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REVISTA DA

ISSN 1679-5954
ABENO REVISTA DA

Revista da Associação Brasileira de Ensino Odontológico - volume 6 - número 1 - janeiro/junho - 2006


ABENO
Associação Brasileira de
Ensino Odontológico

volume 6
número 1
janeiro/junho
Associação Brasileira de Ensino Odontológico 2006

ABENO
Associação Brasileira de Ensino Odontológico
ABENO
Associação Brasileira de Ensino Odontológico
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Revista da ABENO/Associação Brasileira de Ensino Odontológico – vol. 1, n. 1, (2001).
– São Paulo : ABENO, 2001-
Semestral
ISSN# 1679-5954
A partir de 2005, vol. 5, n. 1 a publicação passa a ser semestral.
1. Odontologia – Periódicos I. Associação Brasileira de Ensino Superior (São Paulo)
II. ABENO
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ABENO
Associação Brasileira de
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Presidente Antonio Cesar Perri de Carvalho
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Produção editorial
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Tel.: (11) 3021-0163
Fax: (11) 3023-3165

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Centro de Pesquisas Odontológicas São Leopoldo Mandic
Editorial
A Revista da ABENO é uma A Conquista da Revista
publicação oficial da

N
Associação Brasileira de Ensino
o ano de jubileu de ouro da ABENO, o volume 6 da
Odontológico
Presidente de Honra: Revista vem a lume consolidando a periodicidade se-
Edrízio Barbosa Pinto (PE) mestral, com a conquista do conceito Qualis e prestes a in-
Presidente:
Antonio Cesar Perri de Carvalho (DF) gressar no portal da Capes.
Vice-presidente:
Eduardo Gomes Seabra (RN)
Isso foi possível pela crescente produção de conhecimen-
Editor Científico:
José Luiz Lage-Marques (FO-USP) to sobre o ensino de Odontologia.
(editor@abeno.br)
Editores Adjuntos:
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Luísa Isabel Taveira Rocha (UFG)
Nelson Rubens Mendes Loretto (UPE) los continuados ensejados por suas reuniões anuais e, nos
Vera Lúcia Silva Resende (UFMG)
últimos anos, pela presente publicação, que adota linha
Conselho Editorial:
Álvaro Della Bona (UPFundo) editorial voltada exclusivamente aos temas sobre ensino de
Antonio Carlos Bombana (FO-USP)
Carlos de Paula Eduardo (FO-USP) Odontologia.
Carlos Eduardo Francischone (FOB-USP)
Carlos Estrela (FO-UFG)
Célia Marisa Rizzatti Barbosa (UNICAMP) Essas conquistas assinalam a maturidade do corpo docen-
Cinthia Pereira M. Tabchoury (UNICAMP)
Cláudio Luiz Sendyk (FO-USP) te na Odontologia Brasileira, com inequívoca demonstração
Denise Tostes Oliveira (FOB-USP)
Eduardo Batista Franco (FOB-USP)
do seu potencial para pensar, discutir e avaliar o ensino.
Esther Goldenberg Birman (FO-USP)
Eduardo Dias de Andrade (FOP-UNICAMP)
Eduardo Saba Chujfi (UNICASTELO)
Elaine Bauer Veeck (PUC-RS) Antonio Cesar Perri de Carvalho
Élito Araújo (UFSC)
Euloir Passanezi (FOB-USP) Presidente da ABENO
Fernando Ricardo Xavier da Silveira (FO-USP)
Francisco José de Souza Filho (FOP-UNICAMP)
Izabel Cristina Froner (FORP-USP)
Jaime Aparecido Cury (FOP-UNICAMP)
Jesus Djalma Pécora (FORP-USP)
João Humberto Antoniazzi (FO-USP)
Jorge Abrão (FO-USP)
José Eduardo de Oliveira Lima (FOB-USP)
José Ranali (FOP-UNICAMP)
Liliane Soares Yurgel (PUC-RS)
Luiz Carlos Pardini (FORP-USP)
Luiz Clovis Cardoso Vieira (UFSC)
Manuel Damião de Sousa Neto (UNAERP)
Márcia Martins Marques (FO-USP)
Marcio Fernando de Moraes Grisi (FORP-USP)
Marco Antonio Bottino (FOSJC-UNESP)
Marco Antonio Campagnoni (FOAR)
Maria Aparecida de A. M. Machado (FOB-USP)
Maria Celeste Morita (UEL)
Maria da Graça Kfouri Lopes (UNICENP)
Maria José de Carvalho Rocha (UFSC)
Maria Regina Sposto (FOA-UNESP)
Neusa de Lima Moro (UFPar)
Nilza Pereira da Costa (PUC-RS)
Roberto Brandão Garcia (FOB-USP)
Roberto Miranda Esberard (FOAR-UNESP)
Rodney Garcia Rocha (FO-USP)
Rosemary Sadami Arai Shinkai
Simone Tetu Moysés (UFPar)
Sylvio Monteiro Júnior (UFSC)
Vania Ditzel Westphallen (PUC-PR)
Indexação
A Revista da ABENO - Associação Brasileira de
Ensino Odontológico está indexada na seguinte
base de dados:
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Associação Brasileira
de Ensino Odontológico
DIRETORIA (2002 a 2006) Comissão de Ensino
Léo Kriger (UTP e PUC-PR)
Cresus Vinícius Depes de Gouveia (UFF-RJ)
Presidente de Honra
Elaine Bauer Veeck (PUC-RS)
Edrízio Barbosa Pinto (PE)
Ellen Marise de Oliveira Oleto (UFMG-MG)
Maria Celeste Morita (UNOPAR-PR)
Presidente Miguel Carlos Madeira (UMESP-SP)
Antonio Cesar Perri de Carvalho (DF) Omar Zina (UNIVAG-MT)

Vice-Presidente Comissão de Especialização


Eduardo Gomes Seabra (RN) Sigmar de Mello Rode (UNIB-SP)
Célio Percinoto (FOA-UNESP-SP)
Hilda Maria Montes R. de Souza (UERJ-RJ)
Secretária Geral
José Thadeu Pinheiro (UFPE-PE)
Luciane de Moura Brito (DF)
Kátia Regina Hostilho Cervantes Dias (UFRJ-RJ)
Luís Fernando Pegoraro (FOB-USP-SP)
1ª Secretária
Ana Cristina Barreto Bezerra (DF)
Comissão de Pós-Graduação
Isabela Almeida Pordeus (UFMG-MG)
Tesoureiro Geral Adair Luiz Stefanello Busato (ULBRA-RS)
Sérgio de Freitas Pedrosa (DF) José Carlos Pereira (FOB-USP-SP)
Lino João da Costa (UFPB-PB)
1ª Tesoureira Nicolau Tortamano (UNIP-SP)
Lílian Marly de Paula (DF) Nilza Pereira da Costa (PUC-RS)

Conselho Fiscal Comissão de Comunicação


José Galba de Meneses Gomes (CE) José Luiz Lage-Marques (USP-SP) - Editor da Revista da ABENO
Geza Nemeth (DF) Vera Lúcia Silva Resende (UFMG-MG) - Responsável pela
José Aparecido Jam de Melo (SP) home page da ABENO
Nelson José Fernandes Graça (RJ) Cléo Nunes de Souza (UFSC-SC)
Reinaldo Brito e Dias (SP) Daniel Rey de Carvalho (UCB-DF)
Luísa Isabel Taveira Rocha (UFG-GO)
Nelson Rubens Mendes Loretto (UPE-PE)
Assessores do Presidente
Alfredo Júlio Fernandes Neto (UFU-MG)
Bruno Frederico Muniz (Fundação Odontológica
Presidente Castello Branco-PE)
Carlos Alberto Conrado (UEM-PR)
José Dilson Vasconcelos de Menezes (UECE-CE)
Orlando Airton de Toledo (UnB-DF)
Roberto Schimer Wilhelm (UNESA-RJ)
Sumário
v. 6, n. 1, janeiro/junho - 2006
Editorial . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 3
Associação Brasileira de Artigos
Ensino Odontológico O papel das universidades na formação de profissionais na área de saúde
Cléa Adas Saliba Garbin, Nemre Adas Saliba, Suzely Adas Saliba Moimaz,
Karina Tonini dos Santos. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 6
Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que
respeita ao consentimento informado e à autonomia do paciente
Daniela Sens Nunes, Fernando Fernandes . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 11
A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia:
processos em construção
Jurema Nogueira Mendes Rangel . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 20
Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência
da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná
Christian Mendez Alcantara, Adriana Roseli Wünsch Takahashi. . . . . . . . . 28
Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos
com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS
Daniela dos Santos Cardoso, Evilin Sanches Morais, Ricardo de Oliveira
Bozzo, Viviane Maia Barreto de Oliveira. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 35
Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde
Arsenio S. Peres, José Roberto de M. Bastos, José Roberto de P. Lauris, Ricardo
P. Rodrigues da Silva, Henrique Mendes Silva, César Lopes Junior. . . . . . . 42
Projeto “Odontologia Hospitalar”
Guilhermo Manfio Doro, Lucas Meneghello Fialho, Maximiliano
Losekann, Dênis Nestor Pfeiff. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 49
A problematização como modelo para ensino universitário: uma
experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia
Rodrigo Otávio Moretti Pires, Sonia Maria Villela Bueno . . . . . . . . . . . . 54
Contribuição do Estágio Supervisionado da UFPI para formação
humanística, social e integrada
Regina F. Mendes, Marcoeli S. de Moura, Raimundo R. Prado Jr., Lucia de
Fatima A. de Deus Moura, Gilberto P. Lages, Maricel P. R. Gonçalves. . . . . . 61
Atividades extramuros como estratégia viável no processo
ensino-aprendizagem
Marlei A. S. Galassi, Eduardo Luis Barbin, Júlio César E. Spanó, José A.
Jam de Melo, Nicolau Tortamano, Antonio Cesar Perri de Carvalho . . . . . . 66
Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto
Catarinense – Lages – SC, Brasil
Jacson Brustolin, Juliana Brustolin, Ramona F. C. Toassi, Mirian Kuhnen. . . . 70
Trabalho de Conclusão de Curso: construção ao longo do curso
ou tarefa para finalizá-lo?
Elisabete Rabaldo Bottan, Mario Uriarte Neto, Nivaldo Murilo Diegoli,
Shirlei Imianowski, Henri Stuker. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 77
Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de
Odontologia do Brasil
Renata P. C. B. Rodrigues, Nemre A. Saliba, Suzely A. S. Moimaz . . . . . . . . 81

Anais da 40ª reunião anual - 2005

Relatório da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro


Nacional dos Dirigentes de Faculdades de Odontologia. . . . . . . 89

apêndice
Normas para apresentação de originais . . . . . . . . . . . . . . . . 96
O papel das universidades na formação
de profissionais na área de saúde
A formação universitária deve ter como objeto principal a
transformação social buscando sempre melhorar os índices
de saúde do país.
Cléa Adas Saliba Garbin*, Nemre Adas Saliba**, Suzely Adas Saliba Moimaz***,
Karina Tonini dos Santos****

* Professora Adjunta da Disciplina de Odontologia Legal e Bioética


do Departamento de Odontologia Infantil e Social da Faculdade
de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.
** Professora Titular da Disciplina de Odontologia Preventiva e Social
do Departamento de Odontologia Infantil e Social da Faculdade
de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.
*** Professora Adjunta da Disciplina de Odontologia Preventiva e Social
do Departamento de Odontologia Infantil e Social da Faculdade
de Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.
**** Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Odontologia
Preventiva e Social da Faculdade de Odontologia de Araçatuba
da Universidade Estadual Paulista. E-mail: kktonini@yahoo.com.br.

Resumo cias médicas, existe para: captar os conhecimentos


Apesar de terem ocorrido nítidas mudanças na empíricos da população; analisá-los, identificando o
educação superior, nos últimos anos, ainda há muito que é correto e lhes conferir conteúdo científico; reu-
o que ser mudado. Este artigo tem como finalidade nir esse material com as técnicas e os princípios já
propor uma reflexão sobre o real papel da universi- estudados externamente, formando um novo e mais
dade na formação de profissionais na área de saúde,
evoluído conhecimento; devolver a cultura a toda a
mais especificamente na odontologia. A função da
população, fazendo com que seus problemas se resol-
universidade seria o de identificar corretamente os
problemas de saúde de cada município ou região e vam melhor e mais rápido.
dizer como pode resolvê-los, ou seja, o ensino e a pes- Contudo, não é isso que tem acontecido, princi-
quisa devem ser direcionados para ações de impactos palmente em países extremamente capitalistas, em
sociais que possibilitem melhores condições de vida que os profissionais monopolizam o saber e somente
para a população. As propostas de mudanças devem prestam seus serviços para quem possa remunerá-los.
deixar de existir somente na teoria e serem postas em No Brasil, a maioria das universidades eram, e muitas
prática, em que dirigentes, docentes e discentes este- delas ainda são, alheias às reais necessidades da popu-
jam cientes de seus papéis dentro desse contexto.
lação e reproduzem em salas de aula, laboratórios e
ambulatórios realidades distantes das quais o país se
Descritores
Educação em Odontologia. Ensino Superior. Cur- encontra.
rículo. Este artigo, portanto, tem por finalidade propor
uma reflexão sobre o real papel da universidade na

D e acordo com Pinto12 (2000), na teoria, um cur-


so universitário, em especial uma escola de ciên-
formação de profissionais na área de saúde, mais es-
pecificamente na odontologia.

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O papel das universidades na formação de profissionais na área de saúde • Garbin CAS, Saliba NA, Moimaz SAS, Santos KT

Revisão de literatura entre o que se ensina e o que a comunidade necessi-


O ensino superior no Brasil possui uma história ta16.
relativamente recente, em comparação com o da Amé- Buscando-se articular os dois contextos aparente-
rica Espanhola, onde as primeiras universidades fo- mente desconectados – universidade e serviços –, fo-
ram fundadas por volta do ano de 1530. A primeira ram surgindo ao longo do tempo iniciativas de refor-
universidade brasileira somente foi fundada quase ma comprometidas com a relevância social da escola
quatrocentos anos depois, sendo que os primeiros e dos processos de formação no campo da saúde.
cursos médicos foram estabelecidos em 1808, nas ci- Na década de 50, foram criados os departamen-
dades do Rio de Janeiro e da Bahia. Nessa época, os tos de medicina preventiva nas escolas, com pers-
cursos de farmácia e enfermagem estavam anexados pectiva de aliar saúde pública com medicina libe-
às escolas médicas e o ensino da odontologia teve iní- ral2.
cio no ano de 1884, nessas mesmas universidades, por Dois outros movimentos importantes na mudança
decreto do Imperador9. da educação na área da saúde, nas décadas de 70 e 80,
Pouco tempo depois, a formação profissional de foram a medicina comunitária e integração docente-
recursos humanos na área de saúde sofreu uma pro- assistencial (IDA). A medicina comunitária retornou
funda influência com a descoberta da transmissibili- com os princípios da medicina simplificada e tinha
dade da doença, através dos microorganismos, o que como principal aliado a participação comunitária e
norteou, por décadas, o ensino nas escolas médicas. voluntariada na prestação de serviços15.
Essa concepção de medicina científica sempre buscou Foi nesse contexto que surgiu a idéia da Odon­
privilegiar os laboratórios e os hospitais como cenário tologia Simplificada, que buscou a diminuição dos
de aprendizagem, a “fragmentação” do indivíduo de passos odontológicos e a eliminação do supérfluo.
acordo com a doença acometida, as técnicas, os equi- Contudo, esse modelo não questionou a prática he-
pamentos, os medicamentos e o ensino autoritário gemônica da odontologia científica, e foi tido como
centrado na figura do professor como possuidor do uma odontologia destinada a classes sociais margina-
saber6. lizadas4.
Na Odontologia não aconteceu diferente: o mo- O objetivo da integração docente-assistencial era
delo de formação sempre foi voltado para a prática o de quebrar a resistência dos estudantes à abordagem
liberal, em que o preconizado era, e ainda é, a neces- epidemiológica e social mediante sua exposição pre-
sidade de aperfeiçoamento e especialização em áreas coce e oportuna à realidade sanitária: atividades de
exclusivamente técnicas17. O enfoque do ensino sem- extensão, como visitas em áreas economicamente de-
pre privilegiou o tratamento das doenças com base no primidas, atuação em centros de saúde experimentais,
arsenal tecnológico mais recente. geralmente localizados em áreas periféricas ou rurais,
O currículo dos cursos de Odontologia sempre vinculados às instituições acadêmicas1.
privilegiou o paradigma curativo, sendo essa a filosofia Movimentos como esses tiveram muito a ver com
norteadora das universidades, cujo ensino não se os sucessivos movimentos internacionais: Relatório
orienta pela situação epidemiológica, social, cultural Lalonde, Reunião de Alma Ata, a proposta de saúde
e econômica da população18. para todos, o movimento de Promoção de Saúde. O
Um estudo realizado por Almeida, Padilha3 (2001) próprio Sistema Único de Saúde (SUS), no Brasil,
veio confirmar esses dados ao concluir que a ação resultou, em boa medida, da acumulação política e
odontológica desenvolvida pela clínica integrada da técnica propiciada pelas experiências da medicina
Universidade Federal da Paraíba (UFPB) não foi ca- comunitária e IDA.
paz de produzir impacto sobre a saúde bucal dos usu- Em 1996, o Ministério da Educação4 estabeleceu
ários. as orientações para diretrizes curriculares propostas
As profissões de saúde devem ser medidas primei- pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) e
ro pelo nível de saúde da população que depende de propôs que o currículo das universidades deveria
seus serviços e não pela complexidade da preparação abranger objetivos, seleção de conteúdos, métodos e
científica e tecnológica dos seus profissionais12. processos de avaliação coerentes com aspectos filosó-
Assim, o que se observou no ensino superior das ficos, científicos, tecnológicos, sociológicos e políticos
profissões de saúde, ao longo dos anos, foi uma pro- nos quais se processa a informação.
funda dissociação entre sua dinâmica e as necessida- As alternativas de inovação do ensino com base
des da maioria da população, um verdadeiro divórcio nessa legislação devem incluir a organização institu-

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O papel das universidades na formação de profissionais na área de saúde • Garbin CAS, Saliba NA, Moimaz SAS, Santos KT

cional, a autonomia acadêmica, o compromisso social aprendizado. Os professores que atuam como tutores
do ensino e a flexibilidade curricular. A autonomia (ou facilitadores) nos grupos têm a oportunidade de
acadêmica deve levar em conta o reconhecimento das conhecer bem os estudantes e de manter contato com
obrigações da universidade com a sociedade e formar eles durante todo o curso8.
profissionais comprometidos com a relevância, a qua- Para que todas essas mudanças propostas pelas
lidade, o custo-efetividade e a eqüidade da atenção à diretrizes curriculares tornem-se realidade nos cursos
saúde. da área de saúde no país, mudanças nos currículos e,
Para a área odontológica, as novas diretrizes cur- conseqüentemente, nos projetos pedagógicos devem
riculares aprovadas pela Resolução CNE/CES 3/2002 ser viabilizadas para que as instituições de ensino su-
de 19/02/2002 propõem que: “Curso de Graduação perior cumpram o seu papel na formação de um pro-
em Odontologia tem como perfil do formando egres- fissional para a atualidade14.
so/profissional o Cirurgião-Dentista, com formação
generalista, humanista, crítica e reflexiva, para atuar Discussão
em todos os níveis de atenção à saúde, com base no É nítida a mudança que vem ocorrendo no ensino
rigor técnico e científico. Capacitado ao exercício de superior no Brasil, onde a rigidez dos currículos mí-
atividades referentes à saúde bucal da população, pau- nimos deixou de existir, dando espaço aos currículos
tado em princípios éticos, legais e na compreensão da flexíveis, ajustados à realidade15.
realidade social, cultural e econômica do seu meio, A promulgação das novas diretrizes para o curso
dirigindo sua atuação para a transformação da reali- de Odontologia foi, sem dúvida, um avanço inques-
dade em benefício da sociedade”5. Portanto, para for- tionável, e veio ao encontro dos anseios de professo-
mar profissionais com esse perfil, o papel do professor res, alunos e dirigentes, pois a última reforma curri-
ocupa lugar de destaque13. cular no curso de Odontologia aconteceu em 1982 e
O Art. 9º dessa resolução propõe que o “Curso de estabeleceu as propostas do currículo mínimo para o
Graduação em Odontologia deve ter um projeto pe- curso10.
dagógico, construído coletivamente, centrado no alu- Hoje é consensual que a mudança deva incluir a
no como sujeito da aprendizagem e apoiado no pro- interdisciplinaridade, a mudança de cenários nos
fessor como facilitador e mediador do processo quais se realizam as ações educativas para locais mais
ensino-aprendizagem. Este projeto pedagógico deve- representativos da realidade sanitária e social, a inte-
rá buscar a formação integral e adequada do estudan- gração ensino-serviço-pesquisa, a abordagem proble-
te através de uma articulação entre o ensino, a pesqui- matizadora, o compromisso ético, humanístico e so-
sa e a extensão/assistência”. cial com o trabalho multiprofissional6.
De acordo com Carvalho7 (2004), o projeto peda- A dimensão epidemiológica e social do processo
gógico constitui-se de uma proposta conjunta de tra- de viver e adoecer, bem como as perspectivas de pre-
balho que visa o engajamento dos segmentos docente, venção de risco e da promoção de saúde, devem deixar
discente e administrativo, a eficiência do processo e a de ser objeto quase que exclusivamente dos departa-
qualidade da formação plena do aluno em termos mentos de medicina e odontologia preventiva e social
científico-culturais, profissionais e de cidadania. e integrar todas as disciplinas.
É preocupação também das Diretrizes Curricula- O que é preocupante, todavia, é ver que os profis-
res a questão da metodologia de ensino-aprendiza- sionais disponíveis são ainda preparados dentro de
gem, que deve sempre propiciar aos alunos uma ativa uma concepção que privilegia a abordagem individu-
participação nesse processo4. al e curativa e são, portanto, incapazes de transcender
Uma das metodologias que contempla essas carac- o espaço do consultório e propor um diagnóstico so-
terísticas é o método PBL – Aprendizado Baseado em bre o coletivo e suas intervenções, em uma abordagem
Problemas (“Problem-Based Learning” – PBL) – o integralizadora, sendo que o “ensino odontológico
qual destaca o uso de um contexto clínico para o flexneriano” é ainda praticado na grande maioria dos
aprendizado, promove o desenvolvimento da habili- cursos de graduação do país.
dade de trabalhar em grupo e também estimula o Segundo Narvai11 (2004) em entrevista ao Jornal
estudo individual, de acordo com os interesses e o da Federação Interestadual dos Odontologistas (FIO)
ritmo de cada estudante. O aprendizado passa a ser em maio de 2004, a formação em Odontologia ainda
centrado no aluno, que sai do papel de receptor pas- deixa muito a desejar em se tratando da saúde bucal
sivo para o de agente e principal responsável pelo seu coletiva, uma vez que a abordagem preventiva ainda

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é restrita à dimensão biológica e clínica da prevenção Abstract


e os currículos ainda continuam fragmentados, com The role of universities in the training of health
funcionamento isolado das disciplinas. professionals
Uma das principais críticas aos modelos tradicio- Although clear changes have taken place in high-
nais de ensino se deve à expansão e consolidação do er education in recent years, there is still much to
SUS, mais especificamente o Programa de Saúde da change. This study aimed to propose a reflection
Família, pois é um programa de extrema importância about the role of the university in the training of health
professionals, particularly in the training of dentists.
na área de saúde bucal, e por isso as instituições de
The university’s objective should be to identify the
ensino superior devem reformular seus currículos,
health problems faced by each city or region and pro-
para formar profissionais com perfil adequado para
vide ways of solving them. In other words, teaching
trabalhar na área, cuja prática deve pautar-se pela re-
and research activities should be directed to actions
alidade econômica e social do país14. of social impact that may improve the living standards
A formação do cirurgião-dentista deve contemplar of the population. Change proposals should cease to
o sistema de saúde vigente no Brasil, o trabalho em exist only in theory and should be put into practice,
equipe e a ação integral em saúde. O número de egres- so as to make leaders, teachers and students fully aware
sos dos cursos de odontologia não é pequeno, pelo of their roles in this context.
contrário, por isso a Universidade deve ter como meta
principal a melhoria dos índices em saúde. Descriptors
Outro ponto a se discutir seria a formação dos Education, dental. Education, higher. Curricu-
docentes, peças fundamentais para o ensino. Muitos lum. §
cursos de pós-graduação – mestrado e doutorado –
privilegiam a formação centrada nas técnicas e espe- Referências Bibliográficas
1. Almeida ECS, Vendúscolo DM, Mestriner Jr WA. A conforma-
cialização, colaborando com a perpetuação desse
ção da Odontologia enquanto profissão – uma revisão biblio-
paradigma nas instituições de ensino superior.
gráfica. Rev Bras Odontol 2002;59(6):370-3.
Mais do que nunca, é preciso estar atento ao fato
2. Almeida M, Feuerwerker L, Llanos M. A educação dos profis-
de que grande parte dos conhecimentos e das técnicas
sionais de saúde na América Latina: teoria e prática de um
recomendáveis hoje estará em desuso dentro de al- movimento de mudança. Interface - Comunic, Saúde, Educ
gum tempo e que, portanto, mais importante que [periódico on-line] 2000 [citado 2005 abril 04];7:139-42. Dis-
transmitir conhecimento é criar hábitos e métodos ponível em: URL: http://www.interface.org.br/revista7/livro1.pdf.
que valorizem o auto-aprendizado, a abordagem crí- 3. Almeida RVD, Padilha WWN. Clínica Integrada: É Possível Pro-
tica dos conhecimentos e a permanente inquieta- mover Saúde Bucal numa Clínica de Ensino Odontológico?
ção. Pesq Bras Odontoped Clin Integr 2001;1(3):23-30.
O real papel da universidade seria o de identifi- 4. Brasil. Lei no 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Diário Oficial
car corretamente os problemas de saúde de cada da República Federativa do Brasil, Brasília, 23 dez 1996 [citado
município ou região e dizer como pode resolvê-los, 2005 ago 10]. Disponível em: URL: http://www.mec.gov.br/legis/

ou seja, o ensino e a pesquisa devem ser direciona- default.shtmpdf/LDB.pdf.


5. Brasil. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional
dos para ações de impactos sociais que possibilitem
de Educação. Resolução CNE/CES 3/2002. Diário Oficial
melhores condições de vida para a população. Assim
da União, Brasília, 04 mar 2002 [citado 2005 ago 10]. Dispo­-
os egressos estarão preparados para o mercado de
nível em: URL: http://www.mec.gov.br/sesu/ftp/resolucao/03020
trabalho e ao mesmo tempo cientes do seu compro-
odontologia.doc.
misso de devolver à sociedade tudo que lhes foi
6. Campos FE, Belisário AS. O programa da Saúde da Família e
ensinado. os desafios para a formação profissional e a educação continu-
ada. Interface - Comunic, Saúde, Educ [periódico online] 2001
Conclusão [citado 2005 abr 19];9:133-42. Disponível em: URL: http://www.
Já está mais que na hora de os projetos pedagógicos interface.org.br/revista9/debates1.pdf.
e as reformulações das diretrizes curriculares saírem 7. Carvalho ACP. Planejamento do curso de graduação de odon-
da teoria e do papel para mudarem a realidade do tologia. Revista da ABENO 2004;4(1):7-13.
ensino e conseqüentemente do País. 8. Chiaratto ARA. A utilização da metodologia PBL na odontolo-

Revista da ABENO • 6(1):6-10 


O papel das universidades na formação de profissionais na área de saúde • Garbin CAS, Saliba NA, Moimaz SAS, Santos KT

gia: descortinando novas possibilidades ao processo ensino ção de Mestrado]. Araçatuba: Faculdade de Odontologia de
aprendizagem [Tese de Doutorado]. Araçatuba: Faculdade de Araçatuba da UNESP; 2005.
Odontologia de Araçatuba da UNESP; 2002. 15. Santana JP, Campos FE, Sena RR. Formação profissional em
9. Fernandes Neto AJA. A evolução dos cursos de odontologia no saúde: desafios para a universidade. Texto de apoio elaborado
Brasil. Revista da ABENO 2002;2(1):55-6. especialmente para o curso de especialização em Desenvolvi-
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10 Revista da ABENO • 6(1):6-10


Conhecimento, conscientização e
atitude do docente no que respeita
ao consentimento informado e à
autonomia do paciente
A informação em linguagem compreensível ao paciente e a
consideração à sua autonomia expressam o comprometimento docente
para com os referenciais deontológicos e constituem instrumentos de
defesa de profissionais e instituições.
Daniela Sens Nunes*, Fernando Fernandes**

* Acadêmica do Curso de Odontologia da Universidade Estadual


de Ponta Grossa, Bolsista PIBIC.
** Professor Assistente do Departamento de Odontologia da
Universidade Estadual de Ponta Grossa. E-mail: ffernand@uepg.br.

RESUMO informado. No entanto, apenas 25% responderam


Um problema fundamental na relação profissio- conhecer o Princípio da Autonomia, e tão-somente a
nal-paciente é a tomada de decisão, principalmente metade desses (12,5%) colocava em prática tal prin-
no que se refere aos procedimentos diagnósticos e cípio. O docente do curso demonstra conhecimento
terapêuticos a serem adotados. O consentimento do e conscientização no que respeita ao termo de con-
paciente, antes do início de qualquer procedimento, sentimento informado, embora sua atitude o compro-
é uma condição a ser respeitada. Observando-se o meta ao demonstrar que não coloca em prática o
Princípio da Autonomia, toda pessoa tem o direito de Princípio da Autonomia.
decidir o que deseja ou não para si própria. A ausên-
cia do termo de consentimento pode significar um DESCRITORES
desrespeito a esse direito básico. Analisar o conheci- Autonomia pessoal. Bioética. Consentimento es-
mento, a conscientização e a atitude do docente em clarecido. Ética odontológica. Responsabilidade le-
relação ao emprego do termo de consentimento in- gal.
formado e à autonomia do paciente nas disciplinas
clínicas do Curso de Graduação em Odontologia faz-
se imperioso. Para tal desiderato, um questionário M uitos são os pacientes que procuram as clínicas
do Curso de Odontologia da Universidade Es-
tadual de Ponta Grossa (UEPG), com diferentes tipos
com 12 questões fechadas, do tipo “sim” ou “não”, foi
entregue a cada um dos 42 docentes do curso; 24 res- de alterações bucais. Os docentes do Curso de Odon-
ponderam. A análise percentual das respostas obtidas tologia da UEPG, ao receberem esses pacientes, teri-
demonstrou que 95,8% sabem o que é termo de con- am conhecimento, conscientização e atitude própria
sentimento informado e têm conhecimento da impor- no que tange ao emprego do consentimento infor-
tância de sua utilização. Diante da indagação “Saberia mado e à autonomia do paciente nas disciplinas clíni-
elaborar um termo de consentimento informado?”, cas do curso de graduação?
58,3% responderam sim. Apurou-se ainda que 67% O cirurgião-dentista professor universitário, ao
dos sujeitos da amostra têm consciência das implica- abdicar o uso do consentimento informado num tra-
ções ético-legais da não-utilização do consentimento tamento odontológico, estaria tolhendo a autonomia

Revista da ABENO • 6(1):11-9 11


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

do paciente. Destarte, estaria desrespeitando o ser cidade de autodeterminação, condição indispensável


humano. Ora, pois: como, quando e onde estaria con- para a verdadeira vida moral18.
figurada a aliança terapêutica indispensável ao bom O ser humano não nasce autônomo, torna-se au-
desenvolvimento do tratamento proposto, nas suas tônomo, e para isto contribuem variáveis estruturais
diversas modalidades? Ademais, como espelho acadê- biológicas, psíquicas e socioculturais. Uma pessoa au-
mico, não seria esse o momento de se demonstrar ao tônoma pode agir não-autonomamente em determi-
discente que aquele mestre embasa sua proposta de nadas circunstâncias. Por isso, a avaliação de sua livre
terapêutica clínica expondo, argumentando e, antes manifestação decisória é uma das mais complexas
de tudo, educando um paciente carente que procura questões éticas impostas aos profissionais de saúde16.
as clínicas da Instituição. Estaria esse mesmo mestre Um problema fundamental na relação médico-
cônscio das implicações ético-legais da não-utilização paciente é o da tomada de decisão, principalmente
do consentimento informado? no que se refere aos procedimentos diagnósticos e
Na área odontológica houve um extraordinário terapêuticos a serem adotados. O dilema que geral-
avanço técnico-científico nos últimos anos que, infe- mente se impõe nas várias situações é: a decisão deve
lizmente, não foi acompanhado por um fundamental ser do médico, preparado para a arte de curar e aque-
embasamento ético suficiente para sustentar as novas le que sabe mais, ou do paciente, porque é o dono do
técnicas e/ou o uso de novos materiais incorporados seu próprio destino e, portanto, deve decidir o que
ao exercício profissional. Ademais, dúvidas que fos- quer para si?
sem apresentadas pelos pacientes eram consideradas O profissional da área de saúde, diante de uma
subjetivas quando comparadas ao benefício e à verda- pessoa autônoma, deverá evitar decidir, fundamenta-
de objetiva, ou seja, o conhecimento científico a ele do em seus próprios valores, o que é bom para ela, o
proporcionado pelo médico, o único que dominava que deverá ser seu bem-estar, sua qualidade de vida.
técnica e legalmente os conhecimentos sobre as do- É preciso não esquecer que, muitas vezes, médicos e
enças. Com a Odontologia, que surgiu formalmente pacientes provêm de classes sociais distintas, com dis-
apenas em 1841, as coisas aconteceram da mesma ma- tintos valores socioculturais, valores esses que podem
neira9. entrar em choque nas relações estabelecidas entre as
Dessa forma, surgiram questões a respeito da au- duas partes16.
tonomia do paciente que, até então, eram praticamen- Em bioética, a relação médico-paciente pode re-
te desconsideradas. duzir-se a três tipos de agentes: o médico, o paciente
A cidadania não é prerrogativa do indivíduo sau- e a sociedade. Cada um com um significado moral
dável. No dia-a-dia avulta o reconhecimento de que específico: o médico com o da beneficência, o pacien-
numa instituição de saúde o paciente não tem mais o te guiado pelo princípio da autonomia e a sociedade,
papel de mero coadjuvante, o que significa a sua eman- pelo da justiça16.
cipação. A relação entre o profissional de saúde e o A noção do consentimento na atividade médica é
usuário está sendo repensada, pois o doente, com a fruto de posições filosóficas relativas à autonomia do
matiz de usuário dos serviços de saúde, insurgiu-se não ser humano quando de decisões tomadas em tribu-
só contra os erros profissionais, aqueles afetos à téc- nais. Segundo o princípio de autonomia, a pessoa
nica (erro de diagnóstico e erro terapêutico), mas autônoma tem o direito de consentir ou recusar pro-
também contra o descumprimento dos deveres de postas de caráter preventivo, diagnóstico ou terapêu-
humanidade, tais como: o desrespeito à autonomia, à tico que afetem ou venham a afetar sua integridade
privacidade, ao sigilo, a ausência de prontuário e re- físico-psíquica ou social. A respeito disso, Junges13
gistros sobre sua assistência, a falta de informação (2000) afirma que ser autônomo significa ter uma
clara e acessível e até a letra indecifrável15. vontade autolegisladora. Agente autônomo é autodi-
Farah, Ferraro7 (2000) comentaram que o consen- rigido, não agindo por influência de mandatos exter-
timento do paciente, antes do início de qualquer pro- nos. Ser autônomo e escolher autonomamente não
cedimento realizado pelo cirurgião-dentista, é uma são a mesma coisa do que ser respeitado como agente
condição a ser respeitada, observando-se o princípio autônomo. Ser respeitado significa ter reconhecido
da autonomia, pelo qual todos têm o direito de ser seu direito de autogoverno; é afirmar que o sujeito
autor de seu próprio destino e decidir o que deseja está autorizado a se determinar autonomamente, livre
ou não em sua vida. de limitações e interferências. O princípio da autono-
Dessa forma, portanto, a autonomia indica a capa- mia expressa esse respeito defendendo que ações au-

12 Revista da ABENO • 6(1):11-9


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

tônomas e escolhas não devem ser constringidas pelas mas mais debatidos na Bioética. Mas essa questão tam-
de outros, mesmo que estas fossem objetivamente bém vem sendo, muitas vezes, restringida simplesmen-
para o bem do sujeito. O princípio diz, nada mais nada te ao seu lado legal, tornando o que poderia ser
menos, que existe o direito de o sujeito não sofrer observado em diferentes aspectos em algo limitado a
interferência e, correlativamente, a obrigação de não acatamento de regras. Segundo Clotet4 (2000), o con-
se constringir uma ação autônoma. O princípio da sentimento informado vai além de uma doutrina legal,
autonomia tem a sua expressão no assim chamado sendo um direito moral dos pacientes que faz surgir,
“consentimento informado”. O direito ao consenti- assim, uma série de obrigações morais por parte dos
mento informado quer proteger e promover a auto- profissionais envolvidos na assistência e na pesquisa.
nomia. O princípio da autonomia é uma das caracte- O consentimento é realmente esclarecido depen-
rísticas importantes do consentimento informado. O dendo do que o profissional de saúde explica ao pa-
ato de consentir deve ser genuinamente voluntário e ciente. Depende também de se a pessoa entendeu a
basear-se na revelação adequada das informações13. situação e do seu grau de vulnerabilidade à circuns-
Estamos num momento histórico de mudança na tância17.
“cultura ética”, diferente, porém, do que ocorreu no Segundo a Sociedade Catarinense de Direitos Hu-
final do século XX, quando as sociedades foram inva- manos, o paciente tem o direito a consentir ou recusar
didas por um modismo ético. Hoje, a ética é preocu- procedimentos, diagnósticos ou terapêuticas a serem
pação de todos os setores; entretanto, a preocupação realizados. Deve consentir de forma livre, voluntária
é ainda maior quando falamos dos usos e abusos da e esclarecida, com adequada informação. Quando
ética. Daí a importância da existência de leis e resolu- ocorrerem alterações significantes do estado de saúde
ções que oficializem essa preocupação e orientem a inicial ou da causa pelo qual o consentimento foi
aplicação da ética17, a exemplo da Resolução 196/96 dado, esse deverá ser renovado19.
do Conselho Nacional de Saúde6. Para abordar de forma abrangente o processo de
A Carta Magna Brasileira reavivou os direitos fun- consentimento informado, este deve ser dividido em
damentais do homem. Também se resgataram os di- três etapas: as condições prévias da pessoa que irá
reitos de personalidade, aqueles relacionados ao res- consentir, os elementos de informação e o consenti-
peito e à preservação moral da pessoa humana: mento propriamente dito. A pessoa que será subme-
direito à honra, ao nome, à imagem, ao sigilo, à liber- tida a um procedimento assistencial ou de pesquisa
dade de consciência e culto. Assegurou o direito à deverá consentir de acordo com duas condições pré-
autonomia a todos os cidadãos ao incluir a determi- vias: a capacidade para entender e decidir, que não
nação de que ninguém pode ser obrigado a fazer ou tem uma dependência direta com a idade, e a volun-
a deixar de fazer alguma coisa senão em virtude de tariedade. Esta última é a possibilidade que a pessoa
lei2. Já o Código Penal Brasileiro exige o respeito a tem de tomar decisões sem ser constrangida ou até
esse direito ao punir, em seu artigo 146, aquele que mesmo coagida para que decida por uma das alterna-
constranger outrem a fazer o que a lei não manda ou tivas10. O consentimento deve ser dado livremente e
a deixar de fazer o que a lei manda1. não mediante práticas de coação física, psíquica ou
Vislumbram-se no Brasil, desde a década de 80, moral, ou através de simulação ou práticas enganosas.
códigos de ética profissional que vêm tentando esta- Deve ser livre de restrições internas, causadas por dis-
belecer uma relação dos profissionais com seus pa- túrbios psicológicos, e livre de coações externas, por
cientes, na qual o princípio da autonomia tenda a ser pressão de familiares, amigos e dos profissionais de
ampliado. Crescem, portanto, a discussão e a elabora- saúde. A persuasão é aceita, porém não são admitidas
ção de normas deontológicas sobre as questões que a coação ou a manipulação de dados ou fatos. Todavia,
envolvem as relações da assistência à saúde contendo essa persuasão deve ser feita como uma tentativa de
os direitos fundamentais que devem reger a vida do induzir a decisão de outra pessoa através de apelos à
ser humano16. Tal compreensão é encontrada no sé- razão, o que é aceito eticamente16. Além disso, o con-
timo artigo do Código de Ética Odontológica, que sentimento não é algo imutável, mas pode ser mudado
veda ao cirurgião-dentista “iniciar qualquer procedi- ou revogado a qualquer momento por decisão livre e
mento ou tratamento odontológico sem o consenti- esclarecida da pessoa assistida, sem que esta sofra ob-
mento prévio do paciente ou do seu responsável legal, jeções e sanções morais ou administrativas7.
exceto em casos de urgência ou emergência”5. O sujeito tem que ser informado e esclarecido so-
O consentimento informado tem sido um dos te- bre o que vai ser feito com ele, quais os riscos que

Revista da ABENO • 6(1):11-9 13


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

podem ocorrer e quais os benefícios que podem advir. deverá informar e justificar ao paciente, à sua família
Além disso, a pessoa tem todo direito de se recusar a ou a outros terceiros que sejam responsáveis por ele
aceitar o que lhe está sendo proposto, sem que isso todas as ações e os procedimentos que a equipe reali-
resulte em nenhuma sanção, em nenhuma limitação zou durante a vigência dessa situação10. Polemiza Sou-
de sua liberdade de decisão11. sa20 (2004) ao inferir que as informações podem le-
O consentimento esclarecido precisa conter infor- galmente ser sonegadas, de acordo com o Código de
mações adequadas e que possam ser compreendidas Ética Médica, quando: “a) a informação possa preju-
pelo paciente. Dessa forma o paciente não fica apenas dicar o paciente, ou, de forma mais grave: b) o pacien-
informado, mas também é esclarecido através de in- te corre risco de vida”. Finaliza o autor que, ainda de
formações que estejam adaptadas às suas circunstân- acordo com o Código de Ética Médica, Artigo 46, é
cias culturais e psicológicas. Não é necessário que os vedado ao médico “efetuar qualquer procedimento
profissionais de saúde apresentem as informações uti- médico sem o esclarecimento e consentimento pré-
lizando linguajar técnico-científico, mas sim palavras vios do paciente ou de seu responsável legal, salvo em
mais simples, aproximativas, inteligíveis e respeitosas, iminente perigo de vida”20. Para tais circunstâncias,
e de forma organizada16. do novo Código Civil Brasileiro se extrai: “Artigo
A forma com que a informação é fornecida pode- 188 – Não constituem atos ilícitos: [...] II - a deterio-
rá influenciar o entendimento por parte do paciente. rização da coisa alheia, ou a lesão da pessoa, a fim de
Para que ocorra esse entendimento, os profissionais remover perigo iminente. § único. No caso do inciso
de saúde deverão utilizar terminologia adequada, en- II, o ato será legítimo somente quando as circunstân-
corajar questionamentos e se certificar de que os seus cias o tornarem absolutamente necessário, não exce-
pacientes estão realmente entendendo as informa- dendo os limites do indispensável para a remoção do
ções14. O consentimento livre e esclarecido às vezes perigo”3. O valor da vida humana, nesses casos, se so-
não traz informações suficientes para a decisão cons- brepõe à necessidade de um consentimento e do es-
ciente do sujeito da pesquisa. Em outras situações, clarecimento do paciente, de acordo com a compre-
apresenta uma linguagem complexa demais, pouco ensão jurídica prevalente e com as normas de ética
acessível, não levando em conta o nível de conheci- profissional da área de saúde.
mento do paciente. Há ainda os consentimentos que Outro importante aspecto a ser incluído no pro-
parecem induzir à participação. Uma das soluções cesso de obtenção do consentimento informado é a
para evitar textos muito complexos, longos e frios, privacidade do paciente, já que ela garante que os
resultantes de traduções que não se adequam à reali- dados, sejam de assistência ou de pesquisa, não serão
dade brasileira, é, além de uma linguagem mais escla- identificados ou revelados a quem não os necessita
recedora, a capacitação de pesquisadores para infor- saber8.
marem adequadamente, possibilitando assim um “In fine”, privacidade é limitação do acesso às in-
maior diálogo com a sociedade12. formações de uma dada pessoa, bem como do acesso
O consentimento propriamente dito ocorre quan- à própria pessoa e à sua intimidade. Esses aspectos
do o participante ou paciente toma a decisão por uma também estão presentes nas publicações científicas,
das alternativas apresentadas. A assinatura do termo nas quais não deverá ser possível identificar os pacien-
de consentimento é a última etapa do processo, quan- tes a partir de imagens e fotografias. Em caso de ne-
do a pessoa documenta a sua autorização para a rea- cessidade imperiosa, isso será permitido apenas com
lização dos procedimentos propostos10. o consentimento, por escrito, dos mesmos8 – o que
Em todas as situações, salvo as emergenciais, o con- tem amparo na própria Constituição Federal, em seu
sentimento informado é inerente ao próprio ato de Artigo 5º, item X2.
assistir10. Se ocorrer risco iminente de morte, a própria É importante esclarecer a diferença entre o con-
lei desobriga a obtenção do consentimento até que o sentimento informado, que consiste em um processo
paciente não mais se encontre em tal situação de ris- para o auxílio na tomada de decisão pelo paciente, e
co7. A obtenção do consentimento nas situações de o termo de consentimento, que é um documento legal
atendimento de emergência nem sempre é possível assinado pelo paciente ou por seus representantes
e, algumas vezes, é até danosa ao próprio paciente, legais com o objetivo de respaldar juridicamente as
pois pode acarretar perda de tempo na realização de ações dos profissionais. Se o termo de consentimento
procedimentos necessários à preservação da sua vida. não respeitar a manifestação autônoma dos pacientes
Após o atendimento emergencial o médico assistente ele terá pouca ou nenhuma validade ética16.

