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Manuel J.

Gandra

KABALLAH
e ROSA-CRUZ
na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra
Manuel J. Gandra

KABALLAH
e ROSA-CRUZ
na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra

Mafra
2018
Editores: Manuel J. Gandra & Centro Ernesto Soares de Iconografia e Simbólica-
Cesdies
Mafra
Tel.: 963075514
Email: manueljgandra@gmail.com
Sites: www.cesdies.net e www.idegeo.pt

Título: KABALLAH E ROSA-CRUZ na Biblioteca do Palácio Nacional de Mafra


Autor: Manuel J. Gandra

Copyright: © Manuel J. Gandra


Todos os direitos reservados. A reprodução não autorizada por escrito, do autor, no
todo ou em parte, por quaisquer que sejam os meios, constitui violação das leis em
vigor.

1ª Edição Luso-Brasileira: Abril de 2018 – 102 exemplares, todos numerados e


assinados pelo autor; e-book.- impresso a pedido.
FILOSOFIA HERMÉTICA

Filosofia ou Tradição Hermética, Hermetismo filosófico e


Hermetismo são designações consagradas para um corpo de fontes
literárias, compendiadas no Corpus Hermeticum, expondo doutrinas
(de teor ecléctico e, por vezes, divergente) oriundas do Egipto
(Menfis, Sais, Hermopolis e Tebas), as quais fizeram a sua aparição
apenas cerca do ano 237 d. C., numa inscrição votiva encontrada perto
de Akhmîm. Tais fontes literárias haviam de ser creditadas a Hermes
Trismegisto, ou três vezes grande, pelos neoplatónicos, por as suporem
reveladas pelo deus Thoth.
O ensinamento hermético não é, apesar de tudo, exclusivo
credor da veneranda religião egípcia, apesar de invariavelmente
reportado a Thoth e não obstante alguns escritos versando a
astrologia, a magia e a alquimia, remontando ao séc. III a. C., tenham
sido aproximados por A. J. Festugière de uma espécie de hermetismo
popular (ciências ocultas) 1.
Para os egípcios, Thoth era um deus versátil, primitivamente
adorado como deidade lunar, cujas funções eram apresentadas em
conformidade. Assim, tal como a lua é iluminada pelo sol, também
Thoth derivava a sua autoridade da circunstância de ser escriba do
deus solar Re. Ulteriormente, tornar-se-ia deus do tempo e da
mudança sazonal, da ordem cósmica e do ritmo quotidiano. Foi-lhe
atribuída a invenção dos hieróglifos e do conhecimento esotérico e,
nessa qualidade, apodado de “o misterioso” e “o desconhecido”. Em
virtude dos seus poderes mágicos seria apontado como médico e guia
das almas (psicopompa) no seu trânsito para o além. Mercê da sua
associação à lua, à medicina e ao mundo subterrâneo, os
neoplatónicos haviam de assimilá-lo a Hermes, mensageiro dos
deuses e intérprete da vontade divina, creditado com os talentos e o

1Cf. J. P. Mahé's Hermès en haute-Egypte (1978-82). No seu Egyptian and Hermetic


Doctrine (1984) o egiptólogo Erik Iversen aponta inúmeros paralelismos
negligenciados entre os textos herméticos e a literatura mítico-cosmológica egípcia
arcaica, o que, de resto, já fora sugerido por Jâmblico no De mysteriis Aegyptiorum
(VIII.4). Presume o autor que os conceitos egípcios terão sido traduzidos, adoptando
uma terminologia filosófica grega por alguém familiarizado com essa linguagem.

4
engenho de Thoth, investindo-o como Hermes Trismegistus, deus,
rei, sacerdote e profeta, alegado contemporâneo de Moisés.
Tal imagem perdurou durante toda a Antiguidade Tardia:
Tertuliano (c. 160- c. 220) apelida Hermes, respeitosamente, de
“magister omnium physicorum”, enquanto Jâmblico (c. 275- c. 330)
descreve no De Mysteriis Aegyptiorum uma forma de filosofia que
denomina “a via de Hermes”, reputando o filósofo egípcio como autor
de inúmeros livros, repositório das suas revelações, as quais são
expostas em tratados breves, sob a forma de diálogo, protagonizados
pelo deus iniciador e por um discípulo que acede à iniciação por via de
uma dispensação epifânica.
Em plena Idade Média, Hermes Trismegisto seria apresentado
no Testamentum, atribuído a Lúlio, como “Philosophorum et
Alchymistarum pater”, i. e., pai dos filósofos e dos alquimistas, os
quais, por seu turno, se autodenominavam filli Hermetis (filhos de
Hermes) e denominavam a disciplina que professavam Magisterium
Hermetis.
Em setecentos, o termo hermetismo tornar-se-ia, por
contaminação, sinónimo de esoterismo, extensão semântica que,
contudo, não convém reduzir ou confundir, como
contemporaneamente, amiúde, se usa, com o ocultismo,
intrinsecamente distinto, apenas urdido nos cenáculos da Aufklärung e
só sistematizado nas formas correntes e baptizado durante o século
XIX.
Hodiernamente, o substantivo esoterismo assume diferentes
acepções e sentidos de que se destacam os seguintes:

1. é adoptado para nomear de forma vaga e “impressionista”


todo o género de registos relativos ao paranormal ou a distintas
tradições de sageza antiga (ocidental ou oriental), bem como aos
sincretismos Nova Era (New Age);
2. remete, algumas vezes, para a noção de segredo (“disciplina
do arcano”) ou para a distinção entre iniciados e não-iniciados;
3. é empregue para designar uma filosofia peculiar, a da Escola
Tradicionalista (perenialista) 2, que se funda na “unidade

2Fundada por René Guénon (1886-1951), autor de cerca de duas dezenas de obras
publicadas nos anos posteriores à 1ª Grande Guerra. A primeira organização
Tradicionalista surgiu antes da 2ª Grande Guerra, congregando em torno de René
Guénon um núcleo de pensadores da estirpe do barão italiano Julis Evola (1896-1974) e

5
transcendente” de todas as religiões e tradições, acepção sinónima de
gnose (modo de conhecimento mais experiencial que racional).

Em suma, face ao estado actual do conhecimento acerca da


difusão, categorias, ideias-chave e práticas do hermetismo é
conveniente considerá-lo sob três modalidades particulares e nem
sempre consonantes, ou unânimes, a saber:

o hermetismo filosófico;
o hermetismo ocultista;
o hermetismo postmodernista ou New Age 3.

do erudito romeno Mircea Eliade (1907-1986). Em 1948-1950, um dos mais destacados


membros do grupo, o sufi suíço Frithjof Schuon (1907-1998), em virtude de um
desentendimento com Guénon, protagonizou uma cisão. A sua Ordem sufi manteve-se
oclusa durante a 2ª metade do século XX, o que não obstou ao crescimento da
respectiva influência, sob a direcção do iraniano Seyyed Hossein Nasr (1933-). Desde a
década de 1960, é crescente o interesse pelo Tradicionalismo, designadamente na
Rússia pós-soviética, onde pontifica Alexander Dugin (1962-).
3 No âmbito deste trabalho prescindirei do terceiro termo, pela simples razão de estar

ausente do objecto em análise, a BPNM.

6
HERMETISMO FILOSÓFICO
(gnose e iniciação)

Outros as [letras] atribuem a Moisés, outros a Mercúrio Egípcio [i. e., Hermes
Trismegisto].
DUARTE NUNES DE LIÃO
(Origem da Língua Portuguesa, Lisboa, 1606, cap. 4)

"[...] Hermes em um livro que chamam logostileos [aliás, o Asclepius,


atribuído ao neoplatónico Apuleu de Madaura (séc. III)] diz assim deus
fazedor de todos os deuses fez um segundo deus e porque ele fez este deus
primeiro e só e verbo foi visto a ele bom comprido de todos bens
bemaventurado é e amou-o muito assim como um seu filho gerado de boa
vontade o nome do qual não pode ser recontado por boca humanal."
OVÍDIO DA VELHA
(citado no Livro da Corte Enperial)

É impossível situar claramente as origens geográficas do


hermetismo filosófico, no entanto, de Alexandria a Roma, passando
pelo Norte de África e Hispânia, as suas doutrinas não conheceram
fronteiras.
Hesitando entre as soluções dos estóicos e as concepções
acroamáticas da Academia platónica, o hermetismo filosófico
confundir-se-ia, em certos momentos, com a história da gnose dualista,
em cujos escritos são adoptadas fórmulas apontando à regeneração do
homem e da natureza, expostas no Poimandro e noutros tratados do
Corpus Hermeticum.
Colocando a enfâse no cultivo da intuição, tal Filosofia foi posta
ao serviço de um modo de vida religioso. Com efeito, os tratados
herméticos surgiram no seio de “comunidades herméticas”, em
resultado de um ensinamento oral, no decurso do qual certas fórmulas
didácticas, comentadas à luz de concepções gregas, egípcias e judaicas,
resultaram numa cosmovisão sincrética inovadora.
Não se revela fácil caracterizar o Corpus Hermeticum. Os seus
tratados tratam das relações entre Deus, o cosmos e o homem, com
relevância para os seguintes temas centrais: a origem divina do
homem, a sua queda na matéria e o seu eventual regresso ao contacto

