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ANTROPOLÍTICA

Nº 9 2º semestre 2000

ISSN 1414-7378
Antropolítica Niterói n. 9 p. 1-138 2. sem. 2000
© 2002 Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da UFF
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A636 Antropolítica : Revista Contemporânea de Antropologia e Ciência


Política. — n. 1 (2. sem. 95). — Niterói : EdUFF, 1995.
v. : il. ; 23 cm.
Semestral.
Publicação do Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política da
Universidade Federal Fluminense.
ISSN 1414-7378
1. Antropologia Social. 2. Ciência Política. I. Universidade Federal Fluminense.
Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Política.
CDD 300

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SUMÁRIO

ARTIGOS

DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO, CULTURAL E COMPLEXIDADE ... 7


ADELINO TORRES

THE FIELD TRAINING PROJECT: A PIONEER EXPERIMENT IN FIELD


WORK METHODS: EVERETT C. HUGHES, BUFORD H. JUNKER
AND RAYMOND GOLD‘S RE-INVENTION OF CHICAGO FIELD
STUDIES IN THE 1950‘S .................................................................. 25
DANIEL CEFAÏ

CRISTIANISMOS AMAZÔNICOS E LIBERDADE RELIGIOSA:


UMA ABORDAGEM HISTÓRICO-ANTROPOLÓGICA ....................... 77
RAYMUNDO HERALDO MAUÉS

PODER DE POLICÍA, COSTUMBRES LOCALES Y DERECHOS HUMANOS


EN BUENOS AIRES DE LOS 90 ...................................................... 101
SOFÍA TISCORNIA

A VISÃO DA MULHER NO IMAGINÁRIO PENTECOSTAL ................... 119


MARION AUBRÉE

RESENHA
REFLEXÕES ANTROPOLÓGICAS EM TÓPICOS FILOSÓFICOS ............ 135
ELIANE CANTARINO O’DWYER

DISSERTAÇÕES .................................................................................. 139


ARTIGOS
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DESENVOLVIMENTO ECONÓMICO, CULTURA


E COMPLEXIDADE*
ADELINO TORRES**

Se o “desenvolvimento” é um fenómeno de ordem económica social


e cultural em todas as suas vertentes, o “económico” ocupa, no
entanto, um papel fundamental no tratamento deste conceito, quer
ao nível interno dos países quer no plano internacional. Mas as
escolas do pensamento divergem na sua abordagem e tentativa de
solução.
A dificuldade em encontrar respostas é particularmente evidente se
confrontamos o “económico” com o conceito mais abrangente de
“cultura”. Esse confronto é agravado na medida em que se insere
num contexto de “complexidade”, a qual dificulta a obtenção de
critérios de demarcação que distingam de maneira satisfatória entre
o que é “científico” e o que é “não científico”.
Este artigo defende que, em economia, a tendência neoclássica,
baseada no pressuposto do “individualismo metodológico” e na cren-
ça quase exclusiva nos mecanismos de mercado, não apresenta res-
postas satisfatórias no tratamento da problemática do desenvolvi-
mento e, menos ainda, na sua correlação com cultura. Em
contrapartida, a tendência dita “heterodoxa”, tomada no sentido
interdisciplinar, e apesar das dificuldades que encontra ao nível
epistemológico, parece adequar-se melhor à diversidade das situa-
ções. O exemplo africano aqui evocado é o terreno desse confronto
entre concepções de cientificidade, as quais traduzem também,
directa ou indirectamente, escolhas políticas.
Palavras-chave: Neoclassico; heterodoxia; complexidade; indivi-
dualismo metodológico; desenvolvimento; cultura; África; intelec-
tuais africanos; integração regional; União Africana;
Panafricanismo; incerteza.

*Foi mantida a grafia original do português de Portugal.


* * Professor de Economia na Universidade Técnica de Lisboa (UTL). Membro do CEDIN-Centro de Estu-
dos de Economia Europeia e Internacional. Director de Episteme-revista multidisciplinar da UTL (Lisboa)

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A inter-relação entre dois conceitos – “de- os planos da vida social ou da natureza.
senvolvimento” e “cultura” – exige neces- Tanto mais que, nesta era da
sariamente uma abordagem inter- “globalização”, as descobertas científicas e
disciplinar a qual é, por definição, limita- inovações tecnológicas das últimas déca-
da pela especialidade ou visão do inter- das especializaram profundamente os sa-
veniente e pelo contexto de “complexi- beres, compartimentando-os e pondo-os
dade” em que tal relação se insere.1 fora do alcance do cidadão não “especia-
lista” que está a perder o controlo da sua
Do ponto de vista da economia propria- apreensão contextualizada. A próxima
mente dita a apreensão do tema também revolução tecnológica, a das bio-
não é linear, quer porque encerra várias tecnologias, irá agravar consideravelmen-
problemáticas quer porque está condicio- te esta complexificação,2 em particular quan-
nada pela “escola de pensamento” a que o to ao divórcio entre o cívico e o tecno-ci-
autor pertence ou pela teoria do conheci- entífico que anuncia novos perigos de
mento em que a sua formação, opções e cientismo, incluindo no âmbito do movi-
prática profissional se inscrevem. Pode ain- mento democrático pois, como observa
da dizer-se que a perspectiva é radicalmen- Edgar Morin (2000, p. 126), “quanto mais
te diferente se a questão é encarada do a política se torna técnica, mais a compe-
ângulo da economia clássica, ortodoxa tência democrática regride”, o que come-
(neoclássica) ou heterodoxa (grosso modo: ça a verificar-se, tudo indicando que o re-
interdisciplinar). E dentro de cada uma de- gime democrático está a transformar-se
las, segundo as tónicas, divergências ou num “regime de peritos”, criando uma
rupturas que as distinguem. nova fractura social entre a “nova classe”
de peritos e os cidadãos. O mesmo pro-
Esta exposição tem, pois, fronteiras incer- cesso, que já está em marcha “no acesso às
tas. Direi, no entanto, para maior clareza, novas tecnologias de comunicação entre
que se adopta aqui uma orientação hete- países ricos e países pobres”, vai redobrar
rodoxa cujas fontes teóricas estão mais de intensidade com a nova revolução
próximas de autores como Albert tecnológica das biotecnologias que se afir-
Hirschman ou Amartya Sen, ou ainda, no ma rapidamente.3
plano filosófico, de Karl Popper, para só
citar estes, do que de autores do mainstream Todavia, é de crer que a economia “orto-
académico que, em economia, parecem doxa” estará mal preparada para abordar
acalentar ambições de cientificidade sobre a interdisciplinaridade. A aplicação
cujo alcance, em termos culturais, há for- mecanicista de raciocínios económicos (e dos
tes dúvidas. respectivos modelos matematizados) às
mais diversas questões sociais (e.g. Gary
A razão desta escolha vem igualmente do Becker) reduz, em geral, o método cientí-
pressuposto segundo o qual, hoje mais do fico a uma função de resolução de micro
que nunca, nenhuma disciplina pode, por enigmas (“puzzles”) mas que falha no
si só, apreender a complexidade em todos objectivo fundamental da ciência que é de

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equacionar problemas ou, para utilizar as Quanto ao recurso à quantificação ou, mais
palavras de K. Popper, de passar de “pro- precisamente, aos modelos e linguagem
blemas velhos a problemas novos”. das matemáticas, não se trata, bem enten-
dido, de contestar a importância destas e
Edgar Morin (2000, p. 43), escreve, refe- de outros meios técnico-científicos que se
rindo-se à economia neoclássica, que ela admite serem ferramentas importantes na
análise teórica e empírica. É sem dúvida
é a ciência social matematicamente verdade, como escreveu Ernst Cassirer
mais avançada, (mas é ao mesmo tem- (1991, p. 81), que as ideias da matemática
po) a ciência socialmente e humana- permitiram lançar uma ponte entre o in-
mente mais atrasada, porque se abs- teligível e o sensivel, “o que não tinham po-
trai das condições sociais, históricas, dido fazer nem a ciência nem a filosofia
políticas, psicológicas, ecológicas, antigas”5 e que elas desempenharão no fu-
inseparáveis das actividades turo um papel nevrálgico para o conheci-
económicas. mento. Relembra-se que a revolução cien-
tífica do século XVII transformou a mate-
Atrever-me-ia a acrescentar que este “atra- mática num instrumento essencial para
so” – no que se refere à tendência em cau- agir sobre a natureza e fazer-nos compre-
sa e não a todas as vertentes da economia ender as estruturas do real, substituindo a
– se agravou em relação à grande tradição analogia mecânica pela analogia matemá-
clássica.4 Um dos seus fundamentos é o tica através de uma modelização que re-
“individualismo metodológico” que reenvia à nuncia à imagem unificada da natureza
imagem do indivíduo instituindo racional- (ISRAEL, 1996). Dito de outro modo, a
mente a sociedade e preconizando uma questão não está na matemática em si, mas
liberdade conforme ao mundo moderno no processo de subordinação/redução de
des-sacralizado. Fazendo desaparecer qual- todas as ciências (incluindo as ciências so-
quer outro valor para além do Eu, esse ciais e humanas) aos seus axiomas e mo-
individualismo assimila a liberdade à in- delos de verificabilidade. Parafraseando D.
dependência do sujeito. Contraditoria- Terré, nesse processo as problemáticas são
mente porém, essa liberdade desen- dissolvidas num sistema de deduções
carnada e per se, fruto do individualismo abstractas pelas quais o modelo, tomando
metodológico, anula a possibilidade do uma autonomia indevida, se destaca pro-
sujeito pensar a sua própria autonomia se gressivamente do seu domínio de objectos.
não dispuser das condições mínimas de
subsistência e de justiça (RAWLS, 1993). No que concerne a “cultura” – o termo “cul-
O “individualismo metodológico” privado tura” é aqui utilizado sem grande preocupação
do contexto social é, desde logo, um con- de rigor, mas apenas num sentido lato, resul-
ceito auto-reflexivo e metafísico. Legítimo tando da conjugação de múltiplos aspectos da
sem dúvida, mas cientificamente actividade social, política, económica, etc., ou
“infalsificável” no sentido popperiano, seja, societal – observa-se que é no campo
explicando tudo e por consequência nada. da antropologia que este conceito tem tido

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o mais largo uso segundo a definição de fluente nas políticas de desenvolvimento
E.B. Tylor em 1871, para quem a cultura aplicadas depois das independências e que,
era “um todo complexo, que inclui os co- pelos vistos, continua a ser nuclear no pen-
nhecimentos, as crenças, a arte, a moral, o samento africano. Se, na óptica das estra-
direito, os costumes e todas as outras ca- tégias de desenvolvimento concebidas nos
pacidades e hábitos adquiridos pelo ho- países do Norte, a “especificidade” das cul-
mem enquanto membro da sociedade”. R. turas como vector explicativo fundamen-
Linton considera-a em 1940 como “a soma tal do desenvolvimento já não se coloca
de conhecimentos, atitudes e dos modelos hoje com a mesma intensidade, ou é sim-
habituais de comportamentos que os mem- plesmente ignorada em benefício de um
bros de uma sociedade particular têm em certo “universalismo” conceptual, nos pa-
comum e transmitem”. Do mesmo modo íses do Sul a ideia permanece viva.
M.J. Herskovits (1949) escreve que “a cul-
tura é essa parte do meio que é feita pelo Como interpretar essa diferença?
homem”. 6 Nestas acepções a cultura
engloba a economia e, com ela, os proces- É insuficiente limitar-se a catalogar a preo-
sos inerentes ao “desenvolvimento cupação africana como uma forma de
económico” propriamente dito tal como o “provincialismo” ou uma retórica de cir-
concebemos modernamente, quer dizer cunstância. Existem de facto “especifi-
muito mais abrangente e integrado do que cidades”, mas isso nada tem de excepcio-
o conceito tradicional de “crescimento nal em relação a outras regiões do mun-
económico” em vigor nos anos posterio- do, incluindo no Norte. A questão é saber
res à Segunda Guerra Mundial. se elas são ou não impeditivas do que se
convencionou chamar modernidade, e, em
No âmbito africano actual o conceito de caso de conclusão negativa, quais são as
cultura continua a ser alvo de controvér- suas potencialidades e limites. O que pres-
sias na medida em que a sua carga política supõe pelo menos uma “desconstrução”
(e psicológica) é mais intensa em nações das utopias que caracterizaram as déca-
ainda pouco seguras de si. O filósofo das pós-independência. Ora, essa análise
Emevwo Baikolo (Botswana) argumenta- ainda está, no essencial, por fazer e são
va que a base da construção da África “em poucos os autores africanos que, sem ce-
termos de distinções entre selvagem/civi- der às facilidades do discurso “ter-
lizado, pré-lógico/lógico, oral/escrito, má- ceiromundista”, encetaram um rigoroso
gico/científico não passa de uma conven- trabalho de crítica das políticas internas se-
ção etnocêntrica europeia”(BAIKOLO, guidas desde então.7
1998), o que questiona o sentido do con-
ceito de cultura (ou de construções cultu- Steve Biko (1998b), autor sul-africano fa-
rais) no debate que sobre esta matéria se lecido em 1977, dizia que “um dos aspec-
faz em África. Temática que arrasta consi- tos fundamentais da nossa cultura (africa-
go a ideia da “especificidade cultural” do na) é a importância que atribuímos ao ho-
continente, a qual exerceu um papel in- mem. A nossa sociedade foi sempre

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centrada no homem” (BIKO, 1998b, p. A “identidade social” resultaria de um
26), optimismo de raiz senghoriana que modo de vida partilhado pelos membros
continua a ser firmemente partilhado por da comunidade durante um longo perío-
muitos intelectuais africanos contemporâ- do de tempo, formando um todo cultural
neos. integrado onde os indivíduos mantêm
uma relação dialógica que proporciona (e
Mesmo sem pretender discutir esta deriva de) um ambiente interactivo no qual
asserção cujo rigor epistemológico levan- as identidades são actualizadas.
ta diversos problemas (de que “cultura” se
fala? Que resulta do conceito quando co- A “identidade política” exprimir-se-ia nas
locado na intersecção do “político”, do formas características de organização
“económico” e do “psicológico”? Como se institucional, as quais conduzem por diver-
revelam nesse conceito, demasiado vasto, sos meios ao exercício do poder político e,
as assimetrias inevitáveis? etc.), não deixa por via deste meio privilegiado de ascen-
de ser surpreendente que essa concepção são, à conquista do poder económico.
ontológica8 se mantenha inalterável de-
pois do holocausto do Rwanda. Em termos ideais a “identidade política”
deveria reflectir a “identidade social” co-
A tese de um humanismo africano, distin- munitária ou, pelo menos, ser influencia-
to do resto da humanidade, afigura-se da por normas e práticas costumeiras de
pouco consistente. O humanismo existe, sistemas de valores tradicionais.
mas não se vê claramente em que é que
ele é singular no plano filosófico.9 Aliás é Todavia, a relação de (inter)dependência
bem difícil encontrar réstia desse entre a “identidade social” e a “identida-
humanismo “centrado no homem” no tra- de política” resiste dificilmente aos
tamento que tantos Estados africanos – seja condicionalismos de uma “modernidade”
qual for a sua orientação política – têm sis- mal definida, veiculada por um sistema
tematicamente infligido às populações económico mundial de mercado.10
nestes últimos quarenta anos
(BALANDIER, 1999; JEWSIEWICKI, A violência da ruptura é tanto maior quan-
1999). to mais acentuado for o hiato entre o mo-
delo que se pretende implantar a nível
A explicação talvez possa ser procurada, nacional e a falta de recursos institucionais
em parte pelo menos, no desfasamento a ele adequados (qualificação dos homens,
entre o social e o político. Esta hipótese organização administrativa e política, “sen-
postula a existência de uma espécie de tido de Estado”, know how técnico etc.).
corte epistemológico entre a “identidade
social comunitária” e a “identidade políti- Desde logo, se a máquina administrativa e
ca comunitária”. económica não funciona, ela não pode
gerar riqueza senão por meios irregulares
ou ilícitos. Estes últimos, em particular,

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nomeadamente nas esferas de decisão, só de não ter havido ainda uma reflexão crí-
estão ao alcance dos que têm poder políti- tica suficientemente elaborada pelas enti-
co para recorrer a eles com relativa impu- dades africanas – políticos ou intelectuais
nidade. Esta circularidade engendra a – sobre a sua própria actuação política,
corrupção e o inevitável nepotismo, con- económica e social durante os quarenta
sumando a ruptura entre a “identidade anos de independência. Por outras pala-
política” de grupos minoritários e a “iden- vras não se assistiu até agora a uma
tidade social” da maioria da população. desconstrução rigorosa das utopias que ca-
Para os primeiros os “valores tradicionais” racterizaram esse período.
tornam-se tão somente figuras de retórica
sem outra utilidade que não seja precisa- É certo que pouco se pode esperar de uma
mente de manter o poder, o qual preserva classe política – com as devidas excepções
e alimenta, por seu turno, o circuito de entre as quais sobressaem Léopold
reprodução artificial das “elites”. Senghor ou Nelson Mandela – cujas ca-
racterísticas são, segundo a expressão de
Num outro plano, é insuficiente acusar a Georges Balandier (1994, p. 15), as de um
“globalização” e o seu pretendido efeito “totalitarismo tropical”.
“dissolvente” (aculturação, declínio de
identidade das nações, etc.) ao mesmo tempo Mas se os intelectuais africanos pretendem,
que se perde de vista que a mesma como é seu direito (e dever), reivindicar a
“globalização” tem um efeito reactivo que condição de intelectuais, então devem as-
destaca – por vezes violentamente – os sumir a postura ética que ela pressupõe.
particularismos locais de ordem religiosa, Caucionar, com complacência, retóricas de
étnica, política, ou outra. desculpabilização que relegam sistemati-
camente no “outro” as causas de erros pró-
Nos dois casos os efeitos de tais fenómenos prios, não parece ser compatível com o
podem ser positivos ou negativos confor- estatuto de independência e a preocupa-
me as circunstâncias em que eclodem bem ção de rigor e verdade que deveriam jus-
como a sua intensidade, objectivos ou tamente caracterizar o seu “ofício”. É que,
consequências – revelando portanto que dizia Jeanne Hersch (1999, p. 31), “se es-
a univocidade da análise apenas mitifica ou, quece frequentemente que o sentido do
se se quiser, esvazia de sentido o conceito verdadeiro é ele mesmo moral. É o que
de “globalização”. explica porque é que a raiz da ciência – e
também da nossa ciência moderna – é
Sem ignorar a pertinência do assunto, moral por essência”. Para merecer esse
creio não obstante que o verdadeiro pro- “estatuto” (sem dúvida modesto, mas exi-
blema se situa a um outro nível. gente) eles deveriam combater as certezas
doutrinárias, dogmáticas e intolerantes,
A meu ver, os impasses do debate sobre a que têm gerado as piores ilusões e obriga-
crise africana residem mormente no facto do a razão a regredir em delírios que se
mascaram com a razão histórica, não caucio-

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nando pelo silêncio ou cumplicidade activa Com este brevíssimo artigo pretendo ape-
gravíssimas situações que os desqualificam nas assinalar, para fixar ideias, a periodi-
e reduzem a bem pouca coisa o seu cidade de ciclos e não debater as teorias
humanismo e até a sua humanidade. No que lhes serviam de fundamento, o que
entanto, é justo assinalar várias vozes que exigiria um outro trabalho. Creio que im-
nos chegam da África profunda ou do exí- porta sobretudo saber, no contexto que a
lio, que desempenham já esse papel com África atravessa, quais são as perspectivas
rigor e não sem coragem, como, por exem- de desenvolvimento dos países africanos e
plo, Axelle Kabou (1991), Célestin Monga de que modo esse “desenvolvimento” se
(1994), Daniel Etounga Manguelle (1993), pode correlacionar com a “cultura”.
V. Y. Mudimbe (1988) ou de escritores
como Ahmadou Kourouma (2000), sem Os países africanos defrontam actualmente
falar de nomes mais conhecidos entre os grandes dificuldades e o seu futuro ime-
quais o de Samir Amin.11 diato e a médio prazo afigura-se seriamen-
te comprometido. Esta situação agudiza-
O “desenvolvimento” é o segundo concei- se com o desinteresse crescente do mun-
to abordado pelo tema proposto. É eviden- do ocidental, nomeadamente da Europa,
te que ele não tem apenas a ver com os pelos destinos africanos como está paten-
países ditos “em desenvolvimento”, mas te na diminuição da ajuda pública ao de-
com todas as regiões do mundo (incluin- senvolvimento entre outras. Os sinais de
do a Europa), ainda que estas estejam em alarme avolumam-se de facto: dívida ex-
estádios diferentes e enfrentem problemas terna praticamente não reembolsável, que-
distintos. da do investimento directo estrangeiro,
falência técnica dos Estados, má
A seguir à Segunda Guerra Mundial jul- governação, guerras civis, falta de
gou-se, durante um momento, que o sim- integração dos mercados regionais e até
ples crescimento económico resolveria os nacionais, ausência de democracia inter-
problemas dos países subdesenvolvidos na etc. Para dar apenas dois exemplos, a
conforme as teorias em torno da acumu- parte da África no total dos fluxos líqui-
lação e dos modelos keynesianos de dos de capitais destinados aos países em
Harrod e Domar. desenvolvimento não parou de decrescer
desde os anos 80, passando de 27% em
Aquando das independências, nos anos 60, 1980 a 17% em 1990 e atingindo menos
a controvérsia assumiu um conteúdo mais de 8% em 1996. Sem contar que a reparti-
político com as teorias terceiro-mundistas ção desses investimentos no continente é
que reproduziam no terreno as tensões da muito desigual: só a Nigéria obtém 44%
Guerra Fria. A queda do muro de Berlim do total dos investimentos estrangeiros
em 1989 veio, em certo sentido, clarificar entrados em África. Em matéria de comér-
ambiguidades e pôr um termo a retóricas cio internacional a situação não é melhor.
há muito sem conteúdo. Entre 1953 e 1998 a parte da África nas
exportações mundiais passou de 6,5% a

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2,0% e a sua parte nas importações mun- não residem exclusivamente nem numa
diais de 7,0% a 2,4% (RAPPORT, 2000). qualquer pretensa incapacidade “natural”
da África, nem tão pouco numa espécie de
As instituições internacionais – na primei- “teoria da conspiração” internacional tão
ra fila das quais o FMI e o Banco Mundial frequentemente evocada por certos polí-
– propõem soluções que, se atendermos ticos africanos. Sem me alongar, direi ape-
aos resultados obtidos até agora, não se nas que as responsabilidades, quer inter-
mostraram as mais adequadas. Conjunta- nas quer externas, não podem ser
mente com a Organização Mundial do escamoteadas, recordando que se estabe-
Comércio (OMC) e a OCDE limitam-se lecermos uma comparação entre o proces-
(simplificando bastante) a propor o esta- so africano e a evolução de muitos países
belecimento de regras de mercado segun- asiáticos durante as quatro últimas déca-
do a óptica neoliberal já defendida no sé- das, com base em níveis de desenvolvimen-
culo XIX, que, no essencial, passa pela to comparáveis nos anos 60, esta revela
aplicação de rígidos “programas de ajus- justamente que uma análise unilateral das
tamento estrutural”, cuja unilateralidade coisas (a “culpabilização” do ocidente como
o então vice-presidente do Banco Mundial sendo o único responsável da crise africa-
(Joseph Stiglitz) censurou com alguma na) é amplamente insuficiente. Do mesmo
veemência (SIGLITZ, 1998, 2000; modo, o facto de cada um dos países afri-
ASSIDON, 1998). A verdade é que em canos contar apenas com um ou dois pro-
cerca de dez anos de aplicação, desde o dutos de exportação (cacau na Costa do
célebre relatório Berg de 1981, tais pro- Marfim, cobre na Zâmbia etc.) como úni-
gramas não se revelaram conformes às co meio de auferir receitas, ao mesmo tem-
expectativas criadas por aquelas institui- po que esses produtos estão submetidos às
ções. flutuações aleatórias de bolsas internacio-
nais sobre as quais os países do Sul não
Apesar da acumulação de riqueza sem pre- têm a menor influência, comprova que as
cedentes que teve lugar na economia mun- causas externas são igualmente um pode-
dial durante a última década, o desnível roso condicionante do desenvolvimento
de desenvolvimento entre os países do desses países seja qual for o seu comporta-
Norte e os do Sul – em especial africanos – mento em matéria de política económica.
é hoje maior do que nunca, como é visível
nas estatísticas internacionais e nos relató- Numa palavra, é na conjugação dos dois
rios do PNUD. A maioria das populações vectores que poderemos encontrar respos-
dos países do Sul, em especial os povos tas, embora julgue que os factores inter-
africanos, mergulha num circuito plane- nos, constantemente negligenciados pelas
tário de miséria (MORIN, 2000). autoridades africanas, 12 têm quiçá um
peso maior do que se admite geralmente.
As razões desse fracasso têm, porém, de
ser analisadas com alguma cautela quan- Não obstante, importa menos averiguar
do se procuram “responsabilidades”. Elas “quem é responsável pelo quê?”, do que

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saber se as estratégias de “desenvolvimen- cado, mesmo se o mercado é um elemen-
to” devem ser ou não articuladas com o to fundamental do sistema.
parâmetro “cultura”.
O desenvolvimento, concebido de manei-
Se a resposta for negativa, nesse caso o ra exclusivamente técnico-económica, é, a
“desenvolvimento” será encarado exclusi- prazo, insustentável, como é ilusório o
vamente como um processo de equilíbrios “fordismo periférico” que dele decorre.
macroeconómicos, à semelhança das ve- Como nota Edgar Morin (2000), é preciso
lhas teorias do “crescimento” dos anos 50, encontrar um significado mais rico do de-
continuando a dar livre curso a uma visão senvolvimento, que não seja somente ma-
tecnocrática e tecno-científica tal como é terial mas também intelectual, afectivo,
aplicada pelo Consenso de Washington e ali- moral. Para muitos autores o caminho
mentada pela crença que a economia é trilhado até aqui pelo desenvolvimento
uma ciência positiva. A recusa em assumir criou mais problemas do que aqueles que
a Economia como uma ciência normativa resolveu!
resulta da posição dominante de uma teo-
ria que se explica antes de mais pela iden- É de crer que temos elementos suficientes
tificação do “ideal-tipo” neoclássico com o para julgar a primeira alternativa. A lógi-
do imaginário moderno (INSEL, 1994), ca dos “programas de ajustamento estru-
“ideal-tipo” que se limita a esboçar em fim tural” sob a égide do FMI e do Banco
de contas uma sociedade a-histórica. Na Mundial,13 parece ter comprovado em ter-
verdade esta escolha conduz inevitavel- mos sociais, culturais e mesmo estritamente
mente a um impasse, na medida em que a económicos, a sua relativa ineficiência.
tomada em conta do processo de transfor-
mação na longa duração (já que o tempo Se, por outro lado, a resposta for positiva
típico do desenvolvimento é a longa du- (à questão de saber se as estratégias de
ração) obrigaria, pelo contrário, a integrar desenvolvimento devem ser ou não arti-
o tempo histórico e heterogéneo das ciên- culadas com o parâmetro cultura), como
cias sociais. E esse tempo histórico não é inserir esse factor num processo de desen-
de modo algum redutível ao tempo volvimento que concilie de maneira rea-
homogéneo e probabilista dos modelos- lista os interesses de mercado com os inte-
padrão (HUGON, 1991). resses colectivos?

O tempo do desenvolvimento é, ao invés, Procurar responder à questão sairia do


o tempo da emergência das organizações âmbito desta exposição. É no entanto pos-
e da complexificação das relações, e supõe sível destacar alguns aspectos que pode-
descontinuidades estruturais, dinâmicas rão ajudar a uma entrada na matéria.
de enquadramento e formas de regulação
cuja necessidade não se compadece com a O primeiro leva a concluir que o desen-
auto-suficiência dos automatismos de mer- volvimento não é um processo tecnocrático,

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16
segundo uma perspectiva positivista e des- cio de uma concepção mítica do mercado,
critiva, mas antes de mais político. não sejam igualmente irrealistas. O que é
necessário, em especial em África, não é o
Basta relembrar que, apesar de tudo, o enfraquecimento do Estado, e menos ain-
intercâmbio entre a África e o resto do da o seu desaparecimento, mas a sua re-
mundo deu origem, durante estes anos, a organização e prestígio.
apreciáveis fluxos de capitais nos dois sen-
tidos, e a ajuda ao desenvolvimento – in- Isso depende da formação e qualidade dos
cluindo doações, empréstimos e investi- homens, já que o Estado não é uma enti-
mentos, bem como o contributo dos Acor- dade abstracta. O que é preciso recusar é
dos de Lomé –, se declinou, não deixa no um Estado hobbesiano tentacular e absur-
entanto de ser apreciável. Se o desenvol- do que, quando sem controlo, se transfor-
vimento resultasse apenas de uma simples ma rapidamente, como já se viu, num ins-
aritmética de capitais, da transposição de trumento de delírio patológico, de opres-
modelos e de ocasiões de investimento, os são e de abusos.
países africanos estariam hoje, provavel-
mente, num estádio de desenvolvimento Contrariamente a certos pessimismos (e
menos dramático, ou mesmo aceitável. afro-pessimismos) em voga, a democracia
Sabemos que isso não aconteceu. Sem ti- é possível numa África onde existem tra-
rar importância aos factores económicos e dições e práticas antigas, como historiado-
financeiros, é óbvio que muitos outros in- res e antropólogos nos ensinam. Há pois
gredientes são indispensáveis para haver lugar para um Estado democrático com
desenvolvimento. regras de ética14 e tolerância, cuja conso-
lidação é tanto mais urgente quanto cres-
A questão do regime democrático é outro ce o nível de exigência das populações em
problema de fundo que reflecte a quali- contacto com o exterior através dos meios
dade e eficiência do desenvolvimento. Não de comunicação modernos.15
se está a falar da transposição mecanista
de formas de organização ocidental, mas Por outro lado, parece lógico defender que
da adaptação às condições e tradições lo- os alicerces do desenvolvimento deverão
cais, de regras simples como as de trans- ser a educação (prioritariamente o ensino
parência, rotatividade nos cargos, tolerân- básico e profissional) e a saúde (cuidados
cia e livre crítica, nas quais o elemento de primários antes de mais), sem os quais
formação cívica é fulcral. Refiro-me como nenhuma construção durará. É certo que
é evidente a uma situação de paz, condi- os recursos são escassos. Contudo não se
ção sine qua non de tudo o resto. trata de os consagrar por inteiro a esses
sectores, mas tão somente reforçá-los sig-
O papel do Estado deverá ser profunda- nificativamente, em contraste com a situa-
mente diferente do que foi durante anos. ção de abandono a que têm sido votados
Isso não quer dizer que as ideologias que pelos governos ou negligenciados pelos
pretendem a sua “liquidação” em benefí- programas de ajustamento estrutural de

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17
curto prazo. Aliás, muitas acções poderiam Acrescente-se ainda que a abertura
ser levadas a cabo sem acréscimo signifi- económica não deixa de apresentar inú-
cativo de despesas, se houvesse vontade meros perigos – sobretudo nos países em
política e imaginação criativa para tal. O desenvolvimento mais pobres – que não
desenvolvimento não é apenas uma ques- podem ser passados em silêncio. Ela im-
tão de recursos financeiros. plica reestruturações dispendiosas e acar-
reta inúmeros efeitos perversos18 (destrui-
A regionalização em espaços inter-nacio- ção de empregos, agravamento de desi-
nais é igualmente um capítulo de actuação gualdades, sobre-exploração dos recursos
indispensável para a maioria dos países naturais etc.), que introduzem riscos acres-
africanos. A sua realização justifica-se por cidos de desequilíbrio em economias e so-
razões económicas evidentes – alargamen- ciedades já muito fragilizadas.
to dos mercados, complementaridade de
produções etc. – mas é fortemente rele- Estas reservas aplicam-se com maior pro-
vante no plano político como transição priedade ainda à liberalização financeira.
para o espaço económico e político mun- Estudos recentes demonstram que “a pre-
dial. sunção largamente partilhada antes de
1997, segundo a qual a liberalização finan-
Enfim, parece também evidente que a es- ceira é invariavelmente benéfica, já foi
tratégia de desenvolvimento autocentrado, agora abandonada por quase todos os
que consistia em manter uma economia comentadores sérios”, escrevem John
afastada dos circuitos comerciais interna- Eatwell e Lance Taylor. Estes autores
cionais – estratégia de substituição de im- acrescentam que a liberalização, tanto no
portações, por exemplo – constituiu um longo prazo como à luz da crise financei-
fracasso tanto em África como na América ra recorrente nos últimos trinta anos, tem
Latina.16 provocado rupturas periódicas nas econo-
mias desenvolvidas e em desenvolvimen-
A abertura comercial que lhe sucedeu, so- to. E se a “liberalização internacional trou-
bretudo a partir dos anos 80, recolhe hoje xe alguns benefícios, estes ficam en-
a adesão da maioria dos países do Sul.17 sombrados pelos custos que acarretam”.
Numa palavra, “os mercados liberais só são
A solução de abertura é preferível ao iso- eficientes se forem eficientemente regula-
lamento proteccionista, mas também não dos” (EATWELL; TAYLOR, 2000, p. ix).
se deve perder de vista que ela é mais um
catalizador do que um verdadeiro motor Para enfrentar estas dificuldades os Esta-
do desenvolvimento (RAPPORT..., 2000, dos africanos procuram vários tipos de
p. 67), já que – simplificando um pouco – respostas.
os resultados positivos dependem mais da
diversificação da produção interna do que Umas que podemos classificar, de manei-
da abertura em si. ra um pouco simplificada, de cariz essen-
cialmente económico, como é o caso do re-

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18
cente acordo de Cotonou assinado entre res olha esta nova União Africana com
os países ACP (África, Caraíbas e Pacífico) cepticismo por duas ordens de razões prin-
e a União Europeia, o qual aponta, entre cipais.
outros objectivos, para reformas internas,
acento tónico posto nos mecanismos de Em primeiro lugar, a iniciativa dá a im-
mercado, cooperação intra-africana e pressão de pretender construir o edifício
integração regional. É certo que a sua di- começando pelo telhado. Criou-se no pa-
mensão não pretende atingir uma “uni- pel uma arquitectura institucional, inspi-
dade à escala continental” e é circunscrita rada no modelo europeu, que inclui des-
nas metas a alcançar. Apesar de tudo, ou de já: presidente, comissários, parlamen-
por isso mesmo, é realista e talvez to, tribunal de justiça, banco central afri-
exequível. Mas esta via será lenta e por cano e, a prazo, estabelecerá uma “moeda
etapas, do âmbito sub-regional ao regio- única”.
nal e, eventualmente, deste ao continen-
tal. Se pensarmos que a Europa levou meio
século a percorrer a tormentosa via sacra
Outra tentativa de solução é de índole mais da Comunidade Económica do Carvão e
ideológica, simbolizada na recente criação do Aço (CECA) à União Europeia (UE),
(em 2 de março de 2001), sob a égide do tudo indica que o voluntarismo do coro-
coronel Kadhafi, da Líbia, da nova União nel Kadhafi não tem futuro. Sem contar
Africana que substituirá a velha Organiza- que as acções agora anunciadas provocam
ção de Unidade Africana (OUA). também alguma incomodidade em espíri-
tos pouco crédulos, na medida em que a
Tal como anteriormente no caso da OUA, pretendida funcionalidade imediata de
as dificuldades dessa “unidade política” – instituições e cargos já previstos, é, à pri-
nova versão do panafricanismo que a meira vista, menos óbvia do que o seu
União Africana pretende implementar – presumível resultado: distribuição de sine-
residem sobretudo nos intentos políticos curas aos fiéis.
de cada Estado, na metodologia adoptada
e no calendário de execução de objectivos Em segundo lugar, esta iniciativa, promo-
que se revelaram bem mais problemáticos vida pelos petrodólares líbios, só poderia
do que se pensava em 1963 quando sur- dar a Kadahfi um ascendente político, real
giu a OUA. ou aparente, sobre a África Subsaariana
(ASS), o que é um objectivo ambíguo de
Mas se esta ideia da “unidade africana” é destino incerto, tanto mais que, mesmo
compreensível, tudo indica que ela é igual- admitindo a hipótese (remota) da consoli-
mente prematura como a experiência o dação do seu papel de líder africano in-
demonstra, nada apontando para que sur- fluente e credível, a reconversão “demo-
jam daí as verdadeiras soluções. O seu con- crática” que lhe é exigida e que ele apa-
teúdo é marcadamente voluntarista e ideo- rentemente assume é pouco convincente.
lógico, pelo que a maioria dos observado- Sem ir mais longe, o apoio que tem dado

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a um “político” reconhecidamente culpa- económicas viáveis; de instituir regimes
do de genocídio como Charles Taylor realmente democráticos; de pôr fim à
(Libéria), eloquentemente denunciado, prepotência de políticos cuja carreira é
entre outros, pelo notável escritor da Cos- inteiramente “devotada ao culto da medio-
ta do Marfim, Ahmadou Kourouma cridade” (MANGUELLE, 1993), precisa-
(2000), é suficiente para tirar conclusões. mente os mesmos a que outro africano,
Béchir Ben Yahmed, fundador da revista
Enfim, este empreendimento líbio, que Jeune Afrique, se referiu duramente quan-
conta com o beneplácito de 44 países que do disse em 1976 que os principais “sub-
assinaram o acto constitutivo da UA (só 21 desenvolvidos não são os povos, são os di-
o ratificaram), suscita talvez uma outra rigentes”.
interrogação em forma elíptica: que supre-
macia pode ter sobre a ASS um país (ou As soluções para o desenvolvimento não
um dirigente) da África do Norte, se tiver- são, como já se disse, exclusivamente
mos presente uma História de conquistas económicas. O camaronês Etounga
e abusos mal conhecida mas cujas “lem- Manguelle (op. cit.), que é, aliás, economista
branças” estão longe de se limitar à rela- de formação, defende, com fortes argu-
ção unívoca Europa-África? Não falemos mentos, que elas são de índole essencial-
sequer dos massacres de pessoas originá- mente cultural (no sentido largo do termo),
rias da África Negra (do Chade, do Sudão, convicção que compartilho. Seja como for
e da África ocidental) que tiveram lugar estamos perante uma problemática “de
na própria Líbia ainda há poucas sema- complexidade”, no dizer de Edgar Morin
nas. (2000), cujas dificuldades são de tal ordem
que a sua abordagem requer uma humil-
É evidente que a África (ou mais precisa- dade, pragmatismo e rigor intelectual que
mente: os Estados africanos) tem tarefas não se compadecem nem com “modelos”
bem mais urgentes e imediatas do que fre- ilusórios nem com “leis” deterministas.
quentar cimeiras ou criar instituições que
as perpetuem. Em conclusão, o desenvolvimento, na
acepção ampla da sua articulação com a
As utopias são legítimas e, a seu tempo, até cultura, é um processo repleto de incerte-
necessárias. Mas só depois de acabar com zas e interrogações.
os “senhores da guerra” e os conflitos que
eles mesquinha e criminosamente geram; A realidade não é unidimensional e o con-
de salvar da morte mais de dez milhões ceito de “desenvolvimento” não pode ser
de refugiados e deslocados em toda a Áfri- enclausurado no económico stricto sensu e
ca; de recuperar milhões de crianças que menos ainda no ideológico.
perderam a sua infância; de expulsar das
suas terras a mafia europeia e médio-ori- A postura tecnocrática de um cientismo que
ental que lhes rouba diamantes e lhes suga apenas encara um ponto de vista, que só
o sangue; de levar à prática políticas aborda as causas materiais e que só acre-

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dita num “desenvolvimento” ilimitado à apreender os problemas fundamentais e
maneira de Rostow, esquece que essa pers- globais (MORIN; NAÏR, 1997, p. 114).
pectiva é apenas fruto da nossa civilização
de hiper-especialização dos conhecimen- A análise do desenvolvimento é inseparável
tos, de degradação concomitante da cul- do contexto societal em que este se projecta,
tura geral e, afinal, de perda de aptidão a ou seja da cultura onde a acção mergulha
as suas raízes.

NOTAS
1
Uma primeira versão deste texto foi inicialmente 7
Entre os quais a camaronesa Axelle Kabou (1991)
apresentada sob forma de comunicação no Semi- e mais recentemente o ganês George B.N. Ayittey
nário “Cultura do Desenvolvimento, Cultura e (1999). Não me refiro aos numerosos autores eu-
Desenvolvimento, Desenvolvimento da Cultura”, ropeus ou norte-americanos.
organizado pela Fundação Luso-Americana para
o Desenvolvimento (FLAD) em Lisboa, outubro
8
A filosofia africana contemporânea levanta no en-
de 2000. O artigo agora apresentado sofreu alte- tanto problemas importantes que têm suscitado
rações e acréscimos em relação à redacção origi- vivos debates. Ver por exemplo Gbadegesin e
nal. igualmente Masolo (1999) e Bidima (1995).
2
Uma das hipóteses da tese de doutoramento em
9
Ver eventualmente: Martiniello (1995); Amselle et
Economia de Luís Centeno (em preparação, Lis- M’Bokolo (1999); Amselle (1999); Taylor (1992).
boa). E também: Venâncio (1999).
3
Cf. Edgar Morin (2000, p. 126).
10
Na visão tecno-económica a “sociedade tradicio-
nal” passa a ser vista como um obstáculo à
4
Por exemplo em relação a autores como Adam modernidade que urge eliminar. Essa concepção
Smith, mal lido e pior compreendido, Malthus, tecnocrática e preconceituosa da “tradição” é, se
Sismondi etc., ou mesmo em relação a certos levada ao extremo, um factor de “aculturação”
“neoclássicos” como Alfred Marshal ou Léon ou melhor de “destruturação” cultural com
Walras se se ler atentamente as principais obras e consequências irreparáveis, como K. Popper
não apenas certas passagens, frequentemente ti- (1972) justamente assinalou.
radas do seu contexto. Por exemplo, no caso des-
te último, o único livro praticamente citado é o
11
A obra de Samir Amin é por demais conhecida
seu Elementos de Economia Política Pura (teoria da para ser necessário referi-la aqui. Indica-se ape-
riqueza social), ignorando-se que ele faz parte de nas que este autor publicará dois artigos inéditos
um tríptico constituído igualmente pelo Estudos em português no próximo número da revista
de Economia Social (teoria da repartição) e pelo Episteme-revista multidisciplinar da Universidade Téc-
Estudos de Economia Política Aplicada (teoria da pro- nica de Lisboa, Lisboa (nº 7-8, primavera de 2001,
dução), obras que o próprio autor considerava previsto para maio-junho de 2001. Informações
complementares e mesmo inseparáveis. em www.utl.pt/episteme)
5
Ernst Cassirer, Logique des sciences de la culture, Pa-
12
Basta pensar no Plano de Acção de Lagos, elabora-
ris, Cerf, 1991, p. 81. do em 1980 pelos chefes de Estado e de Governo
africanos que, embora excelentemente concebi-
6
Cf. Paul Mercier (1968, p. 906). A definição de do, não era acompanhado de nenhuma regula-
Edward-Burnett Tylor é igualmente referida mentação que pudesse levar os seus belos princí-
numa obra recente e bem informada de António pios a uma aplicação prática mínima e que, por
Teixeira Fernandes (1999, p. 13), que desenvolve isso e por falta de vontade política, ficou esqueci-
esta questão. do desde então. Relembra-se ainda que só em

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1985, muito depois da publicação do Relatório como problematização dos fins e respectiva su-
Berg do Banco Mundial, que daria origem (ain- bordinação das normas a esses fins.
da que me maneira enviesada) aos futuros “Pla-
nos de Ajustamento Estrutural”, o governos afri-
15
A opinião pública em África é muito mais infor-
canos reconheceram timidamente haver “algu- mada do que se julga na Europa e os meios de
ma” responsabilidade própria nas dificuldades comunicações mais modernos divulgam-se no
económicas e sociais atravessadas pelo continen- continente. O lançamento há algum tempo de um
te. satélite de comunicações africano está a dar um
impulso a este sector.
13
O economista Zaki Laïdi escreve que o Banco
Mundial “quer submeter o Terceiro Mundo às
16
Deixa-se de lado as múltiplas razões desse fracas-
regras do mercado acreditando duro como ferro so que não têm a ver apenas com o referido “afas-
que a história e a geografia contam menos no tamento”, mas não é possível desenvolver aqui tal
destino dos países e dos povos do que as suas es- problemática.
colhas económicas. O liberalismo do Banco arvo- 17
Uma outra análise mostraria facilmente que a
ra a bandeira do menos Estado, da integração no prática está longe de ter sido sempre fiel ao dis-
mercado mundial e de uma nova partilha entre o curso.
poder político e a riqueza económica” (LAÏDI,
1989, p. ).
18
A questão dos “efeitos perversos” tem sido objecto
de análises filosóficas estimulantes por parte de
14
Não me refiro apenas a uma ética de senso co- vários economistas. Relembra-se apenas Albert O.
mum, nem a uma ética como “ciências dos fac- Hirschman (1991); F. Hayek (1995), et André
tos”, no dizer de Schlick (2000), mas a uma ética Gosslin (1998).