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Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

São motivos centrais para o uso de um termo de tra. No que respeita à formação acadêmica dos do­
consentimento informado: defesa do paciente, prova centes, 50% são doutores, 42%, mestres e 8%,
do Médico/Dentista e parte de um sistema de inves- especialistas; destarte, há um predomínio da forma-
tigação Médica/Odontológica. O termo de consenti- ção stricto sensu (92%) sobre a formação lato sensu
mento informado defende o paciente por garantir o (8%). Quanto ao tempo que esses mesmos docentes
conhecimento dos riscos e das conseqüências do tra- lecionavam na Instituição ocorreram as seguintes dis-
tamento, respeitando o princípio de autonomia. O tribuições por períodos: de 0 a 05 anos (1 profissional
termo serve de prova de que o Médico/Dentista for- ou 4,1%), de 06 a 10 anos (6 profissionais ou 25%),
neceu as informações necessárias ao paciente. Assim, de 11 a 15 anos (4 profissionais ou 16,6%), de 16 a 20
mesmo sendo necessária a autorização do paciente, anos (11 profissionais ou 45,8%), de 21 a 25 anos (ne-
ela não elimina o risco de responsabilização. Isso por- nhum profissional ou 0%) e de 26 a 30 anos (2 pro-
que o paciente normalmente é leigo, já que não cur- fissionais ou 8,3%). Também foi questionado ao
sou uma faculdade de Medicina ou Odontologia, o docente se era responsável por disciplina e 14 respon-
que não permite que ele julgue tecnicamente os pro- deram serem responsáveis por disciplina (58,3% do
cedimentos sugeridos7. total da amostra). Os resultados obtidos com a per-
gunta “Quais itens compõem o prontuário odontoló-
MATERIAL E MÉTODOS gico empregado na disciplina?” (Gráfico 1) foram:
Após aprovação do protocolo de pesquisa (Parecer 83,3% dos docentes assinalaram o item anamnese;
nº 02/2004 exarado pela Comissão de Ética em Pes- 79,1%, o item plano de tratamento; 75%, histórico
quisa da Universidade Estadual de Ponta Grossa), um clínico; 70,8%, qualificação do paciente; 50%, orien-
questionário contendo doze questões fechadas do tação sobre higienização; 45,8%, receitas e atestados;
tipo “sim” ou “não” foi entregue a cada um dos 42 45,8%, registro do quadro clínico-odontológico com
(quarenta e dois) docentes lotados no Departamento que o paciente deixou o consultório; 29,1%, orienta-
de Odontologia da UEPG. O retorno desses questio- ção para o pós-operatório imediato e mediato; apenas
nários fez-se através envelope lacrado depositado o 29,1% assinalaram consentimento livre e esclarecido
mais breve possível na pasta do pesquisador; pasta essa do paciente ou responsável, e 12,5%, abandono de
disposta no arquivo dos professores junto ao Depar- tratamento pelo paciente. Indagados sobre o que res-
tamento de Odontologia da referida Instituição. Um peita propriamente ao consentimento informado, a
documento por escrito em que constavam as orienta-
ções para o retorno dos questionários foi entregue a
cada um dos sujeitos da pesquisa. Tal metodologia
visou a confidencialidade dos respondentes, os quais
Abandono de tratamento pelo paciente 3 (12,5%)
perfizeram 24 (vinte e quatro) questionários respon-
Orientação para pós-operatório
didos (57,14% do total da amostra). Por pertencer ao imediato e mediato
7 (29,1%)
mesmo Departamento, desconsiderou-se o professor Consentimento livre e esclarecido
7 (29,1%)
orientador do trabalho. Destaque-se que 17 (dezesse- do paciente ou responsável
Registro do quadro clínico-odontológico
te) docentes não responderam (40,47%) ao questio- com que o paciente deixou o consultório
11 (45,8%)
nário. Adotou-se o estudo quantitativo na análise dos
Receitas e atestados 11 (45,8%)
dados coletados, os quais receberam tratamento esta-
tístico de forma descritiva e inferencial. Na análise Orientação sobre higienização 12 (50%)
descritiva se utilizaram gráficos e na análise inferencial
Qualificação do paciente 17 (70,8%)
se usaram porcentagens numéricas de ocorrência dos
fenômenos colhidos. Histórico clínico 18 (75%)

RESULTADOS Plano de tratamento 19 (79,1%)

A amostra foi composta por 13 docentes do gêne- Anamnese 20 (83,3%)


ro masculino (54%) e 11 do gênero feminino (46%).
Na distribuição por idade, observou-se uma concen- Número de respostas
tração nos intervalos dos 30 aos 39 anos e dos 40 aos
49 anos (29,1% e 41,6%, respectivamente). Esses mes- Gráfico 1 - Itens que compunham o prontuário odontoló-
mos intervalos juntos representaram 70,7% da amos- gico empregado nas disciplinas.

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Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

75%
33%

67%

25%

sim sim
não não

Gráfico 2 - Distribuição dos profissionais (%) quanto à Gráfico 3 - Distribuição dos profissionais (%) quanto ao
consciência das implicações ético-legais da não-utilização conhecimento do Princípio da Autonomia.
do consentimento informado.

tra conhece o Princípio da Autonomia; houve 18


respostas negativas, representando 75% da amostra
(Gráfico 3). E, ainda com relação ao Principio da Au-
25%
tonomia do Paciente, constatou-se que somente 3
sujeitos (correspondendo a 12,5%) conhecem o Prin-
62,5% 12,5%
cípio da Autonomia e o colocam em prática, enquan-
to 6 sujeitos da pesquisa (25%) não o colocam em
prática. A grande maioria dos sujeitos da pesquisa (15
não responderam profissionais) simplesmente não assinalou nem posi-
não tiva ou negativamente, deixando a questão em branco
sim
(62,5%) (Gráfico 4).

DISCUSSÃO
Gráfico 4 - Distribuição dos profissionais (%) quanto à A relação entre o profissional de saúde e o usuário
aplicação do Princípio da Autonomia. está sendo repensada, pois se exige daquele um apri-
moramento condizente com a práxis e deste uma
grande maioria dos docentes respondeu que sabe o compreensão do que pode vir a ser alterado em seu
que é termo de consentimento informado (95,8%). fisiologismo15. Há o entendimento de que a informa-
A partir da pergunta “Saberia elaborar um termo de ção precisa, em linguagem compreensível ao interlo-
consentimento informado?”, quatorze profissionais cutor, e a consideração à autonomia são os principais
disseram que sim (58,3%) e dez, que não saberiam instrumentos de defesa dos profissionais7 e das insti-
(41,7%). Sobre ter conhecimento da importância da tuições de saúde. Assim, o primeiro aspecto a ser ana-
utilização do termo de consentimento informado, 23 lisado refere-se ao retorno dos 24 (vinte e quatro)
sujeitos da amostra (95,8%) responderam que sim. questionários respondidos num universo de quarenta
Questionou-se ainda sobre as implicações ético-legais e dois docentes lotados no Departamento de Odon-
da não-utilização do consentimento informado (Grá- tologia da UEPG. Frise-se que 17 (dezessete) docentes
fico 2). Observou-se que 16 profissionais (67%) disse- não responderam (40,47%) ao questionário. Em con-
ram ter consciência de tais implicações, enquanto 8 formidade com nosso índice de respostas aos questio-
deles (33%) disseram não ter. Abordando-se a questão nários, ousamos declinar a idéia de que os elementos
do Princípio da Autonomia do Paciente como um dos típicos selecionados não demonstraram, na sua tota-
três grandes referenciais da Deontologia, foi pergun- lidade, interesse pela temática exposta, muito embora
tado se isso era de seu conhecimento. Foram 6 as res- essa afete a todos os docentes; docentes esses na faixa
postas positivas a essa questão, ou seja, 25% da amos- etária entre 30 e 49 anos (70,7% da amostra), com

16 Revista da ABENO • 6(1):11-9


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

discreta predominância do gênero masculino (54%), termo de consentimento informado, mas também sa-
a maioria lecionando há 11-20 anos na Instituição ber elaborar um termo de consentimento informa-
(62,4%), responsáveis por disciplina (58,3%) e com do.
formação acadêmica em nível stricto sensu (92%). Ain- Além dos dados já apontados, 33% dos docentes
da no que respeita à formação acadêmica do docente responderam não ter consciência das implicações éti-
verificou-se uma eqüidade entre mestres e doutores. co-legais da não-utilização do consentimento informa-
A literatura compulsada aponta a importância do do. Isso poderia vir a ser um indicador da necessária
conhecimento e da utilização do consentimento livre reciclagem docente, pois este ao desconhecer tais im-
e esclarecido do paciente no exercício da prática clí- plicações poderá comprometer a prática docente.
nica Médica e Odontológica2,4,5,6,7,9,10,12,14,16,17,20, impor- Ainda tendo por escopo tais implicações, a literatura
tância essa asseverada por 95,8% dos docentes que compulsada é vigorosa1,3,5,7,19. Ademais, projetos de
compuseram a amostra. No entanto, pôde-se observar pesquisa são enviados à Comissão Nacional de Ética
que esses mesmos docentes, de forma contraditória, em Pesquisa (CONEP) sem atenderem às exigências
pouco assinalaram o item “consentimento livre e es- da Resolução 196/966,12.
clarecido do paciente ou responsável” como elemen- Deve-se também atentar seriamente para o proble-
to componente do prontuário odontológico empre- ma do desconhecimento que envolve o Princípio da
gado na disciplina. Constituindo a documentação Autonomia do Paciente e a sua importância como
odontológica o meio de prova para a comprovação do característica expressiva no Consentimento Informa-
cumprimento da obrigação pelo cirurgião-dentista, e, do13. Do conjunto de respostas às indagações sobre
sendo essa o espelho dos procedimentos realizados, conhecer e colocar em prática o Princípio da Autono-
nossos resultados sobre os itens que comporiam o mia resultou que, apenas seis (25%) dos profissionais
prontuário odontológico empregado na disciplina questionados conheciam esse princípio e, desses seis,
revelaram a contradição, pois esses mesmos docentes somente três (12,5%) o colocariam em prática. Sendo
demonstraram atenção a anamnese (83,3%), ao plano o Princípio da Autonomia uma das características im-
de tratamento (79,1%), ao histórico clínico (75%) e portantes do consentimento informado13, indicador
à qualificação do paciente (70,8%), dentre outros, da capacidade de autodeterminação18 e de manifesta-
enquanto tão-somente 29,1% do universo responden- ção decisória (complexa questão ética imposta ao
te assinalou “consentimento livre e esclarecido do profissional de saúde16), esses resultados revelaram
paciente ou responsável”. Procedimentos clínicos de- um desconhecimento que evidencia, infelizmente,
vem ser previamente consentidos7,10,16. ausência do comprometimento docente para com os
Antes de estabelecermos outros paralelos com a referenciais deontológicos. Como repercussão, espe-
literatura, gostaríamos de tecer alguns comentários ra-se que esse mesmo docente desperte para o conhe-
sobre os resultados provenientes dos questionamen- cimento, a conscientização e atitude própria em rela-
tos: “Sabe o que é termo de consentimento informa- ção ao emprego do consentimento informado,
do?” e “Sabe elaborar um termo de consentimento respeitando a autonomia do paciente, não somente
informado?”. Inicialmente, pudemos observar que nas disciplinas clínicas, mas também na vida profissio-
95,8% do total da amostra sabe o que é termo de con- nal.
sentimento informado. No entanto, quanto a saber
elaborar um termo de consentimento informado, CONCLUSÕES
58,3% responderam sim. Desse resultado extrai-se que Analisando e discutindo os resultados, ousamos
41,7% dos docentes não saberiam elaborar tal termo. declinar:
Nesse aspecto, parte dos profissionais da nossa amos- • O docente que compôs a amostra apresenta o se-
tra poderia estar exposta a situações extremamente guinte perfil: 70,7% está nas faixas etárias entre
desfavoráveis7,10,16. Isso também poderia acarretar sé- 30-39 anos e 40-49 anos; é do gênero masculino
rias conseqüências para um profissional, pois esse (54%); é doutor (50%), mestre (42%) ou especia-
documento é de fundamental importância, tanto por lista (8%); leciona na Instituição há 11-20 anos
constituir defesa do paciente e prova do médico/ci- (62,4%) e é responsável por disciplina (58,3%).
rurgião-dentista, bem como por constituir parte de • Dos itens a compor o prontuário odontológico
um sistema de investigação médica/odontológica7. empregado na disciplina destacam-se: anamnese
Ademais, em vista dessa questão, como ficaria a práti- (83,3%); plano de tratamento (79,1%); histórico
ca docente? Não bastaria tão-somente saber o que é clínico (75%) e qualificação do paciente (70,8%).

Revista da ABENO • 6(1):11-9 17


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

Apenas 29,1% empregariam o consentimento li- knowledge and understanding regarding the In-
vre e esclarecido do paciente ou responsável. formed Consent Term, though his/her attitude was
• Da amostra, 95,8% dos respondentes sabem o que compromised as the Principle of Autonomy was not
é termo de consentimento informado e têm co- fully put into practice.
nhecimento da importância da sua utilização.
• Contrariamente, 41,7% responderam que não sa- DESCRIPTORS
beriam elaborar um termo de consentimento in- Personal autonomy. Bioethics. Informed consent.
formado. Ethics, dental. Liability, legal. §
• Somente 25% dos docentes conhecem o Princípio
da Autonomia. Desses, apenas 12,5% colocam em REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
prática tal Princípio. 1. Brasil. Código Penal Brasileiro. São Paulo: Saraiva; 1986.
• O desconhecimento do Princípio Ético da Auto- 2. Brasil. Constituição Federal. 5a ed. São Paulo: Revista dos Tri-
nomia por parte do docente poderá comprometer bunais; 2000.
os referenciais deontológicos, além de constituir 3. Brasil. Novo Código Civil Brasileiro, Lei no 10.406. Brasília:
uma ausência no incentivo e na demonstração ao Editora Nacional; 2002.
discente quando do não embasamento da propos- 4. Clotet J. Direitos Humanos e Biomedicina. Cadernos de Ética
ta de terapêutica clínica em diálogo franco, argu- em Pesquisa 2000;3(4):28.
mentos sólidos e respeito ao ser humano. 5. Conselho Federal de Odontologia. Código de ética odontoló-
gica. Resolução nº 42, de 20 de maio de 2003. Rio de Janeiro:
ABSTRACT CFO; 2003.
Knowledge, understanding and attitude of the 6. Conselho Nacional de Saúde. Resolução 196/96, de 10 de ou-
professor in relation to the informed consent and tubro de 1996. DOU; 1996. p. 21082-5.
autonomy of the patient 7. Farah EE, Ferraro L. Como prevenir problemas com os pacien-
One fundamental problem in the relationship be- tes - responsabilidade civil: para dentistas, médicos e profissio-
tween professional and patient is the decision-making nais da saúde. 3a ed. São Paulo: Quest; 2000.
process, principally when it comes to the diagnostic 8. Francisconi CF, Goldim JR. Aspectos Bioéticos da Confidencia-
and therapeutic procedures that will be applied. Ob- lidade e Privacidade. In: Costa SIF, Oselka G, Garrafa V, coor-
taining the patient’s informed consent before any denadores. Iniciação à bioética. Brasília: Conselho Federal de
procedure is carried out is a requirement that should Medicina; 1998; p. 269-84.
be observed. In accordance with the principle of au- 9. Garrafa V. Manipulação da Vida. Cadernos de Ética em Pesqui-
tonomy, every person is entitled to choose what he/ sa. 1998;1(2):24-5.
she wants or does not want for himself/herself. The 10. Goldim JR. O Processo de Consentimento Informado numa
absence of the informed consent term can mean dis- Perspectiva além da Autonomia. In: Universidade do Vale do
respect to this basic right. It is therefore madatory to Itajaí. Pró-Reitoria de Pesquisa, Pós-Graduação, Extensão e
analyse the knowledge, understanding, and attitude Cultura. Comissão de Ética em Pesquisa. II Seminário sobre
of the professor regarding the use of the informed Ética em Pesquisa; 2004. p. 19-36.
consent term and the patient’s autonomy in the clin- 11. Hossne WS. A Dignidade como Meta. Cadernos de Ética em
ical disciplines of the Dentistry Course. A question- Pesquisa 1998;1(1):12-3.
naire with 12 closed questions, type “yes” or “no”, was 12. Hossne WS. Consentimento: Livre e Esclarecido. Cadernos de
given to each of the 42 professors of the course; 24 of Ética em Pesquisa 2002;5(10):3.
them answered it. The percentile analysis of the an- 13. Junges JR. Ética e Consentimento Informado. Cadernos de
swers demonstrated that 95.8% knew what the in- Ética em Pesquisa 2000;3(4):22-5.
formed consent term is and were aware of the impor- 14. Lovisi GM, Lima LA, Morgado AF. Limitação do consentimen-
tance of its use. To the question “Would you know how to informado em psiquiatria. Informação Psiquiátrica
to write an informed consent term?”, 58.3% of the 1997;16(3):98-101.
sample answered yes. The answers also showed that 15. Marchi MM, Sztajn R. Autonomia e heteronomia na relação
67% of the interviewees were aware of the ethical-legal entre profissional de saúde e usuário dos serviços de saúde.
implications of not using the informed consent term. Bioética 1998;6(1):39-45.
However, only 25% of the them knew the Principle of 16. Munhoz DR, Fortes PAC. O princípio da autonomia e o con-
Autonomy, and only half of these (12.5%) practiced sentimento livre e esclarecido. In: Costa SIF, Oselka G, Garrafa
it. The average professor of the course demonstrated V, coordenadores. Iniciação à bioética. Brasília: Conselho Fe-

18 Revista da ABENO • 6(1):11-9


Conhecimento, conscientização e atitude do docente no que respeita ao consentimento informado e à autonomia
do paciente • Nunes DS, Fernandes F

deral de Medicina; 1998. p. 53-70. ciente 2002 [acesso em 24 out 2002]. Disponível em: URL:
17. Sawaia BB. Ética nas Ciências Humanas. Cadernos de Ética em http://www.dhnet.org.br.
Pesquisa 2000;3(4):14-6. 20. Sousa LCS. Direito à Verdade e o Código de Ética Médica. O
18. Schramm FR. Respeito à autonomia. Cadernos de Ética em Mundo da Saúde 2004;28(3):266-76.
Pesquisa; 1999;2(3):16-9.
19. Sociedade Catarinense de Direitos Humanos. Direitos do Pa- Aceito para publicação em 11/2005

Proponha, discuta,
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Ensino Odontológico
ABENO tem como OBJETIVOS:
Congregar todas as instituições de ensino odontológico no Brasil

Atuar objetivando a melhoria do ensino odontológico no País

Adotar medidas que objetivem a formação e o aperfeiçoamento


do pessoal docente e dos profissionais de Odontologia

Estimular as atividades de pesquisa na ciência odontológica

Incentivar as atividades de extensão e de educação em Saúde


junto às comunidades

Defender os interesses das instituições de ensino que a integram

Constituir-se fator de integração entre o ensino e a cultura nacional

Manter relações com as entidades representativas da categoria odontológica

Manter intercâmbio com entidades estrangeiras representativas da docência odontológica

Filiação e mais informações no site: www.abeno.org.br/novo_socio.html

Revista da ABENO • 6(1):11-9 1


A leitura e a formação humanística do
estudante de odontologia: processos
em construção†
A leitura atua como um eixo interdisciplinar, devido à sua
natureza integradora de saberes e constitutiva da construção
de novos conhecimentos.
Jurema Nogueira Mendes Rangel*

* Mestre em Educação. E-mail: jurema@ajato.com.br.

Resumo abordagem interativa de leitura9. Ao ler qualquer tipo


Este artigo tem como objetivo traçar os percursos de texto, o leitor coloca em ação um sistema de valores,
dos estudantes do 1º período do curso de odontologia crenças e atitudes constituídos em diálogo com o gru-
em relação à leitura, focalizando os atos de leitura po social, instituindo práticas de leitura que confor-
presentes na vida universitária que podem colaborar mam e contrastam as formas de ler.
para a formação humanística do odontólogo. Consi- Assim, eventos como o Congresso de Leitura do
derando as contribuições da história cultural, buscou- Brasil (COLE) e o Encontro Nacional de Didática e
se entender: “Como esses alunos estabelecem os pri- Prática de Ensino (ENDIPE) têm sido palco da apre-
meiros contatos com os objetos de leitura que o sentação de pesquisas sobre as práticas de leituras
ensino superior coloca em circulação?”. É um estudo adotadas pelos estudantes. Porém, a maioria está vol-
exploratório, produto de uma pesquisa-ação, junto a tada para o ensino básico, principalmente o ensino
70 alunos da Universidade Estácio de Sá, no Rio de fundamental. Poucos são os estudos sobre como se
Janeiro. Para a coleta de dados, aplicou-se um ques- processa a leitura empreendida pelos alunos do ensi-
tionário com 12 perguntas, sendo 3 abertas. Os resul- no superior. Quando realizados, há forte interesse na
tados apontam diferentes trajetórias de leitura em área de humanas, em especial pelos cursos de letras13
formação. Conclui-se que a formação do leitor crítico e pedagogia4,5,8,11, visto que os profissionais provenien-
deve ser um compromisso do docente universitário. tes desses cursos deverão atuar como formadores de
outros leitores. Os estudos apontam a necessidade de
Descritores se criar uma pedagogia de leitura na universidade por
Educação em odontologia. Leitura. Compreensão meio de uma orientação teórico-metodológica que
de leitura. favoreça aos estudantes uma leitura proveitosa e refle-
xiva. Mas como isso se dá junto aos alunos das demais

E ste estudo tem como objetivo traçar os percursos


dos estudantes de odontologia em relação à lei-
tura, focalizando os atos de leitura presentes na sua
áreas, cuja preocupação com essa formação não é tão
evidente? Como são constituídos esses alunos-leito-
res? Quais são as práticas de leitura dos estudantes de
vida universitária. Há muito defendo que a leitura é odontologia favorecedoras da leitura de mundo, ten-
fundamental para a formação de qualquer universitá- do em vista a formação de um profissional engajado
rio14,15, pois favorece o entendimento do mundo numa em problemáticas sociais e culturais, atuando no sen-
perspectiva crítica e interdisciplinar, como propõe a tido de buscar soluções para elas?

† Este artigo é baseado no trabalho “A leitura do estudante de odontologia: trajetórias em formação”, apresentado no 15º COLE, no IV Se-
minário sobre Leitura e Produção no Ensino Superior, realizado na Universidade Estadual de Campinas (SP), de 5 a 8 de julho de 2005.

20 Revista da ABENO • 6(1):20-7


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

O estudo aqui apresentado está organizado em do cotidiano.


três seções: a primeira refere-se ao papel da leitura na Assim, a formação crítica e humanizadora supõe
universidade e, em particular, no curso de odontolo- um sujeito que pense por conta própria, ou melhor,
gia. Para tanto, faz-se uso, principalmente, das contri- seja autor de suas idéias. O pensar exige o repensar,
buições da história cultural que destaca o modo como o rever, o indagar, o transgredir o conhecimento já
os estudantes interagem e convivem com os objetos construído para que se possa propor, reafirmar, ino-
da cultura letrada que alinhavam os contornos do lei- var, transformar a realidade.
tor. A segunda apresenta os resultados do levantamen- Nessa ótica, tem-se como princípio que ler é pen-
to de uma pesquisa-ação realizada no curso de odon- sar, pois coloca em jogo a imaginação e a realidade,
tologia da Universidade Estácio de Sá, junto aos alunos as interdependências, as relações entre os sujeitos,
do 1º Período (2004.1), sobre seus percursos de leitu- moldadas pelo poder, o possível e a utopia. A leitura
ra. E, em seguida, apresentam-se as considerações fi- requer um processo de construção de sentidos cuja
nais sobre os processos de leitura apontados pelos dimensão abrange as formas de representação, a prá-
estudantes que podem contribuir para a formação tica e a apropriação, configuradas historicamente7,9.
humanística do odontólogo. Ler um texto ou decifrar um sistema de pensamento
consiste em considerar, ao mesmo tempo, a linha dia-
O lugar da leitura no curso de crônica em que se estabelece a relação do texto ou de
odontologia um sistema de pensamento com as manifestações já
Desde a promulgação da LDB 9.394/96, reforça-se existentes, e a linha sincrônica, que permite relações
a universidade como um espaço para a formação pro- do conteúdo em pauta com os de outras áreas de uma
fissional que deve reunir o desenvolvimento de ações cultura7.
educativas relativas à busca de informações, ao apri- Entendida dessa forma, a leitura atua como um
moramento e uso das tecnologias, à construção e co- eixo interdisciplinar, devido à sua natureza integra-
municação do conhecimento. dora de saberes e constitutiva da construção de novos
Na esteira das propostas feitas no documento, os conhecimentos. Logo, cabe à universidade aprimorar
cursos de odontologia vêm sofrendo mudanças signi- as competências de leitura que o aluno traz ao ingres-
ficativas em seu projeto pedagógico introduzidas pelas sar na instituição, com vistas a possibilitar outras lei-
Diretrizes Curriculares dos Cursos de Graduação da turas de mundo4,14. Nas palavras de Almeida Filho1
Saúde2. Entre os vários aspectos destacados pela Lei, (2005), a experiência de linguagem fortalece os sen-
o compromisso com a saúde, com a ética e com a tidos de humanização, da cultura brasileira e da cida-
atuação filiada à transformação social é fundamental dania planetária ética e consciente dos graduandos.
para responder a uma proposta humanizadora de Nessa linha, os aportes de Chartier7 (1991) sobre
educação odontológica12. Evidenciam-se, nesses docu- o livro, o texto e as práticas de leitura anunciam a
mentos, não apenas a intenção de cuidar da doença, existência de diferentes formas de se apropriar do
mas a busca por uma direção da formação do cirur- texto. Não se lê um texto da mesma forma, nem igual
gião-dentista que contemple a promoção da saúde à leitura feita por outro como pensava o estruturalis-
bucal, o que requer uma mudança substancial nos mo que influenciou e ainda influencia o ensino da
currículos vigentes. A ênfase tecnicista, ancorada no leitura. Nela, o texto é considerado um instrumento
paradigma racionalista, que perdurou durante muito de comunicação, em que a subjetividade não encontra
tempo na formação dos odontólogos é, hoje, acom- espaço. Porém, Kleiman9 (1993) e Chartier7 (1991)
panhada pela preocupação de inserir esse profissional têm mostrado que as experiências individuais, em di-
na perspectiva de uma ação para a transformação so- álogo com as representações dos diferentes grupos
cial, atendendo às demandas do Sistema Único de sociais, formam um todo que impulsiona, determina,
Saúde (SUS). desenha as práticas de leitura valorizadas pela socie-
Um dos caminhos propostos para atingir essa meta dade em detrimento de outras consideradas como
está indicado nas Diretrizes, em seu art. 4º, inciso III, menores pelos grupos hegemônicos. Ler um livro tido
que destaca a habilidade da leitura e escrita em relação como um clássico é mais valorizado que ler, regular-
à competência da comunicação. Cada vez mais, a con- mente, as revistas semanais que fazem circular as no-
temporaneidade exige que o sujeito saiba resolver tícias econômicas e políticas, por exemplo. As tensões
problemas e apresente uma capacidade de abstração existentes, permeadas pelos interesses dominantes,
que lhe permita desvendar as situações que emergem estabelecem formas de apropriação de textos, gestos

Revista da ABENO • 6(1):20-7 21


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

e modos de ler que alimentam as trajetórias de leitura tes.


do sujeito e acabam confluindo para que o leitor es- Da mesma forma, Carvalho et al.5 (2004) revelam
tabeleça um certo capital cultural. Os estudos ligados que as alunas do 5º período do Curso de Pedagogia
à história cultural, desenvolvidos por Chartier7 (1991), têm uma história de leitura que permeia as práticas
ajudam a entender que a leitura está submetida às de ler das quais fazem uso na graduação. Durante o
mesmas regras de outras práticas culturais e, por estar curso, as alunas demonstram ter adquirido uma certa
vinculada primordialmente à sistematização escolar, autonomia, aprendendo a lidar com as múltiplas e
age como um diferencial entre os sujeitos. As experi- fragmentadas leituras que lhes são propostas, desen-
ências individuais de leitura estão inscritas no interior volvendo uma didática da leitura própria. Distinguem
de modelos e de normas socialmente compartilha- a leitura que pode ser feita de uma forma superficial
das. daquela para fins de estudo.
Esses pensamentos devem ser considerados ao se Sem dúvida, o universo referencial próprio da aca-
refletir como se dá o processo de leitura na universi- demia3,4 mostra o quanto ainda é necessário se cami-
dade, se se quer colocar em prática o que é proposto nhar para que a leitura, na universidade, seja encara-
nas Diretrizes com vistas à formação do profissional da como uma atividade intelectual importante na
em odontologia que, entre outras competências, deve formação profissional. O aluno que entra na univer-
ser capaz de pensar criticamente, aprender continu- sidade precisa submeter-se a eventos de letramento
amente, planejar estratégias para mudanças significa- característicos desse espaço de formação, visto que
tivas, como explicitado no artigo 4º. precisará ultrapassar a reprodução de conhecimen-
No entanto, acredito que essas competências se tos, os comentários dos autores e mesmo a seleção de
fazem ao longo de um percurso acadêmico que envol- trechos copiados para constituir um pensamento pró-
ve, também, o desenvolvimento da leitura e escrita na prio sobre a inserção da ciência odontológica na so-
universidade e que, na maioria das vezes, nos cursos ciedade em que vive.
ligados à área de saúde, é tratado com descaso. Daí, Assim, formar o cirurgião-dentista, na perspectiva
instala-se um paradoxo, pois, ao mesmo tempo que se humanista, implica entender, antes, os processos que
quer um aluno que compreenda os textos acadêmicos, envolvem a construção do conhecimento e, dentre
não há uma preocupação com os processos de leitura eles, a leitura, pois é fundamental compreender “[...]
que os alunos adotam. Por isso é comum ouvir, em o modo como os estudantes interagem e convivem
reuniões e na sala dos professores, que os alunos apre- com os objetos da cultura letrada, em particular com
sentam dificuldades em compreender os textos. Atri- as formas de produção do conhecimento formal”,
bui-se ao estudante “a falta” de habilidades frente às como destaca Britto3 (2003).
diferentes leituras. Os professores não levam em con-
ta as várias formas de apropriação do texto, os tipos A leitura dos estudantes de
de textos colocados em circulação, os diferentes pro- odontologia: processos em
tocolos de leitura que se relacionam diretamente “às formação
oportunidades objetivas da escrita que tiveram os di- O estudo tem caráter exploratório, com contornos
ferentes grupos de estudantes que chegam à univer- de uma pesquisa-ação e circunscrito a 70 estudantes
sidade, isto é, o tipo de letramento, aí incluídos os calouros do curso de odontologia, sendo 45 freqüen-
vínculos sociais e as disponibilidades culturais”7. tadores do campus localizado na zona oeste e 25 ma-
Assim, a pesquisa de Leite, Oliveira11 (2004) é es- triculados no campus da zona norte da cidade do Rio
clarecedora, quando se refere aos eventos de leitura de Janeiro; os estudantes eram, em sua maioria, pro-
planejados dentro das disciplinas pelos professores venientes de um grupo social privilegiado, com idade
universitários do curso de pedagogia, intra ou extra- entre 18 e 23 anos, em média.
classe, e às experiências vividas pelos estudantes. A Para a coleta de dados, aplicou-se um questionário
leitura científica tem na figura docente o mediador com 12 perguntas, sendo 3 abertas. Usou-se o horário
necessário para estruturar e orientar a discussão de da aula da disciplina de metodologia científica lecio-
textos, promovendo o envolvimento do aluno. O es- nada por mim para o preenchimento do questionário,
tudo demonstra que essa mediação é transpassada para o qual não foi solicitada a identificação, visando
pelo entendimento do professor sobre leitura, e as deixar o aluno à vontade para responder. No entanto,
ações que este desencadeia em sala de aula constitui- dos 70 respondentes, 45 se identificaram.
rão os eventos de letramento vividos pelos estudan- Os dados quanti-qualitativos foram organizados

22 Revista da ABENO • 6(1):20-7


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

em categorias e apresentados nas partes que seguem. há uma “leitura paralela”, não obrigatória, que atende
Nessa linha, pretende-se não apenas traçar um pano- aos interesses pessoais e caminha junto com a leitura
rama descritivo de aspectos importantes para o enten- acadêmica, a leitura de estudo.
dimento do problema, como propõem Richardson et Considera-se que algumas práticas de leitura pos-
al.16 (1985), mas também buscar compreender a na- sivelmente estejam interiorizadas pelos estudantes,
tureza do fenômeno, diante da complexidade que o pois, por pertencerem a um grupo social que tem
processo de ler assume nos diferentes grupos sociais, acesso a livrarias, bibliotecas, que possui condições de
possibilitando o entendimento de particularidades do adquirir livros e formar o seu próprio acervo, o livro
comportamento dos estudantes. Para a análise dos ocupa lugar de destaque nas leituras de preferência.
dados quantitativos, utilizou-se o programa Microsoft Embora haja um interesse maior por romance e auto-
Excel 2002. Os aspectos qualitativos retratam os mi- ajuda, vê-se uma pulverização dos demais gêneros. O
croprocessos instituídos nas interfaces dos sujeitos panorama encontrado revela que a experiência de
com seus pares. leitura se faz alicerçada na diversidade de objetos im-
pressos, se considerada a presença significativa de
A leitura fora da universidade periódicos.
A preocupação inicial do estudo está vinculada às Embora o livro seja um dos suportes de leitura dos
ações de ler das quais os alunos fazem uso no seu estudantes, quando solicitado que identificassem o
cotidiano. Embora o estudo não tenha se detido sobre último livro lido e seu autor, 41 alunos não responde-
a formação inicial do leitor, anterior à entrada na uni- ram. Apenas 30 nomearam a última leitura realizada,
versidade, sabe-se que essa fase é fundamental para sendo que alguns mencionaram apenas o título da
compreender os modos de ler incorporados pelo alu- obra ou o autor. A proliferação das leituras devido ao
nado, o que será abordado em outra etapa da pesqui- fomento das atividades gráficas e a profusão de textos
sa. que assolam os dias atuais, tão bem estampados nas
Carvalho4 (2002) e Carvalho et al.5 (2004), ao ana- bancas de jornais e nas prateleiras das livrarias e que
lisarem a leitura dos textos acadêmicos pelas alunas chegam às mãos dos alunos6, podem contribuir para
do curso de pedagogia de uma universidade pública, uma asfixia de leituras, pouco ficando na memória. A
mostram que a leitura na universidade é um campo não lembrança desses dados pode também estar atre-
de tensões entre o ponto de vista do aluno e o dos lada ao sentido atribuído às leituras realizadas.
docentes: estes esperam que os estudantes possuam Dentre as obras mencionadas, estão “Harry Pot-
certa capacidade de interpretação dos gêneros textu- ter”, “O senhor dos anéis”, “Carandiru”, sucessos de
ais próprios do ensino superior e aqueles apresentam vendas no mercado, conjugadas ao lançamento de
preferências literárias específicas, nem sempre reco- filmes das produtoras cinematográficas. Outras, como
nhecidas como válidas pela academia. “Dom Casmurro”, “Senhora”, “Iracema”, “O santo e a
Se se pensar que a experiência de leitura, nas pa- porca” e “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, podem
lavras de Larossa10 (2001), quando envolve o ensinar estar relacionadas às leituras realizadas nas escolas de
e aprender, implica a relação de cada um consigo ensino médio, onde é comum o uso de obras literárias
mesmo e com os outros, vê-se que a leitura coloca em que alimentam as provas do vestibular.
jogo uma série de movimentos que vão além da sim- No conjunto, há forte predominância de jornais e
ples decodificação das informações que um texto con- revistas semanais. Ambos instituem uma forma de ler
tém. diferente daquela promovida pela leitura dos livros.
Nesse sentido, 80% dos alunos parecem conside- Os alunos dizem ler os jornais de grande circulação
rar essas experiências para se reconhecerem leitores. na cidade, sendo os de maior preferência “O Globo”
Os alunos demonstram ser leitores de uma gama am- e “Jornal do Brasil”, seguidos de “O Dia” e “Extra”.
pla de impressos como: livros de auto-ajuda (14), au- Apenas 2 alunos mencionaram fazer a leitura de jornal
tobiografia (4), ficção científica (8), história em qua- “on-line”, uma modalidade de leitura que permite o
drinhos (10), jornais (42), livros religiosos (8), poesias acesso imediato à informação em tempo real, sinali-
(9), policial (8), revistas semanais (34), romance (18), zando a inserção do texto eletrônico como uma prá-
entre outros que não se restringem às solicitações aca- tica de leitura do mundo contemporâneo que inau-
dêmicas, à semelhança dos dados encontrados por gura um novo protocolo de leitura6.
Carvalho4 (2002), Carvalho et al.5 (2004), Correa8 As revistas semanais desenham um repertório di-
(1999) e Ramires13 (2002). Esses autores mostram que versificado, abrangendo revistas como “Veja”, “Isto é”,

Revista da ABENO • 6(1):20-7 23


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

“Época”, seguidas por “Caras”, “Superinteressante”, tes. Outros espaços são apontados: praia, varanda,
“Boa Forma”, “Criativa”, “Capricho”, “Contigo”, “4 biblioteca ou “qualquer lugar cômodo e com luz boa”,
Rodas”, “Playboy”, entre outras. Estas últimas apresen- demonstrando que os espaços socializados e/ou pú-
tam temas de interesse da faixa etária dos estudantes: blicos inventam maneiras de ler, mudam gestos e ob-
notícias de artistas, cuidados com o corpo, roteiro de jetos lidos. A leitura é menos atenta, mais rápida e
viagens, moda, esportes radicais, etc. De modo geral, descompromissada, mistura-se com a diversão e o la-
são textos leves, de leitura rápida e linguagem direta zer. Pode ser uma leitura descontínua, salteada, que
e fácil, diferentemente das primeiras que fazem circu- não se incomoda com possíveis interrupções.
lar reportagens vinculadas aos aspectos políticos e
econômicos, por exemplo. A leitura na universidade
Essa diversificação dos objetos de leitura reforça a Os alunos, ao ingressarem na universidade, come-
idéia de que o estudante lança mão de um tipo de çam a ter contato com leituras mais densas que cons-
leitura que não corresponde ao cânone escolar que tituem o corpo teórico de cada disciplina. A leitura
comumente define a leitura legítima. O problema não científica passa a ocupar um lugar importante visto
está nesse tipo de leitura em si, diz Chartier6 (1999), ser encarada como a leitura de estudo, específica da
pois cabe ao professor reconhecer a força dessas lei- área de formação escolhida. A qualidade dos textos,
turas que apontam “[...] práticas incontroladas e dis- as exigências e cobranças dos docentes, a leitura como
seminadas a fim de que possa conduzir esses leitores, tarefa5 modificam a aproximação do estudante com o
pela escola, [e orientar], sem dúvida, por múltiplas texto escrito, inaugurando experiências diferentes
outras vias, a encontrar outras leituras”. das que realiza usualmente.
A Tabela 1 ilustra a freqüência de leitura desses Além de mobilizar estratégias de leitura específicas
materiais. para compreender o texto5,9, espera-se que o aluno
Vê-se a predominância dos periódicos em compa- faça uso da bibliografia para complementar as anota-
ração com a leitura de literatura em geral (que englo- ções de sala de aula, para estudar e rever conceitos
ba contos, ficção, romances, poesias etc.) e de livros debatidos em sala, para buscar o diálogo com outros
acadêmicos, que objetivam proporcionar conheci- textos e autores sobre um determinado assunto, o que
mentos científicos ou técnicos. De modo geral, a lei- foi confirmado apenas por 17 alunos. A maioria pare-
tura dia a dia não é comum, independentemente do ce não ter o hábito de consultar as fontes indicadas
tipo de texto. A leitura de livros acadêmicos também pelo professor, fazendo desse tipo de leitura um ato
é esporádica. esporádico (39 alunos) ou mesmo inexistente (4 alu-
A motivação, a leitura em voz alta ou silenciosa, a nos) (Tabela 1). Esse procedimento contribui para
leitura socializada são indicativos de que a apropria- que o aluno diminua a possibilidade de dialogar com
ção da leitura se dá por práticas diferenciadas. Ler em o autor, pois, como alerta Larossa10 (2001): “[...] o
casa é a preferência de 40 alunos, que elegem o quar- importante não é o que nós saibamos do texto, o que
to (20 alunos) como o local de leitura mais usual, nós pensemos sobre o texto, mas o que – com o texto
indicando que o isolamento e a privacidade são carac- ou contra o texto ou a partir do texto – nós sejamos
terísticas presentes, incorporadas historicamente pela capazes de pensar”.
prática da leitura extensiva7. A sala e o ônibus são os Os dados revelam que, ao serem convocados a
locais escolhidos para ler, igualmente, por 8 estudan- identificar um livro acadêmico lido recentemente e a

Tabela 1- Frequência de leitura/número de alunos.

Freqüência Jornais Revistas Literatura Livros acadêmicos


Todos os dias 36 1 4 2
1 vez/semana 21 24 3 6
Mais de 1 vez/semana 21 19 7 17
Às vezes 13 20 25 23
Raramente 9 4 22 16
Nunca - 2 6 4
Em branco - - 3 2

24 Revista da ABENO • 6(1):20-7


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

autoria da obra, no período letivo em curso, o com- der a essa demanda, posto que é possível que cada
portamento visto em relação às leituras de livre esco- disciplina solicite leituras a cada aula. Mesmo assim,
lha se repete. Apenas 8 alunos conseguiram fornecer apenas 29% dos alunos costumam fazer a leitura dos
a informação completa, indicando apenas uma fonte. textos solicitados pelo professor.
Vinte e oito alunos citaram o título da obra ou o autor Tendo em vista que a maioria dos alunos não exer-
e, muitas vezes, o nome da disciplina que solicitou a ce atividade remunerada, depreende-se que há dis­
leitura e não a obra. A maioria (34 alunos) não con- ponibilidade de tempo para a execução das leituras
seguiu indicar um livro acadêmico lido recentemente solicitadas, o que sugere uma investigação mais cuida-
e seu respectivo autor. Para confrontar as respostas dosa sobre o não cumprimento dessa tarefa.
dos estudantes, foi feito um levantamento junto à bi- No andamento do curso, supõe-se que o estudan-
bliotecária do campus que confirmou a existência de te inicie a formação de um acervo pessoal sobre odon-
informações trocadas, títulos de livros incompletos e tologia e outras áreas que se interligam para sua pro-
pequenos equívocos sobre a identificação da autoria. fissionalização. Embora recém-ingressados, 21 alunos
Das indicações fornecidas, mesmo incompletas, a área dizem que costumam adquirir os livros indicados pelo
de Biologia Molecular se destaca. professor no programa da disciplina. Tendo em vista
Quanto à leitura de textos indicados no programa que as obras acadêmicas da área da odontologia têm
das disciplinas, necessária para acompanhar o conte- custo elevado, devido à inclusão de muitas imagens
údo discutido em sala e colaborar para a ampliação ilustrativas, esse dado é significativo. Por outro lado,
dos debates, 49% dos estudantes não mantêm uma 32 alunos dizem que, às vezes, adotam esse procedi-
sistemática regular de leitura. Apenas 29% da turma mento e o restante, raramente ou nunca, costuma
costuma realizar as leituras solicitadas; 19%, raramen- adquirir algum livro, à semelhança dos resultados en-
te; e 3% nunca lê os textos solicitados. contrados por Carvalho4 (2002), que confirma ser
Entendo que, sem o preparo prévio necessário, os privilégio de poucos a compra de livros para a forma-
alunos comprometem o nível de participação nas au- ção de uma biblioteca mínima.
las e acabam se colocando no lugar de espectador do Em relação ao uso da biblioteca, dos 70 alunos
tema abordado pelo professor, deixando pouco espa- investigados, apenas 7 dizem que raramente ou nunca
ço para uma postura interativa. Na maioria das vezes, utilizam o acervo da biblioteca do campus. Vinte e nove
as aulas expositivas tomam o espaço da problematiza- alunos freqüentam sempre o espaço e 34, às vezes. A
ção provocada pela leitura, propiciando um afasta- possibilidade de encontrar a informação desejada na
mento da perspectiva de aprendizagem que pressu- biblioteca é atestada por 17 alunos e 26 dizem nem
põe um aluno ativo. Ao que parece, há a promoção sempre encontrar o que procuram. Poucos alunos
de atos mínimos de leitura suficientes para um grupo dizem nunca ou raramente encontrar o material de-
significativo de alunos que acabam não contemplando sejado na biblioteca, o que revela o atendimento sa-
a apropriação* progressiva do discurso acadêmico sob tisfatório à demanda do curso, o que foi confirmado
a forma específica de textos científicos, propiciado junto à bibliotecária do campus. No entanto, levanta-se
pelas diferentes leituras. As leituras fundadoras neces- a hipótese sobre o pouco domínio dos estudantes das
sárias para a formação da visão crítica ainda não são formas de busca do material: uso de palavras-chave,
privilegiadas pelos estudantes. indicação da autoria etc., ainda não interiorizadas.
No intuito de investigar se a pulverização da leitu- Paralelo ao uso da biblioteca, o acesso à internet
ra poderia estar relacionada ao volume dos textos como recurso para estudo ou pesquisa é uma prática
solicitados, gerando uma sobrecarga, percebeu-se que incorporada pela maioria (70%), seguida por 27% de
mais da metade dos alunos (45) afirma ter um volume alunos que fazem uso desse recurso às vezes. Apenas
pequeno de leituras por semana (1 a 2 textos). Do 3% dos estudantes dizem raramente utilizar a internet
total, 18 estudantes apontam ter de 3 a 4 textos para para esse fim.
ler e 7 alunos indicaram ler 5 textos por semana. Le- O acesso à informação pelos meios eletrônicos
vando em conta que os alunos do 1º período cursam parece estar favorecido pela situação econômica e
4 disciplinas, o volume de leitura deveria correspon- social dos estudantes e pela facilidade de utilização da

* A noção de apropriação é aqui entendida como forma de acesso a bens, textos, idéias caracterizada por práticas que se apropriam de modos
diferentes dos materiais colocados em circulação7.

