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CONHECIMENTOS E PRÁTICAS DO USO DE PLANTAS

MEDICINAIS COM ABORDAGEM ETNOBOTÂNICA, NO MUNICÍPIO


DE MORRINHOS-GOIÁS: ESTUDO DE CASO

HAYALA KATARINE DIAS RIBEIRO ALVES1*; ANDRÉ LUIZ CAES2*;

Introdução

A história da utilização das plantas medicinais está diretamente associada à


história da humanidade, visto que o homem sempre procurou na natureza as soluções para os
seus males. A relação entre o estilo de vida das pessoas e o meio ambiente que o cerca ocorria
de forma rudimentar, se constituía na sabedoria do senso comum. Mesmo em termos recentes,
em que o conhecimento e a tecnologia desenvolvidos pela Medicina científica se mostram

capazes de grandes concretizações, um número muito significativo de pessoas 3¹ continua

adepto da medicina natural, acreditando que por meio dela podem recuperar satisfatoriamente
a saúde, além de manter o equilíbrio orgânico.
Nesse sentido, o presente artigo, que faz parte da proposta do projeto de dissertação
de Mestrado, tem por finalidade apresentar o primeiro resultado da revisão da literatura sobre
o tema buscando demonstrar o espaço que as plantas medicinais possuem no contexto atual,
partindo de uma abordagem interdisciplinar como a etnobotânica, que permite revisar o
conhecimento tradicional associado à diversidade biológica em sua grande área, ou seja, a
relação do homem com as culturas tradicionais e o meio ambiente que o cerca (HAMILTON
et al. 2003). A Partir do estudo da integração entre o homem e a natureza, procura-se a
compreensão do conhecimento popular a respeito das plantas medicinais e a sua importância
para a ciência, a fim de contribuir para a valoração dos recursos naturais.
Especificamente, a partir das histórias e memórias dos quatro raizeiros da cidade de
Morrinhos (GO), pretende-se estudar o espaço e a influência que os conhecimentos a respeito

*UEG-Morrinhos. Aluna do Programa de Pós-Graduação Stricto sensu em Meio Ambiente e Sociedade; Bolsista
Capes.
*UEG-Morrinhos. Doutor em História, (Unicamp, 2002). Professor da Graduação e Pós-Graduação.

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No livro “As plantas medicinais como alternativa terapêutica” (2007), Soares informa, com base na estimativa
da Organização Mundial da Saúde, que 80% da população mundial faz uso dos remédios caseiros.
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da utilização das plantas para fins curativos ocupam no contexto atual da sociedade
morrinhense.

Metodologia

Para a realização do trabalho, utilizou-se metodologicamente, procedimentos através


de pesquisa bibliográfica. Primeiramente foi realizado o levantamento bibliográfico,
procurando o conhecimento das diversas abordagens já existentes sobre o tema em estudo. Foi
dado enfoque maior aos textos que abordam os aspectos históricos e culturais das práticas de
Medicina Popular e que destacam as origens e desenvolvimento dessas práticas, e a
decadência dessas práticas a partir dos processos de urbanização. Nesse item da pesquisa,
também procuramos os significados históricos atribuídos às práticas populares de medicina,
visando o entendimento das mudanças de status sofridas nos diversos contextos históricos,
principalmente com a modernização da ciência. Sobre esse primeiro passo, já se tem
levantado Cabral (1958), Maynard Araújo (1959), Fernandes (1961), Bastide (1971), Loyola
(1984) e Brandão (1984).
Num segundo momento da pesquisa bibliográfica, buscou-se levantar as publicações
existentes, também de revistas científicas, sobre Medicina Popular, Plantas Medicinais e
Medicina Alternativa, além de publicações a respeito da etnobotânica no Brasil, visando
estudar os meios e formas de divulgação dessas práticas e receitas no mundo editorial, com o
intuito de entender a mudança de significados e espaços da Medicina popular em relação ao
meio ambiente e a sociedade a partir do surgimento e desenvolvimento da tecnologia e
posteriormente, o entendimento da revalorização da Medicina Popular nas últimas décadas.
Como exemplo dessas publicações temos Acharan (2003), Pereira (2004), Ortêncio (1997).
O passo seguinte, correspondente a terceira etapa do trabalho será a leitura atenta e a
análise dessa bibliografia, procurando interpretá-la segundo a perspectiva teórica da chamada
História Cultural. Nessa perspectiva são valorizados os conceitos de identidade, práticas,
representações, imaginário, constituindo um conjunto de noções que possibilitam uma visão
adequada das atividades dos raizeiros e das práticas da Medicina Popular. Nesse sentido, os
raizeiros podem ser compreendidos como elementos de um conjunto de identidades culturais
tradicionais que resistem à total “modernização” da vida pessoal e social, e suas práticas de
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cura (marcadas pelas crenças e rezas) constituem casos exemplares de sobrevivência de


representações e imaginários que se contrapõem à racionalização e dessacralização de
aspectos essenciais da vida humana. A compreensão das formas de utilização de plantas
medicinais pela população constitui um indicativo importante para as propostas de
preservação ambiental e cultural na região sul de Goiás.
As entrevistas com os raizeiros de Morrinhos permitirão uma reflexão mais
profunda sobre a importância da oralidade na propagação da tradição pelos raizeiros, à
medida que essas tradições se mantêm vivas por meio da transmissão desses conhecimentos
de geração em geração. O estudo de campo, através dos relatos que serão colhidos representa,
como afirma Delgado (2006, p. 31), uma contribuição para “estimular e reativar o diálogo do
presente com o passado”. Essa reflexão faz parte de uma proposta ampla, juntamente com o
orientador do trabalho, em construir um acervo (fotografias e filmagens), que poderá integrar
as experiências de outras pessoas que tenham esses conhecimentos e que sejam acessíveis a
dar essa contribuição.

