Você está na página 1de 16

A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER E SUA VULNERABILIDADE FRENTE

À MÍDIA E À REDE VIRTUAL NO SÉCULO XXI: UM PROBLEMA DA


CIBERCULTURA?1
THE VIOLENCE AGAINST WOMEN AND THEIR VULNERABILITY AGAINST
THE MEDIA AND THE VIRTUAL NETWORK IN THE 21ST CENTURY: A
PROBLEM OF CIBERCULTURE?

RESUMO

O presente trabalho pretende fazer uma análise e, doravante, um cotejamento


dos dados referentes à vulnerabilidade da mulher frente à mídia e à rede virtual,
ocasionando, de certa forma, a violência contra a mulher, um problema ainda presente
numa sociedade patriarcal, androcêntrica e excludente do século XXI. Tal perspectiva
é profundamente relevante para o debate atual acerca da máxima efetividade dos
direitos humanos e fundamentais, além do respeito às normas legais que, apesar de
escassas, objetivam no meio utópico, proteger os direitos das mulheres. Nesse
diapasão, utilizando análises antropológicas e historiográficas, busca-se fazer uma
análise de tais problemas com a disseminação de informações no ciberespaço devida o
fenômeno denominado: Cibercultura, esse novo espaço de relacionamento humano.
Dessa forma, seria a Cibercultura um problema que impulsiona os casos de violência
contra a mulher?

Palavras-Chave: Cibercultura; Mulher; Respeito; Violência; Vulnerabilidade.

ABSTRACT

The present work intends to make an analysis and, henceforth, a comparison of


the data regarding the vulnerability of the woman to the media and to the virtual
network, causing, to a certain extent, violence against women, a problem still present
in a patriarchal, androcentric, and Excluding the 21st century. Such a perspective is
profoundly relevant to the current debate about the maximum effectiveness of human
and fundamental rights, as well as respect for the legal norms that, although scarce,
objectively utopian, protect the rights of women. In this passage, using anthropological
and historiographic analyzes, it is sought to make an analysis of such problems with
the dissemination of information in cyberspace due to the phenomenon called:
Cyberculture, this new space of human relationship. In this way, would Cyberculture
be a problem that drives cases of violence against women?

Keywords: Cyberculture; Woman; Respect; Violence; Vulnerability.

1
Trabalho solicitado pela Profa. Cátia como método de avaliação da disciplina Políticas Públicas do
Bem Estar da Pessoa Humana, realizado pelos discentes do VII semestre do curso de Direito.
Sumário: Introdução. 1. A condição da mulher ao longo da história: a
persistência da violência. 2. O entrelançamento com a Cibercultura. 3. A
vulnerabilidade da mulher frente à mídia. 4. A vulnerabilidade da mulher frente à rede
virtual. Conclusão. Referências.

INTRODUÇÃO

As novidades que foram possibilitadas para a modernidade, através da


tecnologia, a partir da década de 60 e 70, tal qual a possibilidade de remixagem de
texto e o advento da internet, entre outros, geraram diversos debates sobre questões
sociais. Permeando todo esse período de descobertas que durante a década de 80 novos
tempos termos como cibercultura, proposto por Pierre Lévy e ciberespaço, de William
Gibson, surgiram.

Percebem-se diante desse cenário os vieses relacionados ao gênero nas redes


virtuais. Isso se dá, sobretudo, quando as análises enfocam a naturalização do
pertencimento da mulher à esfera privada e dos arranjos familiares que o justificam e,
reforçam assim o destaque dado à aparência física das mulheres e o seu espaço de
pertencimento social.

O contexto em que a mulher esteve inserida no cotidiano social sofreu inúmeras


mutações e o século XXI vê-se diante de um velho problema, que ressurge com novos
contornos, caracterizado por estruturas sociais ainda ancoradas no machismo e
impulsionadas, agora, por um novo contexto de sociedade globalizada.

Segundo Pierre Lévy: “A cibercultura expressa o surgimento de um novo


universo, diferente das formas que vieram antes dele no sentido de que ele se constrói
sobre a indeterminação de um sentido global qualquer” (LEVY, 1999, p. 15). Trata-se
de um “novo dilúvio”, provocado pelos avanços tecnológicos das telecomunicações,
em especial, o advento da internet.