Revista da ABENO • 6(1):20-7 25


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

sala de informática disponível no campus. Lá, os alunos ciente” e “não encontrar o que procuro na biblioteca
podem agendar horários de sua conveniência para do campus”.
fazer uso do laboratório e acessar a base de dados
disponível. Embora os ganhos dessa forma de coleta CONSIDERAÇÕES FINAIS
de informações sejam inquestionáveis, é evidente que A universidade, hoje, não pode se eximir da res-
esse suporte de leitura insere novas formas de ler, pois ponsabilidade de continuar o processo de formação
ler um artigo em um banco de dados eletrônico, sem de leitor, iniciado nas séries anteriores. A formação
saber nada da revista na qual foi publicado, nem dos de um profissional humanista requer que a leitura faça
artigos que o acompanham, e ler o “mesmo” artigo parte desse processo, visto que amplia a visão da rea-
no número da revista na qual apareceu não são a mes- lidade vivida. A universidade é um espaço privilegiado
ma experiência6. para o exercício da crítica, possibilitando que o estu-
A “leitura eletrônica” possibilita recursos diferen- dante, por meio de leituras diversificadas, ressignifi-
tes para explorar o texto. A leitura em cascata, favore- que as suas ações como cidadão e futuro profissio-
cida pelo clicar do mouse em uma palavra, é um exem- nal.
plo de outra maneira de ler, inicia o leitor na leitura Os resultados encontrados espelham que a forma-
hipertextual, demandando sua participação de ma- ção do aluno crítico, delineada nas Diretrizes Curri-
neira diferente daquela da relação que estabelece com culares dos Cursos de Graduação da Saúde, tendo a
o livro. leitura como um caminho para uma postura reflexiva,
Diante da inserção maciça da busca de informa- encontra alguns percalços materializados em práticas
ções nos meios eletrônicos, cabe ressaltar que é res- que distanciam o estudante calouro de um olhar mais
ponsabilidade do docente sugerir aos estudantes sites investigativo sobre a realidade, privilegiando o lugar
de bibliotecas eletrônicas e instituições de pesquisa do aluno como receptor da visão do professor sobre
relativas à área para que as informações obtidas pos- os temas debatidos em sala, visto que as leituras pré-
sam ter a referência científica, o que não invalida a vias, importantes para acompanhar as aulas e estabe-
iniciativa de os estudantes organizarem buscas de livre lecer um diálogo com o professor, acontecem de for-
escolha. ma precária. Os alunos parecem se contentar com a
Do total, 64 estudantes apontam fazer uso da bi- exposição do professor, ficando este encarregado de
blioteca do campus, mesmo que seja para efetuarem a destacar aquilo que é fundamental para o assunto em
consulta eletrônica. Por outro lado, os alunos não têm pauta. Corre-se o risco de que, se esse processo não
o hábito de freqüentar outras bibliotecas públicas ou for revertido, os estudantes não se capacitem para um
privadas ou universitárias, nem a Biblioteca Nacional, estudo aprofundado e complexo das questões que
apresentada a eles na disciplina de metodologia cien- envolvem a odontologia, motivado pelas leituras fun-
tífica, como atividade extramuros15. damentais da área.
Embora o contato com a Biblioteca Nacional, na Além disso, o uso de fontes complementares, su-
ocasião, tenha causado impacto ao se depararem com geridas ou não pelo docente com vistas à ampliação
a grandeza e variedade do acervo e sua organização, do conhecimento tratado em sala, é uma estratégia
18 alunos não pretendem lá realizar consulta alguma, que precisa ser incentivada. A intertextualidade im-
pois alegam a distância como elemento dificultoso. plícita nas leituras propostas precisa ser ampliada para
Um número significativo de alunos (38) afirma não que se abra o leque para novas compreensões. Ler é
ter conhecido a Biblioteca Nacional antes da visita. fundamental para produzir conhecimento.
Alguns (13 alunos) conheciam o exterior do prédio, Da mesma forma, a leitura de livre escolha apre-
mas não o seu interior e 14 alunos conheciam o inte- senta contornos fluidos que precisam ser fortalecidos.
rior do prédio, mas sem ter realizado uma consulta. A entrada desse tipo de leitura na sala de aula seria
Apenas 5 alunos dizem ter consultado o acervo dessa um caminho possível, se o professor, mediador da
instituição, porém, antes de ingressarem na universi- leitura, buscasse pontos de conexão entre os temas
dade. discutidos em sala e as matérias veiculadas nos perió-
Mesmo assim, 50 alunos demonstram a intenção dicos e na literatura. Os processos de leitura aí possi-
de retornar à Biblioteca Nacional para a realização de bilitados poderiam desencadear leituras significativas,
consultas, justificando que o espaço proporciona visto que questionariam o cotidiano no qual o estu-
“uma pesquisa mais detalhada”, “acervo variado e dante está inserido, em diálogo com as leituras reco-
completo”, mas, apenas, se “a internet não for sufi- nhecidas como científicas.

26 Revista da ABENO • 6(1):20-7


A leitura e a formação humanística do estudante de odontologia: processos em construção • Rangel JNM

A prática do acesso a textos eletrônicos para fins Curso de Graduação em Odontologia. Brasília; 2002 [citado
de estudo é uma realidade que deve ser problemati- 2005 fev 10]. Disponível em: URL: http://www.portal.mec.gov.
zada e incorporada sob o viés da cientificidade, ou br/cne/arquivos/pdf.
seja, deve-se possibilitar que o aluno possa acessar as 3. Britto LPL. Leitura e escrita de estudantes universitários. In:
informações com critérios científicos, forma necessá- Britto LPL. Contra o consenso: cultura escrita, educação e par-
ria para qualquer pesquisa de informações. ticipação. Campinas: Mercado Aberto; 2003. p. 175-94.

Conclui-se que os estudantes calouros deram os 4. Carvalho M. A leitura dos futuros professores: por uma peda-

primeiros passos para a sua formação como leitores, gogia da leitura no ensino superior. 5ª ed. Rio de Janeiro: Teias;

pois começam a integrar o uso da biblioteca e a orga- 2002.

nizar um acervo pessoal. No entanto, vê-se a impor- 5. Carvalho M, Rangel JNM, Sancas R. Didática da leitura no cur-
so de pedagogia: tornar-se leitor de textos acadêmicos [CD-
tância da ação mediadora do professor na construção
ROM]. In: XII ENDIPE – Encontro Nacional de Didática e
dos movimentos formadores desses leitores que se
Prática de Ensino; 2004 ago 29 - set 01; Curitiba.
pretendem disponíveis e sensíveis para olhar a odon-
6. Chartier R. A aventura do livro: do leitor ao navegador. 1ª reim-
tologia na perspectiva da promoção da saúde.
pressão. São Paulo: EdUnesp/Imprensa Oficial do Estado;
1999.
Abstract
7. Chartier R. História cultural: entre práticas e representações.
The reading and humanistic education of the dental
Lisboa: Difel; 1991.
student: processes under construction
8. Correa CHA. Entre práticas e representações: uma incursão em
The aim of this article was to assess the behavior
alguns aspectos da leitura na universidade. In: XX Reunião da
of students of the first period of a dental course in
Associação Nacional de Pesquisa em Educação (ANPED);1999;
relation to reading, by focusing on the reading acts
Caxambu.
inherent to the university life that may add to the hu-
9. Kleiman AB. Oficina de leitura. Campinas: Pontes; 1993.
manistic education of the dentist. Taking into account
10. Larossa J. Sobre a lição. In: Larossa J. Pedagogia profana: dan-
the contributions of cultural history, an explanation
ças, piruetas e mascaradas. 4ª ed. Belo Horizonte: Autêntica;
to the following question was sought: How do these
2001. p. 139-48.
students make their first contacts with the reading 11. Leite SAS, Oliveira LR. Constituição do leitor: análise dos even-
objects presented to them by higher education? It is tos de leitura no curso de pedagogia da Unicamp. Leitura: te-
an exploratory study, the result of a research-action oria e prática 2004;22(42):19-32.
conducted with 70 students of the Estácio de Sá Uni- 12. Moysés ST, Moysés SJ, Kriger L. Humanizando a educação em
versity, Rio de Janeiro, Brazil. For the collection of Odontologia. Revista da ABENO [periódico on-line] 2003 [ci-
data, a questionnaire with 12 questions (including 3 tado 2005 fev 8]. Disponível em: URL: http://www.abeno.org.
open ones) was applied. The results reveal different br/revista/arquivos_pdf/2--3/Moys.pdf.
reading paths under formation. It was concluded that 13. Ramires V. Leitura e produção escrita de universitários. Leitu-
the trainning of a critical reader must be a commit- ra: teoria e prática 2002;20(38):37-51.
ment of the university professor. 14. Rangel JNM. A leitura na universidade: uma visão interdiscipli-
nar. Rio de Janeiro; 2005 (mimeo).
Descriptors 15. Rangel JNM. O currículo e a formação do universitário para a
Education, dental. Reading. Comprehension. § pesquisa: conhecendo o acervo da Biblioteca Nacional [CD-
ROM]. In: VI Colóquio sobre Questões Curriculares, II Coló-
Referências Bibliográficas quio Luso-Brasileiro sobre Questões Curriculares - Currículo:
1. Almeida Filho JCP. A diferença que faz uma formação univer- Pensar, inventar, diferir, 2004 ago 16-9; Rio de Janeiro. Anais.
sitária aos alunos de graduação. In: Lima RCCP, organizador. Rio de Janeiro: UERJ; 2004.
Leituras: múltiplos olhares. Campinas: Mercado de Letras/São 16. Richardson R, Peres JAS, Wanderlet JCV, Correia LM, Peres
João da Boa Vista: Unifeob; 2005. p. 97-102. MH. Métodos quantitativos e qualitativos. In: Richardson R,
2. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educa- Peres JAS, Wanderlet JCV, Correia LM, Peres MH. Pesquisa
ção. Câmara da Educação Superior. Resolução CNE/CES 3, de social: métodos e técnicas. São Paulo: Atlas; 1985. p. 29-48.
19 de fevereiro de 2002. Diretrizes Curriculares Nacionais do
Aceito para publicação em 10/2005

Revista da ABENO • 6(1):20-7 27


Planejamento estratégico de
Cursos de ACD/THD – a experiência
da Escola Técnica da Universidade
Federal do Paraná
A formação de estratégias auxilia a obtenção do sucesso no
gerenciamento não só de cursos, mas também de serviços de saúde
públicos ou privados, assegurando o desenvolvimento
e o impacto destes no meio em que se inserem.
Christian Mendez Alcantara*, Adriana Roseli Wünsch Takahashi**

* Coordenador Estadual de Saúde Bucal do Paraná. E-mail:


cmalcantara@ufpr.br.
** Economista, Professora do Curso de Técnico em Administração
da Escola Técnica da Universidade Federal do Paraná.

RESUMO ou elaboração de estratégias.


Este artigo relata a experiência de construção do A partir principalmente de 1996, intuitivamente,
planejamento estratégico nos Cursos de Auxiliar de o Colegiado do Curso adotou algumas ações para con-
Consultório Dental (ACD) e de Técnico em Higiene solidação do mesmo. As principais foram o incremen-
Dental (THD) da Escola Técnica (ET) da Universida- to da parceria com o Curso de Odontologia da mesma
de Federal do Paraná (UFPR). O planejamento de- Universidade, a implementação de estágio supervisio-
monstrou ser muito útil na elaboração e implementa- nado em conjunto com organizações públicas e pri-
ção de estratégias e na melhoria dos Cursos de ACD vadas, a criação do curso regular de Auxiliar de
e THD. Pode também auxiliar outros cursos auxilia- Consultório Dental (ACD) e do curso de aperfeiçoa-
res, técnicos e de graduação em Odontologia, além mento para ACDs.
de orientar o Cirurgião-Dentista, que tem formação A dificuldade de integração entre os Cursos de
escassa ou inexistente na área, para o gerenciamento THD e de Odontologia, apesar de estes pertencerem
de serviços de saúde bucal públicos e/ou privados. à mesma instituição, a UFPR, era causada, entre outros
motivos, pelo fato de integrarem setores distintos da
DESCRITORES universidade: o de THD integrava a Escola Técnica e
Conselhos de planejamento em saúde. Higiene o de Odontologia, o setor de saúde. A situação era
bucal/recursos humanos. Educação. agravada, pois os cursos funcionavam em sedes físicas
distintas.

O Curso de Técnico em Higiene Dental da Escola


Técnica da Universidade Federal do Paraná ini-
ciou sua atividade no ano de 1991. O Curso se desen-
A implementação do Estágio, supervisionado por
cirurgiões-dentistas, deu-se nas Unidades Básicas de
Saúde das Prefeituras de Curitiba, São José dos Pinhais
volvia com dificuldades, não havia laboratórios e clí- e Almirante Tamandaré, no Hospital Militar e em con-
nicas, as aulas práticas e estágios funcionavam de sultórios e clínicas particulares. O estágio contribui
forma insatisfatória, faltavam professores, o enfrenta- com a vivência prática e real da futura profissão e,
mento das dificuldades se dava de forma pontual e anteriormente, funcionava efetivamente como aula
reacional e não havia sistematização das dificuldades prática supervisionada por professores da institui-

28 Revista da ABENO • 6(1):28-34


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

ção. procedeu-se à formulação de estratégias que teve


O Curso Regular de ACD foi criado em 1997 pela como roteiro os itens anteriormente definidos: mis-
grande necessidade do mercado de trabalho, de clí- são, objetivos, valores, código de ética e análise do
nicas particulares e públicas, evidenciada pelo traba- ambiente.
lho de Queiroz6 (1997). O Curso de Aperfeiçoamento Para atender à estratégia de crescimento pela di-
foi implementado no ano de 2000, tendo como obje- ferenciação de qualidade, foram elaboradas quatro
tivo propiciar aprimoramento para profissionais da grandes metas, sendo elas: qualidade de ensino, in­
área já inseridos no mercado de trabalho, bem como tegração, organização curricular e divulgação. Em
possibilitar certa autonomia financeira ao Colegiado função destas, definiram-se as ações necessárias para
do Curso. O curso de aperfeiçoamento era pago a fim cada uma delas, as necessidades para efetivar tais
de que o Colegiado pudesse adquirir materiais e equi- ações, o prazo, a responsabilidade de cada necessida-
pamentos para os cursos regulares de ACD e THD de e como este trabalho seria avaliado e mensurado.
(gratuitos). Para realizar essa análise, indicadores foram escolhi-
Atualmente o Colegiado oferece os Cursos de ACD dos a fim de viabilizar a eficiência e a eficácia da ope-
(qualificação, com duração de um ano e meio) e THD racionalização do Planejamento Estratégico do Curso
(habilitação, com duração de dois anos) no turno de ACD/THD.
noturno2. As aulas práticas desenvolvem-se nos Labo- Na condução desse trabalho, utilizou-se referen-
ratórios do Curso de Odontologia e os estágios são cial teórico sobre estratégia e planejamento estratégi-
realizados nas dependências dos Hospitais Militar e co. Previamente à discussão de cada passo do trabalho,
da Polícia Militar (atenção especializada), bem como discutiram-se os conceitos e suas funções. Assim, antes
nas Unidades de Saúde das Prefeituras de Curitiba e da elaboração da missão e dos objetivos, por exemplo,
São José dos Pinhais (atenção básica). Há também analisou-se o que isso significava e qual a sua utilidade,
alunos realizando seus estágios em consultórios e clí- tendo sido analisados também exemplos de outras
nicas particulares. organizações. Para isso, utilizou-se um referencial te-
órico, cuja breve descrição será apresentada a seguir,
O PROCESSO DE ELABORAÇÃO tendo o mesmo sido elaborado principalmente com
O coordenador do curso de ACD/THD buscou o base na obra “Administração estratégica: conceitos”
apoio da então coordenadora do curso Técnico em dos autores Wright et al.7 (2000).
Administração de Empresas da Escola Técnica da
UFPR para a elaboração do planejamento estratégico. ESTRATÉGIA E PLANEJAMENTO
Esse trabalho se iniciou em novembro de 2001 e foi ESTRATÉGICO
concluído em maio de 2002, com reuniões quinzenais Para Wright et al.7 (2000, p. 24), a “administração
envolvendo todo o colegiado, sendo interrompido estratégica consiste em decisões e ações administrati-
nos períodos de férias e recesso escolar. vas que auxiliam a assegurar que a organização for-
As primeiras reuniões realizadas, de caráter mar- mule e mantenha adaptações benéficas com seu am-
cadamente teórico, serviram para a aproximação dos biente”. A definição de estratégias oferece uma linha,
membros do grupo com os conceitos de estratégia e uma conduta a ser seguida pelas organizações e, tanto
de planejamento estratégico, pois esses não possuíam por sua presença quanto por sua ausência, pode ser
conhecimentos dessa área. vital.
O projeto seguiu um roteiro iniciado pela elabo- Para os mesmos autores, a formação de estratégias
ração da missão e dos objetivos do curso – imediato, existe em três níveis organizacionais: o empresarial,
a médio prazo e a longo prazo. A seguir foram discu- cuja questão básica é determinar o setor em que a
tidos os valores comuns aos membros do colegiado empresa deve operar; o nível de unidade de negócio,
que norteariam a elaboração do código de ética do que busca saber como a empresa deve atuar para ser
colegiado. Vencida essa etapa, procedeu-se à análise competitiva em cada um de seus negócios ou setores;
dos pontos fortes e fracos do curso, considerando sua e o funcional, referente às estratégias de marketing,
inserção na organização e na sociedade, identificando finanças, produção e outros.
as oportunidades e as ameaças/restrições existentes. É importante destacar que a estratégia é conceito
Essa análise se deu no âmbito do macro-ambiente e e processo cognitivo; está baseada na mente do estra-
em nível setorial, bem como nos âmbitos externo e tegista, emergindo como reflexos da maneira como
interno da organização. Tendo realizada essa análise, ele lida com as informações a que tem acesso. As in-

Revista da ABENO • 6(1):28-34 29


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

formações extraídas da realidade objetiva são inter- Os pontos fortes e fracos internos podem ser rela-
pretadas da forma como são percebidas, levando o cionados a: recursos humanos (experiência, capaci-
sujeito a agir sobre esta realidade, ao mesmo tempo dades, conhecimentos, habilidades e julgamento de
em que é influenciado por ela, visando a obter legiti- todos os funcionários da empresa); recursos organi-
midade social1,4,5. zacionais (sistemas e processos da empresa, inclusive
Para Wright et al.7 (2000, p. 45), “estratégia refere- estratégias, estrutura, cultura, administração de com-
se a planos da alta administração para alcançar resul- pras/materiais, produção/operações, base financei-
tados consistentes com as missões e os objetivos gerais ra, pesquisa e desenvolvimento, marketing, sistemas
da organização”. Assim, a missão deve consistir na de informação e sistemas de controle); e recursos fí-
razão de existir da organização, um rumo a ser segui- sicos (instalações e equipamentos, localização geográ-
do, enquanto os objetivos gerais consistem em fins fica, acesso a matérias-primas, rede de distribuição e
gerais desejados para os quais são dirigidos os esforços; tecnologia).
esses podem ser definidos a curto, médio e longo pra-
zos. RESULTADOS
O Código de Ética refere-se a padrões de conduta O colegiado do curso de ACD/THD, baseado em
e julgamento moral (saber se as decisões e os compor- seus princípios, definiu como missão para orientar
tamentos dos membros do grupo estão certos ou er- suas metas:
rados). Há diversas perspectivas do comportamento • Formar o ACD e o THD, capacitando-os para um
ético, tema polêmico e diferentemente conceituado bom desempenho profissional, que prime pela
na literatura. Independentemente de qual comporta- competência técnica e pelos valores éticos; que
mento ético é considerado, existem evidências de que sejam profissionais críticos, criativos e flexíveis,
as operações éticas podem ser relacionadas ao sucesso adaptando-os à dinâmica do mercado de traba-
das organizações. A sociedade atual exige que as or- lho.
ganizações operem de modo socialmente responsável Após as reuniões, chegou-se à elaboração dos ob-
e que os administradores demonstrem um comporta- jetivos do curso, que representam finalidades genéri-
mento ético7. cas na direção à qual os esforços são orientados.
Toda organização existe dentro de uma complexa • Objetivo atual: Formar os alunos no curso de
rede de forças ambientais e é afetada por fatores legais, ACD/THD com qualidade de ensino, de acordo
políticos, sociais, econômicos e tecnológicos. Como o com a reestruturação curricular proposta pelo Mi-
objetivo da Administração Estratégica é criar condi- nistério da Educação.
ções para que a empresa opere com eficácia diante de • Objetivo a médio prazo (2 anos): Tornar o curso
ameaças ou restrições ambientais e possa também ca- de ACD/THD um centro de excelência e de refe-
pitalizar as oportunidades oferecidas pelo ambiente, rência no Estado do Paraná.
é necessário identificar e analisar essas forças macro- • Objetivo a longo prazo (5 anos): Tornar o curso
ambientais. de ACD/THD um centro de excelência e de refe-
Embora essas forças influenciem as operações de rência no Brasil.
todas as empresas de uma forma geral, um conjunto As oportunidades e as ameaças do macroambiente
de forças mais específicas dentro de um setor afeta de identificadas podem ser observadas no Quadro 1.
forma significativa, direta ou indiretamente, as ativi- Quanto ao ambiente setorial, essas podem ser obser-
dades estratégicas das empresas desse setor. O poten- vadas no Quadro 2. A análise dos pontos fortes e fracos
cial de ganho de um setor (retorno a longo prazo) internos do colegiado resultou no Quadro 3.
depende de forças competitivas como: a ameaça de Quanto ao Código de Ética do Colegiado de ACD/
novos concorrentes que ingressam no setor; a inten- THD, estabeleceu-se que as atividades docentes serão
sidade da rivalidade entre os concorrentes existentes; norteadas pelos seguintes princípios:
a ameaça de produtos ou serviços substitutos; o poder • conhecer e respeitar o Código de Ética Odontoló-
de barganha dos compradores; e o poder de barganha gico;
dos fornecedores. • conhecer e respeitar o Regimento Interno da Es-
A contraposição das informações sobre o ambien- cola Técnica da UFPR;
te ao conhecimento das capacidades da empresa per- • cumprir o horário de aula e a carga horária do
mite à administração formular estratégias realistas curso;
para que seus objetivos sejam atingidos. • ter uma prática docente transparente entre os do-

30 Revista da ABENO • 6(1):28-34


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

Quadro 1 - Análise das oportunidades e das ameaças/restrições do macroambiente.

Forças Oportunidades Ameaças/Restrições

• LDB e novos Parâmetros Curriculares Nacionais • Ausência de legislação profissional do THD e ACD
Político-Legais

do Ministério da Educação • Regulamentação do Conselho Federal de


Odontologia (CFO)
• Portaria do CFO que aceita declaração do CD para
inscrição de ACD

• ACD – alta empregabilidade • Empregabilidade baixa do THD no setor privado


• Recursos do Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT)
Econômicas

• Programa de Saúde da Família (PSF) para ACD e THD


• Curso de Aperfeiçoamento do ACD: fornece recursos para
cursos regulares
• Parcerias e Convênios

• Material produzido e comprado via cursos particulares • Falta da sala de prevenção


Tecnológicas

• Parceria com o Curso de Odontologia da UFPR • Formação do ACD e THD em áreas de gestão/
secretariado
• Noções de especialidades odontológicas

• Busca pela qualidade de vida • População rejeita a idéia do profissional THD atuar
na cavidade bucal (cultural)
Sociais

• Aumento da expectativa de vida


• Valorização atual do corpo, da aparência, saúde, estética
• Valorização da biossegurança

Fonte: Planejamento Estratégico do Curso de ACD/THD3 (ET/UFPR, 2002b, p. 9).

Quadro 2 - Análise das oportunidades e ameaças/restrições do ambiente setorial.

Forças Competitivas Oportunidades Ameaças/Restrições

Ameaça de novos concorrentes • Sociedade de Pesquisa e Ensino de • Curso do Centro Formador Caetano M. da Rocha
que ingressam no setor Odontologia (SPEO) e Associação • Cursos pagos de carga horária menor
Brasileira de Odontologia (ABO)
oferecem cursos pagos
• Curso de THD da Escola Técnica é
gratuito e vinculado à UFPR

Ameaça de produtos • Cursos públicos de ACD/THD são • Declaração do dentista para registro do ACD no
ou serviços substitutos similares no Brasil CRO
• Cursos particulares como da SPEO e ABO podem,
a médio ou longo prazo, crescer em qualificação

Fonte: Planejamento Estratégico do Curso de ACD/THD3 (ET/UFPR, 2002b, p. 10).

centes do colegiado; tes de classes sociais diferentes;


• respeitar a hierarquia na resolução de problemas • promover a formação ética dos alunos previamen-
envolvendo alunos, professores e funcionários, te às atividades práticas e de estágio, difundindo
sendo o colegiado a instância adequada para tal; esses princípios durante todo o curso;
• orientar eticamente o debate com base nas ques- • desenvolver a solidariedade entre os alunos na di-
tões técnicas de forma sensata, evitando difamação fusão do conhecimento, bem como com colegas
de profissionais da classe, mas que, ao mesmo tem- de trabalho, minimizando os conflitos da diferen-
po, gere uma consciência crítica e uma consciência ça dos diferentes saberes;
profissional; • desenvolver o espírito de trabalho em equipe com
• não haver discriminação no atendimento à pacien- os alunos e o colegiado, privilegiando a troca de

Revista da ABENO • 6(1):28-34 31


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

Quadro 3 - Análise dos pontos fortes e fracos do ambiente interno.


Recursos
Pontos Fortes Pontos Fracos
Internos

Coordenação: Coordenação:
• Flexibilidade para os docentes • Dificuldade de comunicação com professores com
regime de 20 horas semanais
• Formação profissional
• Conflito no grupo
• Freqüência de reuniões
• Ausência no início e no final de curso
• Visão global da universidade
• Afastamento dos alunos e da área técnica
• Informes constantes e gerais
Recursos Humanos

• Delegação de funções
• Disponibilidade de tempo
• Presença do coordenador nas reuniões e nos eventos
• Perfil para o cargo
junto ao grupo docente
Docentes:
Docentes:
• Estabilidade do quadro docente
• Desconhecimento das funções dos coordenadores da
• Comprometimento e responsabilidade área pedagógica
(ensino, entrega de notas, freqüência)
• Desconhecimento do regimento interno da ET
• Estrutura do colegiado para dar suporte a
• Diferença no trabalho realizado nos turnos manhã e noite
docentes em cursos de mestrado/doutorado
(autonomia dos docentes) e nos materiais utilizados
• Alta qualificação técnica
• Falta de comunicação e de integração entre os docentes
• Contatos externos para obter informações nas
diversas esferas (pública e privada)

• Formação do aluno • Controle acadêmico


• Foco em educação e saúde e em biossegurança • Falta de direcionamento aos alunos no início do curso
Recursos Organizacionais

• Valores dos docentes do colegiado (coesão) • Falta de assessoramento pedagógico


• Histórico do curso (melhorias e superação de • Cultura organizacional diferente da cultura do grupo
dificuldades nos últimos anos) • Estágio externo de alunas menores de idade
• Visitas em indústrias de materiais odontológicos • Cursos com conteúdos e ênfases diferentes nos turnos
(contatos permanentes)
• Administração de materiais
• Possibilidade de cursos de curta duração
• Administração de compras
• Administração financeira
• Impacto da administração geral no colegiado

• Acesso dos alunos a outras instalações da UFPR • Materiais particulares e do curso não são compartilhados
• Acesso dos alunos a outros cursos da UFPR • Falta de materiais e de equipamentos
Recursos Físicos

• Laboratório da Odontologia • Manutenção dos materiais


• Verba das parcerias para aquisição de materiais • Dificuldade de acesso ao laboratório da Odontologia,
didáticos principalmente pela manhã
• Insuficiência de materiais de divulgação
• Salas de aula inadequadas

Fonte: Planejamento Estratégico do Curso de ACD/THD3 (ET/UFPR, 2002b, p. 13).

informações e de conhecimento; A Escola Técnica da Universidade Federal do Pa-


• primar pela higiene dos locais de trabalho e estu- raná conta com diversos cursos técnico-profissionali-
do em laboratórios e salas de aula; zantes, de ensino médio e tecnológico. O curso de
• ser responsável no acompanhamento de todas as ACD/THD é um dos cursos ofertados que, de acordo
atividades dos alunos, teóricas e práticas, nos di- com o Plano Estratégico, é um subsistema organiza-
versos locais de aprendizagem; cional que tem um mercado, um conjunto de concor-
• ter respeito e sigilo profissional entre os docentes rentes e uma missão específica, diferentemente de
do colegiado nas questões que os requerem. outros subsistemas organizacionais. Portanto, ele deve

32 Revista da ABENO • 6(1):28-34


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

Quadro 4 - Metas do planejamento estratégico e ações.

Metas Ações

1 - Aprimoramento técnico-pedagógico do curso


2 - Introdução de conhecimentos específicos nas áreas não-contempladas: implantodontia, estética, ortodontia,
1 – Qualidade de

pacientes especiais e odontogeriatria


Ensino

3 - Manutenção do curso de Aperfeiçoamento de ACD


4 - Divulgação e internalização do Código de Ética do colegiado
5 - Avaliação de alunos, dos docentes e do curso
6 - Planejamento Estratégico: operacionalização, manutenção e avaliação

1 - Intensificação da integração entre os docentes do colegiado e entre a coordenação do curso


2 – Integração

2 - Manutenção e intensificação da parceria com o Curso de Odontologia da UFPR


3 - Promoção de vínculo com as indústrias de materiais do setor odontológico
4 - Conhecimento do Centro Formador e do Centro de Educação e Saúde da Prefeitura de Curitiba

1 - Estudo da legislação em vigor


3 – Organização Curricular

2 - Reformulação curricular

1 - Informar atuação do curso na sociedade


4 – Divulgação

2 - Mídia e publicidade
3 - Uso de uniforme pelos docentes

Fonte: elaborado com base no Planejamento Estratégico do Curso de ACD/THD3 (ET/UFPR, 2002b).

operar com missão, objetivos gerais e estratégias pró- e da imagem da organização.


prias. Para atender à estratégia de crescimento pela
Como estratégia genérica para pequenas unidades diferenciação de qualidade, foram elaboradas qua-
de negócios, optou-se pela de nicho-custos baixos/di- tro grandes metas, sendo elas: qualidade de ensino
ferenciação, ou seja, o propósito consiste em prestar (aprimorar a qualidade do ensino do curso de ACD/
serviços altamente diferenciados que supram as ne- THD da Escola Técnica da UFPR), integração (pro-
cessidades especializadas de um determinado nicho
mover a integração interna do colegiado de ACD/
de mercado, uma área profissional, ao mesmo tempo
THD, bem como deste com a Escola Técnica, os
que se mantêm custos baixos. Por constituir o colegia-
demais setores da UFPR e a sociedade), organização
do parte de uma organização pública, entende-se por
curricular [reformular, implantar e adequar conti-
custos baixos a utilização de materiais por docentes e
nuamente o projeto curricular do curso, conforme
alunos, uma vez que não há cobrança formal pela
organização sobre os serviços prestados aos discen- a legislação em vigor (LDB, PDN e Diretrizes da Saú-
tes. de)] e divulgação (criar uma política de divulgação
Para atingir tal estratégia, genérica, o colegiado na sociedade de forma contínua, permitindo assim
buscou elaborar metas que pudessem simultaneamen- que o curso de ACD/THD possa ser conhecido
te diferenciar seus serviços e reduzir o custo por meio como um centro de referência nacional). O Quadro
de: dedicação à qualidade, inovação do processo, ino- 4 apresenta essas metas e as ações elencadas para
vação do produto e alavancagem por meio da perícia cada uma delas.

Revista da ABENO • 6(1):28-34 33


Planejamento estratégico de Cursos de ACD/THD – a experiência da Escola Técnica da Universidade Federal
do Paraná • Alcantara CM, Takahashi ARW

CONSIDERAçÕES FINAIS ate courses on Dentistry, as well as to guide the dentist,


As atividades no decorrer do planejamento pro- who generally has scant, if any, training in those fields,
porcionaram um claro diagnóstico das dificuldades in managing public and/or private dental health serv-
a serem superadas pelo colegiado, tanto dentro de ices.
seu próprio subsistema quanto em relação à Escola,
à Universidade e à sociedade. Da mesma forma, pro- DESCRIPTORS
porcionaram a evidenciação de oportunidades e van- Health planning councils. Oral hygiene/manpow-
tagens que podem ser exploradas e fortificadas no er. Education. §
grupo.
O planejamento estratégico também evidenciou a REFERêNCIAS BIBlIOGRáFICAS
necessidade de o Cirurgião-Dentista, de formação pre- 1. Berger PL, Luckmann T. A construção social da realidade.
dominante técnica, adquirir e dominar conceitos de Petrópolis: Vozes; 1996.
administração e de gestão, que também poderão ser 2. Escola Técnica, Universidade Federal do Paraná. Currículo do
úteis no gerenciamento de clínicas e consultórios, Curso Técnico em Higiene Dental; 2002a.
públicos e/ou privados. 3. Escola Técnica, Universidade Federal do Paraná. Planejamen-
to Estratégico do Curso de THD; 2002b.
ABSTRACT 4. Meyer JW, Rowan B. Institutionalized organizations: formal
Strategic planning applied to the training of Dental structure as myth and cerimony. Am J Sociol 1977;83(2):340-
Assistants and Dental Hygienists: the experience of 63.
the Technical School, Federal University of Paraná, 5. Mintzberg H, Ahlstrand B, Lampel J. Safari da estratégia: um
Brazil roteiro pela selva do planejamento estratégico. Porto Alegre:
The present article reports the experience of elab- Bookman; 1998.
orating strategic planning for the courses of Dental 6. Queiroz SMPL. Estudo sobre o mercado de trabalho e necessi-
Assistant and Dental Hygienist at the Technical dade de cursos nas profissões auxiliares em Odontologia. Curi-
School, Federal University of Paraná (UFPR), Brazil. tiba; 1997 (mimeo).
The planning proved to be of great usefulness in the 7. Wright P, Kroll M, Parnell J. Administração estratégica: concei-
elaboration and implementation of strategies, as well tos. São Paulo: Atlas; 2000.
as in the improvement of the courses. It can also be
of help to other auxiliary, technical and undergradu- Aceito para publicação em 10/2005

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4 Revista da ABENO • 6(1):28-34


Análise comparativa do
desenvolvimento da Clínica em
Blocos com o da Clínica Odontológica
Integrada da UNIARARAS
A integração das disciplinas representa a metodologia mais adequada
para que o aluno desenvolva a capacidade de conectar e unificar os
conhecimentos adquiridos nas diversas especialidades.
Daniela dos Santos Cardoso*, Evilin Sanches Morais*, Ricardo de Oliveira Bozzo**, Viviane
Maia Barreto de Oliveira***

* Cirurgiãs-Dentistas pelo Centro Universitário Hermínio Ometto –


UNIARARAS. E-mail: danisacardoso@yahoo.com.br, evilinsm@terra.com.br.
** Coordenador do Curso de Odontologia do Centro Universitário
Hermínio Ometto – UNIARARAS. E-mail: ricardobozzo@uniararas.br.
*** Professora Titular das Disciplinas de Prótese Parcial Removível,
Prótese Total e Odontogeriatria do Centro Universitário Hermínio
Ometto – UNIARARAS. E-mail: vivianeoliveira@uniararas.br.

RESUMO tratamentos concluídos para as disciplinas avaliadas


O objetivo deste trabalho foi realizar uma análise foram de: 35% para Prótese Parcial Removível, 67%
comparativa dos anos 1998-1999, em que a Clínica para Prótese Total, 46% para Prótese Fixa, 78% para
Odontológica era realizada em Blocos, e 2001-2002, Cirurgia, 89% para Periodontia, 54% para Dentística
quando foi instaurada a filosofia da Clínica Integrada e 51% para Endodontia. A Clínica Integrada superou
no Centro Universitário Hermínio Ometto – UNIA- a Clínica em Blocos em quase todos os âmbitos avalia-
RARAS. Foi executado um levantamento quanto ao dos. Este trabalho demonstrou que a Clínica Integra-
número de tratamentos concluídos, através da análise da se instalou para resgatar a condição de totalidade
quantitativa desses tratamentos para cada disciplina, e unicidade da prática odontológica, formando um
utilizando-se 200 prontuários, 50 para cada ano ana- profissional generalista, com sólida formação técnica,
lisado. Os dados foram posteriormente tabulados e científica, humanística e ética, orientado para a pro-
submetidos a uma análise exploratória, com o objeti- moção de saúde, com ênfase na prevenção.
vo de traçar um panorama do atendimento odonto-
lógico prestado na UNIARARAS. Na Clínica em Blo- Descritores
cos, 33% dos tratamentos foram concluídos, sendo a Clínicas odontológicas. Ensino/tendências. Edu-
porcentagem de tratamentos concluídos para cada cação em Odontologia/métodos.
disciplina de: 9% para Prótese Parcial Removível, 20%
para Prótese Total, 12% para Prótese Fixa, 64% para
Cirurgia, 93% para Periodontia, 47% para Dentística
e 66% para Endodontia. Na Clínica Integrada, a por-
O sistema de atendimento em Clínica Odontológi-
ca Integrada foi oficialmente introduzido no cur-
rículo brasileiro na forma de estágio em 1970, a partir
centagem de tratamentos concluídos foi de 20%, le- do exemplo da Universidade de Antioquia, na Colôm-
vando-se em conta que são atribuídas altas parciais bia, que o implantou pela primeira vez em 1954, sendo
para a maioria dos pacientes; as porcentagens dos o mesmo transformado em disciplina obrigatória no

Revista da ABENO • 6(1):35-41 35


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

Brasil, com duração mínima de seis meses, em 1982, de conhecimentos objetiva preservar a integridade da
pelo Conselho Federal de Educação4. saúde bucal, estabelecida por meio de uma ordem de
O modelo inicial do ensino odontológico, prece- procedimentos operatórios definida pelas priorida-
dente à Clínica Integrada, definiu uma prática deno- des da terapêutica, permitindo, ainda, discussões ine-
minada Odontologia Científica ou Flexneriana, rentes à prática odontológica: prática especializada
orientada para a cura ou o alívio das doenças ou para versus prática da odontologia geral e odontologia pre-
restauração das lesões, cujo objeto de atenção é o in- ventiva versus odontologia curativa.
divíduo entendido numa concepção mecanicista, em Assim, a integração de clínicas é algo que resulta
que domina a tendência à especialização, à seletivida- em benefício tanto para o paciente como para o estu-
de da clientela e à exclusão de formas alternativas de dante. Este melhora sensivelmente sua aprendizagem,
práticas9. já que se habitua a observar o paciente de forma glo-
Nesse sistema de ensino, ainda hoje utilizado em bal, planificando e executando os procedimentos clí-
algumas faculdades, pode-se observar o tratamento nicos necessários, tendo controle permanente da evo-
adicional conhecido como Clínica de Blocos. Entre- lução do tratamento, podendo, ocasionalmente, se
tanto, essa sistemática gerou a formação de profissio- necessário, modificá-lo. Por outro lado, o paciente
nais pouco preparados para diagnósticos e planos de também se beneficia, pois o aluno que efetua o exame
tratamento que resultassem na conclusão dos casos clínico e o plano de tratamento executa-o, evitando,
clínicos, criando um número elevado de pacientes em desta maneira, que o paciente aguarde distintos estu-
disciplinas isoladas. dantes para que sejam atendidas as suas necessidades
Complementando esse modelo de ensino, viria a odontológicas5.
Clínica Integrada, para resgatar a condição de totali- Por esse motivo, análises constantes do desenvol-
dade e unicidade da prática odontológica15. Assim, a vimento das clínicas odontológicas devem ser realiza-
Clínica Integrada originou-se da tentativa de reversão das com o objetivo de apontar a sua qualidade e a sua
da especialização precoce nos cursos de Odontologia efetividade, tanto para os estudantes, quanto para o
através do ensino integrado de especialidades, buscan- paciente que recebe tratamento.
do a formação de um clínico geral, desenvolvendo no A Clínica Odontológica Integrada do Curso de
aluno a habilidade de realizar diagnósticos e tratamen- Odontologia da UNIARARAS tem por proposição
tos clínicos de forma global, objetivando preservar a educacional exercitar o aluno, levando-se em consi-
integridade da saúde bucal, ao mesmo tempo em que deração os conhecimentos teóricos e práticos, adqui-
procura estabelecer a responsabilidade pela formação ridos nas diversas disciplinas, com enfoque no plane-
social dos futuros profissionais da Odontologia14. jamento e na execução do tratamento integrado3.
Com base na Resolução nº 04, de 03 de setembro Portanto, o objetivo deste trabalho foi analisar o nú-
de 1982, do Conselho Federal de Educação7 e nas mero de tratamentos que tiveram início e o número
recentes definições de perfil, objetivos e habilidades de tratamentos que foram concluídos no Curso de
efetivadas pela comissão do Exame Nacional de Cur- Odontologia do Centro Universitário Hermínio
sos para Odontologia8 (2002), foram definidas habi- Ometto – UNIARARAS, fazendo uma análise compa-
lidades e conteúdos para a formação de um perfil que rativa entre os anos de 1998 e 1999, nos quais a clíni-
atenda aos objetivos do curso1, que consiste em: pro- ca era realizada em blocos, e 2001 e 2002, quando foi
fissional generalista, com sólida formação técnica, instaurada a filosofia da Clínica Integrada.
científica, humanística e ética, orientado para a pro-
moção de saúde, com ênfase na prevenção de doenças MATERIAL E MÉTODOS
bucais prevalentes. Dessa forma, a Clínica Integrada O método de abordagem escolhido foi o indutivo,
torna-se um eixo, no qual interagem docência-serviço- por meio de sorteio randomizado do número de pron-
pesquisa6,10,15. tuário, realizando-se um levantamento de 200 fichas
A disciplina de Clínica Integrada tem objetivos de prontuário, dentre as quais 100 fichas eram refe-
bastante amplos, dentro do processo ensino-aprendi- rentes à Clínica em Blocos (50 pertenciam ao ano de
zagem. Deve também integrar os conhecimentos, as 1998 e o restante ao ano de 1999) e 100 fichas, à Clí-
habilidades e os valores adquiridos ao longo do curso, nica Integrada (50 eram do ano de 2001 e as outras 50
de modo a proporcionar ao paciente o atendimento do ano de 2002, sendo que, para ambos os anos, 25
integral das necessidades evidenciadas12,13. fichas pertenciam ao atendimento realizado pela clí-
Padilha et al.11 (1995) afirmam que essa integração nica do 3º ano e as outras 25, ao do 4º ano).

36 Revista da ABENO • 6(1):35-41


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

A partir do levantamento dessas fichas foi realiza- os planejamentos geral e/ou específico continham ou
da uma análise de diferentes campos de dados, utili- não continham visto dos professores.
zando-se para tanto um formulário especialmente Após a coleta dos dados, os valores obtidos foram
desenvolvido, contendo: organizados em forma de tabulação, o que permitiu
• Dados Pessoais primeiramente a análise dos desempenhos das diferen-
- Nome. tes filosofias de clínicas por meio dos tratamentos exe-
- Sexo. cutados e não-executados; e, numa segunda etapa, fo-
- Idade. ram comparados os desempenhos da Clínica em Blocos
- Município. e da Clínica Integrada, analisando-se os valores obtidos
- Prontuário.
das seguintes disciplinas: Prótese Parcial Removível,
• Saúde Geral
Prótese Total, Prótese Fixa, Cirurgia, Periodontia, Den-
- História médica preenchida (sim ou não).
- Doenças infecto-contagiosas (presentes ou tística Restauradora e Endodontia, considerou-se a
não). quantidade de tratamentos planejados e verificou-se se
- Hábitos Nocivos (existentes ou não). os mesmos foram concluídos. Caso o plano de trata-
- Escovação (se realizava ou não). mento tivesse sido cumprido parcialmente, conside-
- Pressão arterial aferida (sim ou não). rou-se o tratamento como não-concluído.
• Exames Complementares Após tabulação dos dados em planilha eletrônica
- Radiografias (boca toda ou panorâmica). Excel, foi realizada uma análise exploratória dos da-
- Exames Laboratoriais. dos com o objetivo de traçar um panorama do aten-
Caso algum desses campos relacionados acima não dimento odontológico prestado na Clínica em Blocos
se encontrasse preenchido, era considerado como e na Clínica Integrada.
valor insuficiente. Este estudo, por envolver fichas de prontuários de
• Odontograma pacientes, que contêm informações pessoais e confi-
- Dentes presentes. denciais, foi submetido ao julgamento do Comitê de
- Restaurações presentes. Ética em Pesquisa, pelo qual foi devidamente avaliado
- Endodontia.
e aprovado, sob protocolo número 032/02.
- Cirurgia – em tecido mole ou duro.
- Periodontia – número de sessões e tratamento.
- Prótese Fixa. RESULTADOS
- Prótese Total. Nos Gráficos 1 a 8 são apresentados os resultados
- Prótese Parcial Removível. obtidos por este levantamento e uma comparação
Para cada item do Odontograma foram conside- analítica entre as duas filosofias de ensino-aprendiza-
rados: presença ou ausência, quantidade presente, gem clínico.
estado – satisfatório ou insatisfatório, necessidade
de tratamento ou retratamento, tratamento inaca- DISCUSSÃO
bado ou tratamento concluído. A Clínica Integrada apresentou melhor rendimen-
• Centro de Diagnóstico Bucal (CDO) to e desenvolvimento do que a Clínica em Blocos na
- Ficha preenchida ou não. maioria das áreas utilizadas para o levantamento.
- Patologia presente. No que diz respeito à execução dos planos de tra-
- Localização. tamento, a Clínica em Blocos apresentou mais trata-
- Causa. mentos concluídos do que a Clínica Integrada. Esse
- Biópsia (realizada ou não). dado poderia ser contraditório já que a Clínica Inte-
- Resultado (existente ou não).
grada se destaca na maioria dos tratamentos concluí-
• Tratamento Executado
dos nas diferentes áreas. No entanto, deve-se levar em
- Conclusão ou não.
consideração que a Clínica Odontológica Integrada
- Data de início.
- Data final. da UNIARARAS tem como metodologia atribuir a Alta
- Número de sessões. Parcial para qualquer paciente que tenha o seu trata-
- Faltas do Paciente. mento concluído, pois este fará parte de um programa
• Planejamento de prevenção e de manutenção de saúde bucal. So-
- Geral. mente então, quando passar por esse programa, será
- Específico. atribuída a Alta Geral e o tratamento estará realmen-
Para cada item do Planejamento foi analisado se te concluído.

Revista da ABENO • 6(1):35-41 37


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

(%) (%)
35 40

33 35
30
35
30
25
25
20
20 20
15
15
10
10

5 9
5

0 0
Clínica em Blocos Clínica Integrada Clínica em Blocos Clínica Integrada
Gráfico 1 - Desempenho das Clínicas quanto aos planos Gráfico 2 - Comparação dos tratamentos concluídos em
de tratamento concluídos. Prótese Parcial Removível.

(%) (%)
70 50
67 45
60 46
40
50
35

40 30
25
30
20
20 15
20
10 12
10
5
0 0
Clínica em Blocos Clínica Integrada Clínica em Blocos Clínica Integrada
Gráfico 3 - Comparação dos tratamentos concluídos em Gráfico 4 - Comparação dos tratamentos concluídos em
Prótese Total. Prótese Fixa.

