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ALEXANDRE DUMAS

O CONDE DE

MONTE CRISTO

Tradução e adaptação

Heloisa Prieto

llustrações

Alexandre Camanho

1e ediÇão

FTD.

São Paulo -

2A14

FTDT

Copyright @ Heloisa Prieto,2014

EDEONA FÍD S.À

Matriz: Bua Rui Barbosa, 1 56

-

Bela Vista -

São Paulo -

CEP 01325-010 -Tel. (0-xX-ÍÍ) 3598-6000

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lnternet: www.ftd.com.br E-mail: projetos@ftd.com.br

SP

Diretoraeditorial SilmaraSapienseVespasiano

GêÍente editorial Ceciliany Alves Editora CeciliaBassarani

Editor assistente Luís Camargo

Assistentes de pÍodução Ana Paula lazzetto

Lilia Pires

Assistentes editoriais Tássia Rêgianê Silvestre de Otiveira

Thalita R. MoiseiefÍ

Preparadora

Débora Andrade

 

Revisora

Regina C. BaÍÍozo

Coordenador

de arte

Eduardo Rodrigues

EditoÍa de arte

Andréia Crema

Projeto gráíico

aeÍoestúdio

DiâgÍamaçáo

Sheila Moraes Ribeiro

TÍatamento de imagem

Paulo Minuzzo Eziquiel Racheti

Supervisão de iconograÍia

Célia Rosa

PêsquisadoÍa iconográÍica

Etoile Shaw

DiretoÍ dê produção gráfica

Reginaldo Soares Damasceno

Tradução e adaptaçáo de Le Comte de Monte-CrisÍo in: Les trois

mousquetaircg,

Vingt ans apràs: Le Vicomte de Bragetonne. Le Comte

de Monte-Cristo,

Édation allustrée, Paris, Jean-Clâude tattêt 198&

rsBr{ 978-2-7095{707{.

Alerandre Dunas (1802-1870), dÍâmaturgo e Íomancista ÍÍancês, escÍeveu

obras de imenso sucesso como Os Írês mosqueteircs

(184'/ll e O conde de

Monte Cristo (18,É'Í845). Suas histórias são ronstantêmente adaptadas

para o cinema e a têlevisáo, tendo gerado mais de 200 filmes.

Hêloasa Prieto é paulistanâ. Aútora de 54 livros de literatura para

adultos e cÍiançat é doutoÍô em Llngua e LiteratuÍa Francesa pela Universidade de São Paulo. Ganhou vários prêmios liteÍários e ministra oficinas para desenvolvimento da criatividade em diversas instituições.

ioyent

Dados lnternacionais de Catalogação na Publicação (ClP)

(Câmara Brasileira do Livro, SB Brasil)

Prieto, Heloisa

O Conde de Monte Cristo / AlexandÍe Dumas; traduçáo e adaptação Heloisa Prieto ; ilustraçõês Alexandre Camanho. - 1. ed, - São Paulo: FTD, 20í4.

fítulo original: Le Comte de Monte-CÍisto.

tsEN 978-85-322-9250-6

Í. LiteÍatura inÍantojuvenil l. Dumas, Alexandrê,

ll. Camanho, Alexandre, lll. Título.

Í4-00301

1802-1870.

cDD-028.5

lndices para catálogo sistemático:

1. Literatura iníantoiuvenil 028.5 2.Literaturajuvenil 028.5

A chave para descobrir os clássicos 6

Almanaque 11

Convite à leitura 36

cAPíruro r

capíruro z

A vela negra 43

Mercedes, a bela 49

cAPiruLor O ressentimento de Danglars 56

cAPíruro 4

A carta anônima 60

cAPiruros O interrogatório 64

cAPíruro 6

O Castelo de !f 72

cAPiruro r

lsolamento 76

cAPirulo 8

O abade Faria 79

cAPíruLo s

O desejo de vingança 84

cAPíruLo 10

O mapa do tesouro 95

cnpiruro rr

A fuga 10Í

cAPiruro 12

O conde de Monte

Cristo 104

cAPíruro13 Crédito ilimitado 115

cAPiruro14 Haydée 1Í8

cAPiruro 15

O golpe final Í27

capiruro 16 Esperar e ter esperança

136

Muitas conversas com um mesmo livro 140

E

Esta coleção convida você a participar de grandes aventuras:

mergulhar nas profundezas da Terra, erguer sua lança contra feiticeiros e gigantes, conhecer os personagens mais fantásticos

e mais corajosos de todos os tempos.