ABSTRACT
If the development is a economic, social and cultural phenomenon,
the “economic” take up nevertheless a major role in the analysis of
this concept, either at the countries internal level or at the
international level. But the schools of thinking differ in the ways
of approaching this problem and finding solutions for it.
The difficulty in having answers is particularly clear when we
bring into relation the “economic” with the wider concept of
“culture”. This difficulty become deeper when it is inserted in a
context of “complexity” in which is not easy to have demarcation
criterions in order to discern between “scientific” and “not
scientific”.
This article asserts that, in Economics, the neo-classical tendency,
based on the presupposition of the “methodological
individualism” and on the almost exclusive belief upon the market
mechanisms, do not give satisfactory answers in the study of
development problems and still less about its correlation with culture.
In counterpart, the so called “heterodoxy” tendency, in its
interdisciplinary meaning, notwithstanding the obstacles at the
epistemological level, seems more suited to the dissimilarity of
situations. The African example studied in this paper is the ground
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22
of this confrontation between scientific interpretations, which also
translate, directly or indirectly, politic choices.
Keywords: Neo-classical; heterodoxy; complexity; methodological
individualism; development; culture; Africa; the intellectuals of
Africa; regional integration; Africa Union; Panafricanism;
incertitude.

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25

THE FIELD TRAINING PROJECT: A PIONEER


EXPERIMENT IN FIELDWORK METHODS:
EVERETT C. HUGHES, BUFORD H. JUNKER
AND RAYMOND GOLD’S RE-INVENTION
OF CHICAGO FIELD STUDIES IN THE 1950’S1
DANIEL CEFAÏ*

In this paper, the author aims to show the “methodological


revolution” wich took place in the 1950s at the Department of
Sociology, University of Chicago. The Field Training Project (FTP)
was a collective experiment where social scientists, students and
researchers, came to discuss the problems of fieldworking they day
to day practice and to elucidate the specificity of participant
observation and in depth-interview. Based on empirical data found
in the archives of the Special Colletions of the Joseph Regenstein
Libary, UoC, the paper gives much information on the historical
context of the FTP. It restitutes what people intended by fieldworking
among Everett Hughes’ students in sociology of professions, W.
Lloyd Warner team investigators in community studies and in the
Disasters research team of the National Opinion Research Center.
It studies the institutional background and personal contributions
of its participants – the central characters of the story being E. C.
Hughes, Buford H. Junker and Raymond Gold. It also details the
methodological and substantive topics debated during the 1952
Spring Seminar. The FTP framed many of the questions that the
“qualitive sociology” turn in the 1960s later took in charge.
Keywords: University of Chicago; fieldwork; participant
observation.

* Assistant Professor at University of Paris X, Researcher at the Centre Universitaire de Recherches


Administratives et Politiques (CURAPP) and at the Centre d’Étude des Mouvements Sociaux (CEMS-
EHESS, Paris)[cefai@ehess.fr].

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The Field Training Project (FTP) In the Special Collections of the
is a collective experiment that was done in Joseph Regenstein Library, I have found
the Department of Sociology at the a series of documents that make possible
University of Chicago in 1951-52. Why is to understand how the FTP unrolled:
it worth digging up such an enterprise, in accounts of the students, asking about their
which just a few professors, instructors and problems of methods; transcripts of
students, were involved? The rationale backstage conferences, displaying the
doesn’t lie in a fetishism of the history of organizers’ discussions; proceedings of the
social sciences in Chicago, but the meetings, summarized week after week. In
consideration of the very importance of the following text, I want to describe the
this seminar. It casts a new light on field kind of debates that took place in the
studies, differing slightly from what used framework of the FTP, and show how
to be done at Chicago in the “golden age” many elements were built through these
of the 20’s. It thematized the topic of intense and passionate exchanges of ideas.
participant observation, the use of which The FTP is a crucial moment of the history
was hitherto sporadic and undefined. The of fieldwork, which has been almost
Field Training Project (FTP) was the forgotten. It bears witness to the vitality of
moment of invention of an interactionist the Department of Sociology at UoC, and
methodology in fieldwork in sociology and to the links which were still alive at this
of an articulation of most of the questions time with the legacy of the 20’s; it attests
one still finds today in fieldwork manuals. to how much fieldwork methodology was
It was devised by Everett Charrington grounded in field practices, in a context
Hughes; it was organized by Buford where E. C. Hughes and W. L. Warner
Helmoltz Junker,2 a close collaborator of were training cohorts of students. It shows
William Lloyd Warner’s, since his first that many of the approaches adopted by
project at Harvard University on contemporary field methodologists were
Newburyport, alias Yankee City, and by the already in germ at the beginning of the
young Ph.D candidate Raymond Gold,3 50’s – about twenty years before the
who wrote an outstanding dissertation, expansion of a legitimate qualitative
Toward a Social Interaction Methodology for sociology. It gives a snapshot of the
Sociological Field Observation (1954). This inception of the problematization of
dissertation stands as the necessary fieldwork operations by social scientists.4
counterpoint to the unpublished Cases on
Fieldwork (1952) and to B.Junker’s
published Fieldwork (1960). Last, the FTP
included Marianne Rigsbey, who held the
office of secretary, and Dorothy Kittel, who
helped to gather documentation as a
bibliographer.

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1 FIRST STEPS: THE NEED FOR A SPECIFIC FIELD


TRAINING PROJECT

1952 is paradoxically a pivotal date critiquing variable analysis in course 399,


in the history of the department: E. W. Methodology and Logic of Social Research,
Burgess and William F. Ogburn retire, between 1941 and 1951, and in the Ph.D
Louis Wirth dies in 1951 and Herbert seminar 402, from 1944 to 1951. In the
Blumer leaves to Berkeley, point of sociology of work and occupations, course
departure of the reception of Chicago 346, Human Problems in Industrial
sociology in California (Fine, 1995). Far Organization, is given by William Foote
from being dedicated to fieldwork, the cli- Whyte and Burleigh Gardner in 1945 and
ché of the Chicago mythology, the 1946, by W. F. Whyte in 1947 and 1948,
department goes through a serious crisis, by B. Junker in 1949 and 1950; course 348,
and will hire young scholars (P. Blau, P. Sociology of the Professions, inaugurated by
Rossi…) from Columbia University to T. Parsons, visiting professor in 1937,
revitalize it (ABBOTT; GAZIANO, 1995). becomes partially a field seminar with E.
The golden era of the 20’s is over and far Hughes. E. Hughes takes care of course
ago. Teaching fieldwork to social scientists 450, Seminar on Methods of Studying
is nevertheless not exceptional at UoC in Institutions, in 1947 and of the Seminar in
the 1930’s and the 1940’s. L. Wirth, E. Occupations and Professions (431), from 1948
Faris, H. Blumer or E. Hughes keep on to 1951 – the nursery of many future
transmitting with loyalty the human scholars in the area. W. F. Whyte in 1948
ecology and social psychology of the 20’s. and B. Junker and D. Roy in 1949-50 take
And the post-war era is a moment of up the Seminar in Human Relations in
flourishing of field studies. The course 202, Industry (446). At the border of sociology
Introduction to Field Studies, is created by E. and anthropology, E. Burgess’s course 461,
C. Hughes in 1943. Save for 1948, when Local Community Studies, 1925 through
he is in Frankfurt, he team-teaches it (with 1936, is substituted by W. L. Warner’s
E. Burgess, Joseph Lohman and W. L. course 329, Methods of Study of the Modern
Warner in 1944, with J. Lohmann in 1945 Community, 1935 through 1947; R.
and with Donald Roy in 1950). H. Becker Redfield is in charge of course 363, Methods
takes it over in 1952. Course 467, Field in Cultural Anthropology, from 1943 to 1952,
Studies, created by Park and Burgess, is replaced in 1946 by W. L. Warner. In
pursued by Burgess and Wirth from 1932 deviance studies, Clifford Shaw is assistant-
to 1939; course 401, Methods of Social professor and teaches course 380, Field
Research, done by R.E. Park till 1930, with Studies in Delinquency, from 1935 to 1942,
E. W. Burgess in 1931, is extended by L. preceded by Edwin Sutherland’s course
Wirth in 1932 and 1939 and by H. Blumer 465, Field Studies in Criminology, in 1932-
from 1933 to 1937. H. Blumer keeps on 34, and followed by J. Lohmann’s course

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440, Case Studies in Racial and Cultural of Autumn 1951 on SOC. 202, R. Gold
Tension, in 1947- 48 and course 384, The complains that the students are very
Slum Community, in 1949-50. The Chicago unprepared when they out into the field:
legacy is carried on in the 40’s and the 50’s, they have too many inhibitions to “invade
going through hybrid stages with W. L. the privacy” of the residents, and they do
Warner’s and, more briefly, the W. F. not pinpoint the sociological relevance of
Whyte’s field experiences and experiments. what they see. This short report is
E. C. Hughes, W. L. Warner and R. interesting because some of the notions R.
Redfield are the most influential field Gold will apply in his comprehension of
trainers of an entire generation of the post- the meaning of fieldwork are being tested
war students. there for the first time. He gives an account
of Ethel Horowitz’s ingenuity in regard
Through the syllabus of one of with what he found “sociologically
these courses, Field Methods in Sociology insightful and meaningful” in her report.
(S OC . 202: 1943-1950), we know the The students are very unequal in their
requirements imposed on the students. competences as “natural observers”. Thus,
Each student, or pair of them, were asked some of them “have a certain knack of
to undertake fieldwork in one census tract quickly sizing up people and situations”
in Chicago – in the same way as Park and and systematic training could enable them
Burgess’s students in the twenties. Most of to become “sophisticated sociologists”.
the census tracts assigned to them were Many others are of the type of “textbook
located between 43rd and 59th street, with observers”: they short-circuit their
the greatest concentration of studies contextualized experiences and activities
between Halsted Street and the Lake and project their theoretical and
Shore (43rd down to 55th). The students had methodological readings in the field.
to provide: a description of the tract, based Usually, they are too obsessed with their
on observation, conversation and census role of fieldworker to be able to interact
data; one or more family genealogies of meaningfully with concrete persons and
residents of the tract; one or more situations, to be sensitive and reflexive with
descriptions of house interiors and the others and with theirselves in situ.
furnishings (using a schedule sheet); a “Being self- and other-conscious” in
report on a public meeting and/or on interaction with strangers, while paying
leading institutions and associations in the attention to the ongoing process of
community (PTA meetings, Boy Scout collecting and probing data, is not an easy
troops, Church services, Community thing. Yet, this ability of being two track-
centers – meetings of small cliques or minded, at doing things and at reflecting
families at Thanksgiving); four or five them, without being neither a naïve actor,
interviews in the tract; and a final report nor a methodological theorist, is a specific
summarizing the material collected, feature of interviewing or observing in the
evaluating the field work and suggesting field. The most striking problem is that the
prospective research problems. In a report students take for granted the small

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ecological niches they live in, and are not suspicion of the family he works on, again
able to deal with the work of translating and again, and also of the neighbors he
back and forth the others’s worlds and had interviewed. He ends by being picked
languages in their own structures of up by the police, paying for this error of
relevance: they are more often procedure (CONVERSATION..., 1952b).
“ethnocentric” than “ethnosensitive”. The field is a “sink or swim situation”. The
They are not interested enough in other students of SOC. 202 have the sentiment
ways of life and universes of discourse to of being “thrown to the wolves” of South
try to understand them. They lack the Chicago (April 2, 1952). A few tricks and
“‘dying to find out what happened’ rules of thumb would help them to better
attitude”, they are not of the curious type. master “tough situations”. In a
conversation (1952a, p. 3) between Ray
Others have a “photographic Gold, Bud Junker, Bob Bain and Nick
mind”: they grasp one or two things at a Hoffman (the two latter involved in the
time, but have the greatest difficulty in Visking project), R. Gold remarks that SOC.
broadening the horizon of their actual 202 turns to be “a series of one-shot
perceptions, to locate their sometimes very interviews, which take place in a one-shot
good factual descriptions in configurations course, because this isn’t part of any really
of social relations, and to include them into developmental sequence leading to a
interpretive frameworks. For instance, good, institutionalized, professional role as
they describe with much accuracy elements field observer. This is just a course, a dirty
of the “scenery”, but do not pay attention work course”. “There is a pressing need
to the people living there, to the way they for a field training program which aims
interact with one another and cope with for the development by the students of a
their environmental constraints. Some professional attitude toward themselves
others hide behind their survey schedules. and the social world. The problems of a
They avoid the risks inherent to the mandate to enter a stranger’s home and
“troubles and misgivings” of live question him, of role consciousness and the
communication. Others focus on one dual role, of ethno-sensitivity, and of va-
community organization they elect as a gue and/or unacceptable rules of the game
“base home” or a safe shelter, instead of would not be so difficult to master if the
“venturing forth in the cold, dark interior students were in the process of
of the tract”. A few students, being incorporating a good institutional role:
ashamed of asking for genealogies, make that of a professional field observer”.
up stories and pretend that they are
professionals working on a general survey This report by R. Gold intends to
on families in Chicago – R. Gold (1951) be a rationale for the FTP. A Committee
calls this attitude the “dual role”. But they on Field Training Project (Ford
get caught in contradictions between their Foundation Social Sciences), is appointed
student and professional roles: one of by R. M. Tyler. E. C. Hughes as Chairman,
them (Peter Chadwick) provokes the Fred Eggan, Howard Hunt and W. L.

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Warner meet on February 19, 1952. The they want to do without being able to say
axis of the project is the writing of a FTP what they want. Their free discussion
Manual, containing: a) documents for sounds like an attempt to list available
instructors; b) documents for students resources. E. Hughes had studied with
learning field observation; c) annotated R.E. Park, with whom he completed his
bibliography on field observation. It Ph.D on the Real Estate Board institution
should be analogous to the Harvard Case in 1928, and had left for McGill University,
Book on Human Relations in Industry Montreal (until 1937), where he did his
(February 18, 1952: 2.3 – I could not fieldwork in Drummondville in Québec.
identify this manual, maybe A Human Back in Chicago, he published French
Relations Casebook for Executives and Canada in Transition (1943), and from 1943
Supervisors, by Frances and Charles Drake). on, he ruled SOC. 202. B. Junker had at
Other contacts are taken by B. Junker, hand the stock of knowledge gained with
through W. L. Warner, with Mozell C. Hill, W. L. Warner’s Yankee City and E. Mayo’s
Atlanta University, Georgia, regarding an Hawthorne Plant teams, at the Harvard
Interviewer’s Manual used for a survey Graduate School of Business Administration,
(Oct.-Dec. 1951), and with Burleigh and from many other field studies he did
Gardner, who had prepaired a paper on later on; R. Gold was just done with his
interviewing for the Committee on Masters dissertation on flat janitors (1950),
Human Relations. M. Rigsbey is charged and came to be so enthusiastic with the
with the responsibility of carrying through FTP that he eventually changed his Ph.D
an inventory of the SOC. 202 students subject to work specifically on field
reports prior to 1951 – task that will not methods. The resources that came to their
be very fruitful, due to the impossibility to mind during these collective sessions of
collect most of them. Last, the Committee brain storming are linked with their
recommends collaborations of the FTP personal acquaintances and first-hand
with Clyde H. Hart, director of the experience. Among the persons they de-
National Opinion Research Center cide to contact and interview (meeting
(NORC), about the Disasters research (see Friday, February 18, 1952), one finds
further), and Charles Nelson (1949) at the Howard Becker, who had finished his
Industrial Relations Center (IRC), about fieldworkon jazz musicians (1949) and
the Visking research on a local industrial public school teachers (1952), and was now
plant. investigating on drug addicts, and Joseph
Lohman, at this time involved with ex-
ECH, BHJ, RG and MR meet on convicts released to serve in armed forces
February 1, 1952. They try to define a during the war. Among the problems
common objective and a schedule for the arising from fieldwork, they mention the
forthcoming seminar of Spring quarter. case of Agnes Miner, Horace Miner’s wife,
Actually, they do not know yet what kind who became so much identified with the
of problems they are going to observe, people of the parish of St Denis (1939),
being in a situation of anticipation of what that “she could hardly bear to let her

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husband report on them”. The problem Soskin, Michigan); interviewing
was “talked out” in meetings in Montreal procedures (Tom Gordon and Don
with E. C. Hughes and R. Redfield, and Grummon). But nothing about field
this work of counselling was instrumental research in the open. However, the project
in bringing the project to a successful of designing experimental situations to
conclusion. R. Gold talks of Dick Lewis’ learn fieldwork sounds quite original. B.
difficulties, who is so overwhelmed by his Junker keeps on consulting scholars, as
ten to 12 hours of daily activities as a shown by a listing of people to meet, out
janitor, that he has no time left to do mere of the FTP and the NORC teams (memo
observation: he has become a “janitor as October 17, 1951). Among them, Martin
observer”, in a sort of “action-research” Loeb, research coordinator and executive
where participation overpowers director of the Cooperative Community
observation (B. Junker and R. Gold have Research Project (probably the
not framed yet the categories of complete cooperation between the Kansas City,
participant and participant-as-observer). Missouri, Community studies program
and the Committee on Human
B. Junker outlines a distinction. Development, UoC, led by R. Havighurst,
between three kinds of field observation: for which Hughes, Warner, and Riesman,
the “getting into the community” type, the among others, were consultants, and
polling interviewing type and the study of which was the catalyst for, through E. C.
decision-making in business organizations Hughes, the Boys in White inquiry on the
type (February 18, 1951, p. 7). It seems medical school); Robert J. Havighurst,
that the specificity of fieldwork, which Elliott Chapple and Allison Davis, who
requires a long period of personal were close to W. L. Warner and constituted
involvement and of participant his loyal guard; David Riesman, who will
observation, is not yet well delineated. take part in a few FTP seminars; Bernard
Moreover, an indication of the newness of Rosenthal, from the Department of
the project is given by the transcript of an Psychology; Samuel C. Kincheloe, Albert
interview that B. Junker did with H. Hunt J. Reiss, Ethel Shanas, Harold Taxel,
on October 10, 1951. Three models come Margaret Blau, Leo Goodman, Don
to H. Hunt’s mind: experimental training Horton, Edward Banfield and Henri
situations in group dynamics (Herb Mendras; last, people from the American
Thelen); studies in role-playing (Bill Anthropological Association and from the
Society for Applied Anthropology.

At this stage of inception of the FTP,


the protagonists seem to proceed
tentatively, breaking new paths with no
certitude of being on the right track.

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2 BASIC PERPLEXITIES: A GENERATION OF FIELDWORKING


STUDENTS

What they are sure of is that most The papers edited in G. A. Fine’s A Second
of the social scientists of the ASA remain Chicago School ? (1995) give many clues on
“observers-through-the-one-way-screen” or race and ethnicity studies; show the
“peep-hole observer”, as E. Hughes and B. reformulation of the problem of deviance,
Junker used to call them. They do not go which will generate a huge literature in the
in the open “get (the seat of) their pants 60’s; mention the renewal of community
dirty” (PARK, 1928). But at the end of the studies, with the prominent works of
40’s and in the 50’s, a group of Chicago Erving Goffman in the Shetland Islands
students conduct field studies. Among the (1953) and Herbert Gans among the
most famous are Fred Davis on cab drivers, Levittowners (1963, 1967); and analyze
Howard Becker on dance musicians the various applications of the Parkian and
(1949), Enrico Quarantelli on dental Blumerian theoretical matrix of collective
students (1959), or Robert Habenstein on behavior. Other field studies worthy of
funeral directors (1954). Another series of mention are: Gladys and Kurt Lang on
works, with a thematic unity, are defended video politics, who do their pilot study on
by H. Becker (1949), H. McDowell, H. E. the McArthur event (1953); Tamotsu
Amerman, J. A. Winget: all of them are Shibutani on rumors in Japanese
involved in the Chicago Public Schools project, relocation camps after 1941 (1948); Hylan
supervised by E. Hughes and L. Wirth. G. Lewis on the social life of Black people
Another research pole, sponsored by the in a Southern town (1951); John Carver
Industrial Relations Center (Wilensky, Moore Scott on the process of acculturation of the
and Blumer), gathers Jack London (1952), Wrangell Tlingit in Alaska (1953); Paule
Bernard Karsh (1955) – and Joel Seidman: Verdet on inter-ethnic problems between
they focus on labor unions, strategies of French and English-speaking members of
contention and negotiation, and forms of a Catholic parish (1959); Fred Davis on
leadership and solidarity among workers. families which cope with polio of one of
Melville Dalton (1949), Edward Gross their members (1958); Helena Lopata on
(1949), Donald Roy (1952) – and Orvis the functions of voluntary associations in
Floyd Collins – do their dissertation in the the Polish district (1954); Morris Schwartz
Committee on Human Relations in Industry, to on social interactions in a mental hospital
which W. F. Whyte is connected from 1944 (1951); Joseph Gusfield on the Women
to 1948: they are interested in the infor- Christian Temperance Union (1954);
mal organization of management relations, Harold MacDowell on osteopaths and on
power conflicts and practical habilities, and the Metropolitan school system (1954);
studying the consequences of the Dan C. Lortie on anesthesiologists and on
application of systems of wage incentives. young lawyers careers (1958); Jean

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Jammes, a French worker-priest, on able to deal with interviewing schedules
mistakes of the clergy (1954); and Harold and statistical operations, and they used
Finestone on the meaning of “kicks” and to crisscross these methods with
“hustle” for drug users (1957). documentary analysis in their dissertation
and research projects. These methods
A sign of the lure of participant were not perceived as antithetical, nor in
observation for a fraction of the conflict. But the kind of questions the
Department of Sociology students: their students of the seminar SOC. 407 ask, in
bulletin of information is called The March-April 1952, opened new horizons.
Participant Observer.5 Many of them will be The documents on the FTP give evidence
the authors of the “methodological of the range of preoccupations the
revolution” that gave birth to “qualitative contemporary researchers had, when
sociology” in the 60’s. But the shaping of confronted with field training, and show
a new repertoire of arguments on methods the degree of sophistication of the
dates from the 50’s. Everybody remembers questions that emerged from students’
W. F. Whyte’s “appendix” to Street Corner field experiences.
Society (1955), H. Becker and Blanche
Geer’s papers “participant Observation Let us list a few of them, following
and Interviewing” (1957) and “inference the accounts the students gave to E. C.
and Proof ” (1958), or E. C. Hughes, Hughes and B. H. Junker (SOC 407,
Becker, Geer and Strauss’s Boys in White 1952). Their fields are diverse: religious
(1961). These works, as well as the sects, the Catholic church, trade unions,
numerous papers published in the the company managers, mental hospitals, and
American Journal of Sociology and in Human dental clinics. Their questions are directly
Organization, would not have been possible linked with their pragmatic commitment
without the experiments done at the to field situations. What kind of role one
Department of Sociology of UoC at the should adopt in a religious sect ? How to
turn of the 40’s to the 50’s. UoC was the anticipate the “implications and
epicentrum of a “discipline-quake”: complications” it is going to generate ?
fieldwork became there a distinctive and How to cope with the series of “crisis
legitimate way of investigating in social situations” which arise from disjunctures
sciences, in a process of continuity and with the setting ? Is the learning process
rupture with case-studies of the first through becoming a member the most
generation of the 20’s. J. Platt is certainly adequate ? How to maintain a balance
right when she writes that one should not between being too involved and going
retroject the perspective taken on these native and being too critical and spoiling
topics since the 60’s back onto the 20’s and the field ? And how to avoid the feeling of
the 50’s (PLATT, 1995). There was no being non ethical, in the role of the spy of
fetishism of fieldwork among the students, of the traitor ? How to preserve one’s
and they remained a minority in the private life out of the potential effects of
department. Moreover, most of them were the fieldwork ? How to “break off with the

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group gracefully and without ill-will ?” in reporting procedures and contents
observing and reporting such between the agricultural implement
undertakings, the line between what is manufacturing plant that contacted the
personal and what is scientific, what is Committee on Human Development at
private and what is public is not always UoC, the hospital goods manufacturing
clearcut (D. Saltzman). plant which was chosen by the CHD, and
the three Midwestern retail department
How to describe the experience of stores where the question of the
receiving the Holy Ghost or being sponsoring had no initial relevance?
sanctified , which cannot be observed, not (CALERO, 1956).
taught either, but only seen through the
insiders’ accounts: “it’s like fire”, “sure, How to deal with the position of
anyone can shake”? One solution would employee of a mental hospital, which
be “to have one of these college students opens some vistas for investigation and
turn sociologist”, and translate in close others – like getting information from
ethnographic language his or her spirit nurses and doctors in a crisis situation ?
experiences. Another question is “how far Does this occupational role limit too much
to go in doing the group or individuals the scope of the inquiry, and is the balan-
favors or in getting services from them ?” ce between advantages and disadvantages
– like organizing a trip for younger group positive ? Another problem is how to
members to the Oriental Institute, writing control the processes of transference with
a memorandum on juvenile delinquency the subjects ? There is certainly empathy
for the sponsor’s sermon, providing with the patients, but no “identification
information on conscentious objection, reward”. Is it possible to assess the
doing tests for out of state church school distortions of communication and
and finding contacts with people who can comprehension which come from
get a new floor for the nursery (CASSIDY, interaction (non-)transferences ? (TAXEL,
1959). 1953).

How to assure the businessmen “Should notes be taken during


who participate in the gray steel market interview when no schedule is used, even
that their cooperation to the fieldwork is though interview is being recorded”? How
harmless and innocuous, that they will to stay tuned on the other members of a
remain anonymous, and that it is worth team in the field ? How to maintain
playing the game because the importance contacts and confidence with the top
of the study ? What kind of positive management of a company and down the
retribution can they hope to get? line of it ? (W. Ducey) “To what extent do
(KRIESBERG, 1953). How does the interviews reflect skills of the researchers
sponsoring situations affect the rationale and to what extent variations in
of the research for the industrial respondents’ willingness and ability to
management ? What differences in answer?”. Even when disguising names of

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places and people, some of them are still with the management, the affective
recognizeable by readers close to the attachment to her machine on the setting,
setting: how to avoid this lack of the hatred against the “management
confidentiality? (GOLDSTEIN, 1954). people in clean clothes” who stand around,
How to deal with one’s feelings in certains the claim for norms and values in certain
situations: e.g. “I was first intimidated, situations and not in others; last,
then amused, then bored, and finally presenting herself as a student again, she
irritated” with an interviewee who exposed investigates a Pentacostal Church with S.
his prejudices about lower classes, Cassidy and G. Hickey (department of
Negroes, Jews and Democrats? (RENCK, anthropology): being French, it is easier
1965). for her than for any American white
student to get access to a Black setting;
How to stay “aware of the personal being Catholic, and respectful of the Holy
factor” and “chose our problems in view Spirit, she finds it hard to explain to the
of the fact that we shall take a certain people why she does not join the Church;
attitude with regard to them”? The kind and traveling around two or three a.m. in
of analysis we make of any situation the colored neighborhood and endlessly
“depends largely upon the kind of writing the diary is not compatible with
observations we make”, which “depend in courses and prelims at the University. How
turn on the natural preferences that we is it possible to combine the time-
have because we are built this way or that consuming fieldwork with the academic
way”. The problem is to have a reflexive requirements ? (P. Verdet, April 1, 1952).
consciousness of these conditions of
possibility of the inquiry (VERDET, 1959). Some of these questions are
The account that P. Verdet gives of her summarized in B. Junker’s programmatic
field experience is a good example of the listing of problems to be discussed in the
field training a student could have at UoC FTP Manual (memo March 3, 1952). The
at the turn of the 40’s to the 50’s. She firstly “field observation learner’s experiences,
gets acquainted with a census tract in the reported in their own words”, should help
“colored area”, through the churches, to understand: a) rebuff and rejection,
urban league and political leaders, in the discouragement, fatigue and nervosity,
role of a UoC student (SOC. 202); she then somatic vulnerability; b) blockage: defensive
investigates the Dental Clinic at reactions of the interviewees against topics
Northwestern, as a patient, from her chair, imposed by the interviewers; c) status
listening and observing the students, disparity: gender, age, social class, ethnic
encouraging explanations and confidences evalution – acculturation: difference of
(course on professions); she goes to two language, customs and etiquette, “social
factory situations, presenting herself as a rhetorics”; d) choice of role: management of
recently arrived French girl, and focuses the impressions and clothing style, and
during a couple of months on the work errors in the ways to present oneself; e)
situation, the conflicts among workers and handling emotional involvement: cases of

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“being carried away” and “forgetting to of which in careful observation is not clear;
record observations” and cases of feeling h) fieldworker’s ethic: «right to inquire» and
strongly, but subordinating the Self to the “right to be there” (student kicked out of
purposes of research; f) using cues and Alcooholics Anonymous); i) social
insights: cases of “sizing up people” through perceptiveness, and processes of
the observation of “little things” and cases comparison, typification and genera-
of mistaking reconnaissance; g) impor- lisation.
tance of first-rate reporting, the foundation

3 METHODS IN FIELD OBSERVATION: THE SPRING QUARTER


SEMINAR, 1952

The seminar of Spring 1952 is the contexts in which they have collected
inaugurated by a E. C. Hughes’ lecture, the descriptions, in the same way than any
on March 26, 1952. The following sociologist of work studies work situations.
meetings are dedicated to interviewing Except for the persons above mentioned,
problems (B. Junker); to fieldwork the regular students who attend the
experiences in a trade union in heavy seminar and provide documents of
industry (SEIDMAN ; LONDON ; reflection on their own field experience
KARSH, 1950), in a bi-racial community are: Thomas A. Calero, Sally W. Cassidy,
in Georgia (MCCALL, 1954), with Walt Ducey, Rhoda Goldstein, Louis
marijuana users in the Chicago Area Kriesberg, Richard Renck, Donald
Project (BECKER, 1953); to interviews of Saltzman, Harold Taxel, Paule Verdet,
the NORC’s Disaster Research Team about Eugene Uyeki. Other names often appear
three airplane crashes in Elizabeth, near in M. Rigsbey’s transcript: Ira Glick,
Newark (Charles Fritz, Ray Gordon, Rue Marjorie Gold, W. C. Lawton, Luise
Bucher, Enrico Quarantelli); to the Krause, Albert Maynard, Joel Seidman.
distinction between private and public Most of these persons are Ph.D students
information (BENNEY, 1946). B. Junker who will complete their dissertations
and R. Gold do interviews with during the decade, or researchers linked
undergraduate and graduate students, with one or another research project or
have them write extensively on their field University committee.
experiences and organize a weekly
seminar where all have to reflect on the In his introductory lecture, E.
last events in the field (GOLD, 1954, Hughes insists on the fact that this seminar
Introduction). This allows them to has to be a collective enterprise, and not a
constitute a small data bank on fieldwork mere academic ritual.6 The University has
methods. They do “fieldwork on institutional functions of crystallizing and
fieldwork”: they study the practices and channeling research and teaching

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activities. The problem is to transcend order to fit fields of activities and
disciplinary boundaries and to think freely interactions, are specific to fieldwork. A
about the kinds of basic operations which first problem is to deal with the tension
are to be taught to the students in a between participating and observing on
Division of Social Sciences. Specific to one hand, describing and analyzing on the
anthropology and sociology is that the other hand. “I don’t think this observing-
researchers do not deal only with statistical reporting dilemma can be got away from
data or documentary materials. They go […]. The only way you can escape it is by
in the field, “get their data au naturel in going to Mars, observing here and
the state of nature and from living people”; reporting in Mars and that’s going to be
and the way they generate and handle very difficult to do” (HUGHES, p. 11). The
concepts and hypotheses connects with the problem is methodological in the strict
way they obtain their data. They go in the sense of the word: how is it possible to do,
field for a long time – as B. Malinowski to feel and to perceive things, by getting
did with Trobrianders in New Guinea involved in them in a practical mode, and
(1922), or W. Kohler with the apes on the at the same time, to find the right distance
Canary Islands (1925). Both of them were to inspect and account them ? How to
caught by World War I and had to stay make compatible the commitment into
respectively two and three years on the social interactions and relationships, and
spot, “becoming members of the society” the mastering of pragmatic dispositions,
they were studying, at the very time when feelings, motives and representations
they had the project to rake up data, which are specific to fieldwork, and the
according to pre-established programs, in detachment of the ethnographer, who
only respectively six and three months. withdraws from the field, socially, spatially
Instead of doing some fast “peep-hole and temporally, and returned to loneliness
research”, they became fieldworkers. The in front of his/her computer, has to objectify
ways to involve oneself in natural settings, the life-world experiences (s) he went
to play repertoires of roles in concrete through and the stories (s) he was told ?
situations, to learn the adequate skills in

3.1 LEARNING THE ROPES: PLAYING A REPERTOIRE OF ROLES


“How do you learn to do fieldwork greater variety of places and situations ?
? Can we learn anything about that ? How And at the same time, what is the nature
are we going to advance our collective of the experience of learning the limits on
knowledge on this ? How are we going to one’s own research roles, one’s own
pool our experience in such a way that we repertoire ?” (3) Mark Benney asks the
could learn something ?” (HUGHES, p. same question as E. Hughes (April 9,
15, 18). “How does a person expand his 1952). “We assume that the skilled
repertoire that he can investigate in a interviewer will have a wide repertoire of

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roles at his command to meet all the to systematize the learning of this particu-
exigencies of his profession”, and will lar skill” (reference is done to Rosalind
manœuvre the “repertoire of roles Dymond’s researches on empathy) ?
available to the informant”. “Is it possible

THE COMPETENCES OF ANY PERSON


“In some ways we are all social all of us are commonly confronted, is the
scientists” (GLICK, 1957). We all have the problem of “over-rapport” (MILLER,
same competences of perception, 1952). S. M. Miller recounts how he
understanding and interaction as our became a close acquaintance of the leaders
peers, and this is a “handle to start with”. of the union and lost contact with the rank
We all have the same qualities and defects and files workers; B. McCall found himself
in everyday life which become sources of in what he perceived as an awkward
success or failure in the field. Some of us situation when a lawyer who liked him very
are very likeable, like Adorable Jones in much started making jokes about
Little Abner, the character “you can’t help “niggers”, slapping his back.
taking in your arms and cuddling him”.
Ray Birdwhistle knew a guy in Kentucky But if many of the resources of the
who drove the old ladies crazy and could fieldworker are the common sense, folk
get all the information he wanted from knowledge or natural language of
them (CONVERSATION..., 1952a, p. 13). everyday life, fieldwork is nevertheless a
Some do not stay on their own and go specific occupation that one has to practice
native: a learning social scientist, who a lot to master. R. Gold tells the anecdote
started doing some “in depth research” in of a R. Havighurst student who knocked
a hospital ward, became an employee of at his door in Hyde Park to submit him a
IBM (57); and Don Roy wonders “how questionnaire. She was too much conscious
many anthropologists have never been of her role and tried to conform to what
heard from because they are still back she imagined the survey called for: doing
there with a loin cloth around their ass” that, she was very clumsy, because “she has
(BAIN, 1950, p. 15). Most of the people not incorporated the role to her self-
are able to take into account the “range of conceptions, and she is protecting her
variation in (their) opinions about a parti- self ”. She felt weird and awkward in the
cular subject according to the situation” in current situation (59). Fieldwork is a craft
which they are involved. While opinion where the apprentice has to discipline his
surveys just ignore this competence of body skills and affects. D. Riesman says that
ordinary actors to modalize and decipher “most professional ethics are unethics
context-bound meaning, fieldworkers use which are intended to harden the
it as an important means of understanding practitioner against human feeling toward
(BENNEY, 1946). A problem with which the people that he exploits” (57). The

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fieldworker should be able to have a mask But what is a fieldworker ? The
of impassibility and not fall into answer is not clear. B. Karsh, who is
compassion, like this “young brilliant involved in labor conflicts at Marinette,
student”, mentioned by E. Hughes who Wisconsin, does not think of himself as a
ruined the five research projects he was participant observer. B. Junker and E.
hired on because he got too emotionnally Hughes disagree: “he was still a real live
involved. But what is participant person interacting with other human
observation was still very vague for the beings” in the field. The categories still
researchers at the beginning of the 50’s. remain undefined and the range of
specifications of field involvement is not
yet analyzed in detail.

SPONSORSHIP AND LEGITIMATION


Who is backing the fieldworker or rationale for the fieldworkers to get into
the interviewer ? The free-lance student contact with the informants, but they have,
meets many problems and should be each time they interact in the field, to
supported by the University or by any convince the people with which they
public or private institution. Since there is “exchange social gestures”, that this public
no socially acknowledged status of “social mandate is “rational and right” (GOLD,
Science Observer Ph. D”, the learning 1954, p. 32). And they often have to
fieldworker has to gain the “clients or convince themselves of the same thing,
customers” acceptance of his professional since they experience many “reality
abilities (CONVERSATION..., 1952a, p. shocks” (GOLD, 1954, p. 132) in the field
11). This is characterized by R. Gold as the which make their assignments
problem of the mandate (GOLD, 1954, p. problematic. One of the aims of the
31-33, 132, 145). Social scientists need to occupational and personal preparation
“ply their trade” to have a mandate from they receive during their field training is
institutional bodies, and more widely, from to ensure the legitimacy of their mandate.
the “public”: they exercise it “when
engaging in each basic operation for The problem of the mandate is
gathering information-in-society”. But increased by the fact that the sponsor who
they “continually face the problem of commissioned the inquiry, the object of the
showing the informant how the mandate fieldwork and the audience of the
applies to (them), so long as the informant ethnography are often the same. The
is self-consciously aware of their respective primitives are today more and more
field roles, and has misgiving about literate; many of them read and do
providing the information he is asked to anthropology. The role positions of the
give”. The “public mandate” is the fieldworker are different in the three

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contexts of dealing with the sponsor, the discrepancies and heterogeneities between
subjects, the audiences. What tensions and the habitualized competences he mobili-
conflicts emerge between things one is zes, the spaces-times he acts in, the sets of
obliged, authorized, allowed, forbidden to interactive roles he plays, the regimes of
do and say in such and such context ? How discourse he uses. Legitimation is a tem-
many roles can a given single individual poral process, parallel to the ongoing
play, for purposes of research, and how process of configuring understandings and
self-conscious can he be about them ? Is it explanations, of building the identities of
possible to be consistent with oneself when the fieldworker and the informants, and
the same person has to put on so many of discussing and checking some insights
masks ? and hypotheses with the people in the
field. It is made of trust in the ethical and
Beyond the problem of political commitments of the fieldworker,
sponsorship, the fieldworker has to of acquaintance with his/her personal
produce rationales for his/her operations qualities and failings, of repeated
and the results. But this ongoing process assessment of his/her common sense and
of legitimation is not easy. The fieldworker professional competence.
does not stop juggling with the

THE CRAFT OF THE FIELDWORKER


What audience does this person have luck in finding the right persons at the
in mind when he’s talking to you ? right place and at the right moment, it
What audience does he think you implies the mastering of an art of interaction:
have in mind when you are listening the ability of playing the role appropriate
to him ? What audience can my to the obtention of a certain range of
remarks eventually get back to when information, and of guiding the vis à vis
talking to you ? This is really all part into the role of the informant. Fieldwork
of defining who the observer really is as much an art as a scientific discipline.
is in this situation (GOLD, 1952a, p. An art is a vocation, a métier or Beruf .
15 – underlined in text). Looking at the social world with a
“sociological eye” is less technological
The capacity of the fieldworker’s to play competence than reflexive ability. The
a whole range of situated roles and to problem is to coin the training methods
switch on new situational rules of the game adequate to express, capitalize and
is connected with the double problem of transmit the field experiences. Field
the joint definition of the situation and of knowledge is not intellectual, but a
the mutual ascription of roles by the repertoire of “tricks of the trade”
interviewer and the interviewee. Out of (BECKER, 1998). The students acquire
the fact that fieldwork requires a sort of them as practical skills going in the field
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by themselves, and they orientate fieldworker’s everyday reactions in the
themselves with the sensitizing guidelines field more adaptive and relevant. Mr
provided by their courses and seminars. Adams was trained by R. E. Park at Fisk
They metabolize the descriptions of their University. He recounts how they were
instructors by a process of analogical sent in the field in order to collect folk tales
understanding; they incorporate a and folk songs of a supposed isolated area,
practical sense (BOURDIEU, 1980) “in a for the Library of Congress. And came
neuro-muscular fashion” (CONVERSA- back empty handed. R. E. Park used to
TION..., 1952a, p. 19) at the intersection say that the research was starting then.
of their training at the University and their They were discovering what things to look
learning on the spot. Field training and at and how to look at them, mastering the
learning means gaining research skills that professional frames of relevance of any
allow oneself to deal with all kinds of social scientist; they were acquiring a kind
activities in the field “naturally, without of practical reflexivity through the
strain”. The integration of these ways of “dressage” of their perceptive and
doing, seeing and thinking, which practical, interactional and situational
constitute the role of the participant dispositions.
observer, into one’s ongoing Self makes the

SOCIO-ANALYSIS
A recurrent problem in the routinized interactions, and much has
discussions between the participants to the been incorporated through ongoing
FTP is how to dealing with strong training by the researchers in their bodies
emotional crises in the field (CONVER- as habitualized matrices of practice. The
SATION..., 1952c, p. 10). Becoming a na- sames happens in the field, except that the
tural observer means refusing normative artefacts the fieldworker encounters have
accounts of the social world and staying not been settled there for scientific
close to first-hand experience-grounded purpose.
accounts. But the objectivity of the
ethnographer is not exactly the same as Fieldworkers, for their part, have
that of the biologist or the physicist. He to “go through something like a ‘socio-
learns a lot from his/her previous analysis’” of themselves (CONVER-
experiences and this helps him/her to tune SATION..., 1952c, p. 12) and to get
on the natural setting – in the same way acquainted with a “variety of kinds of
an experimentor fine tunes the laboratory. people, places and cultures” to become
In the laboratory, much practical self-conscious and other-conscious. The
knowledge has been objectified in clusters language used by the FTP members is
of objects to manipulate and networks of borrowed from psychological theories of

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personality. Reflexivity in the field comes nal man, able to live at the border of
from an artful learning of the craft of several worlds, with an eye and a foot in
looking and hearing, without being each of them. The emotional crises are
completely extrovert and so self-centered dealt with, by making the field operations
that one “can’t see a damn thing”, neither and procedures more reflexive. This
completely introvert and so shy and means for the fieldworker, from an
“wrapped up in oneself ” that one “pays interactional point of view, to discover what
no attention to you whatsoever”. This is failing in the “integration of role and Self
propensity for socio-analysis is often linked ”, and then to correct his/her alignments
with the fact of having gone through “mar- in the logic of interaction with the
ginal experiences”, in home, school or informants and the subjects. This also
work life (CONVERSATION..., 1952c, means, from a biographical point of view,
p. 18-19). The figure of the “marginal to understand what kind of inhibitions,
man”, sketched by R. E. Park (1928) and echoing the previous experiences of one’s
by E. V. Stonequist (1930), is exhumed by own life-story, hinder a regular
E. C. Hughes. The fieldworker is a margi- commitment into the field situations.

