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RACISMO MATA

O racismo não é uma opinião, nem mesmo é uma possibilidade razoável para a
orientação da convivência. Também não serve como base para a realização das
finalidades da vida comum. O racismo é um modo de compreender o mundo e uma
prática pessoal e institucional construída sobre a “certeza” de que diferenças étnico-
raciais são motivo para inferiorizar, para discriminar, para excluir, para eliminar
para matar.

CARTA DE TOPÉ PÃN

Reunidos na aldeia Topé Pãn da nação Kaigang, no Morro do Osso, lutadoras


e lutadores dos povos Kaigang dos territórios do Cantagalo, Lami, os povos
Guarani Mbya dos territórios do Cantagalo, Lami, Capivari e Lomba do Pinheiro,
os quilombos Beco dos Colodianos, Morro Alto, Silva, Flores, Machado e Fidelix,
representando o povo de terreiro o Ilê de Oxum e Ossanha, CPERS, Sindicato das
Trabalhadoras e Trabalhadores dos Correios, Movimento Revolucionário
Socialista, Alicerce, Movimento Nacional de População de Rua, o Semear/UFRGS,
Amigos da Terra Brasil, Conselho Indigenista Missionário – CIMI, Coletivo
Abayomi, Grupo Afro Filhos do Barbosaõ , Coletivo Nacional de Juventude Negra
– Enegrecer, Coletivo Mandaçaia, Grupo de Capoeira Guayamuns, Banda Kalunga,
Conselho Distrital de Saúde dos Bairros de Glória, Cruzeiro e Cristal e a Frente
Quilombola RS para a construção do I Encontro Afro Indígena e Anticolonial,
espaço preparatório para II Assembleia dos Povos.
Por trás de um discurso triunfalista, a modernidade esconde o horror que a
constitui: a colonialidade; essa é a razão porque entendemos que modernidade não
pode ser compreendida sem colonialidade e que a colonialidade não pode ser
superada pela modernidade; desta forma articulada por uma racionalidade e suas
instituições que controlam a produção do conhecimento e traduzem os próprios
privilégios em promessas para o resto do mundo, o projeto de dominação cultural,
econômica e política que a modernidade promove vem a cada dia enfrentando
discursos e projetos dissidentes de re-existência, entre os quais a opção anticolonial
é uma das dimensões mais potentes.
Povos e etnias não ocidentais têm procurado, a partir de um esforço radical de
confluências rearticular suas antigas cosmologias, artes, ciências e saberes; formas
de intercâmbio não capitalistas; modos de interações sociais em que nenhum
individuo ou grupo possa alcançar supremacia sobre os outros.
A renovação do pensamento anticapitalista pede a descolonizaçaõ do
imaginário e, como consequência, a criação de modelos de uma sociedade
alternativa, de visões de um futuro inteiramente outro. Para isso, é preciso explorar
as manifestações da esperança onde quer que apareçam. Essa empreitada complexa
requer uma aliança entre a crítica implacável do presente e a revalorização da
imaginação criativa que, conduzirá ao impulso utópico, combustível necessário à
ação transformadora das relações sociais.
A Assembleias dos Povos consiste em uma articulação de resistência a partir
do histórico de lutas dos Povos Originários das Américas, bem como dos
africanos na Diáspora. Como sequência da I Assembleeia dos Povos, realizada em
29 e 30 de agosto de 2013, quando a partir de uma pauta comum
no RS procurávamos enfrentar os conflitos oriundos dos ataques aos territórios e
aos corpos negros e indígenas. O fizemos com uma agenda unitária, onde
apontamos a necessidade da construção de um banco de terras, envolvendo terras
da União, dos estados e municípios, para reassentamento de colonos em
sobreposição aos territórios originários e remanescentes de quilombos, além da
necessidade de recursos para a demarcação e titulação dos Territórios em litigio,
como forma concreta para a solução dos conflitos.
Naquele momento a resposta que obtivemos foi uma brutal repressão
pela Brigada Militar. Tal repressão não nos fez esmorecer, seguimos com a
articulação e pauta unificada, pois a cidade, o estado e a união seguem só nos
enxergando como alvo da violência e genocídio. Chegamos a conclusão ante o
aprofundamento dos ataques que devemos a partir dos 6 territórios quilombolas,
8 territórios indígenas da Capital, terreiros, população de rua, pautarmos a cidade
sob o nosso ponto de vista, pois o quadro que estamos hoje de precarização em
todos sentidos é fruto da permanência colonial inerente os quase quatro séculos de
escravização, nesse sentido em discussão de fato está o projeto de nação.
Compreendemos que território é mais do que um lugar fixo, uma superfície
localizada geograficamente, mas que inclui também um espaço de poder, não só́
político, onde as subjetividades são construídas, onde as diversas formações sociais
e culturais se configuram, constroem-se e se reconstroem cotidianamente.
Por racismo entenda-se não meramente o ódio de uma raça por outra, seja por
motivos religiosos ou étnicos, mas um mecanismo de poder, um singular e potente
mecanismo de poder que é o racismo de Estado. É bem verdade que o racismo já
existia desde muito antes do advento da Modernidade, mas foi a forma de poder
surgida nesse período que o inseriu como parte de uma fundamental estratégia,
tornando-o condição de possibilidade para o exercício do poder nos Estados
modernos.
O racismo e o sexismo imprimem marcas segregadoras diferenciadas, que
implicam restrições especificas dos direitos desse segmento, vitimando-o, portanto,
com um duplo preconceito. A perspectiva de gênero deve integrar a concepção e o
monitoramento de políticas públicas, levando em consideração as necessidades
especificas e as realidades de mulheres e meninas, incluindo na área da saúde
sexual e reprodutiva e os direitos reprodutivos
Nesse sentido apontamos a emergência da construção da II Assembleia dos
Povos como expressão regional da pauta afro indígena organizada com autonomia
e protagonismo político e convocamos as demais lutadoras e lutadores
comprometidos com os desafios do povo brasileiro a se somarem a esta iniciativa.
Contra o genocídio dos povos negros e indígenas!
Contra o racismo e o colonialismo!
Contra o marco temporal!
Contra a ADI 3239
Contra a PEC 215
Contra o PL 31/15
Contra o PEC 181
Pela demarcação e titulação dos territórios indígenas e quilombolas!
Pelas reparações históricas e humanitárias!

Porto Alegre, 25 de novembro de 2017