7
com o Pai, mediante o trânsito pelas esferas (CH I); o conhecimento
do cosmos que conduz ao conhecimento de Deus (CH III); o nous, ou
visão intuitiva que desvela a coerência entre as diferentes coisas,
enquanto dom e mercê divina (CH IV); Deus, apesar da sua
invisibilidade, é susceptível de ser conhecido pelas suas obras (CH V);
ignorância como o maior dos males (CH VII); a morte entendida
como uma mera transição, ou mudança (metabolé) (CH VIII); a
aceitação da unidade que subjaz a tudo como condição para o
conhecimento de Deus (CH XI); a necessidade do renascimento (CH
XIII); o auto-conhecimento e a ascese como via de acesso ao
conhecimento de Deus (CH I); a matéria enquanto obstáculo à
reintegração na fonte divina (CH I).
Com efeito, não é unívoco o teor dos Tratados Herméticos e do
Asclepius, porquanto contêm evidentes elementos gnósticos e
hebraicos (discussões sobre a alma, um paralelismo com o Genesis, o
Nous correspondendo ao tão característico pneuma dos gnósticos,
etc.), além de contributos egípcios, inspirados em hinos religiosos.
Apesar de tudo, o hermetismo distinguir-se-á das doutrinas
gnósticas pela sua escatologia optimista e, designadamente, pela recusa
de considerar o Demiurgo a origem do Mal. De resto, o próprio
hermetismo tentará escapar das posições dualistas, cerrando fileiras
com Porfírio, Jâmblico, Heraiskos, Damascius e outros discípulos de
Plotino.
Face ao cristianismo, o hermetismo constituirá um dos
derradeiros bastiões do paganismo, graças à crença na astrologia e nas
simpatias que ligam as coisas entre si e as coisas aos seres, bem como à
relativa indiferença quanto à salvação. Todavia, ideias como a de um
Deus único, da beleza do mundo e da bondade essencial do homem, da
ascese e da oração como meios para a descoberta e união com Deus,
aproximá-los-ão, originando conversões como as de Arnóbio e Firmino
Materno, por exemplo.
Por uma questão de método e pragmatismo, Antoine Faivre
sugere que se chame hermetista ao pensador - seja ou não cristão - que
valorize (quer em bloco quer separadamente) a analogia (linguagem
simbólica), a teosofia (emanação, androginato e reintegração) e a Igreja
interior (liberta de quaisquer constrangimentos confessionais).
Um tal pensador, preocupando-se mais com o quid sit Deus (a
essência do Divino) do que com o an sit Deus (a existência de Deus),
insere-se num corpo de doutrina que contempla uma cosmogonia, uma

8
cosmologia e uma escatologia, as quais pretende elucidar, ora por via
da sua própria reflexão, ora pela da iluminação interior. A busca
individual ou iniciação resultante, pressupondo uma inevitável
regeneração depende, todavia, mais de uma gnose do que de uma
Igreja. Aliás, a busca de uma verdade para além dos dogmas oficiais,
que caracteriza o hermetismo, e a sua insistência no tema da destruição
próxima da Igreja material, profetizando frequentemente o Reino
vindouro da Igreja invisível, tornou-o, compreensivelmente, suspeito
de heresia.
Com efeito, as igrejas cristãs dominantes invariavelmente
assumiram uma posição de negação da vigência de um esoterismo no
seio mesmo do cristianismo primitivo, motivo por que trataram com
certa desconfiança os escritos de Padres tão celebrados quanto
Orígenes e Clemente dito de Alexandria, justamente o centro onde, na
confluência das culturas egípcia, judaica e helenística, se originou e
desenvolveu o hermetismo cristão, como bem demonstrou Isaac
Casaubon 4, em pleno séc. XVII. De resto, a descoberta, em 1945, de
textos herméticos na Biblioteca gnóstica de Nag Hammadi, viria
corroborá-lo.
De forma geral, considera-se o Pseudo-Zózimo de Panópolis o
testemunho mais significativo do hermetismo durante o séc. III, não
obstante a sua atitude eclética na origem de uma profunda
transformação doutrinal. À medida que se assiste à dissolução do
hermetismo filosófico, o cristianismo assimilar-lhe-á a espiritualidade,
colocando Hermes entre os seus profetas e precursores, a ombrear com
os Magos e as Sibilas, aliás, motivo por que o seu prestígio perdurou.
Entre os Padres da Igreja encontram-se referências a Hermes
Trismegisto e ao Asclepius em Lactâncio 5, Santo Agostinho 6 e
Clemente de Alexandria 7.

4 Isaac Casaubon, De Rebus Sacris et Ecclesiasticis Exercitationes XVI, Londres, 1614.


Trata-se da derradeira obra do autor, comentário à primeira parte do v. 1 dos Annales
Ecclesiastici (1588) de César Barónio. Ao datar o surgimento dos textos herméticos,
alimentou as diatribes de Mersenne e Gassendi (Epistolica Exercitatio, in qua
Principia Philosophiae Robert Fluddi Medici retiguntur, Paris, 1630) contra Robert
Fludd. Ver Frances Yates, Giordano Bruno and the Hermetic Tradition, Londres, 1964,
cap. 21.
5 Instit. Divinas, I, 6; IV, 6, 9; VIII, 18, etc. O texto grego que intitula Logos teleios

perdeu-se.
6 Cidade de Deus, 410-426: VIII, 23-26; XVIII, 39.
7 Stromata, VI, 4, 35-38.

9
Estobeu não terá tido acesso ao Corpus Hermeticum sob a forma
como actualmente o conhecemos 8. O primeiro a referir-se-lhe foi
Miguel Psellus (1020-1078), platónico bizantino e preceptor do
Imperador Miguel Ducas, o qual utilizaria os escritos herméticos e
órficos para explicar a Sagrada Escritura 9.
No entanto, haviam de ser os muçulmanos quem, tendo
recolhido o legado do hermetismo (por via de escritos gregos, das
respectivas versões síriacas, da tratadística astrológica sânscrita
introduzida por Kanasa em Bagdad, no séc. VIII, e dos sabeus de
Harrân), impulsionou a efectiva circulação da sua literatura no
Ocidente.
O primeiro indício do conhecimento do Corpus Hermeticum aí,
mais concretamente na Península Ibérica, remonta ao séc. X. A Tabula
Smaragdina, supostamente descoberta no túmulo de Hermes, já então
era, e pela primeira vez, usada como colofon de um livro de alquimia, o
Sirr Al-Jaliqa ou Kitab Al-´Ilal, o qual fizera a sua aparição no Al-
Andalus durante o califado do omíada Al-Hakam II († 976). Traduzida
para latim pelo bispo hispânico Hugo de Santalla, seria difundida além
Pirinéus por Alberto Magno, ao incorporá-la no De Rebus Metalicis et
Mineralibus.
As escolas de tradutores de Toledo e Sevilha terão tido um papel
não negligenciável no processo em apreço. O denominado
"Renascimento" do séc. XII andou de mão dada com o interesse pelo
hermetismo. O Asclepius garantiu a continuidade da Tradição
hermética antes da descoberta do Corpus Hermeticum. Evidenciam-no
autores como Teodorico de Chartres, Alberto Magno, Bernardo
Silvestre, Alain de Lille, Vicente de Beauvais, Guilherme d'Auvergne,
Tomás Bradwardine, Rogério Bacon, Bernardo de Treviso ou Hugo de

8 Actualmente, os tratados herméticos são organizados em dois grandes grupos: 1. Os


textos práticos ou técnicos sobre Astrologia, Magia e Alquimia, incluindo a
Iatromatemática, o Centiloquium, a Tábua de Esmeralda e o Tractatus Aureus; 2. A
denominada Hermética Filosófica, cujos textos mais importantes são o Asclepius
latino, cuja tradução foi durante muito tempo creditada a Apuleius de Madaura (c.
123), o Corpus Hermeticum, fragmentos de textos compilados por Estobeu (c. 500),
fragmentos de Lactâncio, Cirilo, etc. e os textos gnósticos de Nag Hammadi, incluindo
os fragmentos coptas do Asclepius e as Definições Herméticas.
9 Miguel Psellus, De Daemonibus, in De Mysteriis Aegyptiorum, Chaldaeorum,

Assyriorum […], de Jâmblico, Veneza, 1497 [BN: Inc. 989].

10
São Victor. O mesmo se podendo afirmar da literatura dos ciclos
arturiano e do Evangelho Eterno joaquimita.
Foi, sem embargo, vago e fragmentário o conhecimento acerca
do Hermetismo na Europa, durante a Idade Média.
Alberto Magno conheceria o Asclepius (Liber XXIV philosophum
Asclepius – sobre a natureza de Deus), bem como alguns fragmentos de
escritos herméticos, tal como haviam sido transmitidos por Lactâncio e
Cirilo.
No De Voluptate (cap I), redigido em 1457, Marsílio Ficino
(1433-1499) dá mostras de se encontrar familiarizado com Hermes
Trismegisto, quando cita com admiração, porventura por influência de
Lactâncio, o epílogo lírico do Asclepius latino.
Todavia, uma vez traduzido para latim (1463-1464) por Ficino e
impresso sob o título de Mercurii Trismegisti Pimander, seu liber de
Potestate ac Sapientia Dei, no ano de 1471 (Treviso) 10, o manuscrito
grego do Corpus Hermeticum descoberto na Macedónia, cerca de 1460,
por Leonardo de Pistóia e adquirido por Cosme de Médicis 11, tornar-
se-ia decisivo para o renovo do interesse pelo hermetismo e pelas
doutrinas mágico-astrológicas correlatas, mesmo no seio da Igreja.
Assim se explica que, no ano 1488, Giovanni di Maestro
Stephano haja gravado nas lajes da Catedral de Siena a efígie de
Hermes Trismegisto, ladeado por Moisés e as Sibilas.
De resto, do advento do Renascimento até inícios do século
XVIII, as correntes esotéricas ocidentais jamais se afirmaram como
contra-cultura ou “contra-tradição” face ao poder religioso instituído,
integrando ainda a história geral do cristianismo e veiculando valores
da cultura cristã. Só ulteriormente esta havia de ser adversada por
filósofos e críticos cripto-católicos, responsáveis pela redução das
correntes esotéricas modernas a heresias marginais, ou a superstições
mais ou menos condenáveis 12.

10 Esta e não a versão revista, impressa no ano seguinte de 1472, tornou-se a referência
para a maioria das ulteriores reedições. Tommaso Benci realizou uma tradução italiana
a partir da de Ficino no mesmo ano. A tradução espanhola [Escorial: cast. B. IV.29],
realizada em 1485 por Diego Guillen permaneceu inédita.
11 O monge Leonardo de Pistóia chegou a Florença, no ano de 1463, com os escritos

herméticos, então constituídos por 14 diálogos.