3.2 PROBLEMS OF THE INTERVIEWING SITUATION

The interviewing problems are rest you get the local cant, which you can
among the most recurrent in the field. pick up a dime a dozen simply by hanging
Nick Hoffman emphasizes: “you can ask a around” (N. Hoffman). The discussion of
question on the same topic many different April 2, 1952 is dedicated to the discussion
ways, but that there are only a few ways in of how to ask good questions.
which you get rich information, and in the

TO BE OR NOT TO BE CONSCIOUS
After running up against “tough or habitualized way, betting on an
situations”, hard to define and to master automatic and unconscious adjustment to
for the fieldworker and his/her informants, the situation – the kind of “practical sense”
and the “dual role” of novice students, who described and analyzed by P. Bourdieu
tend to present themselves as master (1993), where practical reflexivity is
researchers, the question is asked of how immanent to spontaneous accommo-
far the fieldworker has to be “self- dations and tactical moves. In other
conscious” of his/her roles. In some situations, a strategic calculus of
situations, it is better to act in a routinized impression management and an

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anticipation of the most plausible the informants, he was still perceived as
responses and consequences are required different (8). A range of social roles are
in order to master the temporalization of attributed to the fieldworker and he does
the interviewing situation. According to M. not stop coping with the diverse normative
Benney, being conscious is “as much a expectations the others have of him. One
function of the kind of information you of the main virtues in the field is situational
are trying to get as of your relationship to flexibility, even if a very clearly defined
the person”. This cannot be discussed in strategy of inquiry was designed at the
the abstract, as a methodological principle, beginning. Consciousness may refer to the
but in practical situations, depending on capacity of the fieldworker to take into
the ecological structure of the setting, the account the set of status and roles s(he) is
fieldworker’s degree of acquaintance with ascribed and to deal with them, in order
it, the kind of field interactions (s)he to re-define them or take them as
contracts there, the quality of secrecy or resources, and to his/her capacity to
publicy, privacy of confidentiality of the confront the imponderabilia and decide on
information (s)he wants to get, and so on. the spot the next procedure to switch to
B. Karsh outlines that the fieldworker is in order to act in a relevant and fruitful
“cast” in a role by his respondents: he is way. From this point of view, as M. Rigsbey
ascribed an identity more than he chooses says, the non directive interviewer plays
and takes it. In a Wisconsin strike, he roles as well as other fieldworkers: but (s)he
interviewed the strikers first. He was soon has more space for ad hoc improvisation
identified as one of them by the non and is “not compulsively bound to research
strikers. Even if dressing and behaving like design”.

MONITORING THE INTERACTIONAL DYNAMICS

According to B. McCall, the non- of the members interviewed toward


directive interview is advantageous in that their employer, their desire for
“the responses are in the terms of the upward mobility within the company
informant own psychological structure ranks, the meaning the union has fors
instead of tailored to fit the frame of the members and their participation
reference of an interview schedule”. J. to its activities.
London and B. Karsh (seminar April 9,
1952, 1952, 1955) were especially The comprehension of the ordinary
concerned on their field by people, organization elites or institutional
experts, when acting in natural settings, is
the activities of the union, the ways in one of the characteristics of fieldwork. The
which the members went to the union fieldworker has to get the “native’s point
to solve their problems, the orientation of view”, without going native.

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The initial problem is to be present the faces appropriate to this or that
introduced to the local union leaders of setting, place and moment, and E.
Local 1010 in a steel mill. It is a problem, Goffman would have said, to protect the
when probing contentious situations, to get others’ faces by using the right frames of
into it without difficulty, when one is encounter and questioning. For instance,
sponsored by the management or by the drinking alcohol is one of the most
union, or becomes identified with one of important tools of the fieldworker: “the
the struggling factions. The fieldworkers higher you move in the union ranks, as
“continually redefined themselves to each well as the company ranks, the better the
person to avoid being defined by a quality of whiskey”. But the field is made
secondary source. They had to ‘sell of a series of situations which require a
themselves’ over and over, and were multiplicity of performances, depending
frequently put to a test. They had to pro- on their relevance structure. “The
ve again and again that they were not interviewer presumably has some degree
‘spies’ for anyone and were not taking side of self-consistency, even though he may be
with a particular group”. Each act, even responding to different informants” (10).
the slightest in apparence, is to be For indissolubly methodological and
conceived in the perspective of the ethical reasons, the interviewer cannot be
divergent groups and individuals. Being a chameleon. (S)he has to to present a
invited to lunch, building personal dramaturgical consistency and moral
rapports or making jokes and laughing continuity to be trustworthy.
with people is interpreted as showing
preferences and taking sides. Morality is a key word in the field.
B. Karsh explains how at moments he goes
This lack of definition of the native, shouting with the others in
identities of the protagonists is what makes demonstrations, behaving like an insider
at the same time the flexibility and and giving in to his will to participate. A
indeterminacy of participant observation. kind of a gentlemans agreement is
Tact is required to meet very different implicitly found with the management and
employees and unionists at different rank union members, who do not try to know
levels, and clothing tricks are needed in about what the opponent said in
order to not be out of one’s place. But interviews, avoiding to put B. Karsh, J.
imitating the language of the interviewee London and J. Seidman in situation of
could be interpreted as “talking down” betraying the confidence of their subjects.
rather than “talking with”, a mark of Many of the written results of the inquiry
superiority or arrogance. Finding access were submitted to both parts for
to the field is not being a parrot or a chimp, comments: some materials, “potentially
but following the correct codes, civilities dangerous with regard to bargaining
and rituals, which make interactions relationships”, were excluded from
possible. The question is not one of publication. And the researchers turn
“putting on a false face”, but rather to down the offer of a job from the company,

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which would have been impossible to accept from an ethical point of view.

GETTING AND CHECKING INFORMATION

H. Becker asks a few basic questions are no stable communities of addicts, and
(seminar April 23, 1952). Why do people a fieldwork project like Street Corner Society,
allow themwelves to be interviewed at all? where the fieldworker has to integrate
What appeals work, and in what situations? oneself into the group and to find the
“This was brought home for me very relevant channels of communication,
forcibly in the interviewing of narcotics drifting from one group to the next, is not
users, in which I, and my colleagues at the possible: the instability and asociality of
Chicago Area Project, are now engaged”. addicts prevents it. But paying has side
With dope addicts, “none of the effects, like attracting “a bunch of young
conventional appeals work. They are not hoodlums on the West side”, who tried to
interested in helping science, or in helping drain as many funds as possible from the
the interviewer, or anything of the kind Project while giving as little information
[…] they have no time to waste, since they as possible (33). They found it a “cool
have to to be hustling all day long and half hustle” (good racket). Other dangerous
the night to get enough to live and to fields are mentioned, like Benney’s book
support their habits”. They do not form a on coal miners, Charity Main (1946): a
stable community and they have many fieldworker “spent a day riding around
illegal and dangerous activities. The only with a group which was trying to fence a
solution was doing what anthropologists lot of stuff they had stolen the day before”
do – paying for information from heroin (35).
addicts. Then the discussion runs on the
problem of appointments of informants: The next problem is checking the
“dollard and Davis paid the people in information which has been gathered. A
Children of Bondage (1940) They used Coca- common story about drug consumers is
cola and ice cream cones and small rewards that “peddlers seduce people” and force
of that kind”; “we [Becker and others] them to become addicts: it is part of the
ended up paying people to bring others repertoire of stories of which drugs-takers
in”. Detecting and finding people in natu- think that the social scientists wanted to
ral settings is not easy when they have listen to, sort of a folklore of the world of
illegal activities and hide from the public drugs. B. Junker says that the same was
space. One cannot interview an addict happening on the Yankee City setting: “in
while he is purchasing drugs from his the first interview, you get the ideal picture
dealer or get drugs just to take part into – the public, the community norms […] at
his day to day life-world. Moreover, there wasn’t until the second interview that he

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ever broke down and told you how he ses his or her experiences, and secondly a
actually participated in the situation (or) question of showing the informant that
really felt toward the different people in a you are able to cope with what s(he) is
clique” (41). The first interview, according talking about. Mastering the ordinary
to W. Henry, has the status of “formalities”: language description of daily life
it should not deal with heavy questions, experiences gives access to the
only “light topics”, and stays at the “hello, organization of the group. Some questions
how are you level”, like a ritual of are good answer-triggers, other not. “how
interaction-opening. It is only when did you feel?” usually gave nothing while
“mutual confidence is established” that the “what thought did you have ?” was a good
in-depth interview can start (41). All the sesame (41). Fieldwork has the same
data gathered in the field do not have the procedures as journalists or detectives
same status and value. The researchers investigations: confront descriptions of
have to contextualize all the time to be sure states of fact with observable events and
not to misinterprate, and they have to actions or with what has been registered
mobilize their common sense in order to in documents; compare different accounts
grasp the background meaning of what is made by actors or witnesses and pinpoint
done and said. A basic rule is that the best contradictory and implausible statements;
data are obtained using the informant’s and as well, have the people talk, and, on
own language. It is not a problem of the basis of information on their credibility
disguise, it is firstly a question of being able and of experience of likelihhod, decide of
to understand what the informant is the degree of truth of their explanations
talking about, and the way s(he) expres- and interpretations.

PUBLIC AND PRIVATE TOPICS


According to M. Benney (seminar respondent over his initial apprehensions”
April 30, 1952), the Greenwich study and convince him/her that nothing
shows empirically that “the individual’s disastrous occurs as a result of the
definition of public and private changes revelations. The confidentiality of the
in relation to degree of publicness of topic information is crucial in the field. It is a
at hand” (46). E. Hughes adds: “what’s deontological problem, as well as a
private depends on how you’re going to methdological one. Karsh and London are
report it and to whom you’re going to in the situation of “cross-checking
report it”. L. Kriesberg refers to the statements because of their access to
interviewees who worry about having told different groups, caucuses” and to the “in-
too much. B. Gardner uses a trick to set dustrial relations trained personnel” (April
their minds at rest: he “returns daily to 9). But the price of this knowledge is often
such a person in order to warm up the the commitment to stay silent. Managers
relationship sufficiently to carry the tell them: “now here is something you can’t

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use in your report, but you need to know but has to keep his/her cold blood and to
to understand what’s going on there”. A maintain criteria of decence in public
kind of contract binds fieldworkers and conducts and interactions. He has to limit
informants. A great deal of situations can him/herself when “forthcoming union
be freely observed by researchers, and the elections might be jeopardized, and the
subjects most of the time express hostile feelings between strikers and non
willingness at helping them. Relevant to strikers would be accentuated”. The
the secrecy of information, McKay goes to suppressing of findings which might
meet juvenile delinquents with the strong “upset the bargaining relationships
self-conviction that they will of course tell between the union and the company” is
him everything; and Kinsey says about his necessary. It is not good to say just
sexual practices inquiry that if you look anything in public. The researchers should
sincere and have the institutional authority be able to assess the nature of these data
to do what you do, people answer without and to distinguish the contexts of privacy
inhibition of fear, and “with great detail” or publicity where these data are supposed
(38). The question of covert observation to be handled. This is one of the
does not seem to be the focus of the FTP fieldworker’s competences the informants
participants. It is raised in connection with test before talking. The disguisement of
religious sects (like the Bible ecstatic sect the name of persons, places and situations
or Don Saltzman’s Yehovah witnesses) as expresses sharply this expectation. What
one of the emotional involvement and to do when the event is so singular and
ethical line of the fieldworker. The nation-wide known that it is not disguisable
fieldworker is certainly not a “cold fish”, – like the strike at Marinette ?

3.3 COMMUNITY STUDIES


THE YANKEE CITY MODEL
B. Junker goes on to synthetize the permission; the private, what is strictly
distinction between “levels of information” personal and often unconscious,
explored by the fieldworker. He understandable through psychoanalysis
disentangles them: the public, “what (JUNKER, 1960, p. 34-35). This system of
everybody knows and can talk about”; the categories is now taken for granted as a
confidential, what can be reported under basic corpus of knowledge by fieldworkers.
the condition of anonymity; the secret, But it was new at this time to ask the
what is “ritually received and kept” by any question of the selection by the subjects of
member of the group, but should not be “what to communicate and to whom to
publicized outside at any price or without communicate it”, and therefore, of the
form and meaning of the information
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transmitted and of the roles ascribed in the ecology of occupations, parishes, schools
field situation. and associations. But E. Hughes
recognizes with great humility that they
B. Junker and R. Gold’s enterprise breaks could not have good empirical data on
through the problem of understanding families patterns of life and consumption
how obtaining reliable data and framing or day-to-day low levels of the industrial
valid interpretations depend on the quality hierarchy (HUGHES, 1964) – what people
of field interactions. Against the claim of like Jean-Charles Falardeau or Jacques
positive objectivity of survey researchers, Brazeau did later.
it coins the project of a reflexive and
interactionist field sociology, strongly The master of community studies in the
influenced by anthropological methods 40’s and the 50’s in Chicago is W. L.
and nurtured by the inheritance of the 20’s Warner. Warner came from Harvard to
and 30’s wave of Chicago social research. Chicago in 1935, with a double
A bit earlier, E. C. Hughes, who had been appointment in sociology and anthro-
hired by C. A. Dawson at the department pology. In Harvard business school, he
of sociology at McGill University, Montre- took part into Elton Mayo’s inquiry on the
al, did an extensive fieldwork on Hawthorne plant, bringing into play the
Drummondville, a small community in field competences gained among the
Québec. He publishes French Canada in Murngin in Australia, under the
Transition in 1943. This book, often supervision of Radcliffe-Brown. From
neglected by Chicago histories, is quite an 1941 to 1959, he publishes the series of
important one: it is a community study on the Yankee City Studies, Newburyport,
the industrialization and modernization of Mass.. He supervises the Davises and
the Canadian province – Robert Redfield’s Gardners’ study on Deep South (1941)
Tepoztlan (1930) initiated the genre Natchez, where H. Cayton is involved
(HUGHES, 1943, p. 147) – where Everett during six months as a fieldworker and as
and Helen Hughes themselves go into the a rewriter. He collaborates with H. Cayton
field and get a first-hand acquaintanceship on the Black Metropolis (1945) community
of the inhabitants and the surroundings. study on Bronzeville, Chicago, later
They show the transformation of the published with StClair Drake. And he is
Québec parish and family, put the focus not totally a stranger to J. Dollard’s Caste
on “social contacts” between English – and and Class in a Southern Town (1937) or to A.
French-speaking people, describe the B. Hollingshead’s Elmtown’s Youth (1949).
dynamics of industrialization in this W. L. Warner’s formula is quite interesting.
interethnic community and the kind of By a sort of methodological opportunism,
business and service interactions that raise he uses all kinds of available data and
between old-established and new-comers; conceivable methods, paying no respect to
they try to assess the effects of this process the opposition between case study and
on social institutions and informal statistical analysis. The intellectual project
relationships, and develop a sketchy is a social anthropology of the modern

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world, whose ancestors are Durkheim and churches, unions, parties and community
Simmel (WARNER ; LUNT, 1941, p. 10- organizations, how (s)he defines his/her
12; BIERSTEDT, 1948), Malinowski and position on scales of capital, power and
Radcliffe-Brown. The main focus is on the prestige, categorizing and classifying at the
system of social castes and classes – all kinds same time other individuals and groups’
of scales of superordination and positions.
subordination and of family, clique and
associational clusters of links. The social Thus, W.L. Warner does not go into the
world is conceived as a web of intercon- field without any thread to follow. He has
nected social institutions, in which are some theoretical and conceptual
intertwined a technical system of control guidelines which orient his collaborators
and modelling of the environment (tools and himself. There is no “immaculate
fabrication and economic mediation perception”, as Dewey said. The Yankee
between technical and social systems), a City project requires about 30 researchers
social system of configuration and over several years; its report runs through
articulation of interactions (distribution of 1700 pages and took thousand of hours
wealth and power, division of labor and to be completed. The only one to become
institutions of socialization) and an a full-time participant observer, and at the
ideological system of production of same time the coordinator of the field
collective beliefs and representations assistants, most of them graduate students,
(world comprehension). Social organi- is Eliot Chapple. There is a division of
zation and integration depends on the work: W. L. Warner, L. Srole, P. Lunt and
coherence of these different systems J. O. Low are the “writers”, while the
(WARNER, 1945); while the social others have the title of “analysts” and
personality of an individual is composed “fieldworkers”. The procedures are the
by the hierarchy of competences he following. A first canvas survey is done, if
acquires in the technical system, the net of possible with the recommendation of the
relationships he develops in the social community leaders, in order to map ethnic
system and the matrix of categories he groups and business activities. The census
masters in the ideological system. The and electoral data are consulted.
adaptation or adjustment of an individual Fieldworkers settle in critical areas, deploy
and the determination of his/her social among stores, schools, community
status is a function of the lot of his/her organizations, voluntary associations,
trajectories in fields of constraints and business centers, health centers, police
opportunities: life, family, work and departments, ethnic neighborhoods. They
institutional stories show how (s)he copes learn to master spoken language and to
with the rational attainment of degrees, manage public impression, and participate
jobs and incomes, how (s)he manages to in formal associations, informal cliques,
deal with relations of solidarity and networks of school or sport-mates. One of
antagonism, reciprocity and distinction, them takes up position at a Newburyport’s
how (s)he gets access and acts in schools, crossroad of gossips, the assessor’s office,

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where he records the real estate and land truth; do interpret what is said as social
property titles and at the same time learns facts. “The person might try to take you
about the rumors concerning the mayor for a ride”, let her do and try to
Bossy Gillis. understand why; put every personal
reference in its social context; “do not
The bulk of the collected data is interrupt, criticize or advise… the average
constituted by interviews. W. L. Warner person is ready to say everything. She
gives many tricks to follow in the wants a sympathetic listening”. The
interviewing situation that demonstrates interview is by itself part of a “social
his interest for micro-contexts of inquiry: situation” and one has to understand in
he describes how to get an “access to the context “what the person wants to say, does
Self of the interviewee” and do not force not want to say, cannot say without help”
him/her to adjust to the interviewer; how (WARNER, 1935). Far from an univocal
to refer to the interviewer’s personal round of questions and answers, like in
experience in order to have more many surveys, interviewing is an art, where
confidences by reciprocation; how to learn the interviewer should be sensitive to the
ethnic languages and thus show sympathy situational contingencies, have a great
for the people studied; how to put oneself experience of human relationships, be able
in a “position of inferiority”, one of a to find a common language to have the
learner of good will, which ascribes the vis- informant understand what range of
à-vis the tasks of a teacher. His common information s(he) aims at, and to deal with
sense recommendations are partly the informant’s affective and moral
informed by social and cultural expectations in this “reciprocal activity”.
anthropology, partly by a psychoanalytical The objectives of the interview are not
conception of interpretation (45) – which attainable if rules of attention and respect
will be obvious in The Living and the Dead are not followed by the interviewer: s(he)
(1959). They have to be related with J. has not to display any kind of authority or
Dollard’s reflections on life-stories (1935) admonition, and to settle a psychological
and with the qualitative techniques of balance of status; to relieve fears and
association used by the Social Research Inc. anxieties of the interviewee, and to praise
(a consulting society created by B. Gardner and encourage his/her efforts of accuracy
which hires W. L. Warner, B. Junker, L. (ROETHLISBERGER; DICKSON, 1939).
Rainwater or W. Henry)(KARESH, 1995); The value of the interview data depends
they have to be contrasted with market on the pragmatic felicity of the encounters.
studies and opinion polls which were It is otherwise tested through the
flourishing from the 30’s on and with the confrontation of the subjective data of the
quantitative techniques developed at interviews with objective data on social
Columbia, Harvard or Michigan. The structure. The latter are given by other
“method of associations” implies just a few forms of inquiry. “Personality cards” –
interview guidelines, but not a pre- punch cards where all data concerning the
established schedule. Do not wait for the class, age, gender and ethnic status of the

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individuals are gathered – have already very well integrated, “non aberrant ” city,
been mentioned. Systematic observation is with few working and ethnic conflicts. This
done on stores and factories, on mass position is severely, but fairly, criticized for
events like strikes, on rites of passage like its lack of interest in the history of the
marriages, birthdays and burials, on community. S. Therntrom (1965) explains
ceremonies like Memorial Day, on sports that Warner is maybe too influenced by
and movies places, at the police desk and the vision the community leaders give of
at the mayor’ office. The documentary themselves. He devotes much time to this
sources are census charts, real estate maps, “tiny elite” and its pretentions to be rooted
enterprises income data, wards electors in the past of the city. Unconcerned with
listings, local history books, newspapers factual history, he ignores “the effects of
and magazines clippings, inhabitants mass immigration, the high birth rate of
genealogical and kinship accounts, health the newcomers and the heavy migration
or police departements reports, Chamber of old residents”: only ten per cent of the
of Commerce, American Legion, Rotary families recorded in the 1879 directory
Club and Knights of Columbus directories. were still there thirty years later; and he
takes for granted the stagnation of the
W. L. Warner’s project remains one of the number of inhabitants and of the level of
most ambitious research programs in the economic activity, while in the 19th century,
social sciences. It frames a model of Newburyport had a manufacturing indus-
collective multimethod field study, much trial take-off that overturned its previous
more sophisticated than previous social structure. Other criticisms include:
community studies. It triangulates the main tools he coined to objectify clas-
different sources of data, a good means to ses and castes – the “social personality
enhance cross-interpretation and cross- cards” based on rating scales called
validation. But what is revolutionary at the “evaluated participation” (EP) (output of
beginning of the 30’s falls under criticism content analysis of indirect interviews on
twenty years later. Warner sometimes “social participation” and “status
follows his intuitions and gives a posteriori reputation”) and “index of status
justifications of his choices rather than characteristics” (ISC) (“measure of socio-
reflecting upon the limits and weaknesses economic status based on occupation,
of his approach. The choice of the setting source of income, house type and dwelling
is very important, he says. Newburyport area) – are knocked down by H. Pfautz and
is a city of ten to twenty thousand O. D. Duncan (1950) and, in a gentler way,
inhabitants (WARNER, 1941). It is selected by R. Kornhauser (1953). They complain
as an “old New England community”, about a few blanks in his text: no doubt
where “puritan tradition” remained about the representativeness of small
“unshattered” and “social superstructure” communities in relation to American
identical to “what it had been at the end urban settings; no indication about the
of the war of 1812” (WARNER; LUNT, compatibility between the results of EP and
1941, p. 1-5, 38-39). It is supposed to be a ISC; no methodological concern with

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sampling bias and reliability coefficients; subdivisions form “upper upper” to “lower
focus on an accomodative conception of lower”; ideological confusion between the
class founded on prestige status and failure “popular belief in the possibility of
at catching capital and power conflicts; mobility” and the de facto mobility.
abstraction of the graduation of class

A SPECIFIC DEFINITION OF CULTURE AND SOCIETY

Bevode McCall (University of adopts, whose persons he chooses as


Illinois-Navy Pier) presents his fieldwork informants, and how he organizes his
on April 16, 1952. He thinks of his work research team. He keeps on explaining
in Savannah, Georgia (1954), as a why “conforming to local mores” is a tiring
community study, analogous to but inevitable business, how the cross-
Middletown (50000 inh.), or better, Yankee checking of informations with different
City (17000 inh.), or other studies on small sponsors and informants can be perceived
cities of 10-15000, like Horace Miner’s as a betrayal by them and how the
catholic parish (1939). His definitions of situational qualities of tact and caution are
society and culture are not very different among the main virtues in the field. The
from W.L. Warner’s ones. Culture is “an first step of the community study is to find
interrelated system of custom and the right place and convince the local eli-
tradition” and social stratification “an tes and citizens of its harmlessness, if not
interrelated system of symbols, etiquette, of its utility. It happens that strong
prestige and power”, one of the major objections hinder the research or make it
aspects of culture (Warner’s Memorial day impossible (JUNKER, 1940). B. McCall
paper: OGBURN, 1943). Working on focusses on social institutions: “patriotic
small cities helps to understand how associations, fraternal organizations,
nation-wide social institutions and cultu- church auxillaries, civic and business clubs,
ral systems are implemented, referred to recreational organizations, church bodies,
and conceived of in local settings. It is also political groups, ceremonial organizations”
a way to answer the question, recurrent in – the places where it is more plausible to
the United States since the 20’s, of the grasp the ongoing process of the cliques
transformation of the American local and corporations relationships in the
communities, which were less and less, making, and which work as channels of
since the beginning of the century, the base information, rumor and gossip for the
of economic and democratic life. B. McCall citizens, and thus, for the fieldworker.
gives elements explaining his field choices: Emphasizing the networks of sociability
why he selects this site rather than any had been done by predecessors like A.
other, how he gets into contact with the Blumenthal (1929, 1937), a Burgess’s
people, what strategies of presentation he student, between 1929 and 1932 in

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Mineville (Missoula, Montana). A. registering flux of gossip and rumor, and
Blumenthal explored all ranges of in parallel, drawing a history of this local
activities of the city, became intimate with community. Out of A. Blumenthal’s Small
people from all social strata, working for a Stuff Society (1937), W. L. Warner, E. H.
while as a professor in a catholic college, Hughes and B. H. Junker were all
taking part into social clubs and political interested by this aspect of small
organizations, being designated as a communities. The three of them gave
potential candidate for political elections, courses on the topic of associations.

FRAMING AN INTERPRETATION THROUGH INDUCTION


The Venereal Disease Control problems changed as he went
Division at Washington commissioned the through, and he especially ought to
Savannah inquiry. Blood tests had shown record those places where he would
an “inverse correlation between the disease have like to change his definition of
of syphilis and the indices of relatively high the problem and didn’t have the guts
status”. But the Public Health because he had already committed
representatives asked B. McCall and his himself and his techniques; and the
colleagues to do their research without other ones where he did change.
revealing that their topics is syphilis. They
eventually investigate social status in Such a field diary of “definitions and
Savannah. redefinitions” is a “regular technique” in
anthropology. B. McCall used to send once
B. McCall refers to a “public a week a detailed memorandum to W. L.
discussion on the methodology of the so- Warner, learning back from his criticisms
cial sciences” between H. Blumer, Anselm and advices; Davis and Gardner did the
Strauss and R. Redfield. “R. Redfield same on Deep South. The definition of the
remarked that one does it just go out and research problem is, on one hand, the
study the data and let one’s hypotheses ongoing result of field events which orient
grow; let the data suggest them; and he the fieldworker in this or that direction,
was rather severely criticized by the other and on the other hand the ongoing result
gentlemen because of, let us say, the of a process of transaction with the
fortuitiveness of such research. Actually, I ordinary people and officials and leaders
agree with that” (18). E. Hughes continu- on the setting, with the sponsors and
es by saying that others institutional representatives who
commissioned the study, and with the
almost everyone ought to be required fieldworker’s peers, colleagues and
to keep “an idea diary“ in which he professors in the academic world, with
would record how his conception of whom he discusses his data and to whom

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he submits his concepts and hypotheses. that his insights will not be dismissed in
Thus, the growth of the analysis is not the the aftermath of the study as non relevant
result of a Popperian process of by professional and local audiences. This
falsification. B. McCall’s generalizations process of induction is methodological, but
and validations are an ongoing series of normative as well. Writing a sincere and
operations of induction of new categories honest report is often not sufficient, and
and hypotheses all along his field work. the field interactions, out of their triple
He avoids collecting useless, incomplete or function of data collection, validation and
redundant data, validates the emerging generalization, are valuable for an
categories and hypotheses with his affective, ethical and political check.
informants and colleagues; he makes sure

CLASS, RACE AND GENDER ISSUES


Getting information depends also interview Negroes”. It is part of the
on dealing with the problem of class, training of Black interviewers to learn to
ethnic and nation categorization . The protect themselves from situations of
bulk of B. McCall inquiry is about racial discrimination. These interviews are
issues – a concern shared with the Warner interesting because people who say that
team’s members and others affiliated with they are free of prejudices show in practice
it, The Gardners and the Davises for Deep some conduct of discrimination when
South (1941), H. Cayton and StClair Drake confronted with Blacks in the interview
for Black Metropolis (1945). “The relations situation. Such a procedure is supposed
between Negroes and Whites are to be unwise, but it is in practice very
governed by a system of formal and in- fruitful: the data depend on the logic of
formal sanctions which are associated with field interaction, and they will be very
intense feeling”. The caste hierarchy different in regard to the skin colour of
makes more difficult the securing of the interviewer.
information from representative groups,
pointed out as two types of Whites Fieldwork can draw a great
(tradition bound and “liberal”) and of diversity of pictures of a community. The
Negroes (“liberal” and “Uncle Tom”). B. classical example is the discrepancy
McCall organizes a bi-racial team: but “the between R. Redfield and O. Lewis’s
White personnel is expected by the local descriptions of Tepoztlan (1930). The main
community to furnish the leadership of the characters in data collecting and
research”, and this is a source of “status processing are the informants. M. Mead
conflicts within the research team”. This explains in The Changing Culture of an
problem of caste hierarchy arises “when Indian Tribe how she selects informants and
Negroes interview Whites, and Whites develops a analysis of the community. Sally

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Cassidy proposes to go further and to or- Finally, B. Karsh and J. London
ganize a “sub-team” of natives, for stress the problem of class and gender in
example to train lower class or ethnic the field. They give the example of a
informants, who do not only “chit-chat”, graduate student from Mexico who fails
but “take some sort of responsibility for at interviewing wetback Mexicans working
contacting others”. W. Labov (1972) will at the mills. Despite his language ability,
use later this field procedure in his study the lower class people refused to answer
on Black English vernacular. E. Hughes his questions, probably because of their
finds it a good idea, to hire nurses to study “deep-seated hatred for upper class
nurses and take into account the mastering countrymen” (47). Another example is that
of age, sex, occupation and race of “daisy Lillienthal [who came to be]
standpoints in their daily life-worlds by invaluable” on their setting to study a
some of the informants-fieldworkers (24). group composed chiefly of women factory
A good informant is “a person who actually workers; nurses were more confident with
maintains a wide range and variety of so- Rhoda Goldstein and say things “that they
cial relations, is accepted by and accepts a could never say to a man”. Helen Hughes
lot of people” (30). But there are no rules. used to knit and darn socks on the front
Sometimes they are marginals, prostitutes orch of the lower-middle class house where
or downgraded, sometimes they are they stayed with E. Hughes in
people with high level responsibilities. Drummondville, French Canada: an old
Sometimes one should enter into gentleman was so puzzled and intrigued
“emotional relationships”, others by this woman Ph.D student doing such a
“maintain a formalized role”. thing that he became quite a good
informant. Being a woman gives access to
fields of experience and activity of which
men are excluded.

3.4 THE NORC DISASTER PROJECT TEAM


On February 18, 1952, E.C. cial organization”, working almost
Hughes already mentions the NORC as exclusively with survey methods. “When
pursuing an interesting collective field they were asked to go on the disaster
research. The NORC was initially a polling studies, they ran up against [the problems
non profit survey house, founded in 1941, of social organization processes] and they
which moved from Colorado to Chicago had to deal for the first time “with a very
in 1947. C. H. Hart, a former student of wide range of human emotion” (e.g. a girl
Wirth’s, directed it from 1947 to 1960 who went through 202 and had to
(ADAMS, 1977; ABBOTT; GAZIANO, interview a mother who had lost her 6 year
1995). It “never concerned itself with so- old daughter; and one of Shirley Starr’s

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first interviews with a soldier with down in the Staff Training Kit, under the
psychiatric problems wondering how he title Disaster Project. It contains general
was going to commit suicide). C.H. Hart is documents, like a plan for the study of
interested by a collaboration of the NORC disasters, examples of a master
and the FTP, and BHJ wants to interview questionnaire and of a disaster report
Jim McCarthy, Bob Bain and Rue Bucher (Minneapolis mining and manufacturing
who took part into the Elizabeth plane Company plant explosion, St Paul,
crash project. “What training do they think Minnesota, February 8, 1951); summaries
they should have had before this ? […] It’s of Irving L. Janis’ confidential papers on
quite clear that although they’re very the psychological effects of air attacks and
outspoken about the shortcomings of SOC. of atomic attacks on Japan (1951); a
202, they recognize 202 as a great asset”. presentation of substantive findings on
disasters; an example of critical analysis of
H. Hyman and W. L. Cobb (1954) a sample tape-recorded interview, and
on one hand, C. Fritz, E. Quarantelli and instructions for collecting data, analyzing
R. Bucher (1956) on the other hand have interviews and preparing abstracts. “The
interesting things to say about the tape recorded interview not only
interviewer-interviewee relationship. In a eliminates omissions, distortions,
similar way as B. Gardner’s Interviewing elaborations, condensations, and other
Method, that E. C. Hughes considers a first modifications of data usually found in
rate document, they are not only focused written interviews, but it also provides an
on questionnaire design, but on social objective basis for evaluating the adequacy
gestures and interaction behavior in the of the interview data in relation to the
interview situation as well. They use tape- performance of the interviewer”
recorded interviews as exploratory or pre- (BUCHER ; FITZ ; QUARANTELLI,
test survey methods and to get qualitative 1956, p. 360).
data on people’s emotions, perceptions
and judgments. And in order to train their The NORC Disaster project, initiated
researchers, they give them some advice: in 1950, is concerned with “the
how to gain acceptance of the interviewees; maintenance or rapidre-establishment of
how to deal with ascribed identities of effective social organization in community
newspapers reporter, insurance adjuster, disasters, either wartime or peacetime”.
salesman and so on; how to guarantee that Thus, it investigates “the nature of fear
“steps will be taken to protect their and panic reactions, crowd behavior,
anonymity”; how to persuade them to be leadership, rumor ans other forms of
recorded; how to master the communication, the effectiveness of
“establishment of rapport” and to insure various recue, relief, control, and
the mechanical quality of recording rehabilitation measures, and the changes
(overlapping of voices, changing reels, in personality and social structure which
identifying tapes, verbatim transcriptions). are produced by the disasters”. It starts its
Many of these conclusions are written investigation with a mock air experiment,7

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backed by the US Army Chemical Center, articulation of which is grounded in the
which ended in failure. The team decides empirical data . Finally,
to go on natural settings to gather data.
They start with tornadoes near panic can be defined as an acute fear
Minneapolis, Minnesota, on June 19, reaction marked by a loss of self-
1951. In the White County, Arkansas tor- control which is followed by nonsocial
nado study, sixteen members trained to and nonrational flight behavior.
study social and psychological aspects of Covertly, there is an acute fear
disasters were sent in the field, and reaction, i.e. an intense impulse to
obtained around 600 interviews. The tor- run from an impending danger.
nado occured on March 21, 1951, killed Panic participants are seized by fear
49 persons, injured 675, destroyed 412 of a specific object as involvong an
houses and damaged 561. The other main immediate and extreme physical
events covered by the Norc project are the threat. The most striking overt
crash of a airplane in the airshow crowd feature is flight behavior which, while
of spectators, in Flagler, Colorado, not necessarily non-functional or
September 15, 1951, killing 20 and maladaptative, always involves an
injuring 30 (farming community); a series attempt to remove one’s self
of explosions and fires over two hours in physically (273).
Brighton, New York, on September 21,
1951, killing 2 and injuring 24 (18,000, a Among its conditions, a feeling of
Rochester suburb); an explosion in a coal possible entrapment, of collective
mine in West Francfort, Illinois, on powerlessness and of individual isolation;
December 21, 1951, killing 119 (11,000 in among its incentives, social interaction in
a mining community); and the three a crisis situation (275). E. Quarantelli’s
airplane crashes at Elizabeth, NJ, on study, based on the NORC inquiry on
December 16, 1951, January 22, 1952, panic, is a good example of analytic
February 11, 1952 (113,000, mid-size ethnography.
town). According to E. L. Quarantelli
(1954), the task is twofold. Fieldwork and The meeting between the FTP and
interviewing on natural settings area the NORC Disaster Project Team takes
“primary source of data” which provide place on May 7, 1952. 8 The NORC
“carefully evaluated material”, instead of members explain that they try to be on the
the “unsystematic remarks based upon spot as fast as possible, from a few hours
everyday preconceptions and unverified to three weeks following the event. The
notions” and the “ad hoc statements length of the fieldwork averages a week to
representing impressionistic reflections” ten days for small-scale studies and around
that usually nourish conceptions of panic; three weeks for large-scalestudies. The
but this collection of empirical data would population interviewed is sampled
be of little assistance if not paralleled by according its proximity to the disaster: the
an effort of conceptual definition, the injured and incapacitated; family

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members, relatives, intimates, acquain- talking. The set of data on age, income,
tances; persons whose house and property education, occupation, etc. is taken at the
was destroyed or damaged; witnesses at end; the same with the size, composition
distance; people who heard of the event and objectives of agencies for special
through rumor and media. Some “special informants. All interviews, with range in
informants” are contacted as well: local, length from 15 mn to four hours, are tape
state and national officials; Red Cross, recorded and transcribed. Systematic
Salvation Army and other relief agencies codes are built, through a process of testing
representatives; National Guard and all- their provisional formulation for reliability
level polices; hospitals officials, doctors, and validity; then each case is coded and
nurses, ambulance drivers; newpapers and transferred to IBM cards for statistical
radio professionals, amateur radio tabulation. The analysis is both descriptive
amators; informal and emergent leaders and statistical.
of all kinds. The interviewing techniques
are half-directive, half- unstructured: they Quickly, the NORC researchers
aim to have an exhaustive account of the note that the initial questionnaire is too
person’s behavior “during the pre-impact, long and cumbersome. Two procedures
impact and post-impact period”, of the are adopted. R. Gold remembers “doing
kind of interactions of panic or cooperation some pretesting for NORC during this
(s)he had with others, of his/her period to show them how ethnography
observations and evaluations of the provides a sound basis for generating
behavior of other persons, groups and questionnaire items, testing them, and
agencies. The interview starts with a broad making sense out of the the tabulations of
question: “Tell me in your own words what questionnaire findings”. But he is not sure
happened” or “Tell me about your of the impact of this “perfunctory
experience in the tornado, flood or involvement in the disaster studies”
explosion”. It is a way to elicit lenghty (personal communication: July 24, 2000).
objective accounts and to know how the On the spot, the questionnaire is just
interviewee defines the situation. A abandoned, and the fieldworkers impro-
principle of minimal probing activity is vise, drawing on the theoretical notions
used by the interviewer, who limits oneself and experience guidelines they have
to head shakings, glances, nods, silences, acquired. “If we can keep the person on
and short verbal probes like “uh-huh”, the subject of his experiences for three
“yeah”, “oh really”, or asks for elaboration hours or so with a few probes of sympathy
and clarification: “You said you felt scared. and understanding, then we feel that the
Could you tell me more about this interview was excellent”, Charles Fritz, the
feeling?”, “What thoughts ran through field director, says (50). Searcy, Ark.,
your mind at this moment?”. The shelters the team headquarters, while the
schedule, covering the major topics of White County area, badly hit by the tor-
interest, is not used until the respondent nado, is the core of the field. Ray Gordon
is done with his or her spontaneous explains that six interviewers were

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59
recruited on the spot, hard to fine because resources in budget, time and staff. The
of the lack of interest of Little Rock selected area ran 20 miles in the north-
students or because of the involvment of south direction, 15 in the east-west, and
the local population in the cleaning-up of contained five towns. Three groups of
the area. The interviewers eventually are: involvement are done, the households
a part-time clinical psychologist, a former enumerated, random respondents chosen.
social worker, a free-lance newspaper Leaflets, insisting on the sponsorship of the
writer, a theology student, the wife of a Department of Defence and the National
theology student, and a upper class Research Council, are distributed after the
housewife. They are given a three days interviews in order to explain the aims of
basic training. Their Arkansas accent helps the survey. Last, R. Bain, L. Krause and
to get good interviews, and the two C. Fritz describe the difficulties they
theology-bound people prove to be encounter in the small town of D., where
excellent interviewers, spontaneously the factory owner, after cooperating,
mastering many non-verbal probes. “The forbids his employees to answer the
most difficult interviewers to train were interviewers. “If this tall, skinny, bastard
those who had had previous experience [R. Bain] ever comes around here again,
‘of the wrong kind’: straight public opinion I’ll kick his ass from here to Florida” (51).
polling”, usually unable to “use long pau- It seems that the man paid low wages to
ses as probes”. his workers, and did not want them to be
briefed about this state of affairs. To D.
The statistician of the project, Jack Riesman, B. Karsh and W. Lawton’s
Feldman, comments the sampling questions on sampling, J. Williams points
problems. Usually, in small-scale studies, out that random sampling prevents from
they use a combination of a purposive “interviewing only those who are easy to
sample, through listings compiled from talk to or who seek out interviewers”. 350
hospital records, newpapers accounts and people were interviewed in the regular
special informants, with a random area sample, and 90 in the special informants
sample. They get probability samples group, such as community or town leaders,
yielding people with all degrees of who have a panoramic view of the social
involvement in the tornado; with limited organization.

3.5 A LAST INVENTORY OF PROBLEMS: A PRELUDE TO CASES


ON FIELDWORK

MARIANNE RIGSBEY’S MEMO


The first step in thinking about how of problems which field workers do
to train people to do successful field have; to anticipate thereby those
observation is to recognize the kinds which the learner may be expected
Antropolítica Niterói, n. 9, p. 25–76, 2. sem. 2000
60
to have; and from there inventory the nally identified with persons or groups,
kinds of solutions which have worked drawing the line between the research role
in some situations and might work and “political action” in the situation,
in others, as well as those which might handling one’s negative feelings toward all
work but haven’t been tried or have or some people being studied (due to
not previously been successful personal fatigue or disagreement with
(RIGSBEY, 1952). others’ beliefs); b) presenting true, though
simplified, definition of one’s role, in terms
M. Rigsbey tries in her memo to synthesize comprehensible of the experience of the
some of the major statements that observed, and broadening this definition
emerged, according to her, during the as the research progresses; learning
seminar. She distinguishes three ranges of techniques whereby such definition and
problems. One is the repertoire of the redefinition can be accomplished in a
researcher as a person, with a social status smooth and not threatening way
(class, ethnic, management-labor, commu- (preliminary mapping of an area;
nity leader), one can sense through sex, sponsorship within the group; repeated
age, language and clothing attributes, and explanations to each contact; trustworthy
an emotional constitution, which gives him sponsorship outside of the group;
or her a specific temper and character, and recurrent assurance of confidentiality and
whose weak points are to stay under anonymity); c) adjusting one’s role to meet
control in stressing or puzzling situations a changing situation: to build, maintain,
in the field. She notes that the grasping of or regain rapport within an interview, to
the social status and emotional constitu- sustain the interest of the respondents over
tional of the fieldworker by the subjects several interviews or to keep the same
varies according to the type of research research role during «crisis situations»; d)
situation: it is contextually dependent on perceiving, correcting, and manipulating
the kind of setting interactions the the roles attributed to oneself by others,
fieldworker is confonted with – door to who wait and ask for therapeutic help or
door interviewing; community research; opinion support, or ascribe roles familiar
or inquiry in a closed institution, like a in other areas of living (parent-child,
school or a factory. confidential friendship).

Taking into account the situational This analytic description of field


conditions of the investigation does not interactions is confronted, according to M.
mean renouncing the quest of objectivity. Rigsbey (1952), with the ethical problems
On the contrary, it is a way to be more encountered in field situations and in the
conscious of one’s operations and biases process of the communication of results.
of inquiry. Among the tasks at stake: a) After the fieldworker goes back to the
maintaining “objectivity” in a social University and leaves the field, (s)he has
situation, avoiding imposition of one’s own to translate and interpret his findings to
perspectives and values, being emotion- an academic audience. A first range of

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61
problems is to decide what information to cannot say everything. He or she has to
give, to whom and with what words. Is is select among the data what is worth to the
recommended not to use too an esoteric analysis fair to the subjects, and has to give
vocabulary and to find a way to present in up sometimes data which would be
an understandable way experiences which enlightening, but dangerous or prejudi-
are unknown to the audience they are cial. He or she has to be conscious of the
reported to. The ideal is an impartial consequences of the publicization and to
reporting which helps understanding evaluate the risks incured by the
without value judgement – but in practice, informants, which means to anticipate
one has to target specific audiences some plausible effects of the reception by
(university networks, supporting foun- professional and LAY audiences. M.
dations, public commissioners) and Rigsbey points out these difficulties, the
sponsors within the group (managers, anthropologists had already listed. The
union leaders, community leaders). The interesting point is that the quest of
problems she mentions are those of objectivity is not inconsistent with the
preserving the anonymity of persons and respect of ethical and political issues in the
groups studied; of dealing in publications field and out of the field and with the
with information told “in confidence”; of acceptation of the contextual and
handling information potentially harmful interactive dimension of field grounded
to some of the subjects. The fieldworker knowledge.