Outro fator importante a ser analisado é que para a mesma ainda possui um índice de tratamentos con-
se ter um tratamento concluído na Clínica Integrada, cluídos maior que o obtido na Clínica em Blocos.
deve-se ter concluído todo o tratamento planejado, ou Já para a Prótese Total, das 100 fichas analisadas
seja, a dentística restauradora, a endodontia, a cirurgia, na Clínica em Blocos, houve somente 05 planejamen-
entre outros. Já na Clínica em Blocos, quando era con- tos, dos quais menos da metade foi concluída (20%).
cluído um único plano de tratamento específico, con- Por outro lado, na Clínica Integrada, das 100 fichas
siderava-se tratamento concluído, mesmo que o pacien- analisadas, foi planejada a execução de 06 Próteses
te ainda necessitasse de outros procedimentos. Totais, das quais 4 foram concluídas (67%), resultado
Pode-se perceber no Gráfico 2 que a Clínica Inte- que superou o da Clínica em Blocos (Gráfico 3).
grada, no que diz respeito à conclusão de tratamentos Assim como ocorre com a Prótese Parcial Remo-
em Prótese Parcial Removível, superou a Clínica em vível, a Prótese Total é uma disciplina clínica do 3º ano;
Blocos. É importante ressaltar que, no sistema de Clí- e, mesmo existindo essa variável, a Clínica Integrada
nica Integrada, a Prótese Removível é disciplina clíni- concluiu mais tratamentos que a Clínica em Blocos.
ca pertencente ao currículo do 4º ano. Por esse moti- Na Prótese Fixa, dos 50 planejamentos realizados
vo, vários dos planejamentos eram realizados quando na Clínica em Blocos, somente 06 foram concluídos
o paciente era atendido por um aluno do 3º ano, mas (12%), enquanto na Clínica Integrada, dos 37 plane-
este, por sua vez, não poderia confeccionar a prótese. jamentos, foram concluídos 17, o que corresponde a
Mesmo havendo essa variável para a Clínica Integrada, 46% (Gráfico 4). Nesse item, apresentou-se a mesma

38 Revista da ABENO • 6(1):35-41


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

(%) (%)
80 100
78 90
70
93
80 89
60 64
70
50 60

40 50
40
30
30
20
20
10 10

0 0
Clínica em Blocos Clínica Integrada Clínica em Blocos Clínica Integrada
Gráfico 5 - Comparação dos tratamentos concluídos em Gráfico 6 - Comparação dos tratamentos concluídos em
Cirurgia. Periodontia.

variável ocorrida para a Prótese Parcial Removível e tidade dos trabalhos realizados, ou seja, queda de
Prótese Total, já que a Prótese Fixa corresponde à produtividade clínica.
Clínica do 4º ano. Para a disciplina de Endodontia, a Clínica em Blo-
A disciplina de cirurgia, representada pelas exo- cos apresentou 66% de tratamentos concluídos e a
dontias planejadas e concluídas, apresentou, para a Clínica Integrada, 51% (Gráfico 7). Os valores obtidos
Clínica em Blocos, 64% de tratamentos concluídos, para a Endodontia da Clínica Integrada coincidem
enquanto para a Clínica Integrada apresentou 78% com os do estudo realizado por Arruda2 (1997), que,
(Gráfico 5). ao analisar as variáveis intercorrentes que influenciam
Com relação à disciplina de Periodontia, na Clíni- a produtividade na Clínica Integrada, encontrou que
ca em Blocos foram concluídos 93% dos tratamentos, os tratamentos mais afetados foram os relacionados à
enquanto na Clínica Integrada foram concluídos Endodontia, sendo que de 200 planos de tratamento
89%. No entanto, deve-se levar em conta que o núme- avaliados, 186 apresentaram alguma intercorrência, o
ro de planejamentos realizados na Clínica em Blocos que representa 90% de todos os planos de tratamento,
é quase o dobro do de planejamentos na Clínica In- concluindo que os alunos avaliados apresentaram
tegrada, alterando-se as porcentagens alcançadas. maiores dificuldades em relação à execução dos pro-
No que diz respeito à Dentística Restauradora, cedimentos de Endodontia.
tem-se que a Clínica Integrada superou a Clínica em Delgado, Villa4 (1998) fizeram acompanhamento
Blocos, sendo que a primeira obteve uma porcenta- e levantamento da Clínica Integrada da Faculdade de
gem de 54%, enquanto a segunda obteve 47% (Grá- Odontologia da Universidade de Antioquia (Mede-
fico 6). No entanto, pode-se considerar que as duas lim, Colômbia) a partir do estudo de 102 fichas clíni-
Clínicas apresentaram um número relativamente bai- cas, obtiveram os seguintes resultados:
xo de tratamentos concluídos, em relação à quantida- • Dos 84 planejamentos em Periodontia, 13 foram
de de planejamentos realizados. Por esse motivo, deve- concluídos (15,5%); enquanto na Clínica Odon-
se esclarecer que, para o levantamento realizado pelo tológica Integrada da UNIARARAS alcançou-se
presente estudo, foi considerado tratamento conclu- um valor de 89% de tratamentos concluídos.
ído quando todas as restaurações planejadas tinham • Dos 15 tratamentos planejados em Endodontia, 06
sido realizadas. foram concluídos, correspondendo a 40%. Para o
Essa variável encontra respaldo no trabalho reali- mesmo estudo realizado na UNIARARAS, obteve-
zado por Arruda2 (1997), que afirma que, após a ela- se uma porcentagem de 51%.
boração de um plano de tratamento, diversas variáveis • Dos 64 tratamentos planejados para Prótese Par-
surgem no transcurso do tratamento, obrigando o cial Removível, 11 foram concluídos (17,2%); en-
estudante a repensá-lo e, muitas vezes – para não dizer quanto na UNIARARAS alcançou-se um valor de
freqüentemente –, realizar modificações, o que, ao 35%.
final do curso, representa uma diminuição na quan- • Dos 137 planos de tratamento em Dentística Res-

Revista da ABENO • 6(1):35-41 39


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

(%) (%)
60 70

60 66
50 54

47 50
40 51
40
30
30

20
20

10 10

0 0
Clínica em Blocos Clínica Integrada Clínica em Blocos Clínica Integrada
Gráfico 7 - Comparação dos tratamentos concluídos em Gráfico 8 - Comparação dos tratamentos concluídos em
Dentística Restauradora. Endodontia.

tauradora, 15 foram concluídos (11%). O valor Ometto University Center – UNIARARAS, Brazil


alcançado na UNIARARAS foi de 54%. The goal of this study was to comparatively analyse
the clinical treatment given between the years 1998-
CONCLUSÕES 1999, in which each specialty had its own, separated,
A Clínica Integrada foi implantada como uma clinical activities, and that given in the years 2001-
nova filosofia de ensino-aprendizagem, com um enfo- 2002, when the philosophy of an integrated clinic was
que humanista, priorizando a globalização dos aspec- established at the Hermínio Ometto University Cen-
tos cognitivos, afetivos e de habilidades para formar ter – UNIARARAS, Brazil. The number of finalized
um cirurgião-dentista generalista que, considerando treatments in a sample of 200 files (50 for each of the
o aspecto holístico, busca a promoção de saúde, com studied years) was assessed. The data were tabulated
ênfase na prevenção de doenças bucais prevalentes. and submitted to an exploratory analysis aiming at
Dessa forma, conclui-se que a Clínica Integrada producing an outlook of the dental care given by
apresentou melhor rendimento e desenvolvimento UNIARARAS. In the segmented clinics, 33% of the
do que a Clínica em Blocos na maioria das áreas uti- treatments were finalized, being the percentages of
lizadas para o levantamento. finalized treatments for each discipline as follows: 9%
Portanto, pode-se concluir também que a Integra- for Removable Partial Prosthesis, 20% for Total Pros-
ção das disciplinas em uma única clínica representa a thesis, 12% for Fixed Partial Prosthesis, 64% for Sur-
metodologia mais adequada para que o aluno desen- gery, 93% for Periodontology, 47% for Restorative
volva a capacidade de conectar e unificar os conheci- Dentistry, and 66% for Endodontics. In the integrated
mentos já adquiridos nas diversas disciplinas básicas clinic, the percentage of concluded treatments was
e clínicas do currículo. 20%, taking into account that a partial discharge was
Assim, a Clínica Integrada demonstrou ser melhor attributed to the majority of patients. The percent-
que a Clínica em Blocos para: ages of finalized treatments for each discipline were
• Os pacientes em atendimento, pois apresentou um as follows: 35% for Removable Partial Prosthesis, 67%
índice maior de tratamentos concluídos, sendo for Total Prosthesis, 46% for Fixed Partial Prosthesis,
estes os beneficiados. 78% for Surgery, 89% for Periodontology, 54% for
• O alunos, que desenvolveram mais planos de tra- Restorative Dentistry, and 51% for Endodontics. In
tamento, aplicando a filosofia generalista, benefi- conclusion, the integrated clinic produced better re-
ciando-se o fator ensino-aprendizagem, e alcan- sults than the segmented clinics regarding almost all
çando-se um maior índice de tratamentos of the studied aspects. This study demonstrated that
concluídos, em quase todas as áreas. the integrated clinic has restored the totality condi-
tion and global vision of the dental practice, contrib-
ABSTRACT uting for the training of a generalist professional, with
Comparative analysis of clinical treatment given in solid technical, scientific, humanistic and ethical
a segmented or integrated manner, at the Hermínio training, oriented for the promotion of health with

40 Revista da ABENO • 6(1):35-41


Análise comparativa do desenvolvimento da Clínica em Blocos com o da Clínica Odontológica Integrada da UNIARARAS • Cardoso DS,
Morais ES, Bozzo RO, Oliveira VMB

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inep.gov.br/prolei/. Aceito para publicação em 10/2005

Revista da ABENO • 6(1):35-41 41


Responsabilidade administrativa do
Gestor de Saúde
O gestor de saúde deve socorrer os anseios populacionais por uma
melhora de sua saúde com a disciplina de um bom financista. Essa
missão não encontra respaldo formativo no atual modelo curricular.
Arsenio Sales Peres*, José Roberto de Magalhães Bastos*, José Roberto de Pereira Lauris*,
Ricardo Pianta Rodrigues da Silva**, Henrique Mendes Silva**, César Lopes Junior***

* Professores Doutores do Departamento de Saúde Coletiva da


Faculdade de Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo.
E-mail: arsenio@usp.br.
** Mestrandos em Saúde Coletiva da Faculdade de Odontologia de
Bauru da Universidade de São Paulo. E-mail: henriqmendes@yahoo.
com.br.
*** Aluno Especial da Disciplina de Ética e Legislação da Faculdade de
Odontologia de Bauru da Universidade de São Paulo.

Resumo
Os profissionais de saúde em geral, entre eles o O s profissionais de saúde em geral, entre eles o
cirurgião-dentista, podem atuar em suas profis-
cirurgião-dentista, podem atuar em suas profissões de sões de diversas maneiras, dentre elas como adminis-
diversas maneiras. Dentre elas como administradores tradores de saúde, área que ultimamente vem ganhan-
de saúde, área esta que ultimamente vem ganhando do destaque no cenário político nacional dada sua
destaque no cenário político nacional por sua relevân- relevância frente às necessidades da população.
cia ao atuar frente às necessidades da população. Esse Tal incumbência ainda não encontra respaldo for-
campo de atuação exige vários conhecimentos que mativo no atual modelo curricular das universidades
geralmente não são obtidos pelo atual modelo curri- brasileiras, que não propiciam ao graduando conhe-
cular das universidades. O presente trabalho tem por cimento administrativo, jurídico, financeiro e huma-
objetivo elencar as principais responsabilidades e nitário, necessários ao exercício dessa função.
obrigações do gestor em saúde frente ao Estado, por A fim de que o gestor de saúde atue de maneira
meio dos princípios de Direito Administrativo e das eficiente frente aos problemas relacionados à Saúde
normas legais vigentes. Realizou-se uma revista da li- Pública, mantendo conduta ética, de acordo com a
teratura sobre os principais temas do Direito Admi- legislação vigente, e com observância aos princípios
nistrativo, bem como sobre os Princípios da Adminis- administrativos, esse deve possuir bom conhecimento
tração, a Improbidade Administrativa e a Lei de de princípios do direito administrativo e da própria
Licitação e Responsabilidade Fiscal. Pôde-se perceber administração pública; deve ainda conhecer profun-
que a atuação do gestor de saúde no cenário adminis- damente suas responsabilidades frente ao usuário do
trativo é cercada de responsabilidades e deveres fren- Sistema Único de Saúde e perante o Estado. Para tan-
te ao Estado, o que deixa o gestor vulnerável pela to, faz-se necessário o domínio material e interpreta-
falta de conhecimento de suas atribuições. tivo do Direito Administrativo, formado de normas
concernentes a administração pública direta ou indi-
Descritores reta, funções, cargos, agentes administrativos, licita-
Administração pública. Administração em saúde ções, enfim, trata da gestão do Estado, de como colo-
pública. Saúde pública. cá-lo em bom funcionamento.

42 Revista da ABENO • 6(1):42-8


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

Objetivo dizer que tanto o gestor quanto a própria sistemática


O presente ensaio tem por objetivo primordial administrativa devem buscar a melhor forma de atuar,
elencar as principais responsabilidades e obrigações modernizar-se, atualizar-se, buscando sempre a con-
do gestor em saúde frente ao Estado e ao interesse da secução de melhores resultados, tendo em vista ques-
coletividade, confrontando-as com os princípios de tões qualitativas e quantitativas na prestação do servi-
Direito Administrativo e as normas administrativas ço de saúde.
vigentes, explicitando as incongruências, as dificulda- O princípio da continuidade se descumprido co-
des e os eventuais dilemas enfrentados pelo gestor de loca o gestor de saúde diante de um dos maiores pro-
saúde no Brasil. blemas imagináveis por aqueles que são usuários dos
serviços de saúde, isto é, sua paralisação. Na verdade
Princípios da Administração se faz necessária a consciência por parte do gestor de
Como já dito, dilemas podem pautar a atuação do que como serviço de utilidade pública, essencial, a
gestor da saúde pública na atualidade legislativa bra- prestação de assistência à saúde populacional não
sileira, uma vez que esse encontra-se obrigado a pres- pode sofrer interrupções, pois representaria risco tan-
tar seus serviços em consonância com a legislação to àqueles que se encontram em assistência, como
administrativa, priorizando determinados princípios àqueles que eventualmente necessitarão utilizar-se do
administrativos muitas vezes conflitantes com o refe- serviço.
rido conjunto normativo, e o que é pior, sem deixar Deve ainda o gestor de saúde pautar seus atos de
de lado o fato de estar, com seus atos, influindo na acordo com valores comuns à coletividade, nunca por
saúde, na vida de seres humanos, de estar prestando valores pessoais muitas vezes destoantes dos reais in-
serviço público essencial, de utilidade pública, indis- teresses sociais. Objetivamente o administrador de
pensável à existência social. serviço de saúde não pode atuar de acordo com o que
É necessário, contudo, reconhecer a importância julga ser importante, mas sim deve fazê-lo de acordo
de tais princípios, pois estes, apesar da difícil consta- com o que realmente tem relevância face à coletivida-
tação do seu descumprimento, resguardam a essência de, guardando sempre uma relação lógica entre fatos
do ato administrativo, lembrando ao gestor a que veio e decisões administrativas, conforme o princípio da
e a importância fundamental do interesse coletivo em razoabilidade.
seu labor. Para Rocha14 (1994), a razoabilidade pode ser cha-
Certamente, dentre os princípios que norteiam a mada de princípio da proibição de excesso, evitando
administração, em se tratando de saúde pública, me- abusos por parte da Administração Pública; o autor
recem prioridade o da supremacia do interesse públi- segue relacionando a razoabilidade com a proporcio-
co, o da eficiência, o da continuidade, o da razoabili- nalidade.
dade, o da proporcionalidade, o da legalidade e o da No que tange a proporcionalidade, cabe ao gestor
moralidade. conseguir um máximo de benefícios ao usuário do
Assim, tem-se que o gestor de saúde, em confor- serviço de saúde, exigindo um mínimo de sacrifício
midade com o princípio da supremacia do interesse de direitos, estabelecendo uma adequação favorável
público, deverá sempre sobrepor o interesse da cole- entre os fins pretendidos e meios de obtenção.
tividade em detrimento dos interesses privados, par- Sobre moralidade e legalidade é importante sa-
ticulares. Deve-se observar que a legalidade impede lientar que devem ser complementares, nunca exclu-
que direitos particulares sejam desrespeitados, ofere- sivos, de modo a tornar legítimos os atos administra-
cendo um limite à supremacia mencionada. tivos. Sobre a moralidade, nos aclara Meirelles12 (2002)
Ensina Mello13 (1979) sobre a supremacia do inte- citando Hariou10 (1926):
resse público: “trata-se de verdadeiro axioma reconhe-
cível no moderno Direito Público”. Proclama a supe- “... constitui, hoje em dia, pressuposto de validade de todo
rioridade do interesse da coletividade, firmando a ato da Administração Pública (CF, art. 37, caput1). Não se
prevalência dele sobre o particular, como condição, trata – diz Hariou, o sistematizador de tal conceito – da
até mesmo, da sobrevivência e do asseguramento des- moral comum, mas sim de uma moral jurídica, entendida
te último. como ‘o conjunto de regras de conduta tiradas da discipli-
Quanto ao princípio da eficiência, garantido cons- na interior da Administração’. Desenvolvendo sua doutri-
titucionalmente no caput do artigo 37 da Constituição na, explica o mesmo autor que o agente administrativo,
da República Federativa do Brasil (CRFB)1, pode-se como ser humano dotado da capacidade de atuar deve,

Revista da ABENO • 6(1):42-8 43


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

necessariamente, distinguir o Bem do Mal, o honesto do ser apontados como ímprobos, bastando que, em sen-
desonesto. E, ao atuar, não poderá desprezar o elemento do servidores ou terceiros, incidam nas situações
ético de sua conduta. Assim, não terá que decidir somente apontadas pela lei. Bastante abrangente é também o
entre o legal e o ilegal, o justo e o injusto, o conveniente e número de entidades cujo patrimônio se acha prote-
o inconveniente, o oportuno e o inoportuno, mas também gido pelas disposições legais em referência.
entre o honesto e o desonesto”. Os gestores de saúde podem, portanto, ser indi-
ciados por seus atos quando estes forem classificados
No referente ao princípio da legalidade, é neces- como improbidade administrativa. Mas deve-se salien-
sário salientar que o administrador dos serviços de tar que um ato ímprobo não necessariamente é um
saúde deve ater-se ao que lhe é permitido por lei, uma ato imoral.
vez que tal princípio determina ao administrador que O ato de imoralidade afronta a honestidade, a boa-
somente poderá atuar naquilo que lhe for permitido fé, o respeito à igualdade, as normas de conduta acei-
por lei, o que difere do âmbito privado em que se pode tas pelos administrados, o dever de lealdade, a digni-
fazer não somente o que é permitido, mas também o dade humana e outros postulados éticos e morais.
que não é proibido por lei. A improbidade, por sua vez, significa a má quali-
A legalidade exalta a submissão do Estado à lei, dade de uma Administração.
consagrando a idéia de que a Administração Pública Pode-se dizer que atos administrativos contrários
só pode ser exercida conforme o permitido por lei. à moralidade de forma exacerbada, qualificada, con-
Nesse sentido, vislumbra-se a maior dificuldade do figuram improbidade. Porém, nem todo ato de im-
administrador de saúde em equilibrar a eficiência, a probidade administrativa representa violação à mora-
moralidade, e os outros princípios que o obrigam a lidade administrativa. Ou seja, mesmo que o Gestor
fornecer o melhor atendimento possível, composto em Saúde não aja de má fé, mas pratique um ato que
dos melhores profissionais, terapias e equipamentos, seja contra os princípios da administração pública, tal
diante de legislações que se preocupam em minimizar fato irá caracterizar improbidade administrativa.
os gastos públicos à exata medida da arrecadação. A configuração da improbidade sujeita o gestor às
Devem também orientar o atuar do administrador sanções elencadas no art. 12 da Lei nº 8.429/925, apli-
de saúde o princípio da impessoalidade, segundo o cadas de acordo com a gravidade do ato e as suas con-
qual a atividade administrativa é própria do cargo ou seqüências. Tem-se para os atos que importam enri-
função ocupada pelo administrador, que não deve se quecimento ilícito:
confundir quanto a isso; o princípio da publicidade, a) perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente
que exige do administrador clareza, transparência nos ao patrimônio;
b) ressarcimento integral do dano, quando houver;
seus atos; da indisponibilidade, pois a atividade admi-
c) perda da função pública;
nistrativa não faculta ao gestor de saúde atuar; e da
d) suspensão dos direitos políticos por oito a dez
autotutela ou autocontrole, que permite ao adminis- anos;
trador revisar, anular e revogar seus próprios atos em e) pagamento de multa civil de até três vezes o valor
conformidade com o interesse coletivo. do acréscimo patrimonial;
f) proibição de contratar com o Poder Público ou re-
Improbidade Administrativa ceber benefícios ou incentivos fiscais ou creditícios,
O gestor de saúde, assim como qualquer outro direta ou indiretamente, ainda que por intermédio
agente público, pode ser sujeito ativo da improbidade de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário,
administrativa. Segundo Rosa15 (2004), essa improbi- pelo prazo de dez anos.
dade pode ser definida como o ato que afronta os Já para os atos que acarretam prejuízo ao erário,
princípios norteadores da atuação administrativa, ou tem-se:
seja, a administração ímproba significa, portanto, ad- a) ressarcimento integral do dano, se houver;
b) perda dos bens ou valores acrescidos ilicitamente
ministração de má qualidade.
ao patrimônio, se concorrer esta circunstância;
A Lei nº 8.429/925 trata como atos que configuram
c) perda da função pública, suspensão dos direitos
a improbidade aqueles que importam enriquecimen- políticos por cinco a oito anos;
to ilícito, os que acarretam prejuízo ao erário e por d) pagamento de multa civil de até duas vezes o valor
fim os atos contrários aos princípios da administração do dano;
pública. e) proibição de contratar com o Poder Público ou re-
É amplo o universo de pessoas cujos atos podem ceber benefícios ou incentivos fiscais ou creditício,

44 Revista da ABENO • 6(1):42-8


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

direta ou indiretamente, ainda que por intermédio correlatos.


de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, O dever de licitar decorre do art. 37, XXI, da Cons-
pelo prazo de cinco anos. tituição Federal1, que foi regulamentado através da
E para os atos violadores dos princípios da Admi- Lei nº 8.666/936 (Estatuto das Licitações para a Ad-
nistração Pública: ministração Federal e Lei de Licitações para o Distrito
a) ressarcimento integral do dano; Federal, Estados e Municípios).
b) perda da função pública, suspensão dos direitos São necessariamente precedidas de Licitação: as
políticos por três a cinco anos; obras, os serviços, inclusive de publicidade, as com-
c) pagamento de multa civil de até cem vezes o valor
pras, as alienações, as concessões, as permissões e as
da remuneração percebida pelo agente;
locações da Administração Pública. Ou seja, o gestor
d) proibição de contratar com o Poder Público ou re-
de saúde freqüentemente se encontra na necessidade
ceber benefício ou incentivos fiscais ou creditícios,
direta ou indiretamente, ainda que por intermédio de realizar uma licitação, seja para realizar compras
de pessoa jurídica da qual seja sócio majoritário, de produtos médicos ou para adquirir ou locar qual-
pelo prazo de três anos. quer outro bem que seja necessário para o Serviço de
Visando a possibilidade de se realizar uma fiscali- Saúde do Município.
zação efetiva e um acompanhamento da evolução As modalidades de licitação previstas na Lei
patrimonial dos agentes públicos, a Lei n. 8.429/925 nº 8.666/936 são: concorrência, tomada de preços,
prevê a obrigação da declaração dos bens e valores convite, concurso e leilão. A Lei nº 10.5208, de 17 de
que compõem o patrimônio particular do agente pú- julho de 2002, incluiu a modalidade denominada
blico no dia da posse para qualquer cargo. Sendo as- “pregão” para aquisição de bens e de serviços comuns
sim, é possível ao Tribunal de Contas verificar se hou- no âmbito de todos os entes federados.
ve ou não enriquecimento ilícito por parte do agente A seguir são apresentadas as modalidades de lici-
público (neste caso, o gestor de saúde). tação:
Apesar de o dano ao Erário ser imprescindível, o • Concorrência: é a modalidade de licitação entre
ato de improbidade está sujeito a prescrição de acor- quaisquer interessados que, na fase inicial de ha-
do com o art. 23 da Lei5, referida da seguinte forma: bilitação preliminar, comprovem possuir os requi-
a) até cinco anos após o término do mandato, nos ca- sitos mínimos de qualificação exigidos no edital
sos de cargo de comissão ou função de confiança; para execução de seu objeto.
b) dentro do prazo prescricional previsto em lei • Tomada de preços: é a modalidade de licitação
específica para faltas disciplinares puníveis com entre interessados devidamente cadastrados ou
demissão a bem do serviço público, nos casos de que atenderem a todas as condições exigidas para
exercício de cargo efetivo ou emprego. cadastramento até o terceiro dia anterior à data
do recebimento das propostas, observada a neces-
Licitação sária qualificação.
O gestor de saúde deve ter um grande conheci- • Convite: é a modalidade de licitação entre interes-
mento sobre direito administrativo. Dentro desse as- sados do ramo pertinente ao seu objeto, cadastra-
sunto se encontra um tema de extrema importância, dos ou não, escolhidos e convidados em número
que é a licitação. Em suma, licitação é o procedimen- mínimo de 3 (três) pela unidade administrativa, a
to administrativo destinado à seleção mais vantajosa qual afixará, em local apropriado, cópia do instru-
para a contratação almejada pela Administração e que mento convocatório e o estenderá aos demais ca-
atenda ao interesse público, ou seja, com a finalidade dastrados na correspondente especialidade que
de permitir a melhor contratação possível (seleção da manifestarem seu interesse com antecedência de
proposta mais vantajosa) e possibilitar que qualquer até 24 (vinte e quatro) horas da apresentação das
interessado, desde que atenda os requisitos legais, propostas.
possa participar da disputa pelas contratações. Ela • Concurso: é a modalidade de licitação entre quais-
garante a observância do princípio constitucional da quer interessados para escolha de trabalho técni-
isonomia e será julgada e processada em estrita con- co, científico ou artístico, mediante a instituição
formidade com os princípios básicos da legalidade, da de prêmios ou remuneração aos vencedores, con-
impessoalidade, da moralidade, da igualdade, da pu- forme critérios constantes de edital publicado na
blicidade, da probidade administrativa, da vinculação imprensa oficial com antecedência mínima de 45
ao instrumento convocatório e com os que lhes são (quarenta e cinco) dias.

Revista da ABENO • 6(1):42-8 45


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

• Leilão: é a modalidade de licitação entre quaisquer além de fundos, autarquias, fundações e empresas
interessados para a venda de bens móveis inserví- estatais dependentes11.
veis para a Administração ou de produtos legal- A busca pelo equilíbrio das contas públicas é fator
mente apreendidos ou penhorados, ou para a primordial e decisivo na redefinição do modelo eco-
alienação de bens imóveis prevista no art. 19 da nômico brasileiro, em que a estabilidade da moeda,
Lei nº 8.666/936, a quem oferecer o maior lance, o crescimento sustentado, os ganhos de produtividade
igual ou superior ao valor da avaliação. e a melhoria progressiva das condições de vida da
• Pregão: é a modalidade de licitação para aquisição população são objetivos básicos do Plano Real alicer-
de bens e serviços comuns, promovida exclusiva- çados no equilíbrio fiscal, que é uma das prioridades
mente no âmbito da União, qualquer que seja o do processo de reformas pelo qual o País vem passan-
valor estimado da contratação, em que a disputa do.
pelo fornecimento é feita por meio de propostas Esse novo padrão fiscal (LRF) fixa limites para
e lances em sessão pública. despesas com pessoal, para a dívida pública, e ainda
Além das modalidades de licitação, existem tam- determina que sejam criadas metas para controlar
bém os tipos de licitação, que estão ligados ao critério receitas e despesas, o que faz com que o administrador
de julgamento das propostas e devem estar estabele- sempre consiga pagar despesas sem comprometer o
cidos no edital ou convite. Os tipos de licitação são: orçamento ou os orçamentos futuros.
menor preço (usual); melhor técnica (o material mais Em seu artigo 113, a LRF propõe estimular as esfe-
eficiente, mais rentável, melhor); técnica e preço (pre- ras governamentais a instituir e cobrar tributos a ela
ço mais vantajoso e melhor técnica) e maior oferta ou devidos, para aumentar a receita própria e a previsão
lance (oferta em leilão)15. efetiva de referida arrecadação tributária até 30 dias
Os prazos mínimos até o recebimento das propos- antes do prazo final para o encaminhamento de seus
tas ou da realização do evento serão: propostos. O poder Legislativo só poderá fazer altera-
• 45 dias: concurso; concorrência (quando a licita- ções na receita estimada se comprovado erro ou omis-
ção contemplar o regime de empreitada integral, são de ordem técnica ou legal9.
ou o tipo melhor técnica ou técnica e preço); Tal prática não era corrente para a maioria dos
• 30 dias: concorrência (nos casos não contempla- administradores, que prioritariamente efetuavam os
dos anteriormente); tomada de preços (quando a gastos e constituíam as despesas para posteriormente
licitação for do tipo melhor técnica ou técnica e encontrar as receitas. Tal realidade foi modificada
preço); com a LRF, que tratou de inverter as ações, propor-
• 15 dias: tomada de preços (nos casos não contem- cionando uma nova realidade fiscal à esfera adminis-
plados anteriormente); leilão; trativa, exigindo de administradores maior eficiência,
• 5 dias: convite. congruência e proporção na gestão dos gastos públi-
Limites de valores para licitações (Limites fixados cos.
pela Lei 9.648 de 27/05/1998)7: Um dos pontos mais delicados da LRF encontra-se
• Obras: nos artigos 18, 19 e 203, os quais abordam o tema de
- Convite: até R$ 150.000. despesa total com pessoal, que é o somatório dos gas-
- Tomada de Preços: até R$ 1.500.000. tos com ativos, inativos pensionistas, relativos, e man-
- Concorrência: acima de R$ 1.500.000. datos eletivos, cargos, funções ou empregos, civis,
• Compras e Serviços: militares e membros dos Poderes, com vencimentos
- Convite: até R$ 80.000. e vantagens fixas e variáveis, subsídios, proventos da
- Tomada de Preços: até R$ 650.000. aposentadoria, reformas e pensões, adicionais, grati-
- Concorrência: acima de R$ 650.000. ficações, horas extras e vantagens pessoais de qualquer
natureza, bem como com encargos sociais e contribui-
Responsabilidade Fiscal ções recolhidas pela prefeitura à entidade de previ-
A Lei complementar nº 1013, de 4 de maio de 2000, dência9,11.
intitulada Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF), é A despesa total com pessoal, em cada período de
apresentada como um código de conduta para os ad- apuração (mês em referência com as despesas dos 11
ministradores públicos, compreendendo os três Po- meses imediatamente anteriores), não poderá exce-
deres (Executivo, Legislativo e Judiciário), nas três der 60% da receita corrente líquida para os Estados e
esferas de governo (federal, estadual e municipal), Municípios e 50% para a União.

46 Revista da ABENO • 6(1):42-8


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

Outros itens, referentes à dívida pública, apontam dar cumprimento à lei inconstitucional é concedida ao
questões de relevância ao administrador, nas quais particular para defesa de seu interesse privado. Não será
meios e parâmetros são colocados a fim de controlar ao Chefe de um dos Poderes para a defesa, não de seu in-
as despesas em proporção à receita, além de adequar teresse particular, mas da supremacia da constituição que
o tempo de execução das mesmas, que deve ficar den- estrutura o próprio estado.”
tro do mandato do administrador, evitando que se
acarrete ônus à próxima administração. A limitação do acesso à saúde por parte de um
Em caso de descumprimento da LRF, as punições gestor fere o direito à saúde do cidadão [Constituição
encontram-se definidas no Código Penal; na Lei nº Federal (CF), artigo 196, caput1]; contudo, a LRF im-
1.0794, de 10 de abril de 1950 (que define os crimes põe limites ao cumprimento constitucional desse di-
de responsabilidade e regula processo de julgamen- reito do cidadão. Nesse contexto, vislumbra-se talvez
to); no Decreto-Lei nº 2012, de 27 de fevereiro de 1967 a maior das dificuldades enfrentadas pelo gestor de
(que dispõe sobre a responsabilidade dos prefeitos e saúde em seu labor, vez que este se vê obrigado a ser
vereadores); e na Lei nº 8.4295, de 2 de junho de 1992 eficiente, a socorrer os anseios populacionais por uma
(que dispõe sobre as sanções aplicáveis aos agentes melhora de sua saúde, mas deve fazê-lo com a disci-
públicos nos casos de enriquecimento ilícito)9. plina de um bom financista observando a disponibili-
dade dos recursos que lhe são repassados.
Discussão A terceirização, na área da saúde, só é possível para
A administração pública, principalmente no que a realização de serviços acessórios e/ou de apoio, tais
diz respeito ao gestor de saúde, é pautada por inúme- como os de radiologia, tomografia, laboratórios, e
ras intempéries. Trata-se de uma área em que a neces- para aqueles relacionados a atividade-meio, cujas fun-
sidade está, vez por outra, diretamente ligada à vida ções terceirizadas não existem no quadro de pessoal
do usuário, determinando inclusive o mantenimento permanente do órgão, tais como serviços de limpeza,
de sua vida; portanto, é fundamental que cada usuário manutenção e vigilância. A contratação de serviços
desse sistema estabelecido esteja protegido por direi- relacionados à execução do próprio serviço público
tos indisponíveis. Nesse cenário surge o gestor, a quem de saúde (atividade-fim) somente pode ocorrer por
cabe cumprir seus deveres perante tal população, sem meio de concurso público, daí a vedação à contratação
ferir citados direitos, e ainda limitando-se ao permiti- de médicos por meio de cooperativas.
do pela legislação. Também não é lícita a terceirização para realiza-
O gestor de saúde deve principalmente atuar ba- ção de programas como os de Saúde da Família, com-
seado nos princípios da moralidade administrativa e bate à dengue, agente comunitário etc. Trata-se de
da legalidade, evitando assim, que seus atos sejam in- programas realizados pelos municípios, com a utiliza-
seridos no contexto da improbidade administrativa, ção de verbas transferidas pela União. Para a realiza-
o que acarreta sanções em cada caso específico. ção desses programas de grande cunho social, pode-se
As regras de Licitação devem ser respeitadas e, recorrer a contratações por prazo determinado
para isso, o gestor deve conhecer as suas modalidades (art. 37, inciso IX, da CF1). Outra alternativa é cons-
e tipos, obedecendo aos princípios básicos da legali- tituir um quadro de pessoal vinculado ao prazo de
dade, da impessoalidade, da moralidade, da igualda- duração dos programas para o preenchimento de em-
de, da publicidade, da probidade administrativa, da pregos por servidores celetistas concursados especifi-
vinculação ao instrumento convocatório e aos que camente para esse fim. Ao término da transferência
lhes são correlatos. de recursos para a realização dos programas, o profis-
A inconstitucionalidade de alguns temas, como a sional seria dispensado, já que teria sido contratado
LRF, é abordada por Figueiredo et al.9 (2001) como: para um fim específico.

“...esta lei não pode suprimir a competência estadual e Conclusões


municipal, em matéria de finanças públicas, vez que ela é Conclui-se que a atuação do gestor de saúde no
inerente a autonomia federativa e que, por isso, apenas as cenário administrativo é cercada de responsabilidades
normas gerais são de obrigatória observância pelos Estados, e deveres frente ao Estado; responsabilidades estas
Municípios e Distrito Federal...” que não fazem parte do currículo de formação de um
profissional de saúde, o que deixa o mesmo vulnerá-
“A opção entre cumprir a Constituição e desrespeitá-la para vel, à mercê de uma legislação volátil, muitas vezes

Revista da ABENO • 6(1):42-8 47


Responsabilidade administrativa do Gestor de Saúde • Peres AS, Bastos JRM, Lauris JRP, Silva RPR, Mendes Silva H, Lopes Junior C

desconectada das muitas realidades apresentadas por Referências Bibliográficas


nosso país. O gestor de saúde quando profissional da 1. Brasil. Constituição da República Federativa do Brasil, de 5 de
área de saúde carece de conhecimento jurídico, quan- outubro de 1988 [citado 2004 mar]. Disponível em URL: http://
do não pertencente à área, carece de conhecimento dtr2001.saude.gov.br/bvs/legislação/decretos.htm.
humanitário, assim, ambos ao enfrentarem o dilema 2. Brasil. Decreto-Lei nº 201, de 27 de fevereiro de 1967 [citado
necessidade populacional versus possibilidade estatal 2005 jun]. Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/cci-
demonstram dificuldade em face do conhecimento vil_03/decreto-lei/Del0201.htm.
parcial que possuem. 3. Brasil. Lei complementar nº 101, de 4 de maio de 2000 [citado
A situação do gestor é deveras complexa, pois este 2005 jun]. Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/cci-
não pode argumentar sequer a pressuposta inconsti- vil_03/leis/Lcp/Lcp101.htm.
tucionalidade de algumas leis ou alguns atos limitado- 4. Brasil. Lei nº 1.079, de 10 de abril de 1950 [citado 2005 jun].
res de sua atuação, sob pena de responder pela inob- Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
servância. Em contrapartida, não pode ser negligente L1079.htm.
com a saúde da população, tendo sempre como nor- 5. Brasil. Lei nº 8.429, de 2 de junho de 1992 [citado 2005 jun].
teadores os princípios administrativos e a constituição Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
federal. L8429.htm.
Sem dúvida o equilíbrio entre leis, princípios cons- 6. Brasil. Lei nº 8.666, de 21 de junho de 1993 [citado 2005 jun].
titucionais e administrativos e principalmente o res- Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
peito ao usuário são importantes guias do gestor de L8666cons.htm.
saúde, as quais tendem a evitar sua responsabilização 7. Brasil. Lei nº 9.648, de 27 de maio de 1998 [citado 2005 jun].
ou, pelo menos, servem como justificadores legítimos Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/
de seus atos. L9648cons.htm.
8. Brasil. Lei nº 10.520, de 17 de julho de 2002 [citado 2005 jun].
Abstract Disponível em URL: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/
The health manager’s administrative responsability leis/2002/L10520.htm.
Health professionals in general, including den- 9. Figueiredo CM, Ferreira C, Raposo F, Braga H, Nóbrega M.
tists, may act in their professions in different ways. Comentários à Lei de Responsabilidade Fiscal. 2ª ed. São Pau-
These include the activity of the health manager, lo: Revista dos Tribunais; 2001.
whose importance in the national political outlook 10. Hauriou M. Précis Élémentaires de Droit Administratif (1926)
has increased lately due to its essential role in address- apud Meirelles HL. Direito Administrativo Brasileiro. 27ª ed.
ing the population’s needs. Acting in this field re- São Paulo: Malheiros; 2002.
quires knowledge that is usually not provided by the 11. Khair AA. Lei de Responsabilidade Fiscal: guia de orientação
normal curriculum of universities. The present paper para as prefeituras. Ministério do Planejamento, Orçamento e
aims at presenting the main responsibilities and obli- Gestão, BNDS, Brasília; 2000.
gations of the health manager towards the State, based 12. Meirelles HL. Direito Administrativo Brasileiro. 27ª ed. São
on principles of administrative law and on the current Paulo: Malheiros; 2002.
legislation. A literature review was conducted on the 13. Mello OAB. Princípios Gerais de Direito Administrativo. 2ª ed.
main issues of administrative law, administration prin- Rio de Janeiro: Forense; 1979.
ciples, administrative misconduct, the invitation to bid 14. Rocha CLA. Princípios Constitucionais da Administração Pú-
statute and fiscal responsibility. It was noticed that the blica (1994) apud Meirelles HL. Direito Administrativo Brasi-
work of a health manager in the administrative out- leiro. 27ª ed. São Paulo: Malheiros; 2002.
look is restricted by responsibilities and duties towards 15. Rosa MFE. Direito Administrativo - Vol 19. 6ª ed. São Paulo:
the State, rendering that professional vulnerable due Saraiva; 2004.
to the lack of knowledge on his/her functions.
Aceito para publicação em 10/2005
Descriptors
Public administration. Public health administra-
tion. Public health. §

48 Revista da ABENO • 6(1):42-8


Projeto “Odontologia Hospitalar”
Aperfeiçoamento do conhecimento técnico necessário em situações de
risco à vida do paciente e levantamento das condições de saúde bucal
de pacientes hospitalizados.
Guilhermo Manfio Doro*, Lucas Meneghello Fialho*, Maximiliano Losekann**, Dênis
Nestor Pfeiff***

* Acadêmicos de Odontologia da Universidade Luterana do Brasil,


Campus Cachoeira do Sul. E-mail: guilhermodoro@hotmail.com.br,
togniotte@terra.com.br.
** Acadêmico de Odontologia da Universidade de Santa Cruz. E-mail:
maxlosekann@yahoo.com.br.
*** Professor Adjunto do Curso de Odontologia da Universidade Luterana
do Brasil, Campus Cachoeira do Sul. E-mail: dpfeiff@uol.com.br.