12 Cf., por exemplo: Ernst Benz, Les Sources Mystiques de la Philosophie Romantique

Allemande, Paris, 1968, Nathaniel Kaplan e Thomas Katsaros, The Origins of


American Transcendentalism in Philosophy and Myssticism, New Haven, 1975 e
Auguste Viatte, Les Sources Occultes du Romantisme – 1770-1820, Paris, 1979, 2 vols.

11
*
* *

É infundada a muito generalizada suposição de que a filosofia


hermética não teve cultores em Portugal 13. De facto, nem a alegada
ortodoxia dos nacionais nem a vigilância intensa desenvolvida pelo
Santo Ofício, lograram impedi-la de medrar. De resto, se a matéria
fosse pacífica nunca teria havido a necessidade de a invectivar, por
vezes com uma veemência a denotar, invariavelmente, um ponderado
conhecimento do tema suscitador da contradita.
Em Portugal o conhecimento dos Livros Herméticos revela-se
nos quatrocentistas Ovídio da Velha 14, Zurara 15, Horologium Fidei
[BVaticano: cod. lat. 1068, fl. 11v] de Frei André do Prado 16, Tratado
da Virtuosa Benfeitoria (?) do Infante D. Pedro, bem como no Tratado
de Confissom (Chaves, 1489), no qual é repetido o elogio do homem
como magnum miraculum, i. e., como grande maravilha 17, retomando
as palavras do exórdio da Oratio de Pico della Mirandola que, ambos, o

13 Manuel J. Gandra, A Filosofia Hermética em Portugal e no acervo da Biblioteca do


Palácio Nacional de Mafra, in Boletim Cultural ’93, Mafra, 1994, p. 11-74.
14 "[...] Hermes em um livro que chamam logostileos [aliás, o Asclepius, atribuído ao

neoplatónico Apuleio de Madaura (séc. III)] diz assim deus fazedor de todos os deuses
fez um segundo deus e porque ele fez este deus primeiro e só e verbo foi visto a ele bom
comprido de todos bens bemaventurado é e amou-o muito assim como um seu filho
gerado de boa vontade o nome do qual não pode ser recontado por boca humanal"
(Ovídio da Velha citado no Livro da Corte Enperial).
15 Crónica de Guiné, cap. LXXIV; Crónica da Tomada de Ceuta, cap. XCVI; Crónica do

Conde D. Duarte de Meneses, parte I, cap. I. Joaquim de Carvalho assevera que "Zurara
não citou o Pastor de Hermas, mas uma comparação comummente atribuída a Hermes
Trismegisto e que encontrara no Tratado da Virtuosa Benfeitoria [liv. VI, cap. XI]". Cf.
Obras Completas, v. 4, p. 196.
16 Trata-se de um diálogo entre o franciscano e o Infante D. Henrique (Dominus

Henricus), sobre providência divina e cristologia. Ms. de 89 fl. de pergaminho, em letra


gótica a duas colunas, com iniciais a vermelho, azul e violeta. Augusto Pelzer, Codices
Vaticani Latini, t. 2, parte 1, cod. 679-1134, Biblioteca Vaticana, 1931, p. 623; Fernando
Félix Lopes, À volta de Frei André do Prado, in Colectânea de Estudos, t. 2 (Braga, 1951),
p. 121-132; Mário Martins, O Diálogo do Infante D. Henrique com Frei André do Prado
no Horologium Fidei, in Estudos de Cultura Medieval, v. 1, Lisboa, 1969, p. 135-163;
idem, O Livro que o Infante D. Henrique mandou escrever, in Brotéria, v. 71, n. 2-3
(Lisboa, 1960), p. 195-206. No fl. 11v: “Também o filósofo Hermes afirma, por seu lado,
no livro que escreveu de Deo uno […]”.
17 De Hominis Dignitate, fl. CIIIjr, col. 1, Lisboa, 1973, p. 96-97 e 99-100.

12
religioso português autor do incunábulo e o humanista itálico, terão
bebido numa fonte comum: o Asclepius 18.
Não colhe, por consequência a assunção de Pina Martins,
segundo quem não se dispõe de “elementos para poder documentar a
existência em Portugal de textos herméticos, anteriores à citação de
Frei António de Beja [...]”, em 1525 19.

Hermes Trismegisto no Convento de Cristo, em Tomar (c. 1535)

Frei Heitor Pinto cita o Trismegisto reiteradamente (cap. III a


VI, XII e XIII) no seu Comentário a Daniel (2ª parte, Coimbra, 1572),
bem como na Imagem da Vida Cristã (Diálogo dos verdadeiros e

18 O magistério de Petrarca ou um passo da Antígona de Sófocles (332-333: "Muitos


prodígios há; porém nenhum maior do que o homem") poderiam tê-los inspirado
também.
19 Cf. Frei António de Beja discípulo de Pico della Mirandola, in Revista da Faculdade

de Letras de Lisboa, (1965). Frei António de Beja cita Hermes (Discurso de Iniciação
de Asclépios, in v. 2) fielmente a partir de Pico na Breve Doutrina e Ensinança de
Príncipes, 1525. Cf. Pina Martins, Pico della Mirandola e o Humanismo Italiano nas
Origens do Humanismo Português, in Estudos Italianos em Portugal, n. 23 (1964), p.
25.

13
falsos bens, cap. 2), cuja dedicatória ao duque de Bragança (que
constituíra “a sua Vila Viçosa em universal academia, e fazendo dela
outra Atenas") termina com a referência aos três prisci theologi da
genealogia neoplatónica ficiana, além de Hermes Trismegisto:
Pitágoras, Orfeu e o divino Platão (I, p. XIII-XIV).
O mesmo acontece com Frei Sebastião Toscano na Oração
fúnebre de Afonso de Albuquerque (Lisboa, 1566) e na Mistica
Theologia (Lisboa, 1568) 20.

Hermes e o Segredo, no Livro das Idades (De AEtatibus Mundi Imagines (fl.
26v / LII / 45) de Francisco de Holanda, inspirado no emblema 62 do
Symbolicarum quaestionum de Achiles Bocchi

20 Armando de Jesus Marques, Hermes Trismegisto en dos escritores portugueses del


"quinientos": Fr. Sebastián Toscano y Fr. Hector Pinto, in La Ciudad de Dios, v. 184,
n. 2 (1976), p. 283-289. Frei Heitor Pinto cita, ainda, Platão (de quem tece um rasgado
elogio), Pitágoras, Santo Alberto Magno, Fílon, Pseudo-Dionísio Areopagita e Pico della
Mirandola.

14
Durante toda a sua vida, Francisco de Holanda fará profissão de
fé no neoplatonismo e na cultura hermética. Com efeito, Holanda funde
a tradição do hermetismo filosófico (Hermes, Platão e Pseudo-Dionísio
Areopagita) com os textos bíblicos, à maneira de Ficino, detectando-se
nas suas Imagines numerosas analogias com os comentários do
humanista itálico. Cita o Asclepius no Da Pintura Antiga (livro I, cap.
XII: De alguns preceitos da Antiguidade – e primeiro: da Invenção),
apresentando o artista como oficiante e mago, participando do divino e,
sobretudo, dotado de dom divino. No Da Ciência do Desegno (fl. 37)
sustenta o carácter inato do génio do artista, sublinhando o papel
paradigmático da Criação do Mundo relativamente à criação artística.
É-lhe, ainda, devida a, tanto quanto foi possível apurar, única
iconografia portuguesa explícita disponível de Hermes Trismegisto.
Ocorre no De AEtatibus Mundi Imagines, surgindo associada à cena da
Deposição de Moisés no túmulo pelos Anjos 21. Observa-se num
medalhão situado em baixo, à esquerda, ladeado por Cadmus e Baco e
colocando um dedo sobre os lábios, tal qual o Hermes Mercúrio do
emblema LXII das Symbolicarum quaestionum, de universo genere,
quas serio ludebat, libri quinque (Bolonha, 1555) de Aquiles Bocchi
(1488-1562), bolonhês, amigo dos emblematistas Pierio Valeriano e
Lilio Gregorio Giraldi.
D. Francisco Manuel de Melo, por seu turno, citará Mercúrio
Trismegisto a partir das leituras de Marsílio Ficino, na carta que
remeteu ao Dr. Manuel Temudo da Fonseca, em 1650 22.

21 Fl. 26v / LII / 45. A genealogia neoplatónica da prisca pictura holandiana, a bem
dizer a sua “família sacerdotal”, assenta em personagens como Hermes Trismegistus,
Apeles, Protogenes, etc. Sylvie Deswarte considera Francisco de Holanda precursor no
que respeita à representação geométrica da Criação do Mundo, a qual só durante o séc.
XVII (Fludd e Boehme) aparecerá em tratados alquímicos e herméticos. Les «De
Aetatibus Mundi Imagines» de Francisco de Holanda, in Monuments et Mémoires
publiés par l´Académie des Incriptions et Belles-Lettres, t. 70 (1983), p. 67-190.
22 Cf. Cartas Familiares, Lisboa, 1981, n. 414, p. 410.

15
IDEIAS-CHAVE DO HERMETISMO

ANALOGIA

A causalidade racionalista associa dois eventos (macrocosmos e


microcosmos) numa relação de causa e efeito, mediante uma divisão
dogmática do mundo, ao passo que a analogia, recusando estabelecer
uma comparação entre eles (analogia não é homologia), sublinha o
quadro das circunstâncias partilhadas por ambos, atribuindo a cada
fragmento do mundo um lugar no todo do qual participa.
A analogia é o princípio fundante da demanda, cujo propósito é
gerar a plena consciência da analogia (simpatias e o Amor). A
caminhada tendente à descoberta da própria singularidade exige a
cada viandante a adopção do trajecto mais adequado às respectivas
disposições e à modalidade de ascese perfilhada, podendo mesmo
suceder que tal caminho, à partida, pareça ser inóspito, interminável,
ou mesmo inviável.
A analogia supõe, por conseguinte, o empenhamento do
operador como parte integrante do processo. A verdade assemelha-se,
assim, a uma assíntota: duas linhas paralelas que se aproximam
indefinidamente de uma curva sem jamais lograrem encontrá-la 23.

