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HISTÓRIA DA AMÉRICA LATINA

VOLUME V

DE 1870A 1930
Leslíe Bethell I organizador

Professor Emérito de Histórin da /vme tt ca LI/tina, Un iv c rsi d a d e de Londres,


e Diretor rio Centro de Estudos Brasileiros, Un iversi d a d e de Oxford

Tradução
Gemido Gerso n de Sou z a

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'''
Copyrigh1 () 1984 by Cambridge Univérsiry Prcss

Titulo do orig'ltiaJ em inglês:

Th1:1 Carnb1'idge Histmy oflatin América vai V

Dados ln1ernacion:1is de Ca1alogaçfo na Publicacào (CIP)


(Címara IJrasileira cio Livro. SI'. Braxil)

l listória da América Latina: de 1870 ;1 1930. volume V/ Lcslic l.léthcl! organizaç,10: 1rnduçào Geraldo Gerson de
Souza -- Sào Paulo. Fdi1ora da Univcrsichck ele Sâo Paulo; !1nprcnsa O!ici,1! do t.stado; l3rasiliil hinclaçüo
Alexandre de C,usinão, 2002.

Ti1ulo original fh; C.unbridgc l !is1ory o!' L,1in i\mcr1ca vol. V


Bihliogra!'ia.
ISBN 85-314-0651-X (l'dusp)
ISBN 85-7060-008-9 (lirqm;nsa O!'ici:i! do i-:s1,,do)

! AmGric~'! LatÍ!lí'i - ! J icStória I

ül-3744
CDD-980
Índices p:1ra GHÚ!ogo .sistcni:11ico:
l .1\mérica L1tinél: l !istória
980

Uir~i!os cru língua portugui::,a rr..::-ú.:rv;ido-; ;\

Ldu:;p - b.Ji1or:1 da Univcr:-.idadt: eh.: SJo 1\iulv


Av. Prof Lui;;iano Cuctlb-:no, Tr<1vtss;1 J, r!-t Irnprcnxa Oficial do Estado de SJo Paulo
Rua da Mo(H.:i.1, 1921 Mocca
()'' andar lid da Amig,1 f(ciJorlil C'idiidc Univcr"iÍ!Úri~1
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S,\C IJXIJ0-12.l 41) 1
Prirncd in Braz!l 2002
2
A REVOLUÇÃO MEXICANA, 1910-1920

TRÊS PRESSUPOSTOS TEÓRICOS da sociologia liberal dominaram


por muito tempo o estudo da Revolução Mexicana: a ação das massas é con-
sensual, intencional e redistributiva; a violência coletiva dá a medida da
.
transformaç' ao es t rutura; l e o naoona
· ismo
1· · agrega mteresse"
· numa d ivisão
· ·
ltmit'ld
· e e·1 d o t ra b· a 11 10. Em
·, pa l avras sunp
· 1 es, o movimento
· " elo povo " e· um
movimento "pelo povo" para "o povo"; quanto mais sangrenta for a luta,
maior é a diferença entre os meios de vida anLes e depois da luta; e a fomilia·
ndade gera solidariedade. Além disso, os estudiosos mais destacados do
assunto levantaram duas hipóteses radicais sobre o México em particular. A
primeira: em 1910, fato mais importante no país foi a luta entre a classe alta
0
e a classe baixa. A segunda: o conflito estava prestes a explodir. E, com base
º''."' premissas, pesquisas e aoálises ,·espeitá,eis estruturaram uma histócia
prn~revolucio,tária da ascensão dos oprimidosc, Re,olução foi desenc,de,da
mtctalmente para resolver um problema político, a sucessão de Porfirio Díaz,
mas as massas populares em todas as regiões logo se envolveram numa luta
que transcendeu a política para exigir reformas económicas e sociais. Para
que a luta popular triunfasse, como aconteceu, foi necessária uma enorme
destruição material, a ruína dos negócios e uma grande desconfiança com
relação aos Estados Unidos. E por meio da luta os paladinos do "povo" torna-
ram-se os líderes revolucionários. As condições socioeconômicas melhora-
ram em conformidade com as políticas revolucionárias, de modo que a nova
sociedade tomou forma num quadro de instituições revolucionárias oficiais.
A luta terminou em 19 J 7, ano ela promulgação da constituição revolucioná-
ria. O novo Estado revolucionário gozava de tanta legitimidade e força quan-

to seus porta-vozes diziam.