Resumo com deformidades, bem como de pacientes com can-


Durante a formação acadêmica, o estudante de didíase ou outros tipos de patologias relacionadas à
odontologia aprende diversos procedimentos invasi- falta de higiene. As conclusões mostram a necessidade
vos com potencial para provocar reações adversas em de haver um trabalho a longo prazo, envolvendo
seus pacientes; entretanto, encontra-se despreparado orientações diárias aos pacientes hospitalizados, ou
para solucionar qualquer eventualidade. Este artigo até mesmo a inclusão de um dentista na equipe clíni-
relata um projeto executado no Hospital de Caridade ca da instituição.
e Beneficência de Cachoeira do Sul, que teve por ob-
jetivo proporcionar um aperfeiçoamento dos conhe- Descritores
cimentos teóricos e práticos sobre os procedimentos Prestação de cuidados odontológicos. Primeiros
socorros. Tratamento de emergência. Unidade hospi-
de primeiros socorros em situações de emergência,
talar de Odontologia. Higiene bucal.
além de passar noções a respeito da administração de
medicamentos por vias invasivas e da verificação dos
sinais vitais. Concomitantemente, realizou-se uma ava-
liação sobre as condições da saúde bucal dos pacientes
O projeto “Odontologia Hospitalar”, realizado no
primeiro bimestre do ano de 2004 com carga
horária de 120 horas, teve o objetivo de proporcionar
hospitalizados e sobre as condições que a instituição
um aperfeiçoamento dos conhecimentos teóricos e
possui para promover corretamente a higiene oral de
práticos em relação aos primeiros socorros e às situa-
seus pacientes. Pretende-se através deste trabalho ções emergenciais. Esses conhecimentos englobam a
conscientizar os profissionais da Odontologia sobre a administração de medicação pelas vias intramuscular
importância do conhecimento técnico diante uma (IM), intravenosa (IV) e subcutânea (SC) e a verifica-
situação de risco à vida de seu paciente, a qual se en- ção dos sinais vitais. Os profissionais formados em
contra presente diariamente em ambiente hospitalar. odontologia estão aptos a administrar várias técnicas
Com relação às condições hospitalares, foi constatada anestésicas, bem como a realizar procedimentos cirúr-
carência na realização da higiene oral dos internos, gicos; porém, muitas vezes não se encontram prepa-
tanto a equipe de enfermagem como os próprios rados para realizar manobras de primeiros socorros
acompanhantes não se importavam com a saúde bucal em situações emergenciais e administrar medicamen-
dos mesmos. Alguns pacientes foram submetidos a tos pelas vias IM, IV e SC, o que pode ser necessário
exames clínicos, nos quais se observou uma grande em algumas dessas situações. Concomitantemente ao
prevalência de usuários de próteses, a maioria delas aperfeiçoamento de conhecimentos, viabilizou-se aos

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Projeto “Odontologia Hospitalar” • Doro GM, Fialho LM, Losekann M, Pfeiff DN

estagiários do curso de Odontologia a avaliação das truídas por algum corpo estranho, como próteses,
condições de saúde bucal dos pacientes internados coágulo, objetos etc. A seguir, deve-se realizar o le­
através de um exame clínico detalhado; também fo- vantamento e a anteriorização da mandíbula, para
ram realizados o controle de higiene bucal e a orien- facilitar a respiração do paciente em casos de politrau-
tação de higiene oral, transmitida aos pacientes e aos matizados; essa manobra deve ser feita após a coloca-
acompanhantes. A equipe de enfermagem também ção de um colete cervical, evitando assim possíveis
recebeu instruções e orientações de higiene oral, a agravamentos de lesões cervicais e lombares. Deve-se,
fim de proporcionar uma melhora na qualidade dos na seqüência, expor o tórax e verificar se há expansão;
serviços prestados e uma adequada manutenção da isso indicará ao profissional que o mesmo está respi-
saúde bucal dos pacientes internos. rando. Se o paciente não apresentar movimentos e a
papila estiver dilatada, o profissional deve iniciar ime-
Material e Métodos diatamente a massagem cardíaca e a respiração artifi-
Apresentaram-se como voluntários três acadêmi- cial.
cos de odontologia, os quais, na primeira semana, O profissional deve realizar os seguintes procedi-
conheceram o ambiente hospitalar e a equipe médica mentos: com uma mão apoiada sobre o dorso da outra
e receberam treinamento teórico e prático na verifi- e os braços esticados, usando somente o peso do cor-
cação dos sinais vitais, como pressão arterial, pulso, po, massagear o paciente na região do osso esterno4.
freqüência respiratória e temperatura. Os alunos re- A respiração artificial deve ser realizada de forma que
alizaram treinamento prático em um boneco simulan- uma mão consiga segurar o queixo e a outra feche o
do paradas respiratórias e cardíacas. As atividades de nariz para que o ar não saia por ele. A reabilitação dos
prestação de serviço odontológico aos pacientes eram sinais vitais do paciente deve ser alternada de forma
realizadas em períodos intercalados, com os ensina- que sejam feitas 15 massagens a cada 2 respirações se
mentos proporcionados pela enfermeira Janine o socorrista estiver sozinho; caso haja alguém que pos-
­Koepp e pelo professor médico Dênis Pfeiff. Também sa ajudar, devem ser feitas 5 massagens para cada res-
se permitiu que os estagiários avaliassem as condições piração4. A massagem cardíaca e a respiração artificial
de saúde bucal dos pacientes internados através de devem ser mantidas o máximo de tempo possível, até
um exame clínico detalhado e realizassem o controle o paciente chegar à unidade hospitalar4.
de higiene bucal e a orientação de higiene oral aos
pacientes e aos acompanhantes. As instruções e orien- Considerações importantes
tações de higiene oral também foram passadas para quanto À saúde bucal do paciente
enfermeiros e técnicos em enfermagem, a fim de se hospitalar
conseguir uma melhora na qualidade dos serviços Sabe-se que certas condições sistêmicas podem ser
prestados, para uma boa manutenção da saúde bucal influenciadas pela doença periodontal, e a doença
dos internos. periodontal pode estar sendo influenciada por certa
condição sistêmica.
Procedimentos de primeiros socorros
As situações que levam a uma parada respiratória Influência das condições sistêmicas
são muitas, como por exemplo afogamento, respira- sobre as doenças periodontais
ção excessiva de gases, choque elétrico, parada cardí- Em geral, pacientes diabéticos têm alta prevalên-
aca, bem como obstrução das vias aéreas por corpos cia de problemas odontológicos, perceptíveis pela
estranhos. ocorrência de candidíase, secura bucal, cárie e doen-
Durante o estágio, os acadêmicos aprenderam ça periodontal1. Os pacientes que sofrem de diabetes
que, quando houver uma situação de parada respira- mellitus e estão descompensados, quando possuem
tória, deve-se procurar socorro hospitalar imediato. doença periodontal, esta se dá de forma mais severa
Porém, enquanto a vítima não chega ao hospital, al- devido a fatores microbianos, metabólicos e ao preju-
gumas manobras podem ser realizadas conforme des- ízo funcional dos neutrófilos. Portanto, pacientes com
critas a seguir. A vítima deve ser posicionada deitada, diabetes e que estão hospitalizados devem ter cuida-
se estiver sentada; o profissional deve aproximar o dos especiais com a saúde bucal, para evitar o surgi-
ouvido próximo ao nariz ou à boca da vítima, para mento de doenças bucais, que ocorrem quando há
escutar se ainda há respiração. Nesse momento, de­- falha na remoção mecânica da placa bacteriana2.
ve-se conferir se as vias aéreas não se encontram obs- Os pacientes com SIDA/AIDS, por deficiência do

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Projeto “Odontologia Hospitalar” • Doro GM, Fialho LM, Losekann M, Pfeiff DN

sistema imunológico, podem apresentar manifesta- nocítico-fagocitário a secretarem citocinas inflamató-


ções clínicas características da doença, incluindo inú- rias em maior quantidade, que podem se somar àque-
meras infecções por fungos, vírus, bactérias e até mes- las secretadas localmente no periodonto e ganhar
mo o desenvolvimento de neoplasias, como o sarcoma acesso à circulação. Esses eventos podem iniciar ou-
de Kaposi. A cavidade bucal representa o principal tros, como agregação e adesão plaquetária, acúmulo
meio de comunicação do ambiente interno com o de células gordurosas e deposição de colesterol na
externo, sendo colonizada por mais de 500 diferentes parede dos vasos2.
espécies de microrganismos. Com o imunocompro- As infecções pulmonares também podem estar
metimento severo, muitos microrganismos têm seu influenciadas pela doença periodontal. As possíveis
potencial patogênico ampliado, deixando o paciente vias de infecção do trato respiratório são: aspiração de
mais propenso ao surgimento de doenças periodon- microrganismos da orofaringe, inalação de aerossóis
tais severas e de candidíase. Pacientes imunocompro- infectantes, disseminação de áreas adjacentes e con-
metidos também devem ter cuidados especiais com a taminação hematogênica. A cavidade bucal pode abri-
saúde bucal2. gar patógenos causadores de doenças pulmonares,
Estudos têm mostrado que pacientes com distúr- principalmente em indivíduos com má higiene bucal
bios psicossociais, quando apresentam doença perio- e imunocomprometidos e em indiví­duos idosos insti-
dontal, esta ocorre de forma mais severa que em pa- tucionalizados. Ainda, pode-se associar esses fatores à
cientes sem alteração psiquiátrica. Há muito tempo ventilação mecânica artificial e à colocação de tubos
tem-se verificado o surgimento de gengivite ulcerativa ou sondas endotraqueais nos indivíduos hospitaliza-
necrotizante em pacientes psiquiátricos. Essa gengivi- dos. Alguns autores têm estudado o papel do contro-
te é uma manifestação severa da doença periodontal, le de placa bacteriana na prevenção das alterações
que causa dor, odor e dificuldades na alimentação e pulmonares. A clorexidina, antisséptico bucal, pode
higienização bucal. Portanto, o controle da higiene ser usada na prevenção de pneumonias em indivíduos
bucal nesses pacientes deve ser rigoroso, para se pre- hospitalizados2.
venir o surgimento da doença. Durante o estágio as- Estima-se que pacientes grávidas com doença pe-
sistimos um paciente psiquiátrico com a doença já riodontal possuam 7,5 vezes mais chances de ter parto
instalada; através de realização de controle do meio prematuro. Os mecanismos biológicos envolvem a
bucal, pôde ser observada uma melhora nas condi- ativação bacteriana da imunidade celular, com au-
ções desse paciente. Orientações aos familiares e res- mento da produção e secreção de citocinas inflama-
ponsáveis quanto à necessidade rigorosa no controle tórias, as quais podem desencadear o trabalho de
de higiene bucal ajudam muito na preservação da parto prematuramente2.
saúde bucal desses pacientes2.
Alguns medicamentos utilizados também podem Estipulação do uso da clorexidina
constituir fatores de risco para a doença periodontal, como substância adjuvante no
como anticonvulsivantes, antidepressivos e vários fár- controle de placa bateriana no
macos associados à redução do fluxo salivar. Em casos ambiente hospitalar
de pacientes com xerostomia, pode-se utilizar, como O digluconato de clorexidina é uma guanida com
coadjuvante à higiene bucal, a aplicação tópica de efeitos antiplaca maiores que os de outros agentes
saliva artificial em períodos alternados, para mais con- antimicrobianos, devido à sua acentuada capacidade
forto do paciente2. de adsorção aos dentes e às superfícies mucosas, com
posterior liberação na cavidade oral em níveis tera-
Influência das doenças periodontais nas pêuticos, sendo liberada durante 24 horas2.
condições sistêmicas Durante o estágio, verificamos que o hospital pos-
Estudos epidemiológicos têm fornecido fortes evi- suía um antisséptico bucal, porém o frasco não conti-
dências do papel da doença periodontal moderada a nha identificação do produto. De qualquer forma,
severa como fator de risco à saúde geral do indivíduo, enfatizamos a importância da aquisição do antissépti-
incluindo alterações cardiovasculares, acidentes vas- co pela unidade hospitalar.
culares cerebrais (AVC), descontrole metabólico do Pesquisas demonstram que o bochecho durante 1
diabetes, infecções pulmonares e parto prematuro2. minuto 2 vezes ao dia, com 10 ml de solução a 0,12%,
Quanto aos efeitos cardiovasculares, a infecção previne o desenvolvimento da gengivite. O seu uso
periodontal pode estimular as células do sistema mo- está indicado em pacientes hospitalizados por um lon-

Revista da ABENO • 6(1):49-53 51


Projeto “Odontologia Hospitalar” • Doro GM, Fialho LM, Losekann M, Pfeiff DN

go tempo; porém, é importante esclarecer que ela está seu currículo uma disciplina que simule situações de
recomendada em pacientes que não conseguem rea- emergência em bonecos, como foi feito nesse estágio,
lizar a higiene oral, previamente a procedimentos para que os acadêmicos tenham oportunidade de co-
como entubação e sondagem e em pacientes imuno- locar em prática seus conhecimentos teóricos. Quan-
comprometidos. Alguns efeitos colaterais têm sido do essas situações ocorrerem em seus consultórios, os
verificados, como pigmentação de dentes, descama- mesmos saberão como proceder, proporcionando um
ção do dorso da língua, sensibilidade oral e alteração atendimento com tranqüilidade e qualidade.
da gustação após algumas horas. A clorexidina, como Tendo em vista que a maioria das emergências
qualquer outro agente antimicrobiano potente, deve necessitam de atendimento imediato, com adminis-
ser administrada somente sob supervisão profissio- tração de medicamentos pelas vias IM, IV e/ou SC,
nal2. muitos cirurgiões-dentistas não se encontram aptos a
realizar esses procedimentos. É interessante lembrar
Discussão que todo cirurgião-dentista encontra-se apto a realizar
Tendo em vista que a maioria das complicações bloqueios regionais durante as várias técnicas anesté-
odontológicas são infecções brandas, os sinais vitais sicas e cirurgias, embora muitos não estejam aptos a
do paciente são uma importante ferramenta de inves- realizar os procedimentos citados anteriormente.
tigação para se registrar o estado fisiológico atual do Atualmente, estamos vivenciando uma era de mu-
paciente. É rápida, simples de ser executada e de bai- danças na odontologia, na qual devemos olhar o pa-
xo custo. Quando falamos em sinais vitais estamos nos ciente como um todo, avaliando não apenas a boca e
referindo a temperatura, pressão sangüínea, pulso e os dentes, mas seu estado de saúde geral. Esta muitas
freqüência respiratória3. vezes pode estar em risco pela falta de preparo de
Segundo Peterson5 (2000), os pacientes com en- alguns profissionais para lidar com uma situação de
volvimento sistêmico terão temperaturas elevadas. Em emergência, expondo-se a vida de seus pacientes du-
infecções graves, a temperatura pode subir a 38°C ou rante qualquer procedimento rotineiro.
39°C. O pulso do paciente aumentará com a elevação
da temperatura; isso é outro sinal clínico de que o Conclusão
profissional está diante de uma infecção grave (pulso O contato com vários pacientes possibilitou-nos
acima de 100 batimentos por minuto). um controle da saúde bucal. Criou-se um formulário
A pressão sangüínea é o sinal vital que menos pode para orientação e realização do exame clínico voltado
variar com infecções; isso ocorre somente quando o à saúde bucal dos mesmos. Pôde-se verificar que a
paciente apresentar ansiedade e dor intensa5,6. A fre- maioria dos pacientes estão deficientes no controle
qüência respiratória é um dos sinais vitais mais impor- de saúde bucal; muitos pacientes internados possuíam
tantes devido à possibilidade de obstrução das vias próteses e as mesmas estavam deficientes quanto ao
aéreas, o que pode levar o paciente à morte. Toda controle de higiene por deficiência do hospitalizado,
infecção tem como características: dor, calor, rubor, por carência de motivação dos acompanhantes, por
edema e perda da função, e muitas vezes, pacientes falta de material de higiene oral e por estrutura defi-
com infecções brandas e moderadas apresentam fre- ciente do hospital, como por exemplo a falta de um
qüência respiratória elevada (de 18 a 20 respirações espelho no banheiro para possibilitar a visualização
por minuto)5. É óbvia a necessidade do conhecimen- da completa remoção da placa bacteriana. A falta de
to prévio dos sinais vitais do paciente antes de qual- higienização das próteses estava freqüentemente re-
quer procedimento clínico; porém, muitas vezes al- lacionada ao surgimento de candidíase. Esses pacien-
guns colegas não realizam esses procedimentos em tes foram orientados a uma higienização correta, a fim
seus consultórios devido à falha de ênfase na impor- de controlar e reverter o quadro de candidíase; po-
tância desses procedimentos durante sua graduação. rém, outros não possuíam coordenação motora, nem
Atualmente, nota-se que muitos cirurgiões-dentis- mesmo um acompanhante capaz de manter a higiene
tas apresentam-se despreparados para realizar proce- bucal diária, o que complica o quadro clínico oral.
dimentos de primeiros socorros. Isso é devido à falha Proporcionou-se toda assistência odontológica permi-
no ensino das escolas de graduação, as quais apenas tida possível, porém o tempo que tínhamos não era
enfatizam o conhecimento teórico de técnicas que os suficiente para um controle ideal de todos os pacien-
alunos muitas vezes nunca utilizaram. Por isso a im- tes das unidades trabalhadas. Existiam os pacientes
portância de as escolas de graduação incluírem em que eram controlados e recebiam cuidados ideais dos

52 Revista da ABENO • 6(1):49-53


Projeto “Odontologia Hospitalar” • Doro GM, Fialho LM, Losekann M, Pfeiff DN

acompanhantes ou realizavam a sua higiene oral em drugs and check vital signs. Concurrently, an assess-
padrões aceitáveis, porém esses faziam parte da mino- ment of the oral health of patients was carried out, as
ria. well as of how the hospital promoted oral hygiene
O controle da placa bacteriana é muito importan- among patients. The purpose of this study was to make
te nos pacientes internos do hospital, principalmente dental practitioners aware of the importance of know-
nos que possuem afecções sistêmicas. O uso da clore- ing first aid procedures, which are of fundamental
xidina tem sido recomendado em pacientes hospita- importance for the life of patients. With regard to the
lares na prevenção da doença periodontal quando, hospital’s assessment, we observed that oral hygiene
por algum motivo, a remoção mecânica da placa não of the patients was not adequately practiced. Some
pode ser realizada. O hospital carece de serviços odon- patients were submitted to clinical examination, and
tológicos, principalmente para atuar na prevenção de it was observed that many of them wore prostheses,
doenças bucais e no controle das mesmas. most of them inadequate ones. Some patients also
O trabalho realizado durante o primeiro bimestre presented candidiasis or other pathoses related to
do ano de 2004 foi de grande valia para os acadêmicos poor oral hygiene. The conclusions showed the need
de Odontologia, pois alcançou as expectativas espera- to give daily recommendations to hospitalized patients
das pelos mesmos. O projeto permitiu, ainda, uma or even to hire a dentist to become part of the hospi-
convivência direta durante 120 horas intercaladas tal’s staff.
com o Sistema Único de Saúde e com o ambiente
hospitalar, proporcionando experiência no contato Descriptors
com pessoas sofredoras de doenças crônicas e muitas Delivery of health care. First aid. Emergency treat­
vezes terminais. Também não se deve esquecer da ment. Dental service, hospital. Oral hygiene. §
alegria proporcionada pelos acadêmicos a muitos pa-
cientes e, por estes aos estudantes de Odontologia, Referências bibliográficas
não somente pelo serviço prestado, mas, muitas vezes, 1. Brunetti RF, Montenegro FLB, Manetta CE. Interações entre a
pelo simples fato de estarem lá convivendo. Medicina e a Odontologia. In: Brunetti RF, Montenegro FLB.
Odontogeriatria - noções de interesse clínico. São Paulo: Artes
Agradecimentos Médicas; 2002. p. 101-14.
Agradecemos à direção do Hospital de Caridade 2. Egbert B, Toledo C, Junior CR. Influências das condições sis-
e Beneficência de Cachoeira do Sul, aos pacientes e à têmicas sobre as doenças periodontais e das doenças periodon-
toda equipe médica que acompanhou e colaborou tais sobre as condições sistêmicas. In: Tunes UR, Rapp GE.
para o andamento do projeto. Agradecemos também Atualização em periodontia e implantodontia. São Paulo: Artes
à 8ª Coordenadoria Regional de Saúde, pela doação Médicas; 1999. p. 31-55.
de 50 escovas dentais, e a orientação prestada pelo 3. Genovese WJ, Junior JG. Sinais vitais. In: Genovese WJ.­
Professor Dênis Pfeiff e pela enfermeira Janine Metodologia do exame clínico em odontologia. 2ª ed. São Pau-
­Koepp. lo: Pancast; 1992. p. 117-32.
4. Mussi NM. Técnicas fundamentais de enfermagem. São Paulo:
Abstract Atheneu; 1995. p. 29-35 e 123-37.
The “Hospital Dentistry” Project 5. Peterson JL. Princípios da abordagem e prevenção das in-
During higher education, dental students learn fecções odontogênicas. In: Peterson JL. Cirurgia oral e maxilo-
various invasive procedures which may cause adverse facial contemporânea. 3ª ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koo-
reactions in patients. However, these students are not gan; 2000. p. 389-411.
prepared to face these situations properly. This study 6. Sonis ST, Fazio RC, Fang L. Hipertensão. In: Sonis ST, Fazio
reports a project carried out at the Hospital de Cari- RC, Fang L. Princípios e prática de medicina oral. 2ª ed. Rio
dade e Beneficência de Cachoeira do Sul, whose pur- de Janeiro: Guanabara Koogan; 1996. p. 37-45.
pose was to provide dental students with further theo-
retical knowledge and practice on first aid procedures. Aceito para publicação em 06/2005
The project also taught students how to administer

Revista da ABENO • 6(1):49-53 53


A problematização como modelo para
ensino universitário: uma experiência
piloto com alunos do 3º e 4º anos do
curso de odontologia
Há exigüidade de modelos de ensino que tragam os discentes
à compreensão da realidade de seus pacientes. O uso da
problematização permitiu aos discentes ver a pessoa que tratam,
com seus componentes socioculturais.
Rodrigo Otávio Moretti Pires*, Sonia Maria Villela Bueno**

* Doutorando da Universidade de São Paulo. E-mail:


rodrigomorettimsc@yahoo.com.br.
** Professora Livre-Docente/Associada da Escola de Enfermagem de
Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo.

RESUMO ciou-se como não-resolutivo em relação às demandas


No presente trabalho os autores investigam resu- populacionais, já que imbui a atuação dos cirurgiões-
midamente o desenvolvimento da odontologia e de dentistas em uma prática curativista e focada no mo-
seu ensino. Discorrem sobre o perfil do cirurgião-den- mento do atendimento clínico, e não no atendimento
tista atual e a ineficácia de sua atuação frente às de- do paciente integrado em seu todo12. Em contraparte,
mandas populacionais. Como experiência pedagógi- a própria categoria dos cirurgiões-dentistas não des-
ca, promoveu-se, em 5 dias e utilizando três períodos pertou para essas questões das demandas populacio-
em cada, um curso intensivo de capacitação em Saúde nais e para o largo campo de atuação que mostra a
da Família a alunos do terceiro e quarto anos de uma saúde pública, a qual necessita não apenas da prática,
Faculdade de Odontologia particular do interior do mas também de reflexões sobre novos modelos de
Estado de São Paulo. Ao final do curso, os alunos res- aplicação da Odontologia que se mostrem efetivos.
ponderam a um questionário semi-estruturado e ava- Esse contexto vem ao encontro de considerações teó-
liaram as diferenças, vantagens e desvantagens do uso ricas que conceituam a Odontologia em crise atual-
no ensino de Odontologia do modelo tradicional e mente. Esse panorama é amplamente apontado na
do modelo da problematização preconizado por Frei- literatura, com perda das características que garan-
re6 (1996). tiam a identificação dos CDs como genuínos profis-
sionais liberais de saúde, acrescida à referida ineficá-
Descritores cia em relação à população e à ausência de reflexões
Educação em Odontologia. Aprendizagem basea- sobre o contexto que permeia atualmente a catego-
da em problemas. ria11.
As considerações sobre a inadequação da propos-

A odontologia caracterizou-se ao longo de sua his-


tória por um modelo de ensino técnico, desen-
volvido a partir de 1919, e que falha na busca de alter-
ta da odontologia como prática social atingem direta-
mente outros campos do conhecimento como sua
participação em pesquisa científica e a bioética. Nesse
nativas7. A partir da criação e consolidação do Sistema pensamento, Susin, Rösing14 (1999) afirmam que a
Único de Saúde (SUS), este modelo de ensino eviden- odontologia, em seu modelo tradicional, “por muitos

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A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

anos, relegou a base científica por ela produzida a um Saúde da Família aos alunos do curso de odontolo-
segundo plano”. Amorim1 (2002), ao pensar sobre a gia.
questão da bioética na formação do odontólogo, afir-
ma que a categoria “(...) precisa parar e refletir para Considerações sobre o uso da
melhor delimitar qual o seu papel como ciência da problematização
saúde, dentro do conceito amplo de saúde”. Freitas7 Em 1975, Freire6 aponta na primeira edição de seu
(2001) afirma que na Odontologia brasileira até os trabalho “A pedagogia do Oprimido” para a necessi-
dias atuais predominou a prática empírica em detri- dade de revisão dos modelos pedagógicos emprega-
mento da ciência, sendo reflexo do individualismo dos no Brasil, na direção da humanização da educa-
vinculado ao exercício com ausência de enfoque para ção. Segundo Freire6 (1996), a tomada da pedagogia
a atenção coletiva. Esse enfoque individualista e cen- humanizadora como caminho é a única forma de se
trado no cirurgião-dentista traduz-se na prática clínica cumprirem os reais papéis da educação, já que essa se
dos consultórios particulares, com um caráter prático traduz numa prática pedagógica em que o método
emergencial e curativo; com características que pri- deixa de ser instrumento educador e deixa de mani-
mam pelas especialidades ao invés de objetivar o ca- pular os educandos para os fins de quem planeja o ato
ráter generalista do ser humano. Tais características educativo, com o objetivo de despertar nos alunos a
são corroboradas por Zanetti16 (1999), que aponta a própria consciência sobre os assuntos com os quais
origem na história da Odontologia brasileira e, como trabalhará, respeitando-se inclusive os conhecimentos
conseqüência, no próprio modelo de ensino utilizado e as vivências pregressas dos mesmos.
no corpo de disciplinas das Faculdades de Odontolo- Sobre o modelo tradicional de ensino, chamado
gia do país, que não lega aos acadêmicos a visão das por Freire6 (1996) de concepção “bancária” da edu-
questões societárias e de valores humanísticos, tornan- cação, o autor declara que o educador tem um papel
do-os despreparados para o enfrentamento destes que exclusivo de narrador/dissertador da verdade e dos
permearão seu dia-a-dia após a graduação. fatos que deseja transmitir aos educandos.
A inserção do cirurgião-dentista no mercado de Segundo Freire6 (1996), o diálogo e a problema-
trabalho atual foi o tema de investigação de Moretti tização são fundamentos da educação, e o trabalho do
Pires11 (2005). Nessa pesquisa, o autor se deparou com educador sobre o conteúdo programático não se pau-
inúmeros dados qualitativos que apontaram para a ta em uma “doação ou uma imposição – um conjunto
não capacitação desses profissionais para lidar com de informes a ser depositado nos educandos –, mas
questões sociais e coletivas ligadas também à humani- na devolução organizada, sistematizada e acrescenta-
zação do atendimento em saúde. Ao final do trabalho da ao povo, daqueles elementos que este lhe entregou
ficava o questionamento de como ter um cirurgião- de forma inestruturada”.
dentista em um modelo enfocado na prática coletiva Pelo discutido na revisão da literatura, depreende-
na sociedade capitalista atual, porque, antes de serem se que a formação puramente técnica em Odontolo-
profissionais, trata-se de cidadãos modulados e modu- gia, tal como instituída nas Instituições de Ensino
ladores da sociedade em que vivem11. Superior, focaliza o ensino de maneira divergente, na
Para Mello10 (2004), o acadêmico em odontologia medida em que o objetivo final, a formação profissio-
demonstra não ter maturidade ou visão social, consi- nal, modula o processo até o educando; Freire6 (1996)
derando que os problemas de caráter sanitário e sócio- apresenta que o processo deve ser o inverso, ou seja,
econômico não lhe competem e não se identifica com parte-se de quem está aprendendo, de seus conheci-
os problemas dos estratos sociais menos favorecidos mentos pregressos para então se chegar à finalidade
economicamente, mesmo que os pacientes que aten- da formação educacional. O importante, do ponto de
da no ambiente universitário sejam oriundos predo- vista de uma educação libertadora, e não “bancária”,
minantemente desses estratos. é que “os homens se sintam sujeitos de seu pensar,
O Ministério da Saúde tem preconizado a adoção discutindo o seu pensar, a sua própria visão do mundo,
do Programa Saúde da Família como estratégia de manifestada implícita ou explicitamente, nas suas su-
remodelação da assistência básica no que se refere ao gestões e nas de seus companheiros”.
talhe de atendimento tradicional. Em seu trabalho “A pedagogia da autonomia”,
O presente trabalho pretende debater a experiên- Freire5 (1996) aponta que “a ampliação e a diversifi-
cia da utilização da problematização como modelo cação das fontes legítimas de saberes é o saber-ser-
alternativo para o ensino dos princípios do Programa pedagógico”, primando pela valorização dos conteú-

Revista da ABENO • 6(1):54-60 55


A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

dos e das realidades trazidas no processo de educação de.


pelos educandos, e buscando colocar professores e Essa capacitação teórica se deu na forma de deba-
alunos em pé de igualdade no processo mencionado. te sobre todos os temas, incluindo o uso de dinâmicas
Freire5 (1996) vê assim constituída uma “prática do- de grupo (baseados na metodologia da pesquisa-ação
cente enquanto dimensão social da formação huma- de Kurt Lewin), a programação de situações hipotéti-
na” e não como um simples transmitir de técnica e cas que levavam ao exercício dos princípios trabalha-
idéias. dos e a confecção de questionários para investigação
pormenorizada por parte dos alunos da realidade da
METODOLOGIA vivência prática em PSF.
A procura pelos autores por uma Faculdade de No que se refere à vivência prática, deu-se de duas
Odontologia particular do interior do Estado de São formas:
Paulo para a realização de um curso de capacitação 1. A aplicação dos questionários de entrevistas aos
de uma semana em Programa Saúde da Família des- usuários do PSF, às Agentes Comunitárias de
pertou a idéia do uso da problematização nesse pro- Saúde, ao Gestor Municipal, ao Presidente da
Câmara e a um Vereador (Legisladores) e a um
cesso de ensino, na medida em que esta estratégia do
líder religioso.
Ministério da Saúde visa a modificação de paradigmas
2. Visita a Unidades de Saúde da Família para per-
implicados nos serviços públicos de saúde, como re- ceber o cotidiano das mesmas.
ferido anteriormente na introdução. As respostas dos questionários foram organizadas
Aos discentes da referida Faculdade foi oferecida de forma que cada dupla de alunos confeccionou um
a possibilidade de participação no curso, devendo vo- trabalho de conclusão do curso, discorrendo e anali-
luntariamente inscrever-se para o mesmo. Esses dis- sando com base na literatura científica atual as falas e
centes tiveram que se deslocar cerca de 250 km para os entendimentos dos entrevistados sobre o processo
a cidade em que se ministrou o curso. Foram 10 alunos saúde-doença e seus determinantes, apresentando
(8 mulheres e 2 homens), com idade variando entre esse trabalho para todo o grupo.
20 e 27 anos, cujas origens culturais os dividem entre O momento final do curso resgatou as idéias tra-
os seguintes estados: duas alunas de Goiás, uma do balhadas através de um debate, e os alunos responde-
Mato Grosso e os demais do estado de São Paulo. ram de maneira escrita e sem identificação a um ins-
O curso foi estruturado em cinco dias, compreen- trumento, que lhes propunha as seguintes questões:
dendo atividades intensivas nos três períodos, ou seja, 1. Compare as diferenças entre o modelo tradicio-
manhã, tarde e noite, conforme a necessidade de se- nal de ensino e o modelo da problematização,
rem trabalhados todos os aspectos do Programa Saúde empregado neste curso.
da Família. Atividades de capacitação teórica e vivên- 2. O que você absorveu deste curso?
cia prática se alternaram ao longo do curso. 3. O que faltou neste curso?
Quanto a capacitação teórica, os temas desenvol- Foi explicado que poderiam deixar de responder
vidos foram os seguintes: a uma ou mais questões, se assim desejassem.
1. Determinantes e condicionantes da saúde. As respostas foram lidas em profundidade e cate-
2. Aspectos epidemiológicos em Saúde na Comuni- gorizadas pelos autores, posteriormente analisadas
dade. conforme a literatura científica vigente.
3. Documentos de referência em promoção de saú-
de – Conferência de Alma Ata, Carta de Ottawa, Os achados
Declaração de Jacarta. Quando comparados o modelo de ensino tradicio-
4. Processo saúde-doença. nal e o problematizador, a satisfação em aprender e
5- Conceitos de saúde e doença.
a concentração durante as atividades de ensino foram
6. Aspectos sociológicos do indivíduo, da família e
apontadas pelos alunos como fatores implicados com
da saúde.
certa vantagem do modelo problematizador sobre o
7. Aspectos antropológicos do indivíduo, da família
e da saúde. tradicional.
8. Mudança do foco da doença para a saúde.
9. Histórico da saúde pública no Brasil. “O modelo tradicional dá sono, não prende a atenção dos
10. Construção do Sistema Único de Saúde. alunos. Concentração é um dos principais fatores que fa-
11. A estratégia da Saúde da Família. zem da problematização ser um modelo de ensino infini-
12. As determinantes econômicas e políticas em saú- tamente mais válido que o modelo tradicional.” (aluno 2)

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A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

“No (modelo) que foi utilizado no curso, por ser na forma deixou tudo mais fácil na discussão, porque se fosse o con-
de debates, o aluno presta mais atenção e também faz co- trário, alguém autoritário, não resolveria o problema, não
mentários. O modelo tradicional é cansativo, tendo muita seria interessante. A falta de discussão impede o professor
dispersão dos alunos e raramente participação durante as (do modelo tradicional) de saber se o aluno está ou não
aulas (ensino).” (aluno 3) prestando atenção. A problematização é completamente o
contrário.” (aluno 2)
“Na faculdade, nossa atenção às vezes fica muito dispersa.
As aulas são cansativas e na maioria das vezes só prestamos “No modelo tradicional nós temos menos liberdade de
atenção mesmo nos 30 minutos iniciais. Neste curso foi expressão.” (aluno 6)
melhor, pois todo mundo expressava suas opiniões e se
interessava mais no assunto e em saber cada vez mais, e não “O método utilizado neste curso, para mim, foi de grande
foi cansativo.” (aluno 4) importância. Acredito que eu absorvi bastantes informa-
ções sem ter que ficar ouvindo um professor dar uma aula
“Este método de aplicação nos faz realmente entender o seqüencial sem interação com os alunos.” (aluno 7)
assunto abordado. No método da faculdade muitas vezes
nós apenas lemos e decoramos e no outro dia já esquece- “Você (referindo-se ao docente) foi um grande amigo.
mos todo o conteúdo. Na minha opinião, este método do
Você me fez ver outra realidade. Aprendi mais do que em
curso nos faz realmente aprender, nos faz ler, nos faz de-
um ano de aulas.” (aluno 9)
bater e interagir, assim nos chamando a atenção para o
assunto e assim realmente entendemos o tema.” (alu-
A importância de se tomar prática real como refe-
no 7)
rência no processo de ensino se tratou de um achado
importante no âmbito desta experiência pedagógi-
“O modelo tradicional tem uma metodologia às vezes can-
ca.
sativa.” (aluno 8)

“Acredito que absorvi a maioria dos conceitos sobre PSF,


Ainda sobre a diferença entre os modelos, é apre-
UBS, Saúde Pública, Paciente, Profissional, Equipe. Enten-
sentado que a problematização possibilita a inserção
di e vi de perto tudo isso e como se aplica mudando quase
do aluno no tema trabalhado e do tema entre os alu-
que drasticamente todos os meus conceitos sobre saúde
nos, o que é fundamental no processo educativo.
pública.” (aluno 2)

“A problematização possibilita maior compreensão, devido


“Absorvi como é o PSF, como os profissionais devem agir,
à forma de como discutir o trabalho, aprender a trabalhar
o que a população necessita, o que falta no atendimento
em grupo.” (aluno 5)
nas UBS e no PSF.” (aluno 3)

“Normalmente não temos o costume de interagir com os


outros colegas, às vezes ficando em dúvida sobre algum “Ah, muita coisa e não caberia aqui.” (aluno 4)

assunto. Neste modelo é muito mais fácil, pois possibilita a


todos ter mais expressão e ser ajudado pelos outros como “Aprendi como interagir em grupo, a realidade da Saúde

uma equipe.” (aluno 6) Pública e como podemos ser mais humanos.” (aluno 6)

A democracia no ensino, possibilitando ao aluno “O conceito sobre humanização, a coletividade, o aprendi-

a interação com o processo também foi ressaltada zado, e o mais importante, que, na minha opinião, é a in-
como fator importante nesse processo de educação teração entre as pessoas, saber respeitar a individualidade
problematizadora. Inclusive o fato de o educador e os do outro. Realmente absorver o que é necessário.” (alu-
educandos estarem no mesmo nível no processo foi no 7)
apresentado como facilitador e como uma das gran-
des vantagens da problematização. “Com este curso eu descobri meu interesse na saúde públi-
ca, aprendi muita coisa em relação à população, ao funcio-
“Outro ponto que me agradou bastante foi o direito de namento das UBS e do PSF, mudei meu conceito a respei-
falar, dar minha opinião em todos os momentos do curso. to dos profissionais do serviço público. Enfim, este curso
Trabalhar com um professor que pensa como nós, alunos, foi essencial para minha formação.” (aluno 8)

Revista da ABENO • 6(1):54-60 57


A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

“Nem tudo é igual ao que eu imaginava, às vezes ficamos no 8)


presos apenas no que escutamos, no que achamos, mas na
realidade é muito diferente e eu pude perceber que eu “O modelo tradicional procura tratar doença ou até mesmo
adoro a odontologia, as pessoas. Eu vi que a realidade do prevenir, em um indivíduo, visando o lucro.” (aluno 10)
Brasil é muito diferente.” (aluno 9)
Segundo os depoimentos, o uso da metodologia
“Acho que estou saindo conhecendo mais a realidade do empregada no curso mudou a compreensão de saúde
que é de verdade o PSF.” (aluno 10) e dos pacientes, na medida em que enfoca a visão do
ser humano integral, não apenas a relação profissio-
Apesar da carga horária intensiva, através de ativi- nal-paciente, mas também a relação docente-discen-
dades em cinco dias e três períodos para cada um te.
destes, o prazer e a satisfação dos alunos nesta expe-
riência de ensino fica evidente conforme os depoi- “O curso tem a idéia mais de prevenção, de saber o todo
mentos abaixo relatados, os quais são respostas ao do indivíduo, para assim agir para uma saúde adequada.”
questionamento sobre o que faltou no curso. (aluno 1)

“Para mim, não faltou nada.” (aluno 1) “Possibilita poder ver melhor a realidade, conhecer as pes-
soas de uma maneira geral. Uma visão maior de como
“Mais tempo para este curso. Adorei.” (aluno 2) acontece a saúde pública.” (aluno 5)

“Nada.” (aluno 3) “Esse tipo de aprendizagem é ótimo e poderia ser implan-


tado em nossa faculdade.” (aluno 9)
“Difícil dizer, pois adorei.” (aluno 4)
“O modelo utilizado no curso visa tratar um indivíduo como
“Na minha opinião não faltou quase nada, apenas um pou- um todo, ouvir suas reclamações e saber resolver seus pro-
co mais de tempo, pois é muito bom falar sobre saúde pú- blemas mesmo que estes não sejam propriamente ditos de
blica ainda mais desta maneira, que não é cansativa.” (alu- nossa área.” (aluno 10)
no 6)
O modelo de odontologia trabalhado na Facul-
“É um método com prazer, ‘aprender com prazer’.” (alu- dade foi questionado pelos alunos, ficando evidente
no 7) assim sua percepção da necessidade de um modelo
realmente resolutivo e voltado à população brasilei-
“O modelo da problematização para mim não tem defeitos, ra.
porque aprendemos de maneira dinâmica e há interação
em grupo.” (aluno 8) “Na faculdade agimos com uma ação curativa, muito me-
cânica, clínica, não envolvendo o emocional. Para ter uma
Em diversas composições, os participantes desta saúde adequada necessitamos prevenir e não tratar o pa-
pesquisa apontaram que o modelo tradicional de en- ciente como uma parte, e sim como um todo. Assim vamos
sino em odontologia enfoca o atendimento ao pacien- ajudar a saúde do país e a melhorar a situação e condição
te de modo reducionista, implicando um atendimen- do modo de vida do país.” (aluno 1)
to parcializado e sem o entendimento do ser humano
como algo além do tratamento dentário. DISCUSSÃO
A literatura existente sobre o modelo de ensino
“Na faculdade somos ensinados a apenas atender o pacien- em odontologia é de certa maneira escassa.
te, não sabendo o motivo que realmente o faz estar lá, o Ao investigar sobre os motivos que levam os Cirur-
psicológico dele, a família, o ambiente social em que vive.” giões-Dentistas a optarem pela profissão, Marcelino8
(aluno 1) (2000) verificou que o fato de o CD ser encarado como
um profissional liberal é preponderante na categoria.
“O modelo tradicional de ensino, como defeito, nos ensina No entanto, a mesma autora afirma que a prática li-
apenas como tratar o paciente-doença, não a pessoa. Con- beral na odontologia está gradativamente se tornando
seguimos aprender apenas o mínimo necessário.” (alu- “prática assalariada, na qual a liberdade de atuação

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A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

profissional é limitada, uma vez que (...) passa a ser munidades, ainda sendo mantido o enfoque de aten-
regida por uma lógica de produção”8. ção curativa, individual, com centralidade na doença,
O estudo de Mello10 (2004) sugere que no proces- havendo certo desconhecimento da realidade e do
so de aprendizado em odontologia há maior ênfase contexto social das famílias por parte dos profissionais
na técnica em si do que propriamente no paciente de saúde.
que está sendo atendido. Neste tocante, Valença15 Essas disparidades também são apontadas pelo
(1998) comenta que os cirurgiões-dentistas aborda- estudo de Markman Neto9 (2004), que investigou o
dos em seu trabalho demonstraram dificuldade em se processo de trabalho no Programa Saúde da Família.
relacionar com o paciente e preocupação com a defi- O autor questiona “a legitimidade que um modelo de
ciência de capacitação em psicologia enfocada nesse atenção pode ter, quando não proporciona soluções
tema. adequadas à garantia da oferta de serviços, (...) como
Figueiredo4 (2002) aponta que na formação do rezam os princípios de integralidade e hierarquização
cirurgião-dentista o paciente não é percebido em sua preconizados pelo PSF”. Esse autor pontua que “uma
individualidade e “muito menos em sua subjetivida- coisa é a idealização de um determinado projeto de
de”, por se enfocarem aspectos puramente biológicos, saúde, outra coisa, não obstante, é a sua prática coti-
deixando-se de lado os aspectos socioculturais e an- diana”, ressaltando que “a equipe vive o seu cotidiano
tropológicos. entre um modelo ainda hegemônico e uma tentativa
Segundo Mello10 (2004), a formação acadêmica de modificá-lo, construindo na prática um apanhado
em odontologia é deficitária na medida em que “não entre o que se tem e o que se pretende”9.
aconteceu, até então, interação entre alunos, profes- A problematização como modelo para o ensino
sores e coordenadores de curso para que reflitam odontológico não tem referencial na literatura pes-
juntos sobre os problemas que acreditam que estejam quisada. Conforme os achados da presente pesquisa,
ocorrendo na formação em odontologia”. o tema do Programa Saúde da Família é aplicável a
Em relação à Odontologia, o Ministério da Saúde essa forma pedagógica.
estabelece que a inserção da Equipe de Saúde Bucal Conforme Freire5 (1996), apesar da facilidade e
no Programa Saúde da Família tem como finalidade da “tentação” de se enveredar o ensino pelos cami-
maior colocar em prática: “caráter substitutivo das nhos mais empregados, há ganhos reais na problema-
práticas tradicionais exercidas nas unidades básicas de tização, na medida em que lidamos com “mulheres e
saúde” (Brasil, 2001, anexo I, item C, subitem I); “de- homens, seres histórico-sociais, nos tornamos capazes
finição da família como núcleo central de abordagem” de comparar, de valorar, de intervir, de escolher, de
(Brasil, 2001, anexo I, item C, subitem V); “humani- decidir, de romper”. Isso possibilita a apropriação do
zação do atendimento” (Brasil, 2001, anexo I, item C, tema para si mesmo, conforme ocorreu com os alunos
subitem VI); “educação permanente dos profissio- da presente experiência pedagógica.
nais” (Brasil, 2001, anexo I, item C, subitem IX); O equilíbrio entre a teoria e a prática, assim como
“ações de promoção e prevenção no âmbito da saúde o cuidado em não torná-los radicais, é discutido por
bucal planejadas e desenvolvidas de forma interdisci- Freire5 (1996), que afirma que a “reflexão crítica sobre
plinar” (Brasil, 2001, anexo I, item D, subitem 8)2. a prática se torna uma exigência da relação Teoria/
No entanto, todas as atribuições estabelecidas por Prática sem a qual a teoria pode ir virando blábláblá
esse documento à equipe de saúde bucal, ou seja, ci- e a prática, ativismo”. Nesse pensamento, a experiên-
rurgião-dentista, técnico de higiene dental e auxiliar cia pedagógica presente apresentou a possibilidade
de consultório dentário, em nada diferem das atribui- de interação assim como a interdependência entre a
ções que lhes são competentes na prática clínica tra- carga teórica e a carga prática. Não obstante, a manei-
dicional, comparando-se as mesmas ao que é estabe- ra de se trabalhar ambas deve aproximar a teoria da
lecido pela legislação vigente3. vivência real e a prática da confirmação/negação da
Nessa linha de pensamento, Sobrinho, Sousa13 primeira. Como diz Freire5 (1996) “ensinar não é
(2002) afirmam que a formação profissional brasilei- transferir conhecimento, mas criar as possibilidades
ra da atualidade, mesmo quando objetivando estraté- para a sua produção ou a sua construção”.
gias como o Programa Saúde da Família, promove
uma visão descontextualizada da realidade brasileira. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Segundo os autores, há contradições entre as institui- O objetivo do presente trabalho foi em certa me-
ções de ensino superior, os serviços de saúde e as co- dida ampliar a visão do processo ensino-aprendizado

Revista da ABENO • 6(1):54-60 59


A problematização como modelo para ensino universitário: uma experiência piloto com alunos do 3º e 4º anos do curso de odontologia •
Pires ROM, Bueno SMV

tradicional. Como tal, a revisão da literatura denun- de saúde bucal e formação profissional: o que pensam estudan-
ciou prática distanciada da necessidade das popula- tes de odontologia [Dissertação de Mestrado]. Rio de Janeiro:
ções. Em contrapartida, a experiência pedagógica Núcleo de Tecnologia Educacional para Saúde da UFRJ;
com o uso da problematização apropriou-se de uma 2004.
dimensão em que os discentes terminaram seu curso 5. Freire P. Pedagogia da autonomia. São Paulo: Paz e Terra;
afirmando ver a pessoa que tratam, com seus compo- 1996.
nentes socioculturais. A literatura aponta que há exi- 6. Freire P. Pedagogia do oprimido. 2ª ed. São Paulo: Paz e Terra;
güidade de modelos de ensino que tragam os discen- 1996.
tes à compreensão da realidade de seus pacientes. Em 7. Freitas SFT. História social da cárie dentária. Bauru: EDUSC;
certa medida, a problematização cumpre essa função. 2001.
Os autores acreditam ser possível a utilização desse 8. Marcelino G. Avaliação do perfil profissional e percepção social
modelo em todas as disciplinas dos diversos cursos de de cirurgiões-dentistas do município de Araçatuba – SP frente
saúde, apesar de haver necessidade de maiores inves- aos avanços ocorridos na odontologia às vésperas do século XXI
tigações acerca dessa possibilidade e da aplicabilidade [Dissertação de Mestrado]. Araçatuba: Faculdade de Odonto-
da mesma. logia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista “Júlio
Mesquita Filho”; 2000.
ABSTRACT 9. Markman Neto L. Políticas de Saúde, Sistema Único de Saúde
Problem analysis as a model for higher education: e a prática do Programa de Saúde da Família num núcleo es-
a pilot experience with students of the 3rd and 4th pecífico: limites e desafios [Dissertação de Mestrado]. Ribeirão
years of dental school Preto: Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto da USP;
In the present work the authors carry out a brief 2004.
investigation of the development of dentistry and of 10. Mello ACF. Mercado de trabalho, política de saúde bucal e
dental education. They discuss the profile of today’s
formação profissional: o que pensam estudantes de odontolo-
dentists and their ineffectiveness to meet the popula-
gia [Dissertação de Mestrado]. Rio de Janeiro: Núcleo de Tec-
tion demands. As a pedagogic experience, an inten-
nologia Educacional para Saúde da UFRJ; 2004.
sive course on family health was given to train students
11. Moretti Pires RO. A Mercantilização da Saúde: o trabalho de
of the third and fourth years of the dental course of a
cirurgiões-dentistas em um contexto de mudanças – estudo com
private school in a countryside town of the State of
cirurgiões-dentistas assalariados do município de Ribeirão Pre-
São Paulo, Brazil. The course was given during 5 days,
to (SP) [Dissertação de Mestrado]. Ribeirão Preto: Faculdade
in three dayly periods. At the end of the course, the
de Medicina de Ribeirão Preto da USP; 2005.
students answered a semi-structured questionnaire
12. Portillo JAC. A inserção da odontologia no S.U.S. – avanços e
and evaluated the differences, advantages and disad-
dificuldades [Tese de Doutorado]. Brasília: Faculdade de Ci-
vantages of the use of a traditional model versus the
ências da Saúde da Universidade de Brasília; 1998.
problem-analysis model proposed by Freire6 (1996)
13. Sobrinho A, Sousa MF. A tarefa: apagar os sinais vermelhos do
in the teaching of Dentistry.
PSF. In: Sousa MF (org.). Os sinais vermelhos do PSF. São Pau-

Descriptors lo: Hucitec; 2002. p. 155-70.

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deral do Rio Grande do Norte; 2002. Janeiro: Núcleo de Tecnologia Educacional para Saúde da
2. Brasil. Portaria nº 267, de 06 de março de 2001. Diário Oficial UFRJ; 2004.
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4. Figueiredo GO. Do fetichismo odontológico à utopia da saúde
bucal (2002) apud Mello ACF. Mercado de trabalho, política Aceito para publicação em 10/2005

60 Revista da ABENO • 6(1):54-60


Contribuição do Estágio Supervisionado
da UFPI para formação humanística,
social e integrada
As atividades extramuros abrem à convivência e à interação das
universidades com as comunidades, e familiarizam e capacitam os
estudantes a trabalhar na realidade que enfrentarão no mercado de
trabalho.
Regina Ferraz Mendes*, Marcoeli Silva de Moura**, Raimundo Rosendo Prado Júnior***,
Lucia de Fatima Almeida de Deus Moura****, Gilberto Pires Lages*****, Maricel Pires
Ribeiro Gonçalves*****

* Coordenadora do Curso de Odontologia da Universidade Federal


do Piauí. E-mail: rfmendes@ufpi.br.
** Professora do Estágio Supervisionado em Odontologia da
Universidade Federal do Piauí.
*** Coordenador do Estágio Supervisionado em Odontologia da
Universidade Federal do Piauí.
**** Professora da Clínica Infantil da Universidade Federal do Piauí.
***** Professores do Estágio Supervisionado em Odontologia da
Universidade Federal do Piauí.