É nesse sentido de um novo universal que se se apontam as nuances


contemporâneas das relações midiáticas, postas em foco neste trabalho, com as
relações da condição feminina.
O ciberespaço através dos meios de comunicação ganha mais um novo
instrumento para uma ordem social desigual, reproduzindo informações e visões
homogêneas que confirmam as perspectivas dominantes, nesse sentido, ele poderá ser
visto como propagador de privilegiados e estereótipos que justificam a cultura da
própria dominação.

A constituição de identidades em um espaço virtual dos indivíduos e grupos


acaba por considerar uma simplificação – atalhos cognitivos – que servem de
manutenção das vulnerabilidades. Nesse sentido, elucubra-se o papel desempenhado
por uma “estereotipia”, promovendo representações da realidade, sendo internalizadas
pelos indivíduos, orientando suas ações e as fronteiras entre o falseamento e a
realidade, tornando-se assim, no mínimo mais complexa.

É preciso avaliar a partir de que perspectivas sociais são selecionadas as


informações relevantes, em que representações da realidade elas ganham sentido.
Assim, a mídia difundiria os estereótipos e, dada sua centralidade na construção do
ambiente social contemporâneo, colaboraria desse modo para sua naturalização ou
desmistificação de barreiras ao desenvolvimento do trato social.

1 A CONDIÇÃO DA MULHER AO LONGO DA HISTÓRIA: A


PERSISTÊNCIA DA VIOLÊNCIA

A condição da mulher na sociedade perpassou por várias transformações. Desde


a Antiguidade Clássica a própria situação feminina situava-se num contexto de
submissão e inferioridade frente ao universo masculino. Relegada no espaço público e
principalmente político, a luta por espaço de cidadania conflitava com a sociedade
patriarcal estabelecida durante séculos da nossa História.

O papel desempenhado pela mulher vinculava-se aos cuidados domésticos, a


constituição e cuidados com a família e a manutenção do equilíbrio matrimonial,
subjugando aos preceitos culturais e religiosos como forma de estruturar um modelo
familiar engessado, sem muitas transformações.
Em contraste com a mulher branca, exaltada como santa ou musa, a
bestialização da “mãe preta” e a exacerbação da sexualidade da “mulata” são imagens
fartamente exploradas nas representações sociais, tendo em vista que desde o período
colonial, as mulheres negras têm sido prisioneiras dos estereótipos construídos pela
classe dominante, ou seja, a mulher negra era vista como mero instrumento para
satisfação de serviços degradantes a mercê do gênero dominante. (CARNEIRO, 2006,
p. 47).

Foi somente a partir do século XVIII com o marco da Revolução Francesa que
se percebe um tímido mais importante avanço no que tange aos direito das mulheres.
Benefícios relacionados aos direitos civis foram sendo conquistados como, por
exemplo: direito a herança e ao divórcio, entretanto, restringiu-se o direito ao voto.

Em fins do século XVIII já se encontravam relatos de mulheres da classe media


e alta que já lutavam no Brasil para a conquista de direitos mínimos. Ideias avançadas
à época já se evidenciavam em torno das benesses da educação, tendo-a como fator
preponderante para a luta libertária das amarras patriarcais e sobre uma posição social
mais alta das mulheres, defendida exponencialmente por autoras como Nísia Floresta
(criadora da primeira escola para mulheres).

Os valores difundidos pela Revolução Francesa permeou o Brasil


paulatinamente, inspirando mulheres à luta pelos seus direitos democráticos.
Marcando um cenário industrial anarcosindicalista, em 1917 a professora Deolinda
Daltro liderou uma passeata exigindo a extensão do voto às mulheres, crivando assim
uma ideologia “pré-feminista” e que se fortaleceria nas décadas subsequentes.