Daí o julgamento histórico profissional, aceito amplamente até a década
de l· 970 , d e que a Revolução
· · ·
Mexicana etOI · urna revo 1 uçao- cc socia• ]" . O· s movi-·
mentos de 19 J O a 19 J 7 foram descritos corno um levante em massa, extrema-
mente violento e intensamente nacionalista, no qual "o povo" destruiu o
106 s oraa-
antigo regime, os camponeses reclamaram suas terras, os trabalha d ore [vi-
. . i.
mzararn-se em sinc reatos e o zoverno revo ucionano 1111c10u 1 . , . . . . o desenvo ,
. , b . . " 1 irna nova
mento da riqueza do pais para o bem-estar nacional, maugrnanco l f í
. , . . . . - M xicana o
era na h istór ia mexicana. Em algumas versões, a Revoluçao e
. {( . . . . / )) , ·áveL ei 11
considerada a primeira revolução social do século XX, comp,u
todas as consequências, à Revolução Russa e à Revolução Chinesa. , .
. s cnuco 5
Essa interpretação suscitou alguns problemas. Desde o começo, 0 ·ira
.msistiram. . f
em a nrnar que o povo ora usa o por ic eres " " f d li l ena·1nosos
o'· p,dos
·1 utar por urna causa f.aisa l e term ma · ra em piores · 1·
cone içoes. · - Mas quase to -a-
. . . - . . . . la contl
os estudiosos rejeitaram essas versoes, acusando-as ele propaganc . · ní-
revo l ucionarra · · · .. JvI uito · mais· difí 1 1c1 ·11 ue interpretar
· e· a cones
101 t taç1odaJegit11 e
. , . . . "d O ovo" ntil 113'
dade revolucionária por dezenas de milhares ele elementos P . fjs-
rebelião católica na década de 1920. O problema que os historiadores pr: de
sio nars nao puc l eram ignorar
• • -rÓ. · foi· um sentimento, · . que. se e1·r1 un·d1udepo do
. , . . . , . , . linhas
1940, ele que o desenvolvirnenm do México sezuru murro mais as , .·,15
. . . . b . . . . - ... , luciona11,
antigo regime elo que as da alegada Revolução. As msnnuçoes 1evo . ua
· . , . · . : .·. conunno
pennanecerarn formalmente intactas e a retorica revoluc1011,111a
f . Tl men 0,
fluir, mas os benefícios para os camponeses e os trabalhadores orai . rte·
. -esas no
res do que antes, ao passo que os negócios, sobretudo as empr -os nun1
americanas, · m· u l t1p · 1· 1c1rnm-sc, cresceram e convert'eram s·,eus Jucr ·, l
_,, soCJd 11,1
indicador cio bcrn-est;ir nacional. Se o México fizer,1 uma revo l u~dO nti-
. de a
década seguinte a 1910, o que explica a recorrência, 30 a nos depois, essa
, . . , . . . . useraJTl
gas praticas em formas modernas? Os historiadores que P10P . íd,1,
, . - ._, ., fora ua
pergunta formularam vanas respostas: a Revoluçao moneid, vernº
en t rara em novo estagio. · · N. rnguem· ·f..1cou convenc1c · · l o. Em ~ J· 968, 0 go r d e
' . ' ' e . hr em favo
mexicano reprimiu de forma sangrenta um movimento popu' , a von-
cl irei tos civis. A interpretação-modelo ela Revolução, segundo ª qua
1
xplí-
. . . . . · . ·sível a e,
tade do povo fora 1mt1tuoonal1zada no governo, tornou impos , [jcaçãO
~ 1 . , . d . . . . . vens a eXP
caçao 11storica a repress,lo. Para alguns estudiosos mais JO ' . vo]LlçãO
. J f . f"
mais tentac ora :01 a 1rmar, corno os críticos sempre 1zeiam, . r·. - que a Re
fora um logro para "o povo". te nas
, . . . denveJrnen ,
O el e· b ate acaclern1co sobre a Revolução cresceu consi ' · 119)1-
, , . 1 - d s estava JJ
decadas de l960 e de 1970. Nos novos estudos ma 1s ponc era O . . ,Jj<ren-
. uma d escon
cita . f..1ança 1.mparc1a . 1 cl os ant1t7os
. .
pressupos tos , urn uso mte º. Jo
,, . u: ou ser n1 0v1c . ,
)) ) ·_. - ~.
te das velhas criticas. O povo pode n10ver-se por s1 mesmo. . ·ônon1o"
por outros para l utar entre s1,. e a d1st1nçao . . , entre 111ov11 . nento
·. aut . . entl ·e
. d Jerençds
movimento manipulado nada prediz cm si mesma sobre as 1
107