Algumas dessas aventuras farão sucesso para sempre e vão

the possibilitar novas maneiras de enxergar a vida e o mundo.

Farão você rir, chorar -

Revelaráo segredos sobre você mesmo. E levarão você a enxergar

às vezes as duas coisas ao mesmo tempo.

mistérios do espírito humano.

Outras ficarão na sua memória por anos e anos. No entanto, você poderá reencontrá-las, não somente nas prateleiras, mas dentro de si mesmo. Como um tesouro que ninguem nem nada

jamais tirará de você.

Você, ainda, poderá presentear seus filhos e netos com essas histórias e personagens. Com a ceÍteza de estar dando a eles algo

valioso -

que lhes permitirá descobrir um reino de encantamentos.

É isso que os clássicos fazem: encantam a vida de seus

leitores. No entanto, sua linguagem, para os dias de hoje, muitas vezes pode parecer inacessível. Afinal, não são leituras

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corriqueiras, comuns, dessas que encontramos às dúzias por

e esquecemos mal as terminamos. Os clássicos sáo desafiantes. Por isso, esta coleção ttaz essas obras em textos com tamanho

e vocabulário adaptados à atualidade, sem perder o poder tão

especial que elas têm de nos transportar, de nos arrebatar para

dentro da história. A ponto de poderem muito bem despertar em você a vontade de um dia ler as obras originais.

Tomemos como exemplo a obra Robinson Crusoé: o navio do sujeito naufraga. Com muito esforço, ele nada até uma ilha

que fica fora das rotas de tráfego marítimo e se salva. É o único

sobrevivente. Ao chegar à praia, estira-se na areia, desesperado,

convencido de que jamais retornará à civilização e disposto a se

deixar morrer ali.

Muita gente poderia dizer que essa história não apresenta

elementos dramáticos para os dias de hoje, pois dispomos de diversos recursos para evitar que esse tipo de situação aconteça.

Com mapas, rastreamento dos navios por satélites, equipes

de busca munidas de super-helicópteros e computadores

ultramodernos, ele logo seria resgatado. E

a história acabaria.

No entanto, somos cativados pela luta desse homem, que foi

E privado de tudo o que conhecia e isolado do mundo durante quase trinta anos. A gente se envolve com o personagem; somos tocados pela sua força de caráter e pela sua persistência em reconstruir,

pouco a pouco, a vida, criando, a partir do nada, um novo mundo.

O espírito dessa obra não tem a ver com época ou recursos

tecnológicos, mas com o dom de exibir o extraordinário. Não apenas

o da fantasia, mas o do ser humano. Portanto, o extraordinário de

cada um de nos.

Os clássicos falam de amor, ciúme, raiva, busca pela felicidade como outras obras não falam. Vão mais fundo, ao mesmo tempo ern

que são sutilmente reveladores.

Não é à toa que atravessaram séculos (alguns, até milênios)

e foram traduzidos para tantos idiomas, viraram Írlmes, desenhos

animados, musicais, peças de teatro, histórias em quadrinhos.

Existe algo neles que jamais envelhece, conserva-se intensamente humano. E mágico.

Afinal, quem e capaz de ler Dom Quixote e nao se divertir e se comover com o Cavaleiro da Triste Figura?

Quem não torce para Phileas Fogg chegar a Londres, no dia

e na hora marcados, e ganhar a aposta, depois de viajar com ele,

superando obstáculos e perigos, nos 80 dias de volta ao mundo?

Quem Os três mosqueteiros sem desejar, uma vez que seja,

erguer uma espada junto com seus companheiros, gritando:

UM POR TODOS E TODOS POR UM!?

Os clássicos são às vezes mais vívidos do que a vida e seus

personagens, mais humanos do que o ser humano, porque neles as

paixôes estão realçadas, e as virtudes e defeitos de seus personagens

são expostos com genialidade criadora,literária, em cenas que

jamais serão esquecidas e falas que nasceram imortais.

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Os clássicos investigam os enigmas do mundo e do coração,

da mente, do espírito da gente. Eles falam de nossas dúvidas, de

nossas indagações. Geralmente, não oferecem respostas, mas

vivências que nos transformam e nos tornam maiores

por dentro.

