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Arthur Antonio Fernandes da Silveira

Tocando fora de sala:


Uma análise das práticas e aprendizados musicais através
da experiência em grupos musicais.

ÁREA: EDUCAÇÃO MUSICAL – LINHA: MÚSICA,


EDUCAÇÃO E DIVERSIDADE

Niterói,

Setembro de 2018
Resumo

O presente projeto se destina à busca por novas formas de aprendizagem musical na


educação básica através de três tipos de grupos musicais (Bandas, rodas de choro e
orquestras). A partir dos dados obtidos pelo contato com participantes destas experiências
musicais, será feito um paralelo dos diversos conhecimentos envolvidos na prática
musical desenvolvida nestes grupos, objetivando discutir novas abordagens pedagógicas
para o ensino da música dentro da sala de aula.
Palavras chave: Grupos musicais, educação informal, educação não-formal e
metodologia.

I - Introdução

Há interessante questionamento a ser feito quando se tem como objeto de reflexão a


função da música na escola: por ser uma atividade curricular, é natural que haja uma
parcela de alunos absolutamente desinteressada. Isso talvez se explique, em parte, por
uma falta de motivação para o estudo dos conteúdos trabalhados dentro de sala, vinculada,
por vezes, a verificação, por parte desta parcela de alunos, de uma ausência de propósito
no próprio ensino formal da música. Regiana Willie, em seu estudo empírico sobre o tema,
trabalhou com casos que apontavam neste sentido.

A entrada no ensino médio colocou Amanda em contato com outra forma de


ensino e aprendizagem de música, diversa do que ela havia realizado até o
momento. Segundo Amanda, uma forma que ela considerou muito “teórica”.
A utilização do termo “teórica” refere-se à maneira como o professor
trabalhava o conteúdo das aulas de música. A maior parte do período destinado
às aulas de música era utilizada para discussões sobre estilos, períodos,
compositores, cantores, sem ao menos a audição de alguma música (WILLIE,
2005 p. 42)

Outras pesquisas (SOUZA, 2001b p.85 apud WILLIE, 2005 p. 40) sobre o tema apontam
ainda a ocorrência de uma fuga do ambiente escolar enquanto locus de aprendizagem do
conhecimento musical, favorecendo outros ambientes, fora das circunscrições, físicas,
disciplinares e teóricas, próprias da academia.
crianças e jovens talvez “aprendam” música, hoje, mais em seus ambientes
extra-escolares do que na escola propriamente dita, pois não há dúvida de que
é possível aprender e ensinar música sem os procedimentos tradicionais a que
todos nós provavelmente fomos submetidos (SOUZA, 2001b p.85 apud
WILLIE, 2005 p. 40)

Os grupos musicais são uma das alternativas de prática musical fora do ambiente escolar
favorecidas pelos estudantes. Pode-se supor até que isso se dê em razão deles serem vistos
pelos envolvidos como atividades fim, já que a participação do sujeito no grupo envolve,
de forma qualitativamente variável e variada, porém necessariamente, a atividade
performática. Em razão deste favorecimento, creio que seja necessário compreender os
processos trabalhados em termos de aprendizagem musical dentro destes grupos musicais,
com o intuito de absorvê-los enquanto novas possibilidades pedagógicas a serem trazidas
para a sala de aula.
Algumas das práticas de aprendizagem informal analisadas por Green (2012), como, por
exemplo, a escolha do repertório feita pelo aluno, o trabalho em grupo e o cronograma de
aprendizado fundado no sujeito, nos levam a refletir sobre como é possível uma
descentralização do processo de ensino, abandonando o professor o seu papel de figura
principal e se realocando na função de mediador, responsável mais por observar do que
conduzir.
Podemos identificar cinco principais características das práticas de
aprendizagem musical informal, e como elas se distinguem da educação
musical formal. Primeiro, os próprios alunos na aprendizagem informal
escolhem a música, música que já lhes é familiar, que eles gostam e têm uma
forte identificação. Em contraste, na educação formal, os professores
normalmente selecionam a música com a intenção de introduzir os alunos a
áreas com as quais ainda não estão familiarizados. Em segundo lugar, a
principal prática de aprendizagem informal envolve tirar as gravações de
ouvido, diferenciando-se de responder a notações ou outro tipo de instruções
e exercícios escritos ou verbais. Em terceiro lugar, não só o aluno na
aprendizagem informal é autodidata, mas um ponto crucial é que a
aprendizagem acontece em grupos. Isso ocorre consciente e
inconscientemente por meio de aprendizagem entre pares envolvendo
discussão, observação, escuta e imitação uns dos outros. Isso é bem diferente
do contexto formal, que envolve a supervisão de um adulto e orientação de
um especialista com maiores habilidades e conhecimento. Quarta
característica: a aprendizagem informal envolve a assimilação de habilidades
e conhecimentos de modo pessoal, frequentemente desordenado, de acordo
com as preferências musicais, partindo de peças musicais completas, do
“mundo real”. No domínio formal, os alunos seguem uma progressão do
simples ao complexo, que quase sempre envolve um currículo, um programa
do curso, exames com notas, peças ou exercícios
especialmente compostos. Por fim, durante todo o processo de aprendizagem
informal, existe uma integração entre apreciação, execução, improvisação e
composição, com ênfase na criatividade. Dentro do contexto formal, existe
uma maior separação das habilidades com ênfase na reprodução (GREEN,
2012 p. 68)