THE “NATURAL CYCLE OF FORMS” OF THE FIELD SITUATION


R. Gold and B. Junker will try to field, there is no set plot; there are
modelize the field situation. B. Junker is no lines to memorize. Instead, there
the first to name the three stages of the is only a more or less structured
field situation: getting in, staying in (or getting exchange of social gestures, which
along) and easing out (or getting off) (Junker, unfolds spontaneously in the course
in Cases on Fieldwork, 1952, I-C and 3- of interaction with the informant
A). In parallel, R. Gold devotes part of his (GOLD, 1954, p. 130).
Ph. D dissertation (1954) to an analytic
description of the social interactions R. Gold wants to found a reflexive
required by field observation. This sociology of fieldwork activities and
dissertation is a very fine piece of work. interactions on C. H. Cooley’s theory of
feelings and G. H. Mead’s constitution
What is difficult for the prospective of the Self, on G. Simmel’s formal analysis
field worker to comprehend is that of social relations and on E. C. Hughes’
playing the role of the field worker is situational description of work collea-
not like playing a set role on the stage gueship. He writes an interactionist
or a ritualized role in an office. In the interpretation of fieldwork, long before the

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62
post-Blumerian attempts to do it. The status of a spokesman or a representative.
main arguments of his work are still very The fieldworker is very cautious and
relevant (even if alternative paths to social explains in an impersonal mode who are
psychology, e.g. the uses of ecology or his/her sponsors and what are the
ethology by E. Goffman or the cross- objectives he has been assigned. Both act
fertilizations between ethnography and as if third persons or audiences were
ethnomethodology are to be explored). watching them, as if threatened or
The “attitude of the sociologist-as-field inhibited by this General Other. The risk
worker” is one of “process curiosity” is that they remain blocked by this triadic
oriented to situations, persons, events and imperative and never switch to a diadic
actions, opposed to “ethnocentrism” and relationship. 2) According to R.Gold, when
projection of stereotypes onto the field; it a minimum of confidence is gained from
is an ability to take and play roles, to be the informants and the subjects, the
sensitive to the roles one is playing and to fieldworker can take the initiative in being
understand the configuration of more personal or reciprocal. Both
interactional consequences of these protagonists have to co-produce the rules
strategic and tactical choices. R. Gold, of their interaction game, to invent the
while taking into account the temporal distribution of their roles, to im-
improvisation of the field relationships, provise the ongoing course of their
proposes, in the very naturalistic legacy of conversations, to define and master the
Chicago sociology, a formal analysis of their field situation in which they are involved.
“natural cycle” (GOLD, 1954, p. 84). These A good fieldworker has learnt the
“forms of interaction” are observable in competences of an investigator in such a
one shot interviews as well as in long term way they became a “second nature”.
fieldworks. Otherwise, (s)he switches from his “major
role” of observer or interviewer to “minor
The “sparring match of social roles” of friend, neighbor, activist, convert,
gestures”, as E. Hughes liked to say, has tourist or colleague – avoiding the stigmas
three stages, understood under Simmel’s ot the spy, the policeman or the muckraker.
conceptual scheme of dyadic and triadic As relevantly as possible, in connection
relations: 1) Getting in requires to present with the situational contingencies, (s)he
oneself and one’s research project to the develops strategical and tactical acting lines
subjects and the informants. Fieldworker of role-deception and role-pretention.
and informant are in a triadic relationship: (S)he has to respect a constraint of
they categorize each other through pre- consistency between the series of faces (s)he
given systems of roles and define the presents to the subjects, in order not to
situation through institutional or ritual spoil his/her capital of personal reliance
frames. The informant often addresses the and of professional credibility in the field.
minister, the trade board or the factory (S)he has to find the right balance in Self-
boss – or the public in general – above the processing between the demands of role
fieldworker’s head; he ascribes him the and Self, in order no to be overwhelmed

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63
by affects of fear or anxiety and to situation without any feeling that anyone
minimize the disturbing effects of has been “mistreated or vilified”. They
suspiscions and misgivings, in order to take break the contact, close the field situation,
off the “barriers of communication” with provisionally if they evoke the possibility
his/her interacting partners and to help to keep in touch, go back to their previous
them to be in a comfortable position and activities and end with the interpersonal
to understand what the role of informant intimacy of the dyadic relation. The
consists of. The ideal is to involve them in fieldworker has to protect the vulnerability
a “colleague relationship”, made of of the informants, eager to hear new
“introspective interaction”. 3) Getting out commitments to confidentiality, and to
is a critical stage of the field interaction. leave them with a feeling of satisfaction, if
Fieldworker and informants resume the s(he) does not want nasty rumors or
“triading imperative”: they ease out of the rejection cabals to arise against him/her.

ROLE AND SELF IN PARTICIPANT OBSERVATION


R. Gold and B. Junker define what The dynamic constitution of his Self-as-
does being a participant observer 9 mean. Social-Scientist lacks of integration: the
They coin for the first time the typology over-development of one of these four
of complete observer, observer-as- dimensions is sometimes balanced with
participant (one shot interview), injuries to the self-esteem or career
participant-as-observer (community study) expectations (PI), with the credibility of the
and complete participant. The four stances role he plays in the field (SI), with the
of participant observation (GOLD, 1954, sensitivity, the quality and quantity of data
p. 53, 167; GOLD, 1958; JUNKER, 1960, he collects (TP), with the reactions of
p. 35-38) have become a classical theme of indignation, hostility or rejection of which
fieldwork studies since that time. B. Junker he is the target (EP). E. Hughes will close
also invents a quadrilateral diagram, with the seminar saying that B. Junker’s “four
at each corner the participant observer’s demands” scheme illustrates what is most
private personality, social identities, peculiar to the social scientist’s
technical skills and ethical dilemmas. We investigation.
find a first formulation of this diagram in
1952. The social scientist has a personal R. Gold gives a further
identity (PI) (psychic personality) and a interpretation of the fieldworker and the
social identity (SI) (roles and status); he informant’s lack of Self-and-role
confronts technical problems (TP) and integration. He discusses in his dissertation
ethical problems (EP). “His field (GOLD, 1954, f. 112) the “balancing
observation problems arise when he has demands of role and Self ”, on which
trouble integrating these four sets of depend the quality and quantity of the
demands or pressures” (JUNKER, 1952d). data collected in the field and the

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64
acceptance or rejection of the research The anxiety of loosing one’s self-integrity
project by the subjects. G. H. Mead’s leads to the impossibility to deal with the
conception of the Self (1934) underlies this dyadic and triadic structure of the field
theoretical elaboration. The Self exists as relationship, and to the feeling of personal
both an object (Me) and a subject (I) of one’ rejection and professional inadequacy.
activity: the Self is the process resulting Some of the learners, crushed by a
from the continual interaction between I paranoiac sentiment of hostility, convinced
and Me. Thus, the self-control through of their lack of authority and unable to
action is the monitoring of the tension develop self-assurance, quit the field, and
between playing social roles and satisfying sometimes, quit sociology. The others learn
self-objectives. The fieldworker has to to manipulate field interaction, to present
prevent to be thwarted and lose his/her their role as warranted by a public
face, which means the bogging down and mandate; they learn to master the field
the breaking off of the field relationship. ambivalences, to pull the ropes of their job
The fieldworker, frightened by his/her while keeping in touch with their Self. Role
vulnerability, does not involve his/her Self and Self are well balanced when the
in the field situation, and erects barriers fieldworker feels at ease at integrating the
to the communication between Self and constraints of his/her personal integrity,
others and Self and Self. “S(he) becomes” the demands of his/her social roles and the
inscreasingly conscious of the role and technical and ethical requirements of the
him/herself in the role” (GOLD, 1958). craft.

4 CONCLUSION: THE LEGACY OF THE FIELD TRAINING


PROJECT
On July 12, 1952, R. Gold and B. Forces in 1958. M. Chandler draws on her
Junker present a joint paper, “some field experience on labor-management
Observations on Field Observation”, at the relations in a medium size midwestern in-
meeting of the Society for Social Research, dustrial community known as Illini City
of which Josephine Williams was the (1948-1949), especially a local garment
President. Margaret K. Chandler, Institute industry employing 500 women in five
of Labor and Industrial Relations of the unionized plants: “methodological
University of Illinois at Champaign, a Conclusions Based on a Field Research
former E. Hughes’ student, accepts to be Experience: The Changing Role of a Field
a discussant. The lecture consists of “The Researcher” (no date, probably 1952). She
FTP: Toward a Sociological Rationale for explains that the participant-observer
Field Work”, more or less a initial chapter standpoint, although it requires “a good
of Junker’s Fieldwork book, and “some Role deal of energy and effort”, allows the
and Self Problems in Field Observation”, researcher, after she secures the entrance
a draft of Gold’s paper published in Social into the factory settings, to go through
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65
diverse roles during the fieldwork and to changes along the process of the inquiry.
obtain a wider range of data than through The more familiar with the workers, the
“one-shot survey”. She can learn to “place unionists and the managers, the more
events in the same perspective as the accountable for the side she is on. A
participants in the life of the factory and solution was to “manifest sympathy” to
union did” and “estimate their significance people without making explicit a position
in the eyes of the participants” (8). A ori- on one issue. But in the last stages of the
ginal notion she coins is that of “worker fieldwork , the involvement in personal
participant-observers”: some of the relationships with people and the
insiders watch their working life-worlds circulation of information about
“with a detached but keen interest” and researchers through grapevine complicate
have “vast storehouses of information their work. According to M. Chandler, the
regarding their environment” (10). These qualities of the good fieldworker are the
people, who have a first-caliber sense of detachment, a situational
competence of reflexivity, become her flexibility and a natural curiosity.
“principal informants”. The reliable data
they provide can be checked against other The FTP was to have effects on
workers testimonies, historical accounts teaching and training fieldwork students,
and personal documents. M. Chandler which are difficult to assess. The edition
makes a typological distinction between of Cases on Fieldwork (HUGHES; JUNKER;
these worker PO, the “silent worker” and GOLD; KITTEL, 1952) was used in field
the “average worker” types who may have classes at UoC, but did not have the success
concern with their job, but are not relevant it deserves. Margaret Chandler asks for a
reporters and analysts, and the “windbags” copy while she is at University of Illinois,
type, highly talkative, sometimes Champaign. Don Roy as well, at Duke
prominent leaders in the formulation of University, North Carolina (letter to
grievances, but not self-controlled and Buford Junker, May 30 1953). He sends
level-headed enough to give accurate his greetings to W. L. Warner by the same
descriptions of the factory life. The setting, occasion, as well as a bibliography of his
she says, is like a “social laboratory” (17), “seminar in Industrial Sociology”. In 1970,
where the fieldworkers are not free to he will refer, in a study published by R.
manipulate the persons and events they Habenstein (1970), to B. Junker’s Fieldwork
are observing as variables. But the as his model of field investigation. W. F.
experiments are devised by the Whyte (1994) is gone in 1948 to Cornell
participants, and their effects, they be University, where he directs a similar
“clumsy or catastrophic”, are congruent project on Field Training, in 1951-53, with
and consistent with the workers ways of Stephen Richardson (1953)10 : they are in
defining and mastering the work contact with B. Junker at this time and
situations. On the other side, even if exchange documents. R. Gold moves to
maintaining a “neutral” and “impartial” the Department of Sociology, Montana
figure, the status of the fieldworker State University, of which he becomes the

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66
Chairman: he applies for a grant from the The FTP dropped out of collective
National Science Foundation, for a project memories after the 50’s. It seems that the
called “development of Field Observation young researchers who practiced
Methods in Social Research” (1959) and fieldwork around Morris Janowitz and
trains a cohort of students there. E. Gerald Suttles in the sixties at UoC did not
Hughes, W. L. Warner, D. Riesman and P. refer to it any longer (personal letter of G.
Lazarsfeld are mentioned as his project Suttles). This oblivion was symptomatic of
advisory personnel. Last, E. Hughes gives the discontinuity of the Department of
the following question to undergraduated Sociology legacy in the 50’s (ABBOTT;
students in Autumn 1960, Soc. 210: “draw GAZIANO, 1995). But the FTP teachings
together in a general statement what scattered and spread over the academic
Junker says of ‘Social Roles for world, through a process of dissemination,
Observation’, Whyte’s account of his role particularly to Northwestern and Berkeley,
in ‘Street Corner Society’, Goffman’s work and later in the 60’s, to Brandeis, UCSF,
on ‘The Art of Impression Management’, UCSD, UCSB or UCDavis. For instance,
and any other things you have read or Julius Roth, the author of Timetables, who
personally observed on this problem”. He will be hired by UCDavis, sends in 1963 a
will still draw on B. Junker’s manual after document of reflection of his experience
he leaves for Brandeis University in 1961 of fieldworking in hospitals to B. Junker,
(Reinharz, in Fine, 1995). And he will have as an echo of the publication of Fieldwork
an extensive correspondence with B. (1960). The FTP gave rise to new trends
Junker when the latter is about to revise of reflection and experiment in field
the content of his book for a new edition studies.
in 1970.

NOTES
1
Many thanks to Raymond Gold and Howard Mayo and Roethlisberger on methodological
Becker, who kindly read and commented this problems, of B. Gardner on the social
text, to Dan Meyer and the staff of the Special organization of the Greeks and of Mrs Goldberg
Collections of Joseph Regenstein Library, on Jews). In 1932, he does some fieldwork for
University of Chicago, and to Andrew Appleton E. Mayo and the Harvard Graduate School of Business
who corrected the last version of the text. Administration on the Norfolk State Prison Colony
(Mass.). From 1934 to 1937, he is hired by the
2
B. Junker was born in New York in 1911. Julius Rosenwald Fund, and does community and
Graduated at Harvard in Spring 1934, he follows school studies in 17 Southern states, especially
W.L. Warner to the University of Chicago in Georgia, North Carolina and Tennessee. In
1935, where he attends classes in 1937-1938 and 1938-1939, he is executive director of the
resumes after World War II. On the Yankee City research team of the NegroYouth Study at Chica-
project (1931-1934), he investigates among other go, for the American Council of Education. In 1939-
topics on football rituals (his name appears in a 1940, for the General Education Board, under the
1931-1932 document announcing conferences supervision of R. J. Havighurst, another close
of W.L. Warner on social stratification, of W.L. collaborator of W. L. Warner’s, he investigates
Warner and E. Chapple on associations, of E. social stratification and high school education
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in Michigan and South Carolina; in 1940, mostly thought that this way of doing things had
opinion formation in a small town in Michigan always existed, and didn’t realize that we were
(Rockefeller Foundation, John Marshall Dir.) and in some way inventing it out of materials given
in 1940-1941, educational topics (Institute of by us by our predecessors. The influence of
Child Welfare, University of California at anthropology was very strong. Goffman and I,
Berkeley). During the war, from 1941 throu for sure, thought of ourselves as much as
1943, he is a member of the Bureau of Strategic anthropologists as sociologists (I still do)” (H.
Services, and takes part into the campaign from Becker, personal communication, Sept. 21,
Algiers to Naples and Paris. Back to Chicago, he 2000).
is hired by the Committee on Human Relations 5
In The Participant Observer (1952), published by and
in Industry on the Sears, Robuck and Co.
for students in the Department of Sociology (Robert
organization and market studies, under the
Bain, Rue Bucher, Kay Pendleton, Marianne
supervision of B. Gardner, and becomes between
Rigsbey are part of the staff), one can find news
1946 and 1949 assistant director of the private
on the NORC Disasters team and of Rue Bucher,
consulting company, Social Research Inc.,
Enrico Quarantelli and Bob Marsh who are
controlled by Gardner and Warner. He is back
doing interviews after the third airplane crash;
to UoC at the Committee on Human
a piece of information about the Field
Development in 1948, teaching in parallel at the
observation seminar offered by E. C. Hughes and
Illinois Institute of Technology. From October
B. H. Junker; an appeal for fieldworkers on
1951 to October 1952, he is research director of
Samuel Kincheloe’s religious census project in
the Social Sciences Project on Field Training,
the South Shore area; and a notice on Robert
funded by the Ford Foundation. He complets
Bain and Walter Ducey, who are participating
his Ph.D dissertation in 1953-1954 (1954). His
as research assistants in a project sponsored by
carrier will unfold later in Indianapolis, Alabama
the Industrial Relations Center, dir. Charles W.
(1955-1956: philanthropic project called
Nelson, on a local industrial plant.
Community Surveys), at Lexington, University
of Kentucky, then at the University of Pittsburgh, 6
Hughes (1952a) in Joseph Regenstein Library,
Pennsylvania (1956-1959): course on voluntary Special Collections, Buford Junker Papers, Box
organizations), and last at Chicago City Junior 1.
College (1959-1963), Chicago City College (Pro- 7
Charles Fritz (1951) describes the effects of an
fessor: 1963-1970) and Olive-Harvey College,
experiment, sponsored by the US Army
Chicago (1970-1976). He dies in 197*.
Chemical Center, which was scheduled at 12:03
3
R. Gold comes to the Department of Sociology at pm, in the Loop and Near North Side, to record
the UoC in March 1947. He obtains his MA the reactions of the public down the street and
degree in September 1950, and his Ph.D in of the official Civil Defense systems against an
December 1954 (1954). He gets a job of Assistant- unexpected air raid. Four Air-Force B-25
Professor and Chairman of the Department of bombers flying at 2000 feet, and six civil Air
Sociology at Montana State University, Missoula, Patrol, flying over the Chicago river area at an
where his carrier will take place. altitude of 200 to 500 feet, are part of the
simulation. Observers are assigned points of
4
“I would say that the FTP was not the place where
observation on State and Randolph, State and
the invention took place, but it was the place
Van Buren (retail shopping districts), Van Buren
where serious reflection about it in a general
and Wells (clothing manufacturing district),
form took place, where the problems were
Wabash and grand (rooming house and business
clarified and systematized”. “In the immediate
district) and West Illinois and North Franklin
postwar period […], we ‘just understood’ that
(lower class rooming house district). The
you could do research by talking to a lot of
experiment is a failure: the noise of the sirens
people, watching what they did, writing it all
catches the attention of people, but depending
down, then making some kind of sense of it. We
on the places, many do not even bother and

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68
glance skyward. The event had been publicized might be restated in our terms as one of
by the press and the situation was defined by providing the student with a learning situation
the bystanders as a “test”, therefore a non in which he might move and develop from a
threatening situation. The cancellation of the ‘complete participant’ to a field worker role of
firing of blank ammunition by anti-aircraft ‘complete participant’ to something beyond this
batteries was not justified, according to the – such as the trained sociological field worker,
NORC report: there was no mass panic, no either in the role of p as o or in the role of o as
disorganized overt behavior, no seeking of public p”. “the student moves from a position of student
shelters. “Panic behavior in disaster situations to one of complete participant – at least in terms
rarely occurs unless there is an obvious physical of his fraternity relationship – to a position of p
danger which is immediately present and there as o”.
are no apparent routes to escape” (JANIS, 1951).
“Miss Palmer is suggesting that the diarist in
8
Out of the regular participants to the seminar, question came to act in the field worker role of
are present: Charles E. Fritz, who rules the P as O – her participant observer; and that another
project (1957), Enrico Quarantelli, who will role might be that of complete participant – her
become a specialist in this area (1978), Shirley participant observer – who gives ‘equal emphasis’
Star, who had completed her Ph.D on to each function, though at some personal cost.
Measurement of Interracial Tensions in Two Chicago By ‘observer’ she seems to imply minimal or no
Neighborhoods (1950), Rue Bucher (MA 1952), participation as a member of the group observed.
future researcher in the area of occupations and Such minimal participation would characterize
Irving Krauss (MA 1952), future researcher in our O as P role, in which the fieldworker’s
stratification studies. Among the students also interaction with the people observed is almost
involved in the NORC Project: Julius Roth, the completely in terms of his function as observer.
future author of Timetables (1963), Jacob No participation might characterize the
Feldman, later Ph. D on The Dissemination of Health ‘observer-though-the-one-way-screen’ or the
Information (1965), Robert G. Scigliano, later Ph.D ‘peep-hole observer’ or the person who reports
of Political Science on Politics and the Judicial Process what he saw via television: in all these cases, it
(1957). In this seminar take part as well: David would seem that his report would be strongly
Riesman, Robert Bain, William Lawton, influenced by the strictly vicarious nature of any
Josephine Williams, S.Adams, Ray Gordon and participation so achieved. The less actual
Rothbart. participation, and the more pure the observer
function, the more one would expect the
9
Junker (1952d, 1952b) in Joseph Regenstein
resulting report to be in terms of classical
Library, Special Collections, Buford H. Junker
behaviorism, with meaning, if any, heavily loaded
Papers, Box 1. B. junker quotes excerpts from
with idiosyncratic projections set forth by the
vivien palmer’s manual on case-study methods.
reporter […]. It would seem that in the social
he mentions the field report on the rangers gang
science, the ‘pure observer’ must remain a
(palmer, 1926, p. 243-244): the complete diary
supernatural personage, a ghost to haunt the
extends over three months – e. hughes claims in
seekers after ‘perfect objectivity’”.
a personal letter that these data were collected
by one of his students in the mid-twenties – and 10
Another project is developed by Urie
establishes a system of translations between Bronfenbrenner, John Dean, Stephen A.
palmer’s and his own system of categories. “in Richardson and W.F. Whyte, at the State School
this paragraph (p. xviii-xix), miss palmer is of Industrial and Labor Relations of Cornell
pointing up the possibility that the student, University (1951-1953). They are working on
already a complete participant in some group materials from studies on a Pentacostal Church,
because of ‘who he is’, can carry on his initial a hospital and a laundry; and on the “rank-and-
fieldwork efforts ‘quietly and informally’ to file union members, their stewards and officers”.
secure information which an outsider could not Leonard Sayles, who later co-signs a book with
obtain. the training objective suggested here M. Chandler, “lives with” two locals of the United
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Steelworkers of America (CIO) in Dunkirk, NY, family relationships, customs and traditions
during eight months. At the end, W.F.Whyte and among the Indians. This base is dedicated to the
L.Sayles “play back the record” for 27 union training of students as well. Last, Stephen
officers, during a four-day institute at Dunkirk. Richardson makes an experimental movies on
At this time, Cornell University leases a 40,000 training materials for social science field workers,
acres hacienda in Vicos, Peru, and settles an “on- explaining how to acquire the skill of observing
the-spot social science laboratory” there with a social situations. See Richardson S.A., “Progress
Carnegie Foundation grant, in order to observe Report on Field Research Training Program”,
the changes in health, education and agriculture, 1953 (in Joseph Regenstein Library, Special
Collections, Buford H. Junker Papers, Box 1).

RESUMO
Neste artigo, o autor objetiva mostrar a “revolução metodológica”que
teve lugar na década de 1950 no Departamento de Sociologia da
Universidade de Chicago. “The Field Training Project” (FTP)
era um experimento coletivo no qual cientistas sociais, estudantes e
pesquisadores discutiam os problemas que encontravam no cotidia-
no do trabalho de campo e buscavam elucidar a especificidade da
observação participante e da entrevista em profundidade. Baseado
nos dados empíricos encontrados nos arquivos das Special Colletions
of the Joseph Regenstein Libary, UoC, o artigo traz informações
sobre o contexto histórico da FTP. Reconstrói o que se compreendia
por trabalho de campo entre os estudantes de Everett Hughes em
sociologia das profissões, na equipe de investigadores de W. Lloyd
Warner de estudos de comunidade e na equipe de investigação de
catástrofes do National Opinion Research Center. Investiga o con-
texto institucional e as contribuições pessoais de seus participan-
tes, sendo E. C. Hughes, Buford H. Junker e Raymond Gold os
principais personagens. O artigo também detalha os tópicos debati-
dos no Seminário da Primavera de 1952. O FTP deu forma a
muitas questões que, posteriormente, foram assumidas pela “socio-
logia qualitativa”.
Palavras-chave: Universidade de Chicago; trabalho de campo;
observação participante.

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77

CRISTIANISMOS AMAZÔNICOS
E LIBERDADE RELIGIOSA: UMA ABORDAGEM
HISTÓRICO-ANTROPOLÓGICA*
RAYMUNDO HERALDO MAUÉS* *

Este trabalho discute a questão da liberdade religiosa (e, implicita-


mente, dos direitos humanos), tomando como exemplo o caso brasi-
leiro e, mais especificamente, o amazônico. Visa a fazer essa dis-
cussão a partir de um breve estudo histórico-antropológico dos cris-
tianismos amazônicos e, mais particularmente, das formas pelas
quais se implantaram nessa região brasileira. Toma exemplos de
outras partes do mundo para mostrar semelhanças e discute, em
relação à realidade brasileira e à amazônica, os conceitos de
fundamentalismo, teocracia, cristandade e padroado como concei-
tos-chave para entender processos político-religiosos do passado e
do presente.
Palavras-chave: liberdade religiosa; direitos humanos; cristianis-
mo; Amazônia.

Não é difícil encontrar na imprensa, em tanta evidência na mídia nos dias atuais. A
nossos dias, exemplos de intolerância re- escolha tem o propósito de chamar atenção,
ligiosa. Escolho, um tanto aleatoriamen- inicialmente, para casos extremos de intole-
te, dois deles relacionados ao mesmo rância religiosa não-cristã, antes de poder
país, o Afeganistão, que se encontra em entrar diretamente no assunto que preten-

* Trabalho apresentado originalmente na Oficina sobre “Direitos Humanos, Liberdade Religiosa e


Territorialidade”, promovida pela Associação Brasileira de Antropologia (ABA), de 21 a 22 de setembro de
2001, em São Luís, MA. O texto sofreu algumas modificações após sua apresentação, visando a adaptá-lo
para publicação. Agradeço às pessoas que o comentaram durante e após sua apresentação na oficina em
questão.
** Doutor em Ciências Humanas (Antropologia Social), Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de
Janeiro, 1987. Professor do Departamento de Antropologia da Universidade Federal do Pará.
Antropolítica Niterói, n. 9, p. 77-100, 2. sem. 2000
78
do discutir, isto é, a intolerância e a vio- Afeganistão, na seqüência de reações aos
lência contra a liberdade na Amazônia, atentados terroristas (também implacáveis)
provocadas num passado não tão distante que, em setembro de 2001, abalaram Nova
pelos próprios cristãos, contra manifesta- York e o mundo.
ções religiosas concorrentes dentro e fora
do mesmo cristianismo. Diante desses fatos, podemos então nos
perguntar o que isso caracteriza, do pon-
O primeiro é um exemplo de violência to de vista dos direitos humanos e da li-
muçulmana contra o budismo, mas que berdade religiosa. Neste artigo, após dis-
teve repercussões bem mais amplas, pois cutir os conceitos de fundamentalismo,
constituiu-se em verdadeiro atentado con- teocracia, cristandade e padroado, trata-
tra o patrimônio cultural da humanida- rei do estabelecimento do cristianismo na
de: trata-se da recente destruição das duas Amazônia, a partir do século XVII, em
gigantescas estátuas de Buda, de valor his- razão do que foram cometidas tantas vio-
tórico inestimável, que ficavam no famoso lências contra as crenças e práticas religio-
sítio arqueológico de Bamiyan e datavam sas de índios, negros e colonos. Discutirei
dos primeiros séculos da era cristã. O se- também a fraqueza institucional da Igre-
gundo está voltado contra o cristianismo ja, mesmo na vigência do modelo de cris-
e provocou grande comoção nos chama- tandade, assim como a vinda de missioná-
dos países “ocidentais”, especialmente os rios protestantes, desde o final do século
de maioria protestante: a prisão e o julga- XIX, ocasião em que irei destacar também
mento dos oito “agentes humanitários” — as dificuldades e perseguições sofridas
dois norte-americanos, quatro alemães e pelos mesmos, até uma época bem recen-
dois australianos — acusados pelos te. Nas considerações finais, retomarei
fundamentalistas islâmicos que governa- exemplo de fora do Brasil, mas não mais
vam o país de tentar converter muçulma- de um país muçulmano — trata-se da
nos para o cristianismo. Esse julgamento, Guatemala, nas décadas de 1970 e 1980
que seria realizado de acordo com “a lei —, para mostrar como o fundamentalismo
islâmica da Sharia”, poderia levá-los, se cristão (com apoio do governo dos EUA)
condenados, até mesmo à pena de morte. pode ser também uma séria ameaça à li-
Como é sabido, esses missionários acaba- berdade religiosa e aos direitos humanos.
ram sendo libertados durante a implacá- Com isso, pretendo concluir, fazendo uma
vel guerra liderada pelos EUA contra o reflexão que pode ser pertinente em rela-
governo fundamentalista islâmico do ção ao atual campo religioso brasileiro.

1 FUNDAMENTALISMO, TEOCRACIA, CRISTANDADE E


PADROADO

No próprio relato, feito pela imprensa, dos tados, utilizou-se, amplamente, o conceito
fatos ocorridos no Afeganistão, acima ci- de fundamentalismo. Segundo Florencio
Antropolítica Niterói, n. 9, p. 77-100, 2. sem. 2000
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Galindo (1995, p. 168), Há um debate acadêmico sobre o assunto,
que mostra que, em várias ocasiões, o ter-
O termo fundamentalismo provém de mo é aplicado de forma muito genérica e
uma série de folhetos nos quais 64 não rigorosa. Segundo Veronica Melander,
autores britânicos, americanos e ca- que discute essa categoria em relação à
nadenses fixaram, entre 1910 e 1915, América Latina e a denominações e movi-
os princípios de fé do movimento. A mentos religiosos cristãos na história re-
obra se intitulou The Fundamentals: a cente da Guatemala, com base em vários
Testimony to the Truth [...] a publicação autores e em sua experiência de pesquisa
e o movimento foram apoiados por naquele país,
magnatas do petróleo americanos, em
parte para contrapor-se ao chamado os movimentos que geralmente são
“evangelho social”. Princípio básico da classificados como “fundamentalistas”
obra era a inspiração verbal e a abso- não são contra a modernidade en-
luta inerrância da Bíblia. Para preci- quanto tal, mas contra a modernidade
sar esse princípio mencionam-se ou- secular ou o modernismo [...]. Con-
tras quatro verdades fundamentais: seqüentemente a categoria “anti-
o nascimento virginal e a ressurrei- secularismo” é usada [por Westerlund
ção corporal de Jesus, o valor (1996), que está sendo citado por ela]
expiatório do sacrifício de Cristo e seu como uma alternativa preferível a
retorno físico. Observando só esses “fundamentalismo”.
“fundamentos”, se poderá dizer que
a diferença essencial entre os Citando, além disso, a revista jesuíta espa-
fundamentalistas e os demais cristãos nhola Estudios Eclesiasticos, em seu núme-
não está tanto na doutrina, exce- ro de abril-junho de 1993, que foi “dedi-
tuando o conceito de inspiração e cado a um estudo comparativo sobre
inerrância da Bíblia e alguma diver- ‘fundamentalismo’, incluindo islã, judaís-
sidade de opinião sobre outros pon- mo, catolicismo e protestantismo”, mostra
tos, mas sobretudo na atitude global como, nesse estudo, o fundamentalismo
[...]. também “é visto como resistência à
modernidade, mas a perspectiva é mais
O fundamentalismo surgiu não propria- ampla, também [colocando-o] como uma
mente para se contrapor ao chamado atitude psíquica que não necessariamente
evangelho social, mas sobretudo para é religiosa”. Em seu próprio estudo sobre
opor-se ao desenvolvimento do protestan- a Guatemala, essa autora distingue dois
tismo liberal. A expressão foi depois esten- tipos de fundamentalismo: a) o que pode
dida a outras religiões, como o judaísmo e ser entendido no sentido tradicional nor-
o islamismo, relacionada sempre a atitu- te-americano; e b) o que se refere a uma
des de tendência ortodoxa e intolerante, resistência à modernidade (MELANDER,
muitas vezes com um caráter basicamente 2000, p. 94).
contrário à modernidade e ao secularismo.

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Sem falar em fundamentalismo islâmico — os últimos anos do século XIX. Nesses re-
mas mantendo esse conceito de forma im- gimes, que não necessariamente se confun-
plícita —, pode-se, no caso do regime dem com a clássica teocracia, uma das ca-
Talibã, que dominava o Afeganistão, falar racterísticas notáveis é a chamada união
também em uma forma de teocracia, um entre a Igreja e o Estado, estando o cris-
termo bem mais tradicional na política e tianismo (no caso brasileiro, sob sua for-
que, segundo o conhecido dicionário Au- ma católica) na condição de “religião do
rélio, vem do grego theokratía e pode ser Estado”.
definido como “forma de governo em que
a autoridade, emanada dos deuses ou de Ainda uma vez a definição do dicionário
Deus, é exercida por seus representantes Aurélio nos auxilia a entender o conceito
na Terra” ou, ainda, como “o Estado com de padroado: trata-se de palavra que vem
essa forma de governo”. Também no co- do latim, patronatu, e que significa “direito
nhecido dicionário de filosofia Abbagnano de protetor, adquirido por quem fundou
(2000, p. 949) é possível encontrar as se- ou dotou uma igreja” ou “direito de con-
guintes definições de teocracia: a) “regi- ferir benefícios eclesiásticos”. Esse regime
me político em que o governo é exercido de padroado havia sido concedido pelo
pela casta sacerdotal” (sendo teocráticos, papa aos reis de Portugal em relação à
nesse sentido, o Estado hebraico antigo, o Igreja Católica e, por isso, entre outras
maometano medieval e o calvinismo de coisas, o catolicismo era a única religião
Genebra, entre outros); b) “doutrina da admitida no Império Português. O gover-
supremacia do poder eclesiástico, do qual no pagava uma espécie de salário
o poder civil extrairia direito e investidura” (“côngrua”) aos padres, promovia a cons-
(e, neste caso, temos o exemplo dos Esta- trução de igrejas e exercia sua proteção à
dos cristãos feudais da Idade Média); e c) instituição eclesiástica, mas, em troca, as
“mais em geral, qualquer doutrina segun- ordens do papa só podiam ser obedecidas
do a qual toda autoridade provém de com a autorização real, assim como as au-
Deus”. toridades eclesiásticas eram nomeadas por
indicação do rei português. Quando o
Chegamos aqui mais próximos de um con- Brasil se tornou independente, o regime
ceito que se aplica ao Brasil das fases colo- do padroado foi mantido por nossos dois
nial e do Império, mas do qual também imperadores. Daí se originaram alguns
não está totalmente isenta a República: conflitos entre Igreja e Estado, um dos
trata-se do conceito de cristandade. Exem- quais, nos anos 70 do século XIX, resul-
plos de regimes de cristandade são os da tou na prisão de dois bispos brasileiros —
Idade Média ocidental, da ditadura de um deles o bispo de Pará, D. Antônio de
Calvino em Genebra e os dos diversos re- Macedo Costa — na ilha das Cobras, no
gimes de padroado que se implantaram Rio de Janeiro, de onde, no entanto, eles
na Europa e nas Américas durante a cha- continuaram governando suas dioceses.
mada Idade Moderna e que persistiram, Mas, a despeito disso, o fato de o catolicis-
em muitos países, inclusive no Brasil, até mo ser a religião oficial do Império impli-

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cava que nenhuma outra religião era re- É neste sentido que podemos falar, nos
conhecida pelo governo, não havia regis- períodos colonial e do Império, em um
tro nem casamento civil, quem não fosse especial regime de cristandade no Brasil,
católico não podia exercer cargos públi- isto é, um domínio (quase) completo do
cos e as Igrejas protestantes só eram tole- cristianismo católico (de algum modo, tam-
radas porque já havia imigrantes e funcio- bém, sobre as consciências), em aliança e
nários de embaixadas que professavam sob a proteção do Estado. Esse regime es-
essa confissão, mas, mesmo assim, o culto pecial só foi abolido com a proclamação
não podia ser prestado em edifícios com da República, quando se estabeleceu, le-
aparência exterior de templo, nem os pas- galmente, a separação entre a Igreja e o
tores podiam, legalmente, fazer proselitis- Estado no Brasil, extinguindo-se o chama-
mo religioso. do padroado.

2 O ESTABELECIMENTO DO CRISTIANISMO NA AMAZÔNIA

Foi, portanto, na vigência desse regime do landeses, franceses, irlandeses. Também


padroado, em Portugal e todas as suas co- para proteger Belém e garantir a navega-
lônias, durante o qual vigorou uma forma ção dos navios amigos que demandavam
específica de cristandade, que se constituiu seu porto foram logo criados dois estabe-
o cristianismo no Brasil. Na Amazônia, lecimentos, ainda na primeira metade do
assim como nas demais regiões brasileiras, século XVII: uma atalaia que, com tiros
esse cristianismo se estabeleceu devido às de canhão, orientava a navegação, no lu-
contribuições de colonos, soldados, aven- gar em que hoje se localiza a cidade de
tureiros, missionários e administradores Salinópolis, e um posto de vigilância, com
coloniais. Tomarei um exemplo específico pequena guarnição de soldados, no qual
de uma área que conheço melhor, a cha- hoje está a atual cidade de Vigia (que de-
mada região do Salgado, no nordeste riva seu nome desse posto, segundo a tra-
paraense, que é banhada pela baía do dição local).
Marajó e pelo oceano Atlântico.1 Logo
após a fundação de Belém, em 1616, os O território de Vigia foi também transfor-
portugueses trataram de estabelecer uma mado em capitania hereditária, doada a
ligação alternativa com São Luís, em par- Jorge Gomes Alemó, que teria trazido co-
te fluvial e em parte terrestre, do que foi lonos açorianos (e/ou algarvianos) para
encarregado o capitão Pedro Teixeira. Isso povoá-la. Como a experiência do
foi feito por razões estratégicas, para ga- donatário não produziu todos os frutos
rantir o primeiro estabelecimento fortifi- esperados (ou por ter mudado a política
cado (Belém), a partir do qual se iniciaria real), a capitania reverteu à Coroa, mas ali
a conquista portuguesa da Amazônia, en- surgiu uma povoação que, em 1693, foi
tão ameaçada — do ponto de vista dos por- elevada à condição de vila, com o nome
tugueses — por vários povos: ingleses, ho- de Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Na
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falta de documentos suficientes, apenas se uma capitania hereditária com colonos tra-
pode especular que a devoção a essa santa zidos pelo donatário, eles evitaram, inici-
tenha sido trazida de Portugal pelos pri- almente, estabelecer-se ali, embora estives-
meiros colonos, pelo donatário ou pelos sem bem próximos. Tinham dois
soldados que ali estavam no século XVII. aldeamentos indígenas na ilha de Colares:
A freguesia (paróquia) foi criada na mes- o aldeamento de Tupinambás, atual cida-
ma época da elevação a vila e lá o pároco de de Colares, e o de Tabapará ou
iniciou a construção de uma igreja de pe- Tauapará. Deste aldeamento, segundo o
dra e cal, que teve o apoio do bispo D. Frei cronista jesuíta José de Moraes, chegaram
Miguel de Bulhões (1749-1760). Em 1732 a mandar índios como mão-de-obra para
os jesuítas chegaram a Vigia. Também para ajudar na construção da matriz de Vigia
lá foram os carmelitas e os mercedários, (a atual igreja de Pedras). Estavam tam-
que construíram hospícios dos quais nada bém estabelecidos em Porto Salvo e em
mais resta nos dias de hoje (nem mesmo a Penha Longa (que depois passou a per-
memória, junto à população local). Mas os tencer aos franciscanos), duas vilas atuais
jesuítas, de 1732 até a data de sua saída que pertencem ao município de Vigia,
definitiva do Brasil (1760), expulsos que para onde os jesuítas só foram (como foi
foram por ordem do Marquês de Pombal, dito, em 1732) a convite dos moradores,
ali construíram uma imponente igreja con- que requisitavam seus serviços como edu-
sagrada à Madre de Deus e um colégio cadores.
com uma biblioteca de mais de mil volu-
mes. Hoje só restam dessas construções as Por que privilegio, neste trabalho, a região
ruínas da antiga matriz, antes dedicada a do Salgado e, especialmente, Vigia? Além
Nossa Senhora de Nazaré — parcialmen- do fato de ter sido o locus em que tenho
te demolida, chamada agora de “Igreja de desenvolvido a maioria de meus estudos e
Pedras” ou “Capela de Bom Jesus dos Pas- pesquisas de campo, trata-se também do
sos” — e, quase totalmente preservada, a lugar em que teve origem a maior devo-
bela igreja dos jesuítas, a Madre de Deus, ção do catolicismo popular paraense, o
que passou a servir de matriz desde 1760. culto à Nossa Senhora de Nazaré, que dali
chegou a Belém, possivelmente através da
Os primeiros missionários (franciscanos) estrada ou caminho terrestre que, desde
chegaram à Amazônia em 1617, logo após os primeiros tempos, havia entre as duas
a fundação de Belém. Os jesuítas, apesar cidades. Nazaré é uma devoção popular
de tentativa anterior, que resultou em nau- tipicamente portuguesa e sua introdução
frágio e morte dos primeiros missionários, na Amazônia é tema privilegiado para ilus-
só conseguiram se estabelecer em Belém trar a maneira como o catolicismo se esta-
a partir de 1653. Nesse mesmo ano já es- beleceu na região, pela contribuição, como
tavam na região do Salgado, então habi- foi dito, de colonos, aventureiros, solda-
tada, basicamente, por índios tupinambás. dos, missionários, administradores colo-
Talvez pelo fato de Vigia ser um posto niais, índios e negros.
militar de vigilância da baía do Marajó e