A liberação sexual impulsionada pelo aumento do uso de contraceptivos marcou


profundamente um sentimento do que era ser mulher na década de 60. Novamente
reprimidas, durante a nova conjuntura militar, apoiaram das mais diversificadas
maneiras atos políticos em prol da sociedade e sua condição, resultando na criação de
movimentos como, 1975 (Ano Internacional da Mulher), do Movimento Feminino pela
Anistia e a aprovação da lei do divórcio.

No que tange ao avanço na legislação frente aos direitos femininos, percebe-se


alguns marcos normativos que atestam para a conquista desses direitos. É publicada a
Convenção Interamericana sobre a Concessão dos Direitos Civis à Mulher, documento
este que garantia as mulheres os mesmos direitos civis de que dispõem os homens,
promulgada no Brasil pelo Decreto nº 31.643, de 23 de outubro de 1952. Em 1953, a
Convenção sobre os Direitos Políticos da Mulher (1953) determina o direito ao voto
feminino, bem como a participação das mulheres para todos os organismos públicos
em eleição e a possibilidade, para as mulheres, de ocupar todos os postos públicos e de
exercer todas as funções públicas.

De acordo com a ONU, 12 são os direitos básicos às mulheres: Direito à vida;


Direito à liberdade e a segurança pessoal; Direito à igualdade e a estar livre de todas as
formas de discriminação; Direito à liberdade de pensamento; Direito à informação e a
educação; Direito à privacidade; Direito à saúde a proteção desta; Direito a construir
relacionamento conjugal e a planejar sua família; Direito a decidir ter ou não ter filhos
e quando tê-los; Direito aos benefícios do progresso científico; Direito à liberdade de
reunião e participação política; Direito a não ser submetida à tortura e maltrato.

Além das conquistas relacionadas aos direitos políticos, outra conquista em


construção é o que diz respeito à punição da violência contra a mulher. No Brasil, a
Lei Maria da Penha de 2006 reforçou a questão do combate à violência feminina no
âmbito doméstico. A lei n°11.340, cria mecanismos para coibir e prevenir a violência
doméstica e familiar contra a mulher, nos termos do § 8o, da Convenção sobre a
Eliminação de Todas as Formas de Violência contra a Mulher, da Convenção
Interamericana para Prevenir, Punir e Erradicar a Violência contra a Mulher e de
outros tratados internacionais ratificados pela República Federativa do Brasil; dispõe
sobre a criação dos Juizados de Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher; e
estabelece medidas de assistência e proteção às mulheres em situação de violência
doméstica e familiar.

A expressão máxima da violência contra a mulher é o óbito. As mortes de


mulheres decorrentes de conflitos de gênero, ou seja, pelo fato de serem mulheres, são
denominados feminicídios. Em pesquisa realizada em 2013, o IPEA promoveu o
mapeamento da violência contra mulher em território nacional. Ao analisar o período
entre 2009 e 2011, o Instituto registrou 16,9 mil feminicídios. No período de 2001 a
2011, houve cerca de 50,000 mil casos dessa espécie, cuja incidência de autoria em
40% dos casos recai sobre parceiros íntimos.

Deste modo, conclui-se que para os efeitos desta Lei, configura violência
doméstica e familiar contra a mulher qualquer ação ou omissão baseada no gênero
(violência preconceito/discriminação) que lhe cause morte, lesão, sofrimento físico,
sexual ou psicológico e dano moral ou patrimonial.

Outro grande marco normativo na legislação brasileira no que tange aos direitos
das mulheres foi à criação e aprovação da lei nº 12.015/2009, em seu artigo 213 do
Código Penal Brasileiro, em que prevê direitos as mulheres vítimas de estupros e dever
penal ao acusado. O estupro é considerado um dos crimes mais violentos, onde
consiste na ação de constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter
conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso,
sendo considerado um crime hediondo.

O crime pode ser praticado mediante violência real (agressão) ou presumida


(quando praticado contra menores de 14 anos, alienados mentais ou contra pessoas que
não puderem oferecer resistência). Atualmente a pena no Brasil é de 6 a 10 anos de
reclusão para o criminoso, aumentando para 8 a 12 anos se há lesão corporal da vítima
ou se a vítima possui entre 14 a 18 anos de idade, e para 12 a 30 anos, se a conduta
resulta em morte.