Resultados e discussão

A Medicina Científica alcançou um grau extraordinário de conhecimento e


sofisticação, devido aos grandes investimentos em pesquisas para entender o funcionamento
do corpo humano, sobre os efeitos dos componentes químicos na saúde física e nas inovações
tecnológicas que são incorporadas à aparelhagem dos hospitais. Entretanto, mesmo nesse
contexto de grande expansão da Medicina Científica, é muito interessante observar que a
Medicina Popular representa um importante elemento cultural da sociedade e que continua
sendo intensamente praticada.
A tecnologia e a modernização impulsionada pelo capitalismo a partir da Revolução
Industrial possibilitaram maior eficácia no que se refere a materiais avançados das indústrias
químicas, para fabricação de medicamentos alopáticos, para os tratamentos de doenças.
Castells (2007) discute essa questão e discorre sobre o surgimento da tecnologia e a revolução
da tecnologia, para ele “a segunda Revolução Industrial, a partir de 1850, foi caracterizada
pelo papel decisivo da ciência ao promover inovação” (p. 68), ainda segundo ele, através da
tecnologia a força humana passou a ser produzida.
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[...] as novas tecnologias da informação difundiram-se pelo globo com


a velocidade da luz em menos de duas décadas, entre meados dos anos
70 e 90, por meio de uma lógica que, ao meu ver, é a característica
dessa revolução tecnológica: a aplicação imediata no próprio
desenvolvimento da tecnologia gerada, conectando o mundo através
da tecnologia da informação. (CASTELLS, 2007: 70)

Contudo, como demonstra o estudioso Chesnais (1996, p.33) “O movimento da


mundialização é excludente.”, demonstrando que o processo de desenvolvimento tecnológico
não foi/é para todos, os países que não atenderam as demandas exigidas do mercado
foram/são marginalizados, cabendo a eles se adaptarem aos moldes instituídos pelos modelos
capitalistas.
Essas mudanças ocorreram em vários setores, inclusive no campo da Medicina, com
os avanços tecnológicos na área da medicina e da saúde, a medicina popular, de conhecimento
empírico foi marginalizada, sendo muitas vezes negada pela Medicina oficial.
Os costumes da Medicina Popular, no Brasil, foram transformados pela
modernização da ciência e da tecnologia. Segundo Inocêncio (2010, p. 68), “O
desenvolvimento e as ações das principais políticas públicas territoriais se tornaram presentes
no Brasil a partir da década de 1930 e influenciaram diretamente a configuração territorial.
Foi o início do planejamento estatal.”. Essas políticas atingiram a sociedade em vários
aspectos, inclusive na área da Medicina, o capital passou a ser o mandante dos modos de vida
das pessoas e das relações entre os países, com isso, as mudanças territoriais, foram bastante
expressivas quando o capital apropriou-se do espaço agrícola.
A modernização territorial no Brasil, em específico no Cerrado:
Teve como principais características: expropriação camponesa;
priorização no cultivo de gêneros agrícolas destinados a exportação;
atendimento aos interesses da elite rural; impactos ambientais em
detrimento do uso de agrotóxicos; aumento do desemprego no campo
e consequente êxodo rural, dentre outras consequências. Portanto foi a
tecnificação e mecanização das lavouras com desdobramentos no
processo produtivo. (INOCÊNCIO, 2010: 27)