Resumo de presenciar e vivenciar a realidade das comunida-


As Diretrizes Curriculares do Curso de Graduação des.
em Odontologia e a incorporação do cirurgião-den-
tista (CD) no Programa de Saúde da Família (PSF) Descritores
tornaram imprescindíveis mudanças e/ou adequa- Estágio clínico. Ensino superior. Educação em
ções do ensino da Odontologia para adaptar o currí- Odontologia. Odontologia geral. Odontologia em
culo do curso ao perfil do profissional exigido pelo Saúde Pública.
mercado de trabalho. Muita ênfase tem-se dado à for-

A
mação do CD com base social, econômica, política e partir da publicação das Diretrizes Curriculares
cultural do Brasil, valorizando-se novamente o clínico
do Curso de Graduação em Odontologia2 e da
geral. Dessa forma, estando a Universidade Federal
incorporação do Cirurgião-Dentista (CD) no Progra-
do Piauí em um dos estados mais carentes do Brasil,
ma Saúde da Família5 (PSF), criando uma grande al-
durante o curso de Odontologia, tem-se buscado mos-
trar ao acadêmico as carências e as necessidades da ternativa no mercado de trabalho, fortaleceram-se as
população que será por ele assistida. As especialidades necessidades de novas estratégias de atuação nos cur-
inseridas no Estágio Supervisionado (ES) se integram, rículos dos cursos de Odontologia.
na medida do possível, para que o paciente seja aten- Em resposta às exigências das Diretrizes acima re-
dido como um todo, não individualizando cada uma ferenciadas, os estudos para a implementação do novo
das suas necessidades. Nesse contexto, os alunos do Currículo na Universidade Federal do Piauí (UFPI)
último período do curso são envolvidos em atividades estão adiantados. Entretanto, os processos de elabo-
intra e extramuros, para que tenham oportunidade ração, aprovação e implementação são demorados e,

Revista da ABENO • 6(1):61-5 61


Contribuição do Estágio Supervisionado da UFPI para formação humanística, social e integrada • Mendes RF, Moura MS,
Prado Júnior RR, Moura LFAD, Lages GP, Gonçalves MPR

para que os atuais alunos se familiarizem com esse afetivas e de domínio psicomotor, todas realizadas sob
novo perfil, está sendo realizada uma adequação do a supervisão de professores; também possibilita a in-
atual currículo. Dessa forma, com o objetivo de ofe- tegralização e implementação do conhecimento ad-
recer uma formação acadêmica voltada para a solução quirido nas disciplinas da grade curricular, permitin-
dos reais problemas de saúde bucal da comunidade, do ao aluno uma visão holística de seu futuro campo
os alunos do último período do curso estão sendo de atuação.
envolvidos em atividades intra e extramuros, através Além das atividades desenvolvidas dentro das clí-
do Estágio Supervisionado (ES) em Odontologia e de nicas da Universidade, foram implementadas duas
um projeto de extensão universitária de atenção ma- atividades extramuros, visando aproximar o estudan-
terno-infantil. te dos problemas bucais enfrentados pelas comunida-
A extensão universitária é a via de comunicação des, através de convênios entre a UFPI e o Governo
da universidade com seu meio. Ela visa levar, por um do Estado e a UFPI e a Prefeitura Municipal.
lado, às comunidades carentes, o desenvolvimento e
a aplicação da pesquisa e do ensino realizados em seus Atividades intramuros
departamentos acadêmicos, buscando modificar rea- Dentro da Universidade, os alunos do estágio su-
lidades e melhorar a qualidade de vida das populações pervisionado, no último período do curso, fazem aten-
assistidas. Por outro lado, ao se deslocar, abre-se à dimentos nas clínicas integradas adulto e infantil, não
convivência e à interação com essas comunidades e se sendo permitida a matrícula em outras disciplinas.
constrói um conhecimento que muitas vezes lhe é
estranho, por não ser produzido nos moldes acadêmi- Atividades desenvolvidas na Clínica
cos, mas que, com toda certeza, dará maior pluralida- Integrada de Adultos
de e flexibilidade à pesquisa e ao ensino que ali se Os pacientes atendidos na Clínica de Diagnóstico
constróem4. Bucal são encaminhados para a clínica integrada se-
Assim é que, além da qualificação técnica e profis- gundo a necessidade de tratamento. Para os alunos
sional, pretende-se que o aluno seja capaz de enfren- do último período, procura-se selecionar aqueles que
tar situações muitas vezes insípidas de trabalho, de apresentem necessidades múltiplas e complexas, com
maneira otimista e consciente de que ele pode ser o o objetivo principal de consolidar a necessidade, a
diferencial entre o atendimento odontológico huma- importância e a execução de um plano de tratamento
nizado e voltado para a Promoção da Saúde e aquele integrado e seqüencial para a resolução das necessi-
meramente restaurador e, às vezes, mutilador. É fun- dades do paciente. Para tanto, os alunos são orien­
damental que se tenha consciência também da chan- tados em todos os níveis de atenção à saúde bucal,
ce de ser um agente de transformação das atitudes de desde a promoção da saúde até a realização de pro­
profissionais mais experientes e, muitas vezes, com cedimentos de diagnóstico, periodontais, restaurado-
menor possibilidade de atualização técnico-científi- res, endodônticos e cirúrgicos. Ênfase especial sempre
ca. é dada para o aspecto humanístico, pois a comunida-
de atendida é extremamente carente. Dessa forma, o
Metodologia de ensino e atuação aluno atua como um clínico geral.
clínica
O principal objetivo do Estágio Supervisionado é Atividades desenvolvidas na Clínica
a qualificação prática dos graduandos do curso de Integrada Infantil
Odontologia, dando oportunidade ao aluno de ter O objetivo geral é transmitir aos alunos conheci-
visão real de seu futuro ambiente de trabalho. Neste mentos sobre os aspectos físicos, psíquicos e biológi-
ele poderá pôr em prática os conhecimentos adquiri- cos da criança, bem como orientá-los na execução de
dos nas disciplinas anteriormente cursadas e desen- atividades clínicas odontológicas relacionadas ao
volver sua capacidade de diagnóstico, planejamento atendimento integral da mesma, buscando otimizar o
de tratamento e execução de trabalhos, através de uma nível de saúde bucal.
visão integralizada, a fim de atender todas as necessi- As crianças atendidas na Clínica Integrada Infantil
dades do paciente; além disso, não esquece que o são aquelas que, no momento dos exames de triagem,
planejamento deve estar dentro da realidade socioe- apresentam maior grau de complexidade nas neces-
conômica e cultural de cada indivíduo. sidades de tratamento. Os pacientes são classificados
O Estágio Supervisionado do curso de Odontolo- de acordo com o risco e/ou a atividade de cárie; pos-
gia da UFPI envolve alunos em atividades cognitivas, teriormente são agendados e atendidos seguindo-se

62 Revista da ABENO • 6(1):61-5


Contribuição do Estágio Supervisionado da UFPI para formação humanística, social e integrada • Mendes RF, Moura MS,
Prado Júnior RR, Moura LFAD, Lages GP, Gonçalves MPR

protocolos embasados na recuperação, promoção e


educação em saúde, considerando-se a integralidade
das ações e a integração entre as diversas áreas do
conhecimento.

Atividades extramuros
Atendimento de gestantes
Através de convênio firmado entre a UFPI e o Go-
verno do Estado do Piauí, foi implantado, no Institu-
to de Perinatologia Social do Piauí (IPSP), o programa
de extensão universitária – Programa Preventivo para
Gestantes e Bebês (PPGB). O aluno faz diariamente
orientações sobre a saúde bucal da gestante e do bebê
e atendimento clínico a gestantes (Figura 1), sob su-
Figura 1 - Atendimento clínico à gestante no Instituto de
pervisão de um docente. Perinatologia da Maternidade D. Evangelina Rosa.
No PPGB, proporcionam-se condições para que
alunos do estágio supervisionado planejem e execu-
tem atendimento clínico integral às gestantes atendi- preventivas com gestantes qualificam sua saúde e tor-
das no IPSP, vislumbrando, com os procedimentos, a nam-se fundamentais para introduzir bons hábitos
adequação do meio bucal e possibilitando à clientela desde o início da vida da criança.
atendida o desenvolvimento da função mastigatória e Quando não é possível resolver todos as necessi-
a minimização das chances de contaminação precoce dades odontológicas durante a gestação, as mulheres
da boca do bebê, tendo em vista que a transmissão da são encaminhadas para concluir o tratamento na Clí-
microbiota cariogênica é feita de forma vertical1. nica Odontológica do ES do campus da UFPI.
Após anamnese e exame clínico, determina-se ris-
co/atividade de cárie das pacientes gestantes, e o pla- Atendimento junto às equipes do PSF
no de tratamento é traçado segundo as necessidades O Programa Saúde da Família (PSF) foi criado
detectadas e a indicação dos procedimentos em fun- pelo Ministério da Saúde em 1994, com a finalidade
ção do estado gestacional. principal de reorganizar a prática da atenção à saúde
Esse “pré-natal odontológico” incrementa o co- em novas bases e substituir o modelo tradicional, le-
nhecimento sobre as atitudes e os tipos de tratamentos vando a saúde para mais perto da família e, com isso,
restauradores, periodontais, cirúrgicos e endodônti- melhorando a qualidade de vida dos brasileiros. A
cos aos quais as pacientes gestantes podem ser subme- estratégia do PSF incorpora e reafirma os princípios
tidas e as formas de fazê-los. Desmistifica-se, assim, a básicos do Sistema Único de Saúde (SUS), que são a
premissa de que “os dentes de mulheres grávidas são universalização, a descentralização, a integralidade e
mais fracos” e também de que há impedimentos à a participação da comunidade8, e está estruturada a
realização de procedimentos odontológicos durante partir da Unidade Básica de Saúde da Família.
a gestação. No consultório odontológico instalado A estratégia Saúde da Família (Odontologia)5,6
dentro do IPSP, são executados procedimentos edu- surgiu pela necessidade crescente de expandir as
cativos, restauradores, periodontais e endodônticos. ações odontológicas, numa perspectiva que contem-
Quando há necessidade e possibilidade de interven- plasse a integralidade, articulando as ações promocio-
ções cirúrgicas, estas são agendadas para serem reali- nais, preventivas e de recuperação da saúde bucal,
zadas na clínica de cirurgia odontológica instalada com o objetivo de melhorar os índices epidemiológi-
dentro do Hospital Universitário, local onde as pa- cos no país. Essa mudança de mentalidade contempla
cientes serão atendidas também por alunos do Estágio também a abertura de um novo mercado de trabalho,
Supervisionado. no qual os alunos dos cursos de Odontologia deverão
As Diretrizes da Política Nacional de Saúde Bucal7 ser capacitados a planejar e executar as ações de saú-
orientam o encaminhamento da gestante, ao iniciar de de acordo com as necessidades inerentes a cada
o pré-natal médico, para uma consulta odontológica, campo de atuação.
por considerar que a mãe tem um papel fundamental Pelo convênio firmado entre a UFPI e a Prefeitura
nos padrões de comportamento apreendidos durante Municipal de Teresina, foi oportunizada aos estudan-
a primeira infância. Assim sendo, ações educativo- tes do estágio supervisionado a inserção em atividades

Revista da ABENO • 6(1):61-5 63


Contribuição do Estágio Supervisionado da UFPI para formação humanística, social e integrada • Mendes RF, Moura MS,
Prado Júnior RR, Moura LFAD, Lages GP, Gonçalves MPR

desenvolvidas por equipes de saúde bucal do PSF. Os dentro da Universidade, pois em alguns postos de
alunos são escalados e acompanhados por professores saúde os recursos materiais são muito limitados. Além
orientadores do Estágio Supervisionado aos locais de disso, nota-se também a resistência por parte de alguns
atendimento, onde acompanham e também realizam docentes em assimilar o trabalho inter e multidiscipli-
procedimentos de atenção básica, incluindo visitas nar como instrumento mais adequado de formação
domiciliares, palestras de promoção de saúde e trata- acadêmica. Isso também foi ressaltado por Cristino3
mentos restauradores. (2005), ao afirmar que “a integração (...) implica, den-
A inclusão dos alunos da área de saúde no atendi- tre outras necessidades, o desenvolvimento de habili-
mento extramuro das equipes de PSF está sendo sem- dades e competências — inclusive do próprio profes-
pre discutida e é também motivo de reflexões nos sor — para lidar com o todo, sem pretender o tudo
encontros e conferências sobre saúde bucal e SUS. O das especialidades”. A autora enfatiza que esse proces-
convívio entre os profissionais do PSF e o binômio so exige imenso desdobramento para focalizar o es-
aluno/professor universitário são salutares em virtude sencial, o possível e o desejável, sendo que nem todos
de poderem possibilitar a abertura de novos campos possuem sensibilidade necessária para desenvolver
para o desenvolvimento de pesquisas aplicadas que essa competência.
possam auxiliar nas soluções da problemática persis-
tente de saúde bucal. Conclusões
Se por um lado isso traz benefícios ao aprendizado, 1. As atividades extramuros abrem à convivência e à
simultaneamente se percebe ocorrer uma troca de interação das universidades com as comunidades,
experiências e conhecimentos mútuos. A convivência e familiarizam e capacitam os estudantes a traba-
com profissionais de outras áreas e a presença dos lhar na realidade que enfrentarão no mercado de
estudantes nas equipes funcionam, para a maioria dos trabalho.
profissionais que trabalham no PSF (segundo os pró- 2. Os atendimentos extramuros dão maior plurali-
prios relatos), como um estímulo e uma forma de dade e flexibilidade à pesquisa e ao ensino que ali
atualização sobre os novos conceitos, técnicas e tam- se constroem, através de trocas de abordagens e
bém quanto às maneiras de abordagem às pessoas experiências entre os profissionais que atuam no
atendidas, já que os estudantes podem empregar os serviço público e os alunos que trazem os conhe-
cimentos nos moldes acadêmicos.
meios desenvolvidos dentro da Universidade para as
palestras educativas.
Os fatos abordados corroboram as afirmações fei- Agradecimentos
tas por Steck, Batista9 (2003), que argumentam sobre Ao Magnífico Reitor da Universidade Federal do
a importância da parceria que deve ser firmada entre Piauí, Luiz de Sousa Santos Júnior, pelo efetivo apoio
Universidades e entidades de classe odontológica, que tem dado à produção técnica e científica dos do-
bem como da busca crescente pela participação da centes dessa instituição. A todos os profissionais das
sociedade civil nos Conselhos Estaduais e Municipais equipes do PSF, que muito têm contribuído para a
de saúde e instâncias gestoras do SUS. formação dos graduandos da UFPI. Aos gestores pú-
blicos das entidades municipal e estadual conveniadas
Dificuldades a serem vencidas com a UFPI, por permitirem e incentivarem a partici-
Uma das principais dificuldades encontradas é a pação dos estudantes nas atividades desenvolvidas.
falta de continuidade dos atendimentos odontológi-
cos intra e extramuros nos períodos de férias escola- Abstract
res. Para isso, tem-se estimulado os acadêmicos do Contribution of Supervised Internship of the
período anterior ao Estágio a assumir essas atividades Federal University of Piauí to an interdisciplinary,
durante as férias. Dessa forma, os serviços odontoló- social and humanistic education
gicos oferecidos pelas diversas clínicas poderiam ser Changes in how Dentistry is taught are essential in
referência em todas as especialidades e áreas de co- light of the Curricular Guidelines for Undergraduate
nhecimento, contanto que seu funcionamento fosse Dental Courses (approved by the National Council of
realizado em caráter permanente e contínuo. Education) and the participation of dental surgeons
Percebe-se que alguns alunos relutam em assumir in the Family Health Program. These changes are nec-
o perfil necessário para trabalhar em comunidades essary in order to make dental students have the right
carentes e sob condições muitas vezes adversas para o professional profile demanded by the labour market.
bom desempenho da técnica apresentada e executada There is now more emphasis on raising students’

64 Revista da ABENO • 6(1):61-5


Contribuição do Estágio Supervisionado da UFPI para formação humanística, social e integrada • Mendes RF, Moura MS,
Prado Júnior RR, Moura LFAD, Lages GP, Gonçalves MPR

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and culture. The Federal University of Piauí is located 4]. Sec. 1:10. Disponível em: URL: http://www.mec.gov.br/.
in one of the poorest Brazilian states; and the under- 3. Cristino PS. Clínicas integradas antecipadas: limites e possibi-
graduate dental course has tried to make students lidades. Revista da ABENO 2005;5(1):12-8.
aware of the needs of the population that they will 4. Moura LFAD, Lira DMMP, Moura MS, Barros SSLV, Lopes TSP,
treat. Patients who are treated at the Supervised In- Leopoldino VD et al. Apresentação do programa preventivo
ternship discipline of the Dental School are treated para gestantes e bebês. J Bras Odontopediatr Odontol Bebê
holistically, not just considering specific symptoms. In 2001;4(17):10-4.
this context, students become involved in intra- and 5. Ministério da Saúde. Informe da atenção básica – saúde bucal
extramural activities during their last term to witness 2001 (7). Disponível em: URL: http://www.saude.gov.br/
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República Federativa do Brasil, Brasília, 07 mar 2001.
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2. Conselho Nacional de Educação. Câmara de Educação Supe- em: URL: http://www.sinog.com.br.
rior. Resolução CNE/CES 3/2002, de 19 de fevereiro de 2002.
Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais do Curso de Odon- Aceito para publicação em 06/2005

Revista Brazilian Oral Research

Para maior comodidade


aos autores e agilidade
no recebimento, logo
será possível fazer a
submissão de artigos
“on-line”.

Aguarde mais informações em breve! Revista da ABENO • 6(1):61-5 65


Atividades extramuros como
estratégia viável no processo
ensino-aprendizagem
Uma variação do ambiente ensino/aprendizagem valiosa tanto pelo
contato do aluno com a comunidade, quanto pela grande interação
entre professor e aluno.
Marlei Aparecida Seccani Galassi*, Eduardo Luis Barbin*, Júlio César Emboava Spanó*, José
A. Jam de Melo**, Nicolau Tortamano**, Antonio Cesar Perri de Carvalho***

* Professores do Curso de Odontologia da Universidade Paulista,


Campus Vargas de Ribeirão Preto. E-mail: barbin@forp.usp.br.
** Professores do Curso de Odontologia da Universidade Paulista,
Campus Indianópolis de São Paulo.
*** Presidente da ABENO, Brasília, DF.

Resumo mo, participação e grande satisfação entre os alunos,


A sala de aula não se limita a um espaço físico bem como um desejo de realizá-las novamente.
dentro da universidade. O aluno precisa ser inserido
no contexto profissional, saindo de práticas realizadas Descritores
exclusivamente dentro do espaço físico formal para Ensino. Educação em Odontologia. Educação em
atividades extramuros. As atividades extramuros têm saúde. Aprendizagem.
sido utilizadas com sucesso entre os graduandos dos
cursos da saúde (Odontologia, Nutrição, Enferma-
gem, Farmácia e Fisioterapia) da Universidade Pau­
lista, Campus Vargas de Ribeirão Preto, através do
A Odontologia vive na atualidade um importante
momento no qual as Diretrizes Curriculares Na-
cionais induzem uma mudança paradigmática na for-
exercício de práticas educativas e preventivas na co- mação do cirurgião-dentista como profissional da
munidade, em parcerias públicas e privadas. É uma saúde, enfatizando estratégias para a integração no
variação do ambiente ensino/aprendizagem valiosa ensino de Odontologia10. Observa-se um problemáti-
tanto pelo contato do aluno com a comunidade, quan- co mercado de trabalho odontológico; os profissionais
to pela grande interação entre professor e aluno. Os que nele atuam sentem-se em grande parte insatisfei-
cursos de saúde devem proporcionar a aquisição de tos. Galassi et al.4 (2004), em um estudo realizado com
conhecimentos, habilidades e atitudes na vivência de cirurgiões-dentistas que freqüentaram o 20º Congres-
um mundo real, conhecida através da integração da so Internacional de Odontologia de São Paulo, encon-
universidade com a comunidade. O aluno em contato traram que 34% dos entrevistados não indicariam a
com comunidades carentes, além do aprendizado, Odontologia para os seus filhos, em função de alta
exerce cidadania, tornando-se um profissional mais competitividade do mercado, baixa remuneração e
humano. As instituições envolvidas neste estudo, con- progressão dos convênios odontológicos. Secco, Pe-
siderando esses aspectos, incentivaram e apoiaram as reira11 (2003), através de um levantamento realizado
atividades extramuros de ensino/aprendizagem, mo- entre coordenadores de graduação das Faculdades de
tivando professores e alunos e proporcionando troca Odontologia das redes privada e pública do estado de
de informações e de experiências através da integra- São Paulo, demonstraram que os cursos oferecidos
ção dos graduandos dos diferentes cursos oferecidos. pelas universidades não têm preenchido totalmente
Nessas atividades externas, foram observados entusias- o número de vagas oferecidas; apenas 61% delas são

66 Revista da ABENO • 6(1):66-9


Atividades extramuros como estratégia viável no processo ensino-aprendizagem • Galassi MAS, Barbin EL, Spanó JCE, Melo JAJ,
Tortamano N, Perri de Carvalho AC

ocupadas para o 1º ano, sinalizando um período crí- ro ao último) dos cursos da saúde (Odontologia, Nu-
tico para as Faculdades de Odontologia. Levando-se trição, Enfermagem, Farmácia e Fisioterapia) da Uni-
em conta que as Diretrizes Curriculares Nacionais versidade Paulista - Campus Vargas de Ribeirão Preto
propõem formar profissionais com caráter generalis- participaram de atividades extramuros na comunida-
ta, com sólida formação técnico-científica, humanís- de. Fizeram-se parcerias com a prefeitura e empresas
tica e ética, orientada para a promoção da saúde, com privadas. As práticas realizadas foram educativas, pre-
ênfase na prevenção de doenças bucais prevalentes2, ventivas, diagnóstico de patologias e encaminhamen-
salvo algumas exceções, observa-se que a maioria das tos para as clínicas de tratamento dos cursos. Antes de
faculdades lança egressos totalmente voltados à práti- saírem a campo, os alunos foram preparados, cons-
ca privada, que não atendem a essas recomendações cientizados e motivados para que participassem com
e agravam ainda mais os problemas do mercado de entusiasmo e desejo de sucesso.
trabalho9. Algumas atividades extramuros, como o Governo
A educação no sentido amplo é um processo com- no Bairro, foram realizadas dentro de escolas; o Pit-
plexo e trabalhoso e, por outro lado, muito gratifican- Stop funcionou em “stands” montados pelas conces-
te àqueles que a praticam. O professor deve estar sionárias das rodovias nas praças de pedágio; a Pre-
consciente da sua importância na aprendizagem do venção do Câncer Bucal foi realizada em praças
aluno, procurando utilizar, para isso, todos os recursos públicas com barracas fornecidas pelo exército; e o
e meios que atinjam seus objetivos12. ônibus itinerante, a Universidade na comunidade,
No tocante à diversificação do cenário ensino- utilizou-se de um ônibus que a Universidade Paulista
aprendizagem, Perri de Carvalho10 (2004) destaca a dispõe para atendimentos comunitários, equipado
importância da clínica extramuros, na qual o aluno é com consultório dentário e escovódromo composto
colocado diretamente em contato com a realidade por quatro pias. Essas atividades ocorreram durante
social da população, conhecendo os problemas regio- o ano letivo de 2004.
nais e individuais de cada um. Os graduandos de Odontologia, por exemplo, den-
A sala de aula não pode ser entendida como um tro da parte educativa/preventiva, realizaram instru-
espaço físico, uma formalidade burocrática, que sepa- ção de higiene oral através de demonstração em ma-
ra o professor que ensina do aluno que “aprende”9. A nequins, uso de evidenciadores do biofilme bacteriano
aprendizagem deve evoluir, não podendo mais ser e escovação dental supervisionada (escovódromo); os
considerada como simples transmissão de práticas ro- de Nutrição fizeram avaliação de peso, estatura e cál-
tineiras3. O professor não é mais aquele sujeito que culo do Índice de Massa Corporal (IMC) e avaliaram
repassa uma grande quantidade de conhecimentos, estado nutricional e condição de sobrepeso ou obesi-
os quais os alunos copiam, memorizam e demonstram dade; a Enfermagem foi um dos setores mais visitados,
o “aprender” através de acertos nas provas. O profes- pelo desejo de aferir a pressão arterial e realizar testes
sor é um orientador, um facilitador da aprendizagem, sangüíneos; a Fisioterapia participou fazendo avaliação
é um aglutinador dos conhecimentos adquiridos pe- e orientação da postura; e a Farmácia abordou muitos
los alunos, dando-lhes segurança para enfrentar difi- aspectos, sobretudo o perigo da automedicação.
culdades e, acima de tudo, superá-las5. A avaliação do trabalho realizado deu-se através da
Isso nos faz refletir sobre as estratégias que têm satisfação ou não dos alunos e do desejo de retornar
sido utilizadas na formação dos novos profissionais, e ou não às atividades.
nos propomos a apresentar atividades extramuros, nas
quais os cursos da saúde (Odontologia, Nutrição, En- Resultados e Discussão
fermagem, Farmácia e Fisioterapia) da Universidade Na experiência aqui relatada, observou-se nos alu-
Paulista, Campus Vargas de Ribeirão Preto, levam seus nos um grande entrosamento, uma sincronia entre as
alunos e professores até a comunidade em parcerias etapas do trabalho, em que um respeitava e se interes-
públicas e privadas, participando de projetos como: sava pelo trabalho do outro. Os alunos de Farmácia
­Governo no Bairro, Pit-Stop (atendimento e encami- queriam aprender a melhor técnica para escovar os
nhamento de motoristas nas rodovias brasileiras), dentes; os alunos da Enfermagem queriam uma tabe-
Prevenção do Câncer Bucal e ônibus itinerante (a la de calorias; os estudantes de Odontologia estavam
Universidade na comunidade). preocupados com a postura.
No tocante à parte social, os acadêmicos dos dife-
Métodos rentes cursos da saúde mostraram-se profundamente
Os alunos de todos os períodos letivos (do primei- sensibilizados com os problemas relatados pelos visi-

Revista da ABENO • 6(1):66-9 67


Atividades extramuros como estratégia viável no processo ensino-aprendizagem • Galassi MAS, Barbin EL, Spanó JCE, Melo JAJ,
Tortamano N, Perri de Carvalho AC

tantes da “Universidade Extramuros”. Queriam resol- paz de trabalhar em equipe, prestando atenção inte-
ver os problemas, ajudar, colaborar, encaminhar ra- gral mais humanizada, levando-se em conta e compre-
pidamente para atendimento e tratamento das endendo a realidade social em que vive a população2.
necessidades; até mesmo visitas aos finais-de-semana Morita, Kriger8 (2004), partindo da compreensão de
foram realizadas voluntariamente, sem a presença do que os problemas de saúde são sempre interdisciplina-
professor, desvinculadas do trabalho proposto pela res, definem “atuar multiprofissionalmente” como um
Universidade. Esperavam-se sensibilização e envolvi- rompimento do modelo centrado no trabalho indivi-
mento, pois sabe-se que os alunos, desde que sensi­ dual, capacitando para o trabalho em equipe, no qual
bilizados, conscientizados e preparados para uma se propõe compartilhar o planejamento, dividir tare-
atuação participativa, entusiasmam-se muito por cam- fas, aprender, cooperar e colaborar.
panhas educativas junto à comunidade9. A importância das atividades junto às comunidades
A totalidade dos alunos que participaram das ati- carentes se fortalece quando se lembra o fato de que
vidades extramuros demonstrou satisfação e desejo de os universitários pertencem, na grande maioria, a uma
retornar a esse tipo de atividade. classe econômica e social privilegiada. Em um levanta-
O Programa de Integração Assistencial, produto da mento realizado por Martinez et al.7 (2004), foi detec-
Assembléia Mundial da Saúde, recomenda a integração tada, em 60% dos estudantes da Faculdade de Odon-
das disciplinas dos cursos de saúde, resultando em um tologia da Universidade Federal do Espírito Santo, uma
currículo que proporcione conhecimentos, habilida- renda familiar superior a 15 salários mínimos, con-
des e atitudes adquiridos na vivência do mundo real, cluindo que a Odontologia é um curso elitista. Os acha-
através de um processo de ensino-aprendizagem desen- dos dos autores corroboraram os de Junqueira et al.6
volvido simultaneamente na escola e na comunidade1. (2002), que definiram que os estudantes de Odonto-
Dessa forma, os alunos de hoje e profissionais do logia da UNESP, Campus de São José dos Campos, eram
amanhã que, durante a graduação, participam de ati- de nível socioeconômico alto e que a maioria havia
vidades extramuros, estarão, com certeza, melhor cursado o ensino médio em escolas particulares.
preparados para atuar na comunidade, sobretudo em Alunos de todos os períodos participaram das ati-
serviços de saúde, por terem a oportunidade do con- vidades extramuros, pois é importante que eles sejam
vívio e da concepção de uma consciência social comu- precocemente inseridos no contexto profissional,
nitária, conhecendo as diferenças econômicas e cul- saindo de práticas profissionalizantes realizadas em
turais que existem e a diversidade (diferenças e clínicas de ensino de especialidades para as práticas
semelhanças) da espécie humana3. Tornam-se cada profissionalizantes em clínicas integradas e atividades
vez mais importantes no mercado de trabalho quali- extramuros8.
dades como a capacidade de comunicação, de traba- Além da estratégia de ensino pela diversificação e
lhar com os outros (trabalho em equipe), de gerir e mudança do cenário onde se ministra a aula, com
de resolver conflitos3. espírito de cidadania e cooperação, as atividades exer-
A universidade não pode manter-se isolada, não cidas pelos alunos baseiam-se basicamente em educa-
pode impedir seus alunos de participarem ativamente ção buscando prevenção, motivando e conscientizan-
de trabalhos na comunidade, interagindo com profis- do o indivíduo para que mude atitudes e encontre o
sionais e estudantes de outras áreas de saúde. Lom- caminho da saúde.
bardo5 (2001) relata que as experiências de aprendi- Vale ressaltar que o segredo do bom ensino é o
zagem podem ser orientadas pelas necessidades dos entusiasmo pessoal do professor, ator desse cenário
próprios estudantes ou pelas necessidades sociais da que, muitas vezes, depende das condições propiciadas
comunidade. A nova definição política do Ministério pela própria instituição de ensino, a qual igualmente
da Saúde visa diminuir a distância entre a formação deve estar ciente da importância do professor no pro-
dos recursos humanos e as necessidades do SUS (Sis- cesso de ensino-aprendizagem dos alunos do ensino
tema Único de Saúde).Também é preciso aproximar superior12.
a Odontologia das demais áreas de saúde8.
Quando essas atividades extramuros são realizadas, Conclusões
contando com a participação de estudantes de outros Com base nas observações realizadas, é lícito con-
cursos da saúde, o espírito de equipe e a capacidade cluir que:
de troca de informações com diferentes indivíduos • Atividades extramuros, como estratégia de ensi-
reforçam e estimulam o que sinalizam as Diretrizes no/aprendizagem, têm sido utilizadas com suces-
Curriculares Nacionais: o profissional tem que ser ca- so entre os graduandos dos cursos da saúde (Odon-

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Atividades extramuros como estratégia viável no processo ensino-aprendizagem • Galassi MAS, Barbin EL, Spanó JCE, Melo JAJ,
Tortamano N, Perri de Carvalho AC

tologia, Nutrição, Enfermagem, Farmácia e Fisio- have fostered and supported these extramural activi-
terapia) da Universidade Paulista, Campus Vargas ties, stimulating teachers and students and making
de Ribeirão Preto, através do exercício de práticas possible the exchange of information and experience
educativas e preventivas na comunidade, em par- through the integration of undergraduate students of
cerias públicas e privadas. several courses. During these extramural activities,
• O aluno em contato com comunidades carentes enthusiasm, participation and great satisfaction
exerce cidadania, tornando-se um profissional among the students could be observed, as well as the
mais humano. whish to perform these activities again.
• As atividades extramuros motivam professores e
alunos, proporcionando troca de informações e Descriptors
de experiências através da integração dos gradu- Teaching. Education, dental. Health education.
andos de diferentes áreas do conhecimento. Learning. §
• Observou-se que, nas atividades extramuros, hou-
ve entusiasmo e dedicação dos participantes. Referências bibliográficas
• O entusiasmo do professor parece ser imprescin- 1. Brasil. Programa de integração docente-assistencial. Brasília
dível para o aprendizado. Ele depende tanto da (DF); 1981. [Série Cadernos de Ciências da Saúde, 3].
intenção e dos valores do professor como também 2. Brasil. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educa-
das condições proporcionadas pela instituição de ção. Câmara de Educação Superior. Diretrizes Curriculares
ensino (neste estudo, esses fatores foram extrema- Nacionais do Curso de Graduação em Odontologia. Diário
mente favoráveis). Oficial da União, Brasília (DF), 04 mar 2002, seção 1, p. 10.
3. Delors J. Educação: um tesouro a descobrir. 8ª ed. São Paulo:
Agradecimentos Cortez ; 2003. 288 p.
À Diretoria do Instituto de Ciências da Saúde da 4. Galassi MAS, Santos-Pinto LM, Scannavino FLP. Expectativas
Universidade Paulista (UNIP), por ter cedido o Ôni- do cirurgião-dentista em relação ao mercado de trabalho. Rev
bus Multidisciplinar de Saúde Itinerante. Assoc Paul Cir Dent 2004;58(1):67-70.
5. Lombardo I. Reflexões sobre o planejamento do ensino em
Abstract Odontologia. Revista da ABENO 2001;1(1):17-24.
Extramural activities as a viable strategy in the 6. Junqueira C, Colombo CED, Tavares PG, Rocha RF, Carvalho
teaching/learning process YR, Rodrigues JR. Quem é e o que pensa o graduando de odon-
The classroom cannot be limited to the university’s tologia. Rev Odontol UNESP 2002;31(2):269-84.
physical space. The student needs to be inserted in 7. Martinez CS, Andrade FB, Miotto MHMB. Perfil socioeconô-
the professional reality, not being limited exclusively mico dos estudantes de odontologia da Universidade Federal
to activities inside the university. Activities performed do Espírito Santo. UFES Rev Odontol 2004;6(2):51-8.
outside the university are being successfully used 8. Morita MC, Kriger L. Mudanças nos cursos de Odontologia e
among undergraduate students of health courses a interação com o SUS. Revista da ABENO 2004;4(1):17-21.
(Dentistry, Nutrition, Nursing, Pharmacy, and Phys- 9. Perri de Carvalho AC. Educação e saúde em Odontologia - en-
iotherapy) of the Paulista University, Campus of Ri- sino da prática e prática do ensino. São Paulo: Santos; 1995.
beirão Preto, by the application of educative and pre- 93 p.
ventive practices to serve the community, in association 10. Perri de Carvalho AC. Planejamento do curso de graduação de
with public and private initiatives. This is a valuable Odontologia. Revista da ABENO 2004;4(1):7-13.
variation of the teaching/learning environment and 11. Secco LG, Pereira MLT. A profissionalização docente e os
also a valuable opportunity to improve the contact ­desafios político-estruturais dos formadores em Odontologia –
between students and the community and also be- um estudo com coordenadores de graduação. Revista da
tween students and teachers. The health courses must ­ABENO 2003;4(1):22-8.
give students the opportunity to acquire knowledge 12. Raldi DP, Malheiros CF, Fróis IM, Lage-Marques JL. O papel
and develop skills that help them to develop a better do professor no contexto educacional sob o ponto de vista dos
attitude towards the real world; and this may be expe- alunos. Revista da ABENO 2003;3(1):15-23.
rienced through the integration of the university with
the community. The student is put in contact with Aceito para publicação em 06/2005
poor communities, learning and also performing the
duties of citizenship, becoming a more humanist pro-
fessional. The organizations involved in this research

Revista da ABENO • 6(1):66-9 69


Perfil do acadêmico de Odontologia
da Universidade do Planalto
Catarinense – Lages – SC, Brasil
A formação de cirurgiões-dentistas deveria ser adequada à realidade
socioepidemiológica do Brasil e mais próxima das exigências
do Sistema Único de Saúde, no qual reside uma das maiores
possibilidades de emprego.
Jacson Brustolin*, Juliana Brustolin*, Ramona Fernanda Ceriotti Toassi**,
Mirian Kuhnen***

* Acadêmicos do Curso de Odontologia da Universidade do


Planalto Catarinense.
** Mestre em Saúde Coletiva pela Faculdade de Odontologia,
Departamento de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade
do Planalto Catarinense. E-mail: ramona@uniplac.net.
*** Especialista em Odontologia em Saúde Coletiva do Departamento
de Ciências Biológicas e da Saúde da Universidade do
Planalto Catarinense.

Resumo sino da Odontologia e contribuíram para subsidiar a


Esta pesquisa objetivou traçar o perfil do graduan- caracterização das qualificações do profissional a ser
do da Faculdade de Odontologia da Universidade do formado pela UNIPLAC.
Planalto Catarinense/UNIPLAC, principalmente
quanto às suas razões para escolha do curso e suas Descritores
expectativas em relação à futura profissão. Todos os Estudantes de Odontologia. Educação em Odon-
acadêmicos do primeiro ao décimo período do curso tologia. Ensino.
responderam a um questionário elaborado a partir
dos objetivos do estudo (n = 214). A coleta de dados
aconteceu no primeiro semestre de 2004. Dentre os H á poucos anos, a Odontologia era uma das prá-
ticas de saúde mais elitizadas do Brasil. Sua in-
serção no setor público se limitava a precários serviços
principais resultados, pôde ser observado que 53,3%
dos estudantes eram do sexo feminino, a maioria do escolares e abomináveis rotinas de extração dos dentes
estado de Santa Catarina, solteiros, sem filhos, com da população mais pobre.
faixa etária baixa, alto nível socioeconômico e de es- As lutas pela democracia e pela extensão da cida-
colaridade dos pais, forte tendência à especialização dania, as Conferências de Saúde e a construção do
e opção direcionada para o serviço público e privado, Sistema Único de Saúde (SUS) previsto na Constitui-
com boa expectativa de rendimentos. A escolha pelo ção Federal de 1988 impulsionaram mudanças nessas
curso foi motivada principalmente por realização pes- práticas e nas concepções sobre o que deve e como
soal e profissional. Consideraram como principal fi- deve fazer a Odontologia brasileira9.
nalidade da Odontologia a prevenção e a manutenção O SUS estabeleceu como princípios a integralida-
da saúde bucal. Os resultados deste estudo permitiram de da atenção à saúde, com ênfase nos aspectos pre-
identificar mudanças e tendências que estão ocorren- ventivos, e uma atuação profissional dirigida à reali-
do nas relações entre o exercício profissional e o en- dade socioepidemiológica da população do País. O

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Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

modelo tradicional de formação de recursos humanos curso de graduação em Odontologia pretende formar
não tem conseguido cumprir tal diretriz por ainda cirurgiões-dentistas técnica e cientificamente capazes
centrar sua ação no paradigma cirúrgico-restaurador, de desenvolver e executar ações de saúde em Odon-
sofisticação tecnológica, tecnicismo e biologicismo, tologia integral. Tal formação implica a capacitação
sendo o contexto social da determinação da doença do profissional para intervir na sociedade, adotando
secundarizado13. Pode-se dizer que a prática odonto- medidas preventivas, educativas e curativas adequadas
lógica atual tem se desenvolvido de forma desvincula- e necessárias, que provoquem transformações no
da da realidade social do País, resultando um padrão comportamento e nas práticas em saúde bucal da po-
de saúde bucal caótico, apesar da grande quantidade pulação, melhorando a sua qualidade de vida14.
de mão-de-obra odontológica disponível no mercado Desse modo, o perfil prevê: “um profissional ge-
de trabalho. neralista com sólida formação técnico-científica e éti-
Vários têm sido os fatores que contribuem para a ca orientada para promoção da saúde, com ênfase na
manutenção dessa situação desfavorável. Dentre eles, prevenção de doenças bucais prevalentes”14.
destacam-se a estrutura social do País, o modelo de Estabeleceu como objetivo principal o desenvol­
prática odontológica, os aspectos econômicos de ofer- vimento de um conjunto de hábitos e atitudes pro­
ta e procura de serviços, os sistemas de financiamento, fissionais nos acadêmicos que os caracterizará per­
as questões político-ideológicas e os diversos agentes manentemente no exercício de suas funções no
envolvidos nesse processo6. contexto social e preventivo. Como estratégia de en-
A crise no mercado de trabalho odontológico, pro- sino, reservaram-se inicialmente 240 horas-aula para
vocada pelo excesso de mão-de-obra, tem levado à a disciplina de Odontologia Social e Preventiva, dis-
necessidade de se desenvolverem estudos sobre a es- tribuídas ao longo de oito fases de sua grade curricu-
truturação dos recursos humanos dentro da prática lar.
atual. Resta, agora, saber qual a complexidade realística
No início da década de 80, o Conselho Federal de do teórico-prático das Universidades, em uma pers-
Odontologia (CFO) e a Associação Brasileira de En- pectiva futura, ou seja, até que ponto o perfil do aca-
sino Odontológico (ABENO), no sentido de estabe- dêmico irá condizer com o perfil proposto pelo cur-
lecer uma diretriz para a formação profissional do so.
cirurgião-dentista, delinearam o seguinte perfil para Diante desse quadro, tornou-se essencial o desen-
o recurso humano necessário no País: “ser um clínico volvimento de um estudo que caracterizasse o acadê-
geral, com sensibilidade social e bem capacitado teo- mico do curso de graduação em Odontologia da UNI-
ricamente”. Em 1982, esse perfil foi adotado pelo cur- PLAC, buscando conhecer seu perfil socioeconômico,
rículo mínimo dos cursos de graduação em Odonto- cultural e comportamental.
logia1,6,11.
Estudos posteriores de Freire et al.6 (1995) e Frei- Métodos
tas, Nakayama7 (1995) constataram que a formação Este é um estudo descritivo observacional do tipo
do acadêmico do curso de graduação em Odontologia transversal conduzido na sede da UNIPLAC, localiza-
caracteriza-se pelo individualismo com ânsia de lu- da no município de Lages – SC.
cros, alienamento da realidade, tendência curativista A população-alvo incluiu todos os 242 acadêmicos
e desprezo ao serviço público odontológico. matriculados da primeira à décima fase do curso de
Muitas razões foram apontadas para esse perfil, graduação em Odontologia da UNIPLAC, de ambos
mas a principal foi a deficiência dos currículos da os sexos, no início de 2004. Destes, concordaram em
maioria das faculdades de Odontologia. Tais currícu- participar do estudo 214 acadêmicos, ou seja, 88,5%
los têm, na verdade, reproduzido o modelo de prática do total da população.
dominante, formando recursos humanos inadequa- O instrumento de pesquisa consistiu na aplicação
dos à realidade socioepidemiológica de nosso país. de um questionário estruturado para os acadêmicos
Ciente dessa realidade, o curso de graduação em de todos os períodos do curso de Odontologia da UNI-
Odontologia da Universidade do Planalto Catarinen- PLAC, tendo como base questões abertas, semi-aber-
se (UNIPLAC), ao iniciar suas atividades na segundo tas e fechadas, retiradas de vários questionários pre-
semestre de 1999, apresentou um projeto almejando sentes na literatura2,3,6,7.
gestar novas relações sociais comprometidas com a O questionário foi dividido em 4 blocos: Bloco
solidariedade, a cidadania e a vida14. 1 – Identificação; Bloco 2 – Sobre o curso de Odon-
De acordo com o projeto político-pedagógico, o tologia; Bloco 3 – Atuação profissional após o término

Revista da ABENO • 6(1):70-6 71


Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

da graduação; e Bloco 4 – Pós-graduação. cidade que pretendiam trabalhar. Os resultados mos-


Com o propósito de testar a estrutura do questio- traram que, para 63,1% dos acadêmicos, o curso de
nário elaborado e verificar a clareza da linguagem Medicina seria o de melhor prestígio social; em segun-
utilizada, foi realizado um estudo-piloto com acadê- do lugar ficou a Odontologia (57,5%) e, em terceiro,
micos do primeiro ao último semestre de outro curso Propaganda e Marketing (50,5%). Em relação ao re-
de graduação em Odontologia do estado de Santa torno econômico, também o curso de Medicina ficou
Catarina, o qual antecedeu a aplicação do questioná- em primeiro lugar (55,1%), Propaganda e Marketing,
rio definitivo deste estudo. em segundo (42,5%) e a Odontologia, em terceiro
Os dados foram processados e analisados pelo pro- (42,1%).
grama estatístico SPSS-10.0. Quando da opção pela Odontologia, 55,2% dos
O estudo foi avaliado e aprovado por um comitê acadêmicos estavam absolutamente decididos sobre a
de ética em pesquisa envolvendo seres humanos. escolha do curso, embora um número significativo
tenha manifestado alguma dúvida (38,3%) e até inde-
Resultados cisão completa (5,6%). Quase metade dos acadêmicos
Dos 214 acadêmicos pesquisados, 53,3% eram do (45,4%) optou pela Odontologia pela realização pro-
sexo feminino e 46,7% eram do sexo masculino. A fissional e pessoal, 20,9%, pelo conforto financeiro e
faixa etária dos acadêmicos variou de 16 a 43 anos e 18,8%, pelo interesse em atuar na comunidade. Em
a média de idade da população ficou entre 20 e 21 todos os semestres, a realização pessoal e profissional
anos. A grande maioria era do estado de Santa Cata- foi o motivo mais observado.
rina (71,5%), solteira (90,7%), não tinha filhos Quando questionados sobre qual a principal fina-
(86,9%) e, quando tinha, apenas um (77,7%). Seus lidade da Odontologia, 28,2% destacaram a preven-
pais geralmente trabalhavam (pais: 81,3%; mães: ção e a manutenção da saúde bucal, 19,6%, a preven-
65%), sendo que 40,7% dos pais e 37,4% das mães ção e o tratamento e 19%, a promoção de higiene e
haviam cursado o ensino superior completo. estética.
O maior responsável pelo ganho da família dos A questão sobre a expectativa atual ou passada dos
acadêmicos foi o pai (66,8%); para quase metade dos acadêmicos com o curso de Odontologia da UNIPLAC
acadêmicos, a renda familiar foi maior que 10 salários- mostrou que os alunos esperavam ou haviam esperado
mínimos e, para 24,3%, a renda foi maior do que 20 principalmente obter melhores salários (19,6%), uma
salários-mínimos. Mais da metade dos acadêmicos formação profissional voltada para o trabalho (15,6%),
(57,5%) relatou morar em casa de tijolos e 23,4%, em conhecimento para melhorar o grau de instrução
edifícios. (12,7%) e aquisição de cultura geral ampla (13,5%).
Os acadêmicos afirmaram ter realizado o ensino Apenas 6,2% dos acadêmicos relataram um interesse
fundamental e médio em escola privada (45,8% e pela pesquisa. Com exceção do quinto, nono e décimo
64,5%, respectivamente). Fizeram curso pré-vestibu- semestres, todos os demais priorizaram a opção de
lar (66,4%) por até seis meses (36%), nunca trabalha- obter melhores salários com a profissão escolhida.
ram (59,3%), não tinham começado outro curso su- Com relação ao grau de satisfação com o curso,
perior (75,2%) e tinham sido aprovados no primeiro 50,9% afirmaram que a Odontologia é o único curso
vestibular (77,5%). capaz de satisfazê-los, porém, 46,3% disseram que a
Em caso de necessitarem de tratamento odontoló- Odontologia é um dentre outros cursos que poderiam
gico, 87,9% procuravam dentista particular e apenas satisfazê-los. Apenas 1,9% respondeu que o curso di-
2,3%, o atendimento pelo Sistema Único de Saúde. ficilmente irá satisfazê-lo e nenhum acadêmico disse
O dentista particular foi mais procurado por apresen- que o curso nunca iria satisfazê-lo.
tar melhor atendimento (57,5%), por parentesco ou Para 60,7% dos acadêmicos, o curso está corres-
amizade (19,6%) e por tradição familiar (12,6%). pondendo totalmente às expectativas iniciais; para
A presença de cirurgiões-dentistas na família foi 36,5% está correspondendo em parte, e para 2,3%
observada em 36,9% dos acadêmicos investigados. não está correspondendo.
Destes, 51,9% tinham esse parentesco em primeiro Além disso, os acadêmicos também opinaram so-
grau. bre o tipo de formação recebida no curso de Odon-
Finalizando o bloco de identificação, foi pergun- tologia da UNIPLAC. Dos 214 acadêmicos, 56,6%
tado aos acadêmicos quais eram, sob o ponto-de-vista afirmaram que a UNIPLAC está proporcionando uma
deles, os cursos de graduação que possuíam melhor formação sólida para a atuação de cirurgiões-dentistas
prestígio social e melhor retorno econômico para a no Programa de Saúde da Família (PSF), 14% acredi-

72 Revista da ABENO • 6(1):70-6


Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

tam que não e 29,4% não responderam. co do último semestre disse não saber quanto preten-
Para a grande maioria dos acadêmicos pesquisados dia ganhar.
(86,4%), o serviço privado exclusivo já não é mais uma Para finalizar o bloco de questões relacionadas à
realidade; 49% afirmaram que pretendem trabalhar atuação profissional futura, foi perguntado aos acadê-
nos serviços público e privado e 33,6%, nos serviços micos se eles pretendiam voltar para a cidade de ori-
público e privado e na universidade. Apenas 0,5% dos gem depois de formados. As respostas mostraram que
acadêmicos mostrou interesse unicamente pelo traba- 39,2% dos acadêmicos pesquisados têm a intenção de
lho em universidade. voltar para sua cidade, 37,8% não têm e 23% ainda
Quando separados por período de formação, os não sabem.
resultados mostraram que, dos acadêmicos que ainda Sobre cursos de pós-graduação, 98,1% dos acadê-
não tinham se decidido sobre o tipo de vínculo de micos afirmaram que pretendem realizá-los até 6 me-
trabalho que pretendiam ter depois de formados, ses depois de formados (43%). Mais da metade dos
42,8% estavam no primeiro semestre do curso e 50%, acadêmicos (59,8%) destacaram a intenção de fazer
ainda no início do curso de Odontologia (1º, 2º e Mestrado ou Doutorado nas áreas de Ortodontia
3º semestres). (21,5%), Cirurgia (19,6%), Prótese e/ou Implanto-
Os motivos que levariam os acadêmicos a trabalhar dontia (11,2%) e Odontopediatria (10,2%). Cerca de
unicamente no serviço privado podem ser visualizados 20% dos acadêmicos não definiram a área de interes-
na Tabela 1, e a distribuição dos acadêmicos do curso se para a pós-graduação.
de Odontologia da UNIPLAC segundo os motivos que
os levariam a trabalhar tanto no setor privado quanto Discussão
no público pode ser encontrada na Tabela 2. O acadêmico do curso de graduação em Odonto-
Quando questionados se dedicariam 40 horas se- logia da UNIPLAC é, em sua maioria, um jovem cata-
manais para trabalhar no serviço público, 63,6% dos rinense solteiro, de 16 a 25 anos de idade, com discre-
acadêmicos do curso de Odontologia afirmaram que to predomínio do sexo feminino, sem filhos e com
sim. nível socioeconômico privilegiado. O mesmo foi veri-
A pretensão salarial logo após a conclusão da gra- ficado por estudo sobre perfil profissional brasileiro
duação foi, para 36% dos acadêmicos, de 6 a 10 salá- realizado por Pinto, Fraga11 (2003).
O discreto predomínio de acadêmicos do sexo fe-
rios-mínimos; para 18,7%, de 11 a 20 salários-mínimos
minino (53,3%) verificado na UNIPLAC confirma a
e para 16,4%, de 2 a 5 salários-mínimos. Cerca de 20%
tendência crescente de feminização das profissões no
dos acadêmicos disseram não saber quanto preten-
setor da saúde, encontrada por Arbenz et al.2 (1973),
diam ganhar após o término da graduação. Desses,
Botti, Santos3 (1986), Freire et al.6 (1995), Freitas,
51,2% estavam no início do curso. Nenhum acadêmi-
Nakayama7 (1995), Carvalho et al.4 (1997), Costa et al.5
(1999), Junqueira et al.8 (2002) e Nicodemo, Naressi10
Tabela 1 - Distribuição da população segundo os fatores
considerados para a opção pelo serviço privado exclusivo.
Acadêmicos do curso de Odontologia da UNIPLAC, La- Tabela 2 - Distribuição da população segundo os fatores
ges, SC, 2004/1. considerados para a opção pelos serviços privado e públi-
co. Acadêmicos do curso de Odontologia da UNIPLAC,
Fatores considerados n % Lages, SC, 2004/1.
Autonomia 107 26,5 Fatores considerados n %
Lucro e estabilidade 80 19,8 Estabilidade e auxílio à comunidade 111 28,5
Má remuneração de público 35 8,6 Renda segura e experiência nos 124 31,8
Melhores condições de trabalho 79 19,5 primeiros anos
Pretende especializar-se 79 19,5 Maior experiência profissional 110 28,2
Já tem consultório montado do pai 1 0,2 Realização profissional e financeira 30 7,7
Ignorado 23 5,7 Servir toda a comunidade 1 0,2
Não informou 1 0,2 Ignorado 14 3,6
Total 405* 100,0 Total 390* 100,0
*O número de respostas foi maior que o número total de acadêmicos *O número de respostas foi maior que o número total de acadêmicos
examinados porque a resposta admitia a escolha de mais de uma examinados porque a resposta admitia a escolha de mais de uma
alternativa. alternativa.

