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Moreira AC, Lisboa MTL

A MORTE – ENTRE O PÚBLICO E


O PRIVADO: REFLEXÕES PARA A
PRÁTICA PROFISSIONAL DE
ENFERMAGEM
THE DEATH – BETWEEN THE PUBLIC AND THE
PRIVATE: REFLECTIONS FOR THE NURSING
PROFESSIONAL PRACTICE
Almir da Costa Moreira*
Marcia Tereza Luz Lisboa**

RESUMO: O objeto deste estudo é a evolução histórica do processo de lidar com a morte, tendo como
objetivo revisar e refletir sobre as conseqüências da institucionalização da morte para os profissionais de
enfermagem que em seu dia-a-dia se defrontam com ela e seu suposto controle. Na contextualização do
objeto, realizamos um recorte histórico da morte no Ocidente e os movimentos sociais que influencia-
ram a sua concepção, em que atentamos para um marco no campo histórico-social – a revolução
industrial, a qual teve nítida influência sobre a concepção do corpo como instrumento de trabalho e sua
mediação. Foi feita uma revisão bibliográfica e percebeu-se que a visão da morte vem acompanhando as
mudanças que se operam no sistema capitalista e a sua institucionalização acarretou sérias conseqüên-
cias para todas as pessoas em geral e, em particular, para o profissional da saúde.
Palavras-chave: Enfermagem; morte; subjetividade; trabalho.

ABSTRACT
ABSTRACT:: The object of this study is the historical evolution of the process of dealing with death. The
purpose is to review and to reflect on the consequences of death’s institutionalization among the nursing
professionals, who deal with death on their day-to-day, and their supposed control. In the search about
the object context, we brought about a slice of the history of death’s view in the west world and of the
social movements that have influenced death’s conception, which took our attention to a remarkable era
on the social-historical field - the industrial revolution. The industrial revolution has had a clear influence
upon the conception of the body as a work instrument, and its mediation. The literature review showed
that the death’s view follows the changes occurring in the capitalist system, and that its institutionalization
brought severe consequences to every person in general and, in particular, to the health professional.
Keywords: Nursing; death; subjectivity; work.

INTRODUÇÃO
O objeto deste estudo é a evolução his- elaborando uma tese que tem como temática pro-
tórica do processo de lidar com a morte, tendo visória A morte e o trabalhador de enfermagem.
como objetivo revisar e refletir sobre as conseqü- O tema já havia sido trabalhado por um dos
ências da institucionalização da morte para os tra- autores quando elaborou sua dissertação de
balhadores de enfermagem que lidam no dia-a- mestrado1, na qual tratou a problemática da mor-
dia com ela e seu suposto controle. te vivenciada pelos enfermeiros em uma institui-
Optamos por apresentar este tema pelo fato ção hospitalar, evidenciando alguns sentimentos
de pertencermos a um grupo de pesquisa vincu- dos trabalhadores diante da possibilidade de sua
lado ao Núcleo de Pesquisa Enfermagem e a Saú- própria morte ou de um paciente sob seus cuida-
de do Trabalhador (NUPENST), do Departamen- dos, como o medo, a impotência, a tristeza.
to de Enfermagem de Saúde Pública da Escola de Com esse estudo, pode-se constatar as difi-
Enfermagem Anna Nery, da Universidade Fede- culdades dos trabalhadores em lidar com a morte
ral do Rio de Janeiro (EEAN/UFRJ), e estarmos em decorrência de algumas limitações profissio-

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Morte – entre o público e o privado

nais/pessoais e da falta de espaço na estrutura sam; os psicólogos estudam as influências que a


organizacional para discutir e elaborar os senti- morte pode acarretar à psique de quem sofreu
mentos que emergiam dessas vivências. uma perda. Enfim, apesar de ser um tema tão anti-
É comum em algum momento da vida do ser go quanto o existir do homem, ainda está presen-
humano, o tema morte ser pensado e questiona- te com questionamentos a serem respondidos.
do. Dificilmente se aceita que as pessoas morrem Por vivermos em uma sociedade capitalista, o
porque simplesmente estão vivas e sujeitas às leis paradigma de produção utiliza o corpo físico do ho-
da natureza. A primeira morte registrada na bíblia, mem como objeto de força de trabalho6. A partir do
no livro de gênesis, não foi natural, quando Caim momento que o corpo não possui valor como instru-
matou seu irmão Abel2 por ciúme e parece que, a mento de trabalho, este não atende ao sistema, sen-
partir disso, levando-se em consideração a cultu- do as questões que remetem ao fenômeno morte
ra judaico-critsã, todas as outras mortes subse- relegadas a um segundo plano, não sendo pensadas
qüentes necessitam de uma justificativa: maus pela sociedade e muito menos valorizadas.
hábitos alimentares, vícios, falta de atenção aos Devemos considerar os aspectos subjetivos que
sintomas orgânicos adversos, com conseqüente envolvem a dialética morte/vida e os
procura tardia aos serviços de saúde, acidentes, enfrentamentos que daí decorrem ao lidarmos com
suicídios, assassinatos. a finitude. Assim, com base em Heidegger7, pres-
O homem, através da história, destacando- supomos que não há possibilidade de se qualificar
se os filósofos antigos, sempre buscou desvendar uma existência sem se conscientizar de sua finitude.
os mistérios que envolvem o antes e o depois da A morte, como um processo natural, não pode ser
sua existência3. Existem registros de sepulturas desvinculada da vida, mas integrada a ela de for-
desde o tempo do homem de Neandhertal4, possi- ma a valorizá-la. O homem só valoriza a vida quan-
velmente, se àquela época já houvesse a escrita, do assume a sua própria morte e, sendo a morte
saberíamos que essas perguntas antecedem a exis- uma possibilidade, pode vir a qualquer momento.
tência dos filósofos.
Defendemos a premissa de que ser o máxi-
Mas o que é a morte? Morrer, cientificamen- mo possível em todos os momentos é valorizar a
te, é o deixar de existir; quando o corpo acometido vida, entendendo que o ser, para viver em sua
por uma patologia ou acidente qualquer tem a fa- plenitude tem que ter inserido em si todas as suas
lência de seus órgãos vitais, tendo uma parada pro- possibilidades, incluindo a da própria finitude.
gressiva de toda a atividade do organismo, poden-
do ser de uma forma súbita (doenças agudas, aci-
dentes) ou lenta (doenças crônico-degenerativas), O HOMEM E A MORTE
seguida de uma degeneração dos tecidos.
Conforme Barroso5, há vários significados
A natureza existe e subsiste a partir de um
processo de morte/renascimento. Morre o fruto
para a morte: o fim da vida animal ou vegetal; para que haja a semente, assim como o velho para
termo; fim; destruição; ruína; e tipos de morrer:
dar lugar ao novo, e isso não é diferente para os
morte agônica; morte civil; morte moral.
aspectos subjetivos da vida: novos valores, sabe-
Busca-se conceituá-la na tentativa de res, crenças acontecem em detrimento da
compreendê-la, como se faz com todos os fatos e reformulação (morte) dos antigos. Há um ciclo
acontecimentos do dia-a-dia e, não se conseguin- natural na evolução: surgir, consistir, progredir,
do, recorre-se às religiões que não acreditam na decair, não existir, renovar.
mortalidade do homem como um todo. Há uma
energia no homem que lhe confere a vitalidade. Desse movimento cíclico, o que difere o ho-
Quando o corpo morre, essa energia (alma, espíri- mem dos outros seres da natureza é a capacidade
to) transcende e se desloca para um outro espaço de raciocínio, os seus questionamentos diante dos
nomeado conforme os preceitos de cada crença. fenômenos, e um dos quais mais o incomodou e
incomoda são os mistérios que envolvem o signi-
Os filósofos buscam compreender o seu sig-
nificado; os poetas a romantizam através de seus ficado entre vida e morte.
poemas e prosas; os cientistas a conceituam; as O status de humanização é conferido ao ho-
religiões a transcendem; os sociólogos, antropó- mem historicamente, com a identificação dos pri-
logos e historiadores buscam entender através dos meiros indícios de construção de ferramentas, de
rituais as questões socioculturais que a perpas- fogueira e a descoberta de sepulturas. “É preciso

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compreender a ferramenta e a morte em sua for- passar do tempo? [...] Por que nada permanece idên-
ça contraditória e simultânea presença no interi- tico a si mesmo? De onde vêm os seres? Para onde
vão, quando desaparecem?[...]3:25
or da realidade humana primordial [...]”4:24. A
ferramenta que provê meios para facilitar a exis- Como esses questionamentos não foram res-
tência, propiciando maneiras mais eficazes de se pondidos pela ciência, pelo menos em sua
dominar a natureza em prol da vida e a sepultura integralidade, o homem busca formas não
que evidencia a realidade biológica, a morte. dissonantes de conseguir conviver com eles, e é
Os rituais funerários antigos demonstram a “a religião que vai se especializar cada vez mais
preocupação dos vivos em garantir condições de na canalização do traumatismo da morte e na
vida aos seus mortos, adornando as sepulturas com manutenção do mito da imortalidade, [...] Ela
artigos que tinham sido utilizados por aquele que secreta o otimismo que, através dos ritos de imor-
não mais existia e/ou oferendas de iguarias e ador- talidade, permite ao individuo ultrapassar sua
nos sabidos de sua preferência, o que não mudou angústia.[...]”4:80.
muito através dos tempos. Pode-se constatar isso O historiador francês Philippe Ariès8 traz, em
ao se contemplar as Pirâmides do Egito, os rituais sua obra A Morte no Ocidente, toda a trajetória
aos ancestrais praticados pelos orientais, inclusive histórica dos comportamentos diante da morte, des-
os ocidentais que garantem ao morto um lugar onde de meados da Idade Média até os dias atuais, no
possa ser visitado e homenageado, caracterizando Ocidente. Para ele, as mudanças culturais incidiram
uma crença no renascimento ou na imortalidade. de forma decisiva nesses sentimentos, e cita que:
Nesse sentido, o homem se diferencia dos O homem das sociedades tradicionais, que
outros animais, sendo a morte um dos aspectos era não só o da Idade Média mas também o de
que o caracteriza como humano. Esses rituais tra- todas as culturas populares e orais, resignava-se
zem em si uma contradição, pois a morte traz con- sem grande dificuldade à idéia de sermos mortais.
sigo uma imposição da natureza – decomposição Desde meados da Idade Média, o homem ociden-
dos corpos – e os rituais demonstram uma oposi- tal rico, poderoso ou letrado reconhece a si próprio
ção a ela, ou seja, em sua morte – descobriu a morte de si mesmo8:63.
Ele é homem, quer dizer, inadaptado à natureza que Em sua obra, são colocadas as mudanças por
carrega consigo, dominando-a e sendo dominado por que passaram as sociedades e suas conseqüências
ela. Esta natureza é a espécie humana, que, como e, como um marco histórico-social, a revolução
todas as espécies evoluídas, vive da morte de seus
indivíduos: o que nos deixa entrever não apenas uma industrial, trazendo uma nova ordem social com
inadaptação exterior, geral, do homem à natureza, repercussão nos rituais fúnebres, seguidos do luto.
mas uma inadaptação íntima do individuo humano Até então as pessoas sabiam que iam mor-
a sua própria espécie4:55. rer e protagonizavam todo o ritual, despedindo-
O homem se diferencia dos outros animais se das pessoas, fazendo testamento, resgatando
diante da morte, portanto, pela sua capacidade as mágoas pessoais imputadas a si ou aos outros,
de refletir sobre ela, de individualizá-la conforme e todo este processo era compartilhado pela fa-
os seus processos psicossocioespirituais, e aceitá- mília e pela comunidade.
la é assumir a perda da sua própria individualida- Com o capitalismo, os modos de vida tive-
de, a não existência de si. ram que se adaptar à nova ordem social. A indús-
Talvez, por isso, seja para o homem uma tria em expansão, necessitando de mão-de-obra,
questão de relevância os significados para o exis- com conseqüente êxodo rural, a precariedade nas
tir se, em algum momento, haverá o não existir. condições de moradia, a falta de disponibilidade
Os primeiros filósofos já faziam esse tipo de da comunidade em cuidar dos enfermos, a neces-
questionamento, tais como: sidade de um corpo saudável para o trabalho obri-
Por que os seres nascem e morrem? Por que os seme- garam o deslocamento dos doentes para locais
lhantes dão origem aos semelhantes, de uma árvore apropriados para o seu tratamento, os hospitais.
nasce outra árvore, de um cão nasce outro cão, de Na época em que as pessoas morriam em casa,
uma mulher nasce uma criança? Por que os diferen-
com a participação de toda a comunidade, as pes-
tes também parecem fazer surgir os diferentes: o dia
parece fazer surgir a noite, o inverno parece fazer soas ao redor do moribundo vivenciavam esse fe-
surgir a primavera, um objeto escuro clareia com o nômeno de perto e, por estar ocorrendo com al-
passar do tempo, um objeto claro escurece com o guém tão próximo, era possível a identificação com

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Morte – entre o público e o privado

o outro. “O conhecimento da morte era uma roti- sua finitude: “era tácito, como sendo uma coisa
na e nenhuma criança crescia sem ter tido a expe- normal, que o homem sabia que ia morrer, seja
riência de ver, pelo menos, uma cena de morte”9:105. porque apercebeu espontaneamente, seja porque
A morte tornou-se impessoal, ao ser retirada foi preciso adverti-lo”8:231.
do espaço privado para as instituições de saúde;
sem o seu convívio próximo, o homem, devido aos
Evolução do Capitalismo X Processo
apelos de consumo do capitalismo, não tem tem- de Morrer
po para se perceber finito, deixando este senti- Dos séculos V ao XII, a morte era conside-
mento surgir quando se depara com um risco imi- rada um acontecimento natural, uma conseqü-
nente à sua integridade física – uma patologia ou ência do ciclo da vida. Com o advento do capita-
acidente qualquer. “As imagens da morte e da lismo, veio a valorização do individualismo, que
decomposição do corpo, não significam nem o fez com que a morte fosse personalizada. Até en-
medo da morte, nem o medo do além. Represen- tão as pessoas morriam em casa, cercadas por seus
tam o sinal do amor pelo ter e o fracasso pela cons- entes queridos, conscientes do processo por que
ciência da finitude humana”9:107. estavam passando. As pessoas viviam em comuni-
Atualmente, o homem passa por um proces- dades, compartilhando suas vidas uns com os ou-
so de negação da morte e, tros. A força de trabalho era artesanal e o ofício
era passado de geração a geração8.
Negar a morte, por outro lado, nos leva a um proble-
ma extremamente sério: a má elaboração do luto. O modelo contemporâneo da morte teve seu
[...] Mas, evidentemente, se negamos a morte, se nos início com a burguesia do século XIX, com suas
recusamos a entrar em contato com nossos sentimen- práticas curativas e a crescente dificuldade em
tos, esse luto será mal-elaborado, e teremos uma admitir a sua própria morte e a dos outros, culmi-
chance maior de adoecermos, cairmos em melanco-
lia ou em outros processos substitutivos [...]10:21. nando com o advento do capitalismo, que exa-
cerbou o individualismo.
Com a industrialização e o progresso cres-
O HOSPITAL E A MORTE cente, as pessoas passaram por uma grande trans-
A institucionalização das práticas cura- formação em seus hábitos de vida, pois, devido à
tecnologia em expansão, houve a necessidade cada
tivas, no Brasil, data da década de 60 e, conse-
vez maior de mão-de-obra para a indústria e, a
qüentemente, a maioria das mortes passou a acon-
partir disso, um êxodo rural, mudando drastica-
tecer dentro das instituições de saúde, caracteri-
mente o estilo de vida da época.
zando uma institucionalização da morte. Entre-
tanto, algumas patologias, como a hanseníase e Essa mudança acarretou sérias conseqüên-
outras, dependendo da possibilidade de seu con- cias para a sociedade, pois,com o êxodo, necessá-
tágio ou da impossibilidade da comunidade em rio à indústria, houve uma expansão nas áreas
cuidar do moribundo, faziam com que ele fosse urbanas que não era prevista e, com isso, um au-
conduzido para locais próprios, não para um tra- mento das doenças.
tamento específico, mas para ser cuidado por re- Com a indústria precisando de seus traba-
ligiosos ou por pessoas que praticassem caridade, lhadores saudáveis para a produção e a ciência/
até que viesse a morrer. tecnologia se expandindo, não havia como se
Com apoio oficial, a Irmandade de Nossa Senhora manter os doentes aos cuidados da comunidade.
da Candelária criou no Rio de Janeiro, em 1737, o Era necessário um local para tratar os trabalha-
primeiro leprosário desta terra [...] São Paulo ganhou dores e torná-los novamente produtivos.
seu primeiro lazareto, ainda precário, apenas no co-
meço do século XIX [...]. Se, por um lado, as famílias precisavam pro-
duzir, já não havendo disponibilidade de tempo
Antes dos leprosários, as Santas Casas de Misericór-
dia institucionalizaram a assistência caritativa no
para cuidar do moribundo, por outro, a política
Brasil. Foram concebidas sobre o modelo português, de saúde da época embasava-se nos preceitos de
mas seu equivalente era comum na Europa cristã, higiene, sendo a morte e o moribundo inseridos
antes da formação dos Estados11:18. nesse contexto.
Até então a ciência era precária, não tendo As cidades não estavam preparadas para o
meios para tratar a maioria das doenças daquela grande fluxo de pessoas, não existia um planeja-
época, o que deixava mais claro para as pessoas a mento sanitário, a água e os dejetos não tinham

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um tratamento adequado, com valas conduzindo zação do processo em que estamos situados, o que
materiais sem nenhuma estruturação prévia, con- pode promover mudanças.
taminando os lençóis freáticos e propiciando um Quando a morte era vivenciada por toda a
aumento no número de roedores, mosquitos etc, comunidade, essa convivência permitia a forma-
o que, conseqüentemente, acarretou um aumen- ção no arcabouço mnemônico dos indivíduos da
to das doenças infecto-parasitárias. possibilidade de sua própria morte, o que lhes
Foi na década de 60 que o Brasil iniciou o caracterizava a sua finitude, expressando isso atra-
seu processo de industrialização, centralizando seu vés de comportamentos específicos como quando
investimento em importação de tecnologia, ciên- protagonizavam todo o ritual fúnebre.
cia, indústria para construção civil, produtos de Atualmente, com a institucionalização das
bens de consumo rápido e na compra de automó- práticas terapêuticas, a morte saiu do espaço pri-
veis. Assim como na Europa do século XVIII, esse vado (familiar) para as instituições de saúde (im-
período foi marcado pelo êxodo rural e suas con- pessoal), ficando o moribundo destituído de seu
seqüências, sendo o início da medicina curativa, convívio familiar e entregue a pessoas estranhas
que necessitava de alta tecnologia, recursos hu- ao seu meio, sem nem sempre ter algumas de suas
manos capacitados e locais para atender às com- necessidades atendidas.
plexas demandas da época. Criaram-se assim, os A morte recuou e deixou a casa pelo hospital; está
Centros ou Unidades de Tratamento Intensivo, ausente do mundo familiar de cada dia. O homem
Centros Cirúrgicos, Unidades Coronarianas etc. de hoje, por não vê-la com muita freqüência e mui-
A valorização do trabalho na área da saúde esta- to de perto, a esqueceu; ela se tornou selvagem,
va centrada na especialização dos recursos hu- perturba mais o hospital, lugar de razão e técnica,
que o quarto da casa, lugar dos hábitos da vida
manos, e, nessa época, iniciou-se a quotidiana8:293.
institucionalização da morte no Brasil.
Vale lembrar que o capitalismo, com todos Diante do exposto, vivemos um paradoxo, sabe-
os seus comodismos tecnológicos, ao ser se que a morte é um fenômeno natural, portanto,
implementado, tirou do homem seus dois inevitável, mas ao mesmo tempo a recusamos como
referenciais extremos: nascer, pois até então pessoal, sendo comum as pessoas morrerem distan-
também se nascia em casa, e morrer, ficando tes, fechadas nos hospitais e dificilmente as institui-
assim o homem numa busca desenfreada de sig- ções permitem um ente querido próximo a elas.
nificado para o seu existir, sem perceber que a Inseridos nessa cultura, vivemos esse para-
sua vida não mais lhe pertence, mas sim, é di- doxo, pois, quando estamos diante de um pacien-
tada por teorias político/científicas que deter- te na iminência da morte, por estarmos face-a-
minam o seu agir. face com um semelhante, com as mesmas possibi-
Assim, é preciso ressaltar que: lidades existenciais que as nossas, corremos o ris-
Os nascimentos, a reprodução, a velhice, estão todos co de nos defrontarmos com a possibilidade de
submetidos ao controle médico, independente da nossa própria morte1.
existência ou não de doença. Aquele que na segun- Tendo em vista que o outro é nosso referencial
da metade do século XIX abdicara do próprio mor-
rer, cem anos depois abre mão do próprio viver12:38. externo e que é através da relação com o outro
que pode ocorrer uma identificação, isso pode
O Trabalhador de Enfermagem ante o Fe- tornar difícil uma aproximação do profissional jun-
to ao paciente na iminência de morte, pois pode-
nômeno Morte
ria acarretar uma possível correlação com sua pró-
Como trabalhadores da saúde, entendemos pria morte (do profissional), para a qual ainda
que, formados numa cultura capitalista, a nossa pode não estar preparado.
visão não difere da dos demais cidadãos que es-
tão em outras profissões, pois a influência é a Assim, o cuidar do paciente grave pode se
mesma, não sendo possível destituir o contexto tornar impessoal, fato este às vezes necessário para
sociocultural. Portanto, no que se refere ao fenô- se manter a saúde mental pois não estamos, cul-
meno morte, apesar de convivermos com a sua turalmente, preparados para isto e,
possibilidade em nosso dia-a-dia profissional, com- Como um mecanismo de defesa e proteção contra o
partilhamos dos mesmos sentimentos das pessoas sofrimento, o processo de morrer e morte passa a ser
visto como banal, sendo o distanciamento e endure-
em geral, sendo viável apenas uma conscienti- cimento das relações frente à morte e ao paciente

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Morte – entre o público e o privado

terminal algo tornado natural e considerado comum ja aí, nos fatos externos, mas dentro de cada indi-
e rotineiro13:68. víduo, com o seu viver/morrer introjetado.
Desse modo, não há uma identificação com Com isso, percebemos que, enquanto não
o outro, a relação não se faz em toda a sua pleni- houver uma política de saúde voltada para a
tude, ficando o cuidado restrito a técnicas a se- morte, não a morte como objeto de estudo ci-
rem executadas visando o corpo do paciente, des- entífico, como conseqüência de uma patologia
tituindo - o de toda uma singularidade ou fatalidade qualquer, mas como um processo
intrapessoal. que participa da vida, o homem dificilmente
Na formação do trabalhador de enferma- será capaz de qualificar a sua existência, fican-
gem aprende-se várias técnicas a serem execu- do cada vez mais sujeito aos poderes instituí-
tadas para prevenção, promoção, cura ou reabi- dos por aqueles que detêm o poder da ciência,
litação do paciente, com protocolos específicos, o poder do capital.
sinalizando passo a passo os procedimentos. Mas,
Entendemos que, a partir da qualificação
em relação ao paciente no processo de morrer,
individual, o coletivo será alcançado e, para tan-
não destituindo as técnicas que propiciarão o
seu bem-estar, como analgesia e higiene, não há to, cremos que é necessário que haja fóruns de
uma discussão sobre como o profissional deve agir discussão sobre o tema (morte) em todas as esfe-
diante dos questionamentos feitos por pacientes ras sociais, especificamente para os trabalhadores
e familiares. da saúde, durante a sua formação, estendendo-
Existe toda uma literatura1,9,13-18 preconizan- se aos locais de trabalho:
do o modo de agir do trabalhador de enferma- Depositário da confiança social na eficiência dos pro-
fissionais, o hospital esconde por detrás de sua facha-
gem, que iniciou com Florence 14, e um pouco
da, as mesmas inseguranças, precariedades e medos
mais recente, pode-se citar os trabalhos de encontrados na sociedade.
Potter e Perry15. Essas normas de procedimentos
Dos medos dos homens, talvez o medo da morte seja
não contemplam o profissional como um ser to-
o que mais cause temores na sociedade de maneira
tal que, às vezes, precisa se conhecer e ser co- geral [...]17:15-6.
nhecido em suas limitações para, a partir daí,
estar apto a exercer as suas atividades laborais Na atualidade, não destituindo a importân-
e de vida16. cia dos avanços tecnológicos, o conhecimento se
Temos ouvido e lido muito sobre a visão expandindo de forma acelerada, dificilmente a
holística do cuidado de enfermagem, que recomen- morte tornará a ter os seus ritos como antes, prin-
da a atenção ao outro como um todo. Mas se não cipalmente se considerarmos que o homem não
vemos o outro com todas as suas possibilidades, consegue acompanhar tais avanços se não estiver
inclusive a de morrer e mais, se não nos notamos atento e procurando se atualizar, o que exige dis-
assim, este discurso não alcança o seu objetivo. ponibilidade de tempo.
Porém, apesar de todo aparato tecnológico,
CONCLUSÃO percebemos que a institucionalização da morte,
fato presente na modernidade, pelo menos até
Observa-se, atualmente, que se busca então, tirou do homem a percepção de sua pró-
uma nova ética para a humanidade, em um esfor- pria morte, como é citado a seguir.
ço supremo de se evitar ou, ao menos, minimizar as [...] nas sociedades industriais, onde a morte é cui-
diferenças sociais em que o mundo se encontra. dadosamente ocultada, ela é considerada um acon-
Nunca se ouviu falar tanto em qualidade de tecimento catastrófico, vergonhoso, que deve ser
repelida para o mais longe possível, e, quem sabe,
vida, solidariedade, na emergência de novos
suprimida com o progresso da ciência. Essa esperan-
paradigmas. Entretanto, o homem em toda a sua ça é absurda: pois se um dia a medicina chegar a
evolução histórica, jamais esteve tão necessitado curar todas as doenças, jamais sustará o envelheci-
de significados para o seu existir. mento e a morte fisiológica que, como vimos, fazem
Fazem-se leis e políticas de saúde para tudo parte do nosso programa de vida e finalmente permi-
tem o progresso evolutivo8:225.
que surge, num afã de se poder, com isso, contro-
lar o existir, e o que se nota são as diferenças cada Com isso, o homem perdeu o significado
vez mais acentuadas entre os povos, as pessoas, de sua temporalidade que, para Moreira1, ca-
não se percebendo que talvez a solução não este- racteriza que ele agora tem todo tempo ne-

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cessário, não precisando resolver as suas ques- REFERÊNCIAS


tões existenciais/profissionais conforme o mo-
mento em que se apresentam, deixando, 1. Moreira AC. Enfermagem/tanatologia: o profissional fren-
te à possibilidade de sua própria morte [dissertação de
comumente, para depois as suas decisões mais
mestrado]. Rio de Janeiro: Universidade do Rio de Janei-
significativas para a vida. ro; 2003.
Assim, entendemos que a apropriação in- 2. Shedd RP. A bíblia vida nova. Tradução de João Ferreira
dividual do significado da própria morte con- de Almeida. 2a ed. São Paulo: Vida Nova; 1995.
tribuiria para o homem, na percepção de sua 3. Chauí M. Convite à filosofia. 8a ed. São Paulo: Ática; 1997.
temporalidade, o que, possivelmente, induzi- 4. Morin E. O homem e a morte. Rio de Janeiro: Imago; 1997.
5. Barroso MEG. Dicionário Aurélio eletrônico do século
ria à qualificação do seu existir, possibilitan-
XXI. Rio de Janeiro: Nova Fronteira; 2004.
do também, a identificação com o outro ser 6. Dejours C. A loucura do trabalho. 5a ed. São Paulo:
que está morrendo. Tal fato, sem dúvida, re- Cortez; 2003.
fletiria nas relações pessoais e profissionais. 7. Heidegger M. Ser e tempo. Tradução de Márcia de
Para tanto, cremos que os propósitos da Sá Cavalcante. 6a ed. Rio de Janeiro: Vozes; 1997.
institucionalização da morte devem ser repen- 8. Ariès P. História da morte no ocidente. Rio de Janei-
ro: Ediouro; 2003.
sados e que, ao invés de ter como objetivo cen- 9. Araújo PVR, Vieira MJ. As atitudes do homem fren-
tral o afastamento do fenômeno morte da socie- te a morte e o morrer. R Enferm Texto e Contexto.
dade como um todo, independente se por 2001; 10: 101-17.
indisponibilidade da coletividade por questões 10. Cassorla RMS. Da morte – estudos brasileiros. 2a
ligadas à falta de tempo, de estrutura emocio- ed. São Paulo: CMR; 1998.
nal, cultural, religiosa, intente a qualificar a vida. 11. Lepargneur H. O doente, a doença e a morte. São
Paulo: Papirus; 1987.
O alcance dessa qualificação será possí- 12. Palmeira G. Requisitos para a construção de um
vel quando os profissionais da saúde percebe- conceito ecológico de saúde-doença. R Saúde em
rem a importância para a comunidade em par- Debate. 1992; 37: 86-9.
ticipar do processo de morrer de seus familia- 13. Lunardi Filho WD, Sulzhabach RC, Nunes AC,
res/amigos, facilitando o seu acesso hospita- Lunardi VL. Percepções e condutas dos profissionais
lar, pois, apesar de a morte estar institucio- de enfermagem frente ao processo de morrer e morte.
nalizada nos grandes centros urbanos, cremos R Enferm Texto e Contexto. 2001; 10: 60-81.
14. Nightingale F. Notas sobre enfermagem. Tradução
na possibilidade do resgate de seu significa-
de Amália Correa de Carvalho. São Paulo: Cortez; 1989.
do, devolvendo ao homem a aquisição da sua 15. Potter AP, Perry AG. Fundamentos de enferma-
própria temporalidade, através do seu conví- gem. 4a ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan; 1999.
vio com a finitude física. 16. Silveira RSF, Lunardi VL. A enfermagem cuidan-
Possivelmente, quando o homem for ca- do de quem vivencia o processo de morrer. R Enferm
paz de retornar à sua natureza primeira, em Texto e Contexto. 2001; 10: 170-85.
17. Caccavo PV. A morte indomada: a equipe de en-
que ele se sabia finito, talvez ele promova mu-
fermagem e o corpo morto na instituição hospitalar [dis-
danças substanciais em seu meio, que até en- sertação de mestrado]. Rio de Janeiro: Universidade
tão ele não percebia como viável. Federal do Rio de Janeiro; 1993.

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Morte – entre o público e o privado

LA MUERTE – ENTRE EL PÚBLICO Y EL PRIVADO: REFLEXIONES PARA LA PRÁCTICA PROFESIONAL


DE ENFERMERÍA
Resumen – El objeto de este estudio es la evolución histórica del proceso de lidiar con la muerte y sus
repercusiones en el ámbito profesional de la enfermería, teniendo como objetivo revisar y reflexionar
sobre las consecuencias de la institucionalización de la muerte para los profesionales de enfermería que
en su cotidianidad trabajan con ella y con su supuesto control. En la contextualización del objeto,
realizamos un recorte histórico de la muerte en el Occidente y los movimientos sociales que influenciaron
su concepción, en lo que atentamos para un marco en el campo histórico y social – la Revolución
Industrial, que tuvo nítida influencia sobre la concepción del cuerpo como instrumento de trabajo y su
mediación. Fue hecha una revisión bibliográfica y se percibió que la visión de la muerte sigue
acompañando a los cambios que se operan en el sistema capitalista y su institucionalización acarreó
serias consecuencias para todas personas en general y en particular para los profesionales de la salud.
Palabras Clave: Enfermería; muerte; subjetividad; trabajo.

Recebido em: 19.07.2005


Aprovado em: 14.02.2006

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Notas
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Enfermeiro do Hospital Universitário Antonio Pedro – Unidade de Doenças Infecto-Parasitárias – da Universidade Federal Fluminense.
Mestre em Enfermagem pela Escola de Enfermagem Alfredo Pinto da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Doutorando
pela Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Alameda São Boaventura, 1029/507 bloco 4. Fonseca.
Niterói. RJ CEP:24130-001. E-mail: almirmoreira@predialnet.com.br
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Professora Adjunta do Departamento de Enfermagem Fundamental da Escola de Enfermagem Anna Nery da Universidade Federal do
Rio de Janeiro. Doutora em Enfermagem pela EEAN/UFRJ.

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