TEOSOFIA
(Emanação, Androginato, Reintegração)

Emanação

Aquilo que distingue o gnóstico e o hermetista do filósofo é o


método adoptado para alcançar o nexo sapiencial a que cada um
aderiu. Enquanto para o filósofo ele se caracteriza por uma lenta e
prudente progressão no encaminhamento da razão, para o hermetista
o saber é total, absoluto e dispensado de uma única vez, por
intermédio de uma revelação absoluta e irrepetível.

23René Alleau, La Science des Symboles, Paris, 1976 (trad. port.: A Ciência dos
Símbolos, Lisboa, 1982, cap. IV).

16
Androginato

Símbolo da suprema identidade.


Expressão do imanifestado, fonte da manifestação e do Amor.
Parece um dado adquirido que tanto a lírica medieval dos
cancioneiros de Amor e de Amigo, como aquela recolhida no
Cancioneiro de Garcia de Resende, quer a de Bernardim Ribeiro, Sá
de Miranda, Camões, Eloy de Sá Sottomayor, Rodrigues Lobo,
Samuel Usque, Fernão Álvares do Oriente, etc., constituem a
expressão externa (exotérica) de um exercício espiritual em que o
poeta busca a harmonia do Eu, a sua unidade primordial, mediante a
integração dos opostos.
A coita de Amor de que o jogral se acha possuído e que o coloca
sob o poder da Dona, suscitando nele o desejo de morrer,
consubstancia o momento preliminar desse exercício, a mortificação,
propedeutica da subsequente contemplação e consequente
iluminação. A Senhor (nunca a Senhora!) que os poetas amam, a
Dona por quem se apaixonam, reporta-se ao exílio da parte feminina
de si. Já no cancioneiro de Amigo verifica-se uma alteração da
polaridade, porquanto é a voz feminina o veículo dos sentimentos
poetados e a masculina a desterrada. Assim, por exemplo, Raimundo
Lúlio chama Amado (Amat) a Deus e Amigo (Amic) à Alma, em vez
de Sponsa, conforme a tradição que interpreta o epitalamio sagrado
do Antigo Testamento, ou Cântico dos Cânticos, como uma alegoria
mística das núpcias de Cristo com a Igreja e com a alma fiel. Camões
chega a cifrá-lo no título de um dos seus mais famosos Autos.
Filodemo é, como a própria etimologia denuncia, o Amigo da Alma ou
Daimone, em oposição a Vanadoro, o adorador de coisas vãs!
Manuel de Faria e Sousa, por seu turno, advertirá:

"Tres calidades de Amor tenian los Platonicos. Uno


contemplativo, que es superior y divino, exhalandose de la luz y
objecto corporeo, a las consideraciones de su origen que está ausente
y peregrino. Otro activo que viene a ser el humano deleite en la
conversacion y la vista. Y el final, lascivo y torpe, que baxa de la vista
y de la conversacion al texo del contacto: y por esso son comparadas
estas tres calidades de Amor, la primera al oro, la segunda a la plata, y
la tercera al plomo. De manera, que el contemplativo para en la divina
mente. El activo, usando un dudoso medio, anima en la vista. Y el

17
lascivo en su baxez, y assi para cada uno conocer el amor que sigue y
el provecho que ha de sacar del, dize San Agustin sobre el psalmo 64,
no tiene mas sino darse al consideracion de la calidade dellos
"Jerusalem abraça al amor divino al humano Babilonia: examine cada
uno en si qual dellos sigue, y verá el lugar que habita" 24.

Reintegração

A gnose origina uma verdadeira mutação no seu beneficiário.


Os textos herméticos apresentam-na como uma regeneração, um
segundo nascimento. O iniciado é, por esse motivo, frequentemente
comparado com uma criança.

ESOTERISMO

Por esotérico ou acroamático designava-se o ensino


ministrado nas antigas Escolas dos Mistérios aos discípulos
completamente instruídos, chamando-se, por oposição, exotérico o
ensino público e popular.
Doutrina do arcano, segundo a qual uma ciência não deve ser
vulgarizada, mas comunicada apenas a adeptos conhecidos e
escolhidos em função das respectivas qualificações e méritos: “Nem
tudo o que se pode ensinar se pode ensinar a todos” (princípio
hermético que presidia à pedagogia “íntima e inefável”).
O objecto do arcano e o percurso da sua demanda são uma e a
mesma coisa (o Caminho faz-se caminhando).

Pitagorismo: acusmáticos (ouvintes = 5 anos de aprendizagem


puramente auditiva) e matemáticos (Diógenes Laércio, Vida, doutrina
e sentenças dos Filósofos, livro VIII).
O pitagorismo, o orfismo, o misticismo alexandrino, o
gnosticismo, ou o mitraísmo exigiam um voto de silêncio aos
respectivos adeptos.

Platão

24Noches Claras Divinas y humanas Flores, Lisboa, 1674, 1ª Noche, Palestra IV, p.
280.

18
Carta II ( 314a): “Toma cuidado para que as minhas doutrinas não se
difundam entre os iletrados”.
Carta VII (344c): “E eis a razão porque todo o homem sério que se
ocupa de temas realmente sérios há-de evitar escrever e lançar o seu
pensamento como pasto para a inveja e a incompreensão do público”.

O ingresso discente na Escola pitagórica e na Academia platónica


era precedido de um noviciado por vezes muito severo e longo. As
lições do mestre não eram dialogadas, mas monólogos, durante os
quais o seu espírito comunicava determinadas visões, não sendo
consentidas objecções.

Aristóteles (Metafísica, Livro Pi.1.25): “Mas quase todas essas questões


[teses platónicas], com efeito, estão já rebatidas nos nossos escritos
exotéricos” 25.

Plotino
“Aquilo que é divino é inefável e aquele que não teve a dita de vê-lo está
impedido de falar acerca dele”.

Mateus (XIII, 10-11)


Jesus interrogado pelos discípulos acerca dos motivos por que falava
à multidão por parábolas, respondeu: “Porque a vós é dado conhecer
os mistérios do reino dos céus, mas a eles não lhes é dado”.

Marcos (IV, 11-12)


“E [Jesus] lhes disse: A vós-outros é concedido saber o mistério do
Reino de Deus, mas aos que são de fora tudo se lhes propõe em
parábolas, para que vendo vejam e não vejam e ouvindo não
entendam […]”.

25Cf. Sant’Ana Dionísio, O Ensino acroamático dos Gregos, in Palestra, n. 1 (1958), p.


32-36.

19
PRÁTICAS DO HERMETISMO

INICIAÇÃO

Uma doutrina secreta, ou esotérica, autêntica implica a


vigência de uma Tradição, isto é, uma filiação, mediante a qual se
processa a continuidade de mestre a discípulo, no pressuposto de que
ninguém pode auto-iniciar-se. Esta instância hermenêutica, mas
igualmente fonte e depósito de uma Revelação, apesar de assumir
diferentes roupagens consoante os lugares e as épocas, difere do
estereótipo folclórico porquanto, ao invés dele, pressupõe uma
pedagogia transmutacional sistematizada e adequada aos fins em
vista. Além de que implica a existência de uma élite oclusa a quem
competirá preservar (inviolável e sem soluções de continuidade) um
conjunto de meios consagrados que garantam a tomada de
consciência de príncípios imanentes de ordem universal, bem como
proceder à sua gradual e escalonada transmissão.
Uma adequada definição do conceito deverá, justamente,
subentender uma filiação espiritual de mestre a discípulo, uma
influência formadora análoga à vocação ou à inspiração, tão
consubstancial ao espírito quanto a hereditariedade ao corpo.
A uma tal dispensação dá-se o nome de iniciação (in + ire = ir
entrando).
Fernando Pessoa ensaia uma elucidação daquilo em que
consiste:

“Iniciar alguém é conferir-lhe conhecimentos que ele não


poderia obter por si, quer pela leitura de livros, quer pelo exercício da
sua inteligência por forte que seja, quer pela leitura de livros à luz
dessa mesma inteligência”.

A revelação (os conhecimentos) a que Pessoa alude, não


obstante as óbvias idiossincracias dos sistemas em confronto, é a
preciosa gema com a qual cada candidato à iniciação conta para nela
lapidar o corpo subtil (alma), capaz de o liberar de determinadas
contingências materiais (corpo) e garantir-lhe a imortalidade virtual
(espírito).

20
O extâse que sucede à revelação é designado por “silêncio
divino” num tratado do Corpus Hermeticum. A visão epifânica do
Nous (Deus) ocorre em estado de vigília, porém o alheamento do
corpo e a suspensão da consciência sensível, bem como a inibição dos
sentidos corporais, são característicos de um estado de sonolência. Só
no decurso de uma tal identificação, de Deus com a actividade
psíquica superior do gnóstico, o pensamento deste poderá projectar-
se na divindade, conduzindo-o a um despertar.
De outro modo, continuará adormecido.