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3 VIOLÊNCIAS CONTRA CRENÇAS E PRÁTICAS RELIGIOSAS DOS


ÍNDIOS, NEGROS E COLONOS

Esse catolicismo, constituído com base em ros com voz rouca e grossa lhes per-
influências populares ibéricas, com forte suadiam que esta fala era do Diabo,
acento medieval, voltado para festas e de- que lhes punha em a cabeça tudo o
voções de santos, mas influenciado por que queriam; assim me afirmou o
crenças e práticas indígenas e africanas, já principal Roque. Indo eu com ele ver
estava implantado na Amazônia em mea- aquele terreiro, para depois proibi-
dos do século XVIII, quando se deu a ex- lo, como fiz, dando-lhes só licença
pulsão dos jesuítas. Os missionários, por para beber em suas casas, convidan-
sua vez, no estabelecimento desse catoli- do-se alternativamente uns aos outros
cismo, cometeram — certamente até com [...]., mandei (o alferes João Correia)
boas intenções — as maiores violências que fosse avisá-los da minha parte que
contra a liberdade religiosa dos índios, que logo voltassem para suas casas, e
queriam forçar a aderir ao catolicismo. quando não obedecessem [...] que-
Mostrei, em trabalho anterior (MAUÉS, brasse os potes ou igaçabas dos índi-
1995, p. 71-74, 101-104), que passo a se- os, e derramasse o vinho no chão
guir de perto, neste tópico, um exemplo (BETENDORF, 1910, p. 170-171).
entre outros, que é fornecido pelo cronis-
ta João Felipe Betendorf, da ação contro- A violência contra as práticas tradicionais
ladora dos jesuítas sobre as crenças e prá- indígenas era, portanto, um outro aspec-
ticas indígenas. Esse missionário, tendo to da “pedagogia catequética”. O detalhe
chegado ao Pará em 1661, foi designado de proibir as danças e possíveis incorpo-
pelo padre Antônio Vieira para trabalhar rações por espírito em público, mas per-
no Tapajós. Seu relato constitui um exem- mitir que os índios bebessem privada-
plo de como agiam os jesuítas em relação mente em suas casas, tem uma importân-
a crenças e práticas que provavelmente cia especial. Não havia, pois, uma proibi-
estão na origem do que se pode hoje cha- ção absoluta. Nos dias de hoje (talvez em
mar pajelança cabocla na Amazônia: conseqüência disso), as práticas da paje-
lança cabocla são realizadas nas casas par-
Tinham os Tapajós um terreiro mui ticulares, limitando-se a rituais privados,
limpo pelo mato dentro, que chama- para os quais somente um pequeno gru-
vam Terreiro do Diabo, porque indo po de pessoas é convidado, mantendo-se
fazer ali suas beberronias e danças, um certo sigilo, o que é compreensível por
mandavam as suas mulheres levassem várias razões. Uma delas, porém, liga-se à
para lá muita vinhaça, e depois se longa história de repressão, em que o San-
pusessem de cócoras com as mãos to Ofício da Inquisição desempenha pa-
postas diante dos olhos para não ver, pel relevante.
então falando alguns dos seus feiticei-
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Logo após o episódio da expulsão dos je- mento das festas populares de santos (com
suítas de Portugal e de todas as suas colô- aspectos “profanos” nem sempre do agra-
nias, chegou a Belém a Visitação do Santo do das autoridades laicas e religiosas), das
Ofíco da Inquisição, no ano de 1763, sob práticas de feitiçaria, dos aspectos demo-
a chefia do padre Giraldo José de níacos, das orações fortes, das pajelanças
Abranches. Já desde 1625 a Inquisição es- e dos calundus. A Visitação do Santo Ofí-
tava presente no Pará, através da nomea- cio demonstrou o quanto o sincretismo
ção do franciscano Frei Cristovão de Lis- havia progredido na colônia, inclusive na
boa como “Comissário do Santo Ofício e região do Salgado, em meados do século
Protetor dos Índios” (RAMOS, 1952, p. XVIII.
11). A primeira vítima de que se tem notí-
cia completa foi o jovem Adrião Pereira de Pelos documentos que produziu, a
Faria, sargento de ordenanças da vila de Visitação nos fornece um retrato bastante
Nossa Senhora de Nazaré da Vigia. Em aproximado dos costumes e da sociedade
abril de 1754 contava apenas 19 anos, paraense da época. Sigo, a seguir, basica-
quando foi denunciado por possuir um mente os textos dos depoimentos presta-
documento por ele assinado que foi iden- dos diante da Mesa da Inquisição, publi-
tificado pelos inquisidores como um pac- cados na íntegra pelo historiador J. R.
to com o diabo. Levado para Portugal, foi Amaral Lapa (1978). Detenho-me, porém,
submetido a torturas, tendo confessado somente no exame dos casos de denún-
seus “crimes”, condenado à prisão e ao uso cias e confissões que se referem a práticas
de “hábito penitencial perpétuo”. É tam- de cura, feitiçaria e “familiaridade” com o
bém o único caso que se conhece de al- diabo. Trata-se de três “pretos”, dois
guém que tenha conseguido receber co- “mamelucos”, três “índios” e três “bran-
mutação da pena depois de alguns anos cos”. Dentre todos, pelo número de de-
de prisão e voltar ao Brasil para tentar núncias com que aparece e pela importân-
recompor sua vida (SOUZA, 1986, p. 367- cia social de seus pacientes, destaca-se a
368). A prisão de Adrião Pereira ocorreu índia Sabina; ela é denunciada por três
antes da chegada, a Belém, do Visitador depoentes, por casos de cura ocorridos
Giraldo José de Abranches. Todo esse con- antes e durante o período da Visitação.
trole, entretanto, exercido desde os Sabina chegou a tratar do próprio gover-
primórdios da colonização paraense, não nador do Estado, João de Abreu Castelo
impedira que, fora da Igreja “oficial”, en- Branco, por volta de 1746, desenterran-
tre negros, índios, mulatos e brancos, se do, no Palácio, um “embrulho” (feitiço)
desenvolvesse o sincretismo religioso. Para que ali tinha sido colocado contra o ex-
isso contribuíam, em parte, os próprios governador José Serra. Já quando o
sacerdotes, cujos exorcismos e benzeções inquisidor se encontrava em Belém, essa
eram usados para curar doenças. As cren- índia, ex-escrava, tratou também de um
ças do catolicismo de fontes ibéricas se militar da guarnição de Belém, que tinha
mesclavam com crenças indígenas e afri- sido vitimado por uma doença nos olhos.
canas, contribuindo para o desenvolvi- Fez várias sessões de cura, usando água

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benta e defumações de um cachimbo, além dado por um índio, na vila de Boim (LAPA,
de extrair “bichos” e outros objetos dos 1978, p. 173, 211-212, 222-223, 225-226).
olhos do paciente, utilizando para isso a
própria língua. Notável também é o caso Um dos casos mais interessantes é o do
de Ludovina Ferreira, branca, viúva, de índio Marçal Agostinho, referido pela his-
mais ou menos 60 anos de idade, que cos- toriadora Laura de Mello e Souza (1986),
tumava receber a incorporação de várias que teve acesso a seu processo nos arqui-
entidades, usando cigarro tauari (“taquari vos portugueses. Pode-se considerá-lo uma
ou cigarro de casca de um pau”), pena, espécie de “Quesalid paraense”, pois não
maracá e cânticos para tratar dos doentes acreditava em feitiçaria, mas pretendia
que a procuravam, sendo ajudada, nessas tornar-se mestre na arte de curar. Obten-
sessões de cura, por um índio e por sua do a confiança do carpinteiro índio Pedro
filha Inácia (LAPA, 1978, p. 159, 175-178). Açu, tornou-se seu discípulo. Mais tarde,
Pedro Açu, considerando que Marçal
Vários outros casos, minuciosamente re- Agostinho era capaz de guardar segredo,
latados diante da mesa inquisitorial, apre- disse-lhe
sentam descrições de curas xamanísticas,
benzeções de quebranto, mau-olhado e que tudo quanto lhe tinha visto fazer
erisipela, práticas divinatórias etc. Estes são eram fingimentos, com que engana-
os casos da preta Maria, escrava, denuncia- va os circunstantes para lhe terem
da por um plantador residente em Belém respeito; porque não vinham almas
por ter tratado, por volta de 1745, dos es- do outro mundo a estar nos congres-
cravos de sua plantação, acometidos por sos, nem ele subia a chamá-las do teto
uma epidemia de “bexigas”, fazendo uma das casas: e todas as vozes que se ou-
espécie de sessão em que aparentemente viam eram suas, fazendo-as mais fi-
recebeu entidades e fez previsões que mais nas, ou mais cheias, segundo as cir-
tarde se confirmaram; o do índio Antônio, cunstâncias o pediam [...] (SOUZA,
que foi denunciado por ter, em outubro 1986, p. 271-272).
de 1763, tratado de uma mulher, na roça
de seu marido (rio Maguari), realizando Iniciado por esta forma, Marçal Agostinho
algumas sessões em que “consultava” os
seus “pajés” ou entidades; o do índio Do- ficou famoso, requisitavam-no para
mingos de Souza, trabalhador de uma fa- sessões [...], chamavam-no pajé e pro-
zenda no Utinga, nas cercanias de Belém, feta [...]. Diante da Mesa da Visitação,
que, em 1764, realizava típicas sessões de presidida por Giraldo José de
cura xamanísticas, recebendo entidades, Abranches, o índio dizia estar muito
coberto de penas, agitando o maracá e arrependido, e pedia perdão de seus
cantando em sua própria língua; e o do pecados (SOUZA, 1986, p. 271-272).
mameluco Pedro Rodrigues, denunciado
por fazer sessões de cura em que recebia Vale chamar atenção para uma denúncia
entidades, também no ano de 1764, aju- feita contra a preta Joana, escrava que, em

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setembro de 1763, teria enfeitiçado uma diminuindo em freqüência, à medida que
índia por meio de uma bebida que a fez o tempo passava, enquanto durava a
tomar. O fato tem especial interesse, pois Visitação. Ademais, à medida que a Visita
a cura da “enfeitiçada” foi feita através das se alongava, os sustos provocados pelos
benzeções ou exorcismos de um padre “temidos personagens” do Santo Ofício
católico, chamado pelo dono do engenho iam se dissipando. Com efeito, a presença
ou plantação em que a índia trabalhava continuada do inquisidor fez com que o
(LAPA, 1978, p. 191-192). Aqui se encon- Santo Ofício acabasse por virar rotina, re-
tra, claramente, uma situação de como o duzindo-se o medo da população, que ti-
exemplo de um ministro católico podia ser nha “ao alcance dos seus sentidos” a tão
transmitido ao povo, que, apropriando-se famosa instituição repressora, embora já
de uma prática restrita ao sacerdote, pro- enfraquecida em seus poderes, no início
curava exercê-la, a seu modo, no catolicis- da segunda metade do século XVIII, pelo
mo popular, fugindo ao controle da auto- próprio controle que sobre ela exercia o
ridade eclesiástica. Por outro lado, o caso regalismo português.
é ilustrativo de como a feitiçaria era consi-
derada coisa demoníaca, pois para expul- Além disso, cumpre estar atento para o fato
sar a “doença” era necessária uma prática de que havia um descompasso entre o
“sagrada” que implicava na expulsão da imaginário popular e a ideologia
influência maligna do demônio. Deve-se inquisitorial, como o demonstra Souza
lembrar que vários denunciantes e (1986, p. 277). Aquilo que era visto como
confitentes referem-se aos “exorcismos da “familiaridade com o demônio” pelo
Igreja” como prática comum para a cura inquisidor podia ser simples “sortes de São
de doenças provocadas por feitiçaria. E a João” para prever o futuro; o que era vis-
própria índia Sabina chegava a aconselhar to como “pacto”, como no caso de Adrião
os pacientes, após realizar suas sessões, a Pereira, acima citado, podia ser simples
também procurarem esses exorcismos. “carta de tocar mulheres”; o que o
inquisidor podia interpretar como indício
Por outro lado, não deve ser esquecida a de “sabbats” podiam ser simples curas de
resistência popular (geralmente passiva) ao pajés ou manifestações sincretizadas de
controle exercido, no período colonial, cultos de origem africana. Destarte, não
pela Igreja e pelo Estado, quanto às mani- só continuaram a ocorrer, durante o pró-
festações de sua religiosidade. É curioso prio período da Visita, as práticas conde-
constatar, como lembra Amaral Lapa, que nadas, como prosseguiram depois, man-
as denúncias e confissões iam aos poucos tendo-se ainda bastante vivas até os dias
atuais.

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4 A FRAQUEZA INSTITUCIONAL DA IGREJA E O MODELO DE
CRISTANDADE

Para Mark Harris (2000), um antropólo- coincidência que os aldeamentos mis-


go inglês que tem estudado as atividades sionários fossem chamados de
econômicas (pesca fluvial, sobretudo) e o reduciones em espanhol [...]. O segun-
catolicismo popular na Amazônia (desen- do processo era a incorporação, como
volvendo sua pesquisa de campo no Mé- europeus, de africanos e ameríndios
dio Amazonas),2 em trabalho ainda não mestiços, tendo seus descendentes
publicado, que apresenta várias similari- nascido em um Novo Mundo domi-
dades com o meu próprio, o catolicismo, nado pela Coroa portuguesa e pelo
com as características fundamentais que catolicismo. Parece que este último
passou a ter na região e que conserva até processo ocorreu menos por
os dias de hoje, constituiu-se propriamen- evangelização do que por acidente, o
te a partir da segunda metade do século que é interessante, dado minhas ob-
XVIII: servações abaixo. É curioso então que
a fraqueza institucional da Igreja não
Na época em que os missionários [ele tenha levado a uma erosão do catoli-
se refere aos jesuítas] foram expulsos cismo como uma força poderosa na
(1760), o catolicismo tinha sido impos- vida de cada dia. Ao contrário, a reli-
to aos ameríndios já contactados e à giosidade popular tinha, e continua
nova população mestiça de fala por- a ter, uma forte presença em todo lu-
tuguesa [...]. Não havia outra religião gar. Isto torna difícil separar a “reli-
para competir, ameríndia ou de qual- gião” de outras áreas da vida social”3
quer outro tipo. Não apenas o catoli- (HARRIS, 2001, p. 11-12, tradução
cismo era a religião do conquistador, nossa).
mas a Igreja (com exceção das ordens
religiosas) estava de acordo com a Essa fraqueza institucional da Igreja Ca-
Coroa e com o Estado. Entretanto, até tólica, aliada a um apoio regalista do Esta-
a proclamação da república, em 1889, do, que ao mesmo tempo a dominava,
no período pós-missionário, a Igreja permitiu a sobrevivência do regime de cris-
era relativamente fraca na Amazônia tandade durante o período do Império, o
[...]. Alguns padres, somente, cobriam que não impediu tensões, conflitos, alian-
extensas áreas, e a maioria estava pre- ças e inúmeras situações contraditórias.
ocupada com as elites urbanas. Por outro lado, pelo menos na Amazônia,
Houve dois processos pelos quais a o catolicismo popular e a pajelança cabo-
hegemonia católica se impôs. Em pri- cla, embora combatidos em vários momen-
meiro lugar, a conversão foi mais for- tos pela Igreja institucional, continuaram
te no período missionário. Não era coexistindo com ela e mantendo situação

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de complementaridade e tensão, modifi- Este modelo de cristandade, em geral se-
cada (e atenuada em suas relações guido pelo catolicismo brasileiro ao longo
conflituosas) sobretudo a partir da déca- de sua história, resultou, durante um lar-
da de 1960, quando se fizeram sentir os go período, na impossibilidade do estabe-
efeitos do Concílio Vaticano II. Nesse ín- lecimento de outras confissões religiosas no
terim, como é sabido, ocorreu a proclama- Brasil. Durante o período colonial, uma
ção da República, abolindo-se o regime de parte da motivação das guerras contra in-
união entre a Igreja e o Estado (pelo me- vasores franceses e holandeses (no Rio de
nos no texto legal). Não obstante, a Igreja Janeiro e no Nordeste) foi de caráter reli-
institucional continuou optando por uma gioso: tratava-se de “hereges” protestan-
recomposição da aliança com o Estado tes. Os primeiros protestantes que entra-
(sem a situação de dependência mais es- ram no Brasil vieram através da imigra-
trita da época do padroado), o que de fato ção e como representantes diplomáticos ou
ocorreu de modo mais efetivo depois da comerciais de países amigos, sobretudo
chamada Revolução de 1930, com a Cons- após 1822. Na Amazônia, tem-se notícia
tituição de 1934. Essa Constituição, devi- da imigração, nos anos de 1766-1768
do aos esforços empreendidos sobretudo (quando ainda estava em Belém o
pelo cardeal do Rio de Janeiro, D. Sebas- inquisidor Giraldo José de Abranches), de
tião Leme da Silveira Cintra, restabeleceu cerca de 87 alemães (havia luteranos en-
benesses estatais perdidas pela Igreja em tre eles?), dos quais 85 eram homens. Eles
1889 e 1891, criando-se, por um período vieram como parte da política pombalina
que vai durar cerca de 30 anos, uma nova no sentido de reorganizar o império por-
fase na história do catolicismo brasileiro, tuguês. Os homens já casados com mulhe-
que foi chamada pelo historiador canaden- res portuguesas se fixaram na Vila Viçosa
se Thomas Bruneau de “neocristandade” da Madre de Deus, no território do atual
(BRUNEAU, 1974, p. 73). estado do Amapá. Deles não se têm hoje
mais notícias, nem se de fato eram protes-
tantes (DREHER, 1992, p. 322-323).

5 A VINDA DE MISSIONÁRIOS E IGREJAS PROTESTANTES PARA


A AMAZÔNIA

Os primeiros missionários protestantes que de maior profundidade, fundando novas


chegaram à Amazônia foram, sobretudo, igrejas ou denominações. O primeiro de-
viajantes e propagandistas do Evangelho, les foi Daniel Parish Kidder, que veio em
que, embora não americanos, vieram to- 1839, permanecendo por algum tempo
dos dos Estados Unidos da América.4 Não em Belém, onde pregou a bordo de na-
puderam ou não quiseram fazer trabalho vios estrangeiros e em casa de pessoa ami-

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ga; viajou também pelo interior da Ama- neiros da romanização ou reforma
zônia, onde fez distribuição de Bíblias e ultramontana da Igreja Católica na Ama-
folhetos de propaganda. Sobre esse traba- zônia —, que publicou, nesse ano, Carta
lho, ele mesmo diz, em seu livro de via- Pastoral em que alertava os católicos con-
gem: tra esse trabalho de venda de literatura
evangélica. Após a morte de Nesbit, ao que
Não nos descurávamos de nossa mis- tudo indica, seu trabalho continuou sen-
são de divulgar a Bíblia e folhetos do realizado pelo comerciante escocês
evangélicos durante a nossa perma- James Henderson, que já morava em
nência na Província. Aproveitamos Belém.
todas as oportunidades que se nos
apresentaram de fazer o bem e con- A Nesbit seguiu-se o missionário Richard
seguimos organizar a venda das Es- Holden, que chegou ao Pará em 1860,
crituras e a distribuição gratuita de desta vez com missão estritamente religio-
folhetos, de maneira que até hoje ain- sa, enviado que fora pelo Conselho das
da perdura. É de se presumir que os Missões Episcopais e pela Sociedade Bíbli-
numerosos exemplares das Escrituras ca Americana. O reverendo Holden en-
e das publicações evangélicas assim controu em Belém vários tipos de apoio,
distribuídas ao público ledor do Pará desde o de comerciantes estrangeiros —
não tenham deixado de exercer salu- entre os quais James Henderson — até o
tar influência no sentido de promo- de líderes maçônicos e liberais, mas tam-
ver a tranqüilidade geral e a prática bém muita oposição de católicos e mesmo
da virtude (KIDDER, 1943, p. 202 dos que chamou de “protestantes nomi-
apud CETRULO NETO, 1994, p. nais” (ou “infiéis”), sobretudo ingleses e
169-170). americanos, que eram contra a presença
de pregadores protestantes em Belém,
Depois dele, esteve na Amazônia o capi- pois isso poderia indispô-los com a popu-
tão naval norte-americano Robert Nesbit, lação local. A oposição maior, no entanto,
que veio em 1857 com a missão de entre- viria do sucessor do bispo D. José Afonso,
gar navios ao governo peruano, mas que que havia renunciado à diocese e fora subs-
também aproveitou a oportunidade para tituído, em 1861, por D. Antônio de
distribuir exemplares da Bíblia e do Novo Macedo Costa, o grande líder ultra-
Testamento. Desincumbindo-se bem des- montano da romanização no Pará e que
sa última tarefa, foi convidado para ser mais tarde viria a exercer liderança junto
agente da Sociedade Bíblica Americana no ao episcopado nacional. A segunda Carta
rio Amazonas, o que fez, durante um ano, Pastoral de D. Macedo Costa (apud
entre Belém e Iquitos, vindo, no entanto, VIEIRA, 1980, p. 182-183), logo após as-
a morrer de febre no interior da Amazô- sumir seu cargo, se intitulava “Instrução
nia. A atividade desse capitão provocou pastoral sobre o protestantismo, prevenin-
reação por parte do bispo do Pará, D. José do os fiéis contra a propaganda que se tem
Afonso de Moraes Torres — um dos pio- feito na diocese de Bíblias falsificadas e

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90
outros opúsculos heréticos. Dada em (MAUÉS, 1992; 1995, p. 165-184; 1999,
Belém do Pará aos 30 de agosto de 1861”. p. 124).

Holden, entre várias atividades, escreveu Richard Holden teve intensa atuação, tan-
um diário. Nele, suas opiniões sobre o ca- to em Belém como no interior. Polemizou
tolicismo na Amazônia são expressas de com padres e com o próprio bispo D.
forma contundente. Uma anotação desse Macedo Costa através dos jornais. Suas
diário, feita em 13 de junho de 1862 e Bíblias foram acusadas, por este, de “fal-
transcrita por David Gueiros Vieira, diz o sas” (certamente devido à conhecida dife-
seguinte: “Ainda não me encontrei com um rença entre as Bíblias católica e protestan-
só padre que parecesse ser sincero ou que te), na Carta Pastoral acima mencionada.
de algum modo se importasse com as coi- Em resposta, Holden publicou, no Jornal
sas divinas” (HELDEN apud VIEIRA, do Amazonas, que pertencia ao conselheiro
1980, p. 170). Para ele, segundo o mesmo Tito Franco de Almeida, conhecido líder
Vieira, nessa região predominava a “infi- do partido liberal, na edição de 17 de agos-
delidade” entre a classe “um tanto to de 1861, o seguinte anúncio:
educada”, enquanto para as massas anal-
fabetas existia “a mais completa ignorân- Está à venda à Rua da Praia, nº 43, a
cia do catolicismo”. A religião “era uma Bíblia Sagrada, de acordo com a tra-
espécie de sincretismo entre um catolicis- dução de João d’Almeida Pereira, por
mo puramente simbólico do camponês Rs. 1$600. Também à venda a Bíblia
português e os conceitos religiosos dos ín- Sagrada de acordo com a tradução do
dios e dos africanos”. A religião popular Padre Antônio Pereira de Figueiredo,
consistia, sobretudo, na “adoração” de fi- por Rs. 1$800, e Richard Holden con-
guras e imagens dos santos. Nas igrejas, a vida todos a compararem-na com a
religião reduzia-se à missa em latim e a tradução publicada em Lisboa, pro-
procissões animadas por foguetes, sendo metendo pagar Rs. 5$000 por cada
às vezes acompanhadas por irmandades falsificação que possa ser encontrada
dançantes. Nos lares, as práticas religiosas (apud VIEIRA, 1980, p. 183;
do povo analfabeto se caracterizavam por DREHER, 1992, p. 327).
uma relação íntima entre o devoto e seu
santo (VIEIRA, 1980, p. 170-171). Entre- A polêmica se acirrou e, não contente com
tanto, embora essa visão de um missioná- isso, Holden publicou ainda, em fevereiro
rio protestante sobre o catolicismo conte- de 1862, uma carta dos bispos católicos
nha, de fato, muitos elementos importan- holandeses contra o dogma da Imaculada
tes de observação, deve ser também um Conceição, que, como se sabe, era defen-
pouco matizada, sobretudo no que diz res- dido pelos católicos ultramontanos e viria
peito à idéia mais crua que é transmitida a ser proclamado oficialmente alguns anos
relativamente ao que considera apenas depois, com o patrocínio do papa Pio IX,
uma espécie de “adoração” de santos durante o Concílio Vaticano I. Isso talvez
tenha sido a gota d’água, tendo inclusive

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provocado o cancelamento de assinaturas anos do XX. Desejo, porém, dedicar aten-
do jornal em que a mesma foi publicada. ção maior ao trabalho do pastor Justus
Não resistindo às pressões do bispo e dos Nelson, em Belém, já que ele foi o primei-
ultramontanos, Richard Holden foi obri- ro a criar um trabalho regular, embora sua
gado a deixar a Amazônia, em maio de congregação não tenha sobrevivido à sua
1862, retirando-se para a Bahia, onde saída definitiva da cidade, em 1926.
prosseguiu suas atividades.
Justus H. Nelson, que era médico, chegou
Até então, nenhum desses missionários a Belém em 1880, oito anos antes da pro-
havia desenvolvido atividade denomi- clamação da República e, portanto, ainda
nacional. As primeiras Igrejas protestan- na vigência do regime do padroado. Co-
tes a se estabelecerem na Amazônia foram meçou ensinando línguas e criando um
a Metodista, a Episcopal, a Presbiteriana e curso de enfermagem, para depois, em
a Batista. A Igreja Metodista foi fundada 1883, fundar a Primeira Igreja Metodista
pelo reverendo Justus H. Nelson, que de Belém. Fundou também o jornal O
atuou na Amazônia de 1880 a 1926, com Apologista Cristão Brasileiro, que tinha por
um período de interrupção, quando vol- lema: “Saibamos e pratiquemos a verdade
tou aos Estados Unidos. A Igreja Batista custe o que custar”. Tendo criticado, nes-
foi fundada por Eurico Alfredo Nelson se jornal, a “idolatria católica” e, especial-
(Erik Nilssen), em 1897. A Igreja Episco- mente, o culto à Virgem Maria, ficou pre-
pal, que não surgiu pelo trabalho de so durante quatro meses, por causa dessa
Richard Holden — praticamente expulso publicação, considerada insultuosa à Igreja
de Belém pelo bispo do Pará, como foi visto Católica. Segundo Eula K. Long (1968, p.
—, só se estabeleceu de modo efetivo no 136), que relata esses acontecimentos,
Brasil em 1890, criando um trabalho em retornou aos EUA em 1896, tendo seu tra-
Belém poucos anos depois. Quanto à Igre- balho sido extinto em Belém. Teria, no
ja Presbiteriana, sabe-se que no ano de entanto, de acordo com Antônio B.
1878 ocorreu o trabalho do reverendo Almeida, voltado à mesma cidade, perma-
Blackford no Pará (Belém), onde fez pre- necendo à frente da Igreja Metodista até
gações durante os meses de setembro e 1926, quando, tendo de deixar de novo a
outubro e distribuiu Bíblias e literatura cidade, visitou a “primeira Igreja Batista
evangélica. Mas a Igreja só teve início em do Pará, [entregando] ao Pr. Tertuliano
1894, com a iniciativa de fiéis que haviam suas poucas ovelhas para não ficarem des-
emigrado do Nordeste para Belém, e eram garradas e sem orientação espiritual”
atendidos pelo reverendo Wormeldorf, (ALMEIDA, [19—], p. 17 apud CETRU-
que ia de São Luís para dar-lhes assistên- LO NETO, 1994, p. 173). A Missão
cia lá, só tendo passado a residir nesta Bethesda de Manaus foi fundada, em
cidade no ano de 1903. Houve também 1888, por um colaborador de Justus Nel-
congregações presbiterianas em Manaus son, o pastor Marcus E. Carver, mais ou
e em Sena Madureira, no Acre, surgidas menos na mesma época em que surgia em
no final do século XIX e nos primeiros Belém a Primeira Igreja Metodista. Ape-

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sar de ter tido uma atuação que se desen- indefectível chapéu alto, à passagem
volveu já durante o período de separação do Círio de Nazaré.
entre a Igreja e o Estado, no Brasil, Justus
Nelson não deixou de encontrar imensas O trabalho e os sofrimentos desses primei-
dificuldades, em razão da forte hegemonia ros missionários prepararam o caminho
católica na Amazônia. Levi Hal de Moura para a vinda do pentecostalismo, que se
(1957, p. 41-42 apud CETRULO NETO, implantou na Amazônia a partir de 1910-
1994, p. 174), intelectual paraense que 1911, com a vinda dos missionários sue-
estudou a história do Pará “do ponto de cos (provenientes dos EUA) Gunnar
vista do materialismo histórico”, afirma o Vingren e Daniel Berg. Não quero dizer
seguinte: que estes não encontraram, também, difi-
culdades, mas certamente elas foram me-
Quanto ao protestantismo, já obser- nores. Acresce o fato de que vieram já
vamos a dificuldade de sua penetra- numa nova fase, quando já havia se con-
ção nas regiões, como a de nossa pá- solidado um pouco a separação entre Igre-
tria, de lamentável atraso econômico. ja e Estado, embora a hegemonia católica
Por volta de 1880 apareceu aqui, em continuasse inconteste. Não vou falar so-
Belém, um cavalheiro chamado bre a história do pentecostalismo na Ama-
Justus Nelson, que alugou uma casa zônia, a respeito da qual já existem alguns
à rua dos Mártires, e ali abriu tenda excelentes trabalhos (ROLIN, 1985;
evangélica. Usava sobrecasaca e cha- FRESTON, 1994; CETRULO NETO,
péu alto, o qual não erguia diante de 1994; ROTHE, 1998). Desejo lembrar, no
nenhum templo, de nenhum santo e entanto, que, mesmo no período republi-
de nenhuma procissão, que eram às cano da história brasileira, a despeito dos
centenas naquele tempo, pelas ruas. textos legais, não se pode falar totalmente
Os padres mandavam a molecagem de liberdade religiosa no Brasil. Lembra-
atirar pedras no pastor, as velhas bea- rei apenas um episódio, de que pude ter
tas, industriadas nos confessionários, conhecimento em minha pesquisa de cam-
se persignavam ao passar diante da po, através da consulta ao Livro de Tom-
casa do missionário e lançavam exor- bo da paróquia de Vigia e de relatos de
cismos e baldões sobre Justus, mas informantes.
este, fiel ao seu apostolado de paz, a
seu nome de Justus, e, sem dúvida, O episódio ocorreu durante a gestão do
ao nome da rua que era, como disse- Padre Manfredo Knosala, que, na fase pós-
mos, a dos Mártires, sofria tudo como Concílio Vaticano II, foi o pároco que mais
um verdadeiro mártir e como um ver- se dedicou a combater a penetração pro-
dadeiro justo. Chegou a ser agredido testante em sua jurisdição. Em 1976, quan-
fisicamente em plena via pública, por do a Igreja do Evangelho Quadrangular
uns latagões a soldo das sacristias, começou a se instalar em Vigia, esse vigá-
porque não retirou da cabeça o seu rio, alarmado com as proporções do mo-
vimento, que congregava massas de assis-

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tentes nas praças da cidade e de comuni- Nacional de Ação de Graças, na qual, se-
dades do interior em pregações públicas gundo suas próprias palavras, no Livro de
muito concorridas, saiu certo dia em au- Tombo, “houve verdadeira aproximação
tomóvel dotado de autofalante, alertando das diversas igrejas e dos diversos credos
os católicos contra os “missionários” e di- aqui existentes, mas que temiam até se
zendo ser “pecado” participar daquelas cumprimentar” (MAUÉS, 1995, p. 160).
reuniões. Esse fato provocou reações da Vale lembrar também, por outro lado, que
parte da população, tendo sido apedreja- esse mesmo padre Manfredo Knosala, que
do o barracão de madeira onde funciona- provocou o apedrejamento do barracão da
va o novo culto pentecostal. O episódio é IEQ — e, segundo o relato que me fez o
destacado, entre outros, como um dos mais pastor (jovem “missionário da prece po-
expressivos do conflito sempre presente derosa”), uma das pedras quase atingiu a
entre católicos e protestantes em Vigia, já cabeça de seu filho de poucos meses —,
numa fase pós-conciliar. Não obstante, o esse mesmo padre, repito, mostrava, em
vigário seguinte, padre Francisco Nobre, entrevista a mim concedida em outra oca-
adotou uma atitude tolerante em relação sião, uma grande tolerância em relação aos
ao protestantismo, chegando mesmo a or- pajés do município, cujas curas eram por
ganizar, em 1980, uma concentração de ele pensadas como resultantes de efeitos
todas as igrejas cristãs de Vigia no Dia “psicossomáticos” (MAUÉS, 1995, p. 160).

6 CONSIDERAÇÕES FINAIS

Que elementos podem ser considerados, com o cristianismo, ou pelo menos, com
em relação ao que foi dito acima, sobre li- as formas de cristianismo praticadas no
berdade religiosa? Foram inicialmente ar- país. Geralmente o termo é aplicado para
rolados quatro conceitos, diferentes mas designar grupos radicais islâmicos. Esque-
relacionados, isto é, os de fundamentalismo cemos, freqüentemente, ou mesmo desco-
religioso (muito em moda nos dias atuais), nhecemos, a origem cristã do termo e,
teocracia (conceito um tanto esquecido, que quando o aplicamos ao cristianismo, mui-
se tende a pensar somente em relação ao tas vezes o fazemos apenas em relação a
passado), padroado (aplicável à situação re- grupos, igrejas, seitas ou denominações de
ligiosa do Brasil nos períodos colonial e do caráter evangélico dos quais desconfiamos
Império) e cristandade (um conceito ainda e que são, na maioria das vezes,
menos usado, que parece não se incluir em pentecostais. Esquecemos ou não sabemos
nossas reflexões acadêmicas, mesmo na que há grupos fundamentalistas dentro do
daqueles que se têm dedicado, entre nós, próprio catolicismo, a religião (ainda?)
ao estudo da religião). Embora muito em hegemônica no Brasil. Esquecemos ou não
moda, o conceito de fundamentalismo tem sabemos que, freqüentemente, pen-
sido usado, no Brasil pelo menos, para sig- tecostais brasileiros (inclusive carismáticos
nificar coisa distante, que nada tem a ver católicos, que também praticam uma for-

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ma de pentecostalismo) costumam ficar Bragança, sede da Prelazia do Guamá,
entre dois fogos, sob ataque quer da “es- dirigida por padres barnabitas italianos. A
querda”, ligada à chamada Teologia da despeito de uma atuação social de grande
Libertação, quer da “direita” envergadura, com a construção de esco-
fundamentalista cristã (e, muitas vezes, las, hospitais, emissora de rádio, trabalho
católica). de educação de base através de escolas
radiofônicas, para citar apenas os aspec-
Quanto ao conceito de teocracia, creio ser tos mais notáveis, a Prelazia mantinha um
forte demais para aplicá-lo ao Brasil, mes- domínio muito forte sobre as consciências.
mo na vigência do regime do padroado. A Nenhuma outra religião era admitida em
despeito da chamada união entre a Igreja seu território. O comunismo era combati-
e o Estado, que fazia com que o catolicis- do. O carnaval era uma falta tão grande
mo fosse considerado religião oficial, a que participar dessa festa constituía peca-
despeito de todas as restrições e da nega- do cujo perdão só podia ser obtido se o
ção à cidadania que existia em relação aos “pecador” fizesse sua confissão ao velho e
não-católicos — ou pelo menos àqueles bondoso bispo, D. Eliseu Coroli. Essas dis-
que não se submetiam ao batismo e ao ca- posições, num primeiro momento, só fo-
samento católico, dois “sacramentos” fun- ram reforçadas com a ocorrência, em pla-
damentais para a cidadania brasileira na no nacional, do golpe militar de 1964,
época —, a fraqueza efetiva da Igreja amplamente apoiado pelas autoridades
institucional, a importância do catolicismo eclesiásticas locais. Havia apenas uma rea-
popular (elemento constitutivo do catoli- ção consistente contra isso — que consti-
cismo como um todo) e, principalmente, tui um argumento forte em favor do cato-
do liberalismo aliado a uma parte da ma- licismo popular brasileiro, de resto não tão
çonaria brasileira (que a Igreja combatia “inocente” —, representada pela irman-
como um todo), tudo isso contribuía para dade leiga de São Benedito, que a Prelazia
que não se pudesse ter, de fato, um gover- não conseguia dominar ou extinguir, a
no teocrático. despeito de todos os seus esforços.5 É ver-
dade que, de lá para cá, com as transfor-
Vivemos, no entanto, na maior parte de mações históricas por que passaram o país
nossa história, dentro de um regime ou e a Igreja, muita coisa mudou, e a atual
modelo de cristandade ou de neocris- diocese de Bragança, embora mantenha,
tandade. Esse modelo foi consistentemente até hoje, uma orientação conservadora —
praticado pela Igreja Católica e pensado em sintonia, aliás, com a tendência nacio-
historicamente como o único possível, pelo nal e mundial do catolicismo —, não pode
menos até as reformas e o verdadeiro mais manter, como no passado, seu antigo
aggiornamento do catolicismo introduzidos modelo de cristandade.
pelo Concílio Vaticano II. Lembro-me de
minha primeira experiência de viver Retomando, agora, o que foi dito no iní-
numa cidade do interior amazônico, no cio deste texto, devo perguntar se seria
início dos anos 60. Era a cidade de descabido imaginar um cenário futuro em

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que pudéssemos ter, no Brasil (e na Ama- do os índios. Está massacrando demô-
zônia), um novo modelo de cristandade, nios, e os índios são possuídos por
tal como já tivemos no passado, ou, talvez, demônios: são comunistas” [...].
ainda pior, com semelhanças ao regime
teocrático que vigorou no Afeganistão, ou Esta situação acabou forçando a conver-
ao que vigora ainda em algum outro país são de muitas pessoas ao pentecostalismo,
muçulmano sob o domínio de funda- para escapar das perseguições e salvar suas
mentalistas islâmicos radicais. Poderiam vidas:
ser candidatos a isso adeptos de denomi-
nações ou seitas fundamentalistas cristãs, Uma conversão [de índio Ixil] da
tal como ocorreu num passado bastante Igreja Católica para uma igreja evan-
próximo na Guatemala, como o descreve gélica simbolizava um apoio tácito a
Veronica Melander? um lado da guerra, ou seja, da resis-
tência para o lado do Exército
Tomarei então, para concluir este artigo, Guatemalteco. A repressão seletiva
o exemplo desse país, tão próximo de nós contra catequistas, religiosas e padres
do ponto de vista geográfico e com o qual obrigou o povo a uma radicalização
possuímos identidades culturais tão fortes, ou a outro tipo de religião. A conver-
como latino-americanos. Na Guatemala, são evangélica ou o ingresso no movi-
nas décadas de 1970 e 1980, a ação do mento carismático católico tornou-se
general ditador Efrain Rios Montt uma estratégia de sobrevivência na
(pentecostal direitista, da Igreja Verbo, que área Ixil [...]. Pregadores [...] diziam
era apoiado pelos EUA), a atuação da que o Exército somente perdoaria
agência paraeclesiástica Overseas Crusades evangélicos [...]. Se alguém queria
e a conversão massiva e forçada de indí- evitar ser assassinado, devia tornar-
genas da área Ixil a igrejas evangélicas de se evangélico. Em março de 1980, o
tipo fundamentalista são fatos ligados a Exército começou a emitir novas car-
incontáveis violências e atrocidades. Um teiras de identidade [...]. Estas cartei-
dos fatos citados por Melander (2000) diz ras funcionavam como passaportes do
respeito aos massacres a que foram sub- salvo-conduto. Os evangélicos [...]
metidos os índios que se opunham ao go- podiam mudar-se livremente, algo
verno ditatorial: que era impossível para outras pes-
soas (MELANDER, 2000, p. 97-108).
Os líderes da Igreja Verbo considera-
vam que a Guatemala estava envolvi- Gostaria, pois, de concluir, diante do rela-
da numa batalha espiritual [...]. Os to desses fatos, com uma breve reflexão.
oponentes de Rios Montt eram vistos Ela diz respeito à pretensão evangélica, tão
não somente como adversários políti- ostensivamente alardeada, de conquistar
cos, mas também como diabólicos. o “Brasil para Cristo”, o que não difere do
Como foi dito por um pastor da Ver- que ocorreu na Guatemala e continua a
bo: “O Exército não está massacran- acontecer em muitos outros países. As sei-

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tas e igrejas evangélicas tiveram um de- um “Brasil para Cristo”, num sentido po-
senvolvimento notável, no Brasil e na lítico capaz de restaurar uma nova forma
Amazônia, desde seus começos modestos de cristandade, talvez combinada a uma
na segunda metade do século XIX. A re- ditadura de direita, desta vez não mais
cente pesquisa de Prandi e Pierucci (1994, católica, mas evangélica, ou, talvez,
p. 7, 9), embora com a limitação de refe- pentecostal? Estas são questões difíceis de
rir-se apenas aos eleitores da eleição pre- responder, no presente momento. Temos
sidencial daquele ano, mostrou como, no também a alternativa de caminhar, de for-
universo investigado, o percentual de ma consistente, no rumo de um maior
evangélicos (13,3%) correspondia já, apro- desencantamento do mundo, em termos
ximadamente, ao percentual de católicos weberianos, ou de uma forma crescente
(13,5%) que se auto-intitulavam como de secularização (é inegável, também, o
“praticantes” (das CEBs, da RCC e de di- progresso da secularização na sociedade
versos outros movimentos eclesiásticos). brasileira). Mas, se quisermos ser coeren-
Isso é um fato notável, indicativo do gran- tes com o próprio Weber, nenhuma tenta-
de crescimento do movimento protestan- tiva de previsão do futuro nos está autori-
te no Brasil, mas não apenas do protes- zada. Podemos apenas trabalhar, como ci-
tantismo histórico. Esse crescimento con- dadãos, na medida de nossas forças, para
tinuará se processando, em detrimento do tentar construir uma nação democrática e
catolicismo? Ele será capaz de privilegiar pluralista do ponto de vista religioso, mas
os grupos mais liberais, ou aqueles mais também do ponto de vista étnico, social,
próximos do chamado fundamentalismo das relações de gênero e de vários outros
(que, inegavelmente, parecem ser os pontos de vista, de interesse das minorias
pentecostais)? E, se isso acontecer, teremos oprimidas no Brasil e na Amazônia.

NOTAS
1
Na redação deste tópico utilizo várias fontes se-
3
Agradeço a M. Harris sua permissão para citar este
cundárias, das quais as mais importantes são as trecho. O texto original é o seguinte: “By the time
obras de Betendorf (1910), Leite (1943), Moraes the missionaries were all expelled (1760),
(1860), Muniz (1916) e Raiol (1970). Para uma Catholicism had imposed on the contacted
visão mais completa a respeito do assunto, cf. Amerindians and the new mixed-blood
Maués (1995). Portuguese speaking population [...]. There was
no other religion to compete, Amerindian or
2
Dessa pesquisa resultou um belo livro, ilustrado otherwise. Not only was Catholicism the religion
também com excelentes fotografias, que apresenta of the conqueror, the church (rather than the
uma visão alternativa (numa perspectiva de an- missionary orders) was hand in hand with the
tropologia social, que a mim parece mais válida) Crown and the State. Neverthless, until the
ao modelo mais comum da antropologia ameri- proclamation of the republic in 1889, in the
cana recente sobre a Amazônia, fortemente influ- Amazon the Church was relatively weak in the
enciada pela ecologia cultural (HARRIS, 2000). post-missionary period [...]. Only a few priests
covered huge areas, and most would have

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concerned themselves with the urban-based eli- própria pesquisa em jornais paraenses do final
te. There were two processes by which the Catholic do século XIX e início do XX, na Biblioteca Pú-
hegemony imposed itself. First, conversion was blica do Pará e na Biblioteca Nacional do Rio de
strongest in the missionary period. It was no Janeiro, permitiu entender pelo menos uma par-
coincidence that the missionary villages in Spanish te dessa história. Os jornais mais importantes que
were called reduciones [...]. The second process was pesquisei foram: O Liberal do Pará, que substituiu
incorporation, as Europeans, Africans and o Jornal do Amazonas, do conselheiro Tito Franco
Amerindians mixed, their offspring were born de Almeida, como órgão do Partido Liberal; o
into a New World dominated by the Portuguese conservador Diário do Gram-Pará; o jornal da Igreja
crown and Catholicism [sic]. It would seem this Católica A Boa Nova, que substituiu o antigo jor-
last process happened less by evangelisation than nal católico A Estrela do Norte; A Palavra, também
by fact, which is interesting given my observations um jornal católico, da 1a metade do XX; O Pelica-
below. It is curious then that the institutional no e O Santo Ofício, jornais maçônicos dos anos 70
weakness of the Church should not have led to do século XIX; e A Província do Pará (que acabou
the erosion of Catholicism as a powerful force in se tornando o mais importante jornal paraense
everyday life. On contrary, popular religiosity had, nos últimos anos do século XIX e nos primeiros
and continues to have, a strong presence in all do século XX). Utilizo aqui também parte do que
dispositions. This makes it difficult to separate está em meu livro Uma “outra” invenção da Amazô-
‘religion’ from other areas of social life” (HARRIS, nia: religiões, histórias, identidades (MAUÉS,
2001, p. 11-12). 1999), especialmente o Capítulo V, “Padres e bis-
po em conflito: o processo de ‘romanização’ na
4
O que se segue, sobre o protestantismo na Amazô-
Amazônia”. Quanto a fontes publicadas sobre a
nia, está baseado, sobretudo, na obra de David
história do protestantismo na Amazônia, são im-
Gueiros Vieira (1980), O protestantismo, a maçona-
portantes, entre outros, os trabalhos de Almeida
ria e a questão religiosa no Brasil. Há dois outros tra-
([19—]), Long (1968) e Ferreira (1959), que tam-
balhos acadêmicos interessantes, em parte basea-
bém são citados pelos autores que menciono nes-
dos na obra de Vieira, que são os estudos de
ta nota.
Cetrulo Neto (1994) e de Dreher (1992). Minha
5
Sobre o tema da Irmandade de São Benedito em
Bragança, cf. o excelente trabalho de Silva (1997).

