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Créditos

Escritores: Jefferson Neves e Rafão Araújo


Sistema: Pedro Borges
Editor: Jorge Valpaços
Diagramação: Igor Moreno e Diego Bernard
Revisão: Lampião Game Studio
Design de Capa: Dan Ramos

Artistas
Berto Souza, Thiago Motta, Harijan, Bruno Prosaiko, Andrej Braga,
Gustave Doré e The Forge Studios com Maciej Zagorski e Pawel Dobosz,
Alexandre Rabelo.

Publicado pela New Order Editora, de Anesio Vargas Junior e Alexandre “Manjuba” Seba.
Julho de 2018
Todos os direitos desta edição reservados à New Order Editora.

Rua Laureano Rosa, 131, Bairro Alcântara - São Gonçalo - RJ


Cep:24710-350
Fone: (21) 97045:4764

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Sumário
Tomo I ..............................................................................................16
O Conto dos Anos ....................................................................18
Os povos de Belregard ...........................................................43
A Vida em Belregard ..............................................................57
Tomo II ..........................................................................................100
O Mundo Natural ..................................................................103
Belghor .......................................................................................115
Brandevir ...................................................................................123
Dalanor ......................................................................................131
Latza ...........................................................................................141
Parlouma ...................................................................................149
Varning .......................................................................................157
Viha ..............................................................................................165
Virka ............................................................................................173
Vlakir ..........................................................................................181
Principados de Rastov .........................................................187
Tomo III .........................................................................................196
Titereiros e Títeres .................................................................203
Um Mundo de Mentiras .....................................................223
Inominatus ...............................................................................239
Tomo IV ......................................................................................265
Sacrum Codex ........................................................................265
Sistema de Regras .................................................................299
Galeria dos Condenados ....................................................359
Lista de Apoiadores .............................................................375
INTRODUÇÃO
“Come on you outlaws, come on with me,
To the greenwoods of Belregard, when men can live free.
Trees, wild animals and the cool of the shade,
Far from the court, where the laws are made.”
The Outlaw’s Song

Se tu abriste este livro deves ter alguma ideia do do império romano. É um lugar escuro, envolto por
que se trata. Estou certo? Não? Deverias saber que uma era de trevas e ignorância, onde a única salva-
nem sempre a fortuna é reservada às almas curio- ção da humanidade parece residir na fé, no Tribunal
sas, neófito. Em todo caso, tem isto como um aviso do Supremo Ofício, aos homens santos que inter-
claro e direto: fecha este tomo e volta para a segu- pretam as misteriosas parábolas do Criador, o Deus
rança de teu lar. Finje que nunca viste tais carac- Pai.
teres e ignora o sussurro da Sombra ao pé de teu
ouvido nas noites que se seguirem... No entanto, os Neste livro, tu encontrarás todas as informações
descaminhos da glória e da derrota se abrem para que precisas para começar a jogar Belregard RPG.
aqueles que são ousados o bastante para dar o pri- Apresentaremos nele o ambiente deste mundo som-
meiro passo. Isso, tu já fizeste. Continua, se julgares brio, povos, culturas, lugares malditos e refúgios
prudente, atreve-te a flertar com a maldade que se sagrados. Como todo jogo, Belregard RPG também
esconde no teu coração, ou te consideras um santo? possui regras, que são simples e de fácil aprendiza-
Não sejas tolo, todos nós ouvimos a voz sedutora, gem, servindo para simular a abordagem verossímil
sussurrando todas as doces mentiras que desejamos deste jogo. O que tu vais precisar, além do livro, é
ouvir, especialmente quando estamos sozinhos com de alguns dados simples de seis faces e um grupo
nossos sonhos. Pois esta é a Sombra Viva, nos dan- de amigos com coragem o bastante para olhar nos
do o que desejamos, Ela é aquela que está quando olhos da Escuridão e não titubear.
não existe nada, aquela que tu escutas no silêncio e
No decorrer desta introdução, iremos te apresen-
vê no escuro. Permite a ti sorrir e abraça a causa do
tar os principais elementos de Belregard RPG: sua
pecado voluntário.
atmosfera, proposta e ferramentas utilizadas para
cumprir o papel pretendido. Tem cautela, certifica-te
Belregard é um RPG, um jogo onde os jogadores
de não manter nenhum esqueleto em teu armário,
interpretam personagens e vivenciam histórias de
limpa a alma e aceita-te como um ser de falhas e
horror em um cenário medieval cru e brutal, à ima-
pecados. Não deixas a Sombra te derrotar tão facil-
gem do que foi a idade média europeia após a queda
mente.
Entendendo Belregard dela, com seu “chafurdar na escatologia e sadismo”
Você certamente percebeu a imagem que abre nos ajuda a alimentar a imaginação e não podemos
esta introdução. Trata-se de uma obra de Gusvate nos esquecer de Robert E. Howard e, até mesmo, H.
Doré, do Idylls of King. Logo, não é uma obra origi- P. Lovecraft. O horror obsceno de Clive Barker pode
nal, mas serve para ilustrar a introdução. Não é exa- colocar algumas boas ideias ao lidar com o sobrena-
gero dizer que esta obra em particular foi uma das tural de Belregard e a vida cotidiana pode ser senti-
maiores influências visuais para o jogo, então fica o da em livros como Os Pilares da Terra de Ken Follett.
convite para “respirar um pouco de Doré” na com-
preensão do que queremos passar com Belregard. A magia em Belregard é sutil, não vindo na for-
ma do controle dos elementos, mas sim como uma
Este cenário se difere um pouco dos mais tradicio- ritualística sombria e perigosa. Este não é também
nais em sua abordagem. Em Belregard não existem um jogo com apenas um rosto, mas sim multiface-
raças não-humanas ou mesmo uma atmosfera mági- tado, carregando a responsabilidade de lhe permitir
ca exacerbada. Belregard contou com uma pesquisa os mais variados tipos de jogos, sempre carregando
histórica para ter seus meandros determinados e al- essa aura opressiva e sombria que a ambientação
guns livros de autores consagrados ajudaram a dar pede. Livra-te de conceitos pré estabelecidos e per-
coesão à sociedade e ao meio de vida deste povo. mite a ti mesmo explorar este ambiente sinistro e
Nomes como Marc Bloch, Jacques Le Goff, Michel assolador.
Pastoureau, entre outros, emprestaram suas teorias
e ideias para que fosse possível explicar sobre estas Conceitos
pessoas e seus comportamentos da melhor maneira. Magia: Ela não existe da forma como muitos
Apesar disso, é preciso advertir que Belregard NÃO podem imaginar. Não existem conjuradores capa-
É A EUROPA. Por mais que existam evidentes se- zes de controlar forças primordiais e criar incríveis
melhanças, muitos detalhes, costumes e comporta- efeitos destrutivos. A única magia, manipulada por
mentos foram misturados, ignorados ou inventados homens, uma vez conhecida em Belregard vinha da
para que este fosse, de fato, um cenário de fantasia adoração ao Único e mesmo esta desapareceu. Ape-
medieval e não uma recriação falha da Europa me- sar disso, ela ainda existe. Belregard é um mundo
dieval histórica. de magia inata, uma magia que existe na própria
terra, colocada pelo Criador no início dos tempos
As influências literárias de Belregard podem pare- para que a natureza tomasse ordem e tivesse senti-
cer óbvias, mas valem ser citadas para referências de do. Muitos fiéis não querem admitir, mas os cultos
outros que queiram se inspirar e pegar um pouco do primordiais, aqueles que servem à Horda, possuem
clima deste cenário. Por se tratar de algo um pouco ritos sangrentos, nefandos e maquiavélicos. Com ou
mais denso, pesado e maduro, penso que romances sem o consentimento, esta bruxaria é real e seu po-
históricos são um ótimo pedido para mostrar certas der foi sentido ao longo da história, por mais que o
abordagens ao cenário medieval precário. Bernard Tribunal negue isso.
Cornwell certamente te emprestarias ótimas ideias,
assim como Conn Iggulden. Literatura de fantasia Verdade: Ela não existe. Belregard foi escrito
também nos alimentaria muito bem a mente, desde com um conjunto de relatos tendenciosos, que não
o clássico dos clássicos Tolkien até o mais recente, e refletem uma resposta definitiva à maior parte das
aparente sucessor, George R. R. Martin. Leonel Cal- perguntas possivelmente apresentadas. A verdade
pode variar com inúmeros pontos de vista diferentes campanha. É preciso entender que o cenário car-
e isso deve ser lembrado por aqueles que desejam rega o perfil cru, brutal e maduro da idade média;
criar suas estórias aqui. Não existe apenas um cami- um local que inspira fascínio e terror, com castelos
nho para determinado fim. Isso fica claro, ainda, na imponentes e encantadoras damas desdentadas. O
fé que os homens seguem neste jogo. Existem inter- horror é um elemento importante na narrativa de
pretações oficiais para aquilo que o Único deixou de Belregard, seja no simples combate singular em um
ensinamento para os homens, mas nada impede que torneio de cavaleiros, ou na busca por pistas de Sel-
cada um tenha sua própria verdade particular. vagens habitantes dos ermos. O desconhecido é a
maior arma do narrador aqui, podendo usá-lo para
Maniqueísmo: Ele não existe. Este ponto é muito causar todo o tipo de pressão psicológica e física aos
importante, os homens de Belregard não possuem envolvidos em suas narrativas. Teste-se, arrisque-se,
uma única face. Eles não são pretos ou brancos, inove-se. Saia da sua zona de conforto e veja o quão
mas sim cinzentos. Não existem heróis definitivos bom isso pode ser. Caso não lhe agrade, você tem a
ou mesmo vilões irrecuperáveis, e se existem, são vida inteira de jogo para escolher outra coisa.
a mais pura exceção do mundo. A lealdade é uma
moeda muito importante nestas terras onde cada Não fiquemos presos a conceitos pré-determina-
um tem seus próprios interesses ao se envolver em dos de guerreiros e sacerdotes, os personagens de
problemas alheios. Não se deixem enganar e não se Belregard são pessoas, simplesmente pessoas. Se
deixem limitar. Quer que teu igslavo seja festivo e você se sente minimizado ao ser rotulado pela sua
bem humorado como um dalano? Que assim seja. profissão, pense da mesma forma para seu persona-
Homens são homens, para o bem ou para o mal. gem. Use de conceitos e abordagens amplas, faça de
Mesmo os Arautos, que deveriam ser porta vozes do seu personagem algo vivo.
Único, são pessoas errantes e dignas de pena como
qualquer outro indigente de Belregard. Narrando e Jogando Belregard
“Sai da casa de seus irmãos,
Ótica: O mundo é diferente a depender de quem o esquece a estrada do lar de seus conhecidos,
olha. Os arautos enxergam a Sombra e a Mentira em segue para o lugar que te direi…
qualquer lugar. Um nobre enxerga o ouro e poder. Sem hesitar”
Um cavaleiro enxerga perigos e dever. Deste modo - Versículo 3 do Livro dos Caminhos
a narrativa será totalmente diferenciada a depender
dos conceitos escolhidos em jogo. Seu personagem Independente de estar encarnando o papel de
teve contato com pagãos ou presenciou um rito de Narrador ou Jogador, é tua função, teu dever, con-
bruxaria? Ótimo. Costumamos dizer que o mundo tar tuas facetas deste mundo, descrever tuas sensa-
se divide entre a espada, fé e ouro. Esses caminhos ções, repassar aquilo que tua mente imagina... Fazer
se cruzam, mas não se mesclam com facilidade. a narrativa se tornar viva. Em Belregard tu contas
Este fator parece simples, mas fará toda a diferença histórias que usam um elenco não ortodoxo e enges-
em seu jogo. sado, tuas histórias podem variar de personagens,
passando de camponeses, cardeais, Arautos ou xa-
Variedade: Ela existe! Belregard não pretende ser mãs. Logo, quanto mais te dedicares para interpre-
um cenário de único lado. A intenção aqui é propor- tar esses diferentes personagens, mais envolvente
cionar o mais variado tipo de ambientação para uma será teu jogo. Ao redor de dois a cinco jogadores, o
narrador conta sua história como um anfitrião re- reforça a ideia de que não existe uma “gramática
cebendo visitantes. Ele irá introduzir o mundo aos belregardiana” no mundo.
jogadores, e juntos eles irão dar vida a tudo isso. Es-
tas dicas são apenas linhas gerais, no Livro Quatro Livro Um: Testimus Homini
deste tomo apresentaremos os caminhos de forma Este livro foi organizado pelo abade Tullus, que su-
um pouco mais cuidadosa. pervisionou o trabalho de um jovem copista chama-
do Maltus. Além disso, este copista possui um ami-
O narrador é responsável por: go muito próximo, identificado apenas como “P”,
• Fazer descrições vívidas do mundo. com quem parece nutrir um afeto muito forte. O
• Decidir andamento do jogo e agir como um juíz livro foi organizado por ordem de um nobre de Par-
em situações indecisas. louma, Augusto de Borgosa, que desejava afinar seu
• Envolver os personagens dos jogadores na his- próprio saber sobre a história dos homens em louvor
tória. ao Criador. Dessa forma, o trabalho de Maltus foi
• Fazê-los tomar decisões e arcar por elas. organizar conhecimentos antigos, como “Uma Bre-
ve História dos Homens”, escrito por Haskel no sé-
Os jogadores são responsáveis por: culo X, onde traça as linhas da história de Belregard
• Criarem personagens vividos, lógicos e indiví- desde o enaltecimento por Deus no combate contra
duos que tenham sintonia com o mundo do jogo. os bestiais até os dias mais recentes, conta ainda
• Tomarem decisões e estarem prontos para lidar sobre os costumes mais comuns entre os povos. Em
com suas consequencias. seguida se utiliza da obra de Técio de Villa, um es-
• Fazerem o possível para fazer as melhores cenas tudante da Academia do Saber de Varning, contem-
possíveis. porâneo do século XIV, que lançou verbetes sobre a
• Jogarem para contar uma história, seja de vitória vida em Belregard, indo dos sacramentos religiosos
ou fracasso. até questões corriqueiras como alimentação, sexo
e comércio. Através das anotações feitas ao longo
Se fossemos comparar com um carro, o narrador deste livro, é possível perceber a relação entre Mal-
seria o motor e os jogadores seriam o combustível. tus e P, além da linha dura, pulso firme, de Tullus.
Mesmo o melhor motor não serve para nada sem
Livro Dois: Tractatus Terrae
queima. O combustível sem um motor serve apenas
O Tratado da Terra original está perdido. Tratava-se
para queimar em vão. Os dois juntos impulsionam
de um livro contendo os limites de reinos, condados,
uma bela carenagem por lugares lindos, fazendo
ducados, de todas as posses de casas nobres de Bel-
nascer uma história.
regard. Estava em posse do imperador quando Vir-
O que Você Encontrará? ka caiu. Boa parte dos limites se mantiveram, com
O livro está organizado em tomos que dão a vi- um ou outro rompante de conquista surgindo em
são interna do cenário, como contata por alguém castelanias mais caóticas. O Tribunal do Supremo
que vive lá. Apenas o quarto tomo não segue esse Ofício deseja traçar novamente estas linhas, estes
padrão. O leitor perceberá que algumas palavras po- limites, descobrir como o mundo se encontra nesses
dem sofrer mudanças sutis, como uma capitular ou cinquenta anos depois da queda. Esse foi trabalho
uma letra a mais ou a menos. Isso serve para mos- do Enviado Minus, que através de agentes coletou
trar que são mãos distintas escrevendo e também informações sobre a política, cultura e economia
das castelanias de Belregard. Tirou dos textos im- mores são lançados para uso do narrador. São fer-
pressões muito pessoais de seus agentes e compilou ramentas, plots, tramas que ele pode experimentar
para o conhecimento do Eleito, o líder máximo da em Belregard. É onde se conhece a Sombra em sua
fé. Os comentários no Livro Dois ficam por conta de essência, os cultos e práticas pecaminosas.
oradores, um cargo abaixo do Eleito, que certamen-
te leram o livro antes do próprio. É aqui que são tra- Livro Quatro: Sacrum Codex
tadas as regiões de Belregard, cidades, formações Por fim, no último livro, temos as regras. É nesse
de destaque, além de pitacos e sugestões dos rumos livro que saímos do on para o off e falamos direta-
que estas áreas estão pra tomar nos próximos anos. mente contigo, leitor. É onde a adaptação das regras
Mostra-se um mundo dinâmico. para o Crônicas ocorrerá, com novidades, modifica-
ções, para adequar melhor ao cenário, além do re-
Livro Três: Mysterarcanum Mundi sumo que torna possível jogar. Mas a cereja do bolo
Este livro é o mais obscuro, trata-se do estudo fei- são as dicas. Percebemos, ao longo desses anos, que
to por um grupo secreto de Belghor, o Hakam. Aqui muitas vezes é difícil para alguém perceber ou se
são discutidas verdades sobre os Puros que são a encontrar em Belregard. O mundo é grande e cons-
base do Tribunal do Supremo Ofício, mostrando en- tantemente se questiona, “mas como eu jogo? So-
sinamentos destes homens santos que seriam evita- bre o que são as histórias?”. E é exatamente pra
dos, até mesmo negados, pela igreja. É um livro que isso que esse capítulo existe. Bebemos de nossas
fala sobre um seguimento mais puro da própria fé no próprias influências em outros jogos pra ajudar nar-
Criador. É onde tratamos dos Arautos como homens radores a encontrar seu próprio caminho dentro de
e mulheres despertos, capazes de enxergar o mundo Belregard. Além, é claro, de falar bastante sobre o
como ele verdadeiramente é, uma terra envolvida na horror, sobre o terror que são parte fundamental
Sombra, um mundo derrotado. Além disso, o último desse cenário. Como utilizar, como envolver seus
capítulo deste livro trata sobre as páginas negras jogadores nesse clima mais cru e pé no chão.
de segredos reais, é um momento onde lendas e ru-
b Belregard b

A Continuidade do Sangue
— E como ele é, dona? — perguntou a aia, passando a centésima se-
gunda escovada, não que estivesse contando.
— Pegamos todos os detalhes que podíamos do gestor … o que não
é muito. Escolhemos alguém forte e inteligente. Queremos uma criança
que seja tão inteligente quanto as mães dela — respondeu a noiva, pen-
sando com sorriso no futuro que a aguardava.
— Perdoe-me a ousadia, dona, mas eu certamente iria querer ver o
pretendente por completo antes de deitar com ele! — A garota deu uma
risadinha, sabendo que estava próxima de passar dos limites, mas segura
que a sós com sua ama as coisas eram mais tranquilas.
— Aratta, querida, tenho certeza que sim. Mas ele é uma mera fer-
ramenta para o ritual. Não só não podemos ver o rosto, no máximo a cor
da pele e algumas partes do corpo, como não tenho desejo algum de ver
como ele é. O homem será apenas um meio de eu e Runya termos nos-
so bebê, e a relação com um gestor não funciona como você pensa. —
As mãos da recém-adulta passavam entre as várias joias na penteadei-
ra. Era a única coisa que faltava para a cerimônia, mas ela ainda estava
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b O Conto dos Anos b

tentando decidir entre três peças, cada uma com um significado dife-
rente. Celebraria o sangue da sua família? A união sacramentada? Ou
sua chegada à vida adulta com um casamento nobre?
Aratta parou por alguns segundos na escovada seguinte, tentando
raciocinar como um homem de fora serviria como semente para duas
mulheres gerarem seu próprio bebê. — Mas então como acontece,
dona? É algum tipo de feitiço?
Com uma leve risada, a moça tamborilou os dedos por um carís-
simo colar que fora de sua avó. — Não, Aratta querida. O gestor, ou
gestora, é alguém com preparo ritualístico. A semente escolhida é cole-
tada no ato, para garantir que ela tenha saúde e ninguém mais tente
adultera-la ou de outra forma trocá-la. — A moça testou o colar no
pescoço, movimentando seu queixo de forma a ver por outros ângulos
sob a quente luz das velas do quarto. — Ouvi dizer que a parceira ou
parceiro pode participar do processo para que exista prazer na ocasião,
e eu certamente desejo Runya comigo … seu corpo no meu, enquanto o
gestor, com a nossa permissão, insere sua semente dentro de mim. Não
sei que aparato ele irá usar, ou se precisará fazer de outra forma, mas
nosso bebê está garantido e eu não podia estar mais feliz.
Aratta sentiu o rosto enrubescer ao pensar nas duas noivas na sua
noite de núpcias ... ou de geração, ou … esses costumes nobres de re-
giões distantes ainda eram muito estranhos. Não estranhos de forma
ruim, apenas curiosa. E Aratta era certamente muito curiosa.

— … e a garantia de meio ano caso haja falha na gestação. — O


Conselheiro Jugro terminou de resumir o contrato ao duque pela ter-
ceira vez. Contrato uterino, alguns o chamavam. Para ele, era a simples
garantia de que sua linhagem nobre se manteria intacta, e pelo menos
seria com um candidato digno — ele esperava.
— Agradeço, meu caro. Agora nos resta aguardar a chegada dele.
O que o mensageiro disse exatamente? — perguntou o duque, que
andava de um lado para o outro na frente do seu trono.

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b Belregard b

— “A chegada se dará garantidamente dentro dos últimos sinos do


dia”, de acordo com a mensagem, meu duque. Ainda há tempo de cance-
lar — disse o Conselheiro, um toque de cautela em sua voz.
— Cancelar o quê? O matrimônio de minha filha? O casamento que
tantos convidados — que já estão hospedados aqui, permita-me lembrá-
-lo — de tantas famílias importantes aguardam daqui a dois dias? Ou
você mais uma vez está… — Ele divagou, apertando e abrindo seu punho.
Era uma cólera conhecida por Jugro, e o Conselheiro sabia o que dizer.
— Perdão por trazer-te novamente a estes pensamentos, meu duque.
Mas eu preciso atestar os fatos e as possibilidades perante Vossa Graça, mes-
mo que sejam incômodos lidar com eles mais uma vez, caso contrário não
seria um conselheiro digno. — Jugro enrolou o pergaminho na sua mão e o
guardou em segurança dentro do seu bolso interno — um entre vários. Tal
assunto era absolutamente necessário para se manter em segredo.
— Tens razão, meu caro Jugro. Mas queres mesmo que eu reafir-
me tudo novamente? — disse o duque, apoiando a mão direita sobre o
apoio de braço do trono.
— Uma última vez, meu duque. Assim reafirmamos a sua vontade,
a do Grande Duque Mirtaz de Itryat, e a decisão de sua filha, Dranima
de Itryat. — O Conselheiro parou virado de lado para o duque, e olhou
fundo nos olhos do seu Senhor. — Quero que me diga novamente, meu
duque. Quero que me convença novamente.
— Muito bem — disse o duque, largando-se no seu trono. — Mi-
nha filha, a futura Duquesa Dranima de Itryat, casará com sua noiva
escolhida Runya de Amarat, no Equinócio de Primavera. O casamento
entre duas mulheres pode ser incomum nas nossas terras, mas em tantas
outras não o é. — Ele se ajustou no trono, deixando suas costas eretas.
— A linhagem nobre será assegurada através do serviço extremamente
discreto dos gestores.
Antes que Jugro pudesse interromper, o duque levantou uma mão
para silenciá-lo, e logo usou suas mãos para se empurrar para fora do
trono, permanecendo de pé em uma postura imponente, e prosseguiu:
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b O Conto dos Anos b

— O serviço dos gestores é algo ainda questionável em muitos


cantos, mas em casos similares, ou mesmo de uma possível infertili-
dade, é a garantia da continuidade da linhagem — pronunciou o
duque, com um quê de dúvida no meio da sua frase. — Um candi-
dato ou candidata é escolhido para servir como semente ou barriga
para o casal contratante, através de uma seleção extremamente discre-
ta que envolverá os interessados diretos, incluindo características físi-
cas, psíquicas, talentos ou feitos obtidos durante a vida, tudo no mais
absoluto anonimato — disse o duque, olhando pensativo para cima
nessas últimas palavras.
— Algo o perturba, meu duque? — indagou o Conselheiro.
— Não — respondeu o duque sem forças, mas logo se retificou. —
Não. Minha filha e sua esposa não conhecerão o candidato. Ele nunca
será revelado, e recebe o suficiente para não ter qualquer direito sobre
a criança. Isso protege a todos os envolvidos, e assegura a continuidade
do serviço. — O Conselheiro estava certo; ele estava sentindo cada vez
mais certeza do que estava prestes a acontecer. — Minha filha esco-
lheu sua esposa de acordo com os costumes, elas trocaram promessas
de acordo com a tradição, e ela terá que ser uma duquesa digna e for-
te para sobreviver como soberana desta região — enunciava ele com
uma voz cada vez mais forte.
Apoiando-se nos apoios do trono, o duque parecia organizar seus
pensamentos antes de prosseguir:
— Se ela governará dignamente, então ela precisa fazer valer sua
vontade. Se eu serei um pai digno, então saberei quando ela tomou
uma decisão importante em sua vida! — Ele segue até os degraus a
três metros do seu trono, um punho cerrado na frente do rosto. Olhan-
do de soslaio para seu Conselheiro, ele finaliza: — Minha família, meu
sangue, minha dinastia … ela apenas se fortalecerá por esta decisão.
Conforme o duque se volta para os documentos, Jugro sorri com o
canto da boca. Nunca se permitiria servir um Senhor fraco. E a Senhora
estava no caminho para ser tão forte quanto seu pai.

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b TOMO I b

Testimus Homini
Uma Breve História dos Homens
PROOEMIUM
Abadia do Passo Partido, Birman, mil trezentos e cinquenta anos após a ascensão dos homens em louvor ao Criador.
Escrevo estas linhas com meu coração em regozijo. Pensava que devido ao nosso isolamento jamais poderíamos ser
surpreendidos pela vida. Que tolos que somos! Apenas mais uma prova, dentre tantas ao longo de minha vida devota
em que o Criador reserva o melhor para aqueles que são valorosos.
Aqui no Passo dos dedicados há uma severa rotina de privações e cópias. A torre, que é abadia, abriga copistas e
Entendo o sacerdotes regulares da ordem Haskelita. Não somos muitos, mas representamos o chão, o alicerce seguro para os
ânimo de pescadores desse singelo vilarejo esquecido no recanto leste de Birman. A vida aqui segue o seu próprio ritmo.
meu jovem Arrastado, moroso, mas bom para o trabalho. Talvez seja pela fama que conseguimos alcançar ao longo dos anos,
pupilo, mas o não por um esforço próprio de renome, já que o orgulho pode ser caminho para as Provações, recentemente recebemos
a visita de um homem da nobreza de Parlouma.
ouro parece
lhe encantar Dom Augusto de Borgosa, um jovem promissor dentro dos escalões de poder, sir Augusto foi recentemente sagrado
mais que as cavaleiro dentro da Ordem dos Pardos, a mais tradicional cavalaria de Belregard. Lorde Augusto confessou ao
abade que seu verdadeiro interesse era pelas artes, pela história, pelo mundo: se a posição de cavaleiro lhe permitisse
cópias. Con- o estudo, ele a aceitaria de bom grado e foi o que aconteceu. Com sua soma inicial de riqueza, nos fez uma
versaremos. visita para encomendar um compilado de tomos tradicionais sobre a vida em Belregard.
Além do O encarregado da transcrição é o próprio abade, Tullus, homem extremamente sisudo, severo e competente. A despeito
mais, todo da idade avançada, o abade é o melhor copista desta torre e não poderia ser outro a assumir esta responsabilidade,
este tratado especialmente depois da generosa soma de moedas imperiais deixadas por lorde Augusto! O dinheiro aqui não nos
certamente vale tanto, mas pode comprar algum favor das proximidades, especialmente com o Mosteiro de São Paolo.
passará pelas As obras escolhidas para constar no tomo de Augusto foram os antigos trabalhos de Haskel, notório sacerdote e
mãos de bis- historiador, denominada “Uma Breve História dos Homens”, escrita por volta do século X e XI e “O Ruir dos
pos que nos Castelos”, um tratado mais recente, do século XIV, da autoria de Técio de Villa, estudante da Academia dos
Saberes de Varning. Ambas as obras foram revolucionárias e o próprio abade discorda de muitos pontos apresentados,
visitam.
mas considera a missão de copista como algo sagrado: ele seria incapaz de alterar a mais herética linha. Ainda
- Abade assim, será possível conferir alguns de seus comentários ao longo do tratado.
Tullus
Uma Breve História dos Homens se dividirá em partes. A primeira, representando a história até o momento, com
parte do que foi deixado por Haskel e depois continuado por seus seguidores, os Haskelitas. A segunda representa
um tratado sobre os principais povos que compartilham desta terra. Por fim, o Ruir dos Castelos, na terceira parte,
mostrando alguns detalhes e comportamentos comuns a todos nós. Esperamos que esta compilação seja suficiente para
alimentar a curiosidade do lorde. Serão versões menores dos tomos originais que talvez o motivem a novamente
solicitar nosso trabalho de copistas.

Estamos esperançosos e agradecidos.


Possa o Criador agraciar a todos.

Prelado Maltus, do Passo Partido, Birman.

b b
Gravura estilo bertina de
Motazzi, representando Ignazio, da abadia
de São Lazari, em Latza, durante penitência,
quando copia de pé no salão escuro, de costas
para a luz, sob o olhar excruciante de seu velho
mentor, imortalizado no crânio liso.
b Belregard b
Prima Pars
O Conto dos Anos
“Sábio é o homem que de seu povo conhece o passado
De idas e vindas é feita uma história de louvor e pecado
Se diz o homem santo que o erro nos é um presente dado
Me permita escapar do olhar e da chama do prelado!”
- “O Prelado e o Asa Negra”, ou “Como Tiecelin Escapou da Fogueira”

Esta obra foi escrita por volta do século X, intitulada “Uma Breve História dos
Povos de Belregard”, um imenso tomo que tenta dar coesão aos descaminhos da
humanidade desde que as palavras de Morovan, o Velho, despertaram a centelha
divina dos mortais. Haskel não terminou o tomo, que foi continuado, e ainda é, por
seus seguidores. Fiz um apanhado dos principais eventos da obra original para
apreciação de lorde Augusto. É de grande valia lembrar que o conhecimento
histórico não é algo valorizado dentro da sociedade, de um modo geral, sendo algo
que faz parte da realidade apenas de estudiosos e sacerdotes e, mesmo com o
surgimento de algumas universidades em Varning e Parlouma, o estudo dos feitos
dos homens ainda é parte da própria teologia, que encabeça os movimentos
intelectuais do mundo. Afinal, o homem sem direcionamento na fé é perigoso para
si mesmo e para os que estão ao seu redor.

alar sobre a condição atual de séculos, ruiu; vítima de sua própria corrupção
Belregard não é fácil. Séculos interna. O poder, que um dia fora central, voltou
atrás, um homem uniu as caste- a ser local. Barões, condes, duques e toda sorte
lanias do mundo civilizado sob de nobres tentaram se tornar reis de suas terras.
seu punho firme e os liderou para retomar o ber- Poucos lugares se mantiveram firmes. Alguns
ço da humanidade corrompido pela Sombra. O ainda passam por turbulências, movimentos
que não sabia é que a Sombra, o Eterno Inimigo, comunais, revoltas de vassalos e de susseranos.
a Antítese do Criador, não habitava numa alcova Aqueles que podem, mantêm suas terras, pro-
terrena, mas escondia-se por trás do coração de curam aliados e prestam juramentos valorosos.
todo mortal. Sendo assim, mesmo que motiva- Mais do que nunca, a palavra de um homem é o
dos por um senso de justiça divino, aqueles ho- seu maior bem e a honra pessoal tem um peso
mens e mulheres estavam cegos e entregaram-se muito maior do que moedas em muitos lugares.
à dualidade em seu âmago durante a empreita-
O comércio, que uma vez cortava todo o im-
da. Todos ali eram, ao mesmo tempo, monstros e
pério, com caravanas vindas do extremo nor-
heróis.
te, dos campos de caçadores vogos até o sul
Há cerca de cinquenta anos o império de Vir- da fronteira dentro do território de Belghor, já
ka, que uniu as castelanias de Belregard por três não existe mais. As estradas foram deixadas e

b 20 b
b O Conto dos Anos b
apenas os loucos abandonam a segurança das simpática às moedas – estas que podem facil-
terras do senhor para se aventurar em carava- mente ser falsificadas e por isso a cunhagem dos
nas mal protegidas. Os desesperados, ou sem tempos do Império é extremamente valorizada,
escolha, tentam ganhar a vida como bandidos, devido a maior confiabilidade de sua origem.
ocupando as velhas fortalezas imperiais e pro- Desta forma, os preços padronizados de alimen-
clamando-se senhores de uma terra de ninguém. tos, hospedagem e bens costumam ser cotados
em peças de cobre. A prata é um luxo e o ouro é
Apesar de toda essa situação, o Tribunal do reservado apenas aos reis em suas próprias tro-
Supremo Ofício ainda se apresenta como uma cas com outros lordes.
instituição, com base na castelania de Birman,
que pretende dar coesão aos anseios e temores Belregard é uma terra que passou por um
Sinto-me tão honrado de
humanos. O alicerce da igreja se fundamenta exaustivo processo de transformações ao longo poder ver esses textos
em três principais linhas filosóficas e seus se- dos séculos. Nos dias atuais, pouco da história em primeira mão. Não sei
expressar muito bem o
guidores religiosos - os padres, prelados, bispos antiga ainda é preservada ou mesmo estudada
sentimento que me causa.
e oradores - espalham-se por Belregard, divul- pelos intelectuais e eclesiásticos. Dos tempos Uma mistura de apreensão,
gando-a. A despeito das condições precárias imemoriais, antes dos homens se tornarem se- afinal, eu não deveria estar
lendo isso com excitação.
das viagens neste mundo tomado pelas trevas, nhores do mundo, pouco ainda existe. O passa-
Aproveitando, por que
a ordem eclesiástica faz o possível para manter do primordial de Belregard é envolto pela névoa aceita tantas exigências do
uma boa comunicação entre seus membros. Em da fábula e do mito. A última tentativa direta de Abade Tullus sendo que ele
é simplesmente insuportável?
regiões isoladas, esta se mostra uma tarefa dig- se organizar e catalogar todos os fatos vividos
Você não precisa dele para
na de heróis. pelos homens desta terra sombria aconteceu conseguir seu devido lugar
há séculos e, neste antigo registro, “Uma Breve dentro do Tribunal. Ele
Poucos locais mantém um mercado ativo e apenas te limita, fecha seus
História dos Povos de Belregard”, escrita pelo
olhos e segue o seu voo.
hoje a forma mais comum de comércio é o es- prelado Haskel, de Virka, o tempo foi dividido Você é livre, meu amado,
cambo. Dalanor, Varning e Parlouma, a parte em eras e a cada era atribuiu-se uma transfor- apenas voe - e quando o
central de Belregard, ainda pode se considerar fizer, voe para meus braços.
mação no panorama do mundo, menos física e
ui
ndir aq Seu eterno amigo
mais política.
e x p a
igno vem P.
Acho d sforço que m
e o
todo o eito. Passa c bre
f a so
sendo masiad
a d e d e ndidos
celerid picos empree
s é fé
os ato h o m ens de
pelo s

Gravura de Fergus representando uma das muitas construções abandonadas de Belregard. De antigas estalagens de estrada
até fortalezas imperiais, abandonadas, arruinadas, ocupadas por toda sorte de horrores,
animais selvagens e bandos de degenerados e criminosos.

b 21 b
b Belregard b
A Era da Vergonha com suas próprias mãos, o Único se voltou para
“A Saída da Lama” um pequeno e tímido vale, onde, sim, fez-se pre-
sente aos olhos das Crianças Cinzentas.
Segundo Haskel, a primeira era, a Era da Ver-
gonha, foi um período em que nem mesmo os Como dito, os Selvagens eram muitos, de for-
homens caminhavam sobre a terra. Pelo menos mas e tipos distintos. Apenas dois grupos tive-
tro
Não há regis não da forma como hoje. As lendas falam sobre ram seus registros preservados até os dias do
do
sobre a data as Crianças Cinzentas que habitavam o vale de império. Os belinar eram pequenos e ágeis, as
da
início da Era Belghor e lá sofriam a opressão dos Selvagens, gravuras de estudiosos do período mostram
as seu
Vergonha, m estes sim, senhores do mundo. O termo Selva- eles com traços felinos muito marcantes em
e com
fim acontec gem é intencionalmente genérico. A variedade suas fisionomias. Já os dwetar, que habitavam
da
o surgimento de seres que habitavam Belregard antes da as- as montanhas de Rastov, são semelhantes a bo-
Era das
com o censão humana era vasta. Eles ergueram civili- des e cabras, com suas longas barbas e corpos
Revelações,
no 01. atarracados, firmes. Outros existiram neste pe-
marco do A zações ciclópicas e cultuaram todo o círculo de
o no
É um períod aberrações. Este caminho torto envergonhou o ríodo e não são incomuns os relatos modernos
qual sabe-se Criador - aquele que ordenou o mundo. Assim de atividades selvagens pelos ermos do mundo.
ido
pouco, envolv como cada grão sobressalente de areia que jazia Inúmeros outros grupos únicos existiram no
em lendas ed
no fundo do mar, os Selvagens também eram mundo.
ens,
povos selvag filhos do Criador e, sendo incapaz de matá-los
que
animalescos,
da a
louvaram to
res
Horda de se
nefastos arder até hoje; aliás, será
Por certo eram bestiais pois se relacionavam com feras. Suas almas devem
veja como a animalidade se
que tais homens-besta detinham almas em suas carnes corrompidas? Pois
, ainda que haja até
faz presente também neste povo. O Único não nos fez para violar nossa natureza
todo tipo. Não negarei: tenho
hoje alguns que cismam em amenizar seus impulsos violando rebanhos de
certo asco destes que insistem com o bestialismo da Era da Vergonha.
P.

a
Os Monges Copistas
Lhe enviarei
alguns Este livro é apresentado como um apanhado de relatos e obras de grandes estudiosos de Belregard. Na
rascunho s o
riginais primeira parte temos um resumo da história conhecida do mundo, contada sempre pelo ponto de vista da
que possuo so
bre própria igreja, por mais que existam algumas declarações contraditórias, que logo são rebatidas por Tullus,
a fisionomia
o abade que supervisiona todo o trabalho. Na segunda parte são apresentadas as etnias de Belregard e
destes selvag
ens. seus principais traços marcantes, carregados de algum preconceito que deve ser utilizado para enriquecer
É assustador
, a experiência. Por fim, na terceira parte, a vida em Belregard, é um apanhado de inúmeros verbetes que
como toda o
bra servem para pincelar sobre os pormenores da vida difícil nesse mundo isolado, mas não abandonado de
da imundície
. cores e prazeres. Vale perceber as anotações laterais ao longo do tomo, mostrando um contato entre os
copistas que se confidenciam e criticam, uma prática comum mesmo entre os mais dedicados, mas certa-
mente condenada pelo estóico Tullus.

b 22 b
b O Conto dos Anos b
A própria corte primitiva de Dalanor apre- arbítrio de seguir para a luz ou para a treva. Ao Em minhas pesquisas
descobri que os mais
senta seres leoninos, corvinos, lupinos e tantos contrário do Pai de Todos, a Sombra Viva não antigos vestígios de
outros. Existem muitos outros mistérios entre assistiria impassível aos avanços da humanida- adivinhação do futuro
os selvagens do que podemos imaginar. Neste de. Ela influenciaria, manipularia e criaria a de- e feitiçaria datam deste
período. Afinal, o povo
tempo, zoofilia e sociedades erguidas através da sordem para atrair os homens para si e, ao mes- estava sedento por
relação com animais era o padrão social. mo tempo, serem menos dependentes do Único. qualquer resposta. Dentre
todos os métodos, o mais
antigo e tradicional, tanto
Como dito por Haskel, o tempo dos anos em Belregard é dividido em que persiste até hoje,
consiste na utilização de
dois momentos. Eles são indicadas por PA, Pré-Ascensão, e DA, Depois uma pedra negra e uma
branca em um alforge.
da Ascensão, como referência à Manifestação do Único e do Chamadas de Quidat e
enaltecimento dos homens como seus escolhidos. Marcando o ano 01 do Turpitud suas
interpretações são
calendário na conquista de Virka e na coroação de Bövrar I. diversas, mas para leigos,
eram usadas para
responder a questão
O Criador revelou-se aos homens através de Por muitos anos antes da fundação de Vir- inocente ou culpado, certo
um profeta, Morovan. Este homem santo foi ka, a primeira cidade, os homens de Belghor ou errado. P.
guiado por sonhos até uma antiga caverna, onde treinaram e aprenderam sobre os caminhos da
encontrou uma pedra inscrita com os ensina- purificação. É certo que muitas cidades foram Canto e Ei de
mentos do Pai. Tal pedra angular do criadoris-
Cantar, porque
criadas dentro do prórpio vale, mas nada restou ele
rompeu e triu
mo provavelmente havia sido usada pelos pró- de suas ruinas, salvo aquelas com alicerces em nfou
em Sua Glóri
prios selvagens quando ainda viviam na graça território selvagem. Apesar de todo o poderio a,
Força, Salvaç
do Altíssimo. Lá, depois de passar por longos apresentado pelos primeiros sacerdotes criado- ão
e Louvor. Pel
períodos de jejum e contemplação, Morovan foi ristas, capazes de realizar milagres e inspirar o
as
honras dos meu
capaz de compreender as inscrições da pedra
s
amor e o terror naqueles com boas e más inten- antepassados,
e assim alcançou a conciência pretendida pelo ções, grupos distintos discordavam dos rumos sempre lhe dar
ei
Criador. Naquele momento, Morovan, o grande dos homens e muitos partiram do vale para o glória. Ele lhes
profeta, fez arder a chama criadora de Deus. Mas norte, para a futura Belregard a ser conquistada, destruiu pela
força da espa
tal despertar não se fez presente sem propósito, e para o sul, onde estende a vasta selva de Áya. da.
Guiado pela gr
o Criador precisava dos homens para limpar o É certo ainda que alguns foram corrompidos na- aça
dos céus
mundo da vergonha que eram os selvagens, in- quele tempo primitivo, formando os primeiros
capaz ele próprio de cumprir o objetivo de dar inimigos da fé, nossos próprios irmãos.
fim aos seus filhos, mesmo com estes seguindo
Ainda que não saberemos sit amet, consecte- da pela
uma trilha torta de seus ensinamentos.
u it o entoa m que
tur adipiscing elit. PARA DE SHOWmEa VAI
u m a
úsicLER m
a m igo s defende m e
ica
echo ind FOIaOgGABRIEL lguns lutasse
Assim, aqueles que foram as Crianças Cinzen- O LIVRO DIREITO, Este trPORRA! uiava. A s homens que gozo
a n d o M oro v a n
lo Ú n ic o a o
d e p ra zeres e
tas, despertaram para o papel de executores QUE MANDOU quTU FAZER fISSO, e
eita p NÃO FOI? a vida
marcha p romessa e Morovan: Um da Celeste.
u m a
da vontade do Criador. No entanto, houve um PARA DE ia
havGRAÇA! SEGUIMOSsa d COM A PRO- Abóba
r e s s e m pela cau es festivos na v orosame
nte.
problema com a chegada do Criador ao mundo, GRAMAÇÃOmor NORMAL. e m s a lõ
Vivamus auctor rd e f
antee r
m disco
vindo de seu lar, a Abóboda Celeste. Sua for- ut erat gravida, vitae commodo Há quepurus ultrices.
u pai
u vejo me ãe
ma projetou uma sombra e esta também dividiu Aliquam sagittis vestibulum Mauris “L á etincidunt
u v e jo minha m
tante e In ãos e irmãs
Não distincidunt.
o poder no coração dos homens. As Crianças nibh mi, in volutpat turpis laoretu
lado, irm ovo.
Cinzentas passariam a ter, a partir dali, o livre tempus dictum enim est enim. Ao meu meu p pre”
Este é v ive r para sem
lutar e
a m a d o para
b 23 b O c h
b Belregard b
A marcha de conquista para fora de Belghor normalmente com vantagem numérica e foi
teve a liderança de Morovan, chamado de “O apenas através do fogo que os homens conse-
Velho” nos antigos escritos que não datam des- guiram vencer, eliminando permanentemente
ta época, mas que marcaram as tradições orais sua presença nas florestas ao redor de Virka.
que permaneceram até a Era do Sangue. Alguns
dizem que o tempo de preparo dos homens de Diante da vitória, Bövrar foi oficialmente co-

Belghor para a conquista foi de séculos, que não roado como primeiro rei dos homens, agindo

poderia ser o mesmo Morovan e sim um descen- como juiz, conselheiro e emissário da vontade

dente na ordem das hekklesias primitivas. Ou- divina. A posição de líder agora gera outras ca-
Vale a pena tros ainda dizem que Morovan havia se torna- pacidades e necessidades. É dito que os céus
ressaltar aqui a do um título, como o de Eleito do Tribunal, um se abriram no momento que o rei recebeu sua
completa coroa, como testificação de que este era o ca-
cargo máximo religioso, outros ainda dizem que
negligência minho correto a seguir. Bövrar I havia trans-
ele se tornou imortal à mando do Criador. Seja
quanto à formado a humanidade em uma máquina de
existência de qual for o caso, depois da saída dos homens do
vale de Belghor, através do Passo de Morovan, guerra, na busca pela limpeza do mundo. Como
outro grupo
foi dito, estes primeiros belghos encontraram
selvagem, os a figura do profeta perde participação ativa nos
chamados relatos e fala-se principalmente de Bövrar, que outros povos de origem humana, mas neste pri-
Cabeça-de-Cão. viria a ser chamado de Puro. meiro momento apenas os ignoraram, quando
Nos registros não os queimaram junto aos selvagens. Faz-se
particulares de Bövrar guiou os homens através da selvagem válido destaque especial aos abutus, que viviam
Haskel, ele faz Belregard, encontrando grupos nômades das no extremo norte da região de Virka, na costa
menção a estes antigas Crianças Cinzentas que haviam aban- acidentada. Um povo misterioso e recluso, eles
seres, mas me donado Belghor antes da marcha ter se iniciado cultuavam os selvagens abertamente e não fize-
incomoda o fato
oficialmente. Também direcionado pelo Criador, ram questão de se misturar aos novos vizinhos
de não tê-los
Bövrar abriu caminho com ferro e fogo até o e nem por isso foram poupados.
incluído entre os
caçados coração do continente, num largo vale monta-
nhoso e intocado pela mácula. Neste vale nas-
ceu Virka, a primeira cidade e futura capital do
a
império. A Virka do passado era singela com A Exatidão das Datas

suas estruturas de pedra rústica e madeira es-


É importante dizer que a linha do tempo apre-
cura, paliçadas e torres simples, mas o contato
sentada aqui foi construída por um sacerdote,
com os Selvagens das florestas ao redor da ca- em seu tempo, e posteriormente alterada por
pital foi intenso e hostil. Os belinar viviam nas seus seguidores. Datas exatas podem causar

Gravura de Erasmo mostrando matas, muitas vezes chamados estranheza, mas elas foram simplesmente es-
uma “cerca fantasma”, muito colhidas pela conveniência do autor. Mesmo a
comum entre os selvagens. de espíritos e mesmo crianças
Ainda praticada pelos druidas vinda do Criador, marcada no ano 900, pode
do norte. dos bosques, eram ardilosos
não ter ocorrido precisamente ali, mas devido a
e combatiam apenas
relatos destoantes, o padre precisou fazer uma
em último caso,
escolha por uma data para marcar a transição
do tempo.

b 24 b
A Era das Reve-
b O Conto dos Anos b lações foi do ano
A Era das Revelações 01 ao 900 DA.
“O Tempo da Coroa”
a Nesta, os homens
A Proliferação das Hekklesias receberam a re-
A coroação de Bövrar marcou o início de uma velação do Pai de
nova era. A Era das Revelações veio como um si- Grosso modo, a hekklesia era o culto atra- seu verdadeiro lu-
vés de ritos e tradições da igreja primitiva, gar na criação, eles
nal de que a verdade cairia sobre todos os Selva-
focando-se no seu objetivo inicial que era a seriam os purifi-
gens e que o seu tempo como senhores do mun-
erradicação dos selvagens. Quando este as- cadores. Trata-se
do havia finalmente terminado. A religiosidade sunto foi tornando-se secundário, as ideias de um período no
de Virka foi firmada na hekklesia e seu principal gerais sobre o culto e igreja tornam-se mais qual ergueram-se
fundamento, o cerne da fé criadorista daqueles plurais e dualistas. Desse modo, todo ho- as primeiras for-
tempos antigos, era a busca pelos selvagens e a mem santo que sagrava-se Orador dentro talezas dos ho-
purificação do mundo conhecido, eliminando a das Hekklesias poderia criar seu próprio mens, local onde
vergonha sentida pelo pai depois dos caminhos
braço da fé, muitas vezes iniciando um culto grupos bárbaros
completamente novo, apegando-se a algum foram converti-
tortos seguidos por seus primogênitos.
elemento obscuro deixado nas parcas es- dos, culminando na
crituras da época ou mesmo com interpre- vinda do Único
Foi no fim do período do governo de
tações tendenciosas e falhas. Nos tempos
Bövrar I que ocorreu o Levante dos Indefesos. atuais, estas interpretações seriam heresias.
Desesperados pelas derrotas sofridas, os Sel-
vagens lançaram um ataque suicida que visa- Patriarcado e a Participação
va assassinar o herdeiro do rei, que havia sido das Mulheres em Belregard

isolado com mulheres e crianças nas torres de


É possível perceber que ao longo do registro
Virka. Estes indefesos tiveram que proteger o histórico de Belregard poucas mulheres re-
primogênito e este fato modificou a estrutura ceberam destaque. Isso se explica mais por
patriarcal da sociedade de Belregard daquela costume que por um preconceito declarado.
época. A partir daquele momento, a maiorida- Desde o Levante dos Indefesos, em 51 DA,
as mulheres deixaram de ter um papel se-
de passou a ser aceita aos 13 anos e mulheres
cundário e submisso na sociedade. Mas a
puderam fazer parte dos exércitos e ordens ca-
igreja, o Tribunal, costuma resistir um pou-
valeiras no futuro.
co na inclusão de nomes e feitos atribuídos
a mulheres em seus registros. Como são os
A marcha de Bövrar I seguiu firme até 51 DA,
padres os detentores dos saberes e das le-
quando este cai enfermo em idade avançada. tras, essa omissão se justifica dessa forma.
Uns dizem que Bövrar viveu muito menos que No levante, a figura de Angelina tornou-se
Morovan, apesar de ter atingido uma idade ve- conhecida como a mulher que armou-se e
nerável, por afastamento da vontade do Único. liderou os supostamente indefesos na defe-
Outros dizem que era o preço pago por reinar sa do filho do rei. Mais tarde, Angelina seria
reconhecida como santa.
sobre o sangue dos Selvagens. Independente
disso, pode-se perceber que os reis sagrados e
reconhecidos pela igreja alcançam uma idade
muito maior que outros. Algo nos ritos privados muitas vezes levavam suas diferenças para o
de coroação agracia o monarca com este dom campo de batalha, mas o pulso firme de Bövrar
de Deus. Naquele momento, a visão frouxa da conseguiu manter boa parte da ordem. Com a
hekklesia já havia dado conta de criar divisões sua morte, seu filho foi coroado como Bövrar
religiosas, cultos internos e grupos menores que II e deu seguimento ao trabalho de seu pai com

b 25 b
b Belregard b
Amante do conhecimento grande ímpeto. A diferença mais marcante en- Ele propunha debates elaborados, acalorados,
e das libações. tre pai e filho é que o segundo era movido pela que deixariam inquisitores modernos noites e
P.
curiosidade e não pelo simples desejo de limpar noites sem dormir. Sua língua era afiada e nem
o mundo. Dessa forma, a guerra assumiu rumos mesmo o mais alto representante da Igreja po-
diferentes. Os esforços militares eram ainda o deria enfrentá-lo em um debate sem ter sua fé
cerne da humanidade, mas Bövrar II desejava colocada em jogo, perdido em questionamentos.
conhecer os selvagens, saber sobre suas pró- Bövrar II fez muitos estudiosos parecerem me-
prias histórias e suas escolhas. Um pedaço de ros tolos frente a seu conhecimento. Este grande
tomo selvagem poderia valer mais do que a ca- templo caiu há muito tempo, mas seus alicerces
beça do líder deles. O que fez com que povos serviram para erguer a que posteriormente se-
Por que insiste tão antigos se voltassem contra o Criador? De ria chamada Catedral do Deicídio, maior templo
em enobrecer onde vem a força do Criador? Por que nós fo- religioso existente, mas certamente menor que
tal homem? mos escolhidos acima de todos os outros? Estas o grande templo de outrora. A construção de
Sabemos de e outras muitas perguntas fizeram Bövrar II en- tal local é envolvida em mistério. Muitos relatos
seu destino, furnar-se em mistérios tidos como profanos por antigos falam sobre como o templo foi erguido
queimando na membros da Igreja. da noite para o dia, ou de como sua obra era
Alcova Pro-
completamente silenciosa, de modo que nem
fana, por que Bövrar II cercou-se de um harém particular se viam os trabalhadores. Acredita-se que com
trata-lo como
onde mantinha uma relação íntima, pecaminosa, seu vasto conhecimento dos segredos do mun-
se tivesse sido
com toda uma sorte de selvagens e povos huma- do sobrenatural, dos demônios selvagens e os
um homem
nos desgarrados, como os abutus. Ele tinha pre-
sacro? sigilos aprendidos com feiticeiros destes povos
dileção por fêmeas das espécies, pois sabia que primitivos, Bövrar foi capaz de escravizar mui-
muitas destas culturas eram matriarcais e eram tos destes seres horrendos para trabalharem na
das mulheres o conhecimento sobre os mistérios construção de seu templo. Esta construçao é
da vida, da morte, dos espíritos e da verdadeira tida como profana por muitos Lazlitas moder-
luz e escuridão. O jovem rei empreendeu inúme- nos, onde afirmam que sua estrutura, desenho
ras viagens para além das fronteiras visitadas e forma foi feito de modo a tocar o reinos dos
pelos exércitos de Virka em busca de locais tidos céus de modo errado, atravez de caminhos trô-
.
Apenas histórias como sagrados por povos primitivos. Lá tentou pegos transitados por selvagens, uma mistura
Atenha-se à ve r- encontrar o que foi deixado de vestígio do Cria- intrínseca entre o sagrado e o profano. Uma
dade e não aos dor nestes primeiros dias, quando Ele deu o mes- obra de arte somente possível de uma mente tão
mitos. Isso são mo valor e prestígio aos selvagens, seus filhos superior quanto a de Bövrar II.
apenas histórias perfeitos neste tempo passado. Bövrar criou as
de homens
chamadas Casas de Luz, refúgios contempla-
avarentos. MIA!
tivos, bibliotecas subterrâneas, locais de puro BLASFÊ á sob
a c r e d it a que est
saber. Com o conhecimento selvagem, inúmeros Você de sua
a s im p le s tarefa não
destes santuários profanos foram erigidos, a des- um e dita que
? A c r
capela andar
peito da desorganizada hekklesia da época.
h o p o d e r para m
ten cela?
-lo numa
arremessá final.
a versão
Bövrar II construiu o Grande Templo do Cria-
e is s o d
dor em Virka, onde tentou reunir as hekkle- Retir ciência es

Minha pa ndo.
se esgota
sias existentes para um acordo comum daqui-
lo que era o cerne da divindade criadorista.

b 26 b
b O Conto dos Anos b

Fora a ameaça selvagem, é preciso lembrar da Horda. Chamamos assim toda a sorte
de culto macabro que permeava os povos daqueles tempos. Infelizmente, uma pra-
ga que ainda hoje se encontra entranhada em muitos locais, sejam povoados isolados
ou nos grandes centros populacionais. Alguns povos ditos civilizados ainda se voltam
a estas práticas, sejam os belghos com seus sacrifícios animais ou os vihs com suas
previsões em tripas… A corrupção do homem me enoja.

As atitudes de Bövrar II lhe renderam uma los e caracteres certos, em momentos e lugares
Há quem diga que o
grande infâmia entre os habitantes de Virka, corretos, qualquer pessoa era capaz de fazer próprio nome daquele que
mas nenhum deles ousava erger arma ou pa- o inimaginável. Como ele muitas vezes repetiu experimentou toda sorte
de prazeres em busca do
lavra contra o rei. Em pouco tempo, em suas “Os mundos estão conectados e tudo reverbe-
conhecimento nutra afe-
pesquisas e buscas por saber proibido, Bövrar ra com autorização dos universos. Sua mente é tos ocultos. Emplastros com
se tornou um poderoso feiticeiro. Se naquele o mundo”. Até os dias de hoje, muitos dos es- unguentos que propiciam
de
excitação e ferramentas
tempo apenas os homens de verdadeira fé eram tudantes das artes místicas se cumprimentam pra zer são enc ont ra-
íntimo
capazes de realizar milagres, como poderia um usando o clássico cumprimente que Brövrar II dos com o nome de
homem que se deitava com selvagens realizar o utilizava “Sequeri Lux”, algo como “Siga a Luz” Bövrar II.
Ser isto um fetiche?
ia
mesmos feitos? Acredita-se que em seus estu- em belgho arcaico. se
Pura lascívia dos que já
dos, Bövrar tenha conseguido quebrar a barreira encontram perdidos.
entre os mundos. Na sua busca pelas raízes do Li com meus próprios olhos alguns textos antigos P.
poder de Deus no mundo, naquilo que os pró- sobre o assunto e eles falavam sobre Mentalismo,
prios selvagens viam com reverência, o rei foi Polaridade, Causa e Efeito e muitos outros princípios
capaz de compreender toda a teia que mantém que me parecem misteriosos. Ainda não pude ter
a realidade coesa. Com gestos, palavras, símbo- acesso à nenhum texto contendo informações mais
concretas. Segue um trecho introdutório do Tomo
da Manifestação Daquilo que Vem de Cima”
a
As Viagens de Bövrar II
“Ouve os gritos da Sabedoria. Não esteja surdo à
eles. Não deixeis ficares rouca. Sai da escuridão e
Acredita-se que o antigo rei tenha conhecido ouça. Siga os passos do Mestre e
muito além do que se tem hoje por Belregard. ouça os gritos da Sabedoria.
Além de ter ciência de povos como os vihs e os Ouve e segue, lembre-se dos Princípios. Sempre!
vogos dos ermos, acredita-se que o famigerado Pois, esta é a chave. Todas as outras são engano.
governante visitou terras além do continente O mundo está vivo. O estático é morte.
e até mesmo além deste plano carnal. Sempre
viajando de forma incógnita, Bövrar tentava Mas não acumule sem usar, pois será como o ouro
aproximar-se dos sábios e aprender com eles. que escurece sem ser gasto. De nada vale.
Se os relatos sobre sua morte forem reais e seu Lembre-se que nós estamos à serviço do Princípio.
corpo estiver mumificado em algum lugar, é Nós concordamos com a Lei, mas a Lei não precisa
muito possível que aquele que o encontrar seja da nossa concordância. Aqueles que seguirem o passo
agraciado com as bençãos do grande senhor da do Mestre e seguir os Princípios,
mágica da Forma-Pensamento, do homem que este está no Caminho.”
decodificou as intrincadas tramas da realidade,
para torcê-la a seu bel prazer, o homem que P.
conceituou e iniciou a teosofia.

b 27 b
b Belregard b
O fim do reinado de Bövrar II é um misté-
rio. Dentro dos anais da história de Virka Gravura estilo bertina de Arj,
representando uma
é dito que o rei morreu aos oitenta anos “prole de Popobawa”, um povo
selvagem temido pelos Abutos.
de idade de causas naturais. No en-
tanto, como se pode imaginar, muitas
são as lendas sobre como ele teria des-
coberto uma maneira de vencer a morte.
Alguns creem que o rei escondeu-se em
uma de suas Casas de Luz, onde teve o cor-
po preservado em rituais de mumificação.
Tais Casas são procuradas até os dias
de hoje e é de se imaginar que encon-
trar o corpo preservado do antigo rei
dos homens pode trazer a desgraça
ou o pleno conhecimento dos segredos
do mundo, além de muito ouro. Entretan-
to, depois do fim da regência de Bövrar II
não existia um descendente legítimo para assu-
mir o trono de Virka. Uma série de bastardos do
rei com suas consortes começaram a brigar pelo
Eu encontrei um homem controle de Virka. Este período ficou conhecido
que diz ter viajado Histórias dizem que a mãe que daria a luz a
como Guerra das Crianças, em 116 DA.
até Rastov e ouviu da este bastardo o fez dentro de um destes locais
boca dos descendentes A despeito do estado de caos dominante em de poder, concedendo poderes místicos à sua
do próprio Larsen e Virka, com reinados breves dos filhos do antigo cria. Larsen aprendeu todo o necessário em um
seus fantasmas sobre sua ambiente caótico de conflito civil e instabilidade
rei, a conversão dos povos primitivos reconhe-
história. Ele me disse
cidamente humanos se intensificou, especial- de poder. Ele próprio chegou a guiar Virka por
que se deitou com suas
mente com os parlos, que tiveram sua crianças duas vezes, nas tentativas da construção de um
mulheres, bebeu das suas
bebidas e dançou nas tomadas para aprender sobre os caminhos do triunvirato forte com filhos do antigo rei, mas a
suas festividades. Ele me Criador e logo devolvidas ao convívio com seus ganância de alguns sempre cobrava caro. Cansa-
disse que não posso mor- semelhantes, como completos estranhos no ni- do das disputas, Larsen reuniu os seus e partiu
rer sem sentir-me vivo nho. A miscigenação com o belghos, somada a para o oeste. Sua coluna de desertores explorou
ao menos uma vez em cantos ainda desconhecidos do mundo. Foram os
esta atitude de doutrinação da geração mais jo-
uma festividade desta.
vem quase fez com que os parlos desapareces- primeiros a encontrar os dalanos com seu pode-
Seria algo incrível em-
sem. Outros grupos étnicos menores também roso legado musical e especialmente os bárbaros
preendermos uma viajem
desta após estes tomos são assimilados pelo criadorismo, recebendo a vihs das estepes. Os clãs não trataram aqueles
estarem acabados. verdadeira luz do esclarecimento, dando-lhes a andarilhos com hostilidade, mas sim com respei-
chance de uma redenção, renegando qualquer to quase divino. Por terem vindo do sul, os vihs
P. acreditaram que aquela coluna havia saído do
tradição compartilhada pelos selvagens.
svarog, o mundo dos mortos, já que a religiosi-
No ano de 150 DA, um dos bastardos de Bövrar, dade antiga dos clãs coloca o mundano e o so-
que havia nascido depois da morte do rei, liderou brenatural em limites reais. Os vihs chamaram
seu bando e suas famílias para fora de Virka. aquela coluna de Marcha Fantasmagórica.

b 28 b
As histórias que ouvi
b O Conto dos Anos b sobre tal homem é algo
magnânimo. Incrível
Para muitos, testificavam-se os poderes so- Encurralados em seus corredores subterrâ-
imaginar alguém tão
brehumanos herdados de seu pai. Existem li- neos, os dwetar foram aniquilados deixando sensível, tão evoluído,
vros, músicas e muitas lendas sobre o êxodo Rastov sem governo. Devido a independên- mesmo estando en-
tre brutos, bárbaros.
empreendido por Larsen, histórias horrendas, cia trazida pelos igslavos que se juntaram aos
Sua sabedoria parece
mágicas e diabólicas. Histórias sobre sangue, belghos durante a marcha, não demora muito ofuscar ou ao menos,
luta e liderança. Histórias alicerces para as so- para que os descendentes destes grupos vol- fazer frente à glória
das conquistas de Lar-
ciedades que se ergueram a partir deste êxodo. tem a se dividir, até mesmo abandonando as
sen. Veja os lemas que
fortalezas criadas por Larsen. Reunindo-se Karn usou para guiar
Quando demonstrou interesse em avançar ain- em grupos menores, os clãs de Rastov come- sua vida. O povo de
da mais ao norte, além da vastidão florestal cha- Rastov o segue, mesmo
çam a tomar forma. Karn, o Branco, é o gran-
mada Taiga Branca, os vihs advertiram Larsen que sem consciência. É
de herói da guerra contra os selvagens, termi- incrível.
do perigo, pois a Taiga era, para os vihs, também nada em 345DA. Procurando reestabelecer
um sinônimo de inferno. Alguns clãs seguiram “Então viva sem medo
contato com Virka, já que desejava a presença
os belghos, destacando-se no que viriam a ser os da morte. Ela nunca
da igreja também em Rastov, a fim de teste- pode estar em seu
igslavos. A travessia da Taiga foi verdadeiramen- munharem a vitória contra os selvagens, Karn coração.
te custosa. Grupos inteiros se perderam e uma es- Não dê explicações
parte para a primeira cidade.
trada verdadeiramente segura demorou mais que a ninguém sobre sua
religião.
o normal para ser aberta. De fato, a Taiga poderia Em Virka, a Guerra das Crianças acabara em Respeite o próximo.
não ser o próprio Inferno, mas era sim uma severa 220DA graças a instauração de um governo co- Ame a vida e trabalhe
fronteira. Além da floresta, nas vastas planícies que mandado por Oradores das Hekklesias, em um para se aperfeiçoar.
Sua finalidade é o bem
se abriram sob o olhar inclemente dos ermos e da concílio que gerava mais intriga e disputas in- estar do seu povo.
Coluna de Balmung, as misteriosas montanhas dos ternas de sutiliezas do poder do que reais fei- Sempre saúde ao
ermos, Rastov nasceu sob a regência de Larsen. tos e reformas. Karn se mistura às estruturas encontrar um amigo.
Um estranho deve ser
de poder da Virka teocrática e tenta restaurar sempre bem tratado
A relação de Larsen com os selvagens foi dife- um governo convencional, mas é sufocado pe- também.
rente do que era pregado em Virka. Nas regiões los desejos de sacerdotes. Disposto a mudar a Sempre dê graças ao
montanhosas de Rastov, Larsen conheceu os levantar, à comida,
situação, Karn se alia a Bóccio e lidera o Levan- ao dormir. Se não vê
dwetar, baixos e atarracados. Inicialmente não te dos Alvos, em 370 DA, uma guerra civil que motivo para dar graças,
existiu hostilidade declarada e uma convivência dividiu e sitiou a cidade por dentro, separando não tem alegria de
viver.
pacífica foi estabelecida entre os povos. Isso moradores e tornando todos potenciais comba- Tenha honra ao morrer,
mudou em 160DA, quando Larsen foi envene- tentes, ninguém ficou isento enquanto o sangue pagando àqueles que
nado em sua corte por um emissário do povo deve.
de padre e pecador sujava as ruas. O Levante
dwetar. A traição reacendeu antigos ódios e fez Cante sua música de
culmina com a vitória de Karn e Bóccio. Assim morte quando ela sorrir
com que a velha pregação da hekklesia chegasse o Karnado é instaurado, gerando uma regência para ti”
até os gélidos salões de Rastov. dividida entre um Orador e um Rei.