É inegável que essas medidas trouxeram mudanças positivas e necessárias à


economia do país, com o advento da urbanização e criação de centros comerciais devido ao
desenvolvimento industrial, principalmente na década de 70. Contudo, após a migração
campo-cidade, houve a perca de parte das tradições da agricultura familiar, que foram sendo
“deixadas de lado” na sociedade. Nesse processo de esquecimento encontram-se as práticas
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do uso das plantas medicinais, que perderam o prestígio anterior dentro da sociedade. Além
disso, com o crescimento do agronegócio, houve desmatamento de grandes e várias áreas da
natureza brasileira e as leis não são cumpridas quanto à preservação ambiental, que abrange
florestas, rios e a rica biodiversidade no Brasil (FERREIRA, 2003).
Entretanto, mesmo tendo sofrido com o desmatamento desenfreado, a partir da
industrialização e modernização dos campos, atendendo ao agronegócio e ao capital, na
década de 1970, ainda é possível afirmar que “O Brasil possui a maior biodiversidade do
mundo, estimada em cerca de 20% do número total de espécies do planeta.” (CALIXTO,
2003: 37). O Brasil detém grande riqueza de espécies de plantas medicinais.
No centro-oeste do Brasil, encontra-se o Cerrado, que possui aproximadamente,
cerca de 2.000.000 Km², representando 25% do território nacional, e que apresenta um
ecossistema rico e variado. De acordo com Myers et al. (2000), o Cerrado é considerado como
uma das 25 áreas de grande biodiversidade mais ameaçadas do planeta, possuindo variedades
de tipos fisionômicos, sendo também uma das áreas de grande devastação antropológica e por
este motivo, torna-se imprescindível o empenho do presente trabalho na busca pelo resgate
dos conhecimentos sobre as plantas medicinais possuídos pelas comunidades tradicionais,
raizeiros e pessoas que utilizam os seus saberes empíricos no cotidiano.
No Estado de Goiás, é comum a venda de plantas medicinais em feiras e em
mercados. Diante da dimensão da biodiversidade do cerrado goiano, refletimos sobre a
importância de avaliar a respeito do universo das plantas medicinais comercializadas na
região sul de Goiás, com o intuito de entender os tipos mais procurados e o modo como são
utilizadas pelos habitantes do município de Morrinhos-GO, a partir dos relatos de vida de
Dona Iraídes Francisca da Silva Vaz (60 anos), Dona Ivanir Francisca da Silva (65 anos), o
senhor Jamiro José de Mendonça (63 anos) e Dona Maria de Lourdes da Silva (71 anos).
O crescimento emergente das práticas de terapias alternativas ocorre porque elas
fogem do convencional, as pessoas podem encontrar diferentes tipos de vantagens vinculadas
a esse novo modelo de assistência, além disso, muitas vezes essas formas de cura alternativa
são procuradas para se evitar os indesejáveis efeitos colaterais, buscando método não
convencional que mantenha o equilíbrio do organismo humano.
Outro fator que também contribui para a procura por tratamentos e medicações
oferecidos pela Medicina Popular é o alto custo dos medicamentos alopáticos vendidos nas
farmácias e dos tratamentos vinculados à medicina oficial. Sendo assim, nos países em que a
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Medicina Científica não atingiu todas as camadas da população, esta é considerada uma
justificativa para a grande utilização de práticas não convencionais para curas.
Nesse sentido, tem ocorrido um significativo aumento do respeito às tradições da
Medicina Popular por parte dos profissionais de saúde, aliados a tecnologia os trabalhos
científicos sobre essas atividades de tratamentos por meio de raízes e plantas são favorecidos
e facilitam o conhecimento cada vez maior das receitas fitoterápicas características das
tradições brasileiras (CAMARGO, 1985).
É a partir dessas considerações que entendemos ser relevante a produção de
documentos orais e visuais sobre a experiência das pessoas que mantém viva a tradição do uso
de plantas, as quais preservam não só as receitas, rezas e rituais de colheita das plantas, mas
também a memória da transmissão desses conhecimentos, que receberam através de suas
gerações anteriores.
Desse modo, partindo da problemática que envolve o tema, é importante analisar
através de estudo de caso a importância de uma abordagem etnobotânica em interrelação com
as tradições populares, com o intuito de preservar as memórias daqueles que fazem uso das
plantas medicinais, bem como de suas influencias antepassadas, a fim de contribuir para a
história cultural regional goiana e consequentemente com a do nosso país.

Conclusão

Diferentemente de um passado não muito distante, quando os saberes populares


foram desqualificados pela Medicina Científica, com o advento do surgimento e
desenvolvimento tecnológico em praticamente todos os setores que norteiam o estilo de vida
das sociedades, os profissionais de saúde na atualidade, diante de pacientes que carregam suas
crenças e costumes, demonstram cada vez mais respeito, aceitação e interesse em
compreender um universo para o qual os estudos não os prepararam. Esses profissionais
identificam a utilização de recursos populares pelos seus pacientes e tendem a ressaltar, não
mais a ineficácia de seu uso, mas a necessidade de conscientização quanto ao uso de recursos
prejudiciais à saúde.
A Medicina popular juntamente com a Medicina Científica, no contexto da
relação ambiente, sociedade e tecnologia pode favorecer o alcance de melhores resultados no
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tratamento das enfermidades das pessoas. Apesar da existência de preconceitos, a


credibilidade desses métodos não convencionais é crescente porque valorizam o indivíduo em
todas as suas dimensões e instituem intervenções menos agressivas, tanto ao corpo físico
quanto à vida emocional dos indivíduos. A Fitoterapia e a Fitofarmacologia são menos
agressivas se comparadas à alopatia e as mesmas podem ser utilizadas conjuntamente quando
o conhecimento sobre elas está direcionado ao cuidado integral do ser humano.
Portanto, a partir da observação da crescente produção acadêmica sobre a
etnobotânica, os conhecimentos populares a respeito das plantas, e espaço cada vez maior da
Medicina natural, são necessários o aprofundamento nas pesquisas para que se possa atuar na
preservação e divulgação desses saberes de forma que possam beneficiar a sociedade.

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