ABSTRACT
This paper discusses about the question of religious liberty (and,
implicitly, of human rights), taking, as example, the Brazilian,
and, more specifically, the Amazonian case. It aims to discuss these
matters through a brief historical and anthropological study of
Amazonian Christianisms and, more particularly, through the ways
Christianisms have been implanted in this Brazilian region.
Examples from other parts of the world are token, to show the
similitude with Brazilian and Amazonian cases. Besides this,
concepts of fundamentalism, theocracy, Christianity and patronage
are discussed, as key-concepts to understand past and present politic
and religious historical processes.
Keywords: religious liberty, human rights, Christianism, Amazon
region.

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PODER DE POLICÍA, COSTUMBRES LOCALES


Y DERECHOS HUMANOS EN BUENOS
AIRES DE LOS 90*

SOFÍA TISCORNIA**

En el trabajo se desarrollan las principales características


del “ambiente cultural” en el que se efectiviza el poder de
policía – en un sentido amplio – en la ciudad de Buenos
Aires, al fin del siglo. A partir del análisis de dos casos – el
Manual de instrucción para el personal de la policía de la
provincia de Buenos Aires y la aplicación de un Memoran-
do secreto de la justicia nacional a la Policía Federal – se
explican las implicancias que, para políticas de derechos
humanos, tiene la vigencia de un corpus legal que privile-
gia el secreto y la multiplicidad normativa.
Palabras-clave: organización policial; sistema judicial; cultura;
violencia.

Convocados a esta mesa redonda para cal”, hace acerca de la etnografía y el


debatir, desde una perspectiva compa- derecho. Dice Geertz (1994, p. 197):
rada, los procesos de globalización que
atraviesan, de formas disímiles, a la Como la navegación, la jardinería, la
justicia, la seguridad y la ciudadanía en política y la poesía, el derecho y la
nuestros países, quiero comenzar la etnografía son oficios de lugar: actúan
exposición recordando una sugestiva a la luz del conocimiento local […]
analogía que Clifford Geertz, en su Cualquiera sean los puntos en común
clásico trabajo sobre el “conocimiento lo- que existen entre la antropología y la

*
Este trabajo es una versión revisada de la exposición realizada en el XXI Reunión de la ABA, en el panel:
“Procesos de globalización de Justicia, Seguridad y Ciudadanía en una perspectiva comparada (Brasil,
Portugal, Argentina y Angola)” coordinado por Roberto Kant de Lima.
**
Equipo de Antropología Política y Jurídica/Instituto de Ciencias Antropológicas/Faculdad de Filosofía y
LetrasUniversidad de Buenos Aires.
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jurisprudencia – una erudición er- escenario que es centro del paradigma de
rante y una atmósfera fantástica – la modernidad, podría evocar los trabajos
ambas se hallan igualmente de aquellos etnógrafos ya clásicos que,
absorbidas por la tarea artesanal de conscientes de que asistían a la
observar principios generales en desaparición de la primitividad, podían
hechos locales. expresar frente a ellos ternura y
reconocimiento – como Levi-Strauss en la
Acerca de algunos de esos hechos locales introducción de su Antropología
es que quiero reflexionar en este trabajo. Estructural –. No es nuestro caso. En
En el Equipo de antropología política y primer lugar convivimos en el mismo
jurídica estamos trabajando, esto es inves- espacio que se desmantela, tomamos
tigando, acerca de lo que ocurre sobre el posiciones y nos comprometemos con
escenario en el que se representa el dra- vehemencia a defender muchos de sus to-
ma cotidiano del ejercicio del poder pos retóricos y más de una de las escenas
policía. La investigación supone filigramar que los telones de fondo representan.1 En
descripciones etnográficas de hechos segundo lugar, es muy posible que el
locales – re-dibujar en la escritura y en la derrumbe de alguna escenografía a la que,
exposición argumentada la dimensión de de repente, los anónimos desmanteladores
las prácticas – y, en el mismo movimiento, le han quitado los soportes sin percatarse
descubrir tras las rutinas, mallas comunes que lo hacen, nos aplaste o nos hunda para
de existencia, esto es, tradiciones siempre en los subterráneos del teatro. Y,
regionales de construcción de la verdad en tercer lugar, a diferencia de los clásicos
jurídica; de resolución legal o paralegal de etnógrafos, lo que me interesaría como
los conflictos; de formas de experiencia del antropóloga registrar e interpretar son las
poder legal y de usos locales de las nor- condiciones del abismo que se extiende
mas internacionales de derechos humanos. entre la representación de las leyes y los
que sucede tras y alrededor del escenario.
Imagino, cada vez con más realismo, que Quiero decir, creo que la estereotipación
estamos trabajando sobre un escenario, el extrema con la que actuan hoy los actores
sistema penal, que manos y rostros aún del sistema penal, nos está hablando de
indefinidos – aún actores sin identidad e rasgos y costumbres locales en la que es
intereses comunes – están desmantelando. muy posible que se cifren los indicios para
Al menos en nuestros países. En estas indagar sobre la imagen, un tanto
regiones en las que el imperio de la ley y apocalíptica, que quiero compartir con
la conciencia ciudadana – dos pilares de la ustedes.
modernidad anglosajona – visten las más-
caras que la rendición de honores a la ley Creo que podemos ponernos de acuerdo
exige, para poder olvidarse de su espíritu. en que, en nuestra región, una de las mar-
cas de las transiciones democráticas es la
Pero quiero hacer una aclaración antes. preocupación por las policías, la seguridad
Asistir al desmantelamiento de un

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y los derechos humanos. Las razones de que he dado en llamar, siguiendo a Darío
esta preocupación reconocen, por un lado, Melossi (1997), el “ambiente cultural” en
la imposición de una agenda proveniente el que se desarrolla la pena y el castigo.
del mundo occidental globalizado. Es en Ello me servirá para distinguir
este sentido, fundamentalmente, que el microcontextos en los que la preocupación
tema es prioritario para las élite morales2 por las policías, la seguridad y la justicia se
nacionales. Pero, paralelamente, esta agen- desarrolla, imprimiendo la “marca local”.
da solo puede activarse, ponerse en mar-
cha, en el ambiente cultural de las escenas A continuación, y en ejercicio de la
nacionales. Y este ambiente cultural, en el profesión antropológica, expondré dos
que se desarrolla las formas locales de la casos que me parecen particularmente
pena y el castigo, es el que me interesa in- sugerentes para ilustrar e interrogar al
dagar con el propósito de pensar más ambiente cultural en el que se ejerce el
sistemáticamente la imagen fuerte del poder de policía. Ellos son, el “Manual de
escenario que se está desmantelando. Instrucción para el personal de la policía
bonaerense” y, un memorandum secreto
Para ello he organizado esta exposición de la justicia nacional a las policías.
desplegando, en primer lugar, en forma
sucinta, las principales características de lo Recién entonces volveré sobre la imagen
primera que quiero compartir con ustedes.

TRADICIONES NACIONALES Y AMBIENTES CULTURALES

En la Argentina las policías son cuerpos En primer lugar, y aunque parezca obvio
civiles armados, según lo establecen sus aclararlo, nuestras policías son instituciones
leyes orgánicas. Sin embargo, están que no se han gestado bajo el modelo del
estructurados como cuerpos militarizados Estado de Derecho. Antes bien, la tradición
y fuertemente jerarquizados. Son de Estado que las contiene es aquel que, si
instituciones cerradas y verticalistas. Ob- debemos adscribirlo a algún modelo,
viamente, esta situación es el resultado de debemos caracterizar como el derivado del
una historia y de procesos locales. No es el Estado absoluto y, por ende, de una teoría
propósito de este trabajo extenderme so- unitaria del poder (COURTIS, 1997, p.
bre esta cuestión (OLIVEIRA, 26). Ello tiene implicancias fundamentales
TISCORNIA, 1997). Si me interesa, en a la hora de explicar la actual
cambio, resaltar en trazos gruesos rasgos conformación de las policías y,
básicos que han sido claves para la concomitantemente, de las formas en que
estructuración de estas instituciones en la se piensan las políticas de seguridad.
forma que actualmente revisten.

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De estas implicancias me interesa resaltar edictos contravencionales o por averi-
dos. La primera refiere al privilegio del guación de antecedentes o identidad – de
secreto o las actividades reservadas la que forma parte el memorandum que
respecto a las funciones policiales – y analizaré más adelante –. Y, por otro, de
también de inteligencia – que se derivan las leyes de personal y los códigos de disci-
de una concepción en la que el ejercicio plina de las instituciones policiales – de los
de poder del Estado supone que es el que el “Manual de Instruccion de la policía
propio Estado – sus funcionarios y bonaerense” es un caso más.
burócratas –, quien decide sobre la
publicidad de sus actos, antes que un La segunda implicancia refiere a la escasa
corpus legal que, al precederlo, controla y distinción que, en el modelo de Estado
limita su actividad y sus acciones. Ello re- absoluto se hace entre una esfera pública
sulta en instituciones que se han construi- y una privada. Esta distinción es relevante
do edificando en su interior cuerpos, ofi- para la institucionalización en términos
cinas y personal especializados en legales, normativos y de comportamiento
actividades secretas y reservadas, sin con- de instituciones democráticas. Pero el
troles funcionales y respondiendo, la efecto de contaminación de una esfera so-
mayoría de las veces, sólo a las máximas bre otra tiene, a su vez otra serie de
autoridades políticas. A su vez, el carácter resonancias. Voy a explicarme mejor.
secreto de las actividades de vigilancia y
control permite un amplio espectro de Transitamos todos los días en una compleja
discrecionalidad en el uso de la fuerza le- maraña de leyes y disposiciones que ya sea
gítima que da lugar, paradójicamente, al por su carácter secreto o por uso
uso ilegítimo de la fuerza en la utilización discrecional no hacen más que realimentar
de metodologías represivas tales como la la desconfianza en la ley, el descreimiento
tortura y las ejecuciones extra-legales. en las instituciones y la aguda sensación
de que la injusticia y la impunidad son las
A su vez, y también en el campo de las reglas reales. El antiguo dicho “hecha la
paradojas, el carácter secreto y arbitrario ley, hecha la trampa” nos enseña que,
de las actividades policiales permea conociendo la trampa, podemos vivir
facultades y normas institucionales tranquilos y transitar por la maraña. Pero
establecidas en códigos y sancionadas por la trampa tiene actores que la activan. Y
leyes (o sea, públicas y escritas). Tal es el estos actores se construyen todos los días
caso, por un lado, de las facultades de en ámbitos acotados y cotidianos de
detener personas en la aplicación de interacción, micro escenas que iluminan
los macro dramas3 que nos preocupan.

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MICRO ESCENAS Y COSTUMBRES LOCALES. DEL ¿Y A MÍ QUE


MIERDA ME IMPORTA? AL ¿CÓMO LO PODEMOS ARREGLAR?

Guillermo O’Donnell (1997) en un trabajo instante de violencia. Los mini dramas de


particularmente sugerente4 analiza una estas confrontaciones de fuerza cotidiana
serie de microescenas de la vida cotidiana despliegan una apariencia de igualdad “no
en Buenos Aires, desde las que se interro- me importa cuál sea su jerarquía” pero, al
ga sobre las características de los complejos mismo tiempo, ocluyen posibilidades de
procesos de des-ciudadanización en construcción o reforzamiento de acuerdos
nuestro país. Explica O’Donnell como el y solidaridades democráticas (O’DON-
equivalente del Voce sabe como quem esta fa- NELL, 1997, p. 175).
lando? que Da Matta analizara en la cultu-
ra brasilera, se corresponde la respuesta Y es sobre la riqueza de este análisis de
porteña ¿y a usted qué mierda, o que carajo le micro-escenas, que tanto dicen sobre las
importa?. A diferencia del Brasil, la posibilidades de construir ciudadanía en
respuesta porteña niega la diferencia y la la Buenos Aires, que quisiera sobreim-
jerarquía que la pregunta primera primir una interacción que, muy frecuen-
impone. Porque, mandar a la mierda o al temente, continúa las descriptas por
carajo a quien invoca la jerarquía social no O’Donnell, fundamentalmente cuando el
supone superarla o disolverla, sino, fun- interpelado se enfrenta a alguna forma de
damentalmente, supone ratificarla en un poder institucional.

ESCENA DE MICRODESPOTISMOS COTIDIANOS

Un automovilista cruza una calle con el gre crear espacios de igualdad y de


semáforo en rojo.5 Aunque no es habitual, victimización comunes,7 al tiempo que se
un policía lo detiene y, acercándose al aviene a reconocer el poder que se está
conductor, le explica la infracción. La ejerciendo: “estoy trabajando hermano”;
primera reacción del conductor es justifi- “vivo de esto jefe” etc. Pero lo más común
car su conducta: el apuro, algún hospital es que el policía replique que comprende,
al que llegar, el trabajo, argumentar que pero que debe hacer la boleta de la
en realidad pasó una luz amarilla y no roja infracción y elevarla al juez. Nuevas
etc. Una indicación cualquiera que pueda explicaciones acerca de la molestia de ir a
crear un puente de comprensión con el los tribunales, de someterse a los tiempos
policía.6 Suele suceder – no es frecuente, de una cita con el juez de Faltas, etc. etc. y,
pero a veces sucede – que el policía acepte entonces, tanto de uno como del otro lado
la explicación, simpatice con el conductor aparece el ¿cómo podemos arreglarlo, jefe? El
que tratándolo de “jefe”; “hermano”, lo- jefe puede ser del policía hacia el
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conductor o viceversa. Y entonces der de policía. Sin embargo “perder”
comienza la negociación que, como en el supone evitar entrar en la injusta maraña
juego de naipes nacional – el truco8 – gana, de las leyes, de los tribunales clasistas, de
no quien tiene en suerte las mejores car- las normas abstractas.
tas, sino quien es capaz de convencer, a
través de la simulación, el engaño, cierta Y, por sobre ellas, es en cambio posible
prepotencia, rapidez y simpatía, que tiene entablar una negociación ventajosa para
los naipes ganadores. La multa se ambas partes, que deja fuera el imperio
convierte en una “coima”9 y el tránsito de la ley y nos afirma paradójicamente, en
continúa. la resistencia a la autoridad, al tiempo que
la refuerza. Porque el que “arregla”, los
El ¿cómo lo arreglamos, jefe / hermano?, con que “arreglamos” sacamos ventaja, pero
gesto cómplice, destraba un sinnúmero de cediendo frente a quien nos la concede
interacciones que, de otra forma, siguen secretamente. Entablamos una relación
un oscuro e muchas veces injusto sendero cara a cara y personalizada, coincidimos
legal. Ir a un juzgado, hacer largas colas en que mejor lo solucionamos oscura-
mientras se espera ser atendido por el juez, mente pero, en el mismo hecho, bloquea-
pagar una multa – siempre mayor que la mos posibilidades de construir reglas
coima –, ser demorado varias horas en la universalistas. Construimos derechos pri-
ruta, etc. Presentarse con una boleta de vados a través de arreglos personales con
infracción en el tribunal de Faltas supone, quienes odiamos (porque nos acaba de
luego de un tiempo de espera paciente, ganar la partida en el juego que se
enfrentarse a jueces que, sobre un modes- desarrolla en la microescena).
to pero distante estrado solo escuchan los
argumentos del deponente. No piden Resumiendo, nuestra compleja herencia
explicaciones ni se expiden. La resolución de derecho inquisitorial nos hace transi-
llega al domicilio del infractor, muchos días tar, por un lado, en los oscuros palacios de
después y, siempre es una sorpresa que se un corpus legal que ha concedido en
convierte en lotería: la mayor parte de las nuestra historia un notorio privilegio al
veces la multa debe ser pagada. Luego de secreto, a la multiplicidad normativa, y a
este proceso, no hay apelación. la voracidad codificadora de nuestros le-
gisladores.11 Y, por otro, nos ha acostum-
Así, “arreglar” en el momento que se co- brado a someternos al poder de policía o
mete la falta o que se imputa la infracción, al poder institucional en una ficción de
o, que se ha cometido un delito10 destraba igualdad cuya carga de violencia, es
la maraña burocrática que a la imputación simultáneamente, el resorte de impug-
de la falta sucede, pero, al mismo tiempo nación a al autoridad.
supone siempre el reconocimiento de que
una de las partes ha perdido. “Perdí, jefe”. Con esta primeras ideas, desplegaré los
Y que esa parte es la que no ejerce el po- casos.

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107

SECRETO, JERARQUIZACIÓN SOCIAL Y AUTORITARISMO


El “Manual de Instrucción para el personal solicitud del “Manual…” en alguna
de la Policía bonaerense” fue editado en comisaría. Por supuesto, no hubo
1997, en medio de la gravísima crisis en respuesta inmediata, aunque si cordiales
que estaba sumida la institución, a causa, promesas. Activamos otros recursos:
en buena medida de las continuas denun- llamadas personales a periodistas que
cias de crímenes – ajusticiamientos y casos podían contar con un ejemplar – de pro-
de “gatillo fácil”12 y complicidades con paganda, claro – y también – por el placer
bandas delictivas y narcotraficantes. En del trabajo de campo, y para comprobar
este marco, la edición y publicidad del hipótesis pedestres, tal como que se trataba
“Manual…” formaba parte de una serie de medidas propagandísticas y que una
de medidas llamadas a mostrar a la institución cerrada no podía tan rápida-
sociedad nacional y provincial una mente dar a publicidad sus documentos
vocación de autocrítica y reforma. El diario internos –, nos pusimos en contacto con
de mayor circulación en el país – Clarín – un jerarca policial disidente que trabajaba
le dedicó dos páginas centrales. La nota en el Departamento Central de Policía.
señalaba especialmente las recomen- Conseguir el “Manual…” por esta vía fue
daciones que en el “Manual…” se hacía a una típica tarea de espionaje y activación
la policía acerca de las circunstancias en de las estructuras del secreto y las relacio-
que el arma debía ser usada y las nes personales y patrimonialistas. Nos
prevenciones para prevenir la muerte en prometió un ejemplar, pero nos hizo sa-
de civiles desarmados o sin posibilidad de ber el riesgo que corría al no hacerlo por
defensa en dudosos enfrentamientos. las vías jerárquicas correspondientes.
Según la publicidad del “Manual…” se Mantuvimos algunas llamadas telefónicas
citaban en el texto las estadísticas de en clave y finalmente, conseguimos el
violencia policial que anualmente, el CELS “Manual…”, entregado sigilosamente y
– un organismo de ddhh – da a publicidad. con la promesa que no revelaríamos el
Y finalmente se describía la forma de nombre de quien nos lo entregó. Mientras
difusión del “Manual…” entre el personal tanto íbamos sabiendo que se habían edi-
policial en actividad. Ello suponía la lectura tado muy pocos ejemplares, que no
y discusión en las comisaría y delegaciones llegaban a las comisarías y que menos aún,
policiales de la provincia. eran leídos por los policías.

Conocida la noticia, tanto desde CELS Una vez que nos hicimos del “Manual…”
como desde la universidad procuramos y vi realmente de que se trataba, me di
conseguir un ejemplar del “Manual…” por cuenta que podía ejercer ahí dentro el ofi-
las vías administrativas pertinentes. Esto cio del etnógrafo, por poco tradicional que
es, cartas a la Jefatura de Policía y a la resulte. Podía hacerlo porque en una cul-
Secretaría de Seguridad de la provincia; tura jurídica escriturista como la nuestra,

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ese material me permitía reconocer el Himno Nacional, Saludo a la Bandera;
paradójico poder de las leyes y Presentación a un Superior y; Venia para
reglamentos escritos. dirigirse a un Superior) otras 18
circunstancias y formas de protocolizar el
El “Manual…” es un libro de dimensiones saludo.
anómalas, quiero decir, no tradicionales.
Es más bien cuadrado – no rectangular En el mismo Capítulo, pero en el aparta-
como se precian los libros – y voluminoso. do intitulado “Régimen disciplinario”, en-
Tiene tapas blandas, de cartulina celeste, tre sanciones correctivas y represivas y san-
impresas en negro. Mas que un manual es ciones expulsivas se consignan ochenta y
una recopilación de leyes, reglamentos y un causales. Estas incluyen, “fumar el
decretos que la policía ha editado y tiene personal de agentes en presencia del su-
en circulación desde hace tiempo. Lo perior”; “Quejarse del servicio o verter
interesante es que la totalidad de estas especies que puedan infundir en los
leyes y reglamentos, por su contenido, subsalternos desaliento, tibieza o desagra-
convierten al “Manual…” es una especie do”.
de libro de protocolo y reglas de
comportamiento. El Manual comienza con El Capítulo VII, intitulado “Organización
el “Decálogo del Buen Policía” cuya de la comisaría y subdependencias”, con-
primera máxima es: “Ser esclavo de la ley”. signa, entre muchas otras cuestiones, los
once libros13 que debe llevar, en la Oficina
De ahí en más, la proliferación de figuras, de Guardia, el agente Ayudante de
reglas, modos de comportamientos exigi- Guardia – uno de ellos es un libro de
dos etc. van componiendo un heteróclito personas mordidas por canes –. A estos
muestrario cuya principal riqueza es libros se suman los tres que debe llevar la
desplegar, en toda su dimensión, la letra oficina Judicial, más las dos estadísticas que
de la ley como máscaras que solo se activan debe confeccionar en los libros correspon-
cuando un actor – mañoso, avezado, dientes. La oficina de Receptoría y
prepotente guardián de los códigos – de- Archivos, debe llevar seis libros; la oficina
cide usarla discrecionalmente. de informaciones, otros seis libros; la de
Identificaciones, dos libros; la de
Voy a dar unos pocos ejemplos, para no Comunicaciones, cuatro libros.
extenderme en la descripción etnográfica
del texto. En una sola comisaría deben llenarse 32
libros de registros y el agente debe tener
El Capítulo IV, de la parte I intitulado presente 68 formas y circunstancias de
“Ceremonial y Honores”, en el item saludo. Hay por supuesto otras sinnúme-
1. “Saludo”, consigna cincuenta circuns- ras indicaciones y acápites, tal como la que
tancias y formas concomitantes en que el indica que el agente al ser “despachado”14
agente debe hacer el saludo. A ello debe de la comisaría al puesto de guardia debe
sumarse, en el items 2 a 5 (Honores al hacerlo por el camino más corto y utili-

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zando los medios más rápidos; sea copiosa” (Obligaciones del agente en
prohibiéndole mantener conversaciones el servicio de calle; pag. 62).
con particulares o iguales durante las ho-
ras de servicio en la calle o “En los casos Pero el agente que debe permanecer de
de lluvia, solo le será permitido refugiarse guardia bajo la lluvia mientras esta no sea
en lugares desde los cuales no desatienda copiosa15 tiene, obviamente su contracara:
sus obligaciones, siempre y cuando ella no el juez. Paso rápidamente a la descripción
del memorandum 40.

EL MEMORANDUM 40 O LOS QUE NO DEBEN PERMANECER


BAJO LA LLUVIA NI SER MOLESTADOS EN HORAS
INAPROPIADAS

La Policía Federal argentina, con estadísticas para demostrar trabajo –, y


jurisdicción en la ciudad de Buenos Aires controlar, para provecho propio una serie
contaba entre sus atribuciones, hasta hace de actividades ilegales, tales como la
pocos meses, con la facultad de detener prostitución, 16 el juego clandestino y el
personas por faltas contravencionales. pequeño tráfico de drogas.
Estaban codificadas como contravenciones
de policía un vasto cuerpo de figuras Adentrarse en el libro de Reglamentos
decimonónicas que restringían, al tiempo Contravencionales es un ejercicio similar
que ponían bajo el poder de policía, la casi a hacerlo en el Manual de Instrucción de
totalidad de las actividades sociales – des- la policía bonaerense. Cientos de normas
de la celebración de bailes públicos hasta de procedimientos, de formularios que
el control de la prostitución y la vagancia deben ser llenados, de fórmulas que deben
– legislando sobre figuras tan amplias proferirse en el momento oportuno. Ese
como el “merodeo” o “proferir gritos y es el telón principal del escenario. La le-
voces altas”. Mas de 150.000 personas han tra de la ley. Tras él, las sombras y el secre-
sido detenidas anualmente por edictos to: el control de los ilegalismos, el cuerpo
contravencionales, sin ser sometidas a de informantes.
ningún poder jurisdiccional.
Por supuesto que los Edictos estaban des-
Aunque poder discrecional de la policía, tinados al control de las clases pobres o
detener personas por Edictos suponía, al peligrosas – fueron así pensados a
mismo tiempo, activar una compleja ma- principios del siglo y se adaptaron en los
quinaria burocrática, razón de ser de años venideros –. Un instrumento pensa-
buena parte del trabajo policial – hacer do y activado para ello difícilmente podía

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rozar a la otra porción de clase, la que está La aplicación era restringida y consistía en
arriba.17 Sin embargo, solía hacerlo con no dar necesariamente aviso al juez de
frecuencia, porque los argentinos, como turno – trámite obligado tratándose de
señala O’Donnell (1997) somos contradic- menores – quedando librado al buen sa-
toriamente igualitarios y autoritarios. Así, ber y entender del jefe de la comisaría.
frecuentemente la policía detenía, por Este, la mayoría de las veces entendía que
edictos, a menores y jóvenes de clase me- la mejor operación era llamar a los padres,
dia cuya conducta desordenada o bien poner en evidencia las transgresiones de
molestaba a adultos de clase media o bien un chico de clase media y corregir así a
activaba los micro despotismos que las eli- ambas partes. Por otro lado, si el padre
tes morales han concedido a los cuerpos esgrimía el “sabe usted con quien esta
policiales. Cientos de jóvenes eran hablando”, el “y a mi que mierda me im-
detenidos en recitales de rock, locales porta” podía transmutarse rápidamente
bailables o cualquier actividad nocturna. en un reconocimiento de rango, y
Sin embargo, con ellos, por concesión de explicación del rol paternal de la autoridad
clase, no se seguía el mismo procedimiento policial. Pero el memorandum 40 activaba
que para con los jóvenes de las clases po- otro privilegio de clase, que me interesa
pulares. Así, las detenciones no eran especialmente. El memorandum 40 es un
asentadas en el libro de contravenciones memorandum de los jueces a la policía. Es
sino en un cuaderno ad hoc que se llamaba una concesión a la policía con el fin prin-
“memorandum 40”. cipal de no ser molestados por cuestiones
consideradas por algunos jueces irre-
El memorandum 40 fue creado en 1965. levantes, en especial los días viernes y sá-
Es una comunicación del Director Judici- bados por la noche, que es cuando las
al de la Policía Federal al Director de comisaría se llenan de jóvenes. ¿Porque no
Seguridad, de la División Orden Público, se aplicaba en los menores de las clases
en la que se instruyen una serie de pobres? Sencillamente porque nadie iba a
recomendaciones destinadas a orientar los reclamar por los plazos de detención y la
procedimientos que deben seguirse comunicación al juez podía hacerse
cuando se detienen menores de edad. En cuando este estuviera disponible (es decir,
esta comunicación se cita expresamente a partir del día lunes).
que la autoría de la misma pertenece a dos
jueces correccionales.18 Estas instrucciones El memorandum 40 salió a la luz pública
especifican que debe dejarse librado “al en 1991, luego de la muerte en una
atinado criterio de los instructores” comisaría del menor Walter Bulacio. Su
policiales si existe necesidad de dar detención estaba asentada en el cuaderno
intervención al juez de turno cuando se ad hoc. Fue derogado por presión del
detiene a un menor. El Memorandum D.J. movimiento de derechos humanos y de
“sec.”19 No 40 del 19 de abril 1965 resultó familiares de víctimas de la violencia poli-
en el “Libro Memo 40” en el que se cial.
asentaban este tipo de detenciones.20

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La breve descripción acerca de cómo – autoritario, verticalista – es suficiente-
actuaba el memorandum 40 nos permite mente obedecido, su letra estricta puede
hacer algunas observaciones obvias. En ser convenientemente transgredida. Ob-
primer lugar, deja al descubierto – como viamente ello resulta en la creación de
muchas otras normas secretas o no – el inmensos ámbitos de ilegalidad y, parale-
carácter clasista y jerárquico del sistema lamente, de resistencia a la autoridad.
penal en la Argentina. En segundo lugar,
abre las puertas a la contemplación de la Decía al comenzar esta charla que los
otra escena, la que se desarrolla tras la le- varios años de trabajo de campo intensi-
tra de la ley y cuyo vigor es tan potente vo, la convivencia con los actores y las
que, muchas veces, los actos que en esta prácticas, la comprensión de los sutiles
escena se desarrollan, terminan siendo mecanismos que organizan la vida cotidi-
codificados también en reglas, pero, esta ana del poder penal en nuestro país, me
vez, secretas. Y en tercer lugar, la paradoja: hacen sospechar, aún oscuramente, que
el carácter clasista y jerárquico del sistema estamos asistiendo al desmantelamiento de
penal argentino está, sin embargo, la escena y apenas sabemos, o mejor, po-
atravesado por núcleos de relacionamiento demos mirar, qué escenarios y dónde se
que al tiempo que niegan la desigualdad están montando.
social, la refuerzan. O sea, marcan la dife-
rencia y en el mismo acto la niegan, Hay sin duda datos contundentes. Hoy en
aunque sea por un instante. la Argentina, la seguridad privada tiene
más agentes que la seguridad estatal. Ca-
De forma muy similar a como lo señala rece de controles. La privatización de la
Melossi para el caso italiano (1997, p. 76), escuela pública, de los parques públicos,
entre nosotros, en el tipo de ambiente cul- de la diversión común, de los paisajes
tural que nos caracteriza, las prácticas que nacionales, resulta en la emergencia de
no son abiertamente reivindicadas son nuevas legalidades que, en realidad, has-
mejor toleradas. Así, los policías no ta deberíamos dudar de llamarlas legali-
reclaman por sus derechos – a la dades, aunque más no sea para no
sindicalización, por ejemplo – aceptan una arrastrar un lenguaje que puede
reglamentación clasista y obstrusa, porque derrumbarse con el escenario.
saben, se aprende en miles de micro
escenas, que por encima de la letra de la El principal problema es que estamos den-
ley, es posible fumar frente al superior; no tro. Que no volvemos, como los viejos
saludar con las manos enguantadas; usar etnógrafos, al confortable gabinete ni al
el uniforma desprolijo; no hacer la venia campus de pares acogedor. Por el contra-
a dos pasos del superior; no dar aviso al rio. Parados en los bordes de la escena so-
juez de las detenciones; transar una parte lemos defender con vehemencia derechos
del botín con la delincuencia; hacer desa- y garantías, nuevos códigos y reestruc-
parecer pruebas y cadáveres etc., etc. Si el turaciones institucionales. Puede suce-
espíritu de las normas internas policiales dernos que alguna de las viejas estanterías

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que acumula los cientos de libros que Pero como estamos dentro también, po-
guardan las comisarías caiga sobre nuestra demos reconocer la malla compleja y tirar
cabeza y nos descerebre para siempre. o reforzar alguno de sus hilos.

DEFENSA DE TOPOS RETÓRICOS Y TELONES QUE MUESTRAN


PAISAJES DE JUSTICIA E IGUALDAD

En la Argentina, y en Buenos Aires en par- humanos en el mundo globalizado. Los


ticular, el reciente debate en la agenda pú- derechos humanos forman parte hoy de
blica sobre la policía ha sido parido en el las agendas de los gobiernos y su
multisémico vientre del discurso de los cumplimiento es condición de la ayuda y
derechos humanos. Hay muchas razones cooperación internacional. No es ninguna
para que ello sea así. En otros trabajos he novedad que la hegemonía de los Estados
explicado la forma en que algunas Unidos y del pensamiento liberal en
organizaciones de derechos humanos y nuestra región no es ajena, ni mucho me-
defensa de los derechos civiles – en tiempos nos a la vigencia del discurso de los
diferentes pero perfectamente ensam- derechos humanos. Pero, como de forma
blables – han reconocido en las muertes tan sugerente plantea Boaventura de
por brutalidad policial las metodologías del Sousa Santos (1997, p. 111)
terror de la última dictadura militar. Ello
ha resultado en un movimiento de denun- la complejidad de los derechos huma-
cia vigoroso y activo, que ha presionado, nos reside en que pueden ser conce-
durante estos últimos diez años, al poder bidos tanto como una forma de
político y administrador, obligándolo a di- localismo globalizado, como una for-
rigir la mirada hacia un poder descuida- ma de cosmopolitismo o, en otras
do: el poder de policía.21 La incorporación palabras, tanto como globalización
de esta preocupación a la agenda política hegemónica o como globalización
– la policía como problema y no como dato contra-hegemónica.
– es uno de los fenómenos más novedosos
en las democracias latinoamericanas. El que puedan ser identificados de una y
otra forma supone analizar las condiciones
¿Pero, qué ha sucedido para que el cam- culturales a través de las cuales los
po de los derechos humanos sea un derechos humanos se construyen. La
campo altamente significante? cuestión reside en que tanto las violaciones
a los derechos humanos como las luchas
Una respuesta obvia nos llevaría a plantear en defensa de ellos tienen una dimensión
la vigencia de la temática de los derechos nacional fundamental.

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Y en nuestro país esa dimensión nacional debida, Punto final y el indulto presiden-
de los derechos humanos es particular- cial, en el año 1996, y luego de las
mente importante. Desconfiados de los declaraciones del capitán Adolfo Scilingo
partidos políticos y las instituciones demo- sobre la forma en que se arrojaban desde
cráticas22 el discurso de los derechos hu- aviones al mar, los cuerpos de los detenidos
manos ha servido para cubrir una en la Escuela de Mecánica de la Armada,
amplísima franja de demanda de derechos un grupo de abogados de derechos hu-
– demandas que por otra parte son tan manos comenzó una serie de presen-
caras a los argentinos –. Y ello sucede en taciones judiciales reclamando “el derecho
dos planos simultáneos. a la verdad”. La estrategia legal demanda
al Estado la obligación de tutelar derechos
Uno de ellos se despliega en torno a las que, aunque no tipificados expresamente
diferentes demandas por la memoria de en los códigos, no pueden ser soslayados
lo ocurrido durante la última dictadura (OLIVEIRA; GUEMBE, 1997). Así, el
militar. Más de veinte años después, aún derecho a conocer el destino final de los
existe una intensa movilización que se desaparecidos, por ejemplo. No se piden
despliega en dos tipos de acciones. Una, condenas a los ejecutores de las
social, que se desarrolla a través de actos desapariciones – opción clausurada por las
periódicamente organizados por las leyes de impunidad – pero si, publicidad
tradicionales organizaciones de defensa de de los actos.
los derechos humanos y por H.I.J.O.S
(organización fundada por los hijos de los Por otras vías, el cosmopolitismo porteño
detenidos – desaparecidos durante la ha llevado los juicios a los militares a los
dictadura militar), consistentes en actos tribunales de Italia, Francia y España. Las
recordatorios y actos destinados al repercusiones de estos movimientos ha
“escrache” que, en lenguaje común signi- llevado a los legisladores a entramparse
fica “poner al descubierto”. Así, por derogando leyes de impunidad que ellos
ejemplo, se organizan actos de repudio mismos han votado.23
frente a las casas donde viven represores
o militares comprometidos con la última El otro plano en que se construyen las de-
dictadura militar – se pinta con leyendas mandas en el horizonte de los derechos
condenatorias el frente de la casa, se humanos, se despliega en la impugnación
distribuyen volantes en el vecindarios ex- de los reglamentos y usos y costumbres
plicando los crímenes cometidos por el policiales. La derogación del memo-
represor, se pegan afiches con la foto del randum 40; la derogación reciente de los
“escrachado” y la leyenda “Asesino” en los edictos policiales en la ciudad de Buenos
alrededores; entre otras acciones. Aires; la continúa protesta por las
detenciones arbitrarias; el develamiento de
Otro tipo de acción es el jurídico. Agotadas los falsos enfrentamientos y las ejecuciones
las instancias de investigación judicial por extra-legales; la intervención civil de a la
los efectos de las leyes de Obediencia policía bonaerense que, aún sin posibilidad

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de medir sus resultados, por de pronto, en el estilo “toma del palacio de invierno”,
por decreto, ha dejado de reconocida con alusión al carácter “foquista”, secreto y, en
el nombre histórico que llevaba. muchos aspectos, autoritario, de acciones
de gobierno que privilegian el “golpe de
Este inmenso campo de impugnaciones efecto”, por sobre el consenso y la
que el discurso de los derechos humanos participación en las decisiones. Una
abre parece particularmente propicio para muestra menor de este carácter, es la
hacer caer telones en el escenario del sis- repetición de la vieja costumbre nacional
tema penal. La cuestión es que este des- de prohibir nombres por decreto y pen-
mantelar y hacer caer telones sucede sar que así, desaparecen las instituciones
también en clave nacional. Quiero decir, o los movimientos. 24 El nombre de la
también el discurso de los derechos hu- policía de la provincia “Policía bonaerense”
manos y de los garantías está contamina- fue suprimido, así como un número im-
do de autoritarismo y violencia. Las portante de las insignias de rango. La
recientes discusiones sobre un nuevo có- institución ha quedado sin nombre propio.
digo de convivencia para la ciudad de
Buenos Aires (TISCORNIA; SARRA- Si caen los telones de los reglamentos
BAYROUSSE) y la intervención y refor- vacíos que hemos impugnado; si las
ma de la policía bonaerense son ejemplos prácticas secretas y sus máscaras son ilu-
interesantes del carácter contradictorio de minadas por la mirada pública; ¿qué
las reformas en la Argentina. escenario penal estaremos habitando? Mi
temor es que, obnubilados los expertos
En el primer caso, la derogación de los juristas por el discurso garantista y por los
edictos y la elaboración de un nuevo códi- proyectos regionales de policías democrá-
go, esta vez de convivencia, abrió la puerta ticas, impulsados por las agencias de
a discusiones públicas centradas, en buena cooperación internacional, estemos olvi-
medida, principalmente en el problema dando que los actores diarios del drama
moral que la desaparición de la figura de la violencia cotidiana mientras tanto se
contravencional que permitía la detención preguntan ¿cómo podemos arreglarlo? y
de prostitutas y travestis, traía aparejada. continúan en la obra de construcción de
En el segundo caso, la intervención civil espacios cada vez menos universalistas,
de la policía bonaerense, involucrada en menos democráticos y más autoritarios.
graves crímenes y corrupción, fue hecha

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115

NOTAS
1
Me refiero, por ejemplo a la defensa de los topoi tránsito incontralable; la crisis ecónomica y so-
de la justicia ciega e imparcial; de las garantías cial; etc.
del debido proceso; de las normas universalistas 8
“Truco” en español significa ardid o trampa que
etc.
se utiliza para el logro de un fin, así como
2
El concepto de “elite morales” predica acerca de también mañas y habilidades que se adquieren
aquellos individuos y grupos que, “dentro de en un oficio o profesión para hacer más liviana
pautas dadas, tienen éxito en expresar las la tarea.
posiciones morales que eventualmente se 9
Coima, en lenguaje popular es el equivalente de
transformarán en hegemónicas, frecuentemente
la “propina” en portugues, esto es, una dádiva
a través del conflicto” (MELOSSI, 1992).
con la que se soborna.
3
Tomo las nociones de micro escenas y macro dra- 10
Hay otra serie de micro escenas donde este tipo
mas de Da Matta.
de mecanismos de interacción se repite: ser
4
Me refiero al artículo: “Y a mi que mierda me impor- detenido por ebriedad, desorden, etc. E incluso,
ta”: notas sobre sociabilidad y política en la Ar- ser descubierto in fraganti. Es común que la
gentina y Brasil (O’DONNELL, 1997). policía “arregle” con delincuentes quedarse con
parte del botín, si estos son descubiertos o
5
La ciudad de Buenos Aires ocupa los primeros lu-
alcanzados en una persecución.
gares en el ranking mundial de ocurrencia de
accidentes de tránsito, con la característica adici- 11
El Código de Faltas – que codifica principalmen-
onal que las principales víctimas son los peatones, te las faltas de tránsito – reúne aproximadamente
esto es, personas atropelladas por automovilistas. doscientos tipos similares de infracciones, muchos
Señalo esta cuestión porque cruzar un semáforo de ellos superpuestos, de confusa redacción y re-
en rojo es un hecho habitual que sin duda resulta dundantes.
en accidentes y muertes frecuentes, quiero decir, 12
“Gatillo fácil” se denomina a los hechos de violencia
no es una falta inocua.
policial en la que resultan muertas o gravemente
6
Me estoy refiriendo a una variación de las heridas personas, en general jóvenes, como re-
interacciones descriptas por O’Donnell (1997). En sultado de la sospecha policial. Ver HUMAN...,
este caso, el “sabe usted con quien está hablando” 1998.
y el consecuente “y a mi que carajo me importa” 13
Se denomina “libro” a los diversos cuadernos de
esta sobreentendido en la relación. Así, la
registro, por ejemplo el “libro de Novedades”
descripción debería ser más compleja. Lo que me
donde se consignan la correspondencia que llega
interesa demostrar es la prolongación del espacio
por día a la delegación; el “libro de entrada y
violento de medición de fuerzas, que supone un
salida de detenidos”, “el libro de Visita de
momento de igualación de jerarquías, aún en
detenidos” (las comisarías de la provincia de
situaciones en que el poder de policía es el que
Buenos Aires alojan un número importante de
está en acción. Claro que está microescena en
presos) etc.
particular debiera ser analizada en sus muchas
variantes, tales como el status del auto infractor; 14
El verbo “despachar” significa enviar, pero se uti-
si se trata de una mujer, un hombre mayor, un liza más para las cosas – por ejemplo la
joven, un funcionario, etc. correspondencia – que para las personas. Sin
embargo, en el Manual se utiliza para referir
7
Me refiero a un topo argumentativo que se
acciones que deben cumplir los policías por
desarrolla en torno a que “todos somos víctimas
órdenes de sus superiores.
de la situación” y eso nos iguala. “La situación”
puede ser las malas condiciones de trabajo; el 15
Se trata casi de un arcaismo para designar una
lluvia que cae en torrentes.

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116
16
La recaudacion ilegal por protección policial a 23
A comienzos de 1998, un grupo de legisladores
la prostitución ronda los 6 millones de dólares presentó una iniciativa parlamentaria de
anuales, en la Capital Federal, según derogación de las leyes de Obediencia debida y
investigación del diario La Nación (1998). Punto final. Esta iniciativa desató un complicado
17
Sobre esta cuestión cf. Tiscornia (1997). debate jurídico y parlamentario. Finalmente, las
leyes fueron derogadas, pero el efecto de la acción
18
Cuando un menor era detenido por la policía, resulta nulo para cualquier condena o
esta debía dar aviso al juez correccional de tur- investigación judicial.
no, aún en el caso que la causa de la detención
fuese un edicto contravencional. En cambio, en
24
Posiblemente el máximo exponente de esta
los casos en que se detenía a personas mayores tradición nacional despótica de suprimir
de edad por edictos contravencionales, la misma nombres para suprimir realidades, lo sea el de-
policía ejercía el poder de juzgamiento. creto del 5 de marzo de 1956, del golpe que
derrocara al Pte. J.D.Perón, que prohibía
19
“sec” significa: secreto. “imágenes, símbolos, signos, expresiones signi-
20
El Libro memo 40 estaba destinado, originalmen- ficativas, doctrinas, artículos y obras artísticas”
te a asentar en él “llaveros y perros extraviados” que fueran o “pudieran ser tenidas por”
(BLANDO, 1995, p. 191). peronistas. No se podía exhibir ni escribir ni
nombrar el nombre de Perón ni de sus parientes
21
Este tema lo he tratado en otros trabajos y, hasta utilizar – sin especificar como – la fecha
(TISCORNIA, 1997, 1999). del 17 de octubre (fecha en que miles de
22
Así lo señalan las encuestas de opinión pública. trabajadores reunidos en la Plaza de Mayo
Por ejemplo Sofres Ibope; febrero 1996, para la pidieron y obtuvieron, la libertad de Perón), todo
Capital Federal: ello constituía un delito con pena de cárcel.