As Hekklesias religiosas eram o pandemônio. Sem a orientação firme de uma espinha


dorsal religiosa, qualquer lunático poderia fazer suas próprias conclusões das parcas
palavras registradas de grandes sábios do passado, como Morovan e Bövrar I. Rapi-
damente, sem qualquer instrução divina ou estudo eclesiástico, uma palavra tornava-se
uma frase e uma frase tornava-se um novo pergaminho para uma nova ideologia.

b 29 b
b Belregard b
Tal sistema funciona inicialmente, mas gera
conflitos quando aquele que deveria ser o Karn
a
III morre antes de assumir. Na linhagem de su- Patriarcas e Matriarcas
cessão, dois segundos filhos disputam, ambos
De fato muito pouco se sabe sobre tais seres.
Oradores de Hekklesias. Cientes que qualquer
Pelo que restou dos escritos de Dankhila, estas
escolha gerará uma nova disputa, a nobreza se
entidades eram os grandes geradores e gerado-
Relatos antigos dizem cala e a Guerra dos Rosários marca Virka de 447
que ras de selvagens. Não eram exatamente femini-
o túmulo da Orante a 451 DA, quando Grimaldi, o Velho, consegue
fora nas ou masculinas, eram além de julgamentos
alvo de peregrinação
de provar que seu adversário, Lindon, envenenou o de gêneros ou mesmo moralidade, eram coisas
centenas de milhares
de
pessoas, todas interessa pequeno que seria o Karn III. O governo de Vi- que não deveriam existir, um testamento do
das
em ter visões do fut rka acaba voltando para o controle de oradores. erro do Criador, se é que foi Ele quem os criou.
uro e
até mesmo, visões daqu A Oradora deixou claro em seus textos que os
ilo
que lhes esperava na
pós Em 749 DA, Dankhila, Oradora de Virka, rece- seres tinham uma forte ligação com as estrelas
vida. Livros de caixas
do e em seus mapas do céu noturno existem inú-
antigo império mostram be visões do Criador. Apontada, posteriormen-
que meras constelações que não são mais possíveis
a peregrinação enchia te, pelo Tribunal como Santa das Revelações e
os
cofres de Virka, se tor de se avistar nos dias de hoje, constelações es-
- forte aliada na luta contra o Inimigo, Dankhi-
nando parte importan tas que representariam as espécies selvagens
te de
sua economia. la revelou que a ameaça selvagem nunca seria que povoavam o mundo. Dankhila nem mesmo
E imaginar que tudo detida enquanto os Patriarcas e as Matriarcas
isso fala sobre o aspecto destas entidades, dizendo
se perdeu. Quem será
continuassem existindo. Muitos ignoraram os sempre que seria impossível descrevê-las com
capaz de encontrar seu
túmulo? Estou simplesm alertas da Oradora, mas ela conseguiu juntar precisão e que se fosse possível, jamais o faria,
ente
fascinado. já que a mera lembrança, turvada pela mente
um secto de seguidores e, como era seu direito,
de fraca compreensão, já lhe roubava o calor
criou sua própria Hekklesia para a busca de tais
P. do corpo. A Oradora preocupava-se com a ideia
seres. Alguns dizem que Dankhila encontrou de que poderia haver uma constelação para os
uma das Casas de Luz de Bövrar II anos antes homens, um patriarca ou uma matriarca para
de chegar à tal conclusão. Pouco se sabe sobre os mesmos por aí. Ninguém sabe se ela e seu
a caçada daquele grupo formado por fanáticos, grupo conseguiram de fato destruir estas aber-
mas é fato que o número de selvagens só fez rações, ou se apenas as aprisionaram nos con-
fins sombrios do mundo. A igreja tentou escon-
diminuir até ocuparem apenas o imaginário de
der essas revelações descobertas por Dankhila,
gerações futuras.
principalmente por ela ser uma admiradora do
legado de Bövrar II e sempre assinar seus docu-
A situação de Virka voltou a se estabilizar po-
mentos com o clássico cumprimento “Sequeri
liticamente com a coroação de Dante I em 820
Lux”.
DA. Dizendo ser descendente direto do Karn
original, Dante chegou a Virka reivindicando
seu direito como regente. Junto de poderosos
Quase um milênio se passou durante a Era
aliados, os Oradores tiveram medo de um novo
das Revelações e os outros grupos étnicos que
levante tomasse as ruas da cidade e acataram as
foram convertidos ergueram seus próprios do-
exigências do novo monarca. Usando um pou-
mínios. Havia a primeira cidade, Virka, recém
co de força, Dante conseguiu dar o seu golpe
unificada sob o punho de Dante; Rastov, ao nor-
com relativa tranquilidade. Não mais utilizando
te, exercendo extrema influência nos povos do
o karnado como forma oficial de governo, assu-
sul; Viha, antigo lar dos inúmeros clãs bárbaros;
miu uma postura mais tradicional.
Igslav, terra dos clãs que seguiram os passos

b 30 b
b O Conto dos Anos b
dos belghos; mais ao sul se erguia Dalanor, uma Criador e aprenderam com as parábolas ouvi-
De acordo
terra de fábulas e canções. Sob a sombra das das diretamente de sua boca. Viram o mundo o
Grande C
montanhas que cercam o vale de Belghor, esten- se desvelar enquanto a boa obra era repassada oncílio
estas info
dia-se o prado de Parlouma, longo e belo, antiga do Criador para o ouvido mortal dos Puros. Par-
rmações
e teoria f
ora de-
terra de cavaleiros. te destes diálogos representam o cerne do que sacreditad
a, algo
se tornou a Litania do Criador. Alec fora filho mais que ju
Marcando o fim da Era das Revelações e tra- sto.
de nobres que largou tudo para viver apenas do Retire isso
zendo uma verdadeira reforma na maneira de se
do
que o mundo lhe retribuía depois de espalhar a texto.
enxergar o mundo e a própria religião em Bel- palavra de Deus. Lazlo era filho do pecado de
regard, está a vinda do Criador. Dessa vez não um padre e sedento pesquisador, contestador
através de um profeta, mas numa forma carnal, do mundano e do fantástico. Leoric foi filho de
como seus filhos, no ano de 900 DA. Por cerca cavaleiros traídos que buscou vingança e cres-
de vinte anos, mistérios inomináveis em forma ceu conhecendo apenas a violência, aprendendo
de forças naturais indicaram a vinda do Criador. a se disciplinar junto ao Pai. Outro fato marcan-
te do período foi o fim dos milagres. O que era
No momento de sua chegada os céus se abri-
possível para os homens devotos no passado,
ram e o Pai se fez homem para alertar os po-
não era mais com a vinda do Pai. Para alguns
vos de Belregard sobre os novos dogmas que
foi como perder a ligação com Deus, para ou-
seriam seguidos pela futura igreja reformada.
tros era a marca do novo começo, o tempo onde
Em sua chegada, o Criador experimentou as
o rio de graça seca e cada um precisa meditar
Três Marcas, ou Três Chagas. A primeira delas foi
sobre suas ações para ser agraciado. Uns dizem,
na alma, quando percebeu que sua vinda trouxe
que antes deste fato, o Criador permitia que ho-
o inimigo, a Sombra Viva, que também estava
mens realizassem milagres por pena, não por
livre para agir no mundo mortal. A segunda
qualquer tipo de merecimento.
marca foi a do ego, quando o Pai se mostrou
Ciclo da
diante de seus filhos, imaginando que sua mera é o qu e eu chamo de
Fato intere ss an te ate entre
presença seria capaz de trazer a clareza total te m a qu e é motivo de deb ríodo
Ausência, um no ssa história sob
re o pe
e pureza de pensamento pleno para todos, mas tu d io so s d e ele alento
os es
ed eu a vi nd a do Criador. Aqu da noite
foi um engano, já que encarar Deus diante de si que prec e existir
o fiel deixou d s mila-
era como estar diante de todos os seus pecados sentido por tod er am ca pazes de breve
s qu e sua
e falhar. No lugar de filhos devotados, o Criador para o dia. O er am cu ra r ou acalmar com e
d
gres não mais pu ra. Foi como se cada homem
o
presença inspirad rd houvesse sido abandonado
encontrou pessoas desesperadas que gritavam
B el re ga e de
e arrancavam os próprios olhos com as mãos, mulher de
un s d iz em qu e este foi um test he
tentando fugir da verdade. A última marca, pelo Pai. Alg
qu e o Ú ni co soubesse quem L o
do corpo, só veio no fim, quando ele partiu… resistência, para d evoção. Alguns
dizem que
ve rd ad ei ra três dias.
prestava in ta anos, outros de dos em
Morrendo. f o i d e tr
período esespera
se en co ntram relatos d ego
F at o qu e
e in te rv al o . A conclusão que ch
No entanto, a vinda do Criador não fora com-
períodos nest poucos, em
e es ta A us ên ci a aconteceu aos te retor-
pletamente angustiante. Ciente da sua necessi- é de qu finalmen
entes. Quando a,
dade de deixar frutos, Ele preparou alguns es- momentos difer e chamo de Ciclo da Presenç
o d o qu am d e
colhidos antes da chegada e estes homens que nou, no perí s, sa ce rd o tes não receber osos
an o
por mais trinta ato que torna ainda mais curi
não sofreram diante do pai foram Alec, Leoric . F
volta seus dons sos Milagres
e Lazlo, os Puros. Eles caminharam ao lado do o Livro dos Fal

b 31 b
b Belregard b
A Era de Sangue
a “O Peso do Aço”
A Era do Sangue
Acontecidos do Ciclo da Ausência
se iniciou em 901 As andanças do Criador com seus Puros mar-
e durou até o ano Como mostrado no texto, o Ciclo da Ausência cam o fim da Era das Revelações e início da Era
1000 DA. Um foi marcado por inúmeros momentos bizarros.
de Sangue. Apesar da presença de Deus, foi um
período conturba- Por todas as castelanias surgiram relatos de coi-
do e marcado por sas estranhas ocorrendo quando os sacerdotes
período conturbado para o homem comum.
traições de sangue, deixaram de sentir sua ligação com o Criador.
Por cerca de trinta anos o Criador caminhou
uma verdadeira Exemplos como os de Mikhail de Igslav, Bari-
vergonha o Pai, cos, ou da chamada Catedral Invertida, cons-
pelo mundo mortal e seus feitos são motivo de
mas também mo- truída por um homem só, não apenas sua parte discussão entre clérigos e leigos. Antigos regis-
mento da criação superior é impressionante, mas os infindáveis tros dão cabo de apontar certos acontecimentos
do Tribunal, cer- túneis de catacumbas abaixo dela. Este é um envolvendo a figura do Pai, mas é sabido que ele
cando os homens terreno fértil para eventos estranhos e atitudes próprio optou pela discrição depois de sua che-
de segurança. insanas. Na busca por respostas, especialmente
gada em Virka. Talvez por ter percebido o que a
do divino, o homem é capaz de coisas terríveis.
visão de seu semblante puro e perfeito causou
Lembre-se, os homens santos de Belregard sen-
tiam de fato a presença do Criador, era o que
aos seus filhos, muitos indignos de tal graça. O
lhes dava sustento. Subitamente, esta ligação Único vagou então apenas com os seus escolhi-
foi perdida. É um sentimento de perda que se- dos, capazes de absorver sua graça divina. Al-
gue ainda hoje. guns relatos são contraditórios, mostrando o Pai
de Todos em lugares distantes, mas em interva-

Gravura de Ferguson representando ruínas da Era de


Sangue, que devastou Belregard colocando irmãos contra
irmãos e pais contra filhos.

b 32 b
b O Conto dos Anos b
los curtíssimos de tempo. Isso pode-se explicar
pela natureza de Deus, incompreensível aos ho-
a
mens. Toda castelania, ou mesmo povo isolado, Narrando e Jogando: Arautos
tem algum relato misterioso sobre esse período,
Os Arautos representam um elemento diferen-
não só dando conta de mostrar a loucura que
ciado no jogo. Eles serão mais detalhados ao
acometeu antigos sacerdotes, mas de eventos
longo do livro, mas é importante perceber que
inexplicáveis envolvendo a figura de um homem este momento, o da morte do Criador, marca
humilde que caminhava de pés descalços, acon- o início da existência dessas pessoas ilumina-
selhando a quem Lhe procurava. Nenhum povo das e escolhidas, não por desejo, mas pela ne-
ou cultura foi deixado de fora. cessidade do combate contra a Sombra. Uma
última linha de resistência para combater um
Nunca mostrei isso para ninguém. Copiei inimigo que venceu a guerra e coloca em risco
esse trecho de um livro que estava a integridade física e espiritual de todo homem
sendo transportado por cavaleiros alguns e mulher de Belregard.
anos atrás. Fiquei estático ao ler e ainda
abalado por nunca ter esquecido nenhu-
ma das palavras que lhe transcreverei
”É inquietante a resistência de incluir Curioso perceber como relatos recolhidos ao
os Cinco Puros, pelo fato de dois deles longo dos anos dão uma noção de mostrar o
terem tido fins prematuros. Hellish quão importante foi a vinda do Criador para
simplesmente abraçou a loucura de sua todos os povos daquele tempo. Não apenas os
mente débil quando soube da partida tocados pela palavra foram agraciados, senti-
do Pai e o quinto, cujo o nome nunca
foi registrado, teria seguido com o
ram a vinda de seu Pai. Mesmo entre os he-
Criador, mas abraçou a causa da Sombra reges, entre os bandos nômades e selvagens, a
no vale de Belghor”. vinda do Único foi sentida e relatada, fosse
por desenhos rústicos em pedra, simbolismos
P. tacanhos ou por histórias passadas geração
após geração, todos o sentiram. A vinda de
Novamente, a vinda do Grande se converteu
um ser de pura luz que transcendia qualquer
crença ou vivência, bastando-se para colocar
em atitudes da Sombra. O mal em sua forma
cada homem aos seus pés, reconhecendo-O
mais pura se manifestou no mundo, mas en- como Senhor absoluto da vontade de cada
quanto o Criador caminhou e abençoou aqueles um de nós. Ouso dizer que o mundo já vivia
que tinham sido convertidos à sua fé, a Sombra em treva antes mesmo disso, por mais que não
concentrou-se num só lugar... O berço dos ho- soubéssemos, foi o Pai quem trouxe a primei-
mens, o Vale de Belghor. Influenciando direta- ra e verdadeira luz, ainda mais grandiosa que
mente os que ainda viviam em tão pura terra, a
a apresentada a Morovan. Acredito que mui-
to desta história fora abandonada, alterada
semente do mal genuíno tinha sido plantada e
ou esquecida devido o coração mesquinho do
estava pronta para germinar. Contam as lendas homem, afinal, muitos clérigos foram enver-
da época que o infame Bövrar II, o segundo rei dos gonhados pelo desaparecimento da sua capa-
homens, voltou à vida para reinar na terra negra e cidade de executar milagres. Muitos demons-
que a própria Sombra escolheu seu Eleito corrom- traram sua raiva alterando a história que o
pido, como contrapartida aos Puros do Criador. Criador escrevera. Histórias dizem que aque-
Um verdadeiro antro de podridão e perversidade.
le que assim o fizer, alterar textos sacros,
morrerá com chagas horrendas. Acredito que
Ciente desta ameaça, o Pai tentou remediar a sejam apenas lendas para nos obrigar a fazer
situação. Uma verdade que muitos catedráticos
aquilo de devemos fazer.

b 33 b
b Belregard b
já debateram é a questão do quão poderoso é o Durante o período da presença do Criador
Criador. Segundo palavras ditas pelo próprio, atra- no mundo, o poderio de Virka voltou a crescer.
vés de suas parábolas, toda a atitude desprendida Dante II havia tido apenas filhas e conseguiu
por Ele requer um custo. Algo que não tem mais orquestrar casamentos e acordos que o favore-
Criador tolo? retorno e ainda, de acordo com interpretações dos ceram no futuro, com seus netos. Em 920 DA, a
Uma criança fan- próprios puros, estava chegando ao fim. Dispos- família Vlakin torna-se importante em Virka e
farrona? Uma to a deixar uma última lição para suas crianças, em Rastov, unindo as duas primeiras grandes ci-
blasfêmia! Cer-
o Altíssimo desprendeu parte de sua essência di- dades dos homens. Desse modo, apesar de não
tamente textos
falsos atribuídos
vina para aquecer ainda mais a centelha que todo ser rei de Rastov, Ilário Vlakin torna-se repre-

aos Puros origi- o homem tem dentro de si, fazendo-a prevalecer, sentante dos interesses da castelania em Virka,
nais. Tanto que na maior parte do tempo, sobre a influência da ao mesmo tempo em que reinou na dita cidade.
foram perdoados Sombra e assim partiu. Alguns poucos dizem que O Criador não se envolvia em assuntos políticos,
pelo Tribunal. Se a Sombra é criação do próprio Criador, como um mas os regentes do período faziam uma verda-
a mim fosse consi- motivador à fazer o homem querer sair do lamaçal deira corte quando boatos da passagem do Cria-
derado tal poder, e ascender em direção à Abóbada Celeste. dor se espalhavam. Como sempre se apresenta-
expurgaria tais va de forma humilde, acredita-se que muitos
textos dos anais Em 905 DA, o Único, reunido com seus puros, miseráveis foram tratados como reis, sem que
históricos. fala sobre o perigo que se instalou no mundo com seus anfitriões se dessem conta do engano. Em
a sua chegada. Ele fala sobre como a Sombra se- todo caso, a vontade do Pai era realizada.
guiu seus passos e instalou-se no antigo berço da
humanidade, de onde vieram os primeiros desbra- A ida do Único, em 928 DA, não foi carregada
vadores e o próprio Morovan. O Criador alerta que de brilho ou glória. O Pai partiu como homem
era preciso expurgar o mau dali e a única forma de e sangrou para tanto. Em um último sacrifício,
fazê-lo é ir até o coração desta corrupção. Alguns na direção de Belghor e da Sombra, Ele buscou
Já falamos so- textos menores, até mesmo apócrifos, dos próprios enfraquecer o inimigo, tentando fazer suas gar-
bre essa teoria puros mostram uma visão extremamente humana ras se afrouxarem contra os mortais. Esta foi
ultrapassada sobre para o Criador. Lazlo chegou até mesmo a des- a última marca sofrida pelo Criador, a marca
Marcas. Reve-
crevê-lo como uma criança curiosa, uma que tinha da carne, quando ele sofreu das mesmas mo-
ja isso. Mais uma
o dom da criação poderosa, que aprendia com os léstias que nós, mortais, sofremos. O Altíssimo
coisa, sei que pode
escolher pala- erros e tentava melhorar, uma criança que ainda caminhou até Belghor, angariando seguidores
vras melhores e estava longe de ser perfeita, mas que merecia todo até a fronteira do antigo berço dos homens e lá
deixar a partida o amor dos homens. Se os homens fossem capa- mostrou como a Sombra corrompeu os que fi-
do Criador mais zes de perdoar os erros do Pai, o que mais poderia caram. Um reino distorcido e depravado havia
interessante. Eu ser impossível? Alec conta que o Senhor aprendeu sido erguido no vale e a presença inspiradora de
pouco me importo, muito com eles também. Leoric era visto como um Deus foi recebida com flechas, aço e maldizer.
mas lembre-se dos verdadeiro protetor de Deus, seu fiel escudo, em Leoric estava ao seu lado, junto de um exército
gostos de quem
todos os sentidos. Alec dizia que fora ele mesmo de soldados fiéis. Em meio ao conflito inicial, o
encomendou
que enxugara as lágrimas do Criador frente ao seu Criador partiu, deixando os homens de armas
estes tomos.
arrependimento. É muito possível que estes textos revigorados com sua inspiração, com seu sacri-
desconsiderados pela igreja tenham ajudado na in- fício divino. Os relatos sobre esse momento, da
fâmia que resultou na morte dos Puros. partida do Pai, são muitos.

b 34 b
b O Conto dos Anos b
Leoric, naturalmente, se manteve na fronteira
a e lançou os alicerces de seu próprio reino, ain-
O Sacrifício do Criador da chamado Brandevir. Ele pretendeu retomar o
Karnado, acompanhado de um sacerdote para
Deus percebeu, quando apresentou-se dian- guiar os homens pelo caminho da retidão, tem- Não é raro encon-
te dos muros de Belghor, que não seria capaz trar algumas marcas
perados para a guerra do corpo e do espírito. Foi
de fazer os homens vencerem a Sombra dire- de fundação de anti-
o orador Lazarus quem seguiu na regência com gos reinos e cidades em
tamente e que nem mesmo ele poderia chegar
o Puro. Lazarus foi grande estudioso do oculto Belregard. Muitas des-
até ela naquele momento. Percebendo como o
tas ruínas ainda possuem
Inimigo influenciava tudo diretamente daquela e do proibido. São dele os estudos sobre os Ím-
algum destaque, sendo
forma, o Criador preferiu deixar o mundo pro- pios que servem à Sombra. Leoric, desconfiado um ponto de referência
tegido com a sua partida. No seu sacrifício o de que Lazarus poderia acabar se deixando le- para muitos. Mas aqueles
que restou de sua centelha de poder foi utiliza- var pelos encantos do Inimigo, insistiu para que que se referem à Era do
Sangue costumam estar
da para criar uma defesa, um escudo, uma bar- o sacerdote abandonasse seus estudos profanos, afastados das cidades. Há
reira, forçando o poder da Sombra a se limitar. mas o mesmo não o ouviu e iniciou uma cisão quem diga que há alguma
O Inimigo sempre foi sutil e com o cerco impos- maldição entorno das pe-
no reino. Nessa divisão, em 967 DA, Brandevir
to pelo Criador, é apenas através dos Ventres dras angulares das cidades
ficou enfraquecido, transformando-se em dois
Negros que ela poderia agir mais diretamente, formadas neste período.
reinos, Braden ao sul, concentrada na Muralha Ainda há quem cogite
de rachaduras nesta proteção, locais onde o pe-
do Leão, onde Leoric manteve sua guerra e Bir- que elas foram erigidas
cado é mais intenso. No entanto, corroborando
man ao norte, regida por uma teocracia. seguindo alguma orientação
com a ideia de que Deus não é perfeito e erra,
astral. Vez por outra al-
a partida do Criador deu a Sombra tudo que ela gum cadáver é encontrado
A Era do Sangue viu ainda o surgimento de
poderia desejar, apesar das limitações de espa- nas proximidades. Mas é
muitos outros reinos e castelanias. A guerra en- claro que pode ser apenas
ço, agora ela tinha tempo de sobra para atuar
nos homens, sem pressa para vencer, ganhando tre os bárbaros iniciada por Rastov, tomou novos mais um assassinato feito
caminhos e um conflito armado na fronteira foi por bandoleiros de beira
e consumindo a todos com a sua mais básica e
de estrada.
fundamental aliada, a Mentira. deflagrado. Em 940 DA, os clãs de vihs quebram
sua relações com os barões de Rastov e fundam P.
sua própria regência, no reino de Viha que man-
Criador é tinha tradições antigas, mas que também prati-
A morte, partida, do
rmas di- cava do Criadorismo em hekklesias particulares,
contada de muitas fo
campo de com uma visão conciliatória entre os cultos an-
ferentes. Relatos do
tórias con-
batalha mostram his
tigos. A criação dos demais domínios se mostra
zem que o
traditórias. Alguns di em 955 DA, quando Ilário Vlakin, mostrando-se
i alvejado
corpo do Criador fo um governante de pulso frouxo, acaba ceden-
as uma flecha
de flechas, mas apen do muitas das terras de Virka a nobres que lhe
ferido o
negra parece ter Lhe faziam oposição. No lugar de conseguir novos
eu corpo cair
coração, fazendo S aliados, o monarca viu-se isolado em sua própria
m glória, uma
sem vida, sem luz, se reserva, enfraquecido enquanto outros passa-
mum. Outros
morte de homem co ram a gozar da prosperidade, como o ducado de
majestoso,
falam sobre um fim Lazari, em 957, que viria a se tornar a castelania
l subiu aos
onde Sua alma imorta
lta à vida os de Latza. Dalanor é fundada nessa época, sob
céus e trouxe de vo
talha. Outra a figura do lendário Lycaon, o justo. Parlouma
homens caídos na ba
desfazendo também ergue sua própria bandeira, a terra dos
fala de Seu corpo se
unca se sabe- cavalos e berço da cavalaria, dando sinais de me-
em fachos de luz. N
onteceu.
rá como realmente ac
lhora, de recuperação do antigo orgulho.

b 35 b
b Belregard b

Talvez pelos documentos estarem bem guardados naquela época, Haskel não tenha
falado sobre Os Livros dos Falsos Milagres. Durante o período que seguiu a par-
tida do Criador, proliferaram-se casos de testemunhos milagrosos. Homens capazes
de curar chagas e deficiências com a mera imposição das mãos, outros capazes de
suportar os mais severos ordálios de fogo e ainda aqueles que inspiravam multidões
com seus olhares ou singelas palavras. A igreja daquele período, não ainda o conso-
lidado Tribunal, investigou estes casos e todos foram catalogados em Livros dos
Falsos Milagres. Em todos os casos representados, a despeito do bem que se te-
nha feito, cada um dos milagreiros teve um fim trágico, por execução da igreja ou
traídos por aqueles que se beneficiaram de seu dom. Sabemos que antes da Ausên-
cia, devotos eram capazes de operar milagres, mas nunca depois disso, o que causa a
estranheza de tantos mundanos e vulgares operando tais feitos.

Foi no período próximo do fim da Era do San- Alec lutou muito para acabar com o caos das
gue que os Puros encontraram um fim trágico. hekklesias, foi o último dos Puros a cair. Durante
Um a um tombaram desacreditados. O primei- o tempo em que seguiu sozinho, não se manifes-
ro foi Lazlo, em 945 DA, que se suicidou ao se tou pelos destinos de seus irmãos, talvez julgan-
lançar de sua torre de estudos dentro de Virka, do que apenas o próprio Criador pudesse julgar
onde seguiu com as pesquisas depois da partida seus captores. Em 961 DA, no concílio de Velize,
do Criador. Lazlo era muito apoiado pela classe Alec acabou com as Hekklesias e instaurou a
nobre e pelos comerciantes, já que defendia o Trina, onde os ensinamentos eram divididos en-
Desculpe a ausência, sofri progresso. Acusado de estudar o proibido, de tre os que foram deixados por ele próprio, a pro-
um ataque de salteadores
na última viagem. Meu compactuar com a Sombra, seus inúmeros to- liferação da palavra do Criador e a humildade;
mensageiro morreu no mos, quase todos foram queimados, mas alguns entre as palavra de Lazlo, na busca pelo saber
ataque. Algo me diz que foram recuperados por seus seguidores, que se e do culto racional, e por Leoric, representando
os salteadores sabiam quem
eu era, parecia mais do mantiveram em segredo, passando por ordálios o braço tenaz da fé, o caminho irrepreensível.
que um ataque para me de purificação. Naturalmente, o Puro escondeu tais verdades,
roubar. Quando comecei
de que estava erguendo novas bases sobre o le-
a lhe escrever isso, senti Leoric morreu como viveu, no combate. De-
estar sendo observado, gado de seus irmãos, já que seus irmãos haviam
seguido. Ficarei um tempo pois de anos guiando seus homens na conquis- sido mortos e desacreditados. Com a Hekklesia
sem escrever-lhe, o coração ta de Belghor, o Puro teve um sonho onde viu Trina, Alec lançou o fundamento do Tribunal do
não aguenta, meus olhos o Leão triunfando sobre a Serpente. Juntando
choram. Supremo Ofício, fundado oficialmente em 988
seus exércitos, marchou para a negra Belghor e DA, o mesmo ano em que Alec foi morto por
Do seu amado lá morreu, em 968 DA. Até ser enaltecido como
P. apedrejamento acusado de traição por deitar-se
santo, acreditava-se que Leoric havia abando- com a mulher do monarca de Virka.
nado seus irmãos no conflito, acorvadando-se,
mas tais acusações foram retiradas. Por fim veio Varning nasceu em 970 DA, diante da fra-
a morte de Alec, que viveu até 988 DA, com queza de Giocomo Vlakin, filho de Ilário, em
cento e oito anos de idade. manter suas terras. Um lugar que pensava no
progresso, seguindo ensinamentos deixados

b 36 b
b O Conto dos Anos b
por Lazlo, onde o perdão pelo pecado dos ho- O prelado morreu no ano de 1001 e seu tra-
mens havia sido dado com a partida do Criador. balho teve certa continuidade, mas mesmos os
O progresso não deveria ser freado. Tal local logo registros destes tempos mais recentes são raros
tornou-se um antro de corrupção embasadas nas e estão guardados em monastérios ou em posse
acusações da própria igreja. Esta mesma igreja da mais alta nobreza.
que acabou perdoando os puros em 990 DA, acei-
tando-os como padroeiros de seus três caminhos. A Era da Conquista
“O Punho e o Ouro”
Enquanto alguns se preocupavam com as
oportunidades deixadas por seus vizinhos, na Visando manter o padrão criado por Haskel,

busca por novas terras, títulos e riquezas, pou- aqueles que seguiram com seu trabalho marca-

cos prestavam atenção à verdadeira ameaça, ram o início de uma nova era no momento em

aquela vinda de Belghor. Tirando proveito disso, que Vlakin II começou a ter apoio popular em

Vlakin I de Virka, viu a oportunidade de devol- sua Marcha. A Era da Conquista marca o esforço

ver a glória à primeira cidade dos homens. Cla- da monarquia de Virka em reconquistar o berço

mando pela retomada de Belghor, por vias de dos homens e assim consolidar seu poder como

uma marcha, Vlakin I, filho de Giocomo, iniciou principal centro de influência.

uma campanha militar a qual seria fortemente ina


st a se in ic ia em 1001 e term
ui do
A Era da Conq estruturação
religiosa e uniria todos os homens. Do servo ao
ar ca d a pe la
sendo m uma
prelado, do capataz ao cavaleiro, todos seguem
em 1070 DA, e a co nq ui st a de Belghor,
ka
a mesma fé. Os registros da época, que mos- império de Vir a pe lo pr óprio Criador.
tarefa d ei x ad
tram muitos relatos de soldados de Braden, fa-
lam sobre os horrores nas fronteiras, das coisas
que saem das montanhas, das máquinas que são
empreendidas contra as muralhas e do terror
que Belghor causa no coração de todos. Porém,
os registros de Haskel terminam antes de um re-
sultado dessa propaganda.

Gravura de Fergus representando a temível fortaleza de Xerigordon.

b 37 b
b Belregard b
Você tem recebido Giocomo Vlakin havia deixado Virka limitada Foi na coroação de Vlakin III que o império
minhas cartas? Se sim, a uma simples reserva que mal servia para ali- de Virka nasceu, em 1050. Ainda que nem todas
porque insiste em não mentar seus limites. Tentando restaurar a glória as castelanias do período tivessem se curvado
me responder? O que
de Virka e lembrar às demais terras que ele era ao domínio imperial, a criação do Tractatus Ter-
lhe fiz? Minha pobre
rei da Primeira Cidade, Giocomo exigiu que o rae, delimitou terras e acertou velhas disputas
alma sofre no alento
Tribunal o reconhecesse como Vlakin I em 1001 advindas da Era do Sangue, angariando ainda
da solidão.
DA, firmando uma dinastia que restauraria esta mais poderosos aliados para Vlakin III.
Caso não as tenha glória passada. No entanto, o monarca teve
recebido, acredito en- pouco tempo para realizar seus sonhos. Ciente Convocando todos os homens e mulheres das
tão que estamos sendo disso, preparou o terreno para seu filho, reali- terras civilizadas capazes de erguer uma arma
vigiados. zando favores e tornando Virka, novamente, um para se juntarem à marcha contra Belghor. Re-

ponto de encontro neutro entre as castelanias. unidos na velha Muralha do Leão, erguida por
Tenha cuidado. Leoric, Vlakin III liderou pessoalmente seus ho-
Giocomo não conseguiu corrigir todos os seus
erros do passado, mas passou a lição para seu mens até o coração da terra tomada pela Som-
P. bra. O combate foi longo e a Guerra do Coração
filho que assume como Vlakin II em 1030 DA e
tenta seguir os sonhos de seu pai. Negro durou longos e penosos dez anos. No de-
correr deste período, muitas vidas se perderam.
Vlakin II conseguiu puxar as cordas de in- Homens de todos os cantos de Belregard, ricos
fluência deixadas por seu pai e iniciou um cami- e pobres, marcharam contra a negra Belghor.
nho para a conquista. Cuidou para passar toda Concentrando-se em Braden, os ataques foram
sua instrução ao seu filho, pois tinha plena cons- direcionados ao antigo Passo de Morovan, por
ciência de que não conseguiria encerrar todos os onde os homens tinham partido pela primeira
conflitos latentes do continente. Varning estava vez e, pouco a pouco, a vitória parecia próxima.
em guerra quase declarada com Birman, já que Quando deram os primeiros passos para dentro
a segunda acusava a primeira de realizar cultos do vale, gerações depois de terem partido, nem
da Horda em aberto. Rastov tinha interesse em mesmo o mais antigo dos homens poderia reco-
dominar Dalanor, em busca de terras mais fér- nhecer tal lugar. Uma civilização ciclópica havia
teis e clima mais ameno, com Viha colocando-se dominado as terras de outrora. Homens de co-
em seu caminho para proteger os dalanos. Dessa ração negro zombavam das litanias do Criador
forma, Vlakin III cobrou os favores deixados por e cultuavam a Sombra abertamente e imagens
seu pai. Os alicerces para a convocação à guerra blasfemas de criaturas e seres jamais imagina-
estavam lançados em uma propaganda que se dos adornavam as torres e castelos.
espalhou pelos quatro cantos do continente. Um
Lembro-me dos registros de
chamado geral às armas que seguia de perto a
Xerigordon, a primeira fortaleza
construção de grandes estradas ligando as prin-
a ser tomada. Dos homens que
cipais castelanias de Belregard. Estradas estas
entraram em seus salões escuros,
que foram fundamentais para a instauração do poucos voltaram, sendo ainda hoje
poder imperial. Em 1045 DA, Vlakin II dá um considerada como um lugar de
importante passo para sua dominância, unindo pleno mau agouro. Evitado. Nunca
Viha e parte do Território de Rastov, formando pus meus olhos nela, mas as descri-
a Grande Viha, juntando novamente os povos de ções são de causar pesadelos. Mi-
raiz bárbara. nha lucidez parece me abandonar
cada vez que leio sobre tal local.

b 38 b
b O Conto dos Anos b
Quando alcançou o chamado Arcem Aeter- III marca também o fim da Era da Conquista e A Era dos Homens
nus, a fortaleza do monarca de Belghor, hoje inicia a Era dos Homens, longo período de rela- se inicia em 1071
completamente modificada para purificá-la da tiva paz e calmaria. e segue até 1301
corrupção, Vlakin III trocou golpes com o rei de DA quando os ho-
coração negro. A batalha entre os dois foi lon- A Era dos Homens mens viveram sob
ga e custosa. Não se sabe muito sobre o rei de “A Palavra e o Livro” o jugo imperial,
crentes que este
Belghor daquele período, os registros mantidos
Uma vez que a monarquia local fora conquis- era o verdadei-
na castelania foram destruídos e Vlakin III nun-
tada, a influência da igreja cuidava do resto e ro desejo do Pai,
ca falou publicamente sobre seu encontro com mas o homem é
mesmo rebeliões esporádicas eram combatidas
a treva encarnada, não se sabe se, de fato, era
de imediato, sempre com a alegação da manu- um ser de pecado,
a linhagem Bövrar que havia retornado em uma de orgulho e pai-
tenção da fé, já que tais grupos praticavam toda
paródia profana. Por fim, Vlakin sai vitorioso, xão. Assim, mesmo
a sorte de culto profano, enaltecendo selvagens
mas terrivelmente desfigurado. Despachando o maior gesto em
e desejando trazer a ruína ao glorioso império. louvor ao Senhor
seus soldados para que ocupassem as cidades
Essa era de quietude e plenitude do império foi mostra-se rachado
dominadas, o rei desceu até os níveis inferiores
conhecida como a Era dos Homens mas não re- e corrompido
do Aeternun e fez uso das forjas de Belghor,
presentou grande oportunidade para eles, que por dentro.
usando do aço escuro, Vlakin forjou uma coroa
foram oprimidos diariamente pela igreja.
que seria símbolo do império. Tal ornamento
consistia numa máscara de ferro com pesadas O Tribunal casou perfeitamente com os dese-
ombreiras e coroada à imagem das represen- jos de Vlakin III depois de sua conquista. O po-
tações divinas do Criador. Quando mostrou-se der é instaurado e o Império é reconhecido em
novamente para seu povo, envergando aquela uma coroação em Belghor. O imperador recebeu
coroa, dez anos depois de lançada a Cruzada, a sua coroa por sobre a máscara de ferro, sendo
estaca final para a supremacia dos Vlakin havia anexada permanentemente a ela em seguida, e
sido fincada. foi ovacionado por todos. Dos soldados que in-
vadiram o vale negro até a população oprimida
Aproximando-se da igreja com a vitória, fi-
que vivia sob o domínio do monarca anterior,
cou fácil para Vlakin confirmar seu poder em
todos louvaram Vlakin III como se este fosse
cada uma das castelanias de Belregard e mes-
uma reencarnação viva do primeiro Bövrar. O
mo os irresolutos vihs estavam com seus co-
Eleito ao seu lado foi admirado como o próprio
rações amaciados depois daquela conquista. O
Morovan e a boa nova se espalhou como fogo
poder do império foi sendo firmado e peque-
em palha seca. No entanto, a vitória trouxe ou-
nas revoltas foram logo sufocadas. Vlakin III,
tros problemas.
como grande representante dessa nova ordem,
buscou por relíquias e segredos. Tendo interes- Braden havia se erguido como um reino cria-
se especial nos feitos de Bövrar II, o monarca do para combater Belghor e agora que não ha-
realizou pequenas buscas pelos terrenos mais via mais a ameaça externa, a situação interna
isolados de Belregard como havia feito em 1061 da castelania tornou-se delicada. Servindo ain-
DA, quando massacrou os moradores do ducado da como um meio caminho, um campo neutro
Lazari, em busca dos tesouros da família. Com para as negociações nos períodos em que o
a unidade assegurada, todo o ducado Lazari se imperador passava em Belghor. O intuito ori-
tornou uma grande zona logística, com campos ginal de Vlakin III era o de que o antigo ber-
de treinamento e prisões. O império de Vlakin ço dos homens se tornasse o foco do império,

b 39 b
Um viajante me vendeu
b Belregard b
alguns desenhos e rabisco mas é inegável que existe, ou existia, algo de
que valem a pena serem
s
ruim na própria terra, que deixava os homens
a
vistos. Olhe esses crânios,
elas são deformadas. Nos perdidos, desesperados, depois de muito tem- Os Degenerados
textos, afirma-se que a po em seus limites. Alguns acreditam que os
degeneração está direta- Sempre se ouviu falar sobre homens solitários
degenerados só surgiram depois que Belghor foi
mente interligada com ess que abandonaram o convívio social e partiram
a recuperada. Histórias sobre homens loucos nos
deformidade. Mandarei os para os ermos, para as matas, em busca de ilu-
textos para que analise, ma limites das cidades e nos ermos sempre foram
s minação. Alguns tornaram-se grandes sábios,
é assustador e fascinante.
comuns, mas os registros aumentaram com a retornando com valiosas lições de humildade,

P. tomada de Belghor. quase sempre inspirados no que foi deixado


pelo Puro Alec. Mas nem todos conseguem
Nos primeiros anos da Era dos Homens, que alcançar esta luz, muitos tornam-se loucos,
se ocuparam basicamente da consolidação do continuam solitários ou se juntam a outros per-
poder, pouca coisa aconteceu em Belregard. didos em paródias deturpadas de uma socie-
dade caótica e profana. Na Belregard moderna
As terras foram novamente divididas, tendo
existem muitos destes desgarrados que repre-
uma organização diferente da atual, com novos
sentam um perigo para os viajantes incautos.
e grandes ducados marcando o terreno, como Tocados pelos miasmas do mundo, os Degene-
os de Vlakir e mesmo Latza recuperada de seu rados fogem do Imago Dei, a forma perfeita
massacre. Os problemas começaram a apare- dada ao homem pelo Criador, quando não na
cer após a morte de Vlakin III e a coroação de carne deturpada, na mente distorcida e, por
Vlakin IV. A região da Grande Viha mostrava isso, foram considerados portadores de almas
animais. Desse modo, não recai sobre execu-
constantes sinais de fragmentação e o poderio
tores qualquer pena de punição quanto a mor-
militar ainda latente de Braden fazia com que
te de um Degenerado, sendo tratados como
seus vizinhos ficassem constantemente preocu- cabeças de lobo pela sociedade.
pados, cobrando atitudes imperiais.

Gravura de Fergus, de um
crânio degenerado numa mesa
ritualística profana.

b 40 b
b O Conto dos Anos b
Para piorar a instabilidade da dinastia, o go- escondidos e esquecidos é o caminho certo para a
verno dos Vlakin era curto, geralmente termi- ruína, quando feito sem cautela, direcionado ape-
Estranho você falar com
nado em tragédia, em traição e intrigas políti- nas pela curiosidade orgulhosa dos homens. tanta agressividade sobre
cas palacianas, apenas o governo do último dos o estudo do oculto. Nós
O golpe final contra o império veio em 1270 dois sabemos da sua paixão
Vlakin, o VIII, durou tempo o bastante para po- sobre artes bovráticas.
DA, quando Vlakin VIII criou o Cruenta Tribu-
der ser comparado com os dos demais grandes
tum, uma execução ritual para punir os traidores Não tente esconder isso
monarcas do passado. Se existiu algo comum de mim, lhe conheço por
da coroa. Mandou escavar um imenso fosso cir-
em todos os Vlakin, fora sua paixão e afinco em completo. Não deixe Tullus
cular em Virka e adornou suas bordas com placas dominar sua mente.
investigar os mistérios do mundo. Nesta altura,
de mármore exibindo caracteres na Fala Negra de
seus arquivos brováticos entupiam salas e salas P.
Belghor. Dizia o monarca que havia encontrado
em vários lugares do império.
um caminho para a própria Alcova Profana, o lar
Vlakin VIII foi mais um homem curioso, inte- da Sombra, o inferno e que o império de Virka ha-
ressado em descobrir sobre as glórias passadas via tornado-se tão grandioso que tornou-se capaz
e o fim do seu reinado é envolto em mistérios de dominar até mesmo o reino do inimigo e dessa
profundos. No ano de 1250 DA, a insatisfação forma faria com que a Sombra punisse os infiéis,
de muitas castelanias se fez mais clara. Não curvando-a à sua vontade. Relatos afirmam que o
mais tentando resolver as contendas pelo apelo imperador fora instruído por um visitante trajado
religioso ou meramente político, Vlakin VIII en- em negro durante toda a titânica construção do
viou suas forças, suas tropas, para acabar com fosso, relata-se até que todo o processo de cons-
as revoltas. O que deveria ter sido um ponto fi- trução fora relatado em um diário, completamen-
nal nas agressões serviu apenas para fomentar te perdido, não existe nenhuma prova real sobre
ainda mais o conflito. Alguns fatores pontuais isso. Todos nós, homens santos, vulgares e nobres,
podem ser observados como causadores da ruí- desejaríamos que fosse verdade, que o homem ti-
na do império, claro que estes fatores são de fá- vesse controle sobre o mal, mas este era um sinal
cil observação agora, depois que tudo terminou. claro da arrogância de Vlakin VIII.

Acredita-se que as divisões políticas dos ter-


ritórios estavam desgastadas e muitos nobres,
duques e condes, desejavam novas alianças e
acordos de terras e a recusa imperial em mudar
o tractatus levou a insatisfação a muitos. Além
Se não existe provas, por-
disso, o Tribunal, que era grande aliado e lega- que alimentar e dar vida a
lizador, estava demonstrando uma imensa into- estas histórias folclóricas?
lerância e paranóia. Hoje em dia é sabido que os
Retire isso do texto.
próprios oradores e mesmo Eleitos do período
acabaram contaminados pela corrupção laten-
te dos Vlakin, possivelmente advinda da busca
do último imperador por segredos antigos. Uma
verdadeira corrida por profanidades. A história
de Belregard testemunha que buscar por segredos

b 41 b
b Belregard b
A abertura do grande fosso fez com que o Tri- Em 1290 DA, o surto da Insania foi controla-
bunal daquele período abrisse seus olhos para do. Aldeias inteiras foram cercadas por forças
o pecado latente dos Vlakin. Apesar disso, não imperiais, com seus cidadãos proibidos de sair,
houve uma declaração aberta de conflito. Zokran, tendo suas casas queimadas e derrubadas até
o Eleito do período, sabiamente aproximou-se a pedra. Nos grandes centros, como na própria
das castelanias insatisfeitas e passou a apoiá-las Virka, bairros foram isolados, um estado de sítio
em seus planos para quebrar os grilhões contra que fazia apenas aguardar o definhar de cada
o império. Demorou um pouco de tempo, alguns uma daquelas pessoas. O pavor da doença ainda
anos, para que o cisma contra o Tribunal, como existe, ainda paira no ar em seus miasmas noci-
força dominadora e opressora, fosse apagado e os vos, mas oramos todos os dias para que ela não
cavaleiros sacros pudessem engrossar as fileiras mais tome a todos, como ocorreu. O surto da
de revoltosos. A situação virou de tal modo que doença fez com que os esforços das castelanias
a própria igreja liderou as forças que marcharam se voltassem para sua recuperação e foi só no
contra Virka. Mas a abertura do fosso trouxe ou- verão de 1300 DA que os exércitos organizados
tros problemas para o mundo. invadiram o vale de Virka. A insatisfação era ta-
manha que as fazendas e cidades menores den-
No mundo isolado dos tempos atuais, acre- tro do vale fizeram volume a coluna no ataque.
dita-se que o ar tornou-se venenoso, que exis-
te algo de ruim pairando ao nosso redor e que O conflito contra Virka foi demorado, mas
estes miasmas são capazes de nos corromper, trouxe a vitória. Curiosa é a raridade de relatos
enlouquecer. O que fomentou esta ideia foi a desta conquista. Sabe-se apenas do caminhar da
grande praga que cobriu Belregard depois da coluna libertária, liderada por cavaleiros sacros
Este evento de abertura do fosso em Virka. Ela foi chamada do Tribunal e por conta desta filiação, tais cava-
Tíccia, assim como de Insania, ou Praga da Loucura e tomava a no- leiros não são lembrados por seus nomes, já que
os outros doze bres e plebeus sem distinção. Além das terríveis representavam ali apenas a força da fé, o desejo
relatos similares feridas e chagas purulentas que ela abria pelo de se livrar das amarras de um império corrup-
que conhecemos corpo do doente, levava a febres fortíssimas que to. Restaram registros da luta em algumas ci-
bem foram proi- colocavam as pessoas em estados de loucura in- dades, mas quando o conflito chegou em Virka
bidos de entrarem
tensa, um delírio que muitas vezes acabava sen- propriamente dita, os registros são ausentes. A
neste tomo. Gos-
do compartilhado por aqueles ao redor, como vitória foi alcançada, sabe-se, com a rendição
taria de adicio-
na-los, afirmando ocorreu na vila de Tíccia, em Virka, onde todos de Vlakin VIII, que foi executado pelas mãos do
ainda mais a pra- os moradores morreram de exaustão depois de próprio Eleito Zokran, já velho e cansado, mas
ga que foram os passarem dias apenas dançando ao som de uma ainda empunhando uma lâmina executora.
Vlakin para nossa melodia que apenas eles ouviam.
terra. Mas devo
seguir essas ordens
e você também. A Insania levou muitos e não poupava ninguém. Acreditamos que tenha
sido algo vindo da Alcova Profana, mas pode ter sido uma punição de
Deus pela arrogância do homem. Foram tempos sombrios, pessoas eram
trancadas em suas casas ou em seus quartos, pela própria família, que não
tinha outra escolha a não ser orar do lado de fora ouvindo a loucura e
a praga roubar até a última centelha de luz de seus entes queridos.

b 42 b
A chamada Era da
b O Conto dos Anos b Luz, uma asneira,
liderança de Servia Vibius Severa, uma mulher tem seu início em
Realmente me pasma a ideia de simples- 1301 e segue aind
mente não haver relatos reais, documentos que fora consorte de Vlakin VIII e provavel- a
hoje, quando ainda
históricos realmente confiáveis deste período. mente por esta ligação íntima ainda hoje Vlakir
Se eu pudesse sugerir, diria que tem algo estamos em
é uma terra de aspirações imperialistas, dese-
relacionado com o visitante trajado em negro. 1348 DA, uma
Mas sei que se falar isso para nosso irmãos jando retomar a glória e o orgulho. Em 1303 a época de engano
posso ser apedrejado. região de Latza, do antigo ducado Lazari, se e isolamento.
separa de Birman e Vlakir, sob o governo de
Cheguei a ouvir que escribas deste tempo
foram assassinados aos montes. E ainda mais Vittus, o Jovem, que já demonstrava os sinais de
preocupante, dizem entre os copistas que al- loucura que o transformaria no Dementia Rex,
guns cavaleiros do Tribunal são incumbidos de um eterno lembrete de que a Insania ainda paira
encontrar textos deste tempo e destruí-los.
nos ares poluídos do mundo. Rastov recuperou
Quando vier até aqui, lhe mostrarei tudo a terra de Igslav e Viha voltou-se para sua visão Curiosa esta for-
que consegui reunir sobre referências a este diferente do criadorismo, aproximando-se mais ma de falar da
visitante estranho que o imperador recebeu.
de seus cultos antigos. Dalanor tenta se man- fé. Preciso veri-
Existem muitos relatos parecidos, em diferentes
épocas e locais. Seria essa a mesma pessoa? ter orgulhosa, cantando sobre futuro e Varning ficar que haskelita
busca unir novamente os caminhos abandona-
traçou as linhas
Poderia ser um devaneio meu, mas... E se deste texto. Ou-
dos do mundo. Parlouma sofre internamente,
esse visitante for a própria Sombra, ou quem sadia tem limite.
sabe, o quarto Puro? Vlakir quer o império, Birman deseja o poder Fora tu?
da igreja para aplacar as aflições dos homens e
P.
Braden é uma colcha de retalhos pronta para ser
anexada. Belghor se isola e Latza… Latza ape- Simplesmente perfeito. Con-
A Era da Luz nas bate palmas e vê a dança da loucura tomar a seguiu compilar tudo que
esses incompetentes copiam
“A Ironia” todos novamente. como lesmas adestradas
em um tomo digno da sua
A Era dos Homens teve seu fim com a queda Velhos ódios se reacenderam e muitos volta- grandeza. Não me confor-
do império. As feridas deixadas pelo império co- ram seus olhos para além do antigo vale, em mo com seu nome sendo
retirado dos registros e
meçaram a curar. Com a perda do poder central, busca de novas descobertas na intenção de apa- apenas Tullus, esse carcomi-
da figura poderosa que era a própria Virka, a gar toda a dor causada ao único mundo que co- do e ressequido, receberá
Primeira Cidade dos Homens, senhores, lordes, nhecem. Ainda assim, o que os mantém unidos, os devidos créditos.
suseranos voltaram-se para seus próprios pro- mesmo que distantes, é a fé. A igreja ainda se Porque não nos rebelamos e
blemas. Sem a necessidade de responder a um ergue como um bastião de segurança, sendo a fugimos com esses textos?
poder maior, que não o da igreja dentro de seu mão que pune e a que acaricia. Tenho um conhecido em
Varning que possui o lugar
território, muitos novos conflitos surgiram em perfeito para nos escon-
escala local. O próprio Tribunal manteve-se neu- Por mais que eu fique tentado a alte- dermos enquanto fazemos
tro diante destas contendas menores, ajudando rar o fim deste trabalho, desgostoso mais cópias disso.
em momentos onde acordos de paz ou reconhe- da forma como nossa amada igreja é
tratada, me mantenho fiel aos meus Estarei sempre a lhe
cimentos de lordes era necessário, mas nunca princípio s de copi sta. Os hom ens que se- esperar.
envolvendo-se diretamente, a igreja só atuava guiram os côm puto s de Hask el não eram
quando o sangue já havia sido derramado. tão iluminados quanto o próprio e prova- P.
velmente aind a sent iam- se ama rgur ado s com
os acontecimentos dos últimos anos. Faz
Novas castelanias se firmam no panorama de quase uma geração que o império caiu e eu
imo.
Belregard. Em 1301 DA, o ducado de Vlakir se não vejo dias melhores no horizonte próx
Possa o Criador ter piedade de nossas almas.
declara independente da arruinada Virka sob a

b 43 b
Gravura estilo bertina de Motazzi,
representando uma feira em Varning,
a castelania mais cosmpolita de Belregard.
b OS POVOS DE BELREGARD b

Secunda Pars
Os Povos de Belregard
“Vou te contar, meu amigo viajante,
Se algum dia te chamarem a Viha
Desconfia por um instante!
Por mais que lá brilhe um lindo sol de dia
Não poderás segurar teu choro na noite fria!”
- “O Feroz que Miou”, Balada Satírica atribuída a Tiecelin

Em seu tratado sobre o mundo de Belregard, Haskel fez um apanhado sobre os


povos que disputavam o território e a graça de Deus. No entanto, por se tratar de
um trabalho antigo, seus escritos não abrangem um panorama do que ocorreu en-
tre o surgimento e a queda do império de Virka. Coube, então, a Gaius, um jovem
estudioso de Rastov, compilar os últimos acontecimentos. Ele utilizou-se da obra
original e alterou o texto a seu bel prazer, como é costume entre copistas menos
comprometidos. A obra tem pouco mais de dez anos, tendo sido escrita em 1340
DA. Algumas cópias do trabalho ainda existem em capelas e bibliotecas pelo mundo,
principalmente em Varning, onde a obra serve como alicerce para aqueles interessa-
dos em entender a conjuntura dos povos de Belregard. Por sorte, lorde Augusto,
serei eu a lhe preparar este compilado, assim corrigirei
os exageros de Gaius sempre que possível.

á dizia o velho ditado proferido O contato entre as muitas etnias de Belregard A mistura dos
nos exemplas dos sacerdotes: aconteceu tardiamente, no sentido de uma ver- povos já foi assun-
“A História é contada pelos dadeira integração. Os vihs e igslavos têm con- to mais delicado
vencedores”. Num primeiro tato com os belghos desde que Larsen levou no passado. Penso
que deve ser algo
momento, aqueles homens saídos de Belghor, seu exército para o norte. Os dalanos estiveram
importante para
o berço da humanidade, viram todos os povos ao lado dos selvagens belinaren nas lutas pela
aqueles que de-
do mundo recém-descobertos como Selvagens floresta do sul e só foram convertidos em sua
sejam constituir
que mereciam nada além do castigo. Demorou totalidade quando o Único veio ao mundo dos família. Eu, caso
muito para que a atitude quanto a estes povos homens para lhes direcionar. não fosse devoto,
bárbaros fosse revista. Para observadores me- teria a preocupa-
nos fanáticos, os homens das florestas tinham Algo semelhante ocorreu com os parlos, que ção de confirmar
sim algum contato com os Selvagens, mas não foram úteis nas guerras promovidas pelos se minha esposa
eram como eles em qualquer aspecto. Tinham belghos, mas só receberam atenção depois que não teria sangue
Deus ressaltou a importância da conversão. Os selvagem dalano
uma cultura própria e uma forma de ver o mun-
vogos nunca foram vistos como aliados favorá- correndo nas veias.
do completamente diferente da dos escolhidos.
Apesar de assimilados e até mesmo miscigena- veis e até hoje entregam-se às suas selvagerias

dos, estes povos ainda preservam algumas de nas montanhas gélidas.

suas características ancestrais.

b 45 b
Apesar de ainda b Belregard b
não me sentir con-
Belregard é uma terra vasta e não poderia Observemos as principais etnias de Belregard:
fortável a sós com
conter apenas tais grupos étnicos entre seus
um dalano, devo BELGHOS
dizer que o comen- habitantes. Inúmeros povos menores comparti-
lham destas histórias de glória e tragédia. Dos Bradando serem os escolhidos do Criador,
tário de Gaius é
os belghos tomaram para si o dever de unir
forçoso. Apesar misteriosos abutus, que ocupam o norte da de-
da conversão não vastada Virka, aos errantes strigori, que vagam a humanidade sob punho firme. Para alguns,
ter sido rápida, em suas cumpanhias comercializando a sorte e comportam-se como verdadeiros ditadores, se-
aquelas terras eram o destino. Uma quantidade tão absurdamente nhores do destino dos homens, para outros são
dos homens e da grande que chega a assustar. Da mesma forma como irmãos mais velhos, apenas preocupados
igreja assim que os com o direcionamento dos mais jovens. Uma
são as línguas, de dialetos divergentes de uma
selvagens foram
mesma matriz à idiomas completamente dife- coisa é fato: os belghos encarnam tudo aquilo
aniquilados.
rentes utilizados por grupos isolados. Belregard que o ser humano pode ser, seja para o bem ou
é uma terra de povos e culturas surpreendentes. para o mal. Seu ímpeto e sua sede por conquis-
ta já fizeram o mundo tremer mais de uma
vez. O último grande feito destes senhores
dos homens foi a construção do Império de Vir-
ka que, tragicamente, ruiu há algumas décadas.

Físico e Vigor: Os belghos apresentam uma


grande variação de traços físicos e podem ser
distinguidos em três grupos diferentes: Os
belghos do oeste são altos, indo de 1,70m até
1,80m para os homens e 1,60m a 1,70m
para as mulheres; a pele varia do moreno cla-
ro ao branco dos vihs, com cabelos seguindo
a mesma lógica na medida em que o sangue
se misturou com o dos antigos bárbaros. Na
área central do território, onde ficava Virka, os
belghos apresentam estatura um pouco mais
baixa, peitos largos e traços um pouco mais
rústicos com tons de pele variando para o es-
curo, além dos cabelos encaracolados. No
leste, especialmente em Belghor, o tom
de pele mais comum é o negro, com
variações levemente mais claras.

Gravura estilo bertina de Motazzi, representando


Badram, um pastor de Belghor.

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b OS POVOS DE BELREGARD b
Idioma e Dialetos: O belgho original, falado Nomes Típicos - Belgho Atual: Argus,
em Belghor, sofreu inúmeras alterações e hoje Dagom, Macedon, Sandoval, Ulysses, Abella,
se assemelha muito pouco ao seu representan- Fabrice, Lelita, Trista e Valarie. Belgho Antigo:
te mais velho. Hoje carrega basicamente duas Aharon, Doran, Efrat, Haskel, Joshua, Adela,
versões. A versão simples, vulgar, é comumente Deanna, Feigel, Hadassah e Samara.
falada pela população mais pobre que concen-
Observações sobre os Costumes
tra-se em Varning e em Birman. Sempre à som-
bra dos castelos e catedrais, acabaram por acos- †† Belghos são muito competitivos, um traço
tumarem-se a uma forma simplificada da língua que se reflete em todas as instâncias de
falada por reis e sacerdotes. Sua forma culta e suas vidas: da retórica ao combate.
rebuscada é reservada aos líderes, e não só os
de Birman e Virka, o Alto Belgho é falado em †† Devido à forte religiosidade, gostam de
todas as cortes, de Rastov a Belghor. Asseme- decorar passagens da vulgata assim como
feitos de Santos da Igreja. É muito interessante o
lha-se muito ao parlo, mas é visivelmente mais
quanto ditados e provérbios
complexo, mesmo em sua versão simplificada. O dizem sobre um povo.
†† Belghos, por sua rotina belicosa no pas- -P.
belgho original, antigo, existe apenas em alguns
sado, consideram cabelos longos e barba
nomes de cidades e pessoas de Belghor. Existe “A fé sustenta a vontade.”
por fazer um desleixo. Quando muito,
ainda a Fala Negra de Belghor, que é utilizada
usam cavanhaques curtos, sem bigode.
“A luz é mais forte
para fins profanos, acredita-se que tenha sido a
no escuro.”
língua original deixada pelo Criador para unir os †† Apesar da ligação com a fé, evitam pin-
homens sob uma só fala, mas foi corrompida e, turas, ídolos e demais representações de “A fé que não dói é
muito fácil de crer.”
por possuir palavras de poder, é utilizada por Deus. Igrejas interioranas de povoados
cultistas, feiticeiros e hereges. belghos são simples e discretas. No en- “Com fé não há pergunta.
tanto, os mais gananciosos não deixam Sem fé não há resposta.”
Etnias Descendentes: Não é exagero dizer de lucrar com o mercado sacro.
que todas as etnias de Belregard tem um pou-
co do sangue belgho correndo em suas veias. †† Sua história é cheia de profetas, homens
Podemos dizer que o povo belgho se transfor- que falavam, mesmo que erroneamente,
mou muito depois que saiu de sua terra natal, como se fossem porta vozes do Único.
influenciando e sendo influenciados pelos de- Eles foram os primeiros juízes conhecidos
mais grupos que encontraram em seu caminho. ao longo da Era das Revelações, cujos atos
Os belghos que se mantiveram em Belghor, que são relembrados de forma heróica pelos
passaram pelo domínio da Sombra, vêem-se Belghos.
como verdadeiros, como escolhidos, como pu-
†† Dizem que se o Único voltar, retornará
ros, distinguem-se dos demais por considerá-los
como um Belgho.
sujos, chegando ao ponto de identificarem-se
como verum. Existem ainda os latos, que ocu- †† Dão muita importância ao casamento.
pavam a região de Latza antes da chegada dos
Lazari, hoje são pouquíssimos, já que seu sangue †† Possuem muito respeito ao sacrificar ani-
foi misturado, mas o seu apego a dualidade da mais como oferendas, uma prática antiga
vida e da morte marcaram aquela terra insana. e só realizada em áreas interioranas.

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b Belregard b
†† Uma tradição antiga diz que todo adulto †† Na adoração, são fúnebres e zelam um
é responsável por toda criança, isso criou eterno luto pela partida do Único com
“Eia, pois, quem vem lá.” forte união no passado, um senso de co- cultos austeros e pesarosos. Guardam o
Esta é a saudação mais
comum por toda Belregard. munidade. dia do deicídio com pesar e tristeza. Sen-
Dizem os mais antigos tem-se culpados por sentir felicidade pe-
que este costume, criado †† Festividades religiosas são celebradas rante o sacrifício de Deus.
pelos Belghos, remonta com fervor.
tempos imemoriais, quan-
do era difícil distinguir Dalanos
os selvagens dos humanos. †† Quando combatentes, gostam da espada Os dalanos são um povo apaixonado. Tudo em
Logo, a preocupação ante curta - o gládio belgho - e o punhal, car- suas vidas é levado de forma extrema e de-
a aproximação de um regando ambos no cinto. O punhal é dado
potencial inimigo era muito dicada. Para aqueles que observam de longe,
comum. Nos dias de hoje aos sete anos e a espada aos treze, cada estes homens e mulheres podem parecer de-
isto pode não fazer mais arma agregada a um ritual de passagem. masiadamente frívolos e libertinos, mas da mes-
sentido, já que todos são O pomo da espada indica seu nível social.
um tanto selvagens... ma forma que se entregam às suas conquistas,
Além disso, geralmente portam um escu- os dalanos têm uma íntima relação com as flo-
P. do grande ou broquel e, como vestimen- restas pacatas que cercam seus domínios. Um
ta de combate, a cota de malha, uma vez velho ditado diz que “todo dalano nasce à som-
que valorizam a mobilidade. Afinal, quem bra de sua própria árvore” e carrega, com isso, o
protege o homem é o Único e não a arma- prazer em tudo que há de simples. Uma pessoa
dura que veste. nunca suporta problemas demais, basta olhar
para o lado positivo das coisas e tudo, eventual-
†† Normalmente, visitam sacerdotes e bus-
mente, dará certo. Este é um pensamento que
cam seu aconselhamento. Também uti-
pode irritar os mais enérgicos e pessimistas.
lizam de ritos de dor e privação quando
precisam de uma resposta espiritual.
Físico e Vigor: Os dalanos têm uma estatura
Toda essa necessidade de ser assertivo
mediana, alcançando uma média de 1,70m de
deve-se ao seu fardo autoimposto de ser
altura para os homens e 1,65m para as mulheres.
irrepreensível.
Normalmente possuem corpos delgados, esguios.

a
A Face do Imperador

Quando Vlakin III conquistou Belghor, surgiu diante de seus seguidores vestindo uma imponente máscara
de ferro. Este aparato, que inspirava até mesmo o terror, passou a ser conhecido como a Coroa de Virka e foi
então usada por todos os imperadores. Nos momentos em que o poder passava às mãos de um novo regente,
o povo de Virka tinha apenas um dia para contemplar a face do Imperador já que, depois daquele momento,
ele só surgiria vestindo a dantesca armadura. Este comportamento gerou inúmeros boatos e o mais tene-
broso de todos alegava que Vlakin III havia tornado-se imortal, depois de compactuar com a Sombra em
Belghor, e que matava seus filhos e netos sempre que estes fossem assumir o trono de Virka, garantindo
assim o seu controle do império. Verdade ou não, o fato é que desde que Virka caiu, a coroa desapareceu.
Muitos atribuem poderes sobrenaturais ao objeto e mais de um grupo já partiu para as velhas ruínas em bus-
ca do artefato. É certo que, em Vlakir, onde pretende-se retomar o império, a recuperação do objeto seria
de extrema importância para que o simbolismo em torno da união dos povos seja mais uma vez restaurada.

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b OS POVOS DE BELREGARD b
Possuem a pele suave, seja em seus tons mais
claros ou mais escuros, o que oscila entre os kil-
then e os varnos, respectivamente indo de um
Gravura estilo bertina de
tom alvo como neve ao oliva das amêndoas, Motazzi, representando
Anaïs, armadilheira de Ignar.
que recebe inúmeros elogios daqueles que
se deixam encantar pela graça dos dalanos.
Os cabelos e os olhos costumam seguir um
padrão claro, mas existe um fato curioso
quanto ao tratamento dado às pessoas de
cabelos avermelhados: ruivos são vistos
como perigosos, dados a ataques de lou-
cura e com certa afinidade à sortilégios e
feitiços suspeitos.

Idioma e Dialetos: O dalano é uma


língua romântica que sofreu algumas mu-
danças quando entrou em contato com
o belgho. Ainda mantém diferenças ca-
racterísticas, como algumas consoantes,
além de ser moderadamente flexionada.
É a segunda língua mais popular
dentro da corte, além de ser
a língua mais usada para as
canções dos trovadores e
pequenos manuais de poesia
do amor cortês. Aqueles verda-
deiramente apaixonados e dedica-
dos a suas musas costumam aprender
a língua como um sinal de prova desta
devoção. Muitas das músicas entoadas em
ritos sacros do Tribunal são feitas em dalano,
devido a isso criou-se o ditado: “Sempre fica
mais belo quando dito em dalano”. Além da lín-
gua principal, o dalano sofre diferenças quando Etnias Descendentes: Como dito acima, é
se afasta de seu centro nervoso do território, possível perceber algumas nuances em traços
ficando mais pesado e complexo no norte, onde e características dos dalanos do norte e do sul
se mistura com vihs e um tom menos melodio- de seu território de origem. Aqueles do norte,
so, mas bruto, curto, no sul, quando se mis- conhecidos como kilthen, possuem um por-
turou com o parlo. As diferenças dos dialetos te maior, são grandes escaladores que vivem
não impossibilitam o contato entre os dalanos, na área das terras altas de Dalanor e possuem
mas pode causar confusão e mesmo inflamar forte tradição guerreira que desdenha de arma-
os territorialismos. duras. Dividem-se quase como os vihs, em clãs
que usam pinturas ritualísticas e vestem togas

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b Belregard b
de um tecido grosso, geralmente coloridas em conselheiro, e protegido por Isegrim, seu
padrões que ajudam a identificar o clã de ori- lobo guardião. Este reino perfeito ruiu de-
gem. O legado musical dos kilthen fica por con- vido às maquinações de Renart, o raposo,
ta de suas flautas e gaitas de fole. Já no sudeste que traiu Isegrim e levou o rei à loucura.
se desenvolveram os varnos, um pouco mais Cantando sobre seus dias de glória, as ba-
“O fim da arte inferior baixos e atarracados que o dalano comum, mas ladas de trovadores foram o que mantive-
é agradar, o fim da arte
média é elevar, o fim da apegados à tradição musical através do canto. ram Dálan vivo. Desta lenda primeva vem
arte superior é libertar.” Habitantes das áreas pantanosas do sul, os var- a importância da música.
nos nunca foram muitos, mas sua descendência
“O talento desenvolve-se no AA Baladas satíricas sobre nobres e reis são
amor que pomos no se proliferou no legado deixado entre parlos,
que fazemos.” belghos e dalanos que partiram para viver na atribuidas a Tiecelin, o corvo mítico da

castelania de Varning. O típico varno vive por corte de Dálan. Costume que persiste até
“Uma coisa bela persuade hoje, tudo é satirizado.
por si mesma, sem conta própria nos pântanos, uma pessoa de vida
necessidade de um orador.” simples, numa casa simples, dedilhando um vio-
AA Ruivos são associados a Renart, aquele
lão e cantando melancolicamente sobre as ma-
“A nudez dalana é obra que destruiu o reinado de Dálan.
de Deus.” zelas da vida cercada por mosquitos e disputan-
do o pouco com crocodilos. AA Muitas vezes acusados de covardes, da-
lanos costumam ter calma ao tomar deci-
Nomes Típicos: Aaron, Edmond, Jean, Louis,
sões que envolvam confronto físico.
Tissot, Blanche, Cécile, Heloise, Nicole e Viviane.
AA Quando combatentes, dão muito valor
Observações sobre os Costumes
ao arco longo, que usam para caçar aves.
Utilizam o sabre dalano de pomos ador-
AA Dalanos adoram tanto o vinho, que fazem
nados com couro, madeira e latão. Dizem
disputas e festivais inspirados no tema.
que, devido o amor dos dalanos por suas
AA Bricolage é um costume antigo que envol- armas, nasceram as bainhas de madeira
ve ser proficiente em várias tarefas cor- que preservam o fio das lâminas, man-
riqueiras, desde costurar até alvenaria, tendo-as afiadas e evitando o contato
desta forma, todo dalano tende a apren- metal-metal enquanto é embainhada e
der a se virar sozinho. desembainhada.