Sáo capazes de nos colocar no interior do submarino Nautilus, vendo com olhos maravilhados prodígios imaginados por fúlio Verne em Vinte mil léguas submarinas.

Ou nos levam à França do século XIX. Num piscar de olhos,

estamos prontos para iniciar um duelo de espadas, noutro instante,

intrigados, fascinados com a obsessão de favert, um dos mais

impressionantes personagens criados pela literatura. Assim como,

em certos trechos, nos vemos em fuga desesperada sofrendo com toda a injustiça que se abate sobre o herói de Os miseráveis.

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As traduções e adaptações desta coleçáo buscam proporcionar i

a você um acesso mais descomplicado aos clássicos, como se fosse uma chave para descobri-los, para tomar posse de um patrimônio

O melhor que a humanidade produziu em literatura.

Luiz Antonio Aguiar

Mestre em Literatura Brasileira pela PUC-Rf .

Éescritor,tradutorredatoreprofessoremcursos

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de qualificaçáo em Literatura para professores. i

ROMANCISTA EXUBERANTE

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Alexandre Dumas, c. 1851

Autor de alguns dos mais amados romances clássicos

escritos, como 0 conde de Monte Cristo, A roinha

Morgot, José Bólsamo e 0s três mosqueteiros, Ale-

xandre Dumas [1802-1870) merece como nenhum

outro escritor o adjetivo exuberonte por diversas ra-

zões: pela extensão admirável de sua obra, composta

principalmente de peças de teatro e romances, por

sua vida aventuresca, às vezes, extravagante, por seu

porte corpulento, por sua íama de polemizador impla-

cável e, claro, pelo aperfeiçoamento do gênero literá-

rio folhetim, que em suas mãos ganhou um poder de sedução inédito. Grande

contador de histórias, grande criador de personagens, como Athos, Porthrrs,

Aramis e D'Artagnan - os mosqueteiros do rei -, Dumas foi um escritor extre-

mamente popular em seu tempo e com inúmeros admiradores no meio literário.

"" Folhetim - 0 folhetim Ido írancês/euilleton, que signiíica íolhas] é uma narrativa seriada,

publicada em jornais. Nela, é imprescindível a existência do gancho, que ao finaldo capítulo leva o leitor a uma situação de suspense ou mistério, incitando-o a ler o capítulo seguinte. Gênero muito popular no século XlX, teve Alexandre Dumas como grande representante. 0 primeiro folhetim publicado pelo mestre

clássico do gênero íoi 0 copitõo Poulo l1B3B],

adaptação de sua peça teatral Poul Jones, inspirada no romance 0 piloto: um conto sobre o mor | 1823 ], do autor norte-americano James Fenimore Cooper.

Primeira página do Jornol de Debates, de 28 de outubro de 1844, quando teve início a publicação de 0 conde de Monte Cristo

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0 avô de Dumas íoi

o Marquês Antoine- -Alexandre Davg

de La Pailleterie, e a avó, uma mulher

negra, não se sabe ao

certo se escrava ou alÍorriada Iescrava

libertada ), chamada

Marie Césette Dumas.

Seu pai, o general

Thomas-Alexa ndre

Davg de La Pailleterie, mulato, nascido em São Domingos

Iatual HaitiJ, foio

Retroto do general Dumas, de 0livier Pichat, Museu Alexandre Dumas,

Villers-Cotterêts, cidade natal do escritor

primeiro homem de

ascendência negra a alcançar o generalato nas forças armadas írancesas. Alexandre Dumas soíreu

discriminação racial em várias situações.

O FILHO

Alexandre Dumas teve um filho a quem

deu seu nome.

nasceu em tB?4 e morreu em 1895. As- sim como o pai, tornou-se escritor, sen- do o romance A doma dos comélias, de

1848, sua obra mais famosa.