Actuación de dirigentes e instituciones en la


solución de los problemas de inseguridad,
violencia y presencia del delito organizado
Muy mala mala regular buena muy buena no evalúa
Jueces 17,0 17,2 42,0 22,3 0,0 1,5
Polícia Federal 31,8 18,0 30,0 15,2 4,5 0,5
Policía bonaerense 42,2 26,7 11,8 4,3 0,4 14,6
Congresso 18,1 27,6 34,5 15,3 1,4 3,1
La radio 4,8 5,7 24,1 36,0 23,9 5,5
Los diarios 5,0 6,1 29,7 41,5 12,9 4,8

ABSTRACT
This work studies the main aspects of the “cultural atmosphere” in
which the authority of the police organization – in a broad conception
– takes place by the end the century in Buenos Aires. As a result of
two study cases – the Instruction´s Manual for the Police Officers
of the Province of Buenos Aires and the way in which the National
Justice’s Secret Memorandum is applied by the Federal Police-we
clarify the consequences on Human Rights’ policies that the existence
of a legal corpus that privileges secrecy and normative multiplicity
has.
Keywords: police organization; judiciary system; culture; violence.
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A VISÃO DA MULHER NO IMAGINÁRIO


PENTECOSTAL*
MARION AUBRÉE**

Depois de apresentar brevemente a teoria de Gilbert Durand rela-


tiva às estruturas antropológicas do imaginário, a autora analisa,
a partir dessa ótica, o lugar da mulher no imaginário dos
pentecostais brasileiros dos dois sexos. Esta análise permite colocar
em evidência um aspecto específico deste sistema religioso que, além
de uma subordinação explícita da mulher ao homem na vida social
justificada pela Bíblia, tenta, de modo implícito, construir o mode-
lo feminino em termos de um referente cultural mais masculino.
Palavras-chave: estruturas antropólogicas do imaginário; religião;
pentecostalismo; mulher.

No Capítulo XI da sua Sociologia da reli- segundo pólo, que se desenvolveu no mun-


gião, Max Weber estuda as diversas for- do ocidental sobretudo através das diver-
mas de negação do mundo que estão li- sas correntes do protestantismo, faz daquele
gadas a certas éticas religiosas, em parti- que o segue um “reformador racional” do
cular aquelas que ele qualifica como “re- mundo no qual está inserido. Cada uma
ligiões de salvação”, assim como as dife- dessas duas atitudes cria tensões particula-
rentes tensões que resultam da prática res para quem as pratica, em relação a cer-
dessas religiões para os adeptos em suas tas esferas da vida no mundo, e Weber
relações com o mundo natural. Weber mostra como estas tensões aparecem de for-
analisa essas práticas a partir de dois pó- ma ainda mais evidente nos casos do
los conceituais, o misticismo e o ascetismo ascetismo ativo, uma vez que o fiel não tem,
ativo. O primeiro pólo corresponde a neste caso, nenhuma outra proteção em
uma experiência irracional de fusão com relação ao mundo além da sua fé individu-
o divino que, no Ocidente, concretizou- al e da comunidade religiosa intramundana
se na contemplação monacal (retiro físi- à qual está ligado.
co do místico para fora do mundo); o

*
Tradução de Cecília Campello do Amaral – camello@momentus.com.br
**
Antropóloga, pesquisadora do Centre de Recherches sur le Brésil Contemporain da EHESS-Paris.

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Algumas dessas religiões cristãs “de salva- de vinte anos dentro de muitas denomi-
ção”, oriundas das renovações protestan- nações pentecostais brasileiras permitiram-
tes do século XIX que se desenvolveram me observar estas mudanças e, a partir daí,
nos Estados Unidos, estão se difundindo fazer análises nas quais muitos elementos
rapidamente na América Latina há algu- me parecem poder ser generalizados ao
mas décadas, sob diversas formas. A ética conjunto dos países da América Latina,
que esses grupos particulares desenvolvem onde o pentecostalismo é, de todas as cor-
os une ao pólo conceitual do ascetismo ati- rentes neo-evangélicas cristãs, aquela que
vo, no sentido dado por Weber, o qual re- se difunde mais rapidamente.
sulta, para seus membros, em tensões com
as sociedades englobantes às quais eles Para levar a termo a análise das represen-
pertencem. Estas tensões repercutem so- tações simbólicas tal como aparecem no
bre a cultura particular dessas sociedades discurso e nas palavras individuais dos
e fazem surgir novos elementos crentes, apoiei-me nas elaborações teóricas
socioculturais, em particular no nível do feitas por Gilbert Durand, antropólogo e
imaginário. De fato, considerando o con- filósofo francês, expostas em muitas de
junto das culturas que se formaram nesta suas obras.2 Escolhi este autor pois desde
região do mundo a partir da mistura os anos 50 ele trabalha sobre a reabilita-
ameríndia, européia e africana, constata- ção das percepções físicas na formação das
se que, no nível do imaginário, estas cul- imagens mentais e sobre sua importância
turas criaram – ao longo dos séculos de dinâmica para a criação de todos os siste-
colonização e de sua vida enquanto nações mas simbólicos.
independentes – formas imaginais1 que
lhes são particulares. Tanto as figuras sim- O postulado de base de Gilbert Durand é
bólicas autóctones ou importadas da Áfri- que “as imagens são o molde afetivo re-
ca como aquelas da religião cristã, presentativo das idéias”, isto é, elas são
reelaboradas através do catolicismo popu- anteriores às idéias e não o contrário. A
lar particular a essas regiões, desempenha- partir dessa premissa, ele criou uma
ram um papel muito importante na cons- metodologia que permite observar a cons-
trução deste imaginário específico. Ora, trução dinâmica de certas imagens e ver
desde o início do século XX, certas formas como constelam – isto é, como se agrupam
do imaginário ocidental, contidas ao mes- a partir de um nó organizador que Durand
mo tempo na visão de mundo das elites considera “arquetípico” – para formar um
nacionais latino-americanas e em formas ou outro universo simbólico e como, a par-
religiosas muito ligadas à construção de tir daí, agem sobre o real cotidiano das
uma auto-representação do Ocidente pessoas.
como lugar maior do desenvolvimento
humano, penetram nas camadas popula- Portanto, considerei este método um ins-
res da América Latina, em particular atra- trumento de análise pertinente para valo-
vés de certos ramos do neo-evangelismo rizar certas particularidades da dinâmica
cristão. As pesquisas que realizo há mais de construção de imagens simbólicas no

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pentecostalismo. Para fundamentar minha duas categorias, o autor se dedica a estu-
proposição, gostaria de relatar brevemente dar as hermenêuticas “instaurativas”, que
a gênese das principais contribuições de reintroduziram no pensamento ocidental
Gilbert Durand sobre a imaginação sim- a função transcendente das imagens sim-
bólica, a fim de que se esclareça melhor o bólicas. Elas são representadas essencial-
que serviu de base às minhas análises do mente pelas obras de Jung e Bachelard,
universo pentecostal. às quais se podem, aliás, afiliar os traba-
lhos de Durand, mesmo considerando-se
Num primeiro momento, este autor ana- que ele diverge sobre alguns aspectos do
lisa como a cultura ocidental, ao longo de pensamento dos seus predecessores. De
sua história, atribuiu um lugar preponde- fato, se ele retoma de Jung a noção de ar-
rante e quase exclusivo às visões teólogo- quétipo, é sobretudo a partir da
filosóficas, que terminaram, em nome da fenomenologia de Bachelard que Durand
razão, por esvaziar a função dinâmica da (1969) constrói seu próprio método, cuja
simbolização. Estas visões se consagraram evolução culmina na obra citada acima.
desconsiderando que o símbolo é o local Trata-se de uma teoria geral do imaginá-
de encontro entre o imaginário e o racio- rio que determina, entre outras coisas, os
nal e atribuindo a este último, ao contrá- níveis de formação de imagens a partir da
rio, a primazia absoluta na construção do multiplicidade das atividades humanas.
devir humano. O apogeu do pensamento Estas “imagens” são, para ele, as estrutu-
racional científico engendrou, segundo ras de ligação entre os gestos inconscien-
Gilbert Durand, reações filosóficas diver- tes da sensomotricidade e as representa-
sas, entre as quais ele distingue as herme- ções. Dito de outra forma, a relação dinâ-
nêuticas redutivas e as hermenêuticas ins- mica que une as pulsões subjetivas inter-
taurativas. Entre as primeiras, Durand con- nas e as demandas objetivas provenientes
sidera especificamente aquelas de Freud, do meio cósmico e social. Estas imagens se
Dumézil e Lévi-Strauss, na medida em que organizam segundo diversos “esquemas”,
são, sem dúvida, hermenêuticas, já que termo que Durand define como “genera-
suas teorias evocaram a importância das lização dinâmica e afetiva da imagem”
imagens simbólicas para a vida mental – (DURAND, 1969, p. 61) e que ( “se apro-
através dos problemas psicológicos, no caso xima do…” me parece melhor do que
de Freud, e através do estudo de outras “será o equivalente do”) Piaget denomina
culturas, nos outros dois autores –, mas elas o “símbolo funcional”.
são “redutivas” porque redescobrem a
imaginação simbólica somente para Assim, Durand analisa a forma pela qual
integrá-la num sistema intelectualista as imagens se aglutinam de maneira con-
racionalizante, negando, conseqüente- vergente para formar “constelações”. Esta
mente, a polivalência do símbolo. dinâmica de aglutinação segue os princí-
pios do isomorfismo e da polarização, ou
Após ter mostrado como o pensamento de seja, as imagens se agrupam a partir de
Ernst Cassirer3 faz uma ligação entre as elementos analógicos que, assim, produ-

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zem novas estruturas no interior das quais árvore, o fruto, a roda, a flama do
se criam novas polaridades. Algumas ques- fogo, entre outros.
tões surgem em face desta dinâmica: como
são produzidas as imagens arquetípicas e 3) O eixo digestivo, ao qual cor-
qual seria a matriz dessas “grandes cate- respondem os reflexos de sucção e de
gorias vitais da representação”? Como ele deglutição, que engendram imagens
as denomina? Quais seriam seus princípi- simbólicas ligadas à nutrição, ao ca-
os organizadores? lor, à intimidade, ao centro, à noite e,
por extensão, à Mãe, aos quais agre-
Após revisar a literatura sobre a relação gam-se os líquidos, com ênfase na
entre motricidade e modo de representa- água, mas também a caverna, os cáli-
ção visual, Durand adota a classificação dos ces ou, ainda, o ovo, o berço, o leite, o
reflexos sensomotores feita por Betcherev mel, a ilha, a tumba etc.
e confirmada pelos trabalhos de Piaget
sobre a construção do real e a formação Partindo das polaridades criadas por es-
do símbolo nos recém-nascidos. Esta ses três elementos de base, Durand elabo-
“reflexologia” se constrói a partir de três ra estruturas de classificação isotópica das
grandes categorias de gestos dominantes, imagens, a partir das constelações gerado-
que produzem condensações simbólicas ras de sentido. Estas estruturas cor-
particulares. São elas: respondem, respectivamente, a cada um
dos três eixos descritos acima. Trata-se:
1) O eixo postural, ligado aos refle-
xos de erguimento e aos reflexos óti- • da estrutura heróica, qualificada
cos; ele induz os elementos de ainda pelo autor como “esquizo-
verticalidade e de horizontalidade morfa”, na medida em que está base-
que produzem as imagens simbólicas ada nos princípios da separação, pu-
portadoras de contradição, de sepa- rificação, exclusão e contradição e em
ração, de autoridade, de ascensão, de que seu esquema de base se resume
luz e de claridade, de onde emanam nos verbos “distinguir/separar”;
símbolos tais como as armas, o chefe,
o olho do pai, a asa, o sol, o azul cla- • da estrutura dramática, dita tam-
ro, o fogo etc. bém “sintética”, na qual as contradi-
ções se interligam numa representa-
2) O eixo copulativo, cujo modelo ção diacrônica não-linear e da qual
de base é o ato sexual e em torno do provêm os verbos “ligar” ou “religar”;
qual vêm se agrupar todos os movi-
mentos rítmicos, a dimensão cíclica, a • da estrutura mística, ou “anti-
reversibilidade e a fecundidade, pro- frásica”, na qual os princípios funda-
duzindo símbolos de repetição, de mentais são a analogia, a semelhança
germinação e de amadurecimento e cujo esquema verbal de base é o ver-
com todos os seus derivados, como a bo “fundir”.

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Por fim, Durand faz uma divisão ainda bólica que se implanta e se desenvolve ra-
maior e bipolar entre um regime diurno das pidamente, com as imagens que lhes são
imagens, no qual entraria somente a es- próprias, numa região do mundo em que
trutura “heróica”, e um regime noturno, que outras tradições simbólicas modelaram um
recobriria conjuntamente as estruturas mundus imaginalis específico no espírito de
“mística” e “dramática”. Esta noção de “re- grande parte da população.
gime” é entendida pelo autor como um
agrupamento de estruturas vizinhas. Vale Com a colonização da América Latina, o
notar que esses “regimes” não correspon- Ocidente tentou impor nesta parte do
dem de forma alguma a uma divisão do mundo uma matriz imaginal, na qual po-
cotidiano cíclico dos seres humanos, como demos reconhecer muitos símbolos ligados
é o caso, na psicanálise, da idéia de “resí- àquilo que Durand caracteriza como a es-
duos diurnos”, no que diz respeito à aná- trutura “heróica”, com forte valorização
lise dos sonhos. Para a imaginação simbó- dos “esquemas” de separação (entre luz e
lica, esta divisão está ligada ao próprio con- trevas, pureza e impureza), que se desen-
teúdo das “imagens”. É assim que o regi- volvem em oposição, e de ascensão
me “diurno” se constitui a partir de ima- (sobrevalorização das alturas versus desva-
gens de luz, de ascensão, de pureza, e ini- lorização da queda, céu versus inferno,
be os esquemas ligados à sombra, à queda anjos versus répteis etc.) portadores de
etc., enquanto o regime “noturno” desva- antagonismo e de sublimação. Porém, na
loriza a dimensão ascensional para exal- superestrutura simbólica da tradição ca-
tar, por um lado, a fecundação, o amadu- tólica, tal como esta chegou às Américas,
recimento, a multiplicidade, que estão na já se encontravam diversas constelações
base da estrutura “dramática” e, por ou- ligadas tanto à estrutura “dramática”
tro lado, o recolhimento, a descida, a inti- quanto à estrutura “mística”: respectiva-
midade, o esconderijo, o segredo, que fun- mente, para a primeira, os esquemas de
dam a estrutura “mística”. ligação, de pluralidade e de reversibilidade
cíclica que atraem símbolos como o germe
Pode-se acrescentar que os dois regimes ou a árvore e derivados como o Filho ou a
(noturno e diurno) recobrem quase per- cruz, assim como as múltiplas mediações,
feitamente a bipartição entre as duas gran- que são as graças ou os santos; e, para a
des categorias culturais consideradas como segunda, a Mulher, o secreto, a intimida-
pólos organizadores por aqueles que as de e a proteção, às quais correspondem,
elaboraram: “apolíneas” e “dionisíacas”, no universo católico, entre outros, a con-
segundo as análises de Nietzsche, Benedict fissão (protegida pelo segredo desde o sé-
e outros, ou, ainda, “ideacionais” e culo XI) e a Mãe com seu manto protetor
“visualistas”, segundo as análises de (Virgem Maria em primeiro lugar, mas
Sorokin. também outras santas).

Chegamos agora à análise da “constelação Aliás, no Brasil, como em outros países da


pentecostal”, isto é, uma construção sim- América Latina, o estudo posterior das

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culturas indígenas e de origem africana pírito Santo – cuja importância é primor-
permite-nos dizer hoje que elas eram e dial na corrente pentecostal –, represen-
ainda são em grande número fortemente tado simbolicamente por uma pomba com
marcadas pelo simbolismo da relação/me- as asas abertas, geralmente sobre a parede
diação e pelos princípios da analogia, da do coro, atrás do altar. Esta figuração é
multiplicidade e da complementariedade. freqüentemente acompanhada de um raio
Portanto, depois de cinco séculos de his- luminoso e, às vezes, por um olho (defini-
tória, em que todos esses elementos se ar- do pelos informantes como o “olho de
ticularam, pode-se inferir que o regime Deus”), do qual emana a luz “para atrair
"noturno", com suas estruturas “dramáti- os fiéis para o céu” ou “para a perfeição
ca” e “mística”, é o que melhor convém de Deus”, como gostava de repetir o líder
para definir o conteúdo da imaginação carismático de uma pequena seita que ele
simbólica que formou os símbolos funda- havia fundado a partir de uma das deno-
mentais dessas diversas culturas. É, por- minações “batista renovada”. Essas própri-
tanto, sobre esse substrato cultural que o as denominações são dissidências da Igre-
pentecostalismo está se implantando atual- ja Batista tradicional.6
mente.
Vêem-se também, em raras ocasiões, al-
Trata-se agora de valorizar os elementos gumas labaredas de fogo em torno da pom-
imaginais que aparecem mais freqüen- ba. Elas representam a inspiração do Es-
temente nesta corrente específica do cris- pírito Santo, que desceu sobre os apósto-
tianismo. Para fazer esta análise, utilizei, los no dia de Pentecostes, quando, segun-
por um lado, os ícones4 que se podem ver do a Bíblia, eles falaram em um idioma que
nos templos e que são pouco numerosos todas as pessoas presentes compreende-
em razão do iconoclasmo ligado à doutri- ram, qualquer que fosse sua língua natal.
na pentecostal;5 por outro, os símbolos e É esta mesma inspiração que recai sobre
imagens utilizados, tanto nos discursos das os fiéis de hoje quando eles recebem o “ba-
hierarquias como nas histórias de vida que tismo de fogo”, isto é, quando se manifes-
me foram contadas pelos fiéis das igrejas ta neles o “dom das línguas”. Este dom é
pentecostais, assim como as narrativas de por eles considerado como o primeiro e
“maravilhas” ou de “milagres” recolhidas mais comum de todos os dons do Espírito
em entrevistas pessoais ou ao longo de cír- Santo, a partir da exegese de uma Carta
culos de oração, nos quais os participantes de Paulo aos Coríntios (I.12 8-10) abordan-
exprimem- se livremente. do os carismas outorgados aos humanos
através do Espírito Santo. Nós, pesquisa-
De fato, em razão da iconoclastia que aca- dores em Ciências Sociais, denominamos
ba de ser mencionada, não há qualquer de “glossolalia” esta manifestação, que con-
representação antropomórfica de Deus Pai sideramos como uma forma de transe ver-
nem de Jesus nos templos pentecostais. bal.7
Apenas nos lugares de culto mais impor-
tantes pode-se encontrar um ícone do Es-

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A luz aparece igualmente como um dos dinária” que permite às pessoas saberem
elementos essenciais das histórias de "cura que é, sem dúvida, o Filho de Deus que
milagrosa" ou de "operação espiritual" lhes vem salvar de situações geralmente
efetuadas "pela graça de Deus" e relatadas “difíceis” e às vezes até mesmo “perigosas”.
em sua maioria por mulheres nas entre-
vistas pessoais. Isto quer dizer que a nar- Um outro elemento diretamente ligado à
rativa da cura se constrói, geralmente, a luz, que aparece constantemente no dis-
partir de um ambiente de obscuridade (a curso dos pastores e dos fiéis, é a transpa-
noite ou um quarto fechado), no qual pe- rência. Ela pode ser considerada como a
netra de repente uma luz "irreal", "trans- imagem de base de todas as relações sociais
cendente", "azul", "cegante", que anuncia que os pentecostais têm com os outros
a presença de Deus e seus benefícios. Es- crentes do seu grupo, com o pastor ou o
tes podem ser físicos (é o caso de todas as presbítero de sua igreja, mas também com
mulheres que falaram de "cura") ou espi- o conjunto da sociedade. É esta imagem
rituais, como no caso de um homem que de transparência que vai permitir, mais do
já era totalmente cego quando o conheci que qualquer outra coisa, a ascensão rumo
na sua igreja e que me contou que esta à santidade. É também do elemento “trans-
cegueira total (ele via apenas com um olho parência” que procede um dos rituais des-
quando o milagre adveio) era o resultado ta corrente religiosa: a confissão pública
de um encantamento (não, nesse caso é frente aos outros membros da comunida-
arroubamento) que Deus lhe havia conce- de. Ela evoca um costume das primeiras
dido “para ver o esplendor de seu Santo comunidades cristãs.
Rosto no céu e para transformar uma fé
tépida em uma fé verdadeira". A ceguei- Para os outros símbolos, é preciso levar em
ra, dizia ele, permitiu-lhe conservar esta conta, a princípio, aqueles que aparecem
visão sobrenatural em toda a sua pureza. especificamente nos discursos das hierar-
Ao longo do trabalho de campo realizado quias e que têm a ver com o lugar da co-
em sua igreja, pude constatar que seus munidade religiosa no mundo e a inte-
correligionários consideravam este simples ração com os outros grupos sociais; em
fiel como um homem santo, cuja experi- segundo lugar, considerar-se-ão as pala-
ência maravilhosa lhe havia outorgado o vras individuais sobre a experiência do
“dom da sabedoria”, que o permitia dar sagrado. As hierarquias e, por contamina-
conselhos aos outros na resolução de seus ção discursiva, um certo número de fiéis
problemas cotidianos. (geralmente os mais antigos) definem a sua
relação com o mundo profano como “uma
A figura humana de Jesus está no centro luta para expandir o reino de Deus” e,
dos acontecimentos extraordinários rela- para obter isto, eles utilizam em seu dis-
tados nos templos durante os momentos curso muitos termos bélicos, tais como,
reservados à expressão individual ao lon- entre outros, “as armas da Verdade”, “as
go de todas as reuniões. Esta imagem apa- cruzadas de evangelização”, “a conquista
rece sempre envolta numa “luz extraor- do bairro” ou mesmo “do mundo”, “o ani-

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quilamento do inimigo”. A palavra “ven- calvinista mencionada acima, trata-se de
cer” é também muito utilizada para falar um sistema religioso do qual eliminou-se
das situações mais cotidianas, em particu- qualquer símbolo feminino de mediação,
lar para descrever a resolução das contra- como seria a Virgem Maria ou as santas
dições internas que podem surgir na apli- em outras religiões cristãs (católica, orto-
cação da ética muito rígida que acompa- doxas ou copta). Sobre este assunto, é im-
nha, ao menos no Brasil, a adesão à dou- portante notar que mesmo no discurso dos
trina pentecostal. convertidos recentes, oriundos em gran-
de parte do catolicismo, nunca surgiu qual-
Neste mesmo registro de discurso, todas quer referência direta a uma dessas figu-
as histórias de conversão que me foram ras femininas; isso nos permite observar a
contadas pelos fiéis significam para aque- pregnância da conversão/ruptura produ-
les que as viveram uma “ruptura total” zida pela adesão a este novo universo sim-
com a vida anterior; uma “saída das tre- bólico.
vas para entrar na luz da Verdade”, “um
progresso”, “uma ascensão rumo à santi- Passemos agora aos elementos que servem
dade” ou, ainda, “uma cura do corpo atra- para determinar a imagem da mulher
vés da iluminação espiritual”. pentecostal entre os fiéis deste movimen-
to. Ela deve ser “transparente”, fisicamente
Por outro lado, como já analisei em ou- “natural”, isto é, “dar-se a ver como Deus
tros trabalhos, é contra a imagem de seu a criou”; deve ser “repleta de luz” ou “res-
próprio corpo que os pentecostais dirigem plandecente”, ou, ainda (qualidade que foi
sua mais forte iconoclastia. E isto é ainda sublinhada sobretudo pelos homens), “hu-
mais acentuado no caso das mulheres, pois milde e modesta”. Esses dois últimos ele-
seu corpo é o objeto da maior parte das mentos poderiam aparecer como contra-
proibições ligadas a esta ética, cuja trans- ditórios com o que os precede; mas não o
gressão pode ser um motivo para sua ex- é, pois o fato de ser “resplandecente” se
clusão da comunidade. Assim, as mulhe- refere a uma dimensão transcendente de-
res não podem cortar os cabelos, devem rivada da santificação pelo Espírito, en-
prendê-los em um coque bem fechado so- quanto a atitude “modesta” está relacio-
bre a nuca ou no alto da cabeça; não de- nada à forma de apresentar seu corpo e
vem se maquiar, usar roupas justas, deco- corresponde ao nível da vida profana. Esta
tadas ou sem mangas, nem calças, consi- modéstia é, em quase todos os casos, men-
deradas como um atributo do vestuário cionada em relação às mulheres que são
estritamente masculino; enfim, como a esposas ou mães.
maioria dos cristãos de todas as confissões,
não podem utilizar métodos de contra- Paralelamente, no que tange ao dever
cepção, nem fazer a ligadura de trompas, evangélico de proselitismo, que é um de-
já que “devem aceitar todas as crianças que ver de todo crente em relação àqueles que
Deus envia porque a Providência ajudará não o são, a mulher deve ser uma “com-
a criar”.8 Enfim, de acordo com sua filiação batente” em relação às lutas ligadas à cons-

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trução do “Reino de Deus”; deve partici- A partir de todos esses elementos, pode-
par das cruzadas para “acabar com o ini- mos dizer que o universo imaginal pen-
migo que difunde superstições e oculta a tecostal se organiza em torno de duas gran-
Verdade”, isto é, “o Maligno”, que, de acor- des constelações de imagens simbólicas. O
do com a época, foi representado no Bra- primeiro reúne tudo o que tem a cono-
sil pelos comunistas, pelos líderes da teo- tação de:
logia da libertação ou dos cultos afro-bra-
sileiros. Este vocabulário de conquista é a) pureza ou purificação, em parti-
particular às novas comunidades religio- cular através da pomba voando (uma
sas que pertencem àquilo que os próprios das raras imagens pintadas) cujas asas
protestantes chamam de protestantismo abertas são um símbolo de
“evangelizador” para distingui-lo das de- desmaterialização e de espiritualidade
nominações de igrejas tradicionais, im- que, segundo Gilbert Durand, encon-
plantadas na América Latina desde o iní- tra-se como em quase todas as cultu-
cio do século XIX, cujo proselitismo era ras. Estas noções aparecem também
pouco importante e que, por terem parti- através do fogo, representado tanto
cipado da sua construção histórica, influ- sobre o plano figurativo (as labaredas
enciaram e foram influenciadas pelas cul- de fogo), como o simbólico (o “batis-
turas nacionais nas quais se inseriram. mo de fogo”). É preciso enfatizar o
fato de que, se Durand faz igualmen-
Segundo os estudos e observações que fiz te do fogo um símbolo de fecun-
em Recife e depois em outras metrópoles didade, no caso dos pentecostais que
brasileiras, o símbolo de mediação que me foi dado escutar, a evocação deste
agrega à “constelação” pentecostal um ele- elemento não tem jamais a conotação
mento estrutural “dramático” é o Filho, de uma dinâmica copulativa, mas
Jesus Cristo, e pode-se dizer que é sobre sempre de um símbolo de purificação
este personagem simbólico que se catalisa espiritual;
a imaginação das mulheres. Tanto nos
detalhes íntimos do seu cotidiano material b) sublimação, em relação à qual
e espiritual, revelados nas entrevistas pes- encontramos novamente a pomba,
soais, como nos relatos maravilhosos ou- que Durand qualifica de “símbolo
vidos nos círculos de oração, encontramos puro do Eros sublimado”. Esta dimen-
esta figura central de Jesus, que aparece, são corresponde diretamente ao lu-
geralmente, encarnado sob a forma de um gar negativo que, nesta corrente, é
homem jovem, de cabelos loiros, envolvi- dado ao corpo enquanto suporte car-
do nesta claridade “extraordinária” ou nal de tudo o que pode impedir a
“transcendental” já mencionada. É tam- santificação;
bém com ele que as mulheres engajam diá-
logos fraternais na intimidade de sua casa, c) ascensão e cume, cujas imagens
quando sentem-se malcompreendidas ou aparecem nos discursos sobre a ori-
nos momentos de aflição. entação da vida rumo à santidade, nos

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relatos de visões paradisíacas e de ascensional, a pomba, que vêm reafirmar,
arroubamentos; entre outros, os elementos de sublimação e
de purificação enfatizados ao longo da aná-
d) transparência e luz, que servem, lise. Esta “estrutura heróica”, única compo-
como vimos, para descrever não so- nente do regime diurno, entra no campo
mente a vida espiritual ou as apari- das “culturas apolíneas” que são caracteri-
ções divinas, mas também as atitudes zadas, segundo James Hillman (1977), pela
e os comportamentos necessários para preeminência do pólo masculino sobre o
preencher os deveres éticos de um feminino; estes são os dois pólos antitéticos
pentecostal. e, entretanto, indissociáveis necessários para
dinamizar a construção simbólica de toda e
Na segunda constelação encontram-se qualquer psiquê, mas também de toda e
imagens: qualquer cultura.

a) de ruptura na história pessoal, Encontramo-nos, portanto, frente à pene-


a partir da conversão, assim como nos tração de um novo elemento cultural que
hábitos ou nas relações com indiví- – para além do discurso racional explícito
duos da sociedade englobante; dos pentecostais afirmando com vigor uma
clara separação entre o masculino e o fe-
b) de confrontação, de luta e de im- minino – fornece a certas mulheres do
posição, através de todas as ações Brasil (e, muito provavelmente, de outros
evangelizadoras diretas – as cruzadas países latino-americanos) um universo de
– ou indiretas – a luta individual para referências simbólicas no qual elas devem
ampliar o Reino de Deus, assim como apagar, inconscientemente, a maior parte
a atitude de “vencedor” em relação à do que faz delas, por essência, as repre-
vida cotidiana. sentantes do pólo feminino. Dessa dimen-
são feminina, o pentecostalismo apenas
É, portanto, a partir da análise desses di- valoriza aquilo que é especificamente da
ferentes elementos fornecidos pelas ima- mulher, o fato de ser mãe; mas esta parti-
gens simbólicas do universo pentecostal cularidade irredutível está subordinada à
que me parece poder adiantar que existe, vontade do Deus-Pai e à autoridade do
nesta corrente, tal como ela se difunde há esposo, porque – aqueles que leram as
40 anos no Brasil, uma preeminência ab- Cartas de Paulo bem o sabem – “o chefe de
soluta de símbolos correspondentes à “es- todos os homens é o Cristo, o chefe da
trutura heróica”, tal como foi estabelecida mulher é o homem...” (Cor. I.11.3). Tudo
por Durand. Observa-se, assim, a isso me permite inferir que existe nesse
recorrência das lógicas de exclusão e de movimento religioso, no plano da imagi-
identidade, “esquemas” de separação e de nação simbólica, uma clara hipertrofia da
ascensão fortemente afirmados e símbolos estrutura “heróica”, em detrimento das
como a luz, a transparência, o olho do Pai, duas outras.
o fogo purificador e, ainda, o céu, o vôo

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Como assinalei no início deste texto, o cam- sob o risco de ocorrer a perda do seu pró-
po que serviu de base para esta análise foi prio modelo, baseado na “cultura em mo-
o Brasil. Entretanto, o conhecimento que saico” ou na articulação das diferenças.
eu tenho de alguns outros países da região Pode-se apenas desejar que a vitalidade
e das pesquisas feitas por numerosos cole- cultural que esses povos sempre reafirma-
gas, tanto no México como na Bolívia, na ram permita-lhes, cada um à sua maneira
Colômbia e no Chile, vem confirmar uma e segundo a sua história, digerir estes ele-
clara similaridade na forte valorização, no mentos por demais unificadores e intro-
seio do movimento pentecostal, de uma duzir neste campo o ser da diversidade.
matriz simbólica particular e a rejeição ou
a ocultação de elementos imaginais que são Eu não gostaria de fechar este artigo sem
estranhos ou antagônicos a essa matriz. mencionar o fato de que há uma década
vêm surgindo, um pouco em todos os lu-
Assim, os fiéis que participam desses cul- gares, formas neopentecostais já mencio-
tos, cujo crescimento é muito rápido, ten- nadas em nota. Aos olhos de muitos pes-
dem a abandonar as representações sim- quisadores elas parecem representar um
bólicas anteriores que compunham seu papel diferente daquele desempenhado
solo imaginal, em proveito de novos sím- pelos grupos pentecostais e poderiam,
bolos que se anexam a uma dimensão mais conseqüentemente, subverter a estrutura
“apolínea” ou “ideacional” baseada sobre imaginal aqui analisada. Porém, à primei-
uma construção imaginal que seria mais ra vista, o discurso dessas jovens comuni-
“heróica” e afastaria a estrutura ancestral, dades não é menos iconoclasta, patriarcal
cujas características “dramáticas/sintéticas” e autoritário do que o das mais antigas.
foram valorizadas por numerosos autores Somente um estudo aprofundado das
de toda a América Latina. Assim fazendo, imagens simbólicas que surgem nestes
eles se aproximaram de um modelo de novos grupos nos permitirá perceber o
comportamento que lhes permitiu, sem que faz parte dessa suposta subversão e
dúvida, integrar-se melhor no sistema- qual o lugar atribuído à mulher no incons-
mundo baseado sobre a unificação, porém ciente dos seus adeptos.

NOTAS
1
Tomo emprestado este qualificativo de Henry que se localiza entre o universo dos sentidos e
Corbin (1959), que forjou a noção de mundus aquele dos intelectos.
imaginalis em 1958 no seu estudo L’imagination 2
Ver, em particular, L’imagination symbolique
créatrice dans le soufisme d’Ibn’Arabí. Ele designa o
(DURAND, 1964, 1984) e Les structures
universo específico em que as idéias-imagens são
anthropologiques de l’imaginaire (DURAND, 1969,
a “matéria imaterial”, um mundo intermediário
1981).

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3
Ver, deste autor, entre outros, La philosophie des for- 6
Utilizo aqui os termos das seitas, denominação e
mes symboliques (CASSIRER, 1972). igreja, a partir da tipologia sociológica esta-
4
Emprego aqui este termo no sentido que lhe deu belecida por C. Lalive d’Epinay (1975, cap. 5, p.
recentemente Marie-José Mondzain (1996), na 101-116).
obra magistral que consagrou à análise das fontes 7
Cf. em particular, Samarin (1972) e Aubrée (1985).
bizantinas do imaginário contemporâneo. Neste É importante observar que este “dom” represen-
livro, a autora entende por "ícone" uma imagem ta a prova de que o fiel foi aceito pela divindade.
"artificial", isto é, uma figuração pintada que faz Ele é complementar ao “batismo de água”, que
ver a imagem invisível que ela qualifica de "natu- representa a aceitação do fiel pela comunidade
ral", ligada, neste caso, à transcendência da divin- de crentes. Este dom é geralmente indispensá-
dade e que pode ser aproximada da noção de vel para se obterem os outros sete e, assim, subir
mundus imaginalis de Corbin (1959). em uma ou nas duas hierarquias que se formam
5
Como foi o caso do movimento de protestação que nestes grupos, formal/administrativo e informal/
surgiu na Bizantina entre os séculos V e VII, o espiritual. Sobre estas hierarquias, ver Aubrée
pentecostalismo – seguindo nesse aspecto a tradi- (1987).
ção calvinista – recusa o realismo antropomórfico 8
Estas restrições são próprias às denominações que
para representar sua divindade trinitária, sendo, qualifico de “pentecostais” por oposição à cor-
portanto, incluso na categoria dos iconoclasmos. rente “neopentecostal” que surgiu, no Brasil, no
Isso tem por conseqüência a eliminação de qual- final dos anos 70. Para maior precisão sobre este
quer referência direta a um símbolo iconográfico tema, ver Aubrée (1996).
comunitário.

ABSTRACT
After a brief statement of Gilbert Durand’s theory about the
anthropological structures of imaginary, the author analyzes, in
this framework, the place of woman in the imaginary of Brazillian
pentecostals of both sexes. This analysis brings out a specific aspect
of this religious system in what, in addition to an explicit
subordination of woman to man in the social life justified throug
the Bible, there exists an implicit attempt to model the woman on a
more masculine cultural referent.
Keywords: anthropological structures of imaginary; religious system;
woman.

REFERÊNCIAS
AUBRÉE, Marion. Les Orixás et le Saint-Esprit au secours de l’emploi. Cahiers des
Sciences Humaines, Paris, v. 23, no 2, p. 261-272, 1987.

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131
AUBRÉE, Marion. Os Orixás e o Espírito Santo em socorro do emprego: duas estra-
tégias de inserção socioeconômica no Nordeste brasileiro. Revista de Ciências Sociais –
Religião de Pluralidade, Fortaleza, v. 26, n. 1/2, (datado 1995), p. 48-55, ago. 1997.
______. Transe: a resposta do Xangô e do pentecostalismo. Ciência e Cultura, São Pau-
lo, v. 37, n. 7, p. 1070-1075, 1985.
______. Transe. In: GODELIER, M.; HASSOUN, J. (Org.). Meurtre du Père: sacrifice
de la sexualité (approches anthropologiques et psycanalystiques). Paris: Ed. Arcanes,
1996. p. 173-192.
______. Tempo, história e nação (o curto-circuito dos pentecostais). Religião e Socieda-
de, Rio de Janeiro, v 17, n. 1/2, p.77-88, ago.1996.
CASSIRER, Ernst. La philosophie des formes symboliques. Tradução francesa. Paris: Éd.
de Minuit, 1972. 3 v.
CORBIN, Henry. L’imagination créatrice dans le soufisme d’Ibn’Arabí. Paris: Flammarion,
1959.
DURAND, Gibert. L’imagination symbolique. Paris: PUF, 1964.
______. L’imagination symbolique. 4e ed. Paris: PUF, 1984.
______. Les structures anthropologiques de l’imaginaire. Paris: Bordas, 1969.
______. Les structures anthropologiques de l’imaginaire. 8e ed. Paris: Bordas, 1981.
HILLMAN, James. Le mythe de la psycanalyse. Paris: Imago, 1981.
LALIVE D’EPINAY, Christian. Réligion, dynamique sociale et dépendance. Paris; La Haye,
Éd. Mouton, 1975.
MONDZAIN, Marie-José. Image, icône, économie, Paris: Seuil, 1996.
SAMARIN, William J. Tongues of men and angels. New York; Londron, Macmillan
Company. 1972.

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RESENHA
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REFLEXÕES ANTROPOLÓGICAS
EM TÓPICOS FILOSÓFICOS

GEERTZ, Clifford. Nova luz sobre a Antropologia. Rio de Janeiro: J. Zahar, 2001. 247 p.

ELIANE CANTARINO O’DWYER**


A publicação de um novo livro de adotadas em um determinado lugar. A an-
Clifford Geertz, reconhecido como um tropologia, segundo esta perspectiva, deve
dos maiores antropólogos da atualida- ser encarada como uma ciência
de, vem brindar o leitor brasileiro com interpretativa, sendo os textos antropoló-
questões que ultrapassam as fronteiras gicos considerados interpretações das inter-
entre disciplinas e recolocam no centro pretações às quais outros povos ou pessoas
de nossas reflexões temas como a diver- de uma denominação particular submetem
sidade cultural, a natureza humana, o sua experiência. Estas formulações e sua
etnocentrismo e o relativismo. Estes e concepção de cultura já se encontram no
outros assuntos ainda supostamente fi- primeiro livro publicado no Brasil, As inter-
losóficos, como “mente”, “conhecimen- pretações da cultura de 1978 (Zahar Editores).
to”, “eu”, parecem voltar a assombrar o Nele, a visão de natureza humana dominan-
final e o início deste novo século, como te no Iluminismo, considerada “constante,
faziam há cem anos atrás, na tentativa independente de tempo, lugar e circunstân-
de restabelecer duas “concepções não cia” (p. 47), passa a ser substituída pela
pautadas na idéia de cultura” (p. 54), o “idéia de que a diversidade de costumes no
“conceito de natureza humana indepen- tempo e no espaço não é simplesmente uma
dente do contexto” e seu similar, “a men- questão de indumentária ou aparência, de
te humana”. cenários e máscaras [...], (sendo) a humani-
dade tão variada em sua essência como em
A antropologia como praticada por sua expressão”(p. 48-49, grifo nosso). Para
Geertz tem servido de guia para a abor- Geertz não existe natureza humana inde-
dagem da cultura como um contexto no pendente da cultura, “isso significa que a
qual os acontecimentos sociais, os com- cultura, em vez de ser acrescentada, por as-
portamentos, as instituições ou os pro- sim dizer, a um animal acabado ou virtual-
cessos podem ser descritos com densida- mente acabado, (isto é o homem biológico),
de, isto é, “do ponto de vista dos nati- foi um ingrediente, e um ingrediente essen-
vos”, através dos significados assumidos cial, na produção desse mesmo animal”
por outras formas de vida humana (p. 59).