AA Dão muito valor a mudanças climáticas e à AA Grandes torneios de trovas são comuns
movimentação de astros, ventos e mares. ao longo dos meses quentes do ano. Mui-
tas cidades guardam o título de Grande
AA Ninguém trabalha aos domingos, sendo Trovador para aqueles que vencem as
um dia não dedicado aos cultos, mas sim competições e podem, por um ano, gozar
à família. de um grande regalo nestes locais.

AA Acredita-se que no passado remoto os AA O Amor Cortês, marcado pela impossibi-


povos da região de Dalanor viviam sob o lidade da relação da nobreza com a vassa-
justo jugo do rei Dálan, pintado como um lagem, é uma criação dalana muito antiga.
bravo leão em antigas iluminuras. Dálan Ela é vista na música, pintura e poesia.
era auxiliado por Tiecelin, seu corvo

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b OS POVOS DE BELREGARD b
AA A superstição dalana coloca pequenos
espíritos, as fadas, em quase toda ques-
a
tão rotineira, de modo que singelas ofe- O Rei Adormecido
rendas nas casas e jardins são comuns
Os dalanos contam que Dálan teve um filho e
para agradar estes guardiões.
que este filho foi levado da floresta logo de-
pois do nascimento. Eles temiam que aqueles
AA Em suas adorações ao Único, são louva-
homens brutos vindos do leste, os belghos, pu-
dores que possuem o segredo da devoção
dessem matar a criança. Elise, a mulher que o
através da música. Acreditam serem do- salvou, o teria criado para ser um rei, ensinan-
nos de um dom especial que une os po- do-lhe tudo que precisava saber sobre a corte e
vos e faz com que suas preces atinjam a sobre a guerra. Era preciso que o filho do leão
Abóbada Celeste. aguardasse a chance de retornar para reivindi-
car seu reinado. Para os que creem na lenda, o
Parlos primogênito de Dálan está em uma ilha ao nor-
Antigos senhores das planícies do sul domi- te de Belregard, adormecido e protegido por

navam suas terras sob os cascos de poderosos uma corte de espíritos nobres, talvez pelo pró-
prio pai louco. As opiniões sobre a realização
cavalos. Sendo os primeiros a domesticar o ani-
desta “profecia” se dividem. Alguns dalanos
mal, os parlos tinham uma antiga tradição guer-
pensam que o retorno da linhagem real trará de
reira e poderosa, marcada por rituais tribais volta a glória de Dalanor, já outros pensam que
e vínculos sanguíneos entre cavaleiros e suas esta história serve mais para assustar crianças
montarias. Sabiamente, os belghos trataram de com ameaças do rei adormecido que a pegará
convertê-los e boa parte deste ímpeto e or- se não devorar todo o prato de lavagem.

gulho selvagem se perdeu por um longo tempo,


mas desde que o império caiu, os parlos têm
buscado seu próprio passado. Ainda represen- de seus cavalos, era comum encontrar homens
tam os maiores comerciantes de Belregard, do- com a coloração do cabelo semelhante à de ga-
nos das poucas rotas a permanecerem abertas ranhões avermelhados e hoje este sinal é sempre
nesse mundo sombrio que se revela na nova era. associado à boa sorte, saúde e sucesso para o
Os Cavaleiros Pardos, a mais antiga ordem de rebento que o porta. Independente destas mar-
cavalaria, têm feito o possível para se manter cas rubras, os parlos mantêm os cabelos curtos,
unida e coesa, trazendo de volta o orgulho de para os homens, e também apreciam bigodes
seu povo. longos e tratados, muitas vezes ornamentados
“Antes de começar o tra
com pequenos anéis. -
balho de mudar o mund
o,
Físico e Vigor: Os parlos constituem um dê três voltas dentro
povo baixo, para o padrão belgho, de ombros Idioma e Dialetos: A língua mais falada em de casa.”
largos e membros fortes. Costumam ter a pele toda Belregard é o parlo. Quando os belghos ini-
“O ladrão tem trabalho
bronzeada, podendo variar de um castanho ciaram a conversão dos Senhores dos Cavalos,
leve e sonhos ruins.”
claro à oliva e seus cabelos seguem os mesmos fizeram questão de aprender a sua língua para
tornar a assimilação mais fácil. Os primeiros a “Se quer ir rápido, vá
padrões, com um ou outro risco rubro, casta- sozinho. Se quiser ir longe,
nho claro, em algumas mechas. Estes riscos, as aprender este idioma o chamaram de romântico
vá em grupo.”
‘fagulhas’, são apontadas como sinal de boa e, de fato, o Parlo ainda carrega este traço em
suas características. Com consoantes longas, “Primeiro, aos meus; depois,
ventura. No passado, quando a vida de um par-
aos alheios.”
lo estava relacionada intimamente com o trato ou duplas, e uma acentuação distinta, o Parlo
muitas vezes parece ser cantado e não falado.

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b Belregard b
Fato que gerou uma lenda, sem qualquer prova, Nomes Comuns: Bacco, Demetrio, Fedro,
de que nos tempos dos Senhores dos Cavalos, os Nazzarro, Patrizio, Amanda, Demetria, Felicia,
parlos comunicavam-se desta maneira, apenas Lelia e Teresa.
com uma plena cantoria carregada de emoções.
Como acabou por tornar-se a língua do comér- Observações sobre os Costumes
cio, sofreu grandes alterações em comparação
com sua norma culta, mas esta ainda é utiliza- AA Uma lenda antiga que diz que Parlouma
da em ocasiões formais. A maioria das taxas e foi a primeira terra moldada, berço do
impostos possuem nomes derivados do Parlo. primeiro ventre de onde vieram os Selva-
Como o próprio povo, a língua se adapta, sen- gens. Ruínas desta profana capital esta-
do usada com nomenclaturas diferenciadas em riam ao longo da costa sul de Belregard.
Vlakir, por exemplo, devido ao peso religioso
que a castelania procura invocar, aproximando- AA Palourma possui rica tradição musical,
-se do Alto Belgho. especialmente no canto.

Etnias Descendentes: Apesar de serem


apegados a sua terra, os parlos se adaptaram à
vida nômade com facilidade, fazendo essa
dicotomia lhes parecer natural. Dessa ma-
neira, o sangue parlo se espalhou jun-
to do sangue belgho, mas é possível
perceber uma influência maior entre
etnias menores que se espalham
nas proximidades do território.
Ao norte de Parlouma, nos povoa-
dos que fazem fronteira com Vla-
Um Parlo não costuma kir, os vlakos são um exemplo da
repetir o que fala, nem união dos parlos com os belghos,
regressar por um caminho carregando todo o ímpeto dos se-
já pisado. Isso se deve por
gundos junto a adaptabilidade dos
sua desconfiança ensinada
desde berço. “Deixar rastro primeiros. Os vlakos podem repre-
é ser uma presa” e “Quem sentar uma verdadeira ameaça
muito pergunta quer muito para o Tribunal, devido ao seu fer-
saber” são ditos comuns aos
vor religioso e imperialista. Já no
Parlos, que são extrema-
mente atentos aos seus leste, os brados se mostram
próprios passos e aos dos fruto de uma verdadeira
seus próximos. Por outro mistura étnica, que é mais
lado, ter uma amizade ver-
associada aos parlos por
dadeira de um Parlo pode
ser o que salvará sua vida questões belicosas. As
em situações adversas. grandes cavalarias marca-
ram seu espaço em Braden,
P.
uma terra que, hoje, está
entregue ao caos.

Gravura de Berto representando


Italo, chefe da casa Graziano,
de Rivienza.
b OS POVOS DE BELREGARD b Houve um boato sobre duas
crianças, uma Parla e uma
AA Dão muito valor à hora da refeição. Sendo AA Quando ainda criança, uma trança da cri- Dalana, ambas meninas. A
este um momento de comunhão familiar. na do cavalo de seu pai, ou mãe, é colo- boneca da primeira caiu em
um poço e a segunda insistiu
cada junto ao seu cabelo. Essa trança o em descer para pegá-la.
AA É comum que pequenas vilas possuam acompanha por toda a vida, sendo troca- Tomada por um espíri-
suas próprias tradições e dialetos locais, da apenas quando se casa, onde o casal to travesso, a menina Parla
assim como um certo orgulho. O chama- empurrou sua amiga no poço
compartilha de uma crina retirada de um e esta caiu, quebrando seu
do campanilismo prega o apego à sua ci- mesmo cavalo, o cavalo que conduz pela braço. Contudo, para além de
dade e às suas tradições, assim cada cam- Marcha de União, selando o casamento. conseguir pegar a boneca,
ponês luta em defesa de seus valores… esta menina Dalana encontrou
Arrancar a trança de um parlo é um ato uma joia de ouro jogada no
Muitas vezes com fervor excessivo. inaceitável, feito apenas por vencedores poço. Desde então o ditado
em duelos sem honra. “empurrão Parlo” é ouvido,
AA Apesar da forte ligação com o comércio, significando algo adverso
os parlos possuem essa paixão pelo lar e que poderá o recompensar.
AA Apaixonados pela equitação e pela arte Sobre a história? Bem, há
sempre anseiam pelo retorno. da esgrima, os parlos são famosos pelo quem diga que a menina
talento em ambas as áreas. Códices já Parla pegou a joia e jogou
AA Para se protegerem de depredações nos a sua amiga novamente no
foram escritos e o último tratado, enco- poço. Mas esta é apenas uma
campos, poderosos dignatários se uni-
mendado pelo marquês de Strarrari du- versão que é contada.
ram para oferecer proteção em troca de
rante a Era dos Homens, é um dos mais
tributo, criaram a Camorra. Toda peque- P.
significativos sobre a arte da esgrima e
na, e mesmo grande, cidade é governada
Duello Parlo.
por uma camorra por trás dos panos. Um
“Padrinho” lidera uma rede de favores e AA Como nem todos podem portar e aprender
troca de influências capazes de afetar até a lutar com sabres, em todo lugar é possí-
mesmo o rei. vel encontrar Zuffas, rinhas de briga onde
lutadores treinados em combattimento,
AA O Sciopero, algo como uma greve, é práti-
uma espécie de luta envolvendo apenas o
ca comum. Parlos não tem medo de seus
corpo, são travadas. Duelos brutais com
governantes e empregadores, sendo as-
apostas fartas, quase sempre apadrinha-
sim, se necessário, lutarão até morrer.
das por alguém da Camorra local.
AA Parlos são reservados, atentos e oportu-
AA Quando combatentes, parlos fazem exí-
nistas. Possuem alguns lemas que nor-
mio uso do florete, assim como da longa
teiam suas vidas, alguns são: Não fale a
lança parla, para os combates montados.
estranhos o que se pensa; sempre preveja
Desde jovens, as práticas de equitação
os passos dos seus inimigos; se não con-
parecem preparar os mais simples cam-
seguir vencer de modo justo, use golpes
poneses para o combate montado.
baixos ou mande alguém lutar por você;
a oportunidade faz o larápio; nunca faça AA Na adoração, são devotos dos ritos anti-
um inimigo sem necessidade; não caia na gos, não gostam de “invenções” e buscam
bebedeira; respeite a/o esposa/marido, seguir ao Tribunal ao extremo em seus ri-
mesmo que tenha outras mulheres/ho- tuais. São devotos de estátuas e imagens
mens; nunca chame as autoridades para de santos e Puros. Seja por adoração, tra-
assuntos pessoais. dição ou busca de acalento, todo parlo
busca a igreja durante sua vida.

b 53 b
b Belregard b
mesma raiz, estes grupos ainda existem. Mar-
a cadamente do lado vih, onde algumas tradições
Os Oradores das Estrelas se mantêm e os clãs respeitam uns aos outros,
adotando a unidade de Viha como algo maior
O sorriso Vih é Os céus de Belregard sempre inspiraram fas-
que estas pequenas diferenças. É comum que
sempre sincero, alguns cínio àqueles que permitem-se entregar à ob-
estas divisões sejam relacionadas a alguma
dizem. Ainda que originado servação dos astros e, apesar de boa parte do
com o ceifar da vida de mundo ser completamente leiga e ignorante grande figura do passado, algum herói dos po-
alguém, ninguém ousa dizer quanto ao firmamento, os Oradores das Es- vos do norte, de modo que alguns clamam por
que um Vih finge seu
trelas representam os maiores estudiosos de uma ancestralidade com os mesmos.
prazer. Não é em vão que
muitos destes são contrários Belregard sobre o assunto. A torre dos obser-
às apresentações artísticas vadores fica em Parlouma, próxima à costa sul, Físico e Vigor: Possuem uma compleição
de Dalanos, uma vez que sobre uma alta e escarpada elevação. Ali estu- física robusta e forte na maioria dos casos. A
estes “fabulam mais a vida diosos buscam padrões no céu noturno e con- coloração das mechas vai de claras ao loiro es-
que a vivem”. tam com sacerdotes e eruditos vulgares entre
curo e, até mesmo, a um tom levemente pratea-
os seus. Recentemente uma descoberta feita
P. do. Os vihs têm por costume manter os cabelos
por Antonini de Petugia deixou os ânimos um
pouco alterados. Baseado em leituras de textos longos, tanto homens quanto mulheres. Alguns
da Era das Revelações, o sacerdote alega que fazem longas tranças nas mechas à frente do
existem certos seres, verdadeiras entidades de rosto para, assim, fazer uma volta com a mesma
poder imensurável, adormecidas nos confins do por trás da cabeça, mantendo o cabelo preso.
mundo. Ele as chamou de Patriarcas e corrobo- Os olhos seguem padrões azuis, esverdeados e
ra sua teoria dizendo que os belinaren e dwetar
também com alguma coloração cinzenta. Mu-
só deixaram de existir porque seus Patriarcas
lheres que nascem com olhos de cor cinza são
foram mortos. A despeito da comoção, Anto-
nini acabou desacreditado quando demonstrou apontadas como bruxas em potencial. Já os
sérios lapsos de demência assassina, colocando igslavos costumam ter cabelos de tonalidades
em risco a vida de todos dentro da torre. Hoje, escuras e os olhos seguem o mesmo padrão,
encontra-se trancafiado no porão da mesma, talvez pela miscigenação com os belghos. A cor
aguardando seu destino enquanto canta louvo- castanha e negra predomina neste caso. O uso
res a seres antigos.
da barba é comum entre os adultos, que as man-
tém rasteiras e bem aparadas, normalmente na
forma de cavanhaque. Para aqueles que usam de
Vihs e Igslavos
fios compridos, há sempre tranças, pois o con-
Os bárbaros da planície de Ig ocupavam boa
trário – soltos – é sinal de indisciplina. As mu-
parte do norte de Belregard. Senhores dos lobos
lheres costumam manter penteados elaborados
e donos de uma fortíssima tradição guerreira,
em coques ou tranças ornamentadas.
viram-se divididos sob a influência dos belghos.
Um grupo, os vihs, se manteve fiel às raízes bár-
Idioma e Dialetos: O vihs é um idioma
baras, resistindo por muitos anos à influência da
forte e complexo que usa um alfabeto diferen-
própria igreja dentro de seus domínios. E o ou-
te do usado em Parlo, Belgho ou Dalano. Sua
tro, os igslavos, acabou se convertendo de for-
principal característica é uma divisão encon-
ma mais rápida, encantado com o poderio mili-
trada em quase todas as consoantes, que as fa-
tar dos homens civilizados. No passado, quando
zem assumir uma característica suave ou dura.
eram um único povo, dividiam-se em inúmeras
Um acento muitas vezes é o que diferencia pala-
tribos diferentes e, mesmo compartilhando uma
vras aparentemente idênticas.

b 54 b
b OS POVOS DE BELREGARD b
Independente disso, os vihs carregam seu Desde os Isegrundr do sul, com seus cultos
idioma nativo com grande orgulho e, na cor- bestiais e devoção a espíritos lupinos, aos Tjú-
te de Viha, ele é valorizado em detrimento do der do norte, senhores de uma metalurgia len-
Belgho. O contrário só ocorre quando muitos dária, dominadores do aço de Halav, cada clã
estrangeiros fazem-se presentes. possui sua própria história, mas desde o domí-
nio belgho, preferem ver-se como semelhantes
Etnias Descendentes: Seria impossível de- atendendo ao título de vihs, algo que remonta a
marcar todas as divisões menores dentro dos “ira, justa retribuição”.
clãs vihs. O próprio termo “vihs” é um exagero
genérico que estes povos utilizaram para ten- Nomes comuns: Adrik, Mikhail, Nikolai,
tar recuperar o vasto território da Grande Viha. Vladmir, Yurik, Alina, Mila, Natasha, Sonya
Além da notória distinção para com os igslavos, e Ursula.
o restante do povo vihs é completamente frag-
mentado, carregando cada qual sua particulari- a
dade e trejeito.
Os Horrores de Ig

O nome igslavo vem de uma planície que cobre


toda a região sul de Rastov. Quando chegaram
lá a primeira vez, os homens civilizados viram-
-se perdidos e atormentados. Os relatos, apesar
de escassos, dão conta de mostrar fenômenos
misteriosos e inexplicáveis ganhando forma no
vasto território. Homens morriam durante o
sono e os poucos que despertavam, desespera-
dos, estavam mudados para sempre, enlouque-
cidos e falando sobre vermes imensos e uma
cidade de estruturas circulares, serpenteando
umas por dentro das outras em uma configura-
ção incompreensível para qualquer homem são
de Belregard. Os próprios nativos, os igslavos,
corroboravam as lendas, contando histórias so-
bre serpentes gigantescas adormecidas sob a
planície, às quais muitas tribos prestavam hon-
rarias e realizavam sacrifícios para manter estes
deuses peçonhentos em constante descanso.

Gravura de Berto representando


Natasha, tutora de Zamok.
b Belregard b
Observações sobre os Costumes devem lhes dar algum rumo digno na
vida, não sendo mais sua responsabilida-
** Quase sempre comem com as mãos e de de depois disso.
modo comunitário.
** Adoram tudo que envolva força, violência
** Ficam nus com facilidade e não possuem e hematomas.
vergonha do corpo.
** Procuram motivos para brigar e adiam
** Bebem muito em grupo e beber faz parte motivos para evitar uma rixa.
do cotidiano. Nunca recusam uma bebida,
** Quando combatentes, igslavos prefe-
pois seria imperdoável, um gesto rude.
“A tradição protege a lei.” rem fazer uso de armaduras pesadas,
** Mulheres e homens são vistos como espada e escudo. Além disso, preferem
“À força de batermos ferro iguais em todas as tarefas.
tornamo-nos ferreiros.” focar seus esforços na proteção pró-
** Para os vihs, a Taiga Branca guarda o Sva- pria e de aliados. Já os vihs fazem uso da
“A força dos tiranos está rog, o mundo dos mortos. tradicional montante vih, assim como
toda na paciência
machados e o arco longo.
dos povos.” ** Quando membros de clãs di-
ferentes se encontram, é co-
“Mais vale beber que cuspir!”
mum que troquem histó-
“CHEEKI BREEKI” rias sobre suas viagens
e conquistas. Um com-
Tolice!
bate é certo, mas nun-
ca até a morte, quando
veem-se como irmãos.

** A religiosidade dos
vihs se mesclou com
as pregações de Alec,
criando um cisma no
criadorismo.

** Usam muitas penas de


corvos em seus adornos.

** Filhos bastardos são


criados até os dez anos
pelos pais, que

Gravura de Berto representando


Vigo, responsável pelo campo de
treino de São Ludenov.
b OS POVOS DE BELREGARD b
** Na adoração, igslavos são tradicionais e II, com sua curiosidade extrema, parece ter le-
fiéis aos preceitos do Tribunal, já os vihs vado-os a sério, sendo acusado de ter mantido
possuem ritos estranhos aos outros po- consortes deste povo em seu harém particular.
vos. A mistura do culto do Único com os Então, centenas de anos depois do genocídio, os
Selvagens gerou ritos que muito alegam abutus parecem voltar a dar passos vacilantes
serem verdadeiras heresias. Muitos dos ri- para fora das sombras de seus ancestrais, ha-
tos dedicados ao Único possuem paralelo
bitando a mesma terra de antes, ao norte da,
em religiões selvagens da Horda.
agora, arruinada Virka. Além das marcantes ta-
tuagens, possuem pele escura e usam cabelos
Algumas Etnias Menores de nota trançados, geralmente bem longos.
Abutus: Esta pequena etnia é encontrada ao
norte da região central de Belregard, demons- Strigori: Para os leigos e crentes, o povo stri-
tram uma forte espiritualidade, apesar de suas gori vaga sem rumo pelas terras de Belregard,
atitudes deicidas. Muito tempo atrás, num perío- impossibilitados de viver em um só lugar por
do próximo da fundação da cidade de Virka, a culpa de uma maldição e os próprios não fazem
primeira cidade dos homens, os abutus tiveram qualquer esforço para desmentir os supersticio-
seu contato com os belghos e apesar dos medos e sos. Vivendo em núcleos familiares matriarcais,
cuidados destas “crianças mais novas”, ficaram a figura comumente mais respeitada é a da anciã,
felizes em compartilhar de seu saber do mundo avó, ou bisavó dos mais jovens da caravana. Um
natural. Não demorou até que as animosidades traço curioso do povo strigori são suas mãos.
surgissem, em especial quando os belghos co- Acreditando que a vida e a morte são um ciclo,
meçaram a aprender sobre a visão religiosa deste onde se vai de uma pra outra até purificar sua “Sua sorte
misterioso povo de pele marcada. Era comum, alma, o povo consegue observar este caminho Minha sorte
Nasce, cresce
tanto para homens quanto para mulheres, exibir através das mãos, numa leitura que assombra os Fode, Fode
tatuagens escuras em linhas da altura do lábio leigos. Quando meninas possuem muitos traços
inferior até o queixo, podendo ir até o pescoço Sua sorte
nas palmas das mãos, ou mesmo quando estas
Minha sorte
em alguns casos. Para os abutos, aquelas linhas são enrugadas, quase como mãos de velhas, são Chora, Mata
representavam o sangue de seus antepassados, rapidamente amadrinhadas por uma anciã, ge- Sofre, Sofre
que já havia escorrido da mandíbula colossal de ralmente da própria família. Dividindo-se em
Sua sorte
Yon’Sabráh, o seu deus ancestral e faminto, até linhagens distintas, que descendem daquela Minha sorte
o dia em que um herói do povo abutu, chamado primeira, os strigori se espalham por todos os Pesca, planta
de Glimlag, algo como “aquele que sorri diante cantos de Belregard. Vistos com suspeita pela Come, colhe

da morte”, deu fim a entidade. maioria das pessoas, são temidos pelo seu fa- Sua sorte
moso mau olhado e demais sortilégios. Parecem Minha sorte
Sem deuses para louvar, os abutus desenvol- Velho fica
conhecer os caminhos do mundo. A chegada
veram uma forte tradição ligada aos ancestrais, Então Morre”
de uma caravana strigori pode causar as mais
celebrando seus rituais em “cemitérios flores- variadas reações. Da hostilidade declarada a (cantiga strigori)
tais”. Quando um abutu morre, ele é enterrado uma controlada curiosidade. Apesar das reações
com sementes na cabeça, de modo que sua som- negativas, muitos vêem bem o negócio com os
bra seja local de louvor para seus descendentes. strigori, que sempre tem o que oferecer e trocar.
Quando passaram a aconselhar os belghos para
que se livrassem também de seu deus, foram
caçados e mortos. Apenas o monarca Bövrar

b 57 b
Gravura estilo bertina de Motazzi, representando
o culto fálico em Latza. Curiosamente, o artista
lembrou-se apenas do semblante do mendigo
aleijado, por isso desenhou todos de costas.
b A Vida em Belregard b

Tertia Pars
A Vida em Belregard
“Andar por Varning é como caminhar em um imenso pasto. Você sente odores mistura-
dos de relva, pura natureza, mas também uma murrinha de bosta. Você não se importa,
a paisagem é linda. Além do mais, todo resto de dejeto que você encontra pelo cami-
nho está seco, duro, preto. Até que você chuta ou pisa em um sem querer e vê a casca
se partindo pra revelar aquela merda verde e viva. Os que falam sobre a purificação
daquele antro só estão enganados com as maravilhas da cidade portuária”.
- Verdramino, Bispo de Varning, em correpondência privada com oradores de Birman

os anos que se seguiram à Era mens irmãos e trás toda a universalidade de


do Sangue, Belregard experi- nossa cultura, por mais que existam diferenças
mentou um intenso crescimen- em todos os âmbitos aqui e ali. Desse modo, é
to populacional, uma vez que, fácil compreender como ela se encontra presente
diante da nova paz, mesmo que tênue, campo- nos muitos momentos da vida, especialmente nos
neses, nobres e até mesmo, sacerdotes aumen- três que se destacam como Sacramentos: o Nas-
taram o contingente de suas classes. Apesar cimento, o Casamento e a Morte. Estes são ape-
disso, a mobilidade continuou problemática e o nas os três maiores sacramentos, não os únicos.
estrato mais baixo desta sociedade, o campe-
sinato, continuou representando nove décimos Dos Sacramentos
da população, contra o décimo restante dividido O Primeiro Sacramento: Devido aos meios
igualmente entre nobreza e os outros. Cada gru- Entendi sua ultima carta.
de vida precários, a mortalidade infantil é mui-
Entendo o que está passan-
po conta com suas próprias maneiras de levar a
to comum dentro de todas as camadas da so- do. Não quero continuar a
vida, mas algumas características são comuns a
ciedade. A morte faz parte do dia a dia de um ser um impecilio na sua vida.
todos, principalmente no âmbito religioso. Siga-a como achar interes-
homem de Belregard: todos já viram um irmão sante. Sei que em uma es-
morrer ou mesmo um filho antes de completar colha entre tua vida sob as
Antes de tentar falar sobre nossas diferenças,
botas de Tullus ou reinando
um mês de vida. Por conta disso, os batismos
precisamos compreender o que nos torna iguais. ao meu lado, Tullus ganharia.
É muito simples apontar o próximo e acusá-lo são realizados cedo, normalmente no dia se-
guinte ao nascimento. A forma da cerimônia Na fria madrugada encon-
de todas às incompatibilidades, mas difícil ad-
trará meu corpo congelado
é sempre a mesma, mas a pompa pode variar,
mitir que nós somos assemelhados em tantos pelo peso miserável do inver-
outros aspectos. Proponho aqui uma reflexão dependendo da condição da família ali presen- no. Aí sim, então e por fim
te. Padrinhos tendem a ser numerosos, para que saberá que ninguém, nem
geral de nossos comportamentos e anseios. O
aquela que lhe pariu das
elemento comum mais forte dos povos de Bel- exista um grande número de pessoas à lem- entranhas, lhe amou como eu.
regard é a religião, ela é a argamassa que une brar do fato e ajudar na criação do infante em
Adeus meu amor.
todos nós. A fé no Único é o que torna os ho- tempos calamitosos.
b 59 b P.
b Belregard b
Importante.
Já se registrou A criança costuma ser segurada pelo sacer- Na primeira infância, até a idade dos seis ou
casos de crianças dote e então ouve a Litania do Criador ao pé do sete anos, a criança passa aos cuidados de mu-
nascidas eloquen- ouvido. É lhe sussurrado um trecho dos escritos lheres, dedicando-se à brincadeiras variadas
tes. A Litania deixados pelos homens que conviveram com o como: bola, dados, peões, cavalos de madeira,
serve para apazi- louças e potes em miniatura, esconde-esconde,
Pai e, ao fim, a criança é ungida com água santi-
guar os espíritos,
ficada e recebe seu nome depois do padre profe- cabra-cega etc. Existe pouco contato entre os
impedindo que
rir: “Ego te baptizo in nomine Patris...”. Apenas outros adultos e as crianças desta idade, que
algum alma perdi-
da, que um flagelo um nome lhe é dado, já que não existe o costu- costumam ser deixadas juntas sob os cuidados
dos Ímpios, tome me dos nomes de família. Os sobrenomes vêm de mulheres dedicadas apenas a isso. Podendo
conta do corpo. com o passar dos anos, seja do lugar de origem variar desde anciãs e jovens moças, em peque-

ou por alguma característica. Ítalo de Belizza e nas aldeias, a amas de leite dedicadas entre os
mais nobres.
Godofro, o Alto, são bons exemplos disto. Di-
ficilmente um camponês carregará o nome de
O Segundo Sacramento: O casamento não
seu reino de origem, como Lars de Virka. Estes
é motivado apenas por uma questão familiar,
títulos são convenientes aos monarcas, já deno- mas também financeira e social. Existe um dita-
tando suas posses e terras. Um camponês, ou do bem antigo que diz “nunca case com alguém
mesmo nobre, que ande ostentando o nome de que o ajude a ser mais pobre, ninguém precisa
uma determinada região pode acabar ofenden- de ajuda para isso”. Esta união pode ser usa-
do o seu senhor por direito. Grande parte dos da para muitos fins, unindo duas fortunas, duas
homens livres prefere se identificar pela sua linhagens ou muitas vezes servindo como um
ocupação, tal como Grom, o Ferreiro. caminho para a reconciliação.

a
Técio de Villa

Técio de Villa é um renomado estudante da Academia do Esclarecer de Varning e, recentemente, apresentou


um trabalho que visava condensar os costumes dos povos de Belregard. Segundo o próprio autor, o mun-
do está passando por severas transformações e, logo, muitos dos paradigmas atuais cairão por terra. Ele
criou um movimento de estudo que busca entender e compreender a sociedade de seu tempo. Batizou-a
de “Medievalismo”, alegando que Belregard passa por uma idade média que pode resultar em diversos
caminhos. O estudante não ousa prever quais serão estas mudanças, mas assume o compromisso de tentar
traçar da forma mais clara, direta e objetiva possível, os ditames da sociedade atual. Ele e um algumas
dúzias de companheiros catalogaram muitas informações dos povos, desde o que comem, até como se
relacionam com o sexo.

O resultado final da pesquisa gerou uma obra conhecida como “O Ruir dos Castelos” e foi recebida com
muita relutância pelos demais acadêmicos de Belregard. A obra foi concluída recentemente, no ano de
1349 DA e ainda não foi largamente copiada, está escrita em parlo e consiste de 34 tomos enormes,
de modo que boa parte dos letrados conseguirá compartilhar do conhecimento. Tendo em vista que os
maiores copistas são padres, é provável que a obra de Técio sofra variadas alterações durante o processo,
principalmente nos tópicos que tratam sobre religiosidade, sexualidade e demais assuntos tidos como
polêmicos pela igreja. É bem possível que o tomo original jamais seja copiado de forma integral. Além
disso, seus textos costumam ter alterações por parte dos copistas, ditadas pelo bairrismo, amor e demais
atitudes tendenciosas.

b 60 b
b A Vida em Belregard b
Outro antigo ditado fala que “somente os po- A cerimônia tende a ser simples. Diante do sa-
bres se unem por amor ou burrice”. Deve-se es- cerdote, os noivos devem fazer suas juras. Neste
colher bem o cônjuge e um senhor nunca casa primeiro momento, apenas estes três estarão
sua prole sem antes pedir conselhos às pessoas dentro da igreja e, nesta privacidade, quebrada
mais próximas de si, sejam estes senhores do apenas pela presença do padre, os noivos podem
próprio ou mesmo servos. Diante de um sacer- externar suas verdadeiras juras, contentamentos
dote, o casal deve trocar promessas e geralmen- ou receios, e até mesmo ódios. Somente depois
te um objeto irá simbolizar esta união, como um da troca é que as portas são abertas para que os Há quem diga que sopas
feitas com o umbigo de
anel, um lenço, um pedaço de rédea, entre ou- relacionados entrem para a missa. Segue-se um recém-nascidos propiciam a
tros. O elemento essencial para o casamento é momento de reflexão, muitas vezes no próprio força de muitos homens a
o consentimento do casal e nem sempre os pais cemitério da igreja e, por fim, a festa que sem- quem as consome. Apesar
de ser considerado algo
precisam dar o aval para que o mesmo ocorra. pre toma vários dias. Todo o senhorio participa intolerável pelo Tribunal do
Mas, é claro que manipulações, de todas as par- e a quantidade de festejos varia de acordo com Supremo Ofício, esta prática
tes, ocorrem por trás dos panos ou na frente o prestígio e dinheiro daquele casal, mas todos ainda é comum, sobretudo
nos ermos de Belregard.
deles, e com plateia. comemoram, dos reis aos servos. Há inclusive traficantes
de umbigos chamados de
O cônjuge de menor influência, riqueza ou carangueijos que vendem
qualquer outra representatividade de poder, é estes peculiares acepipes

absorvido pela família do outro, não importan- a a cavaleiros próximos a


grandes combates.
do seu sexo. Desse modo, o dote é pago pela As Parteiras
P.
família de menor poder e não precisa ser algo
verdadeiramente valioso, sendo também impor- Parte fundamental do sacramento do nasci-
mento, a parteira costuma ser uma mulher,
tante, e interessante, uma herança de família,
apesar de tempos de necessidade já terem feito
uma relíquia religiosa, algo que tenha um valor
com que homens assumissem o encargo. São
simbólico e que, naturalmente, seja reconhecido figuras extremamente respeitadas, mesmo em
pela outra. castelanias mais “civilizadas”, já que a parteira
não atua apenas no momento do nascimento,
O casamento é quase indissolúvel e os meios mas também durante todo o processo da gra-
para se anular o mesmo são poucos, como a não videz e também depois dela, na recuperação
consumação na noite de núpcias, infertilidade da mãe. São grandes conhecedoras de ervas e
ou impotência de um dos cônjuges. Também, preparos de unguentos, daí um possível atrito
com os ditames do Tribunal, já que são vistas
no caso da descoberta de algum grau de paren-
como curandeiras e benzedeiras em suas comu-
tesco oculto. A igreja pode dar esta anulação
nidades. Muito comuns nas áreas interioranas,
e poucas vezes é flexível com aqueles que de- a parteira é um símbolo da sabedoria popular
sistem de seus votos. O que pode invalidar um e não raras as que cumprem também um papel
casamento inclui: ser menor de doze anos para espiritual, dando aconselhamentos e mostran-
mulheres, e de catorze para homens; Ser mem- do caminhos mais brandos. As babas de Viha
bro de uma das ordens de sacerdotes; terem pais são um ótimo exemplo da importância desse
tipo de personagem, que certamente tem seus
num grau de parentesco considerado proibido,
similares em todas as castelanias de Belregard.
em geral inferior ao sétimo. Em último caso, a
palavra de anulação direta de um Orador, sendo
desnecessário dizer que esta medida só é utili-
zada por pessoas de muito poder.

b 61 b
b Belregard b
O Terceiro Sacramento: A estimativa de Sendo estes cultistas da Horda adoradores de
vida raramente passa dos quarenta anos em Bel- falsos deuses, eles pifiamente conseguiram ape-
regard, salvo os sacerdotes que costumam atin- nas criar um pequeno “lar” dentro da Fímbria.
gir idades veneráveis, possivelmente pela vida
temperada com boa alimentação e atividades Sacramentos Menores: Dezenas de sacra-

físicas dos mosteiros. Mesmo com sua amplitu- mentos menores já foram instituídos e derru-

de de territórios e culturas, o funeral segue um bados ao longo dos anos, seja por necessidade

padrão quase imutável em todas as terras, quan- local ou por capricho de um clérigo. Existem,

do estas estão de acordo com a fé regente do assim, alguns sacramentos menores, rotineiros,

Tribunal. O morto é sepultado com as honrarias parte da cerimônia diária de todo fiel, estando a

que lhe cabem e também é velado por vários missa e a confissão entre os mais importantes.

dias. Acredita-se que, depois da morte, as almas Pelo menos uma vez por semana, normalmente

passem um longo tempo ainda no mundo, mas no sétimo dia, é preciso comparecer às missas

não coexistindo diretamente com os vivos. As do alvorecer e do entardecer. Muito canto e lou-

almas perambulam por um reflexo sombrio de vor marcam o dia, onde normalmente se aprovei-

Belregard, chamado de Fímbria. Lá elas devem ta o número grande de pessoas para continuar

pagar por seus pecados antes de ascenderem à a obra de responsabilidade da igreja. Já a confis-

presença do Criador, tornando-se um com Ele. são deve ser feita uma vez por ano, pelo menos.

As orações e preces ajudam as almas a encon- Normalmente a punição para os pecados en-

trar seus caminhos e não faltam histórias que volve algumas horas de oração e penitência na

relatem o encontro de vivos e mortos - algumas companhia do padre ou serviços maiores, em

macabras, outras gloriosas. Lazlo teorizava que casos mais graves, como uma peregrinação. O

todos os locais de conforto (paraísos) e locais fiel sabe que seu segredo está seguro com o pre-

de danação (infernos) de cada vertente cultista lado, mas é inegável o poder que estes homens

da Horda estariam aqui, em bolsões isolados. exercem devido a esta confiança. É confiando
na inegável pureza e integridade do Tribunal
que este costume se mantém firme e imutável.

Gravura estilo bertina de Fergus,


representando a importância dos
sacramentos. Muitos acreditam que
nem todos os mortos descansam.

b 62 b
b A Vida em Belregard b
no inverno. Nem todos conseguem cumprir este
a longo caminho em tempos iguais, mas eventual-
Os Três Nobres e os Três Mortos mente todos nós passamos por este ciclo. Menor
que o ciclo das estações, existe o da rotina, do
Conta uma lenda que três jovens príncipes va-
dia a dia. O emprego deste tempo diário pode
gavam pela floresta real quando foram abor-
até variar de acordo com o lugar, o clima e o
dados por três mortos, seus duplos. Apesar do
horror causado pelo encontro, os três príncipes relevo, mas costuma dividir semelhanças com a
ficaram curiosos e, em sua arrogância típica, maioria das regiões.
exigiram saber o que cadáveres faziam fora
de suas covas. Os mortos disseram que vie- Levanta-se sempre cedo, antes mesmo do al-
ram lhes alertar sobre as futilidades da vida, vorecer, e as atividades se iniciam com a aurora.
lembrá-los que para a terra não se leva nada, Muito da religiosidade diurna exige que o fiel es-
apenas a carne que alimenta os vermes. Ainda teja em jejum, por isso, durante as primeiras ati-
desdenhando, os três príncipes foram trespas-
vidades que precedem a aurora do trabalho, ra-
sados e sentiram a vida lhes fugir, exceto um,
ramente se come graças às primeiras orações do
que abandonou o que tinha de valor e tomou o
manto do morto, para encontrar um novo cami-
dia. As refeições, três, dividem o dia de trabalho.
nho. Alguns dizem que este homem era Alec, o No meio da manhã, toma-se o desjejum; com o
Puro. Mas esta pode ser apenas uma história. trabalho já iniciado; à tarde,almoçam e descan-
sam com um pouco de leitura, jogos e distrações
variadas e; finalmente, se retorna ao trabalho
Do Tempo até o anoitecer, quando se come pela última vez
O tempo, tão incontrolável e imparável, pa- no dia, durante a ceia. Dorme-se cedo. Não se
rece fluir de forma diferente entre os povos de perambula pela noite escura e mesmo as tochas
Belregard. Para o camponês, o tempo chamado e velas são evitadas nas casas mais humildes,
longo, do plantio, é mais importante que o cur- com toda sua palha e madeira.
to, o da noite, em que apenas se dorme. Diferen-
Os minutos após o crespús-
te do clérigo que o usa o tempo chamado curto Esse tempo longo é dividido em doze meses,
culo são chamados de “a
para estudar e sabe que pode-se queimar três cada qual relacionado a uma atividade em par- hora da anta” por muitos
velas antes do sol nascer, reservando alguma ticular: em primum, celebra-se o novo ano que habitantes de Belregard.
Isso se iniciou em um
delas às suas orações. O ritmo da vida é ditado se inicia; em secundus, repousa-se no interior da
boato de Vlakir no qual
pelas estações. Pessoas comuns, fora do clero, casa, aproveitando o calor do fogo; em tertium, um camponês consumia seu
sejam nobres ou servos, não costumam se im- reiniciam-se os trabalhos no campo; em locus, sexo junto a uma anta,
justamente neste horário.
portar com a passagem dos dias. Para o campo- o mais belo mês do ano, renovam-se todas as
Muitos vizinhos ouviam os
nês, importa saber apenas quando é época de coisas; em quintus, as campanhas se iniciam, gemidos do animal e do
plantar e colher. em que o lorde se arma e parte pelos campos; camponês, sempre assustados.
Uma noite foram ao seu
em sextus, ceifa-se o campo; em septimus, co-
encontro e toparam com a
O tempo não se limita apenas à marcação por lhe-se; em octavus, prepara-se o grão e debu- cena libidinosa. O camponês
dias, meses e anos, apesar de sua passagem ser lha-se o trigo; em nonus e decimus, colhe-se e foi enforcado, mas o boato
sentida dessa forma mais que de qualquer outra. se espalhou e até violên-
semeia-se a uva; em undecima, prepara-se para
cias sexuais cometidas com
O tempo iguala os homens e os faz passar pelas o inverno com a madeira e engorda-se o porco; humanos são atribuídas a
quatro estações da vida. Nascemos em nosso em duodecimus, reserva-se em casa com a famí- “hora da anta” em diversos
verão, crescemos em nossa primavera, amadu- cantos de Belregard.
lia e aguarda-se o ano novo para celebrar.
recemos no outono e nos deitamos para a morte P.

b 63 b
b Belregard b
Um costume moderno que ganha força é
a divisão do ano apenas em quatro, dividindo
a
Aqueles que possuem
deficiência física ou mental apenas a estação. Afinal, a plebe não precisa de O Peso da Palavra
em Belregard, caso sejam exatidão e acostuma-se em dizer “viajarei para
observadas por membros da Quando se olha para um camponês e para um
Igreja, possuem uma sorte ver minha mãe no fim do verão” ou “meu filho
nobre, é natural imaginar que este primeiro
ímpar. Estes são recolhi- nascerá no começo do outono”.
mal tem onde cair morto. Isso é uma verdade.
dos e bem cuidados, pois
já portam as chagas do A Sociedade
A diferença de poder e posse entre as classes
passado corrompido. Estas sociais em Belregard é gritante. Enquanto um
crianças já estariam pa- Um dos pontos mais importantes do compor- nobre pode viver em um castelo de cômodos
gando o preço do deicídio tamento social e político em Belregard baseia-se desconhecidos por ele mesmo, um camponês é
por todos. Contudo, grande na relação entre vassalo e senhor. Não importa o obrigado a se enfurnar em uma casa pequena
parte delas nasce distante
quão grande é o seu poder, todo senhor tem um com toda sua família e os animais. No entanto,
de abadias e por hora é
descartada por ser apenas senhor mais poderoso que ele. Grande parte dos o maior bem do homem de Belregard é a sua
um peso morto do leito. vassalos são proprietários de posses menores
palavra. Ainda que o peso da palavra do cam-
ponês seja menor que a do nobre, confia-se na
P. que, por alguma razão, vinculam-se a senhores
sinceridade das pessoas. Um dos maiores insul-
mais poderosos a fim de ter uma “patronagem”. tos que um homem pode fazer a outro é o de
No momento da filiação, é preciso determinar as marcá-lo como indigno de confiança. A traição
obrigações de um para com o outro e, enquanto da palavra é a maior vergonha para um homem
o vassalo torna-se proprietário de um território carregar, o que pode facilmente transformá-lo
do senhor, na forma de um feudo, este senhor em um Cabeça de Lobo.

pode lhe cobrar participação militar e política,


seja na guerra aberta ou para conselhos buro-
de terras, manter determinada área nas mãos
cráticos. O senhor pode ainda favorecer seu vas-
da família que já lhe servia e lhe favorecia, que
salo de outras formas, garantindo-lhe um bom
tirá-los de lá e encontrar novos proprietários.
casamento ou ordenando seu filho mais velho a
Apesar desta disposição, ela não é lei. No caso
alguma ordem de cavaleiros.
do proprietário nominal das terras morrer, de-
A cerimônia de vassalagem costuma ser sin- ve-se realizar novamente a cerimônia de posse
gela, salvo nos casos de senhores realmente po- e vassalagem, já que nada impediria o próprio
derosos, e quase sempre é acordada oralmente. senhor de dar aquelas terras a outra pessoa ou,
O vassalo coloca-se a disposição do patrono, ainda pior, que um outro líder ganancioso vis-
alegando “tornar-se homem deste” e firma o ju- se as terras como abandonadas e simplesmente
ramento sobre os escritos da fé ou sobre alguma tomasse posse.
relíquia sagrada. Um objeto simbólico também
As terras de um determinado senhor são
pode ser dado ao fim da cerimônia, represen-
divididas em dois tipos: as reservas e conces-
tando a passagem do feudo. Em Birman este
sões. Este segundo refere-se exatamente àquilo
objeto costuma ter conotações religiosas. Já em
que ele cede a seus vassalos, em troca da pro-
Varning, um simples contrato é redigido por um
dução e do pagamento. As próprias concessões
sacerdote e ambas as partes assinam.
têm suas divisões internas, que serão tratadas
Os feudos tendem a ser concedidos a título mais adiante. As reservas estão limitadas ao
pessoal e vitalício, mas a hereditariedade é ex- próprio castelo do regente, seja ele um rei, ba-
tremamente comum. Vale mais, para um senhor rão, duque, conde ou marquês, e seu séquito de
servos domésticos.
b 64 b
b A Vida em Belregard b
A corte também tem seu lugar na reserva. O lorde local, senhor das terras, guarda os
A paisagem de uma reserva é quase sempre a documentos de suas concessões e reservas com
mesma, com um grande castelo de pedra em muito cuidado. Mais que o ouro ou suas joias,
determinada parte alta do relevo, cercado por estes documentos são sua verdadeira fortuna.
construções pomposas, a corte, e ladeados, de Normalmente selados com o emblema real de
todos os lados, pelas terras e pastagens dos sua casa nobre e um reconhecimento do Tribu-
camponeses. As terras dos camponeses, as fai- nal, estas folhas de pergaminho representam o
xas, não são cercadas ou claramente delimita- poder do nobre em questão. O Tractatus Terrae,
das, apesar de todos saberem de quem é o que. livro do imperador com todas as terras de Bel-
Geralmente todos se unem para lavrar o solo, regard e seus respectivos senhores, está conve-
juntando os bois e os arados pesados para fazer nientemente perdido neste período conturbado
o trabalho de forma mais rápida. Estes lavra- da história em que, apesar do isolamento dos
dores que auxiliam os camponeses são muito senhores feudais, existe o evidente desejo na
respeitados e recebem parte da colheita como terra alheia.
pagamento pelo trabalho pesado.
Chamar Vlakir, Parlouma, e outros, de reino
também não é a melhor forma de se tratar tais
regiões. Na verdade, apesar do termo “reino”
estar convencionado na cultura popular de Bel-
regard, o nome mais correto para estas áreas é
o de castelania, que nada mais é do que um tipo
de senhorio, área de influência de um determi-
nado senhor. Influência e poder que são exerci-
dos das mais variadas formas, como a cobrança
de taxas por todo comércio e toda a troca rea-
lizada em suas terras. Apesar disso é ele quem
detém os meios de produção que os campone-
ses precisam, como a forja, o moinho e etc.

As terras dadas na forma de concessões po-


dem ter, no caso das classes mais baixas, dois
tipos básicos de ocupantes: os servos e os ho-
mens livres. A diferença básica entres estes dois
tipos é o fato do homem livre gozar de certa
liberdade dentro das terras de um senhor. Ele
pode morar onde desejar e algumas vezes pode
até mudar de senhorio. Estes homens são res-
ponsáveis pela direção da comunidade aldeã,
desempenhando papel importante na vida ru-
ral. Administrando a terra e os rebanhos, tam-
bém coletando, quando não por um enviado do
Gravura estilo bertina de Motazzi mostrando o milharal senhor, a talha (imposto) dos camponeses.
de Ygor, rico comerciante igslavo de Varning.

b 65 b
b Belregard b
Estas aldeias, que aos poucos tornam-se cida- tica de Belregard encontrava-se mergulhada no
des, são aglomerados de ofícios na maior parte caos. Originalmente o termo “feudo” era utiliza-
das vezes. Ferreiros, carpinteiros, curtidores e do como sinal de dívida de sangue, de vingança,
toda sorte de trabalhadores unem-se em peque- de ajuste de contas. Acabou convencionando-se
nos grupos para fazer valer um pouco de sua o uso para as terras conquistadas como resulta-

“Puxa, estica, amarra, vira, vontade. Está longe de ser algo organizado ou do destas contendas.
salta, corre, abaixa. grita, verdadeiramente expressivo, mas em Varning
gira, silencia.” já existem grandes corporações de ofícios que O feudalismo firma-se na máxima de que a

dominam determinadas áreas, juntando os terra pertence a Deus e que os senhores gover-
Essa é uma brincadeira
melhores em uma única filiação, muitas vezes nam por direito divino, possuindo-a e governan-
muito comum entre as
crianças. Uma delas entoa chamada de guilda. Em alguns locais as guildas do como bem entendem, assim como alicerça-se
as ordens e as demais no dever de servir cabido ao homem de simples
ganharam muito respeito e poder, formando
devem seguir. A vez é
verdadeiros cartéis e controle sobre um ofício, ofício. No entanto, o Eleito é o responsável
passada para as demais,
que embaralham os verbos manipulando desde quem se torna um aprendiz supremo da força humana, sendo o vigário de
e seguem as ordens. Deus em Belregard, possuindo assim o direito de
até o preço de venda.
intervir e impor sanções a um nobre injusto. A
Mas é dito que, na ver-
dade, estas são ordens da- O Triângulo Social ele é dado o poder de pronunciar julgamentos, de-
das durante torturas feitas Como apontado pelo iluminado padre Yorek por, retirar terras, substituir ou excomungar um
pelo Tribunal do Supremo
de Kinlar, a divisão natural dos homens foi or- rei que caía em seu desagrado. De maneira se-
Ofício em suas audiências
com aqueles que respondem denada pelo próprio Criador em uma espécie melhante, o Eleito tem o direito de declarar uma
por pecados cometidos... de triângulo, sua interpretação foi totalmente invasão, assalto de guerra ou declarar paz entre
detalhada na carta intitulada de “O Poder Re- dois feudos, mesmo que sua vontade vá contra
P.
gencial Divino e o Dever do Homem Corriquei- a vontade dos governantes, sua palavra será
ro”. A mobilidade social, para os sacerdotes, é acatada. O Eleito é a voz máxima sob os céus.
engessada por conta desta visão da ordem so-
A ordem de classificação e precedência no
cial. A grande vantagem do triângulo social é a
Sistema Social é a seguinte:
possibilidade de visualizar claramente a função
de cada um dentro deste sistema. Do mesmo ♝ Vossa Santidade, O Eleito – O cargo
modo, ascender nesse triângulo faz parte do máximo do Tribunal do Supremo Ofício.
objetivo da maioria das pessoas de Belregard. ♚♛ Vossa Majestade, O Rei / A Rainha
Por exemplo, um cavaleiro que tenha provado – O maior posto dentre os homens corriqueiros.
sua valentia na batalha ou foi bem sucedido em
♜ Dons e Donas, Os Nobres –
torneios, poderá tornar-se rico e conseguir pa-
Seletos senhores que podem ter suas ter-
gar por um castelo. Assim, sua importância na
ras dentro das terras reais. (eles são di-
terra iria aumentar e ele poderia, então, tornar-
vididos em barões, duques, marqueses e
-se um barão, conde ou duque. Nobres podero-
condes. Sendo barões os menores e duques os
sos aspiram ao cargo de rei, e os servos sonham
mais poderosos).
♞ Dons e Donas, Cavaleiros – Protetores e
em ser homens livres. Todos sonham com algo
melhor do que possuem.
mantenedores dos escalões acima.
O termo feudalismo foi criado por Haskel para ♟ Camponeses / Servos – O campe-
denominar as terras em constante disputa du- sinato em geral, incluindo homens livres e
rante a Era do Sangue, quando a situação polí- comerciantes.

b 66 b
b A Vida em Belregard b

Gravura estilo bertina de Fergus, representando


a importância da fé, que não abandona o homem
nem mesmo nas estradas de Belregard.

Mesmo com todo o poder da igreja, estar aci- A Divisão da Sociedade


ma da lei dos homens não é um privilégio de Aqueles que Trabalham “Operantibus”
todos, muitos homens do clero veem-se atados e Seja ele de Latza ou de Rastov, o homem sim-
até mesmo subjugados frente à alguns que con- ples de Belregad leva uma vida semelhante em
seguirem escalar grandes picos de poder. Deste todos os cantos do continente. Fadado a fazer
modo, um orador tem uma influência equiva- parte da parcela mais baixa da população, seu
lente a um duque, um cardeal equivalente a um papel dentro da sociedade é o de alimentar e
conde e assim por diante. Seguindo a lógica, em calçar o caminho para a nobreza. Sem qualquer
casos de poder equivalente, a palavra final será instrução ou conhecimento teórico, os campo-
do eclesiástico em questão. neses dedicam-se a tarefas práticas de produ-
ção no dia a dia. A criação de animais e o culti-
vo de terras estão entre as principais atividades

b 67 b
b Belregard b
destes homens simples e humildes. O homem
nasce fadado a fazer o que se espera dele, nada
a
mais que isso, apenas esperando o fim. Longevidade dos Reis

O campesinato é tão absorto que nem mes- Um fato curioso que salta aos olhos daqueles
mo calcula o tempo com grande precisão. Tudo observam as histórias dos reis de Belregard é
o quanto a idade venerável que boa parte deles
que lhes interessa é saber em qual a estação
consegue alcançar, quando não passam por al-
atual, para que a terra possa ser trabalhada.
gum atentado que lhes interrompe a vida. Para
Um camponês tem poucas chances de mudar um homem simples, e mesmo um nobre, viver
de vida, já que sua participação como alicerce até os cinquenta é motivo de glória e causa
das outras castas é muito valorizada. A maior estranheza que alguns reis tenham consegui-
parte da população de Belregard ocupa esta do chegar a mais que o dobro disso. Alguns
posição, trabalhando duro ao longo de suas estudiosos alegam que os registros antigos
estão errados, que muitos filhos assumiram as
vidas, relativamente breves, para manter a no-
coroas dos pais sem mudar o próprio nome, o
breza e o clero em suas condições confortáveis.
que causaria a confusão. Outros apontam mo-
Lembrando que é dever do nobre proteger seus tivos mais sagrados, provando a divindade dos
camponeses dos saqueadores e invasores, assim reis pela longevidade, como um sinal claro do
como é dever do camponês agarrar-se em armas Criador para que aquele reinado seja longo e
quando necessário. próspero. Para poucos, muitos dos quais já pa-
garam com a vida por espalhar tais histórias, os
Dentro do título camponês encontram-se al- anos a mais dos reis em Belregard tem uma ori-
gumas divisões. Existem os servos, os mais bai- gem muito mais profana, que parace envolver o

xos dentre os mesmos, sendo melhores apenas próprio Eleito e seu domínio sobre luz e treva.

que os bandidos. Devem suas vidas aos seus se-


nhores, que têm todo o direito sobre suas parcas
posses. A produção de um servo vai quase toda e principalmente do arroteamento. As rou-

para o seu senhor e ele mantém apenas o sufi- pas femininas consistem de duas túnicas, as

ciente para sobreviver. Temos depois os homens mais pobres usam apenas uma, sendo uma

livres que, mesmo ainda vivendo em terras de maior do que a outra. Além disso, as mulhe-

senhores, contam com uma certa quantidade res também usam um longo manto sobre seus

de posses pessoais, algum dinheiro e possibi- ombros. Somente nas últimas décadas tem se

lidades dentro da sociedade. Como um braço tornado normal o adorno de pescoços e pu-

dos homens livres, têm surgido em Belregard nhos com enfeites singelos. As camponesas

uma divisão distinta de homens dedicados ao costumam usar algodão cru tingido com aça-

comércio. Eles já são mais comuns em Varning. frão, ou linho barato quando são agraciadas

Lembrando que nunca um camponês aprenderá por sua senhora.

a utilizar uma espada, ele não deve tempo de


As atividades dos homens livres variam em
sobra para isso.
uma vasta gama de possibilidades. Quando livre,

O dia a dia de um servo é carregado de so- não colocado no determinado serviço porque

frimento, já que devem cuidar da terra do se- assim seu senhor quis, o homem simples con-

nhor por dois ou três dias por semana, e cuidar segue alcançar objetivos normalmente impossí-

das funções agrícolas como aração e colheita veis para alguém de seu status social. Existem
os cavaleiros mercantes, uma ordem menor de

b 68 b
b A Vida em Belregard b
cavalaria, não necessariamente nobre, que vem narcas são sábios em reservar este título apenas
se tornando popular nos últimos anos. Surgem aos mais confiáveis súditos. É desta casta que
como uma luz no comércio abandonado desta surgem os mais proeminentes cavaleiros de Bel-
Belregard arruinada. Seja fundando os alicer- regard. As ordens cavaleirescas aceitam mem-
ces de novos entrepostos comerciais, empórios bros vindos de qualquer estrato social, desde Seria comum imaginar que
onde se reúnem mercadores de vários cantos que tenham uma patronagem digna. É raro que reis e senhores de maior
poder seriam considerados
do mundo durante as épocas quentes, ou como camponeses consigam apoio o bastante para sa- até mágicos pelos mais
exploradores que se dedicam a reencontrar ca- grarem-se cavaleiros e certos filhos de duques pobres, mas isso não ocorre
minhos antes abandonados e torná-los seguros, já são educados desde jovens para tornarem-se em Belregard. A ausência
de esperança e a certeza
os homens e mulheres livres de Belregard conse- escudeiros. É esperado que todos os detentores da degeneração do mundo
guem forçar seu lugar no mundo. desses nobres títulos sejam versados nas mais impossibilita a projeção na
comuns armas militares, táticas de combate e figura de poder como algo
Aqueles que Lutam “Militantium” taumatúrgico. Pelo contrário,
controle de conflitos, afinal, um nobre que não há sempre desconfiança aos
A nobreza está logo acima dos camponeses e pode se defender não será um bom líder. Devido que possuem mais pão e
também divide-se em certos estratos com parti- tempos de paz, muitos desses nobres deixaram carne para se alimentar.
cularidades próprias. Os pequenos proprietários que suas armas enferrujassem e que suas bar- P.
de terras muitas vezes não carregam qualquer rigas crescessem, colocando sua segurança em
título de nobreza relevante e têm, aos poucos, mãos de outrem.
juntado laços com os homens livres comercian-
tes, dando origem a pequenos centros, os bur- Em territórios onde o conflito é constan-
gos. Lá, promove-se a união de outros homens, te, como em Viha e Braden, os marqueses são
livres ou não, para o comércio interno. Ferreiros, escolhidos entre os barões de maior renome e
carpinteiros e toda a sorte de ofícios juntam-se sucesso militar. A eles são dadas marcas, peda-
em praças largas para gritar alto o preço de seus ços de um território de fronteira, muitas vezes
produtos e serviços. dentro do território de outro nobre, como um
conde ou duque, e estes devem subordinação ao
Os condes figuram como primeiro título nobre marquês, no que diz respeito à guerra. O mar-
de real valor. Suas propriedades não são vastas, quês pode até mesmo tomar terras de seus vi-
mas podem gozar de uma relativa participação zinhos, ocupando os campos e usando de suas
dentro da corte de seus respectivos reinos. En- plantações, se estas forem necessárias em seu
quanto em viagem, os condes podem nomear esforço na fronteira.
um substituto para coordenar seus domínios e
No topo da nobreza está a figura do rei, deten-
estes viscondes têm poderes limitados nestas
tor de todas as terras de uma determinada re-
ocasiões, apesar de sempre serem da confiança
gião e que, mediante auxílio militar e logístico,
do conde. Em seguida vêm os barões, que não
cede certas partes para nobres e camponeses.
diferem muito em poder, mas sua influência
A família regente e seus relacionados costumam
militar é maior. Normalmente estes títulos são
habitar castelos, quase sempre construídos em
dados àqueles que demonstraram coragem no
locais altos, e ao redor destes espalha-se uma
campo de batalha.
pequena comunidade de servos. A corte tem

O maior dos títulos que um homem pode ter, seu lugar ao redor destes bastiões do poder real,

dentro da nobreza, é o de duque. Os ducados são contando com moradias de nobres e pousadas

quase como estados dentro do estado e os mo- especiais para atender a realeza e aos influentes
quando visitam determinada corte.

b 69 b
b Belregard b
O feudalismo é baseado na troca de terra para
o serviço militar. Bövrar I criou esse conceito,
apesar do termo só ter sido cunhado tempos de-
pois, para recompensar seus cavaleiros pela sua
ajuda na vitória contra os Selvagens. A vida dos
senhores e nobres é centrada em torno de seus
castelos ou mansões, ou lutando pelos interes-
ses de seu senhor seja nos salões ou no campo
de guerra.

A maioria dos nobres, em tempos de paz, des-


prende-se de parte de sua riqueza em grandes
festas ou banquete e, enquanto comem e be-
bem, assistem as brincadeiras de um bobo da
corte ou escutam as canções e músicas de tro-
vadores. Eles vivem daquilo que é tirado de sua
reserva, afinal, a floresta e seus trabalhadores
lhe proporcionaram a madeira para casas e mó-
veis, assim como as quentes roupas de linho, lã
e couro.

Aqueles que Rezam “Orante”


Junto dos nobres, e também subordinados ao
rei, está o clero. Dividido em determinadas or-
Uma típica bula do dens que interpretam de maneira particular as
Tribunal, contendo
as demandas de ideias deixadas pelos Puros que acompanharam
sacerdotes.
o Único em suas andanças pelo mundo, os sa-
cerdotes influenciam toda a sociedade.

As três principais visões de mundo religioso


são lições passadas pelos homens que caminha-
ram ao lado do Criador:

Alec pregava o total desapego aos bens ma-


teriais e até aos sentimentos mundanos. Este
andarilho foi o responsável pela criação do Tri-
bunal do Supremo Ofício original. É somente no
total desapego que pode-se novamente entrar
em contato com o Pai de Todos. Leoric, encarna-
ção do soldado divino, não chora pelo sacrifício
do Único, mas o aponta como a última direção
que o Criador deu aos homens e que agora eles
devem honrá-lo seguindo o mesmo caminho, lu-
tar eternamente contra a Sombra.

b 70 b
b A Vida em Belregard b
Por fim, o pragmático Lazlo crê na busca pelo Eleito - Sumo Pontífice, Pai das Primei-
conhecimento, seja ele qual for, chamando a to- ras Crianças, Escolhido da Santa Mão, Seta
dos para um culto racional e sem sincretismos Indicadora - Escolhido pelos Conclave dos Ora-
profanos trazidos pelas hekklesias, pregando dores, seu posto é vitalício. É também o chefe
que todo conhecimento é válido, acreditando de Birman, lar do Tribunal. Sendo um dos cargos
que este é o caminho para reservar seu lugar ao mais antigos e firmes da história de Belregard,
lado da essência do Criador na Abóbada Celeste. o Eleito fora um cargo criado por Alec, quando
escolhia em uma cidade alguém para guiar os
Dentro destas ordens a divisão é basicamente convertidos deixados após sua visita. Dedica-se
a mesma. Quando alguém deseja tornar-se sa- a unir os povos e firmar o poder do Único. Com-
cerdote, o ideal é que inicie esse caminho desde bater a Sombra e mediar conflitos do homens.
cedo. Os pajens, trazidos pelos seus pais até as Tem pleno poder dentro do Tribunal, possuindo
igrejas, oferecem também uma espécie de dote, poder de nomear e retirar poder para cargos. Há algumas décadas os
geralmente em dinheiro, para custear seus estu- ferreiros passaram a batizar
dos. Esta quantidade varia muito e geralmente Orador - Escolhido pelo consenso entre bis- uma espécie de alabarda
é cara demais para que famílias de camponeses pos, arcebispos e população, endossado pelos de “Lâmina da Capelã”,
referindo-se a uma arma
coloquem seus filhos no clero. Pode ocorrer de Acadêmicos Cardinalícios. Tido como cargo forjada de acordo com
pajens serem aceitos em ocasiões especiais. Os mais puro entre todos os outros, pois sua es- o desejo de Fernanda
mendicantes são mais propensos a isso. A no- colha envolve uma vida sem máculas e pouca Gusmão, responsável pela
capela nas imediações de
breza mantém o costume de mandar o segundo influência política, mesmo que isso não seja de Rastov. A mesma lâmina
filho para estudar junto à igreja. Enquanto o pri- total verdade. O Corpo Oratórios dos Fracos e foi responsável por matar
mogênito irá suceder os negócios e posses dos Necessitados, como foi chamado originalmente, lobos, acabar com ladrões
de peregrinos e abafar 3
pais, o segundo filho está fadado ao aprendizado nasceu com o intuito de amparar aqueles que revoltas camponesas. Não é
monástico. Lembrando que o clero só aceitará sofriam com os problemas reais deixados por raro, sobretudo aos Leoris-
um futuro aprendiz se o mesmo já tiver alfabeti- tas, pegar em armas para
péssimos governantes. Criaram e instituíram
resolver seus problemas.
zado e com conhecimento literal sobre a Vulgata, legalmente aquilo que seria tratado como fraco E estas normalmente são as
o Livro Sagrado. Aqueles que não passam nesse e necessitado, dentro das normas do Tribunal. mais letais.
primeiro teste são dispensados. Não é preciso Agem como mediadores e conselheiros, levando
P.
dizer que muitas famílias gastam tudo que pos- a vontade do povo e das castelanias até o Eleito.
suem pagando instrutores para que seus filhos
estejam preparados para isso. Cardeal - O Corpo Cardinalício. É um dignitá-
rio de alto grau e atende aos desígnios do Eleito,
Tornando-se prelados depois de alguns anos servindo como mãos e olhos para este. Existe
de estudo, então, são mandados para igrejas e um número que varia entre 70 a 120 destes. Tra-
capelas em áreas afastadas dos grandes centros balham em grandes locais, grandes focos da fé.
e da corte. É nestes locais que os aspirantes a
sacerdotes aprendem sobre os verdadeiros misté- Arcebispo - Cuida de um conjunto de Conse-
rios de Belregard. Lidando com a superstição de lhos Distritais. São escolhidos entre os bispos
camponeses e tendo que lhes orientar em suas pelos cardeais.
transgressões, muitos candidatos desistem da
Bispo - Cuida de um Conselho Distrital (união
vida sacerdotal nesta fase.
de várias Igrejas). Se existe alguma fagulha de
real bondade, sem interesse político, está daqui
para baixo.