De acordo dados da central de atendimento da mulher 43% dessas sofrem


agressões diariamente e nesta estatística se encontra Maria (hipoteticamente chamada
assim, pois não quis se identificar), 39, que sofreu violência domestica durante 25 anos
de sua vida. A entrevista com essa guerreira nos deu sentimento de indignação e
revolta. Quando tinha 12 anos seu pai veio a falecer, e, um amigo dele, 30 anos mais
velho do que ela, se aproximou da família e a levou para um passeio, depois disso ele a
abusou sexualmente. Quando o fato foi descoberto por sua mãe, ela obrigou a filha a
se casar, segundo seu pensamento, era melhor casar com o homem que tirou a sua
virgindade do que ficar a margem da sociedade, nesse longo período Maria sofreu
violência física, sexual, moral e psicológica, além de cárcere privado pelo seu marido
criminoso.
Ademais, ficou consolidada uma mudança na legislação, mas sobretudo da
necessidade de se modificar tanto a consciência individual quanto coletiva no sentido
de respeitar a mulher e suas possibilidades.

2 O ENTRELANÇAMENTO COM A CIBERCULTURA

Nos dias atuais, você já se imaginou viver sem a tecnologia? A resposta é:


praticamente impossível. Antes de conceituar o que é a cibercultura é necessário
entendermos que esse conceito está fortemente relacionado com a tecnologia. Diante
desse cenário observamos também que há gerações diferentes e com elas uma
resistência ao uso de aparatos tecnológicos na execução de algumas tarefas. Assim
como no mito grego para origem do fogo que narra a história de Prometeu e seu irmão,
existem aqueles que acreditam na técnica como algo bom para o homem e seu
desenvolvimento.

Na linha contrária, há aqueles que não concordam com a dependência da


técnica para o crescimento das pessoas e sociedades. “A cibercultura é entendida como
um conjunto de espaços, atitudes, rituais e costumes que as pessoas desenvolvem
quando entram em contato com a tecnologia. Assim, é possível entender como
algumas pessoas lidam com a situação.” (BARWINSKI, 2010).

Para entendermos a cibercultura é importante observar através do pensamento


de Prometeus, que utiliza a técnica a favor do desenvolvimento da sociedade.
Normalmente os indivíduos que estão bem inseridos nesse contexto não percebem que
isso já acontece desde a década de 1970, embora haja um estreitamento desses laços
quando da popularização da internet e das tecnologias como celulares e tablets.

A cultura contemporânea é marcada pelas tecnologias digitais, intrinsicamente


associados à internet e às novas formas de comunicação em rede, através das
comunidades on-line, mensagens de textos, sites de relacionamentos, o que inclui
questões relacionadas à identidade e privacidade. Isso se faz presente também na
educação, através dos múltiplos canais de interação entre alunos, escola e
professores/tutores, criando um ambiente virtual de ensino, proporcionando a
amplitude da comunidade estudantil, com o compartilhamento de conhecimento, não
só local, mas com qualquer outro estudante do mundo.

O comportamento das gerações mais novas e dessa cultura digital define–a e a


caracteriza pelo costume de fazer tudo com a ajuda da tecnologia. Seja no pagamento
de uma conta, ou na consulta de um contato telefônico ou endereço, tudo sendo feito
através dos smartphones e seu potencial internético.

Uma área da cibercultura que mais se destaca é o ciberespaço, que é o espaço de


comunicação entre os indivíduos, não físicos, dando ênfase à imaginação, que produz
a imagem anônima desta identificação virtual. Tendo seus prós e contra, podendo ser a
cibercultura uma vilã ou uma heroína, pois possibilita a troca de boas ou más
experiências e conhecimento.