21
HERMETISMO OCULTISTA
(materialismo e massificação)

A maioria dos autores Renascentistas que entraram em


contacto com as doutrinas herméticas estavam mais preocupados
com o significado filosófico delas do que com o mistério que delas
emanava 26.
Com a Reforma, o esoterismo cristão sofreria um impulso
renovador, uma vez que a necessidade a que o movimento correspondia
se equiparara à do hermetismo filosófico ou tradicional: abordar os
textos revelados sem submissão a autoridades, nem constrangimentos
e com o recurso exclusivo às luzes do Espírito Santo. O
desaparecimento das hierarquias e das liturgias sacerdotais conduziria,
quase como reacção, a uma rede de mediações entre o indivíduo e o
Eterno, que assumiria a forma de novas hierarquias no interior de
sociedades secretas ou no decurso de contactos com espíritos angélicos.
Radicam em tais preocupações a Nova Cavalaria ou Cavalaria
do Amor, precursora em Portugal do movimento Rosa-Cruz,
manifestado na Alemanha a partir de 1616, mas já activo no território
nacional cerca de 1535.
Doravante, as fronteiras entre Alquimia, Teosofia e Kabbalah
hão-de atenuar-se até se diluírem.
São disso exemplo os escritos de Robert Fludd, a Kabbala
denudata (Salzbach, 1677-78), de Knorr von Rosenroth, o Tratado da
Reintegração de Todos os Seres, de Martinets de Pasquallys, o luso-
descendente Pascoal Martins (trad. port. Lisboa, 1979), o Le Monde
Primitif (Paris, 1775-84) de Court de Gebelin, ou o Submundo, Mundo
e Supramundo (Porto, 1889), dedicado pelo Visconde de Figanière, a
seu primo-comirmão Serpa Pinto (o explorador da costa à contracosta
africana), "mui lido em assuntos análogos", e reiteradamente citado
pela fundadora da Sociedade Teosófica, Helena Blavatsky.
A autonomização das correntes esotéricas não-cristãs que
decorre desde setecentos, seguiu uma trajectória paralela, em estreita
conexão com o processo geral de progressiva secularização religiosa das
sociedades do mundo ocidental.

26 Cf. Edgar Wind, Los Misterios Paganos, 1968, p. 1-7.

22
O idílio com o hermetismo explicará ainda a nomeação de
Eugénio de Castro como consul da Rosa-Cruz em Portugal 27 e, do
mesmo modo, boa parte das vidas e das obras de Sampaio Bruno, João
Antunes, Fernando Pessoa 28, Raúl Leal (Vertiginismo), António Maria
Lisboa ou Lima de Freitas. E, na actualidade, a do poeta Vasco da
Gama Rodrigues († 1993), bem assim como o magistério do alquimista
Estêvão Miranda (†).

27 Por iniciativa de Sar Péladan, organizador do Salão da Rosa-Cruz, realizado seis vezes
(a partir de 1892), com o objectivo de difundir a verdade por intermédio da arte. Gaspar
Simões, Vida e Obra de Fernando Pessoa, p. 555-556.
28 Luís Filipe B. Teixeira, A Dimensão Hermética e Esotérica do pensamento pessoano:

contribuição para uma tábua bibliográfica, in Fernando Pessoa: Mensagem - Poemas


esotéricos, Madrid, 1993, p. 517-530 e Manuel J. Gandra, Fernando Pessoa: Hermetismo
e Iniciação, Sintra, 2015.

23
KABALLAH

O Senhor escreveu mediante 32 misteriosas vias de sabedoria. Criou o


universo com três formas de expressão: números, letras e palavras. Dez
infáveis Sefirot e 22 letras básicas: três letras-mãe, sete duplas e doze simples
SEFER YETSIRA

O termo hebraico Kabbalah, com o significado de Tradição,


designa, igualmente, o sistema pelo qual se exprimiu a mística
judaica, designadamente entre os séculos XII e XVII, a qual assimilou
elementos da teologia hebraica, do neoplatonismo (hermetismo), do
gnosticismo, do sufismo, do franciscanismo, etc.
A Kabbalah caracteriza-se menos pela busca da união com
Deus do que pela aspiração a um conhecimento de Deus, atingível por
via da contemplação e da iluminação, graças à transmissão de uma
revelação primordial. Trata-se de uma tradição esotérica, de uma
teosofia e, concomitantemente, de uma hermeneutica.
A contemplação das emanações ou Sephiroth propicia uma
maior compreensão da natureza de Deus e uma mais íntima visão da
própria divindade, mas, igualmente, a mais detalhado conhecimento
das diferentes formas de operação do poder divino nos vários planos
do cosmos. Os nomes (o verbo) das entidades contempladas são
poderosos. A capacidade para reconhecê-los e manipulá-los faculta
um poder acrescido áquele que domina a técnica.
Em suma, a Kabbalah visa uma explicação esotérica da Torah.
Deus criou o universo com o concurso de três entidades
denominadas Serafim, manifestando os dez atributos ou emanações
da sua divindade (Sefirot belima) na árvore sefirótica.
Porém, se os dez Sefirot são os atributos de Deus abscôndito
(Ein Sof), eles também hão-de ser entendidos em termos da
experiência humana. As 22 letras do alfabeto hebraico, arquétipo da
criação, figuram justamente as modalidades privilegiadas de uma tal
gnose, uma vez que constituem o denominador comum ao Criador e à
criatura (criada à imagem de Deus).
Nessa conformidade, a Kaballah assume três aspectos
complementares, direccionados para o conhecimento da divindade:

24
Kaballah fonética, baseada na magia dos sons, letra-expressão
oral ou Sipur (notárica);
Kaballah gráfica baseada na magia das formas, letra-expressão
escrita ou Sefer (temura);
Kaballah numeral baseada na magia dos números, letra-
algarismo ou Sefar (guematria).
Uma das suas fontes nucleares, o Sefer Yetsira ou Livro da
Formação, remonta ao século V ou VI, todavia o primeiro texto de
Kaballah, propriamente dita, é o Bahir, surgido cerca de 1180 no Sul
da França. Sucede-lhe, em finais do século XIII, o Sefer Ha-Zohar ou
Livro do Esplendor (1ª edição: Mantua, 1559), atribuído
tradicionalmente ao Rabi Simeon bar Yochai, mas considerado pela
crítica moderna uma compilação realizada por Moisés de Leão (1240-
1305).
Foi sobretudo após a expulsão dos judeus de Espanha (1492)
que se principiou a "Kabbalizar" num contexto cristão, numa palavra,
se tentou encontrar com os métodos dos Kabbalistas hebreus
argumentos a favor do cristianismo ou tendentes a provar o
cristianismo.
Pico de la Mirandola e Blaise de Vigerère (1523-1596), tão
influenciados por correntes hermenêuticas oriundas da Península
Ibérica, prefiguram tal atitude, surgida no decurso do Renascimento e
cujas repercussões ainda não se acham totalmente rastreadas em
Portugal.
Pico da la Mirandola afirmará mesmo que “nenhuma ciência
apresenta mais provas da divindade de Cristo do que a magia e a
Kabbalah".
Um dos terrenos em que a pesquisa pode vir a revelar-se
frutuosa é o da profunda influência exercida por IV Esdras, também
denominado Apocalipse de Esdras, cujo versículo 6 do capítulo XIV
aqueles autores adoptaram para demonstrar que além da Lei Escrita
existe uma ciência, a Kabbalah, destinada a explicar os mistérios
contidos na Torah.
A título de curiosidade, recordarei que Frei Nicolau Coelho do
Amaral considera, "conforme se lê em Esdras", que os Livros do
Antigo Testamento são para os dignos e indignos, enquanto os

25
setenta livros da Kabbalah são estritamente reservados aos sábios 29.
Por seu turno, Francisco de Holanda aplica uma paráfrase de IV
Esdras à Pintura, como "pego e rio e fonte", citação textual que Pico
usa para definir a Kabbalah na sua Oratio de Hominis dignitate
(1486) 30.
Além dos supracitados, foram expositores da Kabbalah cristã,
em Portugal, entre outros: João de Barros 31, o jesuíta Sebastião
Barradas (1543-1615) 32, Luís de Camões 33, o franciscano da Província
do Brasil, Frei Rafael da Purificação (1619-1744), o Padre Rafael
Bluteau, crismado com o epíteto de Hermes Católico, Matias Pereira
da Silva (Notícia da Arte cabalística) e, designadamente, D.
Francisco Manuel de Melo, autor do celebrado e póstumo Tratado da
Sciencia Cabala (Lisboa, 1724), muito influenciado por Johannes
Reuchlin (1455-1522).

29 Juntamente com Holanda e Heitor Pinto muito próximo do Infante D. Luís e de D.


António, Prior do Crato. Discípulo de Pedro Nunes e seu substituto ocasional na
cátedra de Coimbra. Exilou-se em Valladolide, em cuja Universidade ensinou, após a
morte de D. Luís. Autor de Cronologia, seu ratio Temporum, maximè in Theologorum,
atque bonarum literarum studiosorum gratiam (Coimbra, 1554), obra que dedicou a
D. António, a qual denota paralelismos quanto à estrutura e fontes relativamente ao De
AEtatibus Mundi de Francisco de Holanda. Na introdução faz entusiasmada profissão
de fé na Kabbalah cristã, louvando e citando longamente os seus principais mestres,
Pico, Reuchlin e Galatino. Inclui: Monostichon. De Primis Hispanorum Regib. Lib.
Primus e a Oratio de Hominis suprema dignitate, dedicada à Infanta D. Maria.
30 No De AEtatibus Mundi, traduz em imagens a preocupação central do cabalista

historiador, i. e., descobrir "a prefiguração do Cristo futuro nas acções dos Patriarcas,
Profetas e Reis". Já no Da Pintura Antiga, escreve: "A Árvore do homem que tira as
suas raízes do céu" (I, 2).
31 No Prólogo da Década Primeira escreve: "[...] e as letras sendo uns caracteres mortos

e não animados, contêm em si espírito de vida, pois a dão acerca de nós a todas as
coisas". A propósito de uma passagem do Diálogo Evangélico (p. 14), Leonor Buescu
admite que o autor "conhece a Cabala e a utiliza judiciosamente, como argumentação
dialéctica, numa senda que, aliás, vinha já da Idade Média". Cf. Babel ou a Ruptura do
Signo, Lisboa, 1983, p. 61.
32 Ver F. Secret, Les Kabbalistes Chrétiens de la Renaissance, Paris, 1964, p. 224.
33 Que Camões inclua na sua obra significações cabalísticas, como demonstrou Jorge de

Sena (A Estrutura dos Lusíadas, p. 65-176), tal não significa necessariamente que
judaízasse, porque pode ter sido cabalista cristão. Fiama Hasse Pais Brandão encontra
na estrutura de Os Lusíadas (10 Cantos) e em outros aspectos do mesmo poema
vestígios de Kabbalah. Cf. Os Lusíadas e a Cabala Judaica, in O Jornal (29 Fev.-6
Mar. 1980).