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b Belregard b
Prelado - Cuida de Igrejas. do que é o amor cortês dos trovadores de Da-
lanor; o desdém da dama almejada, que parece
Prior - Cuida de uma ordem, um Priorado.
acompanhar os passos do gatuno que espreita
Abade - Responsável por Abadia ou Convento. na segurança da noite sem dar atenção ao seu
Capelão - Padre militar ou que dirige capela. apaixonado poeta. Independente de quão encan-
tadora a noite e a lua possam ser, o medo impera
Acólito - Auxiliar de um Sacerdote.
no coração de todo homem que vive nas terras
Mendicantes - A mais baixa na hierarquia, de Belregard quando o sol se põe no horizonte.
são homens e mulheres sem apego material,
grandes viajantes e pregadores. Arquitetura
Traçar todas as variações de construções em
Os Pormenores do Mundo Belregard seria um esforço imenso e desne-
ar cessário para este trabalho. O que precisamos
Não seria prudente ressalt Um mundo de Escuridão
aqui o nosso me do tentar compreender são os padrões de moradia,
do escuro? A vida em Belregard não é branda. Aqueles elementos comuns que fazem o camponês da
-P. que vivenciam este período são pessoas guer- isolada Rastov compartilhar vivências com o
Tolices! Não dê reiras que tentam conquistar novas terras ao pastor de Belghor. As estruturas em Belregard
armas ao inimigo. custo da vida de seus aliados e inimigos selva- possuem estilos particulares que costumam
gens. A mistura dos povos gerou uma recém- se distinguir pela localidade e pelo povo que
-nascida busca por elegância com suas sedas,
as construiu. Os belghos possuem fama como
tapeçarias, pedras preciosas, perfumes, espe-
construtores engenhosos, excelentes trabalha-
ciarias, pérolas e marfim, assim, provocando
dores com pedra. Desde muito tempo tem-se
uma mudança na sociedade em geral. O requin-
evidências de seus esforços na construção de
te, o bom gosto e a finesse parecem ser algo
pontes, torres e palácios de pedra. Parte desse
novo, algo sendo finamente degustado e apre-
conhecimento foi perdido, mas alguns lugares,
ciado por aqueles capazes de pagar seu custo.
como Vlakir, mantém viva a tradição.
É neste cenário contraditório que se envolve o
homem atual, ainda que existam avanços e me- O chamado estilo virkânico se caracteriza pe-
lhoras, o isolamento deixou tais benécies fecha- las construções austeras e robustas, de paredes
das e reservadas a grupos e lugares. O que une grossas e janelas pequenas. Mesmo as igrejas
a todos, fora a crença do Criador, é a escuridão
deste estilo podem ser confundidas com forta-
quase literal.
lezas da fé. Ainda é o tipo mais respeitado de

A noite tem seus encantos e assombros. Da arquitetura, por carregar muito da passada gló-

mesma forma que ela fascina o amante trovador ria do império. O estilo mais recente e que tem

com a inspiradora luz do luar, causa arrepios no se tornado popular nas construções do último
campo, quando o uivo faminto irrompe o silên- século é o birmânico, que carrega uma forte
cio dos lares. A lua surge como uma salvadora, e estreita relação com a fé. Caracteriza-se por
jogando sua luz pálida quando não há sol para estruturas altas, de torres e arcos impressio-
aquecer os homens. Um sem número de canções nantes. Um espaço interno amplo e um exímio
já foram escritas para a garbosa dama que vaga aproveitamento da luz através de janelas, vitrais
solitária nas noites frias. Melodias falam de um e rosáceas cativantes.
amor puro e inalcançável, um reflexo perfeito

b 72 b
b A Vida em Belregard b
Menos impressionantes, apesar de mais típi- ce contrário ao que seria natural. Há de se per-
cas, as construções dos camponeses e homens guntar o porquê dessa atitude e como poucos
menos abastados segue um padrão quase igual centros populacionais desse porte continuam
em todos os cantos do mundo. No campo, as ocupados hoje. Nos locais onde o poder conse-
casas costumam ser grandes salões cumpridos guiu se manter centralizado no rei, ou na figura
que poucas vezes tem divisórias internas com do nobre que tomou as rédeas da situação isto é
paredes sólidas de terra ou madeira. Costuma- notável. Não fosse o abandono das cidades, tal-
-se usar tecido, cobertores, para dividir os cô- vez Belregard não estivesse tão isolada e escura
modos das casas. Não é incomum que mais de como se encontra.
uma família viva na mesma casa e é costume “Mas como essas coisas
que todos durmam no mesmo local, comparti- Fenômeno ímpar tem ocorrido em certos lu- foram feitas? Grandes
gares, especialmente em Varning, é o dos bur- castelos e fortalezas de
lhando da mesma cama. A ideia de privacidade
tempos imemoriais!”
não é tão relevante quanto na cidade e mesmo gos. A ascendente classe dos comerciantes, jun-

os banhos podem ser comunais. Um espaço da to de seus cavaleiros mercantes, têm realizado “Não seja tolo, isso foi
as feiras em grandes encontros de estradas e criado quando o Criador
casa pode ser reservado para os animais, a fim
ainda estava entre nós.”
alguns destes comerciantes acabam por viver
de protegê-los do frio, dos lobos e de ladrões. “Mas há quem diga que
nestas áreas, sob a proteção de senhores locais estão de pé há muito
Já na cidade, a organização das residências é e como recompensa, ajudam tais senhores na tempo atrás.”
muitas vezes confusa. Varning tenta mudar isso defesa e melhoria estrutural de seus domínios.
“Então diga, meu bom
com políticas severas de padronização, mas só É um fenômeno que tem feito surgir as cidades homem, se o Único não
consegue manter-se coesa no grande centro. pequenas, em pontos fortes de comércio. Em al- está mais nestas paragens,
porque estes colossos insistem
Normalmente, quando possível, as casas são guns casos, estas cidades, burgos, conseguem
em ficar de pé?”
construídas com o primeiro andar de pedra, po- autonomia junto ao senhor geral daquela área, “Para nos lembrar de nossa
dendo ter anexos superiores de madeira. Como permitindo que a torre, o forte ou mesmo mos- insignificância. Hoje nem
sabemos mais como fazê-los.”
os ofícios sãos mais comuns nas cidades, as por- teiro, se torne autossuficiente.
tas e janelas ficam abertas durante o dia, exibin- “Eu vejo tudo de outra
do produtos ou oferecendo serviços. Como dito Existem alguns tipos observáveis de cidade, forma, meus caros.”
por mais que estes estilos se misturem com “E como vê?”
antes, a privacidade é assunto sério na cidade,
frequência. Existe a cidade que se manteve do
de modo que as casas costumam ter maiores di- “Tudo isso serve apenas
visões internas. período imperial, esta costuma ser mais ampla para guardar festins e
e organizada, por mais que tenha sido também oferendas que peregrinos
deixam. Sempre visito ruínas
As Cidades e os Castelos vítima de uma histeria generalizada quando
para garantir ao menos
conflitos locais deflagaram a queda do poder uma boa refeição.”
Durante o período imperial, grandes cidades
imperial, elas contam com estruturas de pedra
marcaram o mapa de Belregard. Capitais e cen-
e amplas áreas de socialização, como praças e
tros comerciais fervilhantes de vida e cultura.
banhos. Existe também o burgo, muito comum
Conforme Virka demonstrava seus sinais de
no oeste de Belregard, a partir de Varning, nor-
fraqueza, tais locais acompanhavam o “sangra-
malmente iniciado por ajuntamentos de comer-
mento” imperial, sendo abandonados, saquea-
ciantes em seus empórios; estes são centros de
dos, aos poucos. O movimento de êxodo parece
fervor em determinadas épocas do ano propí-
até mesmo forçado em alguns locais. Estruturas
cias ao comércio. As demais são cidades novas
grandiosas de pedra sendo largadas ao tempo
ou espalhadas ao redor de castelos e igrejas, go-
enquanto famílias juntam o que podem para
vernadas por nobres e bispos.
partir aos campos, tomando um rumo que pare-

b 73 b
b Belregard b

Gravura estilo bertina de Ferguson, representando um santuário abandonado em Virka, já reclamado pela natureza.

b 74 b
b A Vida em Belregard b
O caso geral do ambiente urbano é caótico, mais pobres. A área mais próxima ao castelo
mesmo nas cidades que sobreviveram ao êxo- do nobre local é destinada à corte e esta corte
do total. As ruas em sua maioria são de terra pode variar de tamanho, de acordo com o poder
lamacenta, em raros casos, um pequeno peda- aquisitivo daquele senhor em especial. Na mura-
ço pode ser calçado com pedras ou tábuas de lha externa ficam os cidadãos de bem, mas em
madeira barata. A água é retirada de poços ou áreas periféricas da corte, e devem se recolher
lagos e rios próximos. Os excrementos são ar- antes que os portões se fechem no início do cre-
remessado a céu aberto, muitas vezes na rua. púsculo. Entretanto, muitos cidadãos não têm o
A iluminação, quando existe, consiste de tochas direito de residir dentro dos portões e por isso
colocadas à frente das casas, sendo sua manu- aglomeram-se nos arredores dos grandes muros.
tenção responsabilidade do proprietário da resi-
dência. Um indigente encontrado morto pode fi- Na área interna de um castelo existem divi-
car jogado por dias até ser recolhido. As cidades sões de espaço. A estrutura destinada à mo-
representam o progresso puro e simples, mesmo radia do nobre é chamada de torreão e estes
que ainda rústico. costumam ser mobiliados de forma singela, já

A arquitetura dos castelos mudou a partir da que o espaço normalmente é amplo demais e as
Era do Sangue, quando as construções de ma- necessidades pequenas. No primeiro andar do
deira deram espaço à pedra e blocos de barro, torreão costuma-se realizar banquetes e é tam-
assim sendo possível suportar aos cercos e de- bém onde o nobre recebe seus súditos e subor-
fender-se da melhor forma possível. Ao redor de dinados. Festas que costumam ter a intenção de
um castelo existem fortes muros para as pro- agradar a população também são realizadas ali,
priedades ricas, ou cercas de madeira em terras assim como saraus.
Em Viha e Varning
itetôni-
novos estilos arqu
criados.
cos estão sendo
sca
Enquanto Vihs bu
, por
ser uma vanguada
sadas
meio de linhas ou
rning
e geométricas, Va
a encerra o co sm op oli tismo
uma
da castelania em
esen-
O Abandono das Cidades culinária que repr
rias
ta a fusão de vá
É de se estranhar este abandono de grandes centros populacionais, que realmente vai contra a lógica da tendências.
união em momento de necessidade. Não fosse este êxodo, Belregard poderia ter se mantido quase que a
mesma, ainda com suas lutas internas de poder. Talvez as reflexões finais do último imperador ajudem a
jogar uma luz, mesmo que duvidosa, sobre a questão. Tais escritos podem ainda estar em seus aposentos
reais no palácio de Virka, ou talvez na posse de algum saqueador, ou ainda colecionador.

“Que seja condenada a alma que habita esta casca profana. Maldito seja o sagrado e o profano! Do que
vivi e construí pouco me resta para admirar, apenas sigo com o peso da coroa nos ombros e na fronte
carregada de desalento. Se é o que resta aquele que se dedica, ao que busca onde é preciso pela clareza da
Luz e segurança da Sombra, maldito seja eu… Bövrar sabia de pouco, os abutus arranharam uma verdade
incômoda e o uivo dos Celestes apontou uma direção, mas nenhuma destas descobertas parecia fazer sen-
tido sozinha, foi só quando uni todas, buscando na Alcova Profana pelo cortejo ideal é que compreendi. Foi
me dada uma escolha… O horror da verdade, a loucura da iluminação final, ou a segurança da ignorância?”

b 75 b
b Belregard b
Tecnologia camponês colhe o linho, tosquia a ovelha, en-
tão carda e tinge a lã. Já a do cavaleiro utilizará
“Caminho do céu, A guerra é a grande força motriz do progresso
suas horas vagas para fiar, tecer e bordar. Estes
caminho do chão. no campo dos inventos em Belregard. Nem tudo
No céu há esquadros per- tecidos podem ser lisos (com uma só cor), mis-
está relacionado a ela, mas é inegável a sua con-
feitos, cabeça turados (matizados), variegados (com flores e
e mente a seguir. tribuição quando se percebe o uso da armadura
ornatos de folhagem), salpicados (com esferas)
Na terra há imperfeição, e completa entre os cavaleiros mais abastados,
ela que devemos seguir. ou listrados de diversas maneiras. Uma verda-
a balestra, o trabuco, a besta de mão e tantos
Fazemos ferramentas, somos deira profusão de variedades que se reflete nos
ferramentas. Mas onde as outros legados de longos períodos de conflito
moradores de Belregard que, muitas vezes, dedi-
ferramentas estão quando o como a Era do Sangue e o subsequente caos da
mundo precisa delas?” cam-se à elaboração de uma roupa que irá des-
queda do império. São notórias as vantagens
- atribuído a Frida Guilz tacá-los na multidão. A moda em si varia muito,
trazidas pelos moinhos, tanto de água quanto
de castelania para castelania.
de vento. Assim como os avanços nas constru-
ções de castelos e igrejas, com seus arcos mo-
Engana-se quem pensa que camponeses utili-
numentais. Por mais que muitos destes avanços
zam roupas sem cores fortes ou que as cores do
estejam isolados entre a nobreza e o clero, sua
mundo são limitadas e cinzentas. As indumentá-
presença pode ser sentida em maior ou menor
rias variam muito, com corantes vegetais e uri-
grau por todo o mundo, dos simples óculos de
na de homem, adicionadas à fervura para que
leitura ao arado pesado puxado por bois, pas-
as cores surjam e se fixem na peça de roupa.
sando pelas caravelas que singram no mar sul
Em algumas cidades existem baldes em esqui-
saídas de Varning. O maior invento de tecno-
nas e pontos discretos onde os homens podem
logia dos tempos atuais pode ser gigantesco
urinar para que o líquido seja usado nas tintu-
observatório construído pela ordem dos Orado-
rarias próximas. Independente de quão cinza o
res das Estrelas, de Parlouma, num movimento
mundo pode ser, a fagulha de alegria concedida
encabeçado por Antonini de Petugia e também
pelo Divino faz com que o homem encontre cor,
vale citar as pontes elevadiças de Varning.
mesmo na mais profunda treva.

Vestuário Alimentação
As roupas e a moda são ritmadas pelo triân-
O passado turbulento formou uma sociedade
gulo de poder, o sistema que rege a sociedade
simplista e brutal, com a total inexistência de
de Belregard. As leis definem que um cidadão
requinte. Os tipos de alimentos mais consumi-
só deve usar roupas cabíveis à sua classe so-
dos são carnes em geral, frutas, peixes, aves de
cial, para que assim, os membros desta casta
caça, pão e tubérculos. Deste modo, a alimen-
sejam facilmente distinguidos por suas roupas.
tação segue moldes simples, onde o rico terá
A roupa usada por classes da nobreza é supe-
muito e com preparo ideal, e o pobre comerá o
rior e claramente diferente da roupa usada por
que lhe resta da forma que for possível ser feito.
um plebeu, sendo assim, as vestimentas podem
Assim como amor pela comida, os povos de Bel-
fornecer informações sobre o status da pessoa
regard gostam de entregar-se à bebida, afinal,
que as usa.
devido a má qualidade da água, beber é uma ne-
cessidade. Os pobres bebem cerveja ou cidra e
O trabalho de confecção destes tecidos usa-
os ricos deliciam-se com muitos tipos diferentes
dos nas roupas costuma caber apenas às mu-
de vinhos. Não é rara a fermentação de frutas e
lheres, cada uma a sua moda. A mulher do
cereais para o fabrico de bebidas e há também

b 76 b
b A Vida em Belregard b
técnicas de destilação de toda sorte. Há aldeias distintas formas, como podemos ver no caso do
conhecidas pelos licores de jabuticada ou pela caju, utilizado desde sua polpa até sua castanha,
aguardente de cana, por exemplo. Em ambas as que é torrada. Muitas castanhas são apreciadas
cozinhas, dos ricos e dos pobres, os temperos não apenas como aperitivos, como também
são populares, junto com os molhos, normal- para a feitura de pratos quentes e doces. Como
mente à base de miolo de pão, vinagre, cebola, já dito, vale ressaltar a diversidade de bebidas,
noz, pimenta e até canela. mostos fermentados e destilados que são feitos
com base de frutas e cereais. A carne de porco
A alimentação dos camponeses fica concen- é a mais consumida entre os camponeses, nor-
trada nos cereais ou tubérculos, cada qual rela- malmente morto no fim do ano, mas tem seus
tivo à geografia mais propícia. Dentre os cereais produtos salgados e consumidos por um longo
temos como os mais populares são a cevada, o tempo depois de armazenados. Mas não se en-
arroz, o centeio e o trigo, normalmente semea- gane, tudo isso é tirado da terra e usado com
dos e colhidos juntos para fornecer uma mistu- sensatez, um ditado antigo deixa o cuidado bem
ra de que é feito um pão escuro, mas também claro: “O regalo de hoje é o roncar da barriga
podem servir como ensopados e mingaus. Em de amanhã”.
áreas montanhosas, cultiva-se a espelta e nas
áreas meridionais, diferentes espécies de mi- Para a nobreza, “o primeiro dos luxos é levado
lho. A aveia e o sorgo entram principalmente na à sério”. Os cereais dos camponeses são prati-
composição de sopas acompanhadas de semen- camente abandonados por uma variedade maior
tes de cânhamo, legumes (favas, ervilhas, cou- de carnes: veados, gamos, cabras, antas, javalis,
ves, lentilha, feijão, tomate, cebolas, alho, raba- lebres, perdizes, codornas, faisões e tantos ou-
nete, etc) ou de castanhas. Áreas mais úmidas tros são populares nas mesas da nobreza, junto
possuem diferentes espécies de raízes e tube- das enguias criadas em lagos particulares. Os
rosas, como batatas, mandiocas, inhames e ca- banquetes são uma peça central da influência
rás. Nota-se que os tubérculos são versáteis e de de um nobre em seu território. Realizados para
grande importância para o fabrico de farinhas e promover grandes eventos como casamentos,
demais derivados. Não é raro, por exemplo, ter coroações, visitantes ilustres, torneios e feria-
acesso a massas feitas a base de batata-doce dos santos, é no banquete aberto ao povo que
como principal repasto de uma família pobre. se pode medir a popularidade de um monarca
entre os seus súditos. Comer até se entupir é um
Sempre que possível, uma família terá uma costume apreciado entre os nobres, em festas
pequena, mas notória criação de aves domés- eles comem tanto que irão procurar locais para
ticas para ovos e carnes. Queijos, fortes e sua- vomitar, liberando espaço para poder comer
ves, com ervas também são comuns, junto dos mais e mais. Em tempos mais antigos e som-
peixes em áreas onde a pesca é possível. Fru- brios, como resultado das revoltas da Era do
tos dos bosques também figuram com grande Sangue o termo boccaculo nasceu. Pela escassez
importância, como maçãs, pitangas, pêras, ta- de comida em muitos locais comia-se tudo dos
marindos, amoras, ameixas, nêsperas, sorvas, animais, da boca até o ânus, sem deixar nada
nozes, avelã e etc. Entretanto, frutas cítricas de fora. Nos tempos atuais, com o isolamento
são apreciadas, bem como produtos tropicais, de certos lugares, não é difícil imaginar este
com destaque para a canela e cana-de-açúcar, cenário se repetindo.
itens raros e caros. Os frutos são utilizados de

b 77 b
b Belregard b
Da necessidade nasce a inovação e muitos
pratos típicos desses povos nasceram da falta de
a
boa ou alguma comida. Desde compotas feitas Morrendo pela Boca
com cascas e frutas, até defumação de vísceras
Nobres costumam utilizar pratos de estanho e,
não comestíveis de outro modo. É impossível
com o passar do tempo, a oxidação do material
negar que a necessidade deixa uma marca na
pode torná-los venenosos. Copos para tomar
história da culinária de Belregard muito mais cerveja e vinho podem ser feitos do mesmo
profunda que o regalo. Outra curiosidade fica material e a mistura do álcool com óxido de es-
por conta dos cozinheiros, uma classe quase se- tanho pode gerar desmaios semelhantes a nar-
parada dos demais homens livres. Como a comi- colepsia, onde o enfermo parece estar morto e
da é assunto sério, bons cozinheiros podem go- pode acabar sendo enterrado vivo.

zar de relevantes regalias dentro da casa nobre


ou em uma comunidade mais humilde.
conhecidas como baladas românticas. Eles são
Música
muito bem vistos por nobres e reis de toda Bel-
Os tempos violentos que antecederam os dias regard, mas não foram poucos que encontraram
de hoje obrigaram os habitantes de Belregard a o fim na guilhotina após ridicularizar um nobre
viver em uma sociedade primitiva com extrema em uma de suas canções. Seguindo a mesma
falta de elegância ou requinte. Porém, com os linha, os menestréis ganham a vida através da
atuais tempos de paz, ainda que isolada, a si- poesia, da música e da recitação de versos, sen-
tuação deu sinais de mudar. O mundo foi criado do acompanhados sempre do alaúde, harpa, ou
enquanto o Único cantava e os astros dançavam outros instrumentos de cordas. Eles são famosos
em gozo. Seja entre os filhos do Único ou entre por sua retórica emocionada e muito requisita-
os selvagens da Horda, a música e a dança estão dos para imortalizar um determinado momento
impregnadas na cultura dos povos de forma in- em música ou poesia. Muitos poetas escrevem
trínseca. A música sempre foi parte importante pela inspiração vinda originalmente do coração,
das atividades religiosas da igreja, além disso, contando as histórias sem aumentar um pon-
muitos rituais pagãos também utilizam a música to, apenas embelezando-as. Muitos outros são
em seus cultos. Os ideais do amor cortês foram financiados, isso quando não são obrigados a
recentemente introduzidos e têm tomado todos imortalizar atos nem sempre tão verdadeiros,
os salões e praças destas terras. Por mais que nem sempre tão grandiosos.
o Tribunal tente erradicar danças antigas e tra-
dicionais embrenhadas na cultura popular, ale- Acompanhando os menestréis e os trovadores,
gando seu paganismo enrustido, é uma tarefa existem os saltimbancos, que nada mais são do
impossível: o povo simplesmente ama dançar ao que artistas itinerantes sem muito sucesso que,
som dos tambores. devido suas habilidades na dança, mágica, acro-
bacias, e malabarismo, auxiliam os menestréis e
Os trovadores são originalmente músicos os trovadores em suas apresentações ou tentam
viajantes e sua presença serve tanto como en- trilhar seus caminhos sozinhos. Devido sua arte
tretenimento como meio de atualizar-se sobre pouco valorizada, eles são em sua maioria con-
novidades de outras terras. Os temas das mú- siderados vagabundos e indignos de confiança.
sicas cantadas pelos trovadores tratam princi-
palmente do cavalheirismo e o amor cortês –

b 78 b
b A Vida em Belregard b
Arte
a
A arte de Belregard é restrita à produção de
O Óleo de Linun
pintura pietista (arte sacra) na forma de ma-
nuscritos iluminados, mosaicos e afrescos em A arte de Berto de Linun é assombrosa. Seus quadros, quase sempre
igrejas. Não existem muitas pinturas de retrato imensos retratando pessoas em seus tamanhos naturais, são de um de-
na arte. As cores ocupavam uma segunda im- talhamento que fascina e assusta. Apesar do talento, o pintor não faz
portância. Apesar disso, alguns entusiastas da- sucesso entre os nobres, que preferem o trabalho de mãos menos deta-
lanos, dedicados a gravuras, tem desenvolvido lhistas, que sabiamente encobrem seus defeitos e deformidades. Berto
usa uma técnica secreta de pintura a óleo tão fenomenal que suas obras
as chamadas xilogravuras que, aos poucos, tor-
parecem vivas. Este fato gerou caos em uma exibição nos salões de uma
nam-se populares até para a ilustração de Lita-
nobre família de Parlouma, os Orchiri. Não se sabe como tudo come-
nias. Apenas recentemente um novo tipo de arte çou, mas uma histeria generalizada tomou conta dos convidados para
tem fascinado os entendidos no assunto, trata- a exibição, quando um antepassado Orchiri, morto a séculos, apareceu
-se das gravuras livres. Obras que usam de uma caminhando pelo salão, supostamente saído de um quadro. Atualmente
perspectiva jamais imaginada dentro da história a situação de Berto é preocupante. Ele está sob a proteção sigilosa dos
da arte em Belregard. Um estilo que foi criado e Orchiri, sendo que eles o têm emprestado para fazer pinturas para ami-
gos próximos e interessados que têm cruzado Belregard para lhe pedir
continua sendo encabeçado por Berto de Linun.
uma pintura de um antepassado. O Tribunal mandou caçar cada uma de
Os novos artistas são seguidores do Puro Lazlo,
suas artes e o inferno que aguarda Berto parece estar só começando.
estes poucos revolucionários estão dispostos
a sair dessa ditame pietista e seguir por cami-
nhos mais ousados, caminhos guiados pela sua
própria vontade. Alguns estão encontrando a
notoriedade e já chamaram a atenção do Tribu-
nal, que adjetiva tal demonstração de arte como
profana, abusiva e diabólica. Independente de
como o Tribunal rotule, muitos homens de
Belregard têm gostado de tal ousadia.
Dessa forma, até mesmo pela infâ-
mia, a arte bertina se espalha.

Gravura estilo bertina, representando a


elegância do artesanato dalano ao seguir
as formas naturais do chifre do
cervo campestre.

b 79 b
b Belregard b
Entretenimento, Festivais e Feriados • O Dia da Ascensão: Ocorre no início do
ano. As festividades duram vários dias,
A monotonia e tédio da vida corriqueira é
normalmente arrastando-se pela primei-
aliviada por vários tipos de entretenimento, fes-
ra semana do ano. Festas são acompa-
tas e feriados. Os camponeses compartilhavam
nhadas de procissões religiosas, lembran-
uma vida em comum no trabalho dos campos,
do os grandes feitos que trouxeram a luz
nos deveres da aldeia e nos serviços da igreja,
aos homens. Crianças batizadas nessas
por isso, costumam estar unidos em datas co-
datas tendem a serem importantes para
memorativas. As festividades em sua maioria
a história do mundo. Grandes líderes reli-
são financiadas pelo senhor local, pelo clero ou
giosos costumam reafirmar seus votos de
em raros casos é feita do esforço comum dos
batismo nesta data.
camponeses. Um costume que poderia sur-
preender a muitos ainda é mantido em Belre- • A Vitória Sobre os Selvagens: Come-
gard, que é o da hospitalidade. Poucas pessoas morado ao longo do ano, em pequenas
fecham as portas de suas casas para viajantes, festividades que lembram a derrota dos
eles costumam ser bem recebidos e bem trata- belinaren e dwetar contra o avanço hu-
dos. Viajantes sempre têm histórias para contar mano. É um feriado “flutuante”, que
e isso pode garantir o entretenimento por si só, muitos monarcas realizam para ganhar
tirando camponeses e senhores de uma rotina o prestígio de seus súditos com um dia
possivelmente entediante. Por isso mesmo que o de comemorações. Em épocas especial-
crime contra o anfitrião é tratado de forma mui- mente críticas, ocorrem comemorações
to severa em todos os cantos do mundo. Aquele de vitória em todo mês. Áreas remotas fi-
que rouba ou prejudica a pessoa que lhe rece- cam agitadas nessa data, fazem com que
beu e tratou bem torna-se um pária, assim como os pagãos também se reúnam, mas para
aquele que rouba a casa de um anfitrião. lamber suas feridas e afiar as suas garras.

Costumes diferentes sobre recepção de hós- • A Divina Encarnação: Comemorado no


pedes mudam de um canto ao outro. Um vih irá dia 08 de tertium, é um feriado “univer-
oferecer sua mulher para o hóspedes. Um parlo sal” em Belregard. Não é raro que dure
irá exibir seus cavalos ao viajante e um dalano mais de um dia, apesar de não se estender
possivelmente irá beber até cair. como o Dia da Ascensão. Lembra-se da

Muitos dos feriados são herança dos selva- presença do Único e tem um cunho mais

gens, mesmo que o Tribunal tenha alterado mui- religioso, contando com o jejum dos de-

to dos seus ritos originais, mesmo que tenha sa- votos e prática de litanias. É o momento
Não tenho apreço cramentado muito de seus símbolos pagãos, em para pagar promessas e criar novas me-
aos jogos. Homens sua essência, as festas possuem cunho selvagem tas. Normalmente nessa data é celebrada
são tomados por o aniversário do grande rei, independente
e foi sobre coisas desse tipo que Lazlo lutou sua
uma fúria animal e da data do seu real nascimento, marcan-
mais parecem bes-
vida inteira para mostrar à igreja, mas esta pa-
do sua autoridade devida e facilitando as-
tas que gente quan- rece estar mais preocupada em não assustar e
similação dos homens ao longo das eras.
do lutam entre si. confrontar sua massa adoradora.
E ainda chamam • O Luto pelos Caídos: Celebração que
Dentre os feriados e festividades mais po-
isto de Lazer. ocorre em finais de decimus, dia 31,
pulares de Belregard, grande parte de cunho
religioso, podemos citar: para celebrar os mortos. Um dia de res-

b 80 b
b A Vida em Belregard b
guardo e jejum, quando se fica com a fa- Viagens e Comércio
mília e se conta boas histórias daqueles
Como já foi citado, o costume da hospita-
que partiram. A reclusão não é apenas mo-
lidade ainda é muito forte em Belregard, mas
tivada pelo louvor, mas também pelo medo.
esse parecer ser um dos poucos confortos que
Existe a crença de que neste dia o véu entre
uma pessoa poderá ter, se decidir encarar uma
o mundo dos vivos e dos mortos está mais
viagem sozinha. Os caminhos do mundo en-
fino. A Fímbria se torna uma com o mundo
contram-se obscurecidos aqueles que buscam
dos vivos. Viajantes de todos os cantos rela-
desbravá-los muitas vezes encontram a tênue
tam coisas abomináveis ao homem crente e
linha que separa o mundano do sobrenatural. Os
temeroso às forças da Sombra.
relatos de viajantes sobre os assombros da es-
• O Deicídio: Independente do ramo da fé trada inundam tabernas e salões. Claro que boa
que siga, todo devoto do Único celebra o parte destas histórias não passam de resultado
momento da morte de Deus. É simbolica- do medo dos homens perante o desconhecido Festas locais são comuns
mente comemorado no dia 08 de duode- na próxima curva de uma estrada abandonada. e por vezes remontam o
cimus e o dia da morte, exata, do Criador Carnis Valia em menor es-
Belregard, desde os dias idos do império, é cala. Em Varning há corte-
é um segredo guardado pela igreja de jos liderados pelo símbolo
pontilhada por torres e postos avançados. Pelo
Alec. Parece que é um fato ignorado para da família do patrono-bur-
os
os outros segmentos da fé e deve carregar
menos a cada um dia de cavalgada o viajante guês, já em Belghor tem
uma grande cerimô nia
pode encontrar uma velha ruína. O grande pro-
alguma importância, para ser ocultado religiosa inflamada..
blema é que boa parte delas contém morado- Estas festas menores
desta maneira. Textos de Lazlo e Bövrar
res recentes e não muito amistosos. Bandos de costumam ser vistas com
II sobre o Deicídio foram encontrados em .
famintos, ladrões, penitentes e mesmo feras desconfiança peça Igreja
confins de Belregard, a igreja executou
dos ermos tomam as estruturas como moradia,
verdadeiras cruzadas para tomar posse
quando vazias, a praga é sua residente, o que
de tais escritos e guardá-los de modo tão
exige cautela daqueles que buscam abrigo em
sigiloso que ninguém abaixo dos Orado-
tais locais.
res saberia sua localização.

• Carnis Valis: Festival que costuma ter Por conta desse sentimento de isolamento, o
início no fim de primum e segue até o trabalho de mensageiros é extremamente apre-
início de secundus, durando uma semana ciado por todos. Assim como o dos comercian-
facilmente. Esta festividade sofreu sérias tes que tentam levar seus produtos para outras
transformações ao longo dos séculos. castelanias e senhorios. Varning é exemplo dis-
Alguns apontam como uma tradicional so, tentando consolidar-se como a principal in-
celebração pagã de culto à carne, mas a vestidora na revitalização do comércio em Bel-
igreja do Único a transformou num lou- regard, rivalizando suas intenções com Vlakir,
vor à vida, onde se bebe e come-se sem tanto que tem pago boa quantia em dinheiro por
barreiras, exacerbando o que é básico mapas e catalogadores dispostos a enfrentar o
para qualquer um sobreviver. Crianças desconhecido. Como o comércio caiu em um es-
nascidas entre mes dez e onze costumam tado de abandono nos cantos mais afastados do
receber resistência para serem batizadas, mundo, o escambo surgiu como uma alternativa
os clérigos dizem que são imundas pois, viável para os camponeses e moradores de ci-
são concebidas pela promiscuidade, são dades menores, centradas em apenas um único
filhos do canis valis. senhor e suas terras.

b 81 b
b Belregard b
Aqueles que falsificam moedas, misturando outros
a metais baratos na composição costumam respon-
Comércio de Almas der severamente as autoridades locais, humilha-
ções e pagamento de multas são punições comuns.
Os strigori, uma etnia menor que parece ter
se ramificado dos parlos a muitos séculos, for- Interessante perceber que o lorde de um do-
mam grupos familiares de mercadores que se
mínio também viaja. É comum para senhores
unem nas chamadas cumpanias e vendem o
poderosos passar boa parte do ano em carava-
que podem em todos os cantos de Belregard.
Possuidores de certo misticismo em sua leitura
nas visitando seus vassalos. A corte de um rei é
de mãos e jogos de sorte e azar, os strigori não uma corte viajante e receber a figura central de
são bem vindos em qualquer lugar, mas a hipo- uma castelania é motivo de orgulho para qual-
crisia dessa relutância fica clara quando todos, quer lorde. Durante o inverno é comum que o rei
do camponês ao lorde, buscam pelos conselhos passe em sua própria morada, mas pode acon-
destes misteriosos senhores do destino. Dizem
tecer deste decidir residir nas terras de um de
que os strigori nem sempre aceitam dinheiro,
seus nobres, o que certamente trará grande re-
moedas de ouro, pelos serviços que são requisi-
tados. Muitas vezes o preço é maior, envolven-
verência ao escolhido, assim como uma extrema
do almas de culpados e inocentes. Diz-se que responsabilidade em atender as necessidades do
Domínico de Verezza, simplório camponês, vi- rei e sua corte pessoal durante todo o inverno,
veu cento e sete anos depois de ter dado o olho fora outros senhores que desejem partilhar do
de um ganancioso a uma velha strigori cega. contato durante os meses frios. É como diz o ve-
Apenas rumores sem sentido.
lho ditado: “O rei é como o fogo. Perto de mais
você se queima e longe demais você congela”.

As rotas de comércio que não se encontram Saúde


abandonadas são poucas, pode-se destacar ain- A vida de todos em Belregard está sujeita a
da o uso da Via Regis, que liga Belregard de Ras- doenças e enfermidades. A morte não é uma
tov a Belghor. Um caminho largo e pavimentado fantasia e sim uma realidade pela qual todos
de pedras, hoje danificado em muitos de seus já passaram. É muito provável que um campo-
trechos e desviado na área central, onde chega- nês ou nobre já tenham perdido entes queridos,
Dizem que há alguns va a Virka. Os rios também são muito usados
viventes que guardam principalmente crianças. Os cuidados em ge-
pequenos tesouros em suas para o comércio em cidades portuárias de mé- ral com a higiene existem, mas é verdade que
bocas, substituindo dentes dio porte. Os empórios ainda existem, concen- boa parte da população não se preocupa tanto
por metais preciosos. Não tração de mercadores em uma determinada área
é raro, por isso, que nobres quanto deveria. Sabão barato, usado para rou-
e comerciantes tenham em determinada época do ano. Normalmente pas, costuma ser feito de sebo de carneiro, mis-
seus dentes arrancados por são pequenos domínios, mas também podem se turado a urina velha, que ajuda a tirar manchas.
bandidos. Por isso que em armar próximos de grandes cidades.
Belregard os latrocínios são Nos que são usados pelas pessoas, é comum co-
chamados de ações de locar rosas ou calêndulas, para atribuir também
Todas as castelanias ainda praticam o comér-
bandidos tiradentes. um aroma que seja agradável. Para os dentes
cio com moedas, principalmente os resquícios
utilizam-se palitos de avelã, alcaçuz ou raiz de
do império, mas apenas em seus grandes cen-
alteia. São hastes fibrosas que podem ser usa-
tros. A economia concentra-se no uso de moe-
das para limpar a boca e os dentes. Junto com o
das de cobre que costumam ser pesadas por
sal e a sálvia, esfregados em um pano entre os
mercadores no momento da venda e da compra.
dentes, tiram as impurezas e perfumam.

b 82 b
b A Vida em Belregard b
Além dos cuidados básicos, existe também a É proibido, dentro dos ditames do Tribunal,
questão da beleza. Homens e mulheres procu- utilizar-se de seres humanos para estudo da me-
ram parecer mais atraentes para seus possíveis dicina. Muitos médicos e curandeiros recorrem a
parceiros de romance. Enquanto a literatura porcos para aperfeiçoar suas técnicas. Contra-
cortês desenha homens e mulheres perfeitos na riando a vontade do Tribunal, monges mendican-
imaginação do camponês e do nobre, são os cui- tes e estudioso uniram-se para destrinchar a vida
dados singelos do dia a dia que chegam para to- humana, doando-se em vida para que se corpo
dos. Alguns truques, para estes toques, são bem fosse estudado após a morte, um ato condená-
conhecidos; para colorir os lábios, costuma-se vel, praticado em segredo. O tratamento mais
utilizar açafrão; para escurecer os cílios, utiliza- comum utilizado pelos médicos e apotecários é Emplastro para dores nas
pernas: tome folhas de
-se o negro da fuligem; para embranquecer os o da sangria. Acredita-se que o corpo é contro- louro, broto de goiabeira e
dentes se utiliza a sálvia; e para aveludar a pele, lado por quatro fluidos corporais chamados hu- caroços de uva.
basta um regular uso de clara de ovo e vinagre. mores. Eles são a Bile Negra, Bile Amarela, Fleu-
Ferva em urina fres-
ma e o Sangue. O tratamento com sanguessugas ca da manhã e ate em
A principal causa subjacente das doenças se equilibra os humores, prevenindo doenças. panos virgens nas coxas ou
deve à falta de higiene. Os remédios são precá- canelas doloridas.
rios, sendo em sua maioria receitas caseiras que O Papel das Mulheres
Repelente de insetos: curta
na melhor das hipóteses, atrasam a morte por dejetos em sol à pino por
É importante abordar o assunto em particular,
algum tempo. As crenças dos médicos sobre as três dias, até secar.
devido a mudança do paradigma sofrido pela so-
causas das doenças são baseadas em antigos
ciedade no seu início, da fundação de Virka, até Moa as fezes e as fixe
ensinamentos que datam da Era das Revelações. em varas finas de bambu
os tempos atuais. Até o ano de 51 DA, o papel das
Sendo que muito desses médicos tratam os hu- com banha de porco.
mulheres na nascente sociedade de Belregard era
manos e animais de maneira semelhante.
secundário. Elas estavam fadadas a passar suas Acenda as varetas com lume
vidas zelando pela rotina diária do cuidar da casa, baixo. A fumaça feita por
Existe uma crença comum de que as doenças
tal artifício afastará insetos
do marido e da prole. A religiosidade, também
se espalham pelos ares. Os camponeses temem e pequenos infortúnios.
ainda muito nova para aqueles recém saídos de
os miasmas nocivos a sua saúde, de modo que
Belghor, pregava a submissão das mulheres como
alguns usam pequenas bolotas de ervas e espe-
um preceito claro em seus ditames. Morovan, o
ciarias como cordões, para que possam recorrer
Velho, primeiro profeta do Criador alertava sobre
a elas em caso de encontrar uma nuvem de fu-
os perigos contidos na mulher, que o homem sá-
maça ou qualquer odor suspeito no ar, fechando
bio manteria a sua como posse, não permitindo
as mãos em forma de concha, com as bolotas no
grandes liberdades, para que fosse uma cumpri-
centro para respirar um ar supostamente puro.
dora dos anseios de seu marido. Ele é muito claro
Nos períodos de peste, quando cidades inteiras
nos primeiros versículos, quando um de seus se-
encontram-se contaminadas, corajosos médicos
guidores pergunta sobre Lohanna, a jovem que
vestem-se de forma nada usual para combater
acompanhava, e cuidava, do velho sábio:
epidemias, vestindo longas e pesadas casacas
que cobrem todo o corpo e cobrindo o rosto com
“A mulher envenena. Não sabe do mal que
uma máscara que lembra a forma de um pássaro,
tem dentro de si, por isso sangra. Nem todo ru-
de modo que possam colocar essências purifi-
bro poderia limpá-la. Mantêm firme a mão em
cadoras na ponta do “bico”, preservando seu ar
sua conduta e não cai no encanto, não vacila no
puro. Costumam manter distância dos seus pa-
feitiço inocente.”
cientes, atendendo-os com longas colheres.
- Das palavras de Morovan, o Velho.

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b Belregard b
Essa situação demorou muito a mudar, sendo Naquela torre não estavam apenas mulheres
reconhecido o papel de igualdade das mulheres e crianças, mas também o bem valioso do rei,
apenas em 51 DA, quando Virka foi atacada por seu filho, aquele que viria ser Bövrar II. O jovem
uma força conjunta de Selvagens. De maneira também lutou ao lado das mulheres e foi certa-
covarde, as hordas atacaram uma torre, por trás mente esta experiência que o fez decretar, as-
do exército, onde estavam escondidas as mulhe- sim que coroado, a igualdade entre os gêneros,
res e crianças. Encurralados, não tiveram outra permitindo que mulheres também adentrassem
escolha. Sob a liderança de Angelina, uma sim- ordens de cavalaria e fossem mais ativas em
ples moradora da primeira cidade, o Levante dos hekklesias religiosas, tornando-se até mesmo
Indefesos teve início. Armando-se com o que fi- Oradoras. Com este édito também passou a se
cou na reserva dos soldados, rechaçaram as for- considerar os 14 anos como maioridade.
ças Selvagens, deixando poucos sobreviventes.
Daquele ponto em diante, a figura de Angelina
sempre foi reverenciada e respeitada. Enquan-
to viva, serviu pessoalmente como Escudo da
Casa de Bövrar II, mas voltou-se contra o rei
alguns anos depois. Os motivos que levaram a
deserção de Angelina são misteriosos, mas ela
nunca foi acusada como traidora. A atitude ser-
ve para mostrar a sabedoria da guerreira, que
percebeu a loucura cada vez mais latente no mo-
narca. A morte da santa é envolta em mistério,
mas muitos creem que ela ascendeu aos céus.
Sua canonização ocorreu apenas em 991 DA,
após a dos três Puros.

Gravura estilo bertina, representando


Minnie curtindo ervas no azeite de palma,
demonstrando a dedicação de quem os
pregoará nas feiras em Varning.

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b A Vida em Belregard b
Essa igualdade de gênero trazida por Ange- amor seria dividido entre a prole e o Criador.
Tenho certeza,
lina permitiu que as mulheres assumissem lu- A atitude gerou revolta em Virka, mas o Tribunal porém, que o que
gares de destaque da sociedade, colocando-as não recuou, aumentando a pressão contra a no- grafo e o que
em todas as suas camadas, da vassala presa à meação da Oradora que, por sua vez, angariava sempre grafei
terra até a senhora de um domínio real. Antes fiéis entre os humildes. representam a
do édito (que nunca foi contestado, a despeito verdade e apenas
de ter sido decretado por Bövrar II), as mulheres Não é comum que camponeses, servos, ergam a verdade pois
armas para lutar por algo que seu senhor não sigo os ritos dos
estavam sempre em uma desvantagem política
mandou diretamente e essa mobilização chama copistas. A oração
com relação aos casamentos, sendo utilizadas
a atenção. Vlakin I, governante do período, não pela iluminação de
como uma moeda de troca por seus familiares;
nossas mentes nos
não que esta lógica tenha sido abandonada, mas podia perder apoio do Tribunal e condenou Telma
mantém distantes
por traição e heresia. A Oradora foi queimada em
hoje o cônjuge de menor influência é que se sub- do flerte com a
mete ao de maior, independente do sexo. praça pública. O filho, Túlio, tornou-se Orador e deturpação daqui-
lutou a vida toda para canonizar a mãe, o que foi lo do que é e que
Apesar desta aceitação, a igreja, o Tribunal, feito em 1053 DA. precisa sê-lo.
nunca aceitou plenamente a participação das
mulheres dentro de seus círculos mais internos.
Na época das hekklesias, as mulheres podiam
alcançar o cargo de Oradoras e, eventualmente
a
fundar seu próprio séquito. A história é pontua- Verdade dos Livros, Mentira dos Homens
da de algumas que marcaram momentos e lo-
Alguns estudiosos da vulgata, e mesmo de
cais, como a hekklesia de Doráh, formada pela
textos mais antigos do criadorismo, percebem
Oradora Natalia que, próxima dos parlos, iniciou
sutis alterações na medida em que o material
a conversão para o criadorismo; apesar das re-
é copiado e recopiado. Uma dupla de estudio-
lações tensas entre as etnias naquele começo de
sos do mosteiro de São Paolo, em Birman, está
contato, a hekklesia de Doráh (palavra de ori- levantando questões perigosas. Juno começou
gem no parlo arcaico que significa “coração”) a questionar certas mudanças de um texto pra
foi grande responsável na educação dos jovens outro, apontando uma variação no sexo de
para a aceitação da fé. O cargo máximo das grandes pensadores do passado, logo ela cha-
igreja, de Eleito, nunca foi assumido por uma mou a atenção de Octávio para o mesmo e am-
mulher. É sabido que são os Oradores e Cardeais bos debruçaram sobre os mais antigos tomos.
que escolhem o Eleito, quando o atual morre, Eles suspeitam de uma forte campanha do Tri-
e esse controle ainda é exercido por muitos ho- bunal para o controle de sua informação e os

mens. Desse modo, é muito muito comum ver questionamentos chegam ao ponto de cogitar
uma verdade que abalaria a resistência da igreja
mulheres como freiras em irmandades isoladas,
para com as mulheres, a ideia de que um dos
fechadas, como a Congregação de Frika, em
Puros, possivelmente Alec, era mulher! O Cria-
Viha, com sua devoção exacerbada e mortifica-
dor ter escolhido uma companheira Pura é ab-
ção em ritual de flagelação.
solutamente plausível, mas abalaria o criadoris-
mo e sua resistência na aceitação das mesmas.
Em 1013 DA, a Oradora Telma por pouco não
tornou-se a primeira Eleita. Os Cardeais e Ora-
dores presentes na votação alegaram que Telma
não poderia assumir, já que tinha um filho, seu

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b Belregard b
Sexo primeira noite, onde a lua de mel de recém ca-
sados era passada na companhia do monarca.
A sexualidade é tabu na maior parte da socie-
Isso mostra importância do sexo no selamento
dade, mas nem por isso ela deixa de ser pratica-
de acordos tão importantes como o matrimônio.
da. Existem documentos de padres e sacerdotes,
A abstinência sexual é utilizados como um padrão de questionário para
fruto de muitos desdobra-
mentos culturais em Belre-
mulheres e homens em seus momentos de con-
fissão, que podem passar bem a ideia do quão
a
gard. Bufões cantam troças
variada é a vida sexual das pessoas simples, Sexualidade
acerca de casais que não
fazem sexo, há interditos ou mesmo abastadas. Questões como zoofilia,
Não existem justificativas em Belregard para
aos vihs ainda praticantes masturbação com auxílio de instrumentos cria-
que se repita um visão preconceituosa no que
dos cultos antigos acer-
dos para este propósito, incesto e adultério fa- diz respeito às sexualidades individuais. Por
ca da prática sexual em
certas configurações dos zem parte do questionário de confissão. O que isso ela não é tratada no verbete sobre sexo,
astros e fases do floreio mostra um sinal das tais práticas. Independente já que se têm por normal o envolvimento en-
das árvores. Aos criadoristas do quanto os sacerdotes tentem fazer homens e tre homens e mulheres. Não podemos no valer
não se pratica sexo na data mulheres sentirem-se culpados por seus desejos do discurso de “jogo verossímil” para replicar
do Deicídio, na data da comportamentos condenatórios quando este
e impulsos, o sexo é um elemento fundamental
morte de cada um dos 3 mesmo mundo supostamente baseado na rea-
Puros, por 3 meses após o da vida humana.
lidade, brinca com reinos imaginários e forças
parto e quando se contrai profanas inventadas. Em Belregard as relações
alguma doença que ataque A excitação, o prazer do gozo, é tão importante
homoafetivas e bissexuais são tidas como nor-
as pernas ou o peito. para o homem quanto para a mulher. Acredita-se mais e a única ressalva que precisa ser feita
A esta prática se atribui a que um filho sadio só irá nascer quando ambos quanto ao resultado destes relacionamentos é
relação entre o prazer e o
atingirem o seu ápice na relação. Isso gera um com relação a nobreza. A nobreza presa pelo
sopro da vida, associado ao
gemido de prazer do gozo. costume de taxar pessoas desequilibradas, ou sangue, presa pela herança, presa pela conti-
Sem os ares de plenos mesmo com alguma deficiência, como resultado nuidade do nome. Dessa forma, fica fácil ima-
pulmões o sexo não seria de um coito mal realizado. No caso das famílias
ginar que nobres irão preferir casar seus filhos
bem praticado. e filhas (afinal o casamento arranjado ainda é
mais pobres, que compartilham do mesmo quar-
o mais comum) com pessoas que poderão car-
to, da própria cama, não existe a preocupação da regar o nome adiante. Mas e quando isso não
privacidade para os momentos da relação entre for possível ou mesmo desejado? Você deve
os casais e em um mundo onde ter muitos filhos evitar? De forma alguma. Tome o “problema” e
é sinal de boa venturança, os casos de incesto o transforme em história. Um casal do mesmo
entre irmãos e irmãs é muito mais comum do que gênero poderia adotar uma criança para herdar
o seu nome e os seus bens, poderia ser uma
os prelados gostariam de admitir.
criança de origem humilde, um órfão, ou ainda
algum filho da nobreza menor. Um dos cônjuges
Nos cultos antigos, voltados à Horda e aos
poderia ainda ser parte do processo, novamen-
Selvagens, o sexo era um elemento quase que
te envolvendo a importância de um terceiro
central. É comum às heresias colocarem a se-
elemento que receberia destaque pro participar
xualidade como tema central de seus cultos e dessa continuidade. Pense nos desdobramen-
louvores. É como se o estado pleno do prazer, tos, na “ciranda” que você criaria com as casas
do gozo sem constrangimentos, fizesse de sua nobres tentando elencar seus filhos para serem
ligação com o além, o outro lado, mais forte. escolhidos como herdeiros.

Quando dos primeiros reinados humanos, onde


os cultos antigos ainda estavam entranhados no
pensamento de todos, era comum o costume da

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b A Vida em Belregard b
Crime e Castigo medindo apenas 8 metros quadrados, no qual
cerca de 10 a 20 prisioneiros poderiam ser en- Aqueles que sujam as mãos
Punição e Tortura - Não há carrascos fixados
carcerados ao mesmo tempo.
a um Patrono ou qualquer
O período violento e sedento de sangue que
cargo em torno da tortura
Belregard atravessa é motivo de barbárie e sen- Falando a grosso modo, todo homem tem seu
ou da violência legal. Estes
timentalismo cruel e impiedoso, induzindo os preço. Normalmente este preço não é pesado indivíduos sempre portam
em ouro, mas o suserano sabe bem quanto va- capazes e mantos para não
legisladores a utilizar os horrores das torturas
serem identificados pelos
lem seus súditos e quando um homem comete
e castigos para manter a lei e endireitar os pri- demais, sendo seu trabalho
sioneiros. Câmaras de tortura e masmorras são um crime contra seu semelhante, especialmente de executor ou torturador
o assassinato, ele precisa pagar por este preço. parte da corveia paga ao
partes importantes da arquitetura de muitos
senhor de terras. Não é
Normalmente traduzido na prisão, ou na humi-
castelos. Definitivamente, a utilização da tor- raro, porém, que alguns sejam
tura como forma de punição é um meio total- lhação pública amarrado ao tronco e vestindo a tão eficientes neste nefasto
máscara de ferro pesado do burro, ou na berlin- papel, que agradam os olhos
mente legítimo para fazer a justiça, para extrair
daqueles que testemunham o
confissões ou obter informações sobre um de- da levando golpes de vegetais podres, a vida de espetáculo cruento.
terminado crime. um homem tem seu valor. Só existe uma manei-
ra de fazer com que um pária perca esta condi-
Outro meio de punição muito utilizado nos ção, é quando ele se torna um Cabeça de Lobo.
tempos atuais é o vexame público, onde o alvo Um Cabeça de Lobo pode ser morto por qual-
poderá ser colocado em praça pública ou ser quer outro homem sem que existam consequên-
amarrado para ser alvo de tomates podres e até cias para isso, da mesma forma que um caçador
mesmo pedras. pode matar um lobo, mesmo em floresta real,
sem ser punido pelo crime. É o título máximo
As câmaras de tortura são localizadas nas
do ostracismo.
partes mais baixas dos castelos e suas entra-
das costumam ser sinuosas, projetadas para O próprio puro Alec pregava a abolição da
abafar os gritos de agonia de suas vítimas. tortura dentro da igreja, afirmando que tal bar-
Elas são frequentemente muito pequenas, bárie além de não ser mais cabível era herança
imunda, deixada pelos Selvagens. Torturadores
eram adeptos de infligir dor a outrem, arrancan-
do tiras de couro das costas ou mutilando meti-
culosamente membros de prisioneiros. Alec foi
além e escreveu várias éditos sobre questões de
guerra envolvendo a igreja, entre as principais
notas falava sobre tratamento minimamente de-
cente, permitir que o prisioneiro cultue seu falso
deus, não poderem ser usados como “escudos
humanos” dentre outras.
Gravura estilo bertina de Fergus,
representando o costume de
enforcar longe das cidades para
não macular o ambiente com
miasmas nocivos.

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b Belregard b
Esses éditos foram ignorados desde o Eleito vendo uma litania sacerdotal, onde os acusados
Octavio, que afirmou que “tais ações são lou- são advertidos sobre o castigo divino por terem
váveis, mas o tempo deste tipo de ação benevo- jurado falsamente. O Orador de Vlakir, Krigor,
lente ainda não chegou”. Existe uma profunda tem levantando uma reforma total neste siste-
discussão sobre o assunto entre ordens militares ma judicial absurdamente ultrapassado, em suas
e as ordens mendicantes. próprias palavras é afirmado “Os papéis que re-
gem nossas leis não acompanham a roda que
Justiça Feudal e a gira nossas vidas”.
Administração Judicial
O poder legal foi dado ao Tribunal como uma
Os Ordálios
herança quase divina e estabelecida por Bövrar As consequências de um falso juramento não
I, ele é a maior base legal conhecida, sendo que ocorreram apenas uma vez, assim, aos susera-
cada suserano tem a palavra final sobre suas ter- nos foi dado o direito de impor provações aos
ras. Este por sua vez não tem o intuito de aten- culpados na esperança de apelar ao Único, onde
der às exigências públicas, mas sim ser respon- Ele espiaria e perdoaria os erros cometidos. Os
sável pela manutenção do poder. Porém existe métodos mais usados eram obrigar o acusado
um fato importante, assim que o Tribunal fosse a caminhar descalço sobre brasa ardente, en-
iniciado, tanto o acusador quanto o acusado re- fiar a mão em uma chama, carregar um peda-
cebem o mesmo tratamento, sendo ambos pre- ço de ferro em brasa até uma dada distância,
sos, e o requerente, caso tenha perdido a causa, enfrentar uma besta portando uma arma pífia
A Querência - Há um sofrerá a mesma pena que o réu caso ele tivesse ou apenas os punhos, ou o mais cruel, banhar
antigo costume em torno
sido condenado. o acusado com água fervente, sendo que após
dos julgamentos. O con-
denado pode clamar pela os ordálios, caso o alvo cicatrizasse suas feri-
Querência. Seis crianças O Juramento das em três dias, ele era inocente, caso não o
são chamadas a emitir o
Mostrando sua brutalidade, o Tribunal não fizesse, ele era culpado. Um método arcaico de
parecer sobre o criminoso.
Caso a maioria o absolva, exige que o acusador prove sua acusação, o ônus julgamento consistia em lançar um homem que
é entendido que a pureza da prova está sobre o acusado, que deve livrar-se jurou a inocência em água fria, com a ideia de
do Único se revelou, mas
da acusação, se ele puder fazê-lo. Um juramen- que a mais pura água fria rejeitaria o criminoso.
em qualquer outro caso,
inclusive empate, a pena é to normalmente é a forma mais utilizada para Portanto, se o alvo flutuar ele é culpado, se ele
aumentada. Quase sempre provar a inocência, porém além do acusado, al- afundar é inocente e deve ser resgatado. Apesar
ela se transforma em pena
gumas testemunhas farão o “juramento de au- desses métodos, em alguns casos os suseranos
capital, ainda que Lazlitas
insistam que isso é uma xílio”, sendo feito em sua maioria por parentes ordenam que seus capatazes averiguem pistas
sandice. Há quem diga que ou amigos que juram acreditar na inocência do sobre a evidência do possível crime, dentro des-
este costume vem desde
réu. A quantidade desses “juramentos de auxí- se período muitos acusados preferem se confes-
os tempos das Crianças
Cinzentas, e outros associam lio” varia de acordo com a gravidade do crime e sar, evitando assim que seu senhor incorresse à
isto aos cultos antigos. ao posto do acusado. Este método é totalmente ira de Deus, submetendo-o a provações físicas.
ineficaz caso o acusado não tenha uma quan- Existe também a excomunhão, quando alguém
tidade satisfatória de pessoas que possam lhe comete sérios crimes contra a igreja. Esta pes-
auxiliar. Caso seja confirmada a culpa em um soa passa a ser um homem morto que caminha.
período futuro, todos aqueles que juraram se- Criadoristas não podem lhe dirigir a palavra, ele
rão acusados de cometer perjúrio ao tribunal. O se torna um pária abandonado. Muitos cometem
juramento é um processo muito solene, envol- o suicídio nestas condições, outros isolam-se.

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b A Vida em Belregard b
Com o apoio de um estudioso do Círculo de Origem da Cavalaria
Lazlo, o Orador Krigor de Vlakir escreveu um
Em 120 DA, enquanto a marcha dos belghos
tomo intitulado de “Sobre derrubada dos méto-
ainda dava cabo de erradicar a presença selva-
dos arcaicos de leis e reformulação cívil”. Neste
gem do mundo, mas com o gosto da vitória so-
tomo ele abomina todos esses métodos arcaicos
bre os belinaren, a ordem dos Cavaleiros Pardos
deixados pela Primeira Lei escrita por Bövrar I e
é criada. Pouco tempo antes da sagração destes
pelos Selvagens, dando espaço para uma lei ra-
soldados, os belghos haviam aprendido que nem
cional capaz de julgar com eficácia e justiça. Mas Seria lindo e até
todos os povos em seu caminho eram selvagens, ingênuo crer que esse
ele está bem longe de ser aceito pela maioria.
e isso incluía os parlos dos campos ao sul. Ini- processo fora
ciando um processo forte de conversão destes, sempre puro. Registros
O Duelo Judicial mostram traições, men-
tomando filhos e filhas para um processo de acul- tira, suborno e toda
A forma arcaica de julgamento que atraiu es- turamento, usando especialmente a religião, em sorte de pecado. Os
pecialmente aos nobres guerreiros foi o duelo pouco tempo os belghos mudaram completamen- cavaleiros são, afinal de
judicial - um julgamento por combate. O acusa- contas, meros homens.
te a mentalidade daqueles senhores dos cavalos,
dor e o acusado lutam uns com os outros, e o orgulhosos e belicosos. Conflitos existiram, mas
vencedor ganha o caso. Acredita-se que, pela o grupo que aceitou a superioridade dos grandes
graça imerecida do Criador, o inocente tem van- propagadores do criadorismo foram sagrados na
tagens sobrenaturais e assim é capaz de vencer hekklesia de Virka e Arturo recebeu o título de
a perjura em seu nome. Quando um dos adver- primeiro grão-mestre dos Cavaleiros Pardos, or-
sários não pode lutar, é permitido que outro dem criada por estes parlos convertidos.
campeão assuma o seu lugar. Embora o duelo
judicial tenha caído em desuso em boa parte Com o passar do tempo, ao longo das eras,
dos tribunais de Belregard, ele ainda continua muitas outras ordens de cavalaria surgiram. O
a ser empregado, em particular, como meio de mais comum é que fossem firmadas sob a ban-
solução de controvérsias que envolvem a honra deira de um rei, quase sempre como uma espécie
de um homem. de guarda real, a mais bem treinada e equipada
daquelas terras. Também poderiam ser forma-
A Cavalaria de Belregard das por vias de algum acontecimento de rele-
A cavalaria é uma força de importância dentro vância, como o nascimento de um primogênito,
deste cenário atual no qual se encontra o mundo um casamento que selara a paz e até mesmo a
isolado. Com senhores menores cercando suas vitória sobre um antigo inimigo. Foi durante a
terras e, muitas vezes, deixando de responder o Era do Sangue, período no qual o mundo se viu
ao poder real, homens armados e juramentados numa situação muito semelhante a de hoje, di-
surgem como uma necessidade para manter a vidido entre senhores gananciosos, com irmão
ordem em castelanias fragmentadas. Existem apunhalando irmão, que a cavalaria ganhou for-
dicotomias dentro da cavalaria, ao mesmo tem- ça, já que lordes, duques, barões e condes pas-
po que podem representar o máximo em capa- saram a sagrar os seus subalternos com o título
cidade guerreira, em força bruta de lordes e se- de nobreza para conseguir vantagens sobre os
nhores de terras, os cavaleiros também podem vizinhos gananciosos. A Belregard dos dias de
ser assim chamados por uma mera conveniên- hoje prepara terreno para algo semelhante ocor-
cia de títulos, sem qualquer reflexo com seus rer, com ordens surgindo diante da necessidade
objetivos originais. de proteção de nobres casas influentes.