**
Antropóloga, professora da Universidade Federal Fluminense.

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136
O programa de Geertz para a antropolo- figuram uma realidade tão densa e imedi-
gia e suas contribuições não se resumem ata como a própria ilha” de Bali.
ao conceito de cultura e seus usos, princi-
palmente no ensino da disciplina no Bra- No livro Nova luz sobre a Antropologia,
sil. As críticas de Geertz em seu estudo so- Geertz renova seus argumentos em um
bre a aldeia balinesa às imagens de repú- contexto pós-moderno de ameaças tanto
blicas aldeãs fechadas sobre si mesmas, de- externas quanto internas à dissolução da
limitadas, auto-suficientes e totalmente disciplina. Na opção que faz de
autônomas, têm sido usadas em nossas perambular pelas fronteiras da antropo-
práticas de pesquisa no Brasil em comu- logia e dialogar com um empreendimen-
nidades rurais e em grupos etnicamente to mais antigo e congênere como a filoso-
definidos por uma procedência comum fia, não abdica da sua condição de antro-
presumida e destinos compartilhados para pólogo: “sou, da cabeça aos pés, um
repensar os planos significativos de orga- etnógrafo que escreve sobre etnografia –
nização social e os modos pelos quais se e não construo sistemas” (p. 8). A filosofia,
entrecruzam e interceptam. Em vez de no caso, é demarcada pelo “último
uma única totalidade delimitada e um con- Wittgenstein”, reconhecido como um
junto de círculos concêntricos, temos um mestre “entre os que trabalhavam em ciên-
campo alargado de grupos sociais organi- cias humanas e tentavam encontrar a saí-
zados e inter-relacionados de formas varia- da de suas garrafas fechadas”(p. 9). Das
das. Sobre a auto-atribuição de uma ima- idéias e corolários entre os quais “não bus-
gem que alguns grupos ou comunidades car o sentido, mas o uso”, é indicada a ci-
fazem de si próprios, a de uma “totalida- tação que um antropólogo de campo,
de delimitada, autônoma e auto-suficien- como ele próprio, consideraria a mais con-
te”, considerada, como diz Geertz sobre a vidativa de listar: “De volta à terra firme”.
aldeia balinesa, uma “visão cativante, agra- Wittgenstein escreveu: “chegamos ao gelo
davelmente romântica e adequadamente escorregadio em que não há atrito e onde,
democrática apesar de uma enchente de portanto, em certo sentido, as condições
dados etnográficos renitentes” (p. 67), en- são ideais (ao pensamento), mas onde jus-
tre nós tem chamado atenção sua eficácia tamente por isso não conseguimos andar.
simbólica na construção e auto-reconheci- Queremos andar, precisamos de atrito”
mento de coletividades de destino e os (p. 10). No caso da antropologia, é explo-
modos pelos quais procuram se fazer re- rada a terra firme e Geertz quer “andar”
conhecer, em que as representações cole- ou “perambular”. Ao passar por lugares e
tivas têm efeitos reais na medida em que o povos buscando contrastes constantes,
“simbólico” não se opõe ao “real” e “o real Geertz segue seus próprios passos em suas
é tão imaginado como o imaginário. Que experiências de campo, mas igualmente os
a política balinesa, tal como a de toda gen- estudos de outros antropólogos, alguns jo-
te, inclusive a nossa, era ação simbólica, vens, outros como ele celebrados, Lévi-
não implica que estivesse apenas na men- Strauss, Sahlins etc. Geertz dialoga ainda
te [...]. Os aspectos dessa política [...] con- criticamente com produções recentes de

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137
“ciência, tecnologia e sociedade”, ao banco dos réus mas no das testemunhas”
perambular através de polêmicas e demar- (p. 44). Outros aspectos do ofício de
car com seus argumentos o campo antro- etnógrafo, como o distanciamento, não
pológico. Afinal, a antropologia define-se, provêm, segundo ele, da inexistência de
como diz, menos por um objeto do que emoções, e sim de uma “submissão pes-
por um método, na medida em que a soal a uma ética vocacional” (p. 44).
alteridade absoluta do outro – no caso, os
povos caçadores-coletores da floresta tro- Ao escrever sobre o “anti-anti-relativismo”
pical, considerados os mais “primitivos”, e postular “modos de pensar que estão no
não são tão arcaicos assim – deve ser neste cerne da herança antropológica” (p. 47),
mundo globalizado substituída por dife- Geertz revela a forma pela qual constrói
renças mais matizadas que, no entanto, seus argumentos. Em vez de “defender o
continuam a existir “e insistem em relativismo, grito de guerra do passado”,
persistir”. procura “atacar o anti-relativismo [...] no
esforço de objetar a uma visão, em vez de
No primeiro capítulo sobre “uma vida de defender a visão que ela afirma opor-se
aprendizagem, ao ir juntando os retalhos [...], no estilo através do espelho sugerido
de [sua] carreira acadêmica” (p. 15, grifo pelo seu título” (p. 47). Afinal, “exorcizar
nosso), Geertz, depois de um período de demônios é uma prática a que devemos
“acelerada formação”, viu-se diante de um aderir, além de estudá-la” (idem). Neste
“fato brutal e inevitável – o trabalho de capítulo, ele vai ainda tratar da “questão
campo”, pelo menos naquela época, como do futuro do etnocentrismo”(p. 71) e da
adverte. Hoje ele se pergunta se a “ilusão diversidade cultural sob uma nova luz. O
acabou, passar anos no mato”. Além disso, “etnocentrismo do tipo ovo de piolho” (p.
os poucos que se dispõem não conseguem 85), assim como o trancafiamento de vi-
financiamento. Essa é uma questão que das em vagões ferroviários separados, para
considera subjúdice: devem-se correr ris- produzir a “renovação cultural”– (p. 77),
cos desnecessários? As cargas letivas são em duas referências ao texto “Raça e His-
consideradas atualmente mais pesadas, o tória”, de Lévi-Strauss, servem de ancora-
que “exaure as energias” (p. 21). No capí- gem aos seus argumentos de que as “fron-
tulo seguinte, ao propor sua própria ex- teiras sociais e culturais têm uma coinci-
periência como tema, Geertz vai abordar dência cada vez menor, há japoneses no
o “aspecto diagnóstico da pesquisa”. Iden- Brasil [...] num processo de baralhamen-
tificar qual é o problema não significa sa- to” (p. 77), que volta a ser examinado ao
ber o que deve ser feito para aliviá-lo, como tratar sobre “os usos da diversidade”.
nos casos da situação marroquina e no di-
lema que envolve a reforma agrária neste Envolvido em tantas polêmicas, ao assu-
país. As dimensões éticas do trabalho de mir um tom irônico no estilo demolidor,
campo merecem ainda uma reflexão à Geertz esclarece sua própria posição ao
parte, porém Geertz considera que as ciên- tratar da “psicologia cultural de Jerome
cias sociais não devem ser colocadas no Bruner”(p. 166), com a qual demonstra

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empatia, mas adverte o leitor que tentar Ao considerar que “talvez seja cedo demais
“reunir (e) relacionar tudo de maneira para trocar às raízes pelas rotas”, em men-
produtiva (incluindo a si, Geertz, e Lévi- ção clara ao “primitivismo rousseauniano
Strauss) obviamente implica tanto mobili- de Pierre Clastres” (p. 110) e ao “tipo de
zar diferenças quanto dissolvê-las [...] num pesquisa ambulante e a meia distância que
pálido todo ecumênico, daqueles que tra- James Clifford pratica e recomenda” (p.
zem uma sensação de bem-estar” (p. 175). 111). Para Geertz, a antropologia deve
Para Geertz, “é bem possível que o mais demarcar um território através da
imediatamente necessário não seja recon- “perambulação” em suas fronteiras –
ciliar diversas abordagens [...], num aliás, como fazem “os selvagens dos selva-
ecletismo tranqüilizador, mas jogá-las gens” (p. 106), que são os povos coletores-
umas contra as outras de maneira eficaz” caçadores das terras baixas da América do
(p. 175). Isso é exatamente o que ele pro- Sul, entre os quais os Awá-Guajá da pré-
cura fazer em “nova luz sobre a antropo- amazônia maranhense. “De volta à terra
logia”. Na “situação atual”, “entrando com firme”, como propõe Geertz a partir de
passo desajeitado” (p. 86) no campo de ou- Wittgenstein, se as florestas virgens já não
tras disciplinas e “perambulando” como o são tanto assim, as “capoeiras velhas” de
faz em torno de dilemas como “cultura, outros grupos horticultores indígenas po-
mente, cérebro/ cérebro, mente, cultura” dem servir à prática do nomadismo, ago-
(p. 179), Geertz apresenta-se menos che- ra que “eles” e “nós” ou “eles entre nós”,
gado a “rotas” num sobrevôo pela antro- como diz Geertz, “somos todos nativos”.
pologia e domínios afins do que às “raízes”.

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139

RELAÇÃO DE DISSERTAÇÕES DEFENDIDAS NO


PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM
ANTROPOLOGIA E CIÊNCIA POLÍTICA

CURSO DE MESTRADO EM ANTROPOLOGIA

1 TÍTULO: Um abraço para todos os amigos


Autor: Antonio Carlos Rafael Barbosa
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 16/1/97

2 TÍTULO: A produção social da morte e morte simbólica em


pacientes hansenianos
Autor: Cristina Reis Maia
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 2/4/97

3 TÍTULO: Práticas acadêmicas e o ensino universitário: uma


etnografia das formas de consagração e transmissão do
saber na universidade.
Autor: Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa:16/6/97

4 TÍTULO: “Dom”, “iluminados” e “figurões”: um estudo sobre a


representação da oratória no Tribunal do júri do Rio de
Janeiro.
Autor: Alessandra de Andrade Rinaldi
Orientador: Prof. Dr. Luiz de Castro Faria
Data da defesa: 3/1/97

5 TÍTULO: Mudança ideológica para a qualidade


Autor: Miguel Pedro Alves Cardoso
Orientador: Profª. Drª. Livia Neves Bragança
Data da defesa: 7/10/97

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140
6 TÍTULO: Culto rock a Raul Seixas : sociedade alternativa entre
rebeldia e negociação
Autor: Monica Buarque
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 19/12/97

7 TÍTULO: A cavalgada do santo guerreiro: duas festas de São Jorge


em São Gonçalo/Rio de Janeiro
Autor: Ricardo Maciel da Costa
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 23/12/97
8 TÍTULO: A loucura no manicômio judiciário: a prisão como terapia,
o crime como sintoma, o perigo como verdade
Autor: Rosane Oliveira Carreteiro
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 6/2/98
9 TÍTULO: Articulação casa e trabalho: migrantes “nordestinos” nas
ocupações de empregada doméstica e empregados de
edifício
Autor: Fernando Cordeiro Barbosa
Orientador: Profa Dra Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 4/3/98
10 TÍTULO: Entre “modernidade” e “tradição”: a comunidade
islâmica de Maputo.
Autor: Fátima Nordine Mussa
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 11/3/98
11 TÍTULO: Os interesses sociais e a sectarização da doença
mental
Autor: Cláudio Lyra Bastos
Orientador: Prof. Dr. Marco da Silva Mello
Data da defesa: 21/5/98
12 TÍTULO: Programa médico de família: mediação e reciprocidade
Autor: Gláucia Maria Pontes Mouzinho
Orientador: Profa Dra Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 24/5/99

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141
13 TÍTULO: O império e a rosa: estudo sobre a devoção do Espírito
Santo
Autor: Margareth da Luz Coelho
Orientador: Prof. Dr. Arno Vogel
Data da defesa: 13/7/98
14 TÍTULO: Do malandro ao marginal: representações dos
personagens heróis no cinema brasileiro
Autor: Marcos Roberto Mazaro
Orientador: Profª. Drª. Livia Neves Barbosa
Data da defesa: 30/10/98
15 TÍTULO: Prometer – cumprir: princípios morais da política :
um estudo de representações sobre a política construídas
por eleitores e políticos
Autor: Andréa Bayerl Mongim
Orientador: Profª. Drª. Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 21/1/99
16 TÍTULO: O simbólico e o irracional: estudo sobre sistemas de
pensamento e separação judicial
Autor: César Ramos Barreto
Orientador: Prof. Dr. José Carlos Rodrigues
Data da defesa: 10/5/99
17 TÍTULO: Em tempo de conciliação
Autor: Angela Maria Fernandes Moreira Leite
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 15/7/99
18 TÍTULO: Negros, parentes e herdeiros: um estudo da reelaboração
da identidade étnica na comunidade de Retiro, Santa
Leopoldina – ES
Autor: Osvaldo Marins de Oliveira
Orientador: Profa Dra Eliane Cantarino O’Dwyer
Data da defesa: 13/8/99
19 TÍTULO: Sistema da sucessão e herança da posse habitacional
em favela
Autor: Alexandre de Vasconcellos Weber
Orientador: Profa Dra Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 25/10/99

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142
20 TÍTULO: E no samba fez escola: um estudo de construção social
de trabalhadores em escola de samba
Autor: Cristina Chatel Vasconcellos
Orientador: Profa Dra Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 5/11/99
21 TÍTULO: Cidadãos e favelados: os paradoxos dos projetos de
(re)integração social
Autor: André Luiz Videira de Figueiredo
Orientador: Profa Dra Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 19/11/99
22 TÍTULO: Da anchova ao salário mínimo: uma etnografia sobre
injunções de mudança social em Arraial do Cabo/RJ
Autor: Simone Moutinho Prado
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 25/2/2000
23 TÍTULO: Pescadores e surfistas: uma disputa pelo uso do espaço
da Praia Grande
Autor: Delgado Goulart da Cunha
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 28/2/2000
24 TÍTULO: Produção corporal da mulher que dança
Autor: Sigrid Hoppe
Orientador: Prof. Dr. Marco Antonio da Silva Mello
Data da defesa: 27/4/2000
25 TÍTULO: A produção da verdade nas práticas judiciárias
criminais brasileiras: uma perspectiva antropológica de
um processo criminal
Autor: Luiz Eduardo de Vasconcellos Figueira
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 21/9/2000
26 TÍTULO: Campo de força: sociabilidade numa torcida
organizada de futebol
Autor: Fernando Manuel Bessa Fernandes
Orientador: Profa Dra Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 22/9/2000

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143
27 TÍTULO: Reservas extrativistas marinhas: uma reforma agrária
no mar? Uma discussão sobre o processo de
consolidação da reserva extrativista marinha de Arraial
do Cabo/RJ
Autor: Ronaldo Joaquim da Silveira Lobão
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 29/11/2000
28 TÍTULO: Patrulhando a cidade: o valor do trabalho e a
construção de esterótipos em um programa radiofônico
Autor: : Edilson Marcio Almeida da Silva
Orientador: Profa Dra Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 8/12/2000

29 TÍTULO: Loucos de Rua: institucionalização X


desinstitucionalização
Autor: Ernesto Aranha Andrade
Orientador: Profª Drª Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 8/3/2001
30 TÍTULO: Festa do Rosário: iconografia e poética de um rito
Autor: Patrícia de Araújo Brandão Couto
Orientador: Profa Dra Tania Stolze Lima
Data da defesa: 8/5/2001
31 TÍTULO: Os caminhos do leão: uma etnografia do processo de
cobrança do Imposto de Renda
Autor: Gabriela Maria Hilu da Rocha Pinto
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 7/8/2001
32 TÍTULO: Representações políticas: alternativas e contradições –
das múltiplas possibilidades de participação popular na
Câmara Municipal do Rio de Janeiro
Autor: Delaine Martins Costa
Orientador: Profa Dra Delma Pessanha Neves
Data da defesa: 27/9/2001

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144

33 TÍTULO: Capoeiras e mestres: um estudo de construção de


identidades
Autor: Mariana Costa Aderaldo
Orientador: Profa Dra Simoni Lahud Guedes
Data da defesa: 29/10/2001
34 TÍTULO: Índios misturados: identidades e desterritorialização no
século XIX
Autor: Márcia Fernanda Malheiros
Orientador: Profa Dra Tania Stolze Lima
Data da defesa: 17/12/2001
CURSO DE MESTRADO EM CIÊNCIA POLÍTICA
35 TÍTULO: Gestão da educação municipal: a administração do
Partido dos Trabalhadores no município de Angra dos Reis
Autor: Claudio Batista
Orientador: Prof. Dr. José Ribas Vieira
Data da defesa: 17/10/97

36 TÍTULO: Utopia revolucionária versus realismo político: o dilema


dos partidos socialistas na ótica dos dirigentes do PT
fluminense
Autor: Gisele dos Reis Cruz
Orientador: Profa Dra Maria Celina D’Araujo
Data da defesa: 7/11/97

37 TÍTULO: Relação ONG – Estado: o caso ABIA


Autor: Jacob Augusto Santos Portela
Orientador: Profa Dra Maria Celina D’Araujo
Data da defesa:18/11/97

38 TÍTULO: Reforma do Estado e política de telecomunicações:


o impacto das mudanças recentes sobre a EMBRATEL
Autor: José Eduardo Pereira Filho
Orientador: Profª. Drª. Livia Neves Barbosa
Data da defesa: 18/12/97

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 139-148, 2. sem. 2000


145

39 TÍTULO: Entre a disciplina e a política: Clube Militar


(1890 – 1897)
Autor: Claudia Torres de Carvalho
Orientador: Prof. Dr. Celso Castro
Data da defesa: 19/12/97

40 TÍTULO: Associativismo Militar no Brasil: 1890/1940


Autor: Tito Henrique Silva Queiroz
Orientador: Prof. Dr. Ari de Abreu Silva
Data da defesa: 22/12/97

41 TÍTULO: Escola de Guerra Naval na formação dos oficiais


superiores da Marinha de Guerra do Brasil
Autor: Sylvio dos Santos Val
Orientador: Profa Dra Maria Antonieta Parahyba Leopoldi
Data da defesa: 6/2/98

42 TÍTULO: O Poder Legislativo reage : a importância das comissões


permanentes no processo legislativo brasileiro
Autor: Ygor Cervásio Gouvea da Silva
Orientador: Prof. Dr. Fabiano Guilherme Mendes dos Santos
Data da defesa: 13/8/98

43 TÍTULO: A experiência do Itamaraty de 84 a 96 : entre a tradição


e a mudança
Autor: Joana D’Arc Fernandes Ferraz
Orientador: Prof. Dr. Ari de Abreu Silva
Data da defesa: 15/9/98

44 TÍTULO: Centrais Sindicais e Sindicatos


Autor: Fernando Cesar Coelho da Costa
Orientador: Profa Dra Maria Celina Soares D’Araujo
Data da defesa: 16/11/98

41 TÍTULO: A dimensão política da família na sociedade brasileira:


o conflito de representações
Autor: Guiomar de Lemos Ferreira
Orientador: Prof. Dr. Gisalio Cerqueira Filho
Data da defesa: 15/12/98

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 139-148, 2. sem. 2000


146
42 TÍTULO: A OMS, o Estado e a Legislação contrária ao tabagismo:
os paradoxos de uma ação
Autor: Mauro Alves de Almeida
Orientador: Prof. Dr. Ari de Abreu Silva
Data da defesa: 21/12/98

43 TÍTULO: Violência e racismo no Rio de Janeiro


Autor: Jorge da Silva
Orientador: Prof. Dr. Roberto Kant de Lima
Data da defesa: 23/12/98

44 TÍTULO: Novas democracias: as visões de Robert Dahl Guillermo


O’Donnel e Adam Przeworski
Autor: Jaime Baron
Orientador: Profa Dra Maria Antonieta Parahyba Leopoldi
Data da defesa: 16/7/99

45 TÍTULO: Conselho Tutelar: a participação popular na construção


da cidadania da criança e do adolescente em Niterói – RJ
Autor: Maria das Graças Silva Raphael
Orientador: Prof. Dr. Ari de Abreu Silva
Data da defesa: 13/12/1999
46 TÍTULO: O Legislativo Municipal no contexto democrático
brasileiro: um estudo sobre a dinâmica legislativa da
Câmara Municipal de Nova Iguaçu
Autor: Otair Fernandes de Oliveira
Orientador: Prof. Dr. Ari de Abreu Silva
Data da defesa: 20/12/1999
47 TÍTULO: A gerência do pensamento
Autor: Cláudio Roberto Marques Gurgel
Orientador: Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho
Data da defesa: 8/2/2000
48 TITULO: Violência no Rio de Janeiro: a produção racional do mal
– a produção legal sobre segurança pública na Assembléia
Legislativa do Rio de Janeiro
Autor: Fabiano Costa Souza
Orientador: Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho
Data da defesa: 9/2/2000

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 139-148, 2. sem. 2000


147

49 TÍTULO: As idéias de direito no Brasil seiscentista e suas


repercussões no exercício e na justificativa do poder
político
Autor: Ana Patrícia Thedin Corrêa
Orientador: Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho
Data da defesa: 8/6/2000

50 TÍTULO: Agência brasileira de inteligência: gênese e antecedentes


históricos
Autor: Priscila Carlos Brandão Antunes
Orientador: Profa Dra Maria Celina Soares D’Araujo
Data da defesa: 25/8/2000

51 TÍTULO: Dilemas da reforma da saúde no Brasil frente à


globalização financeira: implementando a descen-
tralização do sistema público e a regulação do sistema
privado de saúde
Autor: Ricardo Cesar Rocha da Costa
Orientador: Profa Dra Maria Antonieta Parahyba Leopoldi
Data da defesa: 22/9/2000

52 TÍTULO: Entre o bem-estar e o lucro: histórico e análise da


responsabilidade social das empresas através de algumas
experiências selecionadas de balanço social
Autor: Ciro Valério Torres da Silva
Orientador: Prof. Dr. Eduardo Rodrigues Gomes
Data da defesa: 23/10/2000

53 TÍTULO: Os empresários da educação e o sindicalismo patronal:


os sindicatos dos estabelecimentos privados de ensino no
estado do Rio de Janeiro
Autor: Marcos Marques de Oliveira
Orientador: Profa Dra Maria Celina Soares D’Araújo
Data da defesa: 14/12/2000

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 139-148, 2. sem. 2000


148

54 TÍTULO: Comportamento eleitoral: abertura e mudança política


em Cabo Verde
Autor: João Silvestre Tavares Alvarenga Varela
Orientador: Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho
Data da defesa: 16/2/2001
55 TÍTULO: A política como boato: uma análise do programa de
despoluição da baía de Guanabara
Autor: Paulo Rogério dos Santos Baía
Orientador: Prof. Dr. Luis Manuel Rebelo Fernandes, Prof. Dr. Gisálio
Cerqueira Filho (co-orientador)
Data da defesa: 26/3/2001
56 TÍTULO: Trabalho e exposição: um estudo da percepção ambiental
nas indústrias cimenteiras de Cantagalo/RJ – Brasil
Autor: Maria Luzia Erthal Mello
Orientador: Profa Dra Gláucia Oliveira da Silva, Prof. Dr. Carlos Machado
de Freitas (co-orientador)
Data da defesa: 4/5/2001
57 TÍTULO: Da política de bastidores à festa das diretas: razão,
emoção e transação na transição democrática brasileira
Autor: Alessandro Câmara de Souza
Orientador: Prof. Dr. Gisálio Cerqueira Filho
Data da defesa: 20/6/2001
58 TÍTULO: Entre a natureza e a convenção – a crítica da Ciência
Política e da moral moderna e sua reorientação na
perspectiva de Morelly
Autor: William de Andrade Pujol Pastor
Orientador: Profa Dra Maria Antonieta Parahyba Leopoldi
Data da defesa: 20/12/2001

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 139-148, 2. sem. 2000


149

Revista Antropolítica /Artigos publicados


Revista no 1– 2o semestre de 1996
Artigos
Brasil: nações imaginadas
José Murilo de Carvalho
Brasileiros e argentinos em Kibbutz: a diferença continua
Sonia Bloomfield Ramagem
Mudança social: exorcizando fantasmas
Delma Pessanha Neves
Ostras e pastas de papel: meio ambiente e a mão invisível do mercado
José Drummond
Conferências
Algumas considerações sobre o estado atual da antropologia no Brasil
Otávio Velho
That deadly pyhrronic poison a tradição cética e seu legado para a teoria
política moderna
Renato Lessa
Resenha
Uma antropologia no plural: três experiências contemporâneas. Marisa
G. Peirano
Laura Graziela F. F. Gomes
Revista no 2 – 1o semestre de 1997
Artigos
Entre a escravidão e o trabalho livre: um estudo comparado de Brasil e
Cuba no século XIX
Maria Lúcia Lamounier
O arco do universo moral
Joshua Cohen
A posse de Goulart: emergência da esquerda e solução de compromisso
Alberto Carlos de Almeida

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 149-152, 2. sem. 2000


150

In córpore sano: os militares e a introdução da educação física no Brasil


Celso Castro
Neoliberalismo, racionalidade e subjetividade coletiva
José Maurício Domingues
Do “retorno do sagrado” às “religiões de resultado”: para uma
caracterização das seitas neopentecostais
Muniz Gonçalves Ferreira
Resenhas
As noites das grandes fogueiras – uma história da coluna Prestes,
Domingos Meireles
José Augusto Drummond
Os sertões: da campanha de Canudos, Euclides da Cunha; o sertão
prometido: massacre de Canudos no nordeste brasileiro, Robert M.
Levine
Terezinha Maria Scher Pereira
Revista no 3 – 2o semestre de 1997
Artigos
Cultura, educação popular e escola pública
Alba Zaluar e Maria Cristina Leal
A política estratégica de integração econômica nas Américas
Gamaliel Perruci
O direito do trabalho e a proteção dos fracos
Miguel Pedro Cardoso
Elites profissionais: produzindo a escassez no mercado
Marli Diniz
A “Casa do Islã”: igualitarismo e holismo nas sociedades muçulmanas
Paulo Gabriel Hilu da Rocha Pinto
Quando o amor vira ficção
Wilson Poliero
Resenha
Nós, cidadãos, aprendendo e ensinando a democracia, de Maria

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 149-152, 2. sem. 2000


151

Conceição D’Incao e Gerard Roy, a narrativa de uma experiência de


pesquisa
Angela Maria Fernandes Moreira Leite
Revista no 4 – 1o semestre de 1998
Artigos
Comunicação de massa, cultura e poder
José Carlos Rodrigues
A sociologia diante da globalização: possibilidades e perspectivas da
sociologia da empresa
Ana Maria Kirschner
Tempo e conflito: um esboço das relações entre as cronosofias de
Maquiavel e Aristóteles
Raul Francisco Magalhães
O embate das interpretações: o conflito de 1858 e a lei de terras
Márcia Maria Menendes Motta
Os terapeutas alternativos nos anos 90: uma nova profissão?
Fátima Regina Gomes Tavares
Resenha
Auto-subversão
Gisálio Cerqueira Filho
Revista no 5 – 2o semestre de 1998
Artigos
Jornalistas: de românticos a profissionais
Alzira Alves de Abreu
Mudanças recentes no campo religioso brasileiro
Cecília Loreto Mariz e Maria das Dores Campos Machado
Pesquisa antropológica e comunicação intercultural: novas discussões
sobre antigos problemas.
José Sávio Leopoldi
Três pressupostos da facticidade dos problemas públicos ambientais
Marcelo Pereira de Mello

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 149-152, 2. sem. 2000


152

Duas visões acerca da obediência política: racionalidade e conservadorismo


Maria Celina D’Araujo
Revista no 6 – 1o semestre de 1999
Artigos
Palimpsestos estéticos y espacios urbanos: de la razón práctica a la razón
sensible
Jairo Montoya Gómez
Trajetórias e vulnerabilidade masculina
Ceres Víctora e Daniela Riva Knauth
O sujeito da “psiquiatria biológica” e a concepção moderna de pessoa
Jane Araújo Russo, Marta F. Henning
Os guardiães da história: a utilização da história na construção de uma
identidade batista brasileira
Fernando Costa
A escritura das relações sociais: o valor cultural dos “documentos” para
os trabalhadores
Simoni Lahud Guedes
A Interdisciplinaridade e suas (im)pertinências
Marcos Marques de Oliveira
Revista no 7 – 2o semestre de 1999
Artigos
Le geste pragmatique de la sociologie française. Autour des travaux de
luc boltanski et laurent thévenot
Marc Breviglieri e Joan Stavo-Debauge
Economia e política na historiografia brasileira
Sonia Regina de Mendonça
Os paradoxos das políticas de sustentabilidade
Luciana F. Florit
Risco tecnológico e tradição: notas para uma antropologia do sofrimento
Glaucia Oliveira da Silva
Trabalho agrícola: gênero e saúde
Delma Pessanha Neves
Antropolítica Niterói, n. 9, p. 149-152, 2. sem. 2000
153

Revista no 8 – 1o semestre de 2000


Artigos
Prolegômenos sobre a violência, a polícia e o Estado na era da
globalização
Daniel dos Santos
Gabriel Tarde: le monde comme feerie
Isaac Joseph
Estratégias coletivas e lógicas de construção das organizações de
agricultores no nordeste semi-árido
Eric Sabourin
Cartórios: onde a tradição tem registro público
Ana Paula Mendes de Miranda
Do pequi à soja: expansão da agricultura e incorporação do Brasil central
Antônio José Escobar Brussi
Resenha
Terra sob água – sociedade e natureza nas várzeas amazônicas
José Augusto Drummond

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 149-152, 2. sem. 2000


155

Resumo das publicações da Coleção


Antropologia e Ciência Política da EdUFF
Os fornecedores de cana e no setor sanitário, analisando os efeitos dos
o Estado intervencionista gastos definidos para a área. Consiste em
DELMA PESSANHA GOMES explicar por que o processo político brasi-
leiro caracteriza-se como altamente pre-
1997. 384 P. datório, dilapidador e ineficiente com re-
A autora apresenta contribuições ainda lação aos gastos públicos em geral.
pouco discutidas pelos antropólogos, ao
considerar a especificidade da experiên- Assentamento rural: reforma
cia social e política dos fornecedores de agrária em migalhas
cana. Apresenta, também, com incomum DELMA PESSANHA NEVES
riqueza de detalhes e sob uma instigante
1997. 440 P.
démache antropolítica, o processo de cons-
trução social e política dos fornecedores Analisa o processo de mudança de posi-
de cana. ção social de trabalhadores rurais assala-
riados para produtores mercantis, no qua-
Devastação e preservação dro de aplicação do PNRA – Plano Nacio-
ambiental no Rio de Janeiro nal de Reforma Agrária (1885) –, trans-
JOSÉ AUGUSTO DRUMMOND formação possível diante da falência e da
desapropriação da área agrícola de uma
1997. 306 P.
das usinas da região açucareira de Cam-
Narra e avalia os diferentes usos que as pos, estado do Rio de Janeiro.
terras florestadas fluminenses sofreram,
desde os anônimos povos indígenas cons- A antropologia da academia:
trutores dos sambaquis até a moderna ca- quando os índios somos nós
feicultura comercial. As características na- ROBERTO KANT DE LIMA
turais e sociais de cada um dos parques
nacionais fluminenses – Itatiaia, Serra dos 2. ED. 1997. 65 P.
Órgãos, Tijuca e Serra da Bocaina – tam-
bém são analisadas nesta obra. Pretende discutir algumas questões relati-
vas ao tema do colonialismo cultural, em
A predação do social particular no que se refere à possibilidade
ARI DE ABREU SILVA da produção de um conhecimento antro-
político capaz de descobertas esclare-
1997. 308 P.
cedoras no âmbito da interpretação de
Focaliza conseqüências de decisões políti- países do Terceiro Mundo e, em especial,
cas na área social brasileira, em particular do Brasil.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


156

Jogo de corpo Pescadores de Itaipu – meio


SIMONI LAHUD GUEDES ambiente, conflito e ritual no
1997. 355 P. litoral do estado do Rio de
Janeiro
Jogo de corpo é um livro que se inscreve na
ROBERTO KANT DE LIMA
temática da cultura da classe trabalhado-
ra. Procura articular, a partir de trabalho 1997. 333 P.
etnográfico, as concepções de homem e Inaugurando a série A Pesca no estado do
trabalhador, enfocando o processo de Rio de Janeiro, Pescadores de Itaipu – meio
construção social de trabalhadores e, por ambiente, conflito e ritual no litoral do
essa via, de uma forma particular de cons- estado do Rio de Janeiro retrata a praia
trução da pessoa. de Itaipu (Niterói, RJ) em um passado não
muito distante e faz uma breve avaliação
A qualidade de vida no das mudanças ocorridas.
estado do Rio de Janeiro
ALBERTO CARLOS DE ALMEIDA Sendas da transição
SYLVIA FRANÇA SCHIAVO
1997. 128 P.
1997. 178 P.
Define o que é qualidade de vida, escolhe
indicadores para quantificá-la e classifica Uma contribuição ao estudo do campe-
os municípios do estado do Rio de Janei- sinato parcelar, tão a gosto de inúmeros
ro, bem como os bairros de Niterói e da antropólogos que, na década de 1980,
capital do estado de acordo com a buscaram o meio rural como lugar de re-
conceituação e a medição corresponden- flexão sobre as mudanças que muito rapi-
tes. Um estudo útil para a implementação damente sacudiam o campo brasileiro.
de políticas sociais. Indicado para funcio-
nários da administração pública interessa- O pastor peregrino
dos em questões sociais, planejadores ur- ARNO VÖGEL
banos e regionais, estudantes universitá-
1997. 300 P.
rios e cidadãos interessados na situação de
sua cidade. Trata-se de um trabalho pio- O autor analisa o ritual da primeira visita
neiro na utilização da metodologia quan- do papa João Paulo II ao Brasil, revelan-
titativa para a medição da qualidade de do ao público acadêmico e ao leitor inte-
vida em municípios brasileiros. ressado na questão religiosa, no Brasil, as
implicações simbólicas e sociológicas des-
se acontecimento.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


157

Presidencialismo, parlamen- Antropologia–escritos


tarismo e crise política no exumados 1 : espaços cir-
Brasil cunscritos – tempos soltos
ALBERTO CARLOS DE ALMEIDA L. DE CASTRO FARIA
1998. 251 P. 1998. 286 P.
Trata-se de importante contribuição para Apresenta ao público leitor de Antropolo-
a compreensão de situações da crise polí- gia no Brasil o conjunto dos textos escri-
tica, bem como para o entendimento do tos e de programas de curso ministrados
golpe de 64. O autor faz uma análise da pelo autor.
história política brasileira, mais precisa-
mente da história do período de 1946 a Professor Emérito da UFRJ e da UFF, aos
1964. 85 anos, mais de 60 deles dedicados à ati-
vidade acadêmica inin-terrupta, Castro
Um abraço para todos os Faria publica seu primeiro livro. Uma óti-
amigos: algumas conside- ma leitura para aqueles que se propõem a
rações sobre o tráfico de pesquisar a história do pensamento social
drogas no Rio de Janeiro brasileiro e da Antropologia.
ANTONIO RAFAEL
Violência e racismo no Rio de
1998. 178 P. Janeiro
Uma investigação acerca do tráfico de dro- JORGE DA SILVA
gas no Rio de Janeiro, em especial aquele 1998. 249 P.
que é implementado no interior das fave-
las cariocas. Produto de esforço teórico e acadêmico, é
sobretudo uma contribuição prática para
Baseado em dados colhidos em trabalho os estudiosos da questão racial e da vio-
de campo realizado nos anos de 1995 e lência, bem como para os formuladores de
1996, analisa as características infraccionais políticas públicas destinadas à melhoria da
dos grupamentos que atuam no tráfico das qualidade de vida da população, relacio-
comunidades. Um estudo corajoso sobre nadas com a violência e a segurança pú-
um dos temas mais polêmicos da atualidade. blica e ao público de modo geral.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


158

Novela e sociedade no Brasil As redes do suor: a repro-


LAURA GRAZIELA FIGUEIREDO FERNANDES dução social dos traba-
GOMES lhadores da pesca em Juru-
1998. 137 P. juba
LUIZ FERNANDO DIAS DUARTE
Destaca o objeto das narrativas teleno-
velísticas e explicita o que elas de fato dra- 1999. 289 P.
matizam em relação às formas de controle As redes do suor resulta de pesquisa sobre
social e de resolução de conflitos existen- os processos de identificação implicados na
tes na sociedade brasileira diferenciação pelo trabalho na pesca em
Jurujuba. É um dos raros trabalhos a li-
O Brasil no campo de futebol dar com essa problemática no contexto
SIMONI LAHUD GUEDES urbano moderno brasileiro.
1998. 136 P.
A descrição etnográfica da vida de um bair-
Enfoca o futebol como operador da iden- ro popular e das diversas formas do tra-
tidade nacional brasileira, analisando a balho na pesca nos leva à discussão das
forma como ele se transforma em veículo questões centrais da mudança e moderni-
para o debate sobre características do povo zação em nosso país.
brasileiro. Discute também seu lugar no
processo de socialização masculina através Antropologia – escritos
de estudo realizado numa escolinha de exumados 2 : dimensões do
futebol. conhecimento antropológico
L. DE CASTRO FARIA
Modernidade e tradição :
construção da identidade 1999. 424 P.
social dos pescadores de O segundo volume de Antropologia – escri-
Arraial do Cabo (RJ) tos exumados apresenta a produção de L.
ROSYAN CAMPOS DE CALDAS BRITTO de Castro Faria nas áreas de Antropologia
Biológica, Arqueologia, Etnologia e dos es-
1998. 265 P. tudos de cultura material.
Uma etnografia da vida social e econômi-
ca dos pescadores de Arraial do Cabo. Resgata dimensões da trajetória do autor
Instigante análise para a compreensão da pouco evidentes para aqueles que já o co-
pesca enquanto atividade econômica de nheceram envolvido com pós-graduação,
nosso país e de nosso estado. Traz uma re- estudos de Antropologia Social e história
levante contribuição teórica para de- da produção intelectual.
monstrar as transformações das sociedades
tradicionais frente à modernidade.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


159

Seringueiros da Amazônia: “Dom”, “Iluminados” e


dramas sociais e o olhar “Figurões”: um estudo sobre
antropológico a representação oratória no
ELIANE CANTARINO O’DWYER Tribunal do Júri do Rio de
1998. 231 P. Janeiro
ALESSANDRA DE ANDRADE RINALDI
O livro descreve uma viagem pericial ao
alto rio Juruá, no estado do Acre, solicita- 1999. 107 P.
da pela Procuradoria Geral da República Busca compreender a representação da
para investigar denúncias sobre trabalho oratória do Tribunal do Júri no Rio de Ja-
escravo. O levantamento antropológico é neiro. Segundo a autora, existe uma fór-
feito no contexto de ameaças contra os mula, cuja função, de um ponto de vista
membros do Conselho Nacional dos Se- externo ao campo jurídico, é persuadir
ringueiros, praticamente um ano depois aqueles a quem é dirigida; e, de um ponto
do assassinato de seu líder Chico Mendes. de vista interno, distinguir os profissionais
Através dos testemunhos dos seringueiros, deste ofício, atribuindo-lhes ou não pres-
podem-se constatar, in loco, formas de vio- tígio.
lação das liberdades pessoais e de constran-
gimento ilegal perpetradas contra as po- Angra I e a melancolia de uma
pulações seringueiras pelos chamados pa- era: um estudo sobre a
trões dos seringais. construção social do risco
GLÁUCIA OLIVEIRA DA SILVA
Práticas acadêmicas e o
ensino universitário: uma 199. 284 P.
etnografia das formas de A originalidade deste livro reside na etno-
consagração e transmissão grafia pioneira da única usina nuclear exis-
do saber na universidade tente no Brasil na época e na construção
PAULO GABRIEL HILU DA ROCHA PINTO de uma antropologia do trabalho em situa-
ção de risco.
1999, 244 P.
Instigante, dominando a literatura sobre
Um trabalho relevante, não só pela sua sin-
trabalho, comunidade, risco e meio am-
gularidade, como também pela abran-
biente, é uma das contribuições mais no-
gência e fôlego com que foi concebido e
táveis para uma sociologia do drama vivi-
realizado. Constitui-se em fonte segura de
do pelos trabalhadores e empregados do
subsídios para a compreensão de nossas
nuclear.
instituições universitárias e acadêmicas.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


160

Mudança ideológica A sociologia de Talcott


para a qualidade Parsons
MIGUEL PEDRO CARDOSO JOSÉ MAURÍCIO DOMINGUES
2000. 178 P. 2001. 106 P.
O livro trata a qualidade total como uma Este livro tem o mérito de tornar acessível
ideologia que propõe a mudança. A ideo- ao leitor brasileiro a complexa obra de
logia da qualidade é concebida como um Talcott Parsons, contribuindo para
conjunto de idéias e valores ordenados, reacender o debate acerca de sua teoria
que possui lógica própria e é examinada social.
através das representações dos agentes.
Da anchova ao salário
Trabalho e residência mínimo: uma etnografia
FERNANDO CORDEIRO BARBOSA sobre injunções
2000. 147 P. de mudança social
em Arraial do Cabo
Apresenta uma análise detalhada das for-
SIMONE MOUTINHO PRADO
mas de rearranjos colocadas em prática
pelos familiares que migraram e pelos que 2002. 145 P.
ficaram, demonstrando a intensificação do A obra refere-se aos primórdios da gera-
sistema de trocas que se estabelece. ção da idéia da Companhia Nacional de
Álcalis (CNA), de Arraial do Cabo, abor-
Um percurso da pintura: a dando os impactos desta sobre a popula-
produção de identidade de ção local. Mostra a presença da empresa
artistas como um fator importante das transfor-
LÍGIA DABUL mações sociais da região. Revela, ainda, as
2001. 240 P. relações mais recentes para o estabeleci-
mento da RESEX Marítima de Arraial do
Originalmente dissertação de mestrado Cabo (REMAC), que engendram novas
apresentada na área de Antropologia da formas de organização social do grupo.
Arte do Mestrado de História da Arte da
Universidade Federal do Rio de Janeiro,
descreve e reflete a estratégia de pesquisa
– um conjunto considerável de dados que
pôde construir teorias da chamada antro-
pologia da arte, com as quais dialoga.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


161

Centrais sindicais e Antropologia e direitos


sindicatos no Brasil dos humanos
anos 90: o caso Niterói REGINA REYS NOVAES E ROBERTO KANT DE
FERNANDO COSTA LIMA
2002. 170 P. 2001. 266 P.
O livro pretende demonstrar o que leva Prêmio ABA/FORD, a obra nasceu do re-
um sindicato a se filiar a uma das centrais conhecimento de uma necessidade de se
sindicais constituídas. O ponto de partida repensar o papel do antropólogo no mun-
é a hipótese de que a filiação de um sindi- do contemporâneo, buscando um
cato a uma central sindical estaria direta- redimensionamento de sua atuação pro-
mente ligada às pretensões políticas dos fissional, abordando questões como ética,
líderes sindicais e ao contexto competitivo direitos humanos, lei e moral.
entre sindicatos. A princípio teve como
apoio o estudo de cinco sindicatos do mu-
nicípio de Niterói.

Antropolítica Niterói, n. 9, p. 155-161, 2. sem. 2000


NORMAS DE APRESENTAÇÃO DE TRABALHOS
APRESENTAÇÃO

1. A Revista Antropolítica, do Programa de Pós-Graduação em Antro-


pologia e Ciência Política da UFF, aceita originais de artigos e rese-
nhas de interesse das Ciências Sociais e de Antropologia e Ciência
Política em particular.
2. Os textos serão submetidos aos membros do Conselho Editorial e/
ou a pareceristas externos, que poderão sugerir ao autor modifica-
ções de estutura ou conteúdo.
3. Os textos não deverão exceder 25 páginas, no caso dos artigos, e
oito páginas, no caso das resenhas. Eles devem ser apresentados em
duas cópias impressas em papel A4 (210 x 297mm), espaço duplo,
em uma só face do papel, bem como em disquete no programa Word
for Windows 6.0, em fontes Times New Roman (corpo 12), sem
qualquer tipo de formatação, a não ser:
• indicação de caracteres (negrito e itálico);
• margens de 3cm;
• recuo de 1cm no início do parágrafo;
• recuo de 2cm nas citações; e
• uso de itálico para termos estrangeiros e títulos de livros e perió-
dicos.
4. As citações bibliográficas serão indicadas no corpo do texto, entre
parênteses, com as seguintes informações: sobrenome do autor em
caixa alta; vírgula; data da publicação; vírgula; abreviatura de pági-
na (p.) e o número desta.
(Ex.: PEREIRA, 1996, p. 12-26).
5. As notas explicativas, restritas ao mínimo indispensável, deverão ser
apresentadas no final do texto.
6. As referências bibliográficas deverão ser apresentadas no final do
texto, obedecendo às normas da ABNT (NBR-6023).
Livro:
MARX, Karl. Manuscritos econômico-filosóficos e outros textos escolhidos. 2.
ed. São Paulo: Abril Cultural, 1978. 208 p. (Os pensadores, 6).
LÜDIKE, Menga, ANDRÉ, Marli E. D. A. Pesquisa em educação : abor-
dagens qualitativas. São Paulo: EPU, 1986.
164
FRANÇA, Junia Lessa et al. Manual para normalização de publicações téc-
nico-científicas. 3. ed. rev. e aum. Belo Horizonte: Ed. da UFMG,
1996. 191 p.
Artigo:
ARRUDA, Mauro. Brasil : é essencial reverter o atraso. Panorama da
Tecnologia, Rio de Janeiro, v. 3, n. 8, p. 4-9, 1989.

Trabalhos apresentados em eventos:


AGUIAR, C. S. A. L. et al. Curso de técnica da pesquisa bibliográfica:
programa-padrão para a Universidade de São Paulo. In: CON-
GRESSO BRASILEIRO DE BIBLIOTECONOMIA E DO-
CUMENTAÇÃO, 9. 1977, Porto Alegre. Anais... Porto Alegre: As-
sociação Rio-Grandense de Bibliotecários, 1977. p. 367-385.

7. As ilustrações deverão ter a qualidade necessária para uma boa re-


produção gráfica. Elas deverão ser identificadas com título ou le-
genda e designadas, no texto, como figura (Figura 1, Figura 2 etc.).
8. Os textos deverão ser acompanhados de resumo em português e
inglês, que não ultrapasse 250 palavras, bem como de três a cinco
palavras-chave também em português e em inglês.
9. Os textos deverão ser precedidos de identificação do autor (nome,
instituição de vínculo, cargo, título, últimas publicações etc.), que
não ultrapasse cinco linhas.
10. Os colaboradores terão direito a cinco exemplares da revista.
11. Os originais não-aprovados não serão devolvidos.
12. Os artigos, resenhas e correspondência editorial deverão ser envia-
dos para:
Comitê Editorial da Antropolítica
Programa de Pós-Graduação em Antropologia e Ciência Polí-
tica
Campus do Gragoatá, Bloco “O”
24210-350 – Niterói, RJ
Tels.: (21) 2620-5194 e (21) 2719-8012

Antropolítica Niterói, n. 6, p. 119–121 , 1. sem. 1999


Antropolítica
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Especialidade: ______________________________________________ Brasil S.A., agência 3602-1, conta
Endereço: __________________________________________________ 170500-8), depósito identificado
nº 15305615227047-5.
____________________________________________________________ Envie-nos o comprovante de
Bairro: ______________________________ CEP: _____________-___ depósito, através de carta ou fax,
juntamente com este cupom, e
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Telefone: ( ______ ) __________________________________________ adicional, a encomenda em sua
residência ou local de trabalho.

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Niterói, n. 6, p. 119–121, 1. sem. 1999