Adentrando na questão da vulnerabilidade da mulher frente a esse mundo


virtual, alguns problemas ressurgem hoje com novos contornos, porém caracterizado
pela violação de direitos humanos, a exemplo do tráfico de mulheres para exploração
sexual. Impulsionado pela globalização e pela fácil disseminação através das redes
sociais, algumas mulheres são facilmente enganadas, até mesmo extorquidas
financeiramente com falsas promessas sendo facilmente manipuladas por organizações
criminosas que tem essa finalidade por se tratar de umas das atividades mais lucrativas
do crime organizado. Pesquisas apontam que atualmente há mais mulheres
escravizadas sexualmente do que em qualquer outro período da história, mostrando
que a disseminação de informações na internet pode ser o fator gerador de tal
problema.

Analisando amplamente pode-se entender que a violência sexual passa por


aspectos culturais e ideológicos, abrangendo muito mais do que as informações
superficiais veiculadas pelas mídias. A exemplo do estupro, considerado crime
hediondo, embora as mulheres continuam sofrendo crimes sexuais, discriminadas,
violentadas diariamente.

Diante do exposto, os papeis das redes sociais dentro da cibercultura é de suma


importância, ao observamos o comportamento dos indivíduos nos ciberespaços como
facebook, instagram entre outros. O perfil do usuário funciona como sua carteira de
identidade mostrando um currículo de comportamento ali apresentado, funcionando
como uma versão digital da vida real. Contudo, em contramão dos pontos positivos
aqui expostos, existem diversas questões negativas que decorrem da multiplicação de
informações que circulam na internet, tendo como alvo principal as mulheres, devido
sua fragilidade nesse espaço vitural da cibercultura, ainda mais numa cultura
androcêntrica, patriarcal e excludente na qual vivemos.

3 A VULNERABILIDADE DA MULHER FRENTE À MÍDIA

A mídia, de acordo com o dicionário Aurélio, “é designação genérica dos


meios, veículos e canais de comunicação, como por exemplo, o jornal, revista, rádio,
televisão, outdoor, etc.” e que exerce grande influência sobre a sociedade. Ao retratar
o papel da mulher na sociedade, percebe-se uma nítida posição de vulnerabilidade, seja
quando a coloca nas telenovelas em papéis de mãe, domésticas, donas de casa, ou
mesmo “concedendo” tais papéis a atrizes negras, reforçando preconceitos,
estereótipos de que à mulher negra é garantida aquela função, seja nas propagandas de
cerveja, em que o machismo está estampado, ao usar imagens de mulheres bonitas,
com corpos esculturais para realçar a qualidade daquele produto.

A maioria dos brasileiros tem o hábito de assistir novelas e se deixa envolver


pelas tramas, personagens e suas histórias, sendo esta, um dos produtos mais
importantes para a televisão. Através dela percebemos um elemento significativo na
construção ideológica e de identidade cultural e social de um país. Tem grande
influência na opinião pública em temas como drogas, homossexualidade,
empoderamento feminino, corrupção ou saúde abrindo espaço para discussões e
redirecionam o olhar do telespectador. Mas quando se trata de questões raciais, por
outro lado, nos deparamos com a produção de estereótipos de padrões preconceituosos
e gerando estigmas. Analisaremos por exemplo o papel da mulher negra nas
telenovelas brasileiras.

As emissoras de televisão criam um estereótipo de mulher que deve ser seguido,


estabelecendo padrões femininos, e o não seguimento desse perfil é discriminado e
excluído. A mulher negra tem sua representatividade muito ínfima, a observar a
quantidade de mulheres negras com papéis de destaque nas dramaturgias. Os papéis
destinados a elas geralmente são de empregadas domésticas subordinadas aos patrões
brancos. São mostradas de forma inferiores e subalternas, ressaltando-se apenas a
sensualidade da beleza negra. Assim, focalizam a relação amorosa entre mulheres
negras e homens brancos como uma forma de superação da discriminação sofrida por
elas, e como forma de ascendência social.

Para Gislene Aparecida dos Santos, professora da Escola de Artes, Ciências e


Humanidades, EACH, da Universidade de São Paulo, nas novelas as mulheres negras
encaram o relacionamento com homens brancos como uma possibilidade de ascensão
social e ao se unirem a eles, superariam a barreira da discriminação e dos estereótipos
que as envolveriam.