26
KABALLAH HEBRAICA E CRISTÃ

Abravanel, Isaac (1437-1508)


Almoxarife, rabi-mor, conselheiro de D. Afonso V e privado da mais alta
nobreza de Portugal. Mantinhaóptimas relações com o duque de Bragança e,
em virtude delas, se achou envolvido nas conspirações contra D. João II,
razão por que fugiu para Castela, em Junho de 1483, sendo condenado à
revelia em 30 de Maio de 1485.

*Liber de Capite Fidei, in quo continentur radices et capita vel principio


Religionis [...], Amesterdão, 1638 [BPNM: 2-76-6-10]
*Exordium, seu Proemium Commentariorum in Leviticum, Amesterdão,
1638 [BPNM: 2-1-14-14] Encadernado com Maimónides.
*Diatriba de excidii poena [...], Basileia, 1652 [BPNM: 2-43-6-8]

Alcalá y Herrera, Alonso de (1599-1682)


*Jardim Anagramatico de Divinas Flores Lusitanas, Hespanholas e Latinas,
Lisboa, 1654 [BPNM: 2-24-6-15]
Inclui 683 anagramas em prosa e verso e 6 hinos cronológicos

Anónimo
*In Siphra de Zeniutha seu librum Mysterii, s. l., s. d. [BPNM: 2-49-4-10
(1º)]
*Adumbratio Kabbalae Christianae idest Syncatabasis Hebraizans, sive
brevis applicatio Doctrinae Hebraeorum Cabbalisticae, Francoforte, 1684
[BPNM: 2-49-4-10 (2º)]

Aquino, Filipe de
Também autor de Interpretation de l’Arbre de la Cabale (1625).

*Discours du tabernacle et du Camp des Israelites recueily de plusieurs


ancien Docteurs Hébreux, Paris, 1623 [BPNM: 2-1-14-16]

Baptista Villalpando, Juan


*Explanationes in 22 posteria capita Ezechielis [BPNM: 1-54-4-15]
*In Ezechielem Explanationes et Apparatus Urbis, ac Templi
Hierosolymitani Commentariis et Imaginibus Illustratus, Roma, 1596-?, 3
vols. [BPNM, 1-54-1-2 / 4]

27
Barradas, Sebastião (1543-1615) S. J.
Padre jesuíta.

*Commentaria in Concordiam et Historiam Evangelicam, Antuérpia, 1613, 4


vols. [BPNM: 1-4-9- 10 /13] Outra edição de 1622 [BPNM: 2-4-12-4/7]
*Itinerarium filiorum Israel ex Egipto in terram de promissionis, Lyon, 1620
[BPNM: 1-54-2-14]

Bongus, Petrus
*Mysticae Significationis Numerum Liber [...], Bergoni, 1585 [BPNM: 1-20-
5-2]

Bluteau, Rafael
Clérigo teatino.

*Prosa enigmatica, interpretativa. Dissertação literaria, cabalistica e


moral, sobre o sentido de cento e trinta e sete letras esmaltadas na
circunferencia do pé e garganta de hum antiquissimo calix de ouro do Real
Mosteiro de Alcobaça, in Prosas Portuguesas, Lisboa, José António da Silva,
1729 [BPNM: 2-24-10-12]
Recitada na presença de D. João V, no dia 19 Novembro 1713, no Convento
dos Clérigos Regulares, em Lisboa, durante um "Certamen sacro-poético"
Consulte Alquimia

Boyer (Marquês de), Jean-Baptiste (1704-1771)


*Lettres Cabalistiques, Haia, 1741, 6 vols. [BPNM: 2-51-2-2/7]
Segunda edição. Incluída no Index dos Livros Proibidos em 1742.

Brocardo, Jacobo
Autor proibido por Trento.

*Mystica et prophetica libri geneseos interpretatio, Brenae, 1581 [BPNM: 2-


49-4-7]

Budeu, João Francisco


Também autor da Introductio ad Historiam Philosophiae Ebraeorum (Iena),
onde as "Ioannis Pici Mirandulae Comitis conclusiones Kabbalisticae numero
LXXXI. secundum opinionem propriam ex ipsis Ebraeorum sapientum
fundamentis, christianam religionem maxime confirmantes", ocupam a p.
230-245 (cf. Pina Martins, in Marsilio Ficino e Giovanni Pico della
Mirandola em Bibliotecas Portuguesas, n. IV, 30-12, p. 685).

*Historia juris naturalis et synopsis juris naturae


[BPNM: 2-42-7-17]

28
*Protheoria [BPNM: 2-18-1-2]

Buxtorf, João
Também autor da Dissertatio de Literis Hebraeorum (Basileia, 1643).

*Lexicon Hebraicum et Chaldaicum complectens omnes voces, Basileia, 1735


[BPNM: 2-18-1-16 / 17] = 4 exemplares; Basileia, 1698 [BPNM: 2-18-4-24
/27] = 2 exemplares. Outras edições: 1631 [BPNM: 2-18-1-20 / 21]; 1655
[BPNM: 2-18-1-22 e 23]

Cesar Aevolius
*De Divinis Attributiis, quae Sephirot ab Hebraeis Nuncupata. Ad
Maximilianum II. Imperatorum Romanum, Veneza, 1580 [BPNM: 2-40-2-
29 (2º)]

Ferreira, Abraão Cohen de († 1631)


O mesmo que Alonso Cohen de Herrera ou Irira. Judeu nascido em Portugal,
descendente do capitão Gonçalo de Córdova. Em 1660 viajou para
Amesterdão onde viria a tornar-se discípulo do Rabi Israel Serug e um dos
maiores cabalistas do seu tempo.

*Porta del Cielo y luz para entrar en la capacidad y ynteligencia de la


cábala cuyos misterios y contemplación son lhegados al entendimiento
humano (1655) O título (Porta do Céu) inspira-se em Genesis, XXVIII, 17;
primeira obra sobre cabala, redigida em língua vulgar; Traduzida do espanhol
ao hebraico por Isaac Aboab da Fonseca, com o título Sahar Hafamain;
confronta a Kabballah com a filosofia de Platão, ensaiando um paralelo do
Ensoph e do Adam Kadmon com a doutrina platónica; incluída na Kabbala
denudata (I, parte 3) e na Dissertação sobre o carácter primitivo dos Livros
Hebreus de João Miguel Langio (cap. III); Epitome y compendio dela logica,
ò dialectica, en que se expone y declara breve y facilmente su essencia,
partes y propriedades, preceptos, reglas y usos, distribuidos en 7 libros
Cruza Kaballah, Platão e Aristóteles; Casa de Deos (Beth Elohim),
Amesterdão, 5415 (1655) Composta por sete partes, nas quais se trata de Deus
e dos seus atributos e se explica toda a doutrina dos cabalistas. Algumas
passagens em latim constam da Cabala denudata (tomo II).

Fludd, Robert
Introdutor da Kabbala em Inglaterra. No seu Summum Bonum quod est
verum magiae, cabalae, alchymiae (1629), trata da "verdadeira Kabbala", i.
e., Bereschit e Mercabah, que é necessário distinguir da Kabbalah
supersticiosa, denominada Guematria, Notarikon e Temura.

29
*Philosophia Moysaica. In qua Sapientia et scientia creationis et
creaturarum sacra vereque Christiana (ut pote cuius basis sive
Fundamentum est unicus ille Lapis Angularis Iesus Christus) ad amussim et
enucleate explicatur, Gouda, 1638 [BPNM: 2-49-13-3]
Tradução inglesa: Mosaicall Philosophy: Griunded upon the Essential Truth,
or Eternal Sapience, Londres, 1659
Consulte Rosa-Cruz e Teosofia

Gaffarell, Jacob
Também autor de Abdita divinae cabalae mysteria (1625), obra dedicada a
Richelieu.

*Index Codicum Cabbalisticorum quibus Joannes Picus Mirandulanus comes


usus est, in João Cristóvão Wolphii, Bibliotheca Hebraea, sive notitiae tum
Auctorum Hebraeorum [...], Hamburgo, 1715 [BPNM: 2-26-9-9]

Galatino, Pedro
Franciscano de Otranto.

*De Arcanis catholicae veritatis libri 12, s. l., 1603 [BPNM: 1-49-9-9]
A edição príncipe é de 1516. Proíbido pelo Index tridentino. Inclui o De
Cabbala, seu de Symbolica receptione Dialogus, de Reuchlin. Utiliza a
Epistola Secretorum de Paulo Herédia. Foi uma das obras sobre Kabbalah
mais populares no Renascimento (Ver Anna Morisi, Galatino et la Kabbale
Chrétienne, in Kabbalistes Chrétiens, Paris, 1978, p. 211-227).

Giorgio da Venezia, Francisco


Também autor de Problemata (1536)

*De Harmonia Totius Mundi Cantica 3, 1525 e Paris, 1544


[BPNM: 2-76-11-1] Dedicada a Clemente VII.

Melo, D. Francisco Manuel de (1611-?)