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Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

(2002). os acadêmicos têm buscado na Odontologia um meio


Quanto à idade, cerca de 90% dos acadêmicos ti- para sobreviverem bem economicamente, serem es-
nham idade entre 16 e 25 anos, podendo esta ser con- pecialistas e trabalharem por conta própria, atenden-
siderada uma idade relativamente baixa. A pouca do a população de alta renda. Chamou a atenção o
idade sugere baixa reprovação e rara evasão4. Para fato de que, no estudo da Universidade de Goiás, ape-
Botti, Santos3 (1986), de certa forma, essa baixa idade nas 6% dos acadêmicos escolheram a Odontologia
pode ser uma boa perspectiva em termos de vida útil com interesse em atuar junto à comunidade, enquan-
produtiva que esses futuros profissionais terão; no en- to na UNIPLAC 18,8% dos acadêmicos mostraram
tanto, leva à indagação de se, na época que realizaram interesse por atuar na comunidade.
o ingresso na Universidade, teriam maturidade sufi- Um aspecto positivo mostrado no presente estudo
ciente para escolher uma profissão ou seriam condu- foi o alto índice de acadêmicos que consideram como
zidos nessa escolha, o que, certamente, poderá in- principal finalidade da Odontologia a prevenção e a
fluenciar no desempenho das atividades profissionais. manutenção da saúde bucal. O mesmo foi observado
Destaca-se, porém, neste estudo que, quando da op- por Freire et al.6 (1995).
ção pela Odontologia, mais da metade dos acadêmi- Apesar disso, quando questionados sobre a expec-
cos (55,2%) relataram estar absolutamente decididos tativa atual ou passada com o curso de Odontologia
sobre a escolha do curso. da UNIPLAC, os acadêmicos afirmaram que espera-
O nível socioeconômico dos acadêmicos pode ser vam ou haviam esperado principalmente obter me-
considerado bastante privilegiado se considerada a lhores salários. Já o estudo de Freire et al.6 (1995)
renda familiar mensal, o tipo de moradia, o grau de mostrou que apenas 1,7% dos acadêmicos da Univer-
escolaridade e tipo de ocupação dos pais e o acesso à sidade Federal de Goiás esperavam com a Odontolo-
assistência odontológica privada, contrastando com a gia obter melhores salários e formação teórica voltada
situação da maior parte da população brasileira. para pesquisa. A resposta mais freqüente foi a forma-
Acrescenta-se a isso o alto valor da mensalidade vigen- ção profissional voltada para o trabalho (73,3%).
te na instituição e do curso como um todo, bem como O percentual de acadêmicos que consideraram a
o período integral de dedicação ao curso, o que invia- Odontologia como única carreira que podia satisfazê-
bilizaria um emprego paralelo formal para essa popu- los foi de 50,9% dos acadêmicos. Um percentual me-
lação (93,9% não trabalhavam). nor foi obtido no estudo de Freitas, Nakayama7 (1995)
No que se referiu à formação no ensino fundamen- com estudantes de Odontologia do estado de São Pau-
tal e médio, a grande maioria dos acadêmicos é oriun- lo (29,7%).
da da escola particular. Esses dados são semelhantes Para mais da metade dos acadêmicos, o curso está
aos encontrados por Junqueira et al.8 (2002) e Nico- correspondendo às expectativas iniciais; os alunos
demo, Naressi10 (2002). acreditam que a UNIPLAC está proporcionando uma
Sobre o número de dentistas na família, a média formação sólida para a atuação de cirurgiões-dentistas
dos acadêmicos da UNIPLAC pode ser considerada no PSF. O mesmo foi observado por Junqueira et al.8
relativamente baixa (1,36 dentistas) quando com­ (2002) na Faculdade de Odontologia de São José dos
parada com a encontrada por Freire et al.6 (1995) e Campos/SP.
Freitas, Nakayama7 (1995). De qualquer forma, essa Observou-se uma tendência de se diminuir a atu-
presença é importante na definição da escolha profis- ação de trabalho em consultório próprio. Apenas uma
sional, sendo explicada pelo freqüente e constante minoria pretendia dedicar-se exclusivamente ao con-
contato com uma determinada profissão, facilitando sultório particular. Cerca de metade dos acadêmicos
a identificação e o despertar do interesse por esta, pesquisados tinha a intenção de se dedicar aos serviços
especialmente quando possui um alto prestígio so- público e privado e 33,6%, aos serviços público e pri-
cial7. vado e à universidade. As razões apontadas para a op-
Quanto ao motivo da escolha do curso, a maioria ção pelo serviço privado exclusivo foram principal-
dos acadêmicos de todos os semestres relatou ter es- mente autonomia, lucro e estabilidade. O mesmo foi
colhido a Odontologia principalmente pela realiza- observado em estudo de Botti, Santos3 (1986) nos cur-
ção profissional e pessoal, seguida por segurança e sos de Odontologia do Rio Grande do Sul. De acordo
tranqüilidade no futuro, posição social e conforto fi- com estudo similar realizado na Universidade de Goi-
nanceiro e interesse em atuar na comunidade. Já Frei- ás6, 100% pretendiam trabalhar no próprio consultó-
re et al.6 (1995) verificaram, na Faculdade de Odon- rio, sendo que 41% de todos os pesquisados preten-
tologia da Universidade Federal de Goiás (UFG), que diam dedicar-se somente à clínica privada e 30%, à

74 Revista da ABENO • 6(1):70-6


Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

clínica privada e ao serviço público ao mesmo tempo. tribuíram ainda para subsidiar a caracterização das
Aqueles que visavam o consultório particular também qualificações do profissional a ser formado pela UNI-
buscavam principalmente autonomia, lucro e estabi- PLAC e a conseqüente reestruturação curricular. Es-
lidade. tudos e seminários deveriam ser estimulados nas fa-
Ainda que neste estudo a atuação exclusiva no ser- culdades e associações de classe.
viço privado tenha sido delegada a segundo plano e A formação de recursos humanos adequados à re-
que os acadêmicos tenham demonstrado interesse em alidade socioepidemiológica do Brasil é, desse modo,
atuar na comunidade, manifestando-se favoráveis em o grande desafio para a consolidação do SUS.
atuar 40 horas semanais no serviço público, parece
que o mesmo torna-se apenas um trampolim para o Abstract
recém-graduado que, mesmo diante da atual crise no Personal characteristics of undergraduate
mercado de trabalho no setor privado, despreza o dental students of the Universidade do Planalto
serviço público odontológico6. Catarinense – Lages – SC, Brazil
Junqueira et al.8 (2002) chamam a atenção para o The purpose of this study was to determine the
fato de que há indícios de significativas alterações no personal characteristics of undergraduate students of
mercado de trabalho para o cirurgião-dentista, tendo the School of Dentistry, Universidade do Planalto Ca-
em vista a implantação de serviços odontológicos em tarinense/UNIPLAC, to reveal the reasons they had
órgãos governamentais, empresas, associações e sin- for choosing this specific course and their expectan-
dicatos, com diminuição de sua atuação como profis- cies about their future profession. All students of the
sional liberal. first to the tenth term of the course answered a struc-
O alto percentual de acadêmicos que pretendem tured questionnaire prepared for this study (n = 214).
se especializar, assim como a definição prematura pela Data were collected during the first semester of 2004.
área verificada neste estudo, confirmou a tendência Among other findings, it was detected that 53.3% of
da expansão da especialização observada nos últimos the students are women, most of them are from the
anos no Brasil. Essa tendência também foi detectada state of Santa Catarina, they are single and young, have
entre os acadêmicos dos cursos de Odontologia do no children, present high socioeconomic level and
Rio Grande do Sul3, de Goiás6 e de São Paulo7. Já Sla- parental educational level. They expect to specialize
vutzky et al.12 (2002) verificaram, em acadêmicos da in the future, to work with private and public health
Faculdade de Odontologia da Universidade Federal care, and to be well paid. Their choice for Dentistry
do Rio Grande do Sul, no período de 1998 a 2001, was based mainly on personal and professional satis-
que 76% pretendiam fazer especialização, mas ainda faction. They believe that the objective of Dentistry is
não tinham escolhido a área que desejavam se espe- the prevention and maintenance of oral health. The
cializar. Segundo Costa et al.5 (1999), observa-se du- results of this study showed changes that have been
rante os cursos de graduação “um estímulo precoce à occurring in dentistry and in the teaching of dentistry.
especialização, levando o aluno a perder a visão har- The results also contributed to help characterize the
mônica do indivíduo como um todo”. qualifications that a professional who graduates from
A Ortodontia, área preferida por 21,5% dos aca- UNIPLAC must have.
dêmicos da Faculdade de Odontologia da UNIPLAC,
também foi a mais popular em seis diferentes cursos Descriptors
de Odontologia do estado de São Paulo7 e na Univer- Students, dental. Education, dental. Teaching. §
sidade Federal de Goiás6. A Cirurgia representou a
segunda área de atuação mais mencionada tanto na Referências bibliográficas
UNIPLAC quanto na UFG6. Já na Faculdade de Odon- 1. ABENO. Entrega do currículo ao Conselho Federal de Educa-
tologia de São Paulo7, a Odontopediatria ficou em ção. ABENO Notícias 1978;1(1):4.
segundo lugar como área pretendida. 2. Arbenz GO, Abramowicz M, Abramowicz M, Silva M. Motivos
conscientes na escolha da profissão odontológica. Rev Fac
Conclusão Odontol Univ São Paulo 1973;1(11):101-9.
Os resultados deste trabalho permitiram identifi- 3. Botti MRV, Santos GMC. Perspectiva do exercício profissional
car mudanças e tendências que estão ocorrendo nas na odontologia. RGO 1986;2(34):155-9.
relações entre o exercício profissional e o ensino da 4. Carvalho DR, Perri de Carvalho AC, Sampaio H. Motivações e
Odontologia, comparando-se com os achados de ou- expectativas para o curso e para o exercício da Odontologia.
tros estudos com os mesmos objetivos propostos. Con- Rev Assoc Paul Cir Dent 1997;51(4):345-9.

Revista da ABENO • 6(1):70-6 75


Perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade do Planalto Catarinense – Lages – SC,
Brasil • Brustolin J, Brustolin J, Toassi RFC, Kuhnen M

5. Costa ICC, Marcelino G, Saliba NA. Perspectivas de um grupo 17(36):135-9.


de alunos de odontologia sobre a profissão no terceiro milênio. 11. Pinto M, Fraga V. Novo perfil do CD. Jornal do CFO, jan/fev
Rev ABOPREV 1999;2(1):38-45. 2003, p. 6-7.
6. Freire MCM, Souza CS, Pereira HR. O perfil do acadêmico de 12. Slavutzky SMB, Abbeg C, Gross RFE, Rosa MAC. Mercado de
Odontologia da Universidade Federal de Goiás. Divulgação em trabalho: perfil do acadêmico de Odontologia da Universidade
Saúde para Debate 1995;10:15-20. Federal do Rio Grande do Sul. Rev Fac Odontol Porto Alegre
7. Freitas SFT, Nakayama MH. Um perfil do estudante de Odon- 2002;43(2):3-6.
tologia no estado de São Paulo. Divulgação em Saúde para 13. Traebert JL, Lacerda JT, Peres MAA, Lunardelli SE, Clavera
Debate 1995;10:29-37. WV. A formação de recursos humanos em Odontologia da Uni-
8. Junqueira JC, Colombo CED, Tavares PG, Rocha RF, Carvalho versidade do Vale do Itajaí - Santa Catarina. Divulgação em
YR, Rodrigues JR. Quem é e o que pensa o graduando de odon- Saúde para Debate 1995;10:80.
tologia. Rev Odontol UNESP 2002;31(2):269-84. 14. Universidade do Planalto Catarinense. Faculdade de Odonto-
9. Narvai PC. Odontologia e Saúde Bucal Coletiva. 2ª ed. São logia. Projeto político pedagógico: Odontologia (elaborado em
Paulo: Santos; 2002. 1998).
10. Nicodemo D, Naressi WG. O perfil do aluno de odontologia –
do ingresso à sua graduação. Rev Odonto Ciência 2002; Aceito para publicação em 06/2005

Atenção,
autores!

76 Revista da ABENO • 6(1):70-6


Trabalho de Conclusão de Curso:
construção ao longo do curso ou tarefa
para finalizá-lo?†
Na UNIVALI pratica-se a atividade acadêmica do TCC adotando-se
a concepção da pesquisa como princípio científico e educativo, como
alternativa pedagógica para se fomentar, no acadêmico e no docente,
o questionamento crítico e (re)construtivo.
Elisabete Rabaldo Bottan*, Mario Uriarte Neto**, Nivaldo Murilo Diegoli***, Shirlei
Imianowski****, Henri Stuker**

* Mestre em Ensino de Ciências Naturais. E-mail: erabaldo@univali.br.


** Doutores em Engenharia de Produção.
*** Mestre em Materiais Dentários.
**** Mestre em Saúde Pública.

RESUMO 1300/01; Resolução CNE/CES 3/02), definem as li-


Desenvolvendo-se a face educativa da pesquisa, nhas gerais para a organização do curso de Odonto-
favorece-se o questionamento sobre a realidade e, logia. Dentre as recomendações apontadas no docu-
também, não se restringe a pesquisa às etapas de co- mento, encontra-se a obrigatoriedade do Trabalho de
leta e acumulação de dados. Assim, pode-se conceitu- Conclusão de Curso (TCC).
ar pesquisa como uma atividade de inquirição da re- No Curso de Odontologia da Universidade do Vale
alidade, como uma atividade que permite (re)elaborar do Itajaí (UNIVALI), desde a sua implantação em
um conhecimento que auxilie na compreensão dessa 1990, o TCC já integra a estrutura curricular. O nosso
realidade e oriente as ações dos profissionais. Este entendimento de TCC é de que ele é uma atividade
artigo enfoca a experiência do curso de Odontologia de exercício da investigação científica. Ele implica a
da Universidade do Vale do Itajaí em adotar a pesqui- produção de um projeto de pesquisa, a sua qualifica-
sa como uma atividade integrada ao processo de en- ção e a sua defesa escrita e verbal, perante banca exa-
sino-aprendizagem, vinculando-a ao Trabalho de minadora. E envolve toda a comunidade acadêmica
Conclusão de Curso. (alunos, docentes e funcionários) ao longo dos dife-
rentes momentos da matriz curricular. Portanto, des-
DESCRITORES de a sua implantação, o TCC não foi concebido como
Recursos humanos em odontologia. Educação em uma tarefa a mais, como um fardo a ser carregado no
odontologia. Pesquisa em odontologia. Educação su- final do curso.
perior. Adotamos, apoiados nas argumentações de Demo4
(1991), a concepção da pesquisa como princípio cien-

A s Diretrizes Curriculares Nacionais dos Cursos de


Graduação em Odontologia, aprovadas pelo
Conselho Nacional de Educação (Parecer CNE/CES
tífico e educativo, como alternativa pedagógica para
se fomentar, no acadêmico e no docente, o questio-
namento crítico e (re)construtivo. A pesquisa como


Este artigo foi produzido com base nos trabalhos apresentados no Seminário “Ensinando e Aprendendo” das 36ª e 38ª Reuniões da Asso-
ciação Brasileira de Ensino Odontológico.

Revista da ABENO • 6(1):77-80 77


Trabalho de Conclusão de Curso: construção ao longo do curso ou tarefa para finalizá-lo? • Bottan ER, Uriarte Neto M, Diegoli NM,
Imianowski S, Stuker H

tal é uma estratégia para se saber fazer e refazer co- vivência em pesquisa. E os que possuíam alguma ex-
nhecimento. Assim, o objetivo claramente definido periência em pesquisa, esta era na dimensão estrita-
para o TCC não é o de se utilizar o termo pesquisa no mente científica, adquirida por um breve exercício,
sentido científico restrito, do ineditismo. Para nós, nos cursos de pós-graduação. Esta caracterização ini-
como destacou Demo3 (1996), a originalidade espe- cial do nosso corpo docente não é exclusividade nos-
rada não é aquela do absolutamente irrepetível, mas sa, pois, como afirmaram, recentemente, Péret, Lima9
sim de se conhecer o que já se desenvolveu como co- (2005, p. 46), embasadas em Carvalho1 (2001), “pou-
nhecimento, permutando saberes, práticas e experi- cos são os programas que incluem a pesquisa educa-
mentos. tiva (...), quando esta é incluída, muitas vezes, tem
Acreditamos e estamos praticando a atividade aca- ficado restrita à disciplina de Didática de Ensino Su-
dêmica do TCC como um quesito essencial à formação perior”.
de recursos humanos para a área da saúde com perfil Conscientes dessa limitação, organizamos periodi-
que atenda às demandas sociais. Este perfil requer camente cursos teórico-práticos de metodologia da
sujeitos capazes de trabalhar em equipe, aprender a pesquisa para os professores, com o objetivo de auxi-
aprender, ter iniciativa e criatividade, comunicar-se7. liá-los a tornar a pesquisa o ambiente didático cotidia-
Essas características não podem ser alcançadas com no, a manejar a pesquisa como princípio científico
uma pedagogia tradicional, que está sustentada num educativo. Cumpre destacar que esses cursos não ti-
processo de ensino-aprendizagem tipicamente bancá- nham por função transformar os professores em pes-
rio, em que o professor informa e o aluno recebe, quisadores profissionais, mas desmitificar a idéia de
passivamente, os conhecimentos. que a pesquisa é uma atividade desvinculada do ensi-
A alternativa, então, é um processo de educação no e de que é praticada por alguns grupos espe-
problematizadora, em que educando e educador dia- ciais2,3,5,6,8,10.
logam sobre um conteúdo que tem significado para Para os alunos, o desenvolvimento das competên-
ambos. Nesta dimensão, o TCC enquanto atividade cias necessárias à produção e à comunicação de co-
investigativo-educativa é uma possibilidade concreta nhecimentos dá-se através da oferta de onze (11) cré-
e possível. E, este, portanto, é o objeto deste artigo, ditos obrigatórios, distribuídos em três distintos
que pretende socializar, através de um breve relato, momentos do curso. No segundo período, o aluno é
os primeiros passos da trajetória da inclusão do TCC orientado quanto ao processo de (re)elaboração do
no projeto pedagógico do curso de Odontologia da conhecimento, ou seja, a pesquisa bibliográfica e seus
UNIVALI, que hoje conta com quatorze anos de exis- procedimentos, através da disciplina de Metodologia
tência. da Pesquisa. A partir desse momento, passa-se a insti-
gar no aluno o hábito da consulta bibliográfica como
O PROCESSO uma estratégia complementar e necessária à sua for-
A cotidianização da pesquisa deu-se, prioritaria- mação. No trimestre intermediário do curso (terceiro
mente, através do processo de aprender fazer fazendo. a sexto períodos), acontece a capacitação quanto a
O primeiro passo dessa trajetória, denominado saber organização e implementação de uma proposta de
fazer, constituiu-se na instrumentação teórico-meto- investigação. Sob a orientação de uma equipe de pro-
dológica de professores e de alunos. O ponto de par- fessores, os acadêmicos intensificam a habilidade de
tida desta experiência foi a capacitação dos recursos leitura e análise crítica sobre um determinado assun-
humanos, em especial do professor, pois as interações to, bem como de formular perguntas e hipóteses e de
ensino-pesquisa não fazem parte do nosso dia, elas estabelecer um plano de coleta de dados que permita
dependem de um esforço de socialização de conheci- responder às questões levantadas. E, nos últimos se-
mentos, de fazeres, de vivências pessoais. mestres (oitavo e nono períodos), a ênfase é no pro-
O discurso da articulação ensino-pesquisa, muitas cesso de comunicação (escrita e verbal) do conhe­
vezes, acaba não sendo praticado, caindo no vazio, por cimento construído pela via da pesquisa, que é
dificuldades referentes a como se fazer. Daí nossa pre- coordenado pelas disciplinas de Metodologia da Pes-
ocupação inicial em fornecer subsídios que potencia- quisa e Bioestatística e com a supervisão direta dos
lizassem o trabalho dos professores-cirurgiões-dentis- professores-orientadores.
tas. Há que se destacar o fato de que o grupo, à época, O acesso ao suporte teórico-metodológico tam-
era constituído, na sua maioria, por jovens profissio- bém ocorre pelo sistema de assessoria, através do Setor
nais, especialistas, sem formação pedagógica e sem de Apoio à Pesquisa, que está à disposição da comu-

78 Revista da ABENO • 6(1):77-80


Trabalho de Conclusão de Curso: construção ao longo do curso ou tarefa para finalizá-lo? • Bottan ER, Uriarte Neto M, Diegoli NM,
Imianowski S, Stuker H

nidade acadêmica, em regime de tempo integral ao pequenos grupos. Os acadêmicos sempre trabalham
longo de todos os dias da semana, com atendimento em duplas. As propostas de pesquisa são discutidas e
direto ou através de meio eletrônico. Para subsidiar acompanhadas por uma equipe de docentes, e não
os procedimentos de capacitação contínua, foram apenas pelo orientador.
produzidos materiais, sob a forma de módulos impres- O momento de definição dos alunos para se enga-
sos e disponibilizados em meio eletrônico, que auxi- jarem a uma proposta de pesquisa atende o ritmo de
liam professores e acadêmicos nas diferentes etapas cada um. Desta forma, temos duplas que começam a
do processo da investigação científica. Os principais integrar os grupos de investigação desde o terceiro
módulos instrucionais já produzidos são: semestre e outras que despertam seus interesses so-
• Como Elaborar uma Pesquisa Bibliográfica. mente no sexto período, quando, então, por força de
• Manual de Referências Bibliográficas. mecanismos legais, são obrigadas a apresentarem uma
• Manual de Bioestatística. proposta de pesquisa para o seu Trabalho de Conclu-
• Como Elaborar o Projeto de Pesquisa. são de Curso.
• Estrutura da Monografia.
A outra etapa do processo de cotidianização da AS AVALIAÇÕES SOBRE O PROCESSO
estratégia da pesquisa na graduação, que denomina- Mediante sistemáticas observações, depoimentos
mos de processo de integração (ou saber fazer inte- de acadêmicos e docentes, análise de relatórios, po-
grado), foi a de organização dos grupos de pesquisa. dem-se evidenciar alguns indicadores positivos do
Esses grupos foram estruturados segundo a formação processo de implantação da pesquisa na graduação.
e o interesse dos professores dos, então, ciclos básico Uma análise quantitativa nos revela um significativo
e profissionalizante e levando-se em conta a filosofia crescimento:
institucional. Num primeiro momento, foram defini- • de participações de professores e de alunos em
das apenas duas grandes áreas: clínica e epidemioló- eventos científicos, na condição de colaboradores
gica, pois a intenção é a de se promover o exercício ativos, isto é, apresentando suas produções cientí-
da investigação de forma integrada e de se fortalecer ficas;
a idéia de que a proposta enfoca o ensino com pes- • da demanda por inscrições nos Programas de Bol-
quisa e não a pesquisa pela pesquisa. sas de Iniciação Científica mantidos pela Institui-
As temáticas da área clínica, congregando investi- ção;
gações com o objetivo de testar, aprimorar e avaliar • do número de publicações de artigos, em periódi-
técnicas, tratamentos e/ou materiais odontológicos, cos, sobre os resultados das pesquisas executa-
através de estudos observacionais (casos clínicos) e de das;
experimentos in vivo ou in vitro, envolvem disciplinas • da titulação qualificada por parte dos professores,
das ciências biológicas e clínicas odontológicas. Dessa isto é, a participação em Programas de Pós-Gradu-
forma, contribui-se para a aproximação do conheci- ação Stricto Sensu.
mento básico com a sua aplicação clínica. Articulação E a observação de indicadores quali-quantitaivos
esta enfatizada como necessária pelas Diretrizes Cur- evidencia que a pesquisa na graduação vem propician-
riculares. do:
Na área epidemiológica, através de estudos obser- • a constante revisão/revitalização do processo de
vacionais, busca-se fazer a leitura crítica da realidade, ensino-aprendizagem no âmbito do curso;
ou seja, das reais condições de saúde bucal e de assis- • o fortalecimento das atividades extensivas de edu-
tência da população residente na área de abrangência cação em saúde, envolvendo alunos e docentes;
da UNIVALI, com vistas ao planejamento de ações • a aproximação e articulação entre as disciplinas
que favoreçam a melhoria da qualidade de vida dos que constituem a matriz curricular;
cidadãos. Os trabalhos investigativos dessa área retro- • o delineamento e a consolidação das Linhas de
alimentam a filosofia norteadora do curso e favore- Pesquisa do Curso;
cem a integração do ensino com a extensão. • a integração com as atividades de Pós-Gradua-
À medida que o aluno vai se familiarizando com a ção;
estratégia da pesquisa, ele opta por uma temática de • a criação e manutenção da estratégia de Estágio
uma das duas grandes áreas e pelo respectivo orienta- de Pesquisa para os egressos, como uma dimensão
dor, com os quais vai passar a conviver até o final do da educação continuada;
curso. Todo o funcionamento da proposta ocorre em • o desenvolvimento de atitudes positivas em relação

Revista da ABENO • 6(1):77-80 79


Trabalho de Conclusão de Curso: construção ao longo do curso ou tarefa para finalizá-lo? • Bottan ER, Uriarte Neto M, Diegoli NM,
Imianowski S, Stuker H

à educação continuada, ao longo da graduação e ABSTRACT


após a conclusão do curso; Course Conclusion Paper: should it be constructed
• a formação de um profissional mais crítico e atu- during, or at the end of the course?
ante em diferentes áreas profissionais: clínica, do- When the educational side of research is devel-
cência, gestão. oped, investigation of the reality is favored, and the
research is not restricted to the study of the stages of
CONSIDERAÇÕES FINAIS collection and accumulation of data. Research can
A palavra pesquisa vem do verbo latino perquiro que therefore be conceived as an activity of enquiring into
significa procurar; buscar com cuidado; procurar por the reality; as an activity which enables the
toda parte; informar-se; inquirir; perguntar; indagar (re)elaboration of knowledge that will assist in an un-
bem; aprofundar-se na busca. Essa é a conotação que derstanding of this reality and provide orientation for
estamos dando à atividade de TCC, no curso de Odon- the actions of professionals. This article focuses on the
tologia da UNIVALI, porque o consideramos um im- experience of the Dentistry Program at the University
portante procedimento para capacitação de profissio- of Vale do Itajaí, of adopting research as an activity
nais da área da saúde. which is integrated with the teaching-learning proc-
De acordo com Valle11 (1997), a profissionalização ess, linking it to the Course Conclusion Paper.
(ou formação para o mercado de trabalho) deve ter
como ponto de partida a capacitação do indivíduo DESCRIPTORS
para o desempenho de um trabalho não como um Dental staff. Education, dental. Dental research.
reprodutor de numerosas tarefas, mas como um su- Education, higher. §
jeito que é capaz de exercitar seu potencial criador e
aliar o pensar ao fazer. O processo de profissionaliza- REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
ção é, portanto, um processo de formação de um tra- 1. Carvalho ACP. Ensino de Odontologia em tempos de LDB.
balhador competente, capaz de criar e recriar o seu Canoas: ULBRA; 2001.
fazer e de comprometer-se socialmente. A competên- 2. Celani MAA. A educação continuada do professor. Ciência e
cia desse profissional implica domínio de conheci- Cultura 1988;40(2):158-63.
mentos técnicos e científicos, e o comprometimento 3. Demo P. Educar pela pesquisa. Campinas: Autores Associados;
social está relacionado com a capacidade de agir e 1996.
refletir sobre as possibilidades de transformação das 4. Demo P. Pesquisa: princípio científico e educativo. 2a ed. São
condições de vida de uma determinada comunida- Paulo: Cortez; 1991.
de. 5. Lüdke M. A complexa relação entre o professor e a pesquisa.
Inegavelmente, para se promover a formação do In: André M, editor. O papel da pesquisa na formação e na
profissional com tais características, é necessário que prática dos professores. Campinas: Papirus; 2001. p. 27-54.
se adote uma prática pedagógica que articule ensino- 6. Lüdke M, André M. Pesquisa em educação: abordagens quali-
pesquisa. Nessa perspectiva, a pesquisa constitui-se tativas. São Paulo: EPU; 1986.
como um processo de oxigenação do ensino, como 7. O movimento de mudança na formação de profissionais da
um processo capaz de tornar o ensino mais criativo e saúde no Brasil. Divulgação em Saúde para Debate 2000;22:4-7.
instigador, como um processo pedagógico que integra 8. Pereira JED. Formação de professores: pesquisas, representa-
a formação teórico-científica à realidade da socieda- ções e poder. Belo Horizonte: Autêntica; 2000.
de. 9. Péret ACA, Lima MLR. A pesquisa nos critérios de avaliação da
A prática pedagógica que adota a pesquisa como CAPES e a formação do professor de Odontologia numa di-
um “princípio educativo” estimula e capacita os sujei- mensão crítica. Rev ABENO 2005;5(1):46-51.
tos (professores e alunos) a produzirem (e não apenas 10. Ponte JP. Pesquisar para compreender e transformar a nossa
reproduzirem) conhecimento; portanto, ela supera o prática. Educar 2004;24:37-66.
modelo didático-metodológico do treinamento, que 11. Valle R. Mudanças tecnológicas na indústria e seus efeitos sobre
é centrado num fazer distanciado da reflexão sobre o trabalho. In: Seminário Formação técnica em biotecnologia.
este fazer. Por isso, para nós, o TCC é tudo, exceto Rio de Janeiro; 1997. Rio de Janeiro: FIOCRUZ; 1997.
uma tarefa a mais para o acadêmico finalizar o cur-
so. Aceito para publicação em 10/2005

80 Revista da ABENO • 6(1):77-80


Saúde Coletiva nas estruturas
curriculares dos cursos de
Odontologia do Brasil
A Saúde Coletiva tem um papel de grande importância na formação
do futuro cirurgião-dentista com o perfil exigido pelas Diretrizes
Curriculares e pela sociedade.
Renata Prata Cunha Bernardes Rodrigues*, Nemre Adas Saliba**, Suzely Adas
Saliba Moimaz***

* Mestre em Odontologia Preventiva e Social pela Faculdade de


Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual Paulista.
E-mail: renatapcb@hotmail.com.
** Professora Titular da Faculdade de Odontologia de Araçatuba da
Universidade Estadual Paulista.
*** Professora Adjunta da Faculdade de Odontologia de Araçatuba
da Universidade Estadual Paulista.

Resumo lizadas foram prova escrita (100%) e prova prática


A área da Saúde Coletiva tem papel fundamental (80%). Conclui-se para a maioria dos cursos que a
na formação do profissional com o perfil exigido pelas carga horária da área é de 75 a 324 horas, ministradas
Diretrizes Curriculares Nacionais do curso de Odon- de 2 a 4 semestres; a nomenclatura mais utilizada foi
tologia, implementadas em 2002. O objetivo da pes- Odontologia Social e Preventiva; todas são de caráter
quisa foi analisar as características das disciplinas da teórico-prático; as metodologias de ensino mais cita-
área da saúde coletiva nos currículos dos cursos de das foram aulas expositivas e seminários; e, como for-
Odontologia do País, no que se refere a carga horária, ma de avaliação, a prova escrita e a prova prática foram
duração em semestres, nomenclatura, formato, meto- as mais citadas nos planos de ensino.
dologia de ensino e formas de avaliação. Foram envia-
das correspondências para 123 cursos que tinham Descritores
formado pelo menos uma turma até o ano de 2003, Educação em Odontologia. Currículo. Odontolo-
solicitando a estrutura curricular do curso e os planos gia. Educação. Odontologia em saúde pública.
de ensino das disciplinas. Cinqüenta cursos enviaram
o material (40,65%). A carga horária destinada à saú-
de coletiva variou de 75 a 699 horas, sendo que 44,18%
está na faixa de 200 a 324 horas. Os cursos pesquisados
A Saúde Coletiva está presente em todos os cursos
de Odontologia do Brasil e não pode ser consi-
derada apenas uma “disciplina de caráter social, res-
destinam de 1 a 8 semestres para a área, destacando-se ponsável pelos problemas de saúde da comunidade,
a concentração em 2 e 3 semestres (20,93% cada) e mas considerada como uma atitude e uma filosofia de
em 4 semestres (27,91%). Odontologia Social e Pre- trabalho”9.
ventiva foi a nomenclatura mais citada (30%) para O sentido social torna-se extremamente relevante
designar a área da Saúde Coletiva. Todas as disciplinas no atual contexto da globalização, no qual as relações
são de caráter teórico-prático. As metodologias de en- econômicas, sociais e políticas interagem e se entre-
sino mais citadas foram aulas expositivas (100%) e cruzam e quando são explícitas as mudanças da base
seminários (71,88%). As formas de avaliação mais uti- tecnológica e dos meios produtivos, colocando a edu-

Revista da ABENO • 6(1):81-7 81


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

cação não somente como elemento imprescindível Odontologia.


para o desenvolvimento de todas as nações, mas es- Para obter as informações necessárias aos objetivos
sencial para atender “às necessidades sociais e promo- da pesquisa, foi enviado um ofício a essas 123 IES,
ver a solidariedade e a igualdade”17. expondo os objetivos da pesquisa e solicitando a es-
De acordo com a Resolução do Conselho Federal trutura curricular do curso de Odontologia e os planos
de Odontologia - 22/2001, a Saúde Coletiva “é a espe- de ensino das disciplinas da área da Saúde Coletiva.
cialidade que tem como objetivo o estudo dos fenô- Um envelope selado e endereçado para o retorno do
menos que interferem na saúde coletiva, por meio de material foi enviado juntamente com o ofício, a fim
análise, organização, planejamento, execução e ava- de facilitar a devolução do material.
liação de sistemas de saúde, dirigidos a grupos popu- Um segundo ofício solicitando novamente o ma-
lacionais, com ênfase na promoção de saúde”4. terial para a pesquisa foi encaminhado às IES que não
Essa disciplina está inserida nos conteúdos relati- enviaram o material na primeira solicitação, a fim de
vos às ciências humanas e sociais que incluem conte- obter uma maior adesão à pesquisa por parte dos cur-
údos referentes às diversas dimensões da relação in- sos.
divíduo/sociedade, contribuindo para a compreensão O material enviado pelos cursos recebeu tratamen-
dos determinantes sociais, culturais, comportamen- to estatístico descritivo, e os resultados foram apresen-
tais, psicológicos, ecológicos, éticos e legais nos níveis tados em tabelas e gráficos.
individual e coletivo do processo saúde-doença, con-
forme as Diretrizes Curriculares para os cursos de Resultados e Discussão
Odontologia5. Até 1996, ano da extinção do currículo Das 123 correspondências enviadas aos cursos de
mínimo, os conteúdos relativos à Saúde Coletiva esta- Odontologia do Brasil, obteve-se, em um primeiro
vam incluídos nas matérias consideradas profissiona- momento, o retorno do material de 45 cursos de
lizantes7. Odontologia. Foram enviadas novamente 78 corres-
A Saúde Coletiva tem um papel de grande impor- pondências para os cursos que não enviaram o mate-
tância na formação do futuro cirurgião-dentista com rial na primeira solicitação e somente 5 retornaram o
o perfil exigido pelas Diretrizes Curriculares e pela material solicitado. Assim, esses 50 cursos de Odonto-
sociedade, ou seja, com formação generalista, social- logia (40,65% do total) constituem a amostra desta
mente sensível e principalmente sempre disposto a pesquisa.
aprender. Em relação à natureza administrativa das IES, ve-
A presente pesquisa tem como objetivo analisar as rificou-se que 60% são privadas, 24% são federais e
características das disciplinas da área da Saúde Cole- 16% são estaduais; nenhum curso municipal partici-
tiva nas estruturas curriculares e nos planos de ensino pou da pesquisa, totalizando 40% de cursos públi-
dos cursos de Odontologia do País, considerando: cos.
carga horária, duração, nomenclatura, formato, me- O tempo mínimo para a integralização dos crédi-
todologias de ensino e formas de avaliação. tos, ou seja, a duração mínima do curso pode ser ve-
rificada no Gráfico 1.
Material e Método Antes da extinção do currículo mínimo, a carga
O projeto de pesquisa deste estudo foi submetido horária mínima para o curso de Odontologia deveria
ao Comitê de Ética em Pesquisa da Faculdade de ser de 3.600 horas, distribuídas em 4 anos7. Com a
Odontologia de Araçatuba da Universidade Estadual flexibilização curricular proporcionada pela Lei de
Paulista e foi aprovado. Diretrizes e Bases (LDB) da Educação, atualmente, a
Inicialmente foi realizada uma pesquisa, em abril maioria das escolas pesquisadas (54,5%) possui o cur-
de 2003, no site do Ministério da Educação, para o so em 4 anos, e 27,3%, em 5 anos. Em pesquisa reali-
conhecimento do número de cursos de Odontologia zada por Paula, Bezerra16 (2003), a porcentagem de
no Brasil. A partir da constatação de que havia 172 escolas com duração mínima do curso de 5 anos que
cursos de Odontologia, determinou-se que somente participaram do estudo foi de 45%, valor superior ao
fariam parte da pesquisa as Instituições de Ensino Su- encontrado nesta pesquisa.
perior (IES) que até 2003 tivessem pelo menos uma A carga horária total do curso de Odontologia das
turma formada; foram listados, assim, 123 cursos de IES pesquisadas está demonstrada no Gráfico 2.

82 Revista da ABENO • 6(1):81-7


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

O Parecer do Conselho Nacional da Educação/ %


60 54,55
Conselho de Educação Superior nº 329/2004, apro-
vado em 11/11/2004, estabelece a carga horária mí- 50
nima dos cursos de graduação e bacharelados na mo-
dalidade presencial. Para o curso de Odontologia, 40

ficou estabelecido um mínimo de 4.000 horas6. 27,27


30
A grande maioria dos cursos de Odontologia pes-
18,18
quisados (79,55%) oferece a carga horária total de 20
4.000 a 5.199 horas; porém, 13,64% dos cursos terão
de se adequar à nova proposta de carga horária míni- 10

ma, pois oferecem uma carga horária inferior a 4.000


0
horas. 4 anos 4,5 anos 5 anos

A análise da área da Saúde Coletiva foi feita por Gráfico 1 - Distribuição dos cursos de Odontologia pes-
meio dos planos de ensino enviados pelas IES, planos quisados quanto à duração mínima. Brasil, 2004.
nos quais muitas vezes não constavam todas as infor-
mações necessárias. Dessa forma, a quantidade de
cursos analisados para cada variável sofreu alteração. %
30
29,55
Convém ressaltar que os conteúdos de Orientação
Profissional e Odontologia Legal, mesmo constituin- 25
25 25
do, às vezes, disciplinas separadas, estão relacionados
20
à grande área da Saúde Coletiva. Mas, como a maior
parte dos cursos pesquisados não enviou os planos de 15
ensino dessas disciplinas, neste estudo só fazem parte 13,64

as disciplinas relacionadas à Saúde Coletiva e os está- 10

gios extramuros. Dessa forma, nesta pesquisa, as refe- 6,82


5
rências feitas à área da Saúde Coletiva excluirão a área
de Odontologia Legal e de Orientação Profissional e 0
incluirão o estágio extramuros, quando este se cons- Carga horária (h)
tituir uma disciplina isolada. 3.600 4.000 4.800 5.200
4.000 4.400 5.200 5.600
Assim, para a análise da carga horária e da quan- 4.400 4.800
tidade de períodos destinados às disciplinas da Saúde
Gráfico 2 - Distribuição dos cursos de Odontologia pes-
Coletiva, foi analisado um total de 43 cursos. quisados quanto à carga horária total, em horas. Brasil,
Observa-se uma grande heterogeneidade na dis- 2004.
tribuição da carga horária, o que pode ocorrer devido
a maior ou menor importância que é dada a essas
disciplinas pelo curso de cada IES. De acordo com o %
45
Gráfico 3, a maior parte das escolas oferece de 75 a 44,18 Carga horária (h)
40
325 horas e, ainda, algumas escolas estão conscientes 75 200
35 200 325
da importância da Saúde Coletiva como eixo nortea- 325 450
30 32,56
dor do processo de formação, oferecendo uma carga 450 575
horária acima de 450 horas. Um fato que chamou a 25 575 700

atenção foi o de um curso destinar somente 75 horas 20


18,6
de aula para a Saúde Coletiva, o que é incompatível 15
para formar um profissional com uma visão social da 10
profissão. 5 2,33 2,33
Na análise da carga horária destinada à Saúde Co- 0
letiva e da carga horária total do curso, observou-se
Gráfico 3 - Distribuição dos cursos de Odontologia quan-
que não houve correlação (r = 0,0271 e p = 0,8644), to à carga horária, em horas, destinada às disciplinas da
ou seja, os cursos que oferecem maior carga horária Saúde Coletiva. Brasil, 2004.