, . conse quencias.
suas .. ; . . Lutas sangrentas podem mudar profundamente urna
soc1edad e,_, mas . . nao- da maneira . proposta no 1n1Cl0, . .. ou podem mudá-la ape-
nas supe . ·f·.icialmente. E. a fami\iandade
. . . .
muitas vezes gera desprezo.
1
. Guiadas e po.
. 1 uma conce1tuaçao . - mais. o biJetiva, . as novas pesquisas . e análi-
.ses modif rearam . . s1g111ficat1vamente
.. . . . a hístórre
. . . antiga. e deram margem a nova
b· .
tnterpret· açao. ;- A luta. que começou em 1910 pos . em confronta nao - so. a classe
.laixa _ ver sus a e 1 asse alta, mas também elementos frustcados . da classe alta e da
ia versus elementos favorecidos das mesmas classes. Nessa luta, as
c asse n1ec·1·
massas popu 1·ares envolverarn-se menos em causas econonncas • . e sociais . . do
o
que numa uue - -· · · ·1 b
e r ra civi urguesa, mas mterm1tenternente,
· · e
d f orma · dif ·erente
1
E regiãiao parn
de . ,cg,ão. e na maioda das ve,es sob a di<eção da classe média.
. alguns · lug: · zares,· a el estru1cao · - f01· ternve · 1 ; em outros, f01· recl uztid a e passa-
111
geira
A 'nu l·a. .No conJunto, . os' negocws
, . aJustarnm-se
. .
e nvcrnm . .
contmocdade.
01
. longo pra· . ·z"ºaumentaram.Do
· · · · · ao f1111 d a I',evo l uçao,
pnnc1p10 - as ativic · · 1 a d es
estrange .... f iras iguraram de forma dens1va,
. . não um sunples
. antago111srno . ao
e
governo dos E·s t a d os U nidos. · mas comp 1· ,cacas l nv.»caccscmpcna>stasentcc
· 1· 1 1 · · 1·
uropeus e n01te-amencanos, . . extremamente 111tr1cadas . . . -.
durante a Pnme11a ..
f uern ' M
G . . O que ccahnente aconteceu toe
· undrnL .. uma luta pelo poder, na qual
acções revolucionárias diferentes brigaram não apenas contra o antigo regi-
me e os.· mteresses_ estrangeiros, mas também, e muitas vezes em ma10res. pro-
porções, entre si por questões tão profundas quanto classe e tao superficiais
quanto inveJ· ,·1·• < facçao
- vitoriosa
· · consegurn· eJ omrnar
· ·
os mov1rne1 1tos ele L,,
--1111 -
1
P_oneses e os sindicatos ele trabalhadores para favorecer empresas norte-ame-
nc-1'nc1s. e nacionais escolhidas. As condições socioeconômicas mudaram um
po~'º, em confo,·midade com a política adotada, mas em grande pacte em
•. mudanças nos mercados mternac1ona1s,
1c1 as · · · as
· cont1ngencias
· • ·· da
0bed1enc··
guerra
. e aos
. . . ,otemses
. .
pessoais e fawonscs . de hdeces
. 1 ocacs. ou ,eg,ona>s
. ,.
e
r·•
ascendentes temporariamente· asssim as relações ern todos os níveis torna- O•

r
. am-se. muito mais . .
complexas ,
e .flutuantes
'
do que as instituições oficiais
indicavam. O Estado constituído ern J 917 não foi popular em sentido amplo
: prnfoudo e, p,essionado pelos fst,dos U,üdos e P°' edversácios internos,
sobe · . ate. quee facçfo que o sustenwva se
, ev>vcu 1· ·d· ,u, pro d uzcnco
· uv, · l uma'
11c1l
1ova hcç" . .
' ,,o su[cccentemwte wecente peca negocm. su« consn 1·d, ,çao. - D ac. as
1 .
ej 1vers· JS, nov,s peciodi,ações, das quais a macs. phuscvel
. .e" que. vec. de 1910 a