*Tratado da Sciencia da Cabala ou Noticia da Arte Cabalistica, Lisboa, 1724
[BPNM: 2-35-8-18 (1º)]

Postel, Guillaume (1455- 1522)


Põe o acento num milenarismo no decurso do qual o homem reencontrará
uma parte dos poderes que detinha antes da Queda. Às três idades
joaquimitas contrapõe quatro: Lei da Natureza, Lei escrita, Lei da Graça e
Concórdia. Autor de: De Orbis Terrae Concordia (as anotações anónimas são
defesas no Rol de 1551); Restitutio Rerum omnium conditarum (1552);
Clavis Absconditorum; De Verbo Mirifico (1494); De Rudimentis Hebraicis,

30
(1506); De Accentibus et Ortographia Linguae Hebraicae (1517); Arte
Cabalistica.

*Linguarum 12 Characteribus differentium alphabetum, Paris, 1538 [BPNM:


2-18-7-2]
*De Etruriae Regionis originibus, institutis, religione ac moribus
commentatio, in Thesaurus antiquitatum et historiarum Italiae et Grecii et
Burmanni, Lugduni, 1735 [BPNM: 1-40-2-5]
*Tratactus de Republica, seu Magistratibus Atheniensium, in Thesaurus
Graecorum Antiquitatum de Jacobi Gronovii, Lugduni Batavia, 12 tomos,
1698-1702 [BPNM: 1-40-7-2]

2-35-8-18 (1º) e 2-35-8-18 (2º)

Purificação, Frei Rafael da (1691-1744)


Franciscano da Província de Santo António do Brasil.

*Figmenti cabalistici enodatio, rythmicae quaestiones resolutio a quodam


cabalista de Insbruch consictae cabalam suam consulente [...], Lisboa
Ocidental, Oficina Ferreiriana, 1728 [BPNM: 2-35-8-18 (2º)] Encadernado
junto com o Tratado da Ciência Cabala de D. Francisco Manuel de Melo.

31
*Letras Symbolicas e Sibylinas, Obra de Recreaçam, e Utilidade, chea de
erudição sagrada, e profana, de notícias antigas, e modernas, Lisboa,
Francisco da Silva, 1747 [BPNM: 2-25-14-1]

Reuchlin, João (1455-1522)


Na polémica entre Reuchlin e os seus adversários há a salientar o
Angenspiegel (1511) e as Clarorum Virorum epistolae (1514 e 1519).
Considera que os textos herméticos e o pensamento greco-latino concordam
com os Testamentos Velho e Novo. Invoca a autoridade dos Padres da Igreja
e, nomeadamente, de Origenes e S. Jerónimo (cf. De Verbo Mirifico libri tres,
Basileia, 1494 e Colónia, 1532, que consta dos Índices de 1559 e 1561). A
influência de Pico de la Mirandola faz-se sentir, sobretudo, no livro II (Iiv r-Iv
v). No De Arte Cabalistica (Hagenau, 1517), dedicada a Leão X, tece o elogio
da cultura florentina estimulada pelo mecenato dos Médicis. O professor do
Colégio das Artes, Marcial de Gouveia, possuía um exemplar que lhe foi
confiscado pelo Santo Ofício (António Baião, "O processo desconhecido da
Inquisição contra o lente do Colégio das Artes, Mestre Marcial de Gouveia",
in Anais da Acad. Port. de Hist., v. 9 [1944], p. 30). Fernando Pessoa parece
ter conhecido esta obra (que figura nos Índices de 1559 e 1561), conforme se
infere das anotações constantes do documento Esp. 54 / 8A.

*De Cabbala, seu de symbolica receptione


in De Arcanis de Pedro Galatino, fl. 608 [BPNM: 1-49-9-9 (= Proibido)]

Ricciardi, António
*Commentaria symbolica in quibus explicantur arcana, Veneza, 1591
[BPNM: 1-54-3-12 / 13]
Sobre os Anjos e as línguas.

Silva, Matias Pereira da


*Noticia da Arte cabalistica [BPNM: 2-35-8-18]

Von Rosenroth, Knorr


Nobre alemão (barão) e um dos mais insignes expositores da Kabbalah em
seiscentos. Organizador de Kabbala denudata, seu Doctrina Hebraeorum
transcendentalis et metaphysica atque theologica (Salzbach, 1677-1678, 4
partes e Frankfurt, 1684, 4 partes, em 8 vols.) [BPNM: 2-49-4-8; 2-49-4-9; 2-
49-4-11 (2º); 2-49-4-12 (1º e 2º) (= Proíbido)].
Inclui: Clavis ad Kabalam antiquam, Liber Schaare Orah seu Porta Lucis,
Liber de Porta Coelorum (Porta dos Céus), de Abraão Cohen Ferreira ou Irira
(tomo 1, parte 3), Adumbratio Kabbalae Christianae (tomo 2), Apparatus in
librum Sohar, Compendium libri cabalistico-chymici Aesch Metzareph, dicti
de Lapide Philosophorum, etc. Trad. inglesa: Londres, 1714 (Amante de
Philalethes) e 1894 (ed. Westcott); francesa: Paris, 1895 (Henri Chateau);

32
espanhola, apenas o Aesch Metzareph (Barcelona, 1986) 1986), do qual
subsistem ms. no Wellcome Institute (Londres) [ms. 1737, 1763, 1764 e
2950], na Glasgow University Library [ms. Ferguson 68] e Orléans [ms.
1034]; na biblioteca de Fernando Pessoa existe a tradução inglesa de S. L.
MacGregor Mathers (Kabbalah Unveiled), que erroneamente considerou a
obra como parte integrante do Zohar.

2-49-4-8

33
ROSA CRUZ e TEOSOFIA

Se o movimento Rosa-Cruz, como as fontes disponíveis


reiteradamente admitem, teve origem na Alemanha durante o século
XVII (1614-1616), como justificar a ocorrência no Convento de Cristo,
já em 1535, dos símbolos que o ramo germânico havia de adoptar só
cerca de um século mais tarde?
Com efeito, o manifesto anónimo, intitulado Fama
Fraternitatis da Insigne Ordem da Rosa Cruz, só foi impresso em
Cassel no ano de 1614, seguindo-se-lhe a Confessio Fraternitatis, em
1615, e As Bodas místicas de Christian Rosenkreutz, no ano seguinte.
Resta, portanto, esclarecer a autoria e semântica do programa
arquitectónico e iconográfico da denominada Adega e anexos,
porventura da responsabilidade do arquitecto João de Castilho,
dispensado por Frei António de Lisboa decerto por motivos
doutrinais, mais do que por razões de ordem técnica e formal, como
tem sido apregoado pela historiografia de arte.
Uma coisa é indubitável: tais dependências, transformadas em
adega pelo Conde de Tomar (posteriormente à extinção de 1834),
haviam constituído um espaço vocacionado para a realização de
cerimónias iniciáticas, não apenas mercê dos ostensivos requisitos
cenográficos susceptíveis de permitir entendê-las enquanto tais, mas
porque os mesmos elementos formais seriam exorbitantes no
ambiente prosaico de uma adega.
Com efeito, a escadaria helicoidal de acesso, desvelada pelo
olhar de Hermes Trismegisto, é a primeira etapa do percurso do
candidato, o qual terminará a sua viagem simbólica num túmulo onde
será encerrado, para “morrer” e “renascer”, sob o signo do Amor
(abóbada sustentada por vieiras).
Na sua caminhada para a luz (sol radiante), descerá sete
degraus e será guiado por distintas aparições da rosa-cruz.

34
ROSA-CRUZ e TEOSOFIA

Fludd, Robert (1574-1637)


Manteve animadas controvérsias com Pierre Gassendi, o Padre Mersenne e
Kepler. D. Vicente Nogueira refere-lhe-se em duas cartas enviadas a D. Vasco
da Gama, embaixador de D. João IV: "[...] as obras de roberto aflud que aqui
se vendem a vinte e trinta escudos pude eu haver por dez, e inda menos: é de
meu parecer deve V. S. lançar de sy como os de Scoto e o mesmo lhe dissera
dos de S. Thomas [...]" (XXXIX, 22 de Novembro 1649) e "Perdoe Deus quem
aconselhou a V. S. que comprasse o Roberto de flud, autor meio feiticeiro e
mal acreditado, despesa tão desnecessaria como os concilios do Louvre, e
obras de Scotto que são obras para uma Livraria Regia como a do Escorial
[...]" (XLIX, 29 de Junho a 19 de Setembro 1650).
Apologias da Rosa-Cruz: Apologia Compendiaria, 1616 (Resposta ao ataque
de Libávio à Fraternidade Rosa-Cruz na Analysis Confessionis Fraternitatis
de Rosea Cruce, 1615); Tratactus apologeticus integritatum Societas de Rosa
Crucis defendens, Leyden, 1617; Philosophia sacra et vera Christiana seu
Meteorologia Cosmica, 1626; Summum Bonum quod est verum Magiae,
Cabalae, Alchymiae Verae, [Francoforte], 1629 (também atribuído a Joachim
Frizius. Defesa de Fludd contra Mersenne, tratando da "verdadeira Kabbala",
i. e., Bereschit e Mercabah, que é necessário distinguir da Kabbala
supersticiosa, denominada Guematria, Notarikon e Temurah); Integrum
Morborum Mysterium: sive Medicinae Catholicae tomi primi tractatus
secundus, Frankfurt, 1631 (Três partes em um volume [1629]-1631. Esta obra
representa o ponto culminante da disputa entre Fludd e Mersenne, o qual no
seu Quaestiones in Genesim (1623) havia defendido a teologia ortodoxa
contra “ateus e magos, deístas e outros que tais”, certamente pensando em
Fludd e atacando atomismo, hermetismo, cabala e as doutrinas sobre as
harmonias na Criação)

*Utriusque cosmi Maioris scilicet et Minoris Metaphysica, Physica atque


Technica Historia, Oppenheim, 1617-1618 [BPNM: 1-51-13-6 / 7 (= Proibido
por decreto de 4 de Fevereiro de 1627)]
História Metafísica, Física, Técnica dos mundos maior e menor, dividida em
2 tomos, atendendo à diferença entre ambos: I. História, Metafísica e
Física; II. Do Símio da Natureza: tentativa de ressuscitar a magia operativa e
cabalística tal como Ficino e Pico a haviam teorizado, fundada sobre as
relações entre macro e microcosmos e sobre a figura do homem mago
delineada pelo Corpus Hermeticum. Ignora deliberadamente os estudos