Filho de uma relação extraconjugal, Alexandre Dumas, filho, só conheceu o pai em 1831

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NO IIIIPO DA III§IÓRIA

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Napoleão Bonaparte, depois de

quase conquistartoda a Europa

continental, íoi derrotado por uma

aliança de nações IPrússia, Áustria e RússiaJe exilado na ilha de Elba, na ltália. Foi de fato um período perigoso para alguém considerado

Iou denunciado) bonapartista.

a Napoleão Bonaparte [ 1769- L82L),1íder militar e político do período final da Revolução Francesa, por meio de um golpe de Estado, assumiu o poder com o nome Napoleão l, rei da

França, contrariando os ideais republicanos da Revolução.

a A habilidade militar de Napoleão garantiu-lhe vitórias contra a

maioria das nações europeias,

até ser derrotado na Campanha

da Rússia, quando seu exército, castigado pelos soldados russos e pelo inverno, para o qual estava

desprepa rado, sofreu baixas

irremediáveis.

t Napoleão escapou da ilha de Elba em 1815, retornando então à França e ao comando de seus exércitos. Foi, porém, derrotado na Batalha de

Waterloo, em junho do mesmo ano, e

novamente exilado, desta vez na rlha de Santa Helena, onde permaneceu até o fim de seus dias.

a Hoje, é reverenciado na França

como herói nacional. Seus restos

mortais foram transíeridos para o Palácio dos lnválidos, em Paris, em

1840, e seu túmulo é lugar solene

de visitação e eventos cívicos.

a 0 romance 0 conde de Monte

Cristo foi publicado em capítulos no Jornol de Debotes Ialiás, Jornol de Debotes Políticos e Literórios), entre 1844 e 1846,

anos conturbados na França por uma sucessão de revoltas em Paris contra a Monarquia. Em 1848, uma

revolução popular proclamou a ll

República, mas logo foi derrotada.

Grande parte do século XIX teve característica turbulenta, até 1820,

quando foi proclamada a lll República Francesa, que dura até hoje.

Vovilo Moroz,componês

russo, coçondo coelho, cha rge sobre a retirada do exército de Napoleão da Rússia

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Nascido em 1755 e falecido

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lJ no trono da França. Com apoio I

das potências europeias que

derrotaram Napoleão, pôde reinar até a sua morte, em 1824, ,

com o breve intervalo entre o

retorno de Bonaparte à França, conhecido como Governo dos Cem Dias, quando fugiu do

país. Com a derrota de Napoleão

em Waterloo, em B de junho de

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1815, retornou ao trono.

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Retrato de Luís XVlll em traje da

coroaçdo, de François Gérard

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TIAN§f,I,HA

Onde tem início a história de 0 conde de Monte Cristo. Cidade portuária no sul da França, às margens do mar Mediterrâneo. Uma das mais antigas cidades írancesas, foi fundada por marinheiros gregos cerca de 600 a.C. No final do século XVlll, a população local apoiou com grande entusiasmo a Revolução

Francesa e, em 1792, quinhentos manifestantes marcharam para Paris em

defesa do governo revolucionário.

Cantavam

Lo morseilloise [A marselhesa], que se transformou

no hino nacional

da França.

0 golfo de Marselho visto

de / tstoque, de Paul

Càzanne, c. 18B5

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Castelo na ilha de na baía de Marselha, s.d.

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É um dos cenários da história e localiza-se na baía de Marselha. Construído

por ordem de Francisco l, a partir de 1529, íoi inicialmente fortaleza e depois

prisã0. Em dois séculos, 3 500 protestantes íoram aprisionados no castelo, além de prisioneiros políticos. 0s últimos encarcerados foram os alemães,

durante a Primeira Guerra Mundial. Desde a publicação de 0 conde de Monte

Cristo, tornou-se um mito literário e é um dos monumentos da França, que

incluia cela dita de Edmond Dantàs e a masmorra dita do abade Faria.

 

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Porto dos Cotolões em Marselho, de Jean-Jérôme Baugean, c. 1800

PRAIA DO§ CAIÀIÀf,§

Uma das praias de Marselha, foi povoada inicialmente por pescadores do sul

da Espanha, mais especiíicamente da Catalunha, de onde provém seu nome.

Da praia, pode-se avistar o Castelo de lf. No romance 0 conde de Monte Cristo,

aparece com o nome Vlla dos Catalães e é lá que mora a personagem Mercedes.

PAIXAO POR §IIf,RAzADf,

FoinainfâncíaqueAlexandreDumasleuAs1001noites,coleçãodeh-istóriasú

árabes,traduzidaspelaprimeiraVezno0cidenteporAntoineGalland[1646.

t?l5),francêsespecialistaemculturaoriental.Essaobratevegrande

impacto e iníluência em diversos autores europeus, a partir da tradução de

Galland. A moda do orientalismo estendeu-se a outras artes, como a pintura,

comoSevê,porexemplo,naobradeDelacroix[1Z98-1863],etornoU.SeUma

das tendências do Romantismo.