Segundo Gislene, esses relacionamentos entre negros e brancos confirmam a


ideia de harmonia e mestiçagem da sociedade brasileira, retratados por Gilberto Freyre
no livro Casa Grande e Senzala, em que caracterizou a escravidão no Brasil composta
de senhores maleáveis e escravos conformados. O mito do bom senhor de Freyre é
uma tentativa no sentido de interpretar as contradições do escravismo como episódio
natural, algo extremamente condenável, porém, que resultou na construção de uma
identidade racial notável. Diferente da colonização nos Estados Unidos da América,
em que os ingleses não se misturaram às outras etnias.

Mas não se fala dos quilombos, das rebeliões, das lutas dos negros pela
liberdade e fim da exploração sexual. Tudo é retratado como se não houvesse conflitos
raciais no país. Contudo, observa-se que a mulher, notadamente a mulher negra, é vista
de forma discriminatória e preconceituosa. Até mesmo em enredos com enfoques
predominante na história dos negros pós-escravidão, há um nítido posicionamento dos
autores em intensificar a estética branca. Em criminologia, o perfil do criminoso criado
por Cesare Lombroso era do negro; as mulheres negras retratadas por Di Cavalcanti,
coloridas e exóticas. São formas de caricaturar o negro e as telenovelas têm papel
fundamental nessa perpetuação de estereótipos e veiculação de imagens de harmonia
da sociedade, criando a falsa ideia de que não existe o racismo na sociedade brasileira,
considerado crime pela Constituição de 1988, inafiançável e imprescritível.

4 A VULNERABILIDADE DA MULHER FRENTE À REDE VIRTUAL

A violência contra a mulher ocorre, majoritariamente, na internet, decorrente


da exposição de fotos e vídeos íntimos, insultos, preconceitos raciais, assédio sexual
e moral, mesmo com todo espaço já “conquistado”, com todos os direitos que já
“adquiridos”. As mulheres ainda são vitimas de uma sociedade machista e patriarcal,
que as tratam como inferiores e subordinadas ao homem.

A internet como ferramenta mais utilizada nos últimos anos vem gerando uma
grande ascensão em casos de violação de privacidade seja pela facilidade,
rapidez e generalidade. Em contrapartida, a legislação não tem acompanhado o
rápido desenvolvimento da sociedade, gerando, assim, uma ausência de legislação
pertinente, e tampouco tem acompanhado os novos tipos de infrações no que tange o
ciberespaço. Contudo, tanto o crescimento da cibercultura, quanto a legislação, deve
andar lado a lado como assevera Lilliane Minardi Paesani:

Considerando que o ritmo de evolução da informática será sempre mais


veloz que o da atividade legislativa ou regulamentar, não bastará lamentar
esse fato a pretexto das dificuldades de solucionar casos concretos. Assim
como a informática foi criada, a partir da cibernética, sobre a noção de
sistema - tecidos por urna rede de princípios e regras -, da mesma forma
deveremos exercitar a noção de sistema jurídico, dando maior prevalência
aos princípios em relação às regras (que poderão ser inadequadas ou faltar,
muitas vezes). Nesse ponto, informática e Direito encontram-se induzindo a
primeira à restauração da vocação do segundo, que é, desde a etimologia,
de direção mais que identidade. (PAESANI, 2013, p.83).

O marco civil da internet no Brasil (Lei número 12.965, de 23 de abril de


2014) surge para normatizar (estabelece princípios, garantias, direitos e deveres), do
uso da rede virtual no seu território. Os três principais e mais polêmicos pontos
discorridos e tratados ao longo do Marco civil são a privacidade, a imputabilidade e a
neutralidade da rede.

Contudo, para mulheres vulneráveis a tal crescimento do ciberespaço, que


foram ou são vítimas de violação do direito à intimidade, ou vítimas de outros tipos
de violência, através de fotos íntimas publicadas nas redes virtuais, o marco civil não
oferece uma proteção especial, pois no seu próprio texto ele “defende” o direito à
privacidade, ou seja, não permite que os sites e provedores armazenem e liberem os
dados pessoais (que englobam IP do computador, sites visitados, documentos
baixados, quais aplicativos utilizados) dos usuários, como se dessa maneira as
mulheres estariam protegidas.