35
críticos de Isaac Casaubon acerca da datação pós-cristã dos tratados, a qual
constitui a definitiva demolição da teoria da 'pia filosofia' proposta por Ficino.
Publicada por John Bulwer, precursor da utilização da linguagem gestual
para comunicar com surdos-mudos. Os termos quiromânticos são ilustrados
com diagramas de espantosa modernidade, tal como o texto, de resto,
reimpresso por João Praetorius no Ludicrum chiromanticum [BPNM: 2-51-
4-16]

1-51-13-6

*Tomus secundus De Supernaturali, Naturali, Praeternaturali et


Contranaturali Microcosmi Historia, Oppenheim, 1619 [BPNM: 1-49-13-5]
Da História Sobrenatural, Natural, Prenatural e Antinatural do
Microcosmos. Em consequência desta obra, é atacado por Kepler nos
Harmonices Mundi (1619).
*Tomi secundi Tractatus Secundus De Praeternaturali Utriusque Mundi
Historia, Frankfurt, 1621 [BPNM: 1-49-13-5]

36
Da História Prenatural de ambos os Mundos. Inclui: "Discurso Teosófico,
Cabalístico e Fisiológico de ambos os Mundos"; Fasciculus Geomanticus, in
quo varia variorum opera Geomantia continentur, Verona, 1687 (Ver C. H.
Josten, Robert Fludd's Theory of Geomancy and his Experiences in Avignon
in the Winter of 1601 to 1602, in Journal of the Warburg and Courtauld
Institutes, 27, 1964, p. 327-335. P. V. Piobb editou o capítulo relativo à
Geomância do Tractatus Secundus De Naturae Simia [...], in Traité de
géomancie, Paris, 1947 [BUC])
*Responsum ad Hoplocrisma-Spongum M. Fosteri Presbiteri, ab ipso, ad
unguenti armarii validitatem delendam ordinantum / Resposta ao
Hoplocrisma-spongus, do presbítero W. Foster, composto por ele para
destruir a validade do unguento armarium, Londres, 1631 [BPNM: 2-49-13-
3 (encadernado junto com Clavis Philosophiae et Alchymiae Fluddanae, sive
Roberti Fluddi Armigeri, et Medicinae Doctoris, ad Epistolicam Petri
Gassendi Theologi Exercitationem Responsum, Frankfurt, 1633)]
*Clavis Philosophiae et Alchymiae Fluddanae, sive Roberti Fluddi Armigeri,
et Medicinae Doctoris, ad Epistolicam Petri Gassendi Theologi
Exercitationem Responsum, Frankfurt, 1633 [BPNM: 2-49-13-3 e 4] (= 2
exemplares)
Refutação definitiva de Mersenne e Gassendi. Tem encadernado junto:
Responsum ad Hoplocrisma-Spongum M. Fosteri Presbiteri, ab ipso, ad
unguenti armarii validitatem delendam ordinantum / Resposta ao
Hoplocrisma-spongus, do presbítero W. Foster, composto por ele para
destruir a validade do unguento armarium (Londres, 1631) e Philosophia
Moysaica. In qua Sapientia et Scientia creationis et creaturarum sacra
vereque Christiana (ut pote cuius basis sive Fundamentum est unicus ille
Lapis Angularis Iesus Christus) ad amussim et enucleate explicatur, Gouda,
1638
*Clavis Philosophiae et Alchymiae Fluddanae, sive Roberti Fluddi Armigeri,
et Medicinae Doctoris, ad Epistolicam Petri Gassendi Theologi
Exercitationem Responsum, Frankfurt, 1633 [BPNM: 2-49-13-3 e 4 = 2
exemplares]
Inclui: Responsum ad Hoplocrisma-Spongum M. Fosteri Presbiteri, ab ipso,
ad unguenti armarii validitatem delendam ordinantum, i. e., Resposta ao
Hoplocrisma-spongus, do presbítero William Foster, composto por ele para
destruir a validade do unguento armarium (Londres, 1631) [BPNM: 2-49-
13-4(3º)]
*Philosophia Moysaica. In qua Sapientia et Scientia creationis et
creaturarum sacra vereque Christiana (ut pote cuius basis sive
Fundamentum est unicus ille Lapis Angularis Iesus Christus) ad amussim et
enucleate explicatur, Gouda, 1638 [BPNM: 2-49-13-3(2º) e 2-49-13-4(2º)]
Consulte Kabbalah

37
Gebelin, Court de
Pastor da Igreja Reformada. Membro da Loja maçónica Philalethes,
colaborou com B. Franklin e, no fim da vida, com Mesmer.

*Le Monde Primitif, Analisé et Comparé avec le Monde Moderne, Paris,


1775-1788, 9 vols. [BPNM: 1-11-6-5 / 13]
Obra charneira entre o Hermetismo filosófico e o Ocultismo: I. Plano geral da
obra; II. História natural da palavra ou gramática universal e comparada; III.

38
Origem da língua e da escrita; IV. História civil, religiosa e alegórica do
calendário; V. Dicionário etimológico da língua francesa; VI. e VII. Dicionário
etimológico da língua Latina; VIII. Dissertações sobre diversos assuntos
respeitantes à História, Heráldica, Numária, Jogos, Viagens dos fenícios,
línguas americanas, etc.; IX. Dicionário etimológico da língua grega,
precedido de pesquisas e novas perspectivas sobre a origem dos gregos e da
sua língua. No v. VIII (p. 365-410) dá pela primeira vez, notícia do Tarot, cuja
invenção atribui a Hermes: “Du Jeu des Tarots, où l’on traite de son origine,
òu on explique ses allégories […]”.

Libavius, André
*Analysis confessionis fraternitates de rosea cruce pro admonitione et
instructione eorum [...], Francfurte, Pedro Knoffli, 1615 [BPNM: 2-51-13-11
(2º)]
Consulte Alquimia

Mynsicht, Hadrian a
Consulte Alquimia

39
Swendenborg, Emanuel (1688-1772)
Cientista, filósofo e místico, filho de um bispo luterano, a quem Balzac
chamou “Buda do Norte”. Doutor em Filosofia por Upsala, com 21 anos de
idade. Em 1716 foi nomeado assessor da Comissão de Minas pelo rei da
Suécia, Carlos XII. Antecipou muitos factos científicos, sendo notáveis as suas
ideias sobre o átomo, o magnetismo, a luz, a paleontologia e a
cristalografia.Trabalhou em Inglaterra com Newton. Entre 1743 e 1744, uma
sucessão de visões e sonhos fê-lo ficar convicto de ser dotado da capacidade
de contactar com os espíritos e anjos e haver sido eleito para uma missão
sagrada. A partir de 1747 renunciou a todos os cargos oficiais, passando a
dedicar-se exclusivamente à absorção mística e às viagens pelos mundos
invisíveis. Não aceita os dogmas da Trindade e da Redenção, advogando a
existência de uma única ordem de coisas sob aspectos diferenciados: um só
mundo sob duas formas, a terra reproduzindo o céu e vice-versa. A sua obra
originou a criação da Nova Igreja, tendo exercido enorme influência sobre
escritores e pensadores de todas as tendências. Foi precursor do espiritismo,
a que chamou pneumatologia. Em 1757 anunciou ter assistido ao Juízo Final.
Faleceu a 23 de Março de 1772, exactamente no dia em que previra que tal
ocorreria. Autor de vastíssima obra, da qual se destaca: Prodromus
Philosophiae Rationantes de Infinito et Causa Finali Creationis (1734) ;
Oeconomia Regni Animalis (1740-1741); Regnum Animalis (1744-1745); De
Culto et Amore Dei (1745); Arcana Coelestia (1749); De Caelo et Inferno
(1758) ; De Equo Albo (1758); De Nova Hierosolyma (1758); De Divina
Providentiae; De Ultimo Juditio (1758); Apocalypsis Revelata (Amesterdão,
1766); Delitiae Sapientiae (1768); Vera Christiana Religio (1771)

*Prodromus Principiorum Rerum Naturalium, 1734


[BPNM: 1-20-11-12 (= Proibido decreto 13 de Abril de 1730)]
*Opera Philosophica et Mineralia, 1734, 3 vols. [BPNM: 1-20-12-8 / 10] O
primeiro vol., dedicado aos Principia, expõe os seus pontos de vista sobre a
formação nebulosa do universo, teoria precursora da de Kant-Laplace;
*Principia Rerum Naturalium sive novorum tentaminum phaenomena
mundi elementaris philosophice explicandi cum figuris aeneis, Dresden e
Lipsia, Frederici Hekelli, 1734 [BPNM: 1-20-11-12 = Proibido decreto 13 de
Abril de 1730];
*Regnum Subterraneum, sive minerale de ferro: deque modisliquationum
ferri per Europam passim in usum receptis [...],Dresden e Lipsia, Friderici
Hekelli, 1734 1734 [BPNM: 1-20-11-13 (1º)];
*Regnum Subterraneum, sive minerale de vena et lapide ferri [...], Dresden e
Lipsia, Friderici Hekelli, 1734 [BPNM: 1-20-11-13 (2º)];
*Regnum Subterraneum, sive minerale de variis cum ferro et ejus victriolo
chymicis praeparatis et factis experimentis [...], Dresden e Lipsia, Friderici
Hekelli, 1734 [BPNM: 1-20-11-13 (3º)];

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*Regnum Subterraneum, sive minerale de cupro et orichalco, Dresden e
Lipsia, Friderici Hekelli, 1734 [BPNM: 1-20-11-14 (1º)];
*Regnum Subterraneum, sive minerale de cupro et orichalco chymicis
praeparatis [...], Dresden e Lipsia, Friderici Hekelli, 1734 [BPNM: 1-20-11-14
(3º)].

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