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Uma Perspectiva Conceituai, Histórica, Bíblica e Prática

D LÍDER CRISTÃO
eo Hábito
de Leitura
ALTAIR G E R M A N O
Na Obra O Líder Cristão e o Hábito
de Leitura, Altair Germano mostra que
ler com frequência desenvolve o inte­
lecto, enriquece o vocabulário e contri­
bui na fluência verbal. D essa forma, ele
incentiva pastores e líderes cristãos ao
hábito de ler.
O autor comenta que “negligenciar
a competência em leitura e escrita gera
uma restrição ao acesso às informações
relativas à vida em sociedade".
Esta obra incentivará pastores e líde­
res evangélicos ao hábito da leitura para
o desenvolvimento intelectual e para o
enriquecimento do Reino de Deus.
Uma Perspectiva Conceituai, Histórica, Bíblica e Prática

O LÍDER CRISTÃO
eoHábito
de Leitura
ALTAIR G E R M A N O

Ia E d iç ão

CB4D
R io de Jan eiro
2011
Todos os direitos reservados. Copyright © 2011 para a língua portuguesa da Casa Publicadora das
Assembleias de Deus. Aprovado pelo Conselho de Doutrina.

Preparação dos originais: Daniele Pereira


Capa: Josias Finamore
Projeto gráfico e Editoração: Alexandre Soares

CDD: 253 - Liderança


ISBN: 978-85-263-0770-3

As citações bíblicas foram extraídas da versão Almeida Revista e Corrigida, edição de 1995 da
Sociedade Bíblica do Brasil, salvo indicação em contrário.

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20001-970, Rio de laneiro, RJ, Brasil

Ia edição: 2011
A g r a d e c im e n t o s

Expresso os m eus m ais sinceros agradecim entos a todos que direta e indi­
retamente contribuíram para a concretização do m eu curso de mestrado.
A D eus, por suas m uitas m isericórdias e fidelidade para comigo.
A m eus pais, Benedito (in m em oriam ) e Juracy, pelo am or e esforços dedi­
cados à m inha criação e educação.
À m inha esposa Elizabeth e aos m eus filhos Álvaro e Paulo, pela coopera­
ção em term os de incentivo e paciência.
À s minhas irm ãs Cristiane e Ednalva, por existirem.
A o pastor R oberto Jo sé, pelo com panheirism o e apoio.
A o pastor Claudionor de Andrade, pela gentileza de fazer o prefácio.
A todos os m eus professores, pela dedicação na arte de ensinar.
A todos os m eus am igos, por serem quem são.
A o m eu orien tador do M estrado, P rofesso r R ild o A lm eida, pelas su ­
gestões e m otivação durante tod o o p ro cesso de elaboração da D isse r­
tação que resultou n esta obra.
Quando vieres, traze a capa que deixei em Trôade,
casa de Carpo, e os livros, principalmente os pergaminhos.

Apóstolo Paulo (2 Tm 4.13)


P r e f á c io

“PEGA E LÊ”
E m sua m ais profunda crise espiritual, Agostinho (século IV ) ouviu
um as palavras que o acaso jam ais identificará: “Tolle, lege”. O santo de Hi-
pona pega, então, as Sagradas Escrituras e abre-as fortuitamente nas epís­
tolas de Paulo. E põe-se a lê-las com a fom e e a sede daqueles rom eiros que,
suspirando, andejam continentes e palmilham desertos em busca de Sião.
Ele m ergulha na Palavra; sua vida não é m ais a m esm a. É o que revela em
suas Confissões. O filho de M ônica prontifica-se, então, a servir ao Cristo
tão bem retratado nas cartas do apóstolo aos gentios.
O que se consagrara a ler, unge-se agora a escrever. Sua pena, à sem e­
lhança do cajado de Arão, enflora-se, frutifica-se.
“Pega e lê”, recom enda Altair Germ ano nesta obra. Em bora talhada
com os rigores da academia, é dirigida a todos os que cultivam o hábito da
b oa e proveitosa leitura. M as com o ler com proveito? E com o encontrar a
b oa leitura?
À sem elhança de Plínio, o M oço (62-114), recom enda-nos Altair:
“Muito, e não m uitas coisas”. O bom leitor é seletivo. Sabe que não dispõe
do tem po necessário para repassar as páginas de todas as obras que se fi­
zeram prim as.
C om o seria b om se os n o sso s dias fossem tão longevos quanto os de
M atusalém . O s prim eiros cem anos eu os dedicaria à beleza e aos d o ­
naires da língua portuguesa. Q uanto ao segundo centenário, que fosse
tributado aos filósofos. E a terceira centúria eu a devotaria aos historia­
dores. M as o m ilênio todo dessa vida larga de sem anas e com prida de
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

dias, eu o santificaria ao estudo dos santos profetas e dos apóstolos de


N o sso Senhor.
N ossa vida, porém, não possui tantos séculos, nem tantas décadas. Diz
M oisés que os m ais robustos logram alcançar setenta e, quando muito, oi­
tenta anos. Por isso, a sabedoria do conselho de Plínio: “Muito, e não m ui­
tas coisas”. N esse muito, porém, coloque esta obra que lhe chegou às m ãos
num daqueles abençoados acasos: “Pega e lê”.
M eu amigo Altair escreveu este livro naqueles rem ansos de Abreu e
Lim a, onde o silêncio ainda pode ser ouvido. N esse pedaço de Pernam bu­
co, tudo convida à leitura e à reflexão. Q uando lá estive e quando po r lá an­
dei, pude entender por que, daquelas paragens, saem escritores peregrinos
com o Altair Germano. Ali, o livro é tão esperado com o o pão cotidiano:
diariamente e com todo o calor.
“Pega e lê.”

Pr. Claudionor de Andrade


Abril de 2011

8
S u m á r io

Prefácio ...................................................................................................................... 7
Introdução....................................................................................................11

1. O Conceito de L eitu ra........................................................................... 15

2. Aspectos Históricos da Leitura............................................................21


1. A Leitura na M esopotâm ia...............................................................................21
2. A Leitura no E g ito .............................................................................................24
3. A Leitura entre os Ju d e u s ................................................................................ 26
4. A Leitura na Grécia Arcaica e C lássica.........................................................28
5. A Leitura e a Escrita no M undo R o m a n o ................................................... 33
6. A Leitura no Brasil C olon ial........................................................................... 38
7. A Leitura na Idade M oderna — Século XVI ao Século X V III...............39
8. A Leitura no M undo Contem porâneo — Século X IX
aos D ias A tu a is................................................................................................... 46

3. A Importância do Hábito de L eitura.................................................. 51


1. A Leitura na Ó tica de Escritores N ão -C ristão s......................................... 51
1. 1. A leitura com o agente de emancipação e
desenvolvedora de criticidade................................................................ 51
1.2. A leitura com o agente de apropriação dos bens culturais...............54
1.3. A leitura, o enriquecimento do vocabulário e da linguagem ..........5$
1.4. A leitura com o agente de desenvolvimento do intelecto.................57
1.5. A Biblioterapia............................................................................................ 58
2. A Leitura na Ó tica de Escritores C ristãos................................................... 59
2.1. Para obter avivamento espiritual e proveitoso....................................59
2.2. Tendo em vista o estím ulo m en tal........................................................ 59
2.3. A fim de obter cultivo de estilo...............................................................59
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

2.4. C om vistas a adquirir in form ações........................................................ 59


2.5. A fim de ter com unhão com as grandes m en tes................................. 60

4. A Importância da Leitura para a Liderança no


Contexto Bíblico e C ristão ............................................................................ 63
1. A Im portância da Leitura no Antigo T estam en to..................................... 63
2. A Im portância da Leitura no N ovo Testam ento........................................ 66
3. A Im portância da Leitura entre os Pais da Igreja....................................... 67
4. A Im portância da Leitura no Período M o n ástico ..................................... 69
5. A Im portância da Leitura para os R eform ado res...................................... 70
6. A Im portância da Leitura no Período dos Reavivamentos
e das M issões M odern as................................................................................... 73

5. O Desenvolvimento do Hábito de Leitura para


os Líderes Cristãos na Atualidade .............................................................. 75
1. Ações Necessárias para o Desenvolvimento do Hábito de Leitu ra.......75
2. O s T ipos de Leitura........................................................................................... 78
3. C om o A perfeiçoar a Prática da L eitu ra........................................................78

Conclusão ................................................................................................................ 85

Referências B ibliográficas .............................. .................................................89

IO
In t r o d u ç ã o

tualizaçao e contínua b u sca po r conhecim ento é um fator de fun-


am ental im portân cia no m undo contem porâneo. A constante
atualização é indispensável para o su cesso em qualquer atividade, in­
clusive a pastoral. Várias p o d em ser as fontes e ferram entas que p r o ­
p orcion am a atualização de n o sso s conhecim entos, entre elas citam os
os m ateriais bibliográficos (livros e p erió d ico s), o estudo acadêm ico,
palestras, sem inários, con gressos e pesq u isas na internet.
Conhecimento agrega tanto o que fazemos, com o o que sabem os; é o
conjunto total de informações, habilidades cognitivas e operacionais que os
indivíduos utilizam para resolver problemas. Envolve assim, tanto questões
teóricas quanto práticas, as regras do dia a dia e as instruções sobre como
agir, baseando-se em dados e informações, mas, ao contrário deles, está sem ­
pre ligado ao sujeito; é construído por indivíduos e representa suas cren­
ças sobre relacionamentos casuais.1 Conhecim ento é agregação, interação e
acumulação de informação. A busca constante por novos saberes exige dos
pastores leitura especializada e geral. A resistência à leitura é um a realidade,
e muitos ignoram os males resultantes da falta dessa prática salutar.
1 COSTA, Patrícia. Hábito de leitura e compreensão de textos: uma análise da realidade de pós-
graduados em Administração. Dissertação (mestrado em Administração). Universidade Federal
de Sta. Maria: Santa Maria, RS, 2006, p. 16.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

N unca tantas inform ações foram disponibilizadas e tão poucas foram


absorvidas. E ssa constatação revela a grande im portância dos estudos que
envolvam a com preensão da leitura, que se relaciona à produção do co­
nhecim ento no nível individual, prom ovendo, dessa forma, o desenvolvi­
m ento ministerial do pastor.
A leitura de livros permite ao ser hum ano refletir, socializar e dissem i­
nar o seu conhecim ento com o propósito de construir novos conhecim en­
tos. A pesar de todo o desenvolvimento das tecnologias de informação, da
am pliação dos projetos de inclusão digital, nada substitui a im portância
da leitura. N a leitura está implícito o sujeito que escreve, que deixa suas
marcas, e os sujeitos que leem, que, ao lerem, atualizam, dão vida ao que
foi escrito.2 D esta forma, a leitura não é m era soletração, decodificação ou
repetição do que está escrito; a leitura dá outra vida ao texto pensado e
escrito pelo autor, penetra nos sentim entos e ideias, no estilo de quem lê.
A s pesquisas dem onstram que o hábito de ler está longe do ideal em
nossa nação. N o Brasil, o grau de analfabetismo é um grande obstáculo à
geração de saberes provenientes da leitura. O baixo índice de leitura por
habitante/ano (1,8 livro) comprova isso. U m a pesquisa realizada pelo Ins­
tituto Paulo M ontenegro e a ação Educativa, em 2005, aponta que 74% da
população brasileira, entre 16 e 64 anos, não sabem ler ou possuem muita
dificuldade em entender o que leem. O Instituto Pró-Livro, em 2008, infor­
m a que a Bíblia, apesar de ser o livro preferido dos brasileiros, ainda é lida
por um a minoria, 4,5 milhões de pessoas, m enos de 2,5% da população.
A pesar dos diversos program as em atividade, o líder cristão ainda não
reconhece no ato de ler o seu valor para o desenvolvimento intelectual,
adequação de com portam entos à nova realidade cultural e social, sem fa­
lar da possibilidade de conduzir a igreja, o ministério ou grupo que lidera
a um processo de desenvolvimento e entendimento da realidade, fato este
que produzirá um a igreja m ais atuante, conhecedora dos grandes desafios
deste século e capaz de adequar suas práticas ao novo contexto. C om isso
produziria m aior resultado para o Reino de D eus, sem, abrir m ão dos prin­
cípios inegociáveis da Bíblia Sagrada. Negligenciar a com petência em lei­
tura e escrita gera um a restrição ao acesso às inform ações relativas à vida
em sociedade, à cultura, à política e, por conseguinte, prejudica-se o de­
senvolvimento integral do indivíduo.
2 M ARQUES, M. O. Escrever é preciso: o princípio da pesquisa. 4. ed. Ijuí: U N IJU Í, 2001, p. 20.

12
Introdução

E ssas questões estão presentes na m aior parte das igrejas evangélicas


do Brasil. Até então, não houve iniciativa de estudá-las objetivando a ela­
boração futura de um program a que po ssa intervir para a transform ação
dessa realidade. Diante desse quadro, tem os as alternativas de nos pen a­
lizarm os ante a situação ou nos m obilizarm os para mudá-la. Existe uma
consciência form ada quanto à im portância do hábito de leitura entre os
líderes evangélicos brasileiros? Q uais os obstáculos que enfrentam? Q uais
ações podem ser im plem entadas para o crescimento do hábito de leitura?
Tais questões necessitam não apenas de respostas, mas, antes de tudo, de
investigação, análise e ação.
O objetivo geral desta obra é identificar a im portância e as fundam en­
tações para a prática de leitura entre os líderes cristãos evangélicos. Para
este fim, o prim eiro capítulo tratará sobre o conceito de leitura num a pers­
pectiva bastante ampla. O capítulo 2 resgatará a história da leitura desde
a antiguidade até os dias atuais. N o s capítulos 3 e 4, respectivamente, será
abordada a im portância da leitura num a perspectiva de escritores não-
cristãos, cristãos e num a perspectiva bíblica, considerando o Antigo e o
N ovo Testamento, além de sua im portância no período dos Pais da Igre­
ja, no m onasticism o, na Reform a Protestante, nos avivamentos e m issões
m odernas. O capítulo 5 trata da im portância do hábito de leitura para os
líderes da igreja na atualidade.
Esta obra se revela com o relevante por várias razões. Primeiro, m e­
diante os resultados obtidos, se buscará esclarecer alguns mitos, dentre os
quais o de que a intelectualidade é incom patível com a espiritualidade.
E m segundo lugar, m ostrar que do ponto de vista da liderança cristã,
o hábito de leitura pode prom over um a influência positiva sobre os lidera­
dos, o desenvolvim ento da liderança cristã, do senso crítico do líder e de
um a m elhor percepção deste da realidade.
E m terceiro lugar, sendo a Bíblia n osso referencial de fé e conduta,
acreditam os ser de m áxim a im portância um a abordagem herm enêutica
sobre o referido tema.
E por último, porque o resultado das pesquisas que resultaram neste
material pode apontar m eios de esclarecer e orientar os líderes a superar as
dificuldades encontradas no desenvolvimento do hábito de leitura, viabili­
zando, desta forma, um a liderança cristã contextualizada e eficaz.

13
1
O C o n c e it o de L e it u r a

O
conceito de leitura é bem m ais abrangente do que um sim ples deco­
dificar da escrita. É um ato que im plica a form ação integral do indi­
víduo e sua relação com o m undo que o cerca.1A leitura ultrapassa os limi­
tes do texto escrito, perm itindo um a m elhor com preensão de cada etapa
do aprendizado das coisas, cada experiência. “A m pliar a noção de leitura
em geral pressupõe transform ação na visão de m undo em geral e na de
cultura em particular”.2 Ler é m ais do que um a sim ples decifração do que
está escrito, m as um ato que resulta na form ação geral do indivíduo, e que
faz com que ele se adapte ao m undo em que vive, não se limitando apenas
às vivências escolares, m as “enxergando” além daquilo que está escrito.
Silva reforça tal conceito por meio de sua visão de leitura:

A leitura deve ser vista como uma das conquistas da espécie humana em seu processo
evolutivo de hominização, mesmo porque o nascimento e a plenitude da razão estão *
condicionados pelo acúmulo de observações de outras mentes que nos precederam e
que é transmitida pela palavra oral ou escrita.3

1M ARTINS, Maria Helena. O que é leitura. 19. ed. São Paulo: Brasiliense, 2007, p. 22.
2 Idem. DINIZ, Fátima Albuquerque; SANTOS, Fátima. Como despertar o interesse pela leitura no
ensino fundamental, especialmente nas 8a séries, nas escolas públicas. Monografia (especialização
em Língua Portuguesa). Fundação de Ensino superior de Olinda — FUNESO: Olinda-PE, 2001, p. 17.
3 SILVA 1983, p. 22 apud D IN IZ e SA N TO S, Idem.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Araújo declara que “ler é tudo isso — um processo complexo, devido


aos diferentes aspectos que apresenta”.4 D essa forma, a leitura é com preen­
dida com o um a experiência linguística, um processo de com unicação de
ideias, por m eio de sím bolos escritos que por sua vez substituem os orais:
as palavras.
A totalidade de percepção de leitura é mais que a som a de suas partes.
N ão se pode, pois, reduzir um a leitura a palavras, da m esm a form a que
não se reduz a m úsica de um com positor a sim ples notas.^ N este sentido,
Foucam bert declara que:

Existe uma grande diferença entre ver e examinar, ouvir e escutar [...] Ler não é ver o
que está escrito, nem tampouco lhe atribuir uma versão oral. Quem ousaria dizer que
sabe ler em latim só porque sabe pronunciar as frases que lhe são apresentadas? Ler é
ser questionado pelo mundo e por si mesmo, é saber que certas respostas podem ser
encontradas na produção escrita, é poder ter acesso ao escrito, é construir uma respos­
ta que entrelace informações novas àquelas que já se possuía.6

Araújo cita R ussel que define a leitura com o “um ato sutil e complexo
que abrange, simultaneamente, a sensação, a percepção, a com preensão e
a integração”.7 C om isso ele quer dizer que ler não se limita apenas a perce­
ber as palavras, m as ao m esm o tem po entender o todo reagindo às ideias
apresentadas e procurando integrá-las as suas vivências.
Por ser um a ferramenta de aquisição de conhecim entos, a leitura, se
levada a efeito crítica e reflexivamente, emerge com o um trabalho de com ­
bate à alienação, capaz de facilitar ao gênero hum ano a realização de sua
plenitude. É preciso saber se a organização social onde a leitura aparece e
se localiza dificulta ou facilita o surgimento de hom ens — leitores críticos
e transform adores.8
Freire, ao se referir à leitura, diz que esta não se detendo na decodifi-
cação pura da palavra escrita, m as se antecipando e se alongando na inteli­
gência do m undo, prom ove o ser-crítico, o ser-mais, o sujeito-ator e trans-

4 ARAÚJO, Maria Yvonne Atalício de. Iniciação à leitura. Belo Horizonte: Virgília, 1972, p. 25.
Apud Ibdem, p. 18.
5 Ibidem.
6 FO U CA M BERT apud MARIA, Luzia de. Leitura & colheita: livros, leitura e formação de leito­
res. 2. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2008, p. 21.
7 ARAÚJO, Maria Yvonne Atalício de. Iniciação à leitura. Bglo Horizonte: Virgília, 1972, p. 11.
Apud D IN IZ e SANTOS, p. 18.
8 Ibidem.

16
0 Conceito de Leitura

form ador da realidade.9 A leitura do m undo precede a leitura da palavra,


daí que a posterior leitura desta não po ssa prescindir da continuidade da
leitura daquele. A leitura da palavra não é apenas precedida pela leitura
do mundo, m as por certa form a de “escrevê-lo” ou de “reescrevê-lo”, quer
dizer, de transformá-lo por m eio de n ossa prática consciente. O ato de ler
im plica sem pre percepção crítica, interpretação e “reescrita” do lido.10
O s Parâm etros Curriculares N acion ais11 definem leitura com o o p ro­
cesso pelo qual o leitor realiza um trabalho ativo de com preensão e inter­
pretação do texto, a partir de seus objetivos, de seu conhecim ento sobre
o assunto, sobre o autor, de tudo o que se sabe sobre a linguagem, etc.
Trata-se de um a atividade que implica estratégias de seleção, antecipação,
inferência e verificação sem as quais não é possível proficiência.
E ssas argum entações são ratificadas por Lajolo:

Lê- se para entender o mundo, para viver melhor. Em nossa cultura, quanto mais
abrangente a concepção do mundo e de vida, mais intensamente se lê, numa espiral
quase sem fim, que pode e deve começar na escola, mas não pode (nem costuma)
encerrar-se nela.12

Jolibert afirma que ler “é atribuir diretamente um sentido a algo


escrito”.13 Diretam ente, isto é, sem passar pelo intermédio nem da decifra­
ção (nem letra por letra, sílaba por sílaba, ou palavra por palavra); nem da
oralização (nem sequer grupo respiratório por grupo respiratório). Ler é
questionar algo escrito com o tal a partir de um a expectativa real (neces-
sidade-prazer) num a verdadeira situação de vida. L er é ler escritos reais,
que vão desde um nom e de rua num a placa até um livro, passando por um
cartaz, um a embalagem, um jornal, um panfleto, etc., no m om ento em que
se precisa realmente deles num a determ inada situação de vida “para valer”
com o dizem as crianças. É lendo de verdade, desde o início, que alguém se
torna leitor, e não aprendendo primeiro a ler.
9 FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler: em três artigos que se completam. 46. ed. Sãf>
Paulo: Cortez, 2005, p. 11.
10 D IN IZ e SA N TO S, Ibidem.
11 BRASIL. Ministério da Educação. Secretaria da Educação Fundamental. Parâmetros Curricu­
lares Nacionais: 5a a 8a série do Ensino Fundamental — Introdução dos Parâmetros Curricula­
res. Brasília: M E C /SEF, 1998, p. 9.
12 LA JO LO , 1994, p. 7 apud Ibidem.
13JOLIBERT, J. (org). Form ando crianças leitoras. Tradução Bruno C. Magne. Porto
Alegre: Artes Médicas, 1994, p. 15 apud Ibidem.