Há um grande apelo dos movimentos feministas para que a Lei Maria Da


Penha abarque também os crimes cometidos na internet contra a mulher, mas nada
foi ainda consumado. O senador do Rio de Janeiro Romário Faria apresentou um
projeto de Lei (PL) 6.630/13 que altera o código penal tipificando a conduta de
divulgar fotos ou vídeos com cenas de nudez ou ato sexual sem autorização da
vitima. Segundo o advogado Breno Melaragno:

É um grande passo, já que essa exposição não fere só a honra da vitima,


mas afeta a sua privacidade, viola seu aspecto mais intimo que e a sua
sexualidade, expondo assim a vitima a consequências psicológicas e sociais
muitas vezes devastadoras. (MELARANGNO, 2014).

Ao envolver grande parte da população, a rede virtual exerce influência na vida


e formação dos cidadãos, tendo grande responsabilidade social sobre o que noticiam e
veiculam. Segundo Guy Debord em A Sociedade do Espetáculo:

A sociedade do espetáculo é, pelo contrário, uma formulação que escolhe o


seu próprio conteúdo técnico. O espetáculo, considerado sob o aspecto
restrito dos «meios de comunicação de massa» — sua manifestação
superficial mais esmagadora — que aparentemente invade a sociedade como
simples instrumentação, está longe da neutralidade, é a instrumentação mais
conveniente ao seu automovimento total. As necessidades sociais da época
em que se desenvolvem tais técnicas não podem encontrar satisfação senão
pela sua mediação. A administração desta sociedade e todo o contato entre
os homens já não podem ser exercidos senão por intermédio deste poder de
comunicação instantâneo, é por isso que tal «comunicação» é essencialmente
unilateral; sua concentração se traduz acumulando nas mãos da
administração do sistema existente os meios que lhe permitem prosseguir
administrando.

Portando, é inaceitável que em pleno século XXI a mulher ainda seja retratada
pela mídia e pela rede virtual de forma tão discriminatória e estereotipada, expondo-a a
uma condição de vulnerabilidade, quando deveria retratar e valorizar seu
empoderamento e suas conquistas.

4 A VIOLÊNCIA CONTRA A MULHER NA CIDADE DE BRUMADO

DESENVOLVER ESTE CAPÍTULO

CONCLUSÃO

A proposta do presente trabalho não é, e nem poderia ser, apresentar conclusões


que levem a um possível resultado de fracasso a respeito da cibercultura. Pelo
contrário, o estudado aumento de informações e disseminação de cultura pelas redeis
virtuais e pela mídia tem sido de suma importância para o reconhecimento de culturas
e hábitos variados e, também, para o entrelaçamento entre diversas pessoas de diversas
cidades, estados e países. Contudo, tal crescimento do ciberespaço tem contribuído,
também, para o aumento da violência contra a mulher, ao passo que a mulher situa-se
num plano de vulnerabilidade diante dos espaços virtual. E a falta de regulamentação
para a proteção da mulher contribui para a persistência da violência contra a mulher e
sua vulnerabilidade.

Muitos são os desafios enfrentados pelas mulheres na trajetória da conquista


de seus direitos. A discriminação sofrida pelas mulheres no mercado de trabalho, no
que diz respeito à empregabilidade e discrepância salarial, em comparativo com os
homens é outro impasse evidente. E embora tenham conseguido importantes avanços
com relação à conquista do voto, o espaço no mercado de trabalho, a proteção em
casos de violência, remuneração igualitária ao trabalho masculino e outros importantes
avanços, algumas demandas ainda se configuram no caminho das discussões, como
por exemplo, a legalização do aborto.

Diante de um contexto histórico que sempre colocou a mulher em um nível


pragmático de submissão social, evidentemente, o sexo (relações conjugais,
prostituição e sexualidade), muitas vezes, concretizou essa relação de subserviência. O
preconceito torna-se notório, diante de uma sociedade altamente religiosa que focaliza
no sexo um tabu, detratando as mulheres e instituindo um preconceito para dentro, até
mesmo, de sua “categoria”. Sua causa preliminar nota-se em um discurso controlador,
que engendra na sexualidade algo que vai além da obscuridade, configurando-se como
um segredo danoso da sociedade.