19 20, o '·111(1 e"I· u. 1 t1 . ma revolta facciona


. . l v1to11osc1.
. .. .
Alg-
. un1· as teses "ntigas n«o estao em d··cscussao · - u·mante " I",evo
' ·1 uçao,
.. a <

50
c1echde' . .
mexicana .
viveu realmente crises extraorc 1 manas
· • . e expenrnen
. t ou
108
sérias mudanças. Os movimentos camponeses e os sindicatos . . e1 e t rcab·i!hado-
e

res tornaram-se f .
orças importantes. E e
· a onstrtuicao . . - represe .entou um novo
, . -~
. di . . .
respeito aos ireitos a uma justiça 1gua uaria e . raterna.. 1· , . f M as, pehs e
reviso .
. ' - e contJ-
q ue se fizeram, parece claro agora que, fundamentalmente, nao 1 iouv te
. , . . f .. wm~e
nuidade no México entre 1910 e 1920. As cnses não foram su 1nen
profundas para romper o domínio capitalista da produção. As grandes qu~s:
_ foram questoes
toes _ de Estado.. O desenvolvimento . mais. s1g111
· ifiica, tivo · foi c1
orgamzaçao · - improvisa
· · eia d e novas f orças burguesas capazes eI e lidar· com O'r5
tflil
Estados Unidos, de enfrentar os camponeses e trabalhadores, de cons · .
. ,
u m novo regime e pô-lo em funcionamento.
. Na pratica, , . as. re form,·is econo-
micas . . . nao
e sociars - foram muito . e1· iferentes das rea i·iza d as nos . n 1es111os anos,a
. . . .
sem guerra civil, no Peru, no Chile e na Argentina. Levando em con
. ta toeI eª. a
violência, é este o principal significado histórico da Revolução Mexica · na. 'e
tenacic· ·l ac ie capita· 1· ista na economia· e a reforma · b urguesa eio E·st·eido, 0 . quO e
ajuda
·.i.
a exp 1· rcar a esta·
· b·1i·1 1c ade do
· pais· em meio· as · lutas . e1 as eJ'··eca
dasdel9Z
ele 1930 e seu crescimento extraordinário, discordante depois de 1940· ,1
) _ , . . _ , .
. _·, 1 uanto' -'"'
I 01 consegumte, o assunto nao e mais tanto a revolução soCld q 'stó-
aclrninistração política. E a interpretação aqui é primordialmente uma 1~1. te
ria política. É carente de movimentos sociais, porque, por mais irnpoI 1~111 u
. . . . . , , derrotei o
que tenha sido seu surgnnento, o que importa muito mais e sua . nde
1•
suoorc
, - r··a 1 a muito
1· 1naçao. · d a po 1 1t1ca
• · que cnou· o novo E·s t ao10 , pon1ue,
0
,_
.d 1·01tuna
. . e a v1rtu . , fi.z.eram tudo o que era poss1vel, , someJJte. . os. . d e'talhes reve
Iam a razão do resultado.

~~~--~~~~~~~~~~~--- - -
OUTUBRO DE 1910 - HVEREIRO

.
O fantasma
j, · .
. .
DE 1913

_ , .
que obsedava o México em 1910 era o da reforma P 0Jítica-nica
· . · t ição Pº 1
___-

po itica do pais, precisava · .


mudar rapidamente, porque sua msti u . de E a
central, o presidente Porfirio Díaz, era mortal e tinha 80 anos de 1_da de,sen-
muclança teria de ser profunda porque depois de trinta anos de foite gó-
. . . · ' . ' , . . ·, dizer ne
volv1mento capitalista e de rude ditadura pessoal, polit1ca queria . resá-
ci. o· . E·m meio· a um dedalo · de suborno e colusiio entre po !'1tic· os' e emP .
. . . , ·cusos,
nos, reforma significava reriegocíação de urna miríade de acordos es .
, . . . · . . , · remei 1tes
Dos vanos tipos importantes de conflito cio país, os dois J11d!S P naís
1
g i.r"1v·
, ,1 rn e'1· 1 · 1 to· d ·
r no os negoc10s. · · u · J' d l
m era a nva 1 ac e e i· i tr·e vinte ou1ernãs,
gl-·11cl
< 1 es · b ancos · e empresas ·1ng J esas, norte-americanas, · ·f1··1ncesas,
e ª

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