17
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Sandroni & M achado percebem a leitura com o um processo amplo


de com preensão e descoberta de sentido, fruto do diálogo com o que é
lido, tornando relevante e consequente a postura do leitor diante do que
lê; que o prazer da leitura não é inconsequente.14N esse sentido, incentivar
ou m otivar o prazer pela leitura tam bém implica criar condições para ler a
própria realidade. O ato de ler, então, vai além dos limites do texto.
A m bos entendem que ler, no sentido profundo do termo, é o resultado
da interação entre leitor e texto, isto é, um esforço de com unicação entre
o escritor, que elaborou, escreveu e teve im presso seu pensam ento, e o lei­
tor, que se interessou, com prou ou ganhou, folheou e leu o texto atuando
via capacidade inferencial, com o coautor do texto lido. Tam bém por isso,
a leitura é um a atividade individual e só a leitura direta, sem intermediário,
é leitura verdadeira — a leitura silenciosa que m obiliza toda a capacidade
de um a pessoa é um a atividade quase tão criadora com o a de escrever.
S o a re s refo rça de fo rm a bastan te eloquente e ss a s afirm açõ es:

Ler um texto é instaurar uma situação discursiva. A leitura do ponto de vista da di­
mensão individual de letramento (a leitura como uma tecnologia) é um conjunto
de habilidades linguísticas e psicológicas, que se estendem desde a habilidade de
decodificar palavras escritas até a capacidade de compreender símbolos escritos. E s­
sas categorias não se opõem, completam-se; a leitura é um processo de relacionar
símbolos escritos a unidades de som e é também o processo de construir uma inter­
pretação de textos escritos.15

Definir leitura não é algo sim ples em virtude de suas muitas variáveis.
Fischer de form a m ais ampla, diz que a leitura é “a capacidade de extrair
sentido de sím bolos escritos ou im pressos”.16 D essa forma, ele se utiliza
dos sím bolos para a sua orientação na recuperação de inform ações de sua
m em ória, para em seguida criar, com essas inform ações, um a interpreta­
ção plausível da m ensagem do escritor.17
Rangel entende que “Ler, assim com o escrever, são atos de com uni­
cação verbal caracterizados pela relação cooperativa entre o em issor e o

14 SA N DRON I, Laura C. & M ACHADO, Luiz Raul (org). A criança e o livro. 2. ed. São Paulo:
Ática, 1987, p. 72 apud Ibidem, p. 23.
15 SOARES, Magda. Letram ento: Um tema em três gêneros. Belo Horizonte: Autêntica,
1998, p. 68.
10 FISC H ER , Steven Roger. História da leitura. Tradução de Claudia Freire. São Paulo: Editora
U N ESPE, 2006, p. 11.
17M IT C H EEL, 1982 apud Idem.

18
0 Conceito de Leitura

receptor, pela transm issão de intenções e conteúdos e por apresentarem


um a form a adequada à sua função”.18
Em seus prim órdios, a leitura consistia na m era capacidade de
obtenção de informações visuais fundam entada em algum sistem a
de códigos, bem como na com preensão de seu significado. Ao passar
dos anos, passou a significar a com preensão de um texto contínuo
com sinais escritos sobre um a superfície gravada. Atualmente, está
inserida no conceito de leitura a extração de inform ações codificadas
de um a tela eletrônica. A definição de leitura tende a continuar se
expandindo no futuro porque, assim como qualquer outra aptidão,
ela tam bém é um indicador do avanço da própria hum anidade .19
Para Fischer duas teorias conflitam sobre a leitura.

A primeira — defendida pelos que acreditam que ela é um processo exclusivamente


linguístico — analisa-a como um processo linear fonológico (relacionado ao sistema
sonoro de um idioma) que se dá letra a letra, conectando o elemento da linguagem em
unidades compreensíveis crescentes, até que a elocução e, em seguida, a compreensão
sejam obtidas. A segunda teoria, apoiada pelos que sustentam que a leitura é um pro­
cesso semântico-visual, afirma que o grafema ou a forma gráfica — seja um logograma
(sinal representante da palavra), seja um silabograma (sinal representante da sílaba),
ou ainda uma combinação de letras (sinais de um sistema alfabético) — produzem
significado sem necessariamente recorrerem à linguagem. Palavras e frases inteiras, até
mesmo sentenças curtas, podem ser lidas “de uma só vez” afirmam os autores dessa
teoria; não é necessário desmembrá-las em letras pronunciadas individualmente.20

C onsiderando as suas perspectivas, cada um a dessas teorias está cor­


reta, ou seja, no nível elementar a leitura é um processo linear fonológico,
enquanto que fluente a leitura é um processo semântico-visual.
U m levantamento da história da leitura poderá prom over um a m elhor
com preensão de suas m udanças em term os ideológicos, conceituais, m e­
todológicos e práticos.

18 RANGEL, Jurema Nogueira Mendes. Leitura na escola: espaço para gostar de ler. 2. ed. Porto
Alegre: 2007, p. 18.
19 Idem.
20 Idem, p. 12.

19
Q
A s p e c t o s H is t ó r ic o s
da L e it u r a

íistória da leitura pode ser reconstruída com base em suas diferenças e


ingularidades, nas diferentes formas de escrever e ler que marcaram as
sociedades desde os tem pos antigos. Para Cavallo e Chartier, “um a história
sólida das leituras e dos leitores deve, portanto, ser a da historicidade dos
m odos de utilização, de compreensão e de apropriação dos textos”.1Quais as
m udanças fundamentais que ao longo do tempo transformaram as práticas
de leitura, e de que maneira o conhecimento dessa prática contribui com
leitor do século XXI, é o que se pretende observar neste capítulo.
“Quanto m ais remoto for o passado observado, mais difícil se percebe a
leitura”.2 Quanto mais se investiga a antiguidade, m as se revela o fato de que
apenas grupos seletos tinham acesso aos m étodos de registros primitivos.

1. A L e it u r a n a M e so p o t â m ia
N a M esopotâm ia nos deparam os com um a das form as m ais primitivas
de leitura. Conform e Fischer,3 os leitores dessa época apenas visualizavam

1 CAVALLO, Guglielmo; CHARTIER, Roger (org.). História da leitura no mundo ocidental.


São Paulo: Ática, 2002, p. 7.
2 CHAUNU, 1994 apud FISC H ER , Steven Roger. História da leitura. Tradução de Claudia Frei­
re. São Paulo: Editora U N ESPE, 2006, p. 13.
3 Idem, p. 16.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

um esqueleto textual com nome, m ercadoria e valor, cujo objetivo era o de


dar poderes à oligarquia. A escrita sum éria se desenvolve baseada não na
ideia de reprodução de um discurso oral, m as para retenção de inform a­
ções concretas na m emória. Era um a leitura utilitarista que envolvia certa
união lógica de fragm entos de informação, sem nenhuma preocupação
com o discurso articulado.
A Sum éria perpetuou por séculos um acervo considerado vago e am ­
bíguo com cerca de 18 mil pictogram as e sím bolos.

Houve simplificação e padronização e, por volta de 2700-2350 a.C., com as tábuas de


Shurupak, o acervo foi reduzido a mais ou menos oitocentos, com mais utilização da li­
nearidade (escrita em linha de texto). Por volta de 2S00 a.C., quase todos os elementos
gráficos no método de escrita dos sumérios haviam se tornado unidades sonoras. E em
torno de 2000 a.C. cerca de apenas 570 logogramas faziam parte do dia a dia.4

O s sinais em form a de cunha substituíram os prim eiros pictogram as,


que eram im pressos com estiletes feitos de cana (instrum ento pontiagudo
para escrita) sobre argila.
L er ( ita) significava tam bém para os sum érios “contar, ponderar, m e­
morizar, declamar, ler em voz alta”.5 Tal aptidão era m uito restrita. Para se
ter um a ideia, por volta de 200 a.C., em Ur, a m aior m etrópole da região,
com um a população de aproxim adam ente 12 mil habitantes, um a em cada
120 pessoas era capaz de ler e escrever. Semelhantemente, por volta de
1850 a 1550 a.C., na cidade-estado de Babilônia de Sippar, que contava
com cerca de dez mil habitantes, havia apenas 185 escribas (escritores ofi­
ciais em tabuletas).
A leitura se relacionava especificamente ao trabalho. N ão era um a ati­
vidade solitária, silenciosa e prazerosa. Tratava-se de um m eio para um
fim, a apresentação pública.
Por volta de 2550 a.C., com a preem inência dos sum érios-acádios,
convencionou-se um silabário, que se tratava de um acervo de sinais sis­
tem áticos u sados puram ente para seus valores sonoros silábicos. Toda a
tradição babilónica foi transm itida nos idiom as sum ério e acádio.6
O s escribas eram os grandes detentores da arte de ler. U m escriba
sum ério p o ssu ía um grande sen so de respon sabilidade p o r deter essa
4 POW ELL, 1981 apud Idem, p. 16.
5 Ibidem, p. 17.
6 FISC H ER , 2006, p. 18

29
Aspectos Históricos da Leitura

capacidade de grande valor, entendendo que sua interpretação de um


texto escrito encerraria um a d iscu ssão sobre contas ou um artigo de
um a lei.7 O s escribas, além das atividades de tabeliães, estenógrafos,
contadores, arquivistas, secretários e burocratas, desem penhavam tam ­
bém a tarefa de leitores para os seus senhores iletrados, sob a cobrança
de pequ en as taxas.
N as escolas de escribas a leitura era aprendida pelo ato de escrever. O
m étodo utilizado era o de cobrir um lado de um a pequena tabuleta com
um sinal, depois o aluno escrevia o m esm o sinal repetidas vezes no verso.
L ogo após, dois sinais eram colocados juntos, form ando um a palavra in­
teira, reproduzida de maneira similar pelo aluno. A pós frequentar dos seis
aos 18 anos a escola de form ação de escribas, desde o período da manhã
até ao final da tarde, durante 24 dias de cada 30, ao se tornar um profissio­
nal, “o escriba esperava ansiosam ente para ingressar em um a vida voltada
à docum entação de transações”.8
O s alunos m esopotâm ios escribas eram em sua m aioria m eninos, com
raríssim as exceções. C uriosa e excepcionalmente, segundo Hallo,

[...] a primeira pessoa na história a assinar a autoria de um trabalho foi uma mulher:
a princesa Enheduanna, filha de Sargão I de Acad. Nascida por volta de 2300 a.C., ela
compôs, como sacerdotisa de Nanna, deus da Lua, uma série de canções em louvor à
deusa do amor e da guerra, Inanna, registrando devidamente seu próprio nome como
escriba-autora no final das tabuletas.9

Foi por m eio das descobertas arqueológicas que se tornou possível


com provar a leitura entre os m esopotâm ios. Escavações com o as realiza­
das entre 1973 e 1976 na acrópole de TellM ardikh, a sessenta quilôm etros
de Alepo, na Síria setentoria, descobriram o palácio real de Ebla (2400-
2250 a.C.), com cerca de 17 mil tabuletas, apresentando um a variedade de
tem as: história, literatura, agricultura, idiom as, m as especialmente, finan­
ças e econom ia. A m aioria aborda im postos, tributos, correspondência^
internas, relatos de caravanas, m issões com erciais e relatórios. Segundo
Fischer, dada a im portância de Ebla, tal material identifica o tipo de leitura
das m aiores cidades daquele período.10
7 Ibidem, p. 19.
8 Ibidem, p. 21.
9 HALLO, 1968 apud Ibidem,p. 23.
10 Ibidem, p. 22.

Q3
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Todos os grandes centros antigos da M esopotâm ia possuíam bibliote­


cas, em form a de arquivos, que em nada se assem elham às bibliotecas atu­
ais. Tais espaços eram essenciais à administração adequada das cidades-
estado que floresciam.

N o final do segundo milênio a.C., esses acervos de tabuletas de argila, papiro, placas
de madeira, varetas de bambu, seda ou couro concediam poderes às sociedades da
M esopotâmia, Egito, Platô iraniano, mar Egeu, vale do rio Indo, Usbequistão/Taja-
quistão e China central.11

C om o toda leitura na época era feita em voz alta, esses locais eram
bastante barulhentos.
A censura literária esteve presente tam bém na M esopotâm ia, m ani­
festa no ato de apagar o que havia sido escrito em m onum entos públicos
e nas paredes de tem plos e palácios a fim de fazer desaparecer a m em ória
erudita. O s textos tam bém eram alterados por meio de riscos e reescrições,
ou ainda sendo reeditados, elaborando assim um a reescrição da história.
A leitura na m esopotâm ia englobou um universo de experiências hu­
m anas. Lá, onde nasceu a escrita, voz e sinal eram um a coisa só. A im ­
portância cultural e administrativa, a detenção do poder, a form ação de
um a classe letrada elitizada, a educação privilegiada de poucos e a censura
literária, são algum as questões que estiveram presentes no nascedouro da
leitura e que se perpetuam até os n ossos dias.

2 . A L e it u r a n o E g it o
A leitura no Egito foi predom inantem ente oral. O termo dj denotava
tam bém “declam ar”. T oda a leitura era realizada em voz alta por um escri-
ba-testem unha.12 Além de colaborar para a expansão econôm ica, a leitura
era percebida com o im portante m eio de controle de informações.
Por volta de 4000 a.C., os egípcios já liam hieróglifos na superfície
de pedras, paletas de ardósia, esteias funerárias, selos cilíndricos, objetos
decorativos, cerâmicas, tabuletas de marfim, arma de pedras, e outros su ­
portes de escrita. Existe a possibilidade do uso de tinta em papiro já deste
período. A escrita cursiva era a m ais usada no Egito antigo por sua pratici-
dade no registro de docum entos do cotidiano, com o por exemplo cartas,
11 Ibidem, p. 24.
12 Ibidem, p. 26.

Q4
Aspectos Históricos da Leitura

contas, listas de decisões de julgam ento e, mais tarde, a partir do segundo


m ilênio a.C., obras literárias.13
O s egípcios liam da direita para a esquerda ou da esquerda para a direi­
ta. H á tam bém texto com a sequência de cima para baixo. Posteriormente,
a leitura da direita para a esquerda tornou-se direção padrão. A pós form a­
lizados entre aproxim adam ente 3300 e 2500 a.C., os hieróglifos, a escrita
hierática e suas leituras perm aneceram sem sofrer alterações por mais de
dois mil anos.14
Havia escolas próprias para escribas, com vários anos de ensino inten­
sivo. C om as facilidades que o papiro proporcionava, por ser fino e leve, a
capacidade de escrever e ler se potencializava, sem falar que o transporte
do livro se facilitou bastante. O s escribas eram responsáveis nos povoados
por oferecer acesso cotidiano à leitura e a escrita dos cerca de 99% de ile­
trados. D essa forma, os escribas ocupavam um a posição social bem mais
elevada que a de seus correspondentes m esopotâm ios.
A leitura não esteve acessível a todos os egípcios. Estim a-se que no
m áxim o um em cada cem tenha sido alfabetizado em qualquer época.ls
Entre os letrados estavam as pessoas de destaque na sociedade. Aiguns
usavam escravos escribas. E ssa elite ocupava, em sua maioria, cargos ad­
ministrativos. É irônico o fato de que um a sociedade tão identificada com
a escrita tenha contado com tão poucos leitores.
D esde o seu início, a escrita e a leitura no Egito se prestaram à admi­
nistração e exibição de m onum entos.16 Por volta de 2150 a.C., no final do
Antigo Império, já circulavam diversas categorias de textos, com o: contratos
particulares, decretos e procedimentos jurídicos, cartas, textos sobre religião
e magia, além de inscrições biográficas. Havia escritos em sarcófagos, no Li­
vro dos M ortos (um rolo de papiro oferecido ao m orto para que o levasse
consigo para a vida após m orte), paredes de templos, colunas e estátuas. D u ­
rante o m édio império, textos literário surgiram, dentre os quais literatura
de sabedoria, narrativas, hinos, medicina, matemática e astronomia. Já no*
novo império, foram introduzidos gêneros literários para um público maior,
contendo poem as de amor e histórias simples de estilo folclórico.17
13 Ibidem, p. 28.
14 Ibidem.
15 Ibidem.
16 BAINES apud Ibidem, p. 32.
17 L ICH TH EIM , 1973 apud Ibidem, p. 32.

Q5
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA
Os textos religiosos descreviam rituais de devoção diária e eventos sobrenaturais. H a­
via rolos de papiros de hinos, mitos e fórmulas mágicas. Estudos de medicina (incluin­
do ginecologia e ciência veterinária), matemática, história e lexicografia (extensas listas
de animais, plantas, partes do corpo e nomes geográficos como auxiliares de memória)
sobreviveram ao milênio.18

M uito m ais do que sim ples transm issão de inform ações, havia a cren­
ça na transm issão do espírito de um texto. Acreditava-se que havia p o d e­
res sobrenaturais nos hieróglifos egípcios. Tratando-se de bibliotecas, elas
podiam ser encontradas em palácios, tem plos, centros administrativos e
até residências particulares letrados abastados.
C onform e Baines, “os egípcios perm aneceram em um a posição inter­
m ediária com um , com sua sociedade sendo auxiliada pela capacidade de
ler e escrever, m as não transform ada por ela”.19

3. A L e it u r a e n t r e o s J u d e u s
O s judeus foram os prim eiros a perceber na leitura o seu valor cultural,
isso por volta do século V II a.C.20
C om os judeus veio a “santificação” da escrita, um a perspectiva total­
m ente nova, elevando-a a “Palavra de D eu s”. L er e interpretar o texto sa­
grado era um dever de todos, excetuando-se as mulheres.
A s prim eiras inscrições em m onum entos em hebraico datam do sécu­
lo IX a.C., escritas em letras fenícias. O uso da escrita evoluiu para os regis­
tros contábeis, adm inistração e inscrições funerárias. A s leis, a princípio,
eram transm itidas oralmente.
O verbo “ler” ( qara) podia significar “chamar, evocar, declamar, p ro­
clam ar”. A ênfase estava em falar em voz alta com base num texto escrito.
C om base na Torá, a veneração da escrita data do final de 2000 a.C., com
as Tábuas da Lei escritas por Iavé.
E m razão dos períodos de instabilidade espiritual e moral, o “Livro Sa­
grado” foi negligenciado e até perdido. Foi no reinado de Jo sias (c. de 622
a.C .), durante a reform a do Templo, que o sacerdote H ilquias encontrou o
livro da Lei (2 R s 22.8) e o entregou ao escrivão Safã, que posteriorm ente
o leu para o rei, desencadeando um a série de ações que prom overam uma
reform a religiosa.
18 Ibidem.
19 BAINES apud Ibidem, p. 35.
20 Ibidem, p. 56.

Q6
Aspectos Históricos da Leitura

D urante o cativeiro babilónico, o livro esteve presente nas visões de


Ezequiel (Ez 2.8-10):

Mas tu, ó filho do homem, ouve o que eu te digo, não sejas rebelde como a casa rebelde
como a casa rebelde; abre a boca e come o que te dou. Então, vi, e eis que uma mão se
estendia para mim, e eis que nela estava um rolo de livro. E estendeu-o diante de mim,
e ele estava escrito por dentro e por fora; e nele se achavam escritas lamentações, e
suspiros, e ais.

D aniel tam bém esteve envolvido com leituras e livros durante esse p e ­
ríodo, conform e Daniel 9.2: “no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel,
entendi pelos livros que o número de anos, de que falou o Senhor ao p ro­
feta Jerem ias, em que haviam de acabar as assolações de Jerusalém , era de
setenta anos”.
A pós o cativeiro, com a influência de um a Babilônia cosm opolita, a
escrita aramaica passou a ocupar um lugar de destaque entre os judeus.
Os escribas passaram a redigir antigas tradições e escritos hebraicos em
aramaico, que tinha se tornado a língua mais falada durante o Império
Persa (550-330 a.C .). O s escribas judeus eram os principais intérpretes
da lei, os editores e com piladores das escrituras, dos com entários e das
traduções. São considerados com o os prim eiros leitores do judaísm o.21 N a
antiguidade, afirma Fischer,22 que quase todos os judeus eram analfabetos
em hebraico e aramaico, o que fazia com que contassem com os escribas
do Tem plo ou com a sua própria e extraordinária m em ória. Por volta dos
séculos IV e V d.C., o Talm ude (form ado pela Mishná e pela Gemara),
textos que se propunham a interpretar e com entar a multiplicidade de sig­
nificados da Torá tom ou forma oficial.
A veneração judaica pela palavra escrita, que chegou ao ápice da vene­
ração a partir do século VI d.C., chegou ao ponto de afirmar no Sefer Yezi-
rah (o m ais antigo texto judaico conservado do pensam ento sistem ático e
contem plativo) que “D eus criara o m undo com 32 cam inhos de sabe doa­
ria’ secretos, o com posto por dez núm eros e vinte e duas letras”.23 Segundo
essa interpretação, se nós m ortais conseguíssem os decifrar os núm eros e
letras, poderíam os igualmente originar a vida.24
21 Ibidem, p. 59.
22 Ibidem.
23 SCH O LEM , 1974 apud Ibidem, p. 60.
24 M A N GU EL, 1996 apud Ibidem.

Q7
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

4 . A L e it u r a n a G r é c ia A r c a ic a e C l á s s ic a
Desde cerca de 2000 a.C. os gregos lêem, quando ao Egeu da cosmopolita
Canaã a ideia da escrita silábica chegava.25 Começando pela Grécia arcaica e
clássica, dada a ausência de documentos que tratem da leitura em tempos mais
remotos, é importante salientar que, conforme Svembro,26 por volta do século
VIII a.C., quando a escrita alfabética surge na cultura grega, ela se depara com
um mundo onde há muito tempo prevaleceu a tradição oral, um mundo que
valoriza a memória e a voz como perpetuadores da glória e da fama oriunda
dos grandes atos heroicos. Nesse mundo helénico, a escrita assumiria o papel
de contribuinte do som, no sentido de ser produtora de termos eficazes para
uso oral, m esm o que depois viesse a servir para a proteção da tradição épica.
T udo sinaliza para a hipótese de que na Grécia arcaica os leitores gre­
gos tenham praticado a leitura em alta voz. N a m edida em que um a cultura
valoriza a palavra falada, o texto escrito só interessa para tornar-se texto
falado. Para Svem bro27 as provas mais recentes de que os gregos liam em
voz alta, n os leva a aceitar que seus antepassados faziam o mesmo. Para ele,
“na ausência de docum entos, parece mais lógico pensar que a leitura em
voz alta constitui a form a original de leitura”.
As leituras públicas mais antigas ocorreram entre os gregos, onde “já no
século V a.C., Heródoto (c. 485-425 a.C.), o ‘Pai da História, em vez de viajar
de cidade em cidade para ler as suas obras, como era de costume na época,
apresentava-se a todos os homens gregos reunidos nos festivais olímpicos”.28
N a antiguidade grega, alguns m édicos prescreviam a leitura aos seus
pacientes com o atividade e exercício mental. N a m aioria das vezes, essa
leitura era feita por alguém ao paciente, como, por exemplo, por escravos,
mulheres ou hom ens libertos treinados exclusivamente para ler em voz
alta para os seus senhores.29 Até 600 a.C., poucos gregos sabiam ler.

