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Resenha crítica da obra: O Culto Moderno dos Monumentos - Alois Riegl

Segue abaixo uma resenha crítica do livro – O culto moderno dos monumentos: sua essência
e sua gênese - do historiador da arte austríaco Alois Riegl (1858 - 1905). Com suas 121 páginas,
essa versão brasileira foi lançada em 2006 pela Editora da UCG, em Goiânia/GO. O título original
da obra é Der moderne Denkmalkultus, sein Wesen, seine Entstehung de Aloïs Riegl, lançado em
1903 em Viena/Áustria. Porém, a obra que foi traduzida é a versão em francês, Le culte moderne
des monuments historiques: son essence et sa genèse. Este livro em português é trabalho de
tradução da doutora em arquitetura, Elane Ribeiro Peixoto1, e a doutora em literatura, Albertina
Vicentini Assumpção Rodrigues2.

Alois Riegl, quanto historiador da arte da Áustria no século XIX, foi um dos mais
consagrados membros da Escola de História da Arte de Viena. Sua produção foi de grande
importância para a formação da disciplina acadêmica da História da Arte, quanto campo do saber
autossuficiente, ou seja, que se constitui de aporte, densidade teórica e prática suficiente para
consolidar-se como um campo (área) da ciência por si só.

1
Graduada (1983), Mestre (1996) e doutora (2003) em Arquitetura e Urbanismo pela Universidade de São Paulo (USP).
Bolsista no Laboratoire dAntropologie et des Institutons Humaine. É Professora da Faculdade de Arquitetura e
Urbanismo da Universidade de Brasília. Tem experiência na área de Teoria, História e Crítica da Arquitetura e do
Urbanismo, desenvolvendo pesquisas acerca da cidade contemporânea de sua arquitetura e patrimônio. É tradutora, com
obras publicadas pela Editora da PUC-Goiás.
Fonte: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4761808E4
2
Graduada (bacharelado e licenciatura) em Letras Vernáculas pela Universidade Federal de Goiás (1973), mestrado em
Teoria da Literatura pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (1980), doutorado em Letras (Teoria Literária e
Literatura Comparada) pela Universidade de São Paulo (USP) (1995) e pós-doutorado (Literatura e História) pela UnB
(2012). Professora titular da Pontifícia Universidade Católica de Goiás, do Mestrado em História e da Graduação em
Letras. Tem experiência na área de Letras e Artes e na área de Ciências Humanas, atuando principalmente nos seguintes
temas: crítica literária, literatura, literatura brasileira, literatura regionalista, história, identidade e nação, narrativa
histórica, arte, cultura, patrimônio. Trabalha ainda com teatro e cinema.
Fonte: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=K4767054E6
Sua formação contou com a influência dos campos da história e da filosofia. Sua dissertação
tratava-se sobre os estudos sobre Jakobskirche (o monastério escocês) em Regensburg/Alemanha,
enquanto sua habilitação (1889) debruçou-se sobre os manuscritos do calendário medieval. Nos
anos seguintes foi curador de um poderoso museu, o kk Österreichisches Museum für Kunst und
Industrie (Museu Imperial da Arte e da Indústria). Porém, consagrou-se através de seus muitos
livros, que traçavam visões inovadoras no estudo das artes, indo de temas como arte medieval,
árabe/islâmica, barroco e seus muitos estilos, decorações, ilustrações em manuscritos e afins.
Muitas de suas obras acabaram inacabadas por sua morte precoce por câncer aos 47 anos. Boa parte
de seus escritos foram publicados após sua morte. E parte de seus discípulos buscou desenvolver ou
terminar seus pressupostos teóricos. Riegl foi um dos mais importantes membros do formalismo3.

O trabalho de Alois Riegl é notadamente direto e cirúrgico, suas definições são exatas, seu
processo de definição nos chega quase como uma formulação matemática, tomado por uma lógica
sequencial, não se percebe um toque poético ou mais sensível ao qual se espera quando se discute o
universo da Arte, nesse aspecto Riegl é profundamente diferente do inglês John Ruskin. Suas
primeiras palavras presente no capítulo I (Os valores monumentais e sua evolução histórica) em
torno da definição de valor artístico e histórico são dissecados até chegar numa perspectiva a mais
sintética e essencial possível, através da indução lógica. Sua perspectiva sobre o entrelaçamento
entre valor histórico e valor de antiguidade, ao qual avalia como respectivos a um fenômeno
histórico próprio dos séculos XIX e XX respectivamente, aponta sua visão muito linear sobre os
temas. Especificamente, se debruça mais sobre como o valor histórico acaba se tornando uma
questão maior no século XIX e como partindo disso, inicia a construção de uma legislação própria
para a proteção de monumentos históricos, de uma preocupação de conservação no entendimento de
patrimônio coletivo, das nações, dos povos, da Humanidade.