Nesse contexto, evidenciaram-se maiores possibilidades de desenvolvimento


dos direitos femininos, dando notoriedade aos diálogos entre as próprias classes de
mulheres envolvidas, tornando mais tênues suas nuances e possibilitando a construção
de uma mulher participante e consciente de seu espaço na sociedade- “Não se nasce
mulher, torna-se”, Simone de Beauvoir.

REFERÊNCIAS

As novelas e seus clichês. Disponível em: <www.históriaviva.com.br>. Acesso em:


12 de novembro de 2016.
BARWINSKI, Luísa. O que é cibercultura? Disponível em:
<https://www.tecmundo.com.br/internet/4232-o-que-e-cibercultura-.htm>. Acesso em:
12 de novembro de 2016.
Biblioteca virtual de Direitos Humanos da USP. Convenção Interamericana Sobre a
Concessão dos Direitos Civis à Mulher (1948). Disponível em:
<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/OEA-Organiza%C3%A7%C3%A3o-
dos-Estados-Americanos/convencao-interamericana-sobre-a-concessao-dos-direitos-
civis-a-mulher.html>. Acesso em: 10 de novembro de 2016.
Biblioteca virtual de Direitos Humanos da USP. Convenção sobre os Direitos
Políticos da Mulher (1953). Disponível em:
<http://www.direitoshumanos.usp.br/index.php/Direitos-da-Mulher/convencao-sobre-
os-direitos-politicos-da-mulher.html>. Acesso em: 10 de novembro de 2016.
Dicionário Português - Dicionário do Aurélio Online. Disponível em:
<https://dicionariodoaurelio.com>. Acesso em: 12 de novembro de2016.
GUY, Debord. A sociedade do Espetáculo. Ebookstore, 2003. Disponível em:
<http://www.ebooksbrasil.org/eLibris/socespetaculo.html>. Acesso em: 12 de
novembro de 2016.
Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2013). Violência Contra
Mulher: Feminicídios no Brasil. Disponível em:
<http://www.agenciapatriciagalvao.org.br/dossie/pesquisas/violencia-contra-a-mulher-
feminicidios-no-brasil-ipea-2013/>. Acesso em: 10 de novembro de 2016.
Nação Juridica. Os 12 direitos das mulheres. Disponível em:
<http://www.nacaojuridica.com.br/2013/07/os-12-direitos-das-mulheres.html>.
Acesso em: 05 de novembro de 2016.
LÉVY, Pierre. Cibercultura. (Trad. Carlos Irineu da Costa). São Paulo: Editora 34,
2009.
Secretaria Nacional sobre a Mulher Trabalhadora da CUT SNMT/CUT (2007) – A
lei Maria da Penha: Uma Conquista, novos desafios. Disponível em:
<http://www.cnmcut.org.br/sgc_data/conteudo/%7B563D45FC-DCC8-43E4-8E55-
7E596531E339%7D_mariadapenha.pdf>. Acesso em: 05 de novembro de 2016.
Tratado Internacional, PGE. Convenção Interamericana para Prevenir, Punir e
Erradicar a Violência Contra a Mulher (1994). Disponível em:
<http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/belem.htm>
. Acesso em: 09 de novembro de 2016.
Tratado Internacional, PGE. Convenção Para Eliminar todas as Formas de
Discriminação Contra a Mulher - (1979). Disponível em:
<http://www.pge.sp.gov.br/centrodeestudos/bibliotecavirtual/instrumentos/discrimulhe
r.htm>. Acesso em: 09 de novembro de 2016.
RAMINA, Larissa e RAYMUNDO, Louise. A vulnerabilidade da mulher no século
21. Disponível em: < http://www.gazetadopovo.com.br/opiniao/artigos/a-
vulnerabilidade-da-mulher-no-seculo-21-b29g1nplwiuq5c33oevqk7exa> Acesso em:
12 de novembro de 2016.