A capacidade de ler e escrever propagou-se no século VI a.C., quando a escrita passou


a ser usada de forma mais generalizada na vida pública: com o hábito cada vez mais
frequente de fazer inscrições e exibir leis públicas, cunhagens de moedas, inscrição em
vasos com figuras pintadas de preto e outras inovações afins.30

25 FISC H ER , 2006, p. 46.


26 In CAVALLO e CHARTIER, Idem, p. 41.
27 Idem, p. 42.
28 FISC H ER , 2006, p. 52.
29 Idem, p. 53.
30 H ARRIS apud FISC H ER , 2006, p. 46,47.

Q8
Aspectos Históricos da Leitura

A principal via de acesso à lógica da leitura arcaica no ocidente são os


verbos gregos que significam “ler” atestados a partir de cerca de 500 a.C. É
por m eio do sentido em pregado pelos escritores desses verbos que se sabe
o que foi pensado no m om ento de seu emprego.
K n o x,31 em do is textos do século V a.C., parece revelar que alguns
gregos praticavam a leitura silen cio sa e que no p erío d o da guerra do
P elop o n eso (um conflito arm ado entre A tenas e E sp arta de 431 a 4 0 4
a.C .) os p o etas dram áticos contavam com a fam iliaridade de seu p ú ­
blico em relação a ela. D o is textos exem plificam esse tipo de leitura. O
prim eiro se trata de um a p assagem do Hipólito, de E u ríp edes, que data
de 42 8 , e o segu n do é um a p assagem dos Cavaleiros, de A ristófanes,
que data de 424.
O s dois docum entos citados são de origem ateniense. A ssim com o
em outros locais, com o Esparta, p o r exemplo, existia a ação para limitar o
ensino das letras ao “estrito necessário”, e a leitura silenciosa deve ter sido
ainda bem m enos conhecida e praticada. D iz-nos Svembro que

para o leitor que lê pouco e de maneira esporádica, a decifração lenta e hesitante do


escrito não conseguiria fazer surgir a necessidade de uma interiorização da voz, pois
a voz é exatamente o instrumento pelo qual a sequência gráfica é reconhecida como
linguagem.32

Percebem-se nos dias atuais, entre os líderes cristãos evangélicos, as


duas necessidades: a da leitura em voz alta e a leitura silenciosa. Em ter­
m os de leitura em voz alta, sua presença é bastante significativa nos cultos
e reuniões onde a Bíblia, Lições Bíblicas, serm ões, avisos, boletins e outros
recursos literários são constantem ente lidos. O leitor habitual, certamen­
te, se sentirá m ais seguro em tais m om entos, falando com desenvoltura,
precisão, clareza e fluência.
N o caso da leitura silenciosa, em razão das múltiplas oportunidades e
espaços contem porâneos — bibliotecas, salas de leitura, transportes cole- *
tivos, livrarias, filas de espera, salas de atendim ento e outros espaços p ú ­
blicos — , sua prática ganha destaque, apesar dos baixos índices já citados
nesta obra. E ssa prática, com o poderá ser vista nos capítulos seguintes,
cooperará para beneficiar o ministro evangélico de várias maneiras.

31 Apud SVEMBRO, Ibidem, p. 54, 55.


32 Ibidem, p. 45.

Q9
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

A Biblioteca de Alexandria é considerada o m aior santuário à escrita


do m undo antigo, tornando-se tão fam osa que

150 anos após sua destruição, Ateneu de Náucratis ainda escreveria, antecipando-se
ao conhecimento geral de seus leitores: “E quanto ao número de livros, a formação de
bibliotecas e a coleção na Galeria das Musas, por que eu devo me pronunciar, já que
tudo isso está vivo na memória de todos os homens?”33

A penas o catálogo da biblioteca som ava 120 rolos. A coleção foi divi­
dida em oito seções, de acordo com o tema: drama, oratória, poesia lírica,
legislação, medicina, história, filosofia e diversos.
M uito além de um a sim ples questão de estilo, a escrita e a leitura na
Grécia, assim com o no m undo antigo, tinha tam bém um a estreita relação
com o poder. A princípio, conform e Thom as34 é notória a relação entre
a escrita e o Estado e seus registros, com o por exemplo, nas listas dos ci­
dadãos, de sua renda e domicílio, ou dos registros de im postos, a intensa
com unicação com a população po r m eio da escrita. E dessa form a que a
cultura se torna um a eficiente ferramenta de controle, deixando a sua tare­
fa de iluminar os cidadãos para explorar os m esm os.35
Thom as relata que,

Na verdade, alguns antropólogos já afirmaram que um Estado não pode, de forma nenhu­
ma, manter-se coeso sem a cultura escrita: a escrita é essencial para o tipo de comunica­
ção autoritária de que o Estado necessita, e que um império ou nação simplesmente não
conseguiria manter-se unido sem a eficiente comunicação a longa distância propiciada
pela escrita. A cultura escrita, neste sentido, é um meio essencial de controle.56

E sse parâm etro de controle autoritário p o d e ser visto em n ossas


igrejas, na m edida em que líderes, por m eio do cadastro dos m em bros e
de planilhas financeiras, por exemplo, publicam de m aneira constrange­
dora nos quadros de avisos a relação de quem contribuiu ou não com os
dízim os naquele m ês ou período. O autoritarism o da escrita se m an ifes­
ta tam bém na privação aos m em bros da igreja da leitura de seu E statu ­
to. M uitas lideranças evangélicas decidem sozinhos sobre a elaboração

33 G U LIC K , 1969 apud FISC H ER , 2006, p. 53


34 In BOWMAN, Alan K.; W OOLF, Greg. C ultura escrita e p o d er no m undo antigo. Tadução de
Valter Lellis Siqueira. São Paulo: Ática, 1998, p. 41.
35 STRAUSS, 1976, p. 392, 393 apud BOW M AN eW O O F, Idem, p. 44.
36 Ibidem, p. 44.

30
Aspectos Históricos da Leitura

e reform as de estatutos, e não deixam os m em bros inteirados, a não ser


quando lhes interessa, sobre os con teúdos e determ inações estatutá­
rias. Tal procedim ento acontece com m aior frequência em igrejas que
adotam o m odelo de governo eclesiástico m ais centrado na hierarquia
episcopal, cujas decisões são tom adas exclusivam ente pela cúpula, m i­
nistério, diretoria ou presidente.
A leitura, por outro lado, quando bem utilizada pela liderança, p ro­
move a “ilum inação” das m entes dos ouvintes ou leitores, lhes proporcio­
nando a possibilidade de enxergar para além das aparências e das letras,
possibilitando um a leitura transparente e clara da realidade. Possibilita
tam bém a dem ocratização da informação. Citando Aristóteles (Pol. 128a
9-17), Thom as3 nos revela que este entendia que a escrita e a leitura das
leis incentiva a justiça, ou se constitui em base essencial para a democracia,
e ainda, que é útil para a administração da casa, para se ganhar dinheiro,
para se aprender e para a vida política (Pol. 1338a15-17). G órgias afirma
que “as leis escritas são as guardiães do justo”.38
Seguindo essa lógica, à m edida que os líderes evangélicos nos dias
atuais dissem inam as inform ações de maneira transparente, prom ovem a
credibilidade, o acesso à informação, a possibilidade da crítica, do contra­
ditório e da síntese, p o r m eio da participação dos m em bros da igreja nos
diversos processos administrativos e decisórios.
E m se tratando das cidades-estados gregas, Thom as39 nos relata que
a cidade grega optou por outra form a de instrum entalização da cultura
escrita, não po r m eio de registros ou da administração pública, m as em
seu potencial para a publicação em seu sentido mais pleno e arcaico de
exibição pública.
N o m undo grego houve críticas em relação à escrita, principalmente
no contexto da educação e da retórica.40 Platão, em Fedro, um fabulista
rom ano nascido na M acedônia, Grécia, chegou a alegar que a escrita era
um a fonte inadequada de conhecimento. Sua resistência em publicar os*
seus m ais valiosos pensam entos confirma tal ideia. Alcidam as, sofista, dis­
cípulo e sucessor de Górgias, que ensinou em Atenas ao m esm o tem po em
que Isócrates, teceu um a crítica contundente à prática de se pronunciar
37 Ibidem, p. 45.
38 Palam. D K 30, fr. 1 I a, apud TH O M A S, Ibidem.
!v Ibidem.
40 TH O M AS, Ibidem, p. 46.

31
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

discursos lendo um texto escrito. Para ele, o m aior objetivo do orador era
o de poder, de improviso, falar sobre qualquer assunto.
Tal tensão entre o falar de improviso ou seguir textos escritos, ainda é
vivenciada em alguns setores da igreja de tradição pentecostal. C om um a
grande ênfase na ação criativa do Espírito, m uitas igrejas e líderes pentecos-
tais viam com certa desconfiança tal prática, classificando-a com o mecani-
cista e desasso ciada da verdadeira pregação espiritual. Cheguei a constatar
que, com o saída, m uitos apelavam, e ainda o fazem, para o uso de pequenos
textos em papéis minúsculos, anexados ou simplesmente colocados entre
as páginas da Bíblia. A prática de pregar ou ensinar seguindo um texto em
form a de esboço, ou um sermão escrito, ganha espaço na atualidade, sendo
cada vez m ais tolerada no m eio pentecostal, de maneira m ais específica, nas
A ssem bleias de D eus no Brasil. Essa m udança pode ser considerada como
resultado de grandes transformações culturais em torno do conhecimen­
to e dos saberes, que influenciaram o pentecostalism o brasileiro durante o
final do século X X , prom ovendo a abertura de centenas de instituições de
ensino teológico, para onde muitos ministros e m em bros de igreja fluíram,
passando a perceber o valor do texto escrito para as suas mensagens faladas,
prom ovendo na igreja a tolerância e a aceitação já comentada.
N o século IV a.C., um a nova maneira de ver a leitura e a escrita surgia
no Ocidente. Fischer (2006, p. 50) relata que o dramaturgo ateniense Me-
nandro (c. 342-292 a.C.) afirmou que “aqueles que sabem ler conseguem
enxergar duas vezes m ais”. Por esse tempo, a palavra escrita era percebida
com o superior à palavra falada.
O s filhos dos ricos e poderosos eram ensinados por tutores particula­
res. C om o exemplo, Fischer nos narra que:

Por meio da tutela de Aristóteles, por exemplo, Alexandre, o Grande, tornou-se “um
grande adorador de todos os tipos de ensino e leitura”, segundo seu biógrafo, o filósofo
grego Plutarco (c. 46-120 d.C). Para onde quer que viajasse, Alexandre carregava consigo
os rolos da Ilíada e da Odisséia de Homero e, quando morreu, na Babilônia em 323 a.C.,
ele estava segurando um de seus rolos da Uíada (assim como, em gerações posteriores,
pessoas expirariam com uma cópia da Bíblia ou do Alcorão presa em suas mãos).41

Para Pattison,42 a leitura na Grécia não ofereceu a democracia, a ci­


ência teórica ou a lógica formal. N ão m odificou o m odo de pensar das
41 Idem, p. 52.
42Apud Ibidem, p. 55.

3Q
Aspectos Históricos da Leitura

pessoas. O que ela fez foi incentivar m ais pessoas a escrever sobre o que
pensavam, fornecendo tam bém a oportunidade para que essas e outras
predisposições sem elhantes criassem raiz e florescessem.

5. A L e it u r a e a E s c r it a n o M u n d o R o m a n o
O uso da escrita na R om a dos prim eiros séculos estava praticamente
restrito ao corpo sacerdotal e aos grupos nobres, depositários dos conhe­
cim entos fundam entais da cidade, referentes ao sagrado e ao jurídico, à
m edida do tempo, à ordem anual dos eventos registrados nos anais (co­
nhecim entos provavelmente fixados em livros de fazenda de linho, os Un­
tei) ou em pranchetas de madeira, tabulae43 Em se tratando dos aspectos
m ais específicos da literatura romana, suas form as perm aneciam ligadas
ao restrito círculo da classe dirigente e às particulares exigências da vida
em sociedade, tal com o elogios fúnebres, relatos de m agistrados, m em ó­
rias da cidade escritas sem pesquisa retórica.
U m a grande guinada no m undo romano, em relação ao uso e valor
mais am plo da leitura, foi dada por Catão, o Censor (234-149 a.C .), que
escrevia seus discursos em tabuinhas antes de proferi-los;44 ele tam bém
com pôs um a “história de R om a”, utilizando-se de caracteres grandes, a
fim de facilitar a leitura, para que seu filho, ao aprender os rudim entos da
escrita, ao m esm o tempo, pudesse aproveitar e conhecer o passado de seu
povo e de sua cultura.45
A grande transição do pensam ento e do hábito rom ano em relação à
leitura se dá entre o final do século III e o início do século I a.C. D ois
fatores m arcantes são citados por Cavallo;46 o prim eiro dá-se em função
do nascim ento de um a cultura latina inspirada em m odelos gregos. A se­
gunda se relaciona com a chegada em Rom a, com o despojos de guerra,
de bibliotecas gregas completas. D essa forma, os livros gregos im portados
funcionariam com o m odelo para o nascente livro latino.
É no período republicano que surge a leitura dom éstica, pessoal e so - ,
litária, juntam ente com a leitura culta entre a classe dirigente romana. A s
prim eiras bibliotecas privadas são conquistas de guerras, com o por exem­
plo, a herdada p o r Catão, de seu pai, após vencer M itridates em 71-70

43 In CAVALLO e CHARTIER, 2002, p. 71.


44 ASTIN , 1978, p. 135-137 apud CAVALLO, Idem.
45 PLUTARCO, 20,7 apud CAVALLO, Ibidem.
46 Ibidem, p. 72.

33
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

a.C.47 A s novas bibliotecas privadas acom panham o surgim ento de uma


produção de livros latinos, m esm o que abaixo da qualidade da produção
editorial grega.
A s condições de aprendizagem da leitura eram diversas, geralmente
realizadas no contexto familiar, na escola pública ou com professores par­
ticulares. Antes de aprender a ler aprendia-se a escrever.
U m a necessidade de leitura m ais ampla, por parte de um a elite privi­
legiada romana, som ando-se à falta de livros, fez com que instituições he-
lenísticas com o a Academ ia, gynasium, lyceum, palaestra, além das biblio­
tecas privadas, se tom assem espaços de leituras privadas para estudos e
recreação. Catulo e Cícero são os prim eiros a informar sobre as atividades
da librarii (livraria) e sobre os gostos dos leitores. A s livrarias, em número
cada vez maior, eram adm inistradas por comerciantes de condição social
inferior, geralmente escravos livres. N o período imperial, já havia livreiros
relativamente célebres e conhecidos, como, por exemplo, Sossi, D oro e
Trífon. A s livrarias tornaram -se lugares onde as relações sociais eram vi-
venciadas p o r pessoas cultas e “pseudo-intelectuais”.48 N o com ércio de
livro, os m ais significativos eram as obras de H om ero e Virgílio, mas, a
partir do século IV d.C., a Bíblia tom ou a dianteira ainda que num formato
fragmentado, “não concluído”.49
Havia tam bém , no início do século II a.C., círculos de leitura sem e­
lhantes aos da Grécia antiga. E sses círculos acolhiam generais, m as tam ­
bém prom ovia autores que não pertenciam à classe de patrícios, prom ovia
o idiom a e a cultura gregos.50 A s leituras públicas tam bém estavam em
evidência em todo o Im pério Romano. O próprio A ugusto frequentava
essas leituras “com b oa vontade e paciência”.51 E sse tipo de leitura durava,
em geral, poucas horas. N ão obstante, algum as chegavam a durar um a se­
mana, tendo o público garantido em razão da fam a ou poder do autor. O
leitor era um transmissor, e não um receptor.52 O hábito da realização de
leituras públicas de obras seculares foi interrom pido no século VI. C on ­
form e Carcopino, “isso decorreu de vários fatores: patrícios que abando-

47 CAVALLO, Ibidem, p. 73.


48 Ibidem, p. 78.
49 FISC H ER , 2006, p. 65.
50 Idem, p. 67.
51 ROLFE, 1948 apud Ibidem.
52 Ibidem, p. 70

34
Aspectos Históricos da Leitura

naram os grandes centros, declínio do ensino, enfraquecimento do com ér­


cio de livros, invasões germ ânicas e outras m udanças”.53
O utro avanço significativo foi o interesse pelo livro em term os de
qualidade editorial e po r tudo que facilitasse a leitura. É difundido nessa
época o volumen, um a publicação de alta qualidade,54 destina à leitura cul­
ta, baseado em m odelos gregos que já circulavam no m undo helenístico
e durante o período que vai do final da República até o início do novo
regime. M edia aproxim adam ente 25 centím etros de largura por seis a dez
m etros de com prim ento. Era com posto de papiro de alta qualidade, vir­
gens, bem paginados, estilo de escrita precisa e elegante, uso de iniciais
diferenciadas e de tipos diferenciados para o nom e do autor e título da
obra ao final de cada unidade, hastes para desenrolar o volumen. H á no
m undo romano, por volta do século I e II d.C., um crescente interesse
pela leitura nas classes cultas e entre os novos alfabetizados e ricos. A
frequência de cenas de leitura em afrescos, nos m osaicos e nos baixos
relevos da época evidencia tal fato.

Até os séculos II-III d.C., “ler um livro” significava normalmente ler um rolo: pegava-
se o rolo com a mão direita, desenrolando-o progressivamente com a esquerda, a
qual segurava a parte já lida; acabada a leitura, o rolo permanecia enrolado na mão
esquerda.31

N o século I a.C., Júlio César dobrou um a folha de papiro em “páginas”


individuais para mandá-las a suas tropas no cam po de guerra. E ssa prática
acabou levando à criação do códice — texto com páginas escritas em am ­
bos os lados para que fossem viradas, não enroladas. “Marcial, o primeiro
a citar o códice, elogia sua concisão e ressalta o quanto ele libera espaço na
biblioteca. Com enta ainda sobre sua utilidade em viagens, pois, ao contrá­
rio do rolo, pode ser lido sendo segurado em apenas um a das m ãos”/s6
A grande revolução na época, em term os de suporte de leitura, acon­
teceu conform e a narrativa de Plínio, o Velho (23-79 d.C.). Eum enes l i
(1 9 7 e 158 a.C.) que governou de Pérgamo, na Grécia, na Á sia Menor,
desejando fundar um a biblioteca à altura da Biblioteca de Alexandria, en­
com endou um a rem essa de papiro do Nilo. A contece que o rei Ptolom eu

33 Carcopino, 1940 apud Ibidem, p. 75.


;4 CAVALLO, Ibidem, p. 75.
MARTINS, 1988, p. 81 apud Ibidem, p. 78.
56 FISCH ER, 2006, p. 76.

35
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

do Egito proibiu essa exportação, tendo com o objetivo manter a Biblio­


teca de Alexandria com o repositório mundial do conhecimento. Sendo
forçado a buscar alternativas, Eum enes ordenou que seus especialistas
criassem, para a sua biblioteca, um novo material para a escrita. Foi de­
senvolvida então, um a técnica que envolvia o estiramento e secagem da
pele de ovelhas e cabritos, deixando-a extremamente fina (velino). N ascia
assim o “pergam inho”.57 Posteriorm ente o velino tom ou tam bém a forma
de códice.
A fam osa frase scripta manet, verba volat, que originalmente significava
“a escrita dorme, a fala repercute” m ediante um a reinterpretação conceitu­
ai, assum iu o significado "a fala é levada pelo vento, a escrita perm anece”.
Ju n to ao interesse pela leitura florescem as bibliotecas públicas. Ca-
vallo58 relata que essas bibliotecas foram criadas por algum as razões es­
pecíficas, tais com o atos de benemerência, como, também, por iniciativa
imperial, dentro de um contexto de um a concentração e apropriação da
cultura escrita por parte do poder. Fins políticos e eleitorais marcaram tam ­
bém a criação das bibliotecas. A s m aiores bibliotecas foram: a biblioteca
de Apoio, no Palatino, fundada por Augusto, e a biblioteca Ulpia, no Foro
de Trajano, que tinham por objetivo selecionar e conservar o patrim ônio
literário e os anais civis e religiosos da cidade. E sses ambientes eram mais
frequentem ente visitados por leitores que buscavam obras antigas ou ra­
ras, para fazer análises comparativas, para rápidas leituras e com o espaços
de “convivência”.
A m aneira m ais habitual de ler era em voz alta. Isso acontecia em ní­
vel pessoal ou por um leitor m ediador entre o livro e um ouvinte, ou um
auditório.

