutanásia [ao
tão radical. bloco] e deixá-lo, diante da impossibilidade de revitalizá-lo e
emendá-lo", segundo reportagem do diário britânico "Financial
1997 - Reunião de Fortaleza. Times".
• A Bolívia formaliza o pedido de entrada como membro
"Se não houver opções para nossa economia melhorar, para
efetivo, a exemplo do Chile, como “associada” ou "parceira
diversificarmos nossos mercados e nos tornarmos competitivos,
preferencial", até tomar as medidas econômicas qualquer um de nós pode puxar a tomada do aparelho de oxigênio
necessárias. Conseguem privilégios criando uma área de que mantém o Mercosul vivo", disse.
livre comércio com a União Aduaneira dos países-
membros do Mercosul. A ameaça do presidente paraguaio causa mais um abalo no bloco
• Surge a idéia da moeda única. Mas com discordâncias latino-americano, no momento em que a Venezuela deverá integrar o
entre o Brasil e a Argentina. grupo: hoje será assinada, em Caracas, a adesão plena do país ao
Mercosul. Duarte acusa o Brasil e a Argentina de "egoísmo e mesmo
• A integração do Mercosul aumentou em mais de 400% o
de hipocrisia", diz a reportagem. "O Mercosul condena o
comércio entre os países-membros, protecionismo dos EUA e da União Européia, quando as mesmas
práticas persistem entre nós", disse Duarte.
1999 - Crise do Real
• O Brasil abandona a banda cambial, pois não utiliza mais a O Paraguai traz à cena um novo sinal de desunião no bloco: em
reserva cambial para manter próxima a equivalência do maio, foi a vez do presidente uruguaio, Tabaré Vázquez foi a
real com o dólar norte-americano. Washington negociar com o presidente norte-americano, George W.
Bush, uma ampliação das relações comerciais entre os dois países.
• O Brasil adota o câmbio flutuante, permitindo que o valor
Ele afirmou que trabalha para melhorar o Mercosul, "mas que
da moeda nacional oscile de acordo com a lei da oferta e paralelamente defende a diversificação de seus mercados". Duarte
da procura em relação ao dólar. diz que o Mercosul não falhou em fornecer a seus membros menores
• A desvalorização da moeda brasileira inverte a balança os benefícios esperados para suas economias.
comercial com a Argentina, provocando um significativo
déficit para a Argentina, com fuga dos investimentos e das
empresas para o Brasil.
• Ao desvalorizar o real, houve uma valorização dos salários
mínimos, que já eram mais elevados, na Argentina,
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10/04/2007 - Brasil, Argentina, Equador e Venezuela examinam
projeto do Banco do Sul

Técnicos de Brasil, Argentina, Equador e Venezuela analisaram


nesta terça-feira a formação do Banco do Sul, incluindo seu capital
inicial e a futura administração, informou o ministro equatoriano da
Economia, Ricardo Patiño.

"Queremos que seja um banco que conceda recursos financeiros a


nossos países para objetivos como problemas na balança de
pagamentos, liquidez e financiamento de projetos de
desenvolvimento", disse Patiño durante a instalação do comitê, no
porto de Guayaquil (sudoeste).

O ministro reafirmou que através do Banco do Sul acabará a


dependência dos países da região ao Banco Mundial e ao Fundo
Monetário Internacional (FMI). "Não temos qualquer interesse em
seguir pedindo créditos ao Fundo Monetário Internacional. Para nós,
o Banco do Sul é uma aspiração dos povos do sul há muitos anos".
Segundo o enviado brasileiro, Alvaro Luiz Vereda, o projeto
beneficiará o acesso ao crédito na região, e para seu lançamento
falta apenas superar algumas questões técnicas.

Este é o terceiro encontro sobre o assunto, após as reuniões de


Buenos Aires e Caracas. A criação do Banco do Sul, projeto de
integração regional promovido pelo presidente venezuelano, Hugo
Chávez, exigirá um capital inicial de 7 bilhões de dólares.

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