Revista da ABENO • 6(1):81-7 83


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

600 maioria, a quantidade variou de 2 a 4 semestres (Grá-


fico 5).
500 Foi verificado que todas as disciplinas são de cará-
ter teórico-prático e que 95,35% mencionaram em seu
Carga horária em Saúde Coletiva

400 plano de ensino a existência de atividades extramu-


ros.
300 É interessante observar o exemplo da disciplina de
Odontologia Social e Preventiva do curso de Odon­
200
tologia da Universidade Federal de Minas Gerais
(UFMG), que, em 1973, era ministrada em um único
período e somente com conteúdos teóricos, não exis-
100
tindo atividades de extensão e estágio discente em
comunidades. Mas, a partir de 1976, atividades práti-
0
3.000 3.500 4.000 4.500 5.000 5.500 cas foram desenvolvidas por meio de estágios que
Carga horária total promoviam a integração com a comunidade18.
Gráfico 4 - Correlação entre a carga horária total e a Essa integração da universidade com a comunida-
de Odontologia em Saúde Coletiva, em horas, dos cursos de, de acordo com Medeiros13 (1991), foi proposta
pesquisados. Brasil, 2004.
pelo MEC, em 1979, e foi denominada de Programa
de Integração Docente-Assistencial (IDA), podendo
% ser resumida como sendo a união de esforços entre
30 27,91
as escolas e os serviços de saúde, adequando-os às ne-
25 cessidades reais da comunidade, à produção de co-
20,93 20,93 nhecimentos e à formação dos recursos humanos
20 necessários em um determinado contexto da prática
de serviços de saúde e de ensino.
15
11,63 Posteriormente, um outro programa com o obje-
10 tivo de também proporcionar uma maior articulação
6,98
ensino-serviço-comunidade foi implementado. Esse
4,65 4,65
5
2,32 programa recebeu o nome de “Uma Nova Iniciativa
na Educação dos Profissionais de Saúde: União com
0
1 2 3 4 5 6 7 8 a Comunidade (UNI)” e foi considerado uma evolu-
Semestres ção dos projetos IDA8.
Gráfico 5 - Distribuição dos cursos de Odontologia se- Somente dois cursos não mencionaram, no plano
gundo os semestres destinados às disciplinas de Saúde de ensino, a realização de atividades extramuros. Essas
Coletiva. Brasil, 2004.
atividades são consideradas como atividade de exten-
são e são fundamentais para a formação do cirurgião-
não oferecem, necessária e proporcionalmente, o dentista comprometido com os problemas de saúde
mesmo número de horas à Saúde Coletiva (Gráfi- bucal da população, pois as atividades extramuros
co 4). possibilitam ao aluno o conhecimento das dimensões
Paula, Bezerra16 (2003) também não encontraram estruturais dos serviços públicos de saúde, bem como
correlação entre a carga horária do curso e a da Saú- a participação no atendimento à população1,14.
de Coletiva e ainda constataram, em seu estudo, que Segundo Ayers et al.2 (2003), as atividades extra-
a maioria dos cursos ainda não incorporou a Saúde muros devem ser vistas como componentes importan-
Coletiva em seus currículos de maneira efetiva, o que tes de qualquer currículo contemporâneo de Odon-
denota o descaso com o papel e a real importância da tologia.
saúde pública. A Tabela 1 demonstra a nomenclatura utilizada
A quantidade de semestres em que os conteúdos para designar a área da Saúde Coletiva citada nos pla-
de Saúde Coletiva são ministrados apresentou uma nos. Dentre as denominações mais utilizadas pelas
grande variação, desde 1 até 8 semestres, mas, para a IES, encontram-se: Odontologia Social e Preventiva,

84 Revista da ABENO • 6(1):81-7


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

Tabela 1 - Nomenclatura utilizada pelas faculdades de Tabela 2 - Metodologias de ensino utilizadas pelas fa-
Odontologia para a área da Saúde Coletiva. Brasil, 2004. culdades de Odontologia para a área da Saúde Coletiva.
Brasil, 2004.
Nomenclatura N %
Citações nos planos
Odontologia Social 10 20 de ensino
Metodologia
Saúde Bucal Coletiva 4 8 Número Porcentagem

Odontologia Social e Preventiva 15 30 Aulas expositivas 32 100,00


Odontologia em Saúde Coletiva 12 24 Seminários 23 71,88
Odontologia de Promoção da Saúde 1 2 Aulas práticas 19 59,38
Odontologia Coletiva 1 2 Trabalho em grupo 13 40,63
Odontologia Preventiva 3 6 Estudo dirigido 11 34,38
Odontologia Preventiva e Sanitária 2 4 Trabalho de campo 8 25,00
Odontologia Sanitária 1 2 Dinâmicas de grupo 7 21,88

Saúde Coletiva 1 2 Discussão em grupo 7 21,88

Total 50 100 Atividades clínicas 5 15,63


Visitas a serviços de saúde 4 12,50
Pesquisa bibliográfica 4 12,50
Odontologia em Saúde Coletiva e Odontologia So-
Problematização 3 9,38
cial.
“Saúde Coletiva” é o termo que consta no Conse- Discussão de caso clínico 3 9,38
lho Federal de Odontologia (CFO) como uma espe- Discussão de artigos 3 9,38
cialidade odontológica4; porém, a substituição de Produção de material
2 6,25
termos utilizados anteriormente, como “Odontologia educativo
Sanitária”, deverá ocorrer de forma gradual, à medida Redação de texto 2 6,25
que os currículos forem sendo reestruturados. Segun- Revisão crítica sistemática 1 3,13
do Narvai15 (1994), ao longo do tempo, as concepções Palestra com convidados 1 3,13
de Odontologia foram mudando e várias adjetivações
foram dadas, como sanitária, preventiva, social, sim-
plificada, comunitária, integral, sistêmica e saúde bu- tante ressaltar que um mesmo curso pode citar mais
cal coletiva, de acordo com o contexto sociopolítico de uma estratégia para o ensino-aprendizagem. Den-
da época. tre as várias estratégias de ensino citadas nos planos
De acordo com Gil12 (1991), para facilitar a apren- de ensino, as aulas expositivas, os seminários, as aulas
dizagem dos alunos, o professor faz uso de estratégias, práticas e os trabalhos em grupo foram as mais citadas.
ou seja, da aplicação de meios disponíveis para o al- Essas estratégias são consideradas tradicionais, princi-
cance de seus objetivos. palmente a aula expositiva.
O planejamento de métodos educacionais aplicá- Para Gil12 (1991), a aula expositiva é a estratégia
veis representa o elemento essencial na prática docen- mais utilizada e mais controvertida, pois, enquanto
te. Para a seleção do método de ensino, alguns crité- alguns professores defendem seu uso, sobretudo pela
rios devem ser considerados, como: a análise dos praticidade, outros a criticam, chegando a conceituá-
objetivos educacionais previamente determinados, o la como um processo em que os fatos são transmitidos
conteúdo programático adotado, o nível dos educan- das fichas do professor para o caderno do aluno sem
dos, o tempo disponível para o conteúdo e o domínio passar pela mente de nenhum dos dois.
de métodos e técnicas pelo educador10. No mundo atual, o professor como simples repas-
Somente 32 planos de ensino trouxeram informa- sador de conteúdos está com os dias contados, pois o
ções em relação às metodologias de ensino. As meto- mercado hoje exige um docente que partilhe seus
dologias ou estratégias de ensino utilizadas pelas conhecimentos com os alunos e, mesmo, aprenda
­escolas podem ser visualizadas na Tabela 2. É impor- com eles, visto que novos conhecimentos surgem a

Revista da ABENO • 6(1):81-7 85


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

cada dia e, muitas vezes, o professor nem chega a to- • a nomenclatura mais utilizada foi Odontologia
mar conhecimento dos fatos. Social e Preventiva;
Dessa forma, o professor deverá mudar o foco do • todas as disciplinas são de caráter teórico-práti-
ensinar para reproduzir conhecimento e passar a se co;
preocupar com o aprender e, em especial, o “apren- • as metodologias de ensino mais citadas foram aulas
der a aprender”, abrindo caminhos coletivos em bus- expositivas, seminários e aulas práticas;
ca e investigação para a produção do seu próprio co- • a prova escrita, a prova prática e a avaliação de
nhecimento e do seu aluno3. trabalhos foram as formas de avaliação mais citadas
Em relação aos métodos de avaliação, verificou-se nos planos de ensino.
que 40 cursos fizeram referência à avaliação em seus
planos de ensino. Os meios de avaliação mais citados Agradecimentos
foram as provas escritas, as provas práticas e a avaliação À CAPES, pelo financiamento da bolsa de estudos,
dos trabalhos (Tabela 3). e aos cursos de Odontologia que disponibilizaram a
No que se refere ao processo de avaliação, este documentação solicitada para a conclusão deste tra-
deve auxiliar o educando a progredir na aprendiza- balho.
gem e o educador a aperfeiçoar sua prática pedagó-
gica; portanto, a avaliação deve ser um processo con- Abstract
tínuo e sistemático, funcional e integral. O processo Public Health Dentistry in the curricular structure
of dental courses in Brazil
de avaliação deve apresentar como objetivos: o conhe-
The area of Public Health Dentistry plays a funda-
cimento dos alunos; a identificação das dificuldades
mental role in the formation of the professional as
de aprendizagem; a determinação de se os objetivos
required by the National Curriculum Guidelines for
propostos para o processo ensino-aprendizagem fo-
undergraduate courses of Dentistry, implemented in
ram ou não atingidos; o aperfeiçoamento do processo
2002. This study analyzed the characteristics of the
de ensino-aprendizagem; a promoção dos educandos disciplines of the area of Public Health Dentistry in
para um grau superior11. the curricula of dental courses in the country, consid-
ering the duration of classes, number of terms, name
Conclusões used, course format, teaching methodology, and eval-
De acordo com os resultados obtidos, e conside- uation. Letters were sent to 123 schools of Dentistry
rando a metodologia empregada neste estudo, é pos- from which at least one class had graduated up to 2003,
sível concluir, em relação às características estudadas requesting their curricular structure and syllabus.
das disciplinas de Saúde Coletiva, que: Fifty colleges sent the material requested back (40.65%
• a maioria dos cursos oferece a carga horária de 75 of those contacted). The duration of classes appor-
a 324 horas; tioned to Public Health Dentistry is heterogeneous,
• a maior parte utiliza 2 a 4 semestres para ministrar varying from 75 to 699 hours, and 44.18% of the den-
os conteúdos relacionados à Saúde Coletiva; tal schools assigned 200 to 324 hours to this course.
In relation to the number of semesters required for
Public Health Dentistry, it was found that the partici-
Tabela 3 - Métodos de avaliação utilizados pelas discipli-
nas de Saúde Coletiva dos cursos de Odontologia pesqui-
pating dental schools apportioned 1 to 8 semesters to
sados. Brasil, 2004. this course, and most of them assigned 2 or 3 semesters
(20.93% each) or 4 semesters (27.91%) to Public
Métodos de Citações nos planos de ensino
Health Dentistry. The name used by the schools to
Avaliação Número Porcentagem
refer to the area of Public Health Dentistry varied, and
Prova escrita 40 100,00 Social and Preventive Dentistry was most commonly
Prova prática 32 80,00 used (30%). It was observed that all courses had a
Avaliação dos
23 57,50
theoretical-practical character. Teaching methodolo-
trabalhos gies or strategies cited most often by the schools were
Avaliação dos expositive classes (100%) and seminars (71.88%).
21 52,50
seminários
The evaluation was usually performed by means of
Avaliação de written tests (100%) and practical tests (80%). It can
10 25,00
relatórios
be concluded that, in relation to the characteristics

86 Revista da ABENO • 6(1):81-7


Saúde Coletiva nas estruturas curriculares dos cursos de Odontologia do Brasil • Rodrigues RPCB, Saliba NA, Moimaz SAS

analyzed in the area of Public Health Dentistry, most nº 329/2004. Carga horária mínima dos cursos de graduação,
colleges offer a class duration of 75 to 324 hours, have bacharelados, na modalidade presencial. [acesso em 2004 dez
2 to 4 semesters for teaching the class contents, the 01]. Disponível em: URL: http://www.abeno.org.br.
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Preventive Dentistry, all courses have a theoretical- currículo mínimo para o Curso de Graduação em Odontolo-
practical character; the most often cited teaching gia – CCC. Documenta 1982;260:46-54.
methodologies are expositive classes and seminars; 8. Chaves MM. A odontologia no componente acadêmico dos
and written tests and practical tests are the most com- projetos UNI. [acesso em 2003 out 12]. Disponível em: URL:
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22/2001. Baixa Normas sobre anúncio e exercício das especia-
citec; 1994. 113 p.
lidades odontológicas e sobre cursos de especialização revogan-
16. Paula LM, Bezerra ACB. A estrutura curricular dos cursos de
do as redações do Capítulo VIII, Título I; Capítulo I, II e III,
odontologia no Brasil. Revista da ABENO 2003;3(1):7-14.
Título III, das Normas aprovadas pela Resolução CFO-185/93,
17. UNESCO. Declaração mundial sobre educação superior. Pira-
alterada pela Resolução CFO-198/95. [acesso em 2004 mar 20].
cicaba: UNIMEP; 1998. 51 p.
Disponível em: URL: http://www.cfo.org.br/default01.cfm.
18. Werneck MAF, Lucas SD. Estágio supervisionado em odonto-
5. Brasil. Ministério da Educação e Cultura. Conselho Nacional
logia: uma experiência da integração ensino/serviço de saúde
de Educação. Resolução CNE/CES 3/2002. Diário da União,
bucal. Arq Centro Estud Curso Odontol 1996;32(2):95-108.
4 mar 2002. [acesso em 2003 jun 08]. Disponível em: URL:
http://www.mec.gov.br/sesu/ftp/resolucao/03020odontologia.doc.
Aceito para publicação em 06/2005
6. Brasil. Ministério da Educação e Cultura. Parecer CNE/CES

Revista da ABENO • 6(1):81-7 87


Reunião da ABENO
A 41ª Reunião da ABENO será
realizada no Hotel Imirá - Natal, RN
2 a 5 de Agosto de 2006.

O tema central para a próxima Reunião é:


"Implementação das Diretrizes Curriculares
Nacionais: da Teoria à Realidade".

Em breve mais informações no site


http://www.abeno.org.br.

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Relatório com base nas atividades da
40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º
Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia
Tema central: “Universidade promotora de conhecimentos, saúde e
prestadora de serviços”

Balneário Camboriú - SC - 17 a 20 de agosto de 2005


GRUPOS DE DISCUSSÃO para o financiamento das atividades de ensino, pes-
Grande grupo – Grupos 01, 04 e 06 quisa e extensão pactuadas entre o SUS e as IES.
1) Como relacionar no projeto pedagógi- 4) De que forma a academia pode influen-
co os níveis de graduação e pós-gra- ciar na mudança dos modelos tradicio-
duação lato sensu e stricto sensu? nais para o minimamente invasivo?
O Projeto Político Pedagógico institucional Deve fomentar a estruturação curricular que
deve primar pela obediência aos princípios vigentes contemple as novas metodologias em Saúde Coletiva,
nas Diretrizes Curriculares Nacionais, respeitando-se estimulando as ações básicas em saúde no ensino de
os limites de competência e complexidade das par- graduação, incorporando a filosofia/concepção do
tes. modelo minimamente invasivo como conceito funda-
mental para o ensino contemporâ-
2) Como deverá ser feita
neo da Odontologia, em todas as
a regulamentação dos A universidade deve suas disciplinas.
cursos de especializa- contribuir para a mudança
ção? dos modelos tradicionais por Grupos 02 e 03
Para assessorar o MEC na re-
meio de uma reestruturação
gulamentação de cursos de pós- 1) C omo relacionar no
curricular que contemple projeto pedagógico os
graduação lato sensu, sugere-se a
criação de uma comissão de regu-
as novas metodologias em níveis de graduação e
lamentação das especializações Saúde Coletiva. pós-graduação lato sen-
odontológicas, com uma composi- su e stricto sensu?
ção que contemple, ao menos, representações das • Pela participação dos alunos de pós-graduação
instituições de ensino superior (IES) de Odontolo- nas atividades de graduação, por meio dos está-
gia. gios de docência e de projetos de extensão.
• Pela participação dos alunos de graduação nas
3) Como deve ser o financiamento do SUS
atividades de pós-graduação: nas atividades clí-
para as atividades de ensino, pesqui-
nicas, em monitorias; na pesquisa, pela elabora-
sa e extensão das IES?
ção de projetos integrados.
Que seja normatizado o credenciamento das IES
• Incluir, como atividades de graduação, os semi-
e Clínicas de Odontologia à semelhança do que foi
nários de pós-graduação, as defesas de monogra-
feito com os hospitais de ensino, ou seja, o MEC e o
fias, dissertações, teses, podendo se considerar
MS juntos criariam normas, estabelecendo os critérios
a carga horária e os créditos.
mínimos, e as IES solicitariam o credenciamento na
modalidade de clínica-escola, a qual presta o serviço 2) Como deverá ser feita a regulamenta-
e promove o ensino. Haveria uma tabela diferencial ção dos cursos de especialização?

Revista da ABENO • 6(1):89-95 89


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

• O MEC deve estabelecer critérios buscando uma dos Estudantes (ENADE) no sentido
regulamentação que atenda às especificidades de qualificar a formação acadêmi-
regionais e avalie os cursos de especialização, ca?
nos moldes do que é definido para graduação e Os resultados do ENADE ainda não atingiram a
pós-graduação. plenitude de sua utilização no processo de melhoria
• Deve ser incentivada a consolidação da residên- de formação acadêmica devido a:
cia em Odontologia, como valor de especializa- 1. Formação positivista do professor de Odontolo-
ção. gia, a qual impede ou limita uma leitura qualita-
• Não se chegou a um consenso sobre que entida- tiva dos resultados, e se manifesta nas seguintes
des ou instituições poderiam ofertar cursos de observações:
especialização. As possibilidades levantadas fo- 1.1. Ausência de contextualização nas aulas, nos pla-
ram: nos histórico, político e econômico.
a) só as IES; 1.2. Ausência de discussão e elaboração coletiva dos
b) também as associações de classe; planos de ensino, com detalhamento também
c) as IES, podendo estabelecer parcerias. dos planos de aula.
3) Como deve ser o financiamento do SUS 1.3. Necessidade de mudanças internas na filosofia
para as atividades de ensino, pesqui- de ensino através de seminários, oficinas etc.
sa e extensão das IES? 1.4. Necessidade de mudanças e adequações, com
• Diferenciado em relação aos demais prestadores conseqüente implementação do projeto político-
de serviços; o SUS não deve mais praticar a re- pedagógico.
muneração por procedimentos, mas considerar 1.5. Necessidade de requalificação da formação do-
os Cursos de Odontologia cente (inicial e em serviço),
como centros de excelência, para lidar com o novo modelo
É fundamental que o CD
como hospitais-escola odon- qualitativo de avaliação.
atue em conssonância com a
tológicos. 1.6. Necessidade de correção de
• Devem-se definir linhas de fi-
União e enfatize a promoção
erros conceituais ou de elabo-
nanciamento para pesquisas de saúde não só em sua
ração do próprio instrumento
voltadas para o SUS. acepção básica, mas que
percebidos pela grande quan-
• Educação continuada. abranja também a atenção
tidade da mesma resposta er-
especializada.
4) De que forma a acade- rada em determinada ques-
mia pode influenciar na tão.
mudança dos modelos tradicionais 1.7. O coordenador e o colegiado devem estar aten-
para o minimamente invasivo? tos ao perfil sociocultural dos alunos em função
• Provocando discussões para embasar uma supe- das especificidades locais.
ração de conceitos já estabelecidos e, desta for- 1.8. O bom resultado do curso pode dificultar as
ma, capacitar para a atuação e divulgação desta mudanças.
filosofia; formando assim promotores de saú- 2. Resultados contraditórios entre ingressantes e
de. concluintes, sejam por semelhança de resultados
• Articulação entre ensino e serviços. ou por inadequação quanto ao grupo respon-
dente.
SEMINÁRIO DO Instituto Nacional de 3. Pouca aplicabilidade do exame pela influência
Estudos e Pesquisas Educacionais dos seus aspectos quantitativos.
(INEP) 2) Com base nas concepções do Sistema
Conclusões e Respostas dos Nacional de Avaliação da Educação
Grupos 02 e 03 Superior (SINAES) e dos SUS, solici-
1) Como o coordenador e o colegiado do
tam-se:
curso podem aplicar os resultados 1. Definição do perfil do novo avaliador do INEP,
do Exame Nacional de Desempenho cujas características são listadas a seguir:

90 Revista da ABENO • 6(1):89-95


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

8. Os avaliadores devem ser selecionados mediante


Conhecimentos Habilidades Competências concurso.
Avaliação Escuta, Visão integrada da 9. As comissões avaliadoras e o treinamento dos
em geral acolhimento e prática profissional avaliadores devem incluir profissionais com for-
orientação mação na área humanística.
Concepções Trabalho em Distinção do 10. Os critérios para seleção dos avaliadores devem
do SUS equipe Projeto Político-
Pedagógico do ser claros e transparentes.
currículo oculto 11. As diferenças entre durações de curso impedem
Realidade Aceitação das Superação de que a avaliação seja feita com o mesmo grupo de
educacional mudanças preconceitos alunos nos momentos de ingresso e conclusão.
como
12. O exame não tem uma proteção jurídica que
necessárias
e irreversíveis garanta a sua exigibilidade para todos os alunos
Legislação Preparo de um Capacidade de selecionados para o processo.
dos sistemas protocolo de lidar com situações
de educação avaliação iguais em contextos MESA – “A UNIVERSIDADE COMO
e saúde diferentes
PRODUTORA DE SERVIÇOS SOB A
Valor Experiência na Atuação com ética,
pedagógico área de gestão responsabilidade e
ÓTICA DOS GESTORES ESTADUAIS E
da avaliação acadêmica e bom senso MUNICIPAIS DE SAÚDE”
metodologias Síntese do pronunciamento do professor
ativas
Gilberto Pucca – O papel do gestor
federal
• Apresentação do programa Brasil Sorridente,
2. Apresentação de propostas para capacitação de
que faz parte da Política Nacional de Saúde Bu-
avaliadores (novos e antigos). O processo de ca-
cal.
pacitação deve atender ao perfil proposto.
• No Sistema Único de Saúde independente do
3) Apresente críticas e sugestões ao pro- setor público ou privado, o perfil profissional
cesso de construção coletiva coorde- deve ser adequado a cada população.
nado pelo MEC, visando o aprimora- • Apresentação de dados epidemiológicos de saú-
mento dos protocolos e instrumentos de bucal, mostrando a ineficácia de políticas
de avaliação coordenados pelo INEP. anteriores (modelos não-condizentes com ne-
1. O ENADE não contemplou as vivências que o cessidades, existência de dificuldade de acesso
aluno terá no sistema de saúde, restringindo-se ao serviço).
ao PSF e, portanto, não atingindo o objetivo. • Comentários sobre planejamento e organização
2. O instrumento não foi contextualizado dentro dos serviços de saúde bucal: “Há não-oferta de
do SUS e deveria contemplar mais a realidade serviços especializados, só de básicos.”
socioeconômica do país. • Apresentação das características do Programa
3. Apesar de o ENADE representar apenas 20% do Brasil Sorridente:
processo de avaliação, a divulgação inadequada - Humanização do Atendimento, Universaliza-
dos resultados criou constrangimentos em virtu- ção, Qualificação (sólida formação em clínica
de do aspecto classificatório. geral, planejamento, SUS, integralidade das
4. O estilo de prova deve minimizar a excessiva ações, ações de cura e reabilitação).
valorização da capacidade técnica. • O PSF é uma estratégia de atenção básica.
5. A dificuldade que o instrumento cria na inter- • Horizontalização da Odontologia: pouca parti-
pretação dos resultados em que concluintes têm cipação no setor público gera poucos recursos.
menor rendimento que os ingressantes. “Há necessidade de financiamento federal para
6. O instrumento deve permitir que se avalie a for- formação de rede de assistência básica nos mu-
mação para a cidadania do aluno. nicípios.”
7. O resultado da avaliação deve ser divulgado in- • Apresentação de novos dados do PSF compara-
tegralmente, ao invés de priorizar e valorizar tivos com os dos anos anteriores.
somente o resultado do ENADE. • Especialidades dando atenção às necessidades

Revista da ABENO • 6(1):89-95 91


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

de média complexidade, que são os serviços mais • O desafio a superar é principalmente a criação
requisitados. Centros de Especialidades Odon- de parcerias com as universidades, voltadas para
tológicas (CEOs) Tipos 1 e 2 com recursos men- uma nova visão, com ênfase em promoção de
sais e para implantação. saúde.
• Distanciamento das universidades em relação ao • Alertou sobre a necessidade de uma maior par-
SUS. CEOs também devem ser ofertados pelas ticipação política do CD, para mudarmos a visão
universidades: é uma experiência inovadora pequena de nossa classe, tornando-a mais forte
com amplas perspectivas. Devem-se ofertar in- e com maior destaque.
clusive PPRs e próteses totais.
• Comentários sobre promoção de saúde clássica: Síntese do pronunciamento da
fluoretação em abastecimento público. professora Maria Celeste Morita –
• “Os alicerces foram lançados.” O papel da Universidade
• Há necessidade de uma proposta coletiva com Relator:
formação profissional adequada e participação • Roberto Rogério Molleri - Professor da discipli-
efetiva do governo federal. na de OSC – 7º e 8º períodos do
curso de Odontologia da UNI-
Síntese do pronunciamento VALI, Itajaí - SC.
Os CDs não estão sozinhos
do secretário estadual de • Comentários sobre o papel da
na busca pela adequação
saúde de SC - Luiz Eduardo universidade no desenvolvimen-
da Odontologia à situação
Cherem – O papel do to da sociedade: ela deve partici-
de saúde bucal atual do
gestor estadual par para a construção de uma
país; devem se despir de seus sociedade mais justa e fraterna.
• Discorreu sobre visão pessoal,
preconceitos e contar com a • Comentários sobre o binômio
desde a época em que foi ve-
reador até ocupar o cargo de
ajuda de THDs e ACDs. ensino-extensão e sua importân-
deputado estadual, de como cia.
a Odontologia é fundamental para a inclusão • “O direito à saúde esbarra na estrutura dos go-
social. vernos, embora o SUS como instrumento insti-
• Para o início da descentralização da saúde bucal: tucional tenha avançado como política de Esta-
serviços e recursos, divisão em macrorregiões do.”
(mais carentes e menos carentes). • “Os cursos de Odontologia devem adequar os
• Apresentação de dados sobre nº de municípios, seus currículos para acordarem com o SUS a
secretarias regionais, gestão plena. construção de um sistema mais justo. É necessá-
• Comentou sobre a legislação específica, instru- ria uma articulação entre saúde e educação.”
mento de transformação social, com necessida- • “O SUS que desejamos para a sociedade neces-
de de visão da sociedade como um todo. sita que a universidade forme profissionais com-
• “O ensino deve ser voltado para a gestão iguali- prometidos com o SUS.”
tária, com participação comunitária.” • “Uma das necessidades básicas é que a universi-
• “A população como um todo é a maior benefi- dade conheça o SUS, derrubando o preconceito
ciada com essa prestação de serviço.” de que a autonomia universitária seja derrubada
• Comentários sobre os dois pólos de educação: neste processo.”
humanização no atendimento; integralização • Nesse relacionamento, há necessidade de dis-
dos diversos profissionais envolvidos no atendi- cussão do papel do estudante na transformação
mento da população. da sociedade.
• Apresentação de nº de equipes de PSF em SC. • Não podemos esquecer que a relação entre SUS
• Discorreu sobre como é fundamental a partici- e universidade se estabelece em nível munici-
pação das universidades na formação do CD pal.
para atuar em parceria com a União. • “A relação ensino/serviço/comunidade é inci-
• Apresentou nº de CEOs com incentivo para a piente, há necessidade de liderança em todos os
implantação nos municípios, e de CEOs em im- setores. Essa relação enfrenta grupos que são
plantação em 8 regiões, com 9 municípios. contra tudo.”

92 Revista da ABENO • 6(1):89-95


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

• Um dos obstáculos enfrentados é o financiamen- vontade, capacitação, profissionalismo e planos


to, bem como a idéia de pagamento por proce- realizados diante da realidade de cada pacien-
dimento. te.
• Há uma imensa defasagem entre o custo e o
pagamento, não há formação para administra- MESA – “A PÓS-GRADUAÇÃO COMO
ção de fundos, o planejamento nem sempre é o INDUTORA DA TRANSFORMAÇÃO DO
correto. PROCESSO INTERNO DAS INSTITUIÇÕES
• Os gestores não valorizam o serviço prestado DE ENSINO SUPERIOR”
pela universidade e vice-versa. Palestrantes:
• O modelo de atenção não prevê a integralidade, • Profa. Dra. Ana Estela Haddad (Coordenadora
e os serviços prestados pela escola não têm espa- de Educação Superior em Saúde/MS)
ço no SUS. - Formação do cirurgião-dentista no contexto
• Deve-se mudar o modelo atual para um modelo das atuais políticas públicas de educação em
conceitual de atenção integral, fortalecendo o saúde.
papel do sujeito. Há sempre uma esperança de • Prof. Dr. Antonio Cesar Perri de Carvalho (Pre-
mudança. sidente da ABENO)
- Pós-graduação lato sensu no sistema de educa-
Síntese do pronunciamento do Secretário ção superior.
Municipal de Saúde de Curitiba - Michele • Profa. Dra. Adriana de Castro Amédée Péret
Caputo – O papel do gestor municipal (UFMG/PUC-MG)
• Iniciou falando da importância estratégica da - Políticas públicas em educação superior e saú-
Odontologia no contexto de saúde pública em de e a formação do professor de Odontolo-
Curitiba. gia.
• Há necessidade de discussão para o diagnóstico • Prof. Luiz Roberto Augusto Noro (UNINFOR)
e planejamento de um mercado em nítida ex- - A universidade e a formação docente.
pansão. • Prof. Dr. Ney Soares de Araújo (Representante
• O uso da tecnologia deve ser em benefício do da Área de Odontologia/CAPES)
profissional e principalmente do paciente. - A CAPES e a política para os cursos de pós-
• A parceria com a universidade aborda experiên- graduação em Odontologia.
cias e tradições, integralizando os trabalhos e
desfazendo nós críticos e crônicos. Relatores:
• Os recursos devem chegar sem carimbos ou • Profa. Dra. Isabela Almeida Pordeus (UFMG)
compartimentalizados, havendo sim uma fisca- • Prof. Dr. Ricardo de Sousa Vieira (UFSC)
lização séria. Em decorrência da mudança do mercado de
• É importante investir na promoção de saúde, trabalho em Odontologia (seja no que tange ao seu
com discussão e procurando superar os limites, novo perfil, ou à saturação do modelo existente), bem
que nunca são alcançados. Para que isso ocorra, como das diretrizes curriculares para cursos da área
é necessário investir na formação do profissio- da saúde, as políticas atuais vêm direcionando a for-
nal, derrubando preconceitos do CD em relação mação do cirurgião-dentista para uma ação generalis-
a THDs e ACDs, pois as pessoas buscam digni- ta, estimulando os projetos de ações voltadas para o
dade no relacionamento paciente/profissio- atendimento no Sistema Único de Saúde – SUS. Esse
nal. aspecto decorre do fato de que 80% da população
• Comentou a necessidade de se discutir a forma- utiliza esse serviço e de que há conseqüente necessi-
ção continuada dos profissionais, com quali­ dade de dar cobertura à maioria da população brasi-
dade, e a criação das parcerias, para que o pro- leira. As Diretrizes Curriculares apontam para a pre-
blema neste país não seja simplesmente um mência de o egresso possuir uma inserção social com
problema de financiamento, e que se possa fazer intuito de transformação da realidade em benefício
avançar a qualidade de vida das pessoas. da sociedade. Deve-se resgatar a missão da universida-
• O município tem condições de gerenciar os fi- de no desenvolvimento do país, uma vez que ela é um
nanciamentos existentes, bastando para isso boa bem público e para o público deve se voltar, possuin-

Revista da ABENO • 6(1):89-95 93


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

do relevância social. 1. Visão integrada da saúde.


Na década de 90, houve uma expansão rápida 2. Aspectos preventivos e promocionais na especia-
do ensino superior, centrada essencialmente em ins- lidade.
tituições particulares (88% dos cursos atualmente se 3. Conteúdos mais significativos de bioética, meto-
concentram nas IES privadas), congregando 70% dos dologias da pesquisa e do ensino.
alunos matriculados. Entretanto, até 2004, havia 40% 4. Melhor elaboração da monografia.
de ociosidade nesse segmento privado e, portanto, 5. Atendimento a especificidades (CTBMF – resi-
políticas de melhor utilização dessa infra-estrutura dência).
devem ser propostas. 6. Preparo para a educação a distância, “on-line” e
A pós-graduação forma recursos humanos que as atividades inovadoras no ambiente de ensino-
também atuarão na sociedade, sendo que os cursos aprendizagem.
lato sensu, de acordo com o Parecer Sucupira, datado 7. Nova proposta de avaliação dos cursos de espe-
de 1965, são aqueles destinados ao “treinamento nas cialização.
partes de que se compõe um ramo profissional ou No que se refere à pós-graduação stricto sensu,
científico” ou “o domínio científico observa-se ter ocorrido um nítido
e técnico de certa e limitada área crescimento do número de progra-
A pós-graduação stricto
do saber ou da profissão, para for- mas e de alunos titulados. No triê-
sensu deve agir como
mar o profissional especializado”. A nio 2001/03, titularam-se, nos 82
indutora da transformação
ABENO, ciente de seu papel no en- programas de pós-graduação em
do processo interno das Odontologia, 1.851 mestres, 428
sino da Odontologia brasileira, de-
fine a especialização como o apro-
instituições de ensino mestres profissionais e 703 douto-
fundamento do conhecimento e
superior, formando res. Porém, parece não ter havido
das habilidades técnicas e científi- professores e cidadãos uma mudança no perfil do docente
cas, visando à formação de recursos conscientes. de Odontologia, que ainda é calca-
humanos no campo específico de do no modelo flexneriano. Três
sua atuação nas diversas sub-áreas da Odontologia, fatores são fundamentais na formação docente: o eixo
buscando uma interdisciplinaridade. Por estarem in- do conhecimento, o eixo político e o eixo pedagógico.
seridos no contexto da educação superior, os cursos A abordagem social dada à pesquisa e à geração de
de especialização são regidos pelos princípios estabe- tecnologia pode contribuir para a formação crítica do
lecidos na Lei de Diretrizes e Bases da Educação  – docente em Odontologia, conforme se pode observar
LDB (Lei 9.394/ de 20 de dezembro de 1996), que no princípio da autonomia estabelecido pela LDB e
estabelece ser função do Estado legislar, regular e ava- nas ações voltadas para o SUS, tendo em mente ainda
liar o ensino superior brasileiro. Desse modo, é com- o controle social e a ética.
petência do Ministério da Educação estabelecer as Na pós-graduação stricto sensu, a responsabilida-
diretrizes para esse nível de educação superior, calca- de por sua avaliação encontra-se na CAPES, que apre-
das nos seguintes documentos: Parecer CNE/CES nº senta um modelo produtivista de análise de resulta-
908, de 02/12/1998, Resolução CNE/CES nº 1, de dos, sendo que Sobrinho (2003) destaca que “a
03/04/2001, Parecer CNE/CES 0281/2002, Portaria avaliação deve não só observar se a universidade é útil
MEC nº 1.180/2004, Portaria MEC nº 4.361/2004. ao desenvolvimento da indústria e da vida econômica,
Em Odontologia, nota-se um forte desejo do mas principalmente se a instituição pratica a justiça
recém-egresso em se especializar, sendo observado social”.
que nosso país possui o maior número de especialida- Para o triênio 2004/06, a conceituação dos Pro-
des do mundo. Essa tendência reflete o modelo flex- gramas se pautará nos seguintes critérios:
neriano ainda adotado, que se fundamenta no biolo- 1. Conceito excelente (7): 80% ou mais dos do-
gicismo, na fragmentação, no individualismo, na centes permanentes deverão ter publicado, no
exclusão de práticas alternativas, na atuação curativa triênio, o mínimo de 06 artigos em Qualis In-
e no tecnicismo. Esse fato deveria, portanto, gerar um ternacional A ou B, sendo que pelo menos 03 o
amplo debate na academia sobre os seguintes aspec- sejam em Qualis Internacional A.
tos: 2. Conceito excelente (6): 70% ou mais dos do-

94 Revista da ABENO • 6(1):89-95


Relatório com base nas atividades da 40ª Reunião Anual da ABENO e do 31º Encontro Nacional dos Dirigentes de
Faculdades de Odontologia

centes permanentes deverão ter publicado no tituições de ensino superior, formando cidadãos crí-
triênio 04 artigos em Qualis Internacional A ou ticos (professores de Odontologia) que trabalhem por
B, sendo que pelo menos 02 o sejam em Qualis uma Odontologia que traga a saúde para todos.
Internacional A. No Brasil, a pesquisa é essencialmente desenvol-
3. Conceito muito bom (5): 80% ou mais dos do- vida nos programas de pós-graduação stricto sensu.
centes permanentes deverão ter publicado no Quando compara-se o triênio 2001/03 com o triênio
triênio pelo menos 3 artigos por docente em anterior, verifica-se que a Odontologia apresentou um
periódicos classificados como Qualis Internacio- grande crescimento em sua produção científica, sen-
nal C ou superior, sendo pelo menos um desses do de 41% (de 4.036 para 6.846) para artigos publi-
Qualis Internacional A ou B, por docente. cados, de 31,4% (de 1.285 para 1.872) para disserta-
4. Conceito bom (4): 80% ou mais dos docentes ções e de 27,9% (de 517 para 717) para teses.
permanentes deverão ter publicado no triênio A atividade de pesquisa, segundo Demo (1998),
o mínimo de 03 artigos em Qualis Nacional A deve ser uma atitude cotidiana que permita estabele-
ou superior, sendo pelo menos um desses em cer o questionamento reconstrutivo como propedêu-
Qualis Internacional C ou superior, por docente tica diária e da vida e uma habilidade de (re)construir
permanente. conhecimento próprio para inovar (qualidade for-
5. Conceito regular (3): 80% ou mais dos docentes
mal) e intervir (qualidade política). Além disto, Mi-
permanentes deverão ter publicado no triênio
nayo (1994) enfatiza que a pesquisa é a ação básica da
o mínimo de 03 artigos por docente em Qualis
ciência na sua indagação e construção da realidade,
Nacional B ou superior. Sem excluir o critério
e que, portanto, deve alimentar a atividade de ensino
anterior, 60 % dos docentes permanentes devem
e atualizá-la frente à realidade do mundo, vinculando
ter publicado um artigo em Qualis Internacional
pensamento e ação. Prado Jr., por sua vez, destaca que
C ou superior.
não há conhecimento que se faça fora da prática do
6. Conceito fraco (2): 80% ou mais dos docentes
sujeito no mundo que o cerca e o qual é necessário
permanentes deverão ter publicado no triênio
compreender, pela criação de significados e senti-
pelo menos 02 artigos em Qualis Nacional B ou
dos.
superior.
7. Conceito deficiente (1): as demais situações. Para que essa transformação ocorra, deve-se ain-
Para a avaliação qualitativa, serão observados os da refletir sobre a relação docente-aluno, sendo que
seguintes aspectos: número de pesquisadores do Paulo Freire, em seu livro “A Pedagogia da Autono-
CNPq, nucleação, montante de recursos obtidos para mia”, destaca que para ser um bom professor deve-
a pesquisa oriundos de agências de fomento e inserção se:
internacional. 1. Querer bem aos educandos.
Nos Programas de Pós-Graduação stricto sensu 2. Dar liberdade e ter autoridade.
deve ainda haver a articulação entre ensino e pesqui- 3. Respeitar a autonomia do educando.
sa, o que contribuiria para a formação crítica do 4. Ter humildade e tolerância.
­docente em Odontologia, calcada na finalidade da 5. Ter alegria e esperança.
educação superior (LDB), na caracterização da uni- 6. Saber escutar.
versidade e na sua autonomia – sendo que a avaliação 7. Apresentar disponibilidade para o diálogo.
CAPES enfatiza a importância da formação científica Desse modo, o educador deve ensinar eficaz-
e acadêmica – e, por fim, e não menos importante, na mente, o educando deve aprender significativamente,
necessidade da aproximação da universidade com os a comunidade deve dispor de produtos do conheci-
serviços (SUS). mento e a universidade deve mediar a educação. §
A pós-graduação stricto sensu deve agir como in-
dutora da transformação do processo interno das ins- Balneário Camboriú, 19 de agosto de 2005.

Revista da ABENO • 6(1):89-95 95


Normas para apresentação
de originais
I. Originais - Os originais deverão ser redigidos em onde certos aspectos e revisões já tenham sido
português ou inglês e digitados na fonte Arial tamanho 12, apresentados. Lembre-se que trabalhos e resumos
em página tamanho A4, com espaço 1,5 e margem de 3 cm de teses devem sofrer modificações de forma a se
de cada um dos lados, perfazendo o total de no máximo 17 apresentarem adequadamente para a publicação na
páginas, incluindo quadros, tabelas e ilustrações (gráficos, Revista, seguindo-se rigorosamente as normas aqui
desenhos, esquemas, fotografias etc.) ou no máximo 25.000 publicadas.
caracteres contando os espaços.
b) Material e métodos: a descrição dos métodos usados
II. Ilustrações - As ilustrações (gráficos, desenhos, deve ser suficientemente clara para possibilitar a
esquemas, fotografias etc.) deverão ser limitadas ao
perfeita compreensão e repetição do trabalho, não
mínimo indispensável, apresentadas em páginas separadas
e numeradas consecutivamente em algarismos arábicos. sendo extensa. Técnicas já publicadas, a menos que
As respectivas legendas deverão ser concisas e localizadas tenham sido modificadas, devem ser apenas citadas
abaixo e precedidas da numeração correspondente. Nas (obrigatoriamente).
tabelas e quadros a legenda deverá ser colocada na parte c) Resultados: deverão ser apresentados com o mínimo
superior. As fotografias deverão ser fornecidas em mídia possível de discussão ou interpretação pessoal,
digital, em formato tif ou jpg, tamanho 10 x 15 cm, em no acompanhados de tabelas e/ou material ilustrativo
mínimo 300 dpi. Não serão aceitas fotografias em Word ou adequado, quando necessário. Dados estatísticos
Power Point. Deverão ser indicados os locais no texto para devem ser submetidos a análises apropriadas.
inserção das ilustrações e de suas citações.
d) Discussão: deve ser restrita ao significado dos
III. Encaminhamento de originais - Solicita-
dados obtidos, resultados alcançados, relação do
se o encaminhamento dos originais de acordo com as
especificações descritas no item I para o endereço eletrônico conhecimento já existente, sendo evitadas hipóteses
www.abeno.org.br. A submissão “on-line” é simples e segura não fundamentadas nos resultados.
pelo padrão informatizado disponível no site, no ícone e) Conclusões: devem estar baseadas no próprio texto.
“Revista Online”. Somente opte pelo encaminhamento pelo f) Agradecimentos (quando houver).
correio diante da necessidade de publicação de ilustrações
6. Abstract: Resumo do texto em inglês. Sua redação
em formato tif/jpg e alta resolução (veja especificações
no item II). Endereço: REVISTA DA ABENO - Associação deve ser paralela à do resumo em português.
Brasileira de Ensino Odontológico - Universidade Católica 7. Descriptors: Versão dos descritores para o inglês.
de Brasília - Curso de Odontologia - Nova Sede QS 07 Lote Para sua determinação, consultar a lista de “Descritores
01 - Bairro Águas Claras - CEP: 72030-170 – Brasília - DF. em Ciências da Saúde - DeCS” (http://decs.bvs.br) (no
IV. A estrutura do original máximo 5).
1. Cabeçalho: Quando os artigos forem em português, 8. Referências bibliográficas: Devem ser ordenadas
colocar título e subtítulo em português e inglês; quando alfabeticamente, numeradas e normatizadas de acordo
os artigos forem em inglês, colocar título e subtítulo em com o Estilo Vancouver, conforme orientações
inglês e português. O título deve ser breve e indicativo publicadas no site da “National Library of Medicine”
da exata finalidade do trabalho e o subtítulo deve (http://www.nlm.nih.gov/bsd/uniform_requirements.html).
contemplar um aspecto importante do trabalho. Para as citações no corpo do texto deve-se utilizar o
2. Autores: Indicação de apenas um título universitário sistema numérico, no qual são indicados no texto
e/ou uma vinculação à instituição de ensino ou pesquisa somente os números-índices na forma sobrescrita. A
que indique a sua autoridade em relação ao assunto.
citação de nomes de autores só é permitida quando
3. Resumo: Representa a condensação do conteúdo, estritamente necessária e deve ser acompanhada de
expondo metodologia, resultados e conclusões, não
número-índice e ano de publicação entre parênteses.
excedendo 250 palavras e em um único parágrafo.
Todas as citações devem ser acompanhadas de sua
4. Descritores: Palavras ou expressões que identifiquem referência bibliográfica completa e todas as referências
o conteúdo do artigo. Para sua determinação, consultar
devem estar citadas no corpo do texto. As abreviaturas
a lista de “Descritores em Ciências da Saúde - DeCS”
(http://decs.bvs.br) (no máximo 5). dos títulos dos periódicos deverão estar de acordo com o
“List of Journals Indexed in Index Medicus” (http://www.
5. Texto: Deverá seguir, dentro do possível, a seguinte
ncbi.nlm.nih.gov/entrez/query.fcgi?db=journals). A exatidão
estrutura:
das referências bibliográficas é de responsabilidade dos
a) Introdução: deve apresentar com clareza o objetivo
autores.
do trabalho e sua relação com os outros trabalhos na
mesma linha ou área. Extensas revisões de literatura V. Endereço - E-mail, telefone e fax de todos os autores.
devem ser evitadas e quando possível substituídas por Obs.: Qualquer alteração de endereço, telefone ou e-mail
referências aos trabalhos bibliográficos mais recentes, deve ser imediatamente comunicada à Revista. §

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