Embora o próprio Cícero (106-43 a.C.), o grande orador, achasse que, para a memória,
ver um texto era muito melhor que ouvi-lo, reconhecendo assim a exclusiva vantagem
da leitura na sociedade oral romana, a maioria dos romanos acreditava que o discurso
prevalecia como mais importante.59

A pesar de rara, R n ox60 escreve que a leitura silenciosa e sussurrada


era tam bém praticada, principalm ente em se tratando de cartas, docu-

57 Ibidem.
58 Ibidem, p. 77.
59 Ibidem, p. 63
60 K N O X, 1988, p. 38 apud Ibidem, p. 83.

36
Aspectos Históricos da Leitura

m entos e m ensagens. Tratava-se de um a escolha influenciada por fatores


ou condições particulares, com o o estado de espírito do leitor, ou da
natureza do texto.
Indivíduos de m odesta condição socioeconôm ica liam (ou ouviam
ler) obras de história pelo sim ples prazer ( voluptas) da leitura, não pela
utilidade ( utilitas) que delas se podia usufruir, e que era o objetivo do
leitor de nível educacional mais elevado. Pode-se observar, em seu n as­
cedouro, que o hábito de leitura no m undo ocidental já revela diferentes
m otivações e m aneiras de ler, presentes até os n ossos dias. A produção de
obras biográficas e relatos históricos, com o por exemplo, “O s Feitos de
C ésar”, colaboravam para o crescente interesse pela leitura por um a classe
m enos favorecida e instruída.61

Entre os leitores havia, em primeiro lugar, os círculos aristocráticos cultos, sempre en­
tregues ao otium. Havia em seguida, estreitamente ligado a eles, o grupo de gramáticos
e retóricos, às vezes escravos ou libertos, mais ou menos habituados à leitura de “clás­
sicos”. E havia ainda um público de leitores novos, público diferente tanto nos círculos
literários ou escolares, altamente instruídos, quanto da massa dos não alfabetizados:
um público médio que acabava tocando levemente também as classes médias baixas.“

N a R om a dos primeiros séculos de Império, a obrigação de ler por força


de funções, cargos, autoria, conhecimento técnico e profissional, ensino ou
estudo, vai aos poucos dando espaço para o chamado leitor “livre”, que lê
pelo simples prazer da leitura, por hábito ou pelo prestígio que dela advém.
O crescim ento e a diversidade de leitores prom oveu o surgimento de
um a variedade de gêneros literários, dentre os quais: a poesia de evasão,
paráfrases de obras épicas, biografias e resum os históricos, pequenos tra­
tados de culinária e de esportes, livretos sobre jogos e passatem pos, obras
eróticas, horóscopos, livros de m agias ou interpretação dos sonhos, mas,
acim a de tudo, obras de ficção trazendo um m isto de drama, intriga, ro­
m ance e aventura. “Eram raros os casos em que as m ulheres eram enalte- .
cidas com o bibliófilas”.63 A pesar da diversidade de gêneros literários, “o
Im pério R om ano nunca chegou a experimentar algo com o um a ‘literatura
popular’, obras lidas por dezenas ou centenas de milhares de pessoas”.64

61 CAVALLO, Ibidem, p. 74.


62 Ibidem, p. 76.
63 FISC H ER , 2006, p. 73.
64 Ibidem, p. 74.

37
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

A o contrário da G récia, onde o privilégio da participação na vida


civil era de uns poucos, que exigia um grande nível de erudição, em
R om a, a partir do final da R epública (séculos II e I a.C .), a cidadania era
exercida por um núm ero m aior de pessoas, das quais se exigia a leitura.
R om a era dirigida p o r escriturários e sustentada por um grupo de cida­
dãos com algum nível de instrução. Para Fischer, “de fato, esse foi talvez
o prim eiro ‘Im pério da Leitura’, um a vez que os patrícios, assim com o
grande núm ero de hom ens, m ulheres, libertos e escravos — em Rom a,
no restante da Itália rom anizada e em m uitas outras províncias — , liam
e escreviam todos os dias”.65

6. A L e it u r a n o B r a s il C o l o n ia l
N o p erío d o que se estende do século X V I até a in depen dên cia h a­
via p o u co s livros e leitores no Brasil. U m a raríssim a exceção nos apre­
senta M o tt66 citando a França A ntártida, on de havia m uitos livros de
origem calvinista. N o geral, a p o sse de livros centralizava-se entre os
p rop rietário s de terra e escravos, entre os clérigos, estu dan tes de D i­
reito e advogados, m édicos, farm acêuticos, com ercian tes e m ilitares
no exercício de fu n çõ es e cargos pú b licos. T o d o s esses faziam parte da
elite cultural. O livro era tido com o elem ento fun dam en tal para o b om
desem pen h o na atividade profission al ou religiosa, com o im portan te
fonte de saber.67
Em se tratando de bibliotecas, os m aiores acervos atendiam as ativida­
des rotineiras dos colégios jesuíticos. A partir do século XVII, houve um a
m udança na posse de livros, que foi mais disseminada, e na com posição de
bibliotecas. A s m aiores bibliotecas pessoais eram propriedades de padres,
advogados e cirurgiões.
A s utilidades e funções dos livros variavam entre o ornam ento ou en­
feites, fonte de conhecim ento ou instrução. Em term os m ais específicos,
falava-se do livro e da leitura com o im portantes para:

“exercício de sua ocupação” “faculdade” “ministério” “estudos”; para “conhecer melhor


os erros e combatê-los”; “para se conhecer as doutrinas de que se deve apartar”; para
melhor procedimento em casos, situações, dúvidas; porque “está escrevendo livros”;

“ Ibidem, p. 64.
66Apud VILLALTA, 2002, p. 186,189.
l'" Idem, p. 194.

38
Aspectos Históricos da Leitura

“para maior inteligência dos autores” ou “estudos”; “para bem servir a Vossa M ajesta­
de”; para se instruir “só nas doutrinas que não forem reprovadas (ou o contrário); “para
averiguação das doutrinas”; e para “maior construção da vida literária.08

Percebe-se que a bu sca por mais conhecimento no exercício de ativi­


dades profissionais, acadêm icas, políticas e doutrinárias fomentava o há­
bito de leitura.
O crescente aum ento da circulação de livros e de leitores desencadeou
o estabelecim ento de controle e censura. O s sistem as de controle e cen­
sura foram o “Santo O fício”, o “O rdinário” e a “M esa do D esem bargo do
paço”. E sses sistem as foram unificados a partir da Real M esa Censória, em
1768, pelo M arquês de Pombal. Em 1787 foi instituída tam bém a “C o m is­
são Geral para o Exam e e a Censura dos Livros”.69 A censura e a obstrução
da leitura de certas obras e docum entos perduraram pelos séculos seguin­
tes, em vários segm entos da sociedade, inclusive dentro da própria igreja
evangélica. Em pleno século X X , alguns pastores não apenas rejeitavam
a leitura de livros, com o tam bém chegavam a punir disciplinarmente os
m em bros que assim o faziam. A leitura da Bíblia era a única fonte lite­
rária perm itida, juntam ente com algum as publicações feitas em “órgãos
oficiais” (jornais, boletins e periódicos) da denominação. C om o cresci­
m ento do m ercado literário e das gráficas editoras evangélicas, com suas
lojas estabelecidas nas principais capitais do país, a abertura para a leitura
de livros, inclusive com linhas teológicas diversas, e até livros de filosofia,
sociologia, rom ances, ficções e outros gêneros anteriormente censurados
(m esm o que de m odo inform al), ganharam espaço e tiveram acesso faci­
litado. E ssa tendência à m aior produção literária evangélica e crescimento
do público leitor prevalece no início do século X X I.

7 . A L e i t u r a n a I d a d e M o d e r n a — S é c u l o X V I a o S é c u l o X V III
Ribeiro (2 0 0 8 ) faz um ótim o relato da prática da leitura entre os sécu­
los X V I e X IX . N esse período as práticas de leitura estiveram diretam en­
te condicionadas às práticas escolares, às opções religiosas e ao crescente
ritmo de industrialização. O nde imperava o catolicismo, os leitores tive­
ram problem as com a censura, que tentava im pedir o acesso aos textos

68 Ibidem, p. 205.
69 LACERDA, Liliam Maria. A h istória da leitura n o Brasil: formas de ser e maneiras de ler. In:
ABREU, Márcia (org.). Leitura, história e história da leitura. São Paulo: Fapespe, 2002, p. 614.

39
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

entendidos com o portadores e dissem inadores de ideias contraventoras à


autoridade da Igreja e dos soberanos absolutos.
U m a nova categoria de leitores surge na Inglaterra com o advento da
Revolução Industrial, determ inando o surgimento de um novo m ercado
literário. C onform e Cavallo e Chartier, as transform ações de ordem técni­
ca foram as prim eiras a afetar as práticas de leitura, oriundas do advento
da im pressão, que passa a alterar a produção das diversas obras literárias,
m igrando dos textos m anuscritos para os im pressos.70
Johan n es Gutenberg (c. 1390-1468) com a invenção dos tipos móveis
de chum bo fundido, proporcionando assim m ais durabilidade e resistên­
cia do que os produzidos em madeira, tornando-os reutilizáveis, prom ove­
ram um a grande versatilidade ao processo de elaboração de livros e outros
trabalhos im pressos e perm itindo, dessa maneira, a sua massificação.
Em se tratando da im prensa com o outra contribuição de Gutenberg,
houve tam bém avanços em relação aos instrum entos em pregados até en­
tão desde a época da Sum éria, com discos ou cilindros sobre os quais
se tinha lavrado o negativo do texto a im prim ir que geralmente era só a
rubrica do dono do cilindro e outorgava certeza de autenticidade às ta­
buletas que a levavam. A s im prensas na Idade M édia eram sim ples tabelas
gordas e pesadas ou blocos de pedra que se apoiavam sobre a matriz de
im pressão já entintada para transferir sua im agem ao pergam inho ou p a­
pel. G utenberg adaptou a prensa utilizada para esprem er o suco das uvas
na fabricação do vinho, com as quais ele estava familiarizado, po is Mo-
gúncia, onde nasceu e viveu, está no vale do Reno, um a região vinícola
desde a época dos rom anos.
D epois da invenção dos tipos e a adaptação da prensa vinícola, G u­
tenberg seguiu experim entando com a im prensa até conseguir um apare­
lho funcional. Tam bém pesquisou sobre o papel e as tintas. Uns e outros
tinham que se com portar de tal m odo que as tintas se absorvessem pelo
papel sem escorrer, assegurando a precisão dos traços; precisava-se que a
secagem fosse rápida e a im pressão permanente. Por isso, Gutenberg expe­
rim entou com pigm entos à base de azeite, que não só u sou para imprimir
com as matrizes, senão tam bém para as capitulares e ilustrações que se

70 CAVALLO e CHARTIER, 1998 apud RIBEIRO, Wliane da Silva. Práticas de leitura no m un­
do ocidental. Revista Ágora. V. 3, n. 3, Nov-2008, p. 6. Disponível em: < http://www.iseseduca.
com .br/> Acesso em 10/09/2009.

40
Aspectos Históricos da Leitura

realizavam manualmente, e com o papel de trapo de origem chinesa intro­


duzido na Europa em sua época.
A Bíblia foi o prim eiro livro im presso por Gutenberg, processo inicia­
do em cerca de 1450 e que teria term inado cinco anos depois, em março
de 1455.
C onform e Ribeiro:

O invento do livro impresso apresentava como vantagens: rapidez, uniformidade de


textos e preço relativamente mais em conta, trazendo como consequência o aumento
de sua produção bem como a ampliação do acesso de centenas de leitores a cópias
idênticas de um mesmo livro. No entanto, a invenção e difusão da imprensa caminha­
ram em passos pequenos no que tange à substituição do manuscrito. Até o século XVI,
praticamente, o livro impresso ainda depende do manuscrito do qual imita a pagina­
ção, a escrita, as aparências.71

A im prensa não extinguiu o gosto pelo texto escrito à mão. N o final do


século XV, em bora a im prensa estivesse bem estabelecida, a preocupação
com o traço elegante não desaparecera e alguns dos exem plos m ais m e­
moráveis de caligrafia ainda estavam por vir. Paralelo ao fato de os livros se
tornarem de acesso m ais fácil, mais pessoas desenvolviam a habilidade da
escrita. “O século XVI tornou-se não apenas a era da palavra escrita, com o
tam bém o século dos grandes m anuais de caligrafia.72
A nova form a im pressa do livro possibilitou m udanças decisivas na
ordenação das obras, dentre as quais um a m aior legibilidade em razão do
form ato de fácil manejo, da organização das páginas, da multiplicação de
parágrafos.
U m grande obstáculo para a dissem inação do hábito de leitura seria a
precariedade da educação nas escolas prim árias durante os séculos X V e
XVI. N esse período, a grande m aioria das crianças na Europa não frequen­
tava a escola. A falta de educação e leitura fomentava a superstição.73
O em penho por um a m elhora na qualidade da educação foi um a das
m arcas da R eform a Protestante. O pensam ento de Lutero sobre esse tema
é expresso em seu escrito “A os Conselhos de Todas as C idades da A lem a­
nha para que Criem e M antenham Escolas C ristãs”, datado de 1524. N esse
texto destacam -se os seguintes temas:
71 Ibidem.
72 M A N GU EL, 1997, p. 159 apud RIBEIRO, Ibidem, p. 7.
73 FISCH ER, Ibidem, p. 205.

41
O L ÍD E R C R IST Ã O E O H Á B IT O D E L E IT U R A

a) Sobre o abandono das escolas

“Em prim eiro lugar, constatam os hoje em todas as partes da Alemanha


que as escolas estão no abandono” (p. 303).

b) Sobre a falta de investimentos em educação

“C aros senhores, anualmente é preciso levantar grandes som as para


armas, estradas, pontes, diques e inúm eras outras obras semelhantes, para
que um a cidade po ssa viver em paz e segurança temporal. Por que não
levantar igual som a para a pobre juventude necessitada, sustentando um
ou dois hom ens com petentes com o professores?” (p. 305)

c) Sobre a aplicação de m étodos de ensino mais eficazes

“É bem verdade: se as universidades e conventos continuarem com o


estão sem a aplicação de novos m étodos de ensino e m od os de vida para
os jovens, preferiria que nenhum jovem aprendesse qualquer coisa e que
ficassem m u dos” (p. 306).

d) Sobre as crianças longe da sala de aula em idade escolar

“Em minha opinião, nenhum pecado exterior pesa tanto sobre o mundo
perante D eus e nenhum merece maior castigo do que justamente o pecado
que com etem os contra as crianças, quando não as educam os” (p. 307).

e) Sobre a responsabilidade do Estado em prover educação

“A caso as autoridades e o C onselho querem desculpar-se e dizer que


isso não lhes diz respeito?” (p. 308)

f) Sobre o benefício social da educação

“M uito antes, o m elhor e mais rico progresso para um a cidade é quan­


do possui m uitos hom ens bem instruídos, m uitos cidadãos ajuizados, h o­
nestos e bem educados” (p. 309).

4Q
Aspectos Históricos da Leitura

g) Sobre a ludicidade na educação

“Falo por m im m esm o: se eu tivesse filhos e tivesse condições, não


deveriam aprender apenas as línguas e história, m as tam bém deveriam
aprender a cantar e estudar m úsica com toda a m atem ática” (p. 319).

h) Sobre a opressão na escola

“Pois as escolas de hoje já não são m ais o inferno e purgatório de n os­


sas escolas, nas quais éram os torturados com declinações e conjugações,
e de tantos açoites, tremor, pavor e sofrim ento não aprendem os sim ples­
mente nada” (p. 319).

i) Sobre a qualificação dos docentes

“Visto, porém , que D eus nos agraciou tão ricamente, concedendo-nos


um a grande quantidade de pessoas aptas a instruir e educar m aravilhosa­
mente a juventude [...]” (p. 306).

j) Sobre um m undo m elhor proporcionado pela educação

“U sem os tam bém a razão, para que D eus se aperceba da gratidão por
seus bens, e outros países vejam que tam bém som os gente e pessoas que
podem aprender deles ou ensinar-lhes algo útil, a fim de que tam bém nós
contribuam os para o m elhoram ento do m undo” (p. 321).

N o m ovim en to da R eform a, “M artin ho L u tero e seus segu idores


na A lem anha, na H olan d a e na Su íça anunciavam aos quatro cantos
que to d a p e sso a — hom em ou m ulher — p o ssu ía o direito divino de
ler a Palavra de D eu s po r si própria, sem interm ediários, e no idiom a»
dela”.74
Percebe-se que a popularização da leitura se relacionava com a salva­
ção da alma: “a salvação da alma dependia da capacidade de cada um ler a
palavra de D eus por si m esm o”.75

74 Ibidem, p. 207.
75 M A N G U EL 1997, p. 312 apud RIBEIRO, Ibidem, p. 8.

43
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

M as, conform e Ribeiro, “a alfabetização, m esm o restrita à Bíblia, não


im pediria a leitura de outros tipos de texto; desse m odo, os donos de es­
cravos britânicos foram contra a alfabetização dos m esm os, pois temiam
que estes encontrassem ideias revolucionárias que aguçassem possíveis
atos de revolta em favor da libertação”.76 E ainda

Aprender a ler, para os escravos, não era um passaporte imediato para a liberda­
de, mas uma maneira de ter acesso a um dos instrumentos poderosos de seus
opressores: o livro. Os donos de escravos sabiam que a leitura é uma força que
requer umas poucas palavras iniciais para se tomar irresistível. Quem é capaz de
ler uma frase é capaz de ler todas. Mais importante: esse leitor tem agora a pos­
sibilidade de refletir sobre essa frase, de agir sobre ela, de lhe dar um significado
(MANGUEL, 1997, p. 314, 315). Para Manguei (1997), a arte da leitura uma
vez aprendida não pode ser desaprendida; dessa maneira era mais cômodo para
ditadores, donos de escravos, ter sob seu domínio pessoas analfabetas dada a
maior facilidade em manipulá-las. Dessa forma, assistimos durante séculos (até
mesmo no limiar do terceiro milênio) uma grande massa de analfabetos, quan­
do não sua limitação ao aprendizado inicial da leitura e da escrita.77

Sobre isso tam bém escreve Fischer,78 quando afirma que a elite colonial
da Am érica do Norte e do Caribe protestaram, afirmando que, a partir da
leitura da Bíblia, logo os escravos estariam lendo outras obras, as quais p o ­
deriam fazê-los pensar, em vez de apenas obedecer. O grande temor era a
preservação da riqueza, do poder e da posição social, cuja leitura seria uma
“dádiva perigosa demais se oferecida àqueles que deveriam ser subjugados”.
Praticamente em quase toda a Europa, do século X V ao XVIII, a m aio­
ria dos leitores de livros eram m édicos, nobres, ricos comerciantes e inte­
grantes do clero.'9
Durante esse período a Inglaterra assum e a liderança da distribuição
e consum o de livros (principalm ente no século XVTI). O lugar da leitura
se diversifica:

Muitos livros eram armazenados na cozinha, onde se realizava grande parte da leitura
entre familiares e empregados, o que revela enorme familiaridade e intimidade com a
leitura. Em virtude da influência dos puritanos, uma das principais influências cultu­
rais da Inglaterra à época, a leitura da Bíblia tinha, sem dúvida, prioridade nesses en-

76 Ibidem.
77 Ibidem.
78 Ibidem, p. 229.
79 FISC H ER , 2006, p. 206.

44
Aspectos Históricos da Leitura

contros. Apesar disso, na Europa dos séculos XVI e XVII, o dormitório mantinha-se
com o local favorito de leitura e armazenagem dos livros. M as o quarto, nessa época,
costumava ser um local de passagem, desse modo, até na cama, era raro as pessoas não
serem incomodadas durante a leitura. Se alguém desejasse ler com privacidade, era
necessário retirar-se para outro aposento levando consigo uma vela, ou, se fosse du­
rante o dia, ir para fora da casa, onde também se lia muito, como na Idade Média.80

Ainda nesse período surgiram os prim eiros livros de bolso (brochura),


os prim eiros jornais do m undo com eçavam a ser lidos e “um a autêntica
biblioteca de conteúdo popular decorava muros, portas, postes e janelas
da Europa”.81 “ [...] reis, príncipes, condes e bispos em toda a Europa inicia­
ram a construção de enorm es bibliotecas no estilo de m ausoléus clássicos
para abrigar as obras que eles próprios passaram , às vezes, a estimar m ais
que todas as p o sses”.82
A Revolução Industrial foi tam bém um resultado direto da instrução:
ou seja, da leitura.83
D urante a Revolução Francesa, cam pon eses “isolavam -se com um
desses livros durante horas a fio, m ovendo os lábios palavra p o r palavra
durante a leitura e refletindo por m uito tem po sobre o significado de
cada frase”.84
Francis Bacon (1561-1626), filósofo inglês, chegou a estimular as p e s­
soas a “lerem não para contradizer e refutar, nem para crer e subestimar,
nem para inventar assunto ou discussão, m as para ponderar e refletir”.85
Dr. Sam uel Joh n son (1709-1784), lexicógrafo, ensaísta e crítico, con­
siderado o m ais célebre hom em das letras da Inglaterra no século XVIII,
afirmava que:

A leitura “verdadeira” era a leitura “voltada à instrução”, um sentimento ainda


compartilhado por milhões em todo o mundo. Apenas em raros casos ele lia
as obras até o fim. Dr. Johnson quase sempre “examinava” os livros, extraindo
a essência de cada um. Nesse sentido, ele declarou: “Um livro pode não ter
nenhuma serventia; ou talvez haja só uma coisa que nele valha a pena saber;
sendo assim, devemos lê-lo por completo?”.84

80Ibidem, p. 214.
81 Ibidem, p. 215.
82 Ibidem, p. 237.
83 Ibidem, p. 233.
84 CERTAU, 1975 apud Ibidem, p. 237.
85 BA CO N apud Ibidem, p. 228.
86 Ibidem, p. 241.

45
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

O Dr. Johnson, não percebia a leitura com o entretenimento em si, m as


com o instrum ento de acesso à informação.
A leitura religiosa entrou em declínio à m edida que as ideias iluminis-
tas se difundiam.
O hábito de leitura ganha tamanha proporção que “em toda a Europa,
a leitura transform ou-se no próprio alimento — o prato m ais com pleto
para a m ente e o espírito. N a realidade, a m etáfora de ‘devorar a leitura
com o um alim ento’ era com um ”.87

8. A L e it u r a n o M u n d o C o n t e m p o r â n e o — S é c u l o X IX aos

D ia s A t u a is
N o século X IX , ler tornou-se m ais fácil. O s livros estavam mais em
conta e com um a m aior oferta. O sistem a de iluminação m elhorou e as
lâm padas especiais ficaram m ais comuns, contribuindo para que m ais p es­
soas tivessem m elhores condições de ler.88
A am pliação da capacidade leitura das pessoas e uso da cultura im pres­
sa por novas classes de leitores (as mulheres, as crianças, os operários),
prom ove grandes transform ações. “ [...] com o acesso de quase todos à
com petência de leitura, com o se institui no século X IX na Europa mais
desenvolvida, a aculturação ao escrito, pela escola e fora da escola, a frag­
m entação das m aneiras de ler e dos m ercados do livro (ou do jornal) ins­
taura, atrás das aparências de um a cultura partilhada, um a fragmentação
m aior das práticas”.89
O livro im presso passou a ser considerado por m uitos com o o “ver­
dadeiro santuário dos mais elevados sentim entos hum anos, a ser aberto,
experim entado e apreciado por todas as pessoas de m odo igualitário, com
privacidade, silêncio e devoção”.90
C om a dim inuição das taxas de analfabetismo, as mulheres emergiram
com o público leitor, consum indo principalm ente os livros de culinária,
revistas e rom ances. D e acordo com Lyons,91 “m esm o não sendo as únicas
leitoras de rom ances, eram vistas com o o principal alvo da ficção rom ânti­
ca e popular. A feminização do público leitor de rom ances veio a confirmar

87 Ibidem.
88 FISC H ER , 2006, p. 249.
89 CAVALLO & CHARTIER, 1998, p. 36 apud RIBEIRO, p. 9,10.
90 FISC H ER , 2006, p. 232.
91 LYONS, 1998 apud RIBEIRO, p. 10.