Partindo destas provocações, para este trabalho, concentrarei minha pesquisa em três
grupos musicais (bandas, rodas de choro e orquestras), envolvendo gêneros diferentes,
como rock, pop, gospel, choro, dentre outros, para investigar seus processos de
organização em relação ao estudo do repertório, aos processos administrativos, as
experiências em performance e conhecimentos musicais obtidos por seus membros.

II.a) - Objetivos gerais

- Elaborar novas metodologias de ensino de música na educação básica, através do exame


das práticas musicais trabalhadas em grupos de música.

- Reforçar as formas de ensino não-formal e informal como provedores de recursos


pedagógicos substanciais ao ensino na escola.
II.b) Objetivos específicos

- Registrar os conhecimentos (Musicais e não musicais) com entrevistas, observações


não-participante e leitura da bibliografia pretendida.

- Definir os conhecimentos (Não-formais e informais) trabalhados nas práticas


observadas

III - Justificativa

Há um esforço continuo dos pesquisadores e educadores vinculados ao ensino da música


em busca de novas formas de trabalhar a aprendizagem em sala de aula (Queiroz, 2004;
Green, 2012; Bastião, 2010; Narita, 2015). Em muitos casos, os olhos se voltam para as
práticas pedagógicas construídas em atividades de natureza não-formal e informal, como
aulas em igrejas ou convívio com músicos mais experientes, por exemplo. Bastian reforça
que:

ninguém hoje contestaria seriamente a necessidade e o sentido do empirismo


pedagógico-musical, sobretudo porque nós atualmente estamos numa precária
situação, na qual descrevemos cada vez mais o que deve ser, mas não sabemos
o que é! (BASTIAN, 2000, p. 81 apud Vieira Junior 2017, p.63)

Com o intuito de reforçar as pesquisas na área pedagógica, creio que seja necessário
explorar o nicho dos grupos musicais, primeiramente pela escassez de material existente
que trate do tema, se comparado aos materiais existentes que tratam do aprendizado
acadêmico de música. Neste mesmo sentido:
Relativamente pouca pesquisa tem estudado práticas em ambientes naturais,
livre de restrições impostas pelos pesquisadores. Outra lacuna na literatura
existente diz respeito aos estágios muito iniciais de aprender um instrumento
e, particularmente, o que as crianças realmente fazem quando praticam seu
instrumento em casa. (MCPHERSON; RENWICK, 2001, p.171 apud
JUNIOR; MONTANDON; MARINS, 2017, p. 64)

É interessante ressaltar que algumas das práticas adotadas por grupos musicais se
relacionam com os trabalhos de aprendizagem musical informal de Green (2012), como
a escolha por parte do estudante do repertório e a discussão entre colegas de aprendizado
sobre os conteúdos trabalhados. Na pesquisa de Junior, Montandon e Marins (2017),
alguns dos resultados obtidos a partir do estudo de uma banda reforçam que:
Além de estudarem sozinhos e buscarem ajuda com colegas ou outras pessoas,
os alunos citam a internet como local de busca e aprendizagem, tanto para a
aprendizagem das técnicas instrumentais ensinadas pelo professor e para a
aprendizagem de novas técnicas, quanto para obter repertório de interesse do
próprio aluno e se automotivar para a aprendizagem. Atividades de
improvisação/criação também foram citadas, além da aprendizagem de
dedilhados novos por meio da experimentação no instrumento. Todas essas
estratégias foram relatadas pelos integrantes da banda como as formas pelas
quais conseguem regular seus processos de aprendizagem. (Junior;
Montandon; Marins, 2017, p. 69)
Tais resultados nos mostram (assim como a supracitada pesquisa de Green) um caminho
promissor para o estudo de grupos musicais como alternativa viável para a elaboração de
uma nova metodologia para a educação musical na escola.

IV - Metodologia:

Para a pesquisa, será adotado o método de estudos de casos, tendo como objetos de estudo
os grupos musicais selecionados (bandas, rodas de choro e orquestras) e como unidade
de caso os membros destes grupos. Como questões relevantes a serem pesquisadas, vou
investigar as formas de organização, os procedimentos didáticos, o estudo do repertório
e o conhecimento musical produzido. Os casos serão investigados através de entrevistas,
observação não-participantes, sendo os dados cruzados entre si, no intuito de unificar as
informações, ressaltando, ao mesmo tempo, as peculiaridades de cada caso.
Junto com o trabalho em campo, será feita também a leitura de obras sobre temas sobre
educação (formal, informal e não-formal), processos cognitivos de aprendizagem e auto
regulação.

V - Cronograma de execução do projeto:

2019 2020 2021


Atividades
Novembro

Novembro
Dezembro

Dezembro
Setembro

Setembro
Fevereiro

Fevereiro
Outubro

Outubro
Janeiro

Janeiro
Agosto

Agosto
Março

Março
Junho

Julho
Abril

Abril
Maio

Maio
Mapeamento X X X
dos grupos
Fichamento das X X X X X
fontes
Pesquisa e X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X X
coleta de dados
Elaboração de X X X X X X X X
material para
qualificação
Exame de X
qualificação
Redação da X X X X X X X X
dissertação
Correções e X X
ajustes
Defesa da X
dissertação
VI – Referências

BASTIÃO, Zuraida Abud. A abordagem AME: elemento de mediação entre teoria e


prática na formação de professores de música. Revista da ABEM, v. 18, n. 23, 2014.
GREEN, Lucy. Ensino da música popular em si, para si mesma e para “outra” música:
uma pesquisa atual em sala de aula. Revista da ABEM, v. 20, n. 28, 2013.
NARITA, Flávia Motoyama. Em busca de uma educação musical libertadora: modos
pedagógicos identificados em práticas baseadas na aprendizagem informal. Revista da
ABEM, v. 23, n. 35, 2015.
QUEIROZ, Luís Ricardo Silva. Educação musical e cultura: singularidade e pluralidade
cultural no ensino e aprendizagem da música. Revista da ABEM, v. 12, n. 10, 2014.
JUNIOR, Luis Antonio Braga Vieira; MONTANDON, Maria Isabel; MARINS, Paulo
Roberto Affonso. Estratégias de autorregulação da aprendizagem musical: um estudo em
uma banda de música escolar. Revista da ABEM, v. 25, n. 38, 2018.
WILLE, Regiana Blank. Educação musical formal, não formal ou informal: um estudo
sobre processos de ensino e aprendizagem musical de adolescentes. Revista da ABEM, v.
13, n. 13, 2014.

VI – Bibliografia pretendida

ARROYO, Margareth. Música na educação básica: situações e reações nesta fase pós-
LDBEN/96. Revista da ABEM, v. 12, n. 10, 2014.
______. Transitando entre o “Formal” e o “Informal”: um relato sobre a formação de
educadores musicais. SIMPÓSIO PARANAENSE DE EDUCAÇÃO MUSICAL, VII.
Londrina. Anais, p. 77-90, 2000.
BORUCHOVITCH, Evely. Autorregulação da aprendizagem: contribuições da
psicologia educacional para a formação de professores. Psicologia Escolar e Educacional,
v. 18, n. 3, 2014.
CISLAGHI, Mauro César. A educação musical no Projeto de Bandas e Fanfarras de São
José (SC): três estudos de caso. Revista da ABEM, v. 19, n. 25, 2014.
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InterMeio: Revista do Programa de Pós-Graduação em Educação-UFMS, v. 10, n. 19,
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DÖRING, Katharina. Ouvindo a diversidade musical do mundo–para uma educação
musical cognitiva “além das fronteiras”. Revista da FAEEBA-Educação e
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