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b Belregard b
O Tribunal do Supremo Ofício se aproximou cada um dos gestos acompanhado dos dizeres
cedo da cavalaria, como formavam uma força dos deveres, dos quatro votos da cavalaria. A
de elite, era preciso atrelar o poder dado aos obediência e a humildade sempre pesando nos
cavaleiros com o poder secular da fé, não de ombros, a castidade na consciência e a excelên-
modo a torná-los ainda mais poderosos e sim cia como obrigação ardida na face.
de colocar a eles um limite além daquele esta-
belecido pelos seus senhores. Se os deveres de Organização
um cavaleiro eram a obediência cega diante dos Depois do concílio de Lenora, as ordens de
ditames de seu suserano, passava a ser também cavalaria passaram a seguir uma mesma estru-
o de proteger o clero, a igreja, a fé. Tais práticas tura que imita, simula, o mundo ideal imaginado
se difundiram rapidamente, de modo que hoje pelos homens. As ordens sociais estão incluídas
em dia é impossível uma ordem de cavaleiros em toda a escala de poder, com representantes
ser reconhecida sem que exista algum patrono de reis, nobres, sacerdotes e trabalhadores que
religioso e isso foi firmado no concílio de Le- fazem funcionar toda a ordem, de modo que
nora, ocorrido em 992 DA, para firmar todo o não são apenas filhos abastados da nobreza que
processo mínimo necessário para se consagrar formam um grupo de cavaleiros.
uma ordem.
No topo da hierarquia interna está o Grão-
Sagração -mestre/Grã-mestra, geralmente a figura mais

Tornar-se cavaleiro é sonho para muitos. É velha e respeitada dentro da cavalaria local. Não

senso comum que qualquer nobre, incluindo ou- precisa nem mesmo ser ainda atuante nas con-
Um dos escribas que tros cavaleiros, podem sagrar um homem como tendas, desde que possa guiar a cavalaria com
conheci me disse que pudor, moral e firmeza. Junto desta figura está
viu um édito sobre os parte de uma ordem. Esta honraria tornaria o
povos e seus cavaleiros. candidato ligado ao suserano daquele que o sa- o Patriarca, geralmente bispo ou orador do Tri-
De acordo com ele a gra. Para homens livres pode ser uma digna atri- bunal, que garante as bençãos dos santos para
intenção era descobrir todas as espadas juramentadas daquela ordem.
quais grupos, locais e buição, mas para os que são vassalos de outrem,
tragédias formariam pode significar guerra. É comum que o futuro Abaixo, na ordem, ficam os artesãos, campone-
os melhores cavaleiros. cavaleiro passe alguns anos sob a tutela de um ses, que normalmente convivem com os cava-
Não creio que esse leiros em suas fortalezas centrais da organiza-
trabalho tivesse superior, como escudeiro, até receber o título
boas intenções. interino, mas não basta apenas uma troca de ção. Nenhum destes grupos chega a mudar sua

juramentos para se fazer cavaleiro, aquele que posição dentro da sociedade de Belregard, mas

sagra deve ser capaz de armar seu novo solda- internamente muitas variações podem ocorrer,

do, com armadura, armas, cavalo e as esporas como camponeses que se tornam grandes escu-

de ouro, algo elevado demais até mesmo para deiros e a história é repleta de jovens pobres que

nobres menores. vestiram armas de seus suseranos para lutar em


seu lugar, provando que o aço não desdenha dos
As esporas de ouro são o símbolo máximo do menos favorecidos.
cavaleiro, aquilo que o coloca em seu devido lu-
gar dentro da estrutura social. O ritual de inicia- Assim, funcionando quase como um paralelo

ção pode ser simples ou elaborado, a depender da sociedade, as ordens de cavalaria fazem va-

da riqueza de quem sagra. A visão mais comum ler seus juramentos. Tais juras devem ser feitas

é do futuro cavaleiro ajoelhado para receber a es- aos suseranos quanto aos líderes da ordem, com

pada nos ombros, na cabeça e um tapa no rosto, base em quatro fundamentos:

b 90 b
b A Vida em Belregard b
• Obedientia: O mais importante, o de obe- A Arte da Guerra
diência dos ditames de seus superiores. De todas as disputas possíveis a que mais
marca o território e o povo que ele vive é a
• Egestatem: O de pobreza. Por mais que
guerra. Belregard já experimentou momentos de
sejam nobres, cavaleiros não devem ser
conflito aberto entre senhores nobres e mesmo
reconhecidos por sua riqueza, devendo
entre o alto escalão da igreja. Passou por con-
ser capazes de viver com o básico. Ainda
flitos internos, que colocaram grandes cidades
que possuindo terras.
em xeque e contendas que separaram reinos no

• Castitati Coniugale: A castidade conjugal, passado. Na atual situação das castelanias, os

permitindo que os cavaleiros se casem, pre- ruídos ainda baixos da guerra voltam a ser ou-

ferencialmente dentro da própria ordem. vidos. A pele dos tambores de guerra começa a
ser esticada e o pó é retirado das trombetas, ar-
• Suma Perfectio: Herança do pensamento mas são afiadas calmamente e as forjas podem
belicoso de Leoric, onde o cavaleiro deve se aquecer a qualquer momento para voltar ao
atingir excelência em sua arte de guerra. incessante retinir dos martelos no aço. O mundo
parece saber que o conflito bate à porta.

b 91 b
b Belregard b
A Mobilização das Forças Muitos destes lordes que tiveram de segurar as
rédeas de seus domínios já estão mortos e é dever
Existe um tipo especial Não só os nobres em seus garbosos cavalos
de copista especializa- de seus filhos manter o legado, ou vingarem-se.
fazem parte do conflito. A própria cavalaria,
do em relatar períodos
como visto em raros momentos, armada com
de guerra. Eles têm a As Armas
capacidade de ameni- toda em aço reluzente, de espada, escudo e lan-
zar defeitos e acentuar ça, sobre o poderoso corcel, ainda é uma visão Para os belghos a arma dos homens, por ex-
qualidades daqueles que celência, é a espada. Apesar de nunca terem se
rara e boa parte das ordens de Belregard conta
travam tais embates.
com poucos desses exímios lutadores. Fora os importado com a beleza de suas ferramentas
A terra esconde os erros, nobres que se armam de cotas de malha e armas quando forjadas, os belghos são famosos por te-
o tempo esquece as dores rem conseguido garantir uma boa durabilidade
de qualidade, o contingente de infantaria de um
e a vida segue.
nobre é composto por seus vassalos. Campone- a suas armas feitas de aço, isso nos tempos da

ses, homens da terra, podem ser convocados a fundação de Virka, quando a atenção da huma-
“Em uma guerra espe- nidade estava voltada para a floresta, no comba-
ra-se que seus incita- qualquer momento, compondo grupos pouco,
dores sejam homens de ou nada, treinados no uso de lanças e espadas te contra os belinaren. As lâminas destas espa-
boa índole e centrados simples, ou da funda e arco e flecha. das costumam ser curtas e largas, com um bom
em suas tarefas. Mas peso redondo na ponta do punho. Num combate
essa não é a realidade.
Uma guerra normalmente Existem muitas formas de se convocar o exér- próximo, usam o cabo contra a face de seus ad-
ocorre da seguinte forma: cito de camponeses. Normalmente recebem versários, lhes esfacelando o nariz.
líderes sem amor ao algum treinamento prévio e costumam com-
povo se ufanam e caem Os parlos já foram famosos pelo seu uso da
em devaneios e luxurias, por as linhas de frente na batalha. Em Virka, a
almejando algo que não convocação costuma ser feita por um enviado lança, enquanto montados sobre seus corcéis
têm, envolvendo-se em do rei, que percorre os territórios e convoca os poderosos. O arremesso era muito comum como
contendas desnecessárias. modalidade de combate, eles não conheciam o
Eles incitam uma guer- estandartes exibindo um amarrado de flechas
ra onde os miseráveis negras; já em Parlouma, a convocação ocorre arco e a flecha, mas seus braços treinados eram
morrerão. Homens sensatos com presentes de bons cavalos, que devem ser capazes de fazer pequenas lanças preparadas
lutam essa guerra por atravessarem o peito de um inimigo desprote-
seus suseranos na espe- montados pelos campeões das famílias.
rança de salvar alguns, gido. Esta prática foi abandonada e parece que-
inclusive a si mesmos. Tropas regulares, especialmente treinadas rer voltar de forma ainda tímida, mas o uso da
Esses homens sensatos são para a defesa e avanço de um determinado se- lança continua comum, principalmente entre os
esquecidos pelo tempo.”
nhor poderoso também existem e podem ser cavaleiros de todas as ordens. Os Cavaleiros Par-
mantidas por longos períodos de tempo. Al- dos, de Parlouma, são conhecidos por sua extre-
guns bons exemplos de exércitos permanentes ma perícia no uso das armas de haste.
nas castelanias de Belregard são os Zayin de
Belghor, ordem existente desde os tempos em Preferindo lâminas leves e delgadas, os dala-

que a castelania vivia sob a vigília da linhagem nos investem na beleza de suas armas. Conheci-

profana, talvez ainda detentores de segredos dos por terem incorporado certos adornos e de-

obscuros desse tempo maldito. Devido ao con- talhes que valorizam as espadas, alguns acusam

texto atual das relações entre nobres, a primeira as mesmas de servirem apenas como enfeite,

coisa que um senhor se preocupou em fazer, mas a lâmina afiada de um sabre dalano é capaz

quando da queda do império, foi cercar-se de de fazer o acusador mudar de ideia. Dalanos pre-

forças capazes de defendê-lo de seus vizinhos zam espadas, adagas e punhais, jamais usando

que, certamente, desejavam suas terras tanto armas que consideram “bárbaras”, como man-

quanto ele desejava a de outros. guais, machados e clavas. Apesar disso, guar-

b 92 b
b A Vida em Belregard b
dam essa opinião para si mesmos, quando tem por fora e rígida por dentro, suportando a for-
os vihs lutando ao seu lado. ça e a tensão da corda ao ser puxada. As fle-
chas também variam de tamanho e formato, as
Os homens do norte, vihs em particular, pre- mais usada em confrontos são pontudas, com
ferem armas longas. Quando o ferro, e depois o uma pequena cabeça de ferro delgada e afiada.
aço, lhes foram apresentados, não tardou para As flechas de caça tem um formato triangular,
que imensos guerreiros portassem espadas dig- precisamente afiado nas três pontas e, por fim,
nas de seu porte. Empunhadas com ambas as existe a flecha de caça daqueles que vagam
mãos, estas montantes já fizeram carne e ossos pelos bosques reais e não
se partirem com a força de seu impacto. Apesar podem abater um animal
disso, as espadas são uma preferência dos igslavos, grande como um cervo.
como fruto do contato e da influência dos belghos.
Os vihs preferem o uso do machado, seja de
uma lâmina, duas ou qualquer variação possível.
O machado representa não só a força dos ho-
mens, como também remete a suas raízes, sim-
ples e humildes. O machado não é só uma arma,
como também é uma ferramenta.

De uma maneira geral, os


arcos são usados por todos os
grupos, em especial aqueles
homens livres que vagam pelas
áreas fora da jurisdição de deter-
minadas castelanias. Estes homens cos-
tumam ter mais força em Viha, onde com-
põem parte do exército, sendo soldados muito
bem pagos. A variedade dos arcos dentro de
Belregard fica por conta do material do qual ele
é feito. Um arco é uma arma prática, não servin-
do apenas para o combate, mas também para
a caça. Este último elemento configura algo de
perigoso, já que caçar numa floresta, quando
denominada território real, é garantir seu lugar
entre os fora da lei mais procurados.

A construção de um arco é uma ciência que Gravura estilo bertina de


Fergus, representando Louis,
exige cuidado e preparação. A escolha da ma- arqueiro de Lenora.
deira é fundamental e as mais populares em
Belregard são o carvalho, freixo, olmo e, es-
pecialmente, teixo. Este último tem uma com-
posição que favorece seu uso na fabricação do
arco. É uma madeira de duas camadas, flexível

b 93 b
b Belregard b
Estas flechas têm uma cabeça robusta e ape- mesmo que não se saiba usá-la, mas esta prática
nas uma ponta pequena de ferro, o bastante deve ser temperada com bom senso.
para abater coelhos, por exemplo.
O ápice desta corrida armamentista dentro de
A armadura mais usada entre os que podem Belregard é o cavaleiro. Seja de qualquer ordem
pagar é a malha. O objetivo da malha, feita da que ele venha, a um cavaleiro encarna o máximo
união de dezenas de anéis rebitados individual- de aparatos bélicos em sua imagem. Montado
mente, é amortecer o impacto dos golpes. Ape- em um cavalo poderoso, uma verdadeira mura-
nas ela não é o bastante para isso, então é co- lha de músculos, estes homens vestem suas ma-
mum que cavaleiros vistam uma grossa camada lhas finamente construídas e ajustadas, além do
de tecido por baixo da malha, reduzindo a dor imponente escudo de madeira e a lança balan-
sentida pelo choque da arma. Espadas não são ceada para o seu uso sobre o corcel. É o tipo de
capazes de cortar a malha, mas o impacto pode investimento que chega a ser hereditário, com
partir ossos. Flechas finas podem atravessar os cavaleiros usando túnicas de malha que perten-
anéis e é por conta dessa valorização do impac- ceram a seus avôs.
to, que as clavas, maças, manguais e martelos
são também importantes no combate singular. O Conflito
Dizem que um antigo
barão do sul de Da- Apenas recentemente o uso de armaduras de A guerra não é rápida. Ela é lenta e custa caro.
lanor mandou que uma placas pesadas tem sido percebido no “teatro de Seja no cerco ou na luta campal, o conflito aber-
armadura perfeita fosse
feita para ele. Por cento guerra” em Belregard. Estas armaduras são mui- to e declarado leva muito mais do que vidas.
e noventa e três dias o to caras, mas certamente trazem mais proteção. Mesmo vitoriosos, senhores e lordes podem ver-
ferreiro trabalhou sem As flechas costumam ser desviadas de peitorais
cessar. Ela deveria ser tão -se falidos quando termina uma guerra, diante
bela quanto as gravuras de aço maciço e a única arma que parece ser ca- de todo o gasto que tiveram. Não é fácil iniciar
que ilustram as armas paz de penetrar tais peitorais é a besta. todo o processo do conflito. Normalmente se
de Leoric. Depois de
terminada, antes mes- inicia com uma declaração, que não ocorre an-
Adquirir um equipamento não é simples
mo de vesti-la, o barão tes de conversas com conselheiros, geralmente
mandou que quebrassem como conseguir alimento. Espadas, machados e
membros da igreja, que podem tentar resolver a
as falanges dos dedos do escudos não ficam pendurados em oficinas e
ferreiro para que ele não ferrarias, são objetos feitos sob encomenda. situação entre sí, mas nobres costumam ter a ca-
pudesse fazer uma obra beça dura e por isso muitos ignoram o conselho
que superasse aquela. Por Uma túnica completa de malha precisa ser fei-
fim o barão não tinha ta com as medidas do homem que irá usá-la, dos homens santos, lançando-se no conflito por
nada do porte físico de para que os braços fiquem com bom movimen- tolos motivos. As convocações dos vassalos são
Leoric. A armadura não então feitas e todos devem apresentar-se com
serviu em sua forma to. São equipamentos caros, não é qualquer um
bufônica, terminando como que será visto com a mais simples das espadas seus cavaleiros e homens de armas dispostos
fruto de saque. pelas ruas. Existe o fator social envolvido, se o para o combate. O clima é importante quando
portador das armas não é um soldado reconhe- se fala de guerra. Ninguém batalha no inverno.
cido, um guarda, um nobre, ou qualquer um que Normalmente as guerras são declaradas nos
tenha o aval de portar tais objetos, este homem meses mais frios do ano, para que a mobiliza-
tornar-se-ia alvo de evidente suspeita. Andar ção ocorra ainda na primavera e a marcha esteja
por uma aldeia ou corte vestindo armadura e iniciada até o verão. Quando existe proximidade
portando armas é o mesmo que dizer que está entre as partes em desacordo, esse tempo pode
lá para causar problemas. Carregar uma espa- ser curto, naturalmente.
da junto a cintura é elegante dentro da corte,

b 94 b
b A Vida em Belregard b
A logística da guerra é fundamental para o O Além (O Não Natural) Eu poderia afirmar que
seu funcionamento. Um senhor não pode mar- Uma das poucas certezas que os homens nove entre dez ritos
char com seus cavaleiros e soldados contando modernos que envolvem
podem ter é a certeza do caminhar inexorável
nascimento, casamento,
com caça e coleta para sobreviver. Desse modo, rumo a morte. Para muitos, principalmente os velhice e morte estão
tolo o homem que pensa na ida para a batalha que compartilham a fé dos cultos antigos, a atrelados ao tempo da
como algo glorioso. Uma coluna de agregados, selvageria. Possuímos mais
morte nada mais é um retorno para um todo,
trabalhadores, servos ligados a seus senhores, relação com as crianças
para a natureza. Os povos pagãos costumam ce- cinzentas e com os sel-
escudeiros e mesmo familiares seguem as tro- vagens do que gostaría-
lebrar seus funerais de forma discreta, com ce-
pas, fazendo parte do acampamento, cuidado mos de admitir. Isso só
lebrações que não lembram o luto dos religiosos,
da cozinha e participando da ordem geral no faz afirmar ainda mais
mas que comemoram a partida daquele que caiu a minha fé que não
cenário de guerra. Existe uma etiqueta entre os
para a próxima vida junto de seus ancestrais, sei sobre as coisas que
grandes cavaleiros que é a do não ataque aos estão sobre a terra e
sendo novamente um com a terra. Muitos tipos
“agregados”, mas acidentes já aconteceram ao sob o céu.
de ritos diferentes são praticados, como no caso
longo da história. De um modo geral, é sabido
de alguns clãs vihs, que colocam seus mortos
que o mundo vive sob a “Paz de Deus” e que
em barcos simples de madeira e deixam correr
conflitos abertos entre as casas nobres preci-
pelo rio ou pelo mar aberto, rumo ao outro mun-
sam ser aprovados pelo Tribunal, mas devido
aos conflitos entre a igreja e suas representantes do. Ou os parlos que cremam itens de apreço,

em outras castelanias, parecem ir minando o ou até mesmo a própria vítima, e guardam as

poder centralizado de Birman. cinzas em um lugar de destaque dentro da casa.

Prisioneiros A vida segue um ritmo difícil para a maior par-


te das pessoas e as lutas diárias não existem ape-
Um costume extremamente comum, e res-
nas no sentido do trabalho, mas também do espí-
peitado, é o dos prisioneiros de guerra. Quan-
rito. O homem simples tem por aliados o Criador,
to maior o cargo de um homem dentro da
seus Angellus e a Igreja, mas também tem seus
hierarquia local, mais valioso ele é para a cap-
inimigos, a Sombra, os Ímpios e as Provações.
tura. Seus captores podem pedir resgate pelo
nobre, pelo cavaleiro, até mesmo sacerdote, Quando o Pai acendeu a chama divina den-
enriquecendo facilmente. O que impede que os tro de cada homem e mulher, a Sombra colocou
combates massivos se desenvolvam sem iniciar
também sua escuridão, por isso existe um te-
com todos desejando garantir prisioneiros é a
mor absurdo da morte repentina, que vem rápi-
presença das auriflamas nos exércitos, enquan-
da e certeira, não dando tempo para o acerto de
to uma determinada bandeira estiver erguida, os
contas. Afinal, quando o fim vem calmo, pela
prisioneiros são proibidos. Grandes soldados as
idade avançada ou mesmo por uma doença que
mantém de pé durante todo o início da batalha,
acompanha o enfermo por muito tempo, o ho-
para garantir a efetividade de seus exércitos.
mem pode debitar suas falhas para com Deus e
Quando são baixadas, a captura é permitida.
seus próximos. Mas o plano da Sombra é ceifar a
O costume dos prisioneiros de guerra costuma
vida dos homens, antes que este se aproxime do
salvaguardar a vida nobre, já que muitos se ren-
Único e é tarefa dos Angellus proteger os igno-
dem, preferindo a prisão que a possibilidade da
rantes, dando oportunidade para que a verdade
morte. O cativeiro para estes homens e mulhe-
res costuma ser brando, a depender das posses os alcance antes do suspiro final.

de seus captores. Grupos de mercenários cos-


tumam capturar para enriquecer rapidamente.

b 95 b
b Belregard b
Desde que o criadorismo tomou conta do A Abóbada Celeste
mundo, as relações dos homens com a mor- À Abóbada Celeste estão destinadas as almas
te modificaram-se. Hoje existe um sentimento daqueles que viveram nas virtudes do Criador,
muito maior de perda por aqueles que partem. que buscaram pelas boas obras e ganharam o
A desolação só aumenta quando os sacerdotes mundo com ações corretas. Não é preciso dizer
dizem que os bons e os maus são separados no que a idealização dos homens santos para aque-
além, cada um indo para o lugar onde merece les que merecem o paraíso parece limitar a um
estar. Os homens, dessa maneira, vivem com número muito pequeno os candidatos. As repre-
medo. Vigiados por olhos invisíveis, oscilando sentações da Abóbada Celeste sempre mostram
sempre entre a virtude e o pecado. agrados aos cinco sentidos dos bons filhos de
Deus, doces frutas para a boca, o canto dos pás-
saros para os ouvidos, a delicada seda para os
dedos, os agradáveis campos para os olhos e o
Gravura estilo bertina de aroma das flores para o nariz.
Fergus, representando uma
estátua de Lazlo repleta de
oferendas com desejos de O paraíso é partilhado por todos aqueles que
boa sorte.
cuidaram as boas obras em vida, mas mesmo
assim parece existir uma divisão. Como foi es-
crito por São Rastramus em 423 DA, existem
três céus diferentes. Este homem santo foi ar-
rebatado e conheceu a Abóbada Celeste, tendo
escrevido sobre a experiência em seguida. Seus
relatos são extremamente confusos e até mesmo
contraditórios. Ele alegava lembrar-se de pouco
em detalhes, a imagens surgiam na memória
envolvidas por uma névoa de confusão, a única
coisa que permanecia idêntica depois da saída
do paraíso era a paz de espírito e corpo. O fim
das dores e dos tormentos. Rastramus morreu
em paz, deitado em sua cela de monge e com
um tranquilo sorriso nos lábios, depois de es-
crever suas memórias. Pouco do que ele relatou
entrou no cânone da igreja, mas as bulas de sua
não condenação da visão são o suficiente para
lhe dar credibilidade.

Um dos mais sábios seguidores de Lazlo acre-


dita que os 3 céus que Rastramus visitou foram:
A grande Abobada Celeste, lar do Único e dos
Angellus e os dois céus menores, criados pelos
dwetar e belinarem. A força do culto dessas duas
raças selvagens ecoaram no mundo espiritual e
“arrastou” seus paraísos celestes da Fímbria para
o plano superior, o plano supremo. Obviamente,
ele é tido como um herege sem precedentes.

b 96 b
b A Vida em Belregard b
A Alcova Profana contro com a Sombra. Sob sussurros é dito que
em uma de suas parte é falado que um humano
À Alcova Profana vão todos aquele que vive-
vil, entregue às artimanhas da Sombra não para
ram no pecado, praticando abertamente das
sofrer na Alcova, ao contrário, será recebido
Provações e compactuando com a Sombra ou
com honras para servir em seu exército. Tais
louvando deuses falsos. O que existe neste mun-
textos são tidos como profanos e sua consulta é
do de sombras é discutível. Sacerdotes falam
extremamente proibida.
sobre punições dantescas de dor e sofrimento
eterno, mas as heresias clamam pelo oposto.
A Fímbria
Punições trazem a ideia de que a Sombra está
O que realmente fascina nesta trindade de
submissa ao Criador, recebendo os pecadores
destinos do pós vida é a Fímbria. A Fímbria é
em seu reino, mas isso é dito à boca miúda. Mui-
destinada ao homem comum, que viveu uma
tos acreditam que a Alcova é uma terra de fogo
vida oscilando entre bem e mal, sendo aquilo
e enxofre, onde a eternidade é sua única com-
que o Criador esperava que ele fosse, dono de
panheira além da dor. Outros narram paisagens
si mesmo. Dessa forma, a Fímbria surge como
gélidas de pensamentos e sonhos congelados e
um mundo cinzento, à imagem e semelhança do
existem ainda os que falam dos tormentos par-
nosso, onde todos têm a chance de purgarem-se
ticulares e assim na Alcova Profana você encara
de suas falhas, ou abraçar as causas profanas, e
seus erros e medos, uma experiência que não
decidir seu destino. Nesse caminho de purifica-
pode ser compartilhada.
ção, o falecido conta com os vivos, através de
suas orações.
Visões de inferno são comuns dentro do Tribu-
nal. Normalmente as pinturas de tormentos são
Um forte exemplo da relevância da Fímbria
relacionados a um dos Ímpios da Sombra. O con- no imaginário é o túmulo de São Pierre. No ano
denado passa a sofrer nas garras destes arau- 1000 DA, durante a Era do Sangue, um cavalei-
tos sombrios, pagando pela Provação a qual se ro marcou seu nome entre os povos de Dalanor.
entregaram em vida. Aos gulosos é reservada a Pierre le Noir fez frente às tentativas de Igslav
eterna ceia onde se come a carne e o dejeto. Aos invadir seu território. Quando teve ajuda ofere- A fímbria e as orlas são
irados o ódio rasga por dentro da pele. Aos inve- assuntos de discussão
cida por aliados vihs, não aceitou, chegando a
entre sábios. Parece que
josos fica a agonia descontente de querer mais, devolver a cabeça do mensageiro ao rei de Viha, tais temas lançam uma
de boca sangrenta pelo rilhar dos dentes. Aos com um bilhete deixando claro o desprezo pela infinidade de tons de
luxuriosos fica o êxtase do gozo nunca alcança- ajuda. Uma figura contraditória, mas que espa- cinza sobre algo que era
claramente preto e branco.
do, mas sempre próximo. Por fim, aos avarentos lhou fervor pelos combatentes que resistiram a A existência de uma
fica o peso do que se juntou e não partilhou, a um cerco na cidade de Lenoira. Foi condenado membrana conjunta ligando
arrebentar os joelhos. pela igreja, mas absolvido quando em seu sacri- tudo aquilo que cremos
sobre o mundo espiritual
fício final selou a passagem por onde as forças
soa confuso e nos coloca
Anos após a morte de São Rastramus, tex- de Igslav invadiriam Dalanor. Enterrado como no devido lugar:
tos estranhos foram encontrados próximos sua herói, mas ainda condenado pelas atrocidades
velha morada em Virka, relatos dizem que os da guerra, seu corpo se encontra em uma singe- “Apenas meros grãos nessa
infinidade de poder e
pergaminhos estavam enrolados em couro ne- la capela em Lenoira, sob a escultura em pedra conhecimento.”
gro umedecido de piche e cheirava a enxofre. A negra de seu corpo. Os Oradores da época dis-
pouca informação que se tem relata que o tex- seram que a alma de Pierre era pesada e só com
to retratava uma viagem à Alcova, descrevendo muita oração ele alcançaria a Abóbada Celeste.
seus anéis de danação, visão dos Ímpios e o en- Há séculos seu corpo é velado.

b 97 b
b Belregard b
cernir onde começa e onde acabam tais atos, o
a próprio Tribunal desistiu de tentar separar tais
O Cão de Tarrasses ritos do meio do povo, provando ser uma tarefa
miticamente impossível. Assim sendo, a feitiça-
O cachorro é companheiro do homem a muito
ria selvagem é sutil, misturada com crenças ecle-
tempo. Antes mesmo da revelação de Morovan,
siásticas, sendo vistas quase como inofensivas.
as Crianças Cinzentas contavam com o apoio
de cães na caça e na proteção de suas famílias.
Na outra face da moeda existe a magia Bövrá-
Curiosa é a relação destes animais com o ser-
viço da morte. É crença antiga que os agentes
tica, idealizada, categorizada e transcrita pelo
do ciclo de vida e morte são os cães de Tar- homem mais sábio que já andou por Belregard,
rasses. Este nome surge em culturas diferentes, Bövrar II. Este homem goza de notória infâmia
com uma sonoridade ligeiramente alterada pelo nos dias de hoje, mas seu legado é perpétuo nos
idioma local, mas sempre fazendo referência a estudos mais aprofundados do que pode ser
uma cidade, fortaleza, fora de paraísos e in-
compreendido pelo que nos foi deixado atra-
fernos, onde vivem os seres que observam os
vés do Criador. Bövrar II não estava mais vivo
caminhos do mundo. Quando uma alma deve
ser colhida, são os cães de Tarrasses que vem
quando o Único desceu da Abóbada e alguns
buscá-la. Por mais que não seja um detalha- lazlitas mais coragosos chegam a conjecturar
mento compartilhado, é algo tão enraizado um encontro de ambos, onde o Pai não trataria
que inúmeros cemitérios possuem estátuas de este filho com desgosto, mas com alívio, por ter
cães vigilantes. Curiosamente, muitos relatos sido o que chegou mais próximo da verdade. Bö-
de morte, assistida por sacerdotes, pontuam
vrar II não tinha pudores quanto ao que usava
sobre o som de rosnados, uivos, ou o farejar pe-
para atingir seus objetivos, misturando-se nas
las frestas da porta quando um moribundo se
entrega a morte.
heresias selvagens sem qualquer medo e através
destes estudos, disse ter compreendido a verda-
deira natureza do Criador.
Assim como há a Abobada e a Alcova, a Fím-
bria é um plano espiritual paralelo ao terreno. Bövrar viu o Único de três formas:

Enquanto um está acima e o outro abaixo, a


• Único Histórico - seguindo o fio da his-
Fímbria age como uma liga que une todos esses
tórias e os acontecimentos táteis.
locais de residência do espírito. Crê-se que den-
tro da Fímbria existem as Orlas, locais com ca- • Único Mítico - seguindo o fio legendário.
racterísticas e próprios seres nativos. Possivel-
mente eles foram formados ao longo da criação • Único Místico - seguindo o fio do
do mundo devido a crença multifacetada dos vá- caminho interno.
rios povos que caminharam sobre Belregard. O
As três formas agem para a compreensão total
pouco que se conhece sobre as Orlas é baseado
da figura grandiosa do Criador, mas a terceira
em livros primordiais, arcaicos e com base não
em especial foi onde Bövrar II dedicou sua vida.
religiosa, mas quase científica.
Alguns discípulos de Lazlo intitularam este tipo
A Magia e o Misticismo de conhecimento como Adoração Esotérica. Os
cultos que seguem os ensinamentos de Bövrar II
Os selvagens deixaram seu misticismo enrai-
são divididos em Fraternitatis e estão em todos
zado à cultura dos homens civilizados de modo
os locais.
tão profundo e intrínseco que é impossível dis-

b 98 b
b A Vida em Belregard b
A Adoração Esotérica é um conjunto de en-
sinamentos conhecidos como a parte mais pro-
a
fundamente mística da adoração ao Único. His- O Bando Arlequim
toricamente eles são baseados não nos textos
Durante a celebração do Luto pelos Caídos,
sacros da Vulgata, mas nos textos que Bövrar II
onde famílias se reúnem na segurança de suas
detalhou em seus inúmeros tomos.
casas para celebrar a memória dos que já par-
tiram, o que separa o mundo dos vivos e dos
Tal prática firma seu alicerce na crença da
mortos se enfraquecesse. É quando o Bando
reencarnação e evolucionismo das almas. Não Arlequim vaga pelas estradas de Belregard.
há proselitismo religioso dentro da adoração Famosos por suas festividades macabras, o
esotérica. Os mestres ensinam aos novos que bando liderado pelo bobo da corte inicia o cor-
todas as religiões são provenientes de Deus, que tejo que segue por toda a madrugada, sendo
as teria apresentado conforme as necessidades seguido por toda sorte de condenados ainda
confinada à Fímbria. A visão do bando poderia
espirituais e o nível de evolução de cada povo.
levar qualquer homem são à loucura. Esta len-
Também não há impedimentos àqueles que de-
da gerou procissões semelhantes em algumas
sejarem estudar sua doutrina, desde que o fa- cidades, onde bandos saem pelas madrugadas,
çam por livre e espontânea vontade. geralmente guiados por alguém fantasiado de
bobo e seguido por condenados, parando nas
Seria necessário muito espaço para destrin- casas para pedir por orações ou o que quer
char sobre a forma como tal filosofia pensa e que seja possível. Muitos dizem que o Bando
age, mas o que é preciso afirmar é que o Tri- de Arlequim consegue fazer um homem visi-
bunal repudia e abomina qualquer ação desta tar a Fímbria nessa data, permitindo a um ser

facção pseudo religiosa. vivo ver através dos véus da vida e da morte.
Em tempos passados, aqueles escolhidos para
encenar a procissão do bando, eram bandidos
e criminosos, sendo que estes seriam mortos
pela população ao amanhecer, como sinal de
repúdio do homem à morte.

is
cê fo i inso len te, bu rro e res sequido muitas vezes. Muito ma
Vo obra
es do que pod eri a sup ort ar, mesmo assim, chegou ao fim da
vez
i um bom trabalho.
e sou obrigado a admitir que fo
a
ver am mu ito s err os, con tra dições e principalmente, influenci
Sim, hou vi-
onselho que se retire de suas ati
da Sombra sobre sua razão. Ac írito.
e dedique-se a enobrecer o esp
dades por pelo menos seis meses
minta de bom alimento.
Alimente sua alma, pois está fa

ido e lhe recomendar ao nobre


Gostaria de atender-lhe o ped
em Birman, mas não posso
trabalho de copista do Tribunal
fazê-lo. Não está apto.

Tullus

b 99 b
b Belregard b

O Verdadeiro Alicerce
Na sala pequena de uma casa singela, um trabalhador é inquirido por
um homem de negro. O ar é quente e o cheiro de carne assada entra pela
janela aberta. Um homem de frente para o outro. Um homem apreensivo,
um homem relaxado. Um chapéu de palha apertado em dedos grossos,
um sorriso tranquilo, sardônico, no canto de uma boca.

Minha família não poderia estar mais feliz. Chegamos à Vlakir depois
de ouvir as histórias sobre o Demiurgo e suas obras, seus milagres. Como
mestre pedreiro, consegui prestar meus serviços ao próprio Templo, ini-
ciando as obras de uma nova capela no extremo leste da castelania. O
tempo aqui é ótimo, vivemos em uma casa grande, que também serve de
oficina para o nosso trabalho do dia a dia. A esposa e as crianças também
parecem gostar, especialmente Lelia. A pequena tomou um gosto estra-
nho pelas romãs que nascem aqui. Ela diz que são pequenos vermes gor-
dos, por causa da extremidade do fruto, como uma “boquinha dentada”,
do jeito que ela faz, imitando a coisa de um jeito adorável.
b 100 b
b O Conto dos Anos b
Mas o meu dia aqui é bem simples. Acordo cedo, preparo um bom
desjejum com o leite de cabra e espero os outros serventes chegarem.
Como mestre pedreiro, meu trabalho é supervisionar toda a obra, desde
o corte da madeira até o encaixe das pedras. Gosto de cinzelar os blocos
pessoalmente, quase não sinto o revide da rocha quando bato com os
pregos, tão grossas são minhas palmas. Por volta do meio do dia, faze-
mos uma pausa para comer e Lelia sempre me trás uma romã. Come-
mos juntos, cuspindo as sementes em Maltus, um dos serventes. Um
dia desses ela me disse “Papai, não engula o caroço, é um vermezinho
que vai nascer dentro do senhor…” Achei graça, claro, bagunçando seu
cabelo enquanto descascava a coisa dentro da boca.
De fato, nosso trabalho seguia por todo o dia, normalmente, mas a
noite eu sabia que algumas pessoas vinham inspecionar. Eram homens
da igreja, tenho certeza, vestidos em negro, carregando tochas. Certa
noite peguei meu Mitia espiando pela janela, mas o censurei, claro. O
garoto é impressionável, falou em ter visto uma cabra e um porco. Um
absurdo. Animais são barulhentos e nós sempre dormimos numa paz
silenciosa aqui.
Não vou negar que, pensando agora, já encontrei montes de terra re-
mexidas no campo de trabalho, manchas escuras, claro, mas não faço
caso disso, cuido do meu trabalho, senhor.

De um lado, muita fala apressada, sorrisos nervosos e dedos aperta-


dos de nós brancos. Do outro uma frieza calma, analítica que só se fez
pronunciar depois de um tempo que pareceu maior do que realmente
fora. Quando a boca abriu, foi com um estalo seco. Veio o inspirar pro-
fundo e a instrução.
“O teu alicerce é bom, Basko. Mas como casa de nosso Senhor, o De-
miurgo demanda outros preparos. Faz muito bem em deixar Aqueles
que Vem com o Escuro trabalharem sozinhos. Amanhã fará tua peque-
na Lelia engolir os caroços de romã e à noite, quando Mitia denunciar
a vinda Deles, deixe a menina sair. Tua noite de sono continuará sendo
licenciosa e tua vida próspera. Pela graça do Demiurgo”.

b 101 b
b TOMO II b

TRACTATUS TERRAE
DAS TERRAS DE DEUS
PROOEMIUM
10 de Primum de 1350 anos Depois da Ascenção dos Homens em Louvor ao Criador
Que possam estas palavras encontrar a ti, ó Eleito, em boa saúde.
Os esforços para constatar a atual situação das castelanias de Belregard continua
custando muito de nossa ordem. Não entenda isso como um voto de desistência, Amado
Senhor, mas como uma prova da tenacidade daqueles que o servem. Nas proximidades
de Birman o clima segue como já foi constatado, com seu poder ordenado e centrado
na sacra mão de vossa santidade.
Blasfemadores! Vlakir ousa erguer-se contra vossa graça, alegando ter encontrado uma verdade dis-
tinta de todos nós, com um suposto terceiro céu ao alcance dos homens que lhe convém.
O rei Demiurgo se coloca como um deus na terra, além do desejo de restaurar o
império de Virka.

É sempre prudente Parlouma dá sinais de alianças aos traidores, o rei está velho e demonstra fraqueza,
mas a rainha é sua verdadeira força. Seus leais soldados mantem amor pelo orgulho
desconfiar de da cavalaria parla que vem ressurgindo. A atual situação daquelas terras a coloca
povos distantes. muito próxima de Vlakir, com um casamento arranjado que pode nos dar problemas.
Belghor se inflama com um orgulho pecaminoso de uma paixão que só pode arrasá-los
Ainda se julgam
novamente à Sombra. A linhagem Malik ainda sonha com o poder e com a retri-
como os eleitos
pelo único. buição de Belghor. Possuem muito metal, mas não entregarão facilmente. Os Cães de
Belghor estão se fortalecendo e se tornando uma força notavelmente obscura.
Seriam os insanos Latza se mantém uma incógnita com seu governante demente. Um Rei louco que ar-
inocentes? remessa parte do seu reino num tremedal de lama. Um lugar nojento com arenas de
gladiadores de crianças como soldados. A arbitrariedade é chocante.
Avarentos! No oeste, na corrupta Varning, onde comerciantes se fecham numa sociedade secreta,
onde troca de favores e enriquecimento é normal. A usura é praticada sem qualquer
espécie de proibição. Estão se armando e ligando os pontos isolados do mundo, Varning
pode se tornar uma força perigoso no futuro, contra a glória do Brandevir.

b b
b TOMO II b
Dalanor começa a mostrar hostilidade para com Parlouma. Seu rei deita-se com ani- Fornicadores!
mais e compactua com forças misticas da floresta. Seu povo é fraco e se perdem nos
encantos do mundo selvagem.
Na ruína de Virka a podridão se espalha. Este local é mal, corrupto, um lar para a
Não tenho mais
Sombra. Não vale a pena senhor. esperanças sobre estas
terras corrompidas.
Já Viha parece ter saudades da união de seu povo. As desavenças entre pai e filho
jogaram a castelania numa pré guerra civil, dividindo o povo, pois ambos se dizem reis. União? Eles já foram
O local estã frágil, estão em transição de tradições e costumes. unidos alguma vez?
Rastov tenta manter a colcha de retalhos presa em linhas frágeis. Outrora um exemplo A guerra fratricida é uma
da vivência ordenada sem um proder controlador, um grupo menor ameaçar colocar questão de tempo.
fim a paz ao dragar o povo para mudanças conflituosas no equilibrio politico. Teremos
problemas com os vogos meu senhor.
Pouco preciso falar sobre Brandevir, afinal, o senhor a conhece intimamente.
Como líder de teus enviados, tenho conseguido relatos variados sobre a situação atual das
terras de Belregard. A reconstrução do Tractatus será trabalhosa. Infelizmente não posso
contar com a mesma tenacidade que tenho nos corações de outros. Meu maior esforço, no
momento, é o de retirar impressões pessoais, tanto apaixonadas quanto horrorizadas, dos
relatos de outros membros de nossa ordem. De modo que vossa santidade recebe apenas o
que é importante, sem qualquer tolice dos homens que o servem, meu senhor.
O Tractatus Terrae original, pertencente ao imperador, pode ter desaparecido nas
guerras. As terras de hoje não estão seguindo os mesmos limites determinados pela
dinastia dos caídos e enquanto um punho firme não se erguer para colocar ordem e
cercas, uma nova Era do Sangue pode surgir. Que seja então tu, grandioso, a guiar
estes tolos em direção da luz do Criador.
Dessa maneira, o novo Tractatus Terrae, o Acordo da Terra, está dividido em duas
partes. Na primeira, apresentamos a composição de nosso continente quanto as suas
principais caractertísticas geográficas mais marcantes. Da selva de Áya aos ermos
do norte. No segundo livro mostramos como estão as organizações sociais, políticas e
econômicas de Belregard, reis, lordes, senhores de cidades, vilas e mosteiros. O senhor
saberá de tudo.
São tempos sombrios, amado Eleito, e é apenas com a força do glorioso Tribunal que os
homens poderão caminhar para fora desta treva com as cabeças erguidas. Estou ciente
de que este tomo passará pelas mãos de Oradores antes de chegar aos teus cuidados,
senhor, mas espero que estes respeitem meu trabalho.
Que a paz do Criador esteja contigo.
Enviado Minus
b b
b DO MUNDO NATURAL b
Prima Pars
Do Mundo Natural
elregard é uma terra vasta de A relação do homem com a natureza sempre
terrenos e formas variadas. foi dicotômica. Apesar de usá-la para seus fins,
É possível que um homem se- seja como recurso para erguer uma morada, ou
guindo a Via Régia, a princi- como arma nas queimadas de caça aos selvagens,
pal rota de ligava Virka para o leste e oeste, a natureza também causa espanto, assombro,
montado sobre um hestur, demore cerca de medo. É muito comum que camponeses nasçam,
um ano para ir de Gidar, em Belghor, até Eka- cresçam e morram sem conhecer o que existe
tria, em Rastov, passando pela margem das além da montanha ou bosque mais próximo. Não
demais castelanias em seu caminho, podendo por preguiça, não simplesmente pela fidelidade
ter uma mostra breve dos encantos e assombros a um suserano, mas por medo. O mundo sel-
desta terra. A mão do Criador se faz presente vagem intimida a maioria dos homens, o isola-
em cada monumento natural. Em cada resquí- mento imposto pela própria terra é muito mais
cio deixado pela sua sabedoria infinita, e por antigo que os dos miasmas nocivos que, hoje,
mais que o homem tenha deturpado e feito a corrompem nosso ar.
natureza se curvar em certos locais, ele não é
capaz de ser maior que a criação mais antiga a
do Pai; porque antes dos homens, antes dos
O Tractatus Terrae original
selvagens, Belregard é e sempre será a jóia
mais valiosa do Criador. O primeiro Acordo da Terra foi escrito durante
a vigência do Império de Virka, no que é con-
É sabido que durante a Era do Sangue muito siderado cada vez mais como um passado glo-
da geografia central de Belregard foi alterada. rioso de Belregard. Não há certeza sobre como
Na corrida pela proteção de senhores que te- ele se perdeu. Ele estaria na decadente Virka?

miam traições e ataques de todos os lados, o Teria se perdido mesmo ou está nas mãos de
alguém? Há muitos segredos, como as Casas
relevo foi transformado na exploração de pe-
de Luz que podem ter sido reveladas em anota-
dreiras para a construção de castelos, fortes e
ções deste importante tratado. Não é incomum
torres. Um cenário semelhante, de guerra e in-
haver campanhas para a busca desta relíquia ou
segurança, avizinha-se novamente sobre todos algum enganador que vende trechos deste texto
nós. É preciso ter cautela, pois os inimigos não antigo. A questão é que o antigo Tractatus ser-
estão apenas nos campos de batalha ou salões viria para atestar ou contestar atuais divisões
da corte, o inimigo é antigo e muito poderoso. de terras e como o Tribunal vem tentando abra-
çar seus vizinhos na campanha de dominância,
A Sombra se estende dentro do coração dos homens
fica claro seu interesse em fomentar um novo
nestes tempos sinistros, tomando o pouco que resta
tratado para evitar futuras brigas territoriais.
da luz do Pai dentro de corações pecaminosos.

b 105 b
b Belregard b
a
A Tecnologia do Passado

Não se sabe ao certo como era possível criar obras tão majestosas, estradas tão imponentes, edificações
tão estáveis. Apesar de menos de um século ter se passado desde a queda de Virka enquanto um império,
muito do que se fazia não é replicável. Uns dizem que os mestres construtores do passado não transmitiram
aos mais jovens, outros afirmam que não é mais necessária tanta imponência e aquilo caiu no esquecimen-
to. Alguns ao observar as construções do Império, e até mais antigas, do tempo de Bövrar II, afirmam que
não foi uma mente humana capaz de tamanhas obras. Independente da versão sobre o ocorrido, não se
consegue reproduzir com primazia todas as técnicas das antigas construções e os padrões arquitetônicos e
tecnológicos até das castelanias mais avançadas, como Varning, não se aproximam do requinte e potência
do passado, inclusive algumas plantas antigas são simplesmente incompreensíveis, com notas que parecem
de uma língua perdida. Lendas dizem que há determinadas pedras das estradas pavimentadas e construções
antigas que possuem inscrições, fendas e mistérios que já tragaram a vida de muitos curiosos. Por esta razão
o ditado “sigo em frente como em cabresto de mulas” é considerado um conselho sábio.

O Céu lhida para tornar-se a lua. Benito de Belregard,


Segundo a Litania tradicional, sem muitas famoso trovador dos dias atuais, também es-
mudanças dentre os três segmentos da fé, quan- creveu sua própria versão da história, chamada
do o Único desprendeu parte de sua essência “Opposto dell’Amore”, onde um homem, todas
criadora e divina na própria terra de Belregard, as manhãs, prepara-se para escalar uma imensa
fez os ciclos de passagem do sol e da lua terem montanha, numa tentativa de lá chegar ao anoi-
um pleno sentido. Trouxe, desta maneira, as es- tecer e poder encarar sua amada de perto.
tações do ano e fez surgir o próprio tempo.
Estas canções poderiam ter sido vistas como
A lua com seu brilho cinzento ilumina as noi- heréticas, mas suas incompatibilidades lógicas
tes do mundo com toda a sorte de ideias e su- fazem com que os sacerdotes de Birman as ig-
perstições. Para aqueles que não têm uma fide- norem e as tenham como meras distrações cam-
lidade muito grande para com o Único, não por pesinas. Apesar disso, servem muito bem para
maldade ou falta de lealdade, a lua exerce certo demonstrar a relação que os homens têm com
fascínio. Seu brilho misterioso encanta os poe- a Lua. Para outros ela também significa o ter-
tas e trovadores, lhes inspirando nas mais belas ror. A noite trás a insegurança e por isso a Lua
canções de tragédia e amor perdido. Não é difí- também cumpre um papel amedontrador den-
cil ouvir baladas sobre um amor distante, sem- tro da cultura popular. Manifestações da Sombra
pre influenciadas pelo amor cortês de Dalanor, surgem ao anoitecer, quando não podem ser dife-
usando a distância do homem para com a lua renciadas em plena escuridão. Para estes mesmos
numa forma de comparação. A mais famosa é, crentes, a Lua pode servir como um farol, trazen-
sem sombra de dúvidas, “La Ballade de l’Amour do um pouco de luz ao mundo envolto em trevas,
Impossible”. Escrita por Henry em 998 DA, a enquanto o Sol recupera-se de sua última viagem.
canção fala sobre o amor de um homem por
Como já se deveria imaginar, o Sol também
sua mulher, ainda nos dias da Era da Vergonha.
exerce uma imensa influência dentro da cultu-
Quando o Único coordenou a criação, o prota-
ra popular de Belregard. Visto como o grande
gonista perdeu sua amada, já que ela foi esco-
b 106 b
b DO MUNDO NATURAL b
culpado pela vida existir no mundo, graças à sa-
bedoria do Único, o Sol encarna um perfil mas-
a
culino daquele que tudo provê. Para alguns ele é Antigos Festejos
a encarnação do Criador e aquele que caminhou
A relação dos indivíduos em Belregard com as
entre os homens não era nada além que um filho
estações do ano é muito forte e não é raro que
da vontade do Sol, do Pai. Esta teoria vem sendo
os diferentes povos desta terra possuam festi-
aceita cada vez com mais facilidade, mesmo en-
vidades relacionadas às colheitas, bem como
tre os círculos da fé que seguem os preceitos de às fases da lua. Equinócios e solstícios são re-
Alec. Em regiões mais frias, como Viha, Igslav e levantes em festivais de colheita de cereais e
Rastov, o sol tem uma grande importância entre O Tribunal do Supremo Ofício não conseguiu
os nativos. Para os vogos e vihs praticantes de de forma alguma afetar este antigo costume. O
que ocorre é a transformação de tais festivida-
heresias, existe uma relação muito íntima entre
des, com a inserção da litania do Único em seus
o Sol e a Lua, algo que realmente remete aos
ritos, como pregações que Alecistas fazem no
relacionamentos das baladas dos trovadores, de
lume de grandes fogueiras que se acendem nos
maneira que eles formam um casal de equilíbrio. festivais de colheita do milho. Muitas destas
festividades são importantes como símbolos
Eclipses solares e lunares têm um lugar muito da fartura e da hospitalidade, sendo um mo-
especial dentro da cultura geral. O fenômeno é mento para a acolhida de um novo aldeão em
carregado de imensa superstição. Existem rela- uma comunidade, algo muito incomum em um
tos antiquíssimos de verdadeiras guerras civis mundo permeado pelo isolamento. Os povos

ocorrendo no momento em que o dia tornou- arraigados à terra consideram este um momen-
to importante para acolher um estrangeiro, já
-se noite, trazendo o caos as comunidades que
que o solo precisará ser arado para um novo
acreditavam no fim do mundo. Estes fatos isola-
plantio. Ocorre que vez por outro aproveita-se
dos servem para fomentar as teorias do secto dessa “renovação dos solos” e fogueiras rituais
de Lazlo de que os homens são tão selvagens para a promoção de penas capitais, ainda que
quantos os próprios Selvagens, quando se veem não sejam legítimas pelas castelanias. Muitos
confrontados com uma verdade aterradora e são os relatos de pessoas e por vezes famí-

um destino do qual não pode fugir. Algumas lias inteiras que simplesmente desaparecem
durante estes festejos...
vezes surgem profetas que tentam convencer
o povo de que um destes momentos se aproxi-
ma, mas normalmente eles são tomados pela
igreja e trancafiados para que sua loucura não nado e meticuloso. Em alto mar o céu é o único
contagie os inocentes. bom guia que um marinheiro pode ter e certos
pontos brilhantes ajudam-nos a encontrar o ca-
O Brilho do Céu Noturno minho para o seu destino. Segue abaixo as prin-
Depois de muitos anos em observação cala- cipais constelações a trazer significado para a
da, os homens de Belregard puderam perceber população, além de certos fenômenos inexplicá-
certas permanências no céu noturno. Estrelas e veis que trazem mais medo que conforto:
constelações foram recebendo nomes na medi-
da em que se tornavam frequentes no imaginá- O Círculo
rio da população e recentemente, com os avan- Brilhando sobre as cabeças dos habitantes de
ços marítimos de Varning, o estudo do céu tem Belregard existe um círculo formado por seis
se tornado um pouco mais cuidadoso, coorde- estrelas brilhantes. Este cinturão é visto como

b 107 b
b Belregard b
parem de tentar ser aquilo que não são. Apesar
a da ascensão da humanidade, nenhum homem ja-
Ela Se Move mais será a estrela mais brilhante, o próprio Pai.

Aqueles que se dedicam a olhar os céus de Bel- A Sombra


regard já notaram: a sombra se movimenta pe-
Seria estranho afirmar que as pessoas po-
los céus. Alguns já tentaram identificar o que
dem ver uma sombra durante a noite, mas o que
isto significa, dizem que os strigori conseguem
acontece é um fenômeno extremamente estra-
prever os acontecimentos analisando o movi-
nho, que trás o medo àqueles que acreditam nos
mento desta sombra no céu, este manto negro
sinais do céu. Algumas vezes as mais populares
que está sempre em movimento. Mas o que
constelações e estrelas isoladas simplesmente
poucos sabem é que há alguns dias nos quais
desaparecem do céu. Elas não brilham por dias
a sombra não é vista nas noite de Belregard.
e dias, até que finalmente retornam. Alguns
Nestes dias, a noite apresenta todas as estrelas
curiosos já perceberam um “rastro” de estrelas
no céu, mas a alvorada possui manchas escu-
que vão sumindo e desaparecendo, como se um
ras bloqueando a luz do sol, como se a sombra
imenso manto negro as cobrisse. Ninguém pode
tentasse adentrar o dia. Este fenômeno é cha-
afirmar o que é aquilo, mas o medo fica presen-
mado de aurora negra e era bem raro. Alguns
te nos corações de camponeses e nobres, quan-
consideravam-no auspícios de maus tempos,
do percebem a ausência daquele brilho no céu.
colheitas ruins. Porém, os sábios Lazlitas e ob-
servadores dos céus notaram que a frequência Neschek
das auroras negras tem aumentado a cada ano.
Esta constelação foi nomeada por Helish, o
O que isto significa? Os incultos já consideram
Puro que simplesmente deixou de existir quando
isto um sinal do fim dos tempos…
a encarnação viva do Criador partiu, e apontada
como um sinal de pleno mau presságio. Tendo
a forma de uma serpente peçonhenta, Neschek
um bom presságio, já que representa a união habita o imaginário dos homens de Belregard
dos homens na solidariedade para compartilhar como uma força que envenena e sufoca aqueles
suas vitórias e derrotas. Nos tempos em que se que vacilam na fé. Muitas vezes relacionada aos
vive hoje, com a guerra batendo à porta de to- Selvagens, esta serpente já serviu para acusar
das as castelanias, aqueles mais temerosos re- grupos hereges de adoração ao mal encarnado
zam para que as lideranças olhem para o céu da Sombra e assim motivar verdadeiras caçadas
e aprendam a lição de humildade que o Único aos pecadores. Verdade ou não, nos dias em
deixou naquele imenso tapete escuro. que Neschek brilha forte no céu, os homens de
bem trancam suas portas.
A Coroa
Uma clara referência ao símbolo máximo do
O Clima
Criador, este conjunto de estrelas não se fecha, Belregard é uma terra que conta com estações
como o círculo, mas brilha em quatro pontos do ano bem delimitadas, que costumam ocor-
encimados por um único maior entre os mes- rer praticamente ao mesmo tempo, ditando os
mos. Para aqueles que temem o futuro, este é ritmos da vida. No norte de Belregard, que vai
um novo aviso do Criador para que os homens dos ermos até o encontro de Rastov com Viha,

b 108 b
b DO MUNDO NATURAL b
o clima é severo durante boa parte do ano, com A parte central do continente, Virka, Parlou-
nevascas fortes nos meses frios e verões cur- ma, Vlakir, Latza e Birman, possui um clima
tos, breves, onde a vida luta para florescer. Em seco, com verões quentes. Por fim, o pedaço su-
Viha e na porção mais sul de Rastov, o tempo é doeste, com Braden e Belghor, é também seco,
úmido e chuvas são constantes em boa parte do mais agreste, com chuvas ocasionais e tem-
ano, mantendo os pântanos e charnecas alimen- pestades de raios. O esquema, rabiscado por
tados. O território centro-oeste, que engloba meus dedos débeis, darão cabo de demonstrar
Dalanor e Varning, possui estações bem distin- estas variações:
tas, com raros invernos frios onde a neve cai,
mas verões calorentos. Varnind, em sua porção
leste, apresenta um clima mais abafado, com
chuvas frequentes em seus pântanos.

b 109 b
b Belregard b
Podemos traçar um perfil da fauna e flora Região Noroeste
destas regiões, segundo tudo que foi colhido (Viha e Antiga Igslav)
pelos vassalos deste Enviado.
Ainda compartilhando grande similaridade
com a área norte, o clima que engloba Viha e
Região Norte (Rastov e os Ermos)
a antiga Igslav é de verões mais quentes, mas
Ao norte, desde o paredão montanhoso dos
invernos com a mesma neve de Rastov. É uma
ermos até as planícies abaixo destes, na área cen-
região de névoa, charcos e pântanos. As árvo-
tral de Rastov especialmente, temos a taiga com
res são sorveira, carvalho e coníferas (abetos,
extensos bosques de pinhos, abetos, larício, frei-
pinheiros e araucárias também). O território é
xos, álamos tembladores e bétulas. Apresentando
pontilhado de bosques e florestas. As florestas
uma fauna rica e variada com o urso, o lince, o
são mais marcantes nas Terras Altas do leste.
lobo, a marta, a raposa comum e a cibelina como
Em outros lugares, a vegetação é a típica de
máximos representantes, junto a um inacredi-
charnecas e pântanos, composto de urze, sa-
tável leque de espécies de aves. Mais ao norte,
mambaias, musgos e gramíneas. Há formações
na zona ocupada pelos Ermos, a taiga dá lugar à
de mangues mais ao sul e sudeste, mas são raros
tundra com seus permanentes gelos, nos quais o
em comparação com toda a região. A fauna é
solo pode crescer, quando o verão está em seu
apogeu, em forma de musgos, líquens e árvores muito rica com cervos, veados, lontras, armi-

anãs, como as bétulas. Nas margens são vistos nhos, martas e pumas, além dos lobos comuns
leões marinhos e pinguins, para além das temí- por toda Belregard. Caranguejos e siris abundam
veis baleias. Toda costa oeste possui atividades nas costas e mangues. Nas charnecas há aves de
de caça à baleia para obtenção de óleo e peles. A rapina de grande porte como águias-pescadoras
carne de bestas do gelo como morças é por de- e condores. Os lagos são abundantes de salmão,
mais rançosa, mas apreciada pelos povos do nor- atum e truta.
te. No inverno as temperaturas extremas tornam
muito difícil a sobrevivência que, sem dúvida,
Região Centro-Oeste
conseguem alguns roedores como o lêmingue, a (Dalanor e Varning)
lebre polar, a raposa cibelina, o glotão, algumas Contando com um clima temperado, de chu-
aves e animais domesticáveis como a rena. Como vas e possibilidade de neve no inverno, e verões
animais de tração, para o abate e também para que podem ser verdadeiramente quentes, apre-
fornecer lenha, são utilizadas lhamas e guanacos, senta uma flora muito semelhante a de Viha em
comuns em todo território montanhoso. Ao sul sua porção oeste, mas com grupos de árvores
da taiga encontramos as terras negras. É a zona muito maiores em suas vastas florestas, além
mais fértil, pois embora os invernos continuem dos carvalhos, as cecóias gigantes e mangueiras
sendo duros, os verões são mais quentes, com figuram lado a lado em seus tamanhos impres-
frequentes precipitações. É uma zona de cereais
sionantes. Existem ainda os impressionantes
e de espécies herbáceas e halófilas. Apesar de ser
cajueiros que facilmente enganam o viajante
uma de difícil cultivo, as araucárias das franjas
que é levado a crer que se trata de inúmeras
mais quentes provém pinhas que são utilizadas
árvores quando, na verdade, é apenas uma que
para toda sorte de pratos e bebidas.Os dias são
pode cobrir quilômetros de distância. Possuindo
longos no verão e curtos no inverno. Nestas ter-
uma fauna variada com muitos animais que figu-
ras, ter as roupas molhadas é saber que o vento
ram nas mesas de banquetes reais, como patos
frio causará uma dor cortante.
selvagens, a queixada, a lebre, o faisão, perdiz,

b 110 b
b DO MUNDO NATURAL b
codornas, o venison dos veados e cervos, além, mimosas, na porção sul pode-se encontrar tam-
claro, de alguns predadores como os lobos e bém a lótus e o papiro, muito utilizado para re-
felinos espreitadores das sombras das árvores, gistrar os mais antigos textos dos homens em seu
como as temidas onças. Na porção que corres- processo de secura. Ao sul, dentro de Belghor,
ponde a Varning, as árvores são mais baixas e o solo fica menos pedregoso, já que o rio Nurit
pelo longo rio toda a área torna-se mais panta- corta todo o território, trazendo uma terra mais
nosa, com brejos e mangues. A fauna mantém-se fértil. A variedade da fauna fica por conta das
semelhante, com predadores dos charcos, como manadas de búfalos, urubus, e gazelas nas sa-
crocodilos e jacarés e as temidas serpentes de vanas comuns entre Braden e Belghor. Existem
muitos metros de comprimento. ainda os pequenos fenecos, as hienas, os cha-
cais, javalis e mangustos. O rio Nurit também é
Região Centro-Leste ocupado por crocodilos, enguias e peixes-boi e
(Virka, Parlouma, Latza, Vlakir e Birman) fala-se de feras ainda maiores nos recantos mais
Com seus invernos frios e úmidos e verões escondidos da castelania.
quentes e secos, toda a região demarcada por
esse tipo de clima apresenta uma grande diver-
sidade de vida. Além da enorme quantidade de a
insetos, há diversas espécies de roedores como
O Clima de Belregard
pacas e cutias, corvos, corujas, falcões, águias,
coelhos, lebres, lobos, raposas, linces, veados, É importante perceber o esquema da divisão
javalis, lagartos, cobras e tantos outros. Nas flo- climática em todo o continente. Apesar de ser
restas, que são mais comuns na área de Latza e um território vasto, Belregard compartilha das
Virka, sob as sombras das montanhas que cer- estações dos ermos do norte ao fim de Belghor.
cam Belregard, encontram-se sobreiro, jambei- Por mais que existam noções de norte e sul,
ro, medronheiro, ipê-amarelo, cedro, carvalho, Belregard funciona com uma estranha divisão
cipreste, amendoeira, azinheira, oliveira-brava, climática. Territórios próximos não comparti-
pinheiros, cactus, loureiro, urze, rosmaninho, lham o tempo, com estes podendo ser inclusive
alecrim, timo, zimbro, alfazema, piteira, giesta opostos. Enquanto Viha, por exemplo, é mar-
espinhosa, dentre outras, além da imensa varie- cada por estepes frias e neve em parte do ano,
dade de peixes dos grandes lagos gêmeos. Nas Dalanor, ao lado, experimenta uma brisa fresca
demais regiões, os bosques são esparços e pon- e praticamente perpétua. Para os habitantes de
tilhados pelas planícies longíncuas de Parlouma Belregard, esse comportamento climático não
ou pelos pântanos que separam Birman de Latza. é estranho, pelo simples fato de não conhece-
rem outro lugar para comparar. O motivo desta
Região Sudeste (Braden e Belghor)
divisão pode estar relacionado a organização
O terreno de Braden é quente e seco, apresen- que o próprio Criador deu ao mundo. Assim
tando invernos chuvosos que costumam arruinar sendo, o narrador pode optar por nuances cli-
as estradas de pavimento irregular deixadas pelo máticas nos limites destes bolsões, como um
império. O terreno da porção norte desta área clima quente e úmido entre Parlouma e Braden.
climática é rochoso, com poucos bosques de
árvores de tronco fino e alto como o eucalipto,
além do olmo, acácias, pequizeiros, cajazeiros e

b 111 b
b Belregard b
a
Fauna e Flora Fastásticas

O narrador deve ter em mente que Belregard ainda é um mundo de fantasia, por mais que tenhamos dei-
xado ele com esse toque de uma verossimilhança palpável e isso significa que você, contador de histó-
rias, tem a liberdade para criar elementos novos. Você DEVE fazer isso! Então não se acanhe em fazer
árvores, plantas, ervas e animais diferentes, com um toque de fantasia maior. Não é preciso ir muito lon-
ge, se te faltam ideias, apresentamos alguns exemplos disso nas castelanias, mas você se inspirar em ani-
mais pré-históricos para criar essa fauna bizarra, como mamutes nos Ermos do Norte e algum Kaprosu-
chus saharicus em pântanos e na beira de lagos por Belregard, afinal, um “crocodilo galopante” colocaria
muito terror em qualquer personagem.

Das Áreas Livres Grandes felinos, como tigres brancos e linces


disputam território com os lobos, na busca pela
Existem áreas em Belregard que não fazem
caça. Algumas montanhas dos Ermos são re-
parte direta de um ou outro território, são locais
conhecidas pelos homens de Rastov, como os
de limite, zonas de transição, por isso são apre-
Dedos dos Deuses, acidentados com um pinácu-
sentados antes neste tratado. As áreas monta-
lo pontiagudo como um dedo apontando para o
nhosas, florestais, que fazem parte de territórios
céu. Os vogos, nativos dos ermos em sua plura-
serão apresentados nestes, como forma de cercar
lidade de clãs, contam que no passado remoto
as relações locais com o determinado ponto.
a região era uma vasta planície e foi escolhida
pelos gigantes como local de seu descanso,
As montanhas representam dualidade para
como eram seres colossais de forte ligação com
o homem. Elas são barreiras, protegem, mas
a terra, deitaram-se para morrer e seus corpos
também oprimem. São o palco de histórias ter-
se tornaram as montanhas. Acredita-se que o
ríveis, lar de bestas inomináveis, mas também
grande paredão rochoso que separa os Ermos
são reduto de grandes sábios, que se isolam em
de Rastov, conhecida como Coluna de Balmung,
cavernas e picos para retornar ao convívio com
seja a espinha dorsal do maior dos gigantes, se-
a sabedoria de Deus, ou a loucura dos hereges.
nhor de todos estes e último a cair. Como um
Belregard é uma terra marcada por grandes ca-
braço, um tributo da Coluna de Balmung, todo
deias montanhosas em todo seu perfil norte,
o norte de Belregard, cercando a antiga Igslav,
dos ermos extremos até o abraço sombrio do
passando por Virka, Latza e começando a se
véu em torno de Belghor. fragmentar em Birman, existe a Muralha Norte.
A porção central de Belregard é ocupada apenas
Ao norte de Belregard se estendem quilôme-
pelo Vale de Virka, no que diz respeito a gran-
tros de picos nevados dos Ermos do Norte. Ain-
des formações montanhosas. O paredões que
da hoje aquela região não foi completamente
cercam o vale deram a certeza de se tratar de
mapeada, mas sabe-se ser marcada por vales
um lugar abençoado quando os primeiros ho-
profundos, florestas, bosques e lagos que ficam
mens saíram de Belghor e encontraram refúgio
congelados durante a maior parte do ano. Habita-
em seu interior verdejante e fresco. Estas mon-
da por uma fauna selvagem de grandes predado-
tanhas já foram a principal fonte de pedras para
res. É um ambiente hostil, feroz que mantém sob as fortalezas do império e acredita-se que ainda
suas sombras apenas os mais atrozes dos seres. sejam férteis de metais preciosos.

b 112 b
b DO MUNDO NATURAL b
Como última área de destaque do norte po-
a demos citar a vastidão da Planície de Ig, antigo
A Fonte do Medo lar dos igslavos. Ocupando as sombras das mon-
tanhas de Virka e da muralha norte, a planície
Não, eles não vão normalmente aos ermos. As de igg é uma vastidão de campos planos ainda
zonas de transição, os espaços de circulação e, mais longos que os prados de Parlouma. Um lo-
sobretudo, as terras mais afastadas nutrem to- cal pontilhado por clãs de vihs e igslavos com
das as supertições que arrepiam as mais puras fortalezas abandonadas do império. É a área de-
almas dos castos habitantes de Belregard. Mas sejada por Viha, mas também lugar de assom-
não pense que na mata ou em fendas nas mon- bro, onde contam-se histórias sobre as imensas
tanhas não se abrigam grupos isolados, bando- serpentes que fazem seus caminhos debaixo da
leiros ou até bestas quase nunca vistas. Alguns terra, formando trilhas que passam umas por
dirão que isso é apenas fruto das mentes de- dentro das outras, numa configuração impossí-
bilitadas pelas parcas rações que um campo- vel para a nossa compreensão.
nês dispõe. Mas não é incomum topar com
ossadas nas estradas…

a
O Veio Sangrento dos Gigantes
Da mesma forma que as montanhas, as flores-
tas de Belregard representam perigo e seguran- Por mais que os homens santos queiram des-
ça. São lugares que inspiram o medo enquanto
mentir as lendas vogas sobre gigantes mortos,
são o refúgio dos excluídos, lar de bandidos e
encarar um bárbaro com mais de dois metros
dos degenerados que infestam matas, bosques,
e meio de altura faz com que a certeza vaci-
vivendo suas vidas desesperadas longe do alen-
le. Muitos clãs vogos alegam ter o sangue
to da fé. As florestas de destaque dentro dos
dos gigantes correndo em suas veias, mas al-
territórios costumam receber seus nomes por
guns relatos apresentam uma ideia diferente.
algum acontecimento ou característica marcan-
te, mas sem sombra de dúvidas são as florestas Dizem que no interior de certas montanhas

dalanas que mais ocupam o imaginário, com existem veios de sangue ainda correntes e

suas árvores altivas e impressionantes. Ainda crianças vogas com idade entre os sete e dez

assim, é ao norte que fica a área mais assom- anos devem adentrar cavernas e salões escu-
brosa, a Taiga Branca entre Viha e Rastov. Uma ros em busca destes veios, superar suas ad-
barreira natural que tira a vida de mercadores e versidades e beber do sangue. Relatam que
viajantes até os dias de hoje, por mais que es- as crianças que sobrevivem ao rito de passa-
tradas tenham sido construídas. O frio no inte- gem apresentam um crescimento muito mais
rior da floresta pode fazer o sangue congelar acelerado que as demais.
e ainda assim, algumas delas ainda dão frutos
azulados durante todo o ano. É um lugar de len-
das sombrias, lar de Baba Golod, a Mãe Famin-
ta que devora as crianças que caminham para
longe de suas casas.

b 113 b
b Belregard b
Lagarto Escaldado A vida só consegue fluir onde correm rios
2 partes de óleo de coco e nascem os lagos. Belregard conta com gran-
7 cebolas grandes
Açúcar mascavo
des porções de água doce, mas apenas três dos
a
maiores lagos são mostrados nos mapas dispo-
Coentro fresco níveis. O lago Narash entre Viha, Rastov e o an- Ruína nos Mares
Pimenta Belgha tigo território de Igslav e os lagos Gêmeos de
Barriga de lagarto-que-cavalga Vlakir. Existem um número imenso de outros
Muitos exploradores tentaram seguir os passos
de Varis para explorar o arquipélago, mas não
lagos e rios espalhados por Belregard, mas seu
Modo de Fazer uso se destaca em Varning, que aprendeu desde
tiveram sucesso. Não é improvável que os es-
Frite a cebola no óleo, adicione cedo a correr por suas águas para fazer valer
critos do explorador sejam falsos, forjados por
a barriga de lagarto inteira e o comércio. O mar também mostra seus misté-
homens que supostamente os encontraram, ou
cubra com uma camada grossa de rios, especialmente no norte de Belregard, no
que tenham sido alterados para parecer mais
coentro picado. Escalde e sirva Arquipélago de Varis. Como a costa norte do
agradáveis quando, na verdade, a ilha é sim-
acompanhado de inhame. continente é de falésias e penhascos, torna im-
plesmente abandonada e desinteressante, para
outra, a verdade escondida é a de que o filho de
possível a fundação de um porto para mandar
Há quem diga que barcos até o conjunto de ilhas. Ela figurou nos
Dálan, primeiro rei de Dalanor, dorme lá com
lagartos-que-cavalgam estão mapas mais antigos no ano 980 DA, quando o
seus espíritos guardiões, embalado pelas glo-
sendo criados em cativeiro. navegador Varis, de Varning, correu toda a costa
riosas canções do passado.
Porém, é um engano pensar isso, de Belregard, mostrando os contornos do con-
tamanha a bravura desta besta. tinente pelos ermos e finalmente a ilha. Varis
Há quem diga, inclusive, que um nunca retornou de sua viagem, mas seus escri-
Lagarto de Varning cativo causa tos, milagrosamente preservados, chegaram até
impotência e frigidez se ingerido. a costa e o pouco que contam falam de uma ilha
de maravilhas, um paraíso na terra.