Para Dumas , As 1001 noites (Alf Loglo wo Loglo, em árabeJ proporcionaram algo especial. Na história central, o Rei Shariar matava suas esposas, sempre, ao amanhecer, depois da noite de núpcias. Com Sherazade, porém, íoi diferente. Para escapar da morte, ela, a maior contadora de histórias da Literatura, a cada nascer de sol, interrompia suas narrativas num

ponto em que o rei se sentia ansioso em saber o que aconteceria depois. Dessa íorma, ela sobreviveu 1001 noites.

As mulheres de Argel em seu opartomento, de Eugàne Delacroix, 1834

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Muito da técnica de Sherazade faz parte das narrativas de folhetim, que

Dumas aproveitou em seus romances mais conhecidos.

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Além da técnica do gancho, isto é, interromper a

narrativa num momento signiíicativo da história,

alguns críticos veem outras referências de Ás

7007 noites em 0 conde de Monte Cristo. A gruta onde Dantàs encontra o tesouro do cardeal

Spada, por exemplo, seria inspirada na caverna

do tesouro da história Ali Bobó e os 40 lodrões.

Ali Bobó e os quorento lodrões, de Virginia Frances Sterren, 1928

Nos Negócros

Nào exrstem amrgos,

aPeNas clreNtes.

o coNDe De moNte cRrsto, 1844

O CASTELO DE MONTE CRISTO

Castelo de Monte Cristo, residência do escritorAlexandre Dumas, em Le Port-Marlg, França, 2008

Alexandre Dumas ganhou

muito dinheiro com folhe-

tins e peças de teatro. No

entanto, era um gastador

incorrigível. Entre outras

extravagâncias, além de

sustentar em sua residência um grande nÚmero de con- vidados quase permanen- temente, mandou construir,

em 1846, um castelo -- o

Castelo de Monte Cristo, em Le Port-Marlg, a 20 quilôme-

tros do centro de Paris, que

passou a ser sua moradia.

Em determinada ocasião,

no entanto, depois de tanto

desperdÍcio, teve de fugir da França para escapar da per-

seguição de seus credores.

0 castelo acabou sendo ven- dido para saldar dívidas.

O IMPÍRIO OIOHÀNO

Em 0 conde de Monte Cristo, menciona-se o personagem histórico Ali Paxá, governante da cidade de Janina, na Grécia, morto pelo exército otomano, depois de rebelar-se contra o sultão e associar-se aos

separatlstas gregos.

a 0 lmpério Otomano dominou grande parte

da região onde hoje fica a Turquia, mas,

no seu momento de maior expansão,

dominou a Grécia, o Oriente Médio, parte

da África e do sudoeste europeu, entre

o final do século Xlll até 1923. 0 termo

otomdno é derivado de 0sman, chefe turco que fundou a dinastia e o império.

a Tinha como capital Constantinopla Iatual

lstambul]. As principais potências da

Europa temiam seu avanço pelos Balcãs sobre as nações europeias.

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ALI PASHE TEPELENA l1+o - t822

Escultura de Ali Paxá em praça de

Tepelenê, Albânia, 2009

"& 0 domínio sobre a Grécia motivou, entre os europeus ocidentais, um movimento de apoio às sucessivas rebeliões dos gregos pela independência de seu país, só obtida em 1832.

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Atual loannina,

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governada porAli

Paxá de 17BB até sua

morte, em 1822. No

local onde Íicava o

palácio foi construído

um museu, o

Museu Bizantino de

loannina.

Tumba de Ali Paxá e mesquita Fethige, em loannina, Grécia

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O GENERAL

0 pai de Alexandre Dumas tinha

um amor enorme pelo íilho. 0s dois

eram bastante ligados. A partir de

sua morte, a família de Dumas viveu

sérias dificuldades íina nceiras.

0 general Dumas lutando contra soldados austríacos na ponte de Clausen, quando Napoleão invadiu o Tirol em 1Z9Z

Dumas conheceu seu grande

parceiro literário, Auguste Maquet

[1813-1888], em 1838, ano em que publicou seu primeiro folhetim.

Maquet era dramaturgo e escritor,

professor de História e amigo de

expoentes do Romantismo, como

Théophile Gautier

ít1Ll-t872) e Gérard

de Nerval [1802-

1855], que foi quem

o apresentou a Dumas.