46
Aspectos Históricos da Leitura

os preconceitos sobre o papel da mulher e sua inteligência”. Elas foram aos


poucos conquistando o seu direito à leitura. Passaram a frequentar salões
e círculos literários, liam em casa e no trabalho. N ão dem orou para que de
leitoras passassem a contribuir de form a inédita na produção literária dos
países onde viviam.92
A s crianças emergiram tam bém com o público ledor. Isso se deu por
m eio da expansão da educação primária. B oa parte da literatura infantil
“na prim eira m etade do século X IX , era de caráter rigorosam ente didático
e consistia em fábulas com final feliz e moralizante, e contos de fada.93
A classe operária foi tam bém atraída pela leitura com o fonte de lazer.
Em préstim os eram realizados nas bibliotecas circulantes. O ritmo de lei­
tura oscilava de acordo as atividades diárias de trabalho. O s pedidos de
em préstim o de livros geralmente aumentavam nos períodos de inverno e
diminuíam nos períodos de verão, quando a jornada de trabalho possivel­
mente era maior.94
O s editores passaram a se distinguir dos vendedores de livros, que
disputavam dois m ercados: o da elite, disposta a pagar m ais alto por um a
literatura de qualidade, e a classe m édia baixa e dos pobres, de preferências
culturais limitadas.95
N o período da colonização do N ovo M undo, espanhóis, holandeses,
ingleses e franceses levavam consigo os hábitos de leitura europeus para a *
Am érica do N orte. O m ovim ento de prensas e jornais no O este não acon­
tecia exclusivamente pelos pioneiros britânicos:

No Tennessee, já havia um jornal em 1701; em Ohio, em 1793; St. Louis tinha uma ofici­
na de impressão em 1808; Galveston, em 1817; e São Francisco, em 1846. Entre 1820 e
1852, os editores da Costa Leste comercializavam cerca de 24 mil títulos de livros, a mes­
ma quantidade que havia sido publicada na região entre 1640 e 1791. Nova York, Filadél­
fia, Boston e Baltimore lideravam o ramo de publicações na América do Norte, seguidas
por outros centros: em 1850, Cincinnati, Ohio, sediava nada menos que 25 editoras.96

N o período do apartheid, nos estados do Sul dos E stados Unidos, os


negros foram proibidos de aprender a ler e a escrever até a derrota do Sul

92 FISCH ER, 2006, p. 266.


93 Ibidem.
94 Ibidem.
95 Ibidem, p. 253.
96 Ibidem.

47
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

na guerra civil, em 1865. M uitos negros aprenderam a ler clandestinam en­


te e ensinavam outros. Q uando alguns senhores descobriam tal fato, trata­
vam com grande hostilidade os negros escravos, que chegavam inclusive
a ser enforcados.
Fischer relata que, em m eados do século X IX , a m aior parte das na­
ções desenvolvidas já considera a leitura com o parte integrante da vida
diária das pessoas: “E m toda igreja, por exemplo, a leitura dos hinos fazia
parte da liturgia; aqueles que não sabiam ler as respostas ou hinos agora se
sentiam excluídos da cerimônia, já que a leitura em grupo definia o signi­
ficado de ser cristão”.97
A s transform ações tecnológicas que se iniciaram no século X IX avan­
çaram a largos e rápidos passos na m aior parte do século X X . O “aprim ora­
m ento na fabricação de papel, na im pressão e na encadernação resultaram
em produções m aiores e preços ainda mais baixos por exem plar”.98 O s li­
vros vieram a se tornar um a m ercadoria de m assa.
Em relação à censura, leitores e escritores continuavam sendo alvos de
perseguições. A s obras de conteúdo sexual e político eram as m ais proi­
bidas. Países com unistas censuravam obras com conteúdo capitalista, en­
quanto países capitalistas censuravam textos com unistas. Fischer afirma
ainda que:

Ao longo de toda a história, regimes políticos ditatoriais sempre disseminaram a ideia


de que a restrição da leitura e a destruição dos livros fariam que se tornassem mais p o ­
derosos e ganhassem tempo, ou seja, como se, por meio da anulação da história, pudes­
sem criar um novo destino. [...] Uma sociedade esclarecida reconhece que a verdadeira
força está na liberdade individual, da qual a leitura é a expressão m áxim a."

N ovos suportes de leitura foram desenvolvidos nas últimas décadas


do século X X . Para Chartier:

[...] a difusão da leitura pela tela do computador é uma revolução da leitura, uma re­
volução dos suportes e formas de transmissão do escrito. Ler sobre uma tela não é o
mesmo que ler um livro impresso; há uma substituição da materialidade do livro pela
imaterialidade de textos, perde-se o contato físico e íntimo com o texto no qual todos
os sentidos do leitor participam do ato de ler.100

97 Fischer, 2006, p. 263.


98 Ibidem, p. 269.
99 Ibidem, p. 274.
100 CHARTIER, 1994, apud RIBEIRO, p. 11.

48
Aspectos Históricos da Leitura

O progresso tecnológico é visto às vezes com o um a am eaça ao livro


im presso e a leitura em sua form a mais convencional. C om o bem escreveu
Ribeiro, “convém lembrar que o cinema não ocasionou a m orte do teatro,
nem a televisão a do cinema e do rádio, nem a televisão e o rádio fizeram
desaparecer a im prensa: há público para to d o s”.101
“A leitura é atualmente a principal atividade que alimenta, veste e abri­
ga o m undo desenvolvido”.102 E ssa frase especifica bem o valor da leitura
na pós-m odernidade.
U m a abordagem histórica sobre a leitura, nos revela que sua im por­
tância no decorrer dos séculos, assim com o os obstáculos e m eios para a
sua difusão, em muito se assem elha aos dias atuais, salvo algum as questões
e particularidades de nossa época.

101 Ibidem, p. 11.


102 FISC H ER , 2006, p. 275.

49
3
A Im p o r t â n c ia do

H á b it o de L e it u r a

A im portância do desenvolvimento do hábito de leitura na literatura e


-Z jL p erspectiva não-cristã e cristã é claramente evidenciada.

1. A L e it u r a n a Ó t ic a d e E s c r it o r e s N ã o -C r ist ã o s

M uitos escritores não-cristãos colaboraram com a revelação dos vá­


rios benefícios decorrentes do desenvolvimento do hábito de leitura.

1.1.A leitura como agente de emancipação e desenvolvedora


de criticidade
D e acordo com Z ilberm an,1 a aprendizagem da leitura repercute
com o um a possib ilidade de em ancipação. Pois os bens culturais, que
privilegiam a transm issão escrita, tornam -se acessíveis para o indivíduo
que lê e, po r conseguinte, m anipuláveis. A con quista da habilidade de
ler é o prim eiro passo para a assim ilação dos valores da sociedade: “Ler*
qualifica toda a relação com o real”. A leitura p o d e ser qualificada com o
a m ediadora entre cada ser hum ano e seu presente. A leitura é n ecessa­
riam ente um a descoberta do m undo, precedida segundo a im aginação e
a experiência individual.
1 ZILBERM AN, Regina (org.). L eitura em crise na escola: as alternativas do professor. 7. ed.
Porto Alegre: Mercado Aberto, 1986, p. 16.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Percebe-se claramente em tal definição que a falta do hábito de leitura,


de certa form a, produz algum nível de alienação parcial ou plena. Estar
alienado é, dentre outras condições, não saber das coisas com o as coisas
realmente são. Tal indivíduo não se im porta com o que se passa no m un­
do a sua volta. A lguém que não luta por seus ideais e interesses sociais, e
que se subm ete passivam ente a qualquer ideia ou tipo de manipulação.
A alienação pode chegar ao nível de não saber o que se passa no cenário
político, social e econôm ico do país, da região, da cidade e bairro onde se
vive. A m ídia e o próprio governo são os principais agentes de alienação.
Program as televisivos e políticas públicas que não contem plam o cresci­
m ento cultural do cidadão são m eios de alienação. Enquanto os m eios de
com unicação de m assa proclam am as glórias governamentais e as “belezas
naturais do Brasil” os livros, considerando sua variedade, propõem um a
visão m ais crítica da n ossa realidade social.2
Alienação é se deixar levar sem ter opinião e sem saber o porquê das
coisas. Para Silva,

Frente à desordem gerada pelos atuais paradigmas de organização social e sistemas


produtivos, sou levado a crer que uma das principais funções da leitura no Brasil é a
de garantir ao cidadão a capacidade de pensar por conta própria. E como a situação
social é realmente muito delicada, acredito que a imaginação deva ser levada ao seu
grau máximo, de modo que o mundo organizado dos bons escritores possa deixar-se
recriar coerente e organizadamente na consciência dos leitores.3

A leitura é desenvolvedora do senso crítico. “C ada ser humano pode


encontrar nos livros um a ajuda para seu próprio desenvolvimento, para
construir seu senso crítico, e para atuar seletivamente com diversos m eios
de informação.”4 Senso crítico é a capacidade que um indivíduo tem de
criar sua própria opinião, independentem ente do conhecimento em píri­
co, inadequadam ente designado de vulgar ou de senso com um . Conform e
a definição de Cervo, Bervian e D a Silva sobre o conhecim ento empírico

[...] é aquele adquirido pela própria pessoa na sua relação com o meio ambiente ou
com o meio social, obtido por meio de interação contínua na forma de ensaios e ten­
tativas que resultam em erros e em acertos. D o ponto de vista da utilização de méto-

2 SILVA, Ezequiel Theodoro da. L eitura e R ealidade B rasileira. 5. ed. Porto Alegre: Mercado
Aberto, 1997, p. 75.
3 Idem, p. 14.
4 OLIVEIRA, 1993, p. 54 apud WITTER, 2004.

52
A Importância do Hábito de Leitura

dos e técnicas científicas, esse tipo de conhecimento — mesmo quando consolidado


como convicção, como cultura ou como tradição — é ametódico e assistemático. [...]
Pelo conhecimento empírico, a pessoa percebe entes, objetos, fatos e fenômenos e sua
ordem aparente, tem explicações concernentes à razão de ser das coisas e das pessoas.
Esse conhecimento é constituído por meio de interações, de experiências vivenciadas
pela pessoa em seu cotidiano e de investigações pessoais feitas ao sabor das circunstân­
cias da vida; é sorvido do saber dos outros e das tradições da coletividade ou, ainda,
tirado da doutrina de uma religião positiva.5

A leitura possibilita o confronto com a barbárie e com o sistem a se­


cular e eclesiástico de privilégios, existente na sociedade e introduzido na
igreja. Silva6 acredita que o exercício da leitura da palavra tem m uito a ver
com a conscientização e elevação do hom em brasileiro, em que pese a tra­
dição oral da n ossa sociedade e a forte influência, mais recente, de outras
linguagens para a circulação da cultura. Ele dá o seguinte testemunho:

Os meus discernimentos históricos mais profundos, as direções mais críticas da minha


práxis não surgiram ou surgem somente daquilo que ouvi ou vi, mas principalmente
daquilo que li. E ainda não consegui refutar as seguintes palavras: “Uma inestimável
vantagem da escrita é que ela força o escritor a fazer afirmações que podem, depois,
ser examinadas, analisadas e (...) avaliadas. A criticidade é, por natureza, inerente ao
veículo literário”.7

H á um a política chamada de lei-dura por Silva,s que intenciona m an­


ter o povo longe dos livros. Q uando bem selecionados e lidos, os livros
estim ulam a crítica, a contestação e a transformação, elementos que co­
locam em risco a estrutura social vigente e, no m eu entender, tam bém a
atual estrutura eclesial de vários setores da igreja evangélica brasileira, ca­
racterizada por um regime de privilégios e ditaduras.
A m edida que se torna um leitor crítico de textos e do mundo, o pastor se
habilita para, com mais propriedade, contextualizar a sua mensagem e servi­
ço. Andraus Junior & Santos “apontam que a leitura é um ato de compreen­
são da vida, propiciando o contato à distância com outras pessoas, grupos e
povos, além de fornecer conhecimento acerca do hom em e do m undo”.9

5 CERVO, Amado L.; BERVIAN, Pedro A.; SILVA, Roberto da. M etodologia científica. 6. ed. São
Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007, p. 6.
6 Ibidem, p. 34.
7 SM ITH , 1973, p. 48 apud SILVA, Ibidem.
8 Ibidem, p. 40.
9ANDRAUS JU N IO R & SANTOS, 1999 apud WITTER, 2004, p. 13.

53
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

1.2. A leitura como agente de apropriação dos bens culturais


O que são bens ou patrim ônio cultural? A Constituição da República
Federativa do Brasil, por m eio do Decreto-lei n ° 25 de 30 de novembro
de 1937, define em seu artigo I o que “Constitui o patrim ônio histórico
e artístico nacional o conjunto dos bens móveis e im óveis existentes no
País e cuja conservação seja de interesse público, quer por sua vinculação
a fatos m em oráveis da história do Brasil, quer por seu excepcional valor
arqueológico ou etnográfico, bibliográfico ou artístico”.
E sses bens materiais e imateriais que form am o patrim ônio cultural
brasileiro são, portanto, os m odos específicos de criar e fazer (as descober­
tas e os processos genuínos na ciência, nas artes e na tecnologia); as cons­
truções referenciais e exemplares da tradição brasileira, incluindo bens
im óveis (igrejas, casas, praças, conjuntos urbanos) e bens m óveis (obras
de arte ou artesanato); as criações imateriais com o a literatura e a música;
as expressões e os m odos de viver, com o a linguagem e os costum es; os
locais dotados de expressivo valor para a história, a arqueologia, a paleon­
tologia e a ciência em geral, assim com o as paisagens e as áreas de proteção
ecológica da fauna e da flora. Patrimônio, etim ologicam ente, significa “he­
rança paterna”, a riqueza com um que nós herdam os com o cidadãos, e que
se vai transm itindo de geração a geração, de pai para filho.
Silva10 entende a im portância da leitura para o desenvolvimento do
hom em , afirmando que tanto o nascim ento quanto a plenitude do racio­
cínio dependem do acúmulo de observações que nos foram legados pelo
próprio hom em , por meio da palavra oral e escrita. D ando prosseguim ento
às suas argum entações, afirma ainda ser a leitura vista com um a habilidade
hum ana que perm ite o acesso do povo aos bens culturais já produzidos e
registrados pela escrita e, portanto, com o m eio de conhecim ento e críti­
ca dos fatores históricos, científicos, literários, etc., e com o um dos m eios
m ais práticos, ao lado da palavra oral, de que o povo pode lançar m ão a fim
de com unicar e fazer valer as suas ideias, interesses e aspirações. “L er é um
ato de afirmação na sociedade.”

A leitura leva à aquisição da cultura, mas é a cultura que explica muito do que se lê,
não apenas o significado literal de cada palavra de um texto e, dessa forma, conforme
Cagliari (1989), uma pessoa que não conhece uma cultura tem dificuldade em ler tex­

10 SILVA, Ezequiel Theodoro da (org.) Leitura: perspectivas interdisciplinares. 5. ed. São Paulo:
Ática, 2005, p. 23.

54
A Importância do Hábito de Leitura
tos produzidos por seus membros; e para adquirir os conhecimentos dessa cultura,
quando possível, é interessante ler não só o que os outros disseram a respeito dela, mas
o que ela mesma produziu.11

D essa form a, um ministro evangélico precisa conhecer a sua cultura


para entender o que lê, e precisa ler para entender e se apropriar dos co ­
nhecim entos e bens culturais disponíveis. Sem a com petência em leitura,
afirma ainda Witter “fica restrito o acesso às inform ações relativas à vida
em sociedade, à cultura, à política, sendo o desenvolvimento, consequen­
temente, bastante prejudicado”.12

1.3. A leitura, o enriquecimento do vocabulário e da linguagem


Defini-se vocabulário com o o grupo de palavras conhecidas por um
indivíduo ou qualquer outra entidade, concreta (um grupo definido de
pessoas, por exemplo) ou abstrata (com o um grupo profissional ou social,
um a língua, um dialeto).
O vocabulário próprio de um a pessoa é com posto pelo conjunto de
term os linguísticos que esta é capaz de com preender ou, então, o conjunto
de palavras que esta é capaz de utilizar na form ação de novos textos.
A riqueza do vocabulário individual está diretamente relacionada com
o nível de educação e inteligência de um a pessoa. H á testes de inteligência
que utilizam questões relacionadas com o vocabulário do testando:

O aumento de vocabulário é uma meta educativa consagrada nos programas


escolares e nos objetivos de muitas pessoas que seguem diversos métodos
para consegui-lo. Enquanto algumas pessoas preferem aumentar o seu vo­
cabulário através da leitura de todo o gênero de livros (o que é, geralmente,
considerado o melhor método, já que a pessoa fica igualmente ciente do con­
texto em que as palavras são usadas), outros preferem formas mais lúdicas,
como teste do tipo “enriqueça o seu vocabulário”; outros, ainda, têm gosto
em consultar, aleatoriamente, dicionários e enciclopédias; existem serviços
que divulgam “uma palavra por dia” (“jvord-a-day”, em inglês), enviada por
e-mail ou em agendas eletrônicas.13

AUiende e C ondem arín entendem a im portância da leitura com o in­


dispensável para o enriquecimento do vocabulário do leitor:

11WITTER, Idem.
12 Ibidem.
13 http://pt.wikipedia.org/wiki/Vocabul%C3%A1rio

55
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA
Há ainda o fato de que a leitura é a grande fonte de incremento do vocabulário. Graças
às pistas dadas pelo contexto, o leitor pode incorporar sem dificuldades novas palavras
a seu léxico; a imagem gráfica da palavra serve de ajuda eficaz para a sua lembrança e
explica a correlação positiva que existe entre leitura e ortografia, tal como foi descrito
no primeiro item.14

C om o se pode perceber, em ambas as citações, a leitura ganha destaque


e relevância em term os de m eios para o enriquecimento do vocabulário.
E m term os de linguagem, Alliende e Condem arín15 afirmam que a lei­
tura dará suas contribuições nas suas mais diversas funções:

♦ Função Apelativa: E ssa função está presente, com certo destaque,


nos term os linguísticos que fazem uso do m odo imperativo e nas
diversas maneiras de dar ordens ou indicações. Encontrando-se
presente em todo texto escrito, por si m esm a se constitui numa
apelação ao leitor, um maneira de inter-relacionar-se com ele: p e­
de-lhe que desenvolva a atividade de ler.

♦ Função Normativa: Tal função está presente em textos que servem para
estabelecer regras e advertências. Os indivíduos, desde cedo, encon­
tram-se expostos às advertências, permissões e proibições, por meio
de placas e letreiros (ex: pare, siga, entrada, saída, sobe, desce, etc.).
Formas mais complexas dessa função são vistas na vida social por meio
das leis, regulamentos, decretos, regimentos. O desenvolvimento do
hábito de leitura fará com que o ministro evangélico tenha acesso às
obras que comentam e interpretam os principais textos normativos.

♦ Função Interacional: Essa função se relaciona com a tentativa do emis­


sor de obter, por meio da linguagem, uma determinada atividade do
destinatário ou produzir nele um determinado efeito. N a linguagem
escrita, esse tipo de função está presente em recados e mensagens
(convites, cartões de cumprimento ou felicitações, cartas, telegra­
mas, e-mails, etc.). Alguns textos publicitários ou de anúncios de
emprego, que possibilitam a interação entre pessoas e instituições,
combinam as funções informativas e interativas da linguagem.
14ALLIEND E, Filipe; CO N D EM ARÍN, Mabel. A leitura: teoria, avaliação e desenvolvimento. 8.
ed. Porto Alegre: Artmed, 2005, p. 20.
15 Idem, p. 17.

56
A Importância do Hábito de Leitura

• Função Instrumental: O corre quando a linguagem coopera para


orientar o leitor na realização de um a atividade ou no m anejo de
objetos. Pode-se perceber tal função nos textos instrucionais que
acom panham os jogos, nas receitas culinárias, nas bulas de m edi­
cam entos e nas fórm ulas de diferentes tipos. O desenvolvimento
tecnológico e a automação, fenôm enos m odernos que acentua­
ram a im portância de tal leitura, com, inclusive, m anuais que são
verdadeiros com pêndios literários.

♦ Função Heurística: É a função que permite à linguagem o acesso às


inform ações necessárias. A heurística pode ser definida com o:

Quando usada como substantivo, identifica a arte ou a ciência do descobrimento, uma


disciplina suscetível de ser investigada formalmente. Quando aparece como adjetivo,
refere-se a coisas mais concretas, como estratégias heurísticas, regras heurísticas ou
silogism os e conclusões heurísticas. Naturalmente que esses usos estão intimamente
relacionados, já que a heurística usualmente propõe estratégias heurísticas, que guiam
o descobrimento.16

A linguagem ou textos heurísticos são representados pelos questiona­


m entos e por algum as expressões de desejo. Em term os textuais, a form a
m ais com um dessa função são os questionários, que perm item a coleta
de todo tipo de informação. Em suas form as mais avançadas e com ple­
xas, m anifesta-se em certos textos de caráter reflexivo, que apresentam os
grandes problem as e dilemas que o ser hum ano deve enfrentar. Todas as
vezes que a linguagem escrita não se propõe a representar algo, nem p ro­
duzir algum tipo de interação, nem expressar sentimentos, m as formular
perguntas, dúvidas, consultas, buscas, problem as, explorações, indagação,
deparam o-nos com a função heurística.

1.4. A leitura como agente de desenvolvimento do intelecto


B am berger17 afirma que hoje em dia a pesquisa no cam po da leitura
definiu-se com o o ato de ler em si m esm o, com o um processo mental de
vários níveis que m uito contribui para o desenvolvimento do intelecto.
Para ele, a leitura é um a form a exemplar de aprendizado. É um dos m eios
m ais eficazes de desenvolvimento sistem ático da linguagem e da perso-
16h ttp ://pt.wikipedia.org/wiki/Heur%C3%ADstica
1 BAMBERGER, Richard. Com o incentivar o hábito de leitura. 7. ed. Ática/UNESCO, 2005, p. 10.

57
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

nalidade. A leitura favorece a rem oção de barreiras educacionais de que


tanto se fala, concedendo oportunidades m ais justas de educação, prin­
cipalmente por m eio da prom oção do desenvolvimento da linguagem e
do exercício intelectual, aum entando a possibilidade de norm atização da
situação pessoal do indivíduo.

1.5. A Biblioterapia
U m a abordagem interessante sobre o valor terapêutico da leitura foi
realizada p o r Witter (2004, p. 181).18 D esde a antiguidade a leitura é va­
lorizada pelo im pacto que prom ove no com portam ento das pessoas. O
term o Biblioterapia tem sua origem no latim biblio, qualquer material que
serve de suporte para o texto de leitura, e terapia, que se relaciona a pro­
cedim entos que buscam a solução de problem as biopsicossociais. D ois ra­
m os são contem plados: Biblioterapia Educacional ou de D esenvolvim en­
to e Biblioterapia Clínica.
A Biblioterapia de Desenvolvimento, realizada por meio de um trabalho
sistemático de leitura, tem com o finalidade promover o desenvolvimento
do ser em seus aspectos mais diversos, que incluem o conhecimento de si
próprio, o desenvolvimento de competências e de habilidades diversas.
A Biblioterapia Clínica, definida tam bém com o Patológica, possui
com o objetivo utilizar-se de técnicas associadas à leitura para resolver pro­
blem as biopsicossociais.
A s técnicas biblioterápicas são utilizadas desde o Egito Antigo. Ra-
m sés II tinha no frontispício de sua biblioteca a frase “R em édios para a
alma”.19 Entre os gregos e romanos, a leitura tam bém foi vista em seu papel
terapêutico.20 N a cultura muçulmana, trechos do Alcorão eram indicados
com o parte do tratamento médico. E m 1802, o m édico e pesquisador
Benjam im Rusch recom endou que nos E U A a leitura fosse utilizada com o
terapia para todos os doentes. C om o tem po a Biblioterapia ganhou espa­
ço em m uitos outros locais.
Atualmente, há um a am pla variedade de situações no uso da Bibliote­
rapia, sendo recom endada para os profissionais de psicologia que atuam
em instituições, com unidades ou consultórios. E necessário que tais p ro­
fissionais estejam atentos às pesquisas da área de leitura, pois dess forma
18WITTER, 2004, p. 181.
19ALVES, 1982 apud Ibidem, p. 182.
20 O RSIN I, 1982, M ARCINKO, 1989 apud Ibidem.

58
A Importância do Hábito de Leitura

obterão inform ações dos resultados acerca do im pacto da leitura sobre as


pessoas e de outros fatores.21

2. A L e it u r a n a Ó t ic a d e E s c r it o r e s C r ist ã o s

Dentre os autores cristãos, a im portância da leitura no exercício do


m inistério pastoral é descrita por Sanders22 com o essencial para o hom em
que deseja crescer, espiritual e intelectualmente. D iz ainda que o líder es­
piritual precisa ler:

2.1. Para obter avivametito espiritual e proveitoso


U m avivamento proveitoso e espiritual é aquele que nasce da leitura da
Bíblia, de bons livros e do mundo que nos cerca. Sem esses fundam entos o
avivamento tornar-se-á um mero evento transitório, emotivo e infrutífero.

2.2. Tendo em vista o estímulo mental


A leitura é instrum ento para o estímulo de novos pensam entos e
ideias. Alliende e Condem arín afirmam que a cultura letrada, ao m obili­
zar a linguagem do m undo oral auditivo para o m undo sensorial da visão,
transform a a com unicação oral e os esquem as cognitivos das pessoas.23
M acD onald diz que “o crescimento da mente torna possível que as p e s­
soas sirvam às gerações em que vivem [...]. Se desenvolvo a minha mente
posso fazer com que os outros cresçam”.24 U m obreiro aprovado é aquele
que sem pre procura estar com as ideias renovadas e organizadas.

2.3. Afim de obter cultivo de estilo


A qui a pregação e o ensino se destacam. A leitura da Bíblia associada à
leitura de bon s livros proporcionará um aumento do n osso vocabulário e
desenvolvim ento na arte da elocução incisiva e persuasiva.

2.4. Com vistas a adquirir informações


E m virtude do volume de inform ações em n ossa época, a leitura é um a
ferramenta essencial para o líder manter-se bem inform ado e atualizado.
21 W ITTER, Ibidem, p. 196.
22 SANDERS, J. OSWALD. Liderança espiritu al: os atributos que Deus valoriza na vida de ho­
mens e mulheres para exercerem liderança. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Mundo
Cristão, 1985, p. 90, 91.
23A LLIEN D E e CO N D EM ARÍN, 2005, p. 16.
24 M A CD O N A LD apud Habecker, 1998, p. 51.

59
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Sobre isso diz M endes que “a com unicação eficiente da Palavra de D eus
exige bons conhecim entos da língua pátria e da atualidade”.25

2.S. Afim de ter comunhão com as grandes mentes


D iz ainda Sanders que é possível manter com unhão com os m aiores e
m ais piedosos dos hom ens de todas as eras por meio de seus escritos. D e s­
sa forma, entende-se que é im possível avaliar o poder benéfico da leitura
de um sim ples livro, em todas as suas dim ensões.26
K essler é categórico ao afirm ar que “é m uito natural àquele que
se dedica ao m in istério ser am ante de livros”.27 A falta de organização
de um a bib lioteca, p o r qualquer razão, seja p o r negligência, falta de
con dições, seja p o r outros fatores, prom ove um prejuízo m uito grande
para a vida daquele que é responsável em prover alim ento sólid o e co n ­
sisten te para o rebanho. Em con trapartida, o que investiu ou investe na
form ação de um a b o a b ib lio teca “estará em vantagem m uito m aior ao
que n egligen ciou ”.28
Sobre a im portância da biblioteca e bons livros, M endes sugere: “O r­
ganize sua biblioteca própria com bons e selecionados livros de estudo e
leitura”.29 Leach alerta que:

Pregar a Palavra é responsabilidade primária do pastor. Tudo o que você puder fazer
para aprimorar suas habilidades é vitalmente importante. Formar uma biblioteca e
1er bons livros é essencial. E extremamente útil se desde o início do seu ministério
você organizar seus livros por um sistema simples [...]. É frustrante gastar tempo
precioso procurando por um livro que você sabe que tem em sua biblioteca.30

Afirm a ainda Kessler:

Desde a minha conversão tive o cuidado de comprar e comprar livros, fazer assinatu­
ras diversas de periódicos, mesmo que isso significasse a frustração de não lê-los inte­
gralmente. O hábito de certificar-me de seu conteúdo, ainda que ligeiramente, durante

25 M EN D ES, Jo sé Deneval. Teologia pastoral: a postura do obreiro é indispensável para o êxito no


ministério cristão. 9. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 44.
26 Idem, p. 96.
27 KESSLER , Nemuel. É tica p astoral: o comportamento do pastor diante de Deus e da sociedade.
6. ed. Rio de Janeiro: CPAD, 2000, p. 114.
28 Idem, p. 114.
20 M EN D ES, 1999, p. 44.
30 LEACH, William F. O pastor, seu gabinete e seu horário. In: TRA SK, Thomas E. et ali. O pas­
tor pentecostal: um mandato para o século XXI. Rio de Janeiro: CPAD, 1999, p. 70.

60
A Importância do Hábito de Leitura

mais de vinte anos, foi fundamental para que estas e outras obras fossem escritas ou
então em preparação para o prelo.31

Escrevendo sobre o preparo do ministro, M endes enfatiza a formação


cultural declarando que:

A dinâmica social está cada vez mais exigindo que os profissionais das mais diversas
áreas do conhecimento humano se preparem bem culturalmente. Por outro lado, as
igrejas estão cada vez mais atingindo pessoas das diferentes classes sociais. Portanto, o
ministro do Senhor Jesus Cristo não deve ser uma pessoa atrasada.32

A cultura secular, em bora importante, servirá apenas de ajudadora no


processo de com unicação da Palavra,33 nunca devendo, assim, substituí-la.
Erram aqueles que em nom e do seu desenvolvimento cultural, negligen­
ciam a leitura devocional e o estudo bíblico.
Sobre a im portância do hábito de leitura para a vida de um líder cris­
tão, H abecker é contundente ao declarar que “além disso, o líder deve ser
leitor ávido, tanto de assuntos pertinentes à liderança quanto de outros
com pletam ente fora de sua área, de autores seculares e cristãos. E, obvia­
mente, estou presum indo que esse tipo de leitura não substituirá a leitura
da Bíblia”.34

31 KESSLER , 2000, p. 115.


32 M EN D ES, 1999, p. 44.
33 Idem.
34 HABECKER. B. Eugene. R edescobrindo a alm a da liderança. Tradução de Denise Avalone.
São Paulo: Vida, 1998, p. 51.
4
A Im p o r t â n c ia da L e it u r a
pa r a a L id e r a n ç a no

C o n t e x t o B íb l ic o e C r ist ã o

leitura é um a prática recom endada exaustivamente na Bíblia. C o n ­


vém ressaltar que a leitura não era um a prática acessível a todos. A
educação, juntam ente com a possibilidade de ler e escrever, era privilégio
de poucos. Encontram os no texto sagrado tanto o exemplo com o a exor­
tação para que seja lido.

1. A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a n o An t ig o T esta m en to

M oisés, que teve toda a sua form ação acadêm ica no Egito (At 7.22),
recebeu a incum bência de escrever “todas as palavras do Senhor” (Êx
24.4), para depois ler diante do povo: “E tom ou o livro do concerto e o
leu aos ouvidos do povo, e eles disseram: T udo o que o Senhor tem falado
farem os e obedecerem os” (Êx 24.7). Sua grande capacidade levou-o a es­
crever o Pentateuco.
O s profetas foram pessoas, em b oa parte dos casos, que dominavam a #
escrita e a leitura, principalmente os cham ados profetas literários. O p ro­
feta Isaías esteve “ativamente envolvido na vida da corte” e era provavel­
mente filho de “um hom em proem inente”.1Afirma D ouglas que “segundo
a tradição judaica, era de sangue real; algum as vezes tem sido inferido, pe-

1PFEIFFER, Charles F.; VOS, Howard F.; REA, John. D icionário bíblico Wycliffe. Tradução de
Degmas Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2006, p. 284.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

las narrativas e oráculos de seu livro, que de qualquer m odo era m em bro
da fam ília real; todavia, não pode haver certeza quanto a isso ”.2 Para este
disse o Senhor: “Buscai no livro do Senhor e lede” (Is 34.16a). A capaci­
dade de ler e escrever fez com que Isaías fosse o autor de um dos maiores
volum es do Antigo Testamento.
Foram as com petências de Daniel e seus amigos, dentre as quais o sa­
ber ler, que fizeram com que os fossem selecionados para o treinamento
no palácio de N abucodonosor:

Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel,
e da linhagem real, e dos nobres, jovens em quem não houvesse defeito algum, formo­
sos de aparência, e instruídos em toda a sabedoria, e sábios em ciência, e entendidos
no conhecimento, e que tivessem habilidade para viver no palácio do rei, a fim de que
fossem ensinados nas letras e na língua dos caldeus. (Dn 1.3,4)

Foi ainda pela leitura que Daniel entendeu “que o número de anos, de
que falava o Senhor ao profeta Jerem ias, que haviam de durar as assolações
de Jerusalém , era de setenta anos” (D n 9.2).
Os sacerdotes, além da função prim ária de servir no santuário como
m ediador entre os hom ens e D eus,3 tam bém tinham a responsabilidade
de atuar com o m estres da lei, sendo dessa form a seu leitor e intérprete (Lv
10.10,11; D t 33.10; 2 R s 17.27,28; 2 Cr 15.3; 17.7-9; Jr 18.18; Ez 7.26;
44.23; M l 2.6,7). Esdras, o sacerdote, é um claro exemplo da im portância
dessa função sacerdotal:

E Esdras, o sacerdote, trouxe a Lei perante a congregação, assim de homens como de


mulheres e de todos os sábios para ouvirem, no primeiro dia do sétimo mês. E leu
nela, diante da praça, que está diante da Porta das Águas, desde a alva até ao meio-dia,
perante homens, e mulheres, e sábios; e os ouvidos de todo o povo estavam atentos ao
livro da Lei. E Esdras, o escriba, estava sobre um púlpito de madeira, que fizeram para
aquele fim; e estavam em pé junto a ele, à sua mão direita, Matitias, e Sema, e Anaías,
e Urias, e Hilquias, e Maaseias; e à sua mão esquerda, Pedaías, e Misael, e Malquias, e
Hasum, e Hasbadana, e Zacarias, e Mesulão. E Esdras abriu o livro perante os olhos de
todo o povo; porque estava acima de todo o povo; e, abrindo-o ele, todo o povo se pôs
em pé. E Esdras louvou ao Senhor, o grande Deus; e todo o povo respondeu: Amém!
Amém! — , levantando as mãos; e inclinaram-se e adoraram o Senhor, com o rosto em
terra. E Jesua, e Bani, e Serebias, e Jamim, e Acube, e Sabetai, e Hodias, e Maaseias, e

2 D O U G LA S, J. D. (org.). O novo dicionário da Bíblia. Tradução dejoão Bentes. São Paulo: Vida
Nova, 1988, p. 755.
3 PFEIFER; V O S; REA, 2006, p. 1713.

64
A Importância da Leitura p ara a Liderança no Contexto Bíblico e Cristão

Quelita, e Azarias, e Jozabade, e Hanã, e Pelaías, e os levitas ensinavam ao povo na Lei;


e o povo estava no seu posto. E leram o livro, na Lei de Deus, e declarando e explicando
o sentido, faziam que, lendo, se entendesse. (Ne 8.2-8)

O rei, em virtude de sua posição, deveria ser tam bém alguém letra­
do, tanto para escrever com o para ler o livro sagrado. E m D euteronôm io
17.18-20, encontram os as seguintes recom endações:

Será também que, quando se assentar sobre o trono do seu reino, então, escreverá para
si um traslado desta lei num livro, do que está diante dos sacerdotes levitas. E o terá
consigo e nele lerá todos os dias da sua vida, para que aprenda a temer ao Senhor, seu
Deus, para guardar todas as palavras desta lei e estes estatutos, para fazê-los. Para que o
seu coração não se levante sobre os seus irmãos e não se aparte do mandamento, nem
para a direita nem para a esquerda; para que prolongue os dias no seu reino, ele e seus
filhos no meio de Israel.

L er e escrever eram habilidades indispensáveis tam bém para a função


de secretário ou escrivão do rei. Conform e Vaux

Órgão indispensável do poder a partir de Davi, esse era, ao mesmo tempo, secretário
particular do rei e secretário de Estado. Ele redige correspondência externa e interna,
anota a soma das contribuições, 2 Rs 12.11; desempenha um papel importante nos
negócios públicos. E inferior ao administrador do palácio: Sebna, que ocupava esse
último posto, Is 22.15, é rebaixado ao de secretário, Is 36.3, etc., mas ele vem imedia­
tamente depois do administrador do palácio em 2 Rs 18.18s, e a missão que ambos
realizam em conjunto põe em jogo a sorte do reino.; Is 36.3s.4

Dentre os secretários ou escrivães do rei que se destacaram, encon­


tram os a figura de Safã, “um proem inente oficial na corte do rei Jo sia s”.5
Safã leu o livro da lei após recebê-lo do sacerdote H ilquias, tom ando em
seguida a decisão de levá-lo ao rei.

Então, disse o sumo sacerdote Hilquias ao escrivão Safã: Achei o Livro da Lei na Casa
do Senhor. E Hilquias deu o livro a Safã, e ele o leu. Então, o escrivão Safã veio ao rei, e
referiu ao rei a resposta, e disse: Teus servos ajuntaram o dinheiro que se achou na casa
e o entregaram na mão dos que têm o cargo da obra, que estão encarregados da Casa
do Senhor. Também Safã, o escrivão, fez saber ao rei dizendo: O sacerdote Hilquias me
deu um livro. E Safã o leu diante do rei. Sucedeu, pois, que, ouvindo o rei as palavras do
livro da Lei, rasgou as suas vestes. (2 Rs 22.8-11)

4 VAUX, R. De. Instituições de Israel no Antigo Testamento. São Paulo: Teológica: 2003, p. 162.
5 PFEIFER; VOS; REA, 2006, p. 1728.

65
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

E ssa ação de Safã foi de fundam ental im portância para a consolidação


da reform a prom ovida pelo re ijo sias (2 Rs 23.1-25; 2 C r 34— 35).

2 . A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a n o N o v o T e st a m e n t o
E pela vida e m inistério do apóstolo Paulo que fica claro que a lei­
tura na vida de um líder cristão não deve limitar-se à Bíblia. Escrevendo
em 2 T im óteo 4.13 ele diz: “Q uando vieres, traze a capa que deixei em
Trôade, em casa de Carpo, e os livros, principalm ente os pergam inh os”.
Foi em razão do conhecim ento adquirido pela leitura de diversas obras
que Paulo soube contextualizar esses escritos em algum as situações por
ele vivenciadas.
Q uando esteve em Atenas, durante a sua segunda viagem missionária,
ao ser inquirido acerca de sua m ensagem pelos filósofos epicureus e es-
toicos (At 17.18-20), durante sua argum entação fez as seguintes citações:
“Porque nele vivem os, e nos m ovem os, e existim os” (At 17.28a). French
e Stronstad6 com entam : “Sua prim eira citação é presumivelmente retirada
do poeta e filósofo cretense Epim ênides (século V I a.C .)”. Sobre essa p as­
sagem escreve W illiams:

Há alguma dificuldade de identificar a fonte. Um autor siríaco do nono século d.C.,


Ishodade, atribuiu o poema a Minos, de Creta, e identifica as palavras de Paulo em Tt
1.12 como a citação da mesma fonte."

A segunda citação em A tos 17.28, “Pois som os tam bém sua geração”, é
conform e French e Stronstad,8 atribuída ao poeta Ciliciano Arato (século
III a.C.). Sobre isso observa W illiams

Esse segundo verso é citação de uma obra do poeta ciliciano Arato (cerca de 315 a.C.),
intitulado “phaenomena”. Entretanto, um verso semelhante encontra-se em Cleantes
(cerca de 330-231 a.C.). A referência de Paulo a “vossos poetas” pode ser o reconheci­
mento desse fato, a menos que a referência movimente-se para trás e para a frente, no
tempo, de modo que inclua as palavras de Epimênides.9

6FRENCH, ArringtonL.; STRONSTAD, Roger. Com entáriobíblicopentecostal: Novo Testamento.


Tradução de Luís Aron de Macedo e Degmar Ribas Júnior. Rio de Janeiro: CPAD, 2003, p. 731.
' W ILLIAMS, David J. Novo com entário bíblico contem porâneo: atos. Tradução de Oswaldo
Ramos. São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 338.
8 FREN CH , Arrington L.; STRONSTAD, Roger, 2003, p. 731.
9 W ILLIAM S, David J. Novo com entário bíblico contem porâneo: atos. Tradução de Oswaldo
Ramos. São Paulo: Editora Vida, 1996, p. 339.

66
A Importância da Leitura p ara a Liderança no Contexto Bíblico e Cristão

Outro caso de citação de literatura secular encontra-se em Tito 1.12:


“U m deles, seu próprio profeta, disse: O s cretenses são sem pre m entiro­
sos, bestas ruins, ventres preguiçosos”. French e Stronstad afirmam que tal
citação se refere a Epim enides de Cnosso, em Creta, um ensinador de re­
ligião e adivinho, que viveu aproxim adam ente em 305-240 a.C.10 Keener
confirma a opinião dizendo que “a declaração que Paulo cita era atribuída
a várias fontes, a m ais antiga sendo do sexto século a.C., o mestre Epimê-
nides de K nossos em Creta”.11
Fica, dessa forma, evidenciado pelos relatos bíblicos aqui citados que
a leitura, tanto do texto sagrado com o de outras obras, é de fundam ental
im portância na vida daqueles que foram cham ados por D eus para realizar
a sua obra, principalm ente para os líderes evangélicos.

3. A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a e n t r e o s Pa is d a I g r e ja
O s Pais da Igreja eram leitores insaciáveis e escritores prolíficos.12 O
título cristão honorífico de “Pai/Padre” envolve um a série de imagens per­
tencentes ao acervo cultural humano, ao Antigo Testam ento e ao m undo
greco-rom ano:

o pai como gerador da vida e como cabeça da família, a quem compete igualmente o
cuidado por ela como também a tarefa de dirigi-la com sua autoridade, como guardião
e mediador da experiência e da tradição e por isso como autêntico mestre, também e
sobretudo da fé. O paterfamilias romano é o sacerdote do culto doméstico; os genito­
res, na compreensão do Antigo Testamento, são os representantes de Deus na família,
os patriarcas são os guardiães da promessa e os fiadores da graça da aliança com Deus
(cf. Eclo 44-50; Lc 1,55).13

C onform e Drobner, “esse conceito natural de pai se estendeu a os


Pais’ (os antepassados) com o tam bém ao “pai espiritual” ou “intelectual”
e “eclesiástico” (o mestre, o diretor de um a escola de filosofia, o rabino)”.14
N esse sentido, os apóstolos de C risto (cf. 1 C o 4.14) e os bispos da Igreja
são tidos com o pais dos crentes. N um a perspectiva católica, eles no b a -'

10 FR E N C H e STRONSTAD, 2003, p. 1510.


11 K EN N ER , Craig S. C om entário bíblico Atos: Novo Testamento. Tradução de José Gabriel
Said. Belo Horizonte: Atos, 2004, p. 656.
12 FISC H ER , Steven Roger. H istó ria da leitura. Tradução de Claudia Freire. São Paulo: Editora
U N ESPE, 2006, p. 82.
13D RO BN ER, Hubertus. M anual de Patrologia. Tradução de Orlando dos Reis e Carlos Almeida
Pereira. Petrópolis, RJ: Vozes, 2003, p. 11.
14 Idem.

07
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

tism o são os “criadores da nova vida, no anúncio e na exposição da fé são


os m estres e educadores e com o dirigentes da com unidade são as autori­
dades e os guardiães da ‘família’”.1'' D essa forma, a Igreja Antiga, a partir
do século IV, atribuiu o título de Pai exclusivamente aos bispos, para só
a partir do século V aplicá-lo tam bém aos sacerdotes e aos diáconos. Até
os dias de hoje, em m uitas línguas o sacerdote é cham ado de “pai” (pater;
father, père, padre).
Epifânio (c. 310-20 - 403 d.C), B ispo de Constância (a antiga Salami-
na, hoje Fam agusta), na costa oriental de Chipre, conferiu dois mil títulos
originais à O rigem de Alexandria (185-254 d.C.).
Jerônim o (c. 342-420 d.C.), natural de Veneza, secretário de Dam aso,
bispo de R om a (em 382 d.C.), responsável pela tradução latina da Bíblia
(Vulgata), listava os próprios oitocentos títulos de Epifânio.
A m brósio (340-397), bispo de M ilão e mestre de Agostinho, é
descrito por seu discípulo da seguinte forma:

quando ele estava lendo, seus olhos atentamente corriam as páginas e seu coração
buscava o sentido, mas sua voz permanecia em silêncio. Muitas vezes, quando está­
vamos presentes... ( sic) ainda víamos lendo sozinho, nunca de outra forma... (sic)
M as qualquer que fosse seu propósito naquele ato, aquele homem certamente tinha
uma boa intenção.16

Agostinho (354-430 d.C.), Bispo de H ipona, foi um dos m ais influen­


tes leitores no Ocidente. Ele afirmava que as letras do alfabeto constituíam
“sím bolos de son s” que eram “sím bolos das coisas que pen sam os”. Tais
letras haviam sido criadas para que pudéssem os conversar até com o au­
sente. Agostinho,

Em um m omento de grande inquietação pessoal [...] lia em voz alta as epístolas de


Paulo para o amigo Alípio em seu jardim de verão, afastou-se para chorar sozinho
e escutou, por acaso, uma criança entoando o refrão tolle, lege ( “recomponha-se e
leia”). Inspirado, Agostinho voltou até Alípio para apanhar o livro e ler sozinho,
em silêncio — e a “som bra da dúvida” se dissipou. Quando Alípio questionou o
amigo sobre o que o comovera, Agostinho, que havia fechado o livro marcando-o
com um dedo, abriu na página e Alípio leu, dessa vez em voz alta, não o trecho
escolhido por Agostinho, mas uma passagem m ais adiante, a qual comoveu Alípio
com igual intensidade.17

15 Ibidem.
16A G O ST IN H O apud Ibidem.
17A G O ST IN H O apud Idem.

68
A Importância da Leitura p ara a Liderança no Contexto Bíblico e Cristão

Agostinho foi educado para se tornar um mestre da oratória. A aridez


de sua instrução fez com que provavelmente tivesse lido poucos autores
clássicos, dentre os quais: Virgílio, Cícero, Salústio e Terêncio. O ensino
era exclusivamente literário. D isciplinas com o filosofia, ciência e história
era praticam ente ignoradas.18

4 . A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a n o P e r ío d o M o n á s t ic o
D urante o m onasticism o, m ovim ento com suas origens no século IV,
quando um núm ero cada vez m aior de leigos com eçou a se ausentar do
mundo, renunciando a sociedade em favor do claustro,19 o hábito de leitu­
ra teve tam bém o seu devido valor.
N oll chega a afirmar que “depois da com issão de C risto aos seus
discípulos, o surgim ento do m on asticism o foi o m ais im portante — e
de m uitas m aneiras o m ais benéfico — acontecim ento institucional da
história do cristianism o”.20 A influência do m on asticism o na igreja pode
ser claram ente percebida na tradução bíblica de Jerôn im o (c. 342-420),
nos hinos com postos por G regório (c. 540-604) e Bernardo de Clavaral,
na teologia de A gostinho (3 5 4 -4 3 0 ) e T om ás d eA q u in o (c. 1225-1274)
dentre outros feitos.
N esse período a leitura se destaca, já que todo m onge cristão deveria
investir várias horas do dia à leitura das Escrituras. Diz-nos Fischer (2006,
p. 85) que 1“um grande colaborador na institucionalização emergente da
leitura foi são Benedito de N úrsia ou São Bento (c. 480-c. 547), que fun­
dou um m onastério em M onte Cassino (c. 529), em um a m ontanha entre
N ápoles e R om a”. O s beneditinos seguiam regras rígidas que incluíam a
prática da leitura conform e abaixo:

Durante as refeições dos irmãos, sempre deverá haver leitura; ninguém deve se atrever
a apanhar o livro aleatoriamente e lá começar a ler; mas ele que deverá fazer a leitura
durante a semana toda deve iniciar suas obrigações no domingo. E, iniciando sua tarefa
após a Missa e a Comunhão, ele deve pedir a todos que rezem por ele, para que Deus o
desvie do espírito de júbilo. E esse verso deve ser repetido três vezes por todos, sendo
porém que ele deve iniciar: “Oh! Deus, abra meus lábios e minha boca irá exprimir o
vosso louvor”. E assim, tendo recebido a bênção, ele deverá dar início às suas obriga­

18 BROWN, Peter. Santo A gostinho: uma biografia. Rio de Janeiro: Record, 2005, p. 42.
19 CAIRNS, Earle E. O cristianism o através dos séculos: uma história da igreja cristã. Tradução
de Israel Belo de Azevedo. 2. ed. São Paulo: Vida Nova, 1988, p. 122.
20 N O LL, Mark A. M om entos decisivos na h istória do cristianism o. São Paulo: Cultura Cristã,
2000, p. 90.

69
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA
ções como leitor. E deverá ser feito silêncio absoluto à mesa, de modo que nenhum
sussurro ou voz, exceto a do leitor, sejam ouvidos. E tudo o que for necessário, quanto a
alimentos, deverá ser passado entre os irmãos, para que ninguém precise pedir nada.21

E ssa regra, designada de Regula monachorum de Benedito, tornou-se


padrão de todas as ordens m onásticas da cristandade ocidental. Narra-nos
ainda Fischer22 que no período da quaresm a todo m onge era obrigado a
ler um volume completo. A s viagens eram ocasiões em que os m onges le­
vavam consigo pequenos livros. Foi tam bém estabelecida um a maneira de
ler, segundo a qual o m onge seguraria os livros que estivesse lendo com a
m ão esquerda envolta na m anga de suas túnicas e apoiando-os no joelho;
a m ão direita deveria ficar descoberta para segurar e virar as páginas.

5. A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a p a r a o s R efo r m a d o r es

Tratando-se dos reform adores, nos deterem os na análise dos hábitos


de leitura d eL u tero (1483-1546) e Calvino (1509-1564).
Martinho Lutero foi sem dúvida um “devorador” de livros. Tal declaração
está implícita na forma com que foi educado. Conforme Lienhard,23 sua for­
mação escolar ocorreu em três etapas. De 1488 a 1497, frequentou a escola
municipal de Mansfield, onde aprendeu os rudimentos do latim, o canto e as
expressões básicas da fé cristã (os Dez Mandamentos, O Pai Nosso, a Ave M a­
ria e o Credo). De 1497 a 1498, estudou na escola latina de Magdeburgo. De
1498 a 1501 estudou em Eisenach, na escola de São Jorge, que ensinava as três
disciplinas fundamentais da gramática, da retórica e da dialética.
E m 1501 Lutero com eçou seus estudos universitários em Erfurt, re­
conhecida com o um a das principais universidades alemãs da época.24 “A
faculdade de Direito à qual o pai de Lutero o encam inhou tinha um a b oa
reputação”.25 Era de costum e que se iniciasse nos estudos na Faculdade de
Artes por três anos. O currículo se concentrava em torno da teologia e da
filosofia, que ainda era escolástica. “A prendeu um pouco de grego e m enos
hebraico, porém leu os principais clássicos latinos”.26 E m 1502 tornou-se

21 BETTENSON, 1963 apud Idem.


22 Fischer, 2006, p. 86.
23 LIENHARD, M arcM artim Lutero: tempo, vida, mensagem. São Leopoldo: Sinodal, 1988, p. 31-38.
24 Idem, p. 32.
25 Ibidem.
26 DURANT, Will. A R eform a: uma história da civilização europeia de Wyclif a Calvino: 1300-
1564. Tradução de Mamede de Souza Freitas. 3. ed. Rio de Janeiro: Record, 2002. V. 6, p. 287.

70
A Importância da Leitura p ara a Liderança no Contexto Bíblico e Cristão

bacharel, perm itindo-lhe ensinar aos principiantes a gramática, a retórica


e a lógica. N o dia 7 de janeiro de 1505 recebeu o grau de mestre em artes.
Iniciou no m esm o ano o estudo de Direito, para após dois m eses desistir
e optar pela vida m onástica, em decorrência do “livramento” que recebeu
quando em m eio a um a tem pestade, em que quase foi atingido por um
raio, o que o levou a fazer um voto a Santa A na de que se sobrevivesse a
essa tem pestade tornar-se-ia m onge.27 N o dia 17 de julho de 1505, aos 22
anos, ingressou no m osteiro dos agostinianos de Erfurt, para desgosto do
pai. N o seu preparo para o exercício do sacerdócio estudou um manual
sobre a celebração da m issa, do fim da Idade M édia, intitulado de Cano-
nis M issae Expositio, de Gabriel Biel, que continha 89 lições abordando o
conjunto de problem as teológicos e pastorais colocados pela celebração
da m issa.28 A 27 de fevereiro de 1507 foi consagrado diácono, e a 3 de
abril ordenado sacerdote. Em 2 de m aio celebrou sua prim eira m issa com
a presença de seu pai.
C om o monge, em um a de suas prédicas de 1534 afirmou:

Fui monge por 15 anos, sem contar o que tinha vivido antes. Li com zelo todos os seus
(s/c) livros e fiz tudo quanto estava ao meu alcance. Em nenhum momento consegui
achar consolo em meu batismo; ao contrário, pensava continuamente: Ó, quando fi­
nalmente poderás tornar-te piedoso e fazer o suficiente, para teres um Deus misericor­
dioso? Através de pensamentos como esses, fui incitado através do jejum, do frio e da
vida severa.29

N o artigo intitulado “Lutero: M onge Agostiniano” é informado que du­


rante seus anos como monge ele aprendeu o estilo de vida do mosteiro. O cu­
pando um a pequena cela sem esquecimento, de aproximadamente 2,13m x
3,04m, tendo por mobília uma mesa, uma cadeira e uma cama de palha.
Lutero aprendeu a passar com duas refeições po r dia, ou um a apenas,
se fosse dia especial de jejum. Em sua cela, nos diz ainda o referido artigo,
“passava longas horas em oração, leitura e m editação profunda. A ssim pas-,
sou-se o ano do noviciado, e Lutero parecia ter obtido a paz de espírito”.
N o verão de 1507 Lutero com eçou seus estudos de teologia, estudan­
do as Sentenças de Pedro Lom bardo com o auxílio de um com entário de
Gabriel Biel, o Collectaneum, e das Questiones de Guilherm e de O ccam e
2 Idem, p. 288.
28 LIENHARD, Ibidem, p. 36.
29 Ibidem, p. 35.

71
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

de Pedro dAilly. Serviu-se da Glossa ordinária para a interpretação da E s­


critura Sagrada, que se tratava de um a com pilação de textos de pais da
Igreja estabelecida no século XII. “Em março de 1509, tornou-se bacharel
em Bíblia na faculdade de W ittenberg”.30 Retornou no m esm o ano para
Erfurt, onde ministrava cursos acerca das Sentenças de Pedro Lom bardo,
para no verão de 1511 retom ar de form a definitiva para W ittenberg, onde
relutante iniciou seu doutorado em teologia, obtendo esse grau em 1512,
passando a com entar a Bíblia para os estudantes da Faculdade de Teologia
de W ittenberg. Suas intensas leituras o transformaram num profícuo es­
critor, com várias obras publicadas.
C om o se pode perceber, a vida acadêm ica e teológica de Lutero foi
m arcada por m uitos estudos e muitas leituras, elementos indispensáveis
para a form ação não apenas de um sacerdote ou ministro religioso, mas
para o desenvolvimento de um a mente crítica e questionadora, essencial
para prom over transform ações necessárias em qualquer círculo ou seg­
mento da vida em sociedade.
N ão muito diferente de Lutero, os hábitos de leitura de Jo ão Calvino
estavam diretamente relacionados com os seus estudos. Seus prim eiros
anos escolares foram no Colégio dos Capetos, em Noyon, França, assim
conhecido por causa do capuz usado pelos alunos. N essa escola Calvino
tom aria as prim eiras lições de latim e preparar-se-ia para os estudos em
níveis m ais elevados na Universidade, em Paris.
E m Paris, foi aluno de M arthurin Cordier, mestre do latim e do fran­
cês, elegante estilista e pedagogo.31 D o Colégio de L a Marche, Calvino foi
para M ontaigu, com o objetivo de atender aos desejos de seu pai, de vê-
lo seguir a carreira eclesiástica. N esse m esm o colégio estudo Erasm o de
Roterdan.
E m M ontaigu ele se tornou versado na Teologia de Tom ás de Aquino,
de Agostinho, dejerô n im o e outros grandes nom es do passado.

Quando mais tarde, nas grandes polêmicas que enfrentou, Calvino revelou um co­
nhecimento enorme dos pais da Igreja, era capaz de citar com facilidade e absoluta
propriedade e precisão estes vultos do passado, bem como filósofos, surpreendendo
amigos e adversários.32

30 Ibidem, p. 36.
31 FERREIRA, Wilson Castro. Calvino: vida, influência e teologia. Campinas, SP: LPC, 1985, p. 39.
32 Idem, p. 41.

7Q
A Importância da Leitura p ara a Liderança no Contexto Bíblico e Cristão

E ssa bagagem de saberes e conhecimentos, sem dúvida alguma, foi


resultado de m uitos anos de leituras e pesquisas. Cardier, biográfo de Cal-
vino, relata que Luchesius Sm its descobriu 1700 citações de Agostinho e
m ais 2400 referências a ele nos escritos de Calvino.33
E m 1528, aos 19 anos de idade, ao terminar o seu curso de Artes, Cal-
vino deixou o Colégio de M ontaigu para iniciar os estudos de Direito em
Orleans e Bourges. M esm o deixando Orleans sem com pletar o curso, por
voto unânim e lhe é conferido o grau de doutor. “N a ânsia de dom inar co­
nhecim entos esotéricos e teorias fascinantes, lia até altas horas da noite”.34
D e retorno para Paris, no colégio Real, dedica-se aos estudos dos clás­
sicos, am plia os seus conhecim entos de grego e inicia o aprendizado do
hebraico.
Sua estreia com o escritor se deu em abril de 1532, com o seu “C om en ­
tário de Sêneca”, ou “Tratado de Clem entia”. Sua m aior contribuição à fé
reform ada foram as suas Institutas. “Calvino nunca deixou de estudar, de
ler, investigar”.35

6. A Im p o r t â n c ia d a L e it u r a n o P e r ío d o d o s R e a v iv a m e n t o s

e d a s M is s õ e s M o d ern a s

A leitura teve papel im portante na vida de grandes hom ens de D eus


no período m oderno. D avid Brainerd (1718-1747 ), conform e Edw ards,36
escrevendo sobre sua própria vida afirmou ter se tornado frequente, cons­
tante e fervoroso em oração e tam bém se deleitava na leitura, sobretudo
do livro do Sr. Janeway, Tokemfor Children (um livro para crianças).
George diz sobre W illiam Carey (1761-1834):

William era visivelmente uma criança precoce, acostumado, como ele lembrou mais
tarde, “a ler as Escrituras desde a infância”. Em 1815 seu pai lembrou que “quando me­
nino ele sempre estava desejoso de aprender”. Além da Bíblia, ele lia livros de aventura,
ciência e história. E como Charles Spurgeon, seu grande admirador no século seguinte,
tinha como favorito O Peregrino de John Bunyan, apesar de gostar dele inicialmente só ,
como um “romance” lendo-o por isso “sem propósito”.37

33 CARDIER, 1961, p. 22 apud Ibidem, p. 42.


34 DURANT, 2002, p. 383.
35 FERREIRA, Idem, p. 48.
36 BRAINERD apud EDWARDS, Jonathan. A vida de D avid Brainerd. S. José dos Campos, SP:
Fiel, 1993, p. 12.
37 GEORGE, Timothy. Fiel testem unha: vida e obra de William Carey. Tradução de Hans Udo
Fucs. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 29.

73
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

Sanders38 afirma que Jo h n W esley tinha um a verdadeira paixão por


leitura. Durante suas viagens a cavalo, lia com profundidade um a variada
classe de assuntos. Possuía o hábito de viajar com um volum e de ciências,
ou de história, ou de m edicina enfiado no bolsão da sela e, assim, devorou
m ilhares de livros

Três grandes livros dominaram a mente de Wesley, e seu coração, durante seus dias em
Oxford, em seguida ao Novo Testamento Grego. Foi mais ou menos nesta época que ele
começou a estudar com afinco. A Imitação de Cristo, Viver e Morrer em Santidades A Séria
Chamada. Estes três livros tornaram-se, de verdade, seus guias espirituais. Ele dizia aos
jovens pregadores das sociedades wesleyanas que deviam 1er ou deixar o ministério!

A. W. Tozer (1897-1963), um pastor protestante americano, pregador,


escritor, editor, conferencista e m entor espiritual, é citado por Sanders,
onde afirma

Por que o crente de hoje acha que a leitura de grandes livros está além dele? Certamen­
te os poderes intelectuais não diminuem, de uma geração para outra. Som os tão aptos
como nossos pais, e nós também podem os nutrir qualquer ideal que pudessem, se esti­
vermos suficientemente interessados em promover o esforço nesse sentido.39

Grandes hom ens de D eus do passado e do presente foram leitores dis­


ciplinados, que percebiam na leitura um a im portante ferramenta de apoio
aos seus m inistérios.

38 SANDERS, J. OSWALD. Lideran ça e spiritu al: os atributos que Deus valoriza na vida de ho­
mens e mulheres para exercerem liderança. Tradução de Oswaldo Ramos. São Paulo: Mundo
Cristão, 1985, p. 90.
39 TO Z E R apud SANDERS, Idem.

74
5
O D esen v o lv im en to do H ábito
de L eitu ra para os L íderes
C ristãos n a A tu a lid a d e

A
necessidade, os benefícios e o incentivo para a prática constante da
leitura por parte dos líderes cristãos podem ser observados por m eio
de um a análise histórica e bíblica, com o tam bém de algum as leituras da
realidade contem porânea.

1. A ç õ es N e c e s s á r ia s p a r a o D e s e n v o l v im e n t o d o H á b it o d e

L e it u r a

Incentivar e desenvolver o hábito de leitura requer algum as ações além


da tom ada de consciência sobre sua im portância. Dentre algum as ações a
serem tom adas, Babauta cita:1

* Definir o tempo. Estabelecer os m om entos durante o dia para ler é


um bom começo. Se, por exemplo, você definir que durante o dia
terá quatro m om entos de leitura de 15 m inutos cada, no final do*
dia terá lido por 1 hora. A pós a fase inicial, de minutos, se passará
a horas de leitura por dia.

♦ Levar sempre consigo um livro. O livro deve ser um constante com ­


panheiro. A o sair de casa, certifique-se de que está levando um li-
1 BABAUTA, Leo. 14 M aneiras de cultivar o hábito de ler. Disponível em < http://skribit.com /
widget.html>, 2007. Acesso em 23/09/2009.
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

vro. D eixe sem pre um livro no escritório, no gabinete pastoral ou


no carro. D urante algum as ocasiões de espera (filas, atendimento
médico, etc.) ou viagens (ônibus, trem, avião, etc.), um livro será
um parceiro m uito interessante.

♦ Fazer uma lista. M antenha um a lista de todos os b on s livros que


você deseja ler. E ssa lista p o d e ser feita num a agenda, num ca­
derno, num arquivo no com putador, etc. Atualize-a sem pre que
ouvir algum a b o a dica. À m edida que for lendo as obras, risque-
as na lista.

♦ Encontrar um local tranquilo. N em todos conseguem ler em meio


ao barulho ou grande m ovimentação. N esses casos, é aconselhável
buscar um lugar tranquilo para a leitura onde não haja interrup­
ções, longe de T V e com putador para evitar as distrações, e do
barulho de crianças e pessoas em geral.

♦ Reduzir o aceso à internet e TV. A não ser para leituras, inform ação
e atividades indispensáveis, cada minuto reduzido no acesso à in­
ternet e no tem po diante da T V poderá se transform ar em m uitas
horas de tem po de leitura.

♦ Ler para os filhos. À m edida que se lê para os filhos, o prazer pela


leitura pode ser neles despertado, ao m esm o tem po em que se
exercita essa prática. O exemplo dos pais com o leitores é singular.
E im portante permitir, na m edida do possível, que os filhos, sob a
devida supervisão dos pais ou responsáveis, escolham o que ler.

♦ Visitar lojas de livros usados. N ão apenas as grandes e boas livra­


rias devem ser visitadas com regularidade, m as as lojas de livros
usados tam bém . L á é possível conseguir boas obras, com grandes
descontos e em boas condições de conservação.

♦ Estabelecer metas de leitura. U m b om planejam ento do tem po fará


com que m etas de leitura elevadas possam ser estabelecidas ao
longo do ano. Cinco, dez, vinte livros poderão ser lidos, não se

76
0 Desenvolvimento do Hábito de Leitura p ara os Líderes Cristãos na Atualidade

esquecendo de que não é apenas a quantidade, m as a qualidade


com que se lê que im porta.

Eikenberry acrescenta ainda:2

♦ Ouvir quando não puder ler. H á grandes versões de livros em áudio


que podem ser ouvidas no carro ou com o uso de aparelhos de
M P3. E ssas versões podem ser adquiridas em livrarias ou baixadas
pela internet em diversos formatos.

♦ Aderir a um grupo de leitura ou clube do livro. O s grupos de leitura


se reúnem geralmente um a vez por m ês para discutir o livro que
decidiram ler. O s m em bros do grupo motivam-se entre si para ter­
minar o livro, culminando com um bom m om ento de discussão e
socialização de críticas e conhecimentos.

♦ Visitar bibliotecas. A s bibliotecas são excelentes espaços de leitura. A


grande diversidade de livros, agregado ao ambiente propício, possi­
bilitará um a condição adequada para o cultivo do hábito de ler.

Outras possibilidades e m eio para o desenvolvimento do hábito de


leitura podem ser:

♦ Criar salas (espaços) de leitura nas igrejas. Pastores, líderes e m em ­


bros de igrejas podem se unir para a criação de um a sala de lei­
tura na igreja. Para isso se faz necessário um a m obilização para a
aquisição de livros por com pra ou doações, de estantes, m esas e
cadeiras. O ambiente deve ser bem ilum inado e fresco. E ssas salas
de leitura devem tam bém contem plar as crianças, com cantinhos
de leitura devidam ente adaptados às suas condições.

♦ Participar de eventos que promovam a leitura. Participar de rodas de


leitura, feiras de livros, palestras e outras atividades semelhantes
são tam bém um fator positivo para o cultivo do hábito de ler.

2EIKENBERRY, Kevin. D ez m aneiras de fortalecer seu hábito de leitura, 2009. Disponível em


< http://ezinearticles.com >, 2002. Acesso em 23/09/2009.

77
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

♦ Investir na formação escolar; acadêmica e continuada. C om o já se


pode perceber, ler é mais do que a decodificação de sím bolos. Ler é
compreender. À m edida que se avança na formação escolar, acadê­
mica e continuada, mais competências para a leitura se adquirem.

♦ Planejar o orçamento pessoal. Sem um b om planejam ento pessoal,


não haverá recurso financeiro disponível para o investimento na
aquisição de livros e de outras obras e recursos literários. O que
m uitas vezes se chama da falta de recursos, na verdade, é falta de
boa administração.

A s ações acim a são esforços conjuntos que transformarão a indiferen­


ça em desejo de ler, e o desejo em possibilidade e realidade concreta.

2. Os T i p o s d e L e it u r a

Tendo por base os diversos níveis de conhecim ento do leitor, e a for­


m a com o este utiliza esses conhecim entos, M atos3 classifica os tipos de
leitura em:

. Leituras de inform ação (jornais, revistas de divulgação);


Leituras de passatem po (revista em quadrinhos, rom ances);
♦ Leituras literárias, de gosto estético, leitura de form ação pessoal
(Bíblia);
Leituras acadêm icas, com um a linguagem científica, clara, precisa
e objetiva, que têm com o objetivo a instrução sistemática.

E m term os de geração de n ovos con hecim en tos, M ato s4 afirm a


que as leituras acadêm ica e literária ganham m ais im po rtân cia sobre
as dem ais.

3. C om o A p e r f e iç o a r a P r á t ic a d a L e it u r a

Para o seu desenvolvimento, o líder precisa ler constantemente. Salo-


m on relata que:
3 MATOS, 1994 apud COSTA, Patrícia. H ábito de leitura e com preensão de textos: uma análi­
se da realidade de pós-graduados em Administração. Dissertação (mestrado em Administração).
Universidade Federal de Sta. Maria: Santa Maria, RS, 2006, p. 43.
4 Idem.

78
O Desenvolvimento do Hábito de Leitura p a ra os Líderes Cristãos na Atualidade

Investigações já foram feitas e concluíram que o sucesso nas carreiras e atividades do


mundo moderno está em relação direta com o hábito da leitura proveitosa: há, no
mínimo, a necessidade de se obterem as informações exatas no lugar e no momento
oportunos e a de aperfeiçoamento profissional, cujo processo é comunicado nos livros,
textos e outros recursos que exigem leitura e estudo.5

A constante atualização é um a necessidade para os líderes na atualida­


de. C om o leitor, à m edida que sabe selecionar o que deve ler é que desen­
volve um a m aior velocidade e o m aior proveito possível.6
P artindo desses p rin cípios, Salo m o n 7 classifica os leitores em b on s
e m aus, e elabora um quadro com parativo, resu ltado de su as experiên ­
cias e ob servações, no intuito de p o ssib ilitar um a autocrítica do leitor
em term os qualitativos. A su gestão é que o quadro seja lido p au sad a­
m ente um item de um a coluna e logo a seguir o correspon d en te na
outra coluna. À m ed id a que for identificando p o n to s p o sitiv o s e p o n ­
tos n egativos, assin ale-os ,8 para logo ap ó s estabelecer o esqu em a das
n ecessid ad es reais para o desenvolvim ento do hábito de leitura veloz
e prod ucen te:

B om L eitor M au L eitor
O bom leitor lê rapidamente e entende bem o O mau leitor lê vagarosamente e entende mal
que lê. Tem habilidades e hábitos como: o que lê. Tem hábitos como:
1. Ler com objetivo determinado. 1. Ler sem finalidade.
Ex.: aprende certo assunto, repassa detalhes, Raramente sabe por que lê.
responde a questões.

2. Ler unidades de pensamento. 2. Ler palavra por palavra.


Abarca, num relance, o sentido de um grupo Pega o sentido da palavra isoladamente. E s­
de palavras. Relata rapidamente as ideias en­ força-se para juntar os termos para poder en­
contradas numa frase ou num parágrafo. tender a frase. Frequentemente tem de reler
as palavras.
3. Ter vários padrões de velocidade. 3. Só ter um ritmo de leitura.
Ajusta a velocidade da leitura com o assunto Seja qual for o assunto, lê sempre vagarosa­
que lê. Se lê uma novela, é rápido. Se livro cien­ mente.
tífico para guardar detalhes, lê mais devagar
para entender bem.

5 SALO M O N, 2004, p. 50.


6 Idem, p. 50.
7 Idem.
8 Ibidem, p. 52.

79
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

4. Avaliar o que lê. 4. Acreditar em tudo que lê.


Pergunta-se frequentemente: Que sentido tem Para ele tudo o que é impresso é verdadeiro.
isso para mim? Está o autor qualificado para es­ Raramente confronta o que lê com suas pró­
crever sobre tal assunto? Está ele apresentando prias experiências ou com outras fontes. Nun­
apenas um ponto de vista do problema? Qual ca julga criticamente o escritor ou seu ponto
é a ideia principal deste trecho? Quais são seus de vista.
fundamentos?

5. Possuir bom vocabulário. 5. Possuir vocabulário limitado.


Sabe o que muitas palavras significam. E capaz Sabe o sentido de poucas palavras. Nunca relê
de perceber o sentido das palavras novas pelo uma frase para pegar o sentido de uma palavra
contexto. Sabe usar dicionário e o faz frequen­ difícil ou nova. Raramente consulta o dicioná­
temente para esclarecer o sentido de certos rio. Quando o faz, atrapalha-se em achar a pa­
termos, no momento oportuno. lavra. Tem dificuldades de entender a definição
das palavras e em escolher o sentido exato.

6. Ter habilidade para conhecer o valor do livro. 6. Não possuir nenhum critério técnico para
Sabe que a primeira coisa a fazer quando se conhecer o valor do livro.
toma um livro é indagar de que se trata, por Nunca ou raramente lê a página de rosto do
meio do título, dos subtítulos encontrados na livro, o sumário, o prefácio, a bibliografia, etc.
página de rosto, e não apenas na capa. Em se­ antes de iniciar a leitura. Começa a ler a partir
guida lê os créditos do autor; edição do livro; do primeiro capítulo. E comum até ignorar o
sumário; “orelha” do livro; prefácio; bibliogra­ autor, mesmo depois de terminada a leitura.
fia citada. Só depois é que se vê em condições Jam ais seria capaz de decidir entre leitura e
de decidir pela conveniência ou não da leitura. simples consulta. Não consegue selecionar o
Sabe selecionar o que lê. Sabe quando consul­ que vai ler. Deixa-se sugestionar pelo aspecto
tar e quando ler. material do livro.

7. Saber quando deve ler um livro até o fim e 7. Não saber decidir se é conveniente ou não
quando interromper a leitura definitiva ou p e­ interromper uma leitura.
riodicamente. Ou lê todo o livro ou o interrompe sem crité­
Sabe quando e como retomar à leitura, sem rio objetivo, apenas por questões subjetivas.
perda de tempo e da continuidade.

8. Discutir frequentemente o que lê com co­ 8. Raramente discutir com colegas o que lê.
legas. Quando o faz, deixa-se levar por impressões
Sabe distinguir entre impressões subjetivas e subjetivas e emocionais para defender um
valor objetivo durante as discussões. ponto de vista. Seus argumentos, geralmente,
derivam da autoridade do autor, da moda, dos
lugares comuns, das tiradas eloquentes, dos
preconceitos.

9. Adquirir livros com frequência e cuidar de 9. Não possuir biblioteca particular.


ter sua biblioteca particular. Às vezes é capaz de adquirir “metros de livro”
Quando é estudante, procura os livros de tex­ para decorar a casa. E frequentemente levado
to indispensáveis e se esforça para possuir os a adquirir livros secundários em vez dos fun­
chamados clássicos e fundamentais. Tem inte­ damentais. Quando estudante, só lê e adquire
resse em fazer assinaturas de periódicos cien­ compêndios de aula. Formado, não sabe o
tíficos. Formado, continua alimentando a sua que representa o hábito das “boas aquisições”
biblioteca e restringe a aquisição dos chama­ de livro.
dos “compêndios”. Tem o hábito de ir direto às
fontes; de ir além dos livros de texto.

80
O Desenvolvimento do Hábito de Leitura p a ra os Líderes Cristãos na Atualidade

10. Ler assuntos vários. 10. Estar condicionado a ler sempre a mesma
Lê livros, revistas, jornais. Em áreas diversas: espécie de assunto.
ficção, ciência, história, etc. Habitualmente
nas áreas de seu interesse ou especialização.

11. Ler muito e gosta de ler. 11. Ler pouco e não gostar de ler.
Acha que ler traz informações e causa prazer. Acha que ler é ao mesmo tempo um trabalho
Lê sempre que pode. e um sofrimento.

12. 0 bom leitor é aquele que não é bom só na 12. O mau leitor não se revela apenas no ato
hora da leitura. da leitura, seja silenciosa seja oral.
É bom leitor porque desenvolve uma atitude É constantemente mau leitor, porque se tra­
de vida: é constantemente bom leitor. Não só ta de uma atitude de resistência ao hábito de
lê, mas sabe ler. saber ler.

Além da exposição do quadro acima, Salom on9 indica algum as condi­


ções físicas, fisiológicas e psíquicas necessárias para um b om desem penho
do leitor. São elas:

• Encontrar um ambiente sossegado ou adequado ao discernim en­


to do leitor;

• Verificar se a iluminação atende às necessidades, evitando o conta­


to direto dos olhos com os raios de luz;

• Procurar ler sem pre no m esm o local e horário, com o propósito de


condicionar o organism o (obviamente, isso não elimina a po ssib i­
lidade de leitura em outros ambientes e espaços);

• O bservar se a visão, audição e respiração estão funcionando nor­


malmente. C aso contrário, um a visita ao m édico é recomendável;

• Utilizar o livro num ângulo próxim o de 90 graus com o tórax, a


um a distância de aproxim adam ente 30cm dos olhos;
#

• O bservar a posição correta do corpo, sendo a mais indicada ficar


assentado, form ando a parte traseira das pernas com o chão um
ângulo quase reto. Caberá a cada leitor descobrir a posição mais
confortável, desde que não lhe cause prejuízo ao corpo, provoque
sono, fadiga e outros incôm odos;

9 Ibidem, p. 55.

81
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

• L er livre de pensam entos inquietantes e preocupantes, que p o s­


sam obstruir a dinâm ica da leitura;

• L er com propósito definido e com determinação.

N o cultivo do hábito de leitura, as condições acima, associadas a um


b om texto, prom overão todos os benéficos oriundos da b oa leitura. Pro­
moverão, acim a de tudo, o prazer de 1er. Tratando-se de leitura acadêm ica
e literária, M ato s10 estabelece quatro passos:

• Pré-leitura (para visão global do texto e de sua estrutura);

• Leitura rápida (dinâmica, diagonal), tendo por objetivo a obten­


ção de inform ações gerais do conteúdo;

• Leitura analítica (visando à com preensão precisa e clara da argu­


m entação);

• Leitura crítica (penetração profunda), com o propósito de avaliar


a lógica interna e contribuição específica, com possibilidade de
avaliar o texto cientificamente.

N o intuito de preparar o leitor para um a leitura m ais eficiente em ter­


m os de textos científicos, Severino11 elaborou um roteiro, dividindo-o em
partes, conform e quadro abaixo:

Introdução O leitor deve procurar reproduzir um esquema básico, bem como


procurar entender as afirmações principais de cada texto. Isso é feito
em duas fases: uma leitura rápida, para ter contato com o conjun­
to do pensamento do autor e uma segunda leitura, em que se tenta
esquematizar o texto e fazer a análise propriamente dita. Nesta fase
deve-se procurar tirar as dúvidas de conhecimento de palavras ou
conceitos, por meio de consultas a dicionários ou literatura especí­
fica. A análise propriamente dita compreende a definição de partes
lógicas do texto. Inicia-se com a determinação do tema: consiste em
identificar sobre o que fala o texto. Nem sempre a simples menção
do título traduz o tema contido no texto.

10 Ibidem.
11 SEVERINO, 2002 apud Ibidem, p. 43,44.

8Q
O Desenvolvimento do Hábito de Leitura p ara os Líderes Cristãos na Atualidade

Problema Trata-se de identificar qual o problema de conhecimento que o tex­


to aborda. Nesse caso, o leitor deverá identificar pelo menos dois
aspectos que o autorpõe em relação, tal como estivesse fazendo uma
pergunta (problema), a qual vai procurar resolver ao longo do texto.
Evidentemente, isso não é um dado, podendo estar mais ou menos
explícito no texto introdutório, nas primeiras partes do trabalho.
Também, nem sempre aparece como uma pergunta direta. Caberá
ao leitor identificar essa pergunta (muitas vezes apenas implícita) e
formulá-la. Em outros casos, ela aparece diretamente.
Objetivos Quanto aos objetivos: trata-se de identificar aquilo que o autor faz
no texto. Em certos casos há menção direta; em outros, não, caben­
do ao grupo identificar, de forma sintética, aquilo que o autor faz
no texto.
Afirmações Buscar identificar uma ideia central defendida pelo autor, algo que ele
pretende demonstrar no texto. Deve-se procurar identificar no texto,
pois nem sempre está presente. Nesse caso, o leitor deve formular essa
afirmação (Ex: Neste trabalho o autor pretende demonstrar que...).
Afirmações secundárias Trata-se de identificar um conjunto de informações derivadas da
primeira, como resultado do esforço de demonstração do autor, ao
longo de todo o texto. Essa é a forma de demonstrar como ele vai
construindo a sua demonstração sobre a afirmação principal que
tenta “provar” no texto.
Avaliação Nesta fase o leitor deve procurar avaliar o processo de trabalho do
autor, sua demonstração, os dados que ele usou, procurando tam­
bém apresentar a própria concepção do grupo sobre a problemática
analisada pelo autor, comparando-a com outras realidades ou com a
opinião do próprio grupo. É o momento, muitas vezes, em que o lei­
tor apresenta suas próprias ideias a respeito do que fez o autor, como
vê a problemática e mesmo se tem ideias divergentes sobre o tema
ou sobre o problema. E importante destacar “dados” (que não se res­
tringem a números, tabelas, podendo ser exemplos que apresenta,
casos que ele captou da literatura que leu para fazer o trabalho) e
evidências apresentadas pelo autor.

Para obter um m aior aproveitamento da leitura, Severino12 dá um a


orientação sobre a necessidade de conhecer o texto antes do início da lei­
tura. D essa form a, é preciso estar atento ao sum ário do livro, que em razão
da maneira com o os capítulos e tópicos estão dispostos poderá passar umq,
ideia geral da obra. A s capas, contracapas e orelhas fornecem inform ações
sobre o livro e o autor. N o prefácio, na apresentação e na introdução, serão
conhecidos os objetivos por que o texto foi escrito, com o se desenvolverá,
a que público específico é direcionado e quais conhecim entos são neces­
sários para lê-lo.
12 SEVERINO, 2002 apud Ibidem.

83
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

D ados esses passos, um a vez tom ada a decisão de iniciar a leitura, é


prioritário delimitar a unidade de leitura, que é “um setor do texto que for­
m a um a totalidade de sentido [...] Pode-se considerar um capítulo, uma
seção ou qualquer outra subdivisão [que form e um a unidade], Q uando
feita para fins de estudo, deve se feita por etapas, ou seja, apenas terminada
a análise de um a unidade é que se passará à seguinte”.13
O s líderes cristãos, além de bons leitores, podem tam bém influenciar
positivam ente os seus filhos e a igreja, na qual seus filhos espirituais ( l
Tm 1.2; 1 Jo 2.1) estão inseridos, quanto ao desenvolvimento do hábito
de leitura.

13 Ibidem, p. 45.

84
C o n c lu sã o

O
propósito desta obra foi prover fundam entos para o incentivo do
desenvolvimento do hábito de leitura entre os líderes evangélicos
brasileiros, considerando os baixos índices percentuais das pesquisas so ­
bre a leitura no Brasil. A s transform ações sociais e culturais que a atuali­
dade nos apresenta — com um a velocidade e form a sem precedentes — ,
o volum e de pesquisas, descobertas e inform ações divulgadas pelos mais
diversos m eios e suportes de leitura, em especial o livro, exigem dos líde­
res evangélicos brasileiros a busca por um m aior volum e de leitura, na qual
os aspectos quantitativos e qualitativos devem ser contem plados.
U m a com preensão clara do ato de ler se torna extremamente neces­
sária, com o ponto de partida para a form ação de bons e habituais leito­
res. Para isso é necessário partir da sim ples decodificação de sím bolos, e
avançar em direção à leitura crítica de textos, que culminará com o de-«
senvolvimento do saber ler o mundo, m ovido por ideias que nem sempre
se m anifestam nos atos, discursos e enunciados, distante da passividade
com um em m entes e seres que foram dom ados no sentido de se tornarem
m eros reprodutores do que ouvem ou leem. A leitura do m undo não se
limita ao caráter m eram ente discernidor ou informativo, mas, acima de
tudo, transformador. Conhecer e entender o m undo por interm édio da
O LÍDER CRISTÃO E O HÁBITO DE LEITURA

leitura é essencial para a transform ação deste mundo. N a liderança cris­


tã estão envolvidos a proclam ação do evangelho e o aperfeiçoam ento da
igreja por m eio de um ensino bíblico, contextualizado e relevante. O líder
e os liderados, à m edida que discernem a realidade e proclam am as Boas
N ovas, precisam ser agentes transform adores, e não m eros identificadores
das mazelas espirituais, m orais e sociais de n ossos dias.
Ler, muito além de um a necessidade, precisa se tornar um prazer. O pra­
zer de ler será descoberto ou ampliado à m edida que o leitor, em sua intera­
ção e diálogo com o texto, perceber nele o seu poder libertador, ao m esm o
tem po em que se emociona, ri, chora, se indigna, vibra, sente, entende. Ler
envolve, dessa forma, os aspectos cognitivos, emotivos e sensoriais do indi­
víduo. Ler envolve o ser como condição presente, o ser gente, o ser humano,
mais envolve tam bém o ser possível ou o vir-a-ser, o ser-mais.
O conhecim ento de alguns aspectos da presença e im portância da lei­
tura no decorrer da história nos possibilitou a percepção não apenas de
sua im portância nos processos de desenvolvimento das civilizações e na
vida de seus líderes, m as tam bém a constatação de que os detentores do
saber oriundo da possibilidade e do hábito de leitura, em vez de se torna­
rem agentes libertadores e em ancipadores de si m esm os e de seu próximo,
em briagados pelo desejo de poder e domínio, prom overam e acentuaram
as contradições, injustiças, exclusões, discrim inações e explorações.
O s benefícios da leitura, um a vez revelados, poderão influenciar p o ­
sitivamente na tom ada de um a consciência sobre a necessidade de ler. O
interesse pela leitura tende a crescer quando se sabe que, além da em an­
cipação crítica e da autonom ia com o indivíduo, o hábito de leitura p ro­
porciona o desenvolvimento intelectual, o enriquecim ento do vocabulá­
rio, a fluência verbal, a apropriação dos bens culturais, a inform ação e o
conhecimento, a saúde em ocional e psíquica, o estímulo e saúde mental e
a com unhão com as grandes mentes.
N ão basta apenas desejar e passar a ser um leitor habitual. É necessário
conhecer e aplicar m étodos que proporcionarão um a leitura m ais produ ­
tiva. Para isso, é interessante seguir algum as diretrizes já pesquisadas e ex­
perim entadas, com o as de Salom on 1 e Severino2.
1 SALO M O N, Délcio Vieira. C om o fazer um a m onografia. 11. ed. São Paulo: Martins Fontes,
2004, p. 51-55.
1 SEVERINO, Antônio Joaquim. M etodologia do trabalho científico. 22. ed. São Paulo: Cortez,
2002, p. 43,44.

86
Conclusão

Por fim, um a vez que esta obra é direcionada para os líderes evangéli­
cos, não teríam os o êxito desejado se não buscássem os na Bíblia e no perí­
odo pós-bíblico, na vida de hom ens que influenciaram e que m arcaram a
história da igreja, os fundam entos e os exem plos necessários para a busca,
o desenvolvim ento e a aplicação dos benefícios do hábito de leitura.
É necessário que novas pesquisas sejam realizadas sobre o hábito de lei­
tura entre a liderança evangélica brasileira, em termos empíricos, mediante
o uso de diferentes instrumentos de análise quantitativa e qualitativa, para
que os objetivos aqui expostos possam ser alcançados em toda a sua pleni­
tude. A produção de obras literárias cristãs que incentive a leitura deverá
crescer proporcionalmente à m edida que tais pesquisas se realizarem.

87
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O Coração e a Mente do Líder


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traordinário para Deus começa em seu coração e
em sua mente.” - John Maxwell.
Descubra o caminho certo para se tornar um grande
homem de Deus, com exemplos que ensinam
verdades eternas sobre a liderança.

Cód.: 170618/ I4x2Icm / 160páginas


“Os benefícios da leitura, uma vez. revelados,
poderão influenciar positivamente na tomada de uma consciência
sobre a necessidade de ler.”

Embora talhada com os rigores da academia, é dirigida a todos os que


cultivam o hábito da boa e proveitosa leitura. Mas como ler com pro­
veito? E como encontrar a boa leitura? Essas são algumas das ques­
tões que o pastor Altair Germano aborda em sua obra O Líder Cris­
tão e o Hábito de Leitura, com o objetivo de conscientizar os líderes
acerca da importância da leitura. Afinal, no mundo contemporâneo
a constante atualização é indispensável para o sucesso em qualquer
atividade, inclusive a pastoral. Ciente de que a resistência à leitura é
uma realidade, o autor mostra que nada substitui a importância des­
sa prática, mesmo com todo o desenvolvimento das tecnologias de
informação. O autor trata do conceito de leitura, apresenta um pano­
rama da história da leitura desde a antiguidade, aborda a importância
da leitura a partir da perspectiva de autores não-cristãos e cristãos, a
importância da leitura para a liderança no contexto bíblico e cristão,
e especificamente para os pastores da atualidade, propondo dicas de
como aperfeiçoar essa prática.

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Altair Germano, pernambucano, é
pastor, teólogo, pedagogo, escritor e
conferencista. Exerce a Vice-Presidên­
cia do Conselho de Educação e Cul­
tura da Convenção Geral das A ssem ­
bleias de Deus no Brasil (C G A D B).
é relator do Conselho de Doutrina da
União de Ministros das A ssem bleias de
Deus no Nordeste (U M A D EN E) e 2°
Vice-Presidente do Diretório Estadual
de Pernambuco. É ainda membro da
equipe de palestrantes do Seminário de
Ciências Bíblicas da Sociedade Bíblica
do Brasil. Coordenador Pedagógico e
Professor da Faculdade Teológica da
A ssem bleia de Deus em Abreu e Lima-
PE (FATEADAL).