No capítulo seguinte (Os valores de rememoração na sua relação com o culto dos
monumentos), ele descreve três aspectos do que ele denomina por rememoração, o primeiro, o valor
de Antiguidade, que se encontra na condição de não moderno de dado monumento (ou seja, não
próprio do tempo recente) e na consequência disso, seu aspecto visível dos ‘sinais do tempo’ a agir
sobre este, carregando com si suas marcas e particularidades. O segundo aspecto é o Valor
histórico, definido por Riegl pelo oposto ao valor de antiguidade, se encontra em sua capacidade de

3
Na história da arte, o formalismo é o estilo da arte através da análise e comparação de formas e estilos. Dá ênfase na
composição de elementos como cor, linha, forma, textura e outros aspectos perceptivos, em vez do conteúdo,
significado ou contexto histórico-social. No formalismo em seu extremo na história da arte, este afirma que tudo
necessário para o entendimento de uma obra de arte já se encontra na própria obra. O contexto da obra, incluindo os
motivos de sua criação, o histórico e a vida do(a) artista em si, ou seja, seu aspecto conceitual, é considerado externo ao
próprio meio artístico e, portanto, de pouca importância.
Fonte: MERQUIOR, José Guilherme. Formalismo & tradição moderna. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 1974.
preservar-se, em seu registro físico, presente, na integralidade da obra como registro de uma época.
E quanto mais íntegro, mais próximo de sua forma original quando concebida/erguida/construída, e
exemplar raro diante da falta de outros exemplares de sua época, maior é seu valor histórico. Por
fim, o último aspecto é o Valor de Rememoração Intencional, que parece reunir aspectos de ambos
os anteriores, e age numa dimensão mais política, foca-se na busca pela imortalidade do
monumento quanto patrimônio, em que esta sofra o menos possível com o tempo sem querer atuar
sobre estas intervenções e modificações, é em síntese uma visão de valor preservacionista, de
conservação, uma guerra contra agentes de degradação, sejam naturais, sejam humanos.

O terceiro e último capítulo (Os valores de contemporaneidade e sua relação com o culto dos
monumentos) percebe-se uma crítica à visão da época sobre o monumento, somente entendidas pelo
valor de antiguidade e o valor histórico. A partir desse ponto o autor traz questões como o Valor de
Uso, que dão sentido prático à razão da existência do próprio monumento, o Valor de Arte, sobre a
capacidade de inspiração que o monumento causa sobre o ‘agora’ (sobre a sociedade atual). O Valor
da Novidade, que talvez seja o mais hercúleo, já que a degradação do tempo acaba por fazê-lo
inevitavelmente morrer, sendo a oposição definitiva do valor de Antiguidade. Para um monumento
poder ter esse atributo (Valor de Novidade) deve causar efeito oposto ao do valor de Antiguidade. O
valor de arte relativo é por fim uma visão sobre como há incoerências no processo de julgo sobre a
importância de dada obra de arte, monumento, em que não se entende questões que diferem porque
dada obra em sua época em que foi construída não recebeu tanta importância e séculos depois as
gerações posteriores acreditam ter nesta um valor real de preciosidade e importância, como cada
geração possui parâmetros e como a atualidade construiu parâmetros sem precedentes, ao constituir
o valor de antiguidade e histórico como novos agentes, o difícil diálogo com valores já
mencionados nesse capítulo, e como surge assim um desafio do encontro desses valores, do
equilíbrio, na construção de um olhar mais honesto sobre os monumentos, que caminhe para uma
posteridade em que o antigo e o atual possam encontrar harmonia em meio à sociedade.

É possível concluir que dentro do debate proposto por Riegl, ele possui uma importante
visão da dimensão urbana, da composição arquitetônica de um monumento, assim como a
perspectiva que uma edificação possui sobre si e sobre sua localização, não sendo uma mera peça
solta em meio ao caos, mas parte de um todo. Além disso, nos apresenta a multifacetada
importância de um monumento, não restrito à visão particular dos apreciados, avaliadores e
historiadores da arte e similares, mas o uso prático da própria população que convive e até mesmo
trabalha e vive dentro desses monumentos. Um autor de visão ampla e importante que deve ser
trazido à luz dos debates sobre centros históricos, urbanismo e arquitetura.

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