Foijustamente o conhecimento histórico

de Maquet

que o

transíormou no mais produtivo

colaborador de Dumas. Era ele quem

pesquisava dados e, às vezes,

segundo se conta, escrevia o esboço

inicial de algumas cenas, que, nas

mãos de Dumas, ganhavam vigor

inigualável.

Ainda hoje, no entanto, existe uma

grande polêmica a respeito da

extensão da parceria entre Maquet

e Dumas. quem diga que o

famoso e consagrado Dumas

publicava material de Maquet como

seu, para garantir o sucesso da

obra. É sabido que Dumas mantinha

um ateliê de criaçã0, em que

trabalhavam diversos assistentes.

Em 1857, Auguste Maquet processou

Dumas por pagamentos atrasados e

para receber direitos autorais como

coautor de algumas obras.

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AS LEITURAS

DE DUMAS

Além deÁs 7007 noites,

Alexandre Dumas tinha

como alguns de seus autores íavoritos:

I,ORD EYRON

George Gordon Bgron nasceu em 17BB e morreu em 1824.

Foi poeta, contista e

novelista, e uma das grandes inspirações

- tanto pela obra como pela sua vida

- do Romantismo.

Sua obra é uma das

mais características da melancolia e da morbidez típicas do

Romantismo, além da rebeldia contra as convenções morais

de sua época, de sua

sucessão de casos amorosos e alguns escândalos do gênero. Lutou e morreu

na guerra contra o lmpério Otomano, pela libertação da Grécia, apostando a vida nesse ideal romântico. É

interessante notar que

a personagem Hagdée,

íilha de Ali Paxá I personagem histórico,

que Bgron conheceu], tem seu passado ligado a esse conílito entre

o lmpério 0tomano e

i os países dominados,

i inclusive a Grécia.

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Walter Scott nasceu em Edimburgo, Escócia, em 777L, e morreu em lü2.É considerado o iniciador do romance

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histórico e o criador

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de alguns mitos literários, como o de

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lvanhoé [raZO), uma

de suas obras mais famosas, que Dumas

traduziu para o francês. lnfluenciou toda uma

geração de leitores e escritores, inclusive, no Brasil, como José

de Alencar, de quem

foi uma das leituras prediletas.

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I n.r.a. rrorrr,raNN

It7 ? 6 -18?2), e s c rito r,

compositor, desen hista

e jurista alemão, é

considerado precursor

da literatu ra ía ntástica e das histórias de

terror. Em 0s contos

de Hoffmonn, ópera

de Jacques 0fíenbach,

HofÍman aparece

como personagem.

Dumas íez a mesma

coisa em A mulher do

gorgontilho de veludo, uma história de terror

em que Hoffman faz

participação especial.

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I JAITES fiNIItOpE

coopfR

Popular escritor norte-

-americano, autor de

0 último dos moiconos,

James Fenimore

Cooper [ 1789-1851J foi

um grande criador de

aventuras e romances

históricos, como, por

exemplo, 0 piloto: um

conto sobre o mor

[1823], a parrir do

qual Dumas escreveu

uma peça teatral como

continuação da história

com o título PoulJones

[1836], origem de seu

primeiro folhetim.

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I VICIOR trUGO

Autor de 0s miseróveis

e Nosso Senhoro de

Pods INotre-Dame de Paris), mais conhecido

como 0 corcundo

de Notre Dome

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D)

[1831], foi uma das

expressões máximas do Romantismo, em

seu viés político,

revolucioná rio,

exigindo mudanças

na sociedade. Em

1877,ao visitar

Paris, D. Pedro ll fez

questão de conhecê- -lo pessoalmente. 0 escritor, a princípio

resistente, dadas as

diferenças polÍticas

entre os dois - Victor

Hugo era militante

republicano - acabou grande amigo do

monarca. Foi um dos autores mais influentes no mundo inteiro. Nas- ceu em 1802 e morreu em 1885. Em carta a Alexandre Dumas, filho

[15 de abril de LB72),

Victor Hugo escreveu:

"Alexandre Dumas é

um desses homens que poderíamos chamar semeadores

de civilizaçã0. Ele

torna os espíritos [

]

melhores, [

as almas, os cérebros, as inteligências; ele cria

a sede de ler [

]

fecunda

]".