Gravura estilo bertina de


Motazzi mostrando caçadores
(ou iscas) de Varning cercando
um lagarto-que-cavalga.

b 114 b
b DO MUNDO NATURAL b
Existem ainda os mistérios do extremo sul.
a Depois do Vale de Nessir em Belghor, com seus
Os Sorridentes Senhores Selvagens paredões rochosos, encontra-se uma passagem
que sobe para sair do vale, abrindo-se em um
A verdade é que os belghos ficaram apavorados terreno quente, de verde exuberante. Ladeando
com os áyas. Os guerreiros selvagens desde- a passagem estão estátuas colossais de criatu-
nham das armaduras e se lançam ao combate ras humanoides com faces animais, ou corpos
com lanças de madeira e pontas de sílex, escu- selvagens e eloquentes rostos misteriosos. Para
dos ovais de corpo inteiro feitos de couro duro a maioria, trata-se de uma prova da presença
curtido. Seus corpos altos e esguios escondem selvagem daquele lado e por isso o espaço é
músculos poderosos, mas o verdadeiro terror evitado. Ainda assim, alguns grupos de Cães de

vem na face. Todo guerreiro passa por um ritual Belghor já atravessou o caminho e passou pelo
julgo daqueles olhares petrificados para explo-
de mortificação da carne, em sua boca, quando
rar. É sabido que existem povos nas selvas, mas
o lábio superior é cortado e alguns dentes são
estes são extremamente reclusos e hostis. Os
serrilhados, o que lhes dá um eterno aspecto
belghos chamaram aquela área de Selva de Áya,
zombeteiro e risonho. Os Cães de Belghor que
referindo-se aos nativos por este nome. Como
exploraram o sul e sobreviveram contaram com
eles não migram para o norte, Belghor prefere
terror o pesadelo que foi combater aqueles ho-
deixa-los em paz.
mens que riam como hienas num total regozijo
em meio a matança. O que segue, meu bom Eleito, é um apanhado
das castelanias, focado em questões políticas,
mas ressaltando também aquilo que tais terras
podem ter de relevante para o teu conhecimento,
pela glória do filho mais querido do Criador.

Vossa Santidade não deve se enganar com a suposta organização


tomo. Ele foi escrito para apresentar apenas as principais estrutu apresentada neste
econômicas de cada castelania. Mesmo o comércio aqui apresentado, ras sociais, políticas e
tão organizado, é uma
mera projeção ideal da possibilidade.
O isolamento é real. Nosso povo sente o abandono e esse é mais
luz da fé envolva a todos e remova a treva desse tempoumsommotbriivoo. para que a

b 115 b
b DAS CASTELANIAS b

Belghor
“Vinde ao Pai”

Capital Apenas um belgho puro, um verum, preferen-


Melechit, “A Morada do Rei”. cialmente descendente que quem já viveu no
vale no período de domínio sombrio pode as-
Poder sumir altos cargos, como o de orador.
Malik II, O Filho do Rei, Senhor da Terra dos Ho-
mens, Protetor da Memória do Criador, Rei População
de Belghor e Duque de Melechit. Malik é Majoritariamente formada por belghos, com
nosso
um homem austero e taciturno. É casado com um grande número de parlos. Apesar de possuí-
Percebo aqui um amor de ghor.
Abella, uma filha da nobreza local, com ligações rem seus próprios traços, costumes e caracterís-
enviado pelo rei de Bel r-
ce
diretas nas ricas minas de Charon. Malik teve ticas, as etnias sofrem uma certa influência
Talvez o Eleito devesse ores.
pouco contato com o pai e foi criado quase que do lugar onde vivem, da cultura compartilhada
car-se de homens melh
integralmente pelo orador Priscus, que guiou o em uma determinada castelania. Em Belghor,
rapaz numa doutrina religiosa severa, criando os belghos representam o modelo exemplar
uma mente extremamente devotada e penitente. de adoração melancólica e fanática, com seus
Apesar da riqueza, Malik sempre se apresenta cultos de mortificação da carne e condenação
em trajes simples e gosta de caminhar descalço do riso em praticamente todas as instâncias da
pelas ruas da cidade. vida. Desse modo, as demais etnias que vivem
em Belghor costumam ter o lado religioso mais
Adoração exacerbado, especialmente nessa visão pessi-
Só existe um Deus, o Único. Os belghos mista e pesada da fé, na qual os homens devem
são ligados à textos antigos que muitos do viver em luto, culpados pelo sacrifício do Pai
Tribunal têm como apócrifos, sendo alguns para mostrar aos povos livres onde se escondia
deles escritos na Fala Negra de Belghor. Na o inimigo, a Sombra Viva.
castelania, os belghos são ligados às antigas
leis que impunham dor, sofrimento e priva-
ção aos adoradores do Único. Aceita-se a au- Não, não é correto falar sobre palavras que
toridade do Tribunal do Supremo Ofício, mas
defende-se a ideia de que a sede da igreja seja
alimentam a corrupção da alma
em Belghor, não em Birman. As atividades de dos mais puros.
pessoas de fora do vale são limitadas.

b 117 b
b Belregard b
Símbolo/Cor mas outros desejam participar de uma política
Plumas acinzentadas adornam as bordas do maior e, assim, tem tentado influenciar o rei
escudo vinho escuro listrado em negro. Ao cen- quanto aos acordos comerciais que poderiam
tro do estandarte, encontra-se o punho negro de ser abertos.
aço belgho, com quatro espinhos marcando as
quatro gerações dos Bövrar que reinaram sobre
Belghor. Atualmente, os espinhos fazem referên- a
cia aos calvários do Criador. Sabe-se dentro dos Fauna e Flora Fantásticas
dogmas, que o criador passou por três marcas,
da alma, do ego e da carne, mas os verum de Aquilo que se destaca na natureza
Belghor alegam a existência de uma última mar- particular de Belghor

ca, a do renascimento.
A Lótus Negra: Esta rara flor de beleza espe-

O Passado tacular, que se abre apenas em noites sem lua,


Belghor foi terra de início e de fim. Berço das emitindo um brilho sutil arroxeado encerra um
Crianças Cinzentas, dos belghos que espalha- dos mais poderosos venenos do mundo. Geral-
ram a palavra do Criador, mas também terra mente brota apenas em locais de natureza mor-
do julgo profano, onde a Sombra colocou o ta, onde nem os animais carniceiros perambu-
sangue dos Bövrar para reinar. No período de lam. O chá feito a partir desta flor é capaz de
governo desta dinastia bövrariana, os povos matar quem o bebe e mesmo seu aroma, doce
livres do vale foram escravizados e usados
num primeiro momento, pode causar enjoos
como mão de obra ou transformados em solda-
depois de algum tempo.
dos de mente ocupada pelo desejo da Sombra.
Os registros deste período foram perdidos na Lâminis: Um felino de corpo grande e pesado,
conquista de Belghor. Durante o período impe- com imensa força nas patas dianteiras e om-
rial, Belghor foi governada por um arquiduque bros largos capazes de carregar um homem.
e serviu de moradia ao imperador durante o
Sua pelagem cor de ouro sujo lhe permite es-
inverno até ser substituída por Dalanor. O últi-
conder-se nos campos queimados de Belghor
mo arquiduque, Malik, tornou-se rei de Belghor
e atocaiar suas presas com grande eficiência.
com a queda do império.
Mas o que chama a atenção em seu aspecto

O Presente são as imensas presas superiores que brotam

Devido ao isolamento natural de Belghor de sua boca, como duas lâminas de sabre. O

com o restante do continente, Malik II, filho do couro desta besta é muito valorizada para a

primeiro rei, não tem grande interesse em confecção de roupas pela sua cor incomum,

manter relações com o restante dos reinados de além do mais, as presas do Lâminis são verda-

Belregard. O monarca julga que sua castelania deiramente mortais, e podem ser usadas como

é autossuficiente e, com o povo sendo respeita- punhais eficientes.

do e vivendo para produzir, ele não precisa te-


mer problemas imediatos. O que preocupa Ma-
lik II é a nobreza de sua terra. Alguns nobres
concordam com o isolacionismo de Belghor,

b 118 b
b DAS CASTELANIAS b
Relações e Comércio Charon
A metalurgia é forte em Belghor e seu me- (Aprox. 5.000 habitantes)
tal negro adorna boa parte das fortalezas que Este é o antro do poder militar de Belghor.
se mantiveram de pé depois da Conquista. A
Para cada camponês existe também um soldado.
arte sacra feita em pedra e bronze é valoriza-
Aqui estão as minas de metal, fonte da principal
da e popular. Pelo apego arraigado dos belghos
renda da castelania. Os soldados de Cha-
em sua fé, a arte sacra de Belghor costuma ser
ron estão sempre atentos, seus olhos protegem
vista com grande reverência em todos os can-
o paredão de pedra, sempre vigilantes nas in-
tos de Belregard, mesmo que costume invocar
contáveis montanhas, lar dos pagãos. Patrono
imagens da dor e sofrimento experimenta-
dos pelo Criador. Os belghos condenam o uso Local: Duque Mordecai, O Imparável, iniciou

destas imagens, mas se aproveitam do apego sua vida na nobreza como um barão que reuniu
das demais etnias. O comércio interno ainda soldados para fortalecer o Forte das Testemu-
faz uso de moedas imperiais e pouco a pouco nhas três décadas atrás. Hoje, ele guia centenas
a cunhagem tem sido modificada para exibir os de soldados protegendo o coração de Belghor.
símbolos do rei, sendo o cajado de cobre a mais
comum, seguido pelo báculo de prata e o punho a
de ouro, extremamente raro e normalmente usa-
O Rio das Almas
do em negociações entre casas nobres. As rela-
ções de Belghor estão limitadas a Braden, num As escavações em Charon são antigas e mui-
primeiro momento. tos dos velhos túneis estão abandonados, iso-
lados ou desmoronaram com o tempo. É dito
Devido ao caos dominante na castelania
que o povo de Charon já cavou mais fundo do
norte, alguns barões e cavaleiros independen-
que deveria, encontrando um misterioso rio
tes tentam se aliar ao rei Malik II, acreditando
subterrâneo que pode fazer parte do rio Nurit,
que ele é uma melhor escolha que Birman, que
mas que é assombrado pelas almas de garim-
também tenta uma aproximação de Belghor,
peiros abandonados no interior da terra. Nin-
mas questões de orgulho religioso atrapalham
guém sabe exatamente o caminho para o rio,
uma maior aproximação. Malik II procura se
mas ao longo da história foram registrados
aproximar de Parlouma para evitar os conflitos
momentos em que tal local foi encontrado e
ao norte, mas ainda é preciso encontrar uma
os relatos falam sobre um estranho barqueiro
passagem, ou criar uma. Belghor não espera ser
que por lá vaga em seu pequeno barco, ilumi-
desafiada em uma guerra, já que conta com uma
nando o caminho com um lampião de cobre
boa fonte mineral e um bom número de forta-
e vela na proa. Ele cobre todo o seu corpo e
lezas. É uma castelania que conseguiu manter
usa uma longa vara para navegar. Aqueles que
união e parece apontar para o futuro.
viajaram com o barqueiro dizem que ele cobra
duas moedas, de qualquer valor, para arranjar
Assentamentos
um encontro com os mortos. Um dos relatos,
Belghor se divide em 4 regiões principais, os
ainda em algum livro da igreja em Melechit,
ducados conquistados pelo Juízes desde a con-
identifica a misteriosa figura como Charon, o
solidação do reino.
mesmo nome da cidade.

b 119 b
b Belregard b
Melechit
a (Aprox. 15.000 habitantes)
O Isolamento em Belghor A gigantesca capital é tão grande e tão forte-
mente guarnecida que seria preciso uma nova
O antigo berço dos homens conseguiu man-
marcha de conquista sob a união de todos os
ter-se coeso depois da queda de Virka. Belghor homens para tomá-la. O local possui gigantes
continua com o poder centralizado nas mãos de prédios de basalto negro que demonstram
Malik II e seus duques. No entanto, a ordem que sua grandiosidade antes da queda do império.
se percebe nas principais cidades da castelania Ao lado da gigantesca acrópole, reúnem-se mi-
não deve servir de engano para os recantos mais lhares de construções de pedra e madeira que
abrigam a população de camponeses. Melechit
isolados deste território. Em aldeias, vilas, po-
consegue forçar a civilidade através de um
voados e mesmo assentamento maiores de
local tomado por trevas. Possui ainda fornalhas
barões e condes, o isolamento se faz sentir no
subterrâneas na Fortaleza do Conquistador,
assédio constante daqueles que discordam da onde o primeiro imperador forjou sua coroa.
atual postura religiosa dentro de Belghor. Para Patrono Local: Malik II, O Filho do Rei.
muitos, o verdadeiro caminho era o da Sombra, Rege com punho de ferro, mantendo um con-
era o da dinastia em poder antes da chegada trole rígido de seus duques.
dos Vlakin, a dos Bövrar. Existem ainda o culto
Orlit
dos adoradores de Kupala, o demônio que vive
(Aprox. 1.000 habitantes)
adormecido sob as montanhas do Véu Noturno.
Há alguns dias à cavalo das minas de ferro
Fora esta questão interna, existe o isolamento
de Charon, encontra-se o assentamento que é
externo. A única saída conhecida de Belghor leva
destino das caravanas de metal para venda ou
para o território de Braden, que tem passado por
troca. Sua principal função é tirar os olhos de
sérios problemas e conflitos internos, tornando comerciantes e invasores da capital e das mi-
uma viagem de passagem, ou comercial, extre- nas, negociando em um campo mais neutro.
mamente perigosa. Não descrevemos aqui a mo- Patrono Local: Duque Miron, descendente de
rada dos “selvagens” nas montanhas, deixando uma linhagem de escravagistas e torturadores
de selvagens. Seus métodos são frios e ele man-
esse perigo imprevisível de uso do narrador.
tém o local sob pulso firme.

Forças Militares
Gidar Organizados em Falanges, os Belghos divi-
(Aprox. 2.000 habitantes)
dem seus homens assim como o Único um dia
Nascida sobre as ruínas de uma antiga cida- organizou seus seres de luz nos exércitos divinos.
de que, dizem, já era arruinada no tempo das
Crianças Cinzentas, os pescadores e agriculto- Zayin, “A Espada”
res retiram da terra o que precisam. Gidar nunca (250 lanceiros e 80 cavaleiros)
viu uma guerra e pretende continuar assim.
Assentada na capital, a Espada age com pres-
Patrono Local: Duquesa Nessa, A Milagrosa, as-
teza. São disciplinados e instruídos nos escritos
sumiu o ducado após anos de muita luta, provação
sacros, sendo cavaleiros-sacerdotes que seguem
e dificuldades. À mulher são creditados alguns mi-
Belghor ao longo da história, tanto em seus tem-
lagres, o principal deles, sarar a grande praga que
pos de luz quanto de trevas.
se abateu sobre o Rio Nurit no último ano.
b 120 b
b DAS CASTELANIAS b
Gravura estilo bertina de
Motazzi mostrando a paisagem
agreste de Belghor.

Meginnag, “O Escudo” O Óbolo Negro


(430 lanceiros e 120 cavaleiros) (150 lanceiros e 50 cavaleiros)
Estão em Charon protegendo as monta- Homens que agem especialmente para a
nhas, mantendo o homem livre tranquilo en- proteção de Orlit, todos escolhidos à dedo
quanto os lobos uivam clamando a bestialidade pelo Duque Miron, que recebem uma moeda
dos selvagens. de metal enegrecido com a heráldica pessoal
do duque, mostrando que estão acima da lei e
Kidon, “A Lança” podem, sim, iniciar um processo inquisitório
(120 Lanceiros e 35 cavaleiros) sobre qualquer um.

Um cisma divide essa facção originalmente


Construções e Formações
com a função de proteger Gidar. Alguns acre-
ditam no milagre executado e veem a duquesa Montanhas do Véu Noturno
Nessa como uma santa, outros acreditam que é
Belghor fica no vale cercado por estas altas
obra negra e a veem igualmente enegrecida. A montanhas e a despeito do clima quente local,
coisa tomou tamanha proporção que o Tribunal seus picos altíssimos ficam congelados durante
mandou seus cavaleiros para a cidade. o inverno, que trás fartura ao rio Nurit durante
os meses quentes, tornando as terras ao redor
Naal, “A Sandália”
de suas margens extremamente férteis. Recebe-
(60 cavaleiros)
ram esse nome nos tempos de Morovan, quan-
Estes soldados mendicantes viajam por do o profeta falou que os homens viviam numa
Belghor como verdadeiros paladinos e médicos eterna noite até encontrar o amanhecer glorioso
do povo. da fé no Criador.
b 121 b
b Belregard b
fizeram para ele uma sepultura entre as monta-
a nhas ao norte da castelania. Esta tumba ainda é
Terror do Óbolo Negro procurada nos dias de hoje.

Há determinadas áreas de Belghor que possuem Rio Nurit


quase que uma legislação própria. O Óbolo Ne-
Trata-se de um rio de grande importância re-
gro funciona como um Estado paralelo, cobran-
ligiosa. Aqui ocorrem todos os batismos e sua
do taxas próprias às guildas de artesãos e talhas
água é milagrosa. As pinturas e textos dizem
e corveias aos produtores rurais. Há muitos que
que Alec, em sua visita à antiga Belghor, secou
ascendem socialmente por adentrarem no Óbo-
as águas do rio para encontrar um bebê que
lo, uma vez que a “escolha” do Duque Miron
fora jogador para morrer, fazendo encher nova-
possui critérios bem particulares: a valentia e
mente em seguida.
até a crueldade de mulheres e homens que não
hesitarão ao fazer escolhas duras. Basta ver as Forte das Testemunhas
iniciais “O.N.” grafadas nas paredes com cinzéis
O local é uma fortaleza natural, com penhas-
e armas improvisadas para saber que aquele
cos íngremes e terreno acidentado. Na parte
perímetro é controlado de forma tirânica pelo
leste, a face do penhasco se eleva 400 metros
Óbolo Negro. Há alguns boatos que dizem que
acima da planície circundante. O acesso só é
há interesses próprios e conflitos internos nesta
possível através de uma difícil trilha que serpen-
facção, uma vez que não é incomum que algum
teia pela montanha. Quando o local foi toma-
membro morra subitamente envenenado ou es-
do pela Sombra, este foi o único local que se
quartejado enquanto dormia…
manteve puro de acordo com os vestígios. Os
grandes homens devotos sobem até o Forte em
jejum para buscar claridade de ideias.

Uma passagem estranha e A Pedra Angular A Passagem


enigmática rondam esse lugar. Tido como local onde Morovan mostrou aos Antes da Era da Conquista, uma passagem
Quando a Sombra avançou, homens as leis do Criador e iniciou o caminho entre as montanhas à oeste de Belghor dava
forças humanas vieram aqui para fora do vale de Belghor. Localizada numa caminho para que homens de coração negro
para matar, pilhar e des- depressão entre rochas, próxima à entrada de atacassem Parlouma. Esta passagem sempre
truir. Dizem que os todos uma profunda caverna, a pedra ainda se man- fora protegida pelos servos da Sombra, mas
estavam dispostos a morrer tém erguida, mas não tão reta quanto o nome acabou derrubada pelos esforços de um santo
antes de se renderem às sugere. Possui cerca de dois metros de altura e, do povo parlo, Ercole de Borgosa, que rompeu
garras da Sombra. Então, os pelo menos, um metro de circunferência. Ao lon- o caminho ao derrubar os pilares que sustenta-
sacerdotes mataram a todos, go de sua superfície, estão antigos entalhes de vam uma das cavernas. Malik II tem interesse
suicidaram-se em seguida. significado perdido. A caverna tem suas paredes em reencontrar este caminho, oficializando-o
Carregando para si todo o de entrada cobertas de pintura rupestre. como rota comercial.
pego do homicídio e danação de
ceifar sua própria vida. Dizem A Tumba de Leoric A Fortaleza de Xerigordon
que seus corpos nunca foram O Puro Leoric morreu sozinho na passagem Foi a primeira fortaleza a ser tomada quando
encontrados, foram levados entre Braden e Belghor, mas acredita-se que os Belghor foi invadida. Apesar de reconquistada,
para a morada do Único para o homens de coração negro, impressionados com nunca se soube o que ocorreu com os homens
descanso eterno. a pureza, coragem e força daquele guerreiro,
b 122 b
b DAS CASTELANIAS b
que adentraram seus salões mais profundos e
a A construção possui uma
não mais retornaram. Diversas vezes, tentou- maldade além do compreendido.
-se utilizá-la para fins de defesa, mas a tragédia Cavaleiros Mercantes em Belghor Suas entranhas emanam um
está relacionada a este local amaldiçoado.
Além das forças oficiais a serviço da nobreza,
veneno maligno que faz com
O Vale Nessir existem aqueles contratados por ricos comer-
minha alma queira danar-se
ciantes para lutar. A cavalaria mercante não
para não precisar encará-la.
No extremo sul de Belghor, conforme as mon-
é forte em Belghor, como o é em Varning e
Se a Sombra um dia fez
tanhas vão fechando o seu abraço ao redor do
isso se explica pela relação das casas mer-
morada na terra, ela com
vale, é possível ver estranhas construções. O
cantes com a aristocracia. Ricos mercadores de
certeza escolheu esse antro
que um dia pode ter sido um imenso portão de
Belghor ainda precisam ter relações com a
como sua morada em algum
pedra escurecida, agora jaz tombado, revelando momento.
nobreza para atuar livremente pela castelania
um declive acentuado do terreno até terras mais
e isso limita os poderes expansivos das casas
quentes, onde uma mata verde e viva se contras-
mercantes, situação que só parece capaz de mu-
ta com o cinza de Belghor. Ladeando esta monu-
dar quando uma rota para Parlouma for aberta.
mental passagem, estão estátuas ciclópicas de
Desse modo, é a própria guarda oficial da cidade
seres antropomorfizados, Selvagens, de corpos
que faz a proteção das casas, mas alguns casos
humanos e cabeças de animais desconhecidos,
pontuais mostram que existem exceções, como
de longas presas e trombas, dentes rotundos e
a Casa Macer, que faz o transporte perigo-
olhar contemplativo.
so dos metais de Belghor para alguns domí-
eu
Não posso falar mais sobre meu senhor. Minha vida corrvale.
nios aliados e se protege com seus cavaleiros

perigo pela simples menção ao interesse em desbravar o ição


mercantes, os Cães de Belghor.

O local é guardado não somente pelo medo, mas superstir.


e aço. Muita da nossa história está ali, posso sent

a
O Orgulho Belgho

Todo belgho é orgulhoso de seu pioneirismo na adoração ao Criador, os que ficaram em Belghor veem
visitantes como tolos iludidos. Para os belghos de Belghor, autoproclamados Verdadeiros, o período que
viveram sob influência da Sombra foi nada mais que um tempo de provação. Todo homem livre da castelania
consegue traçar sua ancestralidade até alguém que foi explorado durante o governo corrupto, escravizado
ou morto. Por isso, a necessidade da adoração vem forte e poderosa nos dias de hoje. Malik II aceita a autori-
dade do Tribunal, mas apenas até certo ponto, reunindo-se com belghos verdadeiros para acertar detalhes do
interesse do Eleito. Além disso, existe ainda a resistência daqueles que os verdadeiros continuam chamando
de selvagens, pagãos e hereges. Com o fim do império, muitos se voltaram contra o novo rei e seu sucessor,
acreditando que os cultos sombrios eram a escolha certa para o mundo. Tais pecadores se escondem nas
montanhas que cercam Belghor. Além dos hereges, as montanhas de Belghor, chamadas Véu Noturno, guar-
dam um segredo muito mais antigo e profano. Acredita-se que Morovan foi tentado por um demônio quando
tentou espalhar a palavra do Criador para as Crianças Cinzentas. Tal demônio é chamado nas escrituras de
Kupala e apresentava-se na forma de uma linda mulher que desejava o culto dos povos pelo seu poder sobre
a fertilidade e fartura. Kupala foi associado aos Ímpios como uma prole da mistura das vontades de Amon
e Arshma. Este demônio adormece sob as montanhas.

b 123 b
b DAS CASTELANIAS b

Brandevir
“Diante do Tribunal,
até os reis devem se ajoelhar.”

É possível perceber uma cer-


As castelanias de Birman e Braden passam por uma situação tensa. Enquanto Birman é ta acidez em seu comentário
uma terra marcadamente religiosa, berço e centro do Tribunal do Supremo Ofício, Braden quanto as atitudes do Tr
ibunal
é uma terra arruinada e está prestes a ser anexada. Adiantando-se aos conflitos de outras que, de certo, não querem mais
castelanias, como Parlouma e Vlakir, Birman já convoca antigas noções de fidelidade para que a glória ao Criador. Nesse
anexar o território, a começar pelo próprio brasão, que invoca o antigo dever ponto, discordo dos Haske-
de proteção à muralha sob os auspícios do Criador. listas. Tolices devem ser
Dessa forma, as informações aqui apresentadas serão referentes a união das castelanias, já que apagadas das linhas.
a maior parte da porção norte de Braden já se encontra sob o controle de Birman e apenas
alguns barões do sul, junto da meretriz que se diz filha do antigo rei, fazem resistência. Em
tempo esta discórdia terá fim e nenhum dos abutres que almejam a carcaça do antigo reino de
Leoric terão seu quinhão, aquela terra boa de homens bons deve retornar ao seio do
Criador, como foi no passado. Assim sendo, o Brandevir refere-se
tanto a um lugar quanto a uma nova castelania.

Capital pedintes, miseráveis e doentes realizando pro-


Ravison. Lenora foi antiga capital de Braden e cissões para sua morada. No sul, tentando riva-
ainda se ergue como local de conflito, já que a lizar o poder com o Eleito, está a corte suja e
meretriz mantém lá a sua corte fiel de pecado- imunda de pecadores liderados por Anastásia,
res, junto do falso herdeiro. filha do antigo rei de Braden. A meretriz possui
um filho, de nome Norik, e alega que este é o
Poder verdadeiro senhor de Braden. Alguns poucos ba-
Teocrático. O Eleito governa Birman e este rões abraçaram a causa da concubina do diabo.
homem é Vincenzo de Ravison, A Voz do Cria-
dor, Bispo de Ravison, Eleito pela Vontade Adoração
Dele, Guia de Todos os Homens, Porto Seguro O criadorismo é o foco central do louvor
dos Desalentados, Alento dos Desesperados, o em Brandevir. É o que dita os ritmos de toda
único capaz de levar os homens pelo caminho a vida. Aqui os ritos são levados a sério e todo
da pureza nestes tempos sombrios. Vincenzo é cidadão seria capaz de pregar em vilarejos
um homem velho, que prova a benevolência do distantes, tão acostumado está em ouvir a la-
Pai para consigo ao alcançar mais de 80 anos dainha de seus sacerdotes. Toda cidade prós-
com o vigor de um soldado. A este homem são pera de Brandevir, e mesmo os mais isolados
atribuídos muitos milagres de cura e por isso vilarejos, nasceu ao redor de uma igreja. Mes-
seus dias em Ravison são ocupados, com muitos mo entre os pecadores do sul, onde o povo

b 125 b
b Belregard b
inocente não tem opção a não ser seguir os
ditames daquela que traiu o Pai, sabemos que
a
resite a fé. Aquelas almas atormentadas es- Anastásia de Lenora
peram apenas pela salvação do Tribunal que,
cer tamente, chegará logo. É notável o repúdio que os homens da igreja
tem para com Anastásia. A verdade é que a ba-
População ronesa é uma guerreira com todos os méritos.
Majoritariamente formada por belghos que Foi casada com Norik, filho de Norvik, o antigo

Hei de confessar que admiro se distanciaram um pouco de seus modos mais rei de Braden e deu ao seu filho o nome do pai

alguma das mudanças de antigos. Em Brandevir existe um apego religioso que faleceu num dos muitos ataques dos ho-

comportamento, haja vista que forte que se traduz em imagens, pinturas, vitrais mens de Birman. Ela conseguiu reunir um secto

antigos costumes não condi- e esculturas. A vida dos moradores de Brande- de barões desgostosos com os planos da igreja,

zem mais com o que vivemos vir é ditada pelos sinos das igrejas de cada ci- de torná-los todos submetidos a algum bispo,
nesta aurora. dade, de cada vilarejo. Tudo gira em torno do mas as opções são poucas. As forças de Anas-
religioso e assim rituais diários mostram esta tásia são ínfimas e talvez ela acabe aceitando
devoção com orações prévias para cada ação do alianças com Belghor e até mesmo Vlakir. O
dia, desde o carpinteiro ao soldado, todos pos- que mais motiva os aliados da baronesa é o fato
suem suas próprias preces para pedir por prote- de seu filho ter nascido contra todas as expec-
ção e sucesso no dia do trabalho, um costume tativas, num campo de batalha, onde ela mes-
que continua nas outras instâncias da vida, com ma portava uma lança contra cavaleiros sacros
pedidos antes de comer, de dormir e ao acor- do Tribunal. A criança motiva os homens como
dar. O povo de Birman é puro, é grato. Existem um verdadeiro messias, que mal completou um
também os brados do sul, fruto da mistura das ano de idade. Ao longo da descrição, será no-
muitas etnias que responderam ao chamado tável a depreciação de tudo que gira em torno
de Leoric no passado. da figura desta mulher, de suas forças ao lo-
cal onde fixa sua resistência. É preciso lembrar
Símbolo/Cor
que, a despeito do distanciamento pretendido
O símbolo de Birman, em enaltecimento do
pelo enviado Minus, ele ainda é um homem do
Criador, representava sua coroa dourada sobre
Tribunal que responde ao Eleito.
um campo branco, nem mesmo utilizando-se
da cruz do próprio Tribunal, dos caminhos do
homem em louvor. Com o Brandevir tomando
tre o rei e seu conselheiro, Lázarus, o reino fora
forma e recuperando a glória dos tempos dos
dividido entre Birman e Braden. Assim seguiu
puros, a muralha cinzenta foi acrescentada
por muito tempo. Birman tornou-se o seio seguro
ao campo, já que esta era a bandeira de Bra-
do criadorismo, mesmo durante a existência de
den. E assim Brandevir procura voltar a ser o
Virka e do império, enquanto Braden era a fron-
bastião verdadeiro da fé, aquele sonhado pelo
teira segura do mundo civilizado, onde erguia-se
forte Leoric no passado.
a Muralha do Leão, protegendo o mundo dos hor-
O Passado rores. Quando Belghor caiu e, posteriormente, o
O Brandevir existiu no passado, chamado de império de Virka, Braden tornou-se uma colcha
reino de Birmanen na época, quando foi criado de retalhos sem grande organização. Seus barões
por Leoric, a fim de combater as forças da Som- belicosos voltaram-se uns contra os outros. En-
bra, vindas de Belghor. Por desentendimentos en- quanto Birman se mantinha pura e firme.

b 126 b
b DAS CASTELANIAS b
O Presente
a O interesse de recuperar o Brandevir surgiu
Praeterita Dementia depois de peregrinações realizadas pelo próprio
Eleito na terra castigada de Braden. Em conver-
Brandevir é uma utopia. No seio dos mais nos-
sa com os barões do norte daquela castelania,
tálgicos reside o desejo de reunir Braden a Bir-
conquistando-os para a união. O presente do
man, a ponto de que os cordéis que são escri-
Brandevir já é glorioso, mas uma pequena man-
tos nesta castelania remetem de forma heroica
cha se esconde no sul, na forma de Anastasia
feitos considerados impossíveis. Muitos consi-
de Lenora. É uma mera questão de tempo até
deram isto loucura ou obras da bufonaria, mas
que as forças de Birman se recuperem das úl-
entretém jovens e desesperançosos. Não é inco-
timas conquistas e coloquem ordem no caos. É
mum que o fanatismo supere a nostalgia e fei-
possível que a muralha do leão seja novamente
tos imprudentes sejam feitos, como atentados
utilizada, já que Belghor parece novamente se
àqueles que desejam manter a separação entre
isolar e o orgulho que brota daquela terra é, de
os territórios. Vez por outra os mais fervorosos
certo, pecaminoso.
cultuadores do passado saem em procissões
noturnas com tochas acesas, portando túnicas Relações e Comércio
e capuzes roxos e entoando cânticos que nar- O Brandevir tem relações comerciais contur-
ram o passado virtuoso de Brandevir. Estranha- badas com seus vizinhos. A parte ainda resis-
mente este séquito não é aplacado pelas forças tente de Braden prefere realizar comércio com
da lei, ainda que haja destruições e até assassi- Belghor ou Parlouma, alé, de realizar saques
natos promovidos por estes sombrios membros contra as caravanas que partem para o sul. O
da seita chamada de Praeterita Dementia. comércio com Latza ocorre de forma muito
tímida com os comerciantes que tem coragem
de atravessar o charco norte e Vlakir mostra-
-se resistente quanto a aproximação, já que se
julga detentora da verdadeira fé, com seu rei de-
miurgo. Brandevir está cercado de inimigos, here-
ges. Traidores no sul, fanáticos no leste e loucos no
norte. Parlouma ainda se mantém neutra, realizan-
do um comércio tímido pelos barcos do Lago das
Lágrimas, mas a promessa de aliança com Vlakir
parece preceder alguma hostilidade vindoura.

Gravura estilo bertina de


Motazzi mostrando a antiga
Muralha do Leão em Braden.

b 127 b
b Belregard b
Assentamentos
O Brandevir é dividido em bispados e qua-
a
tro são os principais. O bispado de Lenora, ao Fauna e Flora Fantásticas
sul, ainda não está formado, já que depende da
Aquilo que se destaca na natureza
queda da traidora.
do Brandevir

Ravison
Suplicante: Estas árvores comuns no sul do
(Aprox. 10.000 habitantes)
território não possuem folhas. São apenas ga-
O centro poderoso da fé do Criador é resplan- lhos retorcidos em dois ramos que se erguem
decente. Uma cidade que cresceu muito durante alto, de modo que pareçam mãos de suplican-
o governo dos imperadores, talvez como um si- tes. Foi com o galho de uma destas árvores
nal dos céus de que a ruína se aproximava e, as-
que o Criador fez o seu cajado para caminhar.
sim, a fé precisava se fortalecer. É uma gloriosa
O Esteio do Criador é um objeto que denota
cidade de muralhas altas e brancas, encimadas
a importância de uma pessoa na sociedade, é
pelas torres dos sempre vigilantes e destacada
o sinal de sua unção com o Criador. O esteio é
pelos pináculos de igrejas, capelas e catedrais
o báculo do bispo, a vara do mendicante. Esta
prósperas. Suas ruas são largas e pavimenta-
árvore consegue viver com poucas quantidades
das. Não existem mendigos e miseráveis, pois
a glória dos homens em louvor ao Pai é plena de água, que ficam reservadas em suas raízes

em seus salões e os campos são fartos à som- durante longos períodos.

bra das muralhas. É onde se encontra o novo


Besta Lisa: As lendas sobre serpentes são
Virkarium, sede do criadorismo, erguido em
comuns no oeste de Belregard, mas conta-se
resposta a ruína eminente do império corrupto.
que o norte de Belghor também era tomado
Patrono Local: Vincenzo de Ravison, o Eleito.
por elas. Um dos homens que seguia Morovan
Odara encantou as serpentes e partiu com elas para
(Aprox. 11.000 habitantes) o norte, deixando o caminho livre. Hoje, este
Odara fica ao sul da antiga Birman e fazia fron- homem é louvado como são Ignázio. Esta len-
teira com a castelania irmã de Braden, foi um lo- da explica as imensas serpentes que vivem no
cal terrivelmente marcado pela guerra, quando
pântano Brago, na fronteira com Latza. São
os barões cavaleiros se rebelaram diante da jun-
cobras negras que se embrenham pelas raízes
ção. É um bispado fortificado onde se encontra
das árvores e alcançam até 15 metros de com-
o grande cemitério dos homens santos do pas-
primento. São constritoras em sua maioria, mas
sado. Lugar de oração, para onde viajam muitos
existem relatos sobre grupos menores, famílias
peregrinos que engrossam as fileiras dos valentes
derivadas, capazes de espirrar um veneno po-
Humildes. Hoje é um local de paz, que conta com
deroso que faz o sangue ferver. São cobiçadas
a força de muitos. Patrono Local: Bispo Hilário,
o Jovem. Um homem que alcançou alta posição pelo seu couro e pelo veneno, mas ainda não se

dentro do Tribunal, a despeito da pouca idade. conhece qualquer coisa produzida pelo mesmo.

Foi um soldado de Braden durante muitos anos e


viu a corrupção se espalhar entre os seguidores
de Anastásia, convertendo-se cedo ao abandonar
a espada para portar o báculo.
b 128 b
b DAS CASTELANIAS b
Tarsanis Cavaleiros Sacros
(Aprox. 10.000 habitantes, porém o (200 cavaleiros)
número pode ter dobrado dada a
chegada de refugiados) A principal força do Tribunal, os cavaleiros al-
vos tiveram suas fileiras engrossadas quando foi
Tarsanis é uma joia vermelha encravada no
prometido aos homens de Braden a aceitação na
terreno cruel de Braden. Suas muralhas de terra
e barro deixam clara a vida bruta mesmo tão ordem caso se rendessem pacificamente. Estes

distante da Muralha. Tornou-se bispado a pou- paladinos são ungidos na graça do Criador. Exis-
co tempo, como prova da entrega dos barões tem espalhados por Belregard, onde a igreja pre-
do norte para com a causa do Brandevir. Uma cisa demonstrar seu braço forte e, caso convoca-
cidade belicosa, que hoje é usada para sediar as dos de todos os recantos somariam mais de mil.
forças do Eleito que anseiam pela conquista do
sul. Patrono Local: O bispo Bérnico, o Calmo,
Cavaleiros Rubros
compartilha poder com o barão Ireus Tarsus,
(120 cavaleiros)
que fora antigo senhor de Tarsanis e lidera os A ordem original formado em Braden. Hoje,
soldados nos conflitos com o sul. boa parte destes soldados servem aos barões
que aceitaram a ocupação do Tribunal, mas o
Lenora
mesmo mantém olhos atentos sobre estes, já que
(Ínfimo)
sua antiga fidelidade aos Leões é preocupante.
A cidade fundada por Leoric guarda pouco
de sua glória pregressa. Não apenas pela cor- Os Humildes
rupção que se abriga por trás de suas muralhas (200 lanceiros)
de pedra, mas pelo castigo constante ao qual
Formado por qualquer homem e mulher que
foi acometida ao longo dos anos. É uma cidade
deseje servir ao criador. Formam a base da pro-
suja, de ruas estreitas que se espremem por ca-
teção de Tarsanis e o convite para ingressar nas
sas de barro, onde os dejetos correm livres a céu
fileiras dos humildes fez com que muitos ho-
aberto e os miseráveis povoam as ruas como as
mens livres, e mesmo servos, abandonassem as
Se são tão poucos, por que
pulgas nas costas de um cão vadio. A pouca ri-
terras do sul para jurar lealdade ao bispo. Existe
ainda não tomamos Lenora?
queza local fica no forte vermelho, virado para
a promessa de terras quando Lenora cair.
Ouvi dizer que um dito Marius
o sul, onde a corte de Anastásia se banqueteia os lidera. Um arqueiro! De fato,
sem limites com o pouco que aquele povo sofri-
Leões de Braden o desespero deve ser grande.
do produz. Lorde local: Anastásia, a Pecadora.
(Ínfimo) Conta-se que a Sombra lhe
O bispado de Lenora está prometido ao bispo arrancou um olho para que não
Jano, da abadia de São Paolo, que assumirá as- As forças contrárias ao Tribunal contam com
precisasse mais fechá-lo na hora
sim que a conquista for completa. alguns cavaleiros desertores, assim como lan- de fazer mira.
ceiros e até mesmo arqueiros, tamanho é o seu
Forças Militares desespero em fazer alguma frente com as forças
Organizados em ordens sacramentadas que corretas e abençoadas por Deus.
respondem diretamente ao Eleito. O único gru-
po de soldados ainda fiel aos pecadores são os
Leões de Braden.

b 129 b
b Belregard b
Construções e Formações
a
Rio Rubro Cavaleiros Mercantes em Brandevir

O rio Rubro é um dos principais para o conta-


Os cavaleiros mercantes do Brandevir são os
to entre Braden e Parlouma e carrega esse nome
homens corajosos e imbuídos com aquela mis-
devido aos grandes depósitos de barro em sua
são sonhada por são Genaro, o Imbatível. Ge-
margem sul, que deixam as águas com uma to-
naro foi um sacerdote do Tribunal que viveu no
nalidade avermelhada.
período da queda do Império. Ele viu as caste-

Rio Sacro lanias ruírem e entregarem-se ao caos. Enquan-


to todos procuraram a segurança de suseranos,
O rio sacro é um marco para a história de Bra-
Genaro convocou aqueles capazes e sem dese-
den pois foi onde Morovan, o primeiro profeta,
jar nada em troca prestou serviços a senhores
demonstrou mais um de seus milagres, freando
e vassalos, atravessando territórios em disputa
a corrente brutal deste rio caudaloso e cheio de
para levar o que os necessitados precisaram e
pedras traiçoeiras. Morovan não apenas cami-
quando era confrontado tentava apelar para o
nhou pelo rio, como fez todos os seus seguido-
amor ao Criador. Quando o amor era negado,
res passarem em segurança. É local onde ainda
fazia valer a força conquistada nos treinamen-
são feitos batizados e suas águas, apesar de con-
tos diários da abadia de Leoric e trazia o ar-
tinuarem perigosas, são consideradas sagradas.
rependimento aos que se colocavam em seu

Lago das Lágrimas caminho. Assim, os cavaleiros mercantes repre-


sentam uma ponte de contato entre o Brandevir
Diz-se que, quando percebeu a traição dos
e seus muitos inimigos, trazendo informações,
selvagens, o Criador chorrou e suas lágrimas
mas também levando.
formaram o grande lago que isolou as Crianças
Cinzentas do restante do mundo por muito tem-
po. O lago não carrega qualquer outro sinal de
tristeza, já que é fértil em peixes e suas águas Terras Acidentadas
calmas permitem o deslocamento por suas Toda a área central de Braden é de terras aci-
águas com facilidade. É o que mantém os rebel- dentadas. Morros, colinas, serras ao sul, uma
des de Lenora ainda em condições de lutar. área pedregosa, seca e perigosa.

Círculo do Pregador Muralha do Leão


Quando Leoric firmou a pedra fundamental Erguida por Leoric para fazer fronteira com
de seu reino, Lázarus pregou por dias neste cír-
Belghor, a antiga muralha de pedra ainda se
culo de pedras. O local foi usado novamente
ergue, mesmo que praticamente abandonada.
quando o imperador desejou fazer o seu cha-
É formada por pesados blocos de granito e en-
mado para retomar Belghor. É um lugar de po-
cimada por ameias largas, com corredores que
der, de pureza, certamente utilizado antes pelos
podem suportar uma fila de três homens com
selvagens, mas devidamente purificado destes
bom espaço. O portal, com o formato de uma
pecados bestiais.

b 130 b
b DAS CASTELANIAS b
grande cabeça de leão de bronze, pode voltar
a sentir o sangue inimigo. A guarnição local é
a
mínima, formada especialmente por Leões de Aquilo que passa pela muralha

Braden, que mantém uma aliança sutil com Orlit


Ninguém sabe ao certo, mas tropeiros repas-
de Belghor, especialmente para o comércio do
sam tonéis e caixas pela Muralha do Leão. Se-
metal que apoia os revoltosos.
riam armas? Belghor é conhecida como uma

O Virkarium, castelania ímpar na forja do metal negro, mas

Salão de Todos os Santos porque há tanta atividade comercial nesta re-


gião? Aliás, é mesmo uma atividade comercial?
Encravado em Ravison está o coração do
Nas tavernas são ouvidas histórias sobre o trá-
criadorismo. O Virkarium é novo, erguido fico de crianças e até sacrifícios obscuros. Se-
quando o Tribunal percebeu a corrupção la- riam apenas boatos?
tente de Virka. Pensou-se em mudar o nome
Aquilo que passa pela muralha
da sede da fé, mas os oradores julgaram que
é algo enraizado para os fiéis. O Virkarium O isolamento em Brandevir se explica de for-
fica em um complexo dentro da cidade, com ma geográfica no norte, com o pântano Brago
a catedral dos santos em seu centro, morada impedindo o avanço. No oeste, esta limitação
e tribunal do Eleito. Protegido pelos melhores se faz de forma política, com fronteiras brutas
cavaleiros sacros, a elite igslava que formou com Vlakir, especialmente, que disputa uma
as fileiras da ordem no começo de tudo. supremacia religiosa com o Tribunal e den-
tro do território, por mais que este relato dê
a entender que a maior parte de Braden já foi
conquistada, as Terras Acidentadas ainda são
nutridas com o sangue de muitos. A situação
do sul é de uma verdadeira guerra civil, com
barões jurando lealdades em um dia, para no
outro destilarem traições severas. Anastásia
não está tão mal quanto julga o texto escrito
por um enviado do Eleito. Ela conta com os
Leões, cavaleiros, lanceiros e arqueiros que
darão suas vidas pela baronesa.

b 131 b
b DAS CASTELANIAS b

Dalanor
“Orgulhosamente bela.”

Cuidado com o que fala sobre


esse homem. Investigadores
do Tribunal relatam que o rei
Capital Adoração
tem relações sexuais com
Galliard. Criadorismo. Não se pode chamar o povo de
animais e criaturas feéricas
Dalanor de pagão, o criadorismo é forte den-
que residem na floresta. Não é
Poder tro da castelania, como religião principal e fun-
possível confiar nem mesmo
Galdrich, o Belo, A Voz de Dálan, Punho de damental, contando com a presença de bispos
na Oradora de Dalanor, pois a
Isegrin, Tendão de Urshol, Inimigo do Raposo e conselheiros religiosos na corte de inúmeros
mesma já desfruta dos prazeres
e Senhor do Amanhecer, Aquele que Deita em de sua cama.
duques e condes. A despeito disso, Dalanor é
Relva Branda, O que Reina do Lago, Portador uma terra de forte misticismo, onde as lendas
do Alaúde de Ouro e Duque de Galliard. Tido da antiga corte do rei Dálan povoam o imaginá- Nunca coma um alimento vindo
como o homem mais bonito já visto nesta era, rio rotineiro de homens e mulheres. Este apego de terras dalanas ou vendida
seus olhos são penetrantes, azulados como o às tradições antigas é tolerado pela igreja, desde por um dalano sem orar e con-
céu da primavera, físico magro e elegante, com que não entre em conflito com seus ditames. sagrá-la ao Único. Seus ritos
cabelos caindo em cascatas cor de oliva so- pagãos ainda são presentes e
bre ombros perfeitos. Sua imagem é o reflexo População os grãos são banhados com
da beleza de Dalanor e o rei ama-se acima de Majoritariamente formada por dalanos, mas imundície pagã desde o plantar
qualquer outra coisa. Seu corpo é tão delicado com um significativo número de parlos e mesmo até o colher do fruto. Tudo
e belo que poderia ser confundido com uma vihs. A vida em Dalanor segue uma melodia que ritmado por canto blasfemo e
mulher se assim o desejasse. Sua prepotência é apenas os mais atentos podem escutar. É co- danças rituais envolvendo
devida, afinal, todos que o conhecem se rendem mum que se cante sobre os afazeres e todo tra- fogo e sexo.
aos seus encantos, ficando fascinados por sua balhador conhece alguma canção que põe ritmo
beleza, fineza e eloquência ao pronunciar cada em seu serviço. A música está entranhada na
palavra. Por sempre ter todos aos seus pés, o rei mente dos povos desta terra verdejante. Mesmo
não costuma lidar bem com a perda. Seus olhos os selvagens kilthens das terras altas possuem
demonstram desprezo e preconceito aos estran- uma tradição com suas vozes graves que ten-
geiros, ao mesmo tempo que demonstra extre- tam vencer a força do vento e com os varnos do
ma possessão por toda Dalanor e cada pessoa leste, que dedilham seus lamentos em violões.
que nela vive. Sua corte deve estar sempre pron- O dalano exemplar é um apaixonado pelo que
ta e disponível, seus servos sempre belos e ar- faz e este traço de excelência pode ser absorvi-
rumados, cada coisa perfeitamente arranjada. do por aqueles que vivem tempo o bastante na
O rei ainda não é casado. castelania. Como o trovadorismo, o amor cor-
tês e inúmeras outras expressões nasceram em

b 133 b
b Belregard b
Dalanor, é muito comum que o amor pela arte,
pela música, pela tradição de fábulas e lendas
a
Aqui podemos ver como o sejam absorvidas por outros povos que lá vivem. A Música do Corpo
misticismo e mágico rondam a
vida de um dalano desde seu Símbolo/Cor Um dos mais antigos braços da fé do Criador
nascimento, com essa pequena Em um estandarte dourado, um leão cor de das regiões dalanas afirma que o ser humano
canção de ninar fica mel demonstra toda a imponência do rei do mun- é uma harpa com dez cordas, cada uma delas
realmente claro.. do, afinal, o sangue do rei dos animais corre nas representando um nível do corpo. Se estiverem
veias desse povo. Duas plumas mescladas em desafinadas, não existe equilíbrio físico, mental
Rabo de Tiecelin cinza e preto representam a cor do corvo e do e espiritual, impossibilitando alcançar o estado
Traga mais sorte pra mim! lobo, homenagem de Tiecelin e Isegrin. A harpa sagrado. Para que haja harmonia, precisamos
Rabo de Tiecelin de dez cordas, item tão famoso e emblemático, ajustar a tensão em cada corda. A técnica de
Traga mais sorte pra mim! faz-se presente. A harpa superior demonstra tan- controle de humores através da sangria junto à
to o Único quando o rei Dalán. As três harpas música é uma das principais técnicas espirituais
Barriga de Renart inferiores representam as três faces do homem e médicas para cuidar de alguém em Dalanor.
Leva esse azar pra lá! - carne, alma e ego -, representam também os Se pudéssemos definir de um modo simples, a
Barriga de Renart Puros e os míticos conselheiros, Tiecelin, Isegin igreja faz vistas grossas para o misticismo de
Leva esse azar pra lá! e Renart. Dalanor com medo de perder um aliado impor-
tante, perdendo este povo definitivamente para
Cabeça de Isegrin O Passado os cultos selvagens.
Traga mais sorte pra mim! O povo de Dalanor sustenta uma mítica mui-
to poderosa. Segundo contam as lendas, este
Cabeça de Isegrin
reino foi o lar do mais valoroso dos homens,
Traga mais sorte pra mim!
o Rei Dálan. Dálan é pintado nas tapeçarias O Presente
à forma de um leão e encarna assim os valores Devido a ter contato com grande presença
da honra, coragem e liderança. Para alguns, isto imperial nos idos da Era da Conquista, a presen-
pode ser sinal de que a antiga Dalanor foi lar
ça da igreja também é muito forte nos dias de
de Selvagens, mas a maior parte dos dalanos
hoje, sendo que ela divide poder com o rei – por
caçoam destes boatos e alegam a mera inveja
vezes o superando em certas ocasiões. Galdri-
Onde está as informações dos difamadores. Na época do domínio im-
ch, o Belo, é rei de Dalanor e faz o possível para
sobre o antigo castelo de verão perial, Dalanor tornou-se um dos principais
manter o controle de seus súditos. Não é um mo-
do Imperador? Os grupo de focos da corte. Em seus momentos de descanso,
os imperadores ocupavam os mais belos salões narca cruel ou ditatorial, motivo pelo qual tem
cavaleiros retornou com as entrado em conflito com os representantes do
informações que pedi? Conse- e se entregavam aos mais variados festejos. Em
certas épocas, Dalanor tornava-se a capital do Tribunal do Supremo Ofício em seus domínios.
guiu fazer um mapa descente
império, já que assuntos importantes precisa- Diante do punho frouxo do monarca, a igreja
da região? Os boatos sobre sente-se no direito de agir e assim emprega o
vam ser tratados e uma viagem para Virka
fantasmas e seres das trevas estava fora de questão. Dessa forma, quando seu pequeno, mas bem treinado, contingente de
que habitam nele parecem ter voltou a ter sua independência, este reino foi cavaleiros sacros para cuidar dos assuntos que
algo de verdade? Sobre os uma das poucas castelanias a manter uma fogem ao seu controle. Dalanor foi um dos
tesouros dosVlakir, unidade forte e um rei no poder. poucos reinos a dar continuidade a uma uni-
alguma pista? dade coesa com o fim do Império. A maior
do rei e já se deita
Ouvi dizer que Amelí caiu nos encantos tolerado. representante do Tribunal é a Oradora Amelí,
com ele. Isso não deveria ser que procura ser boa aliada do rei.

b 134 b
b DAS CASTELANIAS b
ganância dessa terra é tão grande que os têm É digno de nota informar sobre
a assustado. No fim das contas, O Rei Galdrich as inúmeras variedades de vinho
Fauna e Flora Fantásticas está mais disposto a ficar no seu lugar, bebendo e queijo encontrados em Dala-
vinho e deixando seus inimigos lutarem. Muitos nor? Falo sobre a briga comer-
Aquilo que se destaca na natureza particular
estudiosos vêm até à castelania para aprender, cial entre Dalanor e Varning
de Dalanor
viver sob o modo de vida dalano. Este é o maior sob o domínio comercial? Não
Theodrora: ou Fruto dos Deuses, frutos escu-
tesouro que Dalanor pode oferecer no fim das sei se seria digno de nota
ros que nascem em arvores de 4 a 8 metros.
contas. Um povo que não se orgulha da guerra, citar tal fato em um livro de
mas do amor que pregam ao mundo. Não que tamanha importância.
Sua semente pode ser seca ao sol, ou em for-
eles estejam fazendo esforço de esconder, mas
no, para ser usada na fabricação de um doce
dificilmente você aprenderá tudo de um dalano.
marrom escuro, levemente amargo e extrema-
Existe um ditado nestas terras que definem bem
mente saboroso. Utilizado das mais variadas
isso “os livros guardam pouco conhecimentos
formas, desde endurecido em pequenas bar-
daquilo que é necessário aqui”. É preciso viver
ras até derretido em calda para acompanhar em Dalanor para aprender sobre esse povo.
pratos salgados.
Assentamentos
Quimera: Nas histórias antigas dizem que to- Dalanor age de modo um pouco diferente das
dos os animais cruzavam entre si, não bastan- outras castelanias, sendo dividida em quatro
do, existem lendas que falam sobre homens e grandes regiões, cada uma chamada de Corte.
animais se deitando em uma grande e profana Essas divisões falam sobre uma tradição mui-
orgia. Isso possivelmente é a origem de estra- to antiga, como quase tudo em Dalanor, onde
nhas criaturas chamadas vulgarmente de qui- o Leão, o Corvo, o Lobo e o Raposo discutiram
meras, uma mistura confusa entre dois ou mais por dias sobre como dividiriam o reino. Por esse

animais e em alguns casos, com uma similari-


motivo, precisarei apresentar esse domínio de
forma diferente dos outros.
dades profana com partes humanas.

Corte do Leão
A mais nobre das Cortes, morada do rei e da
Relações e Comércio maioria dos membros reais. Aqui se encontram
Mantendo um comércio interno com as moe- a capital Galliard e as chamadas Terras Nobres,
das do império, Dalanor tem interesse em au- a Floresta Altiva e a Fonte Tangite. É admirável e assustador ver
mentar suas relações com o norte, mas tem
como os dalanos mantem o
medo das movimentações que ocorrem entre Galliard
mesmo amor pela caçada que
Rastov e Viha. Eles preferem ficar longe de Var- (aprox. 15.000 habitantes)
seus antecedentes, centenas
ning, têm medo de amarras mais firmes do Tri-
A cidade só não se tornou uma cidade gigan- de anos atrás. Seria belo
bunal aqui, mantendo apenas o contato minima-
tesca porque possui um espaço limitado. Gal- se tivessem evoluído à luz
mente necessário. Mesmo tendo uma visão da
liard é uma fortaleza no grande lago Le’nore. da civilização, mas não, ainda
religião bem parecida com as demais, Dalanor
Uma aldeia se espalha pelas margens do lago, caçam como os primitivos
possui muitos costumes peculiares, principal-
mas o centro principal da corte dalana ocorre homens pisando descalços
mente envolvendo toda a mistica folclórica de
atrás de suas altas muralhas. Sempre existem e pedindo licença para cada
seu povo e não querem abandonar isso. Eles têm
pessoas saindo e pessoas chegando. Galliard árvore e animal que matam,
tentado contato por mar com Parlouma, mas a
possui uma corte tão pomposa, bela, luxuosa e como eles fossem mais do que
b 135 b coisas a nos servir.
b Belregard b
ensaiada que é um espetáculo por si só. As ruas moram aqui nunca trabalharam para se manter,
da cidade são limpas e suas casas são extrema- vivem para pensar, criar, divagar e produzir be-
mente bem cuidadas. Essa é uma ordem real, leza, vivendo daquilo que é coletado dos Grande
independente dos custos disso. Tudo de mais Campos. Nasccio é uma cidade apertada, ruas
belo e puro produzido no reinos é trazido para a estreitas pavimentadas com pedra que serpen-
Corte do Leão essa é uma ordem real. Patrono teiam de modo confuso. Nasccio cresceu de
Local: Galdrich, o Leão, A Voz de Dálan. uma vila de pensadores para uma cidade grande.
Patrono Local: Yeliana, A Vidente. Esta jo-
São tantas festividades Terras Nobres vem fora encontrada na região da Fonte Tangite
pagãs, tanto sincretismo, São o extremo nordeste, banhada pelo rio por um soldado e entregue para o Rei. Ele deci-
tanta mistura e blasfêmia que Melisarde, pelo delta do Lac Le’Nore e pelo rio diu trazê-la para sua corte depois de ouvir sua
seria impossível descrever mui- Loyal. Uma região bela, farta e selvagem. Aqui história. A jovem afirma ter sido raptada quando
to sobre elas sem manchar a está a região da Floresta Altiva, local onde está criança por criaturas da Floreta Altiva muitos
pureza de tal tomo. Mas lhe construída a Real Morada Outonal do Rei, e anos atrás e após conhecer a sociedade dos se-
prometo enviar uma epístola também é onde são celebradas muitas das fes- res de lá, ela foi arremessada de volta ao mundo.
especial sobre tais comemo- tividades folclóricas de Dalanor e de acordo as O Rei adorou a história e possui enorme estima
rações. Me preparei espiritual- lendas, é morada de dríades, faunos e espíritos pela jovem. Alguns dizem que ela está esperan-
mente para adentrar no fogo faéricos. A Fonte Tangite é um lugar entre pe- do um filho do mesmo.
e dança pagãos e relatar nada dras ancestrais e a fonte é extremamente bem
além do que vi e ouvi. Casa dos Oficios
cuidada e sempre vigiada. Daqui são retirados as
sangue sugas usadas no tratamento dos humo- Uma enorme casa, outrora uma fortificação
Eu já quis visitar o lugar res dos nobres de Dalanor, e para os mais pode- militar, onde os jovens são ensinados sobre
e relatar cada detalhe do rosos de Varning, Viha e Parlouma. Sua água é oficios e artesanatos uteis para a vida do povo
processo de coleta das sangue tão pura que existe um acordo com Birman onde dalano. Você precisa pagar para ser aceito, mas
sugas, mas fui impedido. Dalanor deve ceder barris desta água tirada na não muito, além de precisar comprar seu próprio
Guardas reais protegem o fonte para a realização de celebrações sacras, material e sua estadia aqui. Juntando tudo isso,
lugar dia e noite. Peço que sendo o batismo e a lavagem da escadaria as os pobres só podem contar com a generosidade
mova seus aliados para que principais dentre todas. de um padrinho, caso seu filho seja um prodígio.
me consigam uma carta branca Os jovens são testados e então enviados para
para relatar o que ocorre em Corte do Corvo mestres. A ligação de um pupilo com um mestre
tal lugar, o Tribunal Englobando a região centro-leste, seguindo é quase tão forte quando a relação de pai e filho,
precisa saber. uma relação para a vida toda. Seu mestre lhe
pela margem do rio Loyal. Aqui se encontram
a cidade de Nasccio, lar da Casa dos Ofícios, e ensinará tudo que sabe sobre sua especialidade,
a cidade de Tangrare, lar Orquestra Sinfônica e que vai desde a olaria, forja, pinturas de vitrais,
Bravas Escolas Musicais do Nosso Senhor, todos curtição de couro e afins. Dentro da sua especia-
sendo cercados pelos Grandes Campos. lidade um jovem aprenderá sobre a praticidade,
usando-a para facilitar sua vida corriqueira, mas
Nasccio aprenderá também sobre a arte e espiritualidade
(aprox. 8.000 habitantes) existente em cada uma das suas criações.
Esta cidade sempre foi casa de grandes pen-
sadores, um lugar intocado pela guerra e o Rei
pretende que permaneça assim. Muitos que

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b DAS CASTELANIAS b
Tangrare Corte do Lobo
(aprox. 5.000 habitantes)
Fazendo a vigia da fronteira marítima, esta
Cidade irmã de Nasccio que vive sob as cordas região engloba parte do sudoeste e extremo sul,
da arpa. O Rei Dalán mandou construir Tangrare por toda a costa. A principal cidade é Suvraire,
após ter um banquete arruinado por uma trupe lar dos bancos e principalmente dos Villeres, os
de músicos péssimos. Tangrare foi construída cobradores de imposto, e Couppaccio, sede das
para parecer com uma harpa de dez cordas e forças militares de Dalanor.
por isso é muito fácil caminhar por ela. Tangrare
respira e vive música, essa é sua única função. Suvraire
Moradores da cidade incluem familiares de alu- (aprox. 6.000 habitantes)
nos que foram aceitos nas Orquestra Sinfônica e Tudo que é produzido por Dalanor passa por
Bravas Escolas, músicos, poetas e todo tipo de Suvraire, seja em corpo presente ou em modo de
artistas que vivem de embalar a vida dos dala- dinheiro. Toda a riqueza do reino passa por aqui
nos. O comércio de Tangrare deve-se quase que de algum modo. Além de escoar a produção do
totalmente à arte. Monarca Local: Oberon, O reino para Viha, Varning e Parlouma pelo rio e
Prateado. O mais velho homem de Tangrare pos- oceano, a cidade é importante por ser a sede dos
sui o melhor ouvido de todo o reino, tanto para Villeres, os homens do rei, cobradores de impostos.
a música como para tramoias da corte. Todos os Patrono Local: Erico Três-Pontas, Mestre das
nobres vêm para Tangrare e seus ouvidos garan- Moedas. Este jovem homem ambicioso e sagaz
tem que nada passe despercebido, somente para enriqueceu após criar um sistema de contas
depois ser repassado para o Rei. Além de tudo com base em segredos numéricos raptados de
isso, ele é o maestro da Orquestra. um viajante de Parlouma. Ele foi agraciado pelo
Rei após criar um sistema de recompensas para
Orquestra Sinfônica e
cada fraude encontrada por um Villere, assim
Bravas Escolas Musicais
garantindo total afinco de seus homens. Como
A maior e mais bela orquestra de Belregard, o não poderia ser diferente, Erico é o Mestre das
local possui uma das arquiteturas mais incríveis Moedas e chefe dos Villeres de todo o reino.
Assim como na Fonte
de todo o mundo conhecido, com colunas de
Tangite, tentei ter acesso
mármore Belgho trazidas por mar no ápice do Couppaccio a alguma catacumbas e fui
império e veludo vermelho da melhor qualidade. (aprox. 10.000 habitantes) desencorajado, quase impedido.
O lugar é um enorme complexo, envolvendo sa-
Temi por minha vida e resolvi
Aqui está o coração militar de Dalanor. Lar
las de estudo e locais para apresentação. Exis-
retroceder, mas não antes de
de bravos cavaleiros das 3 forçar militares que
tem pessoas de todo o canto do mundo aqui.
conseguir mercenários dispos-
mantem o reino sob os trilhos desejados pelo
Apenas os melhores um dia sairão das escolas
tos a investigar um mausoléu
rei. A menor das grandes cidades de Dalanor
e irão para o grupo de músicos oficiais. Esse
e me trazerem informações.
foi erguida sobre as construções selvagens des-
processo é longo, pois cada músico tem que
Eles ainda não retornaram,
truídas na Era das Revelações. Os subsolos de
provar sua capacidade por no mínimo três anos,
será que foram aprisionados
Couppaccio possuem centenas de catacumbas,
somente então será avaliado por uma bancada
pela guarda ou encontraram
caminhos e labirintos desta antiga fortaleza
extremamente exigente. O Rei costuma descer
um fim pior?
selvagem, o que veio a calhar. Couppaccio vive
até Tangrare para ver apresentações e dar ins- basicamente do comércio movimentado pelas
piração aos jovens ao presenciarem sua beleza. forças militares, desde couro para arreios, ma-
deira, aço e outros. As catacumbas, masmorras e

b 137 b
b Belregard b
Doenças desconhecidas, chagas locais subterrâneos são usados pelas forças mi-
litares para esconder coisas que o rei não quer
a
que corroem a carne, quebram
os ossos e liquefazem seus ver andando por seu reino, coisa que ele julga A Nefastária

olhos. Este lugar deveria ser indignas. Patrolo Local: Lüdvig, O Lobo. Sen-
Apesar de certas amenidades que podem ser
expurgado da terra. Ainda sinto do o homem mais jovem a receber o título de
sentidas pelos visitantes da castelania, Dalanor
seu cheiro e só de lembrar, Lobo, Lüdvig possui rivalidade ferrenha com
guarda em sua história recorrentes surtos de
minha pele coça. Erico Três Pontas pela atenção do rei. Lüdvig
uma moléstia cruel e letal: a nefastária. Adqui-
está disposto a fazer o que o rei quiser, tudo
rida nos pântanos de Spergestus, esta doença
que ele desejar será realizado com a mais veloz
inicialmente desenvolve fortes dores no corpo
presteza. Seu coração acelera ao ver vossa ma- e febres àqueles que são contaminados. Não é
jestade destilando sua beleza divina. incomum a cremação de corpos vivos e de toda
uma casa na qual havia um doente, tamanho o
Corte da Raposa temor desta doença se alastrar. Todos sabem
Situado na região centro-oeste do reino às que se trata dos ares pútridos do pântano, daí
margens do Ventre Selvagem. Apenas um aglo- o nome nefastária; esta doença que faz com
merado de vilas e cidadelas que recebem o nome que as gerações vindouras de contaminados

de Spergestus, sendo que sua população ultra- nasçam como tolos. Não é incomum descobrir

passa mil pessoas. Aqui foram arremessados os que alguém da família foi contaminado, basta
ver as crianças falando sandices, que muitos
mais pobres e bandidos. A cidade é quase uma
consideram verdades do passado ou premo-
prisão. O que sobra da colheita é enviada para
nições. Há alguns que também profetizam ou
cá, assim como o resto de tudo o que for produ-
revelam segredos durante os delírios febris.
zido. Para se manter um reino tão belo, a feiura
Boatos afirmam que o governo da castelania
deveria ser afastada à força. As forças militares
executa os contaminados para que nada secre-
irão arrastar pessoas para esse lugar, fazendo to saia das bocas dos doentes. Mas há quem
uma limpeza elitista ao gosto do seu rei. Os mais diga que a corte de Dalanor usa alguns doentes
loucos e irremediáveis, seja de doença na mente ainda vivos e presos em masmorras para reve-
ou na carne, algo que ofende a visão, são arre- lar desígnios nefastos sobre Belregard, fazen-
messados na Ilha dos Invisíveis. A única figura do-os viver uma vida em febre e alucinações até
de poder de toda essa região fica por conta do morrerem vomitando suas próprias entranhas.
condado de Lefevre, que pode ser considerado Mas estes são apenas contos nefastos para uma
o centro de Spergestus, atualmente sob domínio castelania tão alegre e cortês.

de Alain, um ditador louco.

Forças Militares
Seus soldados vagam por toda Dalanor em co-
Situadas em Couppaccio e guiadas por Lüd-
mitivas prontas para o combate a qualquer mo-
vig, O Lobo, as forças de Dalanor se divi-
mento. Eles criaram um sistema de mensagens
dem em três facções que possuem funções
que permite se alertar perigos grande velocida-
bem distintas.
de, usando desde flechas sinalizadoras à falcões
Crinare mensageiros treinados.
(240 lanceiros e 100 cavaleiros)
Eles são os soldados responsáveis pela frontei-
ra costeira e a fronteira com outras castelanias.

b 138 b
b DAS CASTELANIAS b
Arret Grandes Campos
(150 lanceiros e 50 cavaleiros) Histórias dizem que a fauna e flora de Dalanor
Estes homens de armas agem na camada mé- possui vida mistica, algo que reverbera na Fím-
dia, sua tarefa é cuidar dos problemas internos, bria de modo especial. Por isso mantem muitos
entre cidades, se focando principalmente nas dos ritos, festividades e celebrações envolvendo
estradas do reino. Existe uma briga intensa en- o preparo, plantio, aguardo e seara. Os Grandes
tre os soldados do Arret e os Villares, pois existe Campos são uma enorme região responsável
um abismo de poderio financeiro entre ambos, pelo grosso da produção de alimentos da cas-
e os últimos gostam de esfregar isso na cara telania, focada em sua área central. Os anais
destes homens de armas. da história contam que antes do atual rei, o
Tribunal proibiu partes destes ritos, o resultado
Griffu foi fome e calamidade. Quando o rei Galdrich
(300 lanceiros e 30 cavaleiros) assumiu, ele mandou executar uma grande ce-
Se o Crinare age nas fronteira do reino e o Ar- lebração e convidou seres da floresta. Aqueles
ret age nas frontas das cidades, o Griffu traba- que se lembram, falam de modo confuso sobre Abominação!
lha nas ruas das cidades, resolvendo problemas bebidas, comilança, ervas alucinógenas e visita
interinos causados pelos cidadãos. De uma bri- de diversas criaturas que dançaram e copula-
ga de taverna a um acordo não resolvido entre ram com os humanos. Desde lá, os seleiros de
comerciantes, tudo será resolvido pela Griffu, Dalanor nunca estiveram tão cheios de grãos.
eles são uma organização feita para lidar com o
cidadão diretamente. Mais do que o rei gostaria
Rio Melisarde
de admitir, membros do Griffu estão propícios à O rio se alimenta do que desce pelo lago Na-
corrupção e suborno, o que os coloca em rivali- rash de Rastov e sua fartura em peixes é len-
dade com soldados do Arret. dária. Esta fartura é justificada pelos milagres
de um mulher dalana, Melisarde, que fez o rio
Marcos Geográficos correr novamente muitos séculos atrás, quando
Ilha dos Invisíveis os igslavos o bloquearam para enfraquecer Da-
lanor antes de um ataque.
As construções desta ilha foram original-
mente criadas para monges que precisavam Lac Le’Nore
de isolamento para ter contato com o divino. Há quem diga que amarram os
Este lugar caiu em desuso há seculos após ser
O lago que cerca a ilha onde está encravada
desertores da corte em pedras
inundada várias vezes. Hoje, o local serve como
Galliard. Suas águas de um azul intenso dão a
e lançam no lago. Seriam os
entender que o lago é muito mais profundo do
uma prisão para pessoas horrendas, mutiladas amáveis dalanos tão cruéis
que parece ser. Outros, mais espiritualizados,
de modo grotesco, aberrações nascidas com com opositores?
alegam que o lago pertence a noite e por isso se
deformidades, além de loucos e lunáticos. De-
inunda de um azul profundo durante o dia, para
vido uma ordem direta do rei, as forças milita-
lembrar aos homens que a noite é dos poetas
res, principalmente o Griffu, têm liberdade total
e dos trovadores. O próprio rei Dálan apreciava
para arremessar alguém aqui. Eles são jogados
ouvir suas melodias no lago, ao anoitecer.
lá para morrer, mas como os malditos tendem a
se ajudar, os moradores de Spergestus levam em
canoas o resto do resto que possuem para que
estes esquecidos possam sobreviver.
b 139 b
b Belregard b

Este local é muito antigo. Acredito que exista desde a Era da Verg
onha e sendo
assim deve ter sido habitado por selvagens, o que explicaria a corrupçã
o tão laten-
te no sangue dalano. Precisamos manter vigilância sobre este domíni
o.

Gravura estilo bertina de


Motazzi mostrando Lac Le’Nore
ao redor do castelo Galliard.

b 140 b
b DAS CASTELANIAS b
Rio Loyal colocados naquela posição é de tirar o sono
dos mais criativos. Não existem grandes mon-
O rio Loyal apresenta uma coloração verme-
tanhas em Dalanor, e nenhuma rocha parecida
lha intensa em suas águas barrentas. Enquanto
com as da formação. Acredita-se que aquele
alguns alegam que é o próprio barro dos bancos
seja um Ventre Selvagem, um local de ado-
ao sul do Lac Le’Nore, outros alegam que suas
ração dos povos primitivos, para o louvor de
águas rubras servem como alerta do que foi fei-
Patriarcas e Matriarcas.
to ao povo dalano com a chegada dos belghos e
sua verdade sobre o mundo. O quanto do san-
Floresta Altiva
gue inocente foi derramado quando estes não
foram diferenciados dos selvagens. O nome serve para mostrar toda a área de
floresta de Dalanor, que engloba praticamente
toda a castelania. Para os dalanos existem nuan-
ces, certas áreas onde a vegetação se mostra
Alguns chama este rio de Deloyal, diferenciada, onde eles apelidam com nomes

algo que denota a desonestidade das próprios, mas para o visitante é difícil discer-

atividades que ocorrem em alguns pontos nir tais elementos. As florestas de Dalanor são
assombradas por beleza e espanto. Não só por
em sua margem. Bandidos e assassinos suas imensas árvores, mas pelas lendas e fá-
negociam vidas e ouro com o mesmo bulas de estranhas luzes dançantes ao anoi-
descaso por aqui. Dizem que o rio fica tecer e das cortes de fadas que ocorrem em
vermelho na lua nova, refletindo o sangue clareiras abençoadas.
de todos que já morreram por desleal-
dade que cerca o local. a
O Isolamento em Dalanor

Terras Altas Num primeiro momento é fácil imaginar que


Dalanor é o melhor lugar para se viver. Talvez
No noroeste de Dalanor, junto a fronteira
seja, se você for belo, perfeito, aos olhos do
com Viha, existem as terras altas escarpadas.
rei. Além dos perigos comuns a qualquer lu-
Um terreno livre de grandes florestas, mas pon-
gar, como bandidos de estrada, caminhos ruins
tilhado por bosques e lar dos kilthen. Os clãs
por dentro das florestas, e as bestas quiméri-
dalanos ocupam esta área, dividindo-a entre si e
cas que nada mais são que um reflexo de tudo
suas reuniões, em terrenos neutros das terras al-
aquilo que o monarca abomina, Dalanor vive
tas, são marcadas por libações que duram dias, sobre uma tênue linha de perturbação. O glo-
festividades que geram prazer, sangue, o fim e rioso reino de Galdrich deve ser sempre belo
o início de contendas. e bandos de viajantes maltrapilhos certamen-
te não se encaixam nesse contexto. Em um
Ventre Selvagem mundo onde é raro chegar a maioridade com
Junto da corte da Raposa existe uma anti- todos os dentes na boca, é muito simples atrair
ga formação de pedras circulares que intriga atenção indesejada das muitas patrulhas do

viajantes. Muitos já tentaram explicá-la, mas rei. O que faz o perigo de Dalanor é a loucura
disfarçada de pureza de seu rei.
a mera ideia de blocos tão grandes de pe-
dra sendo transportados para aquela região e

b 141 b
b DAS CASTELANIAS b

Latza
“A alegria é, muitas vezes,
mãe de inúmeras loucuras.”

Capital População
Lazari. Majoritariamente formada por belghos, mas
com algum número de parlos. Latza tem uma
Poder relação íntima, desde os dias de sua fundação,
Vittus II, Dementia Rex. Um louco feroz e com dois elementos comuns na vida de todo ho-
lunático, essa é a descrição para Vittus. Doze mem, mas que normalmente são negados por
duques passaram por Lazta, e a dinastia La- motivos corriqueiros, como o medo e a doutri-
zari foi toda enterrada no Mausoléu das Eras. na. Estes elementos são a Morte e a Loucura.
Ele mandou desenterrar seus antigos ancestrais, Originalmente, os Lazari lideraram um culto
parentes e amigos mais próximos, “mumificar” a morte dentro de Latza. E por mais que este
e colocá-los em sua corte, para que nunca se estivesse escondido, recentemente Vittus fez
sinta sozinho, sempre acompanhado da Amici- aflorar a loucura de sua linhagem e esta parece
tia Mortuus. Ele busca seus aconselhamentos, contaminar todos ao seu redor, se espalhando
festeja ao lado deles. Ele tem proferido verda- pela castelania como uma onda. A loucura não
deiras sandices, como dizer que o eleito bebe é tão bem expressada individualmente como
sangue de Angellus, ou ainda ele diz que existe traços característicos pessoais, mas serve como
uma capela invertida que leva à Alcova Profana lembrete para aqueles que precisam se relacio- Como é crença na região, o
ou mesmo que existe um Puro que se tornou nar com habitantes de Latza. Já a relação com choro e o a dor ajudam na
corrompido e é imortal. Essas, dentre outras a morte vem de maneira mais palpável. Fruto passagem do morto. Assim,
loucuras tomam formas ainda maiores quando dos latos, um povo recluso que compartilhou as famílias que podem
a lua cheia toma os céus. de seus saberes com os Lazari. Em Latza não pagar, contratam bardos
se tem o mesmo repúdio e medo da não vida. para emocionar as pessoas
fonte é O que existe lá é um respeito quase exacerba- fazendo-as chorar e sofrer
Tem certeza sobre isso que afirma? A sandice do para com os mortos que se traduz em cultos por tal perda. Além disso,
realmente confiável? Isso me parece co. fervorosos a relíquias sacras de partes dos cor- mulheres devotas à santa
exagerada até mesmo para um rei lou pos de homens santos e a velação de corpos por igreja vizinham famílias
vários dias, enquanto estes decompõem diante em luta para chorar pelo
dos olhos de todos. falecido, empurrando-o para
o mundo dos mortos.

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b Belregard b
Adoração crescer, apesar deste nunca ter se tornado uma
Adoração independente. O Tribunal não tem castelania independente, pela obediência aos
grande força na castelania, mas todo homem Vlakin, os duques Lazari conseguiram uma boa
ainda é temente a Deus e assim faz seus pró- reputação como gestores e no advento do im-
prios ritos e honrarias. Sacerdotes ainda são pério, suas terras foram conquistadas. Este ato
encontrados, mas não se colocam tanto como foi considerado uma traição. Ciente da riqueza
líderes comunitários. O próprio rei Vittus insti- dos Lazari, os imperiais buscaram as tumbas de
seus antepassados, o que criou o costume no

IA
tuiu os dias de cultos fálicos, exaltando o poder
dominatório do pênis, normalmente em orgias ducado de se enterrar os mortos cada vez mais

ÊM
de proporções assustadoras. Tais orgias são nor-
F
malmente realizadas entre nobres e o clero, mas
fundo. Desse modo, criou-se uma verdadeira
cidade subterrânea sob a estrutura original da

AS
camponeses bem dispostos também são bem mansão Lazari. Além desta exploração, Lazari

BL
vindos ao culto. Eles depositam muito poder ao
destino e acreditam que a morte é apenas uma
foi utilizada como campo logístico para o impé-
rio, abrigando soldados e mesmo prisioneiros. O
parte do ciclo, por isso não carregam profundo Cárcere dos Condenados foi construído na ve-
Por falar em morte, pesar pela mesma. A fixação pela morte se faz lha mansão, que ainda hoje é sede do governo.
existem muitas histórias presente em algumas igrejas que utilizam como 'Lazari conseguiu sua independência, tornan-
de trapaceiros e mentiro- ornamento e adorno os ossos de seus ilustres do-se Latza, quando
Vittus recusou o
so usando o processo de caídos lá sepultados.
apoio do Tribunal,
semi morte causado pelos enviando de volta
frutos dos Arbusteiros Símbolo/Cor
Circundado por plumas de cor mostarda qui- aos oradores apenas
Mori, descritos abaixo, para mera está erguida, com as garras afiadas, mas a cabeça de seu arauto.
se safarem de dívidas e sob controle enjaulada por grades de cor cin-
acusações, se escondendo zenta. Interessante perceber o uso da quimera Gravura estilo bertina
entre os mortos. Acha como simbolo do reino, certamente uma opção de Motazzi represen-
tando Vittus II, rei de
digno adicionar tais rumores que apenas confirma a loucura latente dos mo- Latza recebendo um
requerinte em seus
ao tomo meu senhor? narcas desta terra jovem, além de comprovar a salões.
necessidade de urgência em dar fim a esta lou-
cura toda. Além da lenda da quimera de Bari-
cus, um ídolo de ouro criado para ser louvado,
a própria imagem da coisa é um reflexo distor-
cido de tudo que existe nestte reino maculado.
A quimera é o amálgama, a mistura do que não
deve ser feito, assim como a vida e a morte se
encontram em Latza.

O Passado
Antes da ocupação imperial,
Lazta foi o orgulhoso ducado
de Lazari, uma força in-
dependente dada como
presente a um grande
aliado de Giocomo
Vlakin, não demorou
para que o bom ge-
renciamento das ter-
ras fizesse o ducado

b 144 b
b DAS CASTELANIAS b
O Presente
a Latza é maior do que fora o ducado de
Existe até mesmo um
A Música do Corpo Lazari e vive momentos tensos, já que seu louco
feriado para tal ato, cha-
governante não parece disposto a aliar-se a Vla-
mado de Dementia Oculli,
Aquilo que se destaca na natureza
kir ou Birman, os lados da balança de poder no
onde o rei caminha entre os
particular de Latza
leste de Belregard. Apesar disso, o povo parece
mendigos e maltrapilhos e
Arbusteiros de Mori: Estes pequenos arbus- amar seu governante. Vittus, um descendente
se um deles lhe agradar,
tos crescem em certos locais de Latza e podem da dinastia Lazari, presa pela paz e o sossego,
receberá a honra de se
facilmente ser confundidos com qualquer outra apenas interrompendo-o quando é atingido por
tornar um homem livre e
coisa, já que seus frutos, pequenos e escuros, um de seus surtos de paranoia, quando julga cri-
talvez até um nobre. De
brotam próximo da terra, nos galhos centrais minosos para lutarem em seu amado coliseu de
forma controversa, ela
da planta. O fruto é extremamente venenoso Baricos, ou quando fala da quimera de ouro que
também usa o dia para
e pode matar quem come um ou dois deles. lhe aconselha. Mesmo com seus surtos e atos no
arremessar nobres
Os antigos latzos usam essas frutas para atin- mínimos excêntricos, Vittus não é só apreciado
imprestáveis na pobreza.
gir uma experiência de quase morte. Um chá pelo seu povo, como amado pelos mais humil-
é feito com as frutas, diluído com água, sob a des. O regente já colocou mendigos como con-
supervisão de um sacerdote experiente, que de- selheiros e obrigou nobres a viverem nas ruas.
verá tomar após. O sacerdote deve ser forte, já Muitos dos nobres de Latza compartilham das
que sentirá dores terríveis por um dia inteiro, loucuras de seu senhor.
onde será acometido por delírios, podendo vir
ao óbito. A urina do sacerdote, ainda carrega-
Relações e Comércio
Como mostrado acima, as relações de Latza
da com o poder das frutas, é oferecida aqueles
com seus vizinhos é tensa, para dizer o mínimo.
que desejam experimentar o caminhar para a
O comércio acontece com cidades mais próxi-
porta da morte.
mas nas fronteiras entre Vlakir e Birman, mas a
Ímpio Porcino: Estas bestas vagam pelos maior parte da produção local é destinada a ma-
campos de Latza e não costumam ser caçadas nutenção da castelania e pela infâmia que pos-
de forma leviana. Os homens espertos evitam suem os moradores de Latza, a maior parte dos
as varas porcinas sempre que podem. Chegan- mercadores prefere evitar tal contato ou limitá-
do a altura de um homem, com um couro cin- -lo ao máximo. Entre suas principais produções,
zento e enrugado, exibindo uma crina de pelos podemos citar a beterraba, batata e cevada; a
duros na cabeça e nas costas, com suas patas pecuária é desenvolvida através de rebanhos bo-
finas, em comparação com seu corpo largo, vinos, suínos e caprinos.
mas ágeis e de cascos fendidos, uma face bi-
cuda que termina em presas ferozes, são tam-
Assentamentos
Diferente das demais castelanias, Latza não
bém chamados de porcos do inferno. Sua carne
tem ducados, apenas cidades governadas por
é muito apreciada, assim como as presas para
patronos submetidos aos anseios de Vittus, que
ornamentação. Sabe-se que alguns bandos de
controla Lazari, a capital. Ilkar é controlada por
degenerados enlouquecidos de Latza os tentou
um bufão, Bajnok. Petugia é controlada por um
domesticar… Sem sucesso.
homem com real sagacidade.

b 145 b
b Belregard b
Lazari e Antal Petugia
(aprox. 20.000 habitantes) (aprox. 8.000 habitantes)
A antiga cidade de Aneska se tornou aperta- Encostado nas montanhas a oeste de Latza
da, confusa e caótica. Pela necessidade de mais encontra-se o grande domínio de Petugia. De-
espaço e, principalmente, pelo modo de dividir pois de Lazari, esta é a comunidade mais antiga
os ricos dos miseráreis, Aneska fora dividida do reino. Aqui é treinada a Legião das Crianças.
em duas. Lazari é onde encontra-se boa parte Nos arredores da cidade existe o registro de for-
Como podemos buscar a da história de Latza, sede do castelo real e dos te atividade herética do passado, desde totens a
luz do Criador baseado nas fortes militares. Encontra-se o núcleo da cidade, antigos templos. O Tribunal mandou Latza der-
bases da nossa civilização e a morada do Rei. Antal circunda toda Lazari rubar cada um deles, mas a linhagem dos Lazari
se alguns reis insistem em como uma região periférica espremida por mu- parece ignorar tais ordenanças. Aqui moram a
arremessar seus domínios ros e construções disformes, um local perigoso maioria dos fazendeiros e comerciantes do rei-
em lamaçais de horror e e sem leis, literalmente. A guarda praticamente no, sendo que as famílias vivem bem distantes
caos? Antal é lar de de- abandonou Antal, sendo que seu controle é fei- umas das outras, uma lenda local diz que “viver
zenas de grupos criminosos, to pela intimidação pessoal de cada um. A des- em comunidade lhe deixa insano”, e parece ha-
incluindo sequestradores, peito disso, Vittus é respeitado em Antal e seus ver alguma verdade já que Petugia parece estar
falsificadores de moeda, passeios pelas praças imundas sempre juntam livre dos caprichos lunáticos do Rei Vittus, por
assassinos e toda sorte multidões ansiosas pelos favores arbitrários do enquanto. Patrono Local: Asztrik, O Cinzento.
de malditos. Um lugar a rei. Nobres só saem de Lazari quando vão até o O homem recebeu esse nome por ter sobrevivi-
ser ignorado. Coliseu ou quando precisam viajar para fora da ci- do às fogueiras dos pagãos que habitam as mon-
dade. Patrono Local: Lazari é controlada pelo Rei tanhas de Latza. As cinzas nunca saíram com-
Vittus, Antal não possui poder controlador central. pletamente da sua pele e cabelos. Dizem que a
experiência de quase morte o deixou mais sábio
Ilkar do que nunca.
(aprox. 12.000 habitantes)
O local poderia ser um grande centro politico,
religioso e militar, entretanto a turba confusa O povo daqui parece ter se esquecido do quão sério
impede o avanço. As leis alteradas sem prévio é o paganismo. Falam de tal blasfêmia com natu-
aviso e as sandices do Rei Vittus deixam Ilkar ralidade ímpar, algo que me incomoda. Não bastando,
sem saber com se controlar. Mesmo os nobres riem enquanto assustam suas crianças com cantigas
são obrigados a se adaptar rapidamente. Uma aterroradoras. Veja apenas um pequeno trecho..
longa lista de Patronos já estiveram na lideran-
ça de Ilkar, mas simplesmente abandonaram “Grande, Parrudo, Peludo e Destemido.
ou foram presos, por discordar da palavra real. Arrasta esse menino pra floresta
Dois anos atrás, um bobo da corte encontrou-se Ele não come, não respeita e está sempre fedido
com o rei e compartilharam de suas loucuras. Bate com o machado bem no meio da sua testa”
Rei Vittus retirou o antigo patrono e colocou o
bobo em seu lugar. Por mais incrível que possa
soar, a loucura do bufão parece entender a men-
te insana do rei e pela primeira vez em décadas,
Ilkar anda sobre trilhos. Patrono Local: Bajnok,
Filho da Lua.

b 146 b
b DAS CASTELANIAS b
Forças Militares
É expressamente proibido criar exércitos pes-
a
soais em Latza, logo, aqueles que o fazem ten- Cavaleiros Mercantes em Latza
tarão esconder suas ações.
Não existe qualquer estrutura formal para os
Legere Rex cavaleiros mercantes de Latza. De modo que
(200 Espadachins) são investimentos independentes e, muitas
vezes, extremamente perigosos. Ocorre de al-
Os melhores soldados de Latza são aqueles
gumas pessoas livres se juntarem para montar
treinados no Coliseu. Para adentrar as fileiras
uma caravana composta de apenas uma car-
destes soldados de elite, os candidatos visitam o
roça que pode vender de tudo. De panelas su-
subterrâneo da estrutura na companhia de Vit-
cateadas até orelha de diabos encontrados nas
tus e quando retornam à superfície estão muda-
estradas. Seria fácil confundir um grupo de ca-
dos para sempre. Alguns atribuem esta bizarra
valeiros mercantes de Latza com uma cumpa-
iniciação a mantícora de ouro de Baricos.
nhia strigori, mas este não é o caso. Costumam
Legião dos Loucos (Variável) ser bem pobres, já que a posição não significa
nada dentro da castelania. Realizam um comér-
Homens lunáticos, insanos, instáveis e loucos
cio tímido com Vlakir, já que o mais comum
são comuns na maioria das cidades de Belregard.
de acontecer é que sejam expulsos dos lugares
Normalmente são párias da sociedade, pensan-
onde tentam parar. Existem comerciantes em
do nisso, o rei Vittus recebe todos os loucos
Latza, especialmente no sul, e estes homens
enviados para Latza. Esses loucos recebem um
podem empregar alguns cavaleiros mercantes
tratamento especial e secreto na casa de repou-
mais tradicionais, equipando-os com pouco pe-
so que faz com que os pacientes percam parte
rante o juramento de fidelidade.
da sua reatividade emocional. Depois disso, eles
são usados como verdadeiras bestas carniceiras
pelos soldados da Legere Rex.

Santissimo seja o Senhor. Blasfémia, podridão, ritos Construções e Formações


profanos. Tudo isso misturado com uma medicina estranha De tudo visto aqui, aquilo que se destaca:

e malévola. Cavaleiros deveriam visitar tais terras e Coliseu de Baricos


desmantelar isso tudo.
Antigo coliseu onde ocorriam os jogos do impé-
rio. Foi Vittus quem renomeou o Coliseu, ale-
Legião das Múmias (Variável)
gando ter encontrado uma velha estátua de ouro
Muitos dos soldados famosos foram mumifi- no subsolo da estrutura. Segundo Vittus relatou a
cados e aguardam em um lugar de prestígio no um sacerdote enviado de Birman, a estátua falou a
Mausoléu das Eras. Eles são contabilizados no ele e ensinou segredos antigos.
total de guerreiros do reino, o rei Vittus afirma
que se Latza for atacada severamente, eles irão Labirinto das Ossadas
levantar e lutar para proteger o reino. Quando
O rei encontrou as ossadas dos mortos em va-
necessário, ele manda buscar algum general mu-
las comunais que datavam da ocupação imperial,
mificado para auxiliar em decisões de defesa real.
um episódio que ficou conhecido como Massacre

b 147 b
b Belregard b
da Conquista (1061 DA), quando os Lazari se re-
Sobre a pesquisa de a
cusam a aceitar o domínio dos Vlakin, de quem
castigos e torturas que
fora encomendado por vossa tinham sido fortes aliados, e acabaram massacra- Isolamento em Latza
dos. Disposto a invocar essa ancestralidade, Vittus
santidade, acredito que é O isolamento em Latza se explica principal-
digno de nota visitar esse mandou que os ossos fossem recuperados e usados
mente pelos degenerados. Estes perturbados
para decorar túneis sob sua morada, onde ele gos-
lugar. Com devida autori- existem em toda Belregard, mas seu número
zação, seria de grande valia ta de soltar prisioneiros que atraíram seu interesse
em Latza é assombroso. São homens e mulhe-
para o Tribunal. particular. Os poucos que saem do labirinto de tor-
mento estão mudados para sempre. res dementes que fazem comunidades indepen-
dentes nas florestas, pântanos e montanhas,
Casa de Mumificação com seus próprios reis de coroas de ossos e ca-
samentos reais consanguíneos. Vittus não faz
Os costumes dos Lazari eram macabros e envol-
qualquer esforço para acabar com a presença
viam a prática da necromancia e vivissecção de
destes bandos independentes. Alguns dizem
Infusão de bile, ervas animais e humanos, daí o interesse pela mumifica-
que, todo ano, o rei faz uma grande assembleia
daninhas e coisas ainda ção. Acreditando que devidamente preservado, um
mais estranhas em mortos. com os reis degenerados, onde eles reafirmam
cadáver pode voltar a vida, Vittus reconstruiu tal
Há relatos de espasmos seus votos e foi dessa forma que o rei conse-
morada e colocou homens para estudar este antigo
de vida mesmo após dias guiu seu título de Dementia Rex, que ele carre-
costume, que havia sido proibido. Vittus reconstitui
de falecimento. Além disso, ga sobre todos os outros possíveis. Os degene-
tal costume após receber uma revelação vinda de
alguns alegam conseguir rados são tão comuns nos campos que mesmo
textos sacros antigos onde “Morre primeiro para
vislumbrar o futuro lendo viajantes comuns, comerciantes que sejam, são
depois ser vivificado por mim”. O local é aterra-
entranhas intestinais de de- tratados com hostilidade inicial, até que se per-
dor e profano aos olhos do Tribunal. É um costume
funtos em decomposição à ceba não tratar-se de degenerados.
moderno trazer as crianças aqui, mostrando para
luz das estrelas. Bruxaria as mesmas que a morte é parte de vida e que não
Existem muitas lendas envolvendo os degene-
qualificada. devem temer.
rados aqui em Latza. Uns dizem que eles já fo-
ram humanos são e que muitos querem ajuda.
Casa de Repouso São Pazzo
Outros afirmam que eles possuem ódio e procu-
Criada por volta de 1063, durante a ocupação
ram alvos relacionados ás suas antigas vidas. A
imperial, a casa de repouso visava tratar as ma-
verdade está longe de ser revelada, mas se um
zelas mentais pelas quais passavam soldados e
dia for descoberta, será com ajuda de Latza.
prisioneiros mandados para Latza. Utilizando-se
de métodos sinistros, os médicos de São Pazzo de-
Ainda hoje enviarei uma senvolveram uma técnica para acalmar o mais his-
carta diretamente ao térico dos homens, com incisões na altura das têm- Colina das Espadas
Eleito, lhe pedindo poras, testa e por dentro dos olhos para alcançar Quando assumiu a liderança de Latza, Vittus
uma ação enérgica com o cérebro. Tais técnicas são usadas ainda hoje, mas decretou que as espadas deveriam ser aban-
relação a tal blasfêmia. com avanços sombrios, onde é possível despertar donadas em seus domínios. Antes da loucura
Isso é inaceitável. a selvageria destes loucos com comandos simples, tomar conta de sua mente, o monarca buscou
Sobre a tal doença resultado dessa técnica é a Legião dos Loucos. meios pacíficos para dar ordem ao seu povo e
Insania, que tipo de ordenou que todas as espadas fossem deixadas
informações adquiriu? na colina próxima a Lazari. Hoje este monte é
horrendo, com centenas de espadas enferruja-

b 148 b
b DAS CASTELANIAS b
das e é onde as Crianças da Legião vem jogar
suas armas quando se iniciam na ordem, como
a
gesto simbólico. Vittus gravou a seguinte men- A Loucura de Baricos
sagem na colina: “Trago a paz e não a espada”.
Conta uma lenda antiga que antes da vinda do
Gruta de Irbelle Criador ao mundo dos homens, alguns sacer-
dotes foram capazes de realizar pequenos ri-
Dizem que o rei se apaixonou por uma mulher
tuais e feitiços. Eles conseguiam curar doenças
chamada Irbelle, para encantá-la ele construiu
e até mesmo reviver os mortos. Poucos dias an-
uma gruta para ela. A gruta é totalmente arti-
tes de sua vinda, a ligação espiritual que estes
ficial e foi construída com pedras de todos os
homens tinham com o Pai caiu por terra e seus
tipos, o sol quando nasce passa por prismas de
dons foram perdidos. Muitos enlouqueceram,
cristal que fazem o lugar brilhar em inúmeras
como o infame Baricos. Baricos, o Sereno, foi
cores. Irbelle não gostou do lugar, o rei a ma-
um homem que enlouqueceu diante da perda
tou afogada e usa seu crânio como carranca na
do contato com o Criador. Sentindo-se abando-
gôndola que utiliza para passear pela gruta. Os
nado, mandou que se construísse uma estátua
casamentos reais de Latza são realizados obri-
de ouro de um ser que lhe falou através de um
gatoriamente aqui sob a benção do rei, todos
sonho. Tratava-se de uma aberração com
embarcados em gôndolas.
corpo de leão, cabeça de homem e asas de
Rio Brago morcego - uma verdadeira manticora. Prestan-
do homenagens ao ídolo profano, Baricos
O rio Brago também dá nome a área pantano-
e seus adoradores nem puderam responder a
sa ao seu redor, lar de uma fauna extremamente
forte represália da mão armada dos religio-
diversificada. O terreno acidentado é uma das
sos. Dizem que a figura de ouro ficou por muito
linhas de defesa da castelania contra as ambi-
tempo escondida, já que não viram maneira de
ções de Birman. Até hoje uma das punições por
destruí-la. Esta estátua supostamente foi en-
crimes é ser arremessado no brejo, acorrentado
contrada por Vittus, que agora a utiliza como
em pesadas bolas de metal, por dias, meses ou
um trunfo, talvez sendo até mesmo o que man-
até o fim da vida.
tém tropas invasoras afastadas de suas terras.
Ainda pior, a estátua pode ser o que mantém
a castelania unida, fazendo com que pessoas

“É terrível a cacofon ia que se ouve a aceitem as loucuras de Vittus, desde que pas-

todo momento nos arirosredores dos pâ ntanos . sem tempo o suficiente em suas terras.
m depoi
Muitos dos prisione s sesegusoemltavivendo nas
de algum tempo, ma formando comunidades
lama, na decadência, mpartilham de tudo. Por vezes, eles mesmos
de degenerados que cocativos, mas já ouviu-se sobre prisioneiros que foram
libertam os novos s mesmos homens, depois de não passarem por algum
devorados vivos por esmetento feito pelos mesmos. Independentemente de qual
tipo de torpe julga istência destes enlouquecidos já é uma punição forte o
seja a questão, a exficiente para os que são lançados lá. “
su
b 149 b
b DAS CASTELANIAS b

Parlouma
“Prados e trovões.”

Capital belgho a ser convertido no criadorismo, o san-


Parméquia. gue parlo acabou sendo diluído em um longo
processo de aculturação. A igreja daqueles tem-
Poder pos temia uma revolta por parte dos senhores
Rei Absolon Del Aqueline e rainha Adalene dos cavalos e assim tomou suas crianças para
Del Aqueline. Possui apenas uma filha, Alissa. transformar a próxima geração. Este orgulho
O primogênito, Absolon II, faleceu em 1342, lu- tem retornado hoje, mas a mistura gerou uma
tando na revolta de Rikard. Alissa, com 16 anos, série de outras etnias menores que possuem um
seguiu os passos do irmão, adentrando a ordem toque parlo em seu sangue, como os varnos dos
do Cavaleiros Pardos, como escudeira. pântanos, que cantam seus lamentos, os guer-
reiros brados do leste, envolvidos na guerra dos
Adoração traidores e os vlakos do norte, que refletem um
Seguem os ditames do Tribunal à risca, usan-
apego religioso exagerado. Além disso, devido
do como base os textos originais em parlo e não
à camorra, uma espécie de oligarquia local das
a versão “empobrecida” chamada de Vulgata.
cidades e fazendas, os parlos acabam marcados
As ordens cavaleirescas são presentes, seguidas
por um sentimento de ufanismo que, quando
pelas ordem mendicantes extremistas, entretan-
não direcionado a estrangeiros de Parlouma, faz
to, os Lazlitas não podem considerar Parlouma
com que eles mesmos troquem ofensas e hosti-
como sua casa. O criadorismo é forte dentro de
lidades entre si.
Parlouma e são raros os momentos em que se vê
algum tipo de adoração antiga surgindo entre Símbolo/Cor
os homens, mesmo aqueles que tem desejado Cavalo corcoveado sobre um manto marrom e
recuperar o orgulho das ordens dos cavaleiros verde musgo encimado por um elmo que repre-
Pardos, a primeira cavalaria de Belregard. senta os cavaleiros parlos. A simbologia do cava-
lo é muito forte para os parlos. Retrocedendo a
População tempos bárbaros, quando os parlos começaram
Majoritariamente formada por parlos, com
a ser convertidos, temos o cavalo como filho da
um considerável número de belghos. Em Parlou-
noite e do mistério, é destruidor e triunfante,
ma vive-se sob o ritmo dos parlos, que é focado
nutriente e asfixiante. O cavalo está associado
no trabalho durante a maior parte do dia, com a
às trevas do mundo ctoniano, e pode surgir ga-
tarde reservada para o lazer e prazer com famí-
lopando das entranhas da terra ou dos abismos
lia e amigos. Como foram o primeiro povo não
do mar. Os parlos creem que o primeiro cavalo

b 151 b
b Belregard b
veio do oceano, saído das entranhas do mundo O já velho Absolon não exerce mais a mesma
para cavalgar os campos e quando morreu, teve influência em seu território e a ausência de um
seu coração enterrado naquela terra que tomou herdeiro legítimo para o trono preocupa muitos
como lar. Este coração, ainda hoje, pulsa e atrai nobres e inclusive a família real. No caso da mor-
os raios que castigam a planície. te do rei, a filha do mesmo irá assumir. Isso não
seria um problema, se a mão de Alissa não esti-
O Passado vesse prometida a um jovem príncipe de Vlakir.
Antes de tornar-se um reino, o território vas-
to de planícies era pontilhado de vilarejos que
viviam sob o julgo da camorra local. Parlouma
surgiu do descuido de Vlakin I em ceder con-
a
cessões de terra a nobres aliados. O oportunista Fauna e Flora Fantásticas
Fabrizio de Parlouma, que tomou o território e
Aquilo que se destaca na natureza
tornou-o seu reino particular, reestruturou toda
particular de Parlouma
a organização local, nomeando duques e condes
em 970 DA. Não foi um rei popular, mas abriu Dragona: Árvore comum dos campos de Par-
caminho para o resgate do orgulho parlo. Du- louma, possui um caule fino que se alarga na
rante a ocupação imperial, Parlouma não pas- copa. A parte inferior da copa apresenta ape-
sou de um grande campo de treinamento para nas galhos, que se entrelaçam como raízes e
as ordens de cavaleiros sacros durante todo o por cima estão as folhas, finas e muitas, como
período. Para aqueles poucos que se lembravam um morro coberto de capim. A seiva vermelha
das tradições da cavalaria de seu próprio povo da dragona é utilizada como corante, verniz e
foi difícil ver o Campo Trovejante ser mancha- até mesmo como parte do tratamento para inú-
do e castigado pelos cascos de cavaleiros que meras doenças. Dizem que o que escorre dela,
visavam apenas servir ao império que lhes opri- na verdade, é o sangue dos dragões, mas tais
mia. No momento em que a chance da liberdade criaturas ocupam apenas as lendas de Belregard.
surgiu, alguns parlos foram contra toda a fama
de passivos espectadores e pegaram em armas Argentavis: Estes pássaros são mais comuns
para restaurar sua supremacia local. Absolon, o no norte de Parlouma, nas redondezas dos
Alto, surgiu como líder dos parlos e, montado montes sacros e outras áreas ao sul de Virka.
em seu corcel negro, correu os campos de Par- São aves imensas de plumas negras e cabeça
louma convocando a todos para a guerra. pelada, com bicos longos feitos para rasgar. A
envergadura destes terrores alados pode chegar
O Presente a oito metros e se engana quem pensa que são
Da queda do império em diante, muita da tra- pássaros de pouca força, já que podem erguer
dição de Parlouma tem voltado à tona. Os cava- até mesmo uma pessoa no ar. Suas plumas são
leiros Pardos, a mais antiga das ordens, tem feito valorizadas como decoração de roupa, assim
o possível para recuperar seus valores perdidos como o bico, que pode figurar como cabeça de
e ofuscados ao longo do tempo. Os parlos vêm clava em armas toscas.
investindo em uma campanha de militarização
de sua castelania, por mais que a desunião mar-
que o terreno político na região, alguns barões
e duques têm buscado o poder das alianças.

b 152 b
b DAS CASTELANIAS b
Relações e Comércio Aquirrare
Parlouma sempre inovou em questões comer- (aprox. 5.000 habitantes) Lembrando majestade, que
ciais e meios de produção. Foi a primeira cas- Estando na região mais a oeste da capital, a
toda essa região fora uma
telania a fazer uso dos moinhos de água e do cidade é o eixo que liga toda Parlouma. A Ca-
imensidão alagada de brejos e
canais para alimentar plantações distantes dos morra está impregnada aqui, o sistema de briga
lagos. A utilização de diques
principais rios. Souberam usar dos avanços tra- familiar e apadrinhagem está tomando propor-
e moinhos drenaram toda a
zidos pelo império, em seus impressionantes ções catastróficas e muitos inocentes morrem
água desta região. Com uma
aqueduto, para trazer a água das montanhas. A em meio da guerra comercial que as famílias
pequena gôndola é possível
despeito de tais avanços a situação atual não é travam. Como local de passagem para o outro
viajar rapidamente entre as
propícia nem mesmo para estes grandes comer- lado do rio, Aquirrare pode entrar em confli-
fazendas. Acha válido uma
ciantes. A desconfiança que se instaura entre tos entre barqueiros de Varning, que fazem o
pesquisa aprofundada sobre tal
os condes torna o comércio um assunto menor. mesmo serviço em Tiepole. Patrono Local:
engenhosidade?
Seus principais produtos são: trigo, batata-doce, Duque Warrane de Zuria, O Mentiroso. Nin-
milho, cevada, uva, batata, frutas, tabacos, vi- guém gosta de Warrane, ele tenta agradar a
nhos, suínos, ovinos, caprinos, bacalhau, carvão todos, mas no fim, usa o que sabe para se favo-
e ferro. Seus produtos são desaguados para Var- recer, inclusive, tem lucrado muito com a guerra
ning, Vlakir e Branden na medida do possível. que se abate sobre Aquirrare, dizem que ele é o
Sua rivalidade com Dalanor pelo controle dos “Grande Padrinho”.
vilarejos ao redor de Virka faz o clima ser tenso.
Normarom
Assentamentos (aprox. 1.000 habitantes)
Parlouma é dividida em 6 regiões principais,
A estrada que leva até as Montes Sacros passa Encontrei um diário de um
ducados concedidos às respectivas famílias há
em Normarom. Impossível um real adorador do homem que morreu enforcado em
duas ou mais gerações, além da fortificação do
Único não ir até tal cidade ao menos uma vez uma árvore após assaltar um
Castelo Royal.
na vida. Aqui fica a grande catedral do Tribu- viajante. O diário relata toda sua
Torquato nal. Um verdadeiro antro de fé. Patrono Local: caminhada até os monte sacros,
(aprox. 8.000 habitantes) Duquesa Odeletta de Olivier, que sofre profun- ele passou por experiências
da investigação após seu marido trair o rei e desumanas e inacreditáveis.
Uma grande cidade que se estende ao longo
iniciar uma revolta contra o mesmo, além da Impossivel o homem que escre-
do vale que é banhado pelo Rio Mesnile onde a veu tal diário ter assaltado e
suspeita de a que ela esteja envolvida na morte
corte real costuma ir quando o inverno se abate
do próprio filho. O Tribunal pretende, assim que matado um viajante. Este homem
em Parméquia. A comunidade prospera graças viu o Criador face à face. Irei
possível, convencer o rei a colocar outra pessoa
aos acordos comerciais feitos com os vizinhos. pesquisar sobre sua vida.
no comando.
Junto com o avanço aumentou a pobreza e a cri- Lhe enviarei tal tomo assim que
minalidade. Patrono Local: Duque Madelon II, Borgosa restaurá-lo.
O Emissário. Homem de confiança do Rei, Ma- (aprox. 8.000 habitantes)
delon viaja Belregard como grande emissário
A maior cidade produtora de alimento. Sede
real e é tido como o homem mais sábio da corte.
dos fazendeiros e das grandes guildas. O cam-
Seus olhos afiados não costumam deixar nada
panilismo, o bairrismo, aqui é tão grande que
passar e é conhecido por ouvir muito e falar
cada baronato parece um ducado diferente,
pouco. Desaprova o acordo do rei com Vlakir,
com costumes e jeitos ímpares. As mudanças na
mas não era seu conselheiro na época.
corte de Borgosa têm gerado sérios conflitos e

b 153 b
b Belregard b
muita mortes já ocorreram. O ducado é onde
existe a maior concentração de barões de Par-
a
louma. Patrono Local: Duque Gutierre III Isolamento em Parlouma
com apenas 10 anos, supervisionado pelo tutor
Gaetano, o Rubro, que reformulou a politica de O isolamento em Parlouma se dá pelas longas

Borgosa, subdividindo o ducado em baronatos estradas. Os caminhos são muitos e a camorra

menores, tem causado muito desconforto, mas cuida para que nem mesmo as cidades sejam

o rei parece não se importar, afinal, o recolhi- completamente seguras. O bairrismo é forte

mento de impostos de Borgosa nunca foi tão dentro de Parlouma e, muitas vezes, visitantes

farto. Gaetado tem contratado homens para precisam conhecer os verdadeiros chefes das

fazer sua segurança, formando um pequeno cidades, que não o lorde local, para manter a

exército de lanceiros. segurança dos seus. Além desse problema in-


terno, sair das fronteiras da castelania pode ser
Parméquia problemático. Para o leste, os rios e montanhas
(aprox. 10.000 habitantes) impedem uma viagem diretamente para Bra-
den ou para Belghor, no norte a febre religiosa
Em um grande platô e cercado por imponentes
de Vlakir pode causar problemas e no oeste
muros de pedra está o grande Castelo Parme-
fica Varning, a única mão amiga, mas cheia de
quiano. Construída sob marco da vitória sobre
segundas intenções, que pode vir a se erguer.
os selvagens, a capital é um sítio da história dos
pagãos, erguida sobre ruínas de antigos cultistas
adoradores da Horda. Sussurra-se que lâminas e
garras são afiadas nas sombras, alertando que
os pecadores querem seu lar ancestral de vol-
ta. Parméquia é um exemplo de infraestrutura e
avanço, suas ruas de pedra e casas de dois pisos
são uma imagem marcante para todo visitante.
Patrono Local: Rei Absolon Dell Aqueline.

b 154 b
b DAS CASTELANIAS b
Forças Militares Campeões Alvos
Com exceção das milicias submetidas aos pa- (150 lanceiros e 130 cavaleiros)
tronos locais, a armada de Parlourma divide em
Liberti Linteum
Estes cavaleiros errantes possuem a árdua e
seis exércitos distintos
“Aqui se faz presente um
ingrata tarefa de vigiar a Floresta Alva. Esta
homem livre que não pode ser
Cavaleiros Pardos (300 cavaleiros) vigília já foi responsável de inúmeros comba-
detido, colocado em prisão sem
tes contra os pagãos. Muitos de seus cavaleiros
O maior orgulho de Absolon foi a reestrutura- motivos, não pode ter seus bens
ruíram, suas mentes pareceram entrar em um
ção da cavalaria oficial de Parlouma. Na busca confiscados, colocado como fora
rodopio insano sem fim, se tornando apenas re-
pelas raízes de seu povo, os velhos costumes e da lei, exilado e não pode ser
flexos esquálidos do que um dia foram.
tradições de cavalaria dos parlos foram utiliza- morto sem devido julgamento
dos para trazer de volta estes altamente treina- Ratos Vermelhos que deve ocorrer em harmonia às
dos cavaleiros de elite. São liderados por Benito, (100 lanceiros e 20 cavaleiros) leis de sua castelania e sob o
chamado “enferrujado” pelas sardas que co- olhar do Criador.
Com um sem número de soldados menores,
brem seu corpo e o cabelo ruivo. É de seu direito portar uma
os Ratos foram inicialmente formados por Gae-
Guarda Real Parméquiana
arma, ter servos, animais,
tano, o Rubro, mas seu contingente tomou pro-
(220 lanceiros e 80 cavaleiros)
comprar e vender coisas, sempre
porções nunca antes vistas. Muitos são os guer-
vigilantes aos impostos. Assim
Estes homens são selecionados entre os me- reiros oficiais e mais ainda são os simpatizantes.
como os benesses, está sob
lhores e todos passam por uma entrevista real Estes homens possuem a árdua tarefa de manter
novas leis de obrigações, como
com a rainha Adalene. Estes homens recebem o os barões de Borgosa sob vigilância.
cidadão de bem.”
título de homens livres após cinco anos de servi-
Construções e Formações
ço e uma promessa de possível ingressão aos seus
De tudo visto aqui, aquilo que se destaca:
filhos quando completarem a idade necessária.
O local é um caos. As estra-
Florestas Alvas das caem em desuso na mesma
Fúria Adelana
(160 lanceiros e 50 cavaleiros) Uma floresta densa, quase primitiva. Diferen- velocidade que outras nascem.
É inegável que a família da rainha Adelene
te de Dalanor, existem poucas lendas sobre cria- Isso é capaz de deixar qual-
foi uma das mais justas ao longo da história de
turas amistosas compactuando com os homens. quer um louco, talvez seja por
Parlouma. Seus servos fieis choraram quando a
Aqui há apenas muito respeito e uma ponta de isso da lenda do labirinto. Dizem
descendência real se desfez e sobraram apenas
temor à sua grandiosidade e escuridão. É quase que no meio da floresta está o
mulheres à serem casadas. A ordem foi criada
sempre tomada de neblina e pouco têm coragem Labirinto das Brumas, uma região
durante a revolta de Rikard, quando um ataque
de se afastar das estradas principais. mistica, uma espécie de pedaço
surpresa foi realizado a carruagem da rainha
da Fímbria na terra, e aquele
Rio Sieburgo que conseguir atravessar o
e parte do bando se recusou a matar Adelene,
agindo contra seus antigos aliados.
Estando conectado ao Rio Mesnile, este rio labirinto irá rejuvenescer. Acredito
faz a importante missão de permitir que toda que isso seja o motivo de que
Filhos de Aqueline (300+ lanceiros) produção do Circuito dos Campos chegue até muitos idosos sejam deixados às
Latza, Birman e Virka. Com uma extensão mo- margens das Florestas Alvas
Formados principalmente de condenados e
desta, a maior parte desse desague é feito por quando o peso de suportá-los
soldados indisciplinados, os Filhos de Aqueline
balsas e barcos menores, somente depois encon- é demasiadamente alto.
formam o maior contingente de lanceiros do
trando embarcações maiores para seguir para
reino. Todo àquele que lutar uma guerra vitorio-
destinos mais longínquos.
sa poderá se tornar um homem livre, é o que
promete o rei.

b 155 b
As fortificações contam b Belregard b
com uma invenção genial. Uma Triângulo das Torres feiras e festivais acontecem a cada estação na
espécie de globo misturado região. Devido a mistura de vilas, diferentes pa-
Três torres de vigília construídas durante a
com uma luneta, usando es- tronos, o local é confuso e somente quem é de
Era do Homens estão lá até hoje sobre o monte
pelhos, vidro polido e cristais, lá parece entender como toda região funciona.
Benay. As torres foram construídas de maneira
apontadas diretamente entre
estratégica, cobrindo uma área extensa e permi-
elas. Triangulando a região. A Passagem
tindo que todos os locais fossem vigiados com
Através de códigos sigilosos, Antes da Era da Conquista, uma passagem
a mesma qualidade. Um torre está voltada cons-
conseguem trocar mensagens entre as montanhas leste de Parlouma davam
tantemente para o mar, remontando o medo
usando o reflexo projetado. caminho para que homens de coração negro
da lenda sobre bestas selvagens que sairiam do
Tentei buscar mais sobre atacassem a castelania. Esta passagem sempre
mar, outra torre está constantemente apontada
tal invento, mas foi impedido. fora protegida pelos servos da Sombra, mas
para Belghor e a outra torre aponta em direção
Preciso de uma autorização acabou derrubada pelos esforços de um santo
a toda região oeste.
e homens caso seja de seu do povo parlo, Ercole de Borgosa, que rompeu
interesse saber mais sobre isso Montes Sacros o caminho ao derrubar os pilares que sustenta-
meu senhor. vam uma das cavernas. A única pista para a pas-
Lar do corpo de santos e local de procissão.
Senhor, há necessidade de sagem são os dizeres gravados em parlo numa
A lenda diz que foi aqui que o primeiro homem
proteção às modestos que pe- placa de metal: “Abandonai toda a esperança,
recebeu seu cavalo dado como presente dos
regrinam. São fortes de alma, aquele que ousar por estes umbrais passar”.
céus pelo Único. Os mais antigos pregam que
mas fracos de carne. Os todo batizado deve ao menos uma vez na vida
Ponte da Feira
saqueadores e bandidos riem participar da peregrinação até estes montes. A
de sua audácia, da sua coragem peregrinação começa no limites de Virka cerca A grande feira de Parlouma que atrai o mun-
em atravessar tais terras, e de 15 dia antes da comemoração do Dia da As- do todo acontece sobre o Rio Mesnile em Tor-
flagelam sua carne. Como se censão, que será comemorado com a chegada quato. O comércio é livre e qualquer um pode
peregrinação não fosse sofrida dos peregrinos ao local. montar uma barraca no local e vender seus pro-
o suficiente, os massacres e dutos. A feira tomou proporções tão grande que
mazelas que enfrentam têm Castelo Royal extrapolou o espaço da ponte e se estendeu ao
afastados fieis. Por esses (aprox. 4.000 habitantes) longo de todo o aqueduto do rio Mesnile, todos
devotos intercedo. Uma poderosa fortaleza se encontra no topo
os 14 piers são lotados de comerciantes tentan-
do vender suas mercadorias.
da do Pico dos Parlos Livres onde é possível ver
todo o mar do sul. Para chegar até o castelo é
preciso subir uma imensa estrada de pedra es-
corregadia. Patrono Local: Duque Amaranto, bem assim. Abaixo
tio da Rainha Adalene, um cavaleiro veterano Na prática todos sabem que não écamorra mantém
que tenta seguir os passos de Leoric, o Puro,
da política de livre comércio a não vender. De
mas vê-se preso nos afazeres militares, deixan- rígido controle sobre quem pode oudias após nossa
do sua vida espiritual de lado. acordo um informante, que morreu ra poder vender e
conversa, todos precisam pagar paorra.
Circuito dos Campos por proteção à cam
Uma região localizada na área central de Par-
louma que conecta Aquirrare, Borgosa e Torqua-
to. A região é a principal produtora de tudo que
Parlouma come, veste, bebe e vende. Grandes

b 156 b
b DAS CASTELANIAS b

Gravura estilo bertina de Fergus


mostrando a Ponte da Feira onde
ocorre o comércio local.

a
O Acordo do Rei

No longo período de governo de Absolon, o


amado rei teve de provar seu valor inúmeras
vezes contra revoltas internas de nobres insa-
tisfeitos. Em um período curto da Era da Luz,
Campo Trovejante
no ano de 1342, uma revolta liderada pelo du-
Esta vasta planície próxima da costa sul de Parlouma é que de Normanon, Rikard, deixou complicada a
constantemente castigada pelo vento frio vindo do mar e situação de Absolon. O rei, tendo menos apoio
as tempestades são comuns na área. Alguns acreditam que do que julgou que teria, viu-se obrigado a acei-
o coração do primeiro cavalo, dado aos homens nos Mon- tar ajuda de Vlakir, vinda de Gaedus, um lorde

tes Sacros, está enterrado no centro da planície e é sua for- local. Em troca, depois que a revolta foi contro-

ça primitiva e intensa que faz gerar o tempo severo. É um lada e a esposa de Rikard colocada para gover-
nar o ducado, Absolon prometeu a mão de sua
campo de cavalgada, de treinamento para a recém formada
filha, Alissa, ao primogênito de Gaedus, ainda
cavalaria dos Pardos. É sempre possível ver tropa de cavalos
recém nascido naquela época. Pouco a pouco
selvagens correndo por essa região, assim como sempre foi
o momento da cobrança se aproxima e muitos
e como sempre será.
dos nobres de Parlouma veem com maus olhos
a entrega da filha do rei dessa forma. Não é difí-
cil imaginar um cenário de desastre seguido da
morte do rei, onde um levante dividirá o reino,
não aceitando o rei estrangeiro.

b 157 b
b DAS CASTELANIAS b

Varning
“Fraternidade.”
O poder desses juízes excede
tudo que vi em outro lugares.
Eles são os donos das casas,
das ruas, dos animais e até
dos homens. Desculpe ser
fatalista senhor, mas o nível
de poder deles está tão
estruturado que a população
Capital Dividam com seus semelhantes a recompensa do
se cegou e aceita seu poder,
Tiepole. suor”. Os cofres do Tribunal estão gordos com
quase acima do Tribunal. São
as doações feitas pelo conselho de Varning. Em
tomado pela cegueira do ouro.
Poder contrapartida, o Conselho odeia a avareza e ten-
Conselho Comercial. Um conselho de ricos ta controlar o poder monetário dos seus afilia- Semelhantes para esta socie-
mercadores governa Varning, sendo que a iden- dos. Eles aceitam o Tribunal até o ponto onde dade possui outro significado.
tidade destes homens é mantida em segredo, suas ideias retrogradas não tentam impedir o Eles não creem em igualdade
mas certos juízes apresentam uma face pública avanço de sua nação. para todos, perante as suas
para a população, cuidando de boa parte dos próprias leis e julgamento,
assuntos mundanos que permeiam a castela- População seus semelhantes são seus
nia. O corpo conhecido como Fâmulo Incógnito Formada principalmente por belghos e parlos, irmão desta sociedade secreta.
serve aos Conselheiros levando suas vontade mas um sem número de outras etnias também Existem centenas de histórias
aos homens do reino. Dizem que todos os co- marcam sua presença de Varning. Como terra de claro favorecimento de um
merciantes, Fâmulos e conselheiros fazem parte de misturas, temos os vanos dos pântanos, que em favor de outro, apenas
de uma sociedade secreta de ajuda mútua. Eles já viviam na região e possuem um costume na- por participar desse seleto e
possuem segredos sobre a matemática e conta- turalmente rude para com estrangeiros. Varning sigiloso grupo.
bilidade e não querem dividir com ninguém e não é uma terra de gente belicosa, mas certa-
por isso se fecham de modo sigiloso. O homem mente a ganância corre em suas veias e pode
chamado de Klauss, O Rico, deu origem o pri- fazer com que eles assumam qualquer risco pelo
meiro banco de Belregard, A Casa de Fortunas, lucro. O desejo pelo dinheiro está estampado Colocação acertada. Nunca
Pedras e Títulos, e criou a possível sociedade nos olhos destes homens e mulheres e como as ande em Varning de forma
secreta, pessoas dizem que os membros da fra- oportunidades para o lucro não se abrem para tranquila, especialmente com
ternidade estão divididos em graus e cada grau todos, não é difícil de acreditar que o crime, o objetos de valor.
subdividido em etapas. Os Conselheiros se en- roubo, estejam também entranhados nas almas
contram no topo, na última etapa do sexto grau. daqueles que vivem em Varning.

Adoração Símbolo/Cor
São homens crentes, acreditam na prosperi- Sob um fundo verde que representa o fundo
dade que o Único é capaz de lhes proporcionar. do mar, uma truta marrom mostra sua impo-
Se amparam na parte da Vulgata que diz: “Vão, nência. A truta é um peixe dócil, mas carnívoro,
conquistem e voltem para seus lares com bens se alimentando de outros peixeis. Este peixe é
de ouro e prata, juntem rebanhos e puro linho. um símbolo do poder do Conselho Comercial de

b 159 b
b Belregard b
Neste período iniciou-se Varning pois tem a coragem de migrar para os
o que hoje chama-se oceanos por boa parte de sua vida, retornando
de perscrutação. O que à água doce apenas para a desova. Assim como
antes era uma questão deve ser no mundo comercial, nadar entre tuba- a
de sobrevivência, agora é rões para dar conforto aos seus filhos.
Fauna e Flora Fantásticas
utilizado para enriqueci-
O Passado
mento e ganho de poder. Aquilo que se destaca na natureza
Varning surgiu durante a Era do Sangue,
Com algum sigilo, particular de Varning
quando os burgueses da ainda imponente Virka
mas de conhecimento
passaram a enriquecer com o comércio e com Quiesca: Esta árvore dos pântanos sul possui
da maioria, existem
a guerra. Sendo censurados pela própria igreja uma característica muito perigosa. Suas raízes
escola de infiltradores
e acusados de cometer o pecado da ganância são altas e costumam ser usaras como lar de
e espreitadores (o que
através da usura, muitos destes mesmos nobres predadores, especialmente jacarés. A noite, as
o povo chama de “olhar
migraram para o sul de Virka. Lá, junto inclusive folhas desta plante amitem um brilho pontilha-
de vilão”) até mesmo de
de um dos Puros, um dos homens iluminados do e pequeno, como se fosse um céu estrela-
assassinos, quase todos
pelo próprio Criador, estes comerciantes ini- do e a menor das vibrações faz com que estas
servindo aos interesses
ciaram uma nova forma de governo. Com o caos estrelas caiam e a menor respiração próximo
comerciais de Varning.
ocupando a capital, proclamar uma indepen- delas faz com que a pessoa sinta sonolência e
É dito que conhecendo
dência não foi difícil e assim nascia o reinado de acabe dormindo. Alguns predadores desenvol-
a pessoa certa e com
Varning. Quando o império se ergueu, Varning veram a tática de bater na árvore por baixo,
bom dinheiro, pode-se
sabiamente recuou, oferecendo um apoio tími- quando sentem a aproximação de uma possível
até comprar um esprei-
do na esperança de ser poupada, mas os agentes pressa, mantendo-se sob a água para não serem
tador ou assassino para
de Virka, sabendo do grande conhecimento dos afetados. Alguns alquimistas alegam que o pó
lhe servir com lealdade
comerciantes sobre as rotas, caminhos e perigos pode ser usado para criação de poções.
por toda a vida.
do mundo, tomaram Varning num dos primeiros
Megatherium: Esta besta gigante, com o cor-
atos de consolidação do poder imperial. No pe-
po maior que o de um urso, pelagem farta de
ríodo em que as revoltas começaram a estourar
cor de cobre e um rosto cumprido, vaga pelas
em toda Belregard, foi papel de Varning encon-
terras de Varning em seu passo lento. Seria um
trar os velhos mapas e registros para que se pu-
animal inofensivo, não fossem as imensas gar-
desse minar o poder do império por dentro.
ras em suas mãos. Mesmo com golpes lentos,
O Presente a besta é capaz de matar homens que subesti-
Apesar da vitória, os longos anos de con- mam sua aparente calmaria. As garras longas
trole cobraram seu preço no enfraquecimento são valorizadas como adorno e os religiosos
do domínio de Varning e nas rotas de comércio. dizem que o comportamento destas criaturas é
Muito fora alterado e abandonado, hoje poucos um reflexo, uma paródia, da ganância do povo
dos caminhos ligam os grandes centros à cidade de Varning, que se torna lento, ainda que peri-
portuária. A grande influência do Tribunal ain- goso, com as riquezas que acumula.
da torna difícil uma liberdade como que se tinha
no passado e as chances de Varning parecem es-
tar melhores no mar. Querem impedir muitos es-
trangeiros de entrar, todos que realmente quise-
rem, devem servir como soldados no Secundus.

b 160 b
b DAS CASTELANIAS b
Relações e Comércio Conselho em Tiepole é correr risco de receber Juro que tentei senhor, juro que
As relações de Varning costumam ser neutras a visita inconveniente de seus Fâmulos. Atual- fiz tudo que pude, mas nada
e amistosas com seus vizinhos. Dalanor realiza mente é o local de passagem pelo rio e pelo consegui descobrir sobre essa
trocas com frequência, assim como Parlouma, lago. Os barqueiros de Tiepoli trabalham o dia sociedade secreta. Eles pare-
apesar dessa segunda se sentir dividida por sua inteiro para levar pessoas de um lado para o ou- cem ter descobertos livros de
relação com Vlakir. Como Dalanor e Parlouma tro. Patrono Local: Agapito, O Amado. Ele é Brovär II que relata sobre o
tem tido atrito ao ocupar aldeias pertencentes um seguidor ferrenho de Leoric, e prega que o poder dos números e dos astros,
à Virka no passado, Varning sem mantém neu- Caminho Irrepreensível deixado pelo Puro é a mas encerra-se por aí.
tra neste assunto, disposta a comercializar com solução de todos os problemas do mundo. Ele é Se quisermos saber mesmo quem
ambos os lados. Peixes, grãos, vinhos, carnes de dedicado a aumentar o poder da representação são estes homens e mulheres,
corte, artesanato e até mesmo uma limitada mão popular não somente do conselho, mas também precisaremos nos infiltrar, usar
de obra, através de tutores estudados na Acade- de todos os comerciantes do reino. Dizem que as armas que eles usam tão bem.
mia do Saber podem ser exportados de Varning. ele é tido como Grão Mestre dentro da socieda- Para isso, preciso que senhor me
de secreta em que participa. dê poder para recrutar pessoas de
Assentamentos confiança. Aguardo uma resposta.
Varning se divide em três provincias distintas.
a
Tiepole ocupa boa parte central do território,
no lago Fortuna e a região a oeste deste. Traglia- Cavaleiros Mercantes em Varning

mento ocupa e parte sul e segue em direção a


Os cavaleiros em Varning seguem muito bem
Costa Dalana. Rivienza ocupa a região norte do
o padrão estabelecido por são Genaro, talvez
rio Fortorino e segue em direção da Costa Parla.
sem todo o apego religioso visto em Birman,

Tiepole mas o votos de pobreza e dedicação total a

(aprox. 8.000 habitantes) casa se fazem valer. Em uma terra onde a con-
fiança, votos de juramento e honestidade se
Uma grande cidade que só cresce. Os melho-
mostram moedas mais valiosas que as de me-
res engenheiros de cidades foram convocados
tal, as casas mercantes buscam estas pessoas
até onde é possível convocar. Eles redesenha-
para os seus serviços de entrega, escolta e ex-
ram as novas ruas da cidade e criaram um meio
ploração. Se existe um lugar onde os cavaleiros
de ordem impressionante. O domínio que se es-
mercantes gozam de alguma possibilidade de
tende de modo confortável ao longo da margem
futuro melhor, é aqui.
do Rio Fortorino, onde o Conselho mantem suas
sedes e casas. A cidade se espalha por ilhotas
em meio ao rio e os terrenos circunvizinhos, Como já alertei acima, apenas
onde ficam fazendas e aldeias simples, são
Tragliamento
(aprox. 9.000 habitantes) como escravo fiel e discreto.
alagados. Para entrar em Tiepole é preciso um
Estes homens de poder
passe, que pode ser conseguido através do favor Devido anos de estudo e o situamento do por- querem se tornar imbatíveis.
de nobres, para caso de visita, para moradia é to num lugar perfeitamente planejado, onde o Tiepole é uma cidade impos-
preciso cumprir seu tempo na Secundus. Com mar é convidativo, a cidade se tornou o maior sível de invadir com grande
um sistema justo de impostos o povo prospera ponto comercial da costa sul de Belregard. A contingente, tudo isso foi
graças ao acordo comerciais feitos com Parlou- prosperidade do local faz as pessoas dizerem pensado. O homem chamado de
ma e Dalanor. A criminalidade é pesadamente que se Tiepole é a cabeça, Tragliamento é o co- Agapito é adorado e a mente
esmagada e junto com a ela a liberdade, o au- ração. Tudo que é produzido, principalmente
por trás disso tudo.
toritarismo cresce ao ponto que falar contra o em Rivienza é escoado para cá, onde seguirá
b 161 b
b Belregard b
de Viha até Branden. Como a região mais leste problema, mas nada o faz sobre isso. Apesar
de Varning, Tragliamento, por ser este grande de se localizar numa área pantanosa, a cidade
porto, atrai a atenção de Aquirrare de Parlouma. prospera sem a dificuldade de Tiepole. Patrono
Toda a situação comercial está em risco, pois a Local: Eleutério, O Igualitário. O homem foca-
Camorra tem estendido suas garras até aqui e -se em ser justo e comandar com igualdade. Seu
isso não tem agradado o Conselho. A Camorra sistema de impostos é claro, coeso e tido por
não arrisca tentar influenciar Tiepoli e por isso muitos como perfeito. Ele não está feliz com o
ruma ao sul. O Duque Warrane já foi alertado, contratempo infeliz que está travando com o du-
o mesmo diz estar trabalhando para resolver o que Warrane de Aquirrare, como não tem tido
respostas sobre suas solicitações, ele pretende
falar diretamente com o Rei Absolon muito em
breve. Dizem que ele é tido como Juiz dentro da
sociedade secreta em que participa.

Rivienza
(aprox. 12.000 habitantes)
Estando no ponto mais a oeste, Rivienza
é um aglomerado de povoados e aldeias
que se mantem da agricultura, pescaria e
pecuária. O rio Fortorino é generoso com
toda a região. O aumento do comércio
e a maior necessidade de terras obrigou
a região a expandir seu território, nesse
processo entraram em região selvagem,
gerando um conflito inesperado entre os
camponeses de Rivienza. Patrono Local:
Durant, O Inteiro. Seguidor convicto
dos ensinamentos de Lazlo, Durant é
um amante da razão e trabalha para o
progresso. Sua mente consegue enten-
der perfeitamente o lamaçal em que
os pagãos vivem e acredita que tem
autorização, por estar mais evoluído
e preparado para esmagá-los e tomar
suas terras. Dizem que ele é tido
como Cavaleiro do Leste dentro da
sociedade secreta em que participa.

Gravura estilo bertina de


Fergus mostrando o caos das
construções em Tiepole.

b 162 b
b DAS CASTELANIAS b
Não é pelo seu tamanho,
Forças Militares Ordem dos Bem Nascidos
(160 Lanceiros e 80 Cavaleiros)
nem pela sua dedicação, mas
Retirando os pouco guardas pessoais e auxi- pela disciplina e fanatismo
liadores militares, Varning proíbe exércitos pes- Formado por filhos de comerciantes que vi- que as forças de Varning me
soais, sendo que o poderio militar se encontra ram a prosperidade lhes alcançar, estes jovens impressionam. Os soldados
somente nas mãos do Conselho. esperam a oportunidade de retribuir um pou- são tomados de uma crença
co do que receberam. Os recrutas são indica- na retidão que assusta.
Cavaleiros Umbráteis dos pelos Perfectus e somente depois análise A possibilidade de crescer e
(180 lanceiros e 200 cavaleiros) de seu caráter, adentram à Ordem, isto ser- mudar a sua posição social é
Estes soldados seguem ritos de pobreza, vi- ve até mesmo para os filhos dos membros do atraente, mas todos sabemos
vendo por conta do conselho. São inclinados conselho. Normalmente recebem ordens dos que nada é dado levianamente,
aos caminhos mendicantes deixados por Alec, Cavaleiros Umbráteis. existe um pesado custo. Todo
sendo que foram conhecidos por muito tem- o misticismo, sigilo e organi-
Secundus (300+ lanceiros)
po como Pobres Cavaleiros do Criador, sem- zação desta sociedade secreta
pre enaltecendo o nome do reino e não o seu Estes homens são formados de sobreviventes pode-se nota espelhada na
próprio. Os cavaleiros são instruídos à razão e inimigos de uma guerra, traidores da nação, la- forma como os soldados são
adentram aos primeiros graus da primeira eta- drões ou qualquer homem que queira ter Varning arranjados. Novamente lhe digo
pa da sua sociedade secreta. Protegem todos os como casa. Qualquer pessoa que não tenha nas- meu senhor, Varning aponta
Fâmulos Incógnitos por toda Varning e devem cido aqui e queira receber sua cidadania, poderá como a maior força
receber prontamente qualquer ordem vinda adentrar ao Secundus e conseguí-la após alguns de Belregard..
dos Perfectus. Estes homens enfatizam o auto anos de trabalho. Além disso, o Secundus serve
sacrifício e poder em troca de submissão. São como sistema penitenciario já que não existem
seguidores da Hekklesia Alecista e dedicam-se prisões em Varning. Eles são comandados por
a preparar o homem corriqueiro de hoje no rei e soldados dos Bem Nascidos.
sacerdote de amanhã.
Verdugos (número desconhecido)
Cavaleiros da Perfeição Estes homens não possuem nome ou muito
(50 cavaleiros e 30 lanceiros) menos face. Ninguém tem acesso aos mesmos.
Os Perfectus são membros de um grupo se- Quando o peso da justiça recai em demasia sob
leto retirado dentro os Cavaleiros Umbráteis , um inimigo, estes homens se vestem de negro
a elite dentro da elite dos homens de armas de e amparam nos textos da Vulgata “Com tais
Varning. Estes continuam a viver sob as custas povos [inimigos] não fará pacto algum e nem terá
do conselho, mas são agraciados com maior piedade deles”. Eles derramarão o sangue inimi-
conforto e bens. Seu grau de entendimento so- go e em seguida desaparecerão. Alguns dizem
bre o funcionamento do mercado, dos números que somente os Conselheiros sabem quem são,
e da influência, os permite ir além. Seguem o sendo que seus nomes estão escondido em um
Caminho Irrepreensível à risca e qualquer ato livro de sigilo extremo pela ordem. Eles são a
vexatório pode ser motivo para serem retirados roda firme da carroça que trilha o caminho do
desse seleto grupo. São selecionados e empode- progresso, não podendo ser descarrilhada inde-
rados um a um pelo próprio Agapito de Tiepole. pendente do custo.

b 163 b
b Belregard b
Construções e Formações
Varning passa por uma constante reforma,
a
novas construções nascem a cada ano e muitas O Isolamento em Varning
antigas estão sumindo do mapa. Além disso,
O crime nas estradas de Varning é uma coisa
muitos locais não são de conhecimento de es-
real que ocorre a todo momento. Bandos vivem
trangeiros, o Conselho se agrada do sigilo. De
em bosques e pântanos esperando a oportuni-
tudo visto aqui, aquilo que se destaca:
dade para o roubo. Além disso existem os peri-
Costa Parla e Dalana gos selvagens, já que Varning possui um terre-
no aberto para o norte, onde ficam as planícies
O lado leste chamada de Costa Parla é uma
de Ig, lar de clãs ainda rústicos dos homens
região calma, devido às formações rochosas e
bárbaros. Não é incomum que ocorram saques
ilhotas, o mar é calmo as cidades são alocadas
a algumas fazendas ao norte do território, nos
sobre um grande platô sobre falésias de cerca
períodos de colheita. As fronteiras de Varning
de trinta metros. O local é perfeito para anco-
são relativamente bem protegidas, o único pe-
ramento de grandes barcos. Toda a região até
rigo real que elas podem representar é o de re-
Aquirrare é extremamente disputada por comer-
fugiados e fugitivos da Corte da Raposa vindos
ciantes gananciosos. O lado oeste chamado de
de Dalanor. O Conselho parece não se importar
Costa Dalana já é caracterizada pela forte on-
tanto, como se estivesse tudo sobre controle ou
dulação e pela presença de correntes de água e
como se fosse algo esperado.
ventos muito fortes. O local atrai observadores
e estudiosos da marés e dos mares, muitas cons-
truções são abandonada enquanto a fúria do
mar parece adentrar cada vez mais sob a terra. Sede do Conselho
Existem passagens e portas nos
Um imponente prédio de forma circular, com
lugares mais inusitados. Abaixo Túneis de Luz
de uma passarela, no fundo de um domo arredondado e colunas largas, localizado
Obra de Bövrar II, estes túneis são menciona- nas terras mais secas ao oeste de Tiepoli. Aqui se
beco, atrás de um chiqueiro. A ci-
dos em alguns trechos da Vulgata, tidos como reúnem todos os mercadores membros do conse-
dade foi construída e as entradas
grandes proezas de engenharia da antiguidade. lho da capital, local que eles chamam de “Salão”.
foram mantidas. Isso aumenta
Acredita-se que os túneis tenham mais de seis- Dentro deste prédio realizam seus rituais e reu-
ainda mais o clima supertisão e
centos metros de cumprimento e corte boa par- niões que chamam de “modus”. Abaixo de sua
poder causado pelos Verdugos.
te do centro de Tiepole, sendo conectado por decoração requintada, é possível observar regras
Dizem que durante a constru- túneis menores. Os túneis são equipados com simbólicas precisas, muito equivalentes à arquite-
ção, um enviado do Orante de placas de bronze polidas que refletem com per- tura geomântica deixada por Bövrar II e profun-
Varning da época veio até aqui feição, criando assim ilusões. Dizem que apenas damente estudada por Lazlo. A grande sala de
para supervisionar a obra. Ao àqueles abertos realmente ao conhecimento dei- entrada batizada de “Meio” é o único lugar onde
ver sua planta ele identificou xado por Bövrar podem encontrar salas secretas um não comerciante pode entrar. As salas são dis-
as geomancia e bruxaria brovatica existentes lá embaixo, os curiosos, entram e atra- postas de modo a respeitar posições astrológicas
em suas linhas. Comuniquei vessam sem nada encontrar. Escritos ancestrais es- e seu acesso dependerá do seu status da socieda-
pessoal em Birman e nenhum tão talhados na entrada “Luz para uns, trevas para de. O Tribunal, mesmo entrando e saindo no lugar
registro sobre isso foi encontrado. outros”. Sua entrada é proibida, é dito que apenas que desejar, nunca tomou nenhum ação inquisi-
Se for verdade, creio que este Verdugos possuem chaves para as entradas, que es- dora e investigativa sobre tal local. Eles possuem
enviado fora assassinado. tão espalhada por vários locais da cidade. “Capítulos” em Tragliamento e Rivienza.

b 164 b
b DAS CASTELANIAS b
Rio Fortorino Lago Fortuna
Se Tiepole é a cabeça, Tragliamento o cora- O grande lago que é o tributário do rio for-
ção, Fortorino é o sangue. Sem ele Varning per- turino é farto em peixes e suas águas calmas
de seu significado. O rio nasce nas montanhas estimulam a navegação. A antiga ponte que liga-
de Virka, atravessa Típole e Rivienza ao longo va o leste e oeste de Belregard foi derrubada e
de mais de duzentos quilômetros, forma o lago barqueiros costumam cobrar para fazer o trans-
do Castelo dos Sábios e desagua no mar. O rio porte, de ambos os lados do lago, ou do rio.
é realmente largo em Típole e já alagou a capi-
tal três vezes. Grandes paredões de pedra estão
sendo construidos na margem metropolitana do
rio, tentanto impedir sua fúria em situação futura. a
Este rio é rico de grande variedade de peixes e
Um Oponente a Altura
muitos tipos de trutas diferentes. Na margem do
rio é possível comer o melhor peixe de toda região. O Conselho aumenta seu poder e cada via fica
impossível negar que existe uma sociedade
Castelo dos Sábios secreta por trás dos interesses comerciais de
Este local serviu com mausoléu para homens Varning. Esta sociedade discreta tem ações
profanos durante a Era do Sangue. Depois serviu reservadas que interessa apenas àqueles que
como edifício militar na Era da Conquista, épo- dela participam. Seus membros dizem culti-
ca em que foi usada como refúgio por muitos var o aclassismo, os princípios da liberdade,
homens que praticavam atos profanos. Durante democracia, igualdade, fraternidade e aperfei-
a Era dos Homens o lugar caiu em desuso até çoamento intelectual. Eles estão ligados à uma
Meus enviados foram impedidos de
o Conselho tomar sua posse após negociação doutrina que não lhes coloca cabrestos ou limi-
entrar, então eu tentei. Por fim,
com o Tribunal. Hoje o local é usado novamen- tes, criando assim uma forma ímpar de culto,
nem minha reputação nem meus
te como mausoléu para os sábios cavaleiros e unindo os três caminhos que os Puros deixaram
documentos me deram entrada até
membros da sociedade secreta de Varning, mas em apenas um. Esse aumento de poder do Con-
aqui. Fui abertamente afrontado e
dizem as boas pequenas que eles usam o lugar selho tem preocupado o Tribunal. O Conselho
humilhado por tais homens.
para coisas muito mais ocultas. tem guiado os sacerdotes de Varning a agirem
de acordo sua ótica de adoração, criando assim
Academia do Saber uma inimizade velada com o Tribunal. Homens
A primeira, e única universidade de Belregard. foram enviados a Varning com a função de se
Aqui são formados os melhores tutores que um misturar, adentrar à esta possível sociedade
nobre pode pagar, versados em teologia, direito, sigilosa e descobrir os seus segredos e a Con-
matemática, história e filosofia, tem representado selho está agitado, afinal, com quanta liberda-
quebras de paradigmas sociais, ainda que a presen- de de ideias, é sabido que alguns dos membros
ça do Tribunal em seus salões limite um pouco as estão trilhando caminhos perigoso, caminhos
teorias que rompem completamente com o pensa- que não deviam ser ultrapassados.
mento vigente. Localiza-se em um amplo terreno,
murado e protegido, próximo a Rivienza contando
com suas próprias terras para subsistência. O dire-
tor geral da instituição chamase Vitorio de Rivien-
za, um homem severo e Juíz de Varning.

b 165 b
b DAS CASTELANIAS b

Viha
“Honrai os ancestrais.”
Eles estão fracos senhor. O
velho não tem coragem de enfren-
tar e matar seu filho, como era
esperado pelo seu povo. O novo
não quer enfrentar seu pai, pois
sabe que pode perder. Há muito
Capital em um jovem vil. O novo rei é sagaz e quer sair em jogo aqui e o poder está
Divido entre Zamok e Tarlag. do tradicionalismo e evoluir Viha. desequilibrado.
Poder Adoração Não sei se nos alertamos
Divido entre Radu Ignasov e Fëdor Ignasov. Viha comporta grupos de adoração criadorista com a forma sincrética perfei-
O controle de Viha está dividido em um feudo e também dos cultos antigos. O criadorismo de tamente equilibrada da adoração
familiar. De um lado o tradicionalismo de Radu Viha é resultado de uma cisão com os ditames de Viha. Eles conseguiram
Ignasov, o rei por direito, conhecido pelo seu mais tradicionais do Tribunal. Ao contrário do que encontrar um equilíbrio exato
pulso firme quando os assuntos chegam ao seu se podia esperar, por serem belicosos, os vihs en- entre suas antigas crenças
cuidado, mas também zeloso pela liberdade do contraram na visão de Alec, o mendicante, uma e os ditames do Tribunal.
espírito de Viha, pela liberdade dos ducados sob lógica muito mais coesa para com suas tradições Abandonaram seus atos mais
seu domínio, ao mesmo tempo que favorece o ancestrais. No desapego do material o homem se danos, se agarram ao tradi-
status estabelecido e o poder em mãos tradi- aproxima da natureza, e comungando com ela con- cionalismo. Não sei dizer, em
cionalmente escolhidas. Há alguns anos, Radu segue as respostas, orientações e paz. Dessa ma- minha vã sabedoria se seria
partiu em uma busca solitária, visitando a Taiga neira o poder do Tribunal dentro de Viha é muito interessante mexer com suas
Branca para encontrar a cura para Mika, seu fi- pequeno, já que os sacerdotes lá presentes, mes- crenças, pois no fim de tudo,
lho mais novo. Deixou Ivan, seu filho mais velho, mo bispos, mais parecem os druidas dos clãs, ho- são devotos do Único com
no comando do reino e quando retornou desco- mens simples de pés descalços que interpretam os grande fervor.
briu, para seu terror, que o filho do meio, Fëdor, sinais e os augúrios da natureza. Estes homens são
havia matado o irmão e assumido o seu lugar verdadeiros oradores e controladores de muitas O Tribunal deveria mostrar
com o apoio de muito jovens, todos cansados de massas. Os cultos antigos são tão plurais quanto apoio ao jovem. Uma comi-
participarem da vida sem nunca influenciarem o se pode imaginar. Cada clã segue uma linha muito tiva, com sacerdotes, bispos,
resultado final das coisas. Agora, Radu está iso- específica, adorando espíritos de ancestrais, ou de que proponha sua conversão
lado na porção norte de Viha, tentando acertar animais e seres protetores. Existe a ideia geral de ao conhecimento de todos.
as contas com seu filho. Apesar de todo o ódio que o mundo dos mortos, chamado Svarog, seja Tenho certeza de que ele não
que pode sentir pela traição, o velho rei ainda um lugar sempre próximo, acessado por certos recusaria as lanças e espadas
sonha com a Grande Viha e espera resolver a portais, passagens e caminhos escondidos, logo, dos cavaleiro sacros.
situação da melhor forma possível. Já Fëdor não eles possuem muito contato com seus ancestrais.
acredita na teia frouxa onde Viha está amarrada Os cultos não creem numa Alcova Profana criado- Possivelmente, um correspon-
e dedica-se a conquista, fazendo cada clã cur- rista, um lugar separado para o mal, já que o Sva- dente a Fímbria criadorista.
var-se a sua vontade. Mas engana-se quem cre rog comporta toda essa dualidade que é, segundo
eles, o próprio homem.

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b Belregard b
População O Passado
Majoritariamente formada pelos clãs de Viha. Viha nasceu como uma resposta dos bárbaros
Como solicitado, informo à minha A presença de igslavos também é relevante, da planície contra a exploração vinda de Ras-
senhoria que esses homens dominam especialmente em áreas onde os belghos po- tov. Viha fora, por muito tempo, uma terra
o controle do arco. E não são dem ser encontrados, no nordeste. Muitos dos dominada pelo tribunal, mas interpretações di-
homens fracos, como de costume, costumes antigos estão preservados em Viha, ferenciadas da fé sempre foram toleradas en-
são fortes com troncos milenares. especialmente as questões religiosas. Além de tre suas fronteiras. Aparentemente teria sido
Treinados nas armas pesadas, de seguirem com sua própria visão criadorista, em esta a única maneira de manter os bárbaros sob
balanço e no arco. Atiram em arco e Viha os cultos antigos são tolerados pelos clãs. controle. Viha foi uma das maiores opositoras
em linha reta com a mesma precisão. Além disso existe a questão da mobilidade mili- ao poder do Império e o combate aberto domi-
Usam flechas grossas, três vezes tar. Os homens livres de Viha costumam compor nou os campos do reino durante os primeiros
mais grossas que aquelas que usa- as fileiras de arqueiros das forças convocadas pela anos da ocupação. Demorou muito para que os
mos na região leste. nobreza e o valor destas tropas de artilharia faz vihs fossem acalmados e isso veio em uma nova
com que a mobilidade social, a mudança de uma conversão forçada. Muitos filhos foram tomados
Lembro-me de ler sobre as situação de homem simples, ainda que livre, dos pais, levados para a igreja. Coube pratica-
conversões. Os vihs sempre possa ser alterada para a de nobre menor, ou mente a toda uma nova geração o papel de acal-
demonstraram uma vontade ferro mesmo barão. mar os homens do norte. Ainda assim, ao
que só poderia ser dobrada com a longo de toda a existência do império de Vi-
força da fé e, principalmente, do Símbolo/Cor rka, uma ou outra revolta estourava em Viha.
fogo. Transformar estes lobos Sobre o escudo da casa Ignasov, partilhados A criação da Grande Viha pareceu acalmar os
em cães nunca foi tarefa fácil. nos campos negros e brancos, estão a figura do nobres, quando o território de Igslav foi incor-
lobo e do nó. O lobo carrega um forte signifi- porado ao de Viha, situação que mudou depois.
cado em Viha, por isso é apresentado em duas
formas, em guarda e em ataque. Como guar- O Presente
dião, o lobo representa Garmír, a besta que Durante a queda do império, os vihs foram os
defende a passagem do Svarog, que mantém a primeiros a pegar em armas a fim de lutar contra
separação entre os vivos e os mortos. O lobo poder absurdo que começava a destruí-los. Com
em sua postura de ataque apresenta o anseio de a reconsolidação do domínio em Viha, muitos
recuperar aquilo que um dia pertenceu ao povo tentaram retornar para sua antiga terra, mas
vihs, a Grande Viha. Os nós fazem relação di- a instabilidade geral trazida com a queda do im-
reta com a visão dos cultos antigos. É comum pério tornou esta uma tarefa muito difícil para
que os guerreiros, antes da batalha, façam laços a maioria dos homens que foram afastados de
e nós nos cabelos e barbas, isso mostra como seus lares. Com tanta gana por liberdade, não é
seu destino está entrelaçado com o que quer estranho esperar que o infante tenha reais mo-
que ocorra naquele momento. Apenas os deu- tivos para se erguer com seu genitor. A rebeldia
ses, apenas os espíritos podem desatar os nós, está tão atrelada a este povo, que muitos, mes-
que são ao mesmo tempo uma ligação direta mo não concordando, respeitam e apoiam a de-
com os ancestrais. É uma ideia antiga, a de que cisão audaciosa do jovem em desafiar o seu pai.
a vida de cada homem seja traçada por um fio O que é dito por muitos é que o velho já deveria
de tecido na grande trama da existência. Muito ter chamado por duelo e banhado o solo com o
provável que, com a vitória de Fëdor, o brasão sangue do seu filho, mas mesmo que a tradição
passe por mudanças. ordene algo, seu coração paterno tem evitado o
encontro fatal que se dará em breve.

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b DAS CASTELANIAS b
Assentamentos
a Inevitavelmente, as cidades estão sendo dra-
Fauna e Flora Fantásticas gadas para uma guerra civil. O Círculo Alvo,
uma área ancestral de adoração dos povos anti-
Aquilo que se destaca na natureza
gos, onde os clãs vihs sempre se reuniram para
particular de Viha
debates neutros sobre a escolha de seus reis e
Lança de Dazbog: Este cogumelo escuro e outras grandes decisões, tem servido como um
pontudo brota em muitos lugares de Viha. Tem marco geográfico entre os dois domínios. A
seu nome como referencia de um deus antigo Viha de hoje representa dois reinos em um só. A
que representa o sol para os povos vihs. O co- guerra aqui é fria como os alpes do litoral norte.
gumelo é utilizado em muitos rituais de bata- O velho escolheu um campo neutro para nego-
lha e mesmo antes destas, já que é capaz de ciações, o jovem escolheu outro. Mesmo os mais
levar os homens a um estado de transe insano próximos do reis não sabem como agir e têm
e assassino, onde desdenhas das proteções e medo de tomar uma ação errada. O conflito é
se lançam ao conflito de peito aberto, como diferente do esperado, tomado por covardia de
pontas de lança. escaramuças e perscrutação.

Arctodus: Este imenso urso vaga em peque- Existem seis grandes cidades ancestrais, todas
nos grupos familiares pelas terras de Viha. É elas recebem o apelido de Cabeças de Scylla. Esta
um animal magnífico e assustador. Muito maior que fora uma divindade cultuada no passado,
que qualquer urso de Belregard, são ainda mais como uma besta dos mares. Pelo que as lendas
magros, de modo que suas cargas são acelera- antigos relatam, Scylla seria uma ninfa de rara be-
das com as pernas longas. A pele destes animais leza, mas da cintura para baixo ela estava ligada a
é valorizada, mas possuem uma aura quase sa- inúmeros tentáculos que terminavam com a cabe-
grada para os clãs de Viha, que caçam estes ani- ça de lobo que uivava e rosnava sem parar. Este seria o momento perfeito
mais apenas como parte de elaborados rituais.
Cada cidade que compõe a Scylla é escolhida
para firmam uma boa alian-
pelo Rei. Caso um novo rei assuma, ele poderá
ça. Nosso espiões possuem
destituir ou erguer novas cidades. Estas cidades
informações privilegiadas caso
Relações e Comércio possuem regalias vantajosas, como menos im-
o Tribunal tenha interesse.
Os vizinhos estão com medo de fazer negó- postos, mais soldados, melhores sementes e vi-
Tanto o pai quando o filho
cios, estão com medo de escolherem o lado er- gilância acirrada. Isso apenas fortalece o status
estão atrás de ajuda, e podem
rado. Caso façam negócios com o velho, terão quo tão odiado pelo jovem rei.
a qualquer momento, dar um
sérios problemas comerciais com o novo. Caso
passo vacilante em direção ao
escolham o novo, podem sentir o peso da fú- Zamok fracasso.. A hora perfeita para
ria do velho. O lugar vive sob tensão, pois não (aprox. 10.000 habitantes) encontrarem a mão do Tribunal.
há uma guerra declarada, apenas movimenta- É a capital oficial de Viha, localizada ao sul do
ções. O velho não deixa claro suas intenções, Círculo Alvo, de modo que atualmente encon-
o jovem tem movido suas peças com audácia. tra-se ocupada por Fëdor e seus partidários. É
Os vizinhos têm medo disso e estão estocando uma cidade grande, murada e repleta de salões
comida e armas. Alguns pretendem lucrar com de madeira, onde os festejos são constantes.
uma possível futura guerra. Todos os ânimos A despeito da postura belicosa atual ocupada
estão inflamados. aqui, os clãs não deixam de celebrar. O clima ge-

b 169 b
b Belregard b
ral é de vitória, todos consideram que o reinado
de Radu terminou e é só uma questão de tem-
po até que o crânio do velho esteja enfeitando
a
as paliçadas. Patrono Local: Fëdor Ignasov, o Cavaleiros Mercantes em Viha
filho do rei. O príncipe é jovem e visionário, bei-
rando o fanatismo em seu sonho de conquista. Devido a atual situação política de Viha, os ca-

A coisa é tão séria meu valeiros mercantes da castelania estão em forte


Borghatya
senhor, que nem mesmo os desuso. Alguns grupos continuam atuando nas
(aprox. 2.000 habitantes)
tradicionais e sagrados ritos cidades fronteiriças, fazendo o serviço para as
de inverno foram respeitados. Fica ao sul, ás margens do lago Vorga. Prati- casas mercantes da forma tradicional, juran-
Os reis não foram vistos, cam a caça e realizam festividades esportivas de
do fidelidade e se valendo com a honestidade
preferiram ficarem isolados em inverno. Local é conhecido pela ótima madeira
e dedicação. Como servem aos comerciantes,
seus quarteis de guerra, evi- cortada das florestas leste que fazem sua fron-
sua lealdade não se encontra dividida num nível
tando expor-se. O povo está teira com Dalanor, pelo lago. Uma área que ainda
triste e os sábios dizem carrega o misticismo dos vizinhos. Patrono lo- imediato, mas seus senhores, os ricos negocia-

que isso irá irar os ventos do cal: Gornek, o Curto. Homem baixo e atarracado, dores, podem colocá-los em posições opostas

inverno. Parece que um grande feroz seguidor de Fëdor, sendo seu amigo desde nos conflitos nascentes. Isso seria belo senão
inverno está chegando.. a infância. Dizem que foi Gornek quem segurou trágico, pois tais cavaleiros têm sido pegos na
Ivan para que o amigo pudesse matá-lo. Gornek guerra trocada, entre os disparos de ataques,
fala pouco, preferindo a linguagem do aço.
eles são os primeiros a morrer. Como mensa-

Borgrovinik gens de alerta, alertas de terror, saque e assas-

(aprox. 5.000 habitantes) sinato, esses cavaleiros são usados como peças
Fontes seguras meu senhor, Uma cidade que vive da pesca do mar, desen-
no triste tabuleiro que os dois reis indecisos co-
nos garantem que a bruxa está volvida com a tecnologia de barcos que supor- locaram na mesa. Se não fosse pelos pesados
agindo para os dois lados. Tem tam as marés traiçoeiras. Possui águas termais votos de lealdade, todos debandariam. Aqueles
se encontrado com o pai, mesmo que foram transformadas em banhos na época que o fizeram, encontraram tristes fins.
jurando lealdade ao filho. Alguns do império e ainda hoje são populares como fon-
dizem que ela quer cumprir tes curativas para algumas doenças. Um dos lo-
planos malévolos, outros alegam cais que juram total fidelidade a Fëdor. Patrono
que ela tenta apenas remediar Local: Baba Vikina, a velha bruxa é a principal pedra, boa parte das pessoas vivem em largas
a situação. Independente disto, conselheira de Fëdor. O jovem príncipe leva os tendas de couro com postes centrais. A caça é
tomando por verdade, essa enig- conselhos da sábia em muita conta. Acreditam a principal atividade local e torna Tarlag uma
mática criatura tem seus próprios que ele mesmo não forçou um encontro com o cidade famosa pela troca de peles e demais de-
interesses nesta guerra. pai porque Vinika lhe disse sobre dias auspicio- rivados. Alguns senhores de clãs do norte tem
sos para o combate, coisa que o rapaz espera. ocupado áreas de Tarlag com seus homens para
mostrar apoio ao rei, fato que, mesmo entre
Tarlag aliados vihs, faz estourar uma ou outra briga
(aprox. 8.000 habitantes) volta e meia. Patrono local: Radu Ignasov, rei
Cidade ao norte do Círculo Alvo, atual refúgio de Viha. O velho alfa dos lobos bárbaros vive
de Radu Ignasov. Trata-se um lugar caótico, com em um estado de latende depressão, incapaz de
poucas construções permanente de madeira e acreditar nos últimos acontecimentos.

b 170 b
b DAS CASTELANIAS b
Dizem que infiltradores do
Gravura estilo bertina de Mottazzi jovem príncipe estão procu-
representando as cidades Ignar e Röv.
rando uma brecha para raptar
Mika. Ele não quer que esse
casamento seja firmado, possui
outros planos para a irmã.
Mas será difícil passar pela
proteção de Lerith e toda
sua sagacidade. Além disso,
a Alta conta com ajuda dos
melhores homens do velho rei.

Tudo indica que os druídas não


estão felizes com a atual
situação de Viha e que, se pai
e filho não se resolverem irão
invocar antigos ritos sangren-
tos, que obrigarão os dois a se
enfrentarem ou darão a coroa
para uma nova linhagem.

milenares concedem poderes mágicos aos druidas que aqui vivem e por
isso é o local onde os mais antigos ritos são realizados. O tribunal nunca
Röv (aprox. 5.000 habitantes)
consegui entrar em Borgata e nem mesmo a religiosidade mesclada do
Esta cidade na margem do rio Stöv é a prin- criadorismo tem força nos salões dos druidas. Patrono local: Tebrus, o
cipal aliada de Radu. A cidade é irmã de Ignar, seco. Este velho druida vê com alegria os conflitos de Viha, entendendo
no território de Rastov, do outro lado do rio e, que o caos é o que os deuses desejam.
seguindo conselheiros, o rei pretende casar sua
filha com o filho de Bron, senhor daquelas ter- Forças Militares
ras. Talvez seja o primeiro passo para que Radu Como sempre foi formada por clãs quase independentes, as forças de
demonstre que deseja formar a Grande Viha no- Viha são livres, servindo apenas ao senhor do clã ou ao rei em tempos
vamente. A cidade em um porto pesqueiro prós- de guerra e, agora, encontram-se divididas em duas frentes.
pero que, apesar de manter um povo belicoso
por trás de suas parcas muralhas, sempre expe- Ratos de Fëdor
rimentou tranquilidade. Patrono local: Lerith, (número desconhecido)
a Alta. Forte aliada de Radu, Lerith está com a Agem como espiões, captando informações e principalmente, denun-
guarda de Mika, a filha mais nova do rei. A me- ciando qualquer um que não apoie o novo rei. Possuem uma série de
nina se recuperou da saúde debilitada, mas deve gestos e sinais que os identificam como parte do grupo. Um métodos
ser poupada dos horrores da guerra, da luta en-
de guerrilha completamente nova para o povo de Viha.
tre os de seu sangue.
Mandíbula de Garmír (150 lanceiros)
Borgata (aprox. 2.000 habitantes) As forças principais de Fëdor que aumentam dia após dia. Todo jo-
A cidade dos sábios possui os mais anti- vem poderá portar uma arma e mudar o futuro e por isso, mais e mais
gos sítios. Dizem que ossadas de criaturas recrutam se aprontam.

b 171 b
b Belregard b
Serpentes de Anulag (150 lanceiros)
a
Descendentes de um culto primitivo, esses
Holspä, os jogos da virtude
guerreiros são escolhidos em seu nascimento.
Sem sentimentos, eles servem como assassinos,
Sedia-se anualmente em Borghatya o Holspä,
capatazes e carrascos para o rei. Atualmente
uma sequência de atividades esportivas que
encontram-se divididos, mas ainda tendem a
tomam vários dias de toda a castelania. São
servir Radu, pelo menos até que Fëdor consiga
enviadas equipes de todas as cidades e todo e
matá-lo.
qualquer conflito ou situação de instabilidade
política é parada durante os jogos. Porém, di-
Vigília Imortal (200 lanceiros)
ferentemente da caça, torneios de arquearia ou
Contingente maior responsável por julgar e
justas dalanas, por exemplo, a Holspä se adéqua
servir. Como andarilhos, estes soldados cami-
à austeridade e simplicidade de Viha. Disputas
nham com a função de proteger os mais fracos.
como arremesso de toras de madeira, resistên-
Tentam ignorar o conflito e concentrar-se na
cia em submergir no lago Vorga, parcialmente
segurança dos clãs.
congelado, e disputas pelo maior consumo de
porcos assados são apenas algumas das moda-
Lobos de Radu
lidades do festival, que possui grande consumo
(100 lanceiros e 100 arqueiros)
de bebidas alcoólicas e festividades em todas
as noites. Vez por outra o Tribunal envia seus A guarda pessoal do rei respondeu ao seu

homens para tentar fiscalizar a festa, mas nada chamado assim que ele se estabeleceu no norte.

surte efeito. Seus arqueiros são lendários como matadores


profissionais, fazendo uso do arco de teixo, tão
Para além de ser um ritual que instaura por famoso entre os vihs. Seus número tem aumen-
muitas vezes a paz em meio à tensão da caste- tado, até mesmo aqueles que estavam velhos
lania, verdadeiramente decide laços de aliança têm desenferrujado suas armas para servir seu
e exalta honra e prestígio aos participantes. rei verdadeiro.
Há alguns que afirmam que as facções políti-
cas e os acordos são verdadeiramente selados Construções e Formações
não nos bastidores do Holspä, mas durante as Dos locais mais importantes, estes são os que

competições. Vencer um torneio, pode signifi- se destacam.


Neste rito, duas pessoas
car uma vitória em uma circunstância na qual
são obrigadas a lutar, com seria muito improvável sair vivo em um comba-
Hadzihel “Círculo Alvo”
armas cegas e pouca proteção, te armado. Contudo, apenas vihs e igslavos são Dizem que a primeira grande assembleia dos
fazendo com que o combate autorizados inicialmente a participar dos tor- clãs ocorreu com a chegada dos belghos na mar-
dure muito. O derramamento neios, ainda que nomes de estrangeiros estejam cha de Larsen. Eles se reuniram num antigo tem-
de sangue deve durar horas grafados na grande pedra que registra o nome plo a céu aberto, um círculo de pedras, para deci-
em um combate até a morte, dos antigos vencedores. Como eles consegui- dir o destino dos estrangeiros. Ainda hoje o local
causando muita dor antes que ram participar do Holspä? Há quem diga que é é respeitado como terreno neutro, especialmente
o derrotado seja levado dessa necessário efetuar um ritual iniciático. Talvez para as questões do conflito entre pai e filho. É
vida para os braços da morte. seja por isso que apenas ao lado dos nomes dos muito possível que o ritual da monomancia tome
estrangeiros há uma marca de sangue… palco entre estas pedras antigas, que já viram
muitos reis serem coroados e depois tombar.

b 172 b
b DAS CASTELANIAS b O local está confuso até
Küstefeld “Alpes do Litoral” realidade são antigas tumbas dos senhores de em sua linguagem. Antigos
A fronteira física de Viha com Rastov é a Tai-
clãs do passado, assim como se seus homens e tradicionais nomes estão
ga Branca, porque a costa norte, outro caminho
sábios, seus druidas, feiticeiros e sacerdotes. sendo abandonados pelos
possível, é macada por paredões rochosos pe-
Um terreno tomado por superstições e medo, equivalentes da linguagem
mas que atrai os loucos e corajosos com a pro- comum. Isso têm irado druídas,
rigosíssimos, onde imensas aves fazem ninhos.
messa do ouro enterrado junto destes homens principalmente por ser adotado
Além disso, por seus vales profundos existem
importantes do passado. pelos incultos e apoiado pelo
buracos chamados “Ira da Terra”, por onde jatos
de água fervente jorram de tempos em tempos.
jovem príncipe.
Caminhar por estes corredores é muito perigo- a
so, já que os buracos expelem fumaça a todo
O Isolamento em Viha Em sigilo, relata-se que o
momento, jorrando sem qualquer aviso prévio. jovem, tomado de ganância,
Além dos perigos naturais de uma terra indô- tem aceitado entre os seus,
Hassjäger “Campos de Caça” toda sorte de bandidos e
mita, Viha sempre foi arriscada para viajantes.
Este termo se refere a todo território selva- Antes mesmo do conflito de sangue familiar, saqueadores. Até mesmo o
gem de Viha. É uma prática comum entre os os clãs já eram uma ameaça para viajantes crime mortal de saquear as
clãs realizar rituais de passagem entre os jovens desavisados. Quem não conhece as terras não Planícies Ondulantes tem
que se tornam adultos. O mais popular é o da imagina que está passando de um território sido perdoado, tudo em troca
caçada, onde os jovens candidatos são manda- para outro, de modo que podem ser abordados, de mais e mais lanças para
dos para os campos próximos do clã e devem ou atacados diretamente, por grupos divergen- travar sua guerra.
sobreviver durante uma semana, enquanto são tes a qualquer momento. Existem clãs que são Se isso for verdade, ele está
caçados pelos seus companheiros. Dificilmente até mesmo nômades e vivem apenas do saque alimentando a fera que poderá
alguém morre no processo, mas aqueles que são de viajantes ou nas colheitas. Atualmente a si-
lhe devorar por inteiro.
capturados devem passar mais um ano como
tuação se tornou ainda pior, já que a divisão
crianças até terem uma nova oportunidade.
interna em dois blocos deixou as hostilidades,
que eram apenas por baixo dos panos, declara-
Waldklänge “Floresta dos Sussurros”
das. Viha nunca esteve tão perigosa.
Este ramo da grande floresta de Dalanor, nas
Terras Altas, carrega muitas características se- Ouro de Reis, Ruína de Tolos
melhantes ao terreno vizinho, mas as árvores
É de conhecimento geral para os moradores
seguem uma mescla, tornando-se coníferas na
de Viha que muitos tesouros e artefatos len-
margem oeste. É uma área exuberante e fresca,
dários estão enterrados junto de seus antigos
convidativa, com uma fauna farta. Local tam-
donos nas Planícies Ondulantes. Apenas um
bém de lendas, já que os povos feéricos de Dalanor
tolo tentaria roubar as posses de antigos reis
certamente perambulam por lá também. Os kil-
e druidas, mas uma busca pode ser motivada
then das Terras Altas fazem a floresta de morada.
pelo desespero, especialmente com Viha vi-
Faldwell “Planícies Ondulantes” vendo sua divisão ao mesmo tempo que em
que observa a possibilidade de recuperar seu
Uma série de morros baixos que podem fa-
território de Igslav.
cilmente confundir o viajante, mas que na

b 173 b
b DAS CASTELANIAS b

Virka
“A torre que nos levará ao céu.”

Eu tentei meu senhor, mas falhei. Me esforcei ao máximo, mas falhei. Virka se tornou
uma terra fechada, uma
casca bruta impenetrável. O caminho para entrar no vale, o passo da glória, ainda está
sendo ladeado pelas
figuras silenciosas de antigos imperadores cravados nas rochas escuras, mas tudo lá
dentro mudou. As cidades
de mármore estão arruinadas e a natureza reclama o terreno de volta para si. O vento
que sopra no vale é
abafado, carregado de miasmas enlouquecedores, prova disso é que alguns insistem em
viver naquela terra mal-
quista. O que pude fazer, de melhor, foi juntar relatos de alguns viajantes, ou fugitiv
os, tentando dessa forma
compreender o que existe lá. Enviei algumas pessoas eu mesmo, mas o resultado não foi
melhor. Alguns não
retornaram, outros vieram loucos e um deles ousou dizer que viveria no vale para sempre
, pois é supostamente
uma terra de liberdade, certamente os devaneios de um homem demente. Transcrevi o
material, já que muitos se
encontravam em situação lamentável. Espero encontrar teu perdão pela falta de compet
ência.

Mensagem do batedor Enrico, para o seu senhor


“Ainda existe vida no vale, meu senhor! Vir- A palidez da pedra é hoje manchada pelo
ka já recebeu muitos nomes. Já foi a primeira verde da natureza, que parece encobrir o
cidade dos homens, o centro do mundo, a ca- vale. É como se o próprio tempo fizesse o pos-
pital de um império, mas hoje jaz em ruínas sível para esquecer-se de tudo que ali acon-
– abandonada a própria sorte. Evitada por teceu. Os testemunhos de sábios sobreviventes
todo e qualquer homem de bem, os boatos e da queda do império alegam que nenhum
rumores sobre as condições vergonhosas do exército seria capaz de destruir a cidade, da
antigo orgulho imperial se espalham pelo forma como foi e eu sou capaz de atestar isso
mundo civilizado. Apenas relatos posteriores com meus olhos. As construções megalíticas
à queda dos Vlakin, e algumas notas de via- de Virka resistiram a investidas de aríetes e
jantes corajosos, loucos ou perdidos, dão cabo catapultas. Algo fez esta terra tremer. Não
de pintar uma visão da cidade. Sabe-se que caminhei pelo centro do vale, circundei as
as antigas estruturas de mármore, com seus montanhas e encontrei os abutus vivendo no
pilares circulares e estatuetas de perfeitas fei- norte. Um povo tímido, receoso de qualquer
ções estão arruinadas, mas ainda de pé. um de fora. Não sei se são pecadores por na-
tureza, como alega o Tribunal, mas até mesmo
eles enxergam a maldade em Virka”.

b 175 b
b Belregard b
a
Não é tão Ruim Assim?

O vale de Virka é grande o bastante para conter um punhado de cidades e vilarejos. Quando a guerra civil
se espalhou como fogo dentro do vale, boa parte destes lugares se tornaram perigosos, por conter algumas
riquezas que logo seriam saqueadas, mas e depois? Não haveriam soldados, cavaleiros, que participaram
das guerras e desejavam tomar pra si um pouco daquela terra? Não haviam filhos muito abaixo da linha
sucessória que teriam melhores chances firmando um ducado, ou um condado dentro do vale de Virka? Por
que isso não aconteceu? Primeiro, por não existir mais um poder centralizador que desse a confirmação
desse novo controle. Mas nada impede que estes homens tenham sim tentado se firmar a força. E se existem
duques e condes em cidades arruinadas, fazendo o possível para manter sua própria hegemonia no vale?

Relato de Benegário de Tiepole


“Meu senhor, perceba, sou apenas um comerciante. O que eu faço é um serviço para nobres saudosistas ou curiosos.
Minha casa conseguiu fazer algum nome nos últimos anos e com meus cavaleiros mercantes conseguimos entrar no
vale para recuperar alguns objetos. O senhor sabe que o artesanato de Virka é valorizado, assim como seu trabalho
em pedra e dessa forma recupero estes artefatos mundanos para vender. Não pense que roubo ou que saqueio, muitas
das vezes é apenas outro mercado. A menos de um dia de cavalgada, depois da passagem pelas montanhas, uma
antiga vila é utilizada como ponto de troca. Quem cuida dela são pessoas que continuam vivendo lá. Eu não questiono,
não pergunto sobre seus senhores, nem mesmo sobre seus interesses com o que eu troco, mas eles sempre me desejam
a segurança do Criador, e isso me basta”.

a
Ruínas e Relíquias

Virka está cheia de tesouros do passado, os mais importantes são a Coroa do Imperador, a pesada máscara
de ferro negro que o conquistador forjou em Belghor; A Litania do Criador, o tomo máximo, imenso e pe-
sado do criadorismo, perdido desde a queda, contendo os caracteres de poder ditados pelo Pai; o Esteio do
Eleito, o báculo divino daquele que guia a alma dos homens; O Primeiro Livro dos Grandes Milagres, um
livro catalogando os atos supernos realizados pelos homens de fé desde o inicio dos tempos. Estas e muitas
outras relíquias podem ainda estar nas ruínas de Virka, ou na posse de pessoas de outras castelanias que
já enviaram seus saqueadores. Este interesse por relíquias sempre existiu, mas agora é fomentado, já que a
capital do império caiu, fazendo com que armas de soldados, formas de brasões, elmos de crista, estátuas
de homens importantes, tudo seja ainda mais procurado. E algumas casas nobres acrescentam estes objetos
a suas galerias de artes.

b 176 b
b DAS CASTELANIAS b
Das confissões de Vougan Velhaco
“Nossos inquisidores questionaram a decrépita figu- Lá, percebendo que no interior do poço havia o que
ra de Vougan até ele nos contar sua verdadeira parecia ser sangue, coletou alguns sanguessugas que
história. Verdade ou não, confirma a perturbação estavam agarrados as paredes e em massas de carne
de sua mente e justifica o uso do fogo para acabar disformes. Vougan detalha de forma depravada o
com seu tormento. O velho alega ter mais de cem apetite que sentiu enquanto observava o pequeno
anos e que recebeu a benção da vida quando fez animal se contorcendo entre seus dedos e chegou a
parte do grupo de mercenários de Dalanor, “Riso babar durante o depoimento, lembrando-se de como
de Tiecelin”. É uma figura respeitada neste vilarejo foi delicioso colocar aquilo na boca e morder até
e o povo ignorante o chama de milagreiro. Pouco estourar, com o sangue fresco alimentando-o. O ve-
depois da queda do império, o bando de Vougan foi lho disse que sentiu-se mais vivo que nunca, dono de
enviado a Virka para saquear e depois de se separar uma saúde de ferro. Uma blasfêmia, naturalmente.
do grupo, encontrou um poço fétido dentro dos anti- O fogo lhe trará paz”.
gos salões desmoronados da capital.

a
Sangue Fresco

O sangue é um elemento importante na cultura geral de Belregard. É através do trabalho nele, com as san-
grias, que um homem doente pode ter seus humores equilibrados e encontrar a cura. É de conhecimento
geral que o sangue dos reis é diferente do sangue dos meros mortais. O que dirá então, o sangue de um impe-
rador? Dizem que era costume em Virka, na capital, guardar os sanguessugas do tratamento da família. Eles
eram mantidos em poços úmidos e eram bem alimentados. Esse cuidado era motivado por esta crença de
que o sangue da nobreza é diferente do da plebe e, quando caindo em mãos erradas, poderia utilizado para
feitiços e pragas. Talvez Vougan tenha tido a sorte de abocanhar o sanguessuga que carregava a essência dos
Vlakin, ou o motivo de sua longevidade seja outro, completamente diferente.

Devaneios de um fugitivo de Virka

“Este homem foi encontrado em Rivienza, Varning, com os pés sangrando. Ele tinha um sorriso demente
nos lábios quando viu as pessoas saindo de suas casas pela manhã. Foi detido, considerado um degenerado.
Estava nu e desnutrido. A igreja foi chamada e um sacerdote conseguiu tirar dele algumas verdade. Chama-
va-se Erasmus e vivia em Virka. Segundo ele, tinha família e fugiu de lá porque seria condenado a morte.
Falou que Virka não tem um rei, mas a antiga capital é ocupada por um poderoso culto, o Vermis Vocis.
Eles fazem uso do grande fosso escavado pelos imperadores, onde está uma ligação para a Alcova Profana
da Sombra Viva. Lá, os imperadores arremessavam os condenados por traição e Erasmus disse que havia
traído o culto e por isso fora condenado, mas fugiu, porque não queria ouvir o rugido da besta. Um louco.
Mas é preciso ter cautela, já que é possível que toda sorte de cultos se proliferem nas ruínas abandonadas”.

b 177 b
b Belregard b
a
O Vermis Vocis

O culto é um exemplo do tipo de deturpação que pode ocorrer dentro de Virka. Como os imperadores ha-
viam, em sua arrogância, escavado um fosso profundo no meio da cidade, para jogar lá seus condenados
como um testemunho de que Virka era maior que a Sombra, não é difícil de imaginar um uso disso para
cultistas e fanáticos. O Vermis Vocis é liderado pela misteriosa figura que atende pelo nome de Voz e todo
seu conhecimento é baseado na leitura de um livro chamado Laudare ad Vermem, escrito na Fala Negra de
Belghor. O culto controla alguma parte das antigas ruínas, cobrando tributo dos moradores que ainda vivem
lá. Na maior parte do tempo não incomodam, mas ocasionalmente surgem com demandas, como exigências
de sacrifícios, além dos tributos de plantio. No fundo, talvez, o Vermis Vocis represente um monarca como
qualquer outro homem cruel de Belregard.

Canção do Fora da Lei

“Uma pequena estrofe da música que tem sido ouvida, não nos salões da nobreza,
mas nas praças sujas de cidades e vilas pobres...

“Venha você, bandido, caminhe comigo

Até a verdejante Virka, onde todo homem tem abrigo!

Árvores, caça e o frescor da sombra do vale

Longe da corte e do prelado, onde só a traição cabe!”

a
Corte Criminosa

É de se imaginar que os boatos também causem desejos exploratórios, especialmente quando as lendas
falam sobre uma terra sem reis, onde todos os homens vivem livres, respeitando-se uns aos outros. Párias,
bandidos, criminosos, veem Virka como uma terra prometida, um lugar seguro, onde podem viver sem as
cobranças da vida juramentada, onde podem caçar e viver uma vida simples, feliz. A situação pode até ser
essa, em algum lugar do vale, mas tratá-lo por inteiro como um paraíso pode tirar boa parte do tempero que
o torna interessante para uma história, como a sombra sempre presente da corrupção que vaza do fosso no
meio da antiga capital. E todos nós sabemos: Virka pode até mesmo ser um paraíso, mas basta o número
certo de seres humanos para que tudo se torne ruína e o abuso de poder ocorra.

b 178 b
b DAS CASTELANIAS b
Das palavras do louco Inácio, trancafiado em Vlakir
Inácio fora capturado depois de enlouquecer. Vivera como nobre em Vlakir, aceitando os ditames detur-
pados da religiosidade local e como viera de uma família apegada aos preceitos do império, Inácio viveu
bem até abraçar a loucura. Ele disse, em seus devaneios, que havia encontrado diários de seu avô, que
fora camareiro do último imperador e que, supostamente, esteve com o Vlakin em seu último momento. Seu
avô viveu em Vlakir por pouco tempo e o jovem Inácio tinha apenas uma única lembrança dele, do dia
em que o encontraram em sua casa, nu e imundo, tendo deixado mensagens nas paredes e em folhas, com
dizeres estranhos, mapas do céu noturno e orações apócrifas. O velho escondeu as anotações entregando
ao neto, dizendo-lhe que um dia ele entenderia tudo aquilo. Inácio alega que compreendeu, mas não tem
os papéis. Para a absorver todo o conhecimento, devorou as páginas. E agora murmura que espera a
chegada deles, porque as estrelas se alinham e logo um grande olho se abrirá no céu. Ele gargalha e
se refestela na própria imundice, alegando já ouvir o rufar demente das trombetas da destruição. Não foi
purificado no fogo, pois alguns homens de Vlakir acreditam que a loucura de Inácio é um toque de Deus
e que, apesar de perturbado, o que ele prevê é o alcance do terceiro céu.

a
O Fim do Mundo

Preocupações sobre o fim do mundo sempre existiram em Belregard. Dificilmente um homem comum
pensa no mundo muito distante do momento em que ele vive. Projeções daqui a 100, 200 anos são com-
pletamente absurdas mesmo para os reis que podem, no máximo, esperar que seu sangue ainda esteja
correndo entre a nobreza. Eventos marcantes, como eclipses, sempre são acompanhados de uma pesada
carga de crendice escatológica. E mesmo a situação atual do mundo, em sua política isolacionista, faz
com que o fantasma de um apocalipse paire no ar. Os de cabeça fraca se agarram a cultos inomináveis,
que alegam reconhecer aquele punhado de escolhidos. Outros lutam por uma nova união, dizendo que
esse afastamento dos povos envergonha o Criador. O fim do mundo pode muito bem já estar, no isolamen-
to, ou talvez ele venha dos céus, das entranhas da terra, com o despertar de coisas antigas. Mesmo que
tratada com certo desdém em outros lugares, por pessoas esclarecidas, em Virka parece que as pessoas
realmente creem que o mundo está para acabar.

Relato do mercador Décio:


Em certa feita, numa grande feira, conheci um rapaz que veio de Virka. Seu nome era Túlio e disse que
era “nascido no touro”. Não entendi na hora, mas depois que dividi a tenda com ele pelos dias da feira,
acabou se abrindo comigo. Túlio disse que, apesar de Virka ter sido o berço da maior civilização que já
marcou Belregard, a mistura gerada lá e o abandono do Tribunal fez com que ritos antigos, misturados
entre si, voltassem a aparecer. Ele disse que se chamava tauromaquia, nunca tinha ouvido esse nome em
minha vida. Aparentemente, a pessoa a ser batizada lá, era banhada no sangue de um touro, grandes
touros, atiçados pelos participantes, que depois se entregavam aos festins e libações. Ao que entendi, não
era apenas um batismo daqueles que nascem, mas também para aqueles que se tornam guerreiros. Saiba
apenas, vossa santidade, que não mais me deitei com Décio, ou o permiti em minha tenda, depois de desco-
brir isso. Eu juro pelo Criador nos céus.

b 179 b
b Belregard b
a
Velhos Inimigos

Um medo perene que ainda assombra os pensamentos dos moradores de Belregard é o retorno dos selva-
gens. Muitos ainda tocam nestes nomes, alertando filhos, vizinhos, sobre os perigos de se caminhar pelos
ermos, onde eles ainda viveriam. É fato que não se vê um selvagem a mais de mil anos, mas as práticas
deles ainda podem ser encontradas em comunidades isoladas do mundo. Com Virka não foi diferente.
Poderiam os homens do vale ter encontrado algum sobrevivente? Talvez aprisionado de forma misteriosa,
com o uso de algum sortilégio brovático, dentro de salões profundos? Poderia algum tipo de selvagem
voltar a caminhar sob o sol? Ou mesmo algum dos patriarcas e matriarcas que pariram estes seres? Po-
deriam ser eles homens? Afinal de contas, não seria a selvageria inerente a todos nós?

Localidades e Marcos
É possível deduzir algumas coisas que ainda
existem em Virka, algumas características que
se mantiveram mesmo com a queda do império.
De tudo visto aqui, aquilo que se destaca:

Virka, Cidade das Torres


A capital, primeira cidade dos homens, sempre
foi grande, espaçosa e protegida. De certo que
suas muralhas, hoje, estão arruinadas e suas tor-
res tombadas, mas é nesta ruína que encontram
o Castelo Real do Imperador, a Catedral do Dei-
cídio e tantos outros locais de extrema impor-
tância na história dos homens, como o grande
fosso que liberou os miasmas que envenenam o
mundo. De certo que foi um local saqueado, mas
sabe-se lá o que ainda pode existir de valioso em
seus corredores e salões abandonados.

Sapienta
Gravura estilo
bertina de Mottazzi Um complexo de torres e salões de estudo,
representando ruínas
comumente vistas local onde o imperador passou a maior par-
em Virka.
te de seus últimos dias. Estudava com afinco
textos antigos e proibidos. Dizem que morreu
na mais alta das torres do complexo, tran-
cando-se em uma das salas, onde ateou fogo.
Fica ao nor te de Virka e perdeu boa par te de
seu valor nas chamas.

b 180 b
b DAS CASTELANIAS b
Obelisco de Morovan
Assim como existe a pedra angular e funda- Alguns alegam já terem-na visto flutuar em certas
mental em Belghor, que marca o ponto onde as noites. Outros falam que ela aumenta de tamanho, como
primeiras lições do Criador foram deixadas, Vi-
rka exibe o Obelisco de Morovan como o mes- se saísse da terra, outro já dizem o contrário, que ela era
mo significado. Com a altura de mais de cinco bem maior. A única verdade é que existe algo de estra-
homens, acredita-se que esta imensa pedra ne-
gra e lisa, angulosa, já estava erguida quando
nho com o Obelisco, sendo essa estranheza algo muito
os homens chegaram ao vale. Era um local de particular do observador.
orações e pedidos, onde os primeiros oradores
faziam suas celebrações fundamentais.

As Fendas
Uma formação mais recente, as fendas não
tem apenas um lugar como referência. Elas são Tudo está morto senhor. Um campo enorme, como um baronato,
rachaduras, buracos na própria terra, por onde todo queimado. Sem vida. Mas não foi fogo, mas sim o calor da
exala calor e fumaça. Acredita-se que sejam re-
terra que não permite que haja vida. É assombroso.
verberações do grande fosso escavado no meio
da cidade, uma resposta da Alcova Profana, que
agora faz os seus próprios caminhos para Belre-
gard. Evita-se ao máximo passar perto das cor-
rentes de ar quente que exalam destes buracos.

As Fossas
O antigo local onde fora tirada toda pedra uti- Isso serve como proteção natural ao local meu senhor. Um
lizada para a construção do império se tornou
um conjunto de fossos horrendos, deformes, es-
grande contingente teria muitas dificuldades para adentrar à
quálidos, nas montanhas que circundam Virka. cidade sem ser surpreendido pelos enormes buracos, que aparecem
Buracos enormes feitos pelos homens, tomados de repente e sem aviso. Parecem verdadeiras alcovas profanas em
de águas sujas pelos antigos resíduos da escava-
ção e cercado por uma vegetação hostil.
escala menor. E há quem diga que brotam bestas nunca antes
vistas de tais orifícios. Obviamente crendices.

b 181 b
b DAS CASTELANIAS b

Vlakir
“O que você teme?”
Senhor, desde já peço
desculpas se lhe ofendo com
as palavras que escreverei, mas
meus olhos apenas relatam
aquilo que vi e li. Não aumentei
Capital Adoração um único fato, mesmo quando
Chryssos (Cidadela de Prata). Braço apócrifo do Criadorismo. Durante a minha alma foi acometida pela
queda do império, quando tudo começou a ruir imensa surpresa e descrédito.
População frente aos olhos dos homens, muita coisa mu- Não creio das sandices que
Maioria Belghos seguido de Parlos e uma dou sua ordem. Antigos caíram e novos se reer- ouvi, mas não sou eu que devo
mistura de várias etnias que se juntaram na for- gueram. O atual Rei Demiurgo foi iluminado julgar, mas antes de tudo,
mação da cidade desde a época do império. É por um profeta misterioso e todos agora creem deixo claro pela minha alma
estranho, não segue uma lógica esperada. Uma em Demiurgo, um dos nomes do Único. Ocorre como testemunha: Ao Único
mistura disforme e impossível em qualquer ou- em Vlakir uma heresia declarada, um culto a fi- não reside aqui.
tro lugar. Aqui encontramos uma amostra do gura do rei. As orações são feitas em seu nome,
que seria Belregard em sua totalidade. Dos mais direcionadas a sua figura. Uma anomalia. Dizem que este emissário tem
distantes, reclusos, passando pelos mais popu- servido como conselheiro do Rei
losos, todos os povos estão representados aqui, Símbolo/Cor Demiurgo em sigilo, lhe ensi-
seja ao menos por um único cidadão. É como se Adornando um fundo de cor vermelho escura, nando rituais espirituais para
tivessem preparando uma arca, com uma amos- assim como a cor das bandeiras do antigo impé- ser um líder perfeito, dobrando
tra de cada um dos povos, para o caso de tudo rio, estão duas plumas de cores marrom e bran- a vontade de seus seguidores.
isso um dia ser engolfado pelas águas. co mescladas, como as cores da águia e as cores Ele lhe tem ensinado sobre
do leão. Ao centro, temos um grifo estampado, conhecimentos tão profundos
PODER uma criatura monógama, símbolo do casamento que até mesmo Bövrar II
Rei Demiurgo, O Sem Nome, Aquele que e pacto. Ela representa as ideologias do antigo
Morrera, O que se Fez Novo, O Encarnado, O
poderia se surpreender.
império somando duas naturezas e qualidades
Escolhido das Estrelas, O Portador da Stémma. distintas, a da águia e a do leão. As três coroas
O Rei foi visitado dias antes do fim culminante representam as três grandes dinastias, os Bö- Em suas pregações, o Demiur-
do império, um emissário, um ser de luz, um vrar, os Vlakin e a que está por vir, aquela que go alega que o Criador está
enviado das sombras, alguém impossível de se irá guiar os justos para uma nova terra, um novo morto. Que não simplesmente
definir, lhe trouxe muito conhecimento e lhe céu. Um segundo significado para as coroas é tombou retornando para a
guiou para as terras onde hoje está Vlakir. O a representação dos três céus. O primeiro céu Abóbada, mas que de fato está
homem por trás do falso título de Deus é um foi quebrado na primeira vinda do Único, o se- morto, que ninguém mais olha
velho de boa compleição, olhar calmo e sorriso gundo céu se rompeu com a morte do Único, o pelos homens. Um absurdo!
fácil, uma típica manifestação sombria, que ca- terceiro céu será a morada dos escolhidos com o
tiva os mais fracos. Único renascer. O grifo é simbolo de sabedoria,
justiça e foi conhecido por botar ovos de pedra
ágata, uma pedra com grande simbologia para

b 183 b
b Belregard b
o culto a Demiurgo, sendo que a mesma é utili- enquanto dizem adorar o Único em uma das sua
zada como anéis e adornos pelos sacerdotes e muitas faces. Uma guerra que acabará em san-
nobres, demonstrando sua importância e status. gue mais cedo ou mais tarde.

O Passado
As terras que hoje formam a castelania de
Vlakir já pertenceram a muitos lugares dife-
a
rentes. Já foi parte de Parlouma, de Brandevir Fauna e Flora Fantásticas
e mesmo de Virka. No ano 1102 DA, o ducado
Aquilo que se destaca na natureza
Há quem diga que esta mulher de Vlakir foi criado em honra a Severo, um po-
particular de Vlakir
foi a causa da queda do deroso aliado dos Vlakin. Funcionando de for-
Império, mas consigo enxergar ma semelhante com as terras dos Lazari, mas Dhevora: Estas plantas carnívoras são as
inteligência e estratégia ao sem sofrer a pressão de ter sido um território maiores já encontradas em toda Belregard, nas-
preservar esta castelania da concedido antes do domínio imperial. Quando cendo nos arredores de outras árvores, são um
decadência inevitável de Virka. a dinastia Vlakin começou a dar seus sinais de chamariz para animais com sede. Em forma
Muitos estudam as decisões fraqueza, quem estava no comando do ducado de copo, com uma borda redonda, as Dhevo-
firmes e corretas de Serbia. era Servia Víbius Severa, uma consorte do impe- ra geralmente estão cheia de água armazena-
Claro que há quem a condene rador. Dizem que Servia cortou relações com o da e exalam um odor inebriante, que convida
pelo fato de ser consorte império a contragosto que, por seu desejo, teria os mais desatentos. Ela é capaz de devorar até
do imperador. Mas Alec nos feito sua terra tombar junto de Virka se fosse pequenos roedores, como ratos, e pode causar
ensinou a não julgar as almas preciso, mas esta retirada, aliando-se a igreja, algum dano em mãos e pés desavisados. Além
precipitadamente. fez com que Vlakir fosse poupada. Antes que disso, os pequenos “dentes” da planta injetam
Virka caísse por completo, verdades espirituais uma substância que acelera o apodrecimento
foram reveladas ao Rei Demiurgo, verdade so- do corpo, necrosando as áreas.

Sangue, que seja, mas a glória bre o real poder do criador, sobre o cosmos, Ossuda: Os lagos gêmeos de Vlakir são imen-
é apenas uma. Vlakir será mais aprendeu sobre um deus indiferente ao bem e ao sos e a vida é farta em ambos, mas o que se
uma pedra na grande muralha mau, um ser mais evoluído que o apresentado às destaca são as ossudas. Peixes imensos, que
protetora do Senhor, Vlakir crianças cinzentas por Morovan. podem chegar a 10 metros de comprimento.
fará parte do Brandevir. O Presente Além da fartura de alimento que representam,
Hoje Vlakir recuperou seu ímpeto inicial, vol- suas cabeças são duras, formadas por placas
tando a ser uma terra, uma monarquia que não de ossos extremamente valorizadas como fer-
só apoiaria o império como deseja fortemente ramentas, já que são extremamente resistentes,
seu retorno. Mantendo inclusive o nome que servindo até mesmo como escudos. A pesca
fora dado pelo imperador nos gloriosos tempos destes animais é perigosa, já que suas bocar-
idos. Vlakir se mostra como uma das forças do- ras possuem força o bastante para arrebentar
minantes no leste de Belregard, disputando os cascos de barcos. Existem dezenas de espécies,
territórios de Parlouma, Latza e Braden, direta- desde a ossuda preta até a ossuda cascavel,
mente contra do Tribunal do Supremo Ofício em cada uma com seu devido valor na cultura e
Birman. Tal rivalidade é ainda mais intensa pe- culinária.
las diferenças de crença, O Tribunal acusa Vla-
kir de heresia, deturpação e práticas nocivas ao
homem, acusam de compactuar com a Sombra

b 184 b
b DAS CASTELANIAS b
Relações e Comércio
Mesmo estando em uma situação favorável e
a É de se admirar tamanha
Cavaleiros Mercantes em Vlakir
riqueza com tão pouco
privilegiada, Vlakir sofre. Por mais que tente,
comércio. Sei que não é meu
a castelania não consegue fazer comércio com
Os cavaleiros mercantes de Vlakir assumem papel, mas acredito ser digno
Parlouma de modo significativo. Parlouma se
uma postura de nobreza dentro da castelania. uma investigação maior sobre
fecha e parece que pelo mais que Vlakir tente,
Eles são escolhidos como verdadeiros paladinos as finanças de Vlakir. Ou eles
nunca consegue alcançar o alto escalão da cas-
da vontade do Demiurgo. São poucos e lideram herdaram muitos dos tesouros
telania dos parlos e as melhores chances para
grupos menores de caçadores e mercadores. do império ou realmente
mudar isso, é com um possível casamento entre
Com a situação isolada de Vlakir, os cavaleiros encontraram uma terra que
a nobreza. Latza não querer apoiá-la nem no co-
são verdadeiros salteadores imbuídos de uma jorra leite e ouro.
mércio e muito menos na guerra. Sem aliados,
justificativa divina. Eles atacam regiões fron-
resta apenas se fortalecer com o fraco comércio
teiras, tomando aquilo que é preciso quando o
e à base do ouro que mantiveram com a queda
comércio simples não funciona. As negociações
do império. Mas no fim, o Rei Demiurgo pouco
são simples, geralmente desfavorecendo os ne-
se importa em fazer firmes laços com estes po-
gócios locais, o que normalmente gera recusa,
vos, ele sabe que os dias finais estão chegando e
que termina em sangue. Os abusos dos cavalei-
quando chegarem, ele será aquele que guiará os
ros de Vlakir são famosos, mas eles mantém
homens mundanos ao terceiro céu.
uma aura de pureza, já que fazem a mando do
Finalmente um pouco de ordem
Assentamentos único e verdadeiro senhor dos homens.
para esta mistura caótica.
A castelania se divide em três zonas geográ- Tantos povos, tantas coisas
ficas importantes, o Planalto Superior, mora- distintas, é necessário colocar
da do Rei Demiurgo, do Tribunal Reformado e com antro para a realeza e clero de Vlakir. 3 são cada qual em seu lugar, con-
Casa dos Observadores Estelares. No Planalto as camadas de portões dividindo a cidade em forme o Único nos revelou. Não
Central moram os nobres. O Planalto Inferior é área externa, central e núcleo. No externo mo- vejo possibilidade de ordem se
a moradas dos soldados e camponeses. ram os acólitos e familiares, no central moral não houvesse essa organização
o Rei Demiurgo e lideres da fé. No núcleo está da castelania, por certo
As três cidades, Chryssos, Chákry, Láspini
foram construídas juntas ao longo de três dé-
apenas a Catedral da Santa Igreja Reformada, se matariam.
feita em alinhamento com as estrelas, em espe-
cadas, estando prontas somente há cinco anos.
cial com os Três Marcos, três constelações im-
Elas receberam nomes estranhos, sem signi-
portantes para essa nova vertente eclesiástica.
ficado para nenhuma das línguas conhecidas Ainda estamos tentando
Acredita-se que quando o terceiro céu se abrir,
e cada uma possui exata distância, angulação, entender as diferenças meu
ele se abrirá a partir destas constelações e serão
tamanho e função no grande plano de abrir o senhor, mas tudo aponta ainda
os líderes de Vlakir os escolhidos para seguirem
terceiro céu. mais e mais heresias.
para viver ao lado do criador. Os muros da cida-
Chryssos (Domus) “Cidadela de Prata” de seguem um padrão radial dentro de muros
(aprox. 10.000 habitantes) poligonais, o local foi apelidada de Cidade Es-
telar pelos visitantes, que são poucos. Nenhum
A cidade foi construída ao longo de vinte anos
estrangeiro entrou nos muros de tal cidade.
e somente há cinco concluiu suas obras. Cercada