PICAUD, O VINOADOR

É possívelque Edmond Dantàs, o protagonista de 0 conde de Monte Cristo,

tenha sido inspirado em certo François ou Pierre Picaud, operário de Nimes Icidade do sulda França, como Marselha), que, traído pelos amigos poucos

dias antes de seu casamento, passou sete anos na prisão e dedicou o resto de sua vida a se vingar de seus traidores. Esse caso é relatado no episódio "0 diamante e a vingança", do livro Memórios tirodos dos orquivos do polício

de Poris [ 1838J, de Jacques Peuchet.

mas, como

se saBe, o

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rmPRessroNa o êspÍnrto

caPRrcHoso Do Poeta

Ner'rl semPRe PRoDUZ

eferto rgual Nos

Lertones.

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3 Não se deve confundir romance, história longa, com romance, caso de amor, namoro. 0 adjetivo romôntico pode se referir ao movimento literário Romantismo e à pessoa romântíca, que, em qualquer época, valoriza o

aíeto, a emoção, o amol ou mesmo se entrega ao idealismo, aos sonhos de transformação da sociedade. romances do Romantismo que não tratam de amor, assim como romances não pertencentes ao Romantismo cuja temática é essencialmente o amor.

-) RotmrucE HrsTóRrco

Tipo de romance que mistura personagens históricos e Íiccionais, apresentando o panorama de uma época, menos ou mais

longa. Segundo Jules Michelet ÍL798-t874),

um dos maiores historiadores íranceses,

Alexandre Dumas ensinou ao povo mais história do que todos os historiadores reunidos.

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Gavroche, personagem de 0s miserdveís, de Victor Hugo, em selo emitido na França em 2003

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@ 0 Romantismo, movimento

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artístico, político e literário que

teve início no íinal do século

Xvlll, reúne um grande universo

de obras e autores, alguns l

com características bastante

diferentes. Aliás, é sempre diíícil definir as características

:

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. delimitar um estilo de época. :

Principalmente quando se trata de um movimento tão diversificado.

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a Ouando Eugàne Sue I t80+-

1857 J lanço u 0s mistérios

de Poris,em L842, alcançou

tamanho sucesso com sua história recheada de aventura, reviravoltas, mistérios e peripécias, indicando um caminho para se obter êxito

popular, que seria adotado por

alguns dos autores da

época: o folhetim.

a Sue não inventou o folhetim, mas

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íixou na sua obra - por muitos

considerada de baixa qualidade literária - algumas de suas

ca racterísticas fu nda mentais,

incorporando-as como um dos gêneros do Romantismo.

a 0 Romantismo é tão dlversiíicado

que nele cabem também o

romance rebelde e reformador de Victor Hugo e os góticos e

Cosette, personagem de 0s miseróveis

as histórias de terror de Marg

Shel leg (Fro n kenstein, 1B1B J,

EdgarAllan Poe, [0 gdto preto, 1843J, Robert Louis Stevenson

l0 médico e o monstro, 1BBGJ e Bram Stocker (Dráculo,1897].

Entre a metade do século XVlll até quase o íinal do

XlX, surgiram várias obras classificadas como româ nticas.

No Brasil, o século XIX

concentrou obras e autores do

Romantismo, como os poetas

Gonçalves Dias e Castro Alves, e os romancistas José de Alencar e Visconde de Taunag, embora também se possa, por aqui, falar

em diversas tendências.

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COLECIONADOR

Em suas Memórios, Alexandre Dumas conta que comprou três quadros de Eugêne Delacroíx, o mestre da pintura romântica írancesa: Homlet, Gioour e

Tosso no prisõo de loucos. Existem, de íato, quadros de Delacroix com títulos parecidos: Homlet e Horócio no cemitério IMuseu do Louvre), 0 combote do gioour e Hosson Ilnstituto de Arte de Chicago] e Iosso no hospício Icoleção particularJ. 0 primeiro é uma cena de uma das mais famosas peças teatrais de Shakespeare. 0 segundo é inspirado em um poema de Bgron, 0 gioour [termo

utilizado pelos turcos para designar os não muçulmanos).0 terceiro reíere-se

a um fato da vida do poeta italiano Torquato Tasso. Essas pinturas confirmam,

assim, certas preferências estéticas e literárias de Dumas. 0 combote do gioour e Hosson íoi exibido na galeria Lebrun, de Paris, em benefÍcio dos

gregos e sua guerra de libertação contra o